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GEOGRAFIAS EM MOVIMENTO

GEOGRAFIAS EM MOVIMENTO

caderno#9_capa_AF_v2.indd 1 18/11/13 14:00


Geografias em movimento

caderno Sesc_Videobrasil 09_2013_edição [editor] marie Ange bordas


o que move é o branco | propeled by the void

o que move é o branco


resta apenas
lançar-se contra a gravidade
mover
tornar-se corpo-caminho
(fugidio)
corpo-itinerário
(incessante)
corpo-raíz
(portátil)
ávido
jogar-se ao mundo
(ser) terra onde imprimir-se
(ser) pele onde inscrever-se
(ser vago território-mapa)

what propels is the void


what is left
is to cast oneself against gravity
to move
becoming
a (fleeting) body-path
a (relentless) body-itinerary
an (portable) inrooted body
eager
to throw oneself into the world
(being) earth wherewith to print oneself
(being) skin wherewith to inscribe oneself
(being a vague territory-map)
5
7
The desire for human plenitude is something we share. [ Achille Mbembe ] O desejo de plenitude de humanidade é algo que compartilhamos. [Achille Mbembe]

The constant displacements caused by political conflicts or economic forces redraw geog- Os constantes deslocamentos causados por conflitos políticos ou forças econômicas re-
raphy as we know it and put the very notion of belonging in check. The effects of loss and desenham a geografia como a conhecemos e põem em xeque o próprio conceito de per-
the search for a place—and the powerful symbolism involved in the metaphor of roots—are tencimento. É sobre os efeitos da perda e da busca de um lugar – e a poderosa simbologia
the prime concerns of Deslocamentos [Displacements], a project developed by the Brazil- envolvida na metáfora do enraizamento – que trata Deslocamentos, projeto desenvolvido
ian artist and author Marie Ange Bordas over the course of ten ye ars spent living and pela artista e escritora brasileira Marie Ange Bordas em dez anos de convívio e troca com
interacting with displaced people in camps, shelters, and townships in Africa and Europe. pessoas deslocadas em campos, abrigos e cidades da África e da Europa.
An artistic investigation and existential incursion, the work has materialized in a range of Investigação artística e incursão existencial, o trabalho gerou produtos de naturezas va-
forms, including notebooks, installations, photographic series, encounters, reflections, and riadas: registros em cadernos, instalações, séries fotográficas, encontros, reflexões, diá-
dialogues. In Geographies in Motion, her curatorial proposal for Caderno Sesc_Videobrasil logos. Em Geografias em movimento, sua proposta curatorial para o Caderno Sesc_Video-
09, the artist-researcher patches together fragments from the project with others from the brasil 09, a artista-pesquisadora costura fragmentos da experiência ao aporte de artistas
work of artists and thinkers who have influenced her way of looking at these issues and e pensadores que impactaram sua forma de enxergar a questão – e contribuíram para sua
contributed to her investigations into mankind’s capacity to redraw its own maps. investigação da capacidade humana de redesenhar mapas próprios.
In searching for an editorial format for a work that is inseparable from lived experi- Ao buscar um formato editorial para um trabalho que não se separa da experiência vivi-
ence, Geographies in Motion makes an original contribution to the Caderno Sesc_ da, Geografias em movimento oferece uma contribuição original ao projeto do Caderno
Videobrasil project, which is dedicated to reflection allied with a curatorial approach Sesc_Videobrasil, espaço dedicado à reflexão articulada a um exercício do olhar curato-
to the printed media. rial sobre o meio impresso.
The theme of displacement is particularly relevant to the geopolitical South, the fo- A temática do deslocamento é particularmente relevante no âmbito das regiões do Sul
cus of Associação Cultural Videobrasil’s research. What Bordas offers us here is a geopolítico do mundo, foco de pesquisa da Associação Cultural Videobrasil. E também é
more‑than‑welcome perspective that moves beyond stereotypes to consider at length mais que bem‑vinda a perspectiva que ultrapassa os estereótipos para se deter sobre a di-
the diversity and richness of Africa, revealing, in the process, the full weight of the new versidade e a riqueza do continente africano – revelando, afinal, a contundência do novo
thought emanating from the South. pensamento que emana do Sul.

Solange O. Farkas Curator of Associação Cultural Videobrasil Solange O. Farkas Curadora da Associação Cultural Videobrasil
Teté Martinho Editorial Coordinator Teté Martinho Coordenação editorial
marie ange Bordas 19 82 116

William Kentridge 31

Achille Mbembe 43

RogÉrio Haesbaert 65

MarÍa Magdalena Campos-Pons 91

Simon Njami 103

Ana Paula do Val 123

REFERências bibliográficas | REFERENCES 139

créditos de imagem | image credits 140


Geographies in Motion Geografias em movimento Marie Ange Bordas 19

In the end of 2001, an artist residency at the Bag Factory1 in Johannesburg, South Africa, No final de 2001, uma residência artística na Bag Factory1, em Johannesburgo, África do
signaled the beginning of Displacements [Deslocamentos]—an art project that would Sul, marcou o início de Deslocamentos, projeto artístico que se tornaria minha casa nos
come to be my home for the following ten years. In the turn of the century, which was dez anos seguintes. Em um cenário de virada de século marcado por discursos de mobili-
marked by discourses on mobility and fluidity, globalization processes, and a postmod- dade e fluidez, processos de globalização e uma lógica pós‑moderna que pregava a “des-
ern logic that extolled “deterritorialization,” I decided to approach the experience of dis- territorialização”, optei por abordar a experiência do deslocamento a partir do diálogo e
placement through dialogue and cohabitation with people who, unlike myself, had been da convivência com pessoas que, diferentemente de mim, foram forçadas a deslocar‑se,
forced to move harried by conflict, war, disaster, or simply been pushed by the economic acossadas por conflitos, guerras, desastres ou, de forma mais banal, empurradas pela má-
apparatus, which spreads inequalities worldwide.     quina econômica que perpetua mundialmente a desigualdade.
The inspiration for the project came from my discomfort with such discourses and from A inspiração para o projeto veio do meu desconforto com esses discursos e do desejo de
my desire of trying to understand my own nomadic identity—which I have been privi- tentar compreender minha própria identidade nômade – pela qual tive o privilégio de po-
leged enough to choose—through encounters with the other.    der optar – a partir do encontro com o outro.
Johannesburg was the entryway to a diversified experience of a “world in motion.” In Johannesburgo foi a entrada para uma vivência diversa de “mundo em movimento”. No
relation to such concepts as nation, belonging, and identity, so valued by contempora- que diz respeito a conceitos como nação, pertencimento e identidade, tão caros à con-
neity (but for a long time considered from privileged perspectives and/or Eurocentric temporaneidade – mas durante tanto tempo pensados de perspectivas privilegiadas e/ou
discourses), my experience of the city often antagonized academic concepts and per- do discurso eurocêntrico –, minha experiência na cidade muitas vezes se contrapunha
ceived truths. By living amongst refugees and migrants from various African countries, aos conceitos acadêmicos e ao senso comum. Convivendo com refugiados e migrantes de
I was inserted into new networks, which extended organically, helping shape not only diversos países africanos, fui inserida em novas redes que, estendendo‑se de forma orgâ-
my subsequent steps, but my growing perception of my scope of action and belonging.    nica, ajudaram a moldar não só meus passos seguintes, mas também uma nova percepção
Driven by the confluences of mobility after leaving Johannesburg, I set up “temporary de meu espaço de atuação e pertencimento.
homes” in a refugee shelter in Massy (in the outskirts of Paris), in Kakuma refugee Impulsionada pelas confluências da mobilidade, depois de Johannesburgo fiz “casas tem-
camp in Kenya, in a Tamil enclave on the east coast of Sri Lanka, and in London’s East porárias” em um albergue de refugiados em Massy, subúrbio de Paris, no campo de refugia-
End. In all of these places, I set up creative workshops in a range of media—photogra- dos de Kakuma, no Quênia, num enclave tâmil na costa leste do Sri Lanka e no East End lon-
phy, video, sound, installation, and bookmaking. These were spaces of integration and drino. Em todos esses lugares, propus oficinas de criação com meios diversos – fotografia,
exchange, which worked as a platform for the launching and developing of ideas and vídeo, som, instalações e impressos. Eram espaços de integração e troca, que funcionavam
the mapping of memories and territories in transit, while they encouraged new fabrics como plataforma para lançar e desenvolver ideias, e cartografar memórias e territórios em
of sociability to form. trânsito, ao mesmo tempo em que fomentavam novos tecidos de sociabilidade.
In reality, all these immersions had as a generating proposal to give some kind of shape Na prática, todas essas imersões tinham como proposta motriz dar alguma forma às rei-
to the demands, ideas, and concerns of each group, and to put them in dialogue with the vindicações, ideias e preocupações de cada grupo, e colocá‑las em diálogo com a comu-
community that received them. The workshops resulted in exhibitions of site-specific nidade que os recebia. Os workshops resultaram em exposições constituídas por insta- 21
audiovisual installations, soundscapes, videos and photographs, and/or graphic mate- lações audiovisuais site‑specific, paisagens sonoras, vídeos e fotografias e/ou material
rials, such as comic books, newspapers, or wall posters, which were distributed free of gráfico – fotonovelas, jornais ou lambe‑lambes que eram distribuídos gratuitamente
charge inside and outside the communities. In 2005, I put together a travelling version of dentro e fora das comunidades. Em 2005, montei a versão itinerante da exposição Des‑
the exhibition Displacements, which was shown in various countries.   locamentos, que viajou por vários países.
As I moved in between many latitudes, I outlined a new atlas, in which the geographical À medida que me movia entre tantas latitudes, fui delineando um novo atlas, no qual
maps once defined by imposition and exclusion gave way to a cartography of multiter- mapas geográficos definidos por imposição e exclusão deram lugar a uma cartografia
ritorialities, drawn via affection and subjectivity. It was an interactive atlas, which not de multiterritorialidades, desenhada por afetos e subjetividades. Um atlas intera-
only reflected on my position of a privileged nomadic subject, but also the new possi- tivo, que contemplava não só minha condição de sujeito nômade privilegiado, mas
bilities of reconstruction and reterritorialization that I found in the so-called “peripheral também as novas possibilidades de reconstrução e reterritorialização que encontrava
spaces”—places of not only experience, but also of agency and resistance. As this car- nos chamados “espaços periféricos”, lugares não só de vivência, mas de agenciamento
tography accompanied the “collapse of certain worlds and formation of others” (Rolnik e resistência. À medida que essa cartografia acompanhava o “desmanchamento de
1989), I constantly reevaluated and questioned concepts.      certos mundos e a formação de outros” (Rolnik, 1989), eu reavaliava e questionava
constantemente conceitos.
Portable Roots
“To be rooted is perhaps the most important and least recognized need of the human soul.” Raízes portáteis
This sentence from Simone Weil’s The Need for Roots, coined during World War II, ac- “Enraizar‑se é talvez a mais importante e menos reconhecida necessidade da alma hu-
companied and intrigued me during the first years of the project. While it echoed in pop- mana.” A frase de Simone Weil, cunhada durante a 2ª Guerra Mundial, em seu livro O en‑
ular discourse, in which the metaphorical concept of “having roots” intimately connects raizamento2, acompanhou‑me e intrigou‑me nos primeiros anos de projeto. Ao mesmo
with places/nations, that sentence did not apply to the reality of the people with whom I tempo em que ecoava no discurso comum, no qual o conceito metafórico de “ter raízes” se
was living. In reality, they had created “homes” and reterritorialized themselves by using vincula, de forma íntima, com lugares/nações, a frase nem sempre se aplicava à realidade
strategies that did indeed involve the memory of their “original” homes, but, above all, das pessoas com quem eu convivia. Na prática, elas criavam “lares” e se reterritorializa-
symbolic and cultural aspects, and bonds of affection. “What do I call home? My father, vam, usando estratégias que envolviam, sim, a memória de seus lugares “originários”, mas,
my mother, my childhood memories, and the smell of coffee,” a Somali friend told me one sobretudo, aspectos simbólicos e culturais e relações de afeto. “O que é lar para mim? É meu
day. While she stated that she would be the first person to go back to Somalia if peace was pai, minha mãe, minhas memórias de infância e o cheiro de café”, disse‑me, um dia, uma
restored, she would also say that the bad memories prevented her from really considering amiga somali. Ao mesmo tempo em que afirmava que seria a primeira pessoa a voltar à
going back. Go back to what?  Somália se houvesse de novo paz, ela também dizia que as más lembranças a impediam de
The experience of being in a refugee camp and of later teaching at the Refugee Stud- pensar, de fato, em retorno. Voltar para o quê?
ies Department of an English University intensified my conflict with the “refugee” ste- A experiência de estar em um campo de refugiados e, mais tarde, lecionar em um depar-
reotype—that generic “rootless” and landless identity, in which academia as well as the tamento de Refugee Studies em uma universidade inglesa acirrou meu conflito com o
media and humanitarian agencies tried to squeeze millions of people. Over the course of estereótipo do “refugiado”, essa identidade genérica “desenraizada” e sem território, na
my own comings and goings, I outlined the idea of portable roots, of having an identity qual tanto a academia quanto a mídia e as agências humanitárias tentavam compactar
“rooted” in my blood, in my privacy, and in my relationships with others. Transplantable milhões de pessoas. Na medida de minhas próprias idas e vindas, fui delineando a ideia
roots in the multiple territories where I circulate and live. Would that “portability” be a de raízes portáteis, de ter uma identidade “enraizada” em meu sangue, em meu íntimo e
privilege of mine? I, an individual to whom a “basic territoriality, shelter, and comfort” nas relações com os outros. Raízes transplantáveis entre os múltiplos territórios onde
(Haesbaert 2004) were never denied? Seven years after the beginning of the project and circulo e habito. Seria essa “portabilidade” um privilégio meu? Eu, indivíduo a quem
while living in Europe, marked by the economic crisis and by the aggravation of the na- uma “territorialidade mínima, abrigo e aconchego” (Haesbaert, 2004) nunca foram ne-
tionalistic and anti-migratory sentiment, new concepts were necessary.   gados? Sete anos após o início do projeto, vivendo em uma Europa marcada pela crise
From this perspective, I realized that the new atlas that I was delineating was inserted financeira e pelo acirramento do discurso nacionalista e antimigratório, novos concei-
within a geography, of which the theoretical basis admits flux and movement as the tos se faziam necessários.
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genesis of concepts such as Homi Bhabha’s “in-between spaces,”2 Irit Rogoff’s “un- A partir dessa perspectiva, percebi que o novo atlas que ia desenhando se inseria em uma
homed geographies,”3 or Ursula Biemann’s “geobodies.”4 geografia cuja plataforma teórica assume o fluxo e o movimento como gênese dos concei-
tos de “in‑between spaces”3, de Homi Bhabha, “unhomed geographies”4, de Irit Rogoff, ou 27
Mapping Encounters “geobodies”5, de Ursula Biemann.
The discovery of these new concepts coincided with my return to São Paulo and the
new commitments that “tied me up” there. As my nomadic condition attenuated, I felt mapeando Encontros
less entitled to continue with the Displacements project; the level of immersion and A descoberta destes novos conceitos coincidiu com meu retorno a São Paulo e os novos
intimacy I had experienced until then had only been possible through sharing a real compromissos que me “prendiam” aqui. Conforme minha condição nômade se atenua-
experience of moving, of the absence of a “fixed place,” of “being a foreigner.” In my va, sentia‑me menos autorizada a dar continuidade ao projeto Deslocamentos; o grau de
then recently leased apartment I woke up in the middle of the night several times, in- imersão e intimidade que vivera até então só havia sido possível pela partilha da experi-
timidated by its size, and figuring out how many more people could live there with me. ência real do movimento, da ausência de “lugar fixo”, do “ser estrangeiro”. No apartamento
Sometimes it would take me a while to make sense of where I was when I woke up. In recém‑alugado, passei muitas noites acordando de madrugada, assustada com o tamanho
my baggage, hundreds of photos, documents, articles, correspondence, many hours of do lugar e calculando quantas pessoas mais poderiam viver ali comigo. Às vezes demorava
video footage and audio recordings helped me resettle. The weight of all those shared para entender onde estava, ao acordar. Em minha bagagem, centenas de imagens, docu-
and accumulated stories and experiences gave a new dimension to the idea of “home,” mentos, matérias, correspondências, horas de gravações em vídeo e áudio contribuíram
while at the same time they continued to reverberate in my body, in my memory, and para me assentar. O peso de tantas histórias e experiências compartidas acumuladas dava
in my being in the world.    nova dimensão à ideia de “lar”, ao mesmo tempo em que continuavam a reverberar e ecoar
How to give shape to this experience? no meu corpo, na minha memória, no meu estar no mundo.
How to embody this witnessing? Como dar forma à experiência?
How to conclude this cycle? Como dar corpo ao testemunho?
Twelve years after my arrival in Johannesburg, the invitation by Videobrasil to edit this Como fechar este ciclo?
Caderno gave me an opportunity to try to organize this experience, to share it, and perhaps Doze anos após minha chegada a Johannesburgo, o convite do Videobrasil para editar este
finally be able to conclude this cycle to start anew. Significantly, I chose to return to Johan- Caderno me deu oportunidade de tentar organizar essa experiência, compartilhá-la e,
nesburg; it was there where I drafted this publication in which—not without reticence, I quem sabe, ser finalmente capaz de encerrar um ciclo para iniciar outro. Significativa-
admit—I use my own experience as means to consider the geographies in motion of which mente, escolhi retornar a Johannesburgo; foi lá que rascunhei a publicação, na qual, não
I feel both subject and object.   sem certa reticência, confesso, parto de minha própria experiência para pensar nas geo-
Inspired by Rosi Braidotti, for whom “the nomad’s identity is a map of where s/he has grafias em movimento das quais me sinto sujeito e objeto.
already been; s/he can always reconstruct it, a posteriori, as a set of steps in an itinerary” Inspirado em Rosi Braidotti, para quem “a identidade do sujeito nômade é um mapa de
(Braidotti 1994), this Caderno loosely follows this atlas of multiple territories, through onde ele já esteve e que pode sempre ser reconstruído a posteriori, como uma sequência
the encounters, dialogues, inspirations, accounts, images, and works that formed it. The de pegadas em um itinerário” (Braidotti, 1994), o Caderno segue de modo difuso este atlas
collaborators were not chosen with the intent of helping to build a cohesive conceptual de múltiplos territórios, por meio dos encontros, diálogos, inspirações, relatos, imagens e
discourse; rather, their names sprouted organically from the web of affections, interests, obras que construíram este itinerário. Os colaboradores não foram escolhidos no intuito
and confluences built during Displacements. In both the brand new and the revisited in- de ajudar a construir um discurso conceitual coeso; antes, seus nomes brotaram de forma
terventions found here, they discuss, aggregate, reverberate, question, and contribute to orgânica da rede de afetos, interesses e confluências construída ao longo de Deslocamen‑
create this insurgent cartography. tos. Com suas intervenções, eles comentam, agregam, reverberam, questionam e ajudam a
The contribution by this Caderno to a debate as complex as it is contemporary, and which escrever esta cartografia insurgente.
spreads over the fields of geography and the social sciences and into the world of the arts, A contribuição que o Caderno oferece a um debate tão complexo quanto contemporâneo, e
is entirely filtered through feelings and experiences. Thus, it is not surprising that my que se espraia das disciplinas da geografia e das ciências sociais para o mundo das artes,
interlocutors be all subjects-objects of the experience of portability, in its multiple forms, passa inteiramente pelo filtro do sentido e do vivido. Assim, não surpreende que meus
even William Kentridge—the artist who still declares his ties to his hometown, Johan- interlocutores sejam todos sujeito‑objeto da experiência da mobilidade em suas múlti-
nesburg, even though he is constantly inventing new landscapes. Achille Mbembe, who plas formas, até mesmo William Kentridge, o artista que se diz até hoje atado à sua cidade
describes himself a “citizen of nowhere in particular,” urges us to reflect upon our human- natal, Johannesburgo, mas que está constantemente inventando novas paisagens. Achille
ness beyond the reductive notions of race and nationality—notions also examined by the Mbembe, que se define um “cidadão de nenhum lugar em particular”, exorta‑nos a pensar
curator Simon Njami, who sails nonstop across countries, provoking, in the art world, new nossa humanidade para além das ideias redutoras de raça e nacionalidade, também ques-
ways of understanding African contemporary art.      tionadas pelo curador Simon Njami, que navega “nonstop” entre países, instigando, no 29
The contradictions of the Diaspora translate into images of pervasive beauty in the work meio artístico, um novo olhar sobre a produção contemporânea africana.
of the artist María Magdalena Campos-Pons, while the scholar Ana Paula do Val has been As contradições da experiência da diáspora se traduzem em imagens de beleza pun-
weaving ideas of subjective cartographies since her childhood in the outskirts of São gente na obra da artista María Magdalena Campos‑Pons, enquanto a teórica Ana Paula
Paulo. For Rogério Haesbaert, the experience of rural migration from the countryside of do Val começa, criança, na periferia paulistana, a puxar o fio da ideia das cartografias
Rio Grande do Sul when he was a child echoes in his dedication to a human geography that subjetivas. Para Rogério Haesbaert, a experiência de êxodo rural na infância, no interior
reflects upon these multiple territories.      gaúcho, ecoa na dedicação a uma geografia humana que pensa múltiplos territórios.
All of us nomads, passers-by, migrants, travelers are the subject and the object of this Todos nós, nômades, “passantes”, migrantes, viajantes, somos sujeito e objeto deste Ca-
Caderno that takes an undefined shape in between the artist’s notebook and the travel log, derno, que transita sem forma definida entre o caderno de artista e o caderno de viagens,
the stretch between the word and the image, the private and the shared, and which tries to entre o espaço da palavra e o da imagem, entre o íntimo e o coletivo, e que tenta dar forma
lend shape to new territories where portable roots resist the fixity of stagnant concepts.   aos novos territórios nos quais raízes portáteis resistem à fixidez de conceitos estanques.

1. Criado em 1991, a Bag Factory foi um dos primeiros coletivos multirraciais de artistas da África do Sul, e é um dos mais antigos programas de
1. Created in 1991, Bag Factory was one of the first multiracial artistic collectives in South Africa and is one of the longest-standing interna- residência artística internacional do continente.
tional artistic residency programs on the continent. 2. Weil, Simone. O enraizamento. São Paulo: Edusc, 2001. “To be rooted is perhaps the most important and least recognized need of the human soul.”
2. ‘In-between spaces’ is a term Homi Bhabha uses to refer to intermediary zones or borderlands in which cultural differences articulate. One of 3. Entrelugares (in‑between spaces) é um termo cunhado por Homi Bhabha, e se refere a zonas intermediárias e fronteiriças onde se articulam
the most important voices in postcolonial thought, the Indian thinker, author of The Location of Culture (1994), among other referential works, as diferenças culturais. Um dos mais importantes autores do pensamento pós‑colonial, o teórico indiano, autor de O local da cultura (2005),
is currently director of the Humanities Center at Harvard. entre outras obras referenciais, é atualmente diretor do Centro de Humanidades da Universidade de Harvard.
3. ‘Unhomed geographies’ is a concept created by the English scholar, critic, and curator Irit Rogoff, who proposes a definition of space/place 4. Unhomed geographies (geografias sem lar ou desenraizadas) é um conceito criado pela teórica, crítica e curadora inglesa Irit Rogoff, que pro-
that is disconnected from the issues the State determines are key to belonging. Rogoff is Professor of Visual Culture at Goldsmiths, University põe uma definição de espaço/lugar desvinculada das questões determinadas pelo Estado como sendo relativas ao pertencimento. Professora
of London. Her research focuses on geography, globalization, and transitions in contemporary art in the postcolonial context. She is the author de cultura visual na Goldsmiths, Universidade de Londres, seus focos de pesquisa são geografia, globalização e as transições na arte contempo-
of Terra Infirma: Geography’s Visual Culture (Routledge, 2000). rânea no contexto pós‑colonial. É autora de Terra Infirma‑Geography’s Visual Culture (Routledge, 2000).
4. ‘Geobodies,’ a metaphor/concept proposed by the Swiss artist, curator, and author Ursula Biemann, refers to the mobile character of the body 5. Geobodies, ou geocorpos, conceito‑metáfora proposto pela artista, curadora e escritora suíça Ursula Biemann, refere‑se ao caráter móvel do
and its capacity to become a border in its own right. Biemann’s videos, installations, mappings, and writings investigate global relations as im- corpo e à sua capacidade de tornar‑se, também, fronteira. Biemann investiga, em vídeos, instalações, mapeamentos e publicações, as relações
pacted by the hypermobility of people, information, and resources. Her work has been shown in various museums and at the Venice, Liverpool, globais sob o impacto da hipermobilidade de pessoas, informações e recursos. Suas obras foram exibidas em diversos museus e nas bienais de
Sharjah, Shanghai, Seville, and Istanbul biennials. Veneza, Liverpool, Charjah, Xangai, Sevilha e Istambul.
William Kentridge

31

It was the year 2000, and I’d already been living in New York for four years, when I came
upon William Kentridge’s site-specific installation Stair Procession at PS1 MoMA. A
procession of huge silhouettes slowly trundled up the dark stairs of the old school- O ano era 2000, e eu já vivia em Nova York havia quatro anos quando me deparei com a
turned-gallery. These somber figures, of ambiguous origin and uncertain destination, instalação site specific Stair Procession, de William Kentridge, no PS1 MoMA. Uma pro-
recurrent in the South African artist’s work, rekindled in me the anxiety I felt as a child cissão de silhuetas gigantes subia lentamente as escadas sombrias da escola transforma-
when I saw, in the 1980-90s on Fantástico, a Sunday evening current affairs show, the da em museu. As figuras soturnas, de procedência ambígua e destino incerto, recorrentes
masses of Somali and Ethiopian refugees fleeing war and famine. ¶ The impact of those na obra do artista sul-africano, reviveram a ansiedade que eu sentia quando criança, nos
restless, but contained shadows coincided with my research on exile, and with the un- anos 1980-90, ao ver no Fantástico de domingo massas de refugiados somalis e etío-
expected friendship I had formed with a group of refugees from the war in Sierra Leone. pes fugindo de fome e guerras. ¶ O impacto daquelas sombras inquietas, porém contidas,
It also coincided with the end of the Balkans conflict, which had reawakened the West to coincidiu com minhas pesquisas sobre exílio , e com a amizade inesperada de um grupo
the horrors of war, including the forced relocation of 3.4 million people. Those were fe- de refugiados de guerra de Serra Leoa. Coincidiu também com o fim dos conflitos nos Bal-
brile months spent between the lecture theaters of Columbia University, the silent halls cãs, que haviam trazido de volta ao Ocidente os horrores da guerra, como o deslocamento
of the Public Library, the New York University Program for Survivors of Torture, and forçado de 3,4 milhões de pessoas. Foram meses febris entre os anfiteatros da Columbia
my studio, where I tried to make sense of all the information while wrangling with the University, as salas silenciosas da Public Library, a Clínica para Vítimas de Tortura da
consequences of my own displacement, on my way of being in the world. ¶ In the middle Universidade de Nova York e meu ateliê, onde tentava dar sentido a tantas informações,
of that whirlwind, a chance meeting with Kentridge helped me to set a new course. I had enquanto lidava com as consequências de meu próprio deslocamento na minha forma
decided to develop my Displacements project in Africa, and he put my name forward for de estar no mundo. ¶ Em meio ao turbilhão, um encontro fortuito com Kentridge veio se-
an artistic residency in Johannesburg, where those vague silhouettes would acquire a lar um novo rumo. Estava decidida a iniciar Deslocamentos pelo continente africano, e
definite face. ¶ Kentridge returns to those silhouettes in Porters, the series on the fol- ele me indicou para a residência em Johannesburgo onde aquelas silhuetas indefinidas
lowing pages. This time their march is across 19th-century maps in timeless tapestries começariam a ganhar rosto. ¶ São essas mesmas silhuetas que Kentridge retoma na sé-
representing a world of people in movement, who could be refugees or migrants, colo- rie a seguir, Porters (carregadores). Desta vez, elas atravessam mapas do século 19 em
nizers or slaves, nomads or travelers. All in transit, they challenge borders and question tapeçarias atemporais; podem ser tanto refugiados e migrantes quanto colonizadores e
static ideas of the world. In the final image, Office Love, the artist revisits another recur- escravos, nômades ou viajantes. Todas em trânsito, desafiam fronteiras e questionam
rent theme in his work: Johannesburg, the city he “has never managed to escape,” and uma ideia estática de mundo. Na última imagem, Office Love, o artista retoma outro tema
whose old map he tore up in order to reconstruct it, ever so cautiously, in a geo-graphic recorrente: Johannesburgo, cidade da qual “nunca conseguiu escapar” e cujo mapa antigo
process, inscribing himself within the landscape. ¶ Johannesburg and geo-graphy are rasgou para cuidadosamente reconstruir, num processo de geo-grafar, de inscrever-se
the crux of some of Kentridge’s other collaborations: an excerpt from his lecture Vertical na paisagem. ¶ Johannesburgo e geo-grafia são o mote das outras colaborações de Ken-
Thinking – A Biography of Johannesburg, in which the artist immerses himself in the tridge: um fragmento da palestra Pensamento vertical – Uma biografia de Johannesburgo,
geography and history of the city through childhood memories; and the flipbook Re‑ em que o artista mergulha na geografia e na história da cidade por meio de suas memó-
turn, a work created especially for this Caderno based on an idea I had after seeing one rias de infância; e o flip-book Return, que criou para o Caderno a partir de uma sugestão
of the videos in his 2012 installation The Refusal of Time. [MAB] minha envolvendo um dos vídeos de sua instalação The Refusal of Time, de 2012. [mab]
DIALECTICS FOR NINE-YEAR-OLDS Dialética para meninos de nove anos William Kentridge, 2011

I have described Johannesburg, the city Lying on one’s back, looking at the clouds in Descrevi Johannesburgo, a cidade onde vivi ça, ela mesma; sua forma mutante, a percepção 41
where I have lived for all of my fifty-six years, the late afternoon, there is a seed of under- todos os meus 56 anos, como uma cidade sem desse motor que há nas nuvens, a força que
as a city with a lack of geography: no rivers, no standing that a child gets, of the nature of marcos geográficos: sem rios, sem praia, sem transforma sua forma e seu contorno.
seashore, no geographic raison d’être. Apart provisionality, of the indwelling tendency raison d’être geográfica. A não ser pelos jar- Para quem se deita para olhar as nuvens num
from the gardens, we are outside of nature. outwards: the tendency of that which sits dins, estamos fora da natureza. Mas há uma fim de tarde, surge a semente daquela com-
But there is one category in which we still inside something, which moves to emerge. categoria à qual ainda nos apegamos. Temos preensão infantil da natureza da provisiona-
hang on. We have our local sublime. Not the Something is growing within, changing the nossa versão local do sublime. Não os oceanos lidade, da tendência daquilo que está dentro
stormy oceans, or the mighty Alps, or glaciers outside form, becoming itself. tempestuosos, os Alpes imponentes ou as ge- de sair: uma tendência que está latente nas
of the traditional sublime, in which the hu- I think of myself as a nine-year-old looking leiras que são a ideia tradicional do sublime, coisas e se movimenta para emergir. Alguma
man is so dwarfed by the scale of natural phe- at the clouds. And I think of myself as that fenômenos naturais cuja escala reduz de tal coisa está crescendo lá dentro, alterando a
nomena, we feel our insignificance, and how nine-year-old still stuck inside the frame forma o ser humano que percebemos nossa forma externa, tornando‑se ela mesma.
small we are against the horizon of time and of this fifty-six-year-old. I feel his anxiety insignificância e nossa pequenez diante dos Vejo‑me como um menino de nove anos que
the world—and we revel in this revelation. as he runs around inside me still. The nine- horizontes do tempo e do mundo — e nos de- olha as nuvens. Um menino de nove anos que
In Johannesburg, we have dry winters. In year-old is saying, “Tell them about this. Tell leitamos nessa revelação. continua preso na moldura dessa pessoa de 56.
summer we have heat, and thunderstorms them about…. Tell them about the landscape, Em Johannesburgo, nossos invernos são secos. Sinto sua ansiedade quando ele corre dentro
in the afternoons. Our sublime arrives in the that I worked hard, that I wanted to make No verão, faz calor e caem tempestades elétri- de mim. O menino de nove anos fica dizendo:
form of huge cumulus nimbus clouds that my mother happy.” He gets more and more cas à tarde. O nosso sublime chega na forma “Conta isso para eles. Conta para eles da… Con-
pile themselves up over the city. With every agitated, the nine-year-old inside. Then de imensas nuvens cumulus nimbus que se ta para eles da paisagem, conta que trabalhei
day, when we have a storm, a new mountain the thunder comes, and huge drops of rain. I empilham sobre a cidade. Todo dia, quando duro, que eu queria deixar minha mãe feliz.”
range, a new Alps is built for us again. In the say to the nine-year-old, “It’s all right, it’s all há tempestade, ergue‑se para nós uma nova Ele fica cada vez mais agitado, o menino lá de
way that the mine dumps can exist, be erased, right. You don’t have to run so hard.” cadeia de montanhas, novos Alpes de nuvens. dentro. E aí vem o trovão, e os pingos enormes
be rebuilt, so from a clear sky the cathedrals Assim como os aterros de resíduos minerais, da chuva. Digo ao menino de nove anos: “Tudo
of clouds construct themselves. We see two que podem surgir, ser destruídos e reconstru- bem, tudo bem. Não precisa correr tanto”.
things in the clouds. Shapes: a dog’s head, an William Kentridge (Johannesburg, South Af- ídos, essas catedrais de nuvens se erguem em
rica, 1955) is known for a body of work that
old man’s face with a protruding chin; the um céu limpo. Vemos duas coisas nas nuvens.
includes film, drawing, sculpture, animation, William Kentridge (Johannesburgo, África do Sul,
back of a head on a shoulder. This is not about Formas: a cabeça de um cachorro, o rosto de
performance, installation, theater, and op- 1955) é conhecido por uma produção que envolve
our ability to see things. It is not an act of gen- era. Though firmly anchored in the history of
um velho de queixo saliente; a parte posterior filme, desenho, escultura, animação, performan-
erosity to see it. It is about not being able to his COUNTRY, HE moves beyond the local sphere de uma cabeça e um ombro. Isso não tem a ver ce, instalação, teatro e ópera. Apesar de firme-
stop ourselves from seeing the shapes. The to transmute human and political issues into com nossa capacidade de enxergar coisas. Di- mente ancorado na história de seu país, extrapola

man’s head comes to you. Once recognized, powerful poetic allegories. A graduate from visá‑las não é um ato de generosidade. O que o âmbito local, transmutando questões humanas
WitS University, Johannesburg, he studied mime e políticas em potentes alegorias poéticas. Forma-
you cannot stop yourself from seeing it. This acontece é que não conseguimos deixar de
and theater in France. His work has BEEN fea- do pela WITS University, estudou teatro na Fran-
is one element of the clouds. The other is the ver essas formas. A cabeça do homem aparece
tured at the Kassel documenta (1997, 2012), the ça. PARTICIPOU DA documenta de Kassel (1997, 2013),
changing itself, the shifting form of them, an Venice Biennale (2005), and the Contemporary
para você. Uma vez que a reconhece, você não DA bienal de Veneza (2005) e Da Mostra Africana
awareness of the engine in the clouds, a force African Art Show in São Paulo (2000). He lives consegue mais deixar de vê‑la. Esta é uma das de Arte Contemporânea, em São Paulo (2000). Vive e
changing the form and the shape. and works in Johannesburg. propriedades das nuvens. A outra é a mudan- trabalha em Johannesburgo.
Meu portão de entrada para o continente africano, Johannesburgo foi o lugar a partir do
qual comecei a repensar minha geografia e articular minhas referências em um mundo
que insiste em enxergar a África como “um objeto separado do mundo ou um exemplo
fracassado ou incompleto de alguma outra coisa” (Mbembe; Nuttall, 2008). ¶ Fundada
Achille Mbembe na premissa da riqueza (em torno de minas de ouro no final do século 19) e desenhada
por uma história híbrida de influxo de estrangeiros, segregação e legado multirracial,
Johannesburgo representa para muitos o Eldorado da África subsaariana. Inquieta e
escorregadia, cosmopolita e xenófoba, agressiva e hospitaleira, a cidade de “fronteiras
invisíveis” abriga numerosos grupos de migrantes e refugiados, que me introduziram a
complexos mundos paralelos onde os conceitos de “lar” e “pertença” eram constantemente 43

reciclados, ecoando uma história cultural que não pode ser compreendida “fora do
paradigma de itinerância, mobilidade e deslocamento” que a configurou (Mbembe,
2007). ¶ Para Achille Mbembe, Johannesburgo é símbolo da identidade africana moderna,
a metrópole “afropolitana” por excelência, definida por uma cultura transnacional,
My gateway to Africa, Johannesburg quickly became the center around which I started um espírito aberto e um constante movimento entre local e global. ¶ O conceito de
to rethink my geography and articulate my references in a world that insists on seeing “afropolitanismo”, cunhado pelo pensador, me ajudou a rebater a visão reducionista
Africa as “a thing cut off from the world or as a failed or unfinished example of something da África à qual o senso comum se apega. Segundo Achille, “afropolitanismo” é uma
else” (Mbembe and Nuttall 2008). ¶ Based on the premise of wealth (extracted from late maneira de estar no mundo recusando qualquer forma vitimizada de identidade, o
19th-century gold mines) and shaped by a hybrid history of foreign influx, segregation, que não significa ignorar a injustiça e a violência impostas ao continente. “É também
and a multiracial legacy, for many Johannesburg is something of a sub-Saharan Eldo- uma posição política e cultural que diz respeito às ideias de nação e raça, e à questão da
rado. Restless and slippery, cosmopolitan and xenophobic, aggressive and hospitable, diferença em geral” (Mbembe, 2007). ¶ De forma emblemática, foi em Johannesburgo que
the city of “invisible limits” is home to numerous immigrant and refugee groups who Achille e eu confrontamos nossas cartografias e conversamos sobre a ideia do “passante”,
introduced me to complex parallel worlds in which the concepts of “home” and “belong- essa condição essencial da humanidade sobre a qual ele discorre em seu ensaio para o
ing” were constantly recycled, echoing a cultural history that “can hardly be understood Caderno. Se somos todos “passantes”, afirma, deveríamos todos ter os mesmos direitos
outside the paradigm of itinerancy, mobility, and displacement” that shaped it (Mbembe neste único mundo que existe; e seus contornos deveriam ser definidos não a partir da
2007). ¶ For Achille Mbembe, Johannesburg is a symbol of modern African identity, the diferença e da ideia redutora de raça, mas sim do que nos é comum a todos. [mab]
“Afropolitan” metropolis par excellence, defined by a transnational culture, an open
spirit, and constant movement between the local and global. ¶ Achille’s concept of “af-
ropolitanism” helped me reject the reductionist vision of Africa to which common sense
clings. For him, “afropolitanism” is a way of being in the world that refuses “on principle
any form of victim identity—which does not mean that it is not aware of the injustice
and violence inflicted on the continent and its people by the law of the world. It is also a
political and cultural stance in relation to the nation, to race, and to the issue of differ-
ence in general” (Mbembe 2007). ¶ Emblematically, it was in Johannesburg that Achille
and I had the opportunity to match our maps and talk about the idea of the “passer-by,”
this essential condition of humanity on which he speaks in his essay for the Caderno.
If we are all “passers-by,” he says, we ought to all have the same rights in this world, the
only world that exists; and its contours should be defined not on grounds of difference
and the reductive idea of race, but on what is common to us all. [mab]
Existe um único mundo apenas Achille Mbembe

45

Por mais que insistamos em criar frontei- nossa existência ao mesmo tempo incerta
ras, erguer muros, diques e cercas, dividir, e repleta de promessas.
selecionar, classificar e hierarquizar, ten-
tar excluir da humanidade aqueles e aque- A proximidade do distante
las que desprezamos, que não se parecem Existe, portanto, apenas um único mundo,
conosco ou com quem pensamos não ter ao menos no presente, e esse mundo é tudo
nada em comum à primeira vista, existe o que há. Isso vale para toda a humanida-
um único mundo apenas, e todos temos de. Consequentemente, o que temos em
direito a ele. Em princípio, ele pertence a comum é o sentimento, ou, antes, o desejo
todos nós, igualmente; somos todos seus de sermos, cada um de nós, seres humanos
herdeiros, por mais que nossas maneiras singulares, habitantes plenos do mundo e
de habitá‑lo variem. Daí, justamente, a herdeiros de sua totalidade. Esse desejo de
pluralidade de formas culturais, lingua- plenitude de humanidade é algo que todos
gens e modos de vida que existem. nós compartilhamos.
Dizer isso não equivale, absolutamente, a Por outro lado, o que temos em comum, por
ocultar a violência que ainda caracteriza mais que relutemos em admiti‑lo, é que es-
o encontro de povos e de nações. Trata‑se tamos cada vez mais próximos daquilo que
apenas de lembrar um dado imediato, um nos parecia distante. Contra nossa vonta-
processo inexorável a cujas origens exa- de de permanecer inteiramente singula-
tas, no fundo, é difícil remontar: a forma res, há o fato de possuirmos a partilha des-
irreversível como culturas, seres e coisas se mundo que, como nos lembra Jean‑Luc
se emaranham e entrelaçam. Esse entrela- Nancy, é tudo o que existe e tudo o que te-
çamento, que começou no passado e pros- mos. Há o fato de que, objetivamente, for-
segue hoje, continuará, no futuro, a tornar mamos uma corrente comum com aquilo a
There is Only One World

Much as we may draw up borders, build The closeness of the distant


walls, barriers, and enclosures, divide and There is only one world, at least for now,
select, classify and prioritise, seek to sepa- and this world is all that is. The same ap-
rate from humanity the men and women plies to all mankind. Consequently, we
we look down on, who look different to us all have in common a sense of being or
or with whom we think we have nothing wanting to be human beings in our own
in common at first sight, there is only one right and self, plenary inhabitants of the
world and we are all of us entitled to it. In world and heirs of its whole. This desire
principle, this world belongs to us all, equal- for plenitude in humanity is something
ly, and we are all its heirs, even though we all we share.
have different ways of inhabiting it—which The other thing we now share, though we
is precisely why we have a real plurality of have trouble admitting it, is the closeness
cultural forms, languages, and ways of life. of the distant. Against our will to keep our-
Saying this does not mask the violence selves entirely apart, there is the fact that
which still characterises the meeting of we all share this world which is all that is
people and nations. It is a simple reminder and all we have, as Jean-Luc Nancy re-
of an immediate fact, an inexorable pro- minds us, the fact that, objectively speak-
cess whose exact origins are actually hard ing, we form a common chain with what is
to trace, i.e., the irreversible intertwining linked to us. In spite of the desire for apart-
and intermingling of cultures, beings, and heid—the true subconscious of the iden-
things. This intermingling started yester- tity paper – the distances that separate us
day and is now on-going. In the future, it are increasingly imaginary. In the future,
will continue to make our existence both translating these imaginary distances
uncertain and full of promise. into reality and constantly surveying the
lines of separation will involve producing ing human lifeblood in the name of racial que estamos ligados. Apesar do desejo de sou, a Europa deixou também lesões e in-
countless identity papers, rolling out co- difference and profit have all left traces in apartheid – o desejo que, de fato, se escon- cisões profundas, quando não um amon-
lossal, insidious, and miniaturised forms our minds and culture, not to mention our de por trás da carteira de identidade –, as toado imenso de ruínas; com frequência,
of violence and brutality, and corrupting social and economic relations. distâncias que nos separam são, cada vez deixou perdas colossais, irrecuperáveis
the modern invention that was the consti- As long as these wounds and gashes have mais, imaginárias. Traduzir essas dis- para sempre. Para grande parte de nossa
tutional state. not healed or closed up, they will prevent tâncias imaginárias na realidade e vigiar humanidade, a história moderna foi um
To assert that we all have a share in the us from making community. Inventing constantemente as fronteiras exigirá, no processo de acostumar‑se à morte do Ou-
world obviously does not mean that we the communal cannot be separated from futuro, a produção de inúmeras carteiras tro – morte lenta, morte por asfixia, morte
naturally feel similar to each other in the reinventing community. This reinvention de identidade, o desdobramento de formas súbita, perda radical. Esse acostumar‑se
present life. In a still recent past, we did not supposes that links which have been bro- de violência e brutalidade colossais, in- à morte do Outro, daqueles ou daquelas
even deem each other human. ken or untied will be repaired and that new sidiosas e miniaturizadas, e a necessária com quem não acreditamos compartilhar
The ‘community of the world’ remains meanings will be given to relations whose corrupção dessa invenção moderna que é nada, essas múltiplas formas de esgo-
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therefore to ‘be made’. For it to happen, origins lie in an historical accident. o Estado de direito. tamento das fontes da vida em nome da
those whom history has subjected to a This reinvention also supposes that those Afirmar que dispomos, todos, de um mun- diferença racial e do lucro, tudo isso dei-
process of objectification must be given who have been robbed of a share of their do partilhado não significa, claro, que, para xou traços tanto no imaginário quanto na
back their share of humanity—that share humanity and plunged into situations of nós, é natural nos sentirmos semelhantes cultura, para não mencionar nas relações
of irreducibility that belongs to each of utter destitution demonstrate the desire to uns aos outros. Em um passado ainda re- sociais e econômicas.
us and makes us objectively distinct from escape the conditions that condemn them cente, sequer considerávamos uns aos ou- Enquanto não forem curadas ou fechadas,
one another. Since this part of the other is in the night of race. tros humanos. essas lesões e incisões impedirão que se
not mine, I cannot seize it without harmful The concepts of reparation and restitution A comunidade do mundo permanece, en- faça a comunidade. Na verdade, a inven-
consequences for the very notion of jus- we have in mind are therefore not purely tão, por ser feita. Para que ela exista de ção do comum é inseparável da reinvenção
tice, law, or even the universal project, if economic categories. They refer more to fato, é preciso restituir àqueles e àquelas da comunidade. Essa reinvenção supõe a
that is effectively the ultimate goal. an ethical approach—the process of reas- que foram submetidos a um processo his- reparação dos laços que foram rompidos
The reasoned acceptance of my own limits sembling parts that have been amputated, tórico de reificação a parte de humani- ou se esgarçaram; e, também, que novas
therefore stems from an intrinsic require- repairing ties that have been broken, re- dade que lhes foi roubada – essa parcela significações sejam atribuídas a vínculos
ment for justice. But it must be admitted storing the reciprocity without which essencial que pertence a cada um e que, originários de um acaso histórico.
that throughout history, this has not been there can be no common rise to humanity. objetivamente, nos distingue uns dos ou- Por outro lado, essa reinvenção supõe que
the West’s strong point. They also refer to a broadened conception tros. De fato, se essa parcela do outro não aqueles e aquelas que tiveram sua parcela
Europe’s expansion in the world and its of justice and responsibility—the condi- me pertence, eu não saberia me apropriar de humanidade roubada, e que foram sub-
encounter with the All-Elsewhere has left tions for a rise to humanity and for con- dela sem gerar consequências nefastas metidos a situações de extrema escassez,
us all with an immensely rich legacy. But struction of a common world. para a própria ideia de justiça, de direi- manifestem o desejo de escapar das con-
wherever it went, Europe also left wounds to ou, ainda, para o projeto do universal – dições que os condenaram à noite da raça.
and deep gashes, sometimes a huge heap Difference, the Open, supondo‑se que esse seja, de fato, nosso Os conceitos de reparação e de restituição
of ruins and often massive losses that can and the surplus objetivo final. não são aqui, portanto, categorias pura-
never be recovered. For much of human- The question of the world, the in-common, A aceitação racional de meus próprios li- mente econômicas. Eles remetem sobre-
ity, modern history has been a process and community is therefore posed in terms mites deriva, portanto, de uma exigência tudo a uma conduta ética: o processo de
of getting used to the death of the other— of inhabiting the Open—which is quite dif- intrínseca de justiça. Contudo, é preciso reunião de partes que foram amputadas, a
slow death, death by asphyxiation, sud- ferent from an approach that would start by admitir que, ao longo da história, esse não reconstrução de laços que foram rompidos,
den death, delegated death, radical loss. aiming to enclose, to stay enclosed in what foi o ponto forte do Ocidente. a retomada do jogo de reciprocidade sem o
Getting used to the death of the other—the you might say is our relation. A expansão europeia pelo mundo e seu qual não seria possível haver um ganho
he or she with whom we think we share In these conditions, there is no reason to encontro com o outro lugar legou a todos comum para a humanidade. Eles reivindi-
nothing—these multiple ways of deplet- fear difference. It is a construction—gen- riquezas insondáveis. Mas, por onde pas- cam, por outro lado, a ampliação dos con-
erally a construction of a desire. The his- ect was later derailed. They were rooted in ceitos de justiça e responsabilidade, como que foram submetidos à violência da desfi-
tory of slaveries and different forms of the issue of knowing how to spare life and condições para o ganho de humanidade e a guração, que tiveram sua parcela de huma-
colonisation shows that these institutions the living, how to heal, as Franz Fanon in- construção de um mundo comum. nidade roubada em determinado momento
were veritable manufacturers of differ- vited us, what had been wounded or left for da história, a recuperação de seu rosto e de
ence. In each case, difference was the re- dead by the wayside. The idea was to know A diferença, o Aberto sua parcela de humanidade passa, com fre-
sult of a complex work of abstraction, ob- how to urgently rebuild what had been de- e o excedente quência, pela proclamação da diferença.
jectification, and prioritisation. This was stroyed over a long time. As questões do mundo, do comum e da Mas, como se vê na crítica africana de um
then internalised, and its victims repro- In modernity, race has thus been one of the comunidade passam, portanto, pela habi- Senghor1, a proclamação da diferença é ape-
duced it sometimes in everyday gestures, most brutal ways of proclaiming difference. tação de algo que chamo de Aberto. Essa nas um momento em um projeto mais amplo:
sometimes in their subconscious and very We know, however, that it does not exist. ideia se opõe totalmente às condutas que o projeto de um mundo que está por vir, que
intimate spheres. It can hence be said that But that this void is precisely the source buscam, acima de tudo, erguer muros para está à nossa frente; que está destinado a ser,
the desire for difference is born in the very of its unsettling strength. This void of es- nos encerrar dentro daquilo que nos é, di- de fato, universal.
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place where exclusion is most intensely sence, this utterly powerful hole that sucks gamos, aparentado. Falamos do Aberto. Poderíamos também
experienced. In this sense, asserting dif- everything in with an unprecedented force No Aberto, não haveria nenhuma razão ter falado de um excedente, ou de uma re-
ference is the inverted language of the of abstraction and objectification—this is para temer a diferença. É uma constru- serva. Uma reserva de vida. Tomemos as
desire for inclusion, belonging, and some- what drives a zeitgeist that deems it normal ção; na maioria dos casos, a construção de grandes lutas africanas, que tinham como
times protection. that the vanquished should be subjected to um desejo. A história das escravidões, das projeto central o ganho de humanidade2.
It should perhaps be added that while dif- what the victor risked. diferentes formas de colonização, mostra Ainda que esse projeto tenha mais tar-
ference is constituted in desire, it is not What goes for the violence of race also quanto essas instituições foram verda- de descarrilhado, sua questão central era
necessarily a desire for power. It can also be goes for the violence of prohibition. No- deiras fábricas de diferença. Em cada uma como poupar a vida e o vivo; como cui-
the desire to be spared, to be shown consid- body can strictly give a reason for either. delas, a diferença foi o resultado de uma dar, como Frantz Fanon nos conclamava
eration, to be preserved from a futile, blind Race belongs to the sometimes unassumed operação complexa de abstração, reifica- a fazer, dos que foram feridos, dados por
violence whose function is to disfigure. language of paranoid government. It falls ção e hierarquização. Essa operação se- mortos, abandonados à beira do caminho.
On the other hand, the desire for difference under that which does not in fact exist. The ria a seguir internalizada pelas próprias O problema era como reconstruir, com ur-
is not necessarily the opposite of the in- void. The void is not an absence of struc- vítimas, que por vezes a reproduziam em gência, algo que havia sido destruído ao
common project. For the men and women ture, however. But its structure is prohi- seus gestos cotidianos, sua intimidade, longo de tanto tempo.
who have suffered the violence of disfigu- bition. The void demands identity papers seu inconsciente. O desejo da diferença, Na modernidade, a raça constituiu uma
ration and whose share of humanity has from everyone. Prohibitions are multi- podemos dizer, nasce precisamente onde das formas mais brutais de proclamação da
been stolen at a given point in history, re- plied in the void. We resort to too many se vive a experiência de exclusão mais diferença. Sabe‑se que ela não existe; mas
covering a face and their share of human- laws that are perpetually condemned to intensa. Nesse sentido, a reivindicação é precisamente desse vazio que extrai sua
ity often involves proclaiming difference. obsolescence—the law against illegal im- da diferença é a linguagem invertida do força perturbadora.
But as seen in African criticism of a figure desejo de inclusão, de pertencimento e, às
like Senghor,1 proclaiming difference is vezes, de proteção.
merely a moment in a bigger project—of a 1. Léopold Sédar Senghor (1906–2001), Senegalese poet, Se de fato a diferença se constitui no dese- 1. Léopold Sédar Senghor (1906‑2001), poeta, escritor e
writer, and politician. Senghor was the president of Sen- político senegalês. Presidiu seu país entre 1960 e 1980.
world that is coming, that is up ahead of us jo, talvez seja preciso acrescentar que esse
egal from 1960 to 1980. One of the most important African Um dos mais importantes intelectuais africanos do sé-
and has a universal destination. intellectuals of the 20th century, he was one of the found-
desejo não é necessariamente de potência. culo 20, foi um dos fundadores do movimento político e
We have discussed the Open. We could ers of ‘Négritude’, a political and literary movement.—Ed. Também pode ser o desejo de ser poupado, literário da “negritude” (N.E.).
also have talked about the surplus, or about 2 In the colonial context, in which the thought of Frantz isentado, preservado de uma violência cega 2. No contexto colonial, que é o do pensamento de Frantz
what we must call the reserve. We mean Fanon (1925–1961) is inserted, to ‘acquire humanity’ e inútil, que tem como função desfigurar. Fanon (1925‑1961), o “ganho de humanidade” consiste
means for the colonised to be transferred, on his or her na transferência do colonizado, por conta própria, para
the reserve of life. Take the great African Por outro lado, o desejo da diferença não se
own account, to a higher place as compared to that at- um lugar mais elevado em relação àquele que lhe foi
struggles, whose central project was the tributed to him or her according to his or her race or as a opõe, necessariamente, ao projeto do co- atribuído em função de sua raça ou em consequência da
rise to humanity2—even though this proj- consequence of subjugation. mum. Na verdade, para aqueles e aquelas subjugação (N.A.).
migration, the law against the Islamic ing to lose because he has pretty much Esse vazio essencial, esse buraco que aspi- umidade, a lama, o riso, a desordem e a in-
headscarf, the law against the burqa, the renounced on owning anything for him- ra tudo – com potência absoluta e capaci- disciplina. Mas esse país barroco também
law against foreigners. The law is no lon- self from the start, or has already lost ev- dade inaudita de abstração e reificação – é se tornou estranho para mim; agora, é na
ger the instrument of justice. It is the child erything—or almost everything. But why o motor de uma mentalidade que conside- contraluz que, por vezes, consigo enxer-
of the negative—an instrument of para- should freedom, the ability to think, re- ra normal que os vencidos sofram o que o gá‑lo. No entanto, há certos dias em que
noid government. nouncement of all forms of possession and vencedor se arriscou, ele mesmo, a sofrer. me pego cantando seu nome em silêncio,
loss—and therefore a certain idea of cal- A violência racial é como a violência da desejando percorrer novamente os cami-
The ethic of the passer-by culation and gratuity—have to be united proibição. Ninguém pode, a rigor, explicar a nhos da minha infância na terra que me
For my part, I will have spent most of my by such a close relation? As for losing ev- razão de ser da proibição ou da raça. A raça viu nascer e da qual acabei por me afastar,
adult life roaming the triangle that links erything or almost everything—or better se apoia na língua – às vezes não assumida sem jamais ter conseguido esquecê‑la,
Africa to America via Europe. With regard still detaching oneself from everything or – do governo paranoico. Ela se sustenta em sem jamais ter conseguido me desprender
to my native country, I have kept my birth renouncing on everything or almost ev- algo que não existe, de fato, no vazio. de vez dela, sem que ela jamais tenha ces-
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certificate and a passport, some childhood erything: is this the condition for gain- Mas esse vazio não é uma ausência de sado de me inquietar.
memories, a few photos, a kind of filial de- ing serenity in this turbulent world and estrutura; sua estrutura é a proibição. O Mas seria esse distanciamento – espiritual,
votion towards certain intellectual figures age, where what you have is often barely vazio requer de cada um uma carteira de talvez? –, esse autodespojamento, esse es‑
who made a deep impression on me in my worth what you are and what you gain is identidade. No vazio, as proibições se mul- trangeiramento o preço a ser pago para vi-
youth, and that is almost all. Today I do not only distantly related to what you lose? tiplicam. É preciso recorrer a um acúmulo ver e pensar livremente? Pensar livremente
feel as though I am the citizen of any par- Furthermore, does detaching yourself excessivo de leis condenadas à obsoles- só seria possível a partir de um certo des-
ticular State. from everything or almost everything cência: a lei contra a imigração clandesti- provimento, de um certo desprendimento, e
I carry the country where I was born deep and renouncing on everything or almost na, a lei contra o véu islâmico, a lei contra a apenas para aqueles que não têm mais nada
inside me, its faces, landscapes, chaotic everything mean that you are henceforth burca, a lei contra os estrangeiros. A lei não a perder, que renunciaram a qualquer posse
multiplicities, its rivers and mountains, from ‘nowhere’, that you have no further é mais um instrumento da justiça. Passa a ou já perderam tudo ou quase tudo?
the forests, the savannah, the seasons, the responsibility, no name to answer to? ser a filha do negativo, um instrumento do E por que deveriam estar tão atreladas
birdsong, the sweat and the humidity, the And then what is freedom if you cannot governo paranoico. a liberdade, o pensamento e a perda, ou a
mud, the laughter, the disorder and indis- really break away from the accident of renúncia a qualquer forma de posse? Per-
cipline. But this baroque country has also being born somewhere—the relation of A ética do passante der tudo ou quase tudo – ou melhor, des-
become unfamiliar and I sometimes see it flesh, bone, and blood? How can this ac- Quanto a mim, passei a maior parte de mi- prender‑se de tudo ou renunciar a tudo ou
against the light. Yet there are days when cident so irrevocably be the signature of nha vida adulta percorrendo, a passos lar- quase – seria, assim, a condição para con-
I find myself silently singing its name, who we are, how we are perceived, and gos, o triângulo que liga África e América, quistar serenidade nesse mundo e nesse
wanting to walk the paths of my childhood who others take us for? Why does it de- passando pela Europa. De meu país natal, tempo turbulentos, nos quais aquilo que
again in this country in which I was born, termine so decisively the rights we have guardei a certidão de nascimento, um pas- possuímos com frequência não vale o que
which I ended up distancing myself from and then all the rest—the sum of proof, saporte, lembranças da infância, algumas somos, e aquilo que ganhamos nem de lon-
without ever being able to forget it, with- documents, and justifications we always fotos, uma espécie de deferência filial em ge se equipara ao que perdemos?
out ever managing to break away from it have to come up with to hope to have any- relação a certas figuras intelectuais que Por outro lado, desprender‑se de tudo ou
once and for all, without it ever ceasing to thing at all, starting with the right to exist, marcaram profundamente minha juven- quase tudo, renunciar a tudo ou quase
cause me worry. the right to be where life ends up taking tude, e isso é quase tudo. Hoje, não me sinto tudo, significa que passamos a ser de “ne-
Could this distance—should I call it spiri- us, and the right to move freely? cidadão de nenhum Estado em particular. nhum lugar”, que não respondemos a mais
tual?—this self-renouncement and this Crossing the world, fully measuring the Trago o país que me viu nascer no fundo nada e a nenhuma denominação? E o que
estrangement be the price to pay in order accident that is our place of birth and its do meu ser; seu rosto, suas paisagens, sua é então a liberdade, se não podemos real-
to live and think freely? That is, based on share of arbitrariness and constraints, multiplicidade caótica, seus rios e suas mente romper com esse acaso que é o fato
a certain destitution and detachment, in going with the irreversible flow that is the montanhas, a floresta, as savanas, as es- de termos nascido em determinado lugar
the position of someone who has noth- time of life and existence, learning to ac- tações, o canto dos pássaros, o suor e a – a relação de carne, osso e sangue? Como
cept our status as a passer-by inasmuch Man-in-the-world esse acaso pode marcar de forma tão irre- Evocando em propósito próprio a figura do
as this is perhaps ultimately the condi- From this point of view, I have stayed in vogável quem somos, como somos perce- passante, o caráter fugaz da vida, não faço
tion of our humanity, the foundation from many cities on the planet but only lived in bidos e por quem os outros nos tomam? Por o elogio nem do exílio, nem da fuga, nem do
which we create culture—perhaps these, four places—the country of my birth, Paris, que ele determina de maneira tão decisiva nomadismo. Tampouco celebro um mun-
in the end, are the most insoluble ques- New York, and Johannesburg. In my mind, aquilo a que temos direito e todo o resto do sem raízes. Nas circunstâncias atuais,
tions of our era. these four places have primarily all been – as provas, documentos e justificativas esse mundo simplesmente não existe.
Few terms revel in as many meanings as singular moments, pieces of a time that que precisamos apresentar repetidamente Esforço‑me, pelo contrário, para percor-
[the French word] passant, a passer-by. goes inexorably by, that cannot be inter- para conseguir qualquer coisa, do direito rer a passos largos um caminho escarpado:
Firstly, this word contains many others, rupted, a time we can have trouble keeping de existir ao direito de estar no lugar para partir, sair de casa, abandonar, viver em
starting with pas [not], both a negative – traces of. Driven sometimes by the feeling onde a vida nos conduz, passando pelo di- outro lugar, no seio do (ou no) estrangeiro,
that which is not or does not yet exist or that I had to start everything over in an- reito de circular livremente? demorar‑me nele, quem sabe habitá‑lo;
exists only by its absence—and a rhythm other time, almost from scratch, I main- Atravessar o mundo, dar‑se conta de fazer de outra cultura, de um país no qual
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[a step], a cadence in a run, walk, or move, tained a state of perpetual enjambement, quanto há de casual no lugar onde nasce- estou apenas temporariamente autoriza-
something that is (in) movement. Next, as a crossover with each of them, caught in a mos e do peso de arbitrariedade e imposi- do a residir, uma morada de verdade, ao
if in reverse, there is passé [past], the past shifting inside and outside. Along the way ção que esse lugar adquire; abraçar o fluxo menos enquanto dure a validade da auto-
not as a trace of what has already hap- I met other languages, other people, and irreversível do tempo da vida e da exis- rização; e, quando for hora de partir nova-
pened, but the past that is happening, as other sounds. Lacking a permanent foot- tência; aprender a assumir nosso status mente para outro lugar, não voltar sobre
it can be grasped right now, the moment it hold in a fixed territory and condemned to de passantes, que é, talvez, em última ins- meus próprios passos, mas seguir sempre
breaks in, in the very act by which it hap- request an ‘authorisation to reside’ in the tância, a condição de nossa humanidade, adiante, em uma eterna torrente.
pens, the moment it crops up, as if through places where life led me, I have perhaps not a base a partir da qual criamos a cultura.
a crack, and tries to be born to the event, to really lived on the fringes of the societies Talvez essas sejam, afinal, as questões mais “Homem no mundo”
become the event. Then there is le passant that welcomed me, but definitely in their difíceis de nossa época. Nessa perspectiva, posso ter morado em
[passer-by], the figure from ‘elsewhere’, cracks, on the surface. And it is by accept- De fato, poucos termos têm tantos sig- inúmeras cidades do planeta, mas teria
because the passer-by only passes be- ing this temporary condition that I tried to nificados quanto “passante”. Em francês, vivido, de verdade, só em quatro lugares:
cause he is coming from another place become not a nomad or an exile, but simply a palavra encerra muitas outras, come- meu país natal, Paris, Nova York e Johan-
and on his way to other heavens. a-man-in-the-world. çando de “pas”, ao mesmo tempo partícula nesburgo. Em meu espírito, esses quatro
In evoking the fugitive character of life Becoming-a-man-in-the-world is not a negativa (o que não é ou não existe ainda, lugares seriam, antes de tudo, momen-
and the figure of the passer-by in relation question of birth, origin, or race. This kind ou só existe pela ausência) e passo, ritmo tos singulares, pedaços de um tempo que
to myself, I am not praising exile, flight, of project demands that the subject con- ou cadência de uma corrida, marcha, des- passa inexoravelmente, que não pode ser
or nomadism. Nor am I celebrating a root- sciously embrace the divided part of his locamento de algo que está em movimen- interrompido de jeito nenhum, e do qual às
less world. In current conditions, such a own life; that he forces himself to make to. Também abarca “passé”, que significa vezes penamos para guardar vestígios.
world simply does not exist. I am trying, sometimes improbable detours or rap- passado, não enquanto vestígio do que já Às vezes encorajado pelo sentimento de
on the contrary, to tread a steep path—to prochements; that he operate in the cracks aconteceu, mas como algo que está “em que deveria recomeçar tudo quase do zero
go away, leave home, depart, live some- if he wants to give a common expression processo de acontecer”, que é capturado no em outra época, mantive, com cada um
where else, in another place, in foreign to things which we normally dissoci- momento da ruptura, no ato em que ocor- desses lugares, uma relação de perpétua
parts, to stay or live in a place, to turn a ate. So I slipped into each of these places re, no instante em que, surgindo como que travessia, preso entre um interior e um ex-
culture and a country where you are only with a certain amount of distance and através de uma fenda, faz força para nascer terior inconstantes. De passagem, encon-
allowed to have temporary residence into astonishment, and I sought to accept the como acontecimento. E há, enfim “o pas- trei outras línguas, outras pessoas e outros
a real residence, at least as long as the unstable, shifting cartography in which I sante”, essa figura de outra parte, que se sons. Sem ancoradouro permanente em
authorisation lasts, before going away found myself. I call “place” any experience torna passante exatamente porque está de território fixo e condenado a ter sempre de
again, somewhere else, never retracing of meeting others that paves the way to an passagem, vinda de um outro lugar e a ca- solicitar uma “autorização de residência”
your steps and so on—the flow. awareness of one’s self, not necessarily as minho de outros horizontes. nos lugares para onde a vida me conduziu,
an individual but as the seminal spark of talvez não tenha vivido realmente à mar- Aprender a passar constantemente de um
a wider humanity, wrestling with the fa- Achille Mbembe (Otélé, Cameroon, 1957) is a phi- gem das sociedades que me acolheram; lugar para outro deveria ser seu projeto, já
tality of a time that never stops and whose losopher and political scientist. His ideas on mas decididamente vivi nos seus inters- que sempre foi seu destino. Mas passar de
power, violence, and subjectivity have helped
principle attribute is to go by—the passer- tícios, em sua superfície. E foi assumindo um lugar para outro também é tecer, com
reformulate academic contemporary postco-
by par excellence. lonial thought. Among his articles and books
essa condição temporária que me esforcei cada um deles, uma relação de solidarie-
But you can hardly inhabit a place without are On the Postcolony (2001), translated into para ser não um nômade ou exilado, mas, dade e desprendimento. É uma experiên-
letting it inhabit you. Inhabiting a place numerous languages, and Necropolitics (2011); simplesmente, um “homem no mundo”. cia de presença e afastamento, mas nunca
is not the same thing as belonging to it, and, as editor, alongside Sarah Nuttall, Jo- Tornar‑se “homem no mundo” não é uma de indiferença; vamos chamá‑la de ética
however. My birth in my native country hannesburg: The Elusive Metropolis (2004). A questão de nascimento, origem ou raça. É do passante. Essa ética ensina que apenas
PhD in history from the Sorbonne in Paris, he
belongs to the realm of accidents. Inciden- um projeto que exige que o sujeito abrace ao nos afastarmos de um lugar podemos
holds a professorship at the Wits Institute
tally, birth as it stands offers hardly any for Social and Economic Research, University
conscientemente a porção fragmentada de nomeá‑lo e habitá‑lo. Como fazer do aca-
secrets. It offers only trivialities and fre- of the Witwatersrand, and coordinates the sua própria vida; que se obrigue a desvios so um acontecimento, e em quais condi-
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quently the fiction of a world that is past, Johannesburg Workshop in Theory and Criti- e aproximações às vezes improváveis; que ções? Poder morar e circular livremente
despite all our attempts to link it to what cism, both in Johannesburg, South Africa. He is atue nos interstícios; que faça questão de não seriam condições sine qua non para o
we revere. You could say that not belong- a visiting professor at Duke University, Dur- dar uma expressão comum a coisas que compartilhamento do mundo – ou, ainda,
ham, USA. He lives and works in Johannesburg.
ing to one peculiar place is peculiar to man. habitualmente dissociamos. Penetrei em para aquilo que Édouard Glissant cha-
Learning to constantly go from one place to cada um desses lugares não sem uma re- mou de “a relação mundial”? Para além da
another should be man’s project because it serva de distância e maravilhamento, e casualidade do nascimento, da naciona-
is now man’s destiny. But constantly go- procurei me apropriar da cartografia ins- lidade e da cidadania, ao que se asseme-
ing from one place to another also means tável e movediça com a qual me depara- lharia a pessoa humana?
establishing a dual relationship of solidar- va. Chamo de “lugar” toda experiência de
ity and detachment with each place. We encontro com o Outro que seja capaz de Achille Mbembe (Otélé, Camarões, 1957) é filóso-
shall call this experience of presence and abrir caminhos para a conscientização fo e cientista político. Suas ideias sobre poder,
distance, solidarity and detachment—but de si mesmo, não só como indivíduo, mas violência e subjetividade contribuíram para

never indifference—the ethic of the pass‑ enquanto estilhaço seminal de uma huma- reformatar o pensamento acadêmico contem-
porâneo pós-colonialista. É autor de artigos
er-by. An ethic which states that it is only nidade mais ampla, em luta contra a fata-
e livros como On the Postcolony (2001), tradu-
by distancing yourself from a place that lidade de um tempo que não para jamais,
zido em diversas línguas, e Necropolítica (2011),
you can name it and inhabit it better. How e cujo atributo principal é o de passar – o e editor de (com Sarah Nuttall) Johannesburg:
to turn the accident into an event and on passante por excelência. The Elusive Metropolis (2004). Ph.D. em história
what conditions? Is not the ability to move Mas dificilmente pode‑se habitar um lu- pela Sorbonne, em Paris, é professor-pesquisa-

and reside freely the indispensable con- gar sem se deixar habitar por ele. Habitar dor no Wits Institute for Social and Economic
Research, University of the Witwatersrand,
dition for sharing the world, or for what um lugar, no entanto, não é o mesmo que
e coordenador do Johannesburg Workshop in
Édouard Glissant called ‘the global rela- pertencer a esse lugar. Meu nascimento
Theory and Criticism, ambos em Johannesbur-
tion’? How might the human person look, em meu país de origem é um acaso. Além go, África do Sul. É professor-visitante da Duke
beyond the accident of birth, nationality, disso, o lugar de nascimento não nos ofe- University, em Durham, EUA. Vive e trabalha em
and citizenship? rece, ele mesmo, nenhuma chave. Apesar Johannesburgo.

de todas as nossas tentativas de reconec-


tá‑lo a tudo aquilo que veneramos, ele só
nos oferece trivialidades e, frequente-
mente, a ficção de um mundo passado. No
limite, não pertencer a nenhum lugar em
particular é a particularidade do homem.
Rogério Haesbaert

If in the townships of Johannesburg the discussions and reflections focused on the


home, that most intimate of social spaces, in the immensity of the refugee camp at Ka-
kuma, where the Deslocamentos [Displacements] project took me next, the issues shift-
ed to the collective sphere. Created in the northeast of Kenya in 1992 to house refugees
from Sudan, by 2003 the camp “provisionally” held nearly one hundred thousand people
of fourteen nationalities. ¶ In the city, the refugees manipulated multiple identities in Se nos bairros de Johannesburgo as discussões e reflexões centravam-se no lar, esta
order to insert themselves within the new social context. At the camp, however, there célula mais íntima do espaço social, na imensidão do campo de refugiados de Kakuma,
seemed to be other territorialization strategies at play, such as those of reinforcing a para onde o projeto me levaria a seguir, as questões saltaram para a esfera do coletivo.
collective identity—ethnic, tribal, religious—or even adopting the “refugee” stereotype. Criado no noroeste do Quênia em 1992, para acolher refugiados sudaneses, o campo
At Kakuma, I challenged the group of thirteen youths participating in our audiovisual abrigava, em 2003, “provisoriamente”, quase 100 mil pessoas de catorze nacionali-
workshop to use fiction and multiple media to arrive at a new perception of their own dades. ¶ Na cidade, os refugiados manipulavam identidades múltiplas para inserir-se
individual identities and that of the camp around them. ¶ Sharing in the local routine, I num novo contexto social; já no campo, as estratégias de territorialização eram outras, 65
gradually realized that, despite the restricted and “controlled” context of Kakuma, the como reforçar uma identidade coletiva – étnica, tribal, religiosa – ou aferrar-se ao es-
camp was still a forum for negotiation, political debate, and resistance. Even “living on tereótipo de “refugiado”. Em Kakuma, desafiei o grupo de treze jovens que participaram
the edge,” the camp dwellers were able to territorialize in the multiple, relational, and de nossa oficina de criação audiovisual a buscar outra percepção de sua identidade
symbolic sense of appropriating their space, in the molds suggested by the geographer individual e do espaço do campo, através da ficção e do uso de diferentes mídias. ¶ Par-
Rogério Haesbaert. ¶ It was with great relief, some time later, that I familiarized myself tilhando da rotina local, aos poucos percebi como, apesar do contexto restrito e “contro-
with Rogério’s work and his concepts of multi-territoriality and “network territories.” lado”, Kakuma não deixava de ser um espaço de agenciamento, de embates políticos e de
Formulated from a human and critical approach, they echoed my perception that such resistência. Mesmo “vivendo no limite”, seus moradores se territorializavam – no sen-
multi-territoriality is only possible if predicated upon “minimal territoriality, shelter, tido múltiplo, relacional e simbólico, de apropriação do espaço, sugerido pelo geógrafo
and comfort, the prerequisites for the stimulation of individuality and the promotion of Rogério Haesbaert. ¶ Foi com alívio que, algum tempo depois, conheci seus conceitos
solidary cohabitation among multiplicities” (Haesbaert, 2004). ¶ People pursuing this de multiterritorialidade e “territórios rede”. Formulados a partir de um viés humano e
minimal space—whether refugees or migrants—contest the prevailing order, which, crítico, eles ecoaram minha percepção de que essa multiterritorialidade só é possível
though “globalized,” continues to criminalize mobility and impose borders. However, as a partir de uma “territorialidade mínima, abrigo e aconchego, condição indispensável
the geographer points out in the text that follows, this fencing-in does not prevent new para, ao mesmo tempo, estimular a individualidade e promover o convívio solidário
routes from being opened or the flow of people from continuing. ¶ The issue of borders das multiplicidades” (Haesbaert, 2004). ¶ Pessoas em busca desse espaço mínimo – se-
took on a new dimension when I returned to Europe and found myself confronted with jam refugiados ou migrantes – contestam a ordem vigente, que, apesar de “globalizada”,
the harsh reality faced by the thousands of “foreigners” who lose their lives trying to continua criminalizando a mobilidade e impondo fronteiras. Como lembra o geógrafo
cross the walls created by Fortress Europe. This situation was my motivation for cre- em seu texto, esse cerceamento não impede que novas rotas sejam abertas nem que o
ating In-Flux, seen here accompanying Haesbaert’s text. The work questions the Eu- fluxo de pessoas se perpetue. ¶ A questão das fronteiras tomaria outra dimensão, quan-
ropean “humanitarian” discourse, which endeavors to mitigate the issue of migration, do, de volta à Europa, deparei-me com a dura realidade dos milhares de “estrangeiros”
treating it as a domestic social problem as opposed to a direct result of its own economic que perdem a vida tentando cruzar os muros erguidos pela Fortaleza Europa. Essa situ-
policies and controls. [mab] ação me motivou a criar a série In-Flux, que aparece aqui associada ao texto de Haes-
baert. Nela, questiono o discurso “humanitário” europeu, que se concentra em mitigar
a questão da migração, tratando-a como um problema social doméstico – e não como
consequência de suas próprias políticas econômicas e de controle. [mab]
TERRITÓRIOS EM TRÂNSITO Rogério Haesbaert

67

Fala‑se de um mundo cada vez mais móvel, pouco como no in‑flux de Marie Ange Bor-
cada vez mais fluido. Um mundo construí- das, a fronteira sempre foi para mim muito
do por meio antes de redes “desterritoriali- mais que uma linha limitadora, uma zona
zantes” que de territórios – como se a rede de contato, de abertura para a alteridade,
não fosse também um elemento constitui- de encontro com o desafio de reaprender
dor de nossos territórios, e como se não pu- quem somos pelo defrontar‑se com o Ou-
déssemos nos territorializar “em rede”, no tro. Na fronteira – que é também front – os
movimento, a exemplo das grandes diás- territórios não deveriam se separar, mas
poras de migrantes, altamente conectadas e se mesclar, sobrepor‑se ou, no mínimo,
coesas. Tanto nas experiências mais cômo- confrontar‑se. A União Europeia constrói
das, sob controle de grupos hegemônicos, seus muros, fossos e cercas nos enclaves
quanto nas práticas mais árduas e menos neocoloniais africanos de Ceuta e Melilla,
seguras de grupos subalternos, o espaço é e na fronteira de Grécia e Turquia, ressus-
sempre, ao mesmo tempo, uma composição citando técnicas medievais de impermea-
de objetos ou corpos e dos deslocamentos bilização e controle. Em vão. Os migrantes
ou trajetórias que eles descrevem, promo- (ao mesmo tempo “e” e “i”‑migrantes, como
vendo des‑encontros, transpondo limites Marie Ange faz questão de lembrar) aca-
e transitando entre distintos territórios. bam encontrando formas de contornar es-
Constrói‑se sempre, com maior ou menor ses entraves e construir novas rotas, seja
intensidade, uma multi ou transterritoria- por terra, seja por mar.
lidade (Haesbaert, 2004). Doreen Massey (2008) enfatiza esse cará-
Pessoalmente, sempre busquei ultrapas- ter aberto dos espaços, mesmo num mundo
sar a fronteira imposta pelo horizonte ge- tão cerceado como o nosso, onde até as vias
ográfico das paisagens costumeiras. Um de circulação são “canalizadas” por muros
TERRITORIES IN TRANSIT: LIVING ON THE EDGE

Plenty is said about a world ever more scapes. Similarly to Marie Ange Bor- 69
mobile, ever more fluid and built a lot das’ in‑flux, for me the frontier has al-
more through “deterritorializing” net- ways been much more than a delimiting
works than of territories —as if the net- line: it is a zone of contact, an opening
work were not also a building element of to otherness, and an encounter with
our territories and we also could not ter- the challenge of relearning who we are
ritorialize “in networks,” in motion, like by confronting the Other. At the fron-
in the great migrant diasporas, highly tier—which is also the front1—territo-
connected and cohesive. Space is always ries should not separate, but rather mix,
and simultaneously—in both the most overlap, or at least, confront one anoth-
pleasant and “controlled” experiences of er. The European Union builds its walls,
hegemonic groups, and in the most ardu- trenches, and fences around the neo-
ous and unstable realities of oppressed colonial African enclaves of Ceuta and
groups—a composition of more localized Melilla, and on the borders of Greece and
objects or bodies and of the displace- Turkey, reviving medieval methods of
ments or paths of the same bodies, which impermeability and control. To no avail.
promote thus, multiple dis‑encounters, Migrants (at once im‑ and e‑migrants, as
defying limits, and moving in‑between Marie Ange is sure to evoke) eventually
distinctive territories. Be it of greater or find ways to go around these barriers and
lesser intensity, a multi‑ or trans‑terri- build new routes, by land or sea.
toriality is always built (Haesbaert 2004).
Personally, I have always sought to
transcend the frontiers imposed by the 1. The author here refers to the suffix front, for Portu-
geographic horizon of customary land- guese‑speakers reference.—Trans.
Doreen Massey (2005) emphasizes this the words they were singing were in Por- que protegem nosso olhar da desolação com força, a rica experiência que tive em
open character of spaces, even in our very tuguese and that the singer was Brazilian. alheia (como na “barreira sonora” das Li- território malgaxe.
restricted world, where even the passage- It wouldn’t matter. Today, spaces are cre- nhas Vermelha e Amarela, no Rio de Janei- O termo território está tão em voga no nos-
ways are “channeled” by walls, to shield ated from local reinterpretations of global ro, ocultando o cinza das favelas). A autora so tempo que virou quase uma panaceia,
our gaze from the destitution of others (as phenomena. Even I am strongly reminded quer, na verdade, explicitar o potencial utilizada tanto por movimentos de resis-
in the “sound barriers” of the freeways now, whenever I hear that song again político que essas aberturas do espaço, por tência – como o dos povos tradicionais
Linhas Vermelha and Amarela 2 in Rio (which I barely knew and disdained when menos explícitas que pareçam, colocam – quanto por programas de planejamento
de Janeiro, hiding the gray aspect of the I left Brazil), of the rich experience I had in para nossa ação e resistência no mun- hegemônicos. Sob o nosso ponto de vista,
slums). In fact, she wants to highlight the Malagasy territory. do. Criticando as visões mais reacionárias ele é muito mais que um mero instrumento
political potential that these openings of Territory is such a popular expression in que veem o lugar apenas como um espaço de luta e/ou afirmação de domínio político.
space, however inexplicit they may seem, our time that it nearly became a pana- estável, de fronteiras bem delimitadas e Território, visto dentro do movimento da
offer in terms of our action and resistance cea, used by resistance movements—like identidades fixas, propõe uma visão “pro- história, é um conjunto de relações sociais
in the world. Criticizing the more reaction- those of traditional peoples—as well as by gressista” de lugar, “não fechado e defen- que, reconstruindo o espaço e se reapro-
ary views, which regard a place as a stable hegemonic planning programs. From my sivo”, voltado para fora e adaptado a nossa priando dele, refaz o homem, suas classes
site, with well‑delimited borders and set point of view, it is much more than a mere era de compressão de tempo‑espaço. e seus grupos. E os refaz justamente pela
identities, the author proposes a “progres- mechanism of struggle and/or affirmation Numa visão mais tradicional, o lugar, como “conquista” da terra, uma terra múltipla,
sive” view of place, one “not closed or de- of (political) authority. Territory, framed o território e o próprio espaço, era asso- que não é apenas recurso a ser utilizado e 71
fensive,” but turned outside and adapted to within historical movements, is a set of ciado à homogeneidade e ao imobilismo, negociado, mas também fonte de reconhe-
our era of time‑space compression. social relations, which, by reconstructing diante da multiplicidade, do movimen- cimento e afirmação num mundo moldado
In a more traditional view, place, as a ter- and reappropriating space, reorganizes to e do progresso ligados ao tempo. Uma pela indiferença e pela lógica contábil. Na
ritory and space, is associated with ho- man, his classes, and groups. And it reor- consciência global do lugar, defendida por propriedade privada, embrião territorial
mogeneity and immobility in the face ganizes them exactly through the “seiz- Massey, embora não possa ser vista como da lógica estatal‑capitalista, é claro que
of multiplicity, movement, and progress ing” of the land, a multiple land—not only boa ou má em si mesma, é a evidência de o que importa é contabilizar; é o valor de
linked to time. While neither good nor a resource to be used and dealt, but also a que hoje não temos mais espaços fechados troca, a separação/apartamento (apar‑
bad in itself, the global sense of place de- source of recognition and affirmation in e identidades homogêneas, “autênticas”. theid) social, a hierarquização.
fended by Massey is evidence that we no a world built around indifference and ac- Nossas vidas estão impregnadas de influ- Nossa concepção de território se aproxima
longer have such closed spaces and homo- counting reasoning. In private property, ências provenientes de inúmeros outros daquela defendida por Deleuze e Guattari,
geneous, “authentic” identities. Our lives the territorial embryo of the thinking be- espaços e escalas. A própria singularida- que a propõem com dupla face, funcional e
are impregnated with influences derived hind the capitalist state, what clearly mat- de dos lugares (e dos territórios) advém expressiva – pois também “nos expressa-
from countless spaces and scales. The ters is accounting, it is the exchange value, sobretudo de uma combinação específi- mos” por meio dos territórios que molda-
very singularity of places (and territories) the social separation/segregation (apart- ca de influências distintas, que podem ser mos. Como na arte, o território é uma forma
mainly comes from a specific combination heid), and hierarchy. provenientes das mais diversas partes do de expressão, de visibilidade, de criação. O
of distinct influences, which can originate
Our framing of territory is closer to the mundo. Numa aldeia no interior remoto poder que envolve nossa des‑territoria-
in completely different parts of the world.
one held by Deleuze and Guattari, when de Madagascar, escutei Michel Teló can- lização (com hífen, por tratar‑se de uma
Even in a village in a remote area of Mada-
they suggest it as being twofold, both tando Ai se eu te pego, ainda que ninguém dinâmica de dupla face) não é, portanto,
gascar I heard Michel Teló’s song Ai se eu
functional and expressive—since we also ali soubesse que as palavras que cantavam apenas o poder em seus efeitos mais con-
te pego, even though nobody knew that
“express ourselves” through the terri- junto estavam em português e que o cantor cretos, político‑econômicos, mas também
tories that we shape. As in art, territory era brasileiro. Não importa. Os espaços se em seu sentido mais simbólico, pois nos
is a way of expression, of visibility, and fazem hoje, também, pela releitura local de “empoderamos” pelo acionar de identida-
2. “Sound barriers” is the common name for the high con-
creation. The power that is involved in fenômenos globais. Eu mesmo, agora, ao des, inclusive territoriais.
crete walls on both sides of Linha Vermelha and Linha
Amarela, the elevated freeways linking the center to the our de‑territorialization (hyphenated, to ouvir a música – que mal conhecia e des- Mesmo nos espaços aparentemente mais
highways in Rio de Janeiro.—Trans. refer to its twofold dynamic) is therefore prezava quando saí do Brasil –, rememoro, obscuros e disformes, como uma gigan-
not just the power in its more concrete, in search of “An Evil‑free Land”—a terri- tesca favela ou um campo de refugiados, constante deslocamento, não são, como
political‑economic effects, but also in its torial reference that stimulated them to padronizados em suas imagens espaciais, alguns propõem, grupos desterritoriali-
more symbolic sense (since we are also keep moving. desenha‑se, nas entrelinhas, todo um ema- zados. Seus movimentos não são aleató-
“empowered” by activating identities, in- Although mobility is an attribute of our ranhado de vida que se multiplica e se refaz rios, mas reproduzem no espaço circuitos
cluding territorial identities). times, it is not necessarily synonymous constantemente. Território, assim como o altamente controlados, que permitem aos
Even in the seemingly most obscure and with de‑territorialization, with the loss próprio espaço, antes de ser uma matéria grupos se territorializar pela “repetição
misshapen spaces, like giant slums or ref- of territorial references. And that is not estanque, é um movimento, um ato. Um ato do movimento”, como diriam Deleuze e
ugee camps, standardized in their spatial a new concept. Nomadic peoples, for in- de sobrevivência ao mesmo tempo física e Guattari. Nômades tibetanos ainda hoje
images, a whole entanglement of lives is de- stance, whose existence is associated psíquica, material e simbólica: necessita- desenham o que propomos denominar de
lineated in between lines, multiplying and with constant displacement, they are mos tanto dominar o espaço e usufruir dele territórios‑rede: a cada ano, repetem um
constantly reorganizing itself. Thus, terri- not, as some suggest, de‑territorialized quanto, por apropriação simbólica, marcar circuito que aglutina, numa mesma rede,
tory is more than static matter: it is a move- groups. Their moving patterns are not diferenças e, por meio delas, buscar nosso acampamentos (espaços de relativa fixa-
ment, an act—just like space itself. An act random. They reproduce in space highly reconhecimento para além da indiferença ção) localizados para assegurar condições
of survival, at the same time physical and controlled circuits that enable them to ter- – ou a indiferenciação dos espaços que nos materiais para a reprodução física (com a
psychological, material and allegorical, for ritorialize through “repetition of move- impõem para viver. Um refugiado ou mi- garantia de pasto para os rebanhos) e vi-
we so need to dominate and enjoy space as, ment,” as Deleuze and Guattari would say. grante pobre luta com todas as forças (que vência simbólico‑religiosa (os principais
through symbolic appropriation, we need Tibetan nomads, for example, still delin- lhe restam) para reconstruir um território templos budistas do Tibete estão situados 73
to mark off our differences and, through eate today what I nominate networked e um lugar no mundo, mesmo que, em sua quase sempre ao lado dos acampamentos).
these, search for our recognition beyond territories: by repeating every year a cir- precarização material, faça‑o apenas pelo Territórios móveis proliferam‑se hoje pelo
indifference—which also means the lack of cuit that combines, in the same network, acúmulo de referências simbólicas – uma mundo como nunca antes. Se, num sentido
differentiation of the spaces we are forced camping sites (thus relatively fixed places) territorialidade a ser constantemente re- mais radical, nosso próprio corpo seria uma
to live in. When it comes to a refugee or a situated in such a way as to ensure both the construída na memória. espécie de primeiro território, o primeiro
poor migrant, he or she fights with all his material circumstances for their physical Assim, ainda que nos privem de nossa ter- e indissociável espaço que nos impregna
or her strength (or what remains) to recon- reproduction (assurance of pasture for the ritorialidade concreta, material, não podem da materialidade do mundo, e se nunca as
struct a territory and a place in the world— herds) and the symbolic/religious experi- nos privar da conjugação de múltiplas ter- mobilidades foram tão bruscas ou despro-
even if, in his or her material uncertainty, it ence (in the pilgrimage to the main Bud- ritorialidades, enquanto representações porcionais, é num mundo de territórios em
were only through an amassing of symbolic dhist temples of Tibet, which are almost dos diversos territórios que partilhamos trânsito que estamos mergulhados – e, por-
references—a territoriality to be constantly always located next to the camps). ao longo de nossas trajetórias, nem dos ter- tanto, de fronteiras muitas vezes sobrepos-
rebuilt in his or her memory. Mobile territories today, as never before, ritórios míticos que construímos para su- tas ou maleáveis.
Thus, even if we are deprived of our con- multiply in the world. If in a more radical perar as agruras da insegurança territorial Talvez possamos dizer que nunca vive-
crete, material territoriality, we cannot sense, our own bodies are a sort of “first cotidiana. É o caso dos judeus em diáspora mos tão “no limite” quanto nos nossos dias,
be deprived of the conjugation of multiple territory”—the first and inseparable space, que, destituídos de seu território originário, tanto no sentido de fronteiras que rapida-
territorialities as representations of the which loads us with the world’s material- levavam consigo a territorialidade da Terra mente se refazem no confronto com Ou-
many territories we have shared along our ity—and if mobility has never been quite Prometida; ou dos guaranis M’byás, em seu tros, quanto dos limites que são transpos-
paths—or the mythical territories we have so abrupt or disproportional, then it is in nomadismo em busca da Terra sem males, tos – como aquele que nos põe entre a lega-
created to overcome the hardship of con- a world of territories in transit, or chang- uma referência territorial que os mobiliza- lidade e a ilegalidade, dentro e fora de um
stant territorial uncertainties. An exam- ing territories, that we find ourselves im- va para seguir sempre em frente. território ao mesmo tempo. Se Agamben
ple is that of the Jews during the Diaspora, mersed—and thus, also of frontiers, often Embora a mobilidade seja uma marca (2002) generaliza e se confunde quando vê
who were destitute of their original land malleable or overlapping. do nosso tempo, ela não é obrigatoria- os campos de refugiados como paradigma
but carried with them the territoriality of Perhaps we could say that we have nev- mente sinônimo de perda de referências da “vida nua”, lócus de certa animalização
the Promised Land—another is that of the er lived “on the edge” quite as much as territoriais. E isso desde sempre. Povos do homem, tem razão quando destaca seu
M’byá Guarani Indians, who were nomads nowadays—both in the sense of frontiers nômades, de existência marcada pelo estatuto jurídico‑territorial ambivalente,
quickly reconfiguring when confront- tions. It means both frailty and stability. ao mesmo tempo dentro e fora da ordem aos doze anos, em busca de estudo e melho-
ing Others, and of limits that are sur- We may lose some of our most distinctive jurídica “normal”. Mesmo no sentido mais res condições de vida ­– foram oito, embora
passed—like those that put our lives in be- characteristics by living in constant con- tradicional dos territórios clássicos, liga- restritas a um raio de pouco mais de cem
tween legality and illegality, being inside tact with the Other. We constantly reassess dos à figura do Estado‑nação, vivemos “no quilômetros –, posso afirmar que viver
and outside a territory simultaneously. our identities, dropping some attributes limite” entre legal e ilegal, exceção e regra. em trânsito não é simplesmente uma op-
If Agamben (1998) generalizes and gets and gaining others, thus being able to en- Nunca se governou tanto por medidas de ção. Mas, com o tempo, essa vivência pode
confused when he views refugee camps rich our human legacy. “Living on the edge” exceção (sobretudo aquelas que falam em nos impregnar do desejo de mudança e/ou
as a paradigm of “naked life,” the locus of therefore means, concomitantly, insecurity nome da “segurança”) e nunca se apelou de alternância espacial, que faz com que
a certain animalization of man, he is right and opportunity. tanto para o duplo circuito da legalidade e se agreguem a nós múltiplos territórios.
when he highlights the camp’s ambivalent When I think of the eight times I moved da ilegalidade em busca de sobrevivência. Essa multi ou transterritorialidade desa-
juridical‑territorial statute, which falls at with my family between the ages of six É o caso dos favelados de grandes metró- fia os que um dia defenderam a ideia de
once inside and outside of the “normal” ju- and twelve, in search of schools and bet- poles latino‑americanas, que transitam um “comportamento territorial” humano,
ridical order. Even in the most traditional ter living conditions—although they were entre as territorialidades de um Estado à feição da territorialidade animal – como
sense of classical territories, associated confined to an area of just over one hun- omisso, mas episodicamente presente, e se os animais definissem um espaço único
with the notion of a State, we live “on the dred‑kilometer radius—I can guarantee um narcotráfico opressivo e violento, mas e exclusivo para cada indivíduo ou família.
edge,” in between being legal and illegal, that living in transit is not simply a chosen que pode oferecer serviços e proporcionar Se formos defender um comportamento
the exception and the rule. Never before lifestyle. However, time can undoubtedly algum emprego. territorial animal para o homem, este seria, 79
have states governed so much by excep- turn this experience into one with a desire “Viver no limite”, claro, é algo muito distin- na verdade, a multiplicidade; mesmo entre
tion measures (especially those taken in for change and/or spatial shift, which make to quando visto da perspectiva de grupos os animais, não há comportamento territo-
the name of “national security”) and never us incorporate multiple territories, forming privilegiados, hegemônicos, ou de grupos rial padrão. Ele pode mudar temporalmente
have people tried to survive with such a a multi‑ or trans‑territoriality that chal- precarizados, subalternos. O trânsito entre dentro de um mesmo grupo. Por uma ques-
call on the double circuit of legality and il- lenges those who once supported the idea of territórios, essa espécie de transterrito- tão de sobrevivência, os animais definem
legality. This is true of the slum‑dwellers human “territorial” behavior being similar rialidade que produzimos cotidianamente, com mais rigor seu território na época do
of Latin America’s greater metropolises, to an animal territoriality—as if animals adquire sentidos radicalmente diferentes acasalamento e da procriação, para depois
who live in between the territorialities of established a unique and exclusive living para quem pode escolher em qual territó- abri‑lo novamente. Há espécies que nem
a silent State, though sporadically pres- space for each individual or family. rio deseja viver e para aqueles cujo trânsito têm um comportamento previsível em re-
ent, and the presence of an oppressive and If we were to argue for an animal “terri- entre territórios é compulsório, com opções lação ao espaço em que se reproduzem. Tudo
violent drug trafficking, but which offers torial” behavior for man, it would be one restritas pela garantia de sobrevivência no isso põe em xeque a concepção conserva-
local services and some employment. of plurality, since even amongst animals dia seguinte. “Viver no limite”, ou não defi- dora de um “instinto territorial” que servi-
“Living on the edge” is obviously very there is no standard behavior of territori- nir limites claros, pode adquirir conotações ria para legitimar, “naturalmente”, a exis-
distinct from the perspective of the more ality. It can even change temporally within diversas. Significa, ao mesmo tempo, debi- tência e a defesa da propriedade privada,
privileged, hegemonic groups, than from a single group when, for instance, as a mat- lidade e bonança. Podemos perder algumas exclusiva, entre os homens.
that of the dispossessed, oppressed groups. ter of survival during the period of mating de nossas características mais pronuncia- Não somos seres gregários nem nômades
Transit between territories, this sort of and protection of their offspring, animals das ao viver na constante presença do Ou- “por natureza”; a realidade do mundo nos
trans‑territoriality we produce daily, demarcate their territories more rigor- tro. Reavaliamos permanentemente nossas ensina a utilizar diferentes estratégias
takes on radically different meanings for ously to later expand them again, and thus identidades, perdemos traços; mas também territoriais ao longo da vida, a partir das
those who can choose the territory they break up the rigid frontiers or borders once ganhamos outros, podendo assim enrique- circunstâncias históricas, dos espaços
wish to live in and those for whom this created. There are even some species that cer nosso legado humano. “Viver no limite” geográficos e dos outros grupos com os
transit is necessary and their options are don’t behave predictably in terms of the significa, concomitantemente, inseguran- quais interagimos. Assim, a territoria-
limited by short‑term guarantees of sur- space in which they breed, challenging the ça e oportunidade. lização que construímos hoje é múltipla
vival. “Living on the edge”—or not setting conservative idea that a human “territorial Quando relembro as mudanças de resi- não apenas pela maior mobilidade, que
clear edges—can take on many connota- instinct” can even “naturally” legitimize dência que fiz com minha família dos seis nos faz ascender a diversos territórios (às
the existence and endorsement of exclu- prescribe to the world. Since building and vezes simultaneamente, via internet, por pela transterritorialidade e pelo estar em
sive private property. sharing multiple territories, despite hav- exemplo), mas também porque se encontra movimento, transitando entre territórios
We are neither gregarious nor nomadic ing a transformative potential, are not the indissociavelmente imbricada com as ter- e culturas (algo que, diferentemente da
beings “by nature” but the world reality only effectively existing ways of relating ritorialidades que acumulamos a partir de maioria dos subalternos, temos a opção de
teaches us to use different territorial strat- to space (and of building territories within), nossas experiências no passado. Por outro escolher), reconhecem‑se também aqueles
egies during our lives, according to histor- they also cannot be the only ways to be ad- lado, muitas vezes, é também em relação a que almejam, ainda que temporariamente,
ical circumstances, geographical spaces, vocated and promoted. uma territorialidade futura (almejada) que a serenidade de um mesmo território que
and the other groups with which we in- If experiences like mine and Marie Ange’s podemos moldar os traços de nossa terri- lhes garanta um mínimo de segurança e
teract. Thus, the territorialization we build are deeply shaped by trans‑territoriality torialização concreta no presente. Nosso abrigo. Não importa a concepção de “lar”
today is multiple not only due to greater and by constantly moving in between ter- “viver no limite” é também um viver no que carregamos. O que importa é a garantia
mobility, which makes us subject to many ritories and cultures (which, unlike the op- limiar de um tempo que, como tempo pre- da possibilidade, sempre em aberto, se as-
territories (at times simultaneously, for pressed, we are able to choose), we also rec- sente, só se define como contração de ter- sim o desejarmos, de (re)construí‑lo e (re)
instance, via the Internet), but also because ognize and respect those who long for, even ritorialidades passadas e expansão rumo a habitá‑lo de outro modo. Não é a maior ou
it is inextricably overlapping with the ter- if temporarily, the tranquility that a single territórios de um futuro aberto, que esta- menor mobilidade territorial que fará de
ritorialities we accumulated through past territory can offer, ensuring minimal safety mos ainda por construir. nós mais ou menos conservadores. Mas é
experience. On the other hand, it is often and protection. It does not matter the idea “Viver no limite”, transitar entre diferen- inegável o potencial da multiterritoriali-
in relation to a (craved) future territorial- of “home” that we bear: what matters is the tes territórios, construindo nossa multi dade para revelar uma maior consciência 81
ity that we are able to shape our concrete certainty of always having the option, if we ou transterritorialidade, implica também, do caráter ao mesmo tempo comum e múl-
territorialization of the present. Our “liv- wish, to (re)construct and (re)inhabit it in constantemente, traçar novos limites – tiplo dos seres humanos.
ing on the edge” is also a living on the verge another way. It is not the simple notion of para recompô‑los, mais adiante, de outras
of a time, which, as present, is only defined a greater or lesser territorial mobility that formas. Ainda que provisoriamente, nin- Rogério Haesbaert (São Pedro do Sul-RS, 1958) é
as a contraction of past territorialities and will turn us into more or less conserva- guém vive sem a estabilidade mínima de geógrafo. Doutor em geografia humana pela
expansion towards territories of an open tive people. However, it is undeniable that um “lar”. Mesmo que essa concepção de lar USP, com estágio doutoral no Instituto de Ci-

future that we are yet to build. multi‑territoriality carries the potential to seja profundamente diversa entre indiví- ências Políticas de Paris, é pós-doutorado na
Open University, Inglaterra, e professor do
“Living on the edge” today, moving in be- a greater awareness of both the ordinary duos e grupos humanos. Para uns, o acon-
Departamento de Geografia da UFF-Niterói (RJ).
tween different territories, and building and multiple nature of human beings. chego do lar é encontrado numa caravana
Publicou livros como Regional-global (2010), O
our multi‑ or trans‑territoriality, also en- que passa (mas que também, regularmente, mito da desterritorialização: do ‘fim dos terri-
tails a constant outlining of new limits—to Rogério Haesbaert (São Pedro do Sul-RS, Bra-
para); é como se pudessem carregar o terri- tórios’ à multiterritorialidade (2004), Territó-
redraw them up later, in other ways. For zil, 1958) is a geographer with a doctorate in tório com eles. Para outros, o lar é espacial- rios alternativos (2002) e Globalização e frag-

nobody lives, not even temporarily, with- human geography from the University of São mente delimitado, fixo e temporalmente mentação no mundo contemporâneo (1998). Foi
professor da PUC-RJ e professor-visitante nas
out a minimal stability of a “home”—even Paulo, a doctoral internship at the Political duradouro. Nesse tempo de forças tão di-
Science Institute of Paris, and a postdoctorate universidades de Toulouse-Le Mirail, Paris 8 e
if the idea of home is profoundly differ- versas, entre a contenção dos fluxos e a in-
from the Open University, England. He holds a Buenos Aires. Vive e trabalha no Rio de Janeiro.
ent to each individual or group. For some, tensificação da mobilidade, o que importa
professorship at the Geography Department of
the coziness of a home is found in a mov- the Fluminense Federal University in Niterói
é reconhecer que não temos um único mo-
ing caravan (that also stops regularly), as if (RJ). His published works include Regional- delo para receitar ao mundo. Construir e
they could carry the territory with them. global (2010), O mito da desterritorialização: partilhar múltiplos territórios, apesar de
For others, home is spatially defined, more do ‘fim dos territórios’ à multiterritorialidade potencialmente transformador, não só não
(2004), Territórios alternativos (2002), and Glo-
fixed, and temporally lasting. In times of é a única forma de nos relacionarmos com
balização e fragmentação no mundo contem-
such diverse forces—from the contain- o espaço como pode não ser a única a ser
porâneo (1998). He was a professor at PUC-RJ and
ment of fluxes to the intensification of has guest lectured at Toulouse-Le Mirail, Paris
defendida e propagada.
mobility—what matters, thus, is to recog- VIII, and Buenos Aires universities. He lives and Se experiências como a minha e de Ma-
nize that we do not have a single model to works in Rio de Janeiro. rie Ange são profundamente moldadas
co-movere

Commovere (Latim)

deslocar
ser movido
mover junto
enternecer
afetar

como ver

Commovere (Latin)

to displace
to be moved
to move with
to be touched
to affect

como ver
(how to) (see)
MarÍa Magdalena Campos-Pons

Navegar entre territórios e culturas é traçar linhas invisíveis. Como um mergulhador,


conforme submergimos, deixamos para trás um fio de Ariadne, uma corda de segu-
rança que nos permite retornar à superfície mesmo no escuro, mas também nos enreda
To navigate between territories and cultures is to draw invisible lines. Like a diver in
em caminhos imprevistos. Enquanto pensava em quais artistas convidar para cola-
descent, we leave behind us an Ariadne’s thread, a safety rope we can follow back to
borar neste Caderno, um desenho insistia em vir à minha memória. Nele, uma mulher
the surface, even in the dark, but which can also lead us down unexpected paths. As I
miúda está sentada sobre as folhas de um fruto gigante, cujas raízes, subvertendo a
reflected on which artists to invite to collaborate on this Caderno, a drawing kept pop-
gravidade, se lançam para o céu, traçando vertiginosos mapas de mundos por vir. Para
ping into my mind. In the picture in question, a tiny woman is seen sitting on the leaves 91
me lembrar da autora do desenho, tive de retomar meu fio de Ariadne e viajar até 2005,
of some enormous fruit, whose roots, subverting gravity, grow skyward, doodling the
quando, em uma passagem por Nova York, me deparei com a imagem, em um convite
intricate maps of future worlds as they climb. To recall the name of the artist, I had to
para uma exposição da artista cubana María Magdalena Campos-Pons. ¶ As finas ra-
follow my Ariadne’s thread all the way back to 2005, when, on a visit to New York, I first
ízes aladas ecoaram intensamente na realidade que eu vivia naquele momento. Após
saw the image on the invitation to an exhibition by the Cuban artist María Magdalena
meses trabalhando com jovens afetados por conflitos étnicos e religiosos, e crianças
Campos-Pons. ¶ These thin, airborne roots echoed resoundingly with the reality I was
deslocadas pelo tsunami no Sri Lanka, havia parado em Nova York a caminho do Haiti.
living at that moment. After months working with youths affected by ethnic and reli-
A plácida figura, nua e destemida sobre o fruto, remeteu-me aos retratos em polaroide
gious conflicts, and children displaced by the tsunami in Sri Lanka, I had stopped over
que havia feito daquelas crianças sobre os tênues vestígios de seus lares. Diferente-
in New York en route to Haiti. That placid figure, naked and fearless on top of the fruit,
mente dos adultos, elas circulavam com desenvoltura entre as ruínas do passado e o
reminded me of the Polaroids I had taken of those kids standing on the ruins of their
presente improvisado, fazendo-me pensar naquelas raízes que, mesmo desaterradas,
former homes. Unlike the adults, they moved confidently across the rubble of the past
continuam nutrindo e acolhendo. ¶ Oito anos se passaram até que pudesse contar essa
that was now their makeshift present, and this made me think of those roots and how,
história para María Magdalena. O desenho, Ephyphyllum (2005), foi um dos muitos
even uprooted, they continue to provide nourishment and shelter. ¶ Eight years went
pontos de confluência da nossa conversa sobre sua colaboração. De origem afro-cu-
by before I was able to tell this story to María Magdalena. The drawing, Ephyphyllum
bana, conhecida por uma obra que parte de sua biografia familiar para abordar temas
(2005), was one of the many points of confluence in our conversations about this col-
universais como exílio e diáspora, a artista usa o próprio corpo para explorar as múl-
laboration. Known for work in which she draws from her family background in order to
tiplas facetas dessas identidades híbridas e em movimento. Criada para o Caderno,
broach such universal themes as exile and Diaspora, the African-Cuban artist uses her
Barroco mínimo é uma série de fotografias e desenhos que justapõe símbolos culturais
own body to explore the multiple facets of these shifting, hybrid identities. Created for
diversos a coordenadas geográficas para explorar poeticamente os resíduos e memó-
this Caderno, Minimal Baroque is a series of photographs and drawings that juxtaposes
rias que acumulamos nas “gavetas” de nossos corpos em trânsito. [mab]
various cultural symbols and geographic coordinates to explore poetically the residues
and memories that accumulate in the “drawers” of our bodies in transit. [MAB]
Em destierro María Magdalena Campos-Pons

Estou realizando uma exploração poética americana, ser do mundo, ser minoria, ser
sobre a acumulação de resíduos, ideias, cubana, ser estrangeira, ser mulher, ser
desejos e dados sem registro no reserva- negra, ser artista, ser cidadã, ser mãe, ser
tório da memória de nossos corpos em esposa, ser pensadora, ser fazedora. Há
transição. De lugar em lugar, de cidade em uma beleza inexplicável na angústia que
cidade, de morada em morada, reconstruí esses paradoxos provocam, e cada gaveta
um labirinto de gavetas em minha cabeça, contém questões e visões que provocam
sempre tendo em mente esta imagem do pensamentos. Isso é o que Baroque Mini‑
povo iorubá de que a cabeça é um templo a mal [Barroco mínimo] significa para mim; 93
ser venerado, um castelo, um abrigo. um híbrido, uma justaposição de elemen-
Dentro desse labirinto, essas gavetas fun- tos contrastantes, um lugar de contradição
cionam como um repositório da memória. onde a beleza está profundamente incrus-
Dentro delas armazenamos nossa con- tada no paradoxo.
dição transitória de ser, junto com nosso
sentimento fragmentado de pertencer e María Magdalena Campos-Pons (Matanzas,
todas as outras percepções que se acumu‑ Cuba, 1959) é artista e ativista cultural. Fre-
lam quando se está no exílio. Dentro delas quentou a Escuela Nacional de Arte e o Institu-

também guardamos tudo o que não quere- to Superior de Arte, em Havana, e o Massachu-
setts College of Art, em Boston, EUA. Egressa da
mos perder, mais todas as coisas novas que
pintura, trabalha com instalação, fotografia
adquirimos durante nossas viagens. Essas
e performance em obras que investigam histó-
gavetas são como compartimentos de um ria, memória e o corpo negro nas narrativas
museu particular, onde arquivamos pala- contemporâneas. Participou das bienais de
vras não ditas, coisas não vistas, caminhos Havana (2012), Veneza (2001 e 2013) e Johannes-

não trilhados, feridas novas e cicatrizadas, burgo (1997), e da mostra Pan-Africana de Arte
Contemporânea, no Museu de Arte Moderna
e todas as magníficas maravilhas que en-
da Bahia (2005). Foi contemplada com o prêmio
contramos ao longo de nossa existência.
Rappaport (2007) e com o Bunting Fellowship
No exílio/destierro, trabalhamos esse ar- (Harvard, 1993). É professora da School of the
quivo constantemente, lutando para en- Museum of Fine Arts de Boston, onde fundou a
contrar um sentimento de pertencer: ser Galeria GASP. Vive e trabalha em Boston.
In exile

I am undertaking a poetical exploration be an artist, to be a citizen, to be a mother,


on the accumulation of residues, ideas, to be a wife, to be a thinker, to be a mak-
desires, and unregistered data in the er. There is an inexplicable beauty in the
memory reservoir of our bodies in angst that these paradoxes provoke, and
transition. From place to place, from city every drawer holds thought-provoking
to city, from dwelling to dwelling, I have questions and visions. This is what Ba‑
reconstructed a labyrinth of drawers in my roque Minimal is to me; a hybrid, a juxta-
head; always keeping in mind this image position of contrasting elements, a place
from the Yoruba people that the head is a of contradiction where beauty is deeply
temple to be worshiped, a castle, a shelter. inscribed in the paradox.
Within this labyrinth these drawers func-
tion as a repository of memory. Inside MarÍa Magdalena Campos-Pons (Matanzas,
them we store our transient quality of be- Cuba, 1959) is an artist and cultural activist.
ing, along with our fragmented sense of She studied at the Escuela Nacional de Arte

belonging and all other senses that pile up and the Instituto Superior de Arte in Havana,
and at the Massachusetts College of Art in
when one is in exile. Inside them we also
Boston, USA. Originally a painter, she now uses
stack away all we don’t want to lose plus all
installation, photography, and performance
new things we acquire along our journeys. in works that examine the black body, history,
These drawers are like compartments of a and memory in contemporary narratives. She
private museum where we archive words has shown work at the biennials of Havana

not spoken, things not seen, paths not (2012), Venice (2001 and 2013), and Johannesburg
(1997), and at the Pan-African Contemporary
taken, fresh and healed wounds, and all
Art Exhibition at the Museu de Arte Moderna
the magnificent wonders we encounter
da Bahia (2005). She has received the Rappaport
throughout our existence. Prize (2007) and a Bunting Fellowship (Harvard,
In exile/destierro, we are constantly 1993). She lectures at the School of the Museum
working around this archive, struggling to of Fine Arts in Boston, where she founded GASP

find a sense of belonging: to be American, Gallery. She lives and works in Boston.

to be worldly, to be a minority, to be Cuban,


to be an alien, to be a woman, to be black, to
Simon Njami

The first thing I did when I started organizing this publication was to break in a new
notebook. At the top of the first page I wrote a line from an e-mail I’d received some
years before: “If you want to understand the space defined by geography, you must
first go in search of yourself.” ¶ And, at the foot of the page, the words: What propels me
is the void. ¶ Between the top and foot of the page paraded numerous reflections, vari-
ous existential crises, and a certain distancing from the art world. In this intermezzo,
I realized that my decision to delve into the phenomenon of mobility through the ex-
periences of others was, in a sense, a way of silencing my own inner question: in the
end, what is it that moves me? ¶ As I moved between “more or less temporary homes”
and accumulated encounters, networks, and languages, I met interlocutors for whom A primeira coisa que fiz quando comecei a delinear esta publicação foi estrear um novo
that same question seemed to resonate. People who, in their nomadism (even more per- caderno de notas. No topo da primeira página, escrevi uma frase recebida por e‑mail
manent than my own), kept me company, especially when, faced with my return to the anos antes: “Se você quiser entender o espaço definido pela geografia, primeiro precisa
“sedentary world,” I had to deal with the incessant accusation of not being able to “settle partir em busca de si mesma” – Simon Njami. ¶ E, no pé da página: O que move é o branco.
down.” ¶ The author and curator Simon Njami was one of these interlocutors. He is a no- ¶ Entre o topo e o pé da página passaram muitas reflexões, várias crises existenciais e
madic subject par excellence, not only in the literal sense of the word—during our con- um certo distanciamento do mundo das artes. Neste intermezzo, percebi com clareza
versations about his participation in this Caderno, he wrote to me from at least seven que minha opção por imergir no fenômeno da mobilidade por meio das experiências
different hotels—but above all in the sense proposed by Rosi Braidotti, for whom “A ‘no- de outros não deixava de ser uma maneira de calar minha pergunta interna: afinal, o
madic subject’ is a myth, a political fiction, that allows one to think through and move que me move? ¶ À medida que navegava entre casas “mais ou menos temporárias” e
across established categories and levels of experience: blurring boundaries without multiplicava encontros, redes e línguas, fui encontrando interlocutores para quem essa
burning bridges.” (Braidotti 1994) ¶ For this publication I invited Simon to discuss with pergunta também parecia ecoar. Gente que, em seu nomadismo (ainda mais perma-
me our nomadic perspectives—especially this way of being in the world creating and nente que o meu), me fazia companhia, sobretudo quando, confrontada com o retorno
recreating homes. My first idea was to create a shared travel log, an artistic collabora- ao “mundo sedentário”, tinha de lidar com a eterna acusação de não “parar em casa”. ¶ O
103
tion based not only on dialogues, but also on images, works, and references. Ironies of escritor e curador Simon Njami foi um desses interlocutores. Ele é um sujeito nômade
mobility obligent, our Moleskines were traded in for something more virtual, as the por excelência, não apenas no sentido literal da palavra – durante nossa conversa so-
lack of fixed abodes on either side proved to be a very real obstacle. Of the initial intent bre sua participação no Caderno, escreveu‑me de pelo menos sete hotéis diferentes –,
remains the fluid tone of this correspondence of comings and goings, digressions, and mas sobretudo no sentido sugerido por Rosi Braidotti, para quem “um ‘sujeito nômade’
pauses in multiple languages, in which the ideas came together organically. [MAB] é um mito, uma ficção política, que permite refletir e nos mover através das categorias
estabelecidas e dos níveis de experiência: borrando fronteiras sem queimar pontes”
(Braidotti, 1994). ¶ Propus a Simon uma conversa para confrontar nossas perspectivas
nômades – sobretudo este estar no mundo criando e recriando casas. Em princípio, a
ideia era fazermos um caderno de viagens comum, uma colaboração artística a partir
não só de diálogos, mas também de imagens, obras e referências. Ironias da mobilidade
obligent, nosso Moleskine teve que ser adaptado ao mundo virtual, já que a ausência de
endereço fixo dos dois lados era um empecilho real. Do desejo inicial, ficou o tom fluido
desta correspondência de idas e vindas, digressões e pausas em múltiplas línguas, na
qual as ideias se costuram de forma orgânica. [MAB]
From: marie ange bordas De: Simon Njami
Subject: Home Assunto: Re: Lar
Date: April 17, 2013 Data: 13 maio 2013

Bonjour Simon, Cartas persas, Viagem à Itália, de


Stendhal, o último romance de Dany
I’m sending you the project for the Laferrière, do qual esqueci o título,
Caderno attached. You appear Cândido, O coração das trevas, A África
on page 10… I like the idea of talking fantasma... E todo Bruce Chatwin1.
about the concept of “home” based on our
nomadic experiences, in an epistolary
exchange of images, texts, ideas,
references and, maybe, fiction. De: marie ange bordas
To kick things off, can you recommend Assunto: Re: Lar
any novels on the subject? Data: 13 maio 2013

Interessante, pergunto de livros sobre


“lar” e você me manda de volta às viagens.
From: Simon Njami Tão sintomático de nosotros…
Subject: Re: Home
Date: May 13, 2013

Persian Letters, Stendhal’s Voyages em De: Simon Njami


Italie, Dany Laferrière’s latest novel—I Assunto: Re: Home
don’t remember the title. Candide, Heart Data: 13 maio 2013
of Darkness, L’Afrique fantôme… And É mesmo. Da próxima vez, casa. Beijos
everything by Bruce Chatwin.1 105

De: marie ange bordas


From: marie ange bordas Assunto: Lar
Subject: Re: Home Data: 17 abril 2013
Date: May 13, 2013
Bonjour Simon,
Interesting, I ask for books about “home”
1. Njami refers to Persian Letters (1721), by the and you send me back on the road. Aqui vai, em anexo, o projeto para o 1. Njami se refere a Cartas persas (1721), do
French political scientist and author Charles Louis So revealing of nosotros… Caderno. Você aparece na página 10... cientista político e escritor francês Charles Louis de
de Montesquieu; L’énigme du retour (Grasset, 2009), Montesquieu; L’énigme du retour (Grasset, 2009),
Gosto da ideia de conversar sobre o
by Dany Laferrière, Haitian-Canadian author and de Dany Laferrière, escritor e roteirista haitiano-
screenwriter; Candide (1759), by Voltaire, French
conceito de “lar” a partir de nossas -canadense; Cândido (1759), de Voltaire, filósofo
Enlightenment philosopher; Heart of Darkness experiên­cias nômades, numa troca iluminista francês; O coração das trevas (1902), do
(1902), by the Polish realist Joseph Conrad; L’Afrique From: Simon Njami epistolar de imagens, textos, ideias, escritor realista polonês Joseph Conrad; A África
fantôme (1934), by Michel Leiris, French surrealist fantasma (1934), de Michel Leiris, escritor surrealista
Subject: Re: Home? referências e, talvez, ficção.
and ethnographer; and Bruce Chatwin (1940–1989), e etnógrafo francês; Bruce Chatwin (1940-1989),
the British author who shaped the 20th-century Date: May 13, 2013 Para começar, você teria sugestões de escritor britânico que configurou a narrativa de
travel narrative. Yes, indeed. Next stop is home. Beijos romances sobre o assunto? viagem no século 20.
“In the House of Fiction you can hear, today, “Na Casa da Ficção, ouve-se, hoje, a profunda
the deep stirring of the ‘unhomely.’ You must inquietação do ‘sem-lar’. Permita-me usar
permit me this awkward word—the unhomely— essa expressão estranha – o ‘sem-lar’, porque
because it captures something of the estranging ela captura algo da sensação alienante de
sense of the relocation of the home and the world realocar lar e mundo em um lugar profano.
in an unhallowed place. To be unhomed is not Estar sem-lar não é o mesmo que ser sem-
to be homeless, nor can the ‘unhomely’ be easily -teto; mas esse ‘sem-lar’ tampouco pode
accommodated in that familiar division of social ser acomodado na separação da vida
life into private and the public spheres. The social em público e privado que nos é tão
unhomely moment creeps up on you stealthily familiar. O momento ‘sem-lar’ o acossa
as your own shadow and suddenly you find sorrateiramente, como se fosse sua própria
yourself with Henry James’ Isabel Archer ‘taking sombra; e, de repente, você se vê como Isabel
the measure of your dwelling’ in a state of Archer, de Henry James, que ‘mede sua
‘incredulous terror.’” morada’ em um estado de ‘terror incrédulo’.”
“In a feverish stillness, the intimate recesses of “Em sua imobilidade febril, os recessos
the domestic space become sites for history’s íntimos do espaço doméstico tornam-se
most intricate invasions. In that displacement o lugar onde se dão as invasões mais
the border between home and world becomes intrincadas da história. Nesse deslocamento,
confused; and, uncannily, the private and the os limites entre lar e mundo se confundem;
public become part of each other, forcing upon de forma sinistra, privado e público
us a vision that is as divided as it is disorienting. tornam-se parte um do outro, impondo-nos
“In the stirrings of the unhomely, another world uma visão que é, ao mesmo tempo, dividida
becomes visible.” 2 e desnorteadora.” “Na inquietação do
‘sem-lar’, outro mundo se torna visível.” 2

107

2. Fragmentos de Bhabha, Homi. “The World and the Home”. In: Social Text, No. 31/32, Third World and Post-Colonial
2. Fragments from “The World and the Home,” by Homi Bhabha, in Social Text 31/32, Third World and Postcolonial Issues. Duke University Press, 1992, pp. 141-153. Disponível em: http://www.jstor.org/stable/466222, em inglês.
Issues (1992): 141–153, Duke University Press. Available at: http://www.jstor.org/stable/466222. In the article Visões No artigo Visões narrativas do migrante no seu processo de construção e redefinição de identidade, a professora
narrativas do migrante no seu processo de construção e redefinição de identidade, Maria Conceição Monteiro, chair titular do Departamento de Letras da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) Maria Conceição Monteiro
of the Department of Literature at the Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), has this to say on the term escreve, sobre o termo unhomely (sem-lar): “tal significante capta um sentimento que se apodera do sujeito como
unhomely: “the term captures a feeling that seizes upon the subject as if it were its very shadow, leading it to view the se fosse a sua própria sombra, levando-o a ver o lar com terror. Entretanto, essa experiência funciona como um rito
home with terror. However, this experience functions as an ‘extra-territorial’ rite of initiation, as the world first closes de iniciação ‘extraterritorial’, pois que o mundo se fecha e, em seguida, se expande para o sujeito, possibilitando, a
to, and then expands for, the subject, allowing for the construction and redefinition of identity from that point on.” partir daí, a construção e redefinição da identidade”.
From: Simon Njami From: marie ange bordas De: Simon Njami De: marie ange bordas
Subject: Bhabha Subject: hotel x home Assunto: Bhabha Assunto: hotel x casa
Date: June 8, 2013 Date: June 17, 2013 Data: 8 junho 2013 Data: 17 junho 2013

Home is certainly a fiction. I think one I’ve just received the photos of your “Lar” é, certamente, uma ficção. Acho que Acabo de receber as fotos de seu hotel
can only define a home by opposing it hotel in Guadalupe; they coincide só é possível definir “lar” em oposição em Guadalupe; coincidiram com minha
with public spaces or, to be more precise, with my move to a new house here in a lugares públicos, ou, para ser mais mudança para uma nova casa aqui em
unmarked territories. What I mean to Johannesburg. You hotel vs. me house. preciso, territórios não demarcados. O Johannesburgo. Você hotel x eu casa.
say is that we decide what is our home, This parallel makes me think that I que quero dizer é que cada um escolhe Esse paralelo me fez pensar que sempre
which is not necessarily linked with always end up adding a touch of “personal seu lar, que não precisa estar atrelado acabo dando um toque de “domesticidade
family history or heritage of any kind. It domesticity” to the places I end up in. à história familiar ou a qualquer tipo pessoal” aos lugares onde aterrisso.
has to do with a certain particular type of Even when “homeless,” with no fixed de herança. Tem mais a ver com um Mesmo quando vagava “sem teto”, de país
intimacy. Therefore, what we might call abode to return to, living temporarily tipo particular de intimidade. Logo, o em país, sem ter um porto fixo ao qual
home may be a place totally apart from in sublet rooms, other people’s houses, que chamamos de lar pode ser um lugar retornar, habitando temporariamente
childhood, from memories and so on. And, community shelters or hostels, everyone totalmente desvinculado da infância, das quartos sublocados, casas alheias,
even if home is always, somehow, linked who visited me said they “felt at home,” memórias e afins. E, mesmo que a ideia de alojamentos comunitários ou albergues,
with Memory, what I would call home comfortable in my temporary dwellings. lar esteja sempre, de alguma forma, ligada todos que me visitavam sempre diziam
would be a place that I have consciously Does that mean I am not completely à Memória, chamo de lar um lugar que se “sentir em casa”, aconchegados em
chosen and invested with a certain type of detached from the primary idea of escolhi conscientemente, e ao qual atribuí meus pousos temporários. Será que isso
memories that would enter this fictional “home”? Or that, though scared of the very lembranças que entram na construção quer dizer que não estou totalmente
construction of the self. It is a mirror notion of permanence, I nevertheless ficcional do meu “eu”. É um espelho através desapegada dessa ideia primeira de “lar”?
through which I can recognize the “I” that create safe harbors for myself? do qual posso reconhecer o “eu” que Ou que, apesar de a possibilidade de
I want to be or that I think I am. There You, on the other hand, spend most of quero ser ou acho que sou. Há sempre um permanência me assustar, busco sempre
is always an outside and an Inside. The your time in hotels, places where “you exterior e um Interior. O Interior é aquele criar espaços seguros de acolhida?
Inside being that territory that I have the owe nothing to anyone”… território que tenho a ilusão de dominar Enquanto isso, você passa a maior parte
illusion to master because I am the one who porque sou o guardião das chaves e decido de seu tempo em hotéis, esses lugares
holds the keys and who decides who I shall quem pode entrar. Por oposição, o exterior onde “não se deve nada a ninguém”… 109

let in. In opposition, the outside would fica sendo, portanto, a terra de ninguém,
then become this no-man’s-land that can aquela que qualquer um pode reivindicar.
be claimed by anyone. The questions of As questões de localização e singularidade
location and that of uniqueness become tornam-se mais complexas pelo fato
then complexified by the fact that, even if de que, ainda que eu considere o lar um
one could consider home as a unique and espaço único e não reproduzível, ele pode
irreproducible space, it is yet something encontrar pequenas (no sentido de tempo
that can find minor (in the sense of gasto e de investimento físico) traduções
time spent and physical investment) em geografias diferentes. É por isso que
translations in different geographies. posso dizer que carrego parte deste lar
That’s why I can claim to carry a part of invisível para onde vou; porque o âmago de
that invisible home everywhere, because qualquer lar que eu seja capaz de criar sou
the core of any home I may create is myself. eu mesmo.
From: Simon Njami De: Simon Njami
Subject: Going away Assunto: Partir
Date: June 24, 2013 Date: 24 junho 2013

There’s one thing that always strikes me in Tem uma coisa que sempre me arrebata na
your poetics. The “romanticism” you put into sua poética. É o romantismo que você coloca
leaving or going away. The almost mystical no “partir”. É esse apelo quase místico (da
call (in the way you describe it). I’ve never felt maneira como você o descreve). Eu nunca
that call, because I was born away. So there’s senti esse apelo, porque já nasci “partido”.
never been anything magical about going Então a ideia de partir nunca teve nada de
away. It’s what I call, to annoy you of course, mágica. É o que chamo, para encher você,
but with conviction all the same, your abstract claro, mas não sem uma certa convicção, de
“tendency.” Maybe I should call it romantic. If sua “tendência abstrata”. Talvez eu devesse
going away is the only goal, then it’s better to chamá-la sobretudo de romântica. Se partir é o
stay. For me, holidays represent the greatest único objetivo, então mais vale ficar. As férias
metaphor of that kind of going away. People para mim representam a maior metáfora desse
go away for the idea of going away, and to do partir. Parte-se pela ideia de partir, e para não
nothing. To fare niente. And they’re content se fazer nada. Para fare niente. E contenta-
with that. I’ve never liked holidays. I’ve never -se com isso. Nunca gostei de férias. Nunca
liked the conversations where people ask: gostei dessas conversas em que as pessoas se
“Did you go away this summer?” Or “Will perguntam: “Saiu para onde esse verão?” Ou
you be going away?” I don’t go away. I go. ainda, “Vai sair para onde?” Eu não saio. Eu
Which means a concrete objective, a goal vou3. O que significa um objetivo concreto,
to reach. It isn’t always obtained, of course, uma finalidade. É claro que o objetivo não é
but that hardly matters. Once you’re there alcançado sempre, necessariamente, mas
you always find another goal to replace the isso não tem muita importância. Sempre se
original. And it’s true that there’s always acha outro objetivo para substituir aquele que 111

this notion of “displacement” in the images você tinha inicialmente. E é verdade que nas
you’ve produced. But unlike your images, imagens que você produziu sempre há essa
which aptly show that displacement can be ideia de “deslocamento”. Mas, ao contrário de
something interior, or even impossible (or at There was always a calling. Sempre houve o chamado. suas imagens, que mostram tão bem como o
least an illusion), your romanticism implies Suspended between worlds, movement Suspensa entre mundos, o movimento deslocamento pode ser algo interior, e talvez
that when we’re tied to Ariadne’s thread or became a space of comfort, a safe tornou-se espaço de conforto, espaço impossível (ou, pelo menos, ilusório), já que o
the umbilical cord, the displacement is first space of absence. When I was a child, seguro de ausência. Quando criança, fio de Ariadne ou o cordão umbilical prendem
of all physical. It’s a form of flight, in a way, to returning from long car journeys with na volta de longas viagens de carro com você, seu romantismo dá a entender que o
not stay in the place where “coming back was my adventurous father, I’d rest my face o pai aventureiro, encostava o rosto na deslocamento é, antes de tudo, físico. Uma fuga,
never as exciting as going away.” against the window and watch the starry janela e observava o céu estrelado num de certa forma, desse lugar para o qual “voltar
sky with a mixture of panic and desire, misto de pânico e desejo, à procura da nunca era tão excitante quanto partir”.
looking out for some alien spaceship nave extraterrestre que me sequestraria.
coming to abduct me. The spaceship Invariavelmente a nave não aparecia e
never did come, and coming back home voltar para casa nunca era tão excitante 3. Em francês, o verbo usado em expressões similares a “sair
was never as exciting as going away. quanto partir. de férias” é “partir”: Tu es parti où cet été? Tu vas partir où?
From: marie ange bordas estável onde não me reconheço e que teimo
Subject: Re: Going away em contestar. Mas se nos consideramos,
Date: June 26, 2013 como Achille Mbembe propõe, “homem
no mundo”, que habita e se deixa habitar
Romanticism? I’m not so sure. Maybe in the por diferentes lugares, qual é o ponto de
beginning it was a calling to throw myself partida? De onde é que partimos?
into the world, carrying with me the roots
I had decided, from a young age, would be
portable. To silence an inevitable anxiety,
perhaps? De: Simon Njami
I like this idea of going rather than going Assunto: Re: Partir
away. After all, the idea of going away Data: 6 julho 2013
makes me think of being permanently
anchored to some fixed territory to which Partimos sempre, me parece, de nós
you invariably want to return—some place mesmos. Deste “eu” complexo, ambíguo,
it’s “better to be.” I’m referring here to that feito de experiências contraditórias que
stable geography in which I just don’t see nem sempre são verbalizáveis, porque se
myself and which I insist on contesting. But compõem, em parte, de sensações puras.
if we consider ourselves, as Achille Mbembe Refazer ou rever a geografia do mundo
proposes, “men-in-the-world,” who inhabit nunca me pareceu uma necessidade
and allow ourselves to be inhabited by urgente, já que a única geografia que vale é a
different places, then what is the point of que eu conheço. Essa geografia que apreendi
departure? Where are we leaving from? não nos livros, dos quais desconfio (afinal,
eu faço livros), mas com minha carne, meu
olhar, as solas dos meus sapatos. Talvez
tudo isso tenha origem na minha biografia.
From: Simon Njami in my biography. But isn’t that where De: marie ange bordas Mas tudo não parte sempre daí? Nasci em 113
Subject: Re: Going away everything always starts from? I was Assunto: Re: Partir uma situação de desequilíbrio geográfico
Date: July 6, 2013 born in a geographical imbalance that Data: 26 junho 2013 que nunca me permitiu cair na armadilha
never allowed me to fall into the trap of do pertencimento. Inventei meus países
I believe we always leave from our self. belonging. I invented my countries and Romantismo? Não tenho tanta certeza. e minhas famílias ao longo de minhas
This complex, ambiguous self, made of my families throughout my travels, which Talvez no início tenha sido, sim, um peregrinações, que, entre outras coisas, me
contradictory experiences that cannot have taught me the principle of relativity, chamado para me atirar no mundo, ensinaram o princípio da relatividade. Sou
always be verbalized, because they are amongst other things. I am the center of carregando estas minhas raízes que decidi o centro da minha vida, já que só posso ver o
partly composed of pure sensations. I’ve my life, because I can only see the world portáteis desde muito jovem. Para calar a mundo através de meu próprio olhar. Como
never considered reviewing or revising through my own gaze. Since I am this angústia inevitável? esse centro é movediço, essa bússola de mim
the geography of the world to be an urgent moving center, this self compass, all the Eu gosto dessa ideia de ir, em vez de partir. mesmo, todos os territórios em que ponho os
matter, since the only geography that territories I set foot in become my centers, Afinal, a ideia de partir me dá a sensação pés se tornam centros, porque é a partir deles
counts is the one I know. Not through books, because I envisage the world from them. de se estar permanentemente ancorada que encaro o mundo. À semelhança dessa
which I’m wary of (I am a maker of books), Just like the notion of “we” that Ernst a um território fixo ao qual se deve/se noção de “nós” que Ernst Bloch me ensinou
but through my flesh, my gaze, the soles of Bloch taught me to hold dear. There can be quer invariavelmente retornar, onde é a estimar. Não é possível haver “nós” se não
my shoes. Perhaps all this finds its origin no “we” if there is no “I.” “melhor estar”; me remete a essa geografia houver “eu”.
From: marie ange bordas De: marie ange bordas
Subject: Re: Going away Assunto: Re: Partir
Date: July 10, 2012 Data: 10 julho 2012 

Exactly, the trap of belonging. From a very Pois é, a armadilha do pertencimento.


young age, I never felt like I “belonged” Desde bem jovem, nunca me senti
to any one place. Perhaps it was because “pertencendo” a um único lugar. Talvez
I’d grown up between two cultures, two por ter crescido entre duas culturas, duas
languages, in a place where the “foreigner” línguas, em um lugar onde o “estrangeiro”
was not out there, abroad, but inside my não estava fora, no exterior, mas dentro
own home, in the figure of my father. One da minha própria casa, na figura de meu
way or another it is true: since childhood, pai. De todo jeito, reitero que sim: desde
going away, leaving home, never scared criança, partir, sair de casa, nunca me deu
me. It was always something exciting. medo; era, sim, sempre, excitante.
Today, after so many moves, navigating Hoje em dia, depois de tantos movimentos,
this expanded territory in which comings navegando neste território expandido
and goings are blurred, where “home” onde idas e vindas se confundem,
is many and perhaps none, the act of onde a “casa” são muitas e talvez ainda
leaving has become simply one of moving, nenhuma, o partir talvez tenha se tornado
a natural flow between spaces of being. simplesmente movimento, um fluxo
After all, truly being in the world, fluidly natural entre espaços de estar. Afinal, estar
but fully, is only possible in this self- no mundo de fato, fluida mas inteira, só
containment, guided by an inner compass. é possível neste acolher-me, tomando o
In this movement, something deeper prumo desta bússola interior.
grounds me, like a ground wire that Neste movimento, algo mais profundo
connects organically deep below the me aterra, um fio terra que me conecta
surface and not to just one source, but with organicamente para além da superfície e 115

various connecting ends: to relationships Simon Njami (Lausanne, Switzerland, 1962) is a Simon Njami (Lausanne, Suíça, 1962) é escritor,
que não tem um ponto único de origem,
, affections,, tribes and places scattered writer, essayist, art critic, and independent ensaísta, crítico de arte e curador indepen- mas sim vários pontos de conexão:
across this geography which I insist on curator of Cameroonian descent. He curated dente, de origem camaronesa. Foi curador-ge- relacionamentos, afetos, tribos e lugares
reinventing. the African Photography Biennial—Bamako ral e diretor artístico da Bienal de Fotografia dispersos nesta geografia que insisto em
Rencontres (1997–2007), the exhibition Africa Re- Africana – Rencontres de Bamako (1997-2007),
querer reinventar.
mix: Contemporary Art of a Continent (Düssel- curador da exposição Africa Remix: Contempo-
dorf, London, Paris, Tokyo, and Johannesburg, rary Art of a Continent (Düsseldorf, Londres,
2005–2007), and cocurated Check List Luanda Paris, Tóquio e Johannesburgo, 2005-2007), e co-
Pop, the first African pavilion to feature at the curador do Check List Luanda Pop, primeiro pa-
Venice Biennale (52nd edition, 2007). Cofounder vilhão africano da Bienal de Veneza (52ª edição,
of the magazine Revue Noire (1991–2001), devoted 2007). Cofundador da revista Revue Noire (1991-
to promoting contemporary African artistic 2001), dedicada a promover a produção artísti-
output, he is presently one of the directors of ca contemporânea da África, é hoje um dos di-
an eponymous publishing house and Web site. retores da editora e do site homônimos. Coedi-
he has coedited Anthologie de la photographie tou livros como Anthologie de la photographie
africaine (1999) and Anthologie de l’Art africain africaine (1999) e Anthologie de l’Art africain au
au XXe siècle (2002). He lives and works in Paris. XXe siècle (2002). Vive e trabalha em Paris.
Fio terrA

além das ideias


a atração inevitável da Terra
(esta força eterna
anterior à história)
ignora nações e fronteiras.
me enraízo
imersa na pele sem costuras
da natureza

Ground wire

beyond the ideas


the inevitable attraction of
the Earth
(that eternal force
prior to history)
ignores nations and boundaries.
I take root
immersed in nature’s
seamless skin
ana paula do val Depois de minha primeira temporada africana, retornei a Paris, onde, apesar da na-
cionalidade francesa, meus papéis não me protegeram de ficar “sem casa”. Ironias da
mobilidade, ter meu projeto de ateliê de criação aprovado pela diretoria do Albergue da
After my first stay in Africa, I returned to Paris, where, despite being a French national, Cimade, em Massy, significou, além da possibilidade de continuar Deslocamentos, en-
my papers did not save me from being “homeless.” Ironies of mobility, having my creative contrar um pouso. Criado nos anos 1960, o albergue acolhe refugiados e estudantes por
workshop project approved by the directors at the Cimade Hostel in Massy meant not períodos de três a seis meses. ¶ Durante um inverno, compartilhei esse pouso com outros
only being able to continue with Deslocamentos, but also having a roof over my head. oitenta moradores de trinta nacionalidades. No espaço de aconchego temporário, co-
Created back in the 1960s, the hostel shelters refugees and students for three- to six- mecei a perceber, na prática, a dinâmica dos territórios‑rede que meus vizinhos agen-
month periods. ¶ During one winter, I shared this dwelling with eighty other residents, of ciavam cotidianamente, apoiados nessas cartografias afetivas sobre as quais Ana Paula
thirty different nationalities. Within this temporary abode I began to see, in practice, the do Val discorre com grande propriedade no texto a seguir. ¶ “Meu país é espalhado, se eu
kinds of territory-networks my housemates developed in their daily lives, drawn after desenhá‑lo sobre o mapa‑múndi ele atravessará muitas fronteiras!” Assim Daniel, um
the affective cartographies of which Ana Paula do Val speaks so assuredly in the text that dos participantes do ateliê, descreveu o território expandido habitado por sua família; o
follows. ¶ “My country is spread out, if I were to sketch it on a world map, it would cross a pai na Inglaterra, o irmão na Coreia do Sul, a mãe em Johannesburgo, a irmã mais nova na
lot of borders!” That was how Daniel, one of the participants in the workshop, described Alemanha, uma tia em Kakuma; em seu país de origem, a Etiópia, apenas alguns familia-
the expanded territory he and his family inhabit: his father in England, a brother in South res mais afastados. A distância não impedia o fluxo de uma eficiente e dinâmica rede (que
Korea, mother in Johannesburg, his younger sister in Germany, an aunt in Kakuma, and precede o advento da internet), movida, sim, por dinheiro, documentos e bens, mas alicer-
a handful of more distant relatives back in his native Ethiopia. Distance was no impedi- çada sobretudo pelos afetos, memórias, histórias e trivialidades partilhados. ¶ À medida
ment to an efficient and dynamic network (which predated the Internet), one moved by que me entranhava nessas redes, tecia meu próprio atlas, acumulando lugares, afetos e
money, documents, and goods, but based on affinities, memories, histories, and shared possibilidades neste meu corpo‑território. Usar meu corpo como tela para estas carto-
trivialities. ¶ As I wound my way into these networks, I wove an atlas of my own, accu- grafias foi uma tentativa de dar forma ao acúmulo que sutilmente se inscrevia em minha
mulating places, affections, and possibilities for my body-territory. Using my own body pele, enquanto buscava entender como tudo que compartilhara nesta jornada ecoava em
as the canvas for these cartographies was an attempt to lend form to the accumulation mim. Neste processo interno e solitário, entendi o potencial revelador das cartografias
subjetivas; assim como Ana Paula, passei a propor aos meus interlocutores que dese- 123
that had so subtly written itself into my skin, while I sought to understand how every-
thing I shared on this journey echoed on inside me. During this intimate, solitary process, nhassem seus próprios mapas. ¶ Em meu retorno recente a Johannesburgo, esses proces-
I understood the revelatory potential of subjective mapping; like Ana Paula, I started to sos cartográficos ressurgiram naturalmente nas conversas sobre este projeto. Percebi
ask my interlocutors to draw up maps of their own. ¶ On a recent return to Johannes- estar no caminho certo quando Irmã Justina, uma velha amiga dominicana com quem
burg, these cartographic processes resurfaced naturally in my conversations about this trabalhara em 2001, convidou‑me para fazer uma oficina de cartografia em sua congre-
project. I knew I was on the right track when Sister Justina, an old Dominican friend I’d gação. Ao me apresentar, disse: “Outro dia, Marie Ange me falou de sua ideia de geografia.
worked with in 2001, invited me to hold a cartography workshop with her congrega- Uma geografia que não se baseia em fronteiras, rios e montanhas, mas sim nas relações e
tion. When she introduced me to her group, she said: “The other day, Marie Ange told me nos afetos. Fiquei pensando que esta é a geografia de que precisamos; uma geografia em
about her idea of geography, one that is not based on borders, rivers, and mountains, but movimento, na qual todos possam fazer sua casa, mesmo quando sem casa”. [MAB]
on relationships and feelings. I got to thinking that this was the geography we needed; a
geography in motion, in which we don’t need a house to make a home.” [MAB]
Cartografias afetivas Ana Paula do Val

Sendo tarefa do cartógrafo dar língua para afetos que pedem passagem, dele se espera basi-
camente que esteja mergulhado nas intensidades de seu tempo e que, atento às linguagens que
encontra, devore as que lhe parecerem elementos possíveis para a composição das cartogra-
fias que se fazem necessárias. [Suely Rolnik]

Minha relação com a cartografia começou a mancha de sangue na calçada onde mi-
ainda na infância, com minha avó mater- nha irmã rachou a testa de bicicleta; o som
na, entusiasta dos atlas geográficos e exí- dos atabaques do terreiro de candomblé do
mia desenhista. As primeiras brincadeiras Pai Rômulo; enfim, tudo que me rodeava e
se limitavam a cópias de mapas do atlas es- fazia sentido no meu minúsculo cotidiano.
colar, que, com o passar do tempo e intimi- Cartografias que se expandiam à medida
dade com a linguagem, foram substituídas que eu crescia e ganhava gradativamente
por croquis da casa, da rua, do quarteirão a autonomia de minha mobilidade.
125
e do bairro onde morava e realizava imer- Esses movimentos alteraram de forma
sões pueris, território de raiz, da memória significativa a intimidade com o espa-
e do pertencimento. Neles, eu registrava o ço e foram se expandindo pelas relações
percurso para a escola; o atalho para o pé de de sociabilidade que permeavam os no-
jabuticaba da Dona Mariquinha; a rua dos vos locais. Territórios que, pouco a pouco,
cachorros loucos; a casa da amiga Cinthia; foram se des­velando em virtualidades e
a rua Helena, zona proibida do tráfico de contradições. Tecidos urbanos que foram
drogas; o escadão que interrompia a rua; a constituídos por afetos, em um imaginá-
vendinha onde a molecada se acabava com rio de cidade em que eu circulava e fundia
pirulitos DIPnLIK; a padaria e o mercadi- cartografias próprias.
nho; o jardim de roseiras da Dona Santinha; No entanto, não eram essas subjetividades
Affective Cartographies

Since it is the cartographer’s task to give speech to the feelings that request passage, it is basi-
cally expected of him that he be immersed in the intensities of his time and that, attentive to the
languages he finds, he devours the ones that seem like possible elements for the composition of
the cartographies that are necessary. [Suely Rolnik]

My relationship with cartography began DIPnLIK suckers; the bakery and the little
in my childhood, with my maternal grand- grocery store; Dona Santinha’s rose gar-
mother, an enthusiast of geographic atlas- den; the bloodstain on the sidewalk where
es and an excellent drawer. The first games my sister had cut open her forehead while
were limited to making copies of maps of riding a bicycle; the beat of the atabaque
the school atlas, which, with the passage drums at Pai Rômulo’s Candomblé terreiro;
of time and increased familiarity with the in short, everything that surrounded me
language, were substituted by drawings of and made sense in the tiny world of my
our house, the street, the block in the dis- day-to-day life. These were cartographies
trict where I lived and into which I made that expanded as I grew older, gradually
childish immersions—the territory of my gaining the autonomy of my mobility.
roots, memories, and sense of belonging. In These movements significantly changed
these drawings I recorded the path I took to my familiarity with the space and were
school; the shortcut to Dona Mariquinha’s expanded by the relations of sociability
jaboticaba tree; the street of the mad dogs; that pervaded the new places. Territo-
my friend Cinthia’s house; Rua Helena, a ries which, little by little, were revealed
prohibited zone of drug trafficking; the big in virtualities and contradictions. Urban
set of stairs that interrupted the street; the fabrics that were constituted by feelings,
corner store where the kids licked their within the social imaginary of the city in
which I circulated and forged my person- Based on methods of resistance that bring que atribuíam sentidos e identidades aos em aberto, o artista-cartógrafo não se fatiga
al cartographies. about a huge field of ongoing processes of mapas oficiais, construídos em outras ba- em observar e decodificar afetos em carto-
Nevertheless, it was not these subjectivi- subjectivization, the artist-cartographer ses, fundamentadas no poder econômico grafias dos desejos, mapas das mimeses, só
ties that lent meanings and identities to tirelessly observes and decodes feel- neoliberal, no capitalismo imperioso, no expressáveis se partilhados na árdua tarefa
the official maps, constructed on other ings in cartographies of desires, maps of domínio político e territorial das cidades- de “não reproduzir ou inventar formas, mas
bases, founded on neoliberal economic the mimicries, which are only express- -empresas que oprimem e desapossam captar forças” (Deleuze, 1997).
power, on imperious capitalism, on the ible when shared in the painstaking task milhões de pessoas de seus territórios. Este artista-cartógrafo garimpa as pos-
territorial and political domain of the city- which is “not a matter of reproducing or Há neles alguns elementos de dominação, sibilidades de pensar o mundo de outras
companies that repress millions of people inventing forms, but of capturing forces” entre muitos outros, que constituem uma formas, revelando leituras distintas sobre
and dispossess them of their territories. (Deleuze 2005, 40). visão de mundo hegemônico e autoritário, o mesmo território, num ato de produzir
These are some elements of domination, This artist-cartographer mines the possi- realizado pelos jogos das relações de poder cartografias tecidas pelo afeto e pela resis-
among many others, that constitute a he- bilities of thinking about the world in dif- e violência do Estado-Capital opressor – tência. Sendo assim, cartografar é dar for-
gemonic and authoritarian worldview, ferent ways, revealing different readings mapas do poder e da exclusão. ma a uma “paisagem física e psicossocial”
realized by the interplays of the relations of the same territory, in an act of produc- (Rolnik, 1989) em movimento, que se faz
of power and violence of the State-Capital ing cartographies woven by feeling and Mapas ou cartografias? desenho, com potência de romper com o
oppressor—maps of power and exclusion. resistance. Therefore, to cartograph is to Mas o que seria um mapa? E uma carto- consagrado e colocar em pauta sua impor-
lend form to a “physical and psychosocial grafia? Para Harley (2001), um mapa pode tância para discutir o território-mundo a
Maps or Cartographies? landscape” (Rolnik 1989) in movement, ser definido como “uma construção social partir de outros pontos de vista.
But what is a map? And a cartography? For which becomes a drawing, with the power do mundo”, que se circunscreve entre o Portanto, a melhor cartografia que ele po-
Harley (2001), a map can be defined as “a to break away from the established and to verdadeiro e o falso para narrá-lo, tanto derá gravar será o mapa de seus afetos com o
social construction of the world,” situated focus consideration on its importance for nas relações de poder como em suas prá- território. É a afetividade com o espaço que
between the true and the false to narrate it, discussing the territory-world based on ticas culturais. No entanto, o mapa visí- permite emergir outras leituras daquilo que
both in regard to the relations of power as other points of view. vel é sempre o do poder. Já a cartografia, inicialmente era estranho, fora do lugar,
well as its cultural practices. Nevertheless, Therefore, the best cartography that he diferentemente do mapa, é, na concepção desterritorializado. Entretanto, com a con-
the visible map is always that of power. can record is the map of his feelings with de Suely Rolnik, a “… representação de um vivência, que é distintamente de valor local,
Cartography, unlike the map, in the con- the territory. It is the affectivity with the todo estático – é um desenho que se acom- ele se revela mergulhado em outras subjeti-
ception of Suely Rolnik, is a “…representa- space that allows for the emergence of panha e se faz ao mesmo tempo que os vidades. Estas fazem emergir sentimentos
tion of a static whole—it is a drawing that other readings of that which was initially movimentos de transformação da paisa- guardados na zona-memória. Afetos caros
accompanies and is made at the same time strange, out of place, deterritorialized. gem…” (Rolnik, 1989). Nesse sentido, para à vida são ativados nas lembranças-mapas:
as the movements of the transformation And yet through shared living—whose que uma cartografia possa ser entendida da infância, da família, da escola, dos ami-
of the landscape…” (Rolnik 1989). In this value is distinctively local—he is seen to como um movimento constante, antagô- gos; um cheiro, um gosto, uma música, a
129
sense, for a cartography to be understood be immersed in other subjectivities. This nica aos mapas da dominação, faz-se ne- sensação de acolhimento ou pertencimen-
as a constant movement, running counter causes feelings kept in the zone of memory cessário, primeiro, que se pense no tipo de to, um tempo vivido com grande intensida-
to the maps of domination, it is first of all to emerge. Feelings dear to life are activat- cartógrafo que irá gravá-lo. de em qualquer idade, um lugar que abriu
necessary to think about the sort of car- ed in the memory-maps: of childhood, of Aqui, surge a ideia de um artista-cartógra- um novo horizonte, ou um período de as-
tographer who will record it. family, of school, of friends; a smell, a taste, fo, que se apropria da arte como agencia- sombro – desalento. Afetos que foram gra-
This gives rise to the idea of an artist-car- a song, the sensation of shelter or belong- dora de “territórios rizomáticos” (Deleuze, vados nas múltiplas camadas dos trajetos
tographer who appropriates art as a me- ing, a time lived with great intensity at any 1997), que se desenvolvem em todas as di- que se fazem corpos-território.
diator of “rhizomatic territories” (Deleuze age, a place that opened a new horizon, or reções e a partir de vários pontos de fuga,
and Guattari 1997), which are developed in a period of shadow—dismay. Feelings that para construírem outras redes. A partir de Corpos-território
every direction based on various vanish- were recorded in the multiple layers of the métodos de resistência que deflagram um e cartografias possíveis
ing points, to construct other networks. roots that become body-territories. campo imenso de processos de subjetivação Foi entre percursos nada convencionais,
Body-Territories and the official maps as a place of violence, tampouco semelhantes, que minhas carto- cultura que configuram uma cartografia
and Possible Cartographies criminality, danger, and precariousness, grafias se entrecruzaram com as de Marie insurgente e de resistência da zona extre-
It was among unconventional and dis- in both the material and the immaterial Ange Bordas. Marie Ange é um corpo-ter- mo sul, local onde afetos, trocas, identifi-
similar paths that my cartographies in- sense. The group of embroiderers is one of ritório que se realiza na trama invisível cações e solidariedade são elementos da
tercrossed with those of Marie Ange Bor- the most diverse and singular collectives of dos devires de realidades codificados em experiência afetiva sobre o território e a
das. Marie Ange is a body-territory that is art and culture that configure an insurgent cartografias sensíveis, que ela traduz em vida (Do Val, 2011).
realized in the invisible web of the com- cartography of resistance in the city’s ex- infinitos suportes estético-políticos. Um Para encontrar este outro território vivo,
ings-into-being of codified realities in treme South Zone, a place where feelings, corpo-território que desperta narrativas foi concebido um método de imersões
perceptible cartographies, which she con- exchanges, identifications, and solidarity coletivas insurgentes, em movimentos que territoriais que, ao mesmo tempo em que
veys in a wide range of aesthetic-political are elements of the affective experience on fortalecem a identidade, o pertencimento extraía informações sobre este, construía
supports. A body-territory that triggers the territory and life itself (Do Val 2011). e o agenciamento do outro em seus múlti- um processo de compreensão do espa-
insurgent collective narratives, in move- To encounter this other living territory, plos territórios. ço em suas dicotomias e contrassensos.
ments that strengthen identity, belonging, a method of territorial immersions was Artista-cartógrafa que é, mais que estudar Essas imersões possibilitaram ampliar o
and the mediation of the other in its mul- conceived, which extracted informa- e se ancorar em conceitos, Marie Ange vi- repertório de produção de sentidos, pois
tiple territories. tion on this territory while constructing vencia os territórios que partilha consigo e as bordadeiras precisavam acessar uma
Marie Ange is an artist-cartographer who a process for understanding this space in com o outro, vivência que a coloca em uma leitura do território para além do concreto,
does more than study and anchor herself in its dichotomies and incongruities. These posição privilegiada para entender e sen- que captasse marcas intangíveis, promo-
concepts: she experiences the territories immersions allow for the enlargement tir o mundo, ora na sua crua faceta de re- vidas pelos laços de sociabilidade e pela
that she shares with herself and with the of the repertoire by which meanings are alidade, ora em profundas revelações das produção simbólica do e no espaço urbano,
Other, in a shared experience that puts her produced, since the embroiderers needed trocas humanas em seus afetos, desejos e elementos que os mapas oficiais não con-
in a privileged position to understand and to access a reading of the territory beyond angústias. Só a vivência e a convivência templam em suas representações.
feel the world, sometimes in its raw facet of the concrete, which would capture intan- lhe permitem atribuir sentidos, ressigni- As imersões no território desenvolveram-
reality and, at other moments, in profound gible marks, promoted by the links of so- ficar práticas e ler o mundo invertido com -se a partir do conceito de “derivas”, con-
revelations of the human exchanges in ciability and by the symbolic production pulsão de reinvertê-lo para romper para- cebido pelo Movimento Situacionista nos
their feelings, desires, and anxieties. Only of and in the urban space, elements not digmas. Suas cartografias brotam do afeto anos 1950 (Jacques, 2003). A tônica do mo-
first-hand experience and shared living considered by the official maps. com outros territórios-pessoas, o que a vimento era a construção de situações que
allow her to attribute meanings, to re- The immersions in the territory are devel- torna uma entidade território-política. provocassem e permitissem “o jogo livre das
signify practices, and to read the inverted oped based on the concept of derivé con- Em comum com Marie Ange, minha práti- paixões”, utilizando a cidade como pano de
world with a drive to re-invert it to break ceived by the situationist movement in the ca busca dar forma a cartografias possíveis fundo, entendendo o espaço urbano como
paradigms. Her cartographies spring from 1950s (Jacques 2003). The primary aim of a partir de processos coletivos que buscam campo de ação e local passível de realização
her feelings with other people-territories, the movement was to construct situations um transbordamento das múltiplas per- de novas formas de intervenção e transfor-
131
making her a territorial-political entity. that would provoke and allow “the free in- cepções do estado das coisas. Sendo assim, mação do cotidiano (Silva, 2005).
In common with Marie Ange, my practice terplay of the passions,” using the city as a vale relatar uma experiência vivenciada O método das derivas permitiu um con-
aims to lend form to possible cartographies backdrop, understanding the urban space por mim com um grupo de bordadeiras no tato mais próximo das bordadeiras com
based on collective processes, which seek as a field of action and a place that allows parque Santo Antônio, no extremo sul da o território e o despertar de novos afetos.
an overflowing of the multiple perceptions for the realization of new forms of inter- cidade de São Paulo. Território que teve seu Entretanto, também foi preciso refletir
of the state of affairs. This being the case, it vention and transformation of everyday imaginário estigmatizado pela mídia e pe- sobre a decodificação dessas percepções
is worth relating an experience I had with life (Silva 2005). los mapas oficiais como local da violência, construídas a partir de elementos físicos
a group of embroiderers in Parque Santo The method of the derivé allowed a con- da criminalidade, do perigo e da precarie- e intangíveis das paisagens, os quais são
Antônio, in the extreme south of the city tact with the territory closer to that of the dade, tanto no seu sentido material como aqui nominados “diagramas cognitivos”
of São Paulo. A territory that has had its embroiderers and the awakening of new imaterial. O grupo de bordadeiras é um dos (lugares potenciais, familiaridades, es-
social imaginary stigmatized by the media feelings. It was also necessary, however, diversos e singulares coletivos de arte e tranhamentos, pertencimento, memória,
to reflect on the decoding of these percep- And to also embroider the landscape of seas referências simbólicas, modos de vida, sol enorme e radiante, para que não se es-
tions constructed on the basis of physical of houses—here colorful—and, at the bottom sentidos como audição, tato, visão, pala- queça de que “Deus é o diabo na terra do sol”,
and intangible elements of the landscapes, of the map, the few trees that adorn it. Sew- dar, olfato; o previsível e o imprevisível), registro inconsciente do deslocamento for-
which are here denominated as “cognitive ing the reservoirs so as not to forget about que permitiram estabelecer compreen- çado. Uma cartografia viva e pulsante, que
diagrams” (potential places, familiari- their importance, embroidering the tradi- sões sensoriais conscientes e inconscien- nos afeta e comove, tal qual as cartografias
ties, estrangements, belonging, memory, tional children’s games and Black children tes do espaço urbano, a partir de um corpus de Marie Ange Bordas.
symbolic references, ways of life, senses flying kites in the wind… A huge and radi- subjetivo, que resultou em um conjunto de
like hearing, touch, sight, taste, smell; the ant sun, so it is not forgotten that Deus é o percepções sobre o território. Ana Paula do Val (São Paulo, 1976) é graduada
predictable and the unforeseeable), which diabo na terra do sol,1 an unconscious re- Esse foi o momento de maior troca no em arquitetura e urbanismo pela Fundação
allowed for the establishment of conscious cord of a forced displacement. A living and processo, onde todas colocaram seus an- Armando Alvares Penteado e em artes plásti-

and unconscious sensorial understand- throbbing cartography, which thrills and tigos e novos afetos, confirmaram pontos cas pela Städelschule – Schule Belletristik de
Frankfurt, Alemanha. É especialista em cultu-
ings of the urban space, based on a subjec- moves us, like the cartographies of Marie de vista, trouxeram à tona seus desejos,
ra e comunicação pela Universidade Paris-8,
tive corpus, which resulted in a set of per- Ange Bordas. tristezas, indignações, sentimentos de
França, e mestranda do programa de pós-gra-
ceptions on the territory. pertencimento e acolhimento. Reflexões duação em estudos culturais da Universidade
This was the moment of greatest exchange Ana Paula do Val (São Paulo, Brazil, 1976) holds
compartidas que se manifestaram no de- de São Paulo. Pesquisa intervenções artísticas
in the process, where everyone placed degrees in architecture and urbanism from senhar de cartografias individuais e que, no espaço urbano, cartografias afetivas, gra-

their old and new feelings, confirmed Fundação Armando Alvares Penteado, and in posteriormente, se fundiram em uma úni- vura, mapeamentos socioculturais e políticas
culturais. É docente do Observatório da Diver-
points of view, revealed their desires, sad- the visual arts from Städelschule – Schule ca e consensual cartografia, que fala da
Belletristik in Frankfurt, Germany, a special- sidade Cultural (MG) e organizadora do livro
nesses, indignations, feelings of belonging zona sul de um ponto de vista singular e
ization course in culture and communication Santo Amaro em rede: Culturas de convivência
and acceptance. Shared reflections that original, na qual faz todo sentido inverter (Sesc-SP, 2011). Vive e trabalha em São Paulo.
from Paris-8 University, France, and is pursu-
were manifested in the drawing of indi- ing a master’s degree in cultural studies from
o mapa para dar sentido àquilo que não tem
vidual cartographies and which were later the University of São Paulo. She researches ar- sentido para o afeto.
fused in a single and consensual cartogra- tistic interventions in the urban space, emo- A busca de sentido colocou a região de Pa-
phy, which tells about the South Zone from tional geographies, engraving, sociocultural relheiros para o lado de cima do mapa e a
mappings, and cultural policies. She lectures
a singular and original point of view, in região de Santo Amaro, para baixo. Eu as
at the Observatório da Diversidade Cultural
which it makes perfect sense to invert the indaguei sobre a inversão. A resposta foi
in Minas Gerais. She organized the book Santo
map to impart a meaning to what makes no Amaro em rede: Culturas de convivência (Sesc-
precisa e muito segura de seus lugares no
sense for the feeling. SP, 2011). She lives and works in São Paulo. mundo: “O mapa não está invertido, só de-
The search for meaning placed the region pende de como e de onde você quer ver o
of Parelheiros on top of the map and the re- mundo, nosso ponto de vista é esse” (Dona
gion of Santo Amaro below it. I asked about Maria do Rosário Paulo).
133
this inversion. Their response was precise Uma cartografia afetiva que quis bordar
and very assured about their places in the imagens, poesias, frases, histórias e canti-
world: “The map is not upside down, it only gas que externam a dicotomia entre a me-
depends on how you want to see the world, mória e as “multiterritorialidades” (Haers-
our point of view is this one” (Dona Maria baert, 2004) de cada um. Bordar também a
do Rosário Paulo). paisagem de mares de casas, aqui coloridas,
This is an affective cartography that wished e, ao pé do mapa, as poucas árvores que a
to embroider images, poems, phrases, sto- 1. This phrase is a twist on the title of the movie by adornam. Costurar as represas para não es-
Glauber Rocha, Deus e o Diabo na Terra do Sol [God and
ries, and songs that express the dichotomy quecer a importância delas, bordar as brin-
the Devil in the Land of the Sun], but here changing the
between memory and the “multiterritorial- word “e” [and] to “é” [is] to yield the phrase “God is the cadeiras de roda e de amarelinha, crianças
ities” (Haesbaert 2004) of each individual. devil in the land of the Sun.”—Trans. negras empinando papagaios ao vento... Um
135

Marie Ange Bordas

Nascida em Porto Alegre, Brasil (1970), a artista e escritora tem se concentrado na criação
de projetos artísticos e colaborativos em comunidades tradicionais e deslocadas no Brasil,
África do Sul, Quênia, Etiópia, Sri Lanka, Haiti e Colômbia. Balizado por temáticas sociais
(conflito, migração) e paradigmas existenciais (memória, identidade), seu trabalho arti-
cula individual e coletivo por meio de vivências pessoais. O projeto Deslocamentos foi re-
alizado durante residências artísticas na Bag Factory (África do Sul), Kuona Trust (Quênia)
e na Universidade de East London, com o apoio de instituições como Leverhulme Trust
(RU), ACNUR (Alto Comissariado para Refugiados da ONU), Cultures France e Film Aid
(EUA). O projeto foi objeto de mostras no Brasil, EUA, Índia, Reino Unido, Canadá, França
e África do Sul. Seus livros Histórias da Cazumbinha (Companhia das Letrinhas, 2010) e
Manual da criança caiçara (Editora Peirópolis, 2012), fruto de trabalhos com crianças de
comunidades tradicionais, foram contemplados com os prêmios Circulação Literária e
Interações Estéticas, do Ministério da Cultura. Participou do 7º Encontro de Fotografia
de Bamaco, Mali (2007), do Festival Norderlicht, Holanda (2009) e da exposição Geração
00 – A nova fotografia brasileira, Sesc Belenzinho, São Paulo (2011).
Artist and author, Bordas (Porto Alegre, Brazil, 1970) focuses on the creation of collabora-
tive art projects in traditional and displaced communities in Brazil, South Africa, Kenya,
Ethiopia, Sri Lanka, Haiti, and Colombia. Fuelled by social themes (conflict, migration) and
existential paradigms (memory, identity), her work articulates the individual and collective
through personal experience. Her project Deslocamentos was developed during art residen-
cies at the Bag Factory (South Africa), Kuona Trust (Kenya), University of East London, with
the support of institutions such as the Leverhulme Trust (UK), the UN High Commissioner
for Refugees, Cultures France, and Film Aid (US). It has been the subject of exhibitions in Bra-
zil, the USA, India, United Kingdom, Canada, France, and South Africa. Her books Histórias
da Cazumbinha (Companhia das Letrinhas, 2010) and Manual da criança caiçara (Editora
Peirópolis, 2012), fruit of her work with children in traditional communities, received the
Literary Circulation and Aesthetic Interactions prizes from the Ministry of Culture. She
participated in the 7th Bamako Photography Encounter, Mali (2007), the Norderlicht Fes-
tival, the Netherlands (2009), and the exhibition Geração 00 – A nova fotografia brasileira,
Sesc Belenzinho, São Paulo (2011).
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Créditos de imagem PG. 25_Marie Ange Bordas PG. 38-39_William Kentridge PG. 76-77_Marie Ange Bordas Angelique (Kivu, Congo, 2008), from the Photo series Fio terra, 2011-2012
Videoinstalação A espera, Massy, 2003 Office Love, 2001 In-freight, 2010 photo series Co-Movere, 2008-2010 C-prints on metallic paper mounted
Image credits Fichas de identificação e documentos Tapeçaria em mohair, 344 x 455,9 cm. 3 caixas de luz com fotografias C-print on metallic paper mounted on on aluminum, 75 x 150 cm (each)
incluídos nos processos de solicitação Bordada pelo Estúdio de Tapeçaria em Duratrans, 22 x 16 cm aluminum, 150 x 75 cm
de asilo de moradores e ex-moradores Stephens, Johannesburgo 3 light boxes with Duratrans prints, PG. 122_© Eduardo Quarenta
do albergue para refugiados de Massy, Mohair tapestry, 344 x 455.9 cm. 22 x 16 cm PG. 93_María Magdalena Campos-Pons
Cover_Marie Ange Bordas lâmpadas, projeção de vídeo Woven by the Stephens Tapestry Trying, 2013 PG. 124_Grupo Tear e Poesia
Still do vídeo (Up)Rooted, 6’30”, 2008 Video installation The Waiting, Studio, Johannesburg PG. 82_Marie Ange Bordas Desenho sobre papel, 15 x 12 cm Mapa afetivo do extremo sul da cidade
Still from the vídeo (Up)Rooted, Massy, 2003 Emmanuel Drawing on paper, 15 x 12 cm de São Paulo, 2010
6’30”, 2008 Identification cards and documents PG. 43_William Kentridge (Pabbo, norte de Uganda, 1996), da série Bordado sobre tecido, 150 x 150 cm
gathered for asylum application Drawing for the film Stereoscope, 1999 fotográfica Co-Movere, 2008-2010 PG. 94_María Magdalena Campos-Pons Embroided fabric, 150 x 150 cm
PG. 1_©Everton Ballardin procedures by current and former Carvão e pastel sobre papel, 120 x 160 cm Impressão fotográfica em papel metálico Ready, 2013 Autores Authors: Maria do Rosário
residents of Massy refugee shelter, light Charcoal and pastel on paper, 120 x montada em alumínio, 90 x 60 cm Desenho sobre papel, 15 x 12 cm Paulo, Maria de Fátima Nogueira,
PG. 2_Marie Ange Bordas bulbs, video projection 160 cm Emmanuel (Pabbo, Northern Drawing on paper, 15 x 12 cm Melissa de Almeida Bessa, Alzira Pinto,
Void, 2013 Marie Ange Bordas Uganda, 1996), from the photo series Josiel Medrado Kantão, Vilma Augusto
Impressão fotográfica em papel metálico PG. 32-33_William Kentridge Johannesburg (Bree Street), 2001 Co-Movere, 2008-2010 PG. 95_María Magdalena Campos-Pons Alves, Donizete Carneiro.
montada em alumínio, 90 x 60 cm Portage, 2000 Fotografia, 90 x 60 cm C-print on metallic paper mounted on From there to here, 2013 Foto Photo © Daniela Toviansky
C-print on metallic paper mounted Gravura chine collé de papel Canson Photography, 90 x 60 cm aluminum, 90 x 60 cm Desenho sobre papel, 15 x 12 cm
on aluminum, 90 x 60 cm preto sobre páginas do Le Nouveau Drawing on paper, 15 x 12 cm PG. 127_Grupo Tear e Poesia
Larousse Illustré (c. 1906), em papel PG. 44-57_Marie Ange Bordas PG. 84_Marie Ange Bordas Mapa afetivo do extremo sul da cidade
PGS. 4-5_Marie Ange Bordas Velin Arches Crème, dobrado em formato Fotografias da série Deslocamentos. Diana (Kirundi, Burundi, 1996), da série PG. 96_María Magdalena Campos-Pons de São Paulo, 2010
Corps_chemin, 2013 sanfona, 27,5 x 423 cm (aberto) Impressão digital em papel de algodão fotográfica Co-Movere, 2008-2010 Freedom Trap 1, 2013 Bordado sobre tecido, 150 x 150 cm
Impressão fotográfica em papel metálico Chine collé of figures from black Photographies from the Displacements Impressão fotográfica em papel metálico Polaroide, 24 x 20 cm Embroided fabric, 150 x 150 cm
montada em alumínio, 90 x 60 cm Canson paper on pages from Le series. Digital print on cotton paper montada em alumínio, 90 x 60 cm Polaroid, 24 x 20 cm Autores Authors: Maria do Rosário
C-print on metallic paper mounted on Nouveau Larousse Illustré (c. 1906), on Diana (Kirundi, Burundi, 1996), from the Paulo, Maria de Fátima Nogueira,
aluminum, 90 x 60 cm Velin Arches Crème paper, folded as a PG. 44_Marie Ange Bordas photo series Co-Movere, 2008-2010 PG. 97_María Magdalena Campos-Pons Melissa  de Almeida Bessa, Alzira  Pinto,
leporello, 27.5 x 423 cm (open) Raízes Roots, 2001, 80 x 80 cm C-print on metallic paper mounted on Freedom Trap 3, 2013 Josiel Medrado Kantão, Vilma Augusto
PG. 22_Marie Ange Bordas aluminum, 90 x 60 cm Polaroide, 24 x 20 cm Alves, Donizete Carneiro.
Instalação (Up) Rooted, Londres, 2008 PG. 34-35_William Kentridge PG. 47_Marie Ange Bordas Polaroid, 24 x 20 cm Foto Photo © Ana Paula do Val
Galho de árvore, vestido, lâmpada Porter Series: Géographie des Hebreux Percursos Journeys, 2002, 60 x 90 cm PG. 86_Marie Ange Bordas
Detail from the installation (Up) Rooted, ou Tableau de la dispersion des Enfants Adam (Mogadishu, Somália, 1993), PG. 98-99_María Magdalena Todas as imagens não indicadas são
London, 2008 de Noë, 2005  PG. 52-53_Marie Ange Bordas da série fotográfica Co-Movere, Campos-Pons de autoria de Marie Ange Bordas.
Tree branch, dress, light bulb Tapeçaria em mohair, 248 x 343,2 cm. Lar / Home, 2004, 90 x 60 cm 2008-2010 The House, 2013 All images that are not otherwise
Bordada pelo Estúdio de Tapeçaria Impressão fotográfica em papel Composição com duas polaroides, credited by Marie Ange Bordas.
PG. 23_Marie Ange Bordas Stephens, Johannesburgo PG. 54-55_Marie Ange Bordas metálico montada em alumínio, 24 x 20 cm (cada)
Instalação sonora Shadow House, Mohair tapestry, 248 x 343.2 cm. Para onde? Where to?, 90 x 60 cm Composition of two 24 x 20 cm polaroids FLIPBOOK
Johannesburgo, 2002 Woven by the Stephens Tapestry Studio, 2003, 90 x 60 cm Adam (Mogadishu, Somalia, 1993), William Kentridge, Dada Masilo
Estrutura em madeira, entretela, Johannesburg from the photo series Co-Movere, PG. 101_María Magdalena Return, 2013
lâmpadas, caixas de som e objetos PG. 56-57_Marie Ange Bordas 2008-2010 Campos-Pons Flipbook, 64 páginas, 10,5 x 14,4 cm.
PG. 36_William Kentridge Kakuma 42o C, 2004, 90 x 60 cm C-print on metallic paper mounted The Flag Year 13. Color Code Venice, 2013 Stills da instalação com cinco canais
trazidos por refugiados
Porter Series: Asie Mineure on aluminum, 90 x 60 cm Composição com nove polaroides, The Refusal of Time, 2012
Sound installation Shadow House,
(Tree Man), 2006 PG. 66-77_Marie Ange Bordas 24 x 29 cm (cada) Flipbook, 64 pages, 10.5 x 14.4 cm.
Johannesburg, 2002
Tapeçaria em mohair, 248 x 343,2 cm. Imagens da exposição In-flux, PG. 88_Marie Ange Bordas Composition of nine 24 x 29 cm polaroids Stills from the 5-channel video
Wood structure, interlining fabric, light
Bordada pelo Estúdio de Tapeçaria Londres, 2008 Fateh (Haifa, Palestina, 1948), da série installation The Refusal of Time, 2012
bulbs, speakers, and objects brought by
Stephens, Johannesburgo Images of the In-Flux exhibition, fotográfica Co-Movere, 2008-2010 PGs. 104-115_ Everton Ballardin Dançarina/Dancer: Dada Masilo
refugees
Mohair tapestry, 248 x 343.2 cm. London, 2008 Impressão fotográfica em papel Reproduções Design: Oliver Barstow
Woven by the Stephens Tapestry Studio, metálico montada em alumínio, Reproductions
PG. 24_Marie Ange Bordas
Johannesburg PGs. 66, 69, 74-75_Marie Ange Bordas 75 x 150 cm
Instalação sonora, Naked Forest,
Nairóbi, 2004 Instalação Donate, 2008 Fateh (Haifa, Palestine, 1948), from the PGs. 117, 118, 119, 120, 121_Marie
PG. 37_William Kentridge
Troncos de árvore, casinhas feitas com Projeção de slides do arquivo do photo series Co-Movere, 2008-2010 Ange Bordas
Porter Series: Amérique septentrionale
latas de ração do Programa Mundial de Conselho Britânico para refugiados, C-print on metallic paper mounted on Ground
(Bundle on Back), 2007 
Alimentação da ONU, caixas de som, cortina, bolsas de sangue aluminum, 75 x 150 cm Balance found
Tapeçaria em mohair, 311 x 231 cm.
caixas de luz, banquinhos de madeira Installation Donate, 2008 Hold
Bordada pelo Estúdio de Tapeçaria
Sound installation Naked Forest, Projection of slides from the UK PG. 89_Marie Ange Bordas (un)homed geographies
Stephens, Johannesburgo
Nairobi, 2004 Refugee Council Archive, curtain, Angelique (Kivu, Congo, 2008), da série (re)sourcing
Mohair tapestry, 311 x 231 cm. Woven 141
Tree trunks, small houses made of UN blood bags fotográfica Co-Movere, 2008-2010 Da série fotográfica Fio terra, 2011-2012
by the Stephens Tapestry Studio,
World Food Programme, cans of ration, Impressão fotográfica em papel Impressões fotográficas em papel
Johannesburg
speakers, lightboxes, wood stools metálico montada em alumínio, metálico montadas em alumínio,
150 x 75 cm 75 x 150 cm (cada)
CADERNO SESC_VIDEOBRASIL A editora agradece às seguintes pessoas e PRODUTORA DE PROJETOS Projects Producer
 Serviço Social do Comércio

 instituições The editor wishes to acknowledge Tetê Tavares Social Service of Commerce
CONCEPÇÃO Concept the following people and institutions:
Solange O. Farkas Anita Fabos, Anne McIlleron, Christine Mello, COORDENAÇÃO DE COMUNICAÇÃO Administração Regional
Dustin Tusnovics, Naadira Patel, Natalia de Communications Coordinator no Estado de São Paulo
COORDENAÇÃO EDITORIAL Campos, Sarah Calburn, Stephan Stoyanov Marcio Junji Sono Regional Management in São Paulo State
Editorial Coordination Gallery (NY), Szofia Borsanyi, Greatmore Studios
Solange O. Farkas (Cidade do Cabo/Cape Town), Wits School of Arts COORDENAÇÃO EDITORIAL Presidente do Conselho Regional
Teté Martinho / Witwatersrand University (Johannesburgo / Editorial Coordinator President of the Regional Council
Thereza Farkas Johannesburg), Zen Marie Teté Martinho Abram Szajman
DIREÇÃO EXECUTIVA Executive Director DESIGN
A pesquisa para este Caderno foi parcialmente Diretor do Departamento Regional
Adriano Alves Pinto Lila Botter
realizada durante residência artística na África Director of the Regional Department
ASSISTENTES Assistants do Sul, que contou com apoio do Programa de Danilo Santos de Miranda
ASSISTENTE DE COMUNICAÇÃO
Alita Mariah Intercâmbio e Difusão Cultural do Ministério
Communications Assistant
Tetê Tavares da Cultura. The research for this publication
Eduardo Haddad
was partially developed during an art residency Edições SESC São Paulo
ASSESSORIA JURÍDICA Legal Affairs in South Africa supported by the Cultural COORDENAÇÃO DE PESQUISA Sesc São Paulo Editions
Cristiane Olivieri Exchange and Promotion by Brazil’s Ministry Research Coordinator
of Culture. Tatiana S. Ferraz Conselho editorial Editorial Board
CADERNO SESC_VIDEOBRASIL 09 Ivan Giannini
ASSISTENTES DE PESQUISA Joel Naimayer Padula
COORDENAÇÃO EDITORIAL Research Assistants
 Luiz Deoclécio Massaro Galina
Editorial Coordination Marina Rosenfeld Sznelwar, Ruy Luduvice Sérgio José Battistelli
Teté Martinho
ACERVO Archive Gerente Manager
EDIÇÃO Editor Chico Daviña Marcos Lepiscopo
ASSOCIAÇÃO CULTURAL VIDEOBRASIL
Marie Ange Bordas
EDITOR DE IMAGENS Image Editor
DIREÇÃO GERAL E CURADORIA Coordenação editorial
PROJETO GRÁFICO E EDIÇÃO DE ARTE Samuel de Castro
General Director and Curator Editorial Coordination
Graphic Design and Art Direction
Solange O. Farkas coordenação ADMINISTRATIVa Clívia Ramiro, Isabel M.M. Alexandre
Carla Castilho e Lia Assumpção | janela estúdio
Management Coordinator
COLABORADORES Contributors DIREÇÃO DE PROGRAMAÇÃO Jô Lacerda Produção Editorial Editorial Production
Achille Mbembe Programme Director João Cotrim
Ana Paula do Val Thereza Farkas ASSISTENTE ADMINISTRATIVA
María Magdalena Campos-Pons Management Assistant PRODUÇÃO GRÁFICA Graphic Production
Rogério Haesbaert CONSULTORIA E PESQUISA Marcella G. Mello Katia Verissimo
Simon Njami Consultancy and Research
William Kentridge Eduardo de Jesus ATENDIMENTO Reception Colaboradores Contributors
Juliana Costa Rosana Paulo da Cunha, Flávia Carvalho, Juliana
PRODUÇÃO EDITORIAL Editorial Production CURADORA DE
PROGRAMAS PÚBLICOS Braga, Nilva Costa da Luz, Marta Colabone
Alita Mariah, Tetê Tavares Public Programs Curator SISTEMAS DE INFORMAÇÃO
Sabrina Moura Information Systems

TRADUÇÃO Translation Bruno Favaretto (Base7.info)
Anthony Doyle, John Norman, Cris Borba, Gail
ASSISTENTE DA DIREÇÃO
de Courcy-Ireland, Dirceu Villa (poemas/poems),
Assistant to the Directors
Natalia de Campos (Geografias em movimento/
Carolina Câmara
Geographies in Motion)

REVISÃO Proofreading DIREÇÃO DE PRODUÇÃO Production Director ASSOCIAÇÃO CULTURAL VIDEOBRASIL Edições Sesc São Paulo
Regina Stocklen Adriano Alves Pinto Av. Imperatriz Leopoldina, 1150 Av. Álvaro Ramos, 991
Vila Leopoldina 05305 002 São Paulo – SP 03331-000 São Paulo SP Brasil
Tel. (55 11) 3645 0516 Tel. (55 11) 2607 8000
PRODUÇÃO GRÁFICA Graphic Production PRODUTORA DE ASSUNTOS INSTITUCIONAIS www.videobrasil.org.br edicoes@edicoes.sescsp.org.br
Prata da Casa Institutional Affairs Producer info@videobrasil.org.br www.sescsp.org.br
Alita Mariah
Dados internacionais de Catalogação e Publicação

C122
Caderno Sesc_Videobrasil: geografias em movimento / realização do
Serviço Social do Comércio e Associação Cultural Videobrasil; concepção
Solange Oliveira Farkas; edição Marie Ange Bordas. – São Paulo: Edições Sesc
São Paulo, n. 9, 2013 – . Anual.
142 p.: il. fotografias. Bilíngue (inglês/português).

ISSN 19833881.

1. Arte contemporânea. 2. Crítica de arte. 3. Vídeo. I. Título. II.


Subtítulo. III. FARKAS, Solange Oliveira. IV. BORDAS, Marie Ange. V. Serviço
Social do Comércio. VI. Sesc São Paulo. VII. Associação Cultural Videobrasil.

CDD 705

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papéis paperfect 104g/m2,


fontes brix slab e newzald italic