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The Fallen

A série The Fallen foi lançada em 2003–2004, com 4 volumes.


Sendo que em 2010 foram republicadas com apenas 2 volumes. A
capa nova do primeiro volume contém os dois primeiros livros – The
Fallen (1) e Leviathan (2). E a capa do segundo volume contém o
terceiro e último volume – Aerie (3) e Reckoning (4). Após 7 anos da
finalização do 4º livro, o autor decide continuar a série com mais dois
livros: End of Days (5) e Forsaken(6).

Capas Anteriores:
Sinopse

A hora chegou para Aaron Corbet, o filho de um anjo e um


mortal de 18 anos, para enfrentar seu pior inimigo. Verchiel, o anjo
caído líder dos Poderes, está determinado a derrotar a profecia que
prediz a Aaron poderes sobre todos os Anjos. E para fazer isso, ele tem
a intenção de matar Aaron, esperando que remover tal "praga" irá
restaurar Verchiel perante aos olhos do Criador.

Aaron vinha treinando para seu confronto final, trabalhando


para entender e controlar a força que reside profundamente dentro
dele. Ele sabe que irá ganhar. Depois de tudo, Verchiel tem tirado tudo
e todos que alguma vez significaram algo para Aaron.
Ele não tem nada a perder... Até Verchiel apresentar a Aaron seu há
muito tempo perdido Pai.
Talvez seja a hora de seguir em frente, considerou as Malakim
Peliel enquanto ele estava empoleirado no topo do Monte Kilimanjaro,
19 mil pés acima das áridas planícies Africanas da Tanzânia.

O ser angelical poderia contar em uma mão o número de vezes


que teve este pensamento em sua estadia de dois milênios sobre a
montanha vulcânica adormecida. Mas sempre algo o distraiu a partir
destas reflexões. A vinda da chamada civilização, como aldeias
viraram-se cidades, parecendo crescer da terra para substituir as
selvas primordiais. As vastas migrações de primavera de antílopes,
zebras, gazelas, leões e como eles fizeram o seu caminho através das
planícies do sul do Serengeti para pastagens mais verdes nas
proximidades do Quênia . Há muito para ver aqui, o espírito em si.
Tanto para sentir, para ouvir, cheirar. E não era esse seu propósito —
o propósito de ser Malakim? Ele e seus irmãos ao redor do globo
atuavam como os sentidos de Deus, permitindo que o Ser Supremo
experimentasse as maravilhas do mundo que Ele criou.
No entanto, hoje era diferente. Algo no fino e frio ar de
Kilimanjaro estava dizendo a ele — o alertando — que talvez fosse
sábio procurar outro abrigo.

Lentamente, Peliel flexionou a rigidez milenar de suas asas. As


camadas de sujeira e gelo, que tinham se apegado à sua forma
estacionária sobre os milhares de anos, caíram para revelar uma
criatura do Céu, que parecia ser apenas uma outra formação natural
saltando da paisagem congelada.

— Aí está você. — disse uma voz ainda mais fria do que os


ventos que sopravam do outro lado da montanha.

O Malakim graciosamente se virou, encontrando-se na presença


de outra das crianças celestiais de Deus. Esta estava vestida em trajes
humanos, acompanhado por vinte dos seus congêneres, e parecia ser a
fonte de mal-estar de Peliel. — Que hospedeiro é você? — Peliel
perguntou, casualmente escovando a sujeira de sua intricada
armadura.

— Eu sou Verchiel. — o intruso respondeu, curvando-se


ligeiramente — Do hospedeiro celestial dos Poderes.

Peliel estudou os seres diante dele, tomando nota das múltiplas


e raivosas cicatrizes que adornavam a carne exposta de seus corpos.
Este exército angelical havia estado em batalha contra um inimigo que
também exercia o poder do divino, não havia outra maneira de explicar
as marcas do conflito que carregavam. ‘O que tem acontecido,
enquanto minhas atenções estavam aqui?’ O Malakim se perguntou.

— Ah sim, os caçadores do caídos. — Peliel comentou em voz


alta, o vento uivando sobre ele como se estivesse em alerta.
— Você tem procurado por mim, Verchiel dos Poderes? — Para
seus próprios ouvidos, sua voz era rouca de milênios de não-uso, como
a fricção das placas tectônicas no interior da terra. — E por que isso?

Ele gostava de falar de novo, e sua mente vagou de volta para a


última vez que tinha usado a sua voz para se comunicar. Passado
muitos séculos, um gato selvagem, um leopardo, tinha
inexplicavelmente subido perto do cume ocidental da grande
montanha. Curioso sobre as intenções da criatura, Peliel tinha
aparecido ante ao animal. Ele estava morrendo, o clima gélido da
temporada de inverno do Kilimanjaro roubando o calor de seu ágil e
manchado corpo e na língua de sua espécie, o Malakim perguntou-lhe
por que tinha vindo a um lugar tão inóspito.

Enquanto ele estava deitado, agora para morrer, o leopardo


tinha respondido que tinha estado caçando pela montanha, tentado
pelo desejo de testemunhar algo maior que a si mesmo - atraído pelas
emanações poderosas do Malakim. Peliel sorriu, imaginando se essa
era a razão pela qual esses Poderes tinham chegado, atraído por um
senso de sua onipotência.

— Eu estou precisando de algo que você tem em sua posse. —


interrompeu o Verchiel Malakim.

Peliel riu, divertindo-se com a arrogância deste anjo. — E o que


eu poderia ter que possivelmente lhes interessa, pequeno mensageiro?

— Você e os outros de sua espécie são canais diretos com Deus.


— Verchiel explicou. — Extensões de Seu Santo poder, recipientes
para o seu conhecimento.
Peliel cruzou os braços sobre o peito largo, silenciosamente
pedindo ao anjo que continuasse com um assentimento de sua cabeça.

— Eu exijo informações sobre a desconstrução da Palavra de


Deus... E eu vou ter isso, não importa o custo. — Verchiel proclamou.

A ira de Peliel foi inflamada pela presunção. Como ousa este


anjo pensar-se digno de fazer exigências a um Malakim?

— Vá com cuidado, Verchiel. — o Malakim rosnou, — Pois está


dentro do meu poder vê-lo punido por sua vaidade. — Ele desfraldou
suas grandes asas de um cinza metálico, o próprio ar ao seu redor
estalou com contidas energias sobrenaturais.

— Sinto muito dizer que há pouco que você pode sujeitar-me,


santo Malakim, isto é pior do que já suportei. — Verchiel respondeu,
um sorriso maldoso apareceu em sua pálida e queimada feição.

— Dê-o que eu peço e eu vou deixar você com sua observação


deste... Continente fascinante. — Malícia pingava de suas palavras
desrespeitosas quando ele deu uma casual observada no horizonte
Africano.

Existe um ódio perigoso neste aqui, o Malakim observou, e


novamente se perguntou o que poderia ter acontecido enquanto suas
atenções centraram-se neste lugar. Ele não teve escolha senão colocar
este imperioso anjo, e aqueles que o seguiam, em seus respectivos
lugares. Essa arrogância irresponsável não poderia ser permitida e
continuar não contida.

— Filhote insolente! — Peliel gritou, sua voz retumbando através


da montanha como o rugido de uma avalanche. Ele estendeu a mão
para o céu de azul gelo para desenhar uma arma de energia, uma
espada de poder divino. E ele bateu a sua arma para baixo sobre o
topo da montanha. O chão se soltou e se dividiu onde foi atingido, uma
fenda rochosa surgiu na carne do Kilimanjaro, ziguezagueava a esmo
em direção ao Anjo dos Poderes enquanto o solo a seus pés tremeu.

— Zangue-se o quanto quiser, guarda de Sua Palavra. —


Verchiel disse, levantando voo, suas asas poderosas levantando-o da
terra trêmula. — Isso não vai mudar nada. — E então ele levantou a
mão e trouxe-a para baixo em um comando silencioso para aqueles
que o serviam.

Os anjos do exército dos Poderes subiram em direção ao


Malakim, gritos de violência saindo de suas bocas abertas, as armas
de fogo materializando-se em suas garras.

Peliel respondeu na mesma moeda, a sua própria arma forjada a


partir do poder da tempestade, incinerando os primeiros celestiais
atacantes guerreiros. Eles não eram páreo para ele, mas ainda assim
eles vieram, um após outro, até suas mortes. Quando o último deles
gritou em fracasso e as cinzas de seu corpo percorreu o topo da
montanha congelada, Peliel virou o rosto para seu mestre.

Verchiel ficou imóvel, com as mãos cruzadas atrás das costas.


Não havia o menor sinal de remorso para o destino daqueles que
obedeciam a seu comando.

— Você sabia que eles não tinham uma chance contra mim. — o
Malakim disse, a brilhante espada cantarolando e piscando em suas
garras, ansiosa para voltar a atacar.
O líder do exército, que tão insensivelmente os enviou para seus
destinos, acenou com a cabeça em concordância.

— Mas ainda sim você mandou-os para o ataque. Por quê? É


esse seu desejo de morte, Verchiel hospedeiro dos Poderes? Você tentar
salvar-se por ser vencido por uma maior do que você?

O anjo sorriu e, nesse instante, Pelielof o Malakim estava certo


de que a doença da loucura tinha realmente infectado esta criatura do
céu. Era um sorriso que lhe disse que o anjo estava além de cuidados,
além do medo de represálias. E pelo mais breve dos instantes, o
emissário de Deus temia o modesto mensageiro.

— O que aconteceu para fazê-lo desta maneira? — Peliel


perguntou.

O corpo de Verchiel cresceu em linha reta e rígida. — Eu sou o


que Ele me fez — o líder Poderes rosnou. — As mortes dos que estão
na minha custódia tem servido a um propósito. — Seus olhos
brilhavam em preto sólido, com a mácula de insanidade, e ele abriu
suas asas como se para enfatizar sua louca declaração. — A distração
era necessária.

Peliel percebeu a presença dos Arcontes antes de seu ataque


sobre ele, à sintonia com a delicada magia de anjos - magia que fora
ensinada pelo Malakim. Virou-se para enfrentar a ameaça quando uma
porta para um lugar que cheirava a morte e decadência se fechou atrás
deles. Ali estavam apenas cinco Arcontes quando deveria ter sido sete,
outro sinal de que as coisas estavam erradas. O Malakim começou a
perguntar aos seus alunos o que se abatera sobre o mundo dos
homens de Deus, enquanto ele estava preocupado, mas as palavras
não tiveram a chance de deixar sua boca.

Peliel conhecia as magias que fluíam de suas bocas, poderosas


magias que imobilizavam uma presa de grande força, e ele estava se
preparando para combater o ataque quando foi violentamente atingido
por trás. O calor feroz da espada de Verchiel tinha derretido através do
metal de sua armadura e perfurou a carne angelical abaixo. O
Malakim girou para confrontar a fonte desta última afronta quando as
últimas palavras do comandante dos Poderes tornaram-se
assustadoramente óbvias.

— A distração era necessária.

Verchiel já se afastara e Peliel sentiu os feitiços dos Arcontes


tomarem posse. Já era tarde demais. Ele tinha perdido a sua
oportunidade de lutar de volta. A magia entrou em seu corpo, fazendo
seu caminho debaixo de sua carne, em seus músculos e ossos,
congelando-o solidamente como o terreno frio e acidentado em que
tinha morado nesses últimos dois mil anos. Seus alunos tinham
aprendido bem a força dos feitiços angelicais, e eles cercaram sua
forma imobilizada, gentilmente abaixando-o no chão congelado
enquanto os ventos giravam febrilmente em torno deles.

Peliel não podia sentir, mas estava plenamente consciente de


tudo o que transpirou sobre ele. Quatro dos Arcontes pairavam acima,
murmurando os encantamentos que o mantinha incapacitado. De
dentro de suas vestes, o quinto usuário da magia — cujos olhos, Peliel
notou, tinham sido removidos de seu rosto — produziu uma
ferramenta, uma faca que brilhava e brilhava sedutoramente. Sua
lâmina era curva e serrilhada, e o Malakim estava certo de que sua
mordida seria feroz, de fato.

O Arconte cego mergulhou a lâmina para baixo na testa Peliel


com tal força que seu crânio dividiu.

O mundo começou a escurecer, e quando o véu da inconsciência


percorreu os olhos, Peliel viu que Verchiel tinha tomado o lugar ao lado
de seu fornecedor de magia angelical.

— Você vê isso? — ele estava perguntando sobre a repetição


monótona do feitiço dos Arcontes, um fôlego impaciente em sua voz.

— É, lá está. — disse o usuário da magia com uma inclinação de


sua cabeça encapuzada, as cavernas vagas de seu olho cheio de
piscinas sem fundo turbilhadas de trevas.

— Então pegue para mim. — Verchiel exigiu com um silvo


fervoroso.

E com dedos trêmulos, o Arconte cego alcançou dentro do crânio


do Malakim para levar o prêmio que seu mestre tão desesperadamente
procurava.
Vilma Santiago pressionou o telefone no ouvido, escutando os
sons de tristeza e decepção. Ela odiava mentir para sua tia e tio -
odiava como a fazia se sentir como uma menina idiota, mas a
alternativa era algo que ela mesma tinha apenas começado a
compreender, imagina seus guardiões.

Não, eu realmente não fugi de casa por uma conexão com um


garoto que eu mal conhecia, mas estava convencida de que tinha se
apaixonado, ela queria dizer para eles. Não, não mesmo. Na verdade eu
fui sequestrada por reais anjos como isca para Aaron — você sabe,
aquele menino que eu estou apaixonada — em uma armadilha. Os
anjos maus queriam matar Aaron antes de algum tipo de profecia
antiga, que ele deveria representar, se tornasse realidade. Você vê,
Aaron é um Nephilim, o filho de uma mãe humana e um anjo e,
adivinhem, eu também sou. Isso não é maravilhoso?

Ela ouviu a voz de sua tia, de repente como se ela ainda


estivesse lá, e Vilma empurrou de lado a verdade em favor das
mentiras. No momento, mentiras eram muito menos problemas.
— Estou aqui. — ela disse, tentando manter o tom de sua voz
alegre e otimista. — Desculpe por isso, acho que temos uma má
conexão.

Questões de mulheres zumbiam mais e mais, as mesmas


perguntas que ela havia perguntado durante a primeira ligação de
Vilma, há uma semana. Ela estava em apuros? Será que ela tinha um
lugar para ficar? Quando ela estaria voltando para casa? Vilma
contemplou através da divisória de vidro na parte traseira da cabine
telefônica, o trânsito zunindo por ela na estrada em frente à parada de
beira de estrada. Ela não queria nada mais do que estar em um desses
carros, acelerando longe de sua vida, fugindo de tudo que tinha
aprendido sobre si mesma. Mas ela sabia que era impossível, porque
não importava o quão longe ela dirigisse ou o quão rápido ela corresse,
ela nunca poderia escapar do que ela realmente era.

Nephilim.

A palavra continuou a assombrá-la. Ela tinha lido sobre esses


descendentes de anjos e seres humanos em inúmeros livros sobre os
seres celestiais que ela tinha gostado de ler ao longo dos anos, mas ela
nunca tinha imaginado que o conhecimento que ela tinha recolhido
seria de forma alguma, a respeito dela. Era apenas tudo tão louco.

— Você tem certeza que está tudo bem? — sua tia perguntou
mais uma vez, e Vilma pausou antes de permitir que a mentira fluísse
de sua boca.

A única coisa que fez dela uma Nephilim — Aaron descreveu


como uma essência angelical — tinha despertado na meia-noite em
seu décimo oitavo aniversário. Com cada dia que passava ela podia
senti-lo cada vez mais forte.

E isso assustava.

— Estou bem. — ela disse ao telefone. — Eu te disse, eu só


preciso de um pouco mais tempo para descobrir o que eu quero fazer
com minha vida. Assim que fizer isso, eu virei para casa. Eu prometo.

‘Isso é realmente uma mentira?’ Ela perguntou, mal ouvindo a


centésima vez que seu tio ofereceu para buscá-la, onde quer que fosse,
a qualquer hora do dia ou da noite. Tudo o que ela tinha que fazer era
ligar, deixá-lo saber onde encontrá-la, e ele estaria lá para ela. Será
que um dia serei capaz de voltar a Lynn, Massachusetts,
especialmente sendo do jeito que eu sou agora?

Vilma sentiu o poder mexer dentro dela e se perguntava se isso


era semelhante aos sentimentos experimentado pelas mulheres
quando grávidas. Ela seriamente duvidava que ter um bebê crescendo
dentro dela poderia assustá-la como isso. Além disso, se ela fosse ter
um filho seria porque ela queria isso. Vilma não queria que este poder
angelical, e às vezes ela suspeitava que a coisa dentro dela sabia disso.
Era imprevisível,

E ela nunca sabia quando iria despertar a essência e causar


uma confusão. Ela tentou com todas as forças mantê-la sob controle,
mas era como tentar segurar um espirro — exceto que um espirro não
tinha o poder do Céu por trás disso. Cada dia parecia um pouco mais
forte do que no dia anterior, e Vilma se preocupava que chegaria um
momento em que a força seria mais forte do que ela.

De repente, ela não queria mais estar no telefone, apenas no


caso do poder Nephilim decidir tomar conta. Na maior parte do tempo,
isso era um pouco doloroso, e ela não queria dar à sua tia e tio
qualquer razão para estarem mais preocupados com ela do que já
estavam.

Vilma disse a eles que ela tinha que ir e que iria ligar novamente
em um par de dias. Ela lhes disse que os amava, sua tia e tio, muito,
lembrou-lhes para não se preocupar, e assegurou-lhes que ela estaria
de volta para casa em breve.

E então, quando a ligação foi interrompida, o poder dos anjos


zumbia através de seu corpo, como o som de um baixo do estéreo de
um carro colocado ao máximo, e Vilma se perguntou se esse seria o
momento.

A hora que ela não poderia segurá-lo de volta.

Aaron Corbet não conseguia puxar os olhos da entrada do


restaurante em frente ao estacionamento. Os idosos, famílias,
caminhões e motoristas, pessoas de todas as formas e tamanhos, indo
para o café da manhã e saindo satisfeitos. Isso tudo era tão chato - tão
mundano.
O que ele não daria por chato e mundano em sua própria vida.

— O que você acha que aquele cara grande e gordo, com a cabeça
careca comeu? — seu labrador e melhor amigo, Gabriel, perguntou do
seu lado — Eu acho que ele arrotou; Eu posso cheirar salsicha Eu amo
salsicha, não é, Aaron?

O jovem não respondeu, ainda pego no fluxo do normal. Por


apenas um breve momento queria lembrar como era ser eles - as
pessoas indo e vindo da lanchonete, ignorando os seres do céu, os
anjos, que andavam entre eles.

— Você está pensando em linguiça, Aaron? — Gabriel de repente


lhe perguntou, afastando sua breve fantasia. — Ou pode ser
panquecas. O que eu não daria por alguns deles. Tem certeza de que
não podemos entrar e ter algo para comer? Estou com muita fome.

— Não, nós não podemos. — Aaron respondeu, sentindo


novamente o peso das novas responsabilidades que tinha de suportar.
Ele tinha as aceitado, mas isso não as tornava mais fáceis de
transportar.

Os anjos caídos que tinham fugido para a Terra depois da guerra


no Céu acreditavam em uma antiga profecia, uma revelação de que na
primavera um filho de uma mulher mortal e um anjo iria nascer para o
mundo dos homens. Esta amálgama das maiores criações de Deus,
este Nephilim, seria especial, diferente dos outros de sua laia e traria
consigo uma maneira em que aqueles que haviam caído em desgraça
poderiam ser perdoados de seus pecados e se reunissem com seu Pai
Santo no Céu. Aaron Corbet era este Nephilim - o salvador - quer ele
goste ou não.

A família saiu do restaurante — mãe, pai e o menininho


provavelmente cerca de sete anos. O menino segurava com força o
cordão de um balão do Bob Esponja, e naquele momento parecia ser a
criança mais feliz no mundo. Aaron os assistia atravessar o
estacionamento para o seu carro e não podia deixar de pensar na
família que havia sido perdida para ele, violentamente arrancada como
resultado de seu destino angelical.

Depois de passar os primeiros anos de sua vida pulando de uma


família adotiva para outra, ele finalmente foi colocado com os Stanleys,
um casal com amor verdadeiro, e seu filho, o jovem autista. Eles o
tinham aceitado como um dos seus, e vieram ser a única família que
Aaron realmente conhecia. Mas eles foram todos embora agora,
assassinados por uma série de anjos dos Poderes para certificar-se que
a profecia de perdão nunca viria a acontecer. Seu líder, um
desagradável, chamado Verchiel, queria vê-lo morto na pior das
maneiras, mas Aaron simplesmente não conseguia encontrá-lo em seu
coração para obrigar.

— É essa coisa de cachorros, não permitido de novo, não é? — o


Labrador interrompeu os pensamentos de Aaron, frustrado pelo fato de
que ele não podia comer. Gabriel gostava de comer e de falar... Falar e
falar. — É porque eles acham que fedemos, Aaron? — Perguntou o cão.
— Eu não acho que eu cheiro pior do que a maioria dos bebês.
Ser capaz de entender o cão — ser capaz de entender a
linguagem de todas as coisas vivas — era apenas um dos pontos fortes
de Aaron pelo direito de nascimento de um Nephilim. Com a ajuda de
seu anjo mentor, Camael, um velho e anjo caído chamado Belphegor,
ele havia conseguido se fundir com o poder de Deus que fluía através
de seu corpo. Isso lhe proporcionou a força e a habilidade que ele
precisava para alcançar seu destino, bem como lidar com a ameaça
ainda representada por Verchiel e os Poderes.

— Eu acho que você cheira melhor do que a maioria dos bebês


também. — elogiou o cão — mas ainda não vão deixá-lo comer lá
dentro. Nós conseguiremos alguma coisa quando voltar a Aerie. Não se
preocupe... Eu não morrerei de fome.

Aerie era seu lar agora, um assentamento de anjos caídos e


Nephilim dedicado à crença na antiga profecia que Aaron
supostamente representava. Aerie também havia se tornado a sua
responsabilidade.

O cão não resmungou, completamente satisfeito com o


compromisso, mas sabendo que ele tinha pouca escolha. Aaron sabia
esse sentimento bem o suficiente. Ele poderia reclamar tudo que
queria, mas não mudaria o fato de que ele tinha um destino para
cumprir. Ele tentou não permitir que seus novos deveres o
dominassem, mas era um desafio. Não só tinha que proteger os
cidadãos de Aerie, sabendo que Verchiel ainda estava lá fora à procura
de vingança, ele também tinha que cuidar de Vilma e lidar com a
revelação mais recente que Lúcifer era o anjo que o gerou. Quem disse
que ser um salvador era tudo diversão e brincadeira?
Aaron se afastou do restaurante e olhou para a cabine
telefônica, onde Vilma pareceu estar encerrando sua chamada.

— Estou preocupado com ela. — Gabriel disse, colocando


palavras aos sentimentos de Aaron, enquanto a ambos viam cair o
telefone e sair do cubículo de vidro e metal.

Vilma havia sido parte da antiga vida de Aaron, antes do poder


dos anjos se afirmar e transformar o mundo como ele havia conhecido
em sua orelha. Apesar de ter mantido contato através de e-mail, ele
realmente não tinha pensado que iria vê-la novamente, uma outra
parte de sua vida que ele foi forçado a abandonar. Mas ali estava ela,
inexplicavelmente fazendo parte de sua nova existência — um
Nephilim também. Ele sempre achava que ele era apaixonado por ela,
sempre soube que havia alguma conexão poderosa, mas isso acabou
fazendo seu envolvimento no turbilhão de vento que sua vida havia se
tornado ainda mais assustador.

— Está tudo bem em casa? — ele perguntou quando ela se


aproximou deles.

A menina deu de ombros, penteando uma mão nervosa através


de seu brilhante cabelo preto, na altura dos ombros. — Tão bom
quanto se pode esperar, eu acho. — ela disse, sem olhar para ele.

Ela estava suando, mesmo que a temperatura não estivesse


acima de quinze graus, e ele também notou os escuros círculos sob os
seus lindos olhos castanhos.

Aaron estendeu a mão cautelosamente para tocar no ombro de


Vilma. — Você está bem? — ele perguntou suavemente.
Vilma levantou o rosto para olhar para ele, os olhos cheios de
emoção. — Não. — ela respondeu, sacudindo a cabeça quando as
lágrimas começaram a cair pela pele escura de suas bochechas. — Eu
fui tirada de minha casa e minha escola, fui torturada por... Monstros,
eu estou tendo sonhos que me fazem ter medo de ir dormir, e... E há
algo ganhando vida dentro de mim que eu não posso sequer começar a
entender. Não, Aaron, eu não estou bem.

Ela estava com raiva e com medo, e ele sabia exatamente como
se sentia, pois não foi há muito tempo que experimentou o despertar
da essência angelical dentro de si. Ele tentou pensar nas coisas certas
a dizer para tranquilizá-la, mas não conseguia, ele não queria mentir.
Aaron não tinha ideia de como as coisas iriam ser no futuro, para ela,
para si, para os anjos caídos. A vida era incerta agora, o que era algo
que ele estava aprendendo a conviver. Era uma coisa que Vilma ia ter
que aprender também.

Como em um momento certo, Gabriel inclinou seu corpo grande


e amarelo contra a menina, empurrando-lhe a mão com o nariz frio e
úmido. — Não chore, Vilma. — ele disse consoladoramente, seus olhos
escuros olhando para a dela. — Tudo vai ficar bem. Só você esperar e
ver.

Ela começou a acariciar a cabeça do cão, e Aaron poderia ver o


imediato efeito calmante que a presença do cão tinha sobre ela. Na
semana, uma vez que a salvou das garras Verchiel, Gabriel tornou-se a
âncora de Vilma à sanidade.

— Estou muito cansada. — ela disse, sua voz não mais alto que
um sussurro. — Eu acho que eu gostaria de ir para ca... — Vilma
interrompeu, a palavra presa na garganta dela antes que pudesse sair
de sua boca. Ela ia dizer — casa — Mas não era casa para ela, embora
tivesse que ser até que a ameaça de Verchiel e seus Poderes tivesse
acabado para todos.

— Eu vou levar você de volta para Aerie. — Aaron disse


calmamente, colocando o braço em torno dela e puxando-a para perto.

Ela concordou e não disse mais nada, quando Gabriel, também,


se aproximou.

Usando outro dos dons de sua natureza angélica, Aaron quis


todos eles invisíveis, em seguida, permitiu que a maciça asa preta
brilhante saísse de suas costas. Pensou em Aerie, retratada em sua
mente, o bairro abandonado construído sobre um cemitério de
resíduos tóxicos, envolveu Vilma e Gabriel em seu abraço de penas, e
os levou lá.

Memórias profundas dentro do porão do esquecimento, Lúcifer


havia procurado a fuga do tormento, e em vez encontrou memórias de
tempos que preferia esquecer.

Ele viu tudo isso como sempre fazia quando fechava os olhos: os
crimes que ele cometeu contra Deus, a guerra travada nos céus em
nome de ciúmes mesquinhos. Mas quando essas lembranças foram
gastas, as feridas do seu passado reabertas, o primeiro dos caídos viu
que as evocações dolorosos de sua mente ainda não tinham terminado
com ele.

Fazia anos desde a última vez que sonhou com ela — pensou
sobre ela — e gemia em protesto quando as lembranças muito
reprimidas se desenrolavam em seu sonho. O nome dela era Taylor, e a
memória dela era tão dolorosa como qualquer coisa que ele tinha sido
forçado a suportar desde sua captura por Verchiel e seus seguidores.

Ele a via como tinha visto na primeira vez: uma mulher bonita,
um ser humano que emanava vida e vitalidade, com ricos os olhos
escuros da cor do mogno polido, e cabelos negros que sedutoramente
enrolavam ao redor de seus ombros. Ela usava um vestido fluído
amarelo, sandálias de couro sobre os seus pés delicados, e estava
brincando com um cão retriever, um dourado, chamado Brandy. Havia
algo sobre ela que chamou-o, algo que o fez acreditar que poderia não
ser o monstro que seu próprio tipo achava que o fosse.

No breve tempo que ele tinha estado com ela, Lúcifer tinha
quase sido capaz de se convencer de que era apenas um homem, não o
líder de uma rebelião contra Deus. Quão maravilhosamente mundana
sua vida havia se tornado, o desejo de vagar pelo planeta, como tinha
feito há milhares de anos, de repente sufocado pelo amor de uma
mulher terrena. Era como se tivesse sido tocado pelos próprios
Arcontes; havia uma magia inerente a ela que parecia acalmar seu
espírito inquieto e anestesiar a dor da maldição que iria levar para
sempre como o instigador da guerra do céu.

Lúcifer lutou em direção à consciência, mas a corrente do


passado era muito forte, e afogou-se em memórias adicionais, puxadas
mais profundamente. Foram, de fato, os sonhos que foram precursores
para o fim de sua felicidade com a mulher. Ele tinha começado a
experimentar sonhos turbulentos pelos quais era responsável, e o
sangue e morte — os rostos daqueles que tinham morrido por sua
causa assombrando suas tentativas de paz. Os sonhos eram
implacáveis. Eles despertaram nele a enormidade de seus pecados, e
sabia que devia seguir em frente. Ele ainda não tinha conquistado o
direito à paz e à felicidade. Como ele tinha sido estúpido em pensar
que sua penitência podia estar no fim. Embora doesse, ele deixou a
bela e mágica Taylor e começou suas andanças de novo.

E em sua mente febril, ele a viu como tinha visto na última vez,
dormindo na cama que eles tinham compartilhado como homem e
mulher. Como ela era bonita. Ele a tinha deixado durante a noite,
furtivamente em silêncio na escuridão e fora de sua vida. Isso foi o
melhor, ele disse a si mesmo, ele podia trazer para ela nada além de
miséria.

Mas desta vez a memória era diferente e ele não a deixou. Em


vez disso Taylor se agitava em cima da cama, como se sentindo seu
olhar sobre ela, e ela rolou mais para olhar para ele, um sorriso
sedutor espalhando por todo seu rosto, vestida com as sombras da
hora mais cedo.

— Olá, Lúcifer. — ela disse em uma voz cheia com a rouquidão


do sono interrompido, e ele sentiu seu amor pela mulher inchar dentro
dele.

Era como se ele nunca a tivesse deixado.


Lorelei suspirou quando o tumulto continuou a crescer. Ela
colocou as mãos em cima da mesa plana, tomou uma respiração
profunda, e se forçou para não proferir um encantamento que teria
chamado para baixo um relâmpago do céu silenciando,
permanentemente, os cidadãos agitados que se reuniram na sala de
reuniões do centro da comunidade de Aerie.

— Pessoal, por favor — ela disse, erguendo a voz para ser ouvida
acima do barulho frenético. — Não vamos conseguir fazer nada aqui,
por que estamos todos falando ao mesmo tempo.

Os cidadãos a ignoraram e continuaram a sua conversa


animada, o volume dentro da sala de teto baixo se intensificou. Ela se
lembra de como parecia fácil para Belphegor presidir essas reuniões.
Tudo o que o antigo anjo caído tinha a fazer era se levantar da cadeira
e fazer um barulho com a sua garganta, e logo todos se calavam,
esperando suas palavras com muita atenção. E isso era apenas uma
das coisas que ela não atendia sobre ser líder.

Belphegor tinha sido mortalmente ferido durante o ataque dos


Poderes sobre Aerie, em um violento duelo com seu comandante,
Verchiel. Eles ficaram perto da morte, mas Aaron Corbet o libertou da
carne e do sangue, o perdoando e todos os outros que tinham caído na
batalha devastadora, os permitindo voltar para o céu. Lorelei tinha
ficado feliz por eles, era o que cada caído mais queria. Voltar para
casa, mas a ausência Belphegor foi sentida a cada dia.

— Tem havido bastante conversa. — disse um anjo caído


chamado Atliel. Ele estava de pé ao lado de sua dobrável cadeira de
metal, o seu único olho e rosto queimado severamente chamava a
atenção das pessoas ao redor dele. O anjo tinha sido marcado na
batalha com os Poderes, mas pelo menos ele tinha sobrevivido quando
tantos outros cidadãos não tinham.

Lorelei olhou em volta da sala e foi lembrada de quantos tinham


sido perdidos tentando defender Aerie dos soldados de Verchiel. Nem
todos os dele morreram; Aaron tinha libertado muitos anjos caídos que
tinham conseguido se pendurar em um fio de vida. Mesmo assim, os
seus números haviam sido cortados facilmente pela metade, e isso não
contava os Nephilim que tinham sido gravemente feridos. Eles ainda
estavam tentando curar, a questão de sua sobrevivência não muito
certa.

— Devemos agir imediatamente ou sofrer o destino de nossos


irmãos. — Atliel proclamou, olhando em torno do quarto, seu rosto
cheio de cicatrizes acalmando a congregação muito mais eficazmente
do que tinha Lorelei quando levantou sua voz.
— E o que você propõe? — o Nephilim perguntou, levantando da
cadeira que ela tinha visto Belphegor fazer no passado, esperando que
ela pudesse manter algum controle da reunião. Ela sabia que muitos
dos cidadãos não estavam satisfeitos que ela, uma Nephilim, uma
mestiça, havia assumido o controle do assentamento angelical com a
morte de seu fundador, mas esse tinha sido desejo de Belphegor. Sua
confiança em sua capacidade de liderar tinha sempre a surpreendido.

Mesmo que os anjos caídos e os Nephilim vivessem juntos em


relativa harmonia, havia ainda uma certa quantidade preconceito,
especialmente quando isso formavam as decisões que regeriam o
futuro de Aerie.

Atliel virou-se para fixá-la com seu olho bom. Era óbvio que ele
não apreciou a interrupção. — Devemos fazer o que fizemos no
passado, quando fomos ameaçados. — ele respondeu, uma pitada de
petulância em sua voz. — Aerie devem ser realocada. Não podemos ter
a possibilidade de outro ataque dos Poderes.

Lorelei observou as reações das pessoas em sua frente. Eles


estavam em uma mistura de aceitação e choque, quieta aceitação, e
completo desespero. Aerie tinha estado em muitos lugares através dos
milênios que existiram, movendo-se de um local secreto para outro
quando os Poderes chegavam mais perto de encontrá-los. Muitos no
santuário são novos residentes, o bairro abandonado de Ravens child
Estates era o único lar verdadeiro que tinha conhecido, e isso ela sabia
por experiência pessoal.

— Você não acha que nós viemos de muito longe para isso? —
ela perguntou, alimentando as chamas da ira do Atliel. — Você acha
que Belphegor e que todos os outros cidadões que caíram durante a
batalha fizeram isso apenas para que pudéssemos correr e nos
esconder novamente? Eu seriamente duvido disso.

Atliel agarrou a borda da cadeira em frente a ele, os nós dos


dedos brancos com a força de sua frustração.

— Verchiel e seus seguidores sabem onde estamos. Eles podem


voltar a qualquer momento para terminarem o que começaram. Aerie
deve sobreviver se alguma vez quisermos encontrar o perdão de nosso
Pai no Céu. Nada mais importa.

Lorelei saiu de trás da tabela. Ela sabia que eles estavam com
medo, mas ela não podia acreditar que eles estavam tão cegos por seu
temor de que não viam os sinais de mudança que ia em direção a eles,
as mudanças que tinha começado logo após Aaron Corbet ter chegado
a Aerie.

— Acredito que o tempo que você estava esperando, o perdão


que você está procurando, está sobre nós, Atliel — ela disse,
recostando-se contra a borda da mesa e cruzando as botas na altura
dos tornozelos.

— Você está se referindo à aquele Nephilim, Aaron Corbet. —


respondeu o anjo caído, um tom zombador danificava suas
características.

— Sim. — ela respondeu enfaticamente: — eu estou.

Atliel balançou lentamente a cabeça. — O salvador da profecia.


— ele resmungou, olhando para as pessoas reunidas em torno de ele.
— Eu estou tendo grandes dificuldades em acreditar.
— Você viu o que ele pode fazer. — Lorelei gritou, afastando-se
da mesa para enfatizar seu ponto. — Você viu o que ele fez para
Camael - o que ele fez para Belphegor e todos os outros que tombaram
em batalha.

— Sim, mas...

— Ele os perdoou. — continuou Lorelei acima do protesto de


Atliel. Ela não tinha paciência para ele ou qualquer dúvida dos outros.
Aaron Corbet era The One, e ela não ia deixar que uma voz discordante
entre eles desvirtuasse o que finalmente, depois de milhares e milhares
de anos, estava prestes a acontecer com eles. — Aaron permitiu que
eles voltassem para o Céu, e eu acredito que ele vai fazer o mesmo por
você.

O quarto estava quieto e de repente Lorelei viu que todos os


olhos estavam finalmente em cima dela. Ela estava orgulhosa de si
mesma por falar. Os cidadãos de Aerie já não podiam permitir-se ser
governados pelo medo.

Estes eram novos tempos para eles, e eles precisavam de uma


nova perspectiva.

— E onde está o nosso salvador? — Atliel perguntou para a sala


em geral. — Ele não estava ciente desta reunião?

— Sim, ele estava, mas...

Foi a vez de Atliel interromper como um baixo barulho de


movimentação no meio da multidão. — Ele estava consciente, mas ele
não escolheu participar. É isso que você está nos dizendo, Lorelei? Que
o destino de nossas esperanças e sonhos está à beira de um precipício,
e Aaron Corbet não podia ser incomodado?

— Olha. — ela começou, exasperada pela inexplicável ausência


de Aaron, pelo questionamento persistente de Atliel, por sua própria
falta de controle. — Tudo o que eu estou dizendo é que precisamos
considerar todos as opções antes de virar as costas e correr. Pelo
menos conversem com Aaron, ele pode ser capaz de nos dar...

— E eu vou perguntar, Lorelei — Atliel disse, cortando-a de novo


— é para nosso salvador começar a agir como um e oferecer-nos
alguma orientação?

Ela não sabia como responder, escolheu ao invés disso, não


dizer nada, e em questão de segundos a comoção estava em ascensão
novamente, vozes de anjos caídos e Nephilim, todos falando de uma só
vez, clamando para serem ouvidos.

Porra, Aaron pensou, de repente, lembrando da reunião no


centro da comunidade Aerie que ele tinha prometido à Lorelei que iria
comparecer.

Ele estava no processo de transportar Vilma, Gabriel, e ele de


volta à sua casa em Aerie, atravessando o vazio. Foi uma das poucas
habilidades angelicais que ele realmente apreciava. Tudo o que ele
tinha que fazer era imaginar em sua mente o lugar que ele queria
estar, envolver-se dentro de suas asas, e em uma questão de
segundos, ele estava lá. Neste momento particular, porém, ele foi
forçado a mudar sua imagem da viagem, e ele abriu suas asas para
surgir na rua em frente ao centro comunitário.

— Eu realmente sinto muito sobre isso. — ele pediu desculpa


aos seus companheiros de viagem quando sua asa retrocedeu sob a
carne de suas costas. — Eu acabei de lembrar que prometi a Lorelei
que eu iria para a reunião da comunidade hoje...

Vilma sorriu fracamente, e ele não podia acreditar em como ela


parecia cansada. — Tudo bem. — ela disse. — Eu acho que preciso
deitar de qualquer maneira. Ainda estou me sentindo muito esgotada.

Aaron olhou para a entrada do centro comunidade e pegou uma


vista de Lehash sentado, observando-os. O anjo caído encarregado da
segurança de Aerie tirou o seu chapéu de cowboy em cumprimento,
cada polegada dele parecia como se tivesse saído de um velho faroeste.
Aaron sorriu e acenou brevemente antes de virar sua atenção de volta
para Vilma.

— Gabriel vai com você. — disse para menina.

Ela estendeu a mão e coçou o alto da cabeça do labrador. — É


isso que você quer fazer, Gabe? — perguntou-lhe na linguagem dos
cães.

— Você vai me dar café da manhã?

— Claro que eu vou. — ela assegurou-lhe.

— Então vamos — disse Gabriel, já começando a caminhar na


direção da casa onde iam ficar. — Eu estou morrendo de fome.

Vilma riu, depois fez uma pausa para olhar para trás, para
Aaron.
— Eu te vejo mais tarde? — ela perguntou, e ele podia ouvir a
tristeza permeando em sua voz. Isso quase quebrou seu coração. Mas
não vai durar para sempre, ele tentou tranquilizar-se. Ele deu um
passo para frente e colocou os braços em torno dela provisoriamente.
— Vai dar tudo certo. — ele sussurrou em seu ouvido, apertando com
força.

Vilma o abraçou de volta, mas não disse nada para provar que
ela acreditava no que ele lhe dissera.

— Vamos lá, Vilma. Vamos. — Gabriel chamou, seu rabo


balançando ansiosamente enquanto ele pedia para ela seguir.

Ela foi a primeira a quebrar o abraço, olhando profundamente


nos olhos de Aaron, e forçando um sorriso antes de seguir o cão.

É um ajuste enorme, ele disse a si mesmo, observando como ela


se afastava dele. Ela só precisa de tempo.

Ele podia sentir a essência angelical dela se tornar mais forte, e


orou por uma fácil fusão. Imaginando que não levaria muito mais
tempo para que o processo se completasse.

Aaron se virou e correu em direção ao centro comunitário. —


Lorelei vai me matar. — ele acabou de dizer ao anjo caído que por
acaso era o pai dela.

Lehash havia inclinado a cadeira para trás com as duas pernas e


estava encostado contra a parede do edifício. — Não tenho certeza se
você quer entrar agora. — ele disse no sotaque do Velho Oeste. — As
pessoas estão irritadas no momento. Lorelei está tentando acalmá-los.

— Com o que eles estão chateados?


— Você. — Lehash respondeu, baixando as pernas da cadeira
para o chão.

— Eu? — Aaron perguntou incrédulo.

O anjo caído assentiu com a cabeça. — Yep. Eles estão


preocupados que não você não assumiu o cargo de salvador a sério o
suficiente.

O anjo pistoleiro inclinou a borda de seu chapéu e olhou nos


olhos de Aaron. — Eles querem saber por que você não está aqui para
salvá-los.

— Filho da puta. — Aaron sibilou quando ele agarrou as mãos


em punhos e atirou a porta aberta.

— O que você vai fazer? — ouviu Lehash falar depois dele


enquanto ele invadia para dentro.

— Eu vou ter uma conversinha com os cidadãos de Aerie.

Lehash gargalhou, sua cadeira deslizando sobre o chão quando


ele abruptamente se levantou, seguindo o Nephilim no edifício.

— Isso eu tenho que ver. — Aaron ouviu o anjo dizer.

Aaron entrou na sala de reuniões por meio de uma porta nas


costas e imediatamente se sentiu como se estivesse no meio de uma
daqueles bizarros sonhos indo-para-escola-nu. Ele tinha os ouvido
falando enquanto ele se aproximava, cada um tentando ser ouvido
acima do outro e Lorelei gritando por ordem.

E eles se calaram, mas só porque o viram chegar.


Todas as cabeças viraram em sua direção, e todos os olhos o
assistiam enquanto ele caminhava pelo corredor para se juntar à
Lorelei na frente. Ele não fez contato com qualquer um deles, mas
podia sentir suas hostilidades e sua frustração.

Os sentimentos eram mútuos.

— Desculpe o atraso. — ele disse calmamente para Lorelei


enquanto ela se afastava para permitir-lhe o espaço.

Ele enfrentou a sala lotada. Lehash estava atrás, braços


cruzados, pernas contra a parede, um astuto sorriso em suas feições
desfiguradas. Eles estavam todos lá - anjos caídos e Nephilim. E por
que não estar? Os cidadãos de Aerie estavam preocupados com seu
futuro, um futuro em que Aaron tinha uma grande parte. Isso era uma
pesada responsabilidade, e ele sentiu como se estivesse começando a
se dobrar sob esse peso tremendo. Ele estava fazendo o melhor que
podia, mas às vezes simplesmente não parecia ser o suficiente.

— Desculpe o atraso. — ele disse novamente para o salão.

Mas antes que ele pudesse continuar, Atliel interrompeu. —


Aerie deve ser realocada. — ele declarou, seu único olho olhando
intensamente. — Nós não podemos arriscar mais vidas. O sonho de
Aerie deve sobreviver, e não pode ser aqui.

— Eu não acho que precisamos nos preocupar sobre Verchiel


agora. — Aaron tentou tranquilizar os cidadãos. — Ele sofreu baixas
até maiores que a nossa, graças a Lorelei. Acredito que estamos a salvo
por agora. — Ele olhou para Lorelei por apoio, e viu que ela estava
balançando a cabeça em concordância.
— Você acredita que estamos seguros? — Atliel disse apontando
um longo dedo para ele.

Aaron se encolheu. Ele não queria que isso virasse uma


argumentação. Ele queria entrar, dizer-lhes o que ele havia planejado
para o seu futuro, e depois passar o resto do dia com Vilma. — Sim, eu
acho.

A expressão do anjo virou-se para um de completa repulsa. —


Que direito você tem de dizer que estamos seguros, quando você sabe
muito bem do que Verchiel é capaz?

Ele sentiu o coração acelerar, o seu sangue começar a correr em


suas veias. Ele se forçou a se acalmar. Era uma democracia aqui em
Aerie, e os cidadãos tinham todo o direito de falar o que tinham em
mente.

— Ele matou seus pais. — Atliel rosnou. — Transformou seu


irmão em um monstro. Matou seu mentor e usou sua mulher como
isca para levá-lo à sua morte.

Aaron sabia de tudo isso. Isso estava com ele todos os dias, um
lembrete constante de quanto sua vida tinha mudado, do que o seu
destino como o salvador tinha tirado dele.

— Verchiel é uma força imprevisível. — Atliel continuou. —


Todos nós temos temido a sua ira desde a queda do Céu. Não me diga
que estamos salvos. Não poderíamos estar mais longe da verdade. — A
raiva de Aaron estava crescendo e ele sentiu o poder de sua herança
angelical correr através de seu sangue e músculos, inflamando a sua
própria essência. — Eu estou fazendo o meu melhor. — ele disse
através dos dentes. Ele viu que Lehash tinha se movido da parede e foi
se aproximando da frente. O anjo guerreiro, obviamente, suspeitou que
algo estava para acontecer, e ele não poderia estar mais certo.

— Nós da Aerie esperamos mais do nosso salvador do que o


melhor. — E com essas palavras, Atliel espalhou suas asas, assim
como alguns outros no centro da comunidade, e eles começaram a
bater suavemente em união, o estreito espaço da reunião se encheu
com o som de asas batendo no ar. Eles fizeram isso para mostrar o seu
desprazer, para mostrar sua dúvida de que Aaron era capaz de
cumprir a profecia.

Os sibilos subiram para a superfície de sua pele e Aaron sabia


que não podia segurar mais sua raiva. Ele soltou um grito de raiva
quando suas asas explodiram a partir de suas costas, e ele também
começou a bater o ar, mais duro, singularmente abafando os sons dos
outros. Ele viu as expressões de choque e surpresa espalhando por
todos os rostos dos cidadãos enquanto ele lhes revelava o formato de
seu Redentor. Suas poderosas asas continuaram a bater, obrigando-os
a ir para trás, derrubando as cadeiras em cima deles e criando um
mini-redemoinho de poeira e sujeira.

E tão abruptamente como tinha começado, ele parou, enrolando


suas asas nas costas e encarando todos eles.

— Por que vocês, pessoas, apenas não me dão uma folga? — Sua
voz retumbou como o rosnar de uma perigosa e selvagem besta, cheia
de potencial violência. — Você acredita seriamente que eu entendo o
que significa ser um salvador? Bem, no caso de você não perceber isso
ainda, eu não tenho uma pista.
Anjos caídos e Nephilim estavam igualmente em silêncio. Até
Atliel decidiu que poderia ser melhor segurar sua língua. Lehash
estava nas proximidades e Aaron podia ver as faíscas de fogo dourado
dançando em suas mãos, o pistoleiro estava pronto para evocar suas
pistolas de fogo celestial, se necessário.

— Tudo o que eu estou pedindo é para que vocês me deem um


tempo. Eu sei que vocês estão assustados, estou assustado também,
mas isso não vai fazer bom para ninguém, vir atrás de mim por não
atender às suas expectativas.

Aaron fez contato visual com eles e cada um desviou o olhar,


aceitando sua posição de dominador.

— Eu não tenho ideia do que o amanhã reserva para mim ou


para vocês. Mas eu sei que, para garantir algum futuro, temos que
trabalhar juntos. Nós não podemos correr de Verchiel, temos de lidar
com ele — Ele deixou as suas asas recuarem abaixo de sua carne
quando os sigilos começaram a desvanecer-se.

— E isso é exatamente o que eu pretendo fazer. — ele declarou


finalizando enquanto andava pelo salão. — Reunião suspensa.
O pequeno roedor se encolhia em um bolso de sombras,
observando, com amplos olhos cheios de medo, enquanto seu amigo
era torturado.

Ele queria correr, fugir da cena feia, mas por um motivo seu
pequeno cérebro não poderia começar a funcionar, o rato não deixaria
o homem que tinha se tornado seu amigo. Amizade com um homem?
Questionou. Seu processo de pensamento primitivo confrontava com o
conceito, porque este ser era muito mais do que apenas um homem.

Ele lembrou a primeira vez que o tinha visto. Ele estava vivendo
em um monastério longe nas montanhas, muito longe, e Lúcifer
chegou no meio de uma terrível tempestade de neve. Os irmãos que
habitavam o mosteiro não tinham ideia de quem batia na sua porta,
mas o acolheram no interior, convidando-o para partilhar a sua noite
de refeição. Ele tinha alegado ser um viajante, cansado de suas
andanças, procurando um lugar para descansar e refletir sobre uma
vida cheia de arrependimentos. Os irmãos ofereceram seu mosteiro
como um refúgio e Lúcifer aceitou sua oferta para ficar.

O rato assistiu aos cinco seres que abusavam de seu amigo


içando-o, nu, no ar, pendurado por grossas correntes negras presas
em seus pulsos e tornozelos, com o rosto apontado para o chão. Eles
agacharam para ele, examinando cuidadosamente seu ventre exposto.
Ao primeiro encontro, o estranho tinha pedido ao rato um favor.
Lúcifer falou com ele na língua de sua espécie e deu-lhe um pedaço
delicioso de pão como como pagamento. Ele simplesmente pediu-lhe
para abrir os olhos quando vagasse pelo o mosteiro, e deixá-lo saber se
ele visse algum estranho como ele. A relação que nasceu beneficiava
muito a ambos, e logo floresceu em algo maior, uma admiração mútua,
genuína amizade.

O pequeno observador assistiu um Arcanjo parar enfrente de


seu amigo enforcado, e em sua mão, formou uma faca de fogo. Com
um movimento súbito e selvagem, o Arcanjo cortou seu amigo, o seu
sangue fazendo uma poça no chão.

Ele queria ajudar seu amigo, mas ao invés, ele se retraiu mais
para dentro da escuridão do canto. O que poderia possivelmente fazer?

Era apenas um rato.

A cerimonia era proibida. Arcanjo Oraios tinha se certificado


disso. Mas lá estavam eles, fazendo preparações para inverter a
Palavra de Deus.

— Rápido! — Arcanjo Jao guinchou, agachando na frente do


corpo quando as primeiras gotas de sangue do prisioneiro derramavam
a partir do corte de seu ventre. — Traga-me a taça. Não podemos
perder uma gota!

Arcanjo Domiel recuperou uma taça de ouro cerimonial de seus


pertences e cuidadosamente deslizou sob a ferida pingando de um
Lúcifer enforcado.
— Excelente. — Jao disse esfregando as longas mãos juntas
enquanto observava as gotas carmesins quentes de sangue começar a
encher a taça. — Há muito a ser feito com esse sangue. Cada gota deve
servir a causa de nosso mestre.

Arcanjo Oraios virou o seu olhar de um inconsciente Lúcifer


para Jao ao lado dele. — É isso que ele é para nós agora, irmão? —
perguntou o anjo. — Quando, no começo, nos unimos à busca de
Verchiel para livrar o mundo do Deus dos infratores, fizemos de igual
para igual, compartilhando a aversão dos Poderes para aqueles que
tem pecado contra o céu. Mas agora parece que somos nada mais do
que servos de sua raiva.

— Cuidado, Oraios. — Arcanjo Jaldabaoth advertiu, ajoelhado,


mergulhando os dedos nas gotas que manchavam o chão. — Lembre-
se do destino dos nossos irmãos, Sabaoth e Erathaol. Seus atos não
agradaram Verch... Nosso mestre e por isso pagaram um preço mais
caro. — Jaldabaoth começou a pintar um grande círculo de sangue no
chão de madeira sob o primeiro dos anjos caídos.

— Porque você não pode dizer isso, irmão? — Oraios perguntou.


— Pagaram um preço mais caro, de fato. — ele rosnou. — Verchiel os
matou em um ataque de raiva. Parece que nosso mestre se tornou
bastante encantado com o ato de assassinato.

Arcanjo Domiel se virou com um silvo. — Eu não quero ouvir


isso. — ele disse, balançando sua cabeça. — Sacrifícios devem ser
feitos para alcançar os próprios objetivos. A causa de Verchiel é apenas
uma tentativa final de corrigir o que está gravemente errado.
O ar estava pesado com o cheiro de sangue quando Jao se
juntou à Jaldabaoth no chão. — Essa discussão está acabada. — ele
disse, mergulhando os dedos no sangue coletado do seu inimigo e
completando o círculo.

— Há muito a ser feito para debater isso agora.

— O assassinato do nosso Malakim, com mais a seguir se


quisermos ter o que precisamos para completar a cerimônia para
desvendar as palavras do Santíssimo e desatar o Inferno em cima do
mundo. É assim que um erro grave é corrigido, meus irmãos Arcanjos?
— Oraios perguntou, ignorando Jao.

— É tarde demais para pensar em tais coisas. — Katspiel disse


calmamente do canto. Ele lentamente ergueu a cabeça, as sombras da
sala correndo para preencher os buracos vazios dos olhos como
petróleo. Em um ritual antes, ele tentou olhar o Inferno dentro de
Lúcifer, e pagou o preço por sua visão. — Os eventos transpiraram
além das nossas habilidades para controlar. — ele arquejou. — Nós
somos apenas engrenagens do grande mecanismo que está em
movimento.

— Então você diz que devemos continuar como estamos. —


Oraios pediu a seu irmão sem olhos — Cuidando das vontades e
desejos de alguém que poderia muito bem condenar a todos nós.

— Sim. — Katspiel disse, com a cabeça escorregando para


frente, quando ele começou a cair em um sono meditativo que lhe
permitiria localizar o próximo Malakim. — Mas eu não iria me
preocupar com potencial condenação, Irmão Oraios. Pelo o que temos
feito, e o que está prestes a acontecer, já estamos condenados.
Verchiel ficou nu diante do curador, permitindo que o humano
cego administrasse seus ferimentos, tanto os velhos como os novos.

O cheiro rico de óleos antigos flutuavam enquanto Kraus


mergulhava panos em seu medicamento restaurador e gentilmente os
aplicava a várias lesões no líder dos Poderes.

— Peço desculpas pela dor que devo estar causando, meu


senhor. — disse o homem. — Mas devo tentar remédios fortes se eu
quero consertar suas feridas completamente.

As lesões de Verchiel eram extensas e curavam muito mais


lentamente do que o normal para um anjo de tal poder. Alguns não
estavam curando de qualquer modo. Outro pedaço de evidência de que
o Criador verdadeiramente abandonou seu mais fiel soldado, ele
pensou, amargamente, a agonia da cura com óleos era nada em
comparação a ser abandonado.

O líder dos Poderes estremeceu quando seu servo aplicava mais


do bálsamo medicinal.

— Se eu pudesse compartilhar a sua dor, meu mestre. — Kraus


disse quando inclinou a cabeça em tristeza. — Eu iria com prazer
arcar com o ônus para diminuir o seu ferimento.

Verchiel olhou para baixo para seu curador ajoelhado a seus


pés. — O caminho diante de nós está coberto com perigo. — o anjo
disse, colocando sua mão sobre a cabeça do ser humano. — O
potencial para lesões excruciantes é grande. Você ainda anseia
participar da minha dor, pequeno macaco?
Kraus levantou a cabeça para contemplar Verchiel com os olhos
cegos, seu velho rosto virou em adoração. — Seria o mínimo que posso
fazer. — Kraus disse, seu corpo tremendo. — Mas desde que eu não
posso suportar sua dor, eu vou aliviar e curar suas feridas enquanto o
presente da vida ainda preenche estes ossos e estou permitido a
atendê-lo.

Verchiel pensou em seu próprio mestre e no que Verchiel havia


perdido. Como ele amava o seu Criador, mas obviamente, não foi
suficiente para impedi-lo de virar-se para longe de conceder Suas
bênçãos sobre a mais miserável das criações, os criminosos e as
abominações sem raça definida. O anjo fervia de raiva. Ele queria
rasgar e rasgar, queimar até às cinzas tudo e todos que lembravam de
sua perda.

Um chiado fraco puxou o líder dos Poderes de seu devaneio


perturbado, e ele viu que tinha agarrado o homem cego pela garganta e
estava apertando a vida de seu corpo. O macaco se debatia, mas o
olhar de êxtase, de pura adoração, ainda estava em seu rosto.

Verchiel deixou cair o curandeiro de sua mão com raiva, pois


não era culpa desta forma de vida humilde que o Criador tinha optado
por abandoná-lo.

O curandeiro cego lutava para respirar enquanto ele estava


deitado no chão da sala. — Desculpe. — ele ofegou uma e outra vez,
certo que ele tinha feito algo para ofender seu mestre.

Mas as desculpas do macaco - suas solicitações de perdão - não


recairiam sobre ouvidos surdos, como os de Verchiel faziam. Ele iria
ouvir as alegações de seu servo, e ele responderia.
Verchiel desfraldou suas asas e se ajoelhou na frente do servo
trêmulo e suplicante. — Eu ouço suas suplicas. — ele disse enquanto
segurava o homem assustado em seus braços e chamou-o perto. —
Mas você não tem nada para se desculpar.

Kraus começou a chorar, a umidade vazando das órbitas cegas


dele.

— A raiva tomou conta de mim, um tumulto no interior, isso


quase causou a sua morte. — Verchiel disse a ele. — E por esse erro
eu lamento.

A dor de seus ferimentos foi subitamente embora e Verchiel foi


preenchido com o poder da sua própria divindade. Ele soube então,
verdadeiramente entendeu como era ser um deus-abençoado com o
poder da condenação ou absolvição.

— Eu vou te mostrar a profundidade do meu arrependimento. —


disse o anjo, chamando mais perto um Kraus ainda tremendo. Verchiel
inclinou a cabeça para frente e colocou um beijo suave sobre cada
leitosa órbita coberta.

E o curador começou a gritar.

A dor foi como nada que Kraus alguma vez tinha experimentado.

Ele saiu dos braços de seu mestre, tropeçando no salão


enquanto a dor em seus olhos inúteis se intensificava. Ele tinha
memorizado o layout da sala, bem como toda a abandonada igreja e
orfanato de Santo Atanásio onde os Poderes estavam reunidos estes
dias, mas o puro pânico e dor o fez descuidado. Ele correu de cabeça
para uma parede, caindo para o chão em um amontoado tremente.
Por que ele faria isso comigo? O pensamento o atingiu. Kraus o
tinha insultado? Ele queria perguntar ao seu mestre, mas sua
angústia era muito grande. Parecia que metal fundido havia sido
derramado em seus olhos, e em vez de arrefecimento com a passagem
do tempo, foi crescendo mais quente e mais ainda.

Ele pensou que ia morrer.

Kraus se enrolou no chão e esperou que a morte o levasse. O


tormento era tão grande que ele pensou que realmente receberia o final
de sua existência miserável. Olhos bem fechados, uma bola tremente
de sangue, osso e carne, ele preparou-se e, em seguida, ele ouviu a voz
de seu mestre. Revelando-se no ar como as notas da canção mais
bonita que ele já tinha ouvido.

— Abra seus olhos.

E Kraus fez como lhe foi dito. A dor tinha passado, mas ele mal
notou.

Ele podia ver!

Ele estava olhando para o chão. Era de madeira, coberto com


décadas de sujeira e poeira. E Kraus estava vendo tudo isso pela
primeira vez, os meandros, os padrões e as cores da madeira, e sujeira
acumulada.

De alguma forma, mesmo que nunca tenha visto antes, era cego
desde o nascimento, ele sabia o que estava olhando, a identidade de
cada coisa com os olhos novos caiu sobre ele preenchendo sua cabeça.
— Levante a cabeça do chão e contemple o mundo. — o anjo
Verchiel disse, sua voz crescendo ao redor da sala. — Este é o meu
presente para você.

Kraus olhou para cima, sua nova visão pousando na parede


acima do piso. Foi pintada de um cinza sujo, e acima, o quadro negro,
os finos traços da última lição ensinada dentro da sala de aula ainda
evidente na superfície suja. Não matarás, ele leu, apesar de nunca ter
aprendido a ler.0

Tudo que sua nova visão viu, todas as cores, as formas, os itens
deixados para trás quando a escola foi abandonada, ele sabia sua
identidade, seu propósito, e foi preenchido com a maravilha de tudo.

O ar se agitou atrás e Kraus virou para ver, pela primeira vez a


criatura que tinha lhe dado o presente mais maravilhoso. Quão
abençoado ele era por servir um emissário de Deus, tão misericordioso
que curou uma humilde besta como ele. Seu mestre estava diante dele,
nu, as poderosas asas abertas de modo que pudesse olhar para a total
glória do anjo, do próprio céu encarnado.

E Kraus realmente viu o mestre que ele tinha servido por muitos
anos. As cicatrizes da batalha, o queimado - profundo e vermelho - e
as asas, agora cor de sujeira.

— Eu sou a glória do Céu. — proclamou Verchiel.

Mas o curador, uma vez cego, e agora viu o seu mestre pelo que
ele realmente era.

Ele viu um monstro.


Aaron saiu do centro comunitário, a sensação persistente de sua
transformação ainda causando que sua carne formigasse. Lembrou-se
de um tempo não muito tempo atrás, quando uma mudança de sua
forma humana para a angelical não teria causado nada além da dor.
Agora isso tinha quase se tornado uma segunda natureza, as duas
metades do seu ser, lados opostos da mesma moeda.

Ele tomou algumas respirações profundas e calmantes. O ar


estava surpreendentemente fresco, apesar do fato de que era quase
Abril. Sim, houve alguns dias quentes, mas parecia que o inverno
estava tendo um momento difícil abdicando de sua sede sazonal do
poder.

Aos poucos, ele começou a sentir o corpo deixar essa tensão.


Aaron nunca esperava que ser um salvador iria ser fácil, mas ele
queria que os cidadãos de Aerie lhe dessem a chance de descobrir as
coisas em sua própria velocidade. Decisões tão gravemente
importantes como o que fazer com Verchiel não podiam simplesmente
ser apressadas. Havia muito em jogo.

— Droga. — disse uma voz familiar por trás, e Aaron se virou


para ver Lehash se aproximando. — Acho que você deu lhes algo um
pouco 'para mastigar’. — ele disse, um grande sorriso se espalhando
em suas características geralmente austeras quando ele acenou com
seu dedo para a porta atrás dele.

— Fizeram-me louco. — Aaron disse, soando banal e nada


orgulhoso de sua reação.

— Não brinca. — disse Lehash. — Desejaria que Belphegor


estivesse aqui para ver você colocar Atliel e seus comparsas em seus
lugares. Isso o faria mais feliz do que um porco na poça.

Aaron riu também. — Eu acho que não é como você espera que
um messias aja.

O anjo retirou um charuto fino de dentro do seu bolso


empoeirado e acendeu-o com a ponta do dedo indicador de suas luvas.
— Inferno, menino, você colocou Verchiel no chão e nos leva de volta
para o Céu, você pode agir de qualquer maneira como você
condenadamente quiser.

Sentindo que eles não estavam mais sozinhos, Aaron e Lehash


se viraram para ver os cidadãos saindo do centro comunitário. Atliel e
seus comparsas ficaram ao lado da entrada do prédio olhando para
eles.

— Acho que alguém está ficando com um olhar de soslaio. —


Lehash disse, chupando o final de seu cigarro e soprando uma nuvem
de fumaça no ar. — E eu não acho que sou eu.

— O que você acha que eu deveria fazer? — Aaron perguntou ao


pistoleiro, sua voz em um sussurro. — Devo pedir desculpas ou
apenas deixá-lo ir?
O anjo caído rolou o charuto na boca. — Pessoalmente, eu ia
deixá-lo 'ensopado', mas, novamente, não sou nenhum messias. Você
vai fazer o que você achar que é certo.

O pai adotivo de Aaron havia lhe ensinado que nove de dez vezes
era mais fácil pedir desculpas e mover passando o problema. Tom
Stanley tinha sido um bom homem e um pai maravilhoso, e Aaron
sentia muito sua falta.

Ele decidiu que iria honrar a memória do único pai que tinha
conhecido fazendo o que ele faria.

Aaron se moveu ao redor de Lehash e andou através do bando


de anjos caídos. — Olha, me desculpe pelo meu comportamento lá
dentro. — ele disse com sinceridade genuína. Se ele ia ser o seu líder,
ele adivinhou que provavelmente não faria mal para eles verem que ele
sabia que não era infalível e podia admitir quando estava errado. — As
coisas têm sido meio loucas para mim e eu só queria...

— É verdade que eles estão dizendo? — Atliel subitamente


interrompeu. — Eu pensei que era apenas um rumor selvagem, mas
vê-lo lá dentro, manejando sua raiva, eu quase posso acreditar que
seja verdade.

Seus três companheiros acenaram em acordo.

— Eu não entendo. — Aaron disse. — Que rumores você está


falando?

Atliel olhou para seus irmãos por apoio e depois voltou-se para
Aaron, reforçado por sua admiração. — Que você é o filho da
Morningstar, a cria de Lúcifer. — ele cuspiu.
Aaron não sabia como responder. Ele sabia o que ele tinha dito,
mas ele não podia ainda acreditar. — Eu... Eu não estou certo disso...
— ele gaguejou.

— Veja como ele responde. — Atliel disse aos seus


companheiros. — É verdade que estamos entregando nossa salvação
para a progênie do monstro que levou à nossa queda.

Lehash avançou, uma pistola de ouro celeste reluzindo fogo em


sua mão enluvada. — Isso é suficiente, irmão. — a lei de Aerie disse,
pisando entre o Nephilim e o grupo de anjos.

— Está tudo bem Lehash. — Aaron disse rapidamente. — Eles


têm razão em sua preocupação. Como eles deveriam confiar no filho do
diabo para liderar-lhes para a salvação? — ele perguntou em voz baixa
enquanto ele se afastava. Embora ele não tivesse desejo de fazer isso, e
tinha evitado isso por dias, Aaron Corbet sabia que tinha de enfrentar
o mistério da sua herança antes que pudesse finalmente assumir o
papel de salvador de Aerie.

Vilma confundiu a súbita onda de pânico com outro exemplo do


despertar da essência angelical, mas quando ela e Gabriel entraram na
casa de estilo rancho que ela dividia com Lorelei e Lehash, lembrou-se
que esta semana havia provas finais na escola. O sentimento era de
repente, como uma descarga elétrica, e seu corpo inteiro eclodiu em
um suor estanho. Não demorou muito tempo para perceber que isso
não tinha nada a ver com o poder residindo dentro dela, e tudo a ver
com sua carreira acadêmica desmoronando-se.

Ela bateu a porta atrás dela, e Gabriel começou a partir do


ruído.

— Você está bem? — O labrador perguntou, sua cabeça


inclinando para a direita com preocupação.

— Estou bem. — ela respondeu com um suspiro. — Desculpe


por ter batido a porta.

— Tudo bem. — ele disse, passando por ela, em direção à


cozinha. Ele se virou e olhou para ela. — Que tal esse café da manhã
agora?

Grata pela distração, Vilma encheu a tigela do cachorro com


alimentos e pegou um pouco de água fresca. — Aqui está. — ela disse,
pisando para trás ao vê-lo devorar sua refeição em tempo recorde. Ele
lambeu os beiços, tomou uma lambida da bebida, e depois limpou a
tigela com sua língua.

— Feliz? — ela perguntou quando o seguiu para a sala de estar.

— Sim, obrigado. — Gabriel pulou para o sofá e virou várias


vezes em círculo antes de sentar. — Preciso de um cochilo, no entanto.
— Ele respirou ruidosamente fechou os olhos.

Vilma balançou a cabeça, olhando para ele por um momento.


Ela nunca havia possuído um cão e estava assombrada pela forma
como Gabriel dormia muito. Este era um dos muitos cochilos que
tirou, durante o dia anterior, foi para a cama e dormiu durante toda a
noite. Aaron sempre brincou que era o trabalho de Gabriel dormir, e se
o animal pudesse coletar um cheque por cada cochilo, eles seriam
milionários.

Ela sentou-se numa cadeira grande e estofada puxou os joelhos


até o queixo. Ela sentiu frio por dentro, mas não tinha nada a ver com
a atual temperatura. Ela estava com medo de novo. Até um mês atrás,
ela sabia exatamente o que estava fazendo com sua vida: terminaria
seu colegial, uma faculdade de licenciatura em educação e em seguida,
ensinar, de preferência o primeiro ou segundo grau.

Ela sorriu tristemente, lembrando como conversava com seus


amigos sobre o futuro, e quão animada isso a deixava. Eles achavam
que ela era uma louca, nunca realmente entendendo que esta era a
coisa que a fazia verdadeiramente feliz, que isto era tão emocionante
para ela como eles achavam que era dançar em um clube ou alguém
comprando bebidas para eles. Seus planos para o futuro eram suas
esperanças e sonhos, e tudo estava indo maravilhosamente até que ela
conheceu Aaron Corbet.

Ira de Vilma queimou. Ela não queria culpá-lo por seus


problemas, mas era tão fácil. O que teria acontecido se ela não tivesse
falado com ele aquele dia na biblioteca? Ela se sentou com os joelhos
embaixo do queixo, balançando de lado a lado, pensando como sua
vida seria sem ele. Ela tentou desesperadamente acreditar que seria
melhor, mas no fundo ela sabia que não era verdade. Ela sentiu uma
estranha atração por ele na primeira vez que o notou em seu armário
em frente ao dela, como se o estar juntos era parte de um plano bem
maior. E quando Aaron tinha ido embora depois das mortes de sua
família adotiva, Vilma nunca teve se sentido tão solitária, tão
incompleta.
E agora eles estavam juntos novamente, mas ainda sim se sentia
solitária e com medo, embora soubesse que Aaron estava fazendo o
melhor que podia para ajudá-la a ajustar-se às mudanças em sua
vida.

Algo agitou dentro dela, mas dessa vez a sensação não tinha
nada a ver com a ansiedade. O poder angelical, agitou-se muito
rapidamente à maturidade pelas torturas de Verchiel, estava acordado
de novo, e ela sentiu isso provando os limites do sangue e carne que
era sua gaiola.

Aaron tinha tentado explicar que a essência tinha sido parte dela
desde sua concepção, o poder tinha simplesmente adormecido dentro
dela, esperando que ela amadurecesse e abraçasse isso. Para a maioria
dos Nephilim, a unificação dos lados humanos e celestiais eram um
processo que ocorriam naturalmente, mas para outros...

Vilma não queria pensar nisso mais. A ideia da coisa dentro dela
estava deixando-a insana. Ela deixou cair os pés no chão e ficou
rapidamente em pé, olhando em volta da sala por alguma coisa,
qualquer coisa, que pudesse distraí-la.

Gabriel acordou, levantou a cabeça e olhou lentamente para ela.

— Sinto muito, Gabriel. — Vilma disse, nervosamente mordendo


as cutículas de um de seus dedos. — Eu estou me sentindo um pouco
impaciente. Eu preciso fazer algo para ter minha mente fora das coisas
por um tempo. — Ela só tinha uma lembrança do pedaço de torrada
naquela manhã, e pensou que a comida seria tão boa quanto qualquer
distração. — Eu vou pegar algo para comer, quer vir? — Ela sabia que
era uma pergunta estúpida, para o sempre faminto labrador.
— Não me importa ir. — ele disse, rapidamente descendo do sofá
e seguindo-a para a cozinha pequena onde ele tinha comido alguns
minutos antes.

Vilma foi até a geladeira e abriu a porta, olhando para dentro de


alguns vegetais e leite de questionáveis idades. Gabriel apertou-lhe a
cabeça na perna para dar uma olhada.

— Hmmm. — ele resmungou. — Nada de bom aqui.

O poder dentro dela tinha se acalmado, mas estava ainda


acordado. Ela podia senti-lo experimentando o mundo através de suas
ações. Ela fechou a geladeira e olhou em torno da cozinha. Na cesta
em cima da pia ela avistou algumas deliciosas maçãs vermelhas.

— Que tal uma maçã? — ela perguntou enquanto o cachorro


arrancou a maior da cesta.

— Eu amo maçãs. — Gabriel já tinha começado a babar.

Vilma pegou uma faca de uma gaveta e cortou a maçã pela


metade. — Você come a casca ou você quer que eu descasque para
você?

— A casca é fina. — ele disse, abanando a cauda, formando uma


poça no chão debaixo de sua boca molhada. — Só tire o centro, por
favor. As sementes me fazem sufocar.

Vilma segurou a metade da maçã com uma mão e afundou a


ponta da faca dentro da fruta para cortar o núcleo para fora como ela
tinha feito para suas sobrinhas inúmeras vezes antes. Foi então que a
essência angélica escolheu para exercitar-se, surgindo para a
superfície para lançar-se contra a prisão de seu corpo. Ela ofegou em
voz alta quando a lâmina da faca afundou pela carne da maçã e na
palma de sua mão. Sangrando, ela caiu no chão da cozinha. Mas tudo
o que ela podia fazer era tremer, vendo como o líquido escarlate
escorria da ferida na palma da mão, descendo pelo braço dela.

O poder estava gritando dentro dela, despertado pelo


derramamento do seu próprio sangue, e não importava quantos
pensamentos calmantes ela tentou colocar dentro da sua cabeça, a
força angelical continuou a aumentar. Ela não poderia prendê-lo, era
exatamente o que temia.

— Vilma! — Gabriel gritou, movendo-se em sua direção,


tentando acalmá-la como havia feito no passado. Mas era tarde
demais, e o poder era forte demais.

Deus ajude-a, isso estava livre.

Aaron se aproximou da casa degradada.

Scholar havia pedido para vê-lo faz dias, mas Aaron sempre
achou alguma razão para evitar o encontro com o protetor de
informações e cronista da história de Aerie. Aaron sabia que o anjo
estava certo. Ele tinha percorrido um longo caminho nas últimas
semanas, mas ele ainda tinha muito a aprender, sobre a profecia de
que ele encarnava e sobre o anjo caído que o tinha gerado.

Lúcifer.

Ele subiu os degraus da varanda e bateu na porta. Embora


tivesse chegado a aceitar seu destino, Aaron ainda não queria acreditar
que seu pai era o diabo. Mas ele devia isso aos cidadãos de Aerie, pelo
menos, ouvir a prova de sua herança. Se ele iria liderar e esperar que
eles o seguissem, ele tinha que ter todos os fatos claros.

Aaron bateu uma segunda vez, mas não houve nenhuma


resposta. Ele brevemente teve a ideia de voltar mais tarde, mas sabia
que se saísse, as chances de estar de volta em breve eram diminutas.
Não, pensou, agarrando a maçaneta e girando. Eu tenho que fazer isso
agora.

A porta se abriu e uma rajada de ar fresco e pesadamente


perfumado estendeu a mão para cumprimentá-lo. O ar cheirava papel,
e livros antigos. Isso o lembrava das pilhas no porão da Livraria
Pública de Lynn. Havia algo estranhamente reconfortante sobre o
aroma, trazendo de volta lembranças dos dias quando terminar um
trabalho e obter uma boa nota foram as únicas coisas mais estressante
de sua vida.

Aaron entrou e parou em descrença. O quarto individual em que


ele estava era enorme. Quão longes quantos seus olhos podiam ver,
havia estantes e pilhas de livros de todos os tamanhos imagináveis e
forma. Ele pensou que seus olhos poderiam estar jogando truques
sobre ele, pois parecia que dentro desta casa tinha apenas uma sala e
pelo menos cinco vezes maior do que parecia ser por fora. Ele
considerou sair pela porta e voltar depois.

Scholar saiu de trás de um das prateleiras, vestida com sua


habitual camisa branca abotoada até a gola, e calças pretas, com o
rosto enterrado em um antigo livro. — Eu pensei ter ouvido alguém
batendo. — ele disse sem olhar para cima. Ele continuou a andar pela
sala, de alguma forma conseguindo evitar os livros empilhados
precariamente ao seu redor. — Entre. — ele insistiu, soando
impaciente. — Eu deveria saber que você viria quando eu estaria
ocupado com outra coisa.

Aaron se moveu mais para dentro do enorme armazém de


conhecimento. — Desculpe. — ele se desculpou. — Se você quiser,
volto outra hora, quando você não estiver tão ocupado.

Scholar finalmente apartou seu olhar de seu livro, sorriso


petulante em seu rosto pálido e magro. — Diga-me, quando não estarei
ocupado?

Aaron ergueu as mãos. — Eu não sei. Eu estava apenas sendo


educado.

— Salvador de todos nós e com maneiras. — Scholar disse


drasticamente à medida que fechava seu livro e o colocava em cima de
uma pilha de já quase um metro e meio de altura.

A pilha balançou, mas não caiu. Estranho, parecia que as leis da


física não se aplicavam aqui.

Aaron olhou novamente para a enorme sala, para o teto


abobadado, pelo menos, 15 metros. — Sou eu ou este lugar é maior do
que parece por fora?

Um apito estridente da chaleira sobrepôs sua pergunta quando


Scholar sinalizou para ele seguir. — Não é possível puxar a areia dos
seus olhos, podemos, Aaron? — ele repreendeu. — Antiga magia de
anjo — ele explicou enquanto caminhava para uma pequena mesa em
um canto da sala. — Gostaria de tomar um copo? — Ele perguntou,
desligando a chaleira elétrica e derramando a água fervente em um
caneca com um saco de chá. — Acho que há água suficiente para
outro.

Aaron sacudiu a cabeça. — Não, está tudo bem. Obrigado, de


qualquer maneira. — A última vez que ele aceitou uma xícara de chá
de um anjo, isso tinha estado envenenado.

Ele não conseguia descobrir o tamanho da sala e o número de


livros. — É muito impressionante o que você tem aqui. — ele
comentou, olhando para trás para Scholar.— Eu nunca teria
imaginado.

O anjo se virou para Aaron, soprando sobre o líquido fumegante


em sua caneca. — Nós poderíamos ter enchido cada casa em Aerie e
ainda não teríamos um lugar para tudo. — ele disse entre os goles.—
Isso é quando a magia de anjo pode ser colocada em bom uso.

Aaron não se lembrava de ter se movido, mas de repente a pilha


de livros caiu por acidente, enviando três outras pilhas próximas ao
chão. Scholar engasgou.

— Eu não toquei em nada. — Aaron gritou. — Realmente, eles só


caíram por conta própria. — Ele fez um movimento para começar a
recolher os livros e escutou o engasgar de Scholar ainda mais alto.

— Por favor, apenas dê um passo para longe das pilhas. — o


anjo caído instruiu, apontando para o menino se mover para ele. — É
isso — pediu suavemente. — Sem movimentos bruscos.
Aaron manobrou entra as pilhas cuidadosamente, e notou que o
anjo respirou um suspiro de alívio quando ele chegou sem mais
incidentes. — Eu realmente sinto muito sobre isso. — ele disse quando
Scholar se serviu de mais chá.

— Está tudo bem. — ele disse com um sorriso tenso em suas


feições comprimidas. — Por que não simplesmente lidamos com a
razão de você ter vindo, e então você pode voltar no seu caminho,
hein?

Se Aaron não ouvisse suas palavras, ele poderia ver nos olhos do
anjo que ele se arrependeu de ter convidado-o para seu local de
trabalho. Mas ele empurrou para frente com suas perguntas. — Como
sabe? — Ele perguntou. — Como você sabe com certeza que... Ele é
meu pai? — Ele não se sentia confortável em dizer o nome. Isso o fez
nervoso, as conotações do mal e tudo.

— Lúcifer? — Scholar perguntou, parecendo que tinha um tipo


de prazer perverso em ver a Aaron reagindo ao nome do primeiro dos
caídos. — Você mostrou-nos tanto no primeiro dia que nos
conhecemos. — ele explicou, — Quando você manifesta as suas
habilidades angelicais, mesmo através das algemas. Belphegor e eu
sabíamos que só um anjo de enorme poder poderia ter desejado
alguém como você.

— Mas não há outros anjos poderosos que poderiam ter saído


com a minha mãe? Por que tem que ser...

— Os sigilos. — o anjo interrompeu, fazendo referência para as


marcas que sempre apareceram na carne de Aaron quando ele
manifestava o poder total de sua herança angelical. — Acreditamos
que os sigilos foram significativos para a entidade angelical que gerou
você, mas nós não imaginamos o quanto.

Aaron estendeu o braço e pensou fortemente sobre as


marcações. A carne nua começava a arder sempre ligeiramente quando
os formatos arcaicos surgiam à superfície. Lembrou-se que Scholar fez
uns esboços para Belphegor no primeiro dia em Aerie. Agora ele o
examinou na carne. — Ok, então o que eles querem dizer? — ele
perguntou.

— Eles são símbolos especiais que representam os nomes dos


soldados de elite que juraram fidelidade a seu pai e sua causa. —
Scholar explicou quando ele traçou as formas nos braços de Aaron
com a ponta do seu dedo. — Soldados que morreram durante a
batalha no céu.

De repente, tudo fez sentido para Aaron quando ele recordou a


bizarra viagem interior que tinha feito sobre a assistência de Belphegor
e uma xícara de chá envenenada. Dentro de sua mente, ele tinha visto
a consumação do poder que residia dentro dele, representado pelo
mais magnífico dos anjos quando ele dava seu melhor presente sobre
as suas tropas reunidas.

— Eu... Eu vi isso. — ele gaguejou, olhando os olhos intensos de


Scholar. — Eu vi Lúcifer... Eu vi meu pai...

Scholar assentiu lentamente, encorajando-o a aceitar a verdade.


— Antes da luta começar, a Morningstar deu a cada um de seus
soldados uma marca especial para mostrar o quão importante eles
eram para ele, foram para ele. Era com um pedaço de si mesmo que ele
os adornou - um pedaço de seu poder.
Sentindo-se fraco, de repente, Aaron se esqueceu dos símbolos e
permitiu-lhes desvanecer em sua carne. — Mas por que fazer-me tê-
los? — Ele perguntou, sentando-se no chão, a cabeça nadando na
tontura. — Por que eles estão na minha pele?

Scholar virou. — Belphegor e eu estávamos tentando descobrir


isso direito antes do ataque de Verchiel. — o anjo acadêmico disse. —
Nós acreditamos que se Lúcifer está realmente buscando absolvição
dos seus pecados, então você representa o seu pedido de desculpas
para Deus e para todos aqueles que morreram por sua causa insana.

Oprimido, Aaron enterrou a cabeça em suas mãos quando visões


do mais esplendoroso anjo que ele jamais poderia imaginar encheu sua
mente novamente. — Como poderia alguma coisa tão bonita ser
responsabilizado por tanto horror? — Ele perguntou.

Scholar estava sobre ele quando Aaron se sentou no chão,


imerso na emoção da revelação. — Ele estava com medo de não ser
mais amado. — ele disse suavemente olhando para o espaço.

— Assim como todos nós estávamos.


— Aonde vamos? — Lorelei perguntou ao anjo que ela ficou
sabendo que era seu pai. Os dois caminharam até o centro da rua para
o lugar que eles chamavam de casa. Era meio-dia, um pouco mais
tarde, e de cada lado deles os cidadãos de Aerie estavam cuidando de
seus negócios usuais. Alguns estavam mantendo pequenos jardins,
trazendo vida a partir do solo tóxico, outros simplesmente sentados em
cadeiras no gramado velho, com o olhar perdido no espaço, refletindo
sobre tudo o que lhes acontecera e estava para acontecer.

Lehash fumava um charuto, soprando uma nuvem de fumaça


desagradável do canto da boca.

— O que é Aerie? — ele perguntou.

— Sei lá. Provavelmente algum destroço abandonado de um


lugar como todos os outros que nós escolhemos ao longo dos milênios.
— Ele deu outro sopro no charuto.

— Eu não sei por que não podemos ir a algum lugar agradável,


como Montana, ou talvez até o Texas. — disse o pistoleiro, sobre os
lugares que tinha vivido há muito tempo.
— Não. Tem sido um tempo desde que você foi a um desses
lugares, Pai? — Ela perguntou, a dica de um sorriso puxou os cantos
de sua boca.

— Faz apenas um pouco de cem anos ou mais — ele comentou,


seus olhos de águia varrendo as ruas de Aerie por quaisquer sinais de
problemas. — Quanto eles poderiam ter mudado?

Lorelei não se conteve e riu alto. No que diz respeito à Lehash o


local ainda estava parado no tempo, e-mails ainda estavam sendo
entregues por Pony Express, e Butch Cassidy e seu Wild Bunch ainda
estavam roubando bancos e fugindo a cavalo. Lorelei balançou a
cabeça. Ela não poderia sequer começar a imaginar as mudanças que
seres como seu pai havia visto na Terra desde seu exílio após a guerra
do céu.

— Eu não quero sair daqui. — ela proclamou e qualquer traço de


humor agora saiu de sua voz. Ela apontou para os outros ao seu redor.
— E eu tenho certeza que eles compartilham meus sentimentos
também.

O policial arranhou a lateral do rosto com o dedo, raspando


como se fosse feito de uma lixa.

— Não é o lado ativo de um vulcão ou o casco de um navio


afundado, mas tem servido ao seu propósito.

Lehash olhou à volta do bairro desolado e esquecido que era a


sua responsabilidade proteger.

— Mas se o garoto conseguir puxá-lo todos juntos, nós não


estaremos precisando nos preocupar se vamos estar aqui ou não.
Parecia estranho ouvir o pai falar de tais coisas. Durante anos
apenas Lehash tinha sido a proteção Aerie e de suas pessoas, não
importando o local. Aerie era a sua vida, e seu mundo; não havia outro
lugar para ele. O céu era algo que ele tinha desistido a um longo, longo
tempo atrás, mas isso foi antes de Aaron Corbet. O Nephilim o fez
acreditar que a profecia era verdade, que havia uma chance dos caídos
serem perdoados, que ele seria perdoado.

— Não se preocupe comigo. — ela disse batendo o seu ombro


contra o dele. — Você vai para o Céu, e nós vamos viver muito bem
sem você.

A profecia foi vaga sobre o destino dos Nephilins, só insinuando


um propósito especial para eles sobre o mundo dos homens de Deus.
Lorelei sentiu uma estranha combinação de medo e excitação quando
pensou no seu próprio futuro, sabendo muito bem que havia muito a
ser tratado no presente, antes que a estrada longa e desconhecida
pudesse ser percorrida.

Eles haviam chegado a sua casa e foram casualmente andando


pelo caminho de concreto que levou para a porta da frente.

— Vou fazer uma refeição rápida e verificar a Vilma. Você quer


uma xícara de café ou...

Lehash de repente parou, e ele estava parado no início do


caminho, os olhos brilhando como se sentindo algo no ar.

— Está tudo bem? — ela perguntou com cautela, movendo um


fio de seu cabelo com neve para longe do rosto. Ela também estava
começando a sentir algo. A porta da casa explodiu, suas dobradiças
em uma explosão de incêndio, arrancando a porta de tela junto com
ele. Lorelei foi jogada para trás pela força da explosão, os ouvidos
zunindo enquanto ela lutava para se levantar. Lehash já estava se
movendo em câmera lenta em direção a ela, com as armas de fogo
douradas tomando forma em suas mãos. Então ela viu Gabriel através
de um buraco onde a porta tinha sido arrancada, o seu pelo amarelo e
com pontos pretos e ardentes olhos selvagens em pânico.

— Gabriel! — ela gritou quando o cão correu na direção deles.

— Corra! — ele latiu, caindo no chão e rolando para apagar o


seu pelo queimado. — Não havia nada que eu pudesse fazer para
impedir isso, — o labrador gritou, ofegante e descontroladamente. —
Está fora de controle!

— Filho da puta. — Lorelei ouviu o pai murmurar sob sua


respiração, e ela olhou para frente da casa. Vilma Santiago estava lá
rigidamente, com um halo de fogo natural irradiando de seu corpo.

— Ajude-me. — ela assobiou quando levantou lentamente as


mãos, olhando com terror quando os fogos do Céu dançaram sobre a
ponta dos seus dedos. Ela estava tentando contê-lo, mas já tinha
experimentado a liberdade e claramente queria mais. Em seguida, o
corpo de Vilma ficou rígido de repente, seus olhos de um preto
brilhante, como duas bolinhas brilhantes flutuando dentro de uma
expressão contorcida de miséria. E, então como quem também está
desaparecendo, Vilma Santiago se foi de repente, não mais com eles,
substituída por algo completamente diferente. Algo selvagem e
perigoso.
Agora que ele tinha o dom da visão, seus outros sentidos foram
substituídos por uma espécie de cegueira, e agora estava diminuindo.
Mas esse não era o caso. Seus sentidos estavam todos tão nítidos
talvez um pouco mais com a adição da visão. E outra coisa tomou o
seu lugar entre os seus cinco sentidos, outro sentimento que o avisou
que tempos difíceis virão, uma sensação de pressentimento tinha se
tornado o sexto de seus sentidos. O curador se virou despercebido,
ainda sob seu domínio. Ele parou para verificar os pontos que havia
costurado no braço de um dos soldados dos Poderes em cima da borda
do telhado do orfanato.

Outras oito pessoas estavam lá também, olhando


silenciosamente para fora através do leste de Massachusetts com
olhares escuros inabaláveis.

— O que você acha deles, irmãos? — perguntou o guerreiro, cujo


braço Kraus cuidadosamente tinha examinado, sua voz grossa como se
tivesse sido drenada de vitalidade.

— Está vindo, uma maldição para a nossa causa sagrada. — O


anjo estava falando do Nephilim. Como os Poderes detestavam aquele
mestiço, mas agora era tarde, eles não tinham sido autorizados a caçar
a maldita prole dos caídos.

— Nosso mestre nos diz que há preocupações mais importantes


agora, mas eu também senti a ameaça do Nephilim em ascensão. —
disse outro.
— Eu pergunto a você, o que poderia ser mais importante do que
o extermínio dessas abominações?

A infecção tinha encontrado o seu caminho na ferida do anjo e


Kraus poderia sentir o aroma pungente de decadência.

— Verchiel ordenou-nos a ficarmos quietos. — um anjo do


rebanho disse, inclinando a cabeça estranhamente para um lado
enquanto ele se dirigiu a seus irmãos. — E não é nosso dever
questionar.

— Não é o nosso dever é sentar e permitir que os agressores de


sua vontade fiquem impunes. — respondeu outro.

Todas as penas de suas asas se arrepiaram ameaçadoramente.


O medo estava se formando nas fileiras dos Poderes, algo que Kraus
nunca tinha percebido. É este o motivo de eu sentir medo assim? Ele
perguntou. Ou há algo mais? Pensou o enigmático Arconte. E o
prisioneiro misterioso que ainda continua preso no Orfanato
abandonado de Santo Atanásio. Em seguida, um tremor passou entre
o curador quando lembrou do que viu nos olhos de seu mestre.

Kraus sentiu vergonha, pois aquele ser que tinha dado a sua
vida miserável a um propósito, deu-lhe o dom da visão, e ao invés de
sentir amor e gratidão, ele sentia apenas repulsa inexplicável e medo.
Houve uma perturbação no céu acima do telhado, e Kraus observava
maravilhado enquanto o ar começou a brilhar como a água, crescendo
cada vez mais escura quando Verchiel apareceu. O anjo líder pousou
em cima do telhado, abrindo suas amplas asas para revelar o
Archonte, Katspiel, encolhido dentro de suas dobras. Ele estava
curvado, seu corpo torcido com a fadiga.
Kraus podia ouvir a falta de ar chocalhar em seus pulmões. Ele
estava prestes a ir para o Archonte, para ver se poderia ajudar, quando
começou a tratar o que restava do seu exército.

— A Vitória, meus irmãos — proclamou seu líder, — porque eu


tenho as habilidades precisas de um guerreiro!

Os anjos sorriram e abriram suas asas saltando para o ar para o


círculo sobre seu mestre, gritos agitados de antecipação emitiram de
suas bocas. Arconte levantou o braço, a mão trêmula tecendo um
feitiço de magia no ar, como uma pequena aranha afixando, sua presa.

— Os últimos dois Malakim foram encontrados. — Verchiel


berrou e o ar em torno deles começou a ficar mais espesso. — Os
fragmentos finais do ritual que buscamos em breve estará em nosso
alcance.

— Sabe como eu sei. — Katspiel pronunciou, ainda lançando o


seu feitiço. — Vejam como eu vejo.

Um por um os anjos balançaram a cabeça, sabendo onde eles


devem ir para obter o prêmio de seu mestre. Com o vento evolvendo
suas asas eles foram embora. Verchiel foi o último a partir, fechando
os olhos e sorrindo como seus soldados, suas penas lentamente
fechado sobre ele e o arconte.

— Cada vez mais próximo. — ele disse, sua voz manchada com a
emoção da antecipação, e então ele também tinha ido embora. A
sensação de mau agouro foi com Kraus, novamente, mais forte do que
com os outros, e uma pequena parte dele desejava que as coisas
fossem como antes, antes dele ter ganhado o dom da visão e ter
começado a ver.
As coisas pareciam muito mais claras depois. Aaron se sentou
no chão desordenado e folheou um livro de arte. O livro tinha
ilustrações do Céu e do Inferno por artistas com nomes como Blake,
Dore, e Bosch. Ele estava dando toda a sua atenção para a versão dos
artistas para a interpretação do inferno.

— Então deixe-me ver se eu entendi isso. — ele disse, olhando


para cima a partir de um particularmente perturbador submundo que
mostrou os condenados sendo atacados por demônios e comido por
animais mutantes em uma paisagem de incompreensível caos, pintado
pelo artista holandês Hieronymus Bosch.

— De acordo com você, não há inferno. — Scholar estava no


processo de preparar outra xícara de chá. Aaron tinha notado as
muitas estantes colocadas em pontos estratégicos da ampla biblioteca
de modo que o anjo caído poderia desfrutar de seus livros, quanto
bebia alguma coisa quente.

— Vamos tentar de novo, vamos? O inferno não é um lugar, para


se perecer — o anjo disse, tirando o saquinho de chá pingando de sua
xícara e soltando-o em um prato sobre a mesa. — É mais um estado de
ter, uma experiência, se você tiver vontade.

Aaron fechou um volume grande e se levantou para devolver o


livro para sua plataforma.

— Mas há um céu? — ele perguntou, só para ter certeza.


Scholar o interceptou antes que ele pudesse chegar a estante de
livros. Provavelmente preocupado que o menino iria colocá-lo de volta
no lugar errado ou talvez derrubar as estantes.

— Claro que há um Céu. — ele respondeu bruscamente,


exasperado que Aaron poderia sequer perguntar tal questão. — Caso
contrário, toda a razão para o seu nascimento nem sequer existiria.

Ele incisivamente devolveu o livro para o seu lugar. Aaron deu


de ombros, recostando-se casualmente contra uma de suas
prateleiras.

— Eu pensei que um não poderia existir sem o outro.

Scholar voltou para sua bebida fumegante, escolhendo uma


caneca para beber.

— A humanidade sempre foi fascinada pelo conceito de um


submundo, um Inferno, desde o princípio contanto histórias em torno
de fogueiras ardentes, especulando sobre o destino de suas almas após
a morte. — Ele tomou um gole e fechou os olhos, o líquido quente
passando sobre os lábios, parecendo trazer o anjo tenso, certa
quantidade de calma. — Eles se perguntavam o que aconteceria
quando eles já não existissem mais, lutando para desvendar os
mistérios vastos da vida em um estranho e desconhecido mundo. Os
primeiros seres humanos teceram todo tipo de contos fantásticos sobre
divindades do submundo e viagens perigosas para a vida após a morte.
As histórias eram passadas de pai para filho de boca em boca, com
cada geração adicionando um pouco de seu próprio tempero à mistura.
A religião organizou essas teorias, elaborou cenários de efeito, mas
sempre significou o mesmo: bom comportamento significava a
salvação; o mal era condenado.

— Então, se o inferno não é um lugar, o que é realmente? —


Aaron perguntou.

Scholar riu, mas não havia divertimento em sua resposta


quando olhou para o espaço. — Se você perguntasse a cada um de nós
que caiu, você provavelmente receberá uma resposta diferente de cada
um — ele disse. — Para alguns, ser banido do Céu foi à condenação
final.

O anjo parou e chamou a atenção de Aaron antes de continuar.

— Mas foi seu pai, o filho da manhã, o Lúcifer, que causou isso,
que provavelmente ainda perdura, em um nível do inferno em que
todos os outros empalidecem em comparação.

— Era o seu castigo — Aaron declarou firmemente, — pelo que


fez ao Céu.

Scholar balançou a cabeça lentamente, e Aaron sabia que estava


revivendo o momento em que Deus puniu o anjo que era seu próprio
pai.

— Toda a dor, toda a violência que ele foi responsável, foi


coletada em uma massa fervilhante de miséria. — O rosto do anjo
estava torcido. Ele ergueu a mão vazia, como se segurando uma bola
de algo terrível. — E ela foi colocada dentro dele para que ele sempre
pudesse sentir a extensão do sofrimento que ele causou.

Scholar tocou o peito, mostrando o destino de Lúcifer.


— Ele foi o primeiro dos caídos, e aqueles que tinham tomado
sua causa seguiram para a Terra, compartilhando seu banimento do
céu.

— Aonde ele foi? — Aaron perguntou. Se não há um inferno, o


que o Diabo faz e onde mora? Ele se perguntou, lembrando alguns
bairros em sua cidade que o Diabo teria ficado bastante confortável.

— Lúcifer vagou pelo mundo. Alguns dizem que ele estava tão
amargamente zangado com Deus que ele se virou para o mal, fazendo
tudo em seu poder para corromper o mundo que o Criador era tão
orgulhoso.

Scholar terminou o que poderia ter sido sua décima xícara de


chá desde que Aaron chegou e começou a estudar.

— E o que você acha? — Aaron perguntou. — Ele estava mal ou


foi apenas uma reação ruim que o seguia por causa do que ele fez no
céu?

— Se ele era uma criatura má — Scholar começou pensativo. —


Se ele era o flagelo que a sua cultura popular sugere, não teria sido
possível para ele conceber um ser cuja única razão da vida é trazer a
redenção não só para si, mas para todos os que foram tentados por
ele? Acho que não.

— Eu posso ver porque Verchiel e seus poderes não estão tão


emocionados comigo. — Aaron disse, e as coisas começaram a cair em
algum lugar no fundo de sua mente. — Se tudo vai de acordo com a
profecia, eu vou ser responsável por conceder o perdão ao pecador
final, aquele que Verchiel acha que deveria sofrer por seus crimes por
toda a eternidade.
Scholar acenou com a cabeça em concordância.

— Verchiel ainda acredita em sua missão, não importa o quão


suja e torcida tenha se tornado. Ele ainda acredita no último castigo
para aqueles que questionaram a Palavra de Deus.

A enormidade de sua responsabilidade para com os anjos caídos,


ao seu pai, ao próprio Deus, pousou sobre os ombros de Aaron como
uma tonelada de tijolos. Ele finalmente estava se acostumando com a
ideia de reunir os caídos com Deus, mas para reparar um abismo entre
Deus e o Diabo? Isso era outra coisa completamente diferente.

— Você acha que ele merece ser perdoado? — Aaron perguntou a


Scholar. O anjo caído sorriu tristemente e encolheu os ombros.

— Isso não é para eu decidir.

— Mas se fosse. — Aaron persistiu.

— Então sim, eu iria perdoá-lo, — disse Scholar. — Se nós


patéticas criaturas podemos receber o perdão, então ele também
merece, por que ele fez apenas o que nós não tivemos coragem para
fazer.

Aaron pensou por um momento.

— Acho que vou ter de encontrar este Lúcifer e ver por mim
mesmo. — Ele disse com o toque de um sorriso. — Mas não antes de
eu lidar com um certo comandante dos poderes. — Ele estava prestes a
perguntar à Scholar se ele tinha que aprender alguma coisa mais sobre
Verchiel e os Poderes, quando em algum lugar distante do quarto, ele
ouviu uma porta se abrir e seu nome ser violentamente chamado.
Aaron reconheceu o som da voz Lehash, bem como a intensidade nela
e correu para encontrar o chefe da segurança de Aerie, com um
Scholar curioso atrás. Aaron correu por uma parede de estantes e
quase tropeçou em uma arma.

— O que há de errado? — ele engasgou, não gostando do olhar


que viu nos olhos de Lehash.

— Há problemas na casa, — o anjo começou. — É Vilma, ela...

Aaron não esperou que ele terminasse. Imediatamente a imagem


da casa em que a garota que ele amava estava hospedada se formou
em sua mente. Suas asas pretas apareceram em suas costas,
derrubando pilhas de livros quando elas se fecharam em torno dele,
um suspiro frenético foi à última coisa que ele ouviu durante um
piscar de olhos.
Atravessando o vazio entre o aqui e ali, Verchiel ouviu os gritos
dos seus temíveis soldados.

Eles sentiram a batalha que virá, e se deleitavam com a


oportunidade de homenageá-lo, os seus gritos de guerra, uma
inspiração para a sua causa.

Verchiel nunca havia confiado em Malakim. Ele sempre foi


suspeito do nível de conhecimento e poder que havia sido conferido à
trindade angelical pelo Ser Supremo. É irônico que esses mesmos dons
seriam usados contra seu Pai Santíssimo. Isso quase o divertia, mas
desde a horrível realização que ele tinha sido jogado em uma deriva
pelo mesmo Mestre tinha mais zelosamente servido desde o início da
época, havia muito pouco espaço para diversão.

Eles estavam perto agora; Verchiel podia sentir sua presença,


suas magias complexas já não conseguia mais escondê-los. O Arcanjo
Katspiel tinha provado o seu valor novamente. Embora esgotado, sua
força de vida como um sedento deserto nômade sugando avidamente
sobre uma cantina, o usuário de magia angelical tinha conseguido
tecer um feitiço complicado que revelou a localização secreta dos dois
Malakim sobreviventes.

O que é que a expressão de macaco que eu ouvi tantas vezes?


Verchiel ponderou. Dois coelhos com uma única rocha, pensou
enquanto suas asas se separaram para revelar o fim de sua jornada.

Dois Malakim, vestidos com tecidos cintilantes, aparentemente


feitos partir da luz pura do sol, estavam parados sobre o corpo do
primeiro de sua espécie morto em Kilimanjaro. Seu corpo com
armadura havia sido colocado em cima de um antigo altar de pedra e
cercado com velas acesas de várias alturas. As inescrutáveis criaturas
do Céu acreditavam estar tão perto de Deus como qualquer um de
Suas criações, estavam de luto por seu parente de passagem. Tão
curiosamente... Humano, Verchiel pensou enquanto pesquisava seus
paradeiros.

O cheiro dos mortos pendurava pesado no ar estagnado. Com


base nos adereços religiosos em torno da caverna, Verchiel percebeu
que eles estavam de alguma câmara em uma primitiva funerária cristã,
há muito esquecida e, provavelmente, escondida nas profundezas de
alguma metrópole. O Malakim sempre foi fascinado com as formas dos
macacos humanos, observando cada movimento seu ao longo do
caminho evolutivo. Verchiel ainda acreditava que as espécies eram
pouco mais que animais inteligentes e não via futuro real para eles. E
se ele conseguisse o que ele se propôs a fazer, não teriam de fato
algum. Eles tinham viajado para uma caverna enorme, as paredes do
tamanho de um homem manchadas e cavidades cheias de restos
ressecados.
— Você não foi convidado aqui, anjo. — um dos Malakim disse,
sua voz gotejando com presunção. — Tomem seu anfitrião e partam.
Nós respeitamos a sua empatia, mas queremos afligir pelo o nosso
irmão que partiu sozinho.

Esse era o menor indício de medo que Verchiel viu nos rostos
destes seres supostamente superiores quando estava sobre os restos
mortais de seu irmão? Como perturbador deve ter sido para eles,
encontrar um deles derrubado ao chão, seu recurso mais precioso
rasgado a partir do seu corpo.

— Não queríamos que fosse dessa maneira. — ele disse ao


Malakim, aproximando-se. Ele notou que eles haviam limpado o corpo,
mas pouco fez para esconder os estragos da procura dos Poderes pelo
seu prêmio. — Nós imploramos para ele se render, mas ele preferiu
lutar.

Os dois seres angélicos trocaram um olhar rápido antes de olhar


para trás para Verchiel. Era exatamente como tinha sido com o
primeiro de sua laia: tão arrogante que não poderiam sequer começar
a entender a ideia de que logo estariam cercados.

— Era como se ele quisesse morrer. — Verchiel disse, olhando


para baixo para o cadáver com falsa tristeza e, em seguida, sorrindo
um sorriso predador.

Naquele momento, o Malakim finalmente entendeu, e o olhar


sobre os seus oh-tão-superiores rostos era impagável. O líder dos
Poderes levantou a mão. — Peguem-nos. — ele latiu para suas tropas.

Seus guerreiros surgiram sob o seu comando, as armas de fogo


apareceram para a batalha. Assustado com essa exibição ostensiva de
hostilidade, o Malakim se afastou do altar de pedra em que o seu
camarada caído havia sido sepultado.

— Os outros chegaram. — Arconte Katspiel sussurrou, com a


cabeça inclinada para trás, invisível, sem mágica, e Verchiel viu que
ele estava correto. O ar atrás do Malakim distraído começou a
distorcer, uma entrada mágica para os Arcontes.

Os Malakim estavam de costas, a luz bendita da sua divindade


que irradiava de seu corpo, iluminava a feiura da câmara de
sepultamento em torno deles, o calor lançado a partir de sua
onipotência inflamou os restos do sepultado. Armas crepitaram, a
força azul tinha aparecido em suas mãos, e eles lutaram com os
soldados de Verchiel com uma ferocidade que impressionou muito o
líder dos Poderes. Se apenas eles dessem o seu conhecimento de bom
grado e se juntasse a ele em sua empreitada contra um Criador que
tinha enlouquecido. Mas Verchiel sabia que nunca viria a ser, pois ele
imaginava que ainda estavam sob o equívoco de que seu Deus podia
fazer nada errado, e nada iria influenciá-los de sua fé.

Pobres tolos iludidos.

Seus poderes fizeram o que era esperado deles, a sua fúria


implacável, seus números prescindíveis para o bem maior. Muitos
começaram a queimar, o intenso calor que irradiava do Malakim
devorando sua carne com uma fome voraz, mas ainda assim eles
lutaram, a primeira onda de um assalto em duas vertentes.

Os Arcontes tinham tomado as suas posições por trás da


batalha, com os braços balançando no ar enquanto recitavam
encantamentos que tornariam sua presa indefesa. Do lado do Verchiel,
Katspiel juntou a sua voz com as dos seus colegas magos enquanto
movia a lâmina sagrada de extração de dentro das dobras de seu
manto.

Um grito estridente ecoou pela câmara de sepultamento, e um


dos Malakim caiu, contorcendo-se e contraindo no chão do mausoléu,
lutando contra a magia dos Arcontes. Mas o outro agiu quando seu
parceiro caiu, conjurando um escudo, uma bolha protetora que
impediu o feitiço de incapacitação, bem como a fúria dos soldados
restantes dos Poderes.

Verchiel espalhou suas asas e saltou para o ar, uma espada


vindo à vida em suas mãos. — Saiam. — ele berrou enquanto caía ante
a explosão da esfera de energia mágica que continha sua presa. Seus
guerreiros sobreviventes, enegrecidos e empolados, rapidamente se
dispersaram.

— Dê-me o que eu quero, e vou deixá-lo viver. — Verchiel disse


assim que colocou a mão contra a esfera.

Houve um clarão de energias sobrenaturais e o comandante dos


Poderes puxou rapidamente para longe a palma da mão enegrecida
pela descarga.

— Sabemos o que você tirou do irmão Peliel. — o Malakim disse


de dentro da bolha. Ele tinha caído de joelhos, exausto pelo esforço. —
Você mexe com forças muito além de sua capacidade de entendimento.
Eu peço a você, anjo hospedeiro dos Poderes, abandone essa loucura
antes que seja tarde demais.

Verchiel sorriu, mais um rosnado, então, passou sua língua


sobre a carne macia de sua mão queimada. Ele afastou-se da esfera
para olhar para o Arconte Katspiel. O feiticeiro cego tinha encontrado o
seu caminho para outro lado da sala e agora estava sobre o corpo do
Malakim que eles tinham abatido, segurando uma temível ferramenta
de extração...

— Katspiel — Verchiel disse, olhando de volta para o Malakim


magicamente protegido. — Pegue o que eu quero.

O Arconte cego levantou o braço, preparando-se para trazer o


punhal para baixo.

— Por favor. — implorou o divino ser de dentro de sua esfera de


energia protetora. — Permita-nos as nossas vidas e nós vamos dar-lhe
o que quiser.

— Raphael, não! — gritou o Malakim sob o horrível punhal, os


olhos arregalados em desafio.

— Silêncio! — Verchiel ordenou, virando a sua atenção de volta


para o Malakim Raphael. — Largue o feitiço de proteção e eu vou
considerar sua oferta.

Raphael encarou o Comandante dos Poderes por um momento,


em seguida, fez como lhe foi ordenado, a bolha mágica de energia se
dissipando no ar, como a fumaça das sobras queimando dentro da
câmara mortuária.

— Está feito. — Ele disse.

— Sim. Sim, está. — Verchiel respondeu. — Katspiel.

O Arconte trouxe o punhal para baixo, para o crânio do Malakim


imobilizado, o som do crânio sendo quebrado explodiu no ar tranquilo
da tumba.
— Sua oferta é muito cara. — Verchiel disse para o Malakim
sobrevivente. — Você e seu irmão são muito perigosos para ser
deixados vivos. Eu espero que você possa entender minha posição.

O ser angelical balançou a cabeça enquanto os Arcontes o


cercava, o feitiço de imobilização começou a derramar de seus lábios.
— Como eu espero que você possa entender a minha. — Raphael disse.
A energia da espada saltou de repente a vida em suas mãos e ele virou-
se para mergulhá-la no peito do mago angelical mais próximo.

Caos entrou em erupção. Os Arcontes começaram a gritar, a sua


concentração quebrada quando Jaldabaoth escorregou para o chão, a
lâmina de luz saindo de seu peito. Os soldados sobreviventes dos
Poderes avançaram em uma tentativa de apreender o último dos
Malakim. Mas Verchiel já sabia que era tarde demais. Raphael
aproveitou o momento e, antes que conseguisse colocar as mãos sobre
ele ou reformular suas magias, e brotaram as asas douradas e ele
levantou voo.

Aaron sentiu o chão aparecer abaixo de seu pé e abriu suas


asas, seu sangue correndo gelado com à vista diante dele. A menina
que amava estava atacando Lorelei e Gabriel. Não, não a menina que
amava, ele corrigiu si mesmo, mas o antigo poder que girou fora de
controle dentro dela.
Vilma estava gritando, uma mistura de raiva e dor, como se
chamas sobrenaturais ameaçassem alcançá-la e consumir tudo o que
tocava. Lorelei tinha estendido o braço, e um feitiço de defesa
derramou de sua boca enquanto tentava conter a Nephilim. Tentáculos
galopantes de força mágica explodiram de sua mão estendida,
atingindo Vilma que bateu violentamente para o chão. Aaron estava se
movendo para ajudá-la quando a menina começou a gritar – um grito
que tinha ouvido antes. Um grito que ele mesmo tinha dado em tempos
de batalha. Era um grito de guerra.

Aaron abriu a boca para alertar Lorelei do perigo iminente, mas


já era tarde demais. O flash foi cegando, uma explosão de fogo celestial
que impulsionou a feiticeira Nephilim para trás, seu corpo pouso em
uma pilha quebrada no jardim da frente. Vilma estava de pé
novamente e ela começou a vagar em direção à rua, mas Gabriel
surgiu à frente para bloquear seu caminho.

— Vamos lá, Vilma,— ele disse a ela. — Você tem que se acalmar
antes que alguém realmente se machuque.

E Aaron notou então que o seu cão se queimou, manchas no


lindo e amarelo pelo de ainda latejavam a partir da picada da essência
angelical. Ele prendeu a respiração, observando como a menina olhou
para o obstáculo canino, ela moveu a cabeça estranhamente para um
lado, a angelical essência flutuando para fora através de seus olhos.

— É isso aí. — o cão continuou em um calmante, rumor de voz.


— Não há necessidade de estar tão chateada, nós podemos resolver
isso.
Eles ainda estavam inconscientes de sua presença e Aaron
permaneceu perfeitamente imóvel; no momento Gabriel parecia ter a
situação sob controle e ele não queria perturbar se isso tinha a chance
de funcionar.

Desde seu renascimento, o cão tinha desenvolvido uma série de


habilidades únicas. Parecia que havia uma estranha conexão psíquica
entre o Labrador e as coisas sobre os Nephilim. Se havia alguém que
poderia acalmar a fúria da essência angelical, era Gabriel.

— Eu estou... Eu estou tentando. — Vilma disse, sua voz baixa e


tremendo. Ela parecia muito longe. — Mas está lutando contra mim.

Aaron viu as lágrimas escorrendo pelo seu rosto e seu coração


quase quebrou. Lembrou-se quão doloroso foi para ele quando ele
tentou segurar sua própria essência angelical emergente.

— Eu vou te ajudar. — Gabriel disse. — Apenas me deixe entrar


dentro de seus pensamentos e vamos ver se não podemos colocá-lo de
volta para dormir. É isso.— o cão arrulhou.

A menina começou a balançar lentamente, seus olhos fechando


bem apertados. Gabriel balançou também, psiquicamente conectado,
adicionando suas próprias forças nas dela. Mas de repente o seu corpo
se enrijeceu e um engasgo de agonia escapou de seus lábios. Gabriel
gritou bem como, recuou a partir da dor psíquica. E então Aaron ouviu
o som de algo rasgando.

— Gabriel, se afaste dela!— ele gritou em aviso, agitando os


braços quando correu em direção a eles, seus pés deslizando na grama
molhada, o cheiro de coisas queimando atacando seu nariz.
Vilma gritou quando as asas, escondidas debaixo da carne das
costas, começaram a crescer. Sua roupa rasgou quando elas
lentamente se abriam. Se o momento não fosse tão intenso, Aaron teria
pensado que eram as mais belas asas que já viu, penas cor de
caramelo, salpicadas com pontos de branco, marrom e preto.

Seu corpo estremeceu com a liberação, suas novas asas


abanando o ar. Ela olhou para baixo, para Gabriel, um sorriso de
escárnio, de crueldade em seu rosto riscado por lágrimas. O cão
parecia atordoado quando se sentou diante da Nephilim fora de
controle, furiosamente balançando a cabeça.

A linguagem de mensageiros, a linguagem dos anjos-derramando


da boca de Vilma. Ela estendeu seus braços em direção ao indefeso
Labrador e fogo começou a dançar nas pontas dos dedos.

Aaron empurrou as asas de suas costas e saltou a distância


restante para seu melhor amigo. A cascata de chama batendo em suas
costas, sobre as suas estendidas asas pretas, e ele gritou quando
puxou Gabriel em seu abraço protetor.

— Você vai correr agora. — ele sussurrou no ouvido do cão com


os dentes cerrados enquanto o fogo lambia à sua de volta.

Gabriel pareceu reunir o seu juízo, e correu dos braços de seu


mestre para a segurança atrás de uma árvore próxima.

Aaron se virou, o cheiro de carne queimada e penas asfixiava o


ar. Ele saltou do solo, impulsionando-se para Vilma, conectando o
ombro com seu meio. Ele não queria machucá-la, mas ela tinha que
ser parada. O poder dentro dela, se deixado não reprimido, ameaçaria
não só Aerie, mas o mundo humano fora também.
Ele a levou para trás, na frente da casa. A força de seu golpe
quebrando a janela acima de suas cabeças.

— Ouça-me, Vilma.— disse ele, tentando prendê-la contra a


casa. — Ouça o som da minha voz.

Ela gritou um grito estridente de pássaro enquanto se debatia de


lado a lado.

— Você é mais forte que isso. — ele continuou, tentando manter


a voz calma, mesmo que as queimaduras nas costas vibrassem com
cada movimento seu. — Você tem que forçá-lo a recuar, onde isso
pertence. Não é mais forte do que você, ele só quer que você pense que
é.

Ela parou de lutar, seu corpo ficando mole, e Aaron


equivocadamente afrouxou o domínio sobre ela. Ainda firmemente nas
garras do poder angelical, Vilma levou o joelho para cima em sua
virilha e ele caiu no chão com falta de ar.

Ela continuou a bradar e bufar na língua dos anjos enquanto ela


lentamente bateu o ar com as suas asas, preparando-se para seu
primeiro voo. Uma palavra se destacou de todo o resto.

— Fuja!

Mas isso era algo não permitido para Aaron. Através da névoa de
dor, ele tentou virar seu corpo o suficiente para agarrá-la, mantê-la no
chão, mas seus dedos apenas roçaram barra da calça jeans quando ela
se elevou para o ar. E então uma mancha amarela passou por ele,
agarrando a perna de Vilma com um aperto furioso.
Gabriel resmungou quando Vilma chutou ele, mas manteve o
agarre, dando tempo suficiente para Aaron se recuperar e se elevar
para o ar.

Ele conseguiu agarrar a menina, mas ela batia suas asas


furiosamente e eles ainda subiam mais alto. Gabriel liberou o seu
domínio sobre ela, caindo inofensivamente para o chão, onde ele
estava olhando para eles, presos em uma luta acima do telhado.

Fogo de novo saiu de suas mãos estendidas, jogando Aaron para


longe com a sua explosão. Ela estava voando para longe dele agora,
freneticamente tentando fugir, e ele percebeu que havia apenas uma
coisa que poderia fazer para pará-la. Ele convocou as palavras de fogo,
observando enquanto tomava forma em seu alcance. Depois,
impulsionou-se através do ar, como um tubarão faminto em cima de
sua presa. Esse é o único jeito, ele repetiu em sua mente enquanto
voou acima dela e açoitou com sua arma, cortando uma de suas belas
asas novas.

Seu grito foi penetrante quando ela afundava, tentando


permanecer no ar, mas a dor era muito grande, a lesão muito extensa,
e Vilma começou a cair do céu. Aaron desejou que sua espada
desaparecesse e mergulhou para pegá-la.

— Deixe-me ajudar. — ele suplicou.

Mas a essência rugiu sua ira, explodindo chamas de suas mãos


e levando-o embora. Impotente, ele seguiu seu caminho de descida,
observando como ela aterrissou na rua abaixo, espalhando uma
multidão de cidadãos que se reuniram para assistir a batalha.
Ele se agachou ao lado dela e tomou-a nos braços. Ela estava
viva, mas parecia estar mergulhada em um pesadelo, gemendo e se
debatendo em seus braços. Era só uma questão de tempo antes de ela
voltar à consciência e ele não saberia o que fazer.

— Você pode querer se afastar dela, — ele ouviu Lehash dizer de


algum lugar perto, e se virou para ver o anjo visando um de suas
armas douradas, já engatilhada. — É provavelmente a coisa mais
misericordiosa a fazer.

Aaron puxou-a mais perto, protegendo-a com seu corpo. — Você


quer matá-la? — exclamou, incrédulo. — Você está louco? É assim que
resolve os problemas aqui, colocando balas neles?

Lehash baixou a arma com um suspiro e se aproximou. — Você


sabe que é não é o que estou falando, menino. — ele disse
calmamente.— A fusão só não aconteceu certo com ela. Ela é um
perigo para si mesma, para nós e o mundo. — O anjo pistoleiro
agarrou o ombro de Aaron e apertou.— Colocá-la para dormir poderia
ser a coisa mais certa para ela.

— Eu não posso deixar você fazer isso. — disse o garoto, olhando


de Lehash para Vilma. — Eu tenho que tentar ajudá-la.

A arma na mão Lehash desapareceu em um flash de luz, mas


Aaron sabia que poderia ser instantânea convocado.

— E se você não puder? E se isso é um dos que não pode ser


salvo?

Aaron não respondeu ao anjo caído. Em vez disso ele puxou a


menina ainda mais perto, sussurrando baixinho em seu ouvido que
tudo ficaria bem, e desejando com todas as suas forças para isso ser
verdade.

Profundamente dentro do reino da inconsciência, Lúcifer fugiu


para um lugar de sua própria criação para escapar das agonias da
tortura.

Ele estava deitado sobre a cama ao lado dela, sabendo muito


bem que ela era apenas uma invenção de seu passado, uma criação de
sua confusa mente. Mas ele não pode evitar, exceto sentir uma ponta
de alegria por ter Taylor ao lado dele novamente.

— O quê?— ela perguntou, olhando em seus olhos. — Tem algo


errado?

Por onde começar? Lúcifer ponderou. Ele desejou isso tudo


sumindo, voltar à escuridão do esquecimento, à realidade sombria da
sua situação, mas ele não conseguia fazê-lo.

— Não. — ele finalmente disse, sentindo de alguma forma


culpado pela mentira, mesmo que ela fosse apenas uma criação da sua
mente.

— Tudo está bem. Porque você não volta a dormir?

Taylor sentou na cama, a alça de sua camisola escorregando do


ombro para expor as curvas de sua carne delicada. — Você não é um
bom mentiroso, você sabe disso? — ela disse com um sorriso
conhecedor. — Talvez se nós falássemos sobre isso, você se sentisse
melhor, chegar a algo que não pensou antes.

Ele achou estranhamente divertido que ele tentou mentir para


uma invenção de sua própria imaginação, como se isso não estaria já
ciente dos perigos que estava. Lúcifer rolou e saiu da cama. — Não há
realmente nada para falar. — O ambiente mudou de repente, como
uma cena em um filme, o quarto calmo e escuro borrando em uma
parque em um dia maravilhoso de sol.

— Tente. — Taylor disse, com a mão em seu firme braço.

Sua camisola de seda tinha sido substituída por um simples


vestido, sandálias e um chapéu de abas largas.

Era a roupa que ela usava quando eles se conheceram há muito


tempo. Um cão, um golden retriever que ele já sabia foi nomeado de
Brandy, andava na direção deles, um pedaço de pau em sua boca,
ansioso por um jogo de vai pegar.

Era um dia absolutamente lindo, assim como ele se lembrava. O


céu estava mais azul do que ele já havia visto, finas nuvens, como teias
de aranhas por todo o amplo espaço azul-turquesa. Foi um dia
diferente de qualquer outro que ele tinha passado sobre o mundo de
seu banimento – o dia quando ele considerou pela primeira vez que
poderia ser algo mais que o primeiro dos caídos, o monstro que havia
trazido uma guerra ao Paraíso.

Como tinha sido um tolo.


Taylor pegou o pau do cachorro e atirou-o. — Você acha que ele
vai realmente fazê-lo? — ela perguntou, observando o cão correndo por
toda a verde grama em busca de seu prêmio.

Ela estava falando sobre Verchiel e a intenção do anjo em usar


Lúcifer como um instrumento de morte para atacar o coração do
Criador, destruindo o mundo dele. Ele teria gostado de acreditar que
nada que surgisse a partir de Deus poderia fazer tal maldade, mas ele
tinha olhado dentro dos olhos do comandante dos Poderes e viu algo
raivoso e torcido – algo familiar - e ele sabia a resposta.

— Sim, eu acho que ele vai. — Lúcifer disse.

Brandy regressou feliz com a vara, e ele notou que o céu tinha
ficado de repente escuro, como se não fosse uma tempestade. Isso não
fazia parte do seu dia original e Lúcifer ficou cauteloso.

— E você acha que ele vai conseguir? — a mulher perguntou,


agachando para o cão, correndo as unhas através de sua pele dourada
e esfregando as orelhas.

O céu tinha se tornado da cor da noite e roncou


ameaçadoramente à distância. — Para Verchiel destruir o mundo do
homem, ele deve de alguma forma desfazer a Palavra de Deus. —
Lúcifer respondeu enquanto a escuridão fechava em torno deles. — E
eu duvido que mesmo um tão tenaz quanto ele pode inventar uma
maneira para se fazer isso.

A chuva começou a cair em torrentes, e ele a tomou pela mão e a


puxou para seus pés, e eles correram para se proteger. Brandy, já os
tinha abandonado, fugindo para a meia-noite permanente, que estava
consumindo toda a evidência de um parque.
Ele colocou seu braço envolta de Taylor, segurando-a perto,
temendo que ele pudesse perdê-la na tempestade. Ela estava
encharcada, e ele a sentiu tremer enquanto tropeçavam através da
paisagem à procura de abrigo.

A caverna estava subitamente diante deles, como a boca aberta


da grande baleia pronta para engolir Jonah, e enquanto eles se
aproximaram, um sentimento de mal-estar varreu-o e ele recuou.

— Qual é o problema? — Taylor perguntou, empurrando os


cabelos molhados para longe do rosto. — Você conhece esse lugar?

E ele sabia muito bem que ela sabia que ele conhecia.

— Não é um lugar que eu gostaria de visitar. — ele disse,


olhando para o espaço além entrada da caverna.

Taylor puxou sua mão, puxando-o para a caverna. — Devemos ir


para dentro. — sugeriu. — Só por um pouco, para sair da chuva.

Cada instinto gritava para ele correr, mas se permitiu ser


puxado, e a escuridão os envolveu em um abraço que congelou à sua
própria essência.

Tochas vieram à vida enquanto andaram para o interior da


caverna. Havia brutos desenhos nas paredes que descrevia a criação
de Deus do universo, dos seres que ele iria chamar de Seus anjos. Viu-
se sentado diante do Criador quando a Terra se formou debaixo deles.

— Isso realmente te irritou, não é? — Taylor perguntou. A


passagem em que eles andavam fazia um ângulo acentuado para
baixo.
— Sim. — Lúcifer admitiu, olhando a interpretação do Éden e
seus primeiros habitantes humanos. Ele ainda sentia a fúria, como se
pela primeira vez. — Eu estava com ciúmes deles. Eu pensei que Ele
estava nos empurrando para o lado dos seres humanos, que Ele
amava-os mais do que à nós.

Eles continuaram sua descida, a passagem se abrindo, as


pinturas agora engolindo-os com seu tamanho.

— Você tinha que começar uma guerra? — Ela deu a sua mão
um aperto amoroso. — Você não poderia ter uma boa conversa?
Contar a ele como você estava se sentindo?

As imagens mostravam Lúcifer reunindo seu exército e dando-


lhes um presente de sua força interior.

— Eu estava com raiva.

— Não brinca. — Taylor disse, apontando para a representação


particularmente temível de si mesmo, espada flamejante na mão
enquanto conduziu as suas tropas para a batalha contra as forças do
céu.

A arte da parede que se seguiu foi uma das coisas que não se
importava de ver. Pinturas de seu exército derrotado, da mortes
daqueles que tinham jurado lealdade a ele, os sobreviventes fugindo do
Céu para se esconder sobre a terra.

— Eu aposto que ver isso o faz sentir muito estúpido. — Taylor


disse com um suspiro.
— Você não sabe da missa a metade. — Lúcifer respondeu. —
Mas de alguma forma você aprende a viver com isso e aceitar os erros
que você fez.

Eles tinham chegado ao fim da passagem com desenhos, o final


diante deles, uma imagem de si mesmo, quebrado, derrotado, pele
enegrecida e queimada, enquanto a mão de Deus desceu dos céus para
dar seu veredicto sobre ele.

— E Sua punição? — Ela perguntou, inconscientemente


esfregando seu próprio peito onde Deus o tinha tocado – onde toda a
dor e tristeza que ele tinha causado foi colocada. — Você já aceitou
isso?

Lúcifer lentamente acenou com a cabeça, seus olhos fixos na


representação artística de seu destino. — É o que eu mereço. — ele
disse, estendendo a mão para colocar a palma da mão sobre a fria
parede de pedra que marcava o fim de sua jornada.

E quando a mão entrou em contato com a parede, um


estremecimento percorreu a rocha pintada. Largas rachaduras
apareceram, dividindo a pedra. Lúcifer foi rápido a agir, agarrando
Taylor pelo braço e puxando-a do caminho quando a parede de pedras
diante deles caiu para revelar algo escondido por trás dele.

Eles olhavam com admiração quando a poeira começou a baixar,


e olharam para uma enorme porta de metal. Isso lembrava o cofre de
banco, apenas maior, a sua superfície atravessada com grossas
correntes e enriquecida com fechaduras múltiplas de tamanho
inimaginável.
Instintivamente, ele sabia o que ele estava olhando – o que eles
estavam olhando - e estava temendo isso. Aqui estava uma
representação psíquica da Palavra de Deus, a maldição que manteve a
dor e a tristeza acumulada da guerra no céu trancada dentro dele.

— E Verchiel teria que começar por isso para atingir os seus


planos? — Taylor perguntou, apontando para a enorme porta.

Lúcifer estava prestes a responder, para tranquilizá-la que nada


exceto o próprio Deus poderia ter acesso ao obstáculo que mantinha a
sua penitência infernal na borda, quando sentiu um tremor passar
pelo túnel, e a grande porta sacudir em seu quadro de rochas antigas.
Ambos assistiram horrorizados quando um cadeado conectado a dois
elos de uma corrente poderosa abriu-se, retinindo ao chão.

— Isso é exatamente o que ele teria que fazer. — Lúcifer disse,


uma garra gelada de pavor fechando em seu coração quando outro dos
bloqueios caiu.
Aaron abafou um grito de desconforto quando Lorelei limpou
alguns dos bálsamos sobre as feridas que sofreu durante sua briga
com Vilma. Cheirava absolutamente horrível e picava ainda pior. Mas
ela já tinha o castigado uma vez sobre ser um bebê, envergonhando-o
na frente de Lehash, então ele rangeu os dentes e suportou a dor.

— Você está terminando aí atrás?— Ele perguntou.

— Quase,— ela disse quando sentiu anexar uma bandagem


umedecida no ombro. — Isso deve cuidar.— Ela pressionado
levemente o curativo contra a sua pele queimada. Parecia bom, quase
reconfortante, mas então o latejar estava de volta.

— Até que surtar novamente. — Lehash acrescentou, puxando


um dos seus mal-cheirosos charutos do bolso de trás.

— Isso não é nem um pouco engraçado. — Aaron olhou para o


anjo.

— Não era para ser, menino,— o pistoleiro disse, levantando o


dedo indicador da ponta do fino charuto na boca.
— Não se atreva a acender essa coisa suja aqui. — Scholar
berrou do outro lado da sala. — Os livros cheiram mal por meses. — O
anjo estava sentado em uma mesa pequena de madeira, de costas para
eles, enquanto continuou a folhear os livros que havia reunido, na
esperança de encontrar uma solução para problema de Vilma.

— E você quer saber porque eu não o visito. — Lehash


resmungou, tirando o charuto da boca e devolvendo-o bolso.

O clima era sombrio e deprimente. Nem Lorelei nem Lehash


estendeu muita esperança para Vilma, mas Aaron não estava disposto
a desistir tão facilmente. Se alguém no Aerie poderia ajudá-la, era
Scholar.

O anjo caído ergueu as mãos em exasperação e se levantou de


seu assento. — Eu achei nada. — ele disse, começando a andar. — Há
abundância sobre os Nephilim, mas nada sobre como controlá-lo, uma
vez que está fora de equilíbrio.

Lehash recostou-se contra uma estante de livros e cruzou os


braços. — E você sabe por que isso acontece?— Ele perguntou.

— Porque não há qualquer forma, e isso é uma das razões pelas


quais os Poderes começaram a matar Nephilim. Uma essência
angelical às vezes é demais para o aspecto humano de lidar, é muito
forte e toma o controle, fazendo-o louco, perigoso.

— Ela não está louca ou perigosa. — Aaron resmungou,


escorregando em uma camisa limpa.

— Agora ela não está, e isso é só porque a temos nocauteada


com uma das poções especiais de Lorelei, e vestindo-a com um par dos
braceletes mágicos. Inferno, ainda tem o cachorro lá tentando impedi-
la de elevar seus ânimos.
Os pensamentos de Aaron correram. Ele não gostava que isso
estivesse acontecendo. Tinha que haver algo que eles poderiam fazer
para ajudá-la. — E o ritual que eu passei com Belphegor?— Ele
perguntou. — Não foi para ajudar as minhas duas naturezas unificar
corretamente? Por que não poderíamos fazer isso com...

Scholar balançou a cabeça. — Ela nunca sobreviverá a isso. A


natureza angélica já está mais forte do que sua metade humana. Está
comendo-a viva e nós teríamos o mesmo problema que começamos:
Puro poder angelical funcionando em um modo frenético.

— E nós não podemos ter isso, Aaron. — Lehash disse


severamente. — Pode não ser o que você quer, mas alguma coisa tem
que ser feita antes que ela fique fora de controle de novo.

Aaron sacudiu a cabeça. Eles já haviam desistido dela. — Eu


não estou ouvindo isso. — ele disse, voltando-se para enfrentá-los
todos. Lorelei não fez contato visual, organizando suas garrafas e
frascos de remédios de cura em uma rosa caixa de maquiagem de
plástico. — Eu me recuso a acreditar que não há nada que podemos
fazer por Vilma, exceto matá-la como um animal doente.

Eles não disseram nada, recusando-se a fornecer-lhe sequer o


menor brilho de esperança.

— Lorelei. — Aaron disse, vendo como ela se encolheu


visivelmente, — com sua magia de anjo, não há nada que você possa
fazer para ajudar?

Ela balançou a cabeça, finalmente encontrando o seu olhar. —


Você está falando da ligação de uma essência divina. Eu não tenho o
treinamento ou o conhecimento para...
Aaron de repente bateu palmas e girou para Scholar. — O
conhecimento. — ele repetiu se movendo em direção ao anjo. — Lorelei
não tem o conhecimento, mas talvez alguém tenha. — Ele parou diante
do anjo acadêmico. — Quem teria mais conhecimento do que Lorelei?
Como ela aprendeu o que sabe? Quem ensina o usuário de magia?

Scholar encolheu os ombros e puxou sua orelha, nervoso. —


Belphegor lhe ensinou um pouco, e depois existem livros e
pergaminhos. Mas o problema de Vilma, como eu já lhe disse, não é
abordada em...

— Quem ensinou Belphegor?— Aaron persistiu. — Quem


escreveu os livros e os pergaminhos?— Ele fez um gesto pela ajuda
deles. — Vamos lá pessoal, dê-me algo, qualquer coisa.

— A maioria do que temos vem dos Arcontes. — Scholar disse


lentamente.

— Mas o que sobrou deles estão ligados com Verchiel e os


Poderes. — Lehash disse afastando-se da estante.

Aaron sentiu o reflexo da raiva e se esforçou para evitar que


suas asas de irrompessem e os sigilos de crescessem sobre a sua
carne. — Maldição. — ele jurou sob sua respiração, sentindo o seu
próprio raio de esperança começando a escurecer.

— Quem ensinou os Arcontes? — Lorelei disse suavemente e


todos olharam para ela, embora Scholar e Lehash permanecessem
estranhamente silenciosos.

— Bem? — Aaron empurrou. — A senhora perguntou uma


questão. Quem ensinou os Arcontes?
Scholar voltou-se para seus livros. — É muito de um tiro no
escuro. — ele disse, empilhando os textos. — Eu não quero que você
tenha muitas esperanças.

— Tarde demais. — Aaron disse caminhando para Scholar e


agarrando seu braço. — Quem são eles?

— Você está se segurando em palhas aqui, rapaz. — Lehash


ecoou. — Nós não temos o tempo para estar desperdiçando com...

Aaron se virou para olhar o pistoleiro, desta vez deixando os


sigilos dos guerreiros que morreram servindo a vontade de Lúcifer
aparecer em sua carne. — Eu não quero ouvir isso. — ele rosnou, e
viu como Lehash recuou, desviando os olhos.

— Quem ensinou os Arcontes?— ele perguntou à Scholar


firmemente, e não haveria debate.

— Eles são chamados de Malakim. — Scholar respondeu, um ar


de reverência em seu tom. — E se você não consegue um encontro com
o Senhor Deus Todo-Poderoso, então eles são a próxima melhor coisa.

Será que nós realmente entendemos o que estamos fazendo?


Arconte Oraios se perguntou quando levantou a tampa do baú de ouro
contendo a parafernália de sua mística arte. Ou estamos cegos pela
obsessão daquele que nos comanda – puxando-nos para sua teia de
loucuras, não sendo mais capaz de escapar?
— Onde está a sujeira?— Arconte Jao guinchou, agachando-se
dentro do círculo de contenção abaixo do corpo pendurado de Lúcifer.
O anjo freneticamente verificava e reverificava os grampos de metal
afixadas no primeiro dia, no peito do caído para manter sua ampla
incisão puxada e esticada. O sangramento tinha parado há algum
tempo atrás, e agora a dica de um brilho vermelho pulsante podia ser
visto vazando de sua cavidade torácica. — Eu devo ter a sujeira. —
Jao ordenou.
Archon Oraios continuou a procurar. O saco de terra sagrada
era crucial para a sua preparação. Era o solo dos campos dos céus,
um componente poderoso de feitiçarias angelicais, usada para
fortalecer e manter a força das mais perigosas magias. Uma pequena,
assustada parte dele esperava nunca encontrá-lo, forçando-os a
abandonar esse ritual perigoso e blasfemo.
Mas, infelizmente, lá estava ele em um lugar que já havia
verificado antes. Uma maior força mística tentando intervir, para
impedi-los de cometer um erro terrível? Ponderou.
— Você achou?— Arconte Domiel perguntou, tensão enchendo
sua voz.
Com a morte de seu irmão Jaldabaoth nas mãos do Malakim
Raphael, seus números eram menores, e todos estavam sentindo a
tensão.
Apenas mais um Malakim permanecia, um fragmento final de
informação proibida, e, em seguida, eles fariam o impensável: inverter
a Palavra de Deus. E uma praga de desespero, um gosto de que o
mundo jamais havia conhecido, lavaria sobre a terra.
— Aqui. — Oraios disse, tirando do peito a bolsa, feita a partir
da pele de um animal que tinha prosperado no jardim antes da morte
do Éden.
— Rapidamente agora,— Jao insistiu, acenando sua mão
estendida para o precioso componente mágico.
Oraios entregou a bolsa ao seu irmão e viu como Jao
cuidadosamente derramou uma porção do rico conteúdo negro na
palma da mão aberta. A essência do Céu flutuava no ar viciado da
escola abandonada, e Oraios viu-se transportado de volta para o
Paraíso pelas memórias armazenadas dentro do aroma perfumado da
terra abençoada.

Ele sempre acreditou que iria voltar lá algum dia, para mais
uma vez testemunhar os altos pináculos de cristal alcançando o
sempre, os campos intermináveis de capim dourado, sussurrando
baixinho, acariciado pelo suave vento, e deliciar-se novamente no
esplendor da sua glória.
Mas então Oraios retornou à realidade e contemplou a forma da
Morningstar, suspenso por correntes acima de um círculo místico
desenhado em seu sangue e enriquecido com a sujeira da providência.
O Arconte sentiu seus tristes sonhos escapar para longe, resignando-
se ao seu destino.
— É só uma questão de tempo agora. — ele meditou em voz
alta, observando como seus irmãos continuarem suas preparações, as
imagens do céu em sua mente já começando a desaparecer.
— Eu não acho que você entende o que estou tentando dizer. —
Scholar disse ao salvador de Aerie, mergulhando o seu saco de chá de
novo e de novo na xícara de água acabada de sair da chaleira elétrica.
— Malakim são mistérios mesmo para nós.

— Então, eles são um mistério, tudo bem. Eu estou bem com


isso.— Aaron disse, um brilho de otimismo em seus olhos. — Tudo
que eu preciso saber é se eles podem ajudar Vilma. —

Scholar tomou um gole de bebida, sem retirar o saco. Uma


bebida boa e forte era necessária para esta conversa. — Sim, eu
poderia imaginar. Se há quaisquer seres de natureza angélica lá fora,
que pode ter o conhecimento para resolver o problema da Senhorita
Santiago, seriam eles, mas...

— Sem ‘mas’ — Aaron disse com um movimento rápido da


cabeça. — Este é o mais próximo que chegamos a uma solução e eu
não estou prestes a perdê-la.

— Mas ele não está perto o suficiente. — Lehash disse. O


policial de Aerie serviu-se de uma xícara de café e um assento,
inclinando a cadeira para trás contra a parede. Ignorando olhares de
desaprovação do Acadêmico, ele continuou. — Os Malakims tornaram-
se lendas sobre nós, como Merlin ou Paul Bunyan e seu boi azul para
o humanos1.

Aaron fechou os olhos e respirou fundo. — Então, eles são reais


ou são inventados?

O pistoleiro engoliu o resto do seu café e trouxe as pernas


dianteiras da cadeira para baixo sobre o chão com um baque. — Pode
haver alguma verdade em todos os contos, mas tem sido misturados
ao longo do anos, e é difícil dizer o que é a fato e o que é ficção.

Lorelei falou de cima de uma mesa de trabalho onde ela estava


sentada de pernas cruzadas, lendo um texto antigo onde os Malakim
foram brevemente mencionados. — Diz aqui que eles eram os
arquimagos de magia angelical e detentores do conhecimento proibido.
— Ela jogou o cabelo branco de neve por cima do ombro e fora de seu
rosto. — Conhecimento conhecido apenas por Deus.

— O que sabemos com certeza, — Scholar continuou, — é que o


Malakim foi criado para ser extensões de Deus, os recipientes de toda
a sua sabedoria e conhecimento, proibidos ou de qualquer outra
forma.
— É essa coisa de conhecimento que eu estou interessado,—
Aaron disse. — Onde podemos encontrar estes Malakim?— ele
perguntou.

1
Paul Bunyan é a figira de um lenhador no folclore e tradição da América do Norte. Um dos mais famosos e populares
heróis folclóricos americanos, ele é geralmente descrito como um gigante, bem como um lenhador de habilidade
incomum, e é muitas vezes acompanhado de seu companheiro animal, o Boi Azul .
— Você sabe...

— O Malakim supostamente veio para a Terra depois da guerra


no Céu, — Scholar nterrompeu. — Para estudar e registrar as
mudanças causadas pela queda.

— Como eles podem ser contactados? — Aaron perguntou, sua


paciência claramente se esgotando.

Scholar abaixou sua caneca, imediatamente ansiando outro


copo. — Isso é o que eu venho tentando lhe dizer, Aaron. O Malakim
esconderam-se afastados. Não houve qualquer contato entre nossa
espécie há milhares e milhares de anos.

— Eu não posso acreditar nisso. — o Nephilim disse, sentando-


se no chão nu e correndo os dedos por seu cabelo. Sua voz estava
pesada com a decepção. — Você nunca realmente viu um?— ele
finalmente perguntou, olhando para Scholar.

— Não, mas...

— Algum de vocês viu um? — Aaron empurrou-se de pé.

— Bem, pode ter sido um Malakim,— Lehash começou, coçando


o queixo. — Mas eu não posso dizer com certeza.

Scholar rapidamente se virou e caminhou para o fim do quarto.


Aaron queria provas da existência dos Malakim, e provas ele teria. Foi
mantido em uma caixa de vidro, juntamente com outros tesouros de
Aerie. Ele cuidadosamente abriu a tampa e retirou o cilindro
ornamentado de seu lugar de descanso em cima de uma almofada de
veludo vermelho.

Estavam todos olhando para ele quando voltou, ainda surpresos


com sua saída abrupta. Ele segurou a vasilha até onde Aaron pudesse
ver.
— Você quer saber como nós temos certeza que os Malakim
existem? — Ele perguntou, indo para a estação de trabalho onde
Lorelei sentou-se. Ela pulou quando ele se aproximou. — Belphegor
me deu isso para guardar. — Scholar disse, lentamente, abrindo a
parte final do tubo.

— Eu provavelmente posso descobrir onde ele conseguiu,—


Lehash disse, olhando para os outros.

Scholar cuidadosamente derrubou a lata, permitindo que o


pergaminho enrolado caísse na sua mão esperando. — Foi dado ao
Fundador quando criou-se o primeiro refúgio seguro para a nossa
espécie.— Lentamente, ele começou a desenrolar o rolo, revelando o
script angelical sobre o pergaminho dourado.

— É uma magia,— Lorelei disse, curvando-se para examinar a


escrita.
— Sim, é,— Scholar disse. — A primeira passagem de ocultação
de sempre a ser colocada sobre o nosso santuário. O Malakim que
visitou aprovou o que Belphegor estava fazendo e nos deu sua bênção,
o que significava a bênção de Deus.

— Bem, droga, — Lehash disse, empurrando mais perto para


dar uma olhada. — Um real e ao vivo Malakim deu isso à Belphegor.—
O pistoleiro sorriu. — Sempre me perguntei se tinha Deus do nosso
lado, não sabia que tinha a papelada para provar isso.

Aaron chegou mais perto, movendo-se por Lehash para estar ao


lado de Scholar. Ele olhou para baixo sobre o livro, um olhar estranho
em seus olhos. — Um Malakim escreveu isso? — Ele perguntou, o
dedo indicador traçando a forma do alfabeto celestial no ar acima da
rolagem.

— Sim,— Scholar respondeu.

— Então isso significa que ele tocou,— disse o menino


sonhador, seus pensamentos aparentemente e completamente em
outro lugar.

— Claro que ele tocou,— Scholar respondeu com irritação. —


Como ele poderia ter escrito isso?— Ele levantou sua mão, permitindo
que o pergaminho rolasse para fechar.

— Eu tenho uma ideia,— Aaron disse, voltando-se para sair. —


É provavelmente um tiro no escuro, mas não pode doer tentar.
— Onde você vai, garoto? — Lehash perguntou, seguindo de
perto.
— Ver Gabriel.
— O tempo é curto. — Verchiel sibilou, sua voz ecoando através
da igreja abandonada.— Encontre o último Malakim.

Katspiel convulsionou violentamente sobre o altar não


consagrado da igreja de São Athanasius. Seus olhos olharam
cegamente para a imagem desaparecendo do céu pintado no teto
arredondado, com o rosto abatido, torcido em uma máscara de agonia.
As magias que os Arcontes tentavam comandar eram selvagens e
indisciplinadas, levando embora a sua força de vida em troca da
localização do último dos usuários da magia do Céu.

— Tão fulgaz. — ele grunhiu, alcançando com as mãos


agarradas, como se para rasgar o ar. — Prata movendo a partir daqui,
para lá, em todo o mundo dos homens de Deus, em seguida, foi, como
a escuridão sendo afugentado com a aurora que vem.
O anjo enrolou-se em uma bola apertada. — Eu devo descansar.
— ele gaguejou.

Mas Verchiel não quis ouvi-lo. Ele voou de seu poleiro na parte
de trás de um banco de madeira e caiu sobre o altar, ao lado do
Arconte tremendo. — Não haverá descanso até o Malakim ser
encontrado — , ele gritou, segurando Katspiel pela nuca, puxando-o,
batendo, no ar.

— Misericórdia. — o mago anjo implorou, com a voz trêmula. —


Tudo o que eu peço é por algum tempo...

— Você não entende, verme? — Verchiel resmungou, puxando o


Arconte mais perto de seu rosto rosnando. — Surpresa está perdida
para nós. Nossa presa sabe que está sendo caçada.

— Tão cansado... — Katspiel gemeu quando pendia inerte no


aperto de seu mestre.

— Haverá tempo de sobra para descansar uma vez que o


Malakim for encontrado e a peça final do conhecimento for extraído de
seu crânio. — Verchiel caiu no chão empoeirado. — Continue — ele
ordenou.

Lentamente Katspiel levantou os braços, um feitiço de


convocação em seus lábios, o zumbido de sua voz fraca puxando para
baixo as forças mágicas ansiosas para partilharem de sua força de vida
já esgotada.

Verchiel observava atentamente até que o som de alguém


entrando na igreja o distraiu. Ele se virou e viu Kraus pelo corredor
central em direção a ele. O ser humano movia-se de forma diferente
agora, seus recém-regenerados órgãos sensoriais levando-se em tudo,
devorando a visão em torno dele.

Kraus aproximou-se do altar, e Verchiel observava com


curiosidade, como uma expressão de horror lentamente se espalhou
pelo seu rosto. — O que é, curandeiro? — E então ele também
percebeu o que o curador viu.

Verchiel começou a sangrar.

Novas feridas tinham aparecido, e feridas antigas, há muito


curadas, tinha reaberto, sangue escuro chovendo em respingos sobre o
altar e uma poça aos pés do anjo.

— O tempo é curto. — ele disse ao Arconte.

Palavras mais verdadeiras nunca foram ditas.

O ar ao redor da garota dormindo crepitava com uma energia


suavemente sobrenatural, e Aaron podia sentir o cabelo em seus
braços e as costas de seu pescoço levantado. Vilma estava deitada em
um colchão nu no chão, colocado no porão de uma casa abandonada
fora da Aerie, longe das casas dos cidadãos.

Ela parecia pequena em cima do colchão king-size - frágil, como


se o poder dentro dela estivesse consumindo-a em massa, acabando
com tudo o que era humano para que somente a angelical
permanecesse.
Um brilho de suor estava em sua testa, e ela murmurava em seu
sono. Mas a linguagem que ela falava não era nem Inglês nem o seu
Português nativo. Era a língua dos anjos, e Aaron sabia que a essência
dentro dela estava cada vez mais forte, apesar das restrições
sobrenaturais colocadas sobre ela.

Gabriel estava fielmente a lado de Vilma, seus olhos castanhos


escuros nunca deixando-a enquanto ela dormia. Suas queimaduras já
tinham começado a cicatrizar, as manchas chamuscadas preenchendo
com nova pele dourado amarelo.

— Como ela está? — Aaron perguntou, alcançando a cabeça do


cão.

— Ela está machucada — ele respondeu, com a voz cheia de


preocupação. — Eu estou tentando com todas as minhas forças, mas eu
não consigo acalmá-la. Ele quer sair, ele quer correr solto. — O cão
olhou para longe de seu cargo para segurar Aaron em seu olhar cheio
de alma. — Mas eu não vou deixar isso acontecer.

— Você é um bom cão, Gabriel. — Aaron disse, e inclinou-se


para beijar o topo de sua cabeça dura e óssea. — O que eu faria sem
você?

O cão parecia levar a declaração literalmente. — Que


pensamento horrível. — Ele inclinou a cabeça para um lado,
considerando a realidade alternativa. — O que você faria sem mim?

Aaron sorriu, divertindo-se com a percepção estranha do animal


sobre as coisas. Mas o humor foi fugaz quando de novo se
encontraram olhando para uma Vilma inconsciente, trancada dentro
do aperto de um poder mais antigo que a criação.
— O que eles estão fazendo para ajudá-la?

Aaron suspirou. — É só isso, Gabe. — ele começou. — Eles não


têm ideia do que fazer. Normalmente, quando algo assim acontece,
eles... — Ele não conseguia dizer.

— Eles o quê? — Gabriel perguntou. — Eles não fariam mal a


Vilma, fariam? — Ele ficou em pé. — Eu não vou deixá-los, Aaron.

— Eles não querem, mas pode vir a acontecer se algo não pode
ser feito. — Aaron explicou. — Ela está se tornando perigosa, Gabe, e
para evitá-la de ferir alguém... Pode não haver escolha.

O Labrador cheirou o corpo adormecido da menina, sua cauda


começou a abanar. — Ela não quer magoar ninguém, e nem a coisa
dentro dela. Ele só precisa ser treinado.

— Eu sei disso. Olha, Gabe, há uma pequena possibilidade, que


certos anjos chamados Malakim possam ser capazes de ajudar Vilma,
mas a coisa é, ninguém sabe onde eles estão.

Aaron praticamente podia ouvir as engrenagens clicando na


cabeça quadrada de Gabriel enquanto ele tentava processar a
informação.

— Nós temos que encontrá-los, então. — disse o cão com


naturalidade.

— Exatamente. — Aaron respondeu. — Desde seu acidente. —


ele continuou, — Desde que o fiz melhor, seus sentidos se tornaram
mais poderosos, não foi?

— Sim.
— Você acha que poderia pegar um cheiro antigo de alguma
coisa? — Aaron perguntou.

O cão pensou por um momento. — Quantos anos?

Aaron deu de ombros. — Eu não tenho certeza. Alguns milhares


de anos, talvez.

— Isso é tudo? — O cão respondeu, um brilho malicioso em seus


olhos castanhos escuros. — E aqui eu estava pensando que ia me dar
algo difícil.

Algo estava tirando Lúcifer de sua inconsciência, puxando-o


para longe do retiro que ele havia criado no fundo de seu
subconsciente. Ele não queria sair, lutando contra a corrente que
ameaçava seu mundo interno e a mulher que ele amava, mas foi em
vão. Então ele deixou Taylor de pé nervosamente diante da porta do
cofre trancado e prometeu voltar logo que fosse capaz.

Ele se permitiu ser puxado para cima, a força poderosa


arrastando-o através da consciência, e quanto mais perto ele chegou à
superfície, pior a dor se tornou. Mas ele suportou, abraçando-a, pois
ela tinha sido sua companheira constante desde sua queda. Era sua
penitência, e ele não merecia menos.

Olhos de Lúcifer abriram, uma sensação seca quando as


pálpebras se afastaram devagar. Ele piscou o borrado, seu olhar
ardendo, focando sobre o círculo místico que tinha sido desenhado no
chão debaixo dele. Uma dor nos braços e pernas desviaram suas
atenções alheias, e ele percebeu que ele estava suspenso por correntes,
pairando sobre o anagrama de um círculo protetor, o tema de algum
tipo de ritual.

Era mais do que a mera dor física que sentia; essa sensação
desagradável era muito mais profunda do que isso, e ele percebeu em
um assustadora realidade que Verchiel estava de alguma forma tendo
sucesso com seus loucos planos, de que o anjo tinha encontrado uma
maneira de desfazer a Palavra de Deus. A imagem da grande porta do
cofre dentro de sua mente, seus bloqueios caindo em sua cabeça, e ele
recuou disso.

— Você não pode fazer isso. — ele disse em voz alta, lutando
pateticamente contra as suas amarras, seu corpo balançando com
seus esforços inúteis.

— Ah, mas eu posso. — disse uma voz inquietante de perto, e


Lúcifer levantou a cabeça para olhar para Verchiel, ou pelo menos ele
acreditava ser ele.

Vestido com uma armadura que uma vez brilhou como o sol, a
figura que cambaleou para ele era um pesadelo para ser contido. A
carne exposta do rosto do anjo, braços, pernas e foi envolta em
ataduras, sangrentas por feridas escorrendo.

— É você, Verchiel? — Lúcifer perguntou, lutando para manter a


cabeça para cima, os músculos de seu pescoço começando a ter uma
cãibra. — O que aconteceu? Cortou ao se barbear? — Então ele viu os
olhos que se alastraram por entre a atadura manchada e sabia
exatamente quem estava diante dele.

— Insolente, mesmo em face de sua própria morte. — Verchiel


assobiou.

Em todos os seus anos de existência, Lúcifer nunca tinha visto


um ódio como ele via agora no líder dos Poderes. Aqui estava um ser
nascido de Deus que de alguma forma perdeu o contato com tudo o
que fez dele uma criatura divina. Mesmo Lúcifer ainda se lembrava de
como era servir a Deus, depois de tudo que tinha passado.

— Acredite ou não, Morningstar, pedi a um dos Arcontes para


acordar você. — Verchiel disse, sua voz um sussurro rasgante através
das vendas que parcialmente obscurecia sua boca. — Eu quero que
você esteja completamente ciente do próximo ato catastrófico que você
será parte. — O anjo se aproximou mais, cuidando para não perturbar
o círculo místico, e agarrou o queixo de Lúcifer, erguendo o rosto para
contemplar o rosto perturbador de Verchiel. — Eu pensei que nós
poderíamos ter uma conversa particular em primeiro lugar, enquanto
os Arcontes descansam. Eles têm trabalhado muito duro para
completar sua tarefa.

— O que aconteceu com você? — Lúcifer perguntou. O cheiro


nauseante de decomposição do corpo de Verchiel flutuava, e ele queria
virar a cabeça, mas o comandante dos Poderes ainda segurava
firmemente o queixo com a mão.

— Este é mais um exemplo de como o Senhor fere aqueles que o


servem fielmente. — Verchiel rosnou amargamente. — Todas as
minhas feridas, recebi a serviço de Sua santa causa.
Lúcifer dirigiu seu olhar para os olhos frios de Verchiel. — Você
não acha que talvez ele esteja tentando dizer-lhe alguma coisa? — ele
perguntou, esperando alcançar uma pequena parte da sanidade no
comandante dos Poderes.

— Sim. — Verchiel disse com um aceno lento de sua cabeça


enfaixada. — Sim, eu acredito que ele está tentando comunhão
comigo. Através de Suas ações, ou a falta delas, Ele está me dizendo
que o pecado tem vencido, que os miseráveis e os malditos, os
criminosos e as abominações cuja mancha tem envenenado os céus e a
terra abaixo, têm força indomável sobre tudo.

Verchiel inclinou o rosto mais perto de Lúcifer, o cheiro de


podridão quase sufocante. — Mas eu não vou escutar isso. — ele disse,
apertando o queixo prisioneiro mais acentuadamente, recusando-se a
permitir que ele desviasse o olhar. — Eu não vou me entregar a quem
deveria ter morrido debaixo do meu calcanhar. Vou ver tudo isso virar
o inferno antes que eu desista.

E com o último pronunciamento de sua fúria, Verchiel o soltou e


recuou para fora do círculo. — E pensar que, o que começou tudo isso,
quem trouxe a guerra para o Paraíso, e ainda teve a audácia de
acreditar que seus pecados poderiam ser perdoados, será o
instrumento de minha provocação. — Verchiel estudou o primeiro dos
caídos, a dica de um sorriso grotesco sob os panos sujos. — Isso me
traz uma certa satisfação, saber que a profecia nunca será levada a
termo, que o fundador da nossa miséria nunca vai encontrar perdão
nas mãos de seu filho.

Lúcifer não podia suportar ouvir mais devaneios do anjo. Ele


queria voltar para a escuridão do esquecimento, para o conforto de sua
preciosa memoria na forma de um grande amor perdido. Mas havia
algo que Verchiel disse que ele não chegou a compreender. Ele se
esforçou para levantar a cabeça e olhar para o comandante dos
Poderes para fazer a pergunta.

— O perdão na mão do meu filho?

Verchiel riu, um som molhado e estrondoso. — Não me diga que


você não sabe, ou pelo menos suspeita, Estrela da Manhã. — ele
brincou.

— O que você está dizendo? — Lúcifer lutou para perguntar, o


feitiço que o Arconte usou para devolver-lhe a consciência estava o
esgotando.

— Ora, o Nephilim da profecia, o chamado Aaron Corbet, ele é


seu filho.
— Este lugar é muito maior no interior. — Gabriel observou
enquanto entrava mais fundo na sala aparentemente infinita, suas
unhas clicando sobre os pisos de madeira nus.

— Nessa primeira fila, pegue... — Aaron começou a lhe dizer,


mas o cachorro já estava a caminho para encontrar os outros.

— Não me diga Aaron. — Gabriel disse, seu nariz deslizando


sobre a superfície do chão. Soou como um contador Geiger2
procurando por perigosos níveis de radiação enquanto seguia o cheiro.
— Deixe-me encontrá-los por conta própria.

Gabriel não queria deixar Vilma, temendo que sua ausência


causasse seu despertar novamente. Mas ele finalmente tinha
concordado quando Aaron explicou que era a única forma de ajudar a
menina. Além disso, Scholar não permitiria que o pergaminho
deixasse sua casa.

Aaron seguiu o cachorro através dos múltiplos corredores


sinuosos de várias estantes de livros enquanto o animal rastreava sua
presa. Ele estava satisfeito com a forma que Gabriel estava fazendo,
2
instrumento de medida usado para medir certas radiações ionizante.
mas os sentidos olfativos do Labrador eram realmente bons o
suficiente para encontrar um ser angelical que havia deixado seu
perfume em um pergaminho há milhares de anos? Essa era a pergunta
de um milhão de dólares, e uma chance que teriam que tomar.

Scholar tinha ridicularizado a ideia, dizendo que ele nunca tinha


ouvido falar de algo tão ridículo, e os outros não estavam muito
preparados para se juntarem ao passeio também. Aaron defendeu sua
teoria, dando exemplos de capacidade de cães para procurar pistas.
Ser capaz de encontrar uma fatia de queijo escondida em algum lugar
da casa não tinha tido muito o impacto que ele tinha imaginado, mas o
exemplo de Gabriel ser capaz de rastrear o cheiro de anjos caídos foi
pelo menos aceita com uma curiosidade relutante. Ele explicou que os
sentidos de Gabriel tinham se intensificado desde que ele tinha sido
curado e que ele não era mais apenas um cão. Gabriel era especial e
capaz de coisas incríveis.

O cachorro de repente parou por perto, farejou o ar, e inverteu


sua direção. — Quase o perdi — ele resmungou. — Muitos outros
cheiros aqui, mas posso cheirar aquele charuto fedorento acima dos
outros.

E com essa declaração final, o cachorro acelerou seu passo,


Aaron quase correu para acompanhar. Em uma porta fechada ele
começou a latir, seu rabo abanando furiosamente.

— Bom cachorro — Aaron disse, acariciando sua cabeça e


abrindo a porta para permitir que o animal confrontasse sua presa.

Eles estavam esperando, sentados ao redor de uma mesa


redonda. Lehash e Lorelei sorriram enquanto Scholar fez uma careta.
— Aí está nosso poderoso cão de caça. — o pistoleiro disse,
estendendo a mão para dar ao cão um afago.

Gabriel lambeu sua mão. — Não sou um cão de caça. Sou um


Labrador de caça, e encontrei você muito facilmente por causa de seu
fedor.

O policial para brincar fungou debaixo de seus braços. — Não


imaginava que eu estava no ponto, mas talvez estivesse enganado.

— Não estou impressionado — Scholar disse, ajustando os


punhos em sua engomada camisa branca. — Claro, ele foi capaz de
nos encontrar aqui, mas estou curioso para ver seu nível de sucesso
quando se assume o mundo inteiro.

Gabriel andou ao redor da mesa até que estava em pé na frente


de Scholar. Sentou-se aos pés do anjo caído, nunca tirando seus olhos
do dele. — Nunca saberemos até tentarmos, não é? — o cão disse, sua
voz cheia com muito mais compreensão que Aaron poderia ter
imaginado.

— Ele está certo. — Lorelei disse, tentando esconder sua


diversão. — Temos que pelo menos deixá-lo tentar. O que pode doer?

O pergaminho tinha retornado a sua caixa protetora e Scholar


tentativamente alcançou por ele. — Sinto-me tão fortemente sobre a
presença de animais em meu local de trabalho quanto sobre fumar um
cigarro.

Lehash revirou os olhos, cruzando os braços sobre o peito. —


Basta deixar o cão cheirar o maldito livro.
Scholar cuidadosamente deslizou o pedaço de pergaminho fora
do tubo e dentro de sua mão. A cabeça de Gabriel girou em direção a
ele, farejando o ar, e Scholar recuou, puxando o rolo para longe.

— É perto o suficiente. — ele retrucou.

— Não, não é. — Gabriel disse.

Aaron deu um passo adiante, estendendo sua mão para Scholar.


— Dê-me isso. — ele disse firmemente.

Scholar começou a se opor, mas Lehash se mexeu na cadeira,


seu olhar de aço intenso. — Você ouviu o menino. — ele falou
ameaçadoramente.

Como se fosse à coisa mais difícil que ele já teve de fazer,


Scholar colocou o pergaminho no centro da mão de Aaron. O Nephilim
se ajoelhou ao lado do cão e começou a desenrolar o pergaminho.

— Assim está bem melhor. — Gabriel disse enquanto Aaron o


colocou sob o seu nariz úmido e rosado. — Cheira muito antigo.

Aaron podia sentir a tensão de Scholar atrás dele enquanto uma


gota de umidade começou a formar por baixo de uma das narinas de
Gabriel, ameaçando escorrer sobre o documento de valor inestimável.

— Calma, Scholar. — Lehash advertiu. — Ou você pode se mijar.

— Terminei. — o cão disse, e Aaron moveu o rolo longe enquanto


a gota de umidade rolou do nariz de Gabriel e pingou inofensivamente
no chão.

— Não foi tão ruim, não é? — Lorelei repreendeu enquanto


Aaron entregou o pergaminho de volta para Scholar.
O anjo não disse nada, rapidamente rolando o rolo firmemente e
o colocando de volta em sua embalagem protetora.

— Bem? — Aaron perguntou a eles enquanto se virava para


Gabriel. O nível de expectativa na sala estava extremamente alto.
Muito estava sobre as costas do cão, e Aaron não tinha muita certeza
de como lidaria com a situação se Gabriel falhasse. O que aconteceria
com Vilma então? Ele não queria pensar sobre isso. Ao invés, ele se
concentrou no Labrador.

O cão ignorou a pergunta, levantando-se de onde estava sentado


e andando ao redor da sala em círculo, cabeça inclinada para trás
farejando o ar.

— A expectativa está me matando, cão. — Lehash rosnou, mas


Gabriel não lhe prestou nem um pouco de atenção enquanto
continuava a vaguear pela sala.

De repente o cão soltou um enorme espirro, fez uma pausa, e


então espirrou novamente. — Eu o tenho. — sua voz plana, e Aaron
estava prestes a ficar animado quando percebeu que os pelos do
pescoço de seu amigo haviam subido.

— O que é, Gabriel? — ele perguntou se ajoelhando ao lado do


cão. — O que está errado?

— Eu sei onde o Malakim está. — O cão olhou nervosamente


para a sala, seus ouvidos estáveis contra sua cabeça.

— E está em um lugar muito estranho...


Katspiel não sabia quanto tempo tinha.

A magia tinha lhe dado a informação que ele tão


desesperadamente procurava, mas agora isso exigia pagamento, e ele
não tinha mais força para segurá-lo na baía. O proibido estava nele,
movendo-se livremente, completamente desimpedido, partilhando
carne e sangue, osso e espírito – tudo o que o definia.

Ele era um Arconte, um anjo dotado com a facilidade de exercer


as artes místicas do Céu. Nem todos eram adequados a vestir este
manto, apenas alguns selecionados pelo poderoso Malakim. Katspiel
era o único como tal, e ao longo do tempo ele aprendeu a natureza
proteica do poder que ele iria tentar dominar.

Isso o estava matando agora, mas ele foi deixado com pouca
escolha. Isso também podia morrer enquanto a invocação afastava sua
força, ou ser brutalmente assassinado pela insatisfeita fúria de
Verchiel. De qualquer maneira, Katspiel sabia que era só uma questão
de tempo agora antes de sua vida chegar ao fim.

O Arconte levantou cambaleando a seus pés sobre o altar da


igreja, balançando-se no escuro que tinha se tornado seu mundo
desde que as magias que ele procurava romper, vinculadas pelo anjo
caído, Lúcifer pela mão de Deus, atacou e tirou seus olhos. Ele e seus
irmãos deveriam ter parado em seguida, atendendo a advertência do
Senhor, afastando-se do plano louco de Verchiel. Mas eles tinham
chegado a chamar de mestre o líder dos Poderes, suas existências
inexoravelmente interligadas, seus destinos tornando-se um só.

A localização do último Malakim queimava em sua mente, e


Katspiel convocou suas asas antes que fosse tarde demais. Encobria-o
dentro de seu abraço de penas, e ele foi até seu mestre, o tempo todo
tentando imaginar como seria o mundo depois que a Palavra de Deus
fosse desfeita e a punição de Lúcifer fosse solta sobre a terra. E
enquanto suas asas abriam na escola e ele sentiu que estava na
presença de Verchiel e o primeiro dos caídos, Arconte Katspiel
percebeu que estava feliz que não estaria vivo para experimentá-la.

— Mestre Verchiel. — ele anunciou, ouvindo os sons de um ser


angelical no controle do sofrimento, e o riso baixo retumbando de seu
mestre. — O último dos Malakim foi encontrado. — ele se defendeu, e
caiu no chão, os músculos sob sua decrépita carne, já não capaz de
sustentar seu corpo.

— Você me serviu bem, Katspiel. — Verchiel disse, uma


estranha calma em sua voz, perfeitamente a vontade com o horror que
seu comando em breve desencadearia. — E sua lealdade será
lembrada por muito tempo após a punição ser distribuída e a ordem
reestabelecida para os céus e terra.

Ah, sim. Katspiel estava certo de que o comandante do Poderes


estava correto nisso. Ele e seus irmãos de fato seriam lembrados pelo
que haviam feito.

Lembrados na infâmia.

Isso quase o matou por ver desta maneira.


Aaron cuidadosamente sentou-se no colchão ao lado de Vilma.
Ela tinha chutado longe a suave coberta que tinham providenciado
para ela, se contorcendo e gemendo como se apanhada nas garras de
um sonho ruim. Sua respiração era leve, e as algemas de ouro
cobrindo-lhe os pulsos cintilou e zumbiu enquanto o poder dentro dela
testava os limites da magia do anjo. Ela tinha se tornado mais inquieta
desde que Gabriel tinha ido, mas seu amigo canino era necessário em
outro lugar se eles estavam indo ajudá-la.

A menina soltou um choro patético e golpeou sua cabeça sobre o


travesseiro. Uma única lágrima se soltou de um canto do olho bem
fechado e desceu ao lado de seu rosto. Ele sentiu um obstáculo de
emoção ficar preso dolorosamente em seu peito e estendeu a mão para
segurar a mão dela. Estava quente e seca na sua, e Aaron tentou com
todas as suas forças infundir um pouco de sua própria força nela.

— Ei, — ele sussurrou, não querendo alarmar ou assustá-la. —


Apenas queria parar e vê-la antes de partir. Mas estarei de volta logo
que eu puder. Eu prometo.

Ele não tinha certeza se ela ainda podia ouvi-lo, mas isso não
importava. Ele precisava conversar com ela, precisava mostrar a si
mesmo por que ele estava fazendo o que estava prestes a fazer. Se
havia alguma dúvida, ele não se importava agora.
— Estamos indo em busca de um anjo – um Malakim, como são
chamados – e acho que ele pode ser capaz de ajudá-la.

Vilma parecia um pouco mais calma, e ele gostava de pensar que


talvez fosse por causa de sua presença. Aaron sabia que não era sua
culpa, mas ele não podia deixar de sentir certa quantidade de culpa.
Esta não era para ser a vida de uma mulher linda de dezoito anos. Ela
deveria estar pensando em exames finais, formatura, e o baile, não
sobre ser uma força angelical, o Céu vivendo dentro dela fazendo com
que enlouqueça.

Ele esfregou seu polegar delicadamente através da parte de trás


da mão dela. — Então, eu preciso que você espere por mim, seja forte,
porque ainda há muitas coisas que precisamos conversar uma vez que
fique melhor.

A vida de Vilma tinha sido virada de cabeça para baixo por sua
associação com ele. Ele se sentia como uma espécie de super vírus,
infectando qualquer um que chegasse muito perto. A taxa de vítimas
da doença de Aaron Corbet é bastante elevada, ele percebeu, pensando
em todos aqueles que tinham morrido apenas por ser parte de sua
vida: seus pais adotivos, seu psicólogo, Stevie, Zeke, Camael, e
Belphegor. Apertando a mão dela mais forte, Aaron decidiu que não
iria deixar Vilma fazer parte dessa estatística deprimente. Ele preferia
morrer a deixar qualquer coisa ruim acontecendo com ela.

Aaron aliviou sua mão, deixando-a gentilmente cair ao seu lado.


Ele tinha que partir; os outros estariam esperando por ele. Ele se
inclinou para frente, colocando um beijo carinhoso em sua testa. —
Sinto muito por isso, — ele sussurrou. — Vou fazer tudo que posso
para compensar você.
Ela não ofereceu resposta e aquilo estava bem para ele. Vilma
parecia estar descansando pacificamente no momento, e ele tomou
isso como um sinal para se despedir. Silenciosamente ele se levantou,
seus olhos nunca deixando sua forma, e se afastou. Ele se virou e
quase saiu de sua pele quando viu que Lorelei estava no pé das
escadas, sua caixa de plástico com maquiagem, cheia de remédios
angelicais na mão. Ele não tinha a ouvido descer, e colocou a mão
contra o peito para mostrar que ela lhe deu um ataque do coração.

— Desculpe, — ela sussurrou. — Não queria acordá-la.

Aaron olhou para trás para a menina em cima do colchão. —


Está tudo bem. Ela está dormindo muito bem agora. — Ele continuou
olhando para ela, seu coração doendo.

— Não quero dizer o óbvio, Aaron, — Lorelei disse. — Mas você


sabe que isso não é sua culpa, certo?

Ele não respondeu, não totalmente acreditando que o que ela


disse era verdade.

— O que está acontecendo com Vilma teria ocorrido mesmo se


você não estivesse perto. — Ela estendeu o braço e pousou uma mão
de apoio em seu ombro. — Ela é uma Nephilim, Aaron, e você não fez
isso a ela, não importa quão culpado você se sinta.

Ele pensou sobre tudo o que Vilma tinha passado. — Verchiel a


usou para chegar até mim. Eu deveria ter...

— Verchiel apenas fez uma situação já complicada um pouco


mais, complicada. — Lorelei interrompeu. — Não importa o quão podre
você pensa que é. É melhor Vilma ter você em sua vida que não. Todos
nós.

Ele afastou seus olhos de Vilma e olhou para a Nephilim de


cabelo branco neve a quem ele havia aprendido a confiar como uma
amiga e confidente. — Você realmente acha isso? — ele perguntou, o
peso de suas responsabilidades sentindo talvez um pouco menor, mais
manejável.

Ela riu baixinho e sorriu para ele. — Sou filha de Lehash, pelo
amor de Deus. Eu não diria se não fosse verdade.

Ele se apegou ao que valia a pena, e naquele momento seu valor


estava muito alto. — Obrigado, — Aaron disse, virando-se para Vilma
para um último olhar. — Cuide bem dela até eu voltar, tudo bem? —
ele perguntou a Lorelei enquanto começava a subir as escadas.

— Você apenas se preocupe em encontrar o Malakim e conseguir


o que precisamos. — Lorelei respondeu. — Neste momento, Vilma deve
ser a menor de suas preocupações.

E ela estava certa, Aaron sabia enquanto descia o corredor e saia


pela porta da frente. Eles estavam esperando por ele na calçada da
frente, Gabriel abanando o rabo enquanto o garoto fechava a porta
atrás dele e saía da varanda.

— Pronto? — Aaron perguntou, uma nervosa sensação se


formando na boca de seu estômago.

— Eu estava pronto há quinze minutos. — Lehash resmungou,


terminando seu último cigarro. — Agora estou apenas mamando um
pouco na ameixa.
— O que é mamando um pouco? — Gabriel perguntou ao anjo.

— Formigas nas minhas calças — ele respondeu, sacudindo os


restos fumegantes de seu cigarro na rua.

— Você realmente não tem formigas nas calças, não tem? — o cão
perguntou, confuso pela nova expressão. — Se você tem isso, deve tirá-
las antes que te mordam.

— Obrigado pelo conselho — Lehash rosnou, não tendo


paciência para explicar ao animal nada mais.

Aaron decidiu que era hora e invocou seu poder que era direito
de nascimento. Flexionando seus músculos das costas, ele aliviou suas
asas abaixo de sua carne e abriu por completo sua impressionante
extensão.

— Abraço grupal. — ele disse, surpreso por sua própria tentativa


de leveza. — Vamos fazer isso.

O anjo pistoleiro e o cão se reuniram perto. E ele os tomou


dentro de suas asas de ébano, partindo de Aerie em uma missão mais
terrível, o destino da mulher que ele amava na balança.
— Dia difícil no escritório? — Taylor perguntou.

Lúcifer encontrou-se de volta dentro de sua psique. Era bom


estar longe da dor física, mesmo começando a sentir uma
desconfortável sensação no peito. Ele se perguntava quanto tempo
seria antes da dor encontrá-lo, mesmo nesta profunda paisagem
psíquica de sua própria invenção.

Eles estavam sentados em uma pequena mesa na cozinha,


muito parecida com aquela que tinham compartilhado uma agradável
refeição. E como no passado, esta Taylor, esta criação da mente febril
de Lúcifer, tinha feito um agradável jantar à luz de velas.

O primeiro dos caídos estremeceu enquanto as luzes das velas


gêmeas iluminavam uma larga porta flutuando na escuridão ao redor
deles. Ele estudou a grossa monstruosidade de aço criado por sua
psique para manter a calma dos horrores que ele tinha feito no Céu.
Isso tinha perdido mais de seus cadeados e correntes? Ele se
preocupou.

Ele tinha certeza que tinha.

— O quê? Você não vai responder minha pergunta? — Taylor


perguntou enquanto ela pegava seu guardanapo e o colocava em seu
colo.

— Acho que Verchiel está tendo sucesso. — Lúcifer disse


olhando para a porta. Ele podia ter jurado que ouviu movimento do
outro lado da porta. — Ele encontrou uma maneira de desfazer a
Palavra de Deus.

Taylor cortava sua refeição enquanto falava: bife com cogumelos


e molho grosso e marrom. Ele adorava cogumelos. — Não podemos
permitir que ele faça isso. — Ela delicadamente colocou um grande
pedaço de carne em sua bonita boca, e ele a observou mastigar
enquanto considerava sua resposta. Ela era magra – saborosa,
realmente - mas a menina podia comer, e aproveitava fazendo isso sem
o menor sinal de preocupação, ele se lembrou com carinho.

— Não, não podemos. Mas não sei por quanto tempo seremos
capazes de aguentar. — Ele sabia que a refeição era apenas uma
invenção de seus pensamentos, mas parecia fabuloso, e ele cavou com
fome. — É apenas uma questão de tempo antes que ele tenha tudo o
que precisa para libertá-lo. — ele disse, ouvindo outro cadeado cair.

Dois copos de vinho apareceram na mesa, e Lúcifer assistiu


Taylor pegar o dela em uma delicada mão e tomar um pequeno gole. —
Não que isso não seja o suficiente. — ela disse, pousando o copo. —
Mas tem alguma coisa mais incomodando você?
Algo do outro lado da porta bateu três vezes, e outra fechadura
estalou aberta para balançar inutilmente da extremidade de uma
ligação de corrente. — Ele me disse que gerei uma criança. Eu tenho
um filho.

Taylor não respondeu; ela simplesmente cortou outro pedaço de


carne. Como poderia qualquer coisa que ele dissesse a ela ser uma
surpresa? Afinal, ela era uma criação de sua imaginação.

— Como eu não sabia disso? — ele perguntou, empurrando seu


prato, seu apetite de repente indo embora.

— Lembre-se, houve um tempo quando você não queria mais ser


a Morningstar, quando você tentou abandonar sua verdadeira
natureza. — Taylor respondeu enquanto pegava seu guardanapo em
seu colo e enxugava o canto de sua boca. Ela tinha limpado o prato.

— Foi quando eu estava com você. — Lúcifer disse. A porta de


repente tremeu, e ele sentiu as vibrações do assalto como algo
arremessado contra seu peso.

Taylor sorriu para ele e assentiu. — E você quase esqueceu. —


ela disse, cruzando suas longas pernas e deixando sua simples
sandália que ela usava balançar de seu pé. — Éramos felizes – pelo
menos, pensei que éramos.

Lúcifer sentiu uma dor florescendo em seu peito e quase


confundiu com a Palavra de Deus sendo desfeita, até que ele percebeu
que era a agonia de seu coração partindo mais uma vez com a
memória de deixá-la. — Comecei a ter sonhos – sobre o que eu tinha
feito, as vidas que foram perdidas por minha causa – e temia por sua
segurança.
Ele se levantou e se moveu ao redor da mesa em direção a ela.
Ela se ergueu para encontrá-lo e eles gentilmente se abraçaram. —
Nunca foi minha intenção machucá-la. — Lúcifer disse, segurando-a
com força. — Mas eu estava louco ao pensar que poderia experimentar
a felicidade depois do que eu tinha feito. — ele sussurrou. — Minha
penitência não foi terminada, então tive que partir, para sua segurança
tanto quanto a minha.

A porta balançou sobre suas dobradiças e mais fechaduras


caíram enquanto Taylor olhava em seus olhos. — Você o tem visto, não
tem? Nosso filho?

Lúcifer se lembrou da visão que tinha tido logo após ser


capturado por Verchiel e tornou-se consciente da profecia do Nephilim.
Era a imagem de um homem jovem, um cão enorme fielmente ao seu
lado. — Sim. — ele respondeu sonhadoramente. — Acho que tenho.

— Seu nome é Aaron — Taylor disse, inclinando sua cabeça


sobre o peito. — Isso significa glorificado – nas alturas.

Lúcifer sorriu e a beijou gentilmente no topo de sua cabeça.

E a porta vibrou ameaçadoramente como se o castigo de Deus se


enfurecesse do outro lado.

Aaron sempre acreditou que compartilhava um vínculo especial


e quase psíquico com Gabriel, e que tinha apenas sido intensificado
após o poder emergente do Nephilim salvar a vida do cão. O menino
estava testando essa teoria enquanto eles viajavam através do vazio
entre o local de partida do anjo e seu destino final. Os dois já haviam
compartilhado sonhos, assim Aaron avaliou que compartilhar
pensamentos no mundo acordado não era de tudo improvável.

Enquanto saíam de Aerie, ele tinha pedido ao cão para pensar


sobre o que ele tinha visto enquanto farejava o pergaminho e
direcionar aqueles pensamentos para ele. Era uma experiência
avassaladora. A mente de Aaron foi bombardeada com pensamentos de
Gabriel. No início eram simples, lidando com necessidades básicas
como comida, abrigo, calor, e companheirismo. Mas então se tornaram
mais complexos: lembranças de lugares, eventos, momentos
importantes na vida do Labrador. Aaron nunca imaginou como um
jogo de ir buscar no parque significava para o cão, ou tendo seu
estômago esfregado, ou pedaço de bife na mochila do cãozinho de um
restaurante chique.

E Aaron se viu através dos olhos do cão, e através daqueles


amáveis olhos, ele não podia fazer nada errado. Se ele pudesse ser
metade do que o cão acreditava dele, então ele seria verdadeiramente
digno de tal adoração.

Ele finalmente foi capaz de se focar o suficiente dentro do


labirinto de pensamentos de Gabriel para encontrar o que precisava.
Aqui era onde o cheiro do pergaminho os tinha trazido. Era um lugar
diferente de qualquer outro na Terra. Na verdade, não era na Terra
afinal, e ele pode ver o porquê o cão tinha estado tão assustado. Aaron
pegou a imagem e enxergou da sua própria maneira, e sentiu uma
pontada de tontura, como em uma descida de uma grande altura de
elevador, antes de suas asas se abrirem para revelar sua localização.

— Você procurava por isso. — Lehash disse em reverência.


— Estamos no Céu? — Aaron perguntou. Ele olhou com
admiração sobre as planícies de grama dourada, para os céus de um
azul riquíssimo. Os ventos gentis cheios com suaves melodias
passeando, estavam os mais bonitos sons que ele jamais tinha ouvido.

— Não. — Lehash disse, inclinando sua cabeça para trás e


farejando o ar. — Talvez um pedacinho dele, mas não o Céu em sua
totalidade.

— A pessoa que escreveu o pergaminho está sobre aquela colina.


— Gabriel disse ao lado de Aaron, seu focinho apontado para a brisa.

— Onde você acha que estamos, Lehash? — Aaron perguntou


enquanto viravam e seguiam o Labrador para uma pequena colina.

— Parece-me que alguém construiu um pequeno refúgio


diretamente entre o aqui e o lá. — O anjo caído tirou seu chapéu de
vaqueiro, penteando seus longos cabelos brancos para trás com seus
dedos, e devolveu o chapéu para sua cabeça. — Estou surpreso que o
cão foi capaz de encontrá-lo.

— Sou muito especial. — Gabriel o lembrou.

— Claro que é. — Lehash concordou, sorrindo.

— Eu não esperava nada como isso. — Aaron disse de repente.


Eles tinham alcançado o topo da colina e ele estava apontando para
baixo em direção a uma pequena casa de campo com telhas marrons
escuras, com telhado de alcatrão, e uma base de rocha. Nuvens de
uma grossa fumaça cinza subiam de uma chaminé de pedra, e ele
tinha a impressão de que estava, provavelmente, bastante
aconchegante no interior.
— Depois de tudo que vi ultimamente.. — Lehash disse
conduzindo-os para descer a colina, — Você ainda pode ser
surpreendido?

Eles pararam em frente a uma pesada porta de madeira.

— Ele está lá dentro. — Gabriel garantiu, seu aguçado nariz


contraindo enquanto farejava o ar.

— Eu deveria bater? — Aaron perguntou ao anjo caído a seu


lado.

Lehash encolheu os ombros. — Não pode machucar ser


educado, eu acho — ele respondeu e Aaron bateu seus dedos na porta.

Eles esperaram, e quando nenhuma resposta veio, o pistoleiro se


inclinou para frente e acrescentou seus dois centavos. Ainda ninguém
respondeu.

— Não temos tempo para isso, — Aaron disse impaciente. Ele


estendeu a mão, agarrou a maçaneta e abriu a porta. Estava muito
escuro lá dentro. — Olá? — ele perguntou, sua voz ecoando
estranhamente, e rapidamente percebeu o porquê. A sala que eles
entraram era enorme, e ele se lembrou da biblioteca de Scholar,
embora o tamanho e a opulência desta sala colocava a residência do
anjo caído em vergonha.

— Filho da puta — Lehash disse, olhando para a curva, o teto de


trinta metros, e em seguida o piso de mármore sob seus pés. — Mas
então, o que eu esperaria de um Malakim?
Gabriel farejou ao redor da entrada, suas garras soando como
sapatos de sapateado sobre o chão de pedra lisa, enquanto Aaron
admirava os grandes pilares de pedras que ladeavam os dois lados.

— O quão alto são esses Malakim? — ele perguntou, tomando


nota das enormes portas duplas no fim do corredor a sua frente. As
aldravas, enormes cabeças de leões segurando os grossos anéis de
metal, eram pelo menos trinta metros do chão.

— Eles são extensões de Deus, chorando em voz alta, — o


pistoleiro rosnou. — Eles podem ser tão altos quanto queiram.

E como se na deixa, as portas duplas foram escancaradas com


um estrondoso clamor que causou ao grande salão um tremor, e uma
criatura do tipo que Aaron nunca tinha visto ou imaginado veio
movendo-se rapidamente no corredor em direção a eles. Isso era pelo
menos uns quinze metros de altura e usava uma armadura que
brilhava e borbulhava como se forjada a partir de metal fundido. Sua
cabeça era de um gigante carneiro, e tinha asas da cor do pôr do sol no
deserto. Em suas mãos igualmente prodigiosas, ele segurava um
temível machado de guerra que Aaron achava que era pelo menos três
vezes maior que ele. Eles mal saltaram para longe no tempo em que o
machado desceu em um arco borrado para crivar no chão de mármore.
Embora tenha errado, os tremores do impacto sacudiu o chão abaixo
deles como se eles estivesses no controle de um grande terremoto e se
esforçavam para se manter em pé.

— Não serei pego como meus irmãos foram. — o grande homem


fera rugiu enquanto puxava sua arma do mármore quebrado e se
preparava para atacar novamente. — O conhecimento que você deseja
furtar permanecerá comigo e só comigo.
— Pare! — Aaron pediu se movendo em direção ao Malakim,
mãos estendidas. — Nós apenas queremos...

Mas Lehash tinha convocado sua pistola de fogo angelical, e


enquanto a fera se virava para lidar com esta nova ameaça, uma de
suas poderosas asas atacou e golpeou Aaron longe. Ele viu uma
galáxia de estrelas enquanto pousava no chão de pedra, lutando para
permanecer consciente. Vendo seu mestre cair, Gabriel pulou no
temível gigante, afundando suas presas no metal fundido da armadura
da criatura, apenas para sair com um grito de dor enquanto sua boca
começava a sair fumaça e arder a fogo lento.

A arma de Lehash rugiu para a vida e balas de fogo celestiais


explodiram sobre a armadura da criatura louca de raiva, explosões
minúsculas através da superfície de sol, mas com pouco efeito. O
monstro abriu suas amplas asas e elevou-se sobre Lehash. O anjo
caído continuou a disparar suas armas enquanto a blindada fera
brandia seu machado, a parte plana da lâmina capturou o pistoleiro e
o enviou aceleradamente através do ar em um dos grandes pilares. O
policial permaneceu imóvel no chão de pedra fria, entre peças do pilar
quebrado enquanto a fera aterrissava agachada ao seu lado. Jogando o
poderoso machado de uma mão para outra, ele levantou a arma sobre
sua cabeça com um berro de raiva e se preparou para acabar com o
anjo inimigo.

Aaron se esforçou para seus pés, sentindo a transformação de


seu corpo para um mais adequado à batalha. Ele não queria que fosse
dessa forma. Tudo o que ele queria era pedir ajuda, mas eles estavam
lá agora, e o combate era a única resposta. Ele se impulsionou para
frente, pousando entre Lehash e o machado. Ele ouviu o grande
assobiar da lâmina enquanto cortava através do ar, sua própria espada
de fogo celestial inflamando em sua mão para encontrá-la. Os símbolos
queimando sobre sua carne e ele sentiu que suas asas explodiram em
suas costas enquanto as duas impressionantes lâminas se conectaram
com um repique clamoroso, a força explosiva das duas armas se
encontrando os arremessando separados. Os ouvidos de Aaron
tocaram. Rapidamente ele se levantou, pronto para encontrar a
próxima agressão do monstro blindado.

Mas a fera simplesmente ficou em pé, o grande machado de


guerra descansando ao seu lado. Ele estava o encarando, seu frio olhar
animal intensamente o examinando. — É você. — ele disse, um
estranho sorriso brevemente surgindo sobre suas características
selvagens.

— Não queremos lhe causar nenhum dano. — Aaron disse


cuidadosamente, e o observou enquanto a massa do gigante diante
dele começou a mudar, diminuir, o machado de guerra desapareceu
em um brilho suave. Não havia mais um guerreiro temível diante dele;
ele tinha sido substituído por uma figura alta e marcante com o cabelo
branco prateado e uma pele cor de cobre.

— Estou bem ciente disso... Agora. — disse o ser angelical. —


Sou Raphael de Malakim, e peço seu perdão. — Sua voz era como o
vento lá fora: melódica, estranhamente reconfortante. — Pensei que
você era um servo do renegado Verchiel, mas é claro que não é. Não há
como confundir os símbolos sobre seu corpo, filho da Morningstar.

Aaron permitiu que sua arma dissipasse. — Você sabe sobre a


coisa de Lúcifer também? — ele perguntou enquanto se aproximava
para verificar Gabriel. A boca do cão estava levemente com bolhas,
mas ele parecia estar bem.

— O Malakim sabe sobre sua vinda por um longo tempo, — a


criatura angelical disse simplesmente, virando-se para caminhar de
volta para a porta elevada. — De fato, fomos responsáveis – meus
irmãos e eu – por fornecer o vidente com a visão que descrevia a
profecia de que você é uma parte muito importante.

Aaron observou a figura desaparecer dentro da sala enquanto ele


se apressava para o lado de Lehash. O anjo caído estava sentado no
meio dos escombros do pilar danificado, esfregando a nuca e
estremecendo em desconforto.

— Você o ouviu? — Aaron perguntou excitadamente enquanto


ajudava o pistoleiro para seus pés.

— Sempre fiquei curioso para saber quem tinha a bola rolando,


— Lehash disse, batendo a poeira de suas roupas com seu chapéu. —
Faz sentido que eram eles.

Raphael apareceu novamente na porta. — Se apressem. — ele


disse, gesticulando com a delicada mão para eles se juntarem a ele. —
Não temos muito tempo, e há muito para discutir. — Ele desapareceu
novamente na sala para além das enormes portas.

Os três entraram cautelosamente na sala para além do enorme


corredor. Aaron não podia acreditar em seus olhos – outro exemplo
bizarro da mágica angelical. Da real grandeza do corredor, para isso:
era como se eles tivessem vagando em um salão a moda antiga. O
Malakim estava sentado no canto mais distante em uma pequena
mesa de madeira, vasculhando uma das gavetas. — Por favor, fiquem à
vontade. — ele disse, ativamente procurando por algo.

— Impressionante lugar você tem aqui. — Lehash disse, olhando


a sala. A decoração era quente e rica: muita madeira escura, e longas
cortinas de veludo que cobriam dois conjuntos de janelas, o material
grosso e vermelho descia até o piso de madeira polida.

Gabriel pulou sobre um sofá, estofado em um material carmesim


e emoldurado em madeira escura e brilhante.

— Gabriel, desce. — Aaron ordenou automaticamente.

— Mas ele disse para ficar à vontade. — o cão protestou


enquanto lentamente esgueirava-se do seu lugar sobre a mobília.

— Está tudo bem. — o Malakim disse, fechando a gaveta e


subindo para se aproximar deles. — Isso é o que o nosso refúgio
sempre tem sido, — ele disse, erguendo seus braços e gesticulando
sobre a sala. — Um lugar para eu e meus irmãos ficarmos longe de
deveres, para relaxar e refletir sobre o que vimos.

Gabriel deitou-se sobre um tapete bordado e com um pesado


suspiro colocou seu focinho entre suas patas e fechou os olhos. Não
importa onde eles estavam ou o que eles estavam fazendo, o animal
sempre poderia encontrar tempo para roubar um pequeno cochilo.

— Por favor, sente-se, relaxe. Use esse local como é suposto ser
usado.

Lehash educadamente tirou o chapéu, e ele e Aaron sentaram-se


no sofá desocupado por Gabriel. O Malakim escolheu uma cadeira de
couro em frente a eles.
Aaron se inclinou para frente hesitantemente. — Você disse algo
sobre seus irmãos e Verchiel?

O Malakim assentiu e pousou sua cabeça contra o encosto da


cadeira. — Ele matou ambos, levando-lhes o conhecimento que não é
para um anjo de sua casta.

Lehash pareceu atordoado. — Verchiel matou dois de você? —


ele perguntou incrédulo. — Ele realmente matou dois Malakim? Como
isso é possível?

A criatura de pele bronzeada fechou os olhos, seu rosto torcido


em dor enquanto ele recontava a história.

— Eles nos pegaram de surpresa, usando mágicas poderosas


que nós mesmos ensinamos aos magos em serviço.

Por um momento a sala ficou desconfortavelmente em silêncio. A


respiração pesada de Gabriel era o único som.

Raphael continuou, sorrindo tristemente enquanto abria os


olhos. — Com nossa capacidade de ver o futuro, nós deveríamos ter
sido capaz de nos preparar para isso. Mas então, talvez porque fosse
inevitável, inconscientemente optamos por não vê-lo.

Aaron se contorceu em seu assento, imagens de Vilma em lances


de dolorosa transformação, enchendo sua cabeça. Ele estava
despedaçado pela razão que ele tinha vindo para essa missão e pelo
que Verchiel estava fazendo. Apesar de sua lealdade estar para Vilma,
ele achou extremamente desconcertante saber que tanto ele quanto o
comandante dos Poderes pareciam estar procurando a mesma coisa.
— O que ele quer? — Aaron perguntou curiosamente. — O que
ele está tentando tirar de você?

O Malakim se mexeu em sua cadeira e cruzou suas longas


pernas. — No começo eu não tinha ideia, mas agora faz perfeito
sentido. — Ele alcançou dentro das dobras de seu manto e tirou um
frasco de vidro, suas extremidades seladas com metal dourado
ornamentado. Aaron pode ver que havia líquido dentro enquanto o
Malakim passava para ele. — Antes de nosso tempo acabar,
entretanto, este é para sua companheira. — ele disse enquanto Aaron
pegava a oferta.

Aaron piscou várias vezes, sem saber se ele tinha ouvido o anjo
corretamente. — Companheira? — ele perguntou.

Raphael assentiu enquanto sentava-se de volta em seu assento.


— Sim, sua companheira. E que eu possa ser o primeiro a dizer que
seus filhos serão absolutamente magníficos.

Cinquenta mil volts de eletricidade poderiam ter passado pela


cadeira de Aaron e teriam praticamente o mesmo efeito sobre ele.

— Meus filhos? — ele uivou, chocado com as palavras do


Malakim.

Gabriel sentou-se de repente, despertado pela exclamação de


seu mestre. — O que está acontecendo? — o cão perguntou em um
latido resmungado, olhando ao redor da sala. — O que está
acontecendo?
— Acho que seu mestre apenas obteve um pedacinho de seu
futuro. — Lehash disse, diversão em sua voz rouca. Ele se abaixou e
deu um tapinha na cabeça do cão. — Isso é tudo.

— Não. — Gabriel disse enfaticamente. — Você não ouviu isso?


— ele perguntou, seu nariz se contorcendo, o pelo de seu pescoço
levantando. O cão levantou, seu corpo tremendo em antecipação.

O Malakim suspirou, levantando-se de sua cadeira. — Tudo


parece tão breve — ele disse tristemente, escovando as rugas de frente
de seu manto, — quando finalmente confrontado com seu inevitável
fim.

Aaron estava prestes a pedir uma explicação quando ouviu


também. Ele conhecia o som; era o barulho feito quando um anjo
viajava de um lado para outro, implosões de som como o tecido da
realidade sendo rasgado por um breve instante e permitir fechar. Só
que desta vez ele ouviu várias vezes, e entendeu exatamente o que
significava.

— Estamos sob ataque. — ele deixou escapar enquanto formas


aladas explodiam dentro da sala debaixo das cortinas em uma chuva
de vidro e fogo.

— Não brinca. — Lehash rosnou. Suas pistolas brilharam para a


vida em suas mãos e começou a disparar.

Os símbolos tinham subido sobre a carne de Aaron e uma ideia


para uma arma tinha entrado em seus pensamentos, quando ele
sentiu um forte agarre sobre seu braço. Ele virou para enfrentar
Raphael, que estava balançando a cabeça.
— Você precisa sair daqui agora. — ele disse sobre o barulho das
armas de Lehash e latidos frenéticos de Gabriel.

Aaron começou a protestar, mas o olhar no rosto do feiticeiro


angelical o deixou sem palavras. — Não há nada que você possa fazer
por mim agora. Retorne para Aerie, ajude sua companheira, e encontre
seu próprio destino. — o Malakim ordenou.

Aaron jogou um olhar para seus amigos. Os soldados dos


Poderes tinham momentaneamente parado suas cargas através da
janela, mas Gabriel e Lehash estavam prontos, apenas no caso. A
calma antes da tempestade.

— Pegue seus amigos e vá. — Raphael disse a ele.

E embora doesse Aaron deixar o ser celestial, ele sabia que


coisas muito maiores que ele estavam no trabalho aqui. — Vamos,
temos de ir. — ele chamou seus amigos enquanto as asas negras que
os levariam de volta a Aerie emergiam de suas costas.

O Malakim inclinou sua cabeça para Lehash e Gabriel enquanto


eles passavam por ele, seu corpo já mudando, suas suaves
características tornando-se mais animal, a armadura fundida
novamente aparecendo em sua expansiva forma.

Aaron estava prestes a levar seus companheiros em seu abraço,


quando a parede da sala explodiu e mais soldados dos Poderes
surgiram dentro. Raphael encontrou o ataque com fúria desenfreada,
soldados dos Poderes morrendo sob o cortar de seu machado
monstruoso.
E então Aaron o viu, o ponto central da raiva do Nephilim, partes
de seu corpo não cobertas pela armadura envoltas em ataduras
manchadas de sangue. Verchiel entrou na sala atrás de suas tropas,
lanças de fogo agarradas as suas mãos, asas esfarrapadas batendo no
ar enquanto ele procurava por sua presa escolhida. Aaron sabia que
deveria ter partido então, mas ele hesitou, mantido no lugar por seu
ódio pelo líder dos Poderes.

O Malakim se virou, como se sentindo que eles ainda não


tinham ido. — Vão. — ele gritou em uma voz como um gato selvagem.
— Não é hora para o confronto final. Vão.

E enquanto Aaron fechava suas asas, ele testemunhou a mais


horrível das visões: uma multidão de Poderes sobre Raphael, cortando
o Malakim em um turbilhão sem sentido de selvageria. Verchiel
avançou passando à violência, fixada sobre o Nephilim.

— Saiam. — Aaron ouviu a última mágica gritar debaixo do


enxame angelical. Ele finalmente fez o que lhe foi dito, tomando seus
companheiros dentro do abraço de suas asas.

— Não desta vez. — Verchiel chiou, deixando voar a lança de


fogo com toda a sua raiva e fúria por trás dele.

Aaron desejou voltar para Aerie.

Mas a lança do anjo foi mais rápida.


Kraus acordou enrolado debaixo de um cobertor esfarrapado no
chão, um grito de terror em seus lábios.

Por um momento ele pensou que a escuridão o tinha reclamado


novamente, que talvez Verchiel tinha tirado de volta seu dom
maravilhoso, mas então ele percebeu que era apenas a noite ao seu
redor. Estantes vazias e mesas de metais empilhadas surgiram da
escuridão enquanto sua nova visão se ajustava ao preto escuro da
noite.

Ele tinha estado sonhando, vividamente recordando um tempo


antes de servir ao seu Senhor e Mestre, Verchiel. Um tempo de aflição
e sofrimento.

Jogando para trás seu cobertor, ele ficou de pé na escuridão da


sala. Algo estava errado; ele podia sentir. Havia um zumbido
antinatural, uma vibração pulsando como a batida de um coração de
um monstro pré-histórico no ar ao seu redor. O som estava em todo
lugar – parecia estar em todo lugar – e ele sentiu o desespero disso
serpentear dentro dele, trazendo a tona lembranças de tempos mais
escuros antes de ele jurar sua fidelidade ao guerreiro Deus e sua santa
missão.

Kraus saiu da sala, procurando escapar das lembranças de seus


primeiros dias de tormento, para distrair-se em outros lugares, mas a
batida alienígena estava com ele, não importa aonde ele ia,
estimulando lembranças de um passado há muito tempo reprimido.

Antes de servir os Poderes, tudo o que ele havia conhecido era


escuridão e dor, a piedade e o desprezo da visão. Ele havia sido criado
em um lugar muito parecido a este, muito parecido com a Igreja Santo
Atanásio e o Orfanato tinha sido antes das portas estarem fechadas.

A Escola Perry para os Cegos. Era a única casa que ele tinha
conhecido.

Kraus se moveu para os corredores escuros, sentindo as


intensificadas ondas de desconforto. Ele não podia manter o passado
na baía; as memórias escaparam, explodindo em camadas de tempo,
tão vividas como se tivessem ocorridas apenas momentos antes.

Havia outros como ele na Escola Perry, que nasceram sem visão,
desistindo daqueles que cuidavam dos menos favorecidos. E importou
o que eles fizeram. Oh sim, ele se lembrava de seus cuidados, de fato.

Kraus se aproximou de uma porta aberta e uma escada que


descia profundamente para uma escuridão. A sensação era mais forte
aqui, e ele desceu, atraído em direção a fonte de desespero, tudo o que
ele lembrava.

O pessoal da escola para cegos os tratavam como formas de vidas


inferiores, abaixo até mesmo do cão feroz do Dr. Albert Dentworth, o
administrador chefe. Kraus reviveu o terror que o apertava cada vez
que ouvia o barulho da corrente do animal e suas unhas clicando e
batendo sobre os pisos de madeira enquanto se aproximava. Ele não
era nada além de cargas para o mundo e para o pessoal cujo trabalho
era cuidar deles, e foram muitas vezes ditos como quantidade. Para a
maioria de sua existência ele viveu no inferno, e toda noite orou para
ser trazido para o céu.

A escada o levou para o ginásio e para o covil dos Arcontes.


Naquele momento, eles foram embora, com Verchiel em sua mais
recente incursão. Um círculo místico e complexo tinha sido desenhado
no chão com o que parecia ser terra, e acima dele, de correntes
grossas, o prisioneiro pendurava. Um corte profundo e vertical tinha
sido cortado do peito do prisioneiro até seu estômago, a ferida mantida
aberta com pinças de metal, e Kraus se perguntou como era possível o
prisioneiro ainda estar vivo.

Quando criança, cada momento acordado, e antes de dormir à


noite – exausto de tarefas que deixavam seus dedos duros e sangrando
– Kraus tinha rezado a Deus para levá-lo embora. Ele não se achava
mais merecedor do que qualquer outro que vivia sob o teto da Escola
Perry, isso era apenas o que ele tinha ansiado e queria que parasse.
Ele não podia viver assim por muito mais tempo, e cada noite
implorava ao Criador misericordioso para acabar com sua vida.

O primeiro dos caídos gemeu lastimosamente, e uma estranha


nuvem vermelha soprou de seu peito aberto para ser aprisionada
dentro dos limites do círculo místico abaixo. Kraus se encontrou
repelido por uma esmagadora sensação de desolação que de repente
permeou a atmosfera. Ele tinha encontrado a fonte de seu mal estar, e
o que quer que fosse, ela tinha vindo de dentro do corpo do anjo caído,
Lúcifer.

Kraus ouviu o anjo que mais tarde viria a chamar de mestre,


como ele tinha muitos anos atrás – Verchiel, sussurrando em seu
ouvido, dizendo a ele que tinha sido enviado por Deus, e que por causa
de suas ferventes orações, ele tinha sido escolhido para ajudar os
soldados do Senhor na mais importante das missões.

Kraus lembrou-se da alegria incrível, a euforia pura de saber que


Deus ouvira suas súplicas, mas na época ele tinha sido preenchido
com uma grande tristeza. Ele sabia que somente ele conheceria essa
felicidade, e esses irmãos e irmãs na escuridão com quem tinha
partilhado o inferno da Escola Perry continuaria a conhecer somente o
sofrimento. Como ele poderia fazer o trabalho de Deus, sabendo que
outros como ele ainda sofriam?

E o anjo Verchiel tinha oferecido a ele uma solução. — Você pode


acabar com o sofrimento deles, ele tinha dito. — Tudo o que você
precisa fazer é me obedecer, pois este será meu pagamento a você, pela
fidelidade que você irá jurar. Tudo o que você precisa fazer é pedir.

Então Kraus tinha implorado ao mensageiro do Céu para liberar


os outros da Escola Perry de suas vidas de tristeza e sofrimento.

E Verchiel tinha penhorado.

A memória daquela noite deixou Kraus de joelhos. Ele estava


tremendo, inundado em carne viva, não constrangido de emoções
daquele momento há muito tempo. O que quer que estava vazando do
corpo de Lúcifer, era muito eficiente em trazer à tona os ecos do
passado.
Kraus recordou a noite em que ele renasceu como um servo dos
Poderes, retirado do relativo calor da escola para as alturas de um céu
de noite fria, o som das asas batendo de Verchiel, quase ensurdecedor.
E ele ouviu os gritos de outras criaturas celestes ao seu redor
enquanto era levado mais e mais alto.

— Eles não conhecem mais o sofrimento. — o anjo que seria seu


mestre rugiu, e o céu ao redor retumbou como se estivesse em acordo.
O relâmpago que seguiu de alguma forma permeou a escuridão que foi
sua existência. Ele se lembrou da luz branca abrasadora e o barulho
do trovão que abalou o ar.

Kraus engoliu em seco, seu corpo deslizando na parede de


concreto frio do ginásio. As memórias eram impiedosas, seus sentidos
crus.

De alguma forma ele podia sentir o relâmpago golpeando sobre a


escola, o cheiro disso como se o queimado enchesse suas narinas, os
gritos dos que estavam presos enchendo seus ouvidos.

Ele sempre disse a si mesmo que isso era para o melhor. Os


alunos da Escola Perry tinham sido libertados de uma existência
patética; ele realmente acreditava nisso. Mas ultimamente ele tinha
começado a ver as coisas mais claramente, e foi preenchido com
horror. Desde o dom de Verchiel para ele, suas percepções foram
mudando lentamente, revelando a feia realidade de tudo isso.

O ar ao redor dele brilhava e estremecia, e Kraus sabia que seu


mestre tinha retornado, mas ele não sentiu a alegria como teria no
passado, apenas apreensão.
Os anjos apareceram diante dele. Haviam menos soldados dos
Poderes, e aqueles que permaneceram eram meras sombras de si
mesmos, uma vez gloriosos. Eles pareciam mal-assombrados, a
armadura que usavam penduradas livremente sobre suas estruturas
reduzidas.

E então havia Verchiel, a visão dele preenchendo o curandeiro


com uma estranha mistura de tristeza e medo. Sua placa no peito uma
vez de ouro, estava manchada quase de preto com sangue de sua
presa, e as feridas recém abertas continuavam a chorar, saturando as
bandagens que o curandeiro tinha usado para cobri-las.

Verchiel caiu de joelhos diante do círculo místico. — A hora está


próxima. — ele disse, e o restante dos Arcontes se apressou sobre seus
preparativos.

Mas para quê? Kraus se perguntou, um enorme sentimento de


medo descendo até as profundezas de sua alma. Ele queria perguntar
ao anjo que era seu mestre e senhor, mas teria qual seria a resposta.

Aaron pensou que o tinha perdido.

Ele hesitou apenas alguns momentos enquanto lutava com a


ideia de que ele poderia finalmente colocar sua loucura para descansar
uma vez por todas. Mas o olhar no rosto do Malakim – a intensidade
em seu olhar escuro e comovente – tinha dito que ele deveria partir,
que talvez um ser que viveu milhões de anos pode ter uma ideia
melhor do quadro geral do que ele.

Ele honestamente acreditava que a lança de fogo de Verchiel


tinha passado inofensivamente através do ar onde ele e seus amigos
tinham estado momentos antes, confiando que suas novas habilidades
eram muito superiores à arma de fogo do comandante dos Poderes.
Aaron se lembrou de fechar suas asas, abraçando Lehash e Gabriel
firmemente contra ele e pensando em Aerie, vendo-o claro como dia em
sua cabeça. Eles tinham conseguido escapar livres.

Ou assim ele pensava.

Com uma precisão mortal, a lança vinda do fogo do Céu tinha


finalmente encontrado seu alvo.

Ele tinha conseguido voltar para Aerie, desenrolando suas asas e


liberando seus amigos, antes de cair de joelhos. Aaron não conseguia
recuperar seu fôlego, seu corpo estranhamente entorpecido, mas ele
podia ouvir tudo o que eles estavam dizendo. Lorelei estava lá, exigindo
saber o que tinha acontecido enquanto ela se ajoelhava sobre ele na
rua. Lehash estava próximo, explicando o ataque sobre o covil do
Malakim.

Aaron adivinhou que Lorelei estava usando algum tipo de mágica


sobre ele, pois ele podia sentir suas mãos sobre seu peito sondando
onde ele imaginava que a lança havia pregado nele. Realmente não
doía muito; na verdade ele não sentia muita dor em tudo. Talvez eu
esteja apenas cansado de toda a correria, ele pensou.
Gabriel estava com ele, nervosamente ofegante em seu ouvido.
Aaron queria dizer a seu amigo que tudo ficaria bem, que ele estava
bem, mas por alguma razão ele não podia falar.

Todos ao seu redor pareciam estar em pânico.

Talvez eu devesse estar preocupado, ele pensou, mas então


recusou como um tolo. Ele estava bem, eles teriam que tê-lo
consertado em algum momento.

Eles estavam o carregando agora, levando-o para a casa de


Lorelei. Isso era bom, ele pensou com um cansaço pesado fechado ao
redor dele. Tudo que ele precisava era somente um pouco de descanso
e então ficaria bem.

Tudo o que precisava era de descanso.

— Ele parece morto. — Gabriel disse de uma vez, sentado ao lado


da cama de seu mestre. Ele tinha estado ao lado de Aaron desde que
voltaram da missão, examinando cada espasmo, cada movimento – o
qual havia muito pouco. Isso preocupava o cão, para Aaron era um
sono muito agitado, e vê-lo deitado assim era muito perturbador.

— Mas ele não está. — Lorelei disse, se abaixando para coçar


atrás da orelha do cão.

Gabriel moveu sua cabeça longe, muito distraído para a afeição


dos outros. — Eu sei que ele não está morto. — ele respondeu, seus
olhos nunca deixando os de Aaron. — Acredite-me, eu sei. Sou um cão,
posso cheirá-lo. Morte tem um cheiro muito forte.

Ambos ficaram em silêncio. Lorelei se inclinou para verificar a


bandagem de Aaron enquanto Gabriel observava de perto. Havia muito
pouco sangue, o calor intenso da ponta da lança cauterizou a ferida
quase instantaneamente. Ela havia colocado algo sobre a lesão, algo
que cheirava muito estranho, muito amargo. Ela havia dito a ele que
era um velho remédio da raiz de uma Árvore do Conhecimento, de um
lugar chamado Éden. Gabriel não se importou com seu perfume – o
que o fez espirrar e seus olhos arder – mas se isso estava ajudando
Aaron, estava bem para ele.

Vilma, por outro lado, estava ficando muito melhor. O conteúdo


do frasco que Raphael tinha dado a Aaron parecia ser exatamente o
que a menina precisava. A essência angelical tinha tranquilizado quase
imediatamente, e parecia que ela ficaria bem.

Gabriel ficou repentinamente frustrado. Ele amava muito Vilma e


certamente não queria que nada de ruim acontecesse a ela. Mas se ela
ficasse bem e Aaron não, como ele se sentiria em relação a ela? O cão
empurrou os pensamentos de lado, retornando sua atenção para seu
mestre.

— Quando vamos saber se ele vai viver? — Gabriel perguntou a


Lorelei enquanto ela examinava a ferida de Aarom.

A Nephilim gentilmente substituiu a bandagem e se afastou. —


Ele está confortável. — ela disse com um ligeiro encolher de ombros. —
Estou mantendo a ferida limpa para evitar qualquer infecção.

— Mas quando vamos saber? — o cão latiu, seu comportamento


muito mais nervoso do que ele pretendia. Ele abaixou sua cabeça,
envergonhado, suas orelhas murchando contra seu crânio. — Sinto
muito, eu lati. — ele se desculpou. — Só estou preocupado.
— Está tudo bem. — Lorelei disse com compreensão, abaixando-
se para alisar sua cabeça novamente. Desta vez ele não se afastou. —
Fizemos tudo o que podíamos fazer.

— Então temos que esperar? — Gabriel se virou para ela enquanto


continuou a alisar o pelo curto e aveludado em cima de sua cabeça.

Lorelei assentiu. — Temo que sim.

Ele voltou observar Aaron, o aumento muito fraco da subida e


descida de seu peito, desejando com toda a sua força que ele ficasse
bem novamente.

— Estou indo pegar alguma coisa para comer. — Lorelei disse. —


Você gostaria de vir comigo?

— Não, obrigado. Acho que vou ficar aqui com ele. — Gabriel
lentamente baixou o rosto para apoiar o queixo na cama perto da mão
assustadoramente calma de Aaron. — Não estou com muita fome.

A porta que conteve o resultado da loucura infernal da


Morningstar tremeu violentamente em suas dobradiças psíquicas.

Ele queria sair.

A grande abóbada da porta gemeu enquanto começava


lentamente inchar para fora. Tudo o que restou era o próprio aço: as
fechaduras, parafusos e correntes, todos quebrados pela fúria do
turbilhão injuriando atrás dele.

Lúcifer estava sozinho agora. Taylor se foi. Ela o havia deixando


quando a dor em seu peito tornou-se muito grande, como se ela não
aguentasse ver o que ia acontecer.

Não, ele pensou, de joelhos diante do bloqueio psíquico. Não


posso deixá-lo sair.

Ele se concentrou na porta espancada e viu que havia novas


fechaduras, deslizantes parafusos, e grossas correntes negras – todos
fortes – ou mais fortes do que tinham sido antes.

O inferno não seria liberado este dia, o primeiro dos anjos caídos
disse a si mesmo, encontrando força para subir aos seus pés antes do
obstáculo que separava o mundo do holocausto. Toda a dor, miséria, e
sofrimento que ele foi responsável ficariam dentro dele, onde pertencia,
onde tinha sido colocado. Ele sempre achou estranhamente divertido
que a punição dada a ele por Deus tinha de alguma forma conseguido
se tornar uma coisa de lenda no mundo humano – um lugar real de
condenação eterna para quem pecou contra sua escolha de fé religiosa.
Gehenna, Sheoul, Ti Yu, Jahannam, Hades, inferno – tantos nomes
para o que era dele e só dele para suportar.

A força sobre o outro lado se intensificou, e ele foi arremessado


para trás pela selvageria do seu furor. Suas novas e mais fortes
restrições foram arrancadas, jogadas na escuridão, ineficazes contra o
implacável ataque violento feito contra a representação psíquica da
Palavra de Deus.
A Morningstar arrastou para seus pés, tentando novamente
fortalecer a barreira, mas a agonia afiada e cortante em seu peito o
levou aos joelhos. Ele olhou para baixo e viu a ferida. Um corte
sangrento de doze polegadas tinha aparecido lá, e ao vê-lo o encheu de
medo. Ele estava ficando mais fraco, sua força drenando da abertura
vertical entalhada em seu centro.

A porta estremeceu e vibrou dentro de sua moldura, e Lúcifer


assistiu em horror mudo enquanto o canto superior direito começou a
dobrar, o aço gemendo e gritando sua objeção.

— Por favor, Deus, não! — Lúcifer sibilou, atirando-se na porta,


pressionando seu corpo contra. A dor, culpa e tristeza do que seu
ciúme causou cresceu mais forte ao longo de milênios, e ele sempre
tinha encontrado a força para protegê-lo dentro de si, para isso era seu
fardo designado. Agora ele tentou com todas as suas forças que essas
barreiras mais fortes, para adicionar sua força mental à penitência
original de Deus, mas podia sentir as vibrações terríveis de uma força
impossível de ser parada através das muitas polegadas do que deve ter
sido um metal super forte.

Do canto espiralado ele primeiro viu, uma mecha de luminescente


vapor. Lúcifer conhecia essa coisa intimamente. Tinha sido uma parte
dele que pareceu uma eternidade, fundido à sua essência angelical
desde a queda de seu encanto. Ele conhecia sua raiva, tristeza, e sua
crueldade infinita, e se desesperou com o destino do mundo de Deus
se isso fosse permitido ser livre.

— Não deixe que isso aconteça. — ele orou, seu rosto pressionado
contra o metal tremendo, e ele estava feliz que Taylor, apesar de uma
criação de sua mente, já não estava lá para testemunhar seu fracasso
horrendo. — Por favor. — ele implorou enquanto a porta dobrava e o
metal torcia. E ele tinha praticamente desistido de toda esperança de
parar o cataclismo do Inferno de inundar o mundo.

Quando veio uma voz.

— Parece que você poderia usar uma mão aqui. — isso disse. E
Lúcifer se virou para olhar para o rosto da salvação.

Era um belo rosto – com seus olhos.

Verchiel ouviu atentamente as poderosas palavras arcanas


roubadas das mentes do Malakim, enquanto elas saiam dos lábios fiéis
do Arconte. É apenas uma questão de tempo. O comandante dos
Poderes pensou, divertido que ele era realmente mesmo ciente da
passagem do tempo. Ele tinha existido desde o início da criação e
nunca tinha realmente dado muito pensamento ao conceito, até agora.

Os três magos restantes de Arconte ficaram dentro do círculo


místico debaixo do prisioneiro suspenso de Verchiel, seu instrumento
de vingança. Tudo estava correndo suavemente, as peças de seu
mecanismo de vingança caindo perfeitamente no lugar, quase como se
estivesse destinado a ser. Como se Ele soubesse que Ele devesse ser
punido por aquilo que Ele permitiu acontecer.

Os Arcontes zumbiam o conhecimento do Malakim ajudando a


desvendar o edital de Deus. Lúcifer gemia sob o domínio da
inconsciência enquanto as obstruções mágicas que seguravam sua
punição eram metodicamente desfeita. O primeiro dos anjos caídos
estava lutando contra eles, mas Verchiel teria esperado nada menos de
um que tinha sido o mais amado do Criador – e a maior decepção.

O líder dos Poderes se aproximou do ritual arcano, cuidando para


não abrir suas próprias feridas que tinham finalmente parado de
sangrar. — Renda-se Morningstar. — ele pediu ao anjo caído. — Aceite
a sua responsabilidade, não somente para o declínio do Céu, mas
agora para a ruína da humanidade também.

Ele caminhou ao redor do círculo místico, em torno de seu


adversário desprezado, aquele cuja corrupção tinha agido como um
câncer, corroendo a missão santa de Verchiel – em tudo o que definiu
seu propósito no abençoado esquema das coisas do Santíssimo. — A
dor que você deve ter experimentado nesses incontáveis séculos, meu
irmão. — Verchiel arrulhou. — Agora você tem a chance de ser livre
dela – para deixar sua punição ser compartilhada por todos os que
pecaram.

Lúcifer bateu em suas correntes, gotas de suor chovendo de seu


corpo maltratado para ser absorvido pelo solo do Céu que compreendia
o círculo mágico abaixo dele. Sua boca tremia enquanto ele se
esforçava para falar.

— O que é isso irmão? — Verchiel perguntou em um sussurro.


Ele se aproximou ansioso para ouvir a voz de seu prisioneiro em
agonia, talvez até mesmo por um apelo de misericórdia. — Fale para
mim. Compartilhe comigo suas aflições.
O anjo caído falou. Foram apenas duas palavras, e falou em voz
tão baixa que o líder dos Poderes não tinha certeza se ouviu
corretamente.

— O que foi isso novamente, Lúcifer, Morningstar? — Verchiel


perguntou, inclinando-se ainda mais perto do primeiro dos anjos
quebrados e lábios trêmulos.

— Obrigado.

Verchiel recuou como se tivesse sido atingido. Isso é algum tipo de


jogo perverso que o criminoso está jogando? Verchiel perguntou.
Alguma forma bizarra para mostrar sua força? Sua superioridade? É
tudo em vão se este é o caso.

— Você me agradece por isso, seu monstro? — ele vociferou,


sentindo suas próprias feridas começarem a chorar. — Para suportar o
tormento agora? — Sua voz tremeu com fúria.

Lúcifer estava lutando para manter a consciência, seus olhos


lentamente rolando para trás em sua cabeça enquanto suas pálpebras
começaram a cair.

— Diga-me! — Verchiel gritou, alcançando dentro dos limites do


círculo mágico para pegar o anjo caído por seu cabelo curto e
encaracolado e puxou sua cabeça em direção a ele.

Os olhos de Lúcifer arregalaram e um sorriso demente floresceu


em suas características atormentadas.

— Diga-me! — Verchiel gritou novamente.

— Se não fosse por isso... Por você... — A Morningstar sussurrou.


— Eu nunca teria conhecido meu filho.
O estômago do rato doía de fome. Não tinha procurado por comida
desde que seu amigo tinha sido trazido aqui para esta sala. Não
poderia, não enquanto o homem estava sendo atormentado assim.

Nas sombras o rato se encolheu, parou de se mover. Havia algo


no ar aqui, algo sobrenatural que fez seu pequeno coração palpitar
como uma mariposa tentando escapar da teia de aranha. Cada um dos
seus instintos primitivos gritava para correr, que aqui era morte certa.
Mas ele permaneceu – com medo de abandonar o único que tinha sido
seu amigo. Lealdade para uma culpa.

Eles estavam machucando seu amigo novamente. O rato não


queria assistir, mas não pode afastar seus olhos. Ele desejava fazer
alguma coisa, qualquer coisa para ajudar aquele que tinha mostrado a
ele tal amizade, mas sua pequena mente não poderia nem mesmo
implorar para compreender o que aquilo pode ser. Ele não tinha
tamanho nem ferocidade para assustar criaturas enormes e mais
poderosas ou força em sua mandíbula para roer sobre as grossas
correntes de metal. Por isso, se encolheu nas sombras, observando e
com medo.

Muito pequeno para a questão.


Aaron não tinha certeza do que esperava do anjo caído que era
seu pai. Ele era Lúcifer, afinal, e todos os tipos de coisas loucas
passaram por sua mente: pele vermelha, bigode fino, cavanhaque,
patas rachadas, chifres, cauda pontuda, tridente. Ele era curioso, mas
nunca esperou que as respostas fossem iminentes.

Ele sabia que estava inconsciente, em algum lugar interno e


escuro, sozinho, ou então ele acreditava. Ele tinha vagado pelas
sombras por muito tempo, descendo cada vez mais profundo no
mundo interior das trevas, até que ouviu os gritos de socorro.

— Por favor, Deus, não.

Instintivamente Aaron se moveu em direção à melancólica voz,


cortando através do oceano preto.

— Não permita que isso aconteça.

A distância ele viu um homem de pé diante de uma enorme porta


de metal, pressionando-se contra sua superfície, como se tentando
impedi-la de abrir.

— Por favor. — implorou o estranho como se algo martelasse e


protestasse do outro lado.

Aaron se sentiu compelido a ajudar e timidamente se aproximou.


Mas enquanto o homem se virou para encará-lo, um sorriso que só
poderia ser descrito como eufórico espalhou por suas belas feições
ainda tensas. E naquele momento Aaron conheceu a identidade do
estranho.

Era Lúcifer, Morningstar, o primeiro dos caídos.

Seu pai.
— Não tenho certeza de quanto tempo isso pode resistir. — Aaron
murmurou, abrindo seus olhos e olhando para o teto rachado e
manchado do quarto onde ele tinha estado desde que veio para Aerie.

— Você está acordado. — Gabriel disse muitas e muitas vezes,


lambendo seu rosto, cabeça, orelhas e mãos sem moderação. — Você
está acordado. Você está acordado. Você está acordado.

Ele não tinha certeza de quanto tinha estado inconsciente. A


afeição de Gabriel não poderia ser utilizada como um indicador
preciso. Houve dias em que Aaron havia saído para pegar algo em seu
carro e tinha sido recebido com o mesmo tipo de saudações
exuberantes, como se ele não tivesse visto o Labrador por meses.

Aaron afastou o rosto do cão do seu próprio, coçando atrás de


suas orelhas. — Ei, cara. — ele disse. — Bom ver você também.
Quanto tempo estive fora?

— Cerca de dois dias. — respondeu uma voz enquanto a porta de


seu quarto abria e Lorelei entrou carregando uma bandeja carregada
com suprimentos médicos. Ela colocou a bandeja em cima da cômoda
e pegou uma garrafa de anti-séptico, ataduras, algumas bolas de
algodão e um rolo de fita.

— Eu pensei que fosse pelo menos uma semana. — Gabriel disse


enquanto se deitava ao lado de seu mestre, com sua anca pressionada
fortemente contra o lado de Aaron.

— É realmente verdade o que dizem sobre os animais não terem


noção de tempo. — Lorelei disse, sentando-se na cama e
cuidadosamente desenrolando o curativo do seu peito nu.
— Ele tem uma tendência a exagerar. — Aaron disse. — Eu
viverei?

— Isso ficou sensível e ficará por um tempo. — ela disse


honestamente, examinando a ferida. — Mas parece que você já se
curou muito bem. — Ela limpou a punção ainda frágil em seu peito
com uma bola de algodão embebida no anti-séptico. — Lehash nos
contou o que você fez, pendurado ao redor de uma partícula tempo
demais depois da merda bater no ventilador. Muito estúpido, Aaron
Corbet. Se não tomar cuidado, eles vão revogar a licença do seu
salvador. — Ela colocou uma nova atadura sobre o ferimento e colou.

— Como está Vilma? — ele perguntou, afastando o cobertor fino


que o cobria, começando a se levantar da cama.

— Ei. — a fêmea Nephilim protestou. — Ela está descansando


confortavelmente, o que é exatamente o que você deve fazer. — Ela
meio que tentou empurrá-lo de volta, mas teve pouco sucesso.

Aaron se sentiu um pouco fraco e tonto, e colocou sua mão


contra a parede para se firmar. — Não há tempo para isso. — ele disse,
esperando na sala para se estabelecer. — Não tenho certeza de quanto
tempo ele pode aguentar. — Ele se moveu para sua mochila para pegar
uma camisa nova.

— Você disse isso antes — Gabriel ainda estava deitado na cama.


— Sobre quem você está falando?

Aaron deslizou uma camiseta vermelha sobre sua cabeça e


gentilmente a puxou para baixo sobre seu peito, de modo que não
perturbasse o curativo. — Enquanto eu estava fora, eu fui a algum
lugar. — ele disse, colocando suas meias e tênis. — Aqui dentro. —
suas mãos se agitaram ao redor de sua cabeça antes de começar a
amarrar seus tênis. — E conheci meu pai – conheci Lúcifer.

— Você conheceu Morningstar? — Lorelei perguntou em choque.

Gabriel saltou da cama para se juntar a Aaron perto da porta. —


Ele era legal? — Ele perguntou, abanando o rabo.

— Eu o conheci, e agora eu sei o que Verchiel está fazendo. —


Aaron disse, deixando o quarto. — E é muito horrível.

— Você está pronto para isso, Aaron? — Lorelei perguntou


enquanto o seguiu até a porta da frente. — Você quase morreu, e aqui
está você fazendo de novo.

Ele parou e olhou para ela, realmente não sabendo o que dizer.

— Há algo horrível em cima de você e...

— E nada disso importará se Verchiel ter seu caminho. — Aaron


interrompeu.

Lorelei olhou como se pudesse protestar, mas claramente pensou


melhor. — Prometa para mim que terá cuidado.— ela disse ao invés.

— Vou ter cuidado.

A mulher assentiu. — Ótimo. Você é o primeiro salvador que tive


como amigo, e eu odiaria ter de encontrar outro.
Tinha sido uma boa visita.

Lúcifer só queria que eles pudessem ter feito algo um pouco


mais agradável, algumas bebidas, talvez, um bom jantar, uma
conversa, que corresse bem até as primeiras horas da manhã. Segurar
o Inferno não era a atividade que ele teria escolhido para seu primeiro
encontro com seu filho.

Ele parece ser um bom garoto, Lúcifer refletiu. Ansioso para


ajudar, e ele tinha os olhos de seu pai, mas realmente não havia muito
que pudesse fazer sobre a Situação atual do Morningstar. Ele tinha
apenas ajudado a atrasar o inevitável um pouco mais.

As coisas estavam ruins. Os mágicos de Verchiel quase tinham


tido sucesso em quebrar todas as barreiras que permaneciam, e a dor
foi se tornando insuportável. Lúcifer não queria que seu filho o visse
desta maneira, então ele tinha se despedido, o mandando colocar sua
força em outro lugar, por que a sua era uma causa perdida.

Mas no fundo, o primeiro anjo caído não queria acreditar que era
completamente verdade. A profecia de perdão veio por causa dele,
porque ele tinha a esperança de que algum dia o Senhor Deus
entendesse o quanto ele estava arrependido e lhe daria a chance de se
desculpar.

Infelizmente Verchiel faria tudo em seu poder para ter a certeza


de que Lúcifer nunca tivesse a chance de proferir aquelas palavras de
expiação, e gostaria de fazer dele o responsável por mais um crime
hediondo contra Deus e que Ele possui de mais precioso. O líder dos
Poderes não acreditava que Lúcifer tinha o direito de ser perdoado, e
havia dias em que ele acreditava que Verchiel poderia muito bem estar
certo. Mas essa não era uma questão para eles decidirem. Deus
perdoa, ou não. Era simples assim, ou pelo menos costumava ser.

Lutar como ele fez, Lúcifer sabia que não poderia manter a porta
fechada por muito mais tempo. Inferno enfureceu-se com as costas, a
dor no âmago de seu ser, metodicamente o feria como as camadas
múltiplas de uma cebola.

A Estrela da manhã3 tinha vergonha, acreditando que ele deveria


ter sido mais forte, capaz de conter o que havia sido uma parte tão
crucial dele por tanto tempo. O inferno veio para defini-lo, mostrando o
que a sua pequena inveja e arrogância tinha sido responsável.

No mundo da escuridão interior soou como tiros quando a


primeira dobradiça de metal grosso explodiu a porta do cofre. Foi
seguido por um segundo, e quando ele apertou seu corpo de volta
contra a superfície fria da porta, ele sentiu o ar mudar novamente. Não
vai demorar muito agora, Lúcifer sabia. A descarga gasosa do
sofrimento acumulado sobre o outro lado flutuava em torno dele. Isso

3
Morningstar, Lúcifer
o fez ver tudo de novo, experiência é como se estivesse acontecendo.
Ele encarnou o Inferno.

— Eu sinto muito. — ele gritou em voz alta quando a porta caiu,


prendendo-o sob o seu peso enorme.

E o que veio a ser conhecido como o inferno surgiu de dentro


para fora dele, um mar de raiva, dor, tristeza, miséria e obtida a partir
do evento mais horrível que se abateu sobre o reino de Deus.

— Sinto muito.

Ela parece muito melhor, Aaron pensou, observando Vilma


enquanto ela dormia pacificamente. Silenciosamente, ele agradeceu ao
Malakim pelo o que ele tinha feito para ela, para ele, e jurou que
Verchiel iria pagar por seus crimes.

Ele estendeu a mão e puxou o cobertor para cima da menina. O


porão era úmido, e ela tinha problemas suficientes sem pegar um
resfriado para piorar a situação.

— Ela está muito melhor, graças a você. — Gabriel disse de perto.

Aaron não conseguia parar de observá-la.

— Você a ama, não é?

O primeiro impulso de Aaron era negar isso, ele nunca admitiu


isso em voz alta antes. Mas o fato era que ele amava Vilma Santiago, e
enquanto observava seu sono, ele não podia imaginar sua vida sem
ela. Aaron lembrou as palavras de Malakim sobre sua companheira, e
os filhos lindos que eles teriam juntos. Vilma era parte de seu futuro.
Ele só esperava que ela quisesse que ele fosse uma parte do dela.

— Sim, acho que sim. — ele finalmente respondeu. Ele olhou


para o cão que estava deitado no chão de concreto não muito longe do
pé do colchão.

— Isso está legal para você?

Gabriel estava olhando para Vilma também, e Aaron podia sentir


a emoção que emanava dos olhos escuros do Labrador. — Está legal.
— ele disse, piscando lentamente. — Ela vai ser boa para o nosso
grupo.

Aaron sorriu. — Ela não vai embora? — ele concordou,


levantando-se do seu lado.

— Você tem que ir? — O Labrador perguntou, subindo para seus


pés também.

Aaron balançou a cabeça, sabendo que suas opções eram


poucas e o tempo era crescente. Seu pai tinha enfraquecido, e ele sabia
que o tipo de poder que Verchiel agora tinha à sua disposição. Se o que
Lúcifer disse a ele era verdade, o líder dos Poderes não era apenas uma
projeção para os Anjos caídos e Nephilim, ele tinha contas a acertar
com todo o planeta.

— É isso, Gabe. — disse ao animal. — Verchiel está indo para


baixo pelo menos desta vez.
— Meu exato sentimento, — Lehash disse enquanto descia as
escadas, chegando até eles.

Aaron estava esperando por eles para tomar uma decisão, certo
de que Lorelei teria falado alguma coisa, logo que ele tinha revelado
suas intenções.

Aaron parecia pálido quando virou em torno de Lehash. —


Lorelei nos disse o que você aprendeu. — ele disse, um tremor em sua
voz. — Verchiel perdeu completamente. Já era ruim o suficiente para
que ele nos queria mortos, mas intencionalmente desencadear esse
tipo de força sobre a terra ... — O anjo caído estava, sem palavras pela
primeira vez desde que Aaron pudesse lembrar.

As pistolas de Lehash ganharam vida em suas mãos e ele as


virou em seus dedos de uma maneira que um cowboy de verdade faria.
— Nunca conheci um filho da puta que merecia sofrer mais. —
proclamou.

Vilma agitou ao som de suas vozes, rolando de um lado para o


outro antes de voltar ao abraço do sono da cura.

— Eu estou fazendo isso sozinho. — Aaron disse suavemente.

As armas celestes de Lehash se dispersaram em um flash. —


Deve ser a acústica daqui. — o pistoleiro disse, colocando um dedo em
seu ouvido e o barulho ao redor. — Mas eu poderia jurar que você
disse que ia acabar com Verchiel.

Aaron concordou. — Isso é o que eu disse.

Lehash fez uma careta e Aaron se preparou para o ataque que


ele sabia estaria vindo. — Você não vai a lugar nenhum sozinho,
menino. — ele rosnou. — Olhe para você. — o vaqueiro disse, lançando
um aceno para ele. — Com esforço você fica em pé, pelo amor de Deus.
Você acabou de ser preso com uma lança e quase morreu! Está ficando
maluco?

Aaron levantou a mão instintivamente e tocou o curativo em seu


peito. A ferida ainda estava dolorida, mas ele estava se recuperando
rapidamente, outra vantagem de ser um Nephilim. — Não é que eu não
queira a sua ajuda. Na verdade nada me faria sentir mais seguro do
que ter vocês ao meu lado quando ele, finalmente, cair.

Lehash estudou-o, lentamente, cruzando os braços sobre o peito


enquanto Aaron simplesmente olhou.

— Mas eu vim a perceber que eu tenho que fazer isso sozinho.

Lehash balançou a cabeça. — Não é verdade. — ele resmungou.

— É. — respondeu Aaron. — Isso tem sido sobre mim desde o


início. Verchiel se perdeu por causa da profecia. — Ele apontou para si
mesmo. — Eu sou a profecia, eu sou a manifestação física de tudo o
que ele odeia. E sou eu quem o levará para baixo.

— Ele quase matou você, Aaron. — Gabriel disse, com a sua voz
rouca de animal cheio de preocupação.

— A palavra chave é quase. — Aaron respondeu. — Eu não


estava pronto antes. Eu não entendi o que o anjo realmente era. Mas
eu entendo agora. Eu sei o quanto está em jogo. Não são só os anjos
caídos e os Nephilins que estão em perigo. É o mundo inteiro.
Lehash esfregou a mão sobre a pele áspera do rosto. — Ele não
vai para baixo facilmente. Ele é como um animal, e se torna mais
perigoso quando é colocado contra a parede.

— Ele está certo sobre isso. — Gabriel disse, fortalecendo as


palavras do pistoleiro.

— Acredite em mim, eu sei que eu poderia muito bem ser morto,


mas também sei o que é para eu fazer, e tenho que fazer sozinho. Eu
tenho que ser o que acaba com isso.

O quarto ficou muito quieto, a respiração da Vilma era o único


som suave enquanto ela dormia.

— E o que virá, trará o fim de sua dor, com a sua luta furiosa
para construir uma ponte entre o penitente e o que foi perdido. —
Scholar disse, seu olhar vago, como se ele estivesse olhando para além
do quarto, talvez para o futuro. — Essa é uma linha da profecia. — ele
disse, com os olhos focados novamente. — Sua profecia.

E Aaron sabia que era hora de ir. Ele se aconchegou dentro de si


e recorreu ao poder dos anjos, sentindo os nomes de todos aqueles que
morreram lutando pela causa de Lúcifer subindo à superfície para
enfeitar sua carne.

Isto é para eles, ele pensou. Seus sentidos ficaram mais


ansiosos, a fúria dos céus vibrando em seu sangue. Ele trouxe suas
asas cor da noite, as abrindo lentamente sentindo o ar em antecipação.

— Eu tenho que ir agora. — ele disse em uma voz grave que


tinha reconhecido como sua, uma voz cheia de força e propósito.
Ele olhou para todos eles, talvez pela última vez, e uma
mensagem não dita passou entre eles. Isto foi difícil o suficiente sem o
impedimento de palavras finais, e ainda que não fossem as suas nesta
última batalha, que seria de fato com ele em espírito, proporcionando a
força que ele precisava para lutar.

— Veja você, quando isso estiver terminado. — Aaron disse,


zelando o sono tranquilo de Vilma seu antes de partir para cumprir
seu destino.

Ele nunca tinha conhecido uma conexão tão forte com outra
coisa viva.

Seu pequeno coração bateu rapidamente, sua respiração


acelerou quando escutou o gemido de seu amigo em agonia.

Os outros de sua espécie foram machucá-lo novamente, seu


zumbido cantava fazendo-o se contorcer e gritar. Sentaram-se do lado
de fora de seu círculo, balançando de um lado para o outro quando
eles repetiram sua canção dolorosa.

Algo vazou para fora do corpo da criatura torturada. O rato se


lembrou da névoa da manhã no rio diante da montanha no mosteiro
que costumava ser a sua casa, apenas nevoeiro que não era da cor de
sangue seco e não trazia consigo esses sentimentos de desconforto.
Alguma coisa que não pertencia estava vindo ao mundo e o
amigo do rato gritou de abandono, uma canção triste cheia de
vergonha por não ser forte o suficiente para impedi-lo.

O chamado Verchiel impacientemente passeou diante da figura


suspensa com o olhar fixo sobre o torturado. Era ele quem estava por
trás de tudo isso, ele que era o responsável por toda a dor.

O roedor não podia suportar ouvir mais, não queria que o seu
amigo pensasse que ele sofreu sozinho, e contra todos os instintos,
correu pelo chão de madeira, não se importando se iria ser visto ou
não. O rato passou entre dois soldados, atingindo o anel de sujeira
fétida. Ele pulou para frente correndo, seus minúsculos olhos fixos no
rosto do chamado amigo. Ele tinha apenas um propósito agora.

A sujeira no chão era fria e úmida e cheirava a morte, mas não


impediu o rato quando forçou seu caminho através da lama,
interrompendo a perfeição da curva do círculo. Ele tinha quebrado o
círculo e os padrões para além, sem aviso prévio, o medo, a sua
conquista atingiu o seu amigo.

De pé sobre as patas traseiras, o rato elevou seu rosto


pontiagudo e chegou-se com suas duas patas dianteiras para a figura
triste pendurado ao vê-lo. — Você não está sozinho. — ele guinchou no
mais rudimentar dos idiomas.

Triunfante, ainda sem saber o que tinha realmente feito.

Verchiel estava hipnotizado pelo sofrimento de Lúcifer. Ele não


conseguia puxar o seu olhar para longe, observando como o maior dos
pecadores se esforçava para manter o Castigo de Deus dentro de si.
— Deixe-o ir, maldito. — Verchiel sibilou, a antecipação quase
mais do que ele podia suportar.

Em breve eles vão pagar tudo, o anjo pensou com um sentido


perverso de satisfação, dos macacos humanos correndo sobre o
pensamento de muito mais, os anjos caídos e seu Nephilin desonrou o
Senhor Deus. Como é triste que tenha chegado a este ponto.

O comandante dos Poderes ruminou enquanto assistia o


primeiro dos caídos se contorcer. Verchiel estava surpreso que alguém
como Lúcifer cuidar tanto do mundo primitivo em que havia sido
banido. Ele já não podia esconder o seu desagrado para o lugar e sua
influência corruptora sobre o seu Pai Celestial.

— Vou mostrar-lhe o erro de seus caminhos. — ele falou em voz


alta, esperando que o Todo-Poderoso ouvisse suas palavras e soubesse
o quão errado ele tinha sido ao descartá-lo. Verchiel iria mostrar o
Criador a loucura de tudo isso.

De repente, Lúcifer, o primeiro dos caídos, soltou um grito que


falou de sua renúncia final. O horror que era a sua punição fluía de
seu corpo, derramando a partir do corte da abertura em seu peito, um
espesso e ondulante vapor ansioso para fazer o conhecimento do
mundo.

— Como absolutamente horrível você é. — Verchiel sussurrou


com uma espécie de admiração torcida, aproximando-se do círculo
mágico que atuou como gaiola do castigo. — O que você deve colher é o
terror sob o meu comando.

Ele olhou sobre o quarto e último de seus soldados,


ensanguentado e espancado por uma cruzada. Uma vez que tinha
comandado centenas, mas agora menos de 20 permaneceram sob seu
comando.

E uma vez que eles teriam lutado contra uma ameaça como
essa, não desbloqueado sua gaiola para libertá-lo sobre um mundo
ingrato. Os anjos tremularam nervosamente suas asas, sentindo a
virilidade do temível poder que estava sendo desencadeado. Eles o
lembravam da guerra e o que tinha feito a todos eles, as cicatrizes que
tinha deixado.

— Não tenham medo, meus irmãos — Verchiel proclamou, — por


uma força como essa vamos ser reivindicados, e todo o ser vivo seja de
carne e sangue ou do divino, irão saber que a nossa missão era justa,
e vão implorar por perdão.

Os Arcontes começaram a gritar, e olharam para a Verchiel. De


alguma forma, o poder que saía do corpo de Lúcifer conseguiu se
libertar de seu confinamento, ultrapassando o círculo místico de solo
do Céu e do sangue de seu adversário, girando em torno de seus
feiticeiros fiéis como um enxame de insetos. Os gritos de Arcontes
eram frenéticos, ao contrário de qualquer coisa que ele nunca tinha
ouvido falar antes.

Arconte Oraios correu para o comandante dos Poderes, com a


cabeça envolta em uma nuvem que se agarrava teimosamente como
uma coisa viva. — Como pudemos ter sido tão tolos! — o mágico
lamentou, agitando os braços em pânico. — E pensar que tínhamos o
direito de pensar que poderíamos apagar a Sua Palavra!

Verchiel agarrou o anjo por suas roupas enquanto ele passava,


jogando-o violentamente para o chão, e ainda a nuvem permanecia. A
espada de fogo veio à vida no aperto do comandante. — O que está
acontecendo aqui? — ele cuspiu, observando como o castigo de Deus
continuou a vazar do corpo de Lúcifer, passado do círculo de
contenção e para o ambiente.

— Está solto. — Oraios gritou, se debatendo no chão quando a


nuvem se expandiu para englobar corpo do mago. — De alguma forma,
o círculo foi quebrado e agora isso está livre. Como pudemos ter sido
tão estúpidos a ponto de achar que poderíamos controlá-lo!

O ginásio explodiu em uma cacofonia de gritos e gemidos


quando o castigo do Senhor se familiarizou com os outros na sala.

Verchiel assistiu horrorizado como os guerreiros que lutaram ao


seu lado nas mais horrendas das batalhas foram reduzidos a animais
choramingando. Gritavam personificando a nuvem de todo o
sofrimento causado pela guerra no céu. Ele devastou a todos eles,
levando-os a se destruir. Um arrancou seus olhos, enquanto outros
usavam suas próprias armas de fogo em si mesmo. Seus gritos foram
ensurdecedores.

— Você tem que fazer alguma coisa. — Verchiel latiu para os


Arcontes quando um anjo dos Poderes repetidamente voou em um dos
quartos das paredes de concreto, como se estivesse tentando quebrar
todos os ossos do seu próprio corpo.

Os três Arcontes amontoados no canto mais distante do ginásio,


tentando se esconder da força que tinham desencadeado.

— Faça alguma coisa! — Verchiel gritou de novo, mas eles só


estavam reunidos mais perto, tremendo violentamente.
— Eles estão com medo. — disse uma voz, um pouco mais que
um sussurro.

Verchiel olhou para ver que Lúcifer estava acordado, mesmo que
o poder continuasse a vazar de seu corpo. — Você fez isso. — Verchiel
disse grunhido, apontando sua espada de fogo para o prisioneiro. —
Você fez isso dar errado.

Outros Poderes tiraram a própria vida, seus lamentos tristes


reverberando horrivelmente para fora das paredes frias antes de
quebrar o silêncio.

Lucifer riu dolorosamente, o riso estrondoso se transformando


em uma molhada, tosse seca. — Eu sou o único que paira sobre um
círculo místico com o peito aberto, e esta é minha culpa. — ele disse
com admiração. — Como isso pode ser?

De repente Verchiel pegou movimento dentro do centro do


círculo e notou o verme, o animal de estimação, limpando a sujeira e o
sangue de seu estômago sujo. Ele estava prestes a abocanhar a
incômoda criatura e espremer a vida para fora de seu corpo, mas então
ele percebeu que não teria importância.

Houve um súbito clarão escaldante de calor e Verchiel olhou


para trás para ver que os Arcontes se colocaram em chamas. Ele podia
ouvir as suas vozes em uníssono quando o fogo consumiu as criaturas
místicas, implorando o perdão do Criador. Eles permaneceram vivos
por muito mais tempo do que ele teria imaginado possível, antes de
seus apelos comoventes cessassem e eles caíssem no chão de madeira
em uma pilha de cinza ardente e preta oleosa.
— Liberte-me. — Lúcifer disse quando Verchiel voltou sua
atenção para seu prisioneiro. — Faça a coisa certa. Redima-se. Deixe-
me recuperar a minha punição. Deixe-me colocar ela de volta onde ela
pertence. — o primeiro do caídos implorou. — Há uma chance de que
ainda posso ser capaz de parar isso.

Verchiel olhou para fora sobre o ginásio onde as formas


quebradas e sangrando de seus seguidores restantes estavam
espalhados pelo chão. A nuvem de miséria estava se expandindo,
rolando inexoravelmente em direção a ele. Já tinha terminado com
seus soldados e agora desejava fazer um banquete com seu líder.

Ele ficou tenso, à espera de seu toque terrível com uma


antecipação estranho.

— Quem falou que eu quero parar com isso? — Verchiel


respondeu quando ele estava envolto na névoa fome vermelha. Ele
sentiu que se agarraram ao seu corpo, e faziam seu caminho dentro
dele através das feridas abertas que adornavam sua carne. Ele esperou
sentir os horrores implacáveis do Todo-Poderoso, a punição, mas
sentiu a sensação que estava sempre presente, uma raiva que ele
sentia desde que foi abandonado por Deus.

E então o líder dos Poderes chegou a uma conclusão


surpreendente. Eu já vivo os tormentos do inferno.
Em sua mente, Aaron viu seu destino, em um cartaz pouco
legível que dizia:

IGREJA E ORFANATO Santo Atanásio: Fundada em 1899.

Este era o lugar onde a batalha final ocorreria. Houve vários


edifícios, incluindo uma igreja, mas ele sabia que precisava estar
dentro da escola. Era ali que o seu pai estava. Essa era à imagem de
Lúcifer havia colocado dentro da mente do Nephilim.

A imagem do ginásio dentro de sua cabeça o fez pensar


brevemente em sua própria escola, Kenneth Curtis, e tudo o que tinha
desistido. A graduação, a faculdade, uma vida humana. Ele tinha
ficado tão irritado no início, uma vez que a sua vida normal tinha sido
virada de cabeça para baixo por profecias angelicais e anjos sedentos
por sangue, circunstâncias além de seu controle, um destino que ele
não sabia nada sobre. E mesmo que o tempo lhe tinha permitido uma
aceitação relutante de seu destino, ele não tinha feito seus sacrifícios
menos difíceis.
Ele abriu suas asas como as cortinas de um palco se abrindo de
volta para apresentar o último ato de uma grande produção. É isso, ele
pensou em antecipação ao voo, o capítulo final de uma história que
começou na manhã de seu aniversário de dezoito anos, o dia em que
sua vida mudou para sempre.

Ele enrolou suas grandes asas negras sob a carne de suas


costas, seu movimento mexendo uma névoa estranha e avermelhada
que estava à deriva acima do piso do ginásio. Uma atmosfera de perigo
rondava o ambiente, e os cabelos na parte de trás do seu pescoço
formigava, uma espada de fogo ganhou vida em sua mão. Ele estava
pronto para acabar com isso.

Seus olhos examinaram seus arredores. A névoa era espessa,


mas ele era capaz de distinguir as funções do antigo ginásio, o piso de
madeira coberto com anos de poeira debaixo de seus pés, uma
claraboia no teto acima, salpicada com excrementos de pássaros. Ele
moveu sua mão através do vapor denso, querendo saber o que era,
sabendo que não poderia ser bom. Isso fez os seus braços formigarem
e peito doer quando ele relutantemente tomou-o em seus pulmões.

Em seguida, ele bateu-lhe com a força de uma onda de


tempestade. Sua arma de fogo caiu de sua mão quando seu corpo foi
sacudido por espasmos violentos. O que está acontecendo? Aaron
perguntou à beira do pânico quando as sinapses4 em seu cérebro
explodiram como fogos de artifício no dia quarto de Julho.

Era como se cada emoção raiva, desespero, amor, alegria,


tivessem ganhado vida de uma só vez, mais incapacitante do que

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A sinapse é uma região de comunicação entre os neurônios ou entre neurônios e células
musculares e epiteliais glandulares
qualquer ataque físico. Ele foi entorpecido, tropeçando através da
névoa esvoaçante vermelha, tentando recuperar controle de suas
paixões descontroladas. Ele não tinha dúvida agora do que estava
acontecendo. Era tarde demais. A maldição de seu pai tinha sido
desencadeada.

O castigo de Deus estava livre.

Por mais que tentasse, Aaron não conseguia tomar o controle de


suas emoções. A névoa caiu sobre ele, inflamado, chamando-o como
uma infecção a partir de uma ferida. Sem nenhum impedimento os
sentimentos que corriam eram de tristeza a raiva e à alegria foram
liberados dentro dele. Novamente e novamente ele viveu os momentos
que havia criado, profundamente desde os alegres a os miseráveis.

Medo brilhou através dele quando viu a primeira casa adotiva


que podia realmente lembrar, as pessoas horríveis que tinham lhe
colocado ali, enquanto o estado pagava por sua manutenção. Ele
sentiu a solidão e raiva, revivendo o abuso e negligência. Então a
experiência foi violentamente arrancada para ser substituída por
outra, e depois ainda outra. Era como se todos os momentos decisivos
emocionais de sua vida estivessem acontecendo simultaneamente: o
fluxo interminável de vários lares adotivos, as lutas na escola, sua
descoberta por Gabriel, um cachorro imundo amarrado a uma árvore
no quintal de um membro da gangue, o primeiro dia que ele viu Vilma
Santiago, e as mortes dos Stanleys, a verdade sobre os pais que ele
nunca conheceu.

Aaron tentou bloqueá-las, para mantê-las no cofre, mas as


experiências foram implacáveis, um assalto todos os seus sentidos.
Sua confusão virou raiva, e depois em pânico. Ele atacou com uma
lâmina recém-convocada de fogo, inutilmente cortando o turbilhão
carmesim de vapor, fazendo qualquer coisa para lutar, mas sem
sucesso.

O nevoeiro cresceu mais grosso, avidamente fechando em torno


dele. E de repente, como se sua própria turbulência emocional não
tinha sido suficiente, todos os aspectos da guerra no Céu
bombardearam os seus sentidos já desgastados. Ele viu os cristais
manchados com o sangue de discórdia, sentiu o aroma adocicado de
carne de anjo queimada, e ouviu os gritos de irmãos, uma vez que
todos os anjos eram irmãos de gloria, trancados em um combate
furioso. E facilmente se tudo se desfez e ele, infelizmente, não só
observou como experimentou a desgraça de Deus, um desespero do
tipo que ele não poderia nem começar a descrever. Ele criou um vazio
que o sugou para dentro e devorou toda a esperança.

Naquele momento devastador Aaron compreendeu totalmente a


magnitude dos crimes de seu pai e as consequências que se seguiram.
Por ir contra o Criador, por atacar a Deus, era o auge do pecado, o
mais triste de todas as coisas. Ele não poderia pensar em nenhuma
maneira de escapar dessa angústia. O mal-estar era como uma enorme
mão empurrando-o para baixo para o chão, esmagando-o, e ele chegou
à conclusão revoltante que nada importava, que a luta dos anjos
caídos para o perdão era em vão.

Não tinha jeito.

Todo o seu sacrifício e luta tinha sido em vão.

Com a mão trêmula Aaron trouxe sua arma de fogo para sua
garganta e se preparou para acabar com a sua vida, para fazer a
miséria terminar. Ele sentiu a mordida chamuscada da ponta
flamejante da lâmina sobre a carne do seu pescoço, mas não se
afastou. Foi um alívio abençoado sentir algo diferente da tristeza do
Senhor Deus.

— Pare. — implorou uma voz um pouco mais alta sobre a névoa


vermelha.

E estranhamente a lâmina de fogo sumiu de sua mão. Aaron


tropeçou em meio à neblina artificial, passando por cima dos corpos de
outros que tinham sido libertados da dor da queda do Céu, atraídos
para voz, uma ilha de esperança num mar de desespero.

A imagem de um homem pendurado no teto apareceu sobre o


vapor turvo. Aaron se aproximou e pôde ver os símbolos brilhantes,
arcaicos gravados sobre o metal escuro, símbolos infundidos com a
capacidade de drenar toda a força Angelical.

Ele estendeu a mão para ajudar o homem a descer quando


ondas de desespero e emoção tomaram conta dele, e ele novamente
encontrou-se contemplando sua espada. Vai ser rápido e relativamente
indolor, ele pensou, levantando a lâmina de fogo para sua garganta.
Qualquer coisa para ficar longe a dor...

— Esse não é o caminho. — o homem pendurado resmungou, e


ergueu a cabeça com os cabelos pretos encaracolados olhando para
Aaron com os olhos profundos, escuros e velhos, olhos cheios de
séculos de dor.

Aaron sabia que este era o homem, que há muito tempo era
associado com tudo o que era mal e errado do mundo. Ele levantou os
olhos para o olhar de Lúcifer e inesperadamente se sentiu como se
tivesse sido lançado um salva-vidas, à deriva em um mar furioso e
raivoso. — É... dói muito. — ele disse, segurando um momento
precioso de consolo, temendo que ele não tivesse a força para suportar
a nova onda de sofrimento.

— Mas pense em como ele vai se sentir quando parar. — Lúcifer


sussurrou, a cabeça caindo lentamente para frente novamente.

A nuvem vermelha agitou o anjo caído, proveniente de uma


ferida, aberta verticalmente que começou no centro de seu peito, um
talho horrível aberto com grampos de metal. Aaron se lembrou do gato
que ele teve de dissecar em sua classe júnior biologia, ele não podia
suportar a ideia de que de alguma forma o animal ainda poderia estar
vivo.

— Você tem que usá-la. — Lúcifer murmurou. — A dor. Use-o


como combustível para mover além do sofrimento, a luz no fim do
túnel, a punição para a absolvição. É o que me mantém relativamente
são desde que eu caí.

Aaron aproximou-se do prisioneiro, lutando para manter seus


sentimentos controlados. — Deixe-me ajudá-lo. — ele disse, se
preparando para usar sua lâmina celeste para cortar as correntes
debilitantes e liberar o anjo caído que era seu pai.

A cabeça de Lúcifer se levantou. — Olhe à sua volta, — ele


resmungou em advertência, e Aaron se virou, instintivamente,
levantou sua espada, bloqueando outra arma de fogo que descia da
névoa para acabar com sua vida.

— Você vai fazer tal coisa. — Verchiel gritou, emergindo da


névoa mortal.
Aaron ficou momentaneamente chocado com a aparência
decadente do anjo. A armadura celestial que uma vez brilhou como o
sol agora era cinza sujo. A carne geralmente firme e modelada de seus
braços e pernas estavam manchadas com sangue e ataduras. Seu
rosto era como uma ferida aberta.

Suas armas falharam quando ele tentou atacá-lo novamente,


estilhaços de fogo celestial cortaram o ar. Aaron gritou de súbita dor,
olhando seu rosto sobre as brasas ardentes da espada.

— O fim está sobre nós. — disse o líder dos Poderes quando ele
golpeou Aaron com a sua arma tentando fazer Aaron ficar de joelhos.

— Isso é provavelmente a primeira e última vez que eu nunca


vou concordar com você, seu filho da puta. — Aaron rosnou,
chamando suas asas, empurrando para frente, indo em direção ao seu
atacante, usando as emoções raivosas como seu pai ordenou.

As duas entidades angelicais deslizaram pelo ginásio, trancados


em uma luta furiosa, a punição do Criador fluindo em torno deles,
tornando-se mais escura, mais grossa, como se incitando-os. Ele
estava trazendo tudo o que Aaron tinha tentado ignorar, a infinidade
de emoções que o fez querer largar a sua espada, ceder à tristeza e
desespero ao redor deles. Ele se enfureceu contra os sentimentos
depreciativos, lembrando-se de todos aqueles que estavam de acordo
com ele.

Verchiel pressionou o ataque, a espada vindo perigosamente


perto de arrancar a cabeça de Aaron de seus ombros. O Nephilim
bateu suas asas poderosas, as enviando contra a luz silenciosa da
claraboia. Então, de repente, virou a espada para baixo, abrindo
caminho para o anjo, jogando os dois no chão do ginásio.

Eles atingiram a madeira dura com uma força incrível, fazendo


as placas subirem e se fragmentar com o impacto. Verchiel gritou,
caindo por baixo dele. Ele estendeu a mão e passou as garras no rosto
de Aaron, quase furando seus olhos. O Nephilim saltou para longe e
notou que ele estava coberto de sangue. Ele levou uma batida de
coração, para perceber que não era seu, mas de Verchiel. As lesões do
anjo sangravam muito e ele fedia a podridão.

Verchiel se levantou ficando de pé, suas grandes asas


flexionadas, penas derramando como folhas que caíam. Ele olhou para
si mesmo, o sangue de seus ferimentos escorrendo pelo corpo em
riachos formando uma piscina em seus pés. — Isto é para o que veio.
— o líder dos Poderes disse, com um desespero em sua voz que só
aumentou a angústia que assolava sobre eles. — Tudo foi tirado de
mim. — Ele olhou para Aaron com ódio nos olhos. — Você tirou isso de
mim, você e o monstro que gerou você.

— Você realmente acredita que isso é nossa culpa? — Aaron


olhou para o anjo, com seu olhar firme. — Isso de alguma forma é uma
punição de Deus, e você é a única pessoa que sabe sobre isso? — Ele
sacudiu a cabeça em desgosto. — Você está como um monte de
porcaria.

Verchiel fervia, punhos cerrados diante dele, sangue negro


escorrendo entre os dedos tamborilando como chuva suave sobre o
chão.
— Pecados foram cometidos. — Aaron continuou. — Crimes tão
inimagináveis que você nunca poderia ser perdoado. Ou será que não?

A névoa rodopiava sobre Verchiel, como se de alguma forma


tentando confortá-lo. — Você não sabe nada do que vivemos. — ele
rosnou.

Aaron estendeu os braços manchados de sangue, mostrando ao


líder Poderes as marcas negras que enfeitavam sua carne. —Mas isso é
onde você está errado. — ele disse. — Eu uso seus nomes, aqueles que
morreram lutando pela causa de Lúcifer. E dentro de mim mora um
pedaço de todos e de cada um deles.

O rosto horrível do anjo torceu em revolta. — Você é mais


monstruoso do que eu pensava. — ele rosnou com nojo.

— Uma monstruosidade que sabe do seu ciúme. — Aaron


respondeu. — Era isso que eles sentiam quando Deus parecia afastar
para abraçar outra criação de um novo mundo. Eu sei o quão
desesperados eles estavam para recuperar seu posto. Desesperado o
suficiente para fazer algo tolo.

Verchiel olhou para o acúmulo de sangue aos seus pés. — Eles


quebraram a sua confiança santa e por isso mereceram uma punição
mais severa.

Ele olhou de volta para Aaron. — Eu estava fazendo o que me


disseram para fazer. Era minha santa missão levá-los para baixo.

— O caído finalmente percebeu que eles estavam errados, mas e


você? — Aaron perguntou. — Se Deus lhe disse agora, que eles
deveriam ter uma chance de fazer uma penitência para provar que
estão verdadeiramente arrependidos, você seria capaz de ouvi-lo?

— Eu segui os meus mandamentos.

— Exatamente. — Aaron concordou com um leve aceno de


cabeça. — Você seguiu o seu comando.

Verchiel virou de repente, indo para longe dele. — Estou


cansado de tudo esta... Vida. — ele disse.

Aaron notou que as mãos de um dos anjos cobertos de sangue


começaram a brilhar, e ele se preparou para a próxima rodada de
conflito. — Então vamos ver o que eu posso fazer para te tirar da sua
miséria. — ele respondeu, espada de fogo celestial queimando em suas
mãos.

O líder dos Poderes virou, sua mão direita brilhando com calor
incrível, o sangue escorrendo das feridas em seu braços, como uma
cobra, evaporando como fumaça antes que pudesse escorrer sobre a
mão branca e quente. Ele riu, um sorriso vazio de som ou de qualquer
humor.

— Eu me pergunto se ele está ouvindo agora? — Ele virou os


olhos para os céus e levantou a mão em chamas. Um fio de chama viva
irrompeu explodindo através da claraboia e iluminando a noite além
dele com o brilho do fogo do céu.

— Qual é a declaração depreciativa que muitas vezes um ser


humano fala para o outro? — Perguntou o anjo, quando peças
irregulares de vidro quebrado choviam para cima dele. — Vá para o
inferno?
E Aaron percebeu o que estava acontecendo. Ele assistiu atônito
e com horror quando a névoa vermelha se uniu, serpenteando pelo
chão como uma serpente pré-histórica, passando sobre os corpos com
um toque maligno, ansiosa para invadir o mundo para além destas
paredes.

— Sim, isso é certo. — Verchiel disse com uma alegria óbvia. —


Vocês todos podem ir para o inferno.

Kraus tentou apertar-se mais profundamente no canto escuro de


uma sala de aula abandonada, uma cacofonia de emoções trazendo-o
para a beira da loucura. Toda a angústia, raiva e solidão que tinha
sido parte de sua infância estavam com ele de novo, os sentimentos
intensificados o atingindo três vezes mais.

Com seus novos olhos, ele tinha visto o ritual angélico ser
realizado sobre o anjo caído Lúcifer. Mesmo antes de o último rito ser
concluído, o curador sabia que nada de bom viria a partir dele, e ele
tentou esconder-se.

Por décadas ele tinha servido os Poderes angelicais,


desenvolvendo um sentido sobrenatural certo para as coisas além da
norma. Como a maioria os seres humanos eram alheios ao
paranormal, Kraus descobriu que ele tinha se tornado extremamente
sensível. Esses sentidos estavam gritando agora, e ele tentou dobrar-se
mais apertado em uma bola, para se proteger das forças que tinham
sido soltas neste dia.

Como eu pude ter sido tão cego?

Embora com uma força do Céu, Verchiel se tornou cego,


obcecado com a conclusão de seu cargo sagrado, não importa o quão
alto fosse o custo. E Kraus havia ajudado. E com isso o líder
recompensou o anfitrião dos Poderes com o dom da visão para ele
realmente ver como as coisas realmente eram.

Eu estava cego, mas agora eu posso ver.

Kraus ouviu os gritos de seus colegas na Escola Perry quando


eles foram consumidos pelo fogo, e ele estremeceu na escuridão. Não
houve nenhum ato de misericórdia naquela fatídica noite, só
assassinato.

De repente ele se lembrou de algo que Lúcifer tinha dito a ele


apenas alguns dias atrás, e ele lutou com uma onda implacável de
medo para lembrar-se exatamente o que tinha sido dito. O curador se
viu atraído para a gaiola do prisioneiro, embora nunca tivesse sido
instruído a entrar no quarto em que o cativo dos Poderes estava preso.

De alguma forma, ele sentia que era necessário, que suas


habilidades como um curador estavam sendo chamadas. Ainda
condenado à escuridão, ele reuniu seus instrumentos e poções de
cura, fazendo o seu caminho para a sala de aula, onde a
personificação de tudo o que era mal estava preso.

O mal personificado. Kraus teria rido se não estivesse com tanto


medo.
O Diabo o acolheu na sala, e Kraus ficou forte contra ele. Ele
sabia que tinha que ficar cuidadoso com o prisioneiro, formas de
manipulação eram lendárias. Ele havia bravamente informado ao
prisioneiro que ele era um curandeiro e tinha vindo apenas para
cuidar das feridas anjo. Lúcifer disse que entendia, e embora a maioria
de suas queimaduras haviam curado, ele desejava que Kraus tratasse
algumas manchas teimosas.

O curador tinha estoicamente se obrigado. Era seu dever, afinal


cuidar das criaturas angelicais ao seu redor, independente se eles
fossem soldados ou prisioneiros. Mas ele encontrou-se com medo de
tocar e cuidar das feridas esse prisioneiro.

Esse era o Príncipe das Trevas, o Senhor das Mentiras, preso


pelas forças do bem, e tudo o que ele falou era que gostava da
primavera, e pediu um favor: Um pouco de pão para o seu amigo, um
rato.

Foi, então, que as primeiras sementes de dúvida foram


plantadas? Kraus perguntou. Ou tinha sido com essas palavras finais,
ele completou a aplicação de cura colocando uma pomada nas
queimaduras de Lúcifer?

— Vai ficar pior por aqui antes que possa ficar melhor. — Lúcifer
avisou. — Essa é a maneira que tem que ser, mas eu pensei que você
pudesse querer saber.

Ele queria pedir para explicar, pois ele já tinha começado a


suspeitar, que o futuro próximo estava manchado com um perigo em
potencial. As palavras estavam na ponta da língua, prontas para cair
de sua boca, quando Verchiel retornou de sua última derrota nas mãos
do Nephilim. Ele teve sorte que o comandante dos Poderes não tinha
lhe matado em seguida, mas o anjo estava preocupado com seus
planos para o futuro e Kraus rapidamente fugiu.

O futuro.

As palavras de Lúcifer novamente ecoaram por sua mente. —


‘Vai ficar pior por aqui antes que possa ficar melhor.’

Kraus desenrolou-se e encostou-se o gesso frio da parede. Ele se


lembrava da última vez que tinha visto o prisioneiro, pendurado no
teto, seu tronco cortado e algo indescritível vazando para o mundo.

— Muito ruim. — ele murmurou, com medo de mover, com medo


de incitar outra onda vermelha da força sobrenatural que parecia ter
diminuído por um momento, o que lhe permitiu reunir sua inteligência
sobre ele.

— Por que ele me disse isso? — Kraus perguntou a opressiva


melancolia.

Em sua mente, ele viu a névoa vazando para fora da ferida de


Lúcifer e como ele lutou para mantê-la lá dentro e Kraus sabia que ele
tinha que fazer alguma coisa.

A ideia de deixar seu esconderijo o encheu de terror mortal.

O que estava acontecendo além das paredes da sala de aula não


era feito para ser visto por um simples homem. E, além disso, o que ele
poderia fazer para evitar isso?

— ‘Essa é a maneira que tem que ser.’


Kraus finalmente encontrou a força dentro de si próprio para
ficar de pé, e antes que ele pudesse questionar a sanidade de suas
ações, e foi até a porta.

‘— Mas eu pensei que você poderia querer saber.’

Andou através da escola escura, o vapor misterioso que uma vez


tinha sido contido dentro do primeiro caído se tornando mais espesso
enquanto ele se aproximava do ginásio. Kraus tentou com todas as
suas forças não deixar isso afetá-lo, para não ser reduzido a destroços
humano tremendo pelo seu toque. Foi a coisa mais difícil que já tinha
feito, mergulhando de cabeça na névoa debilitante. Ele esperou que ela
fosse vencê-lo, esmagá-lo sob o peso avassalador do seu desespero,
mas isso não aconteceu. Talvez mais do que a capacidade de ver foi
dada a mim pelo toque restaurador de Verchiel, Kraus considerou.

Era como estar cego novamente quando fez seu caminho através
do turbilhão névoa, tropeçando nos corpos daqueles que já haviam
caído vítima em toda a extensão de malignidade. Ele não podia olhar
para eles, pois eles tinham sido seus encargos por décadas, o seu bem-
estar era responsabilidade sua, lhe doeu profundamente saber que não
havia nada que ele poderia ter feito para aliviar a sua dor.

Uma forma mole humana, pendurada em vigas do teto de metal


por correntes grossas de metal, que surgia da névoa à deriva. Mas
agora que ele tinha alcançado seu objetivo, Kraus não tinha certeza de
por que exatamente ele tinha vindo. Ele podia ouvir sons de dentro do
nevoeiro, vozes de raiva, e ele suspeitava que o Nephilim tinha chegado
a desafiar a insanidade de Verchiel.
— É ruim. — Kraus murmurou para a figura consciente,
segurando a bolsa de ferramentas em seu peito como se pudesse de
alguma forma protegê-lo. O som ensurdecedor de uma explosão e a
destruição de vidro fez o curador estremecer, e ele protegeu a cabeça
da possível dor. — Muito ruim. — sussurrou, e ele sentiu o toque frio
do ar fresco da noite invadir a atmosfera estagnada do ginásio.

Ele notou que a névoa estava sendo atraída para uma abertura
no teto, onde uma luz do céu tinha estado, e as imagens de pesadelo, o
vapor que iria se expandir em todo o mundo encheu sua cabeça. — Eu
não posso imaginar o que é pior. — Kraus falou abatido.

E Lúcifer lentamente levantou a cabeça.

— Ajude-me. — disse ele. — Eu acho que essa é a minha


sugestão.

Aaron assistiu em terror quando Verchiel levantou-se ao lado do


nevoeiro, asas batendo no ar quando ele seguiu a massa efervescente
de seu percurso ondulado em direção à claraboia aberta, em direção à
sua liberdade. Então instinto assumiu e Aaron abriu as asas e saltou
para o ar. A manifestação de pesar do Céu tornou-se algo semelhante a
um único grande tentáculo, deslizando através do ar apontando para o
buraco aberto no teto.

— Você tem que parar com isso! — ele gritou para Verchiel, sua
espada de fogo passando inutilmente através da massa gasosa. Ao
mesmo tempo em que o líder dos Poderes deve ter tido um pensamento
racional, e ele esperava de alguma forma, apelar para o que restava da
criatura, se alguma coisa ainda tivesse restado. — Você que se diz ser
um fiel servo de Deus, vai permitir que isso aconteça? Pense sobre o
que você está fazendo!

Verchiel ficou pouco abaixo do teto quebrado da claraboia, sua


asa esfarrapada batendo furiosamente para manter a forma no alto.
Seus olhos escuros, horríveis estavam fixos na neblina. A noite já
estava alta, e apesar do horror do que estava acontecendo abaixo, as
estrelas no céu brilhavam lindamente. Se a névoa escapasse, Aaron se
perguntou se algum dia iria olhar este belo céu novamente.

— Ele tem que ser mostrado. — Verchiel disse sonhador,


acenando para o vapor mortal flutuando mais rápido. — Se eu tivesse
sido autorizado a completar a minha missão, isso nunca teria
acontecido. — Ele balançou tristemente a cabeça como se não
houvesse mais nada que ele pudesse fazer. — É tarde-tarde demais
para todos nós.

Aaron voou para o comandante dos Poderes, tentando pensar


rápido. Não tinha nada que ele pudesse fazer para detê-lo. Nada. — Vai
ser a morte de todos nós! — ele gritou para o anjo, tentando
desesperadamente chegar a qualquer parte do divino ainda escondido
dentro de Verchiel. Ele tinha soltado esta neblina monstruosa, ele
tinha que saber como pará-la.

O líder dos Poderes trouxe sua própria espada de fogo, passando


por Aaron, levando-o de volta. — Sim, será a nossa morte! — ele
gritou, seu rosto uma máscara de sangue coberto de feridas abertas. —
e Ele o fará ser forçado a suportar essa culpa.
Aaron evitou a ponta da lâmina de Verchiel, indo perigosamente
perto da massa infernal. O anjo veio para ele novamente, a mão
enfaixada fechando sobre a garganta do Nephilim, o forçando-o de
volta para o castigo de Deus.

Aaron lutou violentamente para ficar livre, mas o aperto Verchiel


era como aço. Ele se sentia como se estivesse se afogando, cada fibra
do seu ser invadido pela experiência que foi a guerra no céu. Ele
finalmente conseguiu fugir, caindo em direção ao chão, incapaz apenas
de lidar com o que seu corpo estava experimentando.

Ele aterrissou com um ruído surdo e dolorosamente rolou para


trás, olhando para o teto. Ele pensou no mundo além do ginásio. Ele
tinha visto o inferno de Lúcifer, havia feito aos angelicais seres
celestiais de incrível poder e força, e estremeceu ao pensar nos
horrores que logo se abateria sobre o povo do mundo.

Lutando para se recompor, Aaron gritou ao anjo pairando perto


o teto acima dele. — Você tem que parar com isso!

Verchiel simplesmente sorriu, a pele pálida de mármore de seu


rosto escondido no sangue. — Eu não posso. — ele disse com um
aceno de cabeça. E o seu sorriso cresceu ficando duas vezes mais
terrível.

Verchiel reconhecida à miséria que o vapor estava fazendo com o


seu corpo. A raiva se voltando para tristeza e indo para o desespero
esmagador, que todos eles tinham experimentado durante a Guerra da
Morningstar no Céu e durante o seu recente abandono. Ele contribuiu
poderosamente para o que estava acontecendo, e agora o caos iria ser
lançado sobre o mundo.
Os olhos negros do anjo olharam para o teto aberto a partir do
qual o Inferno iria escapar, através da luz fria das estrelas acima, e
tentou ver o Paraíso. Ele sempre imaginou que após sua missão, sua
guerra privada, ele acabaria voltando para o Céu como o herói da
causa. As coisas seriam como tinham sido: caos silenciado, a ordem
restaurada, e a memória de Lúcifer, Morningstar e suas atrocidades
expurgadas das memórias de todos os seres divinos.

Verchiel se viu na luz celestial de seu Senhor e Pai Celestial,


sendo o filho preferido de Deus, e tudo estava certo no Céu e no
universo.

Mas não era para ser, o anjo tristemente se lembrou, desviando


o olhar do céu para a cobra monstruosa se contorcendo no ar abaixo
dele. Aquilo era a personificação de sua própria raiva, sua maneira de
punir todos aqueles que o tinha machucado. A maneira era horrível,
mas necessária para fazer as coisas direito novamente.

A Morningstar não tinha sido esquecida. Sua presença tinha


continuado infectando o domínio celeste como um tumor maligno, um
erro na profecia cancerosa do perdão, e eventualmente o estado em
que Verchiel atualmente se encontrava no mundo. Ele não poderia
mais suportá-lo, a difamação tinha que ser interrompida.

— Você está vendo, meu Senhor? — ele olhou para o espaço


aberto acima dele. As estrelas piscavam como que em resposta. —
Você pode ter sido capaz de perdoar as suas ofensas, mas eu não
posso.

Ele disparou para cima e para fora, através da claraboia


danificada na noite, olhando para baixo observando como o vapor
gasoso subia, ele foi mais para cima para além da claraboia para o ar
fresco da noite.

— É isso. — o anjo sentia uma satisfação perversa enquanto


observava o mal se espalhar. — Este mundo de pecado pertence a você
agora. Deixe-os sentir o que nós sentimos, sofremos terrivelmente por
Seu amor.

Verchiel olhou para o centro de Massachusetts, indo para além


da Nova Inglaterra e por fim olhando para o planeta inteiro do homem.
— Perdoe-me, Pai Celestial? — ele sussurrou. — Quando meu pecado
for perdoado e a minha penitência for cumprida, você vai me levar de
volta para o seu abraço?

Ele novamente olhou para a coisa monstruosa que tinha sido a


ruína de Lúcifer e que se preparava para fazer o seu caminho no
mundo.

Mas algo estava errado.

Ele hesitou.

Verchiel voou mais perto e observou com surpresa quando a


massa infernal começou a recuar para dentro do prédio. — Volte! —
rugiu lamentavelmente, seus gritos de decepção ecoando pela calada
da noite.

Ele desceu, seguindo a forma de serpentina de volta para o


edifício, tristeza se alastrou em seu peito.

Lúcifer estava ajoelhado no chão do ginásio, a ferida ainda


estava aberta em seu peito, uma expressão de sofrimento puro gravado
em suas características, quando ele gradualmente colocava para
dentro o vapor vermelho. Em pé ao lado dele, uma mão solidária
estava no ombro nu do primeiro caído, e parado ali estava o próprio
curador de Verchiel, o macaco Kraus.

— O que é isso? — o anjo rosnou horrorizado, não tanto por o


Morningstar estar livre, mas por aquele que tinha lhe servido tão
fielmente, a quem ele deu um presente tão grande, poderia ser parte
da traição de Verchiel.

— Eu estou tomando de volta. — disse Lúcifer, ficando em pé,


com a ajuda do animal humano. — Esse não é o fardo do mundo. — O
enorme volume de névoa vermelha lentamente entrou de volta para
dentro de seu corpo. — É o meu castigo. Eu sou o seu mestre, e ela é
só minha para suportar.

— Você sempre foi um egoísta, Lúcifer Morningstar. — Verchiel


vociferou quando ele caiu do teto, colocando toda a sua força por trás
do que seria um golpe mortal.
O tempo estava em câmera lenta quando a lâmina de Verchiel
caiu em direção a ele.

Por poucos momentos gloriosos Lúcifer experimentou o que era


ser livre do seu fardo. Tinha sido bem-aventurado, e por um instante
ele considerou a possibilidade de uma vida de novo sem a sua punição.

Já fiz penitência mais do que suficiente, pensou, tentando se


convencer de que não seria tão ruim para que Deus o castigue. Eu
realmente sinto muito por todos os meus pecados. Ele deve saber que
Lúcifer racionalizou. Quem sabe esse show era suposto ser. É assim eu
estou livre da ira do Senhor?

Ele olhou para cima agora e viu Verchiel acima dele, a armadura
manchada, a pele coberta de bandagens cobertas de sangue e feridas
abertas, as decadentes asas bem abertas quando ele caiu em direção a
ele, a arma de fogo sibilando e caindo em direção a seu rosto. É este é
um mensageiro de Deus? Lúcifer perguntou a si mesmo. Um que o
Criador enviou para me dizer que estou perdoado? Não importa o quão
duro tentou se convencer, Lúcifer sabia a resposta.

Ainda não era seu tempo para absolvição.

Cansado, ele começou a pegar de volta toda a dor, tristeza, raiva


e sofrimento gerado por seu ciúme. A tarefa era difícil e dolorosa, e o
primeiro caído não tinha certeza de sua força para terminá-lo. Mas o
curador humano, Kraus, lhe emprestou um pouco da própria força, e
Lúcifer tinha conseguido completar a tarefa dele.

O inferno agitou dentro dele novamente. Pertencia a ele e


ninguém mais. Seria seu até o dia em que fosse perdoado, ou sua vida
levada para um fim.

E não antes.

O que o trouxe de volta, ao aqui e agora. A lâmina de Verchiel


estava perigosamente perto. Lúcifer pensou em conjurar sua própria
arma escolhida, um tridente de fogo, que poderia facilmente ter
desafiado a lâmina de tristeza de Verchiel. Mas em seus milênios na
Terra, ele tinha desenvolvido aversão à violência, e tinha sido tanto
tempo desde a última vez que conjurou uma arma de seu arsenal.

A imagem da arma de três pontas começou a se formar em sua


mente. Ele não era tão rápido quanto já foi, podia sentir o calor da
lâmina de Verchiel em cima de sua face como faíscas de fogo celeste
enchendo suas mãos. Esperemos que ele não fosse muito lento. Seria
triste ter chegado tão longe apenas para morrer agora. Tudo bem que
ele teve dificuldades com os detalhes, o tridente começou a tomar
forma e Lúcifer levantou o braço. A arma não estava pronta, e ele
temia que não tivesse substância o suficiente para evitar a espada da
tristeza de clivar seu crânio, mas não há tempo de sobra.

Ele tinha que tentar. Empurrou Kraus longe, fora do alcance do


dano e preparou-se para enfrentar o ataque de Verchiel.

O portador da tristeza cortou a arma de Lúcifer como se não


estivesse lá, e o primeiro dos caídos se preparou para a mordida
ardente da lâmina. Lamentava que tivesse chegado a isso, pena que ele
não tinha mais tempo para gastar com seu filho, pena que não tivesse
sido perdoado. Então ele parou a menos de uma polegada de seu nariz,
a lâmina impressionante do Céu de forma desigual bloqueou o ataque
de Verchiel com um estalo retumbante do fogo divino.

Lúcifer virou-se para ver seu filho em toda sua gloria Nephilim,
as asas de corvo preto, o corpo adornado com nomes daqueles que
tinham jurado fidelidade ao Morningstar e morrido por sua causa. Ele
certamente era um espetáculo para ser visto.

— Obrigado — Lúcifer disse com um suspiro de alivio.

— De nada — Aaron respondeu antes de voltar sua atenção total


ao comandante dos Poderes.

— Vamos acabar com isso — o Nephilim disse impacientemente,


e o anjo Verchiel apareceu ansioso demais para obrigar.

Lâminas ainda tocando, as forças opostas pulverizando e


provocando raiva, Aaron colocou-se entre Verchiel e Lúcifer
Morningstar.

Era a sua vez agora.


Lembrou-se da primeira vez que ele havia visto a criatura
angelical que impiedosamente roubou tanto que era importante para
ele, impecavelmente vestido em seu terno escuro e casaco, deslizando
na casa adotiva dos pais em Baker Street como se pertencesse ali.

Ele realmente acreditava que o que estava fazendo era correto,


Aaron pensou amargamente. Matar os pais, queimando suas casa e
sequestrar seu irmão mais novo.

Ah sim, isso era exatamente o que Deus queria, com certeza.

A visão diante de Aaron agora era nada menos do que patético-


sujo, coberto de sangue e esfarrapado, mas não menos perigoso. Ele
pensou em pedir à criatura para desistir, fornecendo-lhe uma chance
de colocar para fora sua espada e parar o inevitável, mas ele sabia que
não iria acontecer.

— Então, vamos fazer isso? — Aaron perguntou seu olhar de aço


inabalável. Verchiel cuspiu no chão um muco grosso, sangrento que
pelo som disso estava cheio de dentes.

— Oh simmmm — ele sussurrou enquanto limpava sua boca


com as costas de uma mão enfaixada e atacou.

Aaron defendeu-se do seu ataque seguido de um dos seus,


dirigindo o último dos Poderes para longe de Morningstar. Ele ainda se
recuperava. É como lutar com um animal selvagem, ele pensou, o anjo
rosnando e cuspindo a cada movimento adversário cortando o outro no
chão do ginásio.
Aaron bateu de volta contra a parede de concreto fresco e
conseguiu se esquivar da lâmina de Verchiel cortando toda a
superfície, deixando um sulco profundo, latente na pedra do edifício.

O anjo se preparou para atacar novamente e o menino viu sua


oportunidade, uma memória de lutas incontáveis enquanto crescia.
Usando suas asas, ele impulsionou-se para frente e deu um soco no
rosto do seu adversário. Era como o derretimento do gelo molhado na
beira de ceder, mas ainda não a ponto de quebrar. Verchiel virou para
trás, as asas batendo freneticamente enquanto caía no chão.

Certo de que ao menos dois de seus dedos haviam sido


quebrados, Aaron sacudiu a dor de sua mão. — Isso é pelo Dr. Jonas
— ele disse, lembrando-se de seu psiquiatra, a primeira vítima da caça
dos Poderes por ele.

O rosto de Verchiel era uma confusão sangrenta, uma


combinação de dentes e sangue escorrendo da boca inchada quando
ele rolou de joelhos, começando a subir. Raiva explodiu em Aaron e ele
subiu em direção ao anjo de novo, se preparando para entregar um
potente chute de lado.

O comandante dos Poderosos puxou sua perna, torcendo-a


selvagemente para um lado e Aaron caiu ao chão. O anjo remexeu pelo
chão em direção a ele, uma horrível visão manchada de sangue, o
sorriso insano irregular de Jack-Lanterna em seu rosto uma vez
imaculado.

O Nephilim atacou com o salto do seu sapato, conectando ao


lado da face do anjo. Ele fez pouco para atrasá-lo quando riscou
Aaron, asas batendo, dedos longos sinuosos de aranha sobre sua
garganta e começando a apertar.

— Eu tenho ansiado por esse momento, monstro, — Verchiel


gorgolejou saliva com sangue pingando de suas feridas na boca e
escorrendo pelo rosto de Aaron. — Para matá-lo com minhas próprias
mãos, assistir a vida deixando seus olhos. — Flores de cores vibrantes
explodiram nos olhos de Aaron antes do aperto do anjo aumentar.

Instintivamente uma arma de fogo começou a se formar em sua


mão, mas ele não conseguia se concentrar, as imagens em sua cabeça
em uma bagunça confusa. A escuridão começou a se infiltrar em torno
das bordas de sua visão. Ele pensou em uma faca, uma coisa simples
feita para um único propósito.

Falhou ao dirigir a lâmina para o lado de Verchiel. A ponta da


faca desviando da placa encouraçada de seu peito, faíscas de fogo
explodiram entre eles, mas foi o suficiente para distrair seu inimigo e
seu aperto relaxou. Aaron conseguiu puxar um joelho para cima,
debaixo do seu atacante, e com a última de suas reservas ele virou
Verchiel para trás, sobre ele. Flexionou suas asas e brotou a partir do
chão, girando em torno quando a faca cresceu em uma espada de fogo.

Verchiel já estava de pé, carregando a Portadora da Tristeza no


alto com as duas mãos. — A profecia morre com você Nephilim! — ele
gritou quando trouxe a lâmina para baixo sobre Aaron. — Eu posso
ficar satisfeito com a vitória por si só.

A força do golpe foi devastador, levando Aaron de joelhos quando


ele bloqueou a descida da espada flamejante. — Odeio desapontá-lo —
ele rosnou quando saltou de pé, empurrando Verchiel longe com sua
espada — Mas a vitória hoje é apenas para os anjos caídos, quando eu
colocar você fora de uma vez por todas. — Ele podia sentir a força dos
guerreiros anjos cujos nomes enfeitavam sua carne através do corpo.
Nunca se sentiu tão seguro de algo, como fez nesse momento,
perfeitamente sintonizado com o que ele era e o que ele deveria fazer.

Verchiel atacou novamente, sua espada de fogo celeste caindo


novamente na tentativa de derrubá-lo, mas sua lâmina não podia tocar
o Nephilim. Era como se Aaron estivesse antecipando cada movimento
do Comandante dos Poderes, combatendo cada ataque de Verchiel,
esquivando como um dos seus próprios. Tornou-se mais selvagem,
mais frenético, mais ainda o Nephilim não caía.

Sua paciência diminuindo, Aaron finalmente atacou sozinho,


golpeando a arma na mão de Verchiel. O anjo rosnou, convocando
mais um instrumento de morte, mas Aaron respondeu de forma
semelhante, desarmando o comandante anjo com facilidade perversa.

— Está feito — ele disse sua voz cheia de confiança.

De repente o anjo guerreiro parecia murchar diante de seus


olhos, como se a luta finalmente houvesse sido roubada dele. Verchiel
caiu em um joelho, à cabeça baixa.

— Faça isso — ele cuspiu, recusando-se a olhar para o Nephilim.

Aaron segurava o cabo de sua própria lâmina mais apertada,


sentindo o calor de seu percurso através do seu braço. A essência do
guerreiro alojado dentro dele gritou de raiva. Aqui estava seu inimigo
de joelhos diante dele em suplica, um inimigo que tinha tirado tanto e
ainda ficou na sua mão. Se ele fosse atacar Verchiel agora não seria
melhor do que um assassino.
Verchiel levantou seu rosto inchado e coberto de sangue para
consertar isso no olhar mais horrível. — Mate-me agora — ele exigiu.

Embora Aaron quisesse levantar sua espada e cortar a cabeça do


monstro em dois, ele se conteve. — Talvez eu seja uma abominação
aos seus olhos — ele disse — mas eu não sou um assassino.

Verchiel moveu-se como um raio, surgindo a partir do chão,


uma faca de fogo em suas mãos.

— Misericórdia para seu inimigo mais odiado — ele sussurrou


como uma serpente, golpeando a garganta exposta de Aaron. — Teria
me machucado menos se você tivesse tomado minha cabeça dos meus
ombros.

Aaron bloqueou com a mão a faca cortando a palma ao invés de


sua garganta. Ele pulou longe do anjo enfurecido.

Verchiel balançava sobre seus pés, segurava ainda em suas


mãos a faca de fogo, mas ele não atacou novamente. — Isso está longe
de terminar. — Ele abriu suas asas e voou em direção da claraboia
aberta. — Talvez outra hora — ele clamou quando escapou pela noite
com o bater de asas poderosas e uma perda de penas de neve.

Aaron sabia o que tinha que fazer.

— Tenha cuidado — ele ouviu uma voz dizer desde o ginásio, e


ele viu que seu pai estava observando. O curador humano se ajoelhou
ao seu lado e estava costurando e fechando a ferida vertical em seu
peito com uma agulha um pouco grande e que parecia ser fiada em fio
de ouro. — Temos muito para discutir quando tudo isso acabar —
Lúcifer disse.
Aaron assentiu com a cabeça quando abriu suas asas para o
voo. — Nós certamente faremos — Então ele subiu pelo buraco no teto
na busca do Anjo Verchiel.

O ar da noite estava frio sobre sua pele, uma espécie de balsamo


para sua mão ferida e que revigorava seus sentidos, limpando a
cabeça, seus olhos percorreram o céu da noite em busca de sua presa.

Ele não pode ter ido longe, Aaron refletiu. Não teria ido longe.
Verchiel deve saber que vou persegui-lo.

Ele duvidou que o líder dos Poderes deixasse passar a


oportunidade de matá-lo de uma vez por todas. Não parecia como se o
anjo estaria vivo por mais tempo. Esta tinha sido a última chance de
Verchiel para estragar tudo, para que a profecia se torne realidade.

Aaron escutou primeiro, o crepitar do fogo celeste cortando seu


caminho através do ar. Ele mergulhou para o lado, quatro punhais de
fogo passaram inofensivamente através do local que ele havia pairado
meros segundos antes. Mas um quinto tinha sido lançado antecipando
sua reação. A lâmina de fogo penetrou em sua coxa com um silvo
borbulhante, queimando através das suas calças, mergulhando muito
para baixo da carne até o osso. Era como se alguém tivesse derramado
lava derretida dentro da ferida. Aaron gritou, segurando a perna ferida,
tentando permanecer no ar.

Então como algo fora dos pesadelos, Verchiel caiu do céu. O anjo
realmente parecia estar em situação ainda pior, a carne em vários
estágios de decomposição, feridas com infecção. Mesmo quando eles
pairavam no céu aberto, Aaron podia sentir o cheiro nauseabundo de
podridão. Era como se todo o mal e insanidade que moldaram uma vez
essa criatura celestial no que ele era hoje, seu rosto fervilhava,
mostrando ao mundo sua verdadeira face.

Eles lutaram, suas poderosas asas batendo sem piedade. Foi


difícil se concentrar com a dor na perna, e a resistência de Aaron foi
rapidamente diminuindo. O conflito amargo teria que acabar em breve.
A espada de fogo brilhava com o aperto de Verchiel e Aaron atacou,
chutando violentamente no pulso do anjo e fazendo-o cair, mas outro
já estava se formando em seu lugar. Aaron chutou novamente, desta
vez com a perna ferida, e as explosões de agonia irregular penetrava
seu corpo.

Verchiel parecia sentir que a força do Nephilim diminuiu. Aaron


podia ver isso em seus olhos avermelhados quando mais uma espada
de fogo apareceu em sua mão. — Você conhecerá o seu superior! — o
anjo gritou partículas de sangue voando de sua boca enquanto ele
subia através da curta distanciam do céu, as faíscas da espada para
baixo evitando o Nephilim.

Aaron não tinha certeza porque ele pensou nisso, ou então


porque ele não tinha pensado nisso antes, mas a inspiração lhe veio de
repente, completamente formada, e uma arma do tipo que nunca tinha
visto antes de explodir a existência em sua mão. Era uma arma muito
maior do que as pistolas de Lehash, o cano longo e grosso. Ela não
tinha nada da beleza delicada das armas gêmeas do pistoleiro,
lembrando a Aaron mais das armas que ele tinha visto em alguns
filmes de ação com seu pai adotivo nas noites de sexta-feira, algo que
teria sido usado por Arnold, ou talvez mesmo Clint. Algo usado para
acabar com os bandidos de uma vez por todas.
Aaron quase achou divertida a mudança de expressão sobre as
características torcidas de Verchiel quando ele levantou a temível arma
forjada a partir de sua imaginação e do fogo celeste. Quase. Se apenas
a situação toda não tivesse sido tão malditamente triste.

Ele puxou o gatilho e um som parecido com o que ele teria


imaginado a partir do Big Banger saiu da arma. Uma língua de fogo de
pelo menos um pé de comprimento rodou avidamente no ar com a
força da explosão atirando Verchiel para trás. Ele começou a espiral
para baixo em direção à igreja, uma fuga em meio a fumaça com um
grave buraco no ombro. O anjo uma vez terrível atravessou o grande e
circular vitral da Igreja de Santo Anastácio.

Ainda segurando na mão o canhão forjado a partir da sua


imaginação, Aaron seguiu cautelosamente para igreja através da janela
quebrada com dentes afiados de vidro multicolorido. Era escuro lá
dentro, a única luz lançada a partir das estrelas e da meia-lua acima.

Como Aaron pousou no altar, ele verificou a paisagem. A maioria


dos adereços religiosos da igreja tinha sido removida. Filas de bancos
com assentos estavam espalhados diante dele, um rastro de sangue
corria pelo corredor central até acabar em Verchiel enquanto ele
engatinhava laboriosamente em direção as portas da frente e para a
escapatória.

Aaron permitiu suas asas pegarem ar e deslizou pelo corredor,


favorecendo a perna ferida, a poderosa arma ainda ao seu lado.

Verchiel percebeu sua presença, interrompendo o seu progresso


e lentamente rolando de costas. O sopro do anjo sacudiu retamente em
seus pulmões.
Os vidros dos vitrais se agarram a superfície pegajosa de seu
corpo. Aaron olhou para a escuridão da ferida circular que tinha sido
soprado em seu ombro direito e imaginou que ele estava olhando para
a alma do anjo. Era como ele suspeitava, nada lá, exceto um bocejo
escuro.

— O que você está esperando? — Verchiel ofegou pela boca


inchada e sangrando. — Está é a sua chance de destruir o que
desejava com todo o seu coração, para vê-lo apagado da existência.

Aaron ergueu a arma, visualizando pelo cano, tendo como


objetivo o que tanta dor lhe causou. Ele foi repelido por essa criatura
deitada no chão diante dele, a coisa mais distante de um ser celestial
que ele poderia imaginar.

Verchiel riu bolhas de sangue se formando nos cantos de sua


boca. — Eu teria limpado o mundo de sua mácula — ele zombou. —
Queimado o chão que você pisou com fogo celestial.

Mas Aaron também sentiu outra coisa: uma pena determinada


para o ser que tinha sido um soldado de Deus, então se tornou tão
distorcido e envenenado pelo ódio e sua incapacidade de perdoar, no
que tinham o transformado em um monstro.

— Não teria tido ninguém para lamentar a sua morte — Verchiel


continuou, balançando a cabeça de um lado ao outro, — pois eu os
matei também.

Aaron sabia que o anjo estava tentando instigá-lo para a ação, e


ele decidiu que não iria jogar esse jogo.
Ele baixou a arma, permitindo que se desintegrasse em um
flash. O rosto de Verchiel se contorceu em confusão. — O que você
está fazendo? — Ele perguntou, tremendo de raiva na pergunta
evidente. — Eu estou preparado para morrer agora. Mate-me!

Aaron sacudiu a cabeça lentamente, uma sensação familiar


agora começava a se construir em seu peito. Era o convite de um poder
maior para liberar os presos dentro da gaiola frágil de carne, para
permitir que eles tenham sua oportunidade de estar diante do seu
Senhor Deus e pedir absolvição. Foi o poder que o definiu como o
salvador da profecia, e corria do seu centro para baixo no comprimento
dos seus braços, que emanou de suas mãos estendidas.

— Mate-me. — o anjo exigiu novamente, lutando para subir em


seus pés.

E ainda lhe doía muito, Aaron sabia exatamente o que deveria


fazer com Verchiel. Ele teve que deixar sua ira ir, seu ódio para o
monstro patético que causou tanta dor matando aos que ele amava. E
ele era melhor do que ele, experimentando o verdadeiro significado do
seu dom dado por Deus.

— Não é meu dever julgá-lo — ele disse calmamente, mostrando


nenhum traço de raiva.

Os olhos negros e sem alma de Verchiel escavaram Aaron e


estendeu a mão para ele. De repente o anjo sabia o que estava prestes
a acontecer. Ele não iria ser morto por seu inimigo mais odiado.

Este era um destino muito mais horrível e ele tentou fugir.


Aaron estendeu suas mãos pegando a cabeça de Verchiel e
deixou o poder do perdão fluir através dele para o portador dos
Poderes.

— Eu o perdoo — ele sussurrou enquanto o comandante dos


Poderes lutou para se ver livre de seu agarre. — Mas será que Ele fará?

Verchiel gritou com medo, sua espada, Portadora do Sofrimento,


aparecendo em sua mão. Ele tentou jogar em Aaron, mas não parecia
capaz de controlar o fogo. A espada se perdeu, a chama ao invés de
fluir para baixo consumiu seu braço, corroendo a carne ferida e
continuando.

Verchiel debatia-se no aperto do Nephilim, tentando com todas


as suas forças escapar, mas o fogo do céu consumia avidamente sua
carne, deixando para trás um ser de luz mudo, que não brilhou como
os outros que Aaron tinha posto em liberdade. Este era diferente.

Aaron soltou a criatura e se afastou do anjo em sua forma mais


pura. Verchiel ajoelhou-se sobre o chão da igreja, tremendo como se
tivesse frio, mas Aaron suspeitava que fosse o medo que trouxe essa
reação. A criatura assustada levantou a cabeça, olhando para o teto,
vendo muito mais do que as imagens do glorioso Céu pintado ali.

— Foi tudo por você. — Verchiel resmungou na língua dos


mensageiros. O brilho do seu corpo começou a se intensificar, e logo
ele estava envolto em uma esfera de luz, solidamente branca, como se
uma estrela de alguma forma houvesse caído do céu para deitar no
chão da igreja.

Aaron protegeu os olhos com suas asas, salvando sua visão da


intensidade ardente da luz. — Eu sinto muito — foram as últimas
palavras que ouviu proferida por um Verchiel aterrorizado quando ele
foi levado em um flash.

Levado para o céu, para enfrentar o julgamento de Deus.


Era como se um grande peso tivesse sido retirado dela.

Vilma Santiago abriu os olhos na escuridão semi-cerrada da sala


onde tinha estado confinada. Sentindo-se melhor do que tinha estado
nos últimos dias. Ela não poderia descrevê-lo exatamente. A única
coisa com que poderia até mesmo vagamente compará-lo era com a
manhã em que ela caminhava depois de fazer um teste realmente
importante na escola, sentindo alívio quando percebeu que o teste
tinha ficado para trás. Era uma comparação realmente estúpida, mas
era a melhor que ela conseguiu no momento.

Ela sentou-se, à espera de sentir as agitações sinistras do poder


angelical dentro dela, mas não sentiu nada além de um extremo senso
de calma.

As correntes douradas presas às algemas em seus pulsos


sacudiram quando ela as levantou e se rastejou sobre o chão descalço
de concreto para as escadas. Lentamente, ela subiu os degraus,
ouvindo atentamente, curiosa para saber se havia mais alguém na
casa com ela, mas não ouviu nada.
A menina saiu para o corredor e voltou-se para o local da
cozinha, vagamente lembrando que Lorelei e Aaron haviam lhe dado
algum tipo de medicamento. Mas no fundo ela sentiu que aquela era
apenas uma parte responsável da paz que estava sentindo.

Ela encontrou Gabriel deitado no chão da cozinha, olhando para


a noite através de uma porta de tela quebrada.

— Ei, garoto — ela disse, feliz por ver o animal , estranhamente


aliviada que não tinha sido deixada completamente sozinha.

Gabriel , assustado com o som de sua voz, pôs-se de pé , a cauda


começando a abanar quando ele caiu em si que era ela. — Você me
assustou — ele disse trotando para ela , se esfregando nas mãos dela
por afeto.

— Eu sinto muito— Vilma disse a ele, acariciando o topo de sua


cabeça. As correntes entre as algemas tilintaram.

— Eu não acho que você deveria estar em pé e circulando. —


Gabriel advertiu. Ele apoiou-se contra ela, aceitando seus cuidados
com prazer. —Eles me disseram para ter certeza de que você ficaria na
cama.

— Eu me sinto melhor, — ela disse. — Muito melhor, na verdade.


— Ela colocou os braços ao redor de seu pescoço e lhe deu um abraço
apertado. — Eu não sei o que é, mas eu tenho uma sensação súbita,
de que tudo vai ficar bem.

Gabriel se contorceu em sua mão para que ele pudesse olhar em


seus olhos. — Ele está bem ? Você sabe se Aaron está seguro? Eu
estava sentindo alguma coisa também, mas eu não poderia dizer se era
uma sensação boa ou uma má.

— Eu não sei. — Vilma disse para o Labrador, olhando seu


reflexo no seu olhar escuro. — Eu acordei sentindo que as coisas
finalmente tinham ficado certas. — Ela sorriu e deu de ombros. — Eu
realmente não sei o que significa. É apenas como eu estou me
sentindo.

Gabriel inclinou a cabeça, intrigado. — Eu acho que é um


sentimento bom , então.

— Acho que sim, — ela disse, em pé e andando para afastar a


porta. — Onde estão os outros, Gabe, — ela perguntou ao cão quando
eles saíram para a noite fria de primavera.

As ruas de Aerie estavam desertas. Estava estranhamente


silencioso, sem sinais evidentes de que este local teria sido
abandonado durante os anos setenta, mesmo sabendo o contrário.

— Lorelei disse algo sobre ir ao centro da cidade para esperar. —


O cão olhou para baixo em direção ao final da rua, o nariz se
contorcendo quando ele cheirou algo no ar.

— Para esperar o que? Você quer dizer, para Aaron voltar?

Gabriel lentamente acenou com a cabeça em aceno. — Ou talvez


para que algo ruim aconteça. — Sua voz soou baixa, tingida com medo.

Vilma tomou uma golfada profunda de ar da noite úmida,


enquanto olhava para as estrelas, reafirmando a paz que sentia desde
que despertou. Ela não tinha certeza exatamente como sabia, mas
tinha certeza que algo sobre o mundo tinha mudado.
— Não, — ela disse, indo em direção ao centro de Aerie com
Gabriel perto, em seus calcanhares. — Eu não acho que vá haver mal
algum.

Os cidadãos se reuniram no centro do que já havia sido chamado


de Estados de Ravenschild, agora conhecido simplesmente como Aerie.
Lehash não tinha certeza exatamente do porque que eles decidiram se
reunir, não muito longe dos escombros torcidos que tinham sido seu
lugar de adoração, mas estavam todos aqui.

Era, provavelmente, pela mesma razão que ele tinha vindo, um


sentimento quase palpável no ar que algo grande estava para
acontecer. Ninguém estava falando realmente, tanto anjos caídos e
Nephilins estavam iguais. Todos estavam em pé ao redor, olhando para
longe ou para o céu acima deles. Eles não pareciam saber a direção de
onde ele ia chegar, mas eles sabiam que estava vindo, no entanto. Ele
não teria discordado deles.

Pernas cruzadas nos tornozelos e encostado a uma luz quebrada


na rua, Lehash sugou do fim de seu úmido charuto, permitindo o
vazamento de fumaça de suas narinas girarem no ar sobre o seu rosto.
Ele estudou a multidão reunida. Como seu número diminuiu, graças
ao ataque dos Poderes apenas algumas semanas antes. Como muitos
deles haviam sido abatidos, apenas para ser libertado de suas conchas
mortais pelo toque do que eles tinham vindo a pensar como seu
salvador. Teria o resto de nós a mesma sorte? Ele se perguntou.

— Fantasiando conhecê-lo aqui, — gritou uma voz do outro lado


da rua, e Lehash viu como sua filha se aproximou. Ela caminhava pela
rua, tendo cuidado para evitar os buracos que haviam sido causados
quando a fúria de suas magias angelicais tinham sido desencadeadas
sobre os Poderes, a magia dos anjos acendendo bolsões de explosivos
presos sob o solo de resíduos tóxicos contaminados. Ela trouxe uma
cadeira de praia com ela, que tinha pertencido a Belphegor, que ela
desdobrou e sentou-se sob ela quando ele a alcançou.

— Eu meio que me perguntava se eu era a única a sentir isso, —


ela disse, cruzando as pernas, nervosa, balançando seu pé enquanto
ela olhava em volta para o centro e todos os que estavam ali reunidos.
— Acho que isso responde a minha pergunta.

Lehash silenciosamente tirou da ponta de seu charuto, a sua


visão escaneando todo o ambiente, bem como centenas de quilômetros
além.

— Isso é uma coisa que eu nunca poderia dizer sobre você, —


Lorelei disse de repente na sua cadeira de praia. — Você nunca me
deixa ter uma palavra correta.

Sua filha achava que ela era muito engraçada.

Era um traço que ela definitivamente dividia com sua mãe. O


pistoleiro se lembrou da mulher humana que ele tinha caído em amor,
enganando a si próprio em pensar que ele poderia viver como eles. Mas
a piada tinha sido para ele. Não tinha sido um de seus momentos mais
orgulhosos, mas ele havia deixado a mulher, para seu próprio bem, ele
disse a si mesmo, sabendo muito bem que ela tinha tido um filho
quando foi embora, novamente sozinho, até que encontrou Aerie, um
lugar onde ele poderia pertencer.

— Não sei por que eu nunca admiti ser o seu pai, — ele disse
secamente, soprando a fumaça para o ar para pontuar a sua
declaração.
Lorelei riu, agarrando o longo cabelo branco feito neve, jogando o
passado sob seus ombros. — Eu não acho que você poderia ter
negado. — ela disse, balançando o cabelo para ele. — A semelhança
familiar é inconfundível.

Lehash tirou o chapéu Stetson e correu os dedos pelos próprios


cabelos brancos, empurrando-o de volta em sua cabeça antes de
substitui-lo com seu boné. — Você provavelmente está certa. — ele
demorou, o início de um sorriso aparecendo no canto da boca. —
Deveria ter meu cabelo.

Sua filha sorriu, e ele continuou fumando seu charuto, e eles


esperaram, assim como todos os outros cidadãos.

Esperando que algo aconteça.

— O que vamos fazer se ele falhar? — Lorelei perguntou


calmamente.

Lehash olhou para ela sentada em sua poltrona ao lado da


lâmpada da rua, como se esperando um desfile noturno passar. Era
uma pergunta que ele vinha pensando desde que Aaron deixou Aerie
em busca de seu pai e Verchiel. O garoto era bom, não havia dúvida
disto, mas o pistoleiro também tinha visto a selvageria do comandante
dos Poderes muitas vezes ao longo dos séculos. E se há uma coisa que
Lehash havia se tornado em seus milênios sobre a terra, era a ser
realista.

Ele tomou uma longa tragada de seu charuto antes de responder.


— Nós vamos fazer o que sempre fizemos. Nós vamos sobreviver, lutar,
se for preciso, — ele disse. — Mas o mundo vai se tornar um lugar
muito inóspito, se o menino...
— Eu não estou falando sobre isso. — Lorelei disse
interrompendo-o. — Eu estou falando sobre a profecia. O que acontece
se ele morrer antes de cumprir a profecia?

Lehash deixou cair os restos mortais de seu charuto na rua,


esmagando a ponta queimando com a bota de couro. — Eu acho que
estaríamos sem sorte, — ele disse, sentindo um aperto gelado de
desesperança, gosto que não sentia desde que caiu do Céu e teve os
seus pés pela primeira vez neste mundo.

O ruído de correntes os distraíram, pai e filha e olharam para


cima para ver Gabriel trotando na rua ao lado da danificada amiga de
Aaron, Vilma.

— Eu disse ao cachorro para não deixá-la sair da cama, — Lorelei


disse, levantando-se quando Vilma e Gabriel se aproximaram do
centro.

— Acho que ela sentiu isso também, — Lehash disse. Pelo que
pode ver, a menina parecia saudável, sem sinais da batalha furiosa
interna que tinha lutado antes. A poção do Malakim parecia ter feito o
que tinha prometido que seria. Furtivamente ele esperava que sua luta
não fosse em vão.

Lehash sentiu antes que de fato acontecesse, como se alguém


tivesse tomado um esporão de metal frio e rolado para baixo do
comprimento de sua coluna. E pela expressão que viu no rosto de sua
filha, ele sabia que ela também havia sentido. Ele ergueu as mãos e
permitiu que suas armas de fogo celestial tomassem forma.

— Pai? — Lorelei perguntou.


Ela tropeçou e ele soltou uma arma para agarrar o seu braço,
impedindo-a de cair, o tempo todo fazendo a varredura do bairro
vizinho e além, em busca de qualquer indício de problema. Fosse o que
fosse, o que eles estavam sentindo – estava vindo agora, e não havia
uma maldita coisa qualquer que um deles pudesse fazer para detê-lo.

Gabriel começou a latir loucamente, sua cauda abanando. O cão


parecia estar olhando para um ponto no centro da rua, em frente aos
escombros da igreja. Algo estava se manifestando no ar lá, uma coisa
preta e brilhante, e Lehash baixou as armas sabendo muito bem o que
ele estava vendo.

— Ele está de volta.

O pistoleiro deixou seu posto e se dirigiu para evitar a


perturbação. Lorelei o seguiu de perto ao seu lado, e antes que ele
percebesse, Scholar, Vilma e Gabriel se juntaram a eles. Todos os
cidadãos foram convergindo para Aaron Corbet.

Lehash levantou a mão, sinalizando para aqueles em torno dele


para parar onde estavam, quando ele cuidadosamente avançou o seu
caminho em direção ao menino. Ele queria ter certeza de que tudo
estava bem antes de expor os outros ao perigo potencial.

Aaron ficou de pé, imóvel, de cabeça baixa, como se em profunda


reflexão, suas enormes asas fechadas sobre ele como um cobertor,
preto de penas. Lentamente, as asas se abriram para revelar que o
menino não havia retornado sozinho. Dois homens estavam com ele,
um de cada lado do jovem Nephilim. Lehash não reconheceu o mais
velho da dupla. Ele era humano, com a mácula da magia de um anjo
sobre ele. Mas não havia dúvida sobre a identidade do
outro, mesmo com a adição de um rato estranho empoleirado em cima
de seu ombro.

— Olá , Lehash — ele disse em uma voz tão rouca como se


tivesse fumado , e o pistoleiro de repente se viu às voltas com emoções
conflitantes.

— Faz um tempo, Lúcifer — respondeu laconicamente Lehash,


não tendo certeza se ele queria abraçar o anjo ou colocar uma bala de
fogo na sua cabeça.

Aaron voltou suas asas para baixo da carne de suas costas, uma
onda de exaustão se lavando sobre ele com a percepção de que ele
tinha chegado em casa.

Lar. Ele não podia acreditar realmente que sua casa não passava
mais do que um local de resíduos tóxicos. Era um pouco triste, mas ao
mesmo tempo, encheu seu coração de alegria saber que havia um
lugar aonde ele pertencia.

Antes de deixar Saint Athanasius, houve alguns protestos de seus


companheiros, quando ele sugeriu voltar a Aerie juntos. O curador
humano, Kraus, não sentia que merecia a bondade dos cidadãos de
Aerie, depois de ter servido aos Poderes por tantos anos. E Lúcifer
Morningstar, bem, ele suspeitava que muitos dos residentes caídos de
Aerie ainda iriam querer justiça.

Aaron não iria ouviria nada disso. Ele estava cansado, e ele
queria voltar para seus amigos. Dando-lhes pouca escolha, ele tinha
envolvido seu pai e o curador em seu abraço alado e os trazidos de
volta a Aerie junto com ele.
— Desde que vocês dois já se conhecem. — Aaron disse, tentando
desviar a contestável atenção, — Permita-me apresentar Kraus. Ele foi
curador dos Poderes.

O velho curvou a cabeça em reverência ao pistoleiro angelical. —


Estou verdadeiramente honrado por estar em sua presença. — ele
disse.

Lehash se aproximou, cheirando o homem. — Ele tem o cheiro de


Verchiel sobre ele. O comandante dos Poderes mudou ele de alguma
forma.

Kraus levantou a cabeça e olhou para o anjo formidável diante


dele. — Ele me deu o dom da visão. — o homem disse, tocando seu
rosto. — Eu era cego desde o nascimento, mas agora eu sou capaz de
ver.

— Um curandeiro , então — Lehash disse, olhando o homem de


cima a baixo. — Eu acho que os cidadãos poderiam precisar da ajuda
de um curandeiro.

Lorelei moveu-se em torno de seu pai e se aproximou


timidamente de Aaron. — Então , acabou? — Ela perguntou, como se
tivesse medo que ele ia dizer-lhe outra coisa.

Aaron concordou. — Verchiel é problema de um poder superior


agora.

Uma faixa amarela limitada na multidão e Aaron viu-se batido


para trás com o impacto de seu melhor amigo. Ele tropeçou, sua perna
ferida mal apoiando seu peso, quando Gabriel apoiou as patas
dianteiras no peito do rapaz e freneticamente, carinhosamente, lambeu
o seu rosto.

— Estou feliz que você está de volta e que você não está morto, — o
Labrador disse entre voltas desleixadas.

Aaron abraçou o grande cachorro amarelo, deixando a sua língua


lavar cada centímetro de sua pele exposta em seu rosto e pescoço. —
Eu estou feliz que eu também não estou morto, amigo.

Gabriel caiu sob quatro patas, o rabo abanando freneticamente


enquanto Aaron continuou a acumular afeição sobre ele. — Como está
Vilma, Gabe? — Ele perguntou. — Você ficou de olho nela para mim?
Ela está melhor?

— Pergunte você mesmo a ela. — o cão respondeu, olhando para a


multidão, para onde ela estava.

O pleno significado das palavras do animal não chegou à


compreensão até que Aaron seguiu o olhar de Gabriel e seus olhos se
chocaram com o dela. Ele praticamente correu para Vilma, levando-a
em seus braços e segurando-a tão perto quanto podia. Se ele pudesse,
ele se abriria e a colocaria em um lugar seguro dentro dele, ele teria
feito isso. Ela correspondeu, enterrando seu rosto em seus ombros,
seus braços apertados em volta de seu pescoço.

— Eu sabia que você estava bem. — ela sussurrou em seu


ouvido. — Eu sabia que você não ia me deixar sozinha.

Então eles se beijaram, seus lábios pressionados juntos com


fome, e Aaron finalmente entendeu o que tinha estado ausente em sua
vida até agora. Ele havia sido incompleto, um pedaço de seu
desapareceu sem ele nunca realmente perceber. Claro que ele sentia o
vazio de vez em quando, mas não queria sentir pena de si mesmo, sem
saber que havia outro meio lá fora, no mundo esperando para se
juntar a ele. Vilma era aquela metade, e naquele momento, enquanto
ele segurava a mulher que ele amava em seus braços, Aaron Corbet
sabia pela primeira vez o que era ser inteiro.

— Este é o seu pai, Aaron? — Ouviu Gabriel perguntar, e


deixando Vilma tempo o suficiente para ver Lúcifer se movendo no
meio da multidão, falando para aqueles que tinham se reunido,
anunciando a sua chegada.

— Sim, é — ele disse, já não tendo medo de admitir isso.

Um silêncio se abateu sobre o centro, e apenas a voz do


Morningstar podia ser ouvida.

— Sinto muito, — ele disse para todos e cada um dos reunidos. —


Sinto muito por tudo o que eu fiz, e por tudo o que aconteceu por
causa de mim.

Ele se moveu entre eles. Se eles eram anjos caídos ou Nephilins,


todos foram considerados destinatários de arrependimentos, sua alma
sucedida. Alguns abraçaram o anjo que, uma vez estava sentado à
direita de Deus, aceitando plenamente suas palavras de desculpas,
enquanto outros rosnaram, virando as costas, ainda não dispostos a
perdoar-lhe o seu pecado, ou si próprio.

Lehash, Lorelei, e Scholar foram os últimos a receber as palavras


do Morningstar de desculpas, e Aaron se perguntou se ele ia ter que se
envolver. O ar tornou-se carregado de tensão quando Lúcifer se
aproximou deles, e ele se preparou para o caso.
— Tumael — Lúcifer disse, curvando-se ao anjo que Aaron tinha
conhecido apenas como Scholar.

Tumael se curvou para trás, aceitando o pedido de desculpas do


primeiro dos caídos, graciosamente.

Ele se mudou para Lorelei.

— Eu aceito. — ela disse antes que as palavras ainda tivessem a


chance de deixar a sua boca, e Lúcifer sorriu.

E então o Morningstar voltou a sua atenção para Lehash.

Aaron não tinha certeza de que história se passou entre eles, mas
ele adivinhou que Lehash tinha sido menos do que um seguidor de
Morningstar, e o pistoleiro não parecia ser o tipo de anjo que
facilmente perdoava ou esquecia. O tempo parecia ter congelado
quando os dois anjos caídos olharam um para o outro, e Aaron teve a
nítida impressão de que os dois tinham sido próximos uma vez, até
amigos talvez.

— Nós tínhamos que estar fora de si para segui-lo — Lehash


disse, seus olhos escuros e intensos.

Aaron assistiu as contestáveis mãos, procurando a centelha que


dizia sobre o perigo potencial. As pistolas foram embora no momento,
mas poderiam facilmente retornar em menos de um piscar de olhos.

— Eu acho que todos nós estávamos um pouco loucos — Lúcifer


respondeu, seus olhos vigilantes nunca deixando o anjo na frente dele.

Lehash casualmente riscou o acúmulo de barba no queixo.


Os anjos ainda precisam fazer a barba? Aaron se perguntou
bizarramente depois de pensar, intensamente assistindo a cena
passando diante dele.

— Você acha que estamos melhor agora? — o pistoleiro


perguntou.

Lúcifer pensou por um momento, voltando o olhar do pistoleiro e


olhando para aqueles reunidos em torno do centro do bairro
arruinado. Seu rato aninhou-se ao lado de seu rosto carinhosamente,
e ele alisou suavemente o topo da cabeça do roedor. — Eu acredito que
estamos. — ele respondeu, e inclinou a cabeça para o guardião de
Aerie em paz. — Sinto muito, Lehash, por tudo que eu fiz, e por tudo o
que aconteceu com você por minha causa.

Lehash fez uma careta quando ele chegou no bolso do seu casaco.
Lentamente, ele pegou um de seus mal-cheirosos charutos. — Depois
de todo esse tempo, essa é a melhor desculpa que você poderia nos
dar? — ele perguntou quando colocou a ponta do charuto entre os
dentes, esperando.

Lúcifer aproximou-se do pistoleiro e Aaron ficou tenso, suas asas


pronto para lançá-lo no ar para afastar os dois anjos caídos. Seu pai
levantou a mão, fazendo com que Aaron se contivesse em antecipação,
mas ele ficou onde estava. A ponta de um dos dedos do Morningstar
começou a queimar branco com o calor do fogo celestial, e ele
gentilmente tocou a ponta do charuto saliente da boca do pistoleiro,
inflamando-o no final.
— Era uma espécie de breve notícia. — Lúcifer disse quando
Lehash começou a soprar fumaça sobre o charuto. — E eu nunca
pensei que eu teria essa chance.

Lehash levou a mão à boca, momentaneamente removendo o


charuto. — As coisas têm uma forma de sair do controle, não tem? —
perguntou ao anjo que o levou para o caminho da queda do céu.

— Eles certamente tem. — Lúcifer respondeu, e a tensão quase


palpável que encheu o ar se dispersou como uma tempestade de verão
em movimento rápido, de repente, a atmosfera ficou fresca e clara.

Todo mundo parecia exausto, aquecendo-se com uma estranha


sensação de encerramento. Aaron sabia que eles estavam todos
sentindo a mesma coisa. Com a ameaça de Verchiel e seus capangas
removidos da equação, os cidadãos já estavam livres para pensar em
outras coisas do que o seu dia-a-dia de sobrevivência, ou seja, o
perdão deles. Uma liberdade especial tinha sido dada a eles neste novo
dia, e Aaron se permitiu ter uma pequena medida de orgulho no fato
de que ele tinha uma conclusão satisfatória nesta parte da história.

— É estranho. — Aaron disse, seu braço ainda em torno de


Vilma, o leal Gabriel de pé ao seu lado. — Esta é a primeira vez que eu
os vejo felizes. — Mesmo o curador humano, Kraus, parecia se
encaixar, já começando a administrar aqueles que ainda não haviam
sido curados após o ataque de Verchiel sobre Aerie.

— Isso é bom — Gabriel disse, sua cauda começando a abanar.

Vilma deu um aperto afetuoso em Aaron, descansando a cabeça


em seu ombro. — E é tudo por causa de você. — ela disse. — Você fez
isso. Você deu-lhes algo para sonharem.
Ela se afastou e estudou seu rosto. Seu olhar estava inebriante, e
se tudo o que ele fizesse fosse olhar para aqueles olhos pelo resto de
seus dias, seria uma vida satisfatória. Ela tocou o centro de seu peito
com o dedo indicador.

— Você, Aaron Corbet — ela disse, sua voz como os acordes


iniciais da mais bela canção. — Você fez seus sonhos se tornarem
realidade.

Ele não poderia imaginar um momento mais maravilhoso, mas


com tudo o que houve em sua vida, isso também estava prestes a
mudar. Pois ele era o mensageiro, e ele tinha um propósito, que tinha
prioridade sobre todo o resto.

Aaron sentiu que isto estava começando a crescer no fundo de


seu peito. Isto estava ligando a ele como uma voz que estava cada vez
mais alta e mais forte a cada segundo que passava.

— Aaron , o que há de errado? — Vilma perguntou. Ela se afastou


dele, quando ele começou a tremer.

— Nada há nada de errado. — ele disse em uma voz vazia para


não restar dúvida. Isso era, apesar de todas as batalhas com monstros
e anjos renegados, isso era o que ele havia sigo designado a liderar. —
Tudo está exatamente como deveria estar.

Aaron convocou suas asas quando o brilho começou a emanar de


suas mãos, um poder sobrenatural, nunca totalmente aproveitado, até
agora. Os cidadãos viram - viram o que estava acontecendo, e eles
começaram a sorrir, e alguns a chorar lágrimas de alegria. O poder que
era dele e só dele para exercer, os chamando, e ele foi para eles,
quando eles foram atraídos para ele, pedindo a absolvição que tinham
passado tanto tempo a chegar.

E enquanto caminhava entre eles, seu toque perdoava seus


pecados, Aaron Corbet pensou sobre o que ele era e o que ele tinha se
tornado. Nunca que ele teria imaginado que uma criança adotiva de
Lynn, Massachusetts, poderia comandar o poder do perdão de Deus.
No entanto, era assim que deveria ser, como sempre deveria ser. Sim,
haviam dificuldades, a perda de entes queridos, e obstáculos
aparentemente intransponíveis, mas de toda a dor e sofrimento, uma
coisa mais maravilhosa tinha sido alcançada.

Os anjos caídos de Aerie brilhavam como vaga-lumes gigantes,


dançando no ar acima deles nas asas iridescentes que fizeram um som
como o suave afago de cordas de harpa quando elas batiam. Aaron se
virou e viu que Scholar agora esperava diante dele. O anjo caído
parecia ansioso, olhando totalmente para Aaron e depois de volta para
baixo da rua para o seu local de trabalho.

— Não se preocupe. — Aaron tranquilizou-o, chegando a tocar a


frente de sua camisa branca. — Nós vamos cuidar bem de seus livros.
Acho que conheço a pessoa certa para fazer isso.

Ambos olharam para o homem chamado Kraus. Ele havia caído


de joelhos, olhando para a constelação de anjos pairando logo acima.
— Eu acho que ele vai fazer um excelente trabalho. — Aaron disse,
quando o poder subiu das pontas do dedo em Scholar.

O anjo caído de carne, osso, e sangue, foi queimado em uma


explosão de luz branca, e o anjo Tumael foi recebido por seus irmãos
no ar logo acima.
Aaron sorriu quando viu Lorelei e Lehash caminhando
lentamente em direção a ele. O pistoleiro foi um dos últimos, e parecia
que ele poderia estourar de sua pele, mesmo sem o toque do Nephilim.

— É isso. — Lorelei estava dizendo quando ela segurou o braço do


casaco de seu pai.

Lehash manteve os olhos sobre Aaron, sem dizer nada, quando


pai e filha entraram provisoriamente para a proteção da absolvição. O
Nephilim carinhosamente o tocou quando ele passou, agradecendo-lhe
a sua proteção, e desejando-lhe uma boa jornada para casa.

O anjo cowboy parou diante de Aaron, e respeitosamente tirou o


chapéu. O Nephilim levantou a mão em a direção Lehash, o contorno
de seus dedos pouco visíveis dentro da coroa de poder pulsante
branca, que ele exercia agora.

— Espere. — Lehash disse de repente, sua própria mão subindo


para bloquear o toque de Aaron. — Eu não posso ir, — ele disse, e
virou-se para olhar para o rosto dos Nephilins que ansiosamente
esperavam a sua ascensão. — Alguém tem que tomar conta deles,
protegê-los. — Ele olhou para Aaron. — Há ainda muito o que eles têm
de aprender.

Lorelei apertou o ombro de seu pai, inclinando-se para colocar


um beijo em sua bochecha grisalha. — Nós vamos ficar bem — ela
disse, e Aaron concordou com a cabeça.

Lehash tomou o que seria o seu último olhar para os filhos dos
anjos e humanos, e em seguida, olhou para sua filha, os olhos cheios
de emoção. — Você provavelmente vai ficar. — ele disse, estendendo a
mão para tocar seu rosto em sua mão. — Nada como tentar ficar um
pouco mais. — Os dois riram e se abraçaram para o tempo final.

Então Lehash deixou sua filha e se virou para Aaron, estufando o


peito. — Bem, vamos lá, menino salvador. Que eu não tenho o dia
todo.

Aaron sorriu, colocando a palma da mão contra o peito do


pistoleiro, e viu quando a verdadeira imagem de Lehash gradualmente
tomou forma, o escudo humano caindo como uma espessa camada de
poeira e sujeira. O anjo que era Lehash impeliu alado pelo céu com
uma sucessão de poderosos voos, mergulhando e girando no ar em
uma espantosa exibição de acrobacias aéreas, antes de se juntar aos
outros.

— Exibido. — Lorelei disse, enxugando as lágrimas de felicidade


de seus olhos.

Aaron olhou para os anjos de Aerie, guardando todos e cada um


deles na memória. Era uma visão incrível para ser guardada, como se
as estrelas tivessem descido do céu para olhar mais de perto. Ele sabia
que ele iria se lembrar e valorizar este momento até o seu dia de
morrer, mas também sabia que era o momento para do fim - para
aqueles acima dele irem em paz.

Ele espalhou largamente suas grandes asas e estendeu os braços


no ar para afastá-los. — Vocês estão perdoados. — ele gritou.

E um a um, eles deixaram este plano terreno, voltando ao lugar


de sua criação, um lugar a muito negado, mas que agora estavam de
volta em seu abraço celestial.
O céu acolheu-os em casa.

Lentamente Aaron baixou o olhar do céu do amanhecer e viu com


uma combinação de choque e vergonha que havia um que ele tinha
esquecido.

Lúcifer ficou sozinho, com um sorriso benevolente sobre a sua


escuridão, belas feições quando ele olhou para onde os seus irmãos
tinham ido. Havia um desejo em seu olhar, mas também uma
felicidade para aqueles que tinham finalmente completado a sua
penitência e foram autorizados a conhecer a glória, que era o céu
novamente.

— Isso é para você também? — Aaron perguntou, assustando o


primeiro dos caídos de suas meditações para além do céu.

Lúcifer segurou o pequeno rato na palma da sua mão,


carinhosamente acariciando sua pele. — Eu não sei. — ele disse,
infeliz, com um movimento leve de cabeça. — Eu tenho medo de
descobrir.

Aaron deu um passo para se aproximar dele e gentilmente


colocou a mão sobre o peito de seu pai. Ele sentiu o poder do núcleo
em sua ascensão, e por um breve momento, acreditava que estava
prestes a ocorrer, que era um círculo completo, e que o perdão final
estava prestes a ser concedido a quem começou tudo.

Mas não era para ser.

O poder divino recuou dentro dele, de uma maneira diminuiu,


como uma brasa ardente no centro de seu ser.
— Sinto muito — Aaron disse, infeliz, removendo a mão do peito
de seu pai, e o primeiro dos caídos sorriu para ele. Era um sorriso
triste, mas cheio de compreensão e paciência imensurável.

— Eu também — Lúcifer disse, voltando o seu olhar para o céu


da manhã iluminado acima de Aerie, acariciando a cabeça do animal
minúsculo levemente com a palma da sua mão.

— Eu também.
Lúcifer Morningstar estava fora da Igreja de Santo Atanásio e do
Orfanato e quando ouviu os sons dos Nephilins. Havia mais deles lá
fora, no mundo, ele sabia, filhos dos flertes dos anjos, sua
primogenitura gradualmente florescendo sobre seu décimo oitavo ano
de vida.

Feliz aniversário.

A temperatura caiu consideravelmente na última hora, e tinha


começado a nevar. Lúcifer voltou a sua atenção para a mudança do
tempo, estudando os meandros de cada floco individualmente quando
eles lentamente caíam do céu. O rato em seu ombro curiosamente
cheirou a chuva no inverno, uma vez que ela caía sua pequena língua
rosa correndo de sua boca para lamber a água que derretia em cima
da jaqueta do terno azul do anjo caído.

O verão no nordeste tinha sido brutalmente quente, e parecia que


o inverno da Nova Inglaterra ia ser do mesmo extremo. Mas o tempo
não incomoda os anjos caídos. Ele gostava muito das mudanças
sazonais. Se ele não gostasse, ele teria sugerido que a nova Aerie fosse
estabelecida em San Diego, na Califórnia, em vez do oeste de
Massachusetts.

Os anjos caídos de Aerie se foram, mas os Nephilins


permaneceram. Eles deveriam ser os novos protetores de um mundo
repleto de perigos paranormais. Verchiel e seus Poderes ignoraram seu
verdadeiro propósito, optando por concentrar as suas energias em uma
vingança pessoal e não no trabalho que haviam sidos designados a
fazer.

Assim como ele podia sentir o Nephilim emergindo, poderia o anjo


caído também detectar a presença de coisas que não tinham o direito
de estar neste mundo, coisas que desejavam danificar a Terra e seus
habitantes. Era agora a responsabilidade do Nephilim de fazer a
limpeza depois da irresponsabilidade dos Poderes e manter as
criaturas do mundo escolhido de Deus seguro de danos.

Mas havia muito que precisava aprender antes que eles


pudessem assumir uma tarefa tão grande, tanto ele, quanto Aaron, e
Lorelei precisavam ensiná-los.

Eles tinham estado aqui por um pouco mais de seis meses, a


nova Aerie estabelecida como o poleiro de Verchiel e sua laia. Os
Estados de Ravenschild tinham simplesmente se tornados
demasiadamente grandes para o seu menor número. Como os anjos
caídos se foram, este era um momento novo para os Nephilim, uma
nova história à espera de ser forjada para eles como indivíduos, e não
como vítimas de um genocídio perpetrado por Verchiel e seus
anfitriões.
Quanto a ele, Lúcifer olhou para isso como mais um teste de sua
absolvição. Ele iria ajudar a treinar aqueles que iriam proteger o
rebanho humano de Deus, e, finalmente, esperar, e conseguir a
absolvição de seu pecado mais hediondo.

A neve caía agora mais forte, um vento chicoteando a criação de


vórtices rodopiantes de branco que dançavam em torno da extensão do
gramado despenteado na frente dele. Ele podia sentir os pequenos
animais que viviam ao redor da igreja e orfanato, agachados no fundo
de suas tocas, instintos primitivos dizendo-lhes que esta seria a
primeira grande tempestade de inverno, que em breve tudo estaria
coberto por um cobertor frio de gelo branco.

E a partir desta temporada de morte haveria uma de nascimento.

Tudo o que Lúcifer queria era uma chance de pedir desculpas ao


seu Pai, como ele tinha feito aos irmãos que tinham jurado a ele sua
lealdade no céu há muito tempo. Mas ele sabia que a oportunidade
tinha que ser conquistada, e viria a um custo pesado em obras.

O rato em seu ombro sussurrou em seu ouvido. Estava frio e


queria ir para dentro. Lúcifer abrigou o seu amigo pequeno, levando-o
para as portas e para fora da tempestade. Afinal de contas, ainda havia
muito a ser feito para preparar os Nephilim para as tarefas diante dele.

Ele pensou mais uma vez em seus irmãos, se aquecendo


novamente no esplendor da glória do Todo-Poderoso, e ansiava pelo dia
em que ele, também, seria permitido experimentar a Santíssima
Majestade mais uma vez. Foi quando ele sentiu uma pitada de inveja
crescendo na escuridão do interior profundo de sua psique?
Rapidamente ele reprimiu antes que tivesse a chance de ter raiz, antes
que pudesse fazer qualquer movimento. O primeiro dos caídos já teve
mais do que o suficiente do seu amargoso fruto, ciúme.

O preço do perdão era de fato um custo dispendioso, mas era


uma quantia que Lúcifer Morningstar estava disposto a pagar.

Aaron e Gabriel se arrastavam pela neve que se acumulava


rapidamente, em busca do mais novo dos cidadãos de Aerie.

O menino que vivia com eles a não mais do que duas semanas.
Seu nome era Jeremy Fox, e ele tinha vindo de Londres, Inglaterra.
Aaron tinha-o encontrado vivendo nas ruas da cidade, grande e velha,
implorando por comida do Dumpsters. O rapaz parecia ser apenas
mais um exemplo triste de um sistema de saúde mental falho e
desesperado - resmungando e gritando, falando sozinho quando ele
vagou pelas ruas da maior cidade da Inglaterra. Ele não tinha sido
difícil de localizar, o poder do Nephilim era forte dentro dele, e
praticamente gritou para ser encontrado.

Agora Aaron encontrou o jovem por trás da escola abandonada,


no parquinho coberto de neve. Ele estava sentado em cima das barras
do macaco5, os pés balançando desajeitadamente, o topo de sua
cabeça loira e ombros da jaqueta estavam cobertos de neve. Ele não
tinha se adaptado bem, e Lorelei estava preocupada.

— Hey, — Aaron disse quando ele se aproximou.

— Hey. — Gabriel repetiu , não querendo ficar de fora em nada.

5
O jovem permaneceu em silêncio, como se tentando sintonizar o
estranho mundo em que ele tinha vindo viver. Aaron podia simpatizar,
já que não tinha sido há muito tempo em que ele estava no mesmo
quadro de espírito.

Tinha sido Lorelei que o convenceu a ouvir a história contada por


dois americanos, aparentemente loucos, um conto fantástico sobre
anjos tendo relações com as mulheres humanas e os filhos que
nasceram como resultado. Jeremy tinha olhado para eles como se eles
estivessem fora de si, e Aaron estava certo de que ele estava tentando
decidir se eles eram de fato reais ou apenas manifestações da loucura
que tomou conta dele desde seu décimo oitavo aniversário. Eles lhe
disseram que poderiam ajudar, e Aaron tinha visto um olhar de
esperança cautelosa enchendo os olhos do menino.

Tomando isso como um sim, não dando a ele a chance de


recusar, o salvador Nephilim tinha tomado os jovens problemáticos
dentro dos limites de suas asas pretas brilhantes e tinham os
transportado de volta para a segurança da Aerie.

Ele tinha estado aqui desde então, mas não parecia estar se
adaptando a sua nova vida, agarrado a sua humanidade, recusando-se
a aceitar a realidade do que estava se tornando.

— Lorelei está preocupada com você. — Aaron disse, olhando


para o garoto sentado no degrau de cima da barras do macaco. — Ela
pensou que eu deveria encontrar você, apenas no caso de que você
precise falar ou algo assim.
Gabriel cheirou em torno das várias peças de equipamentos do
playground, seu nariz fuçando sulcos nos dois centímetros de neve que
já tinham caído.

O vento de repente bateu, fazendo com que a neve virasse pó à


deriva, fazendo parecer que mais da coisa branca havia caído em
algumas áreas do que em outras. O vento do inverno era cortante, mas
não afetou Aaron como uma vez já afetou. Só mais um privilégio de ser
um Nephilim, ele pensou. Quente ou frio, era tudo a mesma coisa para
eles, perfeitamente adaptável a qualquer tipo de clima no planeta.

Jeremy ficou sem resposta, imóvel em sua vara de metal.

— Acho que não — Aaron disse, colocando as mãos dentro dos


bolsos de sua jaqueta de primavera. — Bem, se você precisar, você
sabe onde eu...

O menino virou-se para olhar para ele, a neve da cabeça


descamando, caindo para o chão abaixo de seus pés pendurados. —
Eles dizem que você é algum tipo de salvador. — ele disse, com
sotaque e cheio de emoção reprimida. — Como isso parece, então?

Era algo que Aaron tentou não pensar muito frequentemente. Ele
sabia que tinha um trabalho a fazer, um propósito e um destino. Mas a
alcunha de ser um salvador era um que ele não vestia
confortavelmente.

Aaron chegou mais perto da selva. — Não acredite em tudo o que


você ouve, — ele disse, casualmente tomando conta de um dos tubos
horizontais em ambas as mãos. — Há muito pouca diferença entre eu e
você — disse ao menino. — Não foi há muito tempo que eu estava
pensando as mesmas coisas que você está pensando agora.
As feições de Jeremy cresceram com raiva, deixando-se cair de
sua cadeira para o chão coberto de neve. Ele veio então para Aaron, o
peito estufado, olhos selvagens. O Nephilim mais velho se manteve
firme.

— E o que eu estou pensando? — Jeremy perguntou em um


assobio. — Use seus poderes de anjo e me diga o que está acontecendo
dentro da minha cabeça, companheiro.

Gabriel tinha vindo ficar ao lado de Aaron, seu nariz coberto de


neve de suas explorações sob a cobertura fria do inverno. — Você não
deve falar com Aaron dessa forma —, o cão alertou, os pelos de sua
pele crescendo em torno de seu pescoço. — Ele está apenas tentando
ajudar.

Aaron estendeu a mão e apertou a lateral do cão em segurança.


— Está tudo bem, Gabe. — ele disse. — Jeremy e eu estamos apenas
conversando. Ele só está um pouco chateado.

O Labrador resmungou alguma coisa e depois se distraiu com um


esquilo, e ele saltou em busca do animal com um latido animado.

— Você quer que eu lhe diga o que está acontecendo na sua


cabeça? — Aaron perguntou ao mais novo Nephilim. — Você está
pensando que o mundo se tornou louco, que tudo o que você sabe,
tudo o que conheceu em toda a sua vida, foi virado de cabeça para
baixo desde o seu último aniversário. — Aaron fez uma pausa. —
Como eu estou indo até agora?

Jeremy fervilhava com uma raiva interior que era muito familiar a
Aaron. — Você não sabe de nada. — o rapaz resmungou, faíscas de
fogo celestial atirando descontroladamente das pontas do seu dedo.
— Você sabe como eu sei disso? — Aaron perguntou. — Porque
eu pensei exatamente as mesmas coisas quando isso me aconteceu,
quando o poder que estava dentro de mim , algo que eu não queria ou
pedi - decidiu levar a minha vida normal para longe de mim. — Aaron
colocou uma de suas mãos sobre o peito, seu olhar nunca deixando de
Jeremy. — Eu pensei exatamente as mesmas coisas.

A raiva do menino parecia escorrer, como se ele de repente já não


fosse forte o suficiente para segurá-lo. Isso deslizou para longe dele, e
ele pareceu diminuir de tamanho, a raiva que estava sentindo sobre o
que sua vida tinha se tornado, aparentemente tudo o que estava
sustentando-o. — Eu não sei quanto tempo mais eu posso lutar contra
isso. — Jeremy disse pateticamente, a neve derretendo sobre o seu
rosto, misturando-se livremente com as lágrimas quentes que agora
caiam de seus olhos. — Eu posso sentir isso dentro de mim,
arranhando para sair.

— Você não tem que lutar contra isso — Aaron disse a ele. — É
por isso que estamos aqui: para aprender sobre o que você realmente é
- para aprender sobre o seu destino.

O menino riu, então, enxugando a umidade do rosto e bufando.


— Destino? — ele perguntou. — Não sabia que eu tinha um desses.

— Aposto que há muita coisa que você não sabe sobre você
mesmo. — Aaron disse. — Vamos ensinar a você.

Às vezes, ele usava isso neles.


Aaron pegou um punhado de neve fresca e começou a fazer uma
bola de neve. — É disso que se trata. — ele alertou . A última queda de
neve tinha sido misturada com a chuva, criando uma mistura
lamacenta perfeita para bolas de neve.

Em toda a extensão do gramado, Gabriel se agachou. — Eu estou


pronto. — ele rosnou.

Na maioria das vezes nestes dias, Aaron sentia quando Gabriel


naquele momento ficou tenso, pronto para confrontar o último
obstáculo adiante.

Ele deixou a bola de neve voar, e quando ela caiu, Gabriel saltou
para o ar para capturá-la na boca. — Boa pegada, rapaz — Aaron
disse, batendo palmas e elogiando o animal por suas habilidades.

Gabriel começou a comer a bola de neve, esmagando-a sobre a


neve firme, pedaços caindo pelos lados de sua boca enquanto
mastigava. — Faça outra. — pediu o labrador entre as mastigadas.

Era tão fácil ser pego no fluxo das coisas, para se tornar o líder
supremo, o peso do mundo sobre seus ombros. Ele precisava de
momentos como este para se lembrar de que havia mais na vida do
que ser o líder dos Nephilins.

Gabriel tinha acabado o seu lanche gelado e estava esperando


para o próximo, o rabo abanando feliz. — Vamos, Aaron. — pediu o
cão. — Jogue outro.
Ele agachou-se e pegou um pouco mais do material branco
molhado. — Você nunca vai ser capaz de pegar um desse. — ele disse
em um aviso falso, deixando o seu melhor amigo ainda mais animado.

Aaron sabia que se tratava de uma grande responsabilidade, que


a proteção do mundo fora colocados em suas mãos e nas mãos de
outros como ele. Era para ele ter certeza de que eles estavam prontos
para esta tarefa, uma tarefa difícil, sim, mas que ele era mais do que
capaz de realizar.

— Lá vai — ele alertou ao animal, e jogou a bola de neve tão duro


quanto podia para o ar em um arco, observando quando começou a
sua descida. Gabriel correu pela neve em busca, com os olhos
despencando no prêmio.

Era a vida que ele teria escolhido para si mesmo? Não, não é um
acaso, mas ele já não se ressentia do destino que havia sido imposta a
ele sem a menor cerimônia. Era o seu destino, e ele tinha aprendido a
aceitá-lo como tal.

Gabriel voltou para ele, agarrando a bola de neve em sua boca, e


ele caiu a seus pés.

— O que, isto não tem um gosto tão bom? — ele perguntou ao


cão.

— Eu estou cheio. — disse Gabriel, decidindo se deitar na neve e


rolar nas costas. Aaron riu das palhaçadas do seu cão, chutando a
neve sobre a barriga exposta cor de rosa do animal.

Ambos sentiram-no no ar, uma ruptura familiar antes da chegada


de um Nephilim, e reconheceu-o como alguém especial.
— Ela está vindo. — Gabriel disse animadamente enquanto ele
caminhava para seus pés, sacudindo a neve de sua pele quando Aaron
esquadrinhou o espaço aberto diante dele, para os sinais de sua
chegada.

Não mais de cinco metros de distância do ar começou a brilhar e


ondular, uma mais escura mancha começando a se formar em seu
centro. Gabriel começou a latir alegremente, abanando o rabo como
um louco. Aaron às vezes se perguntou quem a amava mais.

Vilma Santiago surgiu a partir do éter, suas asas brancas cor de


neve recentemente caídas, no espaço ao seu redor. Foi incrível o quão
longe ela avançou em um período tão curto de tempo. Ela, também,
tem vindo a aceitar com a sua idade, abraçando a natureza angélica
dentro dela.

Gabriel mal podia se conter, galopando através da neve para vê-


la. — Aqui Vilma! — disse uma e outra vez, e ela ajoelhou-se para
aceitar suas afeições excitadas. Ela parecia tão feliz em vê-lo.

Fazia alguns dias desde que eles tinham visto um ao outro, ela
estava se preparando para iniciar as aulas em uma faculdade próxima,
na primavera e gradualmente convencendo a tia e o tio a aceitar o fato
de que ela estava indo para a escola. Vilma Santiago estava assumindo
o controle de sua vida, e Aaron estava muito orgulhoso.

Não muito tempo depois que os caídos de Aerie foram perdoados,


ela voltou para Lynn, para a sua tia e tio. Ele adivinhou que tinha sido
difícil, a sua relação estava tensa agora por sua saída abrupta de casa,
eles tinham sido relutantes em aceitar a explicação de que ela
precisava de algum tempo longe para encontrar a si mesma. Aaron riu
com o pensamento. Ela certamente fez isso.

Vilma terminou de alisar o animado Labrador com carinho e


seguiu para Aaron, um sorriso malicioso no rosto. Ele observou
quando suas belas asas recuaram de costas, apenas a menor
expressão de desconforto em suas características.

— Senti sua falta. — ela disse, inclinando-se para plantar um


grande beijo em seus lábios.

Ele a encontrou a meio caminho, seus próprios lábios


ansiosamente pressionados contra os dela. Os dois se abraçaram, e ele
tinha certeza de que não havia nada para se sentir melhor do que tê-la
em seus braços. Se houvesse, ele não se lembrava.

Ao voltar para Lynn, ela entrou em contato com o


superintendente da escola e tinha trabalhado com ele e seus
professores para compensar as finais e os projetos que ela tinha
perdido com a sua ausência repentina. No último momento ela havia
completado os requisitos necessários e recebeu seu diploma de ensino
médio com honras, ainda que sem a pompa e circunstância de uma
cerimônia de formatura, mas Vilma tinha o que ela precisava para
continuar o seu sonho de um diploma universitário.

Talvez eu complete as minhas próprias exigências do ensino


médio, um dia, ele pensou quando segurou a jovem mulher que ele
amava e respeitava muito. Mas se não o fizesse, estaria bem assim,
pois ele tinha certeza de que a vida tinha outras coisas para mostrar a
ele.
Gabriel tentou apertar a sua cabeça entre o seu abraço. — Oi,
lembra de mim? — perguntou o cão, muitas vezes como uma fome
voraz por afeto como quando ele tinha para comer.

Vilma riu, um som leve e arejado que Aaron aprendeu a adorar, e


abaixou-se para abraçar o animal também. — Como poderíamos
esquecer de você, Gabriel? — Ela perguntou com um olhar de horror.

— Eu sei. — respondeu o labrador, aceitando as suas atenções


adicionais. — Eu sou muito especial.

— Ai está você, meu amigo, — Aaron disse quando ele pegou a


mão de Vilma na sua e começou a levá-la para a sua nova casa dentro
do velho orfanato.

— E como está tudo aqui? — ela perguntou, caminhando ao seu


lado através da neve.

— Está tudo bem, — ele respondeu a ela, — especialmente agora


que você está aqui. — E ele deu-lhe um aperto gentil na mão para
salientar o quão feliz ele estava por estar com ela.

Vilma respondeu na mesma moeda, com um sorriso que era


magia pura. Ele duvidava que Lorelei pudesse convocar algo tão
poderoso.

Aaron precisava de momentos como este, isso o ajudava a colocar


tudo em perspectiva.

— Quando vocês dois vão ter bebês? — Gabriel de repente entrou


na conversa, com um olhar de seriedade sobre suas características
caninas.
Eles foram completamente pegos de surpresa com a pergunta, e
Aaron sentiu uma onda de vergonha aflorar sobre suas bochechas.
Vilma foi um pouco melhor do que ele, cobrindo a boca para rir.
Gabriel não se importava em ser ridicularizado. O cão esperava por
sua resposta. Ela não tinha ideia do que fazer com a pergunta, mas
Aaron suspeitava que tinha algo a ver com o que o último dos Malakim
tinha dito a ele, antes que ele fosse tomado por Verchiel.

— Posso ser o primeiro a dizer que seus filhos vão ser


absolutamente magníficos. — o anjo feiticeiro havia dito em que lugar
estranho entre os mundos.

Lehash tinha dito que um Malakim tinha a capacidade de olhar


para o futuro, e tinha visto que ele e Vilma teriam filhos – filhos
magníficos. Aaron nunca havia se preocupado em compartilhar esta
informação, não querendo pressioná-la em seu relacionamento de
alguma forma.

— De onde é que isso veio?— Vilma perguntou ao cão.

— Só por curiosidade. — Gabriel respondeu. — Estou certo que


seriam magníficos.

Aaron sentiu o olhar dela sobre ele, quando eles chegaram à


entrada que iria levá-los para dentro do prédio.

— E o que você acha, o Sr. Corbet? — Ela perguntou quando ele


estendeu a mão para puxar a porta. — Eles serão?

Ele segurou a porta contra as costas dele, permitindo-lhe a


entrada antes dele. Vilma esperou dentro, de braços cruzados, quando
ele deixou a porta bater se fechando atrás dele.
— Bem? — ela repreendeu.

— Sim. — ele disse a ela, um sorriso em seu rosto que ele não
podia controlar. Quando eles decidirem dar o próximo passo, para se
casar e, eventualmente, ter filhos, ele sabia que seria a coisa mais
incrível de sua vida. Ter uma família com ela era algo para se olhar
mais para frente.

Algo para o futuro.

— Sim, eles irão certamente ser magníficos — disse a ela.

Até então, ainda havia muito que precisava ser feito.

FIM.
Continua em:

VITÓRIA é passageira, mas a derrota é ETERNA.

A guerra entre Céu e inferno chega à Aaron, metade humano e metade anjo, que

comanda os Caídos em sua busca de proteger a humanidade. Mas a força do mal ganha

forças em cada turno. E escondidos em algum lugar nas sombras está o instrumento do

Arcanjo Gabriel com o poder de invocar o Fim dos Dias ...

Aaron ganha a confiança da garota que ele ama enquanto se esforça para fazer as

pazes com o seu legado como o filho de Lúcifer. Estes são tempos de desespero, e Aaron

sabe que Os Caídos precisam forjar novas alianças improváveis para sobreviver.

Com o destino do mundo na balança, Aaron vai parar por nada para defender a

civilização e a garota que tem o seu coração. Mesmo que isso signifique enfrentar os

demônios mais sombrios do inferno.


Tradutores

Dayane

Kelli

Juju

Lily

Lud

Revisores
Lud, Leidy