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Leonardo da Vinci

Um Estudo

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Leonardo da Vinci

Introduçao

O presente trabalho constitui.


O=Ponto 2
Leonardo da Vinci

Enquadramento Historico

Convidamos o leitor a embarcar connosco na nossa nave imaginária. Vamos atravessar


o túnel do tempo com o seguinte destino: período da Renascença. Sente-se, relaxe e desfrute
da viagem. Veja o nosso planeta de cima, a Idade Média a ficar para trás e veja uma nova luz
brilha sobre o nosso mundo. Uma nova época da nossa história começa. É o Renascimento!
(REVER TEXTO INICIAL!!!!)

… Chegamos… dia 15 de Abril de 1452, cidade de Vinci, Itália, perto dos montes Albanos, entre
as cidades de Florença e de Pisa. Data esta marcado pelo nascimento de um homem, por
muitos considerado, um génio. Filho de Ser Piero, um respeitável notário, e de uma
camponesa, Caterina. O seu nome Leonardo da Vinci.

Falamos do maior vulto do Renascimento. Da Vinci foi pintor, escultor, arquitecto, engenheiro,
cientista, inventor, astrónomo, anatomista, músico, geólogo e escritor. A sua arte influencia
toda a história da pintura, supera o pensamento medieval, dominado por dogmas religiosos, e
coloca o Homem no centro da criação. Defende a supremacia da pintura sobre todas as outras
artes, por ser a única forma indispensável à exploração científica da natureza.

Como uma grande mente que é, na sua passagem pela face da Terra, deu um enorme
contributo para o estudo da evolução deixando mais de 4000 manuscritos (não se tem
exactidão desse número), muito complexos de se entender, uma vez que, por ser esquerdino,
escrevia da direita para a esquerda, de modo que a leitura do texto apenas era possível diante
de um espelho.

Renascença e Humanismo

Joel Mata

A ciência moderna tem-se tornado cada vez mais reticente à periodização clássica da
história, quanto à divisão histórica em geral e dos processos históricos em particular.

O Renascimento é um período de revivescência das artes e das letras sob a influência


dos modelos clássicos que começou na Itália do século XV e acabaria por se consolidar na
primeira metade do século subsequente.´
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Leonardo da Vinci

O problema do Renascimento tornou-se uma das questões mais acaloradas da


historiografia contemporânea.

O Renascimento é, para todos efeitos, o período cultural mais célebre e paralelo à


revivescência do passado clássico.

Já na Idade Média surgiram várias revivescências intelectuais que partilharam das


mesmas características do movimento do século XVI.

Por outro lado, não há uma linha delimitativa entre a cultura medieval e a cultura
renascentista, daí a tripla questão que pretende responder à tríplice interrogativa: Onde?
Quando? Como?

Podemos afirmar que estamos perante duas escolas sobre o fenómeno do


Renascimento.

A primeira pretende saber se terá existido algum movimento chamado Renascimento


que teria certamente começado na “Itália”, na primeira metade do século XIV, alargado as
suas tendências classizantes às artes visuais no século XVI para finalmente deixar a sua marca
em todas as actividades no resto da Europa, no século XVI.

A segunda pretende saber se, provada a existência de um certo Renascimento como é


descrito, que poderá distingui-lo de todos os outros movimentos de revivescência ocorridos,
ao longo da Idade Média?

Estas revivescências podem ser diferenciadas entre si apenas por uma questão de grau
ou também por uma questão de estrutura?

Hoje não se vê mais a Renascença como uma ruptura brutal com a época
medieval, mas o resulta de uma lenta evolução que mergulha as suas raízes na Idade
Média. Alguns como Burckhardt, Sapori ou Delumeau, situam os começos da
Renascença a partir do despertar da vida urbana, no século XIII e, no mesmo, na
centúria precedente. A maioria dos historiadores constrangidos pela necessidade de
escolher uma incisão entre épocas tão caracterizadas como a Idade Média e os
Temos Modernos, ao afirmarem que a Renascença despertou muito cedo, não apenas
na península itálica mas também em grande parte da Europa Ocidental, prendem-se à
periodização tradicional que assinala, pelo menos, a maturidade da Renascença na
península itálica.
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Leonardo da Vinci

Os homens do século XVI só adoptaram bastante tardiamente o termo


“renascença”, empregado pelos teólogos do século XV com o sentido de renascença
da alma para a vida pela graça e pelos sacramentos que apagam o pecado. O
primeiro, ao que parece, que ousou dar a esta palavra um sentido mais terreno foi o
arquitecto italiano, Giorgio Vasari. Em 1550, fala de renascença das artes e, de facto,
estende o sentido desta expressão a toda a civilização. Entretanto, não se havia
esperado essa data para se tomar consciência da mudança operada nos espíritos e
nas expressões literárias e artísticas. Escreve Marsilio Ficino, no fim do século XV: “O
nosso século, como uma idade de ouro, trouxe à luz as artes liberais que estavam
extintas”. Tal sentimento existia, na “Itália” sobretudo, onde os letrados se
acreditavam, ao contrário dos povos bárbaros do Norte, os únicos capazes de
reencontrarem o pensamento dos Antigos. E é este, com efeito, o sentido mais
popularizado do termo Renascença; esse rejuvenescimento pretende-se um retorno
ao pensamento e às formas de expressão da Antiguidade.

A Renascença não pode ser dissociada do Humanismo, que situa o Homem no


centro das preocupações espirituais e dos estudos. “O Humanismo é um
empreendimento de reforma intelectual e moral que pode ser resumida numa fórmula:
a criação do mais alto tipo de humanidade” (A. Renaudet). O humanismo é optimista.
Contrariamente ao que pensavam Burckhardt e Michelet, ele não opõe
necessariamente ao Cristianismo. Para o humanista, no fundo da alma humana
encontra-se Deus. Reencontra-se assim a filosofia antiga, e Erasmo escreveu: “São
Sócrates orai por nós.”

Já não tentara São Tomás de Aquino conciliar o sistema de crença cristão com
a cultura antiga que a Idade Média considerava “como um legado cujo valor não
desejava rebaixar” (R. Mousnier)? Todavia o sufoco das formas de pensamento
Escolástico e o esclerosamento dos estudos universitários explicam o menosprezo dos
humanistas para com o período precedente e justificam a impressão que eles tiveram
de renovação do pensamento. À margem da vida universitária languescente, produziu-
se uma efervescência intelectual alimentada por novas exigências do espírito. Embora
criando, por sua vez, conformismos novos, como o culto da Antiguidade, o humanismo
teve um aspecto individualista. Este carácter marcará a vida intelectual e espiritual do
século XVI. “O humanismo, consciência da Renascença (A. Renaudet), devia também
participar no grande movimento de reforma religiosa do século XVI, antes de afundar
pouco a pouco nas areias movediças das controvérsias”.
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Leonardo da Vinci

Parte Cláudia

O Humanismo na Antiguidade
Sócrates

As primeiras referência a filosofias semelhantes ao Humanismo surgem na Antiguidade,


no turbilhão de ideias produzido pelos filósofos da Grécia Antiga. Foi com eles que pela
primeira vez no mundo ocidental se tentaram encontrar explicações racionais para o
mundo que nos rodeia, sem ter como base a religião e a superstição.

Sócrates, condenado à morte em 399 a.C., por colocar em causa os deuses oficiais e
sendo por isso acusado de corromper a juventude, foi talvez o primeiro Humanista
famoso, apesar de ainda não ser conhecida tal palavra. A convicção nas suas ideias era
tanta, que se recusou a pedir misericórdia pelos seus actos, sendo por isso obrigado a
suicidar-se com cicuta.

Sócrates baseava a suas ideias nos problemas humanos, tentando descortinar qual o
modo de vida ideal para o homem. Acerca dele alguém disse que "fazia a filosofia
descer do céu à terra, alojava-a nas cidades e trazia-a para dentro dos lares, obrigando as
pessoas a pensar acerca da vida e da moral, acerca do bem e do mal".

Para Sócrates, a virtude identificava-se com o saber e o homem só agia mal por
ignorância. Ao contrário dos sofistas, ele considerava que a capacidade de distinguir o
certo do errado estava na razão das pessoas e não na sociedade.

Sócrates acreditava também que a busca incessante pelo conhecimento era vital, sendo
dele a célebre frase "Só sei que nada sei". Apesar de ter noção da sua ignorância, foi dos
primeiros a afirmar que era possível ao homem alcançar verdades absolutas sobre o
Universo e que a base para a aquisição de conhecimento era a razão.

Na sua época, as afirmações de Sócrates eram fortíssimas, tal como era forte a sua
capacidade de argumentação, que fazia os mais convictos reconhecer que estavam
errados e chegar por si próprios a novas conclusões. Apesar de não nos ter deixado
nenhum registo escrito das suas ideias, só conhecemos dele o que nos chegou via outros
filósofos, nomeadamente Platão, a sua influência sente-se até aos dias de hoje.

Os Estóicos

Também o estoicismo, movimento que surgiu por volta de 300 a.C. em Atenas, mas que
influenciou a cultura romana até cerca de 200 d.C., fez contribuições importantes para o
Humanismo, nomeadamente em termos da moral, da importância do raciocínio para o
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conhecimento da natureza, dos princípios de entreajuda entre os indivíduos e do valor


de levarmos uma vida feliz.

Os estóicos afirmavam que a procura de uma moral devia ser feita observando a
natureza. Com essa observação poderíamos encontrar a justiça universal, que está
presente nas leis naturais e que seria compreensível por todos os homens, sendo as leis
humanas uma pálida imitação da lei natural.

O conceito de Humanismo, como conceito onde o homem ocupa um ponto central em


termos filosóficos, foi pela primeira fez referido por Cícero, um estóico, que pronunciou
a célebre frase humanista "para a humanidade, a humanidade é sagrada".

Os estóicos eram cosmopolitas, integrando-se na sociedade do seu tempo e


preocupando-se com o bem comum, tendo sido inclusivamente os primeiros, no mundo
ocidental, a criar instituições de caridade para os pobres e doentes.

Em resumo, podemos afirmar que os humanistas da Antiguidade:

 Concentravam-se nos seres humanos;


 Aceitavam a razão do homem como a base de toda a percepção;
 Acreditavam na existência de uma ordem universal;
 Acreditavam numa lei natural que se aplicava a todos os seres humanos.

O Humanismo no Renascimento
Após a idade média, surge no século XIV, como força contrária ao obscurantismo
introduzido na Europa pelos excessos do Cristianismo e da Igreja Católica, o
Renascimento. O Humanismo do Renascimento constituiu um ponto de viragem nas
preocupações com as falsas imoralidades e colocou a ênfase na importância da se viver
a vida com prazer. Foi também um período em que as artes e o conhecimento
floresceram e que a Europa progrediu em termos civilizacionais, recuperando do seu
atraso relativamente a outras partes do mundo.

Leonardo da Vinci

Como um exemplo de um homem do Renascimento, podemos apresentar Leonardo da


Vinci. Jovem, com apenas 17 anos, viajou em 1469 para Florença, núcleo do
Renascimento. Nesta cidade, energeticamente, envolveu-se em todas as áreas da arte, da
cultura e da ciência. Interessou-se pelo estudo da natureza e dos processos naturais,
dando a sua atenção a assuntos tão distintos como o movimento da água, o sistema
circulatório humano, o feto no ventre da mãe e as fibras e pétalas das plantas. Não
bastando isto, tornou-se inventor, descobrindo princípios que ainda hoje são utilizados
em muitas das nossas máquinas.
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Leonardo da Vinci

Foi também um estudioso do homem. Criando estudos, esboços e pinturas geniais que
denunciam uma grande sensibilidade pela beleza da forma humana. Com as suas obras
ajudou também a quebrar um tabu de quase mil anos na Europa: a representação do nu.
O seu fascínio pelo ser humano pode ser observado nas suas pinturas, onde os seres
humanos têm um forte carácter e personalidade, como por exemplo na Mona Lisa, na
Mulher com Arminho ou na Última Ceia.

As ideias do Humanismo Renascentista

A Renascença representou o renascimento do Humanismo da Antiguidade. Em busca de


filosofias e moralidades alternativas às cristãs, que tinham sido universais durante a
Idade Média, os humanistas da Renascença estudaram as obras produzidas na
Antiguidade Grega e Romana.

Na Renascença tornou-se uma obsessão o regresso ao passado clássico, à sua arte e


cultura, o que influenciou fortemente a educação que passou a incluir o estudo do
Humanismo. Este foi também o período em que a Europa iniciou a sua longa caminhada
para a secularização, que conduziria ao afastamento da Igreja dos caminhos do poder.

O Renascimento viu nascer o método empírico, método esse que é usado pela Ciência
até aos nossos dias e que foi fundamental para dar credibilidade à Ciência.

Podemos afirmar que o Renascimento contribui para a filosofia da época com:

 Uma nova atitude em relação à humanidade;


 Uma grande vitalidade intelectual;
 Uma nova visão do mundo natural;
 Um novo método científico que retirou à religião o controle do conhecimento;
 A importância de apreciar a vida ao máximo.

LEONARDO DA VINCI:

UM GÉNIO UNIVERSAL

MARIA DE JESUS MARTINS DA FONSECA*


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Leonardo da Vinci

1. INTRODUÇÃO

Embora maior parte da sua vida decorra no século XV, Leonardo (1452-1519) é,
contudo, homem típico do Renascimento, pela genialidade dos projectos em que se
empenhou, pela diversidade das suas áreas de interesse, pela sua personalidade
multifacetada. Esta caracteriza-se pela inquietude e irrequietude que o levam a mudar
continuamente de projectos (tantos e diversos são os seus interesses e a sua ânsia do
novo), a deixá-los inacabados, e, enfim,, pela sua exigência, senão mesmo obsessão, de
perfeição.

Leonardo da Vinci é, sobretudo, um homem radicalmente interessado em todos os


campos do saber e do conhecimento. E se fundamentalmente é conhecido como pintor -
um dos maiores pintores de todos os tempos - e, por isso, tem um lugar garantido e de
destaque numa história de arte - é igualmente verdade que, neste campo, também se
dedicou à escultura (embora todas as suas obras de escultura se tenham perdido) e à
arquitectura.

Igualmente se interessou pela engenharia, designadamente pela engenharia militar,


campo no qual inventa uma enorme quantidade de maquinaria, desde as famosa
máquinas voadoras, cujos desenhos todos conhecemos, aos carros de assalto e aos
submersíveis.

A sua obra científica é espantosa e imensa. Faz estudos de matemática, de física -


sobretudo nas áreas da hidráulica e da óptica - e de anatomia, cujos desenhos são
famosos e revelam conhecimentos com um século de avanço. Ainda hoje, as suas notas,
desenhos e ilustrações nestes domínios podem ser consultados no chamado Codex
Atlanticus na Biblioteca Ambrosiana de Milão (1).
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Leonardo da Vinci

O seu interesse vital parece Ter sido, portanto, a investigação científica. Por esta
diversificação de áreas de interesse e pela sua genialidade em todas elas, Leonardo
transcende em muito os limites de uma história da arte para poder ser considerado uma
figura pertencente à história da cultura, à história do espírito humano e das suas
realizações ou, pelo menos, das suas ambições.

2. LEONARDO E O SEU TEMPO

Leonardo vive um tempo histórico que sem define a si mesmo como um tempo de
Renascimento. E entende Renascimento, no seu significado literal, como re-nascença do
homem, nascimento, outra vez, do homem,, de um homem novo e renovado (por
oposição ao homem medieval). Nascimento ou, mais precisamente, re-nascimento do
homem para o homem, para uma vida autenticamente humana, porque fundada naquilo
que o homem tem de mais seu: as artes, a instrução, a investigação, e que fazem dele um
ser diferente de todos os outros. Enfim, regresso do homem a si mesmo, regresso do
homem à sua dimensão humana. Para que o homem se possa reencontrar a si mesmo
como homem, o renascimento aponta como caminho o "regresso às origens", o
"regresso às fontes". As fontes originais encontram-se na Antiguidade Clássica e nas
suas produções culturais. O que devia renascer eram, portanto, a arte e a cultura
clássicas e, através delas, o homem.

A Idade Média aparece, aos olhos dos renascentistas, apenas como "uma longa noite de
mil anos", uma época de trevas e de obscurantismo, um tempo em que o homem,
totalmente esquecido de si, morre para fazer viver Deus e, por isso, uma época a
esquecer, um interregno na vida do homem - eis porque lhe chamaram Idade Média, isto
é, uma idade que medeia, que está entre parêntesis e que é um parêntesis na vida e na
história do homem, época de sono em que o homem adormeceu. Após a longa Idade
Média trata-se, agora, de re-acordar o homem, de re-começar a partir do ponto em que a
vida foi interrompida pelo sono, de re-nascer. E esse ponto original, brutalmente
interrompido pela medievalidade, essas fontes esquecidas, encontram-se na clara
luminosidade da época clássica, na Antiguidade grega e latina, sobretudo nos textos que
produziu. Conhecer em primeira mão os textos clássicos e os autores clássicos, ler, no
original, - em grego e em latim - os textos que esses autores escreveram, beber a cultura
original. Exige-se, pois, uma leitura directa dos grandes autores clássicos, recusando os
processos medievais do conhecimento através de comentários e de comentários de
comentários... E eis o traço mais característico do Renascimento: o Humanismo.

O humanismo renascentista é também um humanismo muito mais individualista que o


da época clássica. Não somos apenas homens, com algo comum a todos os homens,
somos também indivíduos, com algo único. Esta ideia deu origem, no Renascimento, a
uma veneração do génio . O ideal de homem, e todas as épocas o têm, é precisamente
aquilo a que hoje chamamos o homem renascentista , isto é, um homem que se ocupa e
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Leonardo da Vinci

se interessa por todos os domínios da vida, da arte e da ciência, um homem a que nada
do que é humano pode ser alheio. E, neste aspecto, Leonardo da Vinci, é o homem
típico do Renascimento porque, mais que em nenhuma outra personalidade, nele se
realiza esse ideal.

O Humanismo, considerado como o traço dominante do Renascimento, permite


caracterizar esta época como uma época de antropocentrismo - por oposição ao
teocentrismo medieval. Mas a tese central do humanismo encontra-se na ideia
pedagógica de que o estudo das disciplinas humanísticas - gramática, retórica, dialéctica
- (aquilo a que se veio a chamar trivium e constituía o cerne das Artes Liberais), aquelas
que,, segundo os clássicos, proporcionavam uma formação humanistíca, porque só elas
desenvolviam o homem nas suas qualidades mais intrinsecamente humanas, eram
imprescindíveis para formar o homem. Isto é, o homem não nasce simplesmente
homem, ele forma-se como homem precisamente pelo conhecimento daquilo que o
próprio homem produz e reconhece como produção própria sua, como produção mais
especificamente humana: as letras, as humanae literae ou studia humanitatis ( que só
elas autenticamente espelham o homem ) e que são distintos dos estudos teológicos. Por
isso só a educação constrói e forma o homem como homem. A herança clássica
revisitada era, pois, instrumento de educação, isto é, de formação humana; claro retorno
ao ideal grego de Paideia, que os latinos tão bem traduziram por humanitas. Por isso, o
Humanismo é, essencialmente, uma revolução pedagógica.

O regresso às origens a que se apela, entendido desta forma, traz consigo a exigência
filológica, tão característica dos humanistas, obrigando a um estudo rigoroso dos textos
originais, que visava, antes de mais, estabelecer o sentido autêntico desses textos.

O Renascimento e o Humanismo trouxeram, pois, uma nova concepção de homem,


onde pontifica a confiança no seu poder e no seu valor, em contraste com a Idade
Média, que apenas considerara o homem como ser decaído e originalmente pecaminoso.
São eco desta nova concepção de homem Marcilio Ficino ou Picco della Mirandola que
escreve a oração "Da dignidade do homem" (Oratio de Hominis Dignitate). Esta oração
constituía o discurso inaugural com que Pico della Mirandola abriria o "congresso" de
todos os grandes sábios, a realizar em Roma, por ele organizado, mas que não chegou a
Ter lugar devido à condenação das suas teses. Este discurso é, de qualquer forma, um
dos mais belos hinos que jamais se escreveram em glória do homem, do seu poder, da
confiança em si próprio. " Não te dei, Adão, nem um lugar determinado, nem um
aspecto próprio, nem qualquer prerrogativa especificamente tua, para que o lugar, o
aspecto e a prerrogativa que desejares os obtenhas e conserves segundo a tua vontade e
o teu parecer. A natureza limitada dos outros está contida dentro de leis por mim
prescritas. A tua determiná-la-ás tu, sem ser constrangido por nenhuma barreira, de
acordo com o teu arbítrio, a cujo poder te submeterás. Coloquei-te no meio do mundo,
para que de lá melhor descubras o que há no mundo. Não te fiz celeste nem terreno,
mortal nem imortal, para que por ti próprio, como livre e soberano artífice, te plasmes e
te esculpas na forma que previamente escolheres. Poderás degenerar nas coisas
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Leonardo da Vinci

inferiores que são rudes; poderás, segundo a tua vontade, regenerar-te nas coisas
superiores que são divinas." (Picco della Mirandola cit. Por ANDRÉ, 1987-25). Trata-se
de um discurso, metaforicamente dirigido por Deus ao homem, no qual o homem
claramente aparece como criador do seu próprio destino. " Ao homem, Deus concedeu
esta condição paradoxal: a de não Ter condição; este limite: o de não Ter limite; esta
clausura: a de estar aberto a tudo; este absurdo contraditório: o de ser posto como
autopondo-se a si próprio " (Garin cit. Por ANDRÉ, 1987:25-26). E daqui conclui João
Maria André " ora é precisamente aqui que radica a tragicidade do homem
renascentista: ao rebelar-se contra Deus, o homem constitui-se como homem mas como
homem se perde; em contrapartida, a unir-se a Deus, salva-se o homem, é certo, mas
como homem se aniquila. É, assim, no Renascimento que Fausto verdadeiramente
começa." (ANDRÉ, 1987:26).

A nova imagem do homem leva também a uma concepção totalmente nova da vida. O
homem não existia apenas em função de Deus, mas também, , e sobretudo, em função
de si próprio. O homem tinha possibilidades ilimitadas, porque era livre!

Nova concepção de homem, nova concepção de vida e, claro, uma nova concepção de
mundo e de natureza (2). Viver já não era apenas uma preparação para a vida extra-
terrena, viver valia por si mesmo. O mundo não era uma passagem para um outro
mundo, mas adquire um valor intrínseco. Deus não era exterior à natureza mas estava
presente na sua criação e esta era manifestação Sua. Para alguns, Deus era a própria
natureza - Panteísmo. Numa outra concepção, que também vigora do renascimento,
Deus criara o mundo e dotara-o de autonomia. Logo, o mundo tinha leis próprias, era
independente do seu criador e valia por si mesmo. Outras características desta
cosmovisão são a naturalização do mundo e da natureza, como entidades já não divinas,
mas naturais , não sobrenaturais mas possuidores de naturalidade , de valor mundano e
secular. Descobre-se, ainda, a historicidade, a dimensão temporal e histórica do mundo
e do homem. E o homem, ser terreno e mundano, ser natural e histórico, inserido no
mundo da natureza e da história, é capaz de neles forjar o seu próprio destino. Porque
ser mundano e natural, assistimos à revalorização do corpo. Porque ser autónomo, há
revalorização da razão, entendida a gora como a capacidade natural do homem que lhe
possibilita pensar por si mesmo e conduzir-se a si mesmo, contrariamente ao homem
medieval, guiado pela fé, pela Igreja, pela Autoridade, fosse ela quem fosse.

Naturalidade do homem e do mundo, confiança na razão, permitem ao homem do


renascimento considerar que pode conhecer a natureza com as forças da sua própria
razão. O resultado último do naturalismo do renascimento é, pois, a ciência.

3. A FILOSOFIA NO TEMPO DO RENASCIMENTO E DO HUMANISMO -


BREVE NOTA OU A FILOSOFIA NO TEMPO DE LEONARDO

Da crise da Escolástica até aos começos do século XVII, a Filosofia Ocidental não nos
oferece grandes produtos originais de relevo. O que não é de espantar pois que se vive
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Leonardo da Vinci

um tempo em que germinam e fervilham muitas ideias que não têm oportunidade de
maturar e muito menos de se organizar e sistematizar. Aliás, tratava-se, antes de mais,
de se libertar das concepções e da mentalidade medievais, , refrescando-se com a leitura
dos autores clássicos. Por isso, se considera vulgarmente que os humanistas são
filólogos, mais que filósofos. Existe também desconfiança face a tudo o que é abstracto,
demasiado especulativo, desligado da fecundidade da experiência. Para além disso,
considerava-se que a Idade Média nada tinha produzido em temos de autênticos e
efectivos conhecimentos, tendo-se limitado a comentar, sem originalidade, o
pensamento dos autores antigos que, ainda por cima, eram conhecidos, não a partir da
leitura directa dos textos, mas através dos comentários que alguns autores medievais
tinham feito a esses textos, designadamente Boécio. A alta Idade Média conhece o
Platonismo, mas em Segunda mão. E a tentativa dos pensadores medievais consiste em
adaptar o Platonismo ao Cristianismo, cristianizar Platão, ajustando-o à nova concepção
cristã. E, indubitavelmente, a síntese augustiniana é a mais conseguida. A Segunda
metade da Idade Média conhece Aristóteles através de Avicena e Averróis. Trata-se
agora, na baixa Idade Média, de encontrar a síntese entre o Aristotelismo e o
Cristianismo e a mais conseguida encontra-se na Sumae Theologica de S. Tomás de
Aquino. Dito de outro modo, a grande ambição da filosofia medieval tinha sido a de
conciliar a filosofia com a religião cristã, conciliar a razão e a fé, conciliar as verdades
da razão (filosóficas) com as verdades da fé (os dogmas do cristianismo). Ou seja, em
termos de conhecimentos efectivos a Idade Média nada tinha avançado, até porque todo
o esforço que fez de "cristianizar os autores antigos" foi imperfeito, limitado, artificial.
E inútil, pois que se tentou conciliar o inconciliável. Para além disso, a reflexão
medieval, mais que filosófica, é predominantemente teológica. No fundo, não se tratou
de uma filosofia autêntica, mas de uma não-filosofia, já que a fé se sobrepunha sempre à
razão. A fé impunha os temas, a fé guiava a razão no seu trabalho, a fé antecipava
verdades a que a razão sozinha nunca poderia chegar, sempre que houvesse contradição
entre a fé e a razão, a verdade estava, evidentemente, do lado da fé. Por isso, o
Renascimento separará filosofia e Teologia, razão e fé, o homem e Deus. Reconhecendo
embora a transcendência divina, os renascentistas consideram que a razão não é o
instrumento adequado para conhecer Deus, e que, porventura, Deus é incognoscível (o
Renascimento defenderá, por isso, a tolerância religiosa) e, assim, abrem caminho à
dessacralização do mundo e do homem. Laicização e secularização são atitudes que
permitem compreender o mundo como mundo (na sua naturalidade) e o homem como
um homem (na sua humanidade), reivindicando uma autonomia da razão humana que a
Idade Média negara. E mudo e homem só se podem compreender se se situarem
historicamente. A descoberta da historicidade ou da perspectiva histórica é outro traço
essencial do Renascimento. "A descoberta da perspectiva histórica está para o tempo
como a descoberta da perspectiva visual, conseguida pela pintura do Renascimento, está
para o espaço: consiste na possibilidade de nos apercebermos da distância que vai de um
objecto a outro e de qualquer deles ao observador. É, por consequência, a possibilidade
de o entendermos na sua real localização, na sua diferença relativamente aos demais e
na sua individualidade autêntica." (ABBAGNANO, 1984, vol.V:12) Esta atitude de
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Leonardo da Vinci

historicismo, que é vontade de conhecer o passado como passado e por aquilo que ele
foi, tem também em vista o que o passado pode ensinar na resolução dos problemas do
presente. É nesta base que Nicolau Maquiavel (1469-1527) escreve uma das grandes
obras de Filosofia Política, O Príncipe (3), e com ela funda a moderna "ciência política"
como ciência autónoma.

Tudo isto não significa, todavia, que não tenha havido filosofia no renascimento.
Contudo, o grande esforço é o de captar o significado genuíno e autêntico dos textos dos
grandes autores clássicos - neste caso, Platão e Aristóteles - libertando-os das
deformações que tinham sofrido durante a Idade Média. Antes de mais, a filosofia
começa por ser um esforço de exegese filológica e um trabalho de interpretação literal.
Esta tarefa hermenêutica é, por modos diferentes, aquela que se propuseram os
filósofos, de raiz platónica, do Renascimento: Nicolau de Cusa (1401-1464), Marcílio
Ficino (1433-1499) e Picco della Mirandola (1463-1494).

Quanto aos aristotélicos , e o maior deles é Pomponazzi, eles vêem em Aristóteles


sobretudo o filósofo da natureza e, no regresso a Aristóteles, a possibilidade de renovar
a investigação do mundo natural.

4. LEONARDO E AS ORIGENS DA NOVA CIÊNCIA EXPERIMENTAL

O regresso à natureza e o naturalismo vão permitir o nascimento de uma nova ciência. A


possibilidade do aparecimento das novas ciências da natureza radica, ainda, na liberdade
de investigação e na autonomia da razão, tão reivindicadas pelos renascentistas. Pode-se
conhecer a natureza e proceder à sua investigação e observação directas. A investigação
científica é uma investigação baseada na observação e na experiência, tal como o
mostram os trabalhos de Galileu e as intuições de Leonardo. Recurso à experiência
sensível, interrogando a própria natureza e obrigando-a a responder. De facto, os novos
processos de investigação da natureza apresentam-se como um diálogo do homem com
a natureza, só assim sendo possível chegar a uma explicação natural dos fenómenos
naturais, a uma explicação da natureza pela natureza, ficando garantida a objectividade
dessa explicação.

A este propósito, escreve Leonardo (4) "Le peintre discute et rivalise avec la nature"
(DA VINCI, 1987:112) ou "La nécessité oblige l'esprit du peintre à se mettre à la place
de l'esprit même de la nature, et à faire l'interprète entre la nature et l'art; il recourt à
cell-ci pour dégager les raisons de ses démarches assujetties à ses propres lois." (DA
VINCI, 1987:117)

O Renascimento cria, portanto, as condições necessárias ao desenvolvimento de uma


investigação experimental da natureza. Assim, a autonomia do mundo natural face ao
homem e a Deus é um pressuposto da atitude experimental. Igualmente, a autonomia do
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Leonardo da Vinci

homem face a Deus e à natureza é outro pressuposto, correlativo do anterior pois que,
sendo autónomo relativamente a Deus, o homem confia apenas nas suas próprias
capacidades, na sua experiência e na sua razão como únicos instrumentos de
conhecimento, e, sendo autónomo relativamente à natureza, isso significa que o homem
a pode olhar e conhecer com objectividade.

Esta nova concepção de ciência e a nova concepção de mundo que ela instaura foram
sendo laboriosamente construídas por Giordano Bruno (o universo é infinito),
Copérnico (heliocentrismo), Kepler (órbitas dos planetas) e Galileu (lei da inércia). E
esta concepção é a antítese da concepção anterior, de raiz aristotélico-medieval. O
mundo não é finito e acabado, mas infinito e aberto. A ordem do mundo não é final,
mas causal. O conhecimento do mundo não é fixo, imutável e concluído, mas apenas o
resultado de renovadas tentativas sempre submetidas à verificação experimental. E o
instrumento desse conhecimento não é uma razão supra-sensível e infalível, mas
poderes naturais, falíveis e corrigíveis , a razão e a experiência. O novo método
científico, baseado na observação, na experiência e na experimentação, não é outra
coisa senão esse mesmo diálogo entre a razão e a experiência.

Enfim, o resultado privilegiado do naturalismo renascentista é a ciência. E a nova


ciência apaga todos os pressupostos teológicos, metafísicos, animistas e teológicos em
que assentava a "ciência" anterior. Doravante, a natureza é pura objectividade
mensurável. "A natureza esta escrita em caracteres matemáticos", afirmará Galileu. "Ne
lise pas mês principes Qui n'est pas mathématicien", dirá Leonardo.

Leonardo da Vinci, com as suas intuições antecipadoras, considerou a arte e a ciência


como tendo a mesma finalidade: o conhecimento da natureza. A função da pintura é a
de representar aos nossos sentidos as coisas naturais. "Quién reprueba la pintura, la
naturaleza reprueba, porque las obra del pintor representan las obras de esa misma
naturaleza..." e "Si tú menospreciares la pintura, sola imitadora de todas las obras
visibles de la naturaleza, de cierto que despreciarías una sutil invención que, con
filosofía y sutil especulación, considera las qualidades todas de las formas (...) Esta és,
sin duda, ciência ey legítima hija de la naturaleza, que la parió (...) pues todas las cosas
visibles han sido paridas por la naturaleza y de ellas nació la pintura" (DA VINCI,
1993:42) Por isso, a pintura trata das superfícies, das cores, das figuras. (cf. DA VINCI,
1993:n. 1-7) Arte e Ciência, ambas assentam nos dois pilares de todo o conhecimento
verdadeiro da natureza: a experiência sensível e o cálculo matemático racional.
"Critiquer la certitude absolue des mathématiques, c'est se repaître de confusion et sôter
le moyen de réduire les contradictions des sciences sophistiquées, dont on ne tire
éternellement que du bruit." (DA VINCI, 1987:73)

Leonardo exclui, ainda, da investigação científica toda a autoridade e toda a especulação


que não tenha o seu fundamento na experiência. "Muchos juzgarán razonable
depreciarme, alegando que mis pruebas son contrarias à la autoridade de unos pocos
hombres muy reverenciados, mas de inexperto juicio, sin tener en cuenta Qui mis
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Leonardo da Vinci

trabajos nacem de la mera experiencia, Qui es maestra verdadeira." (DA VINCI,


1987:95) É, portanto, evidente, em Leonardo, o vínculo entre arte e ciência: ambas são
instrumentos de investigação da natureza. Mais ainda, de todas as artes, a pintura é a
mais sublime. Ela é ciência, "la science divine de la peinture." (DA VINCI, 1987:87) Se
comparada à poesia ou à música "la peinture est une poésie muette et la poésie une
peinture aveugle" (DA VINCI, 1987:90) ou "a pintura é poesia que se vê e não se ouve
e a poesia é pintura que se ouve mas não se vê" (Cf. DA VINCI , 1993:54). Mas, mais
que o ouvido, o olho é o nosso órgão mais precioso, "il sert de fenêtre au corps humain".
(DA VINCI, 1987:89 E Cf.90) E Leonardo não se cansa de priveligiar o olho sobre
todos os outros órgãos dos sentidos: "Il n'y a certainement personne qui ne préférerait
perdre l'ouïe et l'odorat que la vue", "C'est pêcher contre la nature que de vouloir confier
à l'oreille ce Qui doit être confié à la vue; il faut y placer l'office de la musique et non la
science de la peinture..." (DA VINCI, 1987:90) "Car perdre la vue, c'est être privé de la
beauté de l'univers et ressembler à un homme enfermé vivant dans une sépulture..." (DA
VINCI, 1987:89) Enfim, para Leonardo, poesia e música são irmãs menores da pintura.
(Cf. DA VINCI, 1987:96)

Quanto à escultura, "la sculpture et un discours plus simple et demande moins d'efforts
à l'esprit que la peinture" (DA VINCI, 1987:104) bem como "a escultura é um trabalho
menos intelectual que a pintura e escapam-se-lhe muitos aspectos da natureza" (Cf. DA
VINCI, 1987:98) Leonardo, praticando quer uma quer outra das artes, considera-se,
portanto, em condições de decidir qual das duas é "a mais intelectual, a mais difícil e a
mais perfeita." E Leonardo opta, sem hesitações, pela pintura. Aliás, para ele, "a
escultura não é ciência, mas sim arte mui meccânica." (Cf. DA VINCI, 1993:72) Os
múltiplos estudos e desenhos que Leonardo ensaia antes de proceder à realização de
uma obra pictórica, são bem o exemplo desta sua convicção.

Porque é pintor e porque a pintura é, a seus olhos, uma ciência, e uma ciência que se
funda na matemática e na geometria, inscreve-se, Leonardo, neste movimento que
culminará na constituição da chamada ciência moderna.

De facto, para Leonardo, a experiência e a matemática revelam a natureza na sua


verdade e na sua objectividade, porque tudo na natureza é ratio, razão, proporção.
Parafraseando Platão, escreve "não leia os meus princípios [os princípios da pintura]
quem não seja matemático." (Cf. DA VINCI, 1987:112) A natureza é, pois, matemática
"Aucune recherche humaine ne peut s'appeler véritablement scientifique, si elle n'est
soumise aux démonstrations mathématiques." (DA VINCI, 1987:87) E é esta certeza
que leva Leonardo a interessar-se pela mecânica e a estabelecer os seus princípios. "Ele
pôde assim chegar a formular a lei da inércia, o princípio da reciprocidade da acção e da
reacção, o teorema do paralelograma das forças, o da velocidade e outros conceitos
fundamentais da mecânica que deviam encontrar em Galileu a sua forma definitiva.

A mole imensa dos seus manuscritos contém uma soma de intuições felizes, de
descobertas, de sinais percursores nos campos mais díspares da ciência, da anatomia à
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Leonardo da Vinci

pateontologia, e testemunham a perseverança com que Leonardo prosseguiu no estudo


da natureza (...) com o intuito de a reduzir à objectividade empírica e à necessidade
matemática." (ABBAGNANO, 1982, vol.VI:9)

Enfim, parece-nos ser possível concluir que "o delineamento de uma moderna
mentalidade científico-experimental no estudo da natureza" fez-se com Leonardo e
Copérnico, na medida em que lançaram "as bases da ciência natural moderna, que tem
por fundamento a experiência sensível e procede pela via das hipóteses elaboradas
matematicamente, reconhecendo na natureza uma ordem mensurável precisa e uma
perfeita necessidade." (ABBAGNANO, 1981:314)

BIBLIOGRAFIA

ABBAGNANO, Nicola, (1984) História da Filosofia, 3ª ed., vol V e VI, Lisboa,


Editorial Presença

ABBAGNANO, N. e VISALBERGHI, ª, (1981) História da Pedagogia, vol.II, Lisboa,


Livros Horizonte, (col. Horizonte Pedagógico)

ANDRÉ, João Maria, (1987) Renascimento e Modernidade. Do poder da magia à


magia do poder, Coimbra, Livraria Minerva

DA VINCI, Leonardo, (1987) Traité de la peinture, Paris, Éditions Berger-Leyrault,


(trad. André Chastel)

DA VINCI, L., (1993) Tratado de Pintura, 2º ed., Madrid, Ed, Akal, (trad, Angel
González García)

VÉDRINE, Hélène, (s.d.) As Filosofias do Renascimento, Lisboa, Publicações Europa-


América, (col. Saber, 77)

_______________

Notas:

1. São desenhos, ilustrações, estudos e notas que Leonardo escreve entre os anos
1478 - 1518. Trata-se de um conjunto de muitas páginas manuscritas, mais de
5000, de difícil leitura, pois Leonardo é canhoto e escreve do lado direito da
página para o lado esquerdo e, nestes últimos anos da sua vida, encontra-se
paralisado do lado direito.
2. A pintura do Renascimento e os quadros de Leonardo são bem a expressão desta
revalorização do homem e da natureza. Se a pintura medieval versara
privilegiadamente temas religiosos, a pintura renascentista terá no homem, no
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Leonardo da Vinci

seu corpo, e na natureza os seus grandes motivos; pinta-se a figura humana,


fazem-se retratos e auto-retratos, quase sempre com a natureza por fundo, e
ressurge o nú. E quando não é fundo, a natureza é o tema principal.
3. Maquiavel apresenta como principal característica do Príncipe, daquele que quer
obter e conservar o poder, a virtú. Embora de muito difícil tradução, a virtú
remete para um conjunto de qualidades intrínsecas ao Príncipe e constitui
também uma das notas mais salientes do homem renascentista.
4. Foram estas citações retiradas de diferentes edições do chamado "Tratado de
Pintura". Qualquer das edições foi preparada a partir de notas manuscritas,
deixadas por Leonardo e escritas entre os anos 1480 - 1516, que se podem
encontrar no Codex Urbinas na Biblioteca do Vaticano, em Roma. Em abono da
verdade, não se trata propriamente de um tratado, no sentido habitual do termo.
De facto, são, sobretudo, um conjunto de reflexões que Leonardo vai anotando
por escrito, mas não constituem um todo elaborado, organizado, sistematizado e
perfeitamente amadurecido e acabado.

E já que as duas edições a que recorremos não são idênticas, citamos ora de
uma, ora de outra, conforme a tradução nos parecia mais explícita. E, para não
haver tradução de tradução, citamos na língua original das respectivas edições.
Muito pontualmente traduzimos pequenas frases. De qualquer forma, sempre
que o fazemos, a nossa tradução é literal.

___________________

* Professora-Adjunta da ESSE - http://www.ipv.pt/millenium/esf_5mjf.htm, acedido


em 30julho 2015

se. o .
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Arte

Curso de estudos do pintor

Os antigos especuladores concluíram que a faculdade de julgamento dada ao


homem é animada por um instrumento com o qual os cincos sentidos ligam-se por
meio do órgão de percepção (imprensiva), e a este instrumento eles deram o nome de
sensus communis. E este nome é usado simplesmente por ser o juiz comum dos
outros cinco sentidos. O sensus communis é activado pelo órgão da percepção
(imprensiva), situado a meio caminho entre este e os sentidos. O órgão da percepção
funciona por meio das imagens das coisas transmitidas a ele pelos 5 sentidos, que
estão situados sobre a superfície a meio caminho entre as coisas externas e o órgão
da percepção…

As imagens das coisas ao redor são transmitidas aos sentidos e os sentidos


transmitem-nas ao órgão de percepção são transmitidas aos sentidos e os sentidos
transmitem-nas ao sensus communis, e por ele são impressas na memória, e lá
retidas mais ou menos distantemente de acordo com a importância ou poder das
coisas mostradas. O sentido mais próximo do órgão da percepção funciona mais
rapidamente, e este é o olho, o chefe e líder de todos os outros; trataremos, então,
só dele, deixando os outros para não nos estendermos demais.

A experiência diz-nos que o olho reconhece dez diferentes qualidades de


objectos:

 Luz e escuridão – a primeira serve para revelar as restantes nove – e a


segunda para escondê-las;
 Cor
 Substância;
 Forma
 Posição;
 Distância
 Proximidade;
 Movimento
 Repouso.

Como os cinco sentidos são os Ministros da Alma


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Leonardo da Vinci

A alma aparentemente reside na sede de julgamento, e o julgamento


aparentemente reside no lugar chamado sensus communis, onde todos os sentime

ntos se encontram, e é neste lugar e não em todo o corpo, como muitos já


acreditaram, pois se assim fosse, seria necessário que os instrumentos dos sentidos
encontrassem-se num local específico; bastaria para o olho registar a sua percepção
na superfície em vez de transmitir as imagens de coisas vitais ao sensus communis
por intermédios dos nervos ópticos, pois a alma os teria compreendido na superfície
do olho.

De modo semelhante, com o sentido da audição bastaria que a voz ressoasse


nos recessos arqueados do osso parecido com a rocha que existe no interior do
ouvido, sem ter de existir outra passagem deste osso para o sensus communis, onde
a voz tem de se dirigir ao julgamento comum.

O sentido do olfacto também é necessariamente forçado a ter recurso a este


mesmo julgamento.

O tacto passa pelos tendões perfurados e é transmitido a este mesmo lugar;


estes tendões espalham-se com infinitas ramificações até à pele… e carregam
impulso e sensação aos membros e, passando entre músculos e tendões, ditam a eles
os seus movimentos; e estes obedecem e, no acto de obedecer, contraem-se porque
o inchaço dos músculos reduz o seu comprimento, puxando os nervos junto. Esses
nervos são entrelaçados entre os membros e são entrelaçados entre os membros e
estendem-se às extremidades dos dedos transmitindo ao sensus commnis a
impressão do que tocam.
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Leonardo da Vinci

Fontes e bibliografia

Fontes

Da Vinci, Leonardo. Xxxx. Tratado de la Pintura.

Bibliografia

Monografias

DA VINCI, Leonardo. 2004. Anotações de Da Vinci por ele mesmo. São Paulo: Madras Editora.

KEMP, Martin. 2005. Leonardo da Vinci: Vida e Obra. Lisboa: Editorial Presença.

MATA, Joel Silva Ferreira. 2009. Lições de História da Cultura Portuguesa. Lisboa: Universidade
Lusíada Editora.

http://www.humanismosecular.org/historia-humanismo, acedido em 30 de Julho de


2015.