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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS

Análise de conjuntura da economia brasileira

CE542 C – Métodos de Análise Econômica V 2º semestre de 2017

Aluno: Eduardo Gomes Maximiliano RA: 102054

Prof. Dr. Marcio Wohlers de Almeida

PED: Renato de Souza Rosa


Sumário
Análise de conjuntura ...................................................................................................................... 1

Economia internacional ................................................................................................................... 4

Perspectivas de crescimento ............................................................................................................ 8

Emprego e renda ............................................................................................................................ 14

Inflação .......................................................................................................................................... 16

Referências bibliográficas ............................................................................................................. 19

Análise de conjuntura
A economia brasileira tem apresentado sinais de recuperação gradual ao longo do segundo
semestre de 2017. O país iniciou um processo de retomada de crescimento do PIB e dos indicadores
de atividade, mas continua apresentando elevado nível de ociosidade dos fatores de produção, so-
bretudo na indústria, o que reflete em uma taxa de desemprego estimada em 12,7% para o mês de
agosto (Itaú BBA, 2017). O comportamento da inflação se mostrou favorável ao longo do ano,
possibilitando a redução da meta para a taxa Selic em consecutivas reuniões do Comitê de Política
Monetária (Copom), chegando em 7,50% ao ano na reunião realizada no final de outubro. Apesar
da instabilidade política e da incerteza decorrente do avanço das reformas, há o consenso que o
processo de estabilização da economia se consolidou. A recuperação do crescimento econômico e
do emprego contribui para o progressivo crescimento do consumo das famílias, impulsionando o
setor de serviços e abrindo espaço para novos investimentos em 2018.

O contexto internacional apresenta-se favorável à recuperação interna, pois a expansão da


atividade econômica global não está pressionando as condições financeiras nos países centrais,
permitindo a estabilidade nos fluxos de capitais que se dirigem às economias periféricas. O saldo
positivo do balanço de pagamentos foi garantido pela redução de importações durante a recessão e
o crescimento das exportações, possibilitando a manutenção da taxa de câmbio próxima a R$3,30
por dólar. O crescimento da economia brasileira é explicado pela expansão da oferta do setor pri-
mário, garantindo aumento das exportações líquidas e acumulação de estoques. A produção agro-
pecuária se estabilizou no segundo semestre e as projeções são que o crescimento em 2018 se

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distribua de forma homogênea entre os setores produtivos e componentes da demanda (IPEA,
2017). O aumento do consumo das famílias em 2017 foi sustentado pelo aumento dos rendimentos
reais, derivados da redução da inflação, concomitante a expansão do crédito ligada a redução da
taxa básica de juros e a liberação de saques das contas inativas do FTGS (Itaú BBA, 2017). A
recuperação do consumo deve estimular a retomada de investimentos, apesar dos altos níveis de
ociosidade registrados no setor industrial como um todo.

Tabela 1: Taxa real de crescimento do PIB interanual e acumulado no ano (em %)

O setor agropecuário foi responsável pelo bom resultado do PIB brasileiro no primeiro se-
mestre de 2017, apresentando um crescimento de 11,5% no primeiro trimestre e produção estável
no segundo período, estima-se que a produção brasileira de grãos seja 31,1% superior a 2016
(IPEA, 2017). O resultado positivo do setor primário é explicado pelo bom desempenho de colhei-
tas que acontecem no primeiro semestre – como milho, soja e arroz – o que deve reduzir a contri-
buição do setor no segundo semestre. O setor industrial retrocedeu 0,5 no segundo trimestre de
2017, refletindo a queda da construção civil e a retração dos investimentos, parcialmente compen-
sados pelos setores de extração mineral e a indústria de transformação. O setor de serviços avançou
0,6% no segundo trimestre de 2017, interrompendo a sequência de queda de dois anos pelo segundo
período consecutivo. O setor terciário tem o maior peso no PIB brasileiro e deve contribuir para o

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crescimento da economia no segundo semestre do ano, com destaque para os setores ligados ao
comércio e outros serviços (IPEA, 2017).

Gráfico 1: Produção industrial – Gráfico 2: Volume de vendas


indústria geral e segmentos (trimestre/trimestre anterior)

O contexto político conturbado levou a uma reavaliação do cenário macroeconômico, de-


corrente da incerteza quanto à aprovação das reformas propostas pelo governo de Michel Temer.
Os indicadores de confiança empresarial apresentaram quedas importantes em junho e outubro, o
que não comprometeu o aumento das vendas no comércio e alguma melhora no mercado de traba-
lho. A recuperação lenta da economia compromete a arrecadação e o resultado primário, de forma
que o processo de retomada se dê em meio à deterioração fiscal. O gasto obrigatório do governo
segue elevado e a baixa da inflação contribui para aumentar o valor real dos gastos corrigidos a
alíquotas maiores. O país enfrenta o risco de comprometer a meta de resultado primário e a viabi-
lidade da emenda 95, que limita o valor real dos gastos públicos federais no médio prazo. O go-
verno adiou a reversão de trajetória de resultado primário, alterando as metas para um déficit de
R$162 bilhões em 2017 e R$131 bilhões em 2018, correspondendo a -2,4% e -1,8% do PIB res-
pectivamente. As projeções de crescimento do PIB são de 0,8% em 2017 e de 2,7% em 2018, com
um desemprego médio de 12,4% (Itaú BBA).

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Gráfico 3: Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br)

136.0
135.5
135.0
134.5
134.0
133.5
133.0
132.5
132.0
131.5
131.0

*2002 = 100
Fonte: Elaboração própria com dados disponibilizados pelo BCB.

Economia internacional
As economias centrais apresentaram um crescimento acima das expectativas e a evolução
recente dos indicadores internacionais reforçam as perspectivas da expansão da atividade econô-
mica mundial em 2017. O crescimento da atividade nas principais economias avançadas registrou
aceleração no segundo trimestre. Os EUA apresentaram uma expansão sólida, sustentada princi-
palmente pelo crescimento da demanda doméstica; os elevados níveis de confiança do consumidor
e do mercado de trabalho devem dar suporte ao consumo, enquanto as exportações devem ser fa-
vorecidas pela depreciação do dólar. A Área do Euro registra três anos seguidos de crescimento do
PIB, resultado da ampliação da massa salarial e da política monetária expansionista sobre o con-
sumo doméstico. O Japão também apresentou crescimento impulsionado pela demanda doméstica
ao longo dos últimos anos, sobretudo gastos do consumidor e investimentos públicos, que refleti-
ram estímulos fiscais suplementares. A expansão moderada da renda japonesa deve limitar a am-
pliação do consumo em 2018, o que pode resultar na desaceleração da economia. A China repetiu
o desempenho consistente apresentado nos últimos trimestres, registrando um crescimento intera-
nual acentuado em 2017. O bom desempenho da economia chinesa se deve ao crescimento intenso
4
das exportações, que compensou a desaceleração da cadeia produtiva da construção civil e de ma-
teriais de construção (BCB, Relatório de inflação, 2017).

Gráfico 4: Evolução do PIB das economias centrais

O quadro favorável da economia mundial levou o Fundo Monetário Internacional (FMI) a


manter suas projeções de crescimento para a economia mundial e para os principais países. O PIB
dos EUA deve crescer 2,1% em 2017 e 2018, enquanto as projeções para a Área do Euro são de
1,9% e 1,7%, contra 1,3% e 0,6% no Japão. O FMI projeta uma aceleração do crescimento para
4,6% e 4,8% em países emergentes no biênio, puxados pela China e Índia com crescimento acima
da média asiática de 6,5%, enquanto o Brasil deve crescer 0,3% em 2017 e 1,3% em 2018 e a
Rússia 1,4% nos dois anos. As projeções do FMI apontam para uma aceleração do crescimento do
comércio internacional, passando de uma taxa média anual de 2,5% em 2015 e 2016 para 4% ao
ano em 2017 e 2018 (IPEA, 2017). O otimismo referente ao crescimento estável da economia mun-
dial é refletido no índice VIX – volatilidade implícita nas negociações de opções sobre o valor
futuro do índice da bolsa de Chicago – que apresentou valores baixos ao longo de 2017. O preço
das commodities caiu ao longo do ano, puxados principalmente por metais e combustíveis e por
alimentos de maneira menos acentuada. O preço do petróleo seguiu uma trajetória de queda ao
longo do segundo trimestre, caindo abaixo de US$45 dólares por barril, mas recuperaram-se a partir

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de julho, batendo a marca de US$60 por barril no final de outubro. Os preços da soja foram afetados
pela safra recorde registrada no Brasil, pressionando as cotações para baixo no primeiro semestre,
mas condições menos favoráveis afetaram as safras no hemisfério norte, compensando a queda de
preços ocorrida anteriormente.

Gráfico 5: Índice de Volatilidade da Bolsa de Chicago (VIX)

As economias desenvolvidas apresentaram baixas taxas de inflação nos últimos anos, per-
manecendo em níveis considerados reduzidos pelos respectivos bancos centrais com exceção do
Reino Unido, que sofre efeitos decorrentes do Brexit. Os EUA e a Área do Euro foram beneficiados
pela redução dos preços de energia, enquanto o Reino Unido vive um momento de instabilidade,
relacionado com sua saída da União Europeia, que repercute negativamente sobre o nível de preços.
O baixo patamar das taxas de inflação alterou as perspectivas sobre a política monetária das eco-
nomias avançadas, sobretudo a possibilidade de elevação dos juros pelo Federal Open Market
Committee do Federal Reserve (Fed) em 2017, o que favoreceu a desvalorização do dólar. As
perspectivas são que o Fed dê continuidade às políticas monetárias atuais sob o comando de Jerome
Powell, apresentado por Donald Trump em novembro, que deve assumir o cargo de presidente do
banco central americano em fevereiro de 2018. O Euro apresentou uma substancial valorização no
período recente, colaborando para que o Banco Central Europeu adiasse o plano de redução do
programa de compra de títulos. O Japão sinalizou que pretende continuar com a política monetária
expansionista devido as expectativas reduzidas para a inflação, apesar do crescimento econômico
apresentado nos últimos meses.
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Gráfico 6: Exportações de bens e serviços

50
40
30
20
10
0
2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015
Brasil China Área do Euro
Japão Reino Unido Estados Unidos
Mundo

Fonte: Elaboração própria com dados do Banco Mundial.

Gráfico 7: Principais índices de preços de commodities

300
250
200
150
100
50
0
jul-10
jul-08

jul-09

jul-11

jul-12

jul-13

jul-14

jul-15

jul-16
jan-16
jan-08

jan-09

jan-10

jan-11

jan-12

jan-13

jan-14

jan-15

jan-17

PALLFNF PFOOD PMETA PNRG

*2005 = 100
Fonte: Elaboração própria com dados do FMI.

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A economia mundial apresentou um crescimento acima das expectativas sem pressionar as
condições financeiras. O cenário de crescimento da economia global e a perspectiva de uma nor-
malização da política monetária de forma gradual entre as principais economias nos próximos me-
ses ajudam a sustentar os mercados nos países desenvolvidos enquanto os emergentes são benefi-
ciados pelas baixas taxas de juros e aversão ao risco. Devido à situação robusta da balança de
pagamentos e ao ambiente com inflação baixa, expectativas ancoradas e perspectiva de recuperação
econômica, a economia brasileira parece ter capacidade de absorver impactos oriundos do cenário
internacional, embora persistam riscos associados ao processo de normalização da política mone-
tária em economias centrais e o ritmo de crescimento da economia chinesa.

Gráfico 8: Taxa básica de juros nos EUA (TB3MS)

3.0%
2.5%
2.0%
1.5%
1.0%
0.5%
0.0%
jul-11
ago-08
mar-09

ago-15
dez-10

fev-12

abr-13
out-09

nov-13
jun-14
mai-10

mar-16
out-16
mai-17
set-12
jan-08

jan-15

Fonte: Elaboração própria com dados do FRED.

Perspectivas de crescimento
O PIB brasileiro apresentou um desempenho positivo, subindo 0,2% no segundo trimestre
de 2017 e avançando pelo segundo período consecutivo. Diferentemente do primeiro trimestre,
cuja alta derivou do resultado expressivo da agropecuária, o crescimento verificado no segundo
trimestre contou com a contribuição da demanda doméstica. O setor de serviços foi beneficiado
pelo aumento dos rendimentos reais, registrando crescimento de 0,6% frente ao período anterior.
O setor industrial recuou 0,5%, refletindo o baixo desempenho da indústria de transformação, en-
quanto a produção de máquinas e equipamentos não foi capaz de evitar uma nova queda nos inves-

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timentos. A absorção doméstica, composta pelo consumo total – famílias e governo – e pela for-
mação bruta de capital fixo (FBCF) acrescida pelos estoques, recuou 0,1% no segundo trimestre
de 2017 (IPEA, 2017).

Gráfico 9: PIB - Evolução trimestral e Gráfico 10: FBCB - Evolução trimestral e


acumulado em quatro trimestres (em %) acumulado em quatro trimestres (em %)

O consumo das famílias destacou-se entre os componentes da demanda, avançando 1,4% e


interrompendo um ciclo negativo que durava nove trimestres. A expansão do consumo familiar é
reflexo da melhora dos rendimentos reais do trabalho, fruto da baixa trajetória da inflação recente,
da melhora nas condições de endividamento e financiamento das famílias, estimuladas pela queda
da taxa básica de juros concomitante à liberação de recursos provenientes de contas inativas do
FGTS. O consumo do governo registrou retração de 0,6% no primeiro trimestre, acelerando seu
ritmo de queda e correspondendo a uma queda de 1,3% na comparação com o mesmo período em
2016. A formação bruta de capital fixo caiu pelo décimo quarto período consecutivo, registrando
queda de 0,7% e o décimo quarto recuo em quinze períodos. A FBCF apresentou os piores resul-
tados entre os componentes da absorção doméstica na comparação interanual, registrando queda
de 6,5%. O resultado insatisfatório está associado à retração da cadeia produtiva da construção civil
e de materiais, que apresentou crescimento de -2,2% no segundo trimestre, sua quarta queda con-
secutiva. Entretanto, o consumo aparente de máquinas e equipamentos apresentou alta ao longo do
segundo trimestre, registrando um crescimento de 4,9% em relação aos primeiros meses do ano.

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Gráfico 11: Taxa de juros média das ope- Gráfico 12: Endividamento das famílias (SFN)
rações de crédito e meta Selic (% ao ano) (% da renda acumulada em 12 meses)

Os dados de crédito divulgados pelo Banco Central do Brasil (BCB) mostram que o crédito
está mais acessível às pessoas físicas, ao mesmo tempo que o endividamento familiar apresenta
estabilidade e há redução da inadimplência. As taxas de juros médias das operações de crédito do
Sistema Financeiro Nacional (SFN) apresentaram um atraso para responder à queda da taxa Selic,
mas as taxas do cartão de crédito e das demais categorias de crédito livre reduziram-se expressiva-
mente em meados de 2017. A queda real do saldo de crédito total no SFN foi de -4,3% no final do
segundo trimestre, frente a -6,1% e -8,8% nos dois períodos anteriores. A taxa para pessoas físicas
foi de 0,4% no primeiro trimestre e 1,7% no segundo período, enquanto a taxa para pessoas jurídi-
cas passou de -14,9% no começo do ano para -10,1% no final do primeiro semestre. O endivida-
mento das famílias através do crédito habitacional elevou-se consideravelmente em virtude do pro-
grama Minha Casa Minha Vida, mas mantem-se estável em 18,5% desde meados de 2015. O en-
dividamento com crédito não-habitacional foi verificado apenas em 2017, após um período de re-
dução chegando a 23,5% no final de 2016 e manteve-se nesse patamar desde então (IPEA, 2017).
O processo desinflacionário proporcionou a preservação dos rendimentos médios reais dos ocupa-
dos, sobretudo no segmento formal. O rendimento médio real aumentou 3,0% no final do segundo
trimestre em relação ao mesmo período no ano anterior. A inadimplência para pessoas físicas se-
guiu em queda, atingindo 5,7% em julho de 2017. O Índice de Confiança do Consumidor – senti-
mento do consumidor frente à conjuntura econômica e finanças pessoas – apresentou queda ao
longo do ano e recuou 2,6% no final do segundo trimestre.

10
Gráfico 13: Indicadores de confiança Gráfico 14: Indicadores de confiança
(séries dessazonalizadas) (variação acumulada desde dez/2016)

O setor industrial se manteve estável desde o começo de 2016 e recentemente apresenta


sinais de recuperação, embora a produção ainda está abaixo do esperado. Segundo a Pesquisa In-
dustrial Mensal (PIM-PF) do IBGE, a indústria avançou 0,8% no final do segundo trimestre. A
produção de automóveis registrou expansão de 8,6% em agosto, enquanto a venda de papel e pa-
pelão avançou 3,0%. A recuperação da indústria reflete o bom desempenho da produção de bens
de capital, que apresentou alta de 6,6% no final do segundo trimestre. A demanda por bens de
capital foi estimulada pela atividade do agronegócio, mas a demanda em demais setores ganhou
força ao longo de 2017, sobretudo o setor de equipamentos de transporte. Apesar da perspectiva
positiva para a indústria, os investimentos diminuíram 6,5% no segundo trimestre do ano em rela-
ção ao mesmo período de 2016. A FBCF recuou 0,7% em relação primeiro trimestre, acumulando
queda de 29,7% desde o terceiro trimestre de 2013 (BCB, op. cit, 2017). A evolução da FBCF está
associada à retração na absorção de bens de capital, apesar da produção de bens de capital crescesse
de forma disseminada entre as categorias, houve uma queda nas importações de bens de capital e
aumento dessas exportações, com efeitos negativos sobre o investimento doméstico. O setor de
construção civil impactou negativamente o resultado da indústria, da cadeia de insumos e materiais
e dos indicadores de emprego. A ociosidade registrada na indústria de transformação constitui uma
barreira à uma retomada mais intensa dos investimentos. O Nível de Utilização da Capacidade
Instalada (Nuci) da indústria de transformação registrou média de 74,3% no final de agosto, ante

11
74,6% no final de maio. O Nuci apresentou queda na indústria de bens de capital, de bens de con-
sumo não-duráveis e de bens intermediários, mas expandiu-se 0,4 p.p. na indústria de bens de con-
sumo duráveis. A evolução da atividade industrial reflete nos níveis de confiança dos empresários,
compensando a queda verificada após as delações de maio de 2017. Dessa forma, o Índice de Con-
fiança da Indústria registrou alta de 1,5% em agosto, acumulando um ganho de 20,8% desde de-
zembro de 2015 (IPEA, 2017).

Gráfico 15: Produção de bens de capital Gráfico 16: Nuci (dez/07 – ago/17)
das principais categorias1 (índices dessazonalizados)

A situação fiscal do país ganhou destaque ao longo de 2017 em virtude da queda de arre-
cadação – fruto do recolhimento regressivo de impostos em um país em recessão econômica – e
frustração de receitas não recorrentes, enquanto o governo continua com despesas obrigatórias
crescentes. A revisão da execução orçamentária realizada em julho promoveu novos ajustes refe-
rentes à necessidade de ampliar o contingenciamento de gastos, de R$38,4 bilhões para R$45 bi-
lhões, como forma de cumprir a meta de superávit primário em 2017. O governo promoveu suces-
sivos aumentos na tributação sobre combustíveis através do PIS/COFINS e elevou a meta do déficit
para R$159 bilhões em 2017 e 2018, enquanto promove o desmonte do sistema de proteção social
e do aparato estatal. As receitas do governo foram parcialmente frustradas pela queda acelerada da
inflação, causada pela política monetária restritiva em conjunto com o ajuste fiscal, reduzindo o
valor nominal dos impostos e, consequentemente, aumentando o valor real das despesas. A altera-
ção das metas de resultado primário aumentou a preocupação acerca do cumprimento da Emenda
Constitucional nº 95, que estabelece a variação do IPCA como limite para o crescimento do gasto

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público ao longo de 20 anos, evidenciando a inconsistência das medidas adotadas pelo governo ao
longo dos últimos anos. O crescimento das despesas obrigatórias tende a reduzir o espaço para
demais despesas, forçando sua redução ao ponto de inviabilizar o funcionamento do governo, o
que serve de premissa para o discurso referente ao desmonte do Estado e da assistência social,
sobretudo a reforma previdenciária, que assume hegemonia na discussão sobre o gasto público.

Gráfico 17: Dívida pública (% PIB) Gráfico 18: Fatores condicionantes da


dívida líquida do setor público

As transações externas evoluíram de maneira favorável nos últimos meses e estão projeta-
das para contribuir com 0,3% de crescimento do PIB em 2017. As transações correntes registraram
déficit de US$2,7 bilhões até julho, enquanto a balança comercial apresentou um superávit de
US$41 bilhões. As importações se expandiram 7,3% no período, puxadas pelas compras de bens
intermediários e combustíveis, concomitantemente a uma expansão de 19,0% nas exportações, com
destaque à soja, petróleo e minério de ferro. Houve uma pequena expansão nas exportações de bens
manufaturados, sobretudo a venda de veículos e utilitários para a Argentina (BCB, op. cit, 2017).
As captações líquidas superaram as concessões líquidas em US$0,7 bilhão na conta financeira du-
rante o primeiro semestre. Os ingressos líquidos de investimento direto somaram US$40,4 bilhões
e as saídas líquidas em passivos de investimento em carteiras totalizam US$402 milhões. O estoque
de dívida externa recua desde o terceiro trimestre de 2016, principalmente nas operações de curto
prazo. O estoque de reservas internacionais correspondeu a 19,7% do PIB em julho, o equivalente
a 31 meses de importações de bens.

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Gráfico 19: Balança comercial do Brasil (em milhares de dólares)

20,000
18,000
16,000
14,000
12,000
10,000
8,000
6,000
4,000
2,000
0
fev-17

abr-17

jul-17
mar-17

ago-17
dez-16
out-16

jun-17

out-17
set-17
nov-16

mai-17

nov-17
jan-17

Fonte: Elaboração própria com dados do International Trade Center.

Emprego e renda
A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD) divulgou uma taxa de
ocupação de 12,8% no trimestre encerrado em julho, correspondendo a 13,3 milhões de pessoas
desocupadas, resultado 0,8 p.p. menor do que o período anterior e 1,2 p.p maior do que o mesmo
período em 2016. De acordo com a PNAD, houve um retorno ao mercado de trabalho de 31,7%
dos trabalhadores que estavam desocupados no trimestre anterior. Portanto, a retração corresponde
a uma recuperação da população ocupada, destacando-se o setor informal, através de empregados
sem carteira e trabalhadores por conta própria. O mercado de trabalho formal apresentou aumento
no número de admissões e estabilidade nos desligamentos, apresentado uma evolução positiva no
saldo líquido de contratações. De acordo com o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados
(Caged), houve a criação de 80 mil postos de formais de trabalho no segundo trimestre, ante ao
corte de 258,4 mil postos no mesmo período em 2016. As contratações líquidas na indústria e no
setor de serviços sugere o início de um processo de criação de vagas, enquanto a contração da
construção civil foi responsável pelo desligamento de 12,3 mil trabalhadores com carteira.

14
Gráfico 20: População ocupada Gráfico 21: Admissões e desligamentos

Os rendimentos do trabalho mostram sinais de recuperação desde o final de 2016, tendência


que foi preservada em 2017. O rendimento médio real registrou crescimento pela oitava vez con-
secutiva no final do segundo trimestre, apontando uma alta de 3% no crescimento interanual. O
rendimento médio real do trabalho foi preservado pelo processo desinflacionário, correspondendo
a R$2.047 no final do segundo trimestre de 2017 frente a R$1.993 registrado no mesmo período
do ano anterior. O rendimento médio real habitual aumentou 3,6% no setor privado formal, 1,1%
para o trabalho doméstico e 0,3% para os empregados no setor público, ao mesmo tempo que re-
cuou 0,5% para os trabalhadores por conta própria e 3,5% para os trabalhadores sem carteira de
trabalho. O comportamento dos rendimentos reais mostra que parte dos ajustes no mercado de
trabalho, derivados da recessão enfrentada nos últimos anos, aconteceu principalmente sobre a
ocupação. O efeito composição dos salários também explica essa alteração nos rendimentos, dado
que trabalhadores menos qualificados constituem a maior parte dos desligamentos em meio a crise
econômica, fazendo a média salarial se elevar mesmo na ausência de reajustes. Além dos trabalha-
dores menos instruídos, a crise econômica afeta com grande intensidade os trabalhadores mais
jovens. A taxa de desocupação da população entre 18 e 24 anos é de 27%, além de receberem
menores remunerações em termos absolutos e apresentarem queda de salário na variação intera-
nual. Enquanto os trabalhadores com mais de 60 anos apresentam uma taxa de desocupação de
4,5% e renda média de R$2.881,00 – 14% acima do observado em 2016 – a população de 18 a 24
anos teve uma remuneração média de R$1.122,00, valor 0,5% abaixo do registrado no ano anterior.

15
Gráfico 22: Rendimento médio real Gráfico 23: Massa salarial real
Valor absoluto e variação interanual Valor absoluto e variação interanual

Inflação
A inflação ao consumidor caiu para um patamar reduzido em março de 2016 e tem perma-
necido baixo desde então, mesmo com eventuais pressões de preços administrados. A inflação em
2017 foi caracterizada pela queda acentuada dos preços de alimentos decorrentes da safra recorde,
mas também pelo patamar reduzido das diversas medidas de inflação subjacente, incluindo com-
ponentes sensíveis ao ciclo econômico e à política monetária. O Índice de Preços ao Consumidor
Amplo (IPCA) variou 0,20% no trimestre encerrado em agosto, enquanto o Índice de Preços ao
Produtor Amplo (IPA) regrediu 1,94%, ambos refletiram a queda de 5,99% nos preços de produtos
agropecuários. A retração dos produtos industriais atingiu 0,52%, sobretudo nos preços de alimen-
tos industrializados e derivados do petróleo, compensados por altas nos preços de celulose e miné-
rio de ferro. Os preços dos alimentos no domicílio completaram um ano com variações abaixo do
padrão sazonal, apresentando -3,54% de junho a agosto, refletindo a expansão da oferta ao longo
dos últimos trimestres. A inflação de alimentos em doze meses passou de 1,08% em maio para -
5,20% em agosto, ante a 9,36% em 2016. A redução dos preços de alimentos representa mais de
dois pontos percentuais de contribuição para a queda da variação do IPCA (BCB, op. cit,2017).

16
Gráfico 24: IPCA Total e IPCA Exclusive Gráfico 25: IPCA por Categorias
Alimentos (variação em 12 meses, em %) (variação em 12 meses, em %)

Gráfico 24: Preços ao produtor (IPA-DI) Gráfico 25: Inflação de serviços

A inflação de serviços registrou 0,77% no trimestre encerrado em agosto, beneficiada pela


evolução controlada dos preços de aluguel e reajustes de cursos e de telefonia no final de maio. A
inflação de serviços apresentou alta no começo do ano, mas a variação em doze meses registrou
desaceleração de 5,62% em maio para 4,81% em agosto. O setor de bens industriais apresentou
uma variação de preços próxima a zero no trimestre terminado em agosto, decorrente da evolução
dos preços de higiene pessoal, automóveis usados e vestuário, compensando a elevação dos preços
de combustíveis. Houve uma aceleração nos preços monitorados durante o mesmo período, atre-
lada ao impacto do aumento da alíquota do PIS/COFINS sobre combustíveis. A desaceleração das
tarifas de energia elétrica contribuiu para reduzir efeitos da variação de preço dos combustíveis. A

17
inflação de preços monitorados acelerou de 4,41% em maio para 6,26% em agosto, se excluídos
gasolina e tarifas de energia elétrica, o índice desacelerou de 7,13% para 6,92% na mesma base de
comparação.

As perspectivas de inflação futura indicam a continuação do processo de estabilização de


preços. A queda da inflação corrente, a valorização da taxa de câmbio e o aumento de credibilidade
da autoridade monetária contribui para ancorar expectativas e reduzir a inércia inflacionária. Con-
comitantemente, a retomada vagarosa do crescimento econômico e o baixo dinamismo do mercado
de trabalho reduzem as perspectivas de uma inflação ligada ao aumento da demanda. As projeções
para o IPCA nos próximos anos recuaram sistematicamente dado o contexto favorável da evolução
dos preços, caindo para 3,08% e 4,12% em 2017 e 2018, mantendo-se em 4,25% para 2019 e 4,00%
em 2020. Os riscos de não consolidação desse cenário de inflação controlada estão associados à
uma possível reversão do cenário externo e aos desdobramentos no ambiente político, sobretudo
às possibilidades de implementação das reformas e à continuidade do projeto de governo imposto
pelas elites no processo de impeachment, a depender dos resultados nas eleições de 2018.

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