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ISSN 1413-389X Trends in Psychology / Temas em Psicologia – 2016, Vol.

24, nº 2, 771-786
DOI: 10.9788/TP2016.2-20

Elaboração de Documentos Psicológicos:


Considerações Críticas à Resolução CFP n°007/2003

Vivian de Medeiros Lago1


Universidade do Vale do Rio dos Sinos, São Leopoldo, RS, Brasil
Faculdades Integradas de Taquara, Taquara, RS, Brasil
Denise Balem Yates
Centro de Avaliação Psicológica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul,
Porto Alegre, RS, Brasil
Denise Ruschel Bandeira
Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul,
Porto Alegre, RS, Brasil

Resumo
O presente artigo tem como objetivo discutir o conteúdo da Resolução n° 007/2003 do Conselho Federal
de Psicologia, que trata sobre a elaboração de documentos psicológicos escritos e que teve como intuito
reduzir o número de queixas a sua qualidade. Contudo, o que se observa nos dias atuais é que ainda
existem muitos processos éticos decorrentes de falhas em documentos, especialmente em laudos/
relatórios psicológicos. A grande heterogeneidade desses documentos, tanto em termos de forma quanto
de conteúdo, pode suscitar dúvidas acerca de sua qualidade. Os comentários e críticas desenvolvidos
neste texto pretendem auxiliar os profissionais na produção de seus documentos, e também servir como
uma referência atualizada sobre essa temática, visando contribuir para a produção de documentos de
boa qualidade. São abordados os princípios técnicos da linguagem escrita, assim como os princípios
éticos, técnicos e científicos da profissão. A importância da devolução por escrito dos resultados das
avaliações, juntamente com a devolução oral obrigatória, também é apontada. As quatro modalidades
de documentos psicológicos são apresentadas, por meio da discussão de seus objetivos e estruturas,
com sugestões de acréscimos à estrutura do laudo/relatório. Por fim, algumas orientações práticas para
a escrita de documentos são oferecidas.
Palavras-chave: Avaliação psicológica, laudos psicológicos, ética profissional.

Psychological Reports Writing: Critical Considerations


to CFP Resolution 07/2003

Abstract
This article aims to discuss the content of Resolution N° 007/2003 of the Federal Council of Psychology,
which comprised psychological reports’ writing and had the intention to reduce the number of
complaints to their quality. However, nowadays there are still many ethical processes due to faults
in these documents, especially in psychological reports. The great heterogeneity of these documents,
both in terms of form and content, may raise doubts about their quality. The comments and criticisms
developed in this paper are intended to assist professionals in the writing of their documents, and also

1
Endereço para correspondência: Travessa Alexandrino de Alencar, 50 / 701 A, Azenha, Porto Alegre, RS,
Brasil 90160-030. Fone: (51) 9323-5382. E-mail: vmlago@gmail.com
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serve as an updated reference on this topic, in order to contribute to the improvement of the quality of
the documents. The paper examines the technical principles of written language, as well as the ethical,
technical and scientific principles of the profession of psychologist. The importance of a written return
of the results of evaluations, along with the obligatory oral return is also highlighted. The four types
of psychological documents are presented, as well as the discussion of their goals and structures, with
suggestions for additions to the report structure. Finally, some practical guidelines for writing documents
are offered.
Keywords: Psychological assessment, psychological finds, professional ethics.

Elaboración de Documentos Psicológicos:


Consideraciones Críticas a la Resolución CFP 07/2003

Resumen
Este artículo objetiva discutir el contenido de la Resolución N ° 007/2003 del Consejo Federal de
Psicología, que se ocupa de la preparación de documentos escritos psicológicos e intentaba reducir el
número de denuncias a la calidad de estos. Sin embargo, lo que se observa actualmente es que todavía
hay muchos procesos éticos de fallas en los informes psicológicos. La gran heterogeneidad de estos
documentos, tanto en términos de forma y contenido, puede plantear dudas sobre su calidad. Los
comentarios y críticas desarrollados en este trabajo están destinados a ayudar a los profesionales en la
producción de sus documentos, y sirven como una referencia actualizada para contribuir a la mejora de
la calidad de documentos. El trabajo examina los principios técnicos de la lengua escrita, así como los
principios éticos, técnicos y científicos de la profesión de psicólogo. La importancia de la devolución
de forma escrita de los resultados de las evaluaciones, además de la devolución oral obligatoria, es
destacada. Se presentan los cuatro tipos de documentos psicológicos, a través de la discusión de sus
objetivos y estructuras, con sugerencias para adiciones a la estructura del informe psicológico. Por
último, se ofrecen algunas directrices prácticas para la redacción de documentos.
Palabras clave: Evaluación psicológica, hallasgos psicológicos, ética profesional.

O resultado de uma avaliação psicológica revogada pela Resolução CFP n° 17/2002, tam-
deveria ser comumente registrado por meio de bém revogada em seguida, pela Resolução CFP
diferentes documentos, de acordo com seus pro- n° 007/2003 (2003b). Essas resoluções instituí-
pósitos. Entretanto, questões como a formação ram o Manual de Elaboração de Documentos Es-
profissional e a subjetividade do examinador, critos produzidos pelo psicólogo, decorrentes de
presentes nas avaliações psicológicas, resultam avaliação psicológica. A normativa de 2003 é a
em uma heterogeneidade de documentos, tanto referência mais atualizada de que os psicólogos
em termos de forma quanto de conteúdo. Essa dispõem para a produção de documentos escri-
falta de um padrão mais homogêneo pode sus- tos. Shine (2009) inclusive aponta que a rapidez
citar dúvidas acerca de sua qualidade. Ademais, com que as revogações foram produzidas leva
muitos processos éticos são desencadeados em a crer que há muita dificuldade em se chegar a
decorrência da baixa qualidade de laudos e pa- um consenso satisfatório nesse campo. O autor
receres. destaca, ainda, que desde a criação da primeira
Com o objetivo de fornecer diretrizes para Resolução (n° 30/2001), o intuito era o de dimi-
os profissionais, garantindo maior uniformidade nuir o número crescente de queixas à qualidade
e qualidade na produção desses documentos, o dos documentos psicológicos. Contudo, o que
Conselho Federal de Psicologia (CFP) elaborou se observa nos dias atuais é que ainda existem
a Resolução CFP n° 30/2001, posteriormente muitos processos éticos decorrentes de falhas em
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CFP n°007/2003.

documentos, especialmente em laudos/relatórios ministrar aulas sobre elaboração de documentos,


psicológicos. Para ilustrar, conforme dados de principalmente para alunos que já concluíram
registros do CFP, no ano de 2013, 11 dos 50 sua graduação há mais tempo, percebe-se que o
processos éticos que chegaram ao CFP em grau manual é visto por muitos como uma novidade.
recursal, relacionavam-se a falhas em documen- Entendemos que falhas na formação em Psicolo-
tos produzidos na área da Psicologia Jurídica, gia podem gerar esse tipo de desconhecimento.
em que a comunicação se dá de forma escrita e, No entanto, considerando-se a necessidade de os
consequentemente, mais suscetível a ações judi- profissionais manterem-se atualizados em sua
ciais. Diante deste fato, justifica-se a produção prática profissional, mesmo afastados de cur-
deste artigo, cujo escopo é o de discutir o con- sos formais, aliada ao fato de que a resolução
teúdo da Resolução CFP n° 007/2003 (2003b), já existe há pelo menos dez anos, pressupõe-se
tecendo comentários e críticas, com o objetivo que muitos psicólogos não têm o hábito de veri-
de auxiliar os profissionais na elaboração de seus ficar as Resoluções emitidas pelo CFP e dispo-
documentos. Nossa proposta com este trabalho nibilizadas em seu site (www.cfp.org.br). Uma
advém, também, da carência de referências atu- sugestão seria uma divulgação mais enfática do
alizadas sobre a temática de documentos psico- Sistema Conselhos quanto às aplicações das re-
lógicos. Na condição de professoras de cursos soluções, na forma de cartilhas ou outros mate-
de graduação, extensão e pós-graduação, fre- riais didáticos.
quentemente trabalhamos com a elaboração dos Esse desconhecimento ajuda-nos a compre-
documentos em sala de aula e nos deparamos ender o alto número de processos éticos decor-
com a dificuldade de encontrar materiais com- rentes da má qualidade de documentos. Nesse
plementares à Resolução para orientar os alunos. sentido, têm-se os dados do estudo realizado por
Espera-se, assim, que as ideias aqui discutidas Frizzo (2004) sobre as principais infrações éti-
possam servir como um material de apoio didá- cas cometidas pelos psicólogos inscritos no Con-
tico, proporcionando críticas reflexivas e atin- selho Regional 12 no período de 1994 a 2003.
gindo, por consequência, nosso objetivo maior, Seus resultados evidenciaram que 46,15% das
que é o de contribuir para o aprimoramento da infrações denunciadas a este Conselho Regional
formação dos psicólogos por meio da produção referiam-se a falhas na realização de perícia e/ou
de documentos de boa qualidade. avaliação psicológica.
O Manual de Elaboração de Documentos
Escritos dispõe sobre os seguintes itens: princí- Princípios Norteadores
pios norteadores; modalidades de documentos;
conceito/finalidade/estrutura; validade e guarda Dentre os princípios norteadores da elabo-
dos documentos. O Manual informa, ainda, que ração de documentos, a Resolução destaca as
toda e qualquer comunicação por escrito decor- técnicas da linguagem escrita e os princípios
rente de avaliação psicológica deverá seguir as éticos, técnicos e científicos da profissão. É im-
orientações nele dispostas; caso contrário, o psi- portante que os documentos apresentem uma
cólogo estará incorrendo em falta ético discipli- linguagem clara, correta, com encadeamento de
nar. Cabe, pois, o primeiro comentário à referida ideias, permitindo a comunicação e compreen-
Resolução: observa-se, a partir das disposições são do trabalho técnico exposto. Reforça-se essa
iniciais, a relevância deste manual, sendo espe- orientação da Resolução, pois inadequações no
rado o seu conhecimento por parte de todos os uso da expressão escrita formal desvalorizam os
psicólogos, especialmente os que atuam na área documentos produzidos pelo psicólogo, uma vez
de avaliação psicológica. Entretanto, o que as que não sabemos se é uma falha na formação do
autoras observam a partir de sua prática docente, profissional ou na sua capacidade de expressão.
especialmente em cursos de extensão e de espe- Da mesma forma, problemas na estrutura frasal
cialização, é um desconhecimento por parte de e/ou ordenamento adequado dos conteúdos po-
muitos profissionais acerca dessa Resolução. Ao dem levar a entendimentos errôneos acerca do
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que se quer transmitir, podendo trazer consequ- portantes para os profissionais, bem como incen-
ências negativas para os avaliados, considerando tiva a autorreflexão do psicólogo sobre algumas
especialmente a quem o documento é destinado. questões, buscando responsabilizá-lo, pessoal e
Por exemplo, no contexto organizacional erros coletivamente, por ações e suas consequências
de redação podem levar um gestor a demitir um no exercício profissional.
funcionário. Dentre os deveres fundamentais dos psicó-
Cruz (2002) enfatiza que a linguagem uti- logos (Resolução CFP nº 010/2005), segundo o
lizada deve ser objetiva, coerente e consistente. Código de Ética (artigo 1º), destacam-se o de-
É importante que o conteúdo do documento seja ver de informar, a quem de direito, somente os
claro o suficiente para o melhor entendimento resultados da prestação de serviços psicológicos
do requerente e, para tanto, é necessária uma necessários para a tomada de decisões que afe-
organização dos argumentos, acompanhada de tem o usuário ou beneficiário (artigo 1º, alínea g)
capacidade teórica e conceitual. O autor ainda e o dever de orientar, a quem de direito, sobre os
aponta a importância de se evitar juízo de va- encaminhamentos apropriados e fornecer, sem-
lor e dogmas, resguardando a coerência interna pre que solicitado, os documentos pertinentes
na redação do documento e, apresentando cor- ao bom termo do trabalho (artigo 1º, alínea h).
relações técnicas entre a metodologia utilizada Ambos os deveres ressaltam a importância de
e a comunicação dos resultados obtidos a partir fornecer informações sobre os serviços presta-
dos procedimentos utilizados. Nesse sentido, ele dos, ao mesmo tempo resguardando-as ao míni-
também cita exemplos de incorreções teóricas mo necessário. Por outro lado, estes dispositivos
e técnicas (“falta maturidade”; “não dispõe de não deixam explícito se há a obrigatoriedade do
recursos intelectuais”) e de impropriedade na fornecimento de documentos escritos como for-
escrita e no uso de termos (“mostra falsas rea- ma de devolução dos serviços de avaliação psi-
ções”; “seu desempenho na avaliação foi muito cológica.
razoável”). Cunha (2000), no que tange ainda Em função desta falta de clareza, podem-
à questão da linguagem, aponta que o conteú- -se buscar outros referenciais éticos para refletir
do dos documentos deve estar apropriado a seu acerca da necessidade ou não do fornecimen-
destinatário, isto é, deve respeitar características to de documentos escritos como resultado da
como nível sociocultural, intelectual e emocio- avaliação psicológica. Os princípios éticos que
nal daquele a quem será endereçado o laudo ou orientam a pesquisa com seres humanos e que
parecer. A autora ressalta que a expressão escrita influenciam vários códigos de ética das ciências
do documento é definida pela identidade e qua- humanas e da saúde são denominados respeito,
lidade de seu destinatário, ou seja, um mesmo beneficência/não maleficência e justiça, tendo
psicólogo pode escrever diferentes documentos sido sistematizados pela primeira vez pelo Bel-
com níveis de profundidades teórico-técnicas di- mont Report: Ethical Principles and Guidelines
versas. Isso não desmerece a qualidade do seu for the Protection of Human Subjects of Resear-
documento. ch (The National Commission for the Protection
No que diz respeito aos princípios éticos, o of Human Subjects of Biomedical and Behavio-
psicólogo deve observar os dispositivos do Có- ral Research, 1979). Considerando que o princí-
digo de Ética Profissional do Psicólogo (Reso- pio da beneficiência/não maleficiência preconiza
lução CFP nº 010/2005), atentando a questões não causar o mal, maximizar os benefícios possí-
como o sigilo profissional, as relações com a veis e minimizar os danos possíveis, coloca-se a
justiça e o alcance das informações prestadas. O questão sobre o que beneficiaria mais o paciente
Código atual data de 2005 e tem como objeti- avaliado: a devolução apenas oral ou a devolu-
vo principal estabelecer um padrão de conduta ção oral acompanhada pelo documento escrito.
esperado para as práticas da categoria. Sendo Em nossa prática, observamos que muitos
assim, coloca alguns pontos de orientação im- pacientes que buscam uma avaliação psicológica
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CFP n°007/2003.

realizaram avaliações anteriores, mas não sabem direito de ter acesso irrestrito ao seu prontuário e
reportar com exatidão o que lhes foi informado a todos os resultados de avaliações psicológicas.
a respeito. Tal fato pode demonstrar a falta de No Brasil, ainda temos como orientação com-
compreensão dos pacientes acerca do que lhe foi plementar a Resolução CFP nº 001/2009, que
devolvido, bem como dificuldades de guardar na dispõe sobre a obrigatoriedade do registro docu-
memória informações técnicas que por vezes da- mental decorrente da prestação de serviços psi-
tam de vários anos. Se a avaliação psicológica cológicos. A referida normativa aponta que os
é considerada um instrumental psicológico, ela registros sobre a prestação de serviços psicológi-
deveria funcionar como o resultado de um exa- cos têm caráter sigiloso e devem ser permanen-
me, o qual deve ser registrado por escrito para temente atualizados e organizados pelo profis-
comparações posteriores. Certamente é necessá- sional que acompanha o procedimento. Garante,
rio que exista uma flexibilidade a respeito do tipo ainda, ao paciente, ou seu representante legal,
de informes escritos a serem fornecidos aos di- o acesso integral às informações registradas,
ferentes destinatários (profissional que encami- da mesma forma que o Código da APA. Nesse
nhou o paciente para avaliação, próprio paciente sentido, consideramos que seria necessária a in-
ou familiar, profissionais da área da educação ou clusão da obrigatoriedade de fornecimento dos
trabalho que convivem com o paciente), mas é documentos escritos aos interessados em futuras
importante que exista alguma forma de registro resoluções.
acerca do que foi observado no período da ava- No que se refere aos princípios técnicos e
liação psicológica. Tal como afirmamos acima: a científicos dos documentos psicológicos escri-
forma do documento é definida pela identidade e tos, é importante considerar as variáveis históri-
qualidade de seu receptor (Cunha, 2000). cas, sociais, econômicas e políticas do processo
Diversos psicólogos afirmam que o não de avaliação, que tornam o processo de ava-
fornecimento de documentos escritos se deve à liação psicológica de natureza dinâmica e não
preocupação com potenciais usos indevidos das definitiva. Nesse sentido, Silva (2006) salienta
informações contidas nesses informes. Muitos que o psicólogo deve fazer constar no documen-
temem que ocorra uma exposição de dados si- to psicológico (laudo ou parecer) que os dados
gilosos a respeito dos pacientes. Como forma de descritos dizem respeito ao estado psicológico
evitar este risco, vários profissionais e institui- do avaliado naquele momento, não podendo ser
ções colocam-se à disposição para serem conta- considerados definitivos ou imutáveis. Tavares
tados no futuro a respeito dos pacientes, mas se (2012) comenta a complexidade da avaliação
negam a produzir qualquer registro escrito. No psicológica, que é um produto de sua demanda,
entanto, ao negarem o fornecimento de informa- da compreensão que o avaliador tem sobre ela e
ções escritas, muitas vezes os profissionais estão os objetivos que traça para desenvolver o pro-
negando o acesso dos pacientes e profissionais cesso. Além dessas condições iniciais, o autor
de saúde aos resultados da avaliação, tendo em destaca também a influência do contexto de vida
vista que muitos pacientes perdem o contato com do indivíduo e da qualidade da relação entre ava-
psicólogos anteriores; além disso, nem sempre liador e avaliado para o resultado final da avalia-
os profissionais que atenderão esses pacientes ção. Esses aspectos integram os princípios téc-
estarão dispostos a entrar em contato. nicos descritos na Resolução CFP nº 007/2003
Hutz (2009) também relaciona o direito que (2003b), uma vez que permitem evidenciar a
os indivíduos têm de conhecer os resultados de natureza dinâmica da avaliação, influenciada pe-
suas avaliações, suas implicações e o uso que las circunstâncias do momento e da dinâmica da
poderá ser feito dos dados coletados ao princí- avaliação.
pio ético do respeito. O autor ressalta que o atual A Resolução orienta, ainda nos princípios
Código de Ética da American Psychological As- técnicos, que os documentos sejam baseados
sociation (APA, 2002) garante aos indivíduos o exclusivamente em instrumentais técnicos que
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se configurem como métodos e técnicas psicoló- Modalidades de Documentos


gicas. São citados, como exemplos, entrevistas,
testes, observações, dinâmicas de grupo, escu- Declaração e Atestado Psicológico
ta e intervenções verbais. Entendemos, a partir Quatro são as modalidades de documentos
dessa orientação, é que outras técnicas, que não previstas na Resolução CFP nº 007/2003: decla-
exclusivamente os testes psicológicos, possam ração, atestado, relatório/laudo e parecer psico-
ser utilizadas para compor o entendimento do lógico. A declaração
caso sob avaliação. Podem ser mencionadas
como exemplos escalas psiquiátricas, como a visa informar a ocorrência de fatos ou situa-
SCID (Structured Clinical Interview for DSM; ções objetivas relacionadas ao atendimento
Del-Ben et al., 2001) e o Mini Exame do Estado psicológico, com a finalidade de declarar:
Mental (Folstein, Folstein, & McHugh, 1975), a) Comparecimentos do atendido e/ou do
bastante utilizadas em avaliações que demandam seu acompanhante, quando necessário; b)
um diagnóstico nosológico. Na área da avalia- Acompanhamento psicológico do atendido;
ção de leitura e escrita, podemos citar o Teste c) Informações sobre as condições do aten-
de Desempenho Escolar (TDE; Stein, 1994) e o dimento (tempo de acompanhamento, dias
PROLEC (Provas de Avaliação dos Processos ou horários). Neste documento não deve ser
de Leitura; Capellini, Oliveira, & Cuetos, 2010), feito o registro de sintomas, situações ou es-
utilizados por educadores e fonoaudiólogos. O tados psicológicos. (2003b, p. 5)
TDE consta, inclusive, na lista de instrumentos
Já o atestado
de uso não privativo do psicólogo do SATEPSI
(Sistema de Avaliação de Testes Psicológicos). certifica uma determinada situação ou es-
O SARP (Sistema de Avaliação do Relaciona- tado psicológico, tendo como finalidade
mento Parental; Lago & Bandeira, 2013), recen- afirmar sobre as condições psicológicas de
temente lançado, é outro exemplo de método de quem, por requerimento, o solicita, com fins
avaliação que não se enquadra nos critérios de de: a) Justificar faltas e/ou impedimentos do
teste psicológico descritos na Resolução CFP n° solicitante; b) Justificar estar apto ou não
002/2003 (2003a), mas que pode embasar um para atividades específicas, após realização
laudo, por configurar-se como um instrumental de um processo de avaliação psicológica,
técnico do psicólogo. Esse assunto merece uma dentro do rigor técnico e ético que subscre-
discussão mais profunda no âmbito da categoria ve esta Resolução; c) Solicitar afastamento
profissional, contudo transcende o escopo des- e/ou dispensa do solicitante, subsidiado na
te artigo. Uma vez tendo discutido os princípios afirmação atestada do fato, em acordo com
norteadores do Manual de Elaboração de Docu- o disposto na Resolução CFP nº 015/96.
mentos Escritos, passaremos à análise das moda- (Resolução CFP nº 007/2003, 2003b, p. 6)
lidades de documentos dispostas na Resolução
CFP nº 007/2003 (2003b) do CFP. Por se trata- Apesar da distinção entre Declaração e Ates-
rem de documentos mais simples em sua elabo- tado, frequentemente se observa a solicitação
ração, a declaração e o atestado serão brevemen- equivocada, por parte dos avaliados, de emissão
te apresentados e discutidos, sendo priorizada a de atestados para justificar faltas ou afastamen-
discussão dos laudos/relatórios e pareceres psi- tos do trabalho para comparecimento à avaliação
cológicos. É valido apontar, ainda, a observação psicológica. Na verdade, a mera justificativa de
feita na Resolução de que “a declaração e o pare- falta ou afastamento do trabalho, sem registro de
cer psicológico não são documentos decorrentes sintomas ou estados psicológicos, implicaria a
da avaliação psicológica, embora muitas vezes produção de uma declaração, e não de um ates-
apareçam desta forma” (p. 5). Comentários nes- tado. É responsabilidade do profissional saber
se sentido serão abordados quando da discussão qual o tipo de documento deverá produzir diante
de cada modalidade de documento. de um pedido desses e esclarecer ao solicitante.
Elaboração de Documentos Psicológicos: Considerações Críticas à Resolução 777
CFP n°007/2003.

Os psicólogos dispõem, também, da Reso- e validade do documento emitido pelo psicólogo


lução CFP n°15/1996, que institui e regulamenta (http://www.jusbrasil.com.br/diarios/49485162/
a Concessão de Atestado Psicológico para trata- trt-7-10-12-2012-pg-70).
mento de saúde por problemas psicológicos. Essa
informação é outro exemplo de dúvida frequente Laudo / Relatório Psicológico
entre os psicólogos, os quais possivelmente des- A Resolução nº 007/2003 do CFP define
conhecem essa possibilidade, acreditando que relatório ou laudo psicológico como “uma apre-
apenas os médicos podem emitir atestados para sentação descritiva acerca de situações e/ou con-
afastamento em virtude de problemas de saúde. dições psicológicas e suas determinações histó-
O parágrafo único do artigo 1º dessa reso- ricas, sociais, políticas e culturais, pesquisadas
lução (Resolução CFP n°15/1996) dispõe sobre no processo de avaliação psicológica” (2003b, p.
o fato de ser facultado ao psicólogo utilizar o 7). O fato de este tipo de documento ter duas op-
Código Internacional de Doenças (CID) como ções de denominação aumenta, em determinadas
fonte de enquadramento de diagnóstico nos ates- ocasiões, as dúvidas sobre as especificidades do
tados. No artigo 2º, da referida Resolução, há a mesmo.
orientação de que o psicólogo, ao emitir atestado Em nosso entendimento, as denominações
com a finalidade de afastamento para tratamento “laudo” e “relatório” não deveriam ser sinôni-
de saúde, deva manter em seus arquivos a docu- mos. De acordo com o dicionário do Aurélio
mentação técnica que fundamente tal atestado. Online – Dicionário de Português (2008-2016),
Essa documentação poderá ser solicitada a qual- laudo é “opinião do louvado ou do árbitro”, vo-
quer tempo pelo Conselho Regional de Psicolo- cábulo que remete, portanto, a um parecer emiti-
gia (CRP). do por um especialista. Assim sendo, caberia nos
Ainda a respeito dos atestados, um fato que casos de produção de um documento completo,
suscita dúvidas diz respeito à aceitação do ates- decorrente de processo de avaliação psicológi-
tado psicológico nas empresas. Situações, por ca, como já vem sendo tratado. Por outro lado,
exemplo, em que o sujeito apresentaria um qua- a palavra “relatório” remete a algo mais amplo,
dro psicopatológico e, em decorrência disso, jus- entendido como “ato de relatar” ou “exposição
tificaria sua ausência e/ou afastamento do traba- escrita de fatos”. Consequentemente, o termo
lho. Embora a Resolução CFP nº 15/1996 admita relatório parece ser mais apropriado a outras
a possibilidade de emissão de atestado psicoló- situações que não a da avaliação psicológica.
gico para afastamento do trabalho, a realidade Aplicar-se-ia o termo em situações de descrição
nos mostra que muitas empresas não o aceitam, de evolução de um acompanhamento psicológi-
exigindo que os mesmos sejam fornecidos por co, por exemplo, sem o acréscimo de opiniões,
médicos, conforme prevê a CLT (Consolidação julgamentos ou análises, sendo este realizado em
das Leis de Trabalho). Em função do CFP le- instituições ou em consultórios privados. Essa
gislar somente para a categoria dos psicólogos, diferenciação entre as nomenclaturas poderia
as organizações não são obrigadas a aceitarem esclarecer dúvidas de muitos profissionais que
o atestado psicológico. Por esse motivo, o CFP atuam em diferentes contextos da Psicologia, e
estuda, juntamente com outros conselhos profis- não apenas com a avaliação psicológica.
sionais, formas de propor um projeto de lei que Um aspecto bastante positivo da defini-
regulamente o atestado de saúde em substituição ção fornecida nessa Resolução é a visibilidade
ao atestado médico (http://site.cfp.org.br/conta- dada ao instrumental técnico variado que pode
to/saude/). Nesse sentido, há jurisprudência que embasar a avaliação psicológica. “Como todo
admite a validade dos atestados psicológicos que DOCUMENTO, deve ser subsidiado em dados
prescreveram o afastamento do trabalhador. A colhidos e analisados, à luz de um instrumental
referida orientação judicial inclusive faz men- técnico (entrevistas, dinâmicas, testes psicoló-
ção à Resolução CFP nº 15/1996, por meio da gicos, observação, exame psíquico, intervenção
qual o desembargador reconhece a legitimidade verbal), consubstanciado em referencial técnico-
778 Lago, V. M., Yates, D. B., Bandeira, D. R.

-filosófico e científico adotado pelo psicólogo” mínimo, cinco itens: identificação, descrição da
(Resolução CFP nº 007/2003, 2003b, p. 7). Ain- demanda, procedimento, análise e conclusão.
da, percebe-se a importância dada ao uso de um No entanto, não explicita se esses subtítulos são
referencial técnico-filosófico e científico. Ainda obrigatórios ou se o documento em questão deve
mais relevante em termos éticos é a descrição apresentar itens que reflitam estes conteúdos,
dada à finalidade do laudo/relatório psicológico, não necessariamente com esta nomenclatura.
que seria a de “apresentar os procedimentos e Ao examinar cada item separadamente, sur-
conclusões gerados pelo processo da avaliação gem outras questões não contempladas direta-
psicológica, relatando sobre o encaminhamen- mente pela Resolução. No que se refere ao item
to, as intervenções, o diagnóstico, o prognós- Identificação, essa prevê três identificadores: o
tico e evolução do caso, orientação e sugestão autor/relator (quem elabora o documento); o in-
de projeto terapêutico, bem como, caso neces- teressado (quem o solicita) e o assunto/finalida-
sário, solicitação de acompanhamento psicológi- de (qual a razão/finalidade deste). Em nenhum
co” (Resolução CFP nº 007/2003, 2003b, p. 7). trecho da Resolução é especificado que dados
Contudo, o que se observa na prática é sobre o avaliado devem constar no documento.
que muitos dos documentos dessa modalidade, Mesmo dentre os identificadores detalhados, a
possivelmente elaborados por psicólogos sem informação central a ser mencionada é o nome
preparo, resultam em meras descrições de ins- do autor/relator e do interessado, não constan-
trumentos aplicados na avaliação, sem preocu- do dados como formação profissional e vínculo
pação com a coerência entre a demanda, as hi- institucional, por exemplo. Temos utilizado, na
póteses geradas, os procedimentos adotados, as nossa experiência, os seguintes dados de iden-
conclusões e os consequentes encaminhamentos. tificação específicos do(s) avaliado(s): nome
Os prejuízos nessas descrições podem advir de completo, data de nascimento, idade, sexo, es-
uma má interpretação da orientação do Código colaridade e ocupação e, em casos de criança ou
de Ética Profissional do Psicólogo (Resolução adolescente, os mesmos dados de identificação
CFP nº 010/2005) o qual afirma que “nos docu- para os pais.
mentos que embasam as atividades em equipe No identificador Assunto, a Resolução su-
multiprofissional, o psicólogo registrará apenas gere a indicação da razão ou motivo do pedido,
as informações necessárias para o cumprimen- e menciona alguns exemplos: “se para acom-
to dos objetivos do trabalho” (p. 11) ou mesmo panhamento psicológico, prorrogação de prazo
da própria Resolução, que diz que o psicólogo para acompanhamento ou outras razões perti-
deve limitar-se a fornecer somente as informa- nentes a uma avaliação psicológica”. É relevan-
ções necessárias relacionadas à demanda, soli- te observar que, na prática, muitos psicólogos
citação ou petição” (p. 7). Isso significa que nos colocam nesse item a informação “para fins de
documentos o psicólogo não precisa entrar em avaliação psicológica”, o que na verdade é uma
detalhes desnecessários ao caso analisado, dados tautologia, uma vez que tanto o atestado como
que muitas vezes podem levar a interpretações o relatório/laudo psicológico são decorrentes de
equivocadas por parte de quem lê assim como avaliação psicológica. Sugerimos que o motivo
expor em demasia o indivíduo avaliado. Talvez seja descrito de forma específica, por exemplo
fatores como temor exacerbado quanto ao uso “para investigação de queixas de memória”,
que poderá ser feito das informações, bem como “avaliação do funcionamento cognitivo devido a
uma tendência de omissão no esclarecimento de dificuldades escolares”, “para avaliação da com-
dados centrais da avaliação, podem gerar laudos/ petência parental para o exercício da guarda”.
relatórios psicológicos pouco claros ou inespecí- O segundo item previsto pela estrutura do
ficos, o que pode trazer danos tanto para o ava- laudo/relatório é a Descrição da demanda, que é
liado quanto para a imagem do profissional. destinada à “narração das informações referen-
No que se refere à estrutura do laudo/rela- tes à problemática apresentada e dos motivos,
tório, a Resolução exige a apresentação de, no razões e expectativas que produziram o pedido
Elaboração de Documentos Psicológicos: Considerações Críticas à Resolução 779
CFP n°007/2003.

do documento. Nesta parte, deve-se apresentar a O item Análise corresponde à exposição


análise que se faz da demanda de forma a justi- descritiva metódica, objetiva e fiel dos dados
ficar o procedimento adotado” (Resolução CFP colhidos e das situações vividas relacionados à
nº 007/2003, 2003b, p. 8). Esse item é essen- demanda em sua complexidade. É dado destaque
cial no que se refere à descrição da(s) queixa(s) à necessidade de a avaliação psicológica consi-
relatada(s) pelo solicitante e/ou pelo avaliado e derar as determinações históricas, sociais, eco-
da possibilidade de investigar as causas desta(s) nômicas e políticas das questões de ordem psico-
através de uma avaliação psicológica. Em mui- lógica. Tal advertência é relevante na medida em
tos casos, a demanda inicial pode ser mais ampla que orienta que a avaliação psicológica não deve
do que uma avaliação psicológica pode respon- servir como mera ferramenta de reprodução de
der, e é responsabilidade do autor do documento práticas estigmatizantes sem reflexão. Contudo,
explicitar quais aspectos poderão ser avaliados o termo Análise não se mostra adequado, uma
e quais necessitarão, por exemplo, ser encami- vez que pressupõe inferência e interpretação,
nhados a outros profissionais para serem melhor no entanto, as orientações dadas para esse item
investigados. sugerem uma exposição descritiva relacionada
O terceiro item a constar na estrutura, Pro- à demanda. O item se torna confuso, pois pres-
cedimento, deve apresentar os recursos e instru- supõe a inclusão simultânea de uma descrição
mentos técnicos utilizados para coletar as infor- (que poderia ser compreendida como a história
mações (número de encontros, pessoas ouvidas do caso), da apresentação dos resultados e do
etc.) à luz do referencial teórico-filosófico que estabelecimento de suas relações com os dados
os embasa. A Resolução ressalva que o procedi- colhidos.
mento adotado deve ser pertinente para avaliar Como alternativa ao item Análise, suge-
a complexidade do que está sendo demandado. rimos sua substituição por três itens, conforme
Não é especificado se, no caso de uso de instru- descreveremos a seguir. O primeiro seria um
mentos psicológicos, devem ser apresentadas as item específico para a descrição da história da
referências bibliográficas dos respectivos manu- pessoa avaliada, desvinculada da interpretação
ais. Alguns profissionais entendem que o “refe- feita pelo psicólogo acerca desses eventos, bem
rencial teórico-filosófico” a que a Resolução se como a impressão geral transmitida pelo pa-
refere implicaria a indicação de somente uma ciente ao autor (Pasquali, 2001). A nomencla-
abordagem teórica (psicanálise, cognitivo-com- tura utilizada nesse item pode variar conforme
portamental, humanismo, sistêmica, gestáltica) a demanda da avaliação (ex.: História Clínica,
utilizada para a avaliação. No nosso entendi- Histórico Familiar, Histórico Ocupacional, etc.).
mento, quem trabalha com avaliação psicológi- O segundo seria denominado Resultados, con-
ca pode utilizar diferentes referenciais e, inclu- tendo dados obtidos a partir dos procedimentos
sive, integrá-los para o entendimento dinâmico utilizados. O terceiro item, Integração dos Da-
do avaliado. Por exemplo, quem trabalha com dos, promoveria a síntese e a interpretação entre
avaliação pode utilizar técnicas projetivas, com todos os dados obtidos durante a avaliação. Em
enfoque psicanalítico, assim como avaliar aspec- determinadas situações, esses dois últimos itens
tos cognitivos utilizando o Wechsler Intelligen- podem ser apresentados em conjunto.
ce Scale for Children (WISC IV), aprofundan- O item Conclusão contempla a exposição
do entendimentos de uma linha mais cognitiva. do resultado e/ou considerações a respeito da in-
Nesse sentido, ele vai se utilizar de diferentes vestigação a partir das referências que subsidia-
abordagens teóricas. Na realidade, este é o dife- ram a avaliação. A Resolução ressalta também a
rencial do psicólogo que trabalha com avaliação importância de sugestões e projetos de trabalho
psicológica: ter uma visão integrada do avaliado, que contemplem a complexidade das variáveis
devendo inclusive se utilizar de conhecimentos envolvidas durante o processo.
que extrapolam a Psicologia (por exemplo, no- Como orientações gerais para a escrita des-
ções de neurologia, fonoaudiologia e fisiologia). te tipo de documento, baseadas em dificuldades
780 Lago, V. M., Yates, D. B., Bandeira, D. R.

frequentemente apresentadas por psicólogos e feita a partir da demanda inicial e da história do


estudantes de Psicologia, destacamos: (a) a im- avaliado. Ressalta-se também a importância de
portância da escolha ética das informações a se- organizar as informações de forma que essa seja
rem apresentadas, considerando a quem o docu- compreensível, respeitando a ordem cronológica
mento será destinado, (b) a necessidade de uma dos acontecimentos e separando os parágrafos
escrita descritiva da demanda e da história clíni- com base em conteúdos comuns (p.ex.: desen-
ca, evitando julgamentos ou interpretações, (c) a volvimento inicial, período escolar, relaciona-
apresentação clara dos procedimentos adotados mento familiar, relacionamento social, etc.).
e dos resultados obtidos, considerando o destina- Cabe fazer uma observação, no contexto do
tário do documento e (d) o comprometimento do relato da demanda e da história clínica, sobre o
autor do laudo com o encaminhamento do caso uso do termo “sic”. Muitas vezes esse é utiliza-
avaliado. do como sigla para “segundo informações colhi-
No que se refere ao primeiro ponto, salien- das”. No entanto, trata-se de uma contração de
tamos que a escolha das informações a serem um termo do latim, “sicut”, que significa “assim,
relatadas deve ser norteada pela análise da de- desse modo” (Maia & Palomo, 2012). O Dicio-
manda feita inicialmente no processo de avalia- nário Houaiss da Língua Portuguesa define que
ção psicológica. O conteúdo e o nível de com- sic, utilizado entre parênteses ou colchetes em
plexidade da linguagem (mais simples e direta uma citação, indica que o texto está sendo re-
ou mais técnica e detalhada) a serem utilizados produzido exatamente da mesma forma como no
no documento estão diretamente relacionados à original, por errado ou estranho que esse possa
definição das questões a serem investigadas pela parecer (Houaiss & Villar, 2001). Ressalta-se
avaliação e do destinatário do documento (que que o simples uso de aspas na afirmativa do pa-
pode ser tanto um profissional, geralmente da ciente já demonstra tratar-se de uma transcrição
área da saúde, como o próprio paciente ou res- literal, tornando desnecessário o uso do sic como
ponsável). Reforça-se também a importância de popularmente utilizado (no sentido de “segundo
uma escrita concisa, na qual não é necessário re- informações colhidas”). Sugerimos que o uso do
latar cada encontro ou procedimento feito com o termo sic seja limitado a situações nas quais não
paciente, mas sim as informações mais relevan- se pode confirmar a veracidade ou acurácia do
tes para a compreensão da problemática do caso, relato ou nas quais se deseje destacar uma infor-
como eventos e conteúdos que se repetem com mação ou incongruência, evitando um uso que
frequência na história daquele, assim como fatos implicitamente desqualifica o relato original. A
incomuns, mas marcantes em sua trajetória. seguir, um exemplo no qual seria recomendado
O segundo ponto aborda a importância da o uso do termo sic: “o paciente afirma que nun-
descrição da demanda e da história clínica do ca viu o pai ‘alto’(sic) – ou seja, alcoolizado”.
avaliado de forma não interpretativa. Observa- Trechos do relato em que se apresente o discurso
-se que muitas vezes os autores dos documentos direto do paciente não necessitariam de sic, ape-
psicológicos têm dificuldade em relatar de forma nas de aspas.
objetiva (conforme relato feito pelo avaliado, A apresentação clara dos procedimentos e
familiar ou profissional envolvido) as queixas e resultados da avaliação, incluída no terceiro pon-
a história do caso. É importante que esta parte to, tem como eixo central o tipo de destinatário
do documento deixe explícito quem é a fonte de a quem este documento se destina. Nesse caso,
cada informação, além de mencionar os valores cabe fazer uma diferenciação entre: destinatários
atribuídos a estas informações pelos envolvidos, leigos, profissionais da área da saúde não psicó-
sem interferência da leitura feita pelo avaliador. logos e psicólogos. No caso dos destinatários
Tal descrição permite que os futuros destinatá- leigos, a descrição dos procedimentos e resulta-
rios do documento (frequentemente profissio- dos deve ser clara e específica, mas sem o uso de
nais aos quais o paciente foi encaminhado) com- termos excessivamente técnicos (ou, no caso de
preendam melhor o caso e a investigação que foi serem usados, estes devem vir seguidos de uma
Elaboração de Documentos Psicológicos: Considerações Críticas à Resolução 781
CFP n°007/2003.

explicação em linguagem simples). Sugere-se psicológica. Seu objetivo é diferente do laudo/


também que seja evitado o uso da exposição de relatório e, portanto, sua estrutura é mais obje-
resultados numéricos sem a devida interpretação tiva, dispensando o item “procedimentos”. Tra-
(por exemplo, o que significa o percentil obtido ta-se de uma resposta pontual e esclarecedora,
pelo paciente). No caso de documentos destina- que exige conhecimento da ciência psicológica.
dos a profissionais da área da saúde não psicó- Pareceres podem ser solicitados por instituições
logos, a terminologia técnica pode ser utilizada, (como escolas), ou profissionais (psiquiatras,
mas é contraindicado o uso de jargões psicológi- neurologistas, fonoaudiólogos, advogados). A
cos. No que tange aos destinatários psicólogos, é resposta a essas solicitações não exige a necessi-
importante lembrar que nem todos os profissio- dade de realizar uma avaliação psicológica, pois
nais da área têm conhecimentos específicos de o psicólogo responderá ao que lhe foi questiona-
avaliação psicológica, portanto se faz necessário do a partir de seu conhecimento técnico e tam-
o esclarecimento de termos da área. bém embasado em referencial teórico pertinente.
Por fim, no último ponto, ressaltamos a Um advogado pode, por exemplo, solicitar um
importância de que o documento produzido seja parecer psicológico acerca dos possíveis benefí-
coerente em seu propósito. Se a avaliação foi cios e malefícios da guarda compartilhada para
solicitada para a investigação de um problema crianças com menos de dois anos de idade. Na
psicológico, a conclusão do documento deve área clínica, um psicólogo pode ser solicitado a
retomar os aspectos principais do processo, realizar um parecer sobre a possibilidade de uma
bem como sugerir indicações terapêuticas para criança com Transtorno do Espectro Autista
esta demanda. Não é imprescindível indicar acompanhar uma classe regular de primeiro ano
profissionais específicos, mas é essencial ao do ensino fundamental. Nessas situações, o psi-
menos sugerir tratamentos, condutas e outros cólogo não responderia com base em um único
tipos de investigações, quando o caso necessitar. sujeito, mas considerando o atual estado da arte
Em algumas situações, também pode ser preciso que motivou tal consulta.
explicitar os riscos que a manutenção de um A Resolução CFP nº 007/2003 (2003b) faz
determinado estado, sem auxílio terapêutico, referência também à possibilidade da existência
pode implicar. de quesitos, os quais são perguntas elaboradas
pelo solicitante da avaliação. Sempre que existi-
Parecer rem quesitos, o parecerista deverá respondê-los
O Parecer Psicológico é definido pela Re- de forma sintética e convincente, não deixando
solução CFP nº 007/2003 como “um documento nenhum quesito sem resposta. Nas situações em
fundamentado e resumido sobre uma questão fo- que não existam dados suficientes para emitir
cal do campo psicológico cujo resultado pode ser uma resposta mais categórica, deve-se utilizar a
indicativo ou conclusivo” (2003b, p. 9). Explica, expressão “sem elementos de convicção”. Se o
ainda, que esse documento tem como objetivo quesito estiver mal formulado, pode-se afirmar
“prejudicado”, “sem elementos” ou “aguarda
apresentar resposta esclarecedora, no cam-
evolução”. Porém, é importante reforçar que to-
po do conhecimento psicológico, através de
dos os quesitos exigem uma resposta.
uma avaliação especializada, de uma ‘ques-
No que tange aos quesitos, cabe aqui uma
tão-problema’, visando a dirimir dúvidas
observação importante. Embora a definição de
que estão interferindo na decisão, sendo,
quesito remeta a “uma questão sobre a qual se
portanto, uma resposta a uma consulta, que
espera uma resposta ou esclarecimento”, em
exige de quem responde competência no as-
nossa prática observamos ser incomum a soli-
sunto. (2003b, p. 9)
citação de respostas a quesitos em outras áreas
Aqui cabe retomar a observação da Resolu- que não a jurídica. É comum que profissionais
ção n° 007/2003 (2003b) sobre o fato de o parecer de áreas da saúde, como médicos e fonoaudiólo-
não ser um documento decorrente de avaliação gos, encaminhem questões pontuais para serem
782 Lago, V. M., Yates, D. B., Bandeira, D. R.

respondidas pelos profissionais; contudo, esses das do solicitante. A Resolução deixa claro que
questionamentos não costumam ser identifica- não há necessidade de descrever detalhadamente
dos como quesitos. Por outro lado, nas avalia- os procedimentos, dados colhidos ou até mesmo
ções encaminhadas pelo Poder Judiciário, esse o nome dos envolvidos. Complementando a crí-
termo é bastante frequente, com a presença de tica feita anteriormente em relação à diferença
quesitos elaborados tanto pelo Juiz de Direito, de nomenclaturas entre as áreas da Psicologia e
quanto pelo Promotor de Justiça e/ou pelos ad- do Direito, cabe observar que o perito, ao ela-
vogados das partes. Nesse ponto, temos uma borar seu laudo, apresenta a “resposta aos que-
crítica relevante para apontar referente à diver- sitos” como um novo item, após a “conclusão”,
gência de nomenclaturas entre a Resolução do antes de datar e assinar o documento (Rovinski,
CFP e o que está disposto no Código de Processo 2004). A Resolução do CFP não deixa clara essa
Civil (CPC). informação; pelo contrário, entende-se que os
De acordo com a definição de parecer da quesitos deveriam constar no item “exposição de
Resolução do CFP, poderia se interpretar que motivos”, o que seria uma prática inadequada no
os peritos emitiriam um parecer, visto ser este contexto forense.
um “documento fundamentado e resumido sobre A análise deve responder à demanda des-
uma questão focal do campo psicológico cujo crita no item “exposição de motivos”, de uma
resultado pode ser indicativo ou conclusivo”. forma resumida, com base no corpo conceitual
Responderiam, também, aos quesitos apresenta- da ciência psicológica. Pode, ainda, incluir re-
dos pelas partes. Outra Resolução do CFP que ferências de trabalhos científicos para citações e
corrobora essa divergência de nomenclaturas informações. Diferentemente da discussão pro-
é a Resolução nº 17/2012, que dispõe sobre a posta na estrutura do Laudo/Relatório acerca do
atuação do psicólogo como perito nos diversos termo Análise, aqui entendemos que o termo
contextos. Em seu artigo 8º, há a orientação de mostra-se adequado.
que “em seu parecer, o psicólogo perito apresen- Por fim, a conclusão apresentará o posicio-
tará indicativos pertinentes à sua investigação . namento do parecerista, que deverá responder à
. .”. Entendemos que a definição de parecer da questão levantada. A conclusão deve ser objetiva
Resolução CFP nº 007/2003 (2003b) gera dú- e concisa, pois se espera que a discussão dos da-
vidas e confusões quando essa demanda advém dos levantados conste no item “análise”, ou seja,
do Poder Judiciário, cujas legislações preveem a a justificativa da conclusão estaria apresentada
denominação de laudo para o documento produ- no item anterior. E, como em todos os documen-
zido por peritos, e de parecer para o documento tos psicológicos, ao final deverá ser informada
emitido pelos assistentes técnicos. data e local, e deverão constar a assinatura do
Após a apresentação das críticas em relação psicólogo e seu carimbo, com número do regis-
à nomenclatura do documento, explorar-se-á a tro profissional. No caso de documentos com
partir de agora a estrutura do parecer. Conforme mais de uma página, o psicólogo deverá rubricar
disposto na Resolução CFP nº 007/2003 (2003b), todas as folhas do documento (a numeração das
quatro itens compõem o parecer: identificação, páginas não é obrigatória, mas indicada).
exposição de motivos, análise e conclusão. Em
relação à Identificação, diferentemente do laudo, Validade e Guarda dos Documentos
há a orientação de indicar a titulação do parece-
rista, assim como a titulação de quem está soli- Os últimos itens contemplados pela Reso-
citando. Entende-se que essa orientação seja no lução CFP nº 007/2003 (2003b) dizem respeito
sentido de reforçar a especialidade do psicólogo a à “validade dos conteúdos dos documentos” e
quem foi encaminhada a demanda do parecer, jus- “guarda dos documentos e condições de guar-
tificando sua competência para tratar do assunto. da”. Em relação ao prazo de validade, a Reso-
No item “exposição de motivos”, deve cons- lução orienta que o psicólogo deverá considerar
tar o objetivo da consulta e dos quesitos ou dúvi- a legislação vigente nos casos já definidos. Em
Elaboração de Documentos Psicológicos: Considerações Críticas à Resolução 783
CFP n°007/2003.

não havendo definição legal, o psicólogo poderá parecem do fundo de sua alma infantil”. “Joana
indicar, sempre que possível, o prazo da valida- é uma mulher guerreira e muito sofredora”.
de do conteúdo no próprio documento, dispondo Os trechos acima, extraídos de documentos
dos fundamentos para tal indicação. A título de emitidos por psicólogos, demonstram a ausência
exemplo, cita-se o caso de uma paciente que se de linguagem técnica e incorrem na emissão de
submeteu à avaliação neuropsicológica e, para- julgamentos morais. Parecem, inclusive, reme-
lelamente, estava passando por processo de de- ter a uma linguagem de texto dramático e/ou ro-
sintoxicação por agentes químicos. Foi sugerido mântico. Nesses casos, termos como “a paciente
no laudo decorrente da avaliação que, após um apresenta grave sofrimento psíquico” e “revela
ano, a avaliação fosse refeita, a fim de compa- persistência diante de seus objetivos” são su-
rar os resultados, com o objetivo de verificar a gestões que apresentam uma linguagem técnica
incidência de progressos ou prejuízos na área da mais adequada.
cognição, considerando os possíveis efeitos do
tratamento de desintoxicação. Afirmações Categóricas
No que tange à guarda dos documentos, a
“A partir das entrevistas realizadas com
Resolução indica o prazo mínimo de cinco anos
mãe, pai, filha, avós e tia materna da vítima, é
para a guarda não apenas do laudo, mas de todos
possível afirmar, com certeza, que abusos sexu-
os materiais referentes à avaliação. Neste caso,
ais e físicos ocorreram”.
orientamos que se incluam anotações do psicó-
Ainda que o psicólogo possa estar conven-
logo, folhas de resposta dos testes e outros mate-
cido da possível ocorrência de abusos sexuais
riais que fundamentem os achados da avaliação.
e físicos, a redação de seu documento deve ser
A guarda é de responsabilidade do psicólogo ou
mais cautelosa. A Psicologia não é uma ciência
da instituição em que a avaliação foi realizada.
que nos permita certezas absolutas, especialmen-
Poderá haver ampliação desse prazo nos casos
te por meio de dados coletados exclusivamente a
previstos em lei. Por fim, caso haja a extinção
partir de entrevistas. Nesse caso, o profissional
do Serviço de Psicologia, deverão ser seguidas
poderia ter usado alguma expressão do tipo “é
as orientações do Código de Ética para o destino
possível evidenciar a existência de fortes indí-
dos documentos.
cios de ocorrência de abusos sexuais e físicos”.
Nessa situação, é importante que o profissional
Orientações Práticas para a Escrita
descreva, ainda, quais são esses indícios, pre-
de Documentos
ferencialmente relacionando o observado com
Considerando nossa experiência enquanto referências da literatura que corroborem seus
supervisoras de avaliação psicológica, foi possí- achados clínicos. Tais referências podem constar
vel observar a dificuldade que muitos estudantes como nota de rodapé ou, ainda, em uma lista ao
e/ou profissionais da Psicologia apresentam para final do documento.
redigir seus documentos. No intuito de contri-
buir para esse aprimoramento da escrita, exem- Informação Imprecisa,
plificaremos algumas falhas encontradas em do- Sem Fundamentação Técnico-Científica
cumentos, justificando sua inadequação, a fim de “Sr. João demonstra um comportamento
que aqueles que buscam orientações de redação extremamente agressivo e, sem que haja míni-
possam, ao menos, evitar incorrer em tais erros. mos critérios de segurança, quanto à doença
mental/neurológica que acomete o Sr. João e
Utilização de Linguagem Não-Técnica que se apresenta como grave, seu contato com
“E de repente, surge aquele estranho que- a filha não deve ser permitido, para segurança
rendo abusá-la, atacando-a da forma mais cruel desta.”
que uma criança pode conceber . . . Essa pacien- Os profissionais que emitiram o documento
te está muito sentida, com aqueles soluços que cujo trecho foi extraído acima fazem referência
784 Lago, V. M., Yates, D. B., Bandeira, D. R.

a uma “doença mental/neurológica”, descrita “O paciente teve a oportunidade de convi-


como grave. Entretanto, não há identificação de ver com seus pais casados por somente três anos
que doença seria, nem tampouco embasamento . . . Ele cursou a faculdade por cinco anos e,
para justificar os critérios diagnósticos utiliza- durante todo esse tempo, não conseguiu avançar
dos para chegar a tal conclusão. Quando hou- além do terceiro semestre”.
ver um diagnóstico do paciente sob avaliação, é No primeiro exemplo citado, o trecho subli-
importante deixar claro qual o diagnóstico (in- nhado faz uso de gíria ou expressões coloquiais
formando, inclusive, o CID) e, ainda, descrever desnecessárias ao entendimento da situação. Já
os critérios que permitiram a conclusão por tal no último exemplo, fica implícita a avaliação
diagnóstico. Esse apontamento é especialmente negativa que o autor faz sobre a duração do ca-
importante para o próprio autor do documento, samento dos pais do avaliando ou o desempenho
como um respaldo da qualidade técnica de seu deste na faculdade. O psicólogo deve se ater a
trabalho. relatar fatos ou, quando necessário, se limitar a
reproduzir juízos de valor expressados pelo ava-
Desrespeito aos Limites de Atuação liando ou por pessoas envolvidas no caso por
do Psicólogo meio de aspas, nunca expondo opiniões pessoais
“Foi ordenado a Srta. Maria que não per- acerca da vida do sujeito.
mitisse o contato de sua filha com o pai”.
É preciso atentar aos limites de nossa atua- Uso de Termos Técnicos
ção e, para tanto, tomar cuidado com a utilização Desnecessários ou Sem a Devida
de certas palavras. Enquanto psicólogos, ainda Explicação
que exercendo o papel de peritos, por exemplo, “Essa escala demonstrou que o paciente
não temos autoridade para “ordenar”, o que se- encontra-se num nível intelectual superior, com
ria da competência do juiz, se aplicável ao caso. alta capacidade de análise e síntese, bem como
Ao psicólogo compete “recomendar”, “sugerir”, de insight. . . . Suas fraquezas estão centradas
“indicar”. numa dificuldade específica de atenção e de
memória imediata, o que sugere uma baixa
Pessoalidade na Escrita capacidade do ego sobre os processos de
“A seguir apresentamos análise de cada um pensamento.”
dos avaliados”. “Nesse instrumento foi detectada uma ten-
“Nessa ocasião o avô compartilhou conos- dência do indivíduo de utilizar em demasia a
co a perda da esposa e sua preocupação com os fantasia, gerando uma forma de pensamento in-
netos”. fantil e egocêntrica”.
Os documentos devem primar pela impes- Em alguns casos, como no primeiro exem-
soalidade na escrita, evitando ao máximo a uti- plo, o termo técnico pode ser utilizado, desde
lização de linguagem em primeira pessoa, como que acompanhado de um esclarecimento em lin-
no exemplo acima. Para evitar esse erro, sugere- guagem acessível. No outro exemplo, a reescrita
-se a utilização de escrita na voz passiva (serão do trecho sublinhado seria indicada, evitando a
apresentados), ou reflexiva (apresentar-se-á). No possibilidade de uma interpretação inadequada.
segundo exemplo, o trecho sublinhado poderia
ser substituído por “informou”. Uso Inadequado de Informações
Obtidas por Meio de Técnicas
Uso de Gíria, Expressão Coloquial Psicológicas
ou Depreciação “No teste HTP, onde o paciente deve dese-
“Joana apresentava-se vestida de acordo nhar uma casa, uma árvore e uma pessoa em
com a idade, mas sem grandes investimentos no folhas individuais, tanto colorido como poste-
vestuário”. riormente, sem cor”.
Elaboração de Documentos Psicológicos: Considerações Críticas à Resolução 785
CFP n°007/2003.

“Na escala SNAP, das 26 questões da esca- tência. Por isso, a formação continuada após a
la, as respostas da mãe foram, 15 ‘bastante’, 8 graduação, como a especialização em Avaliação
‘demais’, 2 ‘um pouco’ e 1 ‘nada’. As respostas Psicológica, deveria ser uma exigência do Con-
da professora não foram muito diferentes: 17 selho Federal de Psicologia para aqueles que
‘bastante’, 6 ‘demais’ e 3 ‘um pouco’”. gostariam de atuar nessa área. Nesse sentido, de-
“A análise das características de persona- fendemos a criação do título de Especialista em
lidade de Maria sugere que ela não dispõe de Avaliação Psicológica.
recursos psicológicos suficientes para enfren- Por fim, vale destacar que os documentos,
tar seus disparadores internos de tensão. Os em especial, laudo e parecer, são um dos meios
dados indicaram que a paciente apresenta pelos quais o psicólogo se comunica com pessoas
um estilo vivencial do tipo ambigual, isto é, leigas ou profissionais de outras áreas do conhe-
seu estilo de responder as demandas do meio cimento e, portanto, esses registros representam
ocorrem tanto por meio de atividades reflexivas a sua competência profissional. Essa expressão
(pensamento), bem como por meio dos afetos de competência engloba a seleção dos dados que
eliciados (emoção).” serão expostos nos documentos psicológicos.
Os dois exemplos iniciais apresentam des- Percebe-se, então, a responsabilidade que o psi-
crições excessivas das técnicas utilizadas, sem cólogo possui ao produzir esses documentos, já
benefício para a compreensão do desempenho do que precisa entender até que ponto oferece bene-
avaliado ou da responsável. O terceiro exemplo fícios ou mesmo riscos para seu cliente/paciente,
apresenta uma interpretação que utiliza muitos ao destinatário e a si próprio.
termos específicos da literatura das técnicas
projetivas que não contribuem para a clara expli- Referências
cação dos fenômenos observados.
American Psychological Association. (2002). Ethical
Considerações Finais principles of psychologists and Code of Con-
duct. Retrieved from http://www.apa.org/ethics/
code/index.aspx
O presente artigo buscou apresentar comen-
tários e críticas à Resolução CFP n° 007/2003 Capellini, S. A., Oliveira, A. M., & Cuetos, F. (2010).
(2003b), almejando contribuir para o aprimora- PROLEC: Provas de avaliação dos processos
de leitura. São Paulo, SP: Casa do Psicólogo.
mento dos documentos psicológicos produzidos.
Vários apontamentos feitos ao longo do texto são Cruz, R. M. (2002). Perícia em Psicologia e laudo.
decorrentes de discussões em sala de aula e/ou In R. M. Cruz, J. C. Alchieri, & J. J. Sardá Jr.
de supervisões e que não estavam formalizadas (Eds.), Avaliação e medidas psicológicas: Pro-
dução do conhecimento e da intervenção pro-
em um material de referência. Esperamos que
fissional (pp. 263-274). São Paulo, SP: Casa do
este artigo possa ser utilizado como um recurso Psicólogo.
didático, fomentando novas discussões e contri-
Cunha, J. A. (2000). Passos do Processo Psicodiag-
buindo para a formação dos psicólogos. Além
nóstico. In J. A. Cunha (Ed.), Psicodiagnóstico
disso, desejamos que aqueles profissionais que
– V (pp. 105-140). Porto Alegre, RS: Artmed.
trabalham com avaliação psicológica possam se
beneficiar das informações aqui dispostas como Del-Ben, C. M., Vilela, J. A. A., Crippa, J. A. S.,
Hallak, J. E. C., Labate, C. M., & Zuardi, A. W.
uma fonte de esclarecimentos.
(2001). Confiabilidade da “Entrevista Clínica
A produção escrita de documentos deixa Estruturada para o DSM-IV - Versão Clínica”
evidente a quantidade de conhecimentos especí- traduzida para o português. Revista Brasileira
ficos necessários para o trabalho com avaliação de Psiquiatria, 23(3), 156-159. doi:10.1590/
psicológica. Entendemos que a formação bási- S1516-44462001000300008
ca em Psicologia não é suficiente para dar conta Dicionário do Aurélio Online – Dicionário de Portu-
desse conhecimento e realizar uma avaliação de guês. (2008-2016). Laudo. Copyright 2008-2016
qualidade, produzindo um laudo com compe- de Dicionário do Aurélio Online – Dicionário de
786 Lago, V. M., Yates, D. B., Bandeira, D. R.

Português. Recuperado em https://dicionariodo- Resolução CFP nº 007/2003. (2003b). Brasília, DF:


aurelio.com/laudo Conselho Federal de Psicologia. Recuperado
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