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Este

livro é dedicado à minha amiga Thia Rose. Quando nós tínhamos 12 anos,
juramos que seríamos melhores amigas para sempre...

...e, após muitos mais anos do que


gostaríamos de contar, ainda somos.
Sumário

Nota dos editores


Agradecimentos
Capítulo Um .Sorte de Mercador
Capítulo Dois. Sonhos ylesianos
Capítulo Três. Pouso de emergência
Capítulo Quatro. Muuurgh
Capítulo Cinco. Guerras de especiarias
Capítulo Seis. Alderaan e de volta outra vez
Capítulo Sete. Bria
Capítulo Oito. Revelações
Capítulo Nove. Achados e perdidos
Capítulo Dez. Adeus ao paraíso?
Capítulo Onze. Velocidade de escape
Capítulo Doze. Togoria
Capítulo Treze. Retorno a Corellia
Capítulo Catorze. Na pior em Coruscant
Capítulo Quinze. Saindo do fogo
Epílogo. Renascimento
NOTA DOS EDITORES

O universo de STAR WARS é infinitamente rico e criativo. Desde 1977,


inúmeros planetas, raças alienígenas e personagens vêm despertando a
imaginação de fãs do mundo inteiro. A ideia de expandir um universo ficcional,
embora não seja nova, ganha novas proporções com STAR WARS. O livro STAR
WARS: from the adventures of Luke Skywalker , novelização do Episódio IV da
saga, foi lançado em 1976, antes mesmo da estreia do filme no cinema. E, antes
do final da trilogia clássica, já existiam diversos quadrinhos e romances, que
muitas vezes davam sinais dos caminhos a ser seguidos depois nas telas, ou
mesmo, como no caso do livro Splinter of the mind’s eye , de Alan Dean Foster,
diferiam completamente da trajetória seguida nas continuações. Esse era apenas
um prelúdio da força que o Universo Expandido de STAR WARS acumularia
nas décadas seguintes.
Embora outras rarefeitas obras tenham sido lançadas no início dos anos
1980, dois marcos importantes deram impulso à saga, projetando-a ao atual
ousado projeto transmídia: em 1987, veio o lançamento do RPG STAR WARS:
The Roleplaying Game ; em 1991, a publicação de STAR WARS: Herdeiro do
Império , de Timothy Zahn. Enquanto a importância do RPG foi estabelecer
novos cenários e trazer detalhes do universo de STAR WARS, o livro de Zahn
fez história ao ser o primeiro com autorização oficial da Lucasfilm para abordar
os acontecimentos posteriores ao Episódio VI. Os personagens e as histórias do
livro foram aproveitados por toda uma nova geração de autores, que escreveram
centenas de obras a fim de complementar cada vez mais esse universo e saciar a
sede dos fãs, especialmente durante o intervalo de quinze anos entre os
lançamentos das duas primeiras trilogias no cinema – e também depois.
Em 2014, a Lucasfilm lançou o novo conceito de STAR WARS, aplicável a
filmes, HQs, livros, videogames e séries televisivas relacionados à franquia,
formando um só cânone. Juntos, todos esses registros contam uma única história
no universo de STAR WARS, complementando e continuando os filmes
lançados no cinema entre 1977 e 2005, além de servirem como preparação para
os tão esperados novos filmes, a começar com STAR WARS: O despertar da
Força em 2015. Todas as obras publicadas antes de 2014 passam a ser
classificadas como Legends : histórias que não serviram como base para o
cânone estabelecido pela Lucasfilm para STAR WARS, mas cuja importância e
cuja qualidade continuam sendo apreciadas.
Participando dessa nova e empolgante fase de STAR WARS, a Editora Aleph
pretende lançar todos os romances adultos do novo cânone, bem como uma
seleção dos títulos Legends mais relevantes. Convidamos os leitores a embarcar
conosco nessa jornada rumo a uma galáxia muito, muito distante.
E trata-se de uma viagem que não tem ponto de partida nem direção
definidos. Não importa por qual obra você decida começar, seja por uma das
novas ou uma das Legends . Temos a certeza de que viverá uma grande aventura.
Que a Força esteja com você.

EDITORA ALEPH
Agradecimentos

Escrever para o universo STAR WARS é como se tornar parte de uma


comunidade – ou até mesmo de uma família. Os autores são encorajados a ler os
livros uns dos outros, e há dúzias de livros de não ficção e técnicos dedicados
aos personagens, equipamentos, planetas e assim por diante. Nós, autores,
trocamos informações e dicas e nos ajudamos mutuamente sempre que possível.
Assim sendo, muitas, muitas pessoas me ajudaram com este livro. Com a
advertência de que quaisquer erros que os leitores possam encontrar são só
meus, eu gostaria de agradecer às seguintes pessoas:
Kevin Anderson, que me deu minha primeira chance de escrever para o
universo STAR WARS. Kevin e Rebecca Moesta também me ajudaram com
informações sobre o histórico e os personagens de STAR WARS, além de me
darem apoio, incentivo e sábios conselhos.
Michael Capobianco, meu colega e marido, pelas sessões de brainstorming,
pela ajuda na pesquisa, pelos conselhos inteligentes, e por me trazer o jantar
quando eu estava ocupada demais escrevendo para perceber que estava com
fome. Obrigada, querido.
Bill Smith e Peter Schewighofer da West End Games por terem me ajudado a
descobrir as respostas para perguntas tão estranhas e exóticas como “que tipo de
roupa de baixo Han Solo prefere?”. Eles me “desempacaram” de tais dilemas
mais vezes do que posso contar.
Tom Dupree e Evelyn Cainto da Bantam Books pela ajuda, conselhos e
incentivo.
Sue Rostoni e Lucy Autrey Wilson da Lucasfilm pelos “fatos reais”.
Michael A. Stackpole, pela ajuda em descobrir como quebrar um raio trator,
e outros conselhos relacionados a naves e pilotagem.
Steve Osmanski, por ter lido o manuscrito e me oferecido conselhos
preciosos sobre coisas “techies”.
Como sempre, Kathy O’Malley, amiga e colega de escrita, por segurar minha
mão e me dar um ocasional e merecido chute no traseiro.
E, é claro, George Lucas, que começou tudo isso. STAR WARS me deixou
louca na primeira vez que vi, e foi uma honra dar minha pequena contribuição
para a saga.
Obrigada de novo, e que a Força esteja com todos vocês.
O antiquíssimo transporte de tropas, uma relíquia das Guerras Clônicas,
pairava silencioso e aparentemente abandonado em órbita sobre o planeta
Corellia. As aparências enganam, porém. A velha nave da classe libertador,
outrora batizada de Guardião da República , agora vivia uma nova existência
como Sorte de Mercador . O interior tinha sido inteiramente estripado e
reformado com um sortimento heterogêneo de alojamentos, e agora continha
quase uma centena de seres sencientes, muitos deles humanoides. Naquele
momento, porém, apenas alguns deles estavam acordados, já que era o meio do
ciclo de repouso.
Havia um turno de serviço na ponte, é claro. A Sorte de Mercador passava
muito de seu tempo em órbita, mas ainda era capaz de viajar pelo hiperespaço,
mesmo que fosse lenta para os padrões modernos. Garris Shrike, o líder do “clã”
frouxamente unido de mercadores que vivia na Sorte , era um capataz rígido, que
seguia protocolos navais formais. Então sempre havia um turno de serviço na
ponte.
As ordens de Shrike a bordo da Sorte eram sempre cumpridas, pois ele não
era um homem a ser confrontado sem um bom motivo e uma pistola carregada.
Governava o clã de mercadores como um déspota não tão benevolente. Um
sujeito magro de altura mediana, Garris era bonito de uma forma durona. As
mechas de cabelo branco-prateado acima das têmporas acentuavam os cabelos
negros e os olhos azul-gelo. Tinha lábios finos e raramente sorria; jamais por
bom humor. Garris Shrike era um exímio atirador e tinha passado a juventude
como caçador de recompensas. Havia abandonado essa carreira, porém, devido
ao “azar”; ou seja, sua falta de paciência tinha lhe feito sacrificar as recompensas
mais polpudas, reservadas para entregas vivas. Corpos mortos frequentemente
valiam muito menos.
Entretanto, Shrike era dono de um senso de humor doentio, especialmente no
que dizia respeito ao sofrimento alheio. Quando estava ganhando no jogo, era
sujeito a surtos de alegria maníaca, especialmente se também estivesse bêbado.
Que era como ele estava naquele momento. Sentado à mesa no antigo
alojamento de oficiais alistados, Shrike jogava sabacc e virava canecas da
poderosa cerveja de Alderaan, sua bebida favorita.
Shrike espiou suas cartas chipadas, calculando mentalmente. Deveria ele
manter aquela mão, na esperança de completar um sabacc puro? A qualquer
momento, o crupiê poderia apertar um botão e os valores de todas as cartas
mudariam. Se isso acontecesse, ele estaria perdido, a não ser que comprasse
mais duas cartas e jogasse a mão quase toda no campo de interferência no centro
da mesa.
Um dos outros jogadores, um imenso Elomin, virou a cabeça com presas e
deu uma olhada para trás subitamente. Havia uma luz piscando num dos painéis
auxiliares de status. O enorme ser peludo grunhiu, depois comentou em língua
básica gutural:
– Tem alguma coisa estranha com o sensor da tranca do arsenal, capitão.
Shrike insistia em manter protocolo e cadeia de comando “apropriados”,
especialmente no que se aplicasse a ele mesmo. A não ser que estivesse metido
em alguma aventura em terra firme, sempre vestia uniforme militar dentro da
Sorte; um uniforme que ele mesmo tinha desenhado, com base no traje de gala
de um moff de alta patente. Era cheio de “medalhas” e “condecorações” que
Shrike tinha colecionado em casas de penhores pela galáxia.
Agora, ao ouvir o aviso do Elomin, ele ergueu os olhos embaçados, esfregou-
os, depois se endireitou e largou as cartas chipadas na mesa.
– O que foi, Brafid?
O gigante franziu o focinho dentuço.
– Não sei direito, capitão. Agora está normal, mas alguma coisa piscou,
como se a tranca tivesse dado curto por um segundo. Deve ter sido só uma
flutuação de força momentânea.
O capitão se levantou com graça e coordenação incomuns, que não foram
prejudicadas pelo “uniforme” extravagante, e contornou a mesa para avaliar os
indicadores. Todos os sinais de embriaguez desapareceram.
– Não foi uma flutuação de força – decidiu depois de um momento. – Foi
outra coisa.
Em seguida, o capitão se dirigiu ao humano alto e corpulento à sua esquerda.
– Larrad, dê uma olhada nisto. Alguém deu curto na tranca e colocou uma
simulação para nos fazer achar que era só uma flutuação de força. Temos um
ladrão a bordo. Todo mundo armado?
Larrad, que calhava de ser o irmão de Garris, Larrad Shrike, deu tapinhas no
coldre na perna e assentiu com a cabeça. Brafid, o Elomin, apontou o
“formigador”, um aguilhão elétrico que era sua arma preferida, embora o
alienígena peludo fosse grande o bastante para pegar a maioria dos humanoides e
parti-los ao meio em seu joelho.
A outra pessoa presente, uma Sullustana que trabalhava como a navegadora
da Sorte , levantou-se e mostrou a arma de raios de tamanho reduzido que
portava.
– Pronta para a ação, capitão! – guinchou ela. Apesar de ser baixinha, com
bochechas caídas e grandes olhos brilhantes e belos, Nooni Dalvo parecia ser
quase tão perigosa quanto o imenso Elomin, que era seu melhor amigo a bordo.
– Ótimo – resmungou Shrike. – Nooni, vá colocar um guarda no arsenal,
para o caso de o ladrão voltar. Larrad, ative os biossensores, veja se você
consegue identificar o larápio e para onde ele vai.
O irmão de Shrike fez que sim com a cabeça e se curvou sobre o painel de
controle auxiliar.
– Humano corelliano – anunciou depois de um momento. – Homem. Jovem.
Altura: 1,8 metro. Cabelos e olhos escuros. Físico esguio. O biossensor o
reconhece. Ruma para a popa, em direção à cozinha.
A expressão de Shrike se endureceu até que seus olhos estavam tão frios e
azuis quanto as geleiras de Hoth.
– O moleque Solo – disse ele. – É o único metido o bastante para tentar uma
coisa dessas. – O capitão flexionou os dedos e depois os cerrou num punho. Seu
anel, feito de uma gema solitária de veneno-de-sangue devaroniano, reluziu num
prateado baço sob as luzes da antepara. – Bem, peguei leve com ele até agora,
porque ele manda bem no swoop, e eu nunca perdi apostando nele, mas agora
chega. Esta noite vou ensinar esse garoto a respeitar a autoridade, e ele vai se
arrepender de ter nascido.
Shrike exibiu os dentes, muito mais brilhantes que a gema do anel.
– Vai se arrepender também do dia que eu o “encontrei” dezessete anos atrás
e trouxe seu traseiro de fedelho chorão de fralda molhada para a Sorte. Sou um
homem paciente, tolerante... – Ele suspirou dramaticamente. – ... como a galáxia
bem sabe, mas até eu tenho meus limites.
Deu uma olhada no irmão, que parecia bem constrangido. Garris se
perguntou se Larrad estaria se lembrando da última sessão de castigo do
moleque Solo um ano antes. O garoto tinha ficado dois dias sem poder andar.
Shrike cerrou os lábios. Ele não toleraria nenhum tipo de brandura em seus
subordinados.
– Certo, Larrad? – indagou ele, baixo demais.
– Certo, capitão!

Han Solo segurou a arma de raios roubada enquanto se esgueirava pelo


estreito corredor de metal. Quando plugou o simulador e forçou a tranca do
armário de arsenal, teve apenas um momento para enfiar a mão e agarrar a
primeira arma que tocou. Não houve tempo para avaliar e escolher.
Nervoso, o rapaz afastou as mechas de cabelo castanho úmidas que caíam
sobre sua testa e percebeu que estava suando. A arma parecia pesada e
desajeitada em suas mãos enquanto ele a examinava. Han raramente pegara
numa arma antes, e só sabia como conferir a carga porque tinha lido sobre isso.
Nunca tinha disparado um tiro. Garris Shrike não permitia que ninguém além de
seus oficiais andasse armado. O jovem piloto de swoop estreitou os olhos na
penumbra, abriu um pequeno painel na parte mais grossa do cano e espiou as
leituras. Ótimo. Carga completa. Shrike pode ser um valentão e um idiota, mas
sabe como manter uma nave organizada.
Solo não admitiria nem mesmo para si o quanto ele realmente temia e odiava
o capitão da Sorte de Mercador . Tinha aprendido há muito tempo que
demonstrar qualquer tipo de medo era garantia de uma surra rápida, ou coisa
pior. A única coisa que os valentões e os idiotas respeitavam era coragem; ou,
pelo menos, bravatas. Então Han Solo tinha aprendido a nunca deixar que o
medo emergisse em sua mente ou coração. Havia momentos em que ele ficava
vagamente ciente de que ele estava lá, bem no fundo, enterrado sob camadas de
dureza das ruas, porém, sempre que reconhecia o sentimento pelo que realmente
era, Han o enterrava ainda mais fundo, com vontade.
Como teste, ele levou a arma de raios até a altura dos olhos e
desajeitadamente fechou um olho castanho, enquanto espiava ao longo do cano.
O bocal da arma oscilou de leve, e Han praguejou baixinho ao perceber que a
mão estava tremendo. Qual é, disse a si mesmo, mostre que tem uma espinha
dorsal, Solo. Cair fora desta nave e escapar de Shrike valem um pouco de risco.
Deu uma olhada para trás por reflexo, depois se virou bem a tempo de se
abaixar para passar sob um conduíte de energia que pendia baixo. Tinha
escolhido esta rota porque ela evitava todos os alojamentos e áreas recreativas,
mas era tão estreita e baixa que Han começava a se sentir claustrofóbico
enquanto avançava pé ante pé, resistindo à vontade de ficar olhando para trás.
Adiante, o túnel se alargava e Han percebeu que estava quase em seu destino.
Só mais alguns minutos , disse a si mesmo. Ele se movia com uma graça furtiva
que tornava seu progresso tão silencioso quanto as almofadinhas peludas nas
patas de um wonat. Ele estava contornando os módulos de hiperespaço naquele
momento e depois chegaria a um corredor transversal maior. Han virou à direita,
aliviado em poder andar ereto.
Esgueirou-se até a porta da cozinha principal e hesitou do lado de fora,
prestando atenção em cheiros e ruídos. Ruídos... sim, apenas aquele que ele
esperava escutar. A algazarra das panelas, o spluuuush da massa sendo
esmurrada e, por fim, os suaves sons dela sendo sovada.
Dava para sentir o cheiro da massa. Pão wastril, o favorito dele. Han
espremeu os lábios. Com sorte, ele não estaria aqui para comer nenhum pão
dessa fornada em particular.
Meteu a arma de raios no cinto, abriu a porta e entrou na cozinha.
– Ei... Dewlanna... – chamou ele em voz baixa. – Sou eu. Vim me despedir.
A criatura alta e peluda que estava sovando vigorosamente a massa de wastril
girou para o rapaz com um grunhido suave e inquisitivo.
O nome completo de Dewlanna era Dewlannamapia, e ela tinha sido a
melhor amiga de Han desde que viera morar a bordo da Sorte de Mercador há
quase 10 anos, quando Han tinha mais ou menos 9. (O jovem piloto de swoop
obviamente não fazia ideia de quando tinha nascido. Ou quem foram seus pais.
Se não fosse por Dewlanna, ele não saberia nem que seu sobrenome era “Solo”.)
Han não conseguia falar wookiee; tentar reproduzir os grunhidos, rosnados,
latidos e rugidos deixava sua garganta dolorida, e ele sabia que soava ridículo;
mas entendia muito bem. Por sua vez, Dewlanna não conseguia falar a língua
básica, mas a compreendia tão bem quanto a própria língua. Assim sendo, a
comunicação entre o jovem humano e a idosa viúva Wookiee era fluente, mas...
diferente.
Han tinha se acostumado à situação fazia anos e nem pensava mais no
assunto. Ele e Dewlanna simplesmente... conversavam. Entendiam um ao outro
perfeitamente. Agora ele ergueu a pistola roubada, tomando o cuidado de não
apontá-la à amiga.
– Sim – respondeu ele à pergunta de Dewlanna. – É esta noite. Vou embora
da Sorte de Mercador e não volto nunca mais.
Dewlanna ribombou de volta preocupada enquanto voltava automaticamente
a sovar a massa. Han balançou a cabeça, lhe dando um sorriso torto.
– Você se preocupa demais, Dewlanna. Claro que eu planejei tudo. Estou
com um traje espacial escondido num armário perto das docas de cargueiros-
robô, e tem uma nave atracada lá agora que vai partir assim que terminar de
descarregar e reabastecer. Um cargueiro-robô, que vai rumar para onde eu quero
ir.
Dewlanna socou a massa, depois grunhiu uma pergunta.
– Vou para Ylesia – contou Han. – Lembra que eu lhe contei tudo sobre esse
lugar? É uma colônia religiosa perto do território Hutt, e eles oferecem aos
peregrinos santuário do universo exterior. Lá eu estarei a salvo de Shrike. E... –
Ele ergueu um pequeno holodisco para que a cozinheira Wookiee pudesse ver. –
Veja só isso! Eles puseram um anúncio procurando um piloto! Já usei o resto dos
créditos da minha porção daquele último serviço que a gente fez para mandar a
mensagem, avisando que vou fazer uma entrevista pelo emprego.
Dewlanna rugiu baixinho.
– Ei, não posso aceitar isso – protestou Han, assistindo enquanto a cozinheira
colocava os pães nas formas e então na grade termal, para que assassem. – Vou
ficar bem. É só surripiar alguns créditos a caminho da nave-robô. Não esquenta,
Dewlanna.
A Wookiee o ignorou e atravessou rapidamente a cozinha, um vulto peludo e
um pouco curvado que se movia com agilidade, apesar da idade avançada.
Dewlanna tinha quase 600 anos, pelo que Han sabia. Velha até para um
Wookiee.
Ela desapareceu pela porta do seu alojamento particular e então, um
momento depois, ressurgiu segurando uma bolsa trançada de algum material
sedoso que poderia até, pela aparência, ser de pelo de Wookiee.
Dewlanna estendeu a bolsa para Han com um queixume insistente.
Han balançou a cabeça de novo e colocou as mãos para trás de forma
infantil.
– Não – retrucou com firmeza. – Não vou levar suas economias, Dewlanna.
Você precisa desses créditos para comprar uma passagem e me encontrar depois.
A Wookiee inclinou a cabeça para o lado e fez um ruído curto e inquisitivo.
– É claro que você vai me encontrar! – insistiu Han. – Você não acha que eu
vou deixar você apodrecendo aqui nessa lata velha, né? Shrike fica mais maluco
a cada ano, e ninguém está a salvo a bordo da Sorte . Depois que eu chegar a
Ylesia e me assentar, vou mandar buscar você. Ylesia é um retiro religioso, e
eles oferecem asilo aos peregrinos. Shrike não poderá nos tocar por lá.
Dewlanna botou a mão dentro da bolsa, usando os dedos surpreendentemente
ágeis para selecionar as fichas de créditos, e por fim entregou várias ao jovem
amigo. Com um suspiro, Han se rendeu e as aceitou.
– Certo... tudo bem. Mas isto é só um empréstimo, combinado? Eu vou pagar
você. Os sacerdotes Ylesianos estão oferecendo um bom salário.
Ela concordou com um grunhido e em seguida, sem aviso, usou a pata
imensa para agitar os cabelos do rapaz, deixando-os eriçados em completa
bagunça.
– Ei! – exclamou Han. Cafunés de Wookiees não eram moleza. – Eu acabei
de pentear o cabelo!
Dewlanna grunhiu, divertida, e Han se endireitou indignado.
– Eu não fico mais bonito relaxado. Já falei para você que o termo “relaxado”
não é um elogio para os humanos.
Han encarou a amiga, e sua indignação desapareceu conforme ele percebeu
que esta seria a última vez em um longo tempo que veria aquele amado rosto
peludo e os gentis olhos azuis. Dewlanna tinha sido sua amiga mais próxima – e
frequentemente sua única amiga – por tanto tempo. Deixá-la era difícil, muito
difícil.
Num impulso, o jovem corelliano se jogou contra a calorosa e sólida amiga,
abraçando-a com força. Sua cabeça batia no meio do peito dela. Han se lembrava
de quando mal alcançava a cintura.
– Vou sentir saudades suas – afirmou ele, o rosto abafado contra o pelo e os
olhos ardendo. – Você se cuide, Dewlanna.
Ela rugiu baixinho, e os longos braços peludos o envolveram quando ela
devolveu o abraço.
– Ora, se esta não é uma cena tocante – comentou uma voz fria e familiar
demais.
Han e Dewlanna ficaram paralisados, e depois giraram para encarar o
homem que entrou pelo alojamento da Wookiee. Garris Shrike estava encostado
na porta, seus belos traços formando um sorriso que fez o sangue de Han gelar
nas veias. Ao seu lado, ele sentiu Dewlanna estremecer, de medo ou talvez de
ódio.
Dois outros tripulantes, Larrad Shrike e Brafid, o Elomin, estavam atrás de
Shrike. Han cerrou o punho em frustração. Se fosse apenas Shrike, ele teria
podido tentar atacar o capitão da Sorte . Com Dewlanna para ajudar, os dois
talvez conseguissem subjugar Garris, porém, com Larrad e o Elomin presentes,
não teriam chance.
Han estava muito ciente da pistola roubada enfiada no cinto. Por um
momento, considerou sacá-la, mas abandonou a ideia. Shrike era conhecido por
ser rápido no gatilho. Não teria a menor chance de batê-lo, e poderia acabar
provocando as mortes dele e de Dewlanna. Shrike estava claramente enfurecido.
Han lambeu os lábios secos.
– Escute, capitão – começou ele. – Eu posso explicar...
Shrike se endireitou e estreitou os olhos.
– Você pode explicar o quê , seu traidorzinho covarde? O roubo à sua
família? A traição àqueles que confiaram em você? A facada que você deu nas
costas do seu benfeitor, seu ladrãozinho chorão?
– Mas...
– Estou cansado de você, Solo. Fui tolerante até hoje por causa da sua
habilidade incrível como piloto de swoop, e todos aqueles créditos de premiação
vieram a calhar, só que a minha paciência se esgotou. – Shrike enrolou
cerimoniosamente as mangas do extravagante uniforme, depois cerrou as mãos
em punhos. A luz artificial da cozinha fez o anel de gema de sangue brilhar num
prateado baço. – Vamos ver o que alguns dias enfrentando envenenamento de
sangue devaroniano farão com sua atitude; além de alguns ossos quebrados,
talvez. Estou fazendo isso pelo seu próprio bem, moleque. Algum dia você vai
me agradecer.
Han engoliu em seco de terror quando Shrike começou a se aproximar. Tinha
agredido o capitão mercador uma única vez antes, há dois anos, quando se
sentira arrogante depois de vencer o vale-tudo de gladiadores em Jubilar; e se
arrependera imediatamente. A velocidade e força do golpe de resposta de Garris
tinham jogado sua cabeça para trás e ferido seus lábios tão completamente que
Dewlanna fora forçada a alimentá-lo com mingau por uma semana até sararem.
Com um rosnado, Dewlanna deu um passo à frente. A mão de Shrike caiu na
pistola.
– Você fique fora desta, Wookiee velha – retrucou ele com tanta ferocidade
quanto Dewlanna. – Sua comida não é tão boa assim.
Han segurou o braço peludo da amiga e tentou detê-la.
– Dewlanna, não!
Ela se soltou do rapaz como se ele fosse um inseto irritante e rugiu para
Shrike. O capitão sacou a pistola de raios, e o caos irrompeu.
– Nãããoo! – gritou Han. O rapaz saltou em seguida, com o pé estendido para
frente numa velha técnica de luta de rua. O peito do pé acertou solidamente o
esterno de Shrike. O capitão perdeu o fôlego num grande houf! enquanto caía
para trás. Han rolou ao aterrissar. Um disparo de formigador passou fervendo de
raspão pela sua orelha.
– Larrad! – ofegou o capitão enquanto Dewlanna vinha para cima dele.
O irmão de Shrike sacou a arma de raios e a apontou contra a Wookiee.
– Pare, Dewlanna!
Suas palavras foram tão inúteis quanto as de Han. O sangue de Dewlanna
fervia; ela estava possuída pela fúria guerreira wookiee. Com um rugido que
ensurdeceu os combatentes, ela agarrou o pulso de Larrad e deu um puxão,
girando-o e lhe dando um tranco numa paródia terrível do gesto de chicotear.
Han ouviu um crunch misturado a vários pops enquanto tendões e ligamentos
cediam. Larrad Shrike berrou, um grito agudo e estridente tão cheio de dor que o
braço do jovem corelliano doeu em solidariedade.
Han pegou a pistola no cinto e disparou um tiro brusco contra o Elomin que
saltava para frente, com o formigador em riste e apontado para o abdome de
Dewlanna. Brafid uivou e soltou a arma. Han ficou espantado de ter conseguido
acertar, mas não teve muito tempo para se maravilhar com sua mira precisa.
Shrike se levantava cambaleante com a pistola na mão, mirando diretamente
na cabeça de Han.
– Larrad? – gritou ele para o amontoado de agonia que era seu irmão. Larrad
não respondeu.
Shrike engatilhou a pistola e chegou mais perto de Han.
– Pare, Dewlanna! – rosnou o capitão para a Wookiee. – Ou seu amiguinho
Solo vai morrer!
Han largou a arma e ergueu as mãos num gesto de rendição.
Dewlanna se deteve onde estava e grunhiu baixinho.
Shrike firmou a arma e o dedo tencionou o gatilho. Suas feições estavam
marcadas por um ódio puro e malévolo. Então ele sorriu, seus pálidos olhos
azuis cintilando com alegria brutal.
– Pelos crimes de insubordinação e ataque ao seu capitão – anunciou ele –,
eu o sentencio à morte, Solo. Que você apodreça em todos os infernos que já
existiram.
Han ficou paralisado, esperando o raio que o fritaria a qualquer momento,
mas Dewlanna rugiu, empurrou Han para o lado e saltou contra Shrike. O raio de
energia da pistola a acertou em cheio no peito, e a Wookiee desabou num monte
de pelo chamuscado e carne queimada.
– Dewlanna! – gritou Han em agonia. Com uma velocidade que ele não sabia
ter, o rapaz mergulhou sobre Shrike e acertou com força os joelhos do capitão.
Shrike foi atirado para trás de novo, e desta vez sua cabeça bateu com violência
no convés. Ele desmaiou.
Han engatinhou até a amiga e a virou gentilmente, vendo o grande buraco
que o raio da pistola tinha aberto em seu peito. Soube imediatamente que a
ferida era mortal. Nenhum droide médico já construído seria capaz de curar
aquilo. Dewlanna gemeu, arquejou e lutou com toda sua força wookiee para
respirar. Han passou os braços sob os ombros dela e tentou facilitar sua luta. Os
olhos azuis dela se abriram e, depois de um momento, se fixaram nos dele. A
lucidez retornou, e Dewlanna reverberou baixinho.
– Não, não vou deixar você! – respondeu Han, agarrando-a com mais força.
As lágrimas borravam-lhe a visão, e ela nadava abaixo do rapaz num mar de
pelos castanhos. – Não me importo mais em fugir! Ah, Dewlanna...
Com grande esforço, ela ergueu uma imensa pata-mão peluda e segurou o
braço do rapaz. Han fez um esforço para traduzir o que ela dizia.
– Eu sei – soluçou Han, falando alto para que ela soubesse que ele tinha
entendido. – Sei que você me ama... – Ela ribombou de novo. – ... tanto quanto
ama seus próprios filhos.
Han engoliu, a garganta apertada e dolorida.
– Eu também me sinto assim, Dewlanna. Você vai sempre ser a mãe que eu
não tive.
Um longo gemido de angústia a fez estremecer. Ela ribombou mais uma vez.
– Não – insistiu Han. – Não vou deixar você. Vou ficar aqui até... até... – Ele
não conseguiu terminar a frase.
Dewlanna agarrou o braço dele com uma ressurgência de sua velha força e
rosnou para Han com urgência.
– Se eu... – Han estava com dificuldades para entender a fala pastosa dela. –
Se eu morrer... nada? Ah, você está dizendo que, se eu não viver, você terá
morrido por nada?
Ela concordou com a cabeça. Em meio ao ninho de pelos, os olhos de
Dewlanna sustentavam o olhar de Han com toda a intensidade que ela conseguiu
reunir. Han balançou a cabeça com teimosia. Como ele poderia abandoná-la para
morrer sozinha?
Dewlanna roncou baixinho, de leve.
– Sim, eu sei que você ficará bem, reunida ao poder vital – concordou Han,
tentando soar sincero. Sabia que os Wookiees acreditavam num poder que unia
toda a existência. Pessoalmente, ele achava que esse poder (ele nunca tinha
conseguido traduzir o termo precisamente; a palavra wookiee poderia significar
“potência” ou “força”) em que Dewlanna acreditava com tanta firmeza não
passava de superstição.
Porém, se fosse um conforto para ela acreditar naquilo em seus momentos
finais, Han não discutiria. Lembrou-se das palavras que ela tinha lhe dito tantas
vezes.
– Dewlanna, que o poder vital esteja com você... – Por um momento ele
desejou que também pudesse acreditar...
Ela gemeu de dor. Han percebeu que ela se ia rapidamente. Então Dewlanna
ribombou fracamente, e mais uma vez ele traduziu automaticamente.
– Seu último pedido... – Ele engasgou, mal capaz de pronunciar as palavras.
– Você quer que eu... me vá... para viver. E para ser... feliz.
Han fez um esforço para não irromper em lágrimas.
– Tudo bem – concordou ele. – Eu vou. Ainda tenho tempo para embarcar
naquela nave-robô antes que ela decole.
Dewlanna ganiu fracamente.
– Eu prometo – concordou ele, com a voz falhando. – Vou agora. E juro que
sempre me lembrarei de você, Dewlanna.
Ela já não conseguia dizer mais nada, mas ele tinha certeza de que a amiga o
ouvira. Han a deitou gentilmente no convés, depois se levantou e pegou a
pistola. Então, depois de lançar um último olhar a Dewlanna, Han Solo se virou
e saiu correndo pela porta.
Seus passos ecoavam enquanto ele corria pelos corredores da Sorte de
Mercador , pois aquele não era mais o momento de ser furtivo. Ele tinha que
alcançar o vão de atracagem e aquele cargueiro-robô ylesiano! Han não fazia
ideia de quando a nave partiria da Sorte , mas o cronograma de carga e descarga
postado para os estivadores espaciais tinha listado o cargueiro como estando
pronto para partir assim que os droides terminassem de reabastecê-lo. E, quando
Han surrupiara e escondera o traje espacial, eles tinham acabado de iniciar o
processo.
A Sonho Ylesiano poderia partir a qualquer momento!
Ofegante, Han saiu correndo para a escotilha, os pés batendo nos conveses
que tinham sido seu playground desde que ele se entendera por gente. Ao longe,
o rapaz ouviu vozes sonolentas, misturadas a gritos e ordens.
Não posso deixar que eles me peguem. Shrike vai me matar. Essa certeza
concedeu velocidade aos seus pés.
Han derrapou pela curva final e agarrou o traje espacial que tinha ocultado
atrás de alguns equipamentos de reabastecimento. O capacete pendeu sobre o
braço e bateu na barriga dele enquanto o rapaz digitava apressadamente o código
roubado no teclado da porta da escotilha.
Segundos se passaram. Os sons de perseguição ficavam mais altos. Porém,
eles certamente pensariam que Han tinha fugido para o convés das naves
auxiliares ou mesmo para as cápsulas de fuga. Ninguém adivinharia que ele seria
louco o bastante para tentar embarcar clandestinamente num cargueiro-robô. Ou,
pelo menos, era com isso que ele contava...
A escotilha se abriu. Han pulou para dentro, fechou a porta de pressão e
começou a vestir o traje espacial. Conferiu o suprimento de ar. Cheio. Ótimo.
Originalmente, tinha planejado trazer alguns tanques de ar adicionais, mas não
ousava correr o risco de sair. O tanque do traje duraria dois dias. Deveria bastar,
a não ser que a Sonho fosse um cargueiro particularmente lento. Já que a nave
era automatizada, o rapaz não teria como descobrir qual rota seguiria, ou qual
velocidade fora programada.
Han fez uma careta. Só um homem desesperado usaria esse método de fuga.
E ele estava realmente desesperado. Esperava apenas não chegar morto em
Ylesia por ter ficado sem ar.
Vamos ver... rações... confere. Tanque de água... cheio. Ótimo. Mais um
resultado da insistência do capitão Shrike em manter todo o equipamento da
nave em perfeita ordem.
Han arrastou o traje por sobre os braços do seu macacão cinzento de
tripulante e fechou o selo frontal. Pegou o capacete, desajeitado por conta das
luvas, e o colocou sobre a cabeça. Era quase inteiramente de vidrine, e Han
conseguia ver em todas as direções, menos diretamente atrás de si. Uma fileira
de holoindicadores corria pela base do capacete, informando os sinais vitais, a
quantidade de ar restante e todos os outros dados necessários para a
sobrevivência. Han poderia “falar” com o traje de forma limitada ao apertar a
alavanca de comunicação com o queixo e dar instruções relacionadas à
temperatura, mistura de ar, e coisas do gênero.
Certo, é agora ou nunca , pensou o rapaz enquanto seguia até a escotilha de
conexão e digitava a sequência final para equalizar a pressão entre a câmara
estanque e a Sonho Ylesiano. Ouviu o leve sibilo do ar sendo esvaziado da
câmara.
A Sonho , sendo automatizada, não precisava de ar para operar. A nave
conteria apenas vácuo.
Finalmente, a escotilha se abriu e Han entrou.
A nave estava lotada de equipamento e carga, e os corredores eram bem
estreitos. A Sonho não fora construída para acomodar uma tripulação viva,
apenas para manutenção de rotina, e Han teve que se virar de lado para se
espremer. O jovem ficou grato por um instante que toda a engenharia padrão
fosse pensada para funcionar com gravidade. De outra forma, ele poderia ter sido
obrigado a lidar com zero g, e isso teria sido um enorme aborrecimento.
Han tinha saído da Sorte de Mercador em traje espacial com as equipes de
solda várias vezes desde que fora considerado velho o bastante para serviços
perigosos na nave, flutuando no espaço, atado à nave só por um cordão umbilical
aparentemente frágil. Tinha sido meio empolgante nas primeiras vezes, mas Han
não era lá muito fã de ficar sem peso, e logo tinha aprendido a nunca olhar para
“baixo”. Não ver nada além de espaço sob os pés por anos-luz sem conta bastava
para fazer sua cabeça girar.
Han partiu em direção à “ponte”, concluindo que seria onde encontraria o
maior espaço vazio. Chegou lá rapidamente; a Sonho era uma nave pequena. Se
a listagem de carga estivesse correta, ela tinha trazido uma remessa de especiaria
brilhestim de primeira e partiria com um estoque de componentes eletrônicos
corellianos de alta qualidade, que poderiam ser usados em manutenção
industrial.
Han se perguntou por um instante quem Garris Shrike tinha subornado para
poder receber um carregamento de especiaria. A substância era controlada
rigidamente pela maioria dos governos planetários, e também pela comissão de
comércio imperial.
Virou-se de lado para entrar na ponte e ficou paralisado.
O que, em nome de todos os Filhos de Barab, um droide astromec está
fazendo na ponte? Todo mundo sabia que droides não pilotavam naves sozinhos,
então ele não poderia ser o “capitão”. Han fez uma careta dentro do capacete de
vidrine. O droide deveria estar ali como algum tipo de alarme antirroubo, um
sofisticado dispositivo de comunicação para ajudar a deter ladrões portuários ou
piratas espaciais. Han sabia que uma das razões pelas quais os sacerdotes
Ylesianos estavam ansiosos para contratar um piloto – preferencialmente um
corelliano, disse o anúncio deles – era o fato de estarem perdendo naves-robô
para piratas.
Enquanto estava ali parado, torcendo para que o droide não tivesse percebido
sua presença, o rapaz sentiu a Sonho estremecer. Estamos desatracando! Preciso
me preparar para o impulso de separação!
Com velocidade, Han se afastou da ponte e voltou ao compartimento de
carga. Finalmente encontrou o que procurava, e bem a tempo. Um espaço
pequeno onde pudesse se sentar, do tamanho certo para que ele encolhesse as
pernas e as abraçasse.
A Sonho estremeceu de novo e de novo. Mentalmente, Han visualizou as
braçadeiras de atracação se soltando, uma de cada vez. Falta só mais uma, e
então...
A nave estremeceu uma última vez, depois deu um solavanco violento.
Como a Sonho não deveria ter tripulantes, podia usar padrões de aceleração
muito mais brutos que aqueles empregados por uma nave com ocupantes vivos.
Wham! O corpo de Han sofreu um tranco, então ele se segurou contra o
impacto da aceleração violenta. A Sonho tinha desatracado e agora zarpava!
Han visualizou a nave se propelindo para longe da Sorte de Mercador , fora
do abraço do campo gravitacional de Corellia. Fechou os olhos e imaginou seu
mundo natal girando preguiçosamente contra o pano de fundo das estrelas.
Corellia era um belo planeta, com estreitos mares azuis, florestas marrons e
verdes, desertos beges e grandes cidades. O lado noturno cintilava como um
drone de batalha cravejado de luzes...
O impulso mais brutal de aceleração o atingiu então, e Han ficou
desconfortavelmente preso contra o contêiner de carga. Fizemos o salto para a
velocidade da luz , percebeu ele.
Momentos depois, enquanto a velocidade da nave se estabilizava, ele
conseguiu se mover de novo. Flexionou os braços e as pernas e fez uma careta
ao sentir os hematomas. São da luta na cozinha, entendeu. Com isso se lembrou
de Dewlanna com uma tristeza súbita e visceral. As lágrimas arderam em seus
olhos, e ele tentou contê-las com ferocidade. Chorar num traje espacial era uma
péssima ideia, já que você não poderia enxugar o rosto.
Han fungou e piscou na tentativa de bloquear as lágrimas. Dewlanna...
pensou. Sua amiga tinha dado a vida para que ele tivesse aquela chance.
Controle-se, Solo, ordenou a si mesmo com severidade. A garganta doía, mas
Han engoliu com força e mordeu o lábio até a vontade de chorar se ir. Não
conseguia lembrar a última vez que tinha chorado, e qual seria a utilidade? Não
traria Dewlanna de volta...
Han sabia que Dewlanna acreditava numa pós-vida do espírito. Se ela
estivesse certa quanto a isso, então talvez pudesse ouvi-lo agora.
– Ei, Dewlanna – sussurrou Han. – Eu consegui. Caí na estrada. Estou indo
para Ylesia e lá me tornarei o melhor piloto do setor. Vou aprender o bastante e
faturar o bastante para me candidatar à Academia, do jeito que a gente sempre
sonhou. Estou livre, Dewlanna. – A voz dele falhou. Estamos seguros,
Dewlanna. Shrike não pode nos tocar agora...
Encravado em sua pequena fresta, o jovem piloto sorriu com determinação
implacável. Estou livre e devo tudo a você. Jamais me esquecerei, também. Se
algum dia tiver uma chance de pagar essa dívida ajudando alguém do seu povo,
juro por tudo que há lá fora – qualquer deus, poder-vital ou força – que não vou
hesitar.
Han Solo inspirou profundamente uma golfada de ar enlatado de traje
espacial.
– Obrigado, Dewlanna – sussurrou.
Onde quer que ela estivesse agora, Han esperava que ela pudesse ouvi-lo.
Quando Han acordou do sono exausto, ficou completamente desorientado a
princípio. Onde estou? , perguntou-se grogue. A memória voltou de supetão em
imagens rápidas e violentas: a mão dele segurando uma pistola de raios... o rosto
de Shrike retorcido com ódio e fúria... Dewlanna, ofegante, morrendo sozinha...
Engoliu em seco, com a garganta doendo. Dewlanna havia sido parte de sua
vida desde que ele era só um garotinho de 8, talvez 9 anos. Han se lembrava do
dia em que a Wookiee tinha embarcado com seu companheiro, Isshaddik. Ele
havia sido expulso do planeta natal dos Wookiees por algum crime que
Dewlanna nunca tinha revelado. Ela seguira o companheiro ao exílio, deixando
para trás tudo que já conhecera; seu lar e seus filhotes crescidos.
Mais ou menos um ano depois, Isshaddik fora morto durante uma missão de
contrabando a Nar Hekka, um dos mundos no setor Hutt. Shrike anunciou a
Dewlanna que ela poderia ficar a bordo da Sorte de Mercador como cozinheira,
já que o capitão tinha passado a gostar da comida que ela preparava. Dewlanna
poderia ter voltado a Kashyyyk; afinal, ela não tinha cometido crime nenhum,
mas decidiu ficar na Sorte .
Por minha causa , pensou Han enquanto localizava o canudo de acesso à
água no capacete e dava um gole cuidadoso. Depois pegou duas bolinhas de
ração com a língua e as engoliu com outro gole. Não era a mesma coisa que
comida de verdade, mas daria para o gasto pelo dia... Ela ficou por minha causa.
Queria me proteger de Shrike...
Han suspirou, sabendo que era verdade. Wookiees estavam entre os
companheiros mais leais e firmes da galáxia, ou pelo menos assim ele tinha
ouvido. Lealdade e amizade wookiee não eram concedidas facilmente, porém,
uma vez dadas, jamais vacilavam.
O rapaz se reclinou na alcova e conferiu o tanque de ar. Restavam três
quartos. Han se perguntou quão longe a Sonho teria viajado enquanto ele dormia.
Em alguns minutos, ele iria à sala de controle ver se era capaz de decifrar os
instrumentos do piloto automático.
A mente de Han vagueou de volta no tempo, recordando Dewlanna com
tristeza. Depois, conforme ele relaxava, sua memória se perdeu em dias ainda
mais distantes. Sua primeira memória “real” – todo o resto se resumia a
fragmentos sem sentido, pedaços de imagens velhas e distorcidas demais para
significar alguma coisa – era do dia que Garris Shrike o trouxera para “casa” na
Sorte de Mercador...
O menininho estava encolhido na boca de um beco úmido e imundo,
tentando não chorar. Ele já era muito grande para chorar, não era? Mesmo que
estivesse com frio, com fome e sozinho. Por um momento, ele se perguntou por
que estava sozinho, mas foi como se uma imensa porta de metal se fechasse
sobre aquele pensamento, trancando tudo detrás dela. Do outro lado da porta
havia perigo, do outro lado da porta havia... coisas ruins. Dor, e... e...
O menino sacudiu a cabeça e seus cabelos escorridos e sujos caíram
desordenados em seu rosto. Ele os afastou com a mão que era tão encardida de
sujeira que sua cor de pele natural mal era visível. Vestia apenas calças
esfarrapadas e uma túnica sem mangas rasgada que era pequena demais. Seus
pés estavam descalços. Ele teve sapatos algum dia?
Ele pensou que talvez se lembrasse de sapatos. Bons sapatos, de qualidade,
sapatos que alguém havia colocado nos seus pés e o ajudado a amarrar. Alguém
que era gentil, que sorria em vez de fazer cara de raiva, alguém que era limpo,
cheirava bem, que vestia roupas bonitas...
SLAM!
A porta se fechou de novo, e o pequeno Han (ele sabia que esse era seu
nome, mas não conhecia nenhum outro que o acompanhasse) estremeceu com a
dor em sua mente. Ele já sabia que não deveria deixar tais pensamentos
encherem sua cabeça. Pensamentos e memórias assim eram maus, eles
machucavam... melhor não pensá-los.
Ele fungou de novo e esfregou futilmente o nariz que escorria. Percebeu que
estava parado numa poça de dejetos, e seus pés estavam tão frios que mal
conseguia senti-los. Era noite, e prometia fazer uma madrugada bem fria.
A fome se retorceu no estômago de Han como uma coisa viva, uma criatura
que mordia dolorosamente. Ele não conseguia se lembrar de quando tinha
comido pela última vez. Tinha sido naquele dia de manhã, quando ele
encontrara uma fruta de kasava no lixo, aquela fruta madura e suculenta que
tinha sido comida apenas pela metade? Ou será que tinha sido na noite
passada?
O garotinho decidiu que não poderia ficar ali parado. Tinha que se mover.
Han saiu do beco para a calçada. Sabia como mendigar... quem é que lhe
ensinara isso?
SLAM!
Não importava quem tinha ensinado, só que tinha ensinado bem. Ajustando
os traços para ficar o mais patético possível, Han arrastou os pés até a
transeunte mais próxima.
– Por favor... moça... – choramingou ele. – Fome, tô com tanta fome... – Ele
estendeu a mão, palma para cima. A mulher com quem ele falou reduziu
minimamente a velocidade, olhou de súbito para a palma imunda e recuou,
puxando a saia para que não encostasse nele.
– Moça... – sussurrou Han, virando-se para observá-la se afastar com
interesse mais que profissional. Ela trajava um belo vestido, macio e brilhoso,
tipo... reluzente... sob as luzes ásperas das ruas daquela cidade portuária
corelliana.
Ela o lembrava de alguém, uma mulher com grandes olhos escuros, pele
macia, cabelos...
SLAM!
Han começou a soluçar, desesperançoso, o corpinho tremendo de frio, fome,
tristeza e solidão.
– Ei, você! Han! – A voz forte, mas não hostil, rompeu sua muralha de
infelicidade. Choramingando e engolindo, Han ergueu o olhar e viu um sujeito
alto se curvando sobre ele. Cabelos negros, pálidos olhos azuis. Fedia a cerveja
alderaaniana e a fumaça de uma dúzia de drogas ilegais, mas se mantinha de pé
sem cambalear, ao contrário de vários outros pedestres.
Ao ver que Han o encarava, o homem se agachou sobre os calcanhares, o
que o deixou pouco acima do nível dos olhos do menino.
– Você sabe que já é muito grande para chorar na rua, não sabe?
Han fez que sim com a cabeça, ainda fungando, mas tentando se controlar.
– Thim... sim. – Inicialmente ele ficou com a língua meio presa, como tinha
acontecido quando ele aprendera a falar. Aquilo fora há muito, muito tempo,
pensou Han. Já falava desde a estação fria, e logo seria a estação fria de novo.
Ele estava falando desde...
SLAM!
A criança estremeceu de novo quando sua mente bloqueou decisivamente
todas as memórias daquele tempo anterior. Outra coisa emergiu, algo que ele
tinha ignorado a princípio em sua infelicidade. Han arregalou os olhos. Aquele
homem o chamou pelo nome! Como ele sabe o meu nome?
– Você... quem é você? – sussurrou Han. – Como que você sabe o meu
nome?
O homem sorriu, mostrando muitos dentes. Era para ser uma expressão
amistosa, mas havia alguma coisa nele que incomodava o menino. Lembrava
Han das alcateias de canoides que caçavam nos becos.
– Eu sei de muitas coisas, garoto – respondeu o homem. – Me chame de
capitão Shrike. Você consegue dizer?
– S-sim. Cap-tão Shrike – repetiu Han, incerto. Ele soltou um soluço
enquanto seu choro morria. – Mas... mas como você sabia meu nome? Por
favor?
O homem estendeu a mão como se fosse bagunçar o cabelo do menino,
depois pareceu notar a sujeira e os piolhos que habitavam aquela jovem cabeça
e mudou de ideia.
– Você ficaria surpreso, Han. Sei de quase tudo que acontece aqui em
Corellia. Sei quem está perdido e quem foi encontrado, quem está à venda e
quem foi vendido, e onde todos os corpos estão enterrados. Na verdade, eu
estava de olho em você. Parece ser um rapaz esperto. Você é esperto?
Han se endireitou e olhou o homem nos olhos.
– Sim, capitão – respondeu ele, forçando a voz a ficar firme. – Eu sou
esperto. – Ele sabia que era, também. Qualquer um que não fosse não duraria
meses nas ruas, como ele tinha durado.
– Ótimo, grande garoto! Bem, preciso de um menino esperto para trabalhar
para mim. Por que você não vem comigo? Eu lhe darei uma refeição decente e
um lugar quente para dormir. – Ele sorriu de novo. – E eu aposto que você
gostaria de ver minha nave. – Apontou para o céu que escurecia.
Han fez que sim com a cabeça, empolgado. Comida? Uma cama? E
especialmente...
– Uma nave? Sim, capitão! Quero ser um piloto quando crescer!
O homem riu e estendeu a mão.
– Bem, venha comigo, então!
Han deixou a mãozona segurar a dele, e então os dois foram embora juntos,
em direção ao espaçoporto...
Han se ajeitou e balançou a cabeça. Eu nunca deveria ter ido com ele
naquele dia, pensou. Se eu não tivesse ido com ele, Dewlanna ainda estaria
viva...
Porém, se ele não tivesse ido com Shrike, provavelmente teria acordado
alguma noite no beco e descoberto que vrelts tinham comido suas orelhas e
nariz, que nem tinha acontecido com uma das outras “fedelhas de rua” que
Garris Shrike tinha “resgatado”.
Han sorriu, sombrio. O capitão Shrike não tinha um único osso altruísta no
corpo. Ele recolhia as crianças e as usava para faturar créditos. Em quase todos
os planetas que a Sorte visitava, Shrike juntava um grupo de seus “resgatados” e
os levava às ruas numa nave auxiliar. Lá ele os deixava sob a supervisão de um
droide que ele mesmo tinha programado, F8GN. 8GN os distribuía por
“territórios” e administrava os lucros enquanto as crianças espreitavam as ruas,
mendigando e batendo carteiras.
Usava os menorzinhos, os magrinhos, os deformados para mendigar. A
menina mastigada por vrelts, Danalis, sempre faturou alto. Shrike a fez trabalhar
duro por anos, prometendo sempre que, depois que ela ganhasse créditos
suficientes para ele, o capitão a levaria para consertar seu rosto, para que ela
parecesse humana outra vez.
Só que ele nunca levou. Por volta dos 14 anos, Danalis acabou percebendo
que Shrike jamais cumpriria suas promessas. Certa “noite”, ela entrou na
escotilha estanque da Sorte e a abriu para o vácuo... sem vestir um traje antes.
Han havia participado da equipe de limpeza. Estremeceu com a memória.
Pobre Danalis. Han ainda conseguia vê-la em sua mente, entregando os
recibos de mendicância do dia a 8GN. O droide era alto e estreito, feito de metal
cor de cobre avermelhado. Tinha sido consertado tantas vezes que havia pedaços
diferentes por toda parte, como se vestisse um traje muito remendado. Remendos
acobreados, remendos dourados, remendos de aço... E um grande remendo
prateado no topo da cabeça.
Han ainda escutava a voz do droide em sua mente. 8GN tinha algum
problema nos alto-falantes, e sua “voz” alternava entre o grave melífluo e
mecânico guinchante. Porém, independentemente de como ele soasse, todas as
crianças prestavam atenção ao que 8GN dizia...
– Agora, queridas criancinhas, vocês todos receberam seus territórios? – O
droide acobreado girou a cabeça enferrujada sobre o pescoço de cano,
contemplando as oito crianças da Sorte de Mercador alinhadas diante de si.
Todas as crianças, incluindo Han, com seus 5 anos, afirmaram que sim, elas
de fato tinham recebido seus territórios.
– Muito bem então, queridas criancinhas – continuou o droide em seus tons
graves, depois esganiçados. – Vou lhes passar suas tarefas do dia. Padra – o
droide olhou para um garotinho só um ano mais velho que Han –, hoje vamos
oferecer a você sua primeira chance de nos mostrar como você pode ser útil
àqueles pobres cidadãos sobrecarregados com cédulas de créditos, joias e caros
comlinks.
Os olhos do droide cintilaram fantasmagoricamente. Eles eram de cores
diferentes; um deles tinha queimado há muito tempo, e Shrike o substituíra com
uma lente recuperada de um droide descartado, deixando F8GN com um “olho”
vermelho e outro verde.
– Você está disposto a ajudar esses pobres cidadãos desavisados, Padra? –
indagou 8GN, inclinando a cabeça metálica inquisitivamente para o lado, com a
voz carregada de camaradagem artificial.
– Com certeza! – exclamou o garotinho. Ele lançou um olhar triunfante a
Han e às outras crianças mais novas. – Chega de pedir esmola que nem um
bebê! – sussurrou ele empolgado.
Han, que mal tinha começado a aprender as habilidades necessárias para
bater carteiras com rapidez e sem ser detectado, sentiu uma pontada de inveja.
Bater carteiras era fácil, depois que você aprendia a fazer direito. Era muito
mais fácil cumprir a cota de 8GN para um dia de “trabalho” batendo carteiras
do que mendigando. Pedir esmolas exigia que você abordasse pelo menos uns
três alvos até receber alguma coisa.
Mas bater carteiras... essa sim era a melhor maneira de faturar alto! Se você
escolhesse o alvo certo, poderia ganhar o bastante numa mãozada para
comparecer com sua cota a 8GN antes do meio-dia, e então ficaria livre para
brincar. Han se perguntou se 8GN lhe daria algum tempo para treinar se ele se
apressasse e mendigasse sua cota do dia antes que os outros terminassem.
Era divertido treinar com o droide magricelo avermelhado porque 8GN
ficava muito engraçado vestindo roupas! O droide vestiria trajes de rua típicos
do planeta onde eles estivessem, e então ou ficaria parado, ou passaria
caminhando pelo estudante. Han tinha aprendido a aliviar o droide do crono
escondido, cédulas de créditos, e até alguns tipos de joias sem que 8GN
detectasse seus dedos no processo.
Só que não conseguia fazê-lo 100% das vezes. Han franziu o cenho um
pouco enquanto se afastava. 8GN exigia perfeição de sua pequena gangue,
especialmente dos punguistas. O droide não deixaria que ele começasse a
roubar até que tivesse certeza de que Han conseguiria fazê-lo perfeitamente
todas as vezes.
Distraído, ele pegou um punhado de terra e esfregou nas mãos e depois no
rosto, que já estava suado. Que planeta era este, aliás? Não se lembrava de ter
ouvido o nome. O povo nativo tinha pele esverdeada, com pequenas orelhas
giratórias e enormes olhos roxo-escuro. Tinham ensinado a Han apenas
algumas palavras da língua local, mas ele aprendia rápido e sabia que, quando
chegasse a hora de a Sorte de Mercador seguir adiante, seria capaz de entendê-
la bem e falaria (pelo menos o jargão das ruas) passavelmente.
Onde quer que fosse, era quente. Quente e úmido. Han ergueu o olhar para
o céu azul esverdeado, onde um sol laranja pálido fulgurava. A perspectiva de
passar várias horas na sua rua designada choramingando, esmolando e
bajulando transeuntes não era muito atraente. Eu odeio mendigar, pensou Han
azedamente. Quando eu ficar um pouco mais velho, vou fazer eles me deixarem
roubar em vez de mendigar. Eu sei que serei um bom ladrão, e não sou lá um
grande mendigo.
Ele sabia que sua aparência estava correta; tinha ficado mais alto nos
últimos dois anos, mas ainda estava magro o suficiente para ser chamado de
subnutrido. E sabia como deixar a voz servil, os modos encolhidos e
acovardados, como se apenas o desespero o fizesse pedir esmolas.
Talvez fossem os olhos dele, pensou Han. Talvez o ressentimento e a
vergonha secretos em ser obrigado a mendigar aparecessem neles, e os alvos
potenciais notassem isso. Ninguém respeitava um mendigo, e Han, acima de
tudo, nutria um desejo não declarado de ser respeitado.
Não só respeitado, ele queria ser respeitável. Não se lembrava muito da vida
antes de Garris Shrike o ter encontrado nas ruas de Corellia, mas Han de
alguma forma sabia que, no passado, as coisas tinham sido diferentes.
Muito tempo atrás, tinham lhe ensinado que mendigar era motivo de
vergonha. E que roubar... roubar era pior. Han mordeu o lábio com raiva. Sabia
que alguém, talvez os pais de que não se lembrava mais, tinha lhe ensinado
essas coisas. Um dia, há muito tempo, tinham lhe ensinado caminhos
diferentes... valores diferentes.
Só que agora, o que ele poderia fazer? A bordo da Sorte de Mercador, havia
uma regra cardeal. Se você não trabalhasse, deveria mendigar ou roubar. Han
não tinha outras habilidades para oferecer. Era pequeno demais para ser piloto,
fraco demais para ser estivador de contrabando.
Mas isso não vai durar para sempre!, lembrou a si mesmo. Cresço mais a
cada dia que passa! Logo serei grande, em só mais 5 anos eu terei 10, e então,
talvez, eu seja grande o bastante para ser piloto!
Han tinha descoberto que, quando decidia realizar alguma coisa, ele
conseguia. Tinha certeza de que virar piloto não seria exceção.
E quando eu souber pilotar, esse vai ser meu caminho para sair da Sorte de
Mercador, pensou ele, com a mente mergulhando automaticamente num velho
sonho que ele nunca tinha contado para ninguém. Uma vez ele tinha
confidenciado a história para uma das outras crianças, e aquele vrelt maldito
espalhara para todo mundo. Shrike e os outros passaram semanas rindo de Han,
chamando-o de “capitão Han da Marinha Imperial”, até Han ficar com vontade
de se esconder num canto com as mãos sobre as orelhas. Ele precisou de todo o
autocontrole para conseguir apenas dar de ombros e fingir que não ligava...
É, e quando eu for o melhor piloto de todos e tiver um montão de créditos,
vou me candidatar à Academia Imperial. Vou virar um oficial da Marinha. Aí
vou voltar e pegar Shrike, prender ele, e ele será mandado para as minas de
especiaria de Kessel. E vai morrer lá... Esse pensamento fez Han abrir um
sorriso predatório.
No extremo final de sua fantasia, Han se imaginava bem-sucedido,
respeitado, o melhor piloto da galáxia, com uma nave própria, um monte de
amigos leais e créditos de sobra. E... uma família. É, uma família para chamar
de sua. Uma bela esposa que o adoraria, que participaria de aventuras com ele,
e talvez filhos. Ele seria um ótimo pai. Não abandonaria seus filhos, como ele
mesmo tinha sido abandonado.
Pelo menos, Han achava que tinha sido abandonado, porém não conseguia
se lembrar de nada daquilo. Não sabia nem seu sobrenome, então não tinha
como rastrear a família. Ou talvez... talvez os pais dele não o tivessem
abandonado...
Talvez eles tivessem sido assassinados, ou ele mesmo fora sequestrado e
separado deles. Han decidiu que gostava mais desse cenário. Se achasse que
seus pais estavam mortos, não ficaria tão bravo com eles, pois as pessoas não
tinham culpa de morrer, né?
Han decidiu que, daquele momento em diante, pensaria na mãe e no pai
como estando mortos. Era mais fácil assim...
Sabia que provavelmente nunca iria descobrir a verdade. A única pessoa que
conhecia alguma coisa sobre o passado de Han era Garris Shrike. O capitão
vivia dizendo a Han que, se ele fosse bom, se trabalhasse e mendigasse muito, se
ganhasse créditos suficientes, algum dia Shrike lhe contaria os segredos que
explicavam porque o menino tinha ido parar nas ruas de Corellia.
Han estreitou os lábios. Claro, capitão, pensou ele . Que nem você ia
consertar a cara de Danalis...
O menino espiou as placas de sinalização. Ele não conseguia ler aquelas na
língua nativa do planeta, mas havia uma tradução em língua básica na parte de
baixo. É, aquele era o seu território, mesmo.
Han respirou fundo e se preparou. Uma mulher de pele verde vestindo um
robe curto vinha na direção dele.
– Moça... – choramingou ele, avançando todo encolhido até ela, com a
mãozinha estendida num apelo. – Por favor, moça bonita elegante, eu imploro...
uma ajudinha, só um creditozinho, tô com tanta foooomeeee...
As orelhinhas giraram na direção dele, então ela afastou o olhar e passou
direto.
Num sussurro, Han murmurou um termo nada elogioso em jargão de
contrabandista, e então se virou para esperar o próximo alvo...
Han balançou a cabeça e se forçou a sair de seu devaneio. Hora de ir
verificar o progresso da Sonho Ylesiano.
O jovem piloto ergueu-se do seu cantinho e se espremeu pelas passagens
estreitas até alcançar a ponte. O droide astromec ainda estava lá, com luzes
piscando sem parar conforme ele rememorava seus pensamentos. Era uma
unidade R2 relativamente nova, ainda reluzente em prata e verde, com um domo
transparente em cima da cabeça. Dentro do domo, Han via luzes piscando com o
trabalho do droide, que estava conectado aos controles da nave-robô por um
cabo.
O droide R2 deveria estar equipado com um sensor de movimento, porque
girou a “cabeça” para Han quando o rapaz entrou audaciosamente na ponte em
seu traje espacial.
As luzes piscaram freneticamente quando ele “falou”, mas, obviamente, as
ondas sonoras não viajavam no vácuo. Han ligou a unidade de comunicação do
traje e, de súbito, seu capacete ficou cheio com os bleeps, blurps e wheeps
angustiados.
– Whee... bleewheeeep... wheep-whirr-wheep ! – anunciou o astromec R2,
claramente surpreso. Han suspirou. O comunicador do traje transmitiria tudo que
ele dissesse ao droide, mas como ele poderia realmente falar com aquele raio de
R2 sem um intérprete? Como quem quer que tivesse programado o droide falava
com ele?
Han ativou o comunicador do traje.
– Alô, você!
– Blurpp... wheeep, bleep-whirrr! – respondeu a unidade, prestativa.
Han fez uma careta e xingou a unidade em rodiano, jargão de mercadores e,
finalmente, língua básica.
– O que eu vou fazer agora? – rosnou. – Se ao menos você tivesse um
módulo de fala básica.
– Mas eu tenho, senhor – anunciou o droide em tom trivial. As palavras
soaram mecânicas e sem entonação, só que perfeitamente compreensíveis.
Han ficou boquiaberto diante da máquina por um momento, depois sorriu.
– Ei! Isso eu nunca tinha visto! Como é que você pode falar?
– Como não havia espaço a bordo desta nave para uma unidade astromec
junto de uma unidade contraparte, meus mestres me programaram com um
módulo de transmissão de fala básica, para que eu pudesse me comunicar com
mais facilidade – explicou o droide.
– Legal! – exclamou Han, sentindo uma onda de alívio. Ele não gostava
muito de droides, mas pelo menos teria alguém com quem falar, e talvez fosse
necessário que os dois se comunicassem. Viagens espaciais eram geralmente
rotineiras e seguras... mas havia exceções.
– Lamento informar, senhor – acrescentou a unidade R2 –, que o senhor é
culpado de entrada não autorizada. Não deveria estar aqui.
– Eu sei disso – respondeu Han. – Peguei uma carona nesta nave.
– Com sua licença, esta unidade não compreende o termo usado, senhor.
Han chamou a unidade R2 de um nome nada elogioso.
– Com sua licença, esta unidade não compreende...
– Cale a boca ! – berrou Han.
A unidade R2 ficou em silêncio.
Han respirou bem fundo.
– Tudo bem, R2 – disse ele. – Eu sou um clandestino. Essa palavra consta
dos seus bancos de memória?
– Consta sim, senhor.
– Ótimo. Eu embarquei clandestinamente nesta nave porque precisava de
uma carona até Ylesia. Vou ser contratado como piloto pelos sacerdotes
Ylesianos, entendeu?
– Sim, senhor. Entretanto, sou obrigado a informar ao senhor que, na minha
posição de droide vigia designado a garantir a segurança desta nave e de seu
conteúdo, serei forçado a selar todas as saídas quando alcançarmos Ylesia, e em
seguida informar aos meus mestres que o senhor está a bordo, assim
promovendo a sua captura pela equipe de segurança.
– Escuta aqui, camarada – retrucou Han generosamente –, quando chegarmos
a Ylesia, você pode ir em frente e fazer isso mesmo. Quando os sacerdotes
perceberem que eu me encaixo em todos os requisitos deles, não darão uma
bunda de vrelt para como eu cheguei lá.
– Com sua licença, esta unidade não...
– Cale a boca.
Han deu uma olhada no indicador do tanque de ar, então falou:
– Muito bem, R2, gostaria de dar uma olhada no nosso plano de voo,
velocidade e tempo previsto de viagem até Ylesia. Por favor, transmita esses
dados.
– Lamento informar, senhor, que não estou autorizado a fornecer essas
informações.
O humor de Han estava entrando em ebulição; ele mal conseguiu se controlar
para não chutar o droide recalcitrante com sua pesada botina espacial.
– Preciso verificar nosso plano de voo, velocidade e tempo previsto de
viagem porque tenho que computar como está o meu ar, R2 – explicou ele com
paciência exagerada.
– Com sua licença, senhor, mas esta unidade...
– CALE A BOCA!
Han começava a suar agora, e a unidade de refrigeração do traje começou a
girar um pouco mais forte. Ele fez um esforço para manter o tom de voz calmo.
– Escute com cuidado, R2 – começou ele. – Você não tem algum tipo de
programa no seu sistema operacional que o faça preservar as vidas de seres
inteligentes sempre que possível?
– Sim, senhor, essa programação é incluída em todos os droides astromecs.
Para que um droide cause dano ou deixe de evitar dano a um ser senciente, seu
módulo de sistema operacional tem que ser alterado.
– Ótimo – concluiu Han. Aquilo se encaixava com o que ele sabia sobre
programação astromec. – Escute, R2. Se você não me mostrar nosso plano de
voo, velocidade e tempo previsto de viagem, você poderá ser responsável pela
minha morte por falta de ar. Você me entendeu agora?
– Por favor, elabore, senhor.
Han explicou sua situação com paciência exagerada. Depois de terminar, o
droide ficou calado por um momento, evidentemente ponderando. Finalmente,
ele zumbiu uma vez e depois respondeu:
– Vou aquiescer à sua requisição, senhor, e vou exibir a informação solicitada
na tela de interface de diagnóstico.
Han soltou um longo suspiro de alívio. Já que a nave era basicamente um
imenso drone automatizado, não tinha controles visíveis nos painéis, só luzes
piscantes sortidas. Porém, para que fosse possível realizar manutenção na nave,
havia uma tela disponível no painel de controle. Han contornou cuidadosamente
a unidade R2 e contemplou a tela.
Os dados rolaram pela tela tão rapidamente que nenhum humano poderia ter
lido. Han se virou para a unidade R2.
– Mostre os dados de novo, e desta vez deixe-os lá até que eu consiga ler!
Entendeu?
– Sim, senhor. – A voz artificial do droide soava quase humilde.
Han estudou os números e diagramas que surgiram na tela por vários
minutos, sentindo sua preocupação se tornar medo real. Ele não tinha nada com
que escrever e nenhuma forma de acessar o navicomputador, mas tinha um mau
pressentimento sobre o que estava vendo. Mordeu o lábio e se obrigou a se
concentrar enquanto recalculava os valores repetidamente.
O plano de voo da Sonho Ylesiano tinha sido traçado numa rota tortuosa até
o planeta, de modo a evitar as piores áreas infestadas de piratas do território
Hutt. E o pequeno cargueiro estava configurado para voar bem mais lentamente
do que seria capaz, mais devagar até do que a Sorte de Mercador normalmente
viajava pelo hiperespaço.
Nada bom. Nada bom mesmo. Se a velocidade e o curso deles não fossem
alterados, Han percebeu, ele ficaria sem ar cinco horas antes de a Sonho pousar
em solo ylesiano. A nave aterrissaria com um cadáver a bordo... o dele.
Han se virou de volta à unidade R2.
– Escuta, R2, você tem que me ajudar. Se eu não alterar nosso curso e
velocidade, não terei ar suficiente para chegar no fim. Eu vou morrer, e vai ser
culpa sua.
As luzes da unidade R2 piscaram enquanto a máquina contemplava tal
revelação.
– Só que eu não sabia que o senhor estava a bordo – disse finalmente o
droide. – Não posso ser responsabilizado pela sua morte.
– Ah, não. – Han balançou a cabeça dentro do capacete. – Não é assim que
funciona, R2. Se você souber sobre a situação e não fizer nada, então você
estará causando a morte de um ser senciente. É isso que você quer?
– Não – respondeu o droide. Até mesmo seus tons artificiais soaram
estressados, e suas luzes tremeluziram rápida e aleatoriamente.
– Então é necessário – continuou Han, inexorável – que você faça tudo que
for possível para evitar minha morte. Certo?
– Eu... eu... – O droide agora tremia, de tão agitado. – Senhor, estou
impossibilitado de ajudá-lo. Minha programação está em conflito com meu
hardware.
– O que você quer dizer? – Han estava preocupado agora. Se o pequeno
droide sofresse uma sobrecarga e travasse, ele jamais seria capaz de acessar os
controles manuais de “diagnóstico” que Han sabia que tinham que estar em
algum lugar daqueles painéis. Seriam minúsculos, do tipo que os técnicos
usariam para testar o piloto automático do drone.
– Minha programação está me impossibilitando de informá-lo...
Han deu um longo passo até o pequeno droide e se ajoelhou diante dele.
– Raios! – Ele bateu com o punho no domo transparente do droide. – Eu vou
morrer! Me conte!
O droide balançava agitado, e Han se perguntou se ele se desfaria em
pedaços com o estresse. Por fim, o droide falou:
– Senhor, instalaram um parafuso de contenção em mim! Ele me impede de
atender ao seu pedido!
Um parafuso de contenção! Han se agarrou a esse detalhe com diligência.
Vamos ver, onde está ele?
Depois de um momento, Han o avistou, bem baixo na carapaça metálica do
droide. O rapaz se abaixou, segurou e puxou.
Nada. O parafuso não se mexeu.
Han segurou mais forte, tentou torcer. Grunhiu com o esforço, suando para
valer agora, e imaginou que podia sentir todas aquelas moléculas de oxigênio
sendo consumidas numa torrente constante. O rapaz ouvira falar que hipóxia não
era um jeito particularmente ruim de morrer; comparado à descompressão
explosiva ou levar um tiro, por exemplo; só que ele não tinha nenhuma intenção
de descobrir pessoalmente.
O parafuso não se mexeu. Han fez ainda mais força, dando puxões,
praguejando em meia dúzia de línguas alienígenas, mas a coisa teimosa não
cedeu.
Tenho que achar alguma coisa que eu possa usar para bater, pensou Han,
olhando em volta desesperadamente pela cabine de controle. Só que não havia
nada, nem uma hidrochave, um martelo, nada!
De repente, ele se lembrou da pistola. Tinha deixado no chão, no seu
cantinho.
– Espere aqui mesmo – instruiu Han à unidade R2 e partiu em seguida, se
espremendo pelos corredores apertados.
Disparar uma arma de raios dentro de uma nave espacial, mesmo que fosse
uma nave despressurizada, não era uma boa ideia, mas ele estava desesperado.
Han voltou com a arma e examinou as configurações. Potência mínima,
pensou ele. Feixe mais estreito. Com as luvas desajeitadas, ele teve dificuldades
em ajustar as configurações de potência e largura de feixe.
As luzes da unidade R2 estavam piscando freneticamente desde que ele
voltara, e agora o droide soltou um wheep lastimoso.
– Senhor? Senhor, poderia perguntar-lhe o que o senhor está fazendo?
– Estou me livrando daquele parafuso de contenção – retrucou Han
severamente. Estreitou os olhos, mirou e pressionou o gatilho com delicadeza.
Um clarão de energia irrompeu, e o pequeno droide soltou um
WHEEEEPPPP! tão estridente que soou como um grito. O parafuso de
contenção caiu no convés, deixando para trás uma cicatriz negra de queimadura
no metal brilhante da unidade R2.
– Te peguei – comentou Han, satisfeito. – Agora, R2, tenha a gentileza de me
mostrar as interfaces e os controles manuais da sua nave.
O droide, obediente, expôs uma “perna” de mobilidade com uma roda e foi
até os painéis de controle, com o cabo de interface serpenteando em seu rastro.
Han o seguiu e se agachou diante do painel de instrumentos, desajeitado por
conta do traje. Seguindo as instruções do droide, arrancou o tampo de um
console em branco e estudou a seleção de controles minúsculos. Amaldiçoando a
dificuldade em manipular os controles com luvas de traje espacial, Han começou
a usar o modo de interface manual para desativar o hiperdrive. Só era possível
alterar rota e velocidade no espaço real.
Uma vez de volta ao espaço real, Han computou meticulosamente uma nova
rota, usando a unidade R2 para executar os cálculos mais complexos para o salto
que os lançaria de volta ao hiperespaço.
O jovem corelliano levou algum tempo para inserir a nova rota e velocidade,
mas, finalmente, Han pressionou de novo o botão ATIVAR HIPERDRIVE. Um
segundo depois, ele sentiu o tranco quando o drive disparou. Han se segurou
determinado ao painel de instrumentos enquanto a nave se lançava ao
hiperespaço em sua nova rota, numa velocidade vastamente incrementada.
Quando a nave ao seu redor se estabilizou, Han inspirou longa e
profundamente e depois soltou o ar bem devagar. Desabou no convés e ficou
sentado ali, com as pernas esticadas. Ufa!
– O senhor compreende – comentou a unidade R2 – que o senhor agora terá
que pousar esta nave manualmente. Alterar nossa rota e velocidade invalidou os
protocolos de aterrissagem existentes programados na nave.
– É, eu sei – respondeu Han, se reclinando cansado no console. Deu mais um
gole de água e então comeu dois tabletes. – Mas não tinha outro jeito. Eu só
espero que consiga operar os controles rápido o bastante para pousar. – Ele olhou
em volta pela sala de controle praticamente nua. – Eu só queria que esta lata
tivesse uma tela.
– Um piloto automático não pode ver, senhor, então dados visuais são inúteis
para ele – explicou a unidade R2, prestativa.
– Não pode ser! – retrucou Han, com a voz carregada de sarcasmo. – Achei
que droides pudessem ver que nem a gente!
– Não, senhor, não podemos – disse R2. – Reconhecemos nossas cercanias
por sensores visuais que traduzem para nosso...
– Cale a boca – disse Han, cansado demais até para se divertir atormentando
o droide.
Ele se reclinou contra o console e fechou os olhos. Tinha feito tudo o que
podia para salvar sua vida, levando a nave a Ylesia por uma rota muito mais
direta a uma velocidade mais alta.
Han adormeceu e sonhou com Dewlanna, como ela tinha sido há muito
tempo, na época em que eles se conheceram...
Han já tinha passado metade do corpo pela janela quando ouviu o grito
atrás de si.
– Fomos roubados!
O menino agarrou seu pequeno saco de pilhagem e tentou se espremer pela
abertura estreita, chutando e se remexendo. Na escuridão do lado de fora estava
a segurança.
Um grito feminino de consternação.
– Minhas joias!
Han grunhiu com o esforço, percebendo que estava entalado. Sufocou o
pânico. Tinha que escapar! Aquela era uma casa rica e, quando eles chamassem
as autoridades, elas com certeza viriam de imediato.
Silenciosamente, ele amaldiçoou a nova moda da arquitetura corelliana que
tinha feito este lar luxuoso ser construído com estreitas janelas do chão ao teto.
Eram anunciadas como sendo capazes de frustrar assaltantes. Bem, pelo jeito
isso era verdade, decidiu ele. Tinha se esgueirado mais cedo por uma das portas
dos jardins, depois se escondera até achar que já era seguro supor que todos os
moradores estavam dormindo. Por fim, ele saíra do esconderijo para escolher
dentre os tesouros deles. Tinha certeza de que conseguiria bambolear seu corpo
magricelo de menino de 9 anos por aquelas janelas e escapar ileso.
Han grunhiu com o esforço mais uma vez, chutando freneticamente. Talvez
ele estivesse errado quanto à parte de fugir pelas janelas...
Uma voz atrás dele. A mulher.
– Lá está ele! Peguem-no!
Han virou mais um pouco de lado, remexeu-se violentamente e de súbito
estava do outro lado da janela, caindo. Mas ele não soltou o saco enquanto se
esborrachava num canteiro de hera-dorva cuidadosamente cultivado. O ar lhe
escapou dos pulmões e por um momento o menino ficou deitado ali, ofegando
como um drel fora da água. A perna doía, assim como a cabeça.
– Chamem a patrulha de segurança! – gritou uma voz masculina de dentro
da casa. Han sabia que tinha meros segundos para lograr sua fuga. Forçou a
perna a sustentar seu peso, rolou o corpo e se levantou cambaleante.
Árvores adiante ao luar... árvores grandes. Ele poderia sumir facilmente em
meio a elas.
Han meio que mancou, meio que correu ao abrigo do bosque. Resolveu não
contar a 8GN o que tinha acontecido. O droide poderia acusá-lo de estar
ficando lerdo agora que tinha quase 10 anos.
Han fez uma careta enquanto corria. Ele não estava ficando lerdo, só não se
sentia bem naquele dia. Estava com uma dor de cabeça indistinta desde que
acordara e se sentira tentado a pedir um dia de folga por não estar passando
bem.
Já que Han quase nunca ficava doente, eles provavelmente teriam
acreditado nele, mas o garoto não gostava de demonstrar fraqueza diante dos
outros habitantes da Sorte de Mercador, especialmente do capitão Shrike. Aquele
homem nunca perdia uma chance de atormentá-lo.
Estava abrigado pelas árvores, agora. E o que fazer em seguida? Ouvia o
som de passos correndo, então não teria muito tempo para decidir. Seus
músculos escolheram por ele. De súbito, o saco estava preso pelos dentes, havia
casca de árvore contra suas palmas, e as solas das botas surradas pisavam em
galhos. Han escalou, ouviu, depois escalou de novo.
Foi só quando ele estava bem alto na árvore, acima do alcance de uma
olhada casual para o alto, que reduziu a velocidade. Han se sentou num galho,
com as costas no tronco, ofegando, a cabeça um redemoinho. Sentia-se tonto,
enjoado e, por um momento, temeu vomitar e entregar sua posição. Mas o
garoto mordeu o lábio e se obrigou a ficar imóvel. Depois de algum tempo,
sentiu-se melhor.
A julgar pelos padrões de estrelas, faltava apenas algumas horas até a
alvorada. Han percebeu que seria difícil chegar a tempo à nave auxiliar da
Sorte. Será que Shrike simplesmente o abandonaria, ou será que iria esperar?
Bem abaixo, as pessoas vasculhavam o bosque. Luzes piscavam pela noite, e
Han se encolheu junto ao tronco. Com os olhos fechados, se agarrava
desesperadamente à árvore apesar da tontura. Se ao menos sua cabeça não
latejasse tanto...
Han se perguntou se eles trariam biossensores e tremeu. A pele dele parecia
quente e inchada, apesar de a noite estar fresca e uma brisa soprar.
A escuridão cedeu à aurora. Han se perguntou o que Dewlanna estaria
fazendo, se ela sentiria saudades dele se a Sorte deixasse órbita sem o menino.
Finalmente, as luzes se apagaram e os passos sumiram. Han esperou mais
vinte minutos para garantir que os perseguidores tivessem mesmo ido embora, e
depois, ainda segurando o saco de pilhagem nos dentes, desceu com cuidado,
movendo-se com cautela exagerada devido à intensa dor de cabeça. Cada
tranco, até mesmo dos próprios passos, fazia sua cabeça girar, e ele teve que
trincar os dentes para aguentar.
Han andou... e andou. Várias vezes percebeu que estivera cochilando
enquanto andava, e em uns dois momentos ele caiu e se sentiu tentado a
simplesmente ficar onde estava. Só que alguma coisa o mantinha em movimento,
enquanto o alvorecer iluminava as ruas e casas ao seu redor. Amanheceres
corellianos eram belos, Han notou atordoado. Nunca tinha percebido como
eram bonitas as cores no céu. Se ao menos a luz não machucasse tanto seus
olhos...
A alvorada virou dia. O frescor deu lugar à tepidez, depois ao calor. O
menino suava, e sua visão estava borrada. Só que, enfim, lá estava. O
espaçoporto. A essa altura, Han se movia como um autômato, um pé na frente
do outro, desejando apenas poder deitar e dormir na rua.
Diante dele, agora... a nave auxiliar da Sorte! Com um arfar que foi quase
um soluço, o menino se obrigou a avançar. Estava quase na rampa quando um
vulto alto emergiu. Shrike.
– Por onde raios você andou? – Não havia nada de amistoso no apertão que
o capitão lhe dava no braço. Han estendeu o saco de pilhagem, e Shrike o
agarrou. – Bem, pelo menos não voltou de mãos abanando – resmungou o
capitão.
Shrike avaliou rapidamente o conteúdo da bolsa, acenando sua satisfação
com a cabeça. Só depois de terminar ele notou que Han balançava de pé.
– Qual é o seu problema?
Han já não conseguia dizer nada coerente, então apenas balançou a cabeça.
Sua consciência ia e vinha como uma transmissão embaralhada.
Shrike o chacoalhou um pouco, depois colocou a mão na testa do menino.
Ao sentir o calor, praguejou.
– Febre... Será que eu te deixo aqui? E se for contagioso? – Franziu o
cenho, claramente com dificuldade para decidir. Por fim, sentiu de novo o peso
da bolsa de pilhagem. – Acho que você conquistou uma folga – murmurou. –
Vamos.
Han tentou subir a rampa, mas tropeçou e tudo ficou escuro.
O menino emergiu em consciência parcial muito tempo depois, ao som de
vozes discutindo, uma em língua wookiee, outra em língua básica. Dewlanna e
Shrike.
A Wookiee grunhia, insistente.
– Dá para notar que ele está bem doente – concordou Shrike –, mas esses
meus moleques não morrem nem com um tiro de pistola na potência máxima.
Ele vai ficar bem com mais uns dois dias de descanso. Não precisa de um droide
médico, e eu não vou desembolsar o custo.
Dewlanna rugiu, e Han, traduzindo automaticamente, ficou surpreso com a
insistência da Wookiee. Sentiu uma pata-mão peluda colocando alguma coisa
fria na sua testa. Era uma sensação maravilhosa em comparação ao calor.
– Eu já disse não, Dewlanna, e ponto-final! – retrucou Shrike e, com isso, o
capitão saiu batendo pé, xingando a Wookiee em todas as línguas que conhecia.
Han abriu os olhos e viu Dewlanna curvada sobre ele. A Wookiee rosnou
gentilmente para o menino. Han fez força para falar:
– Muito mal... – admitiu ele diante da pergunta. – Com sede...
Dewlanna o ergueu e lhe deu água, golinho por golinho. Ela contou que ele
tinha uma febre alta, tão alta que ela temia por sua vida.
Depois que Han terminou de beber, ela se abaixou e pegou o menino nos
braços.
– Aonde... aonde nós...
Ela mandou que ele se calasse, que ela o levaria para a superfície, ao droide
médico. A cabeça de Han girava, mas ele fez um grande esforço.
– Não... capitão Shrike... muito bravo...
A resposta dela foi curta e grossa. Han nunca tinha ouvido Dewlanna
praguejar antes.
Ele ficou apagando e voltando enquanto a Wookiee o carregava pelo
corredor, e sua próxima memória definida foi ser atado ao assento de uma nave
auxiliar. Han não sabia que Dewlanna era capaz de pilotar, mas ela manejou os
controles competentemente com suas enormes patas peludas. A nave se soltou da
atracação e acelerou em direção a Corellia.
A febre deixou Han tonto, e ele ficou imaginando a voz de Shrike praguejar.
Tentou dizer alguma coisa sobre isso a Dewlanna, mas descobriu que não tinha
força para fazer as palavras saírem...
Recuperou a consciência de novo na sala de espera do droide médico.
Dewlanna estava sentada, ainda apertando o corpinho mirrado do menino em
seus braços protetores.
Uma porta se abriu de repente, e o droide apareceu. Era um modelo grande
e alongado, equipado com unidades antigrav de modo a flutuar ao redor do
paciente enquanto Dewlanna colocava Han na mesa de exame. Han sentiu uma
picada na pele quando o droide tirou uma amostra de sangue.
– Entende língua básica, madame? – inquiriu o droide.
Por um momento, Han estava prestes a responder que era óbvio que ele
entendia língua básica, e quem era madame? Só que então Dewlanna
resmungou. Ah, é claro. A unidade médica estava falando com ela.
– Este jovem paciente contraiu febre tanamen corelliana – o droide informou
a Dewlanna. – O caso dele é bem grave. Felizmente você não demorou mais
para trazê-lo. Precisarei mantê-lo aqui em observação até amanhã. A senhora
deseja permanecer com ele?
Dewlanna grunhiu que sim.
– Muito bem, madame. Usarei terapia de imersão em bacta para restaurar o
equilíbrio metabólico. Isso também baixará sua febre.
Han deu uma olhada no tanque de bacta que o aguardava e tentou
debilmente correr para a porta. Dewlanna e a unidade médica não tiveram
dificuldade em contê-lo. O menino sentiu outra picada de agulha no braço, e
então o universo inteiro descambou para o lado e mergulhou nas trevas...
Han abriu os olhos, percebendo que o devaneio tinha se tornado sono, e
depois, sonhos. Balançou a cabeça, recordando como tinha ficado bambo quando
Dewlanna e o droide o ajudaram a sair do tanque de bacta. Em seguida, ela
pagara o droide com uma parte de suas pequenas economias e o levara de volta à
Sorte de Mercador .
O jovem piloto fez uma careta. E como Shrike tinha ficado furioso! Han
temeu que ele jogasse os dois para fora da escotilha estanque. Só que Dewlanna
não demonstrou nem o menor sinal de medo quando se interpôs entre Han e o
capitão, insistindo que tinha feito a coisa certa e que, de outra forma, o menino
teria morrido.
No fim, Shrike cedeu porque uma das joias que Han tinha roubado naquela
noite estava cravejada com o que se descobriu ser uma pérola de dragão krayt
genuína. Quando o capitão se informou do seu valor, foi apaziguado.
Mas ele não reembolsou Dewlanna pelas despesas médicas de Han...
Han suspirou e fechou os olhos. A perda de Dewlanna era como uma ferida
de faca; não importava o quanto tentasse, não conseguia se livrar da dor e das
memórias. Baixaria a guarda e subitamente se pegaria pensando nela como
estando ainda viva, visualizaria a si mesmo falando com ela, contando a ela seus
problemas com a unidade R2 recalcitrante; só para se deter em seguida com uma
dor quase tão calcinante e imediata quanto a que ele sentira no dia anterior, ao
segurar o corpo moribundo da Wookiee.
Han tomou mais um gole de água, tentando afrouxar o aperto na garganta.
Ele devia a Dewlanna... devia tanto a ela. A vida – até mesmo a própria
identidade, ele devia a ela.
Han suspirou. Até completar 11 anos, seu único nome fora “Han”. O garoto
frequentemente se perguntava ou se preocupava se teria um sobrenome. Certa
vez, ele mencionou a questão a Dewlanna, além de sua convicção de que, se
existisse alguém que sabia quem ele realmente era, seria Shrike.
Logo depois disso, Dewlanna aprendeu a jogar sabacc...
Han ouviu o arranhar leve na porta de seu minúsculo cubículo e acordou
num instante. Prestando atenção, ele ouviu o arranhar de novo, depois um ganir
suave.
– Dewlanna? – sussurrou ele, enquanto saía da cama e enfiava os pés
descalços no macacão de tripulante. – É você?
Ela grunhiu baixinho do outro lado da porta. Han puxou o macacão, fechou-
o e abriu a porta.
– Como assim, você tem novidades incríveis para mim?
Dewlanna entrou, o corpo enorme e felpudo quicando de empolgação. Han
acenou para que ela passasse por ele, e a Wookiee se sentou no catre estreito.
Como não havia outro lugar para sentar, Han tomou o lugar ao lado dela.
Dewlanna o acautelou para que mantivesse a voz baixa. O menino deu uma
olhada no crono e viu que era o meio da madrugada.
– O que você está fazendo acordada agora? – indagou ele, confuso. – Não
me diga que ficou jogando sabacc até essa hora?
Ela assentiu com a cabeça, os olhos azuis faiscando de empolgação em meio
aos pelos castanhos-claros e escuros.
– Então qual é a novidade, Dewlanna, por que você precisa falar comigo?
A Wookiee rumorejou com suavidade para ele. Han se endireitou no catre,
subitamente paralisado de espanto.
– Você descobriu meu sobrenome? Como?
A resposta dela foi uma só palavra.
– Shrike... – murmurou Han. – Bem, se alguém poderia saber, seria ele. O
quê... como foi que aconteceu? Qual é meu sobrenome?
O nome dele, disse Dewlanna, era “Solo”. Shrike tinha ficado muito, muito
bêbado e começara a se gabar sobre o valor da pérola de dragão krayt, que
ótimo negócio ele tinha feito ao vendê-la. Dewlanna indagou inocentemente se
Han tinha vindo de uma longa linhagem de ladrões bem-sucedidos. Shrike,
segundo o relato, explodiu numa gargalhada diante dessa sugestão.
– Talvez algum outro ramo da família, mas este Solo? – matraqueou ele,
meio que rindo, e fez uma pausa para dar mais um gole na cerveja
alderaaniana. – Temo que não, Dewlanna. Os pais desse moleque eram...
E, neste ponto o capitão de repente se deteve no meio de uma palavra,
cravando um olhar desconfiado na Wookiee.
– E por que você se importa, aliás? – inquiriu ele, sem sinal do seu bom
humor momentâneo.
Dewlanna respondeu simplesmente cobrindo e aumentando a aposta de
Shrike.
– Solo – sussurrou Han, testando o novo nome. – Han Solo. Meu nome
completo é Han Solo.
Ele olhou para Dewlanna, e um grande sorriso se abriu no seu rosto.
– Eu gostei! Ficou ótimo!
Dewlanna respondeu gentilmente e passou o longo braço em volta do
menino, dando-lhe um abraço...
Han sorriu com a recordação, mas era um sorriso triste. Dewlanna tinha
agido com boas intenções, mas a descoberta dela de que o sobrenome do rapaz
era “Solo” tinha levado a um dos piores episódios de sua jovem vida. Na vez
seguinte em que a Sorte orbitou Corellia, o menino extraviou furtivamente parte
do tempo que seria dedicado aos seus deveres de roubos e furtos para visitar um
dos arquivos públicos e pesquisar.
Shrike não gostava que nenhum dos seus “protegidos” investissem um
minuto sequer na melhoria da própria educação. Cada criança a bordo da Sorte
de Mercador recebia educação de nível fundamental pelo computador da nave,
de modo que fosse capaz de ler e contar créditos. Shrike desencorajava as
crianças a buscarem qualquer conhecimento além disso.
Em parte porque automaticamente queria desobedecer Shrike, e em parte
pelo encorajamento de Dewlanna, Han manteve seus estudos em segredo. Ele
tinha uma tendência de ignorar as matérias das quais não gostasse, tais como
história, e de investir todo seu tempo em assuntos que o entretinham, como
ficção de aventuras e equações matemáticas. Han sabia como a matemática era
importante para qualquer aspirante a piloto, então deu duro para dominar o
máximo que podia da disciplina.
Uma vez que Dewlanna descobriu o que ele estava fazendo, passou a
monitorar seu currículo, fazendo o menino estudar matérias que ele teria pulado,
o que deixaria lacunas em seu conhecimento. Relutante, Han abordou as ciências
físicas e história.
O garoto ficou surpreso ao descobrir que algumas das batalhas reais
históricas eram tão emocionantes quanto qualquer coisa que tivesse lido nas
sagas de aventura.
Naquele dia, nos arquivos públicos de Corellia, Han aplicou algumas de suas
recém-adquiridas habilidades de pesquisa para aprender a respeito do novo
sobrenome. Os resultados foram surpreendentes. Quando Han consultou o
sobrenome “Solo” nos registros históricos, ficou espantado ao descobrir que o
nome era muito conhecido em Corellia. Um tal de “Berethron e Solo” tinha
introduzido a democracia ao planeta natal de Han trezentos anos atrás. Na
verdade, ele fora um governante, um rei!
Só que havia outro Solo, mais recente, que era igualmente famoso; ou, mais
precisamente, infame. Mais ou menos cinquenta anos antes, um descendente de
Berethron, Korol Solo, teve um filho chamado Dalla Solo. O rapaz assumiu o
pseudônimo Dalla Suul, num esforço para ocultar sua identidade, e ficou muito
conhecido como assassino, sequestrador e pirata. “Dalla das Trevas” se tornara
um personagem usado para fazer criancinhas tremerem nas camas em colônias
distantes ou em transportes sem destino.
O menino Han se perguntou se teria parentesco com esses homens. Será que
sangue real corria em suas veias? Ou seria o sangue de um pirata assassino? Ele
provavelmente jamais descobriria a não ser que, de alguma forma, pudesse
convencer Shrike a divulgar o que já sabia. Leu sobre as aventuras de Dalla Suul
como ladrão e sorriu sombriamente, perguntando-se se estaria no fundo seguindo
algum tipo de tradição de família.
Em seguida ele começou a conferir os artigos e as colunas sociais corellianos
mais recentes no computador. Uma busca pelo sobrenome “Solo” resultou num
nome. Tiion Sal-Solo. Era uma viúva rica, mas reclusa, que tinha um filho.
Thrackan Sal-Solo era 6 ou 7 anos mais velho que Han, no fim da adolescência.
E seu eu fosse parente dessa Tiion Solo, ou ela conhecesse meus pais?,
perguntou-se Han. Essa poderia ser a minha melhor chance de escapar, até
agora.
Ao voltar à Sorte de Mercador, Han conversou com Dewlanna sobre essa
questão. A Wookiee concordou com ele que, apesar do perigo, Han tinha que
correr o risco de entrar em contato com a família Solo.
– É claro que – comentou Han, apoiando o queixo no punho e fitando a mesa
desanimado –, depois que eu fizer isso, não poderei mais ver você de novo,
Dewlanna.
A Wookiee grunhiu baixinho, dizendo a Han que é claro que ele a veria de
novo. Só não seria a bordo da Sorte de Mercador .
– Da última vez que eu fugi, Shrike me deu uma surra tão forte que eu fiquei
sem poder sentar por dias – lembrou Han. – Se Larrad não tivesse lembrado ele
que tinha outra coisa para fazer, acho mesmo que ele teria me matado.
Dewlanna ribombou.
– Tem razão – concordou Han. – Se essa família Solo me receber, eles serão
ricos e poderosos o bastante para me proteger de Shrike.
Han conhecia até algumas regras e costumes exigidos de quem vivia na alta
sociedade corelliana. De tantos em tantos anos, Shrike executava um grande
golpe contra os ricos de Corellia. Han tinha participado como figurante em
várias dessas operações.
Shrike alugaria uma propriedade luxuosa em Corellia e então armaria uma
“unidade familiar” para servir de pano de fundo respeitável ao golpe. Han e
outras crianças designadas como parte dessa “família” seriam mandados para
viver nessa mansão. Ele frequentaria uma escola de crianças ricas, e uma das
suas tarefas durante o golpe era fazer amizade com os filhos dos endinheirados e
trazê-los para brincar em casa. Várias vezes, isso tinha resultado em contatos
valiosos cujos pais foram convencidos a “investir” no esquema corrente de
Garris Shrike.
Apenas algumas semanas antes, Han fora estudante numa dessas escolas,
uma tão conhecida que tinha merecido a visita do famoso senador Garm Bel
Iblis. Han levantara a mão e fizera ao senador duas perguntas inteligentes e
perceptivas o bastante para que o visitante realmente o notasse. Depois do fim da
aula, Bel Iblis deteve Han, apertou-lhe a mão e perguntou seu nome. Han deu
uma olhada rápida em volta, viu que não havia ninguém por perto, e
orgulhosamente disse ao senador seu verdadeiro nome. Foi muito legal poder
fazê-lo...
Shrike recrutava Han frequentemente para as operações de estelionato,
parcialmente por conta do charme e sorriso vencedor do menino, e em parte
porque seus estudos clandestinos permitiam que Han se encaixasse no ano
correto melhor que a maioria das outras crianças. Han também tinha conquistado
uma reputação nascente de piloto promissor de swoop e speeder, esportes de
gente rica. Conhecera vários garotos de famílias abastadas participando de
corridas de swoop, e várias vezes Shrike tinha convencido os pais deles a
participar de qualquer que fosse o esquema que ele aplicava na época.
Em um ano, Han poderia se inscrever na divisão Júnior do Campeonato
Corelliano. Isso significaria um grande prêmio em dinheiro... se ele vencesse.
Han gostava e desgostava dessas missões. Gostava porque elas significavam
que ele viveria no bem-bom por semanas, às vezes meses. Corridas de swoop e
speeder eram um sopro de vida para o menino, e assim ele podia treinar todos os
dias.
Desgostava dessas operações golpistas porque sempre acabava criando laços
com alguns dos meninos com quem era obrigado a fazer amizade, e o tempo
todo sabia que eles e suas famílias seriam irrevogavelmente prejudicados pelo
esquema de Shrike.
Geralmente, Han conseguia abafar qualquer sentimento de culpa. Estava
ficando muito bom em se colocar em primeiro lugar. Outras pessoas, exceto por
Dewlanna, ficavam em segundo lugar ou em lugar nenhum. Era
autopreservação, e Han era muito, muito bom nisso.
Ainda sou, pensou Han enquanto se levantava do convés da Sonho Ylesiano e
ia verificar rota e velocidade. O jovem corelliano sorriu e assentiu com a cabeça
ao ler os instrumentos. Bem na mosca, pensou. Vamos conseguir.
Conferiu o tanque de ar e viu que tinha passado da metade.
Por um momento Han se sentiu tentado a explorar mais da Sonho , mas
resistiu ao impulso. Ficar perambulando simplesmente gastaria o oxigênio mais
rápido, e ele já estava no limite da segurança.
Então se sentou novamente, e as memórias voltaram. Tia Tiion. Pobre
mulher. E o querido primo Thrackan. Conforme se lembrava, Han repuxou os
lábios para trás num esgar feral que era mais parecido com o rosnado de um
canoide...
Han pulou da alta muralha de pedra e aterrissou de leve na ponta dos pés.
Em meio às árvores, viu uma grande estrutura construída na mesma rocha
nativa que o muro, então seguiu na direção dela, ficando à sombra das árvores
sempre que possível.
Quando alcançou a mansão, ele parou, contemplando-a impressionado.
Tinha visto muitas moradas abastadas, até vivido em várias delas, mas nunca
vira nada como o palacete Sal-Solo.
Torreões decorados com hera, quatro deles, se erguiam em cada quina da
grande e quadrada construção de pedra. Um antiquíssimo droide jardineiro se
movia artriticamente, podando os arbustos que cresciam à margem de um largo
fosso cheio de água. Han contornou até a lateral e percebeu, para sua surpresa,
que o fosso cercava completamente a casa. Não havia como entrar no prédio,
exceto cruzando uma estreita ponte de madeira que cruzava a água e levava à
porta da frente.
Han tinha interesse em táticas militares desde que era pequeno e tinha lido
muito sobre o assunto. Estudou a mansão Sal-Solo, percebendo que tinha sido
construída sob padrões quase militares de inexpugnabilidade. Bem, isso se
encaixava com as coisas que ele ouvira falar sobre a família Solo. Eles não
socializavam, não compareciam a eventos de caridade nem iam a peças ou
concertos.
Em todas as vezes que Han posara como menino rico, nunca tinha ouvido
ninguém mencionar a família Solo; e, do jeito que aqueles ricaços viviam
falando uns dos outros, ele teria escutado alguma coisa se os Solo se
misturassem aos pares.
Han avançou cautelosamente em direção à casa. Trocara o macacão
cinzento de tripulante por uma calça preta e uma túnica cinza-claro que tinha
pegado “emprestadas”. Não queria que ninguém descobrisse de onde ele viera.
Quando estava quase no começo da ponte, parou detrás de um dos grandes
arbustos ornamentais e espiou ressabiado a casa, do outro lado da água. O que
ele deveria fazer agora? Simplesmente ir até a porta e tocar a campainha?
Mordeu o lábio, indeciso. E se eles chamassem as autoridades, denunciando-o
como um fugitivo? Shrike poria as mãos nele tão rápido que...
– Te peguei!
Han deu um pulo quando a mão segurou seu braço, puxando-o para trás.
O sujeito que o pegara era uma cabeça mais alto que ele. Tinha cabelo mais
escuro e era mais forte também. Só que foi o rosto que fez Han o encarar em
espanto mudo.
Han ficou boquiaberto e calado diante do menino mais velho. Se em algum
momento ele teve alguma dúvida da sua conexão à família Solo, as dúvidas
sofreram morte súbita. O rosto do rapaz que segurava seu braço parecia uma
versão mais velha do rosto que Han via no espelho todas as manhãs.
Não que eles fossem gêmeos ou coisa do tipo, mas havia semelhança demais
nos traços para ser coincidência. O mesmo formato dos olhos castanhos, o
mesmo tipo de lábios, o mesmo jeito das sobrancelhas... o mesmo nariz e
queixo...
O outro garoto encarava Han de volta, obviamente tendo notado a mesma
coisa.
– Ei! – Ele chacoalhou o braço de Han com força. – Quem é você?
– Meu nome é Han Solo – respondeu Han calmamente. – Você deve ser
Thrackan Sal-Solo.
– E se eu for? – retrucou o outro, taciturno. Han estava começando a se
sentir apreensivo com a forma como o rapaz o espiava. Ele tinha visto vrelts
com mais simpatia no olhar. – Han Solo, é? Nunca ouvi falar de você. De onde
você veio? Quem são seus pais?
– Eu esperava que vocês pudessem me dizer isso – explicou Han, com
tranquilidade. – Eu fugi de onde estava hospedado, porque queria encontrar
minha família. Não sei nada sobre mim mesmo exceto meu nome.
– Hum... – Thrackan ainda encarava. – Bem, acho que você deve ser da
família...
– Está na cara – concordou Han, só percebendo o trocadilho depois de ter
falado. Só que Thrackan não pareceu notar. Ele estava hipnotizado por Han e,
depois de soltar o braço dele, contornou o invasor, estudando-o de todos os
ângulos.
– De onde você fugiu? – indagou Thrackan. – Tem alguém procurando você?
– Não – assegurou Han secamente. Ele não confiaria a Thrackan nenhuma
informação que pudesse assombrá-lo mais tarde. – Escuta, nós somos parecidos,
então devemos ser parentes, né? Será que nós somos... nós somos irmãos? –
Engraçado, mas, depois de tantos sonhos sobre encontrar uma família que o
resgataria da Sorte de Mercador, Han se pegou desejando que não fosse o caso.
– Sem chance – retrucou Thrackan, torcendo o lábio. – Meu pai morreu um
ano depois de eu nascer, e minha mãe se trancou aqui desde então. Ela é meio...
eremita.
Isso se encaixava com o que Han tinha lido sobre a família Sal-Solo. Tiion
Solo se casara com um homem chamado Randil Sal, uns vinte anos antes. Os
registros públicos continham seu obituário.
– Talvez ela saiba alguma coisa sobre mim – sugeriu Han. – Eu posso falar
com ela? – Ele respirou fundo. – Por favor?
Thrackan pareceu considerar.
– Tudo bem – decidiu ele finalmente. – Mas, se ela ficar... chateada, você vai
ter que ir embora, tudo bem? Minha mãe não gosta de gente. Ela é que nem o
avô dela, não aceita serviçais humanos, só droides. Ela diz que os humanos
traem e matam uns aos outros, coisa que os droides nunca fazem.
Han seguiu Thrackan mansão adentro, passando por enormes salas cheias
de mobília coberta e pinturas protegidas contra a poeira. Thrackan explicou que
a família usava apenas alguns poucos aposentos, para economizar o tempo e o
esforço dos droides de limpeza.
Finalmente, chegaram à sala de estar da mãe de Thrackan. Tiion Solo era
uma mulher pálida, de cabelos escuros, obesa e de aparência doentia. Não era
nada atraente. Porém, depois de contemplá-la, estudar seu rosto, ver os ossos
sob a flacidez inchada, Han concluiu que, um dia, há muito tempo, ela poderia
ter sido bonita. Ao ver seus traços, uma lembrança se agitou dentro dele, bem de
leve...
Um dia, ele tinha visto traços parecidos com os dela, pensou Han. Havia
muito tempo, longe dali. A “memória”, se é que era uma memória, era tão fugaz
e elusiva quanto um penacho de fumaça.
– Mãe – disse Thrackan. – Este é Han Solo. Ele é nosso parente, não é?
O olhar de Tiion Sal-Solo tocou o rosto de Han, e seus olhos se arregalaram.
Ela encarou o menino horrorizada. Sua boca se mexeu, e um som agudo e
estridente emergiu.
– Não... não! – gritou ela. Lágrimas se acumularam nos olhos castanhos,
escorreram pelas bochechas flácidas. – Não, não é possível! Ele se foi! Os dois
se foram!
A mulher enterrou o rosto nas mãos e começou a chorar histericamente.
Thrackan agarrou Han pelo braço e o arrastou para fora da casa.
– Agora veja só o que você fez, seu idiotinha – exclamou o rapaz, olhando
preocupado para a janela da mãe. – Ela vai ficar nesse estado por dias, é
sempre assim quando ela se aborrece.
Han deu de ombros.
– Eu não fiz nada. Ela só me olhou, foi tudo. Qual é o problema dela?
Com um xingamento abafado, Thrackan acertou um tapa com as costas da
mão no rosto de Han tão forte que abriu o lábio do menino.
– Cale a boca! – rosnou. – Você não tem o direito de falar dela! Ela não tem
nenhum problema, ouviu? Nenhum!
O golpe doeu, mas Han levava surras constantes aplicadas por especialistas,
e uma coisa que ele sabia era como levar um soco e continuar de pé. Por um
momento, sentiu-se tentado a se atirar contra a garganta do menino mais velho,
mas se obrigou a relaxar. Havia dor genuína nos olhos de Thrackan quando ele
defendeu a mãe. Han imaginou que teria feito a mesma coisa se um dia tivesse
tido uma mãe. Preciso ficar aqui, ele relembrou a si mesmo. Qualquer coisa é
melhor que Shrike...
– Desculpa – ele conseguiu dizer.
Thrackan pareceu um pouco envergonhado.
– É só você prestar atenção em como fala sobre minha mãe, está bem?
As seis semanas seguintes foram algumas das mais estranhas na vida de
Han. Thrackan permitiu que Han ficasse com ele nos seus aposentos (Tiion
quase nunca ia à parte de Thrackan da casa), e os dois passavam o tempo
conversando e se conhecendo.
Thrackan era um anfitrião exigente, Han logo descobriu. Este tinha que
concordar com ele incondicionalmente, e correr para cumprir suas ordens, ou
ele perdia as estribeiras e batia no menino mais novo. Thrackan fez Han pilotar
para ele, transportando o rapaz pelo campo num landspeeder antiquíssimo, e os
dois chegaram até a partir em algumas expedições a mansões que Thrackan
sabia que estavam vazias, cujos habitantes saíram de férias. Thrackan exigia
que Han arrombasse as fechaduras e desativasse os sistemas de segurança, e
então o rapaz roubava qualquer coisa que lhe desse na telha.
Han começou a se perguntar se era grande vantagem ter fugido da Sorte de
Mercador. Duas coisas o mantinham na mansão Solo: o medo de que, se
desagradasse Thrackan, o rapaz mais velho o denunciasse às autoridades, assim
permitindo que Shrike o encontrasse; e a esperança de que Thrackan cedesse e
contasse a Han tudo o que sabia sobre sua identidade real. Ele ficava
insinuando que sabia qual era o verdadeiro grau de parentesco dos dois.
– Tudo a seu tempo – Thrackan dizia quando Han tentava espremer
informação dele. – Tudo a seu tempo, Han. Vamos dar uma volta. Quero que
você me ensine a pilotar o speeder.
Han tentou, mas Thrackan não era muito bom naquilo. O menino mais velho
quase bateu o veículo várias vezes antes de dominar os rudimentos mais básicos
da pilotagem do pequeno speeder.
Eu tenho que cair fora daqui, repetia Han para si mesmo. Vou fugir para
algum outro mundo, onde ninguém nunca vai me encontrar. Talvez eu consiga
ser adotado ou arranjar um emprego ou coisa assim. Tem que haver algum jeito...
Só que ele não conseguia pensar em nenhum jeito de se livrar de Thrackan.
O rapaz era vingativo, sádico e simplesmente malvado. Várias vezes, Han viu
Thrackan torturar insetos ou outros animais e, quando o rapaz percebeu que
seus atos o perturbavam, começou a fazê-lo com frequência. Han nunca tivera
um bicho de estimação, mas tendia a gostar de criaturas peludas por causa de
Dewlanna.
Sentia saudades dela todos os dias.
A situação foi se tornando cada vez mais insustentável, até que um dia
Thrackan perdeu completamente a paciência com Han. Agarrou-o pelos cabelos,
arrastou-o até a cozinha, pegou uma faca e a segurou diante de seus olhos.
– Está vendo isto? – rosnou. – Se você não pedir desculpas e não fizer
exatamente o que eu mandar, vou cortar suas orelhas fora. Agora peça
desculpas! – Chacoalhou Han com força. – E é melhor você ser convincente!
Han encarou a lâmina brilhante da faca e lambeu os lábios. Tentou forçar as
palavras de um pedido de desculpas, mas uma imensa erupção de raiva
sanguinária brotou dentro dele. Todos os insultos, tapas e socos e surras, de
Shrike e de Thrackan, pareceram transbordar.
Com um urro tão alto quanto o de um Wookiee, Han virou uma fera. Deu um
soco no braço de Thrackan, fazendo a faca voar, e acertou o outro cotovelo no
estômago do rapaz. Este perdeu completamente o fôlego e, antes que pudesse se
recuperar, Han se atirou contra ele.
Chutes, mordidas, socos, dedo no olho; Han usou todos os truques sujos que
tinha aprendido nas ruas para surrar Thrackan. Atordoado e chocado com a
fúria de Han, Thrackan não conseguiu se recuperar, até que a luta terminou com
Han sentado nele, segurando a faca em seu pescoço.
– Ei... – Os olhos de Thrackan reluziam como os de um vrelt encurralado. –
Ei, Han, pare de brincadeiras. Isto não é engraçado.
– Você cortar minhas orelhas também não é – retrucou Han. – Escute aqui,
estou farto. Você me conte o que você sabe, e conte agora mesmo, ou eu juro que
abro sua garganta de orelha a orelha. E depois vou embora. Já me cansei de
você.
Os olhos escuros de Thrackan se arregalaram de medo. Eles viram alguma
coisa no rosto de Han que o convenceu de que Han estava tão furioso que seria
um erro provocá-lo.
– Está bem, está bem!
– Agora – mandou Han. – Fale.
Gaguejando de medo, Thrackan contou a história.
Anos atrás, o avô de Thrackan, Denn Solo, e a avó, Tira Gama Solo, viviam
no quinto planeta habitado do sistema corelliano, uma colônia chamada Tralus.
Eram tempos perigosos, e bandos itinerantes de saqueadores e piratas
ameaçavam vários mundos periféricos. Os saqueadores nunca chegaram a
Corellia, mas chegaram a Tralus. Uma frota deles pousou e devastou a colônia
inteira.
– Avó Solo estava grávida – ofegou Thrackan, porque era difícil respirar
com Han sentado no seu peito. – E, na noite que a cidade deles foi atacada, ela
teve os bebês. Gêmeos. Uma delas foi batizada mais tarde como Tiion. Vó Solo
pegou ela e fugiu dos saqueadores. Conseguiu se esconder numa caverna nas
colinas.
– Tiion – repetiu Han. – Sua mãe.
– Isso. O outro bebê era um menino, a vó Solo contou. O marido dela levou
ele. Não tiveram tempo nem para batizá-lo. A vó disse que foi terrível. Incêndios
por todos os lados, gente correndo e gritando. Ela e vô Denn se separaram na
confusão da fuga.
– E? – Han flexionou a mão de leve, e a lâmina se aproximou da garganta de
Thrackan.
– Como eu disse, vó Solo e Tiion escaparam. Mas vô Solo e o bebê menino
desapareceram. Nunca mais se soube deles.
– Então o que isso faz de mim? – indagou Han, completamente confuso.
– Eu não sei – admitiu Thrackan. – Mas, se eu tivesse que chutar, eu diria
que você é meu primo. Que, de alguma forma, o vô Solo e seu filho escaparam, e
que você é o filho desse filho.
– Será que ninguém sabe nada além disso? – exclamou Han, sentindo-se
desesperado. Aquele era um beco totalmente sem saída; a decepção era
esmagadora. – Serviçais?
– O vô Solo não gostava de serviçais humanos. Sempre teve droides. E,
quando a vó Solo voltou à família dela aqui em Corellia, o bisavô Gama apagou
a memória de todos os droides. Ele achou que seria mais fácil assim. Queria que
ela se casasse de novo, começasse uma nova vida. – Thrackan lutou para
respirar fundo. – Só que ela nunca fez nada disso.
– Então o que aconteceu com sua mãe?
– Não sei. Ela sempre teve medo de confiar nas pessoas e odiava multidões.
Depois que o meu pai morreu, ela simplesmente quis se isolar do mundo. E foi o
que ela fez.
Han baixou a mão da faca e balançou a cabeça.
– Certo – disse ele. – Eu vo...
Com um corcovear súbito, Thrackan lhe deu um tranco e, antes que Han
pudesse reagir ao golpe, as posições estavam invertidas. Han encarou o primo,
sabendo que teria sorte em sair daquela com vida. Os olhos escuros de
Thrackan incandesciam com ódio, raiva e prazer sádico.
– Você vai ser arrepender muito, muito mesmo, Han – afirmou o rapaz em
voz baixa.
E Han de fato se arrependeu.
Thrackan o trancou numa sala vazia por três dias, lhe dando apenas pão e
água. Na tarde do terceiro dia, quando Han estava sentado deprimido num
canto, Thrackan destrancou a porta.
– Temo que seja hora do adeus, priminho – anunciou ele, animado. – Tem
alguém aqui para levar você para casa.
Han olhou em volta desesperado enquanto Garris e Larrad Shrike entravam
atrás de Thrackan, porém, como ele bem sabia, não havia para onde correr...
Han balançou a cabeça e se recusou a se permitir pensar nos dias que
seguiram. A única coisa que fez Shrike se conter um pouco na hora de puni-lo
foi o fato de não querer “danificar” Han permanentemente devido à sua
crescente reputação de excelente piloto de swoops e speeders. Só que havia
muitas coisas que o capitão podia fazer que não causavam dano permanente, e
ele tinha feito quase todas elas...
A única vez que Han levou uma surra pior foi depois do fracasso em Jubilar,
quando tinha 17 anos. Han já estava machucado e dolorido do vale-tudo
gladiatório em que fora obrigado a lutar, depois de ser flagrado trapaceando no
baralho. Daquela vez, Shrike não tinha nem se dado ao trabalho de pegar um
cinto, tinha simplesmente usado os punhos, massacrando o rosto e o corpo do
menino até que Larrad e vários outros o arrastaram para longe do garoto
desmaiado.
E agora ele matou Dewlanna, pensou Han amargamente. Se existe alguém
que precisa ser morto, é Garris Shrike.
Por um momento Han se perguntou por que nunca lhe ocorrera matar Shrike
quando ele ficou inconsciente durante a fuga de Han para a Sonho Ylesiano .
Teria sido um favor aos habitantes da Sorte de Mercador. Por que ele não o
matara? Tivera uma pistola na mão...
Han balançou a cabeça. Ele nunca tinha atirado em ninguém até a véspera, e
matar um homem inconsciente simplesmente não era seu estilo.
Só que Han sabia, sem que ninguém lhe dissesse, que, se Garris Shrike
algum dia o encontrasse no futuro, Han seria um homem morto. O capitão nunca
esquecia e nunca perdoava. Ele se especializava em guardar rancores contra
qualquer um que lhe tivesse prejudicado.
Han se levantou de novo para conferir a rota e o tanque de ar. Só restavam
algumas horas de oxigênio. Fez alguns cálculos mentais enquanto verificava a
tela. Por pouco. Vai ser por pouco. É melhor eu estar preparado para ejetar a
porta de carga deste caixote assim que pousarmos... Vai ser por muito, muito
pouco...
Mesmo tendo voado centenas de horas em swoops e speeders, a experiência
de Han em pilotar naves maiores se limitava às vezes que Garris Shrike
permitira que ele comandasse a nave auxiliar da Sorte em trajetos fáceis. Ele
tinha decolado e pousado, mas nunca antes tentara aterrissar nada tão grande
quanto o cargueiro-robô. Han esperava que fosse capaz de dar conta. Tinha
confiança em sua habilidade de piloto; afinal, não tinha sido o campeão
planetário júnior de speeder em Corellia por três anos seguidos? E, ano passado,
ele não tinha vencido o campeonato de corrida de swoop do sistema corelliano
inteiro?
Ainda assim, comparado à nave auxiliar da Sorte , aquele cargueiro era
enorme ...
Han cochilou de novo e, depois que acordou, perambulou inquieto pela
cabine, sabendo que deveria conservar energia e ar, mas sem conseguir se deter.
– Senhor? – A unidade R2 que tinha ficado tão quieta por tantas horas voltou
à vida de repente. – Preciso informá-lo de que alcançamos a órbita de Ylesia. O
senhor precisa se preparar para executar a descida e o pouso.
– Obrigado por me avisar – respondeu Han. Foi até os painéis de controle e
verificou os instrumentos, calculando mentalmente a taxa de descida. Não ia ser
fácil. Ele não tinha nenhuma forma de se comunicar com o navicomputador,
exceto pela unidade R2. Um piloto tinha que tomar decisões em frações de
segundo em determinados momentos e, nesses casos, Han não poderia esperar a
unidade R2 responder.
A nave estremeceu de repente, depois oscilou de leve.
Eles estavam entrando na atmosfera, percebeu Han.
Respirou fundo e deu uma olhada no nível do tanque de ar, percebendo que
seria por pouco... por muito, muito pouco.
Lá vamos nós , pensou ele, ativando o controle manual da Sonho Ylesiano .
– Ei, R2 – chamou ele, ajustando o curso de leve.
– Sim, senhor?
– Me deseje sorte.
– Com sua licença, senhor, mas esta unidade não está...
Han praguejou, e a Sonho Ylesiano desceu em direção à superfície de um
planeta que ele não conseguia nem ver. Ele conseguia ver as leituras dos
sensores e escâneres infravermelhos, porém, e percebeu que Ylesia era um
mundo de correntes de ar tempestuosas, até mesmo nas camadas superiores da
atmosfera. Sensores de mapeamento criaram um retrato global do planeta: mares
rasos cravejados de ilhas, e três pequenos continentes. Um desses ficava perto do
polo norte, mas os outros dois, o oriental e o ocidental, ficavam em latitudes
mais baixas, em zonas provavelmente mais temperadas.
– Ótimo – murmurou para si mesmo enquanto localizava o sinalizador de
aproximação final da nave. Ele poderia usá-lo como um guia para planejar a
aterrissagem. O campo de pouso ficava no continente oriental. Deveria ser lá que
ficava a colônia ylesiana de sacerdotes e peregrinos religiosos.
A Sonho tremeu violentamente, jogada pelas correntes rodopiantes de ar
como uma criança num balanço. As luvas do traje de Han tocavam
desajeitadamente os pequenos botões do controle de diagnóstico enquanto ele
usava os estabilizadores para endireitar a descida. Ao tentar pegar o jeito dos
controles, Han guinou para bombordo e depois exagerou na correção, fazendo a
nave derrapar para estibordo.
Na imagem infravermelha, uma enorme bolha vermelha surgiu de repente. É
uma tempestade imensa! , pensou Han, usando os propulsores laterais para
estabilizar a descida. Permitiu que a Sonho desviasse alguns graus para o norte,
planejando assim se afastar da tempestade e depois virar de volta para o sul,
quando estivesse abaixo da tormenta.
As partículas ionizadas no rastro de todos aqueles relâmpagos confundiam
completamente os instrumentos, percebeu Han. Engoliu seco, sentiu o peito
apertar e conteve o pânico. Bons pilotos não podiam se dar ao luxo de deixar as
emoções atrapalharem, ou acabariam mortos, e isso encerraria a viagem bem
rápido, não é mesmo?
– R2 – disse Han, estressado. – Veja se você consegue mapear essas áreas
tempestuosas para que eu possa evitar os rastros ionizados dos relâmpagos.
Concentre-se na trajetória entre nossa posição atual e o campo de pouso no
continente oriental.
– Sim, senhor – respondeu a unidade R2.
Momentos depois, os pontos de tempestades elétricas apareceram diante
dele.
– Coloque uma versão desse mapa em escala reduzida no canto desta tela, R2
– ordenou Han. Geralmente, seria trabalho do navicomputador consolidar a
trajetória de voo pretendida com dados geográficos e climáticos, e então sugerir
uma rota ideal, que o piloto poderia implementar e modificar conforme
necessário.
Han nunca tinha sentido tanta falta de ter um navicomputador ao seu dispor
quanto naquele momento.
Reduziu marginalmente o avanço precipitado da nave, depois foi forçado a
ativar os propulsores para tirá-los do caminho de mais uma rajada de vento de
uma das tempestades.
O suor pingava no rosto do rapaz enquanto ele lutava com os minúsculos
controles, jogando a Sonho Ylesiano em manobras que só se poderia esperar que
fossem executadas por um swoop ou caça militar. Han percebeu que ainda estava
ofegante e se perguntou por uma fração de segundo se seria por causa do estresse
e da adrenalina, ou se o ar estaria acabando.
Não tinha como desperdiçar o segundo que seria necessário para verificar o
tanque de ar.
Eles estavam agora apenas um quilômetro acima da superfície do planeta,
descendo com rapidez. Rapidez demais! Han reduziu a velocidade, abusando dos
retropropulsores. A aceleração gravitacional o atingiu, e o rapaz sentiu como se
alguma coisa apertasse seu peito num imenso torno. Ofegava forte agora, e
ousou olhar o tanque de ar.
Vazio! O indicador de status estava completamente na zona vermelha.
Aguenta firme, Han, aconselhou a si mesmo. É só continuar respirando.
Deve ter ar bastante no seu traje para sustentá-lo por alguns minutos, pelo
menos.
Balançou a cabeça, sentindo-se tonto. Seus pulmões começaram a arder com
a respiração.
Só que agora eles estavam quase lentos o bastante para pousar. Freou de
novo, de leve, e a nave deu um tranco súbito. Perdi meu estabilizador dianteiro!
Han lutou para compensar. Ainda estavam rápido demais, só que não havia
mais nada que ele pudesse fazer quanto a isso. Acionou os repulsores e começou
a baixar a nave, sentindo a vibração nos joelhos e nas pernas, ajoelhado no
convés.
Aguenta firme, sua linda! , ele pensou para a Sonho . Aguenta firme...
Com um whooooommpppp! estrondoso, o repulsor dianteiro de bombordo
pifou. A Sonho deu uma forte guinada para bombordo, bateu no chão, depois
quicou. O repulsor de estibordo estourou, e então o lado correspondente inteiro
se chocou contra o solo, quase fazendo a nave capotar.
Wham! Com um crunch horroroso que Han sentiu no corpo inteiro, a Sonho
Ylesiano se esborrachou na superfície do planeta, estremeceu uma vez e ficou
imóvel.
Han foi atirado violentamente pela cabine. Seu capacete bateu com força na
antepara, e ele ficou deitado ali, atordoado, com braços e pernas esparramados.
Lutou para continuar consciente. Se desmaiasse, nunca mais acordaria de novo.
Tentou se sentar e grunhiu com o esforço. Ondas de escuridão o ameaçavam. Ele
ativou o canal de comunicação do traje.
– R2... R2... responda!
– Sim, senhor, estou aqui, senhor. – O tom mecânico do droide soou um
tanto estremecido. – Se o senhor me perdoar a franqueza, senhor, esta pareceu
ser uma aterrissagem assaz heterodoxa. Estou preocupado com...
– Cale a BOCA e ABRA A ESCOTILHA DE CARGA! – sibilou Han. Ele
conseguiu ficar sentado, mas temia não ser capaz de se levantar. Balançava como
um bêbado na ventania.
– Mas, senhor, eu o avisei que, por questão de segurança, todas as saídas
ficariam seladas pendendo...
Han encontrou a pistola que tinha metido num bolso externo do traje, sacou e
apontou para R2.
– R2, OU VOCÊ ABRE AQUELA ESCOTILHA AGORA, OU EU FAÇO SUA
CARAPAÇA DE METAL EM PEDAÇOS!
As luzes do droide piscaram freneticamente. O dedo de Han tocou o gatilho
enquanto o rapaz se perguntava se teria força suficiente para se arrastar até a
escotilha. As trevas rondavam os limites de sua visão.
– Sim, senhor – decidiu R2. – Farei conforme sua requisição.
Momentos depois, Han sentiu o impacto quando o ar irrompeu na Sonho com
força quase explosiva. Ofegante, ele contou até vinte e enfim, com seu último
resquício de força, arrancou o capacete. Em seguida, deixou-se cair de volta ao
convés.
Han arfou, percebeu que conseguia respirar e inspirou profunda e
repetidamente o ar fresco. Ar morno, ar úmido, ar carregado com um cheiro que
ele não conseguia identificar. Mas era rico em oxigênio, eminentemente
respirável e isso era tudo que importava naquele momento.
O rapaz fechou os olhos e se concentrou apenas em respirar, sentindo a
exaustão dominá-lo. A cabeça latejava, e ele precisava só de um momento para
descansar. Só um momento...

Quando Han emergiu de volta a um estado completo de consciência e abriu


os olhos, se deparou com um rosto saído de pesadelos. Essa é a criatura mais
feia que eu já vi! foi seu primeiro pensamento. Só os anos de experiência lidando
com todo tipo de não humanos de todas as variedades permitiram que ele
controlasse a reação inicial.
O rosto era largo, com dois olhos protuberantes e bulbosos, e era coberto de
pele coriácea cinzenta-bronzeada. Não tinha orelhas visíveis, e apenas fendas
servindo de narinas. Acima dessas fendas havia um grande chifre rombudo quase
tão longo quanto o antebraço de Han. A boca era um risco largo e sem lábios na
imensa cabeça.
Han balançou a própria cabeça dolorida e conseguiu se sentar, percebendo
pelo cenário que o cercava que parecia estar em algum tipo de enfermaria. Um
droide médico pairava pela sala, com luzes piscando.
Seu anfitrião (se é que a criatura era isso) era grande, Han notou. Muito
maior até que um Wookiee. Lembrava um pouco um Berrite, pois caminhava
sobre quatro pernas grossas como troncos de árvore, mas era muito maior. A
cabeça da criatura se conectava a um pescoço curto e corcunda que levava a um
corpo imenso. Han calculou que o dorso do ser teria a altura dos ombros do
rapaz de pé. A pele como couro que recobria o corpo pendia em pregas, rugas e
dobras frouxas, especialmente no pequeno e quase inexistente pescoço. Esse
couro tinha um brilho oleoso.
As quatro pernas curtas terminavam em enormes patas acolchoadas. Uma
longa e fina cauda ficava enrolada sobre o dorso. Por um momento, Han se
perguntou se a criatura teria membros manipuladores, mas logo notou dois
bracinhos que se dobravam junto ao peito, meio escondidos pela papada de pele
frouxa. As mãos da criatura eram delicadas, quase femininas, com quatro longos
dedos flexíveis em cada.
O ser abriu a boca e falou em língua básica, com sotaque compreensível.
– Saudações, sr. Draygo. Permita-me lhe dar as boas-vindas a Ylesia. Você é
um peregrino?
– Só que eu não me ch... – murmurou Han, com a cabeça girando. Por um
momento o nome não fez sentido, mas então as coisas se encaixaram. É claro.
Fechou a boca com força, pensando que provavelmente tinha levado uma
pancada pior do que pensara. Vykk Draygo era o pseudônimo cuja identificação
ele portava naquele momento.
Han tinha vários alter egos e a documentação apropriada para sustentá-los.
Ironicamente, ele não tinha nenhum tipo de identidade ou documento sob seu
nome verdadeiro.
– Me desculpe – murmurou ele, segurando a cabeça com a mão, na
esperança de que o deslize fosse descontado como resultado do ferimento na
cabeça. – Acho que ainda estou meio abalado. Não, não sou um peregrino. Vim
aqui responder a um anúncio de emprego para que alguém, de preferência um
corelliano, viesse ser piloto.
– Entendo. Mas como o senhor calhou de estar a bordo de nossa nave quando
ela sofreu o acidente? – inquiriu a criatura.
– Queria chegar a Ylesia o mais rápido possível, então aproveitei a
oportunidade para pegar uma carona na Sonho Ylesiano – explicou Han. – Eu
teria que esperar uma semana por um voo comercial e o anúncio dizia que vocês
precisavam de um piloto com urgência. Vocês receberam minha mensagem?
– Sim, recebemos – confirmou o ser. Han o observava atentamente,
lamentando não ser capaz de interpretar suas expressões faciais. – Nós
estávamos esperando você, mas não na Sonho Ylesiano.
– Veja, trouxe o anúncio comigo. – Han estendeu a mão para o macacão
pendurado numa cadeira ao lado da cama e pegou o holocubo que continha o
anúncio ao qual ele tinha respondido. – Diz que vocês precisam de alguém para
começar imediatamente.
Ele estendeu o cubo.
– Então... Vykk Draygo aqui, me apresentando para o emprego. Sou
corelliano e atendo a todos os seus requisitos. Eu só... Bem, queria dizer que
lamento ter batido a Sonho. Sua nave é um modelo diferente daqueles que eu já
pilotei, mas umas duas horas num simulador vão resolver isso. E temo que as
suas correntes atmosféricas me pegaram de surpresa.
O ser verificou o cubo, depois o pousou na mesa. Os cantos da imensa boca
sem lábios se inclinaram levemente para cima.
– Entendo. Sr. Draygo, sou o mui exaltado sumo sacerdote de Ylesia,
Teroenza. Seja bem-vindo à nossa colônia. Estou impressionado com a sua
iniciativa, jovem humano. Viajar a bordo de uma nave-robô para poder
responder ao nosso anúncio tão rapidamente é um sinal do seu
comprometimento.
Han franziu o cenho, desejando que sua cabeça não doesse tanto.
– Bem... obrigado.
– Fiquei impressionado que você tenha conseguido controlar e aterrissar uma
nave-robô. Poucos pilotos humanos teriam sido capazes de reagir com
velocidade suficiente para lidar com os padrões climáticos desafiadores deste
planeta. Os danos à nossa nave não foram sérios, e os reparos já estão sendo
efetuados. Você pousou em terreno macio, felizmente.
– Isso quer dizer que o emprego é meu? – indagou Han, ansioso. Ótimo! Eles
não estão com raiva de mim!
– Você estaria disposto a assinar um contrato de um ano? – perguntou
Teroenza.
– Talvez – respondeu Han, se reclinando e relaxando, com as mãos detrás da
cabeça. – Pagando quanto?
O sumo sacerdote mencionou uma cifra que fez Han sorrir por dentro.
Mesmo que fosse mais do que ele esperava, o rapaz era comerciante demais para
não negociar automaticamente.
– Bem, não sei... – disse ele, esfregando o queixo pensativo. – Eu ganhava
mais que isso no meu emprego anterior...
Uma mentira, só que ninguém teria como verificar. Vykk Draygo de fato
ganhava mais que aquele valor; Han tinha pago caro para garantir que o histórico
de empregos de seu alter ego demonstrasse que ele já tinha recebido altos
salários. Han tinha investido todas as suas economias, mais os lucros de dois
roubos perigosos sobre os quais Garris Shrike jamais ficara sabendo, para
financiar essas alterações no histórico profissional do alter ego ; mas queria que
Vykk Draygo pudesse negociar altos salários.
Teroenza ponderou a informação e enfim respondeu:
– Muito bem, posso oferecer 30 mil pelo ano, com um bônus de dez depois
dos seis primeiros meses, no caso de você executar todos os voos programados
sem atrasos.
– Bônus de quinze – retrucou Han automaticamente. – E vocês fornecem os
simuladores de treinamento.
– Doze – barganhou Teroenza. – E você paga pelos simuladores.
– Treze – disse Han. – Vocês dão os simuladores.
– Doze e meio e nós fornecemos os simuladores – decidiu o sumo sacerdote.
– Oferta final.
– Combinado – anunciou Han. – Vocês conseguiram seu piloto.
– Excelente! – Teroenza chegou a rir, um som grave, retumbante e
estranhamente melodioso.
Num instante os contratos foram trazidos. Han os assinou e então permitiu
uma leitura de retina como prova de sua identidade. Espero que eles sejam como
todo mundo, pensou ele, e façam só uma verificação geral sistêmica dos meus
padrões de retina. Se os sacerdotes fizessem uma busca completa (e muito cara)
em todos os sistemas para determinar se a leitura de retina de Vykk Draygo era
única, eles acabariam descobrindo que não. Vykk Draygo, Jenos Idarian, Tallus
Bryne, Janil Andrus e Keil d’Tana todos compartilhavam exatamente os mesmos
padrões de retina; o que não era de estranhar, pois todos esses indivíduos eram,
de fato, Han Solo.
Antes de deixar a Sorte de Mercador , Han tinha tomado o cuidado de
guardar uma pequena soma de créditos e conjuntos completos de documentos
em duas caixas-fortes em Corellia, para o caso de algum dia precisar de uma
troca rápida de identidade. Garris Shrike tinha provido o rapaz com conjuntos
diferentes de documentos para cada golpe em que Han participara, e ele tinha
guardado cada conjunto e os atualizado conforme necessário.
O corelliano sabia, porém, que nenhuma de suas identidades forjadas
resistiria aos scanners imperiais. Antes que pudesse prestar os exames seletivos
da Academia, Han sabia muito bem que teria que gastar uma pequena fortuna em
subornos em Coruscant para obter documentos de identidade tão genuínos que
passariam por uma verificação de segurança imperial.
Com todos os detalhes administrativos resolvidos, Teroenza então chamou
um sub-sacerdote, ou sacredot, como eles eram chamados, e o instruiu a levar
Han num tour do complexo. Han foi deixado a sós para vestir o macacão, depois
de receber garantias de que lhe seriam fornecidos trajes com o símbolo ylesiano:
um enorme olho aberto e uma boca.
Enquanto vestias as roupas e as botas, percebeu que suava muito. Quente e
úmido, pensou. Que clima maravilhoso. Porém, pela grana que os sacerdotes
estavam pagando, o rapaz estava disposto a aturar um ano de desconforto. Ao
aceitar o emprego, ele acumularia muita experiência prática pilotando naves
grandes e teria acesso a simuladores de treinamento. Isso deveria bastar para
garantir seu sucesso nas provas seletivas da Academia.
O dinheiro significava que ele poderia pagar as propinas necessárias para que
sua inscrição fosse processada rapidamente e realmente chegasse aos oficiais de
seleção. Suas pesquisas revelaram que, sem suborno, era comum que um
candidato a cadete levasse um mês ou mais fazendo a inscrição, passando por
todas as provas relevantes, sendo entrevistado até finalmente ser aceito na
Academia Imperial.
O sacredot chegou e se apresentou como Veratil. Han o seguiu por um
corredor, passando por um grande anfiteatro e o que parecia ser uma área de
registro.
– Nosso Centro de Hospitalidade – explicou o sacredot. Veratil o levou para
o lado de fora. Han saiu pela porta e, antes que pudesse respirar fundo, estava
imediatamente coberto de suor. Calor fumegante e umidade lhe estapeavam a
cara, quase como golpes físicos. O ar estava carregado de cheiros: perfume forte
das flores, vegetação podre e outro odor, um que já tinha sentido antes, mas não
conseguia identificar.
Han parou no alto da pequena rampa que descia do prédio e contemplou o
céu, notando que era de um azul-acinzentado translúcido. O sol era vermelho-
alaranjado e parecia maior do que o rapaz estava acostumado. Esta estrela
provavelmente ficava mais próxima daquele planeta que Corel de Corellia. Han
espiou as sombras, percebeu que já passava muito do meio-dia e depois deu uma
olhada no crono de pulso.
– Quanto tempo dura o dia aqui? – perguntou a Veratil.
– Dez horas-padrão, senhor – respondeu o sacredot.
Não é de se espantar que o clima aqui seja tão tempestuoso, pensou Han.
Temos um mundo quente e úmido com uma rotação bem rápida.
Han olhou para além da área aberta. O permacreto terminava abruptamente,
dando lugar ao solo e à vegetação naturais. Poças de água atestavam a recente
chuva torrencial. Lama avermelhada formava um forte contraste à luxuriante
flora verde-azulada. As flores que pendiam de vinhas e árvores na selva
circundante eram enormes e multicoloridas; escarlates, roxas e amarelonas.
– Esta é Colônia Um – explicou Veratil. – Nós também estabelecemos duas
novas colônias para nossos peregrinos. Dois anos atrás fundamos Colônia Dois,
e no inverno passado construímos Colônia Três, que ainda é bem pequena.
Colônia Dois fica a uns 150 quilômetros ao norte, e Colônia Três, mais ou
menos 70 quilômetros ao sul daqui.
– Há quanto tempo Colônia Um foi fundada? – perguntou Han.
– Quase cinco anos-padrão.
Han deu uma boa olhada em Colônia Um. Diretamente em frente ao Centro
de Hospitalidade ficava a plataforma de pouso. Um pequeno cargueiro
aguardava lá, adernando sobre seus repulsores. Aquela deve ser a Sonho, pensou
Han, percebendo que nunca tinha visto a nave do lado de fora.
A Sonho Ylesiano era uma nave pequena, com forma de uma lágrima gorda e
um tanto irregular. No ventre havia a saliência da cabine de tiro, provando que a
nave não tinha sido sempre um cargueiro-robô. Outra saliência maior indicava o
porão de carga principal. Era uma nave graciosa, pequena o bastante para ser
ágil. Quase com certeza construída em Corellia.
Han viu os imensos droides portuários trabalhando na Sonho , começando a
consertar os repulsores. Nave, droides e tudo mais em volta estavam sujos com a
lama vermelha da aterrissagem forçada.
A nordeste, mais altas até que as gigantescas árvores da selva, Han
vislumbrou uma cordilheira nevada. Apontou para ela.
– Que montanhas são aquelas?
– As Montanhas dos Exaltados – disse Veratil. – O Altar das Promessas fica
no sopé delas, onde os fiéis se reúnem todas as noites para serem Exultados.
Você verá esta noite, quando comparecer à devoção.
Ah, ótimo , pensou Han. Eu tenho que participar das cerimônias, também?
Então ele lembrou quanto os Ylesianos estavam lhe pagando. Han assentiu com
a cabeça.
– Aposto que deve ser impressionante.
À esquerda do piloto, havia um vasto campo de lama vermelha. Vários seres
da raça de Teroenza e Veratil se refestelavam em poços de lama, sendo
paparicados por droides e serviçais de espécies sortidas. Han reconheceu um par
de Rodianos, vários Gamorreanos e pelo menos um humano.
– Esses são os alagadiços – contou Veratil, acenando para os banhistas
enlameados e seus criados com a mão delicada. – Meu povo aprecia muito os
banhos de lama.
– E qual é seu povo? – perguntou Han. – Vocês são nativos de Ylesia?
– Não, na verdade somos nativos de Nal Hutta, ou pelo menos tão nativos
quanto nossos primos distantes, os Hutts – explicou Veratil. – Somos os T’landa
Til.
Han resolveu aprender a língua t’landa til o mais rápido possível. Era quase
sempre uma vantagem entender uma língua que os outros não sabiam que você
falava...
O sacredot e Han contornaram o Centro de Hospitalidade até o outro lado.
Os olhos do rapaz se arregalaram ao ver a enorme área aberta adiante. Derrubar
tanta selva assim deve ter dado um trabalhão. A área desflorestada era mais ou
menos retangular, com pelo menos um quilômetro em cada lado. As montanhas
agora estavam atrás e à esquerda e dava para ver, à extrema direita, o reluzir
azul-cinza da água.
– Lago? – perguntou.
– Não, aquele é Zoma Gawanga, o Oceano Ocidental – informou-lhe Veratil.
Han contou os enormes prédios que se erguiam diante dos alagadiços. Havia
nove deles. Cinco tinham três andares, os outros quatro eram térreos. Cada um
tinha facilmente o tamanho de um quarteirão em Corellia.
– Lares para os peregrinos? – perguntou Han, acenando para os prédios.
– Não, o dormitório para nossos peregrinos fica para lá – respondeu Veratil.
O sacerdote apontou um imenso prédio de dois andares no extremo esquerdo. –
Os prédios de vários andares são onde processamos ryll, andris e carsunum. Os
prédios de um andar que você vê se estendem profundamente no subterrâneo,
uma necessidade para a fabricação de brilhestim, que precisa acontecer em
absoluta escuridão.
Andris, ryll, carsunum e brilhestim... As narinas de Han se alargaram. É
claro, isso explica o odor! São usinas de processamento de especiarias! Ele
lembrou que a Sonho Ylesiano tinha levado uma carga de brilhestim de primeira
qualidade, o tipo mais caro e exótico de especiaria. Os outros eram geralmente
mais baratos, mas ainda assim eram uma das cargas mais lucrativas que um
contrabandista poderia transportar.
– Recebemos carregamentos de matéria-prima de mundos como Kessel,
Ryloth e Nal Hutta várias vezes por mês – continuou Veratil. – No começo, os
cargueiros-robô que nos supriam pousavam aqui em Colônia Um, mas essa
prática logo teve que ser descontinuada.
– Por quê? – indagou Han, perguntando-se se queria mesmo saber.
– Duas naves, muito lamentavelmente, não conseguiram lidar com nossa
atmosfera complicada e se acidentaram. Então construímos uma estação espacial
e decidimos usar pilotos vivos para trazer a matéria-prima de especiaria até as
fábricas. Tínhamos três pilotos, mas agora só resta um, e o pobre Sullustano que
está nos servindo de piloto anda... adoentado. Por isso precisamos de você,
piloto Draygo.
É tão bom ser necessário, pensou Han sarcasticamente.
– Hum... Veratil... o que aconteceu aos outros dois sujeitos?
– Um sofreu um acidente de espaçonave, o outro simplesmente...
desapareceu. Também perdemos um número determinado de naves-robô, o que
prejudicou muito gravemente nossa margem de lucro – contou Veratil,
entristecido. – Especiaria é um item de exportação muito rentável, mas naves
espaciais são muito caras.
– É mesmo – concordou Han azedamente. – Todos esses acidentes devem
atrapalhar os negócios. – Não é surpresa que eles não tenham uma fila de pilotos
querendo se candidatar, pensou o rapaz. A maioria dos pilotos experientes deve
ter espalhado como este planeta é perigoso...
Han sabia alguma coisa sobre os vários tipos de especiaria, em grande parte
por ter escutado Shrike e os outros contrabandistas conversando sobre suas
propriedades.
Brilhestim, extraído em Kessel, era de longe a mais valiosa. Quando exposta
à luz, depois ingerida rapidamente, dava ao usuário a habilidade telepática
temporária de sentir pensamentos e emoções superficiais. Espiões a usavam,
amantes a usavam, e o Império a usava para interrogar prisioneiros. Na verdade,
o Império reivindicava todo brilhestim extraído em Kessel como sua legítima
propriedade, o que explicava por que era tão raro e lucrativo de se
contrabandear.
Ryll vinha do mundo Twi’lek, Ryloth, onde era perfeitamente legal de se
minerar e era empregado para fins analgésicos. Mas também tinha usos ilegais e
podia ser usado para produzir vários intoxicantes e alucinógenos.
Carsunum era uma especiaria negra que vinha de Sevarcos e era bem rara e
muito valiosa. Usuários experimentavam euforia e um aumento nas habilidades;
enquanto o efeito durasse, eles ficavam mais fortes, mais rápidos e mais
inteligentes. Havia um lado negativo, é claro. Depois que o efeito passava, os
usuários frequentemente se tornavam apáticos, deprimidos e alguns até morriam
quando a substância era tóxica para seus metabolismos.
Sevarcos também supria a galáxia com andris, um pó branco que era
adicionado aos alimentos para melhorar o sabor e conservá-los. Alguns usuários
afirmavam que a droga causava uma leve euforia e aumento de sensações.
Eles não extraem aqui, pensou Han. Essas fábricas processam a matéria-
prima e a transformam no produto final.
– Fábricas? – ecoou Han. – Elas são enormes...
– Sim, e Ylesia conta com taxas de produção admiráveis, permitindo que
possamos competir favoravelmente com o custo da especiaria despachada
diretamente de Kessel, Ryloth ou Sevarcos – explicou Veratil. – E nós somos a
única instalação capaz de oferecer tanta variedade de especiarias. Compradores
frequentemente querem adquirir vários tipos diferentes de produto para seus
consumidores, coisa que nós suprimos.
Han viu vultos entrando e saindo das fábricas. Muitos humanos, alguns não
humanos. Reconheceu Twi’leks, Rodianos, Gamorreanos, Devaronianos,
Sullustanos... E havia outros que ele não conhecia. Todos os humanos e
alienígenas bípedes vestiam robes beges que iam até embaixo dos joelhos e
toucas beges que cobriam os cabelos.
Ele indicou as pessoas.
– Operários nas fábricas?
O sacredot hesitou, depois respondeu:
– São peregrinos que decidiram servir à Unidade, o Todo, em nossas
fábricas.
– Ah – murmurou Han. – Entendo.
Ele estava começando a entender as coisas agora, e a cada momento as
compreendia melhor. E tinha um mau pressentimento sobre o que estava vendo.
Aqueles peregrinos vieram para cá em busca de santuário religioso e acabam
trabalhando em fábricas de especiaria. Sinto cheiro de vrelt... vrelt morto.
O sol ylesiano já estava bem mais baixo no céu àquela altura, quase no
horizonte. Han percebeu que as multidões de trabalhadores de bege seguiam para
nordeste, em direção às montanhas. Veratil chamou Han com a mãozinha.
– É hora de os abençoados peregrinos comparecerem às devoções e serem
Exultados no Um, rendendo suas preces ao Todo. Vamos seguir a Trilha da
Unidade e alcançar o Altar das Promessas. Venha, piloto Draygo.
Han seguiu obediente o sacerdote por um caminho pavimentado bem gasto.
Apesar de estarem cercados por peregrinos, Han percebeu que ninguém se
aventurava a chegar perto deles. Todos os peregrinos se curvavam
profundamente para Veratil, com mãos cruzadas sobre o coração.
– Eles estão agradecendo pela Exultação que vão receber – explicou Veratil a
Han enquanto eles caminhavam.
Quando os dois se afastaram dos prédios, a selva em volta se fechou até que
o caminho ficou recoberto de galhos gigantes. Han se sentia caminhando dentro
de um túnel.
Eles passaram por uma grande área aberta que era com certeza algum tipo de
pântano, porque estava completamente coberta por imensas flores belas e
exóticas que Han nunca vira antes.
– As Planícies Floridas – disse Veratil, ainda desempenhando o papel de guia
de turismo. – E esta é a Floresta da Fé.
Han assentiu com a cabeça. Queria saber quanto mais disso eu consigo
aguentar, pensou. Tomara que não esperem que eu seja convertido, porque
pegaram o cara errado.
Depois de vinte minutos de caminhada, o grupo alcançou uma grande área
pavimentada que tinha uma parte coberta na frente, o telhado sustentado por três
imensos pilares. Han viu vários dos T’landa Til reunidos sob os pilares,
incluindo um que ele identificou, incerto, como sendo Teroenza. Estavam
distribuídos em volta de um altar baixo entalhado em pedra branca translúcida
que parecia brilhar com uma luz interior.
As montanhas altas de picos nevados formavam um pano de fundo
impressionante para a cena, assombrando sobre a selva. Han ergueu o olhar, e
ergueu, e ergueu... o topo dos picos mais altos estava escondido pelas nuvens,
manchadas de branco pelo pôr-do-sol. A neve no lado oeste das encostas
brilhava carmesim e rosada.
Impressionante, Han foi forçado a admitir. A simplicidade do anfiteatro
natural, com seu chão pavimentado e altar com pilares, o fazia parecer uma
imensa catedral natural.
Os fiéis se organizaram em fileiras e esperaram.
Han ficou no fundo, se remexendo impacientemente, esperando que qualquer
que fosse o serviço religioso prestes a acontecer não demorasse muito. Estava
com fome, a cabeça latejava e o calor o deixara sonolento.
O sumo sacerdote ergueu os bracinhos e entoou uma frase na sua língua
nativa. Os sacredots, incluindo Veratil, repetiram a fala. Então a multidão
reunida (Han calculou pelo menos 400 ou 500) ecoaram a frase do sumo
sacerdote. Han se inclinou para perto do peregrino mais próximo, um Twi’lek.
– O que eles estão dizendo?
– Disseram “o Um é Todo” – traduziu o Twi’lek, que falava muito bem a
língua básica. – Você gostaria que eu lhe servisse de intérprete durante a
cerimônia?
Já que Han estava determinado a aprender a língua dos T’landa Til,
concordou com a cabeça.
– Se você não se importar.
O sumo sacerdote entoou de novo. Han prestou atenção nas frases rituais
repetidas pelos sacredots, depois enunciadas em tom monótono pelos peregrinos
fiéis.
– O Todo é Um.
– Nós somos Um. Pertencemos ao Todo.
– Em serviço ao Todo, cada Um é Exultado.
– Nós nos sacrificamos para alcançar o Todo. Servimos o Um.
– Em trabalho e sacrifício somos Todos completados. Se cada Um tiver
trabalhado duro, somos Todos Exultados.
Han sufocou um bocejo. Aquilo era terrivelmente repetitivo.
Finalmente, depois de quase quinze minutos de ladainha, Teroenza e todos os
sacerdotes se adiantaram.
– Vocês trabalharam bem – declarou o sumo sacerdote. – Preparem-se para a
bênção da Exultação!
A multidão emitiu um som de antecipação tão ganancioso que Han ficou
espantado. Movendo-se numa grande onda, como se fossem realmente Um, se
jogaram no chão e ficaram lá deitados, com braços e pernas encolhidos sob o
corpo, numa atitude de esperança e desejo.
Todos os sacerdotes ergueram os braços. Han observou enquanto a papada
frouxa e enrugada que pendia da garganta de cada um se encheu com ar e
começou a pulsar. Um zumbido grave e latejante (ou seria uma vibração?)
preencheu a atmosfera gradualmente.
Os olhos de Han se arregalaram quando ele sentiu alguma coisa invadir seu
corpo e mente. Parte vibração, parte som? Ele não tinha certeza. Seria empatia,
telepatia, ou será que a vibração ativara alguma coisa em seu cérebro? Han não
poderia dizer. Sabia apenas que era forte ...
O efeito atropelou o rapaz numa imensa onda. Emoções calorosas, prazer
físico, era tudo isso e muito mais. Han cambaleou para trás, para fora do
permacreto, até ser detido pelo tronco de uma das árvores gigantes da floresta.
Segurou-se no tronco, com a cabeça girando. Cravou as unhas na casca, se
agarrando à árvore. As mãos contra a textura áspera pareciam ser a única coisa
evitando que ele fosse levado pela onda de emoções de proximidade e prazer
extático...
Han se agarrou à árvore fisicamente, e a si mesmo mentalmente, rejeitando
aquela maré que o sugava para as profundezas. Não sabia direito onde encontrou
força para tanto, mas lutou o máximo que pôde. Por toda sua vida, Han fora
quem ele decidira ser, senhor do próprio corpo e mente, e nada mudaria esse
fato. Ele era Han Solo e não precisava de alienígenas invadindo sua mente ou
seu corpo para fazê-lo sentir-se bem.
Não! , pensou ele. Sou um homem livre, não um peregrino qualquer, não a
sua marionete! Livre, ouviu?
Cerrando os dentes, Han enfrentou a invasão como teria lutado contra um
oponente físico, e então, tão de repente quanto tinha começado, a sensação
sumiu; ele estava livre.
Só que era claro que os peregrinos não estavam. Seus corpos se contorciam
na rocha, e gemidos abafados de felicidade e prazer se somavam numa
arrebentação suave.
Enojado, Han olhou os sacerdotes. Eles obviamente não eram afetados como
os peregrinos. Então é por isso que esses pobres otários ficam, depois que
descobrem que terão que trabalhar nas fábricas de especiarias, pensou Han,
sentindo uma onda de ressentimento amargo em nome dos peregrinos. Eles
ralam o dia inteiro, depois andam até aqui e recebem uma dose de vibrações
prazerosas que fazem até a melhor especiaria parecer fraca em comparação.
Han se perguntou se eles esperavam que ele frequentasse esses “cerimoniais
vespertinos” todas as noites e torceu para que não fosse o caso. Já tinha sido
muito difícil rechaçar aquela inundação de emoções e prazer daquela vez. Ele
temia que, se fosse exposto a ela diariamente, não teria a força, a determinação,
para rejeitar a “pílula de felicidade” dos sacerdotes Ylesianos.
Àquela altura, os peregrinos começavam a se levantar, alguns oscilando sem
firmeza. Todos tinham olhos vidrados, e muitos se pareciam com os viciados que
Han vira em antros de especiarias e oobalah em Corellia e outros mundos.
– Eles fazem isso todas as noites? – perguntou ele ao Twi’lek num sussurro.
Os olhos avermelhados do alienígena brilhavam de alegria.
– Ah, sim. Não foi maravilhoso?
– Fantástico – retrucou Han, mas o Twi’lek estava tão enlevado que não
percebeu o sarcasmo.
– E tem alguma vez que eles não realizam essas cerimônias? – indagou Han,
curioso.
– Só são canceladas se houver algum problema nas fábricas. Uma vez um
dos trabalhadores enlouqueceu e pegou um capataz de refém, depois exigiu
passagem para fora do planeta. A cerimônia do fim do dia e a Exultação foram
canceladas; foi horrível.
– E o que aconteceu ao trabalhador louco? – inquiriu Han, refletindo que o
“insano” parecia perfeitamente são para ele.
– Antes do amanhecer, nós conseguimos dominá-lo fisicamente e o
entregamos aos guardas – contou o Twi’lek.
É, aposto que sim, pensou Han. Eles não aguentariam ficar sem a dosezinha
da noite.
A cerimônia estava claramente encerrada.
Veratil se juntou a Han pela caminhada de volta ao complexo central. Han
estava sem ânimo para conversar e alegou o cansaço que realmente sentia. O
sacredot respondeu que entendia perfeitamente e levou o piloto corelliano de
volta à enfermaria.
– Você pode jantar e dormir aqui esta noite – disse o T’landa Til. – Amanhã
vamos levá-lo aos seus alojamentos permanentes no prédio da administração.
– Onde fica isso? – perguntou Han, fazendo uma pausa enquanto mastigava
um guisado reedox que estava um tanto insosso, mas enchia a barriga.
O sacredot apontou o bracinho mais ou menos para nordeste.
– Não dá para ver daqui, mas há uma trilha pelas árvores. Nós nos
encontramos lá em, digamos, seis horas-padrão? Isso lhe oferecerá sono
suficiente?
Han fez que sim com a cabeça. Sempre dava para tirar uma soneca mais
tarde.
– Tudo bem.
Depois que o sacerdote saiu, Han tirou suas roupas e botas e percebeu que
precisaria de alguma coisa limpa para vestir no dia seguinte, ou não estaria digno
de convívio social de alto nível. Considerou tomar um banho antes de dormir,
mas estava simplesmente cansado demais.
Han sempre fora capaz de se programar mentalmente para acordar na hora
que quisesse, então ele se ajustou mentalmente para se levantar dali cinco horas
e meia. Por fim, com a mente rodopiando com imagens e impressões, deitou-se
na estreita cama de enfermaria e adormeceu instantaneamente.

Levou alguns minutos na manhã seguinte até que Han se lembrasse


exatamente de quem era (Vykk Draygo, e não se esqueça disso! ) e o que estava
fazendo naquele lugar tão quente e grudento. Ele se aventurou no chuveiro e
ficou feliz em ver que a unidade de limpeza continha tudo o que era necessário
para um ser humano.
Cantarolou distraído enquanto se ensaboava, porém, quando levantou um pé
para lavá-lo, ficou paralisado de surpresa e desgosto. Um troço felpudo,
musguento e verde-azulado crescia entre seus dedos!
Alarmado, Han verificou o resto do corpo e encontrou tufos da coisa
brotando nos sovacos, na nuca e outros lugares ainda mais pessoais.
Praguejando, o rapaz esfregou forte para se livrar do fungo nojento, deixando
pele esfolada no lugar, e foi aí que notou que estava atrasado e saiu correndo do
chuveiro. Que tipo de lugar é este, afinal?
Ao voltar ao dormitório, encontrou o droide médico esperando por ele, com
um novo uniforme de piloto pendurado no braço. Segurava um pote de gosma
cinzenta na outra mão.
– Com licença, senhor – disse o droide. – Poderia lhe perguntar se o senhor
está sofrendo alguma... erupção de fungos na pele?
– Estou – rosnou Han. – O clima neste lugar é infernal. Ninguém merece
viver neste lamaçal.
– Entendo muito bem, senhor – respondeu o droide, soando genuinamente
solidário. – Poderia lhe oferecer o conteúdo deste pote? Vai prevenir infecções
fúngicas com aplicação regular.
– Obrigado – respondeu Han, e se retirou para tratar as áreas afetadas. O
troço fedia muito, mas aliviou a irritação. Por fim, vestiu o traje, admirando-se
em seu primeiro uniforme de piloto de verdade. Os distintivos coloridos eram
muito bacanas.
Han se recusou a se preocupar com os peregrinos que tinha visto na véspera.
Ninguém tinha obrigado os idiotas de mente fraca a vir ali, então ele não
perderia mais tempo imaginando o destino deles. Ia tomar conta de Han Solo,
ou, mais precisamente, de Vykk Draygo .
Além disso , disse Han a si mesmo, eu vou pilotar para esses Ylesianos. Terei
acesso a uma nave. Se eu decidir que não gosto mais daqui, posso simplesmente
pegar meus créditos e... sumir. O que eles podem fazer para me deter, afinal?
Sentindo-se por cima, Han sorriu para o reflexo no espelho e bateu uma
continência elegante para si mesmo.
– Cadete Han Solo se apresentando para o serviço, senhor! – sussurrou,
experimentando a frase. Seu sonho da Academia nunca parecera tão próximo,
tão atingível.
Quando Han saiu da enfermaria, a primeira pessoa que viu foi Teroenza. Deu
um aceno de cabeça agradável ao patrão.
– Bom dia, senhor!
O sumo sacerdote inclinou a imensa cabeça.
– E para você também, piloto Draygo. Permita-me apresentar-lhe alguém
com quem você passará muito tempo enquanto estiver trabalhando conosco. – O
sumo sacerdote chamou com um aceno, e Han ouviu uma pessoa atrás de si.
Girou e não conseguiu evitar dar um rápido passo para trás.
A primeira impressão foi de altura, a segunda foi de dentes afiados e garras
como facas. Este ser tinha quase 3 metros, mais alto até que um Wookiee. A
criatura tinha a boca cheia de presas como agulhas e garras que pareciam ser
capazes de rasgar hiperaço. Era peludo, mas vestia um par de calças curtas.
Tinha uma faca curva presa no cinto e uma pistola de raios num coldre atado à
perna. Músculos ágeis eram visíveis por toda parte.
O recém-chegado sorriu, mostrando ainda mais aqueles dentões.
– Ssaudaçõess... – disse ele, falando língua básica com um forte cecear.
– Este é Muuurgh – apresentou-o Teroenza. – Ele é um Togoriano, uma das
espécies sencientes mais honradas nesta galáxia. A reputação togoriana de
honestidade e lealdade não tem paralelo, você sabia?
Han contemplou o imenso ser e engoliu seco.
– Hum, não... – conseguiu dizer.
– Nós designamos Muuurgh como o seu... guarda-costas, piloto Draygo.
Neste planeta ou fora, Muuurgh o acompanhará por todos os lados... não é
mesmo, Muuurgh?
– Muuurgh deu palavra de honra – afirmou o Togoriano.
O sumo sacerdote cruzou os bracinhos diminutos diante do imenso corpo, e
sua boca se curvou naquele que parecia ser um sorriso zombeteiro.
– Muuurgh vai garantir com muita certeza, piloto Draygo, não importando
onde você estiver, ou o que faça... que você estará... seguro.
Han encarou a enorme criatura de pelagem negra, percebendo que seus
planos tinham sido definitivamente frustrados. O recado de Teroenza era
inconfundível: saia da linha, e Muuurgh vai rasgar você em dois. Han espiou o
Togoriano.
– Prazer em conhecê-lo, Muuurgh – disse ele. – Vai ser bom ter companhia
de verdade durante os longos voos.
– Ssim... – concordou o guarda-costas, se aproximando. Han percebeu
consternado que o topo de sua cabeça mal alcançava o peito do Togoriano. O
alienígena parecia tão felino que Han ficou surpreso que não tivesse uma cauda.
– Muuurgh gosta de viagem espacial... – afirmou o guarda-costas em língua
básica com forte sotaque e ceceio. O pelo do rosto era negro, mas as suíças e
pelagem do peito eram brancos. Os olhos eram de um azul-claro espantoso, com
pupilas verticais num verde brilhante. – Muuurgh vai muitoss espaçoportos,
quanto maiss, melhor.
Han tinha um pouco de dificuldade para entender a língua básica do
Togoriano, mas dava para se virar. O rapaz corelliano se perguntou quão
inteligente aquele ser era. Tenho que conhecê-lo bem , decidiu Han. Só porque
ele não fala língua básica muito bem, não quer dizer que ele seja burro. Só que,
se ele for...
Han sorriu.
– Decidimos lhe dar um dia para se acomodar, piloto Draygo – disse
Teroenza. – Mude-se para o alojamento que lhe foi designado, no prédio da
administração. Muuurgh vai lhe mostrar onde é. Então, amanhã, você começa a
transportar carga e passageiros entre as colônias. Quando o próximo
carregamento de especiaria for entregue à nossa estação espacial, você estará
pronto para buscá-lo. Depois de hoje, vou dar uma folga ao nosso outro piloto,
Jalus Nebl. Ele anda trabalhando demais.
Han concordou com um aceno de cabeça. Tenho que falar com esse
Sullustano e comparar impressões.
– Por mim, tudo bem. Será que eu poderia... dar uma olhada por aí? Gostaria
de conferir a disposição do terreno.
Teroenza inclinou a imensa cabeça.
– Certamente, desde que Muuurgh o acompanhe, e você siga todos os
regulamentos de segurança ao visitar as fábricas.
– Com certeza – concordou Han.
Teroenza se curvou de leve.
– Se você me dá licença, estamos esperando a chegada de uma remessa de
peregrinos vindos da nossa estação orbital agora de manhã. Tenho muito o que
fazer enquanto me preparo para recebê-los.
Han fez que sim com a cabeça, pensando em tudo que aguardava esses
peregrinos. Ele sabia que extrair especiaria era considerado perigoso e um
trabalho extremamente desagradável – de fato, ser mandado às minas de
especiarias de Kessel era uma punição comum para criminosos –, só que ele não
sabia quase nada sobre o que acontecia à especiaria depois que era minerada.
Bem, ele pretendia descobrir. Talvez houvesse algum jeito de tornar aquela
situação ainda mais vantajosa para ele. Não dava para saber o que iria
encontrar... e nunca era bom deixar perguntas sem respostas. Na experiência de
Han Solo, o conhecimento geralmente levava ao poder; ou, pelo menos, a uma
fuga mais rápida...
Muuurgh levou Han por uma trilha pavimentada pela selva, até que
alcançaram um grande prédio muito moderno.
– Centro administrativo – disse o Togoriano, apontando o prédio.
O “guarda-costas” então guiou Han a uma entrada lateral, depois por um
corredor até que alcançaram uma porta.
– Você, Muuurgh, dormem aqui – anunciou ele, abrindo a porta.
Dentro havia uma pequena suíte composta de quarto, unidade de limpeza e
uma saleta de estar. Han ficou feliz ao notar que Teroenza tinha prestado atenção
aos termos do contrato. Num dos cantos do quarto havia uma unidade de
simulação completamente equipada. Muuurgh foi até a porta do quarto e acenou
com a mão cheia de garras.
– Seu. Piloto dorme aqui.
– Mas e você, onde vai dormir? – indagou Han.
Como esperado, Muuurgh indicou a saleta de estar.
– Muuurgh aqui.
Ótimo, pensou Han. Esses sacerdotes não confiam em mim do mesmo jeito
que eu não confio neles. Com Muuurgh dormindo entre eu e a porta para o resto
do mundo, seria um risco muito grande tentar me esgueirar à noite.
Maravilhoso.
– Isso não me parece muito confortável – comentou Han, fazendo sua melhor
imitação de doce inocência. Por dentro, estava se perguntando se Muuurgh teria
sono pesado. – Talvez você devesse ter um quarto próprio, para que possa dormir
confortavelmente.
– Muuurgh mais confortável quando está mantendo palavra de honra –
retrucou o Togoriano. Han encarou o ser felino. Será que tinha visto um clarão
de humor naqueles olhos verdes-azuis com suas pupilas verticais? – Muuurgh
deu palavra de honra de vigiar Piloto sempre, então Muuurgh mais confortável
aqui .
Han concordou com um aceno de cabeça.
– Certo.
Espiou por um momento a pistola de raios no coldre do Togoriano.
– Eu tinha uma pistola quando cheguei aqui, mas não sei onde ela foi parar –
comentou. – Acho que preciso perguntar a alguém como recuperar minha arma.
– Piloto não precisa pistola. – Muuurgh flexionou os dedos e as garras
retráteis apareceram. – Sumo sacerdote diz Piloto não precisa pistola.
– Mas e se eu for atacado por algum tipo de... predador? – Han acenou para a
selva onipresente em volta do prédio. Provavelmente havia dúzias de predadores
que curtiriam caçar um forasteiro, por comida ou diversão.
O alienígena gigante balançou a cabeça peluda.
– Nunca vai acontecer. Piloto tem Muuurgh, que tem pistola.
– Hã... é verdade – admitiu Han. Mentalmente, fez uma anotação de pedir
algum tipo de arma a Teroenza. Sentia-se nu sem uma pistola, mesmo que só
tivesse andado com uma por dois dias.
– Então, Muuurgh, vamos explorar? – perguntou Han. – Não tenho nenhuma
bagagem para guardar, como você mesmo pode ver.
– Explorar onde? – indagou o Togoriano.
– Eu gostaria de um tour das fábricas – disse Han. – E deste centro
administrativo.
– Tudo bem – respondeu o Togoriano. – Vem, Piloto.
– Logo atrás de você – disse Han, adequando as ações às palavras.
Eles caminharam pelos corredores do centro administrativo, deram uma
olhada no refeitório, passearam pela ala dos guardas e espiaram os alojamentos
dos sacerdotes. Quando Han notou a existência de um arsenal, percebeu que os
sacerdotes Ylesianos provavelmente temiam uma revolta de peregrinos, pois a
relação de guardas por peregrinos era bem alta. O arsenal contava com um
monte de armamento pesado antitumulto – piques de força e gás atordoante. Os
guardas por quem eles passaram vinham de muitos mundos diferentes. Além de
humanos, Han viu Rodianos, Sullustanos, Twi’leks e os Gamorreanos porcinos.
– Então deixa eu ver se eu entendi bem – comentou ele com Muuurgh
enquanto eles contornavam uma área do centro administrativo identificada por
placas em várias línguas como sendo de ACESSO RESTRITO. – Os guardas todos
quase sempre dormem aqui? Mas por que eles não dormem perto dos
alojamentos de peregrinos se os sacerdotes estão tão preocupados em manter os
trabalhadores sob controle?
– Hora de dormir não é problema – explicou o Togoriano em sua língua
básica precária. – Depois que peregrinos Exultados, mal conseguem voltar
andando, vão dormir direto. Única hora que peregrinos bravos, bravos com
chefes, é antes Exultação.
Faz sentido, pensou Han sombriamente. Sacie a fissura dos viciados, e então
eles simplesmente vão dormir até o dia seguinte.
– Então as patrulhas de guar...
O piloto se interrompeu no meio da palavra ao ver de relance alguma coisa
grande e cinzenta deslizando bem longe no corredor da área restrita. Han
estreitou os olhos na penumbra.
– Ei... o que foi aquilo? – murmurou ele. – Parecia um... – Han parou de
falar quando a coisa virou uma esquina. Saiu atrás dela num passo apressado.
Muuurgh fez uma tentativa fútil de segurar o “protegido”, mas Han foi mais
rápido que o grandalhão e se esquivou. Correu pelo corredor “proibido”,
prestando muita atenção em possíveis sons de passos, mas não ouviu nada.
Quando alcançou a intercessão entre os corredores, Han se virou para olhar
aquele onde tinha vislumbrado movimento. Arregalou os olhos.
Ei, é um Hutt! O que um Hutt está fazendo aqui? Não havia como confundir
a identidade daquele vulto enorme de lesma que se reclinava no trenó repulsor.
No que ele hesitou, Muuurgh pulou em cima de Han, como se este fosse um
vrelt, e pegou o corelliano. Han sufocou um ganido de consternação quando o
Togoriano o meteu debaixo de um dos braços musculosos e correu de volta pelo
corredor, até que estavam de volta à seção de ACESSO IRRESTRITO do prédio.
Muuurgh colocou Han de volta no chão e flexionou uma das mãos debaixo
do nariz do corelliano.
– Meu povo ensina, todo mundo tem direito a um erro – disse o guarda-
costas. – Piloto acabou de ter o seu. Agora os erros acabaram, ou Muuurgh terá
que ensinar Piloto como filhotinho. Muuurgh deu palavra de honra, lembra.
Entendido?
Han espiou as garras que reluziam debaixo do seu nariz, afiadas e brilhantes
como navalhas.
– Hum... sim – ele conseguiu dizer. – Entendo, Muuurgh. É só que nós
humanos ficamos... curiosos, sabe?
– Curiosidade fatal às vezes – rosnou Muuurgh.
– Eu entendo seu ponto... de vista – Han disse secamente. – Ou melhor, suas
pontas .
Muuurgh contemplou as pontas aguçadas e brilhantes das garras, depois
retraiu o focinho, arreganhando as presas, e por fim soltou um miado baixo. Por
um momento, Han ficou paralisado, depois olhou para o Togoriano e percebeu
que aquela era a risada do alienígena. Evidentemente, Muuurgh havia pescado a
piada.
Han conseguiu dar uma risadinha fraca.
– Então, que tal a gente descolar um rango, depois dar uma olhada naquelas
fábricas, hein, meu chapa? – indagou ele.
– Muuurgh sempre com fome – concordou o Togoriano, saindo em direção
ao refeitório. – Que quer dizer essa palavra “chapa”?
– Ah, um chapa é um amigo, um camarada, sabe. Alguém com quem você
gosta de passar o tempo – explicou Han.
– Sssim... – disse o Togoriano, concordando com a cabeça. – Piloto quer
dizer “membro da alcateia”.
– Certo.
– Ótimo – concluiu o guarda-costas. – Muuurgh sente saudades dos membros
da alcateia dele.

Han lembrou que Teroenza tinha dito que seu povo vinha de Nal Hutta, o
planeta natal dos Hutts, mas não tinha percebido naquele momento que isso
significava que havia Hutts vivendo em Ylesia. Quando questionado, Muuurgh
confirmou que tinha visto vários dos “mestres-lesmas que se movem no ar”,
como ele os chamava.
Existe apenas um motivo para que os Hutts estejam aqui, pensou Han. Eles
são os verdadeiros mestres de Ylesia. Afinal, eles dominam o negócio de
contrabando de especiarias...
O almoço estava bom, mesmo que nada imaginativo e (para o gosto de Han)
um tanto insosso. Ainda assim, o ser responsável pela cozinha não era nenhum
amador. O pão ázimo era muito bom, pensou Han enquanto mastigava um
pedaço de pão alderaaniano. Percebeu de súbito, com uma pontada de dor, que já
fazia quase um dia que não pensava em Dewlanna. Isso o fez se sentir
vagamente desleal, mas então ele recuperou o autocontrole. Dewlanna não ia
querer que Han ficasse todo choroso e deprimido por causa dela. Sempre tinha
curtido a vida e não esperaria que Han agisse de forma diferente só porque ela se
fora...
Han voltou de seu devaneio e se deparou com Muuurgh o observando com
curiosidade.
– Piloto está pensando em alguém distante – comentou o Togoriano,
acenando com o osso que tinha acabado de roer. Ainda havia alguns pequenos
fragmentos de carne, mas Muuurgh tinha feito um trabalho impressionante,
pensou Han. Tinha que aproveitar cada pedacinho, pois era necessária muita
carne crua para sustentar aquele corpo imenso.
– É verdade – concordou Han com um suspiro. – Alguém tão distante quanto
se poderia estar.
– Piloto tem namoradinha?
Han balançou a cabeça.
– Bem, houve algumas garotas aqui e ali – admitiu –, mas ninguém especial.
Não, estava pensando na pessoa que mais ou menos me criou.
Muuurgh tomou um longo gole de alguma bebida espumante numa caneca.
– Humanos criam filhotes muito diferente do jeito do meu povo – afirmou.
– É mesmo? Me conte sobre seu mundo.
Muuurgh, obediente, se lançou numa descrição de Togoria, um mundo onde
machos e fêmeas eram iguais em direitos, mas não misturavam suas sociedades.
Machos viviam uma existência de caçadores nômades, sobrevoando as planícies
em seus enormes répteis alados de estimação, chamados mosgoths. Caçavam em
alcateias.
As fêmeas, por outro lado, tinham domesticado criaturas que abatiam pela
carne, então não precisavam caçar. Viviam em cidades e vilas, e foram as fêmeas
Togorianas que desenvolveram toda a tecnologia do planeta.
– Bem, se o seu povo não vive junto, como vocês... – Han buscou um termo
educado – hum, se reúnem, você sabe, para... hum... se reproduzir?
– Viajamos para cidade para ficar com parceira uma vez por ano – disse
Muuurgh. – Entretempos, pensamos muito um no outro. Togorianos povo muito
emocional, capaz de grande amor – acrescentou com sinceridade. –
Especialmente machos. Grande amor é motivo de Muuurgh estar aqui. Macho da
minha espécie raramente sai de nosso mundo, Piloto sabe disso?
– Agora sei – disse Han. – Então... Muuurgh... quando você diz que grande
amor fez você vir a Ylesia, o que quis dizer com isso? Você tem uma parceira?
O Togoriano fez que sim com a cabeça.
– Parceira prometida. Algum dia parceiros por vida toda, se Muuurgh
conseguir encontrar ela. – O imenso alienígena suspirou, parecendo tão infeliz
que Han sentiu pena dele.
– Qual é o nome dela?
– Mrrov. Bela, bela Mrrov. Como normal para fêmeas Togorianas, ela
decidiu ver grande galáxia. Muuurgh implorou para ela não ir, mas fêmeas muito
teimosas.
O alienígena olhou para Han, que concordou com um aceno de cabeça.
– É, eu também já passei por isso.
– Mrrov longe muito tempo, anos. Quando ela não voltou para casa para
união, Muuurgh tão triste que não pôde ficar em Togoria. Precisa descobrir o que
aconteceu com ela.
– Então... você descobriu? – Han tomou um gole da cerveja polaniana.
– Muuurgh rastreia ela. Alguém em Ord Matell diz que viu ela embarcar
nave em espaçoporto. Muuurgh confere horários, descobre que nave tem muitos
peregrinos. Vários portos de parada para nave. Muuurgh arrisca chance, vem
para cá porque tantos peregrinos vêm para cá. – O grande felinoide suspirou
forte e mordiscou um osso cheio de carne. – Chance não boa. Muuurgh pergunta,
sacerdotes diz nenhum Togoriano aqui. Muuurgh não sabe mais onde ir.
Muuurgh precisa créditos para continuar procurando... – O alienígena engoliu
uma última mordida, e seus bigodes se inclinaram para baixo.
– E aí você decidiu aceitar um emprego como guarda aqui, enquanto junta
dinheiro suficiente para seguir com sua busca – disse Han, deduzindo a
conclusão lógica da história.
– Sssim...
Han balançou a cabeça.
– Isso é muito triste, meu chapa. Espero que você encontre ela, de verdade. É
difícil perder alguém que você ama.
O guarda-costas concordou com a cabeça.
Depois do almoço, os dois desceram até as fábricas e passearam em volta dos
grandes prédios. Han farejou o ar, sentindo o cheiro misturado das diferentes
especiarias. O nariz dele formigou um pouco, e ele se perguntou se bastaria
sentir o odor da especiaria para ficar intoxicado. Acenou para o prédio de
brilhestim.
– Vamos entrar. Ouvi falar sobre como eles processam esta especiaria e
queria ver em pessoa.
Quando eles entraram no prédio cavernoso, um guarda os deteve e falou com
Muuurgh, que explicou quem era Han. O Rodiano de guarda lhes entregou
crachás e óculos infravermelhos, depois acenou para que entrassem.
– Óculos? – indagou Han em rodiano. Entendia a linguagem perfeitamente,
mas sua pronúncia era um pouco penosa. – Nós temos que usá-los?
Os olhos roxos do guarda faiscaram ao ouvir um humano falando sua língua.
– Sim, piloto Draygo – respondeu. – Abaixo do térreo não há nenhuma luz
visível. Você desce no turboelevador. Cada andar para baixo representa uma
melhoria de um grau na qualidade da especiaria. As fibras melhores e mais
longas são processadas bem no subterrâneo, para eliminar qualquer possibilidade
de serem estragadas pela luz.
– Certo – disse Han, chamando Muuurgh. Os dois andaram entre prateleiras
de suprimentos até alcançar a plataforma do turboelevador no centro da
instalação. – Vamos até o nível mais fundo e ver o bagulho realmente bom –
sugeriu ao Togoriano. Para si mesmo, Han se perguntava se conseguiria
surrupiar alguns daqueles frasquinhos negros. Vender um pouco de brilhestim
paralelamente numa cidade portuária engordaria rapidamente sua reserva de
créditos...
Han apertou o botão do andar mais baixo, e a plataforma, balançando um
pouco, começou a descer.
Ar fresco subia das profundezas enquanto o turboelevador se deslocava nas
trevas absolutas. A corrente de ar era deliciosa depois do calor úmido da selva
ylesiana.
Depois de um andar, toda luz se foi. Han remexeu nos óculos e os colocou
sobre os olhos. Imediatamente voltou a ver, apesar de tudo estar em tons de preto
e branco. A iluminação vinha de pontos embutidos nas paredes. O turboelevador
continuou descendo, e Han viu os trabalhadores curvados sobre suas estações de
trabalho. Havia pilhas de filamentos crus cravejados de minúsculos cristais
diante de cada um deles.
Finalmente, depois de seis andares, o turboelevador parou. Han e Muuurgh
saltaram.
– Você já esteve aqui antes? – perguntou ao guarda-costas em voz baixa. O
pelo do cangote de Muuurgh estava arrepiado, e os bigodes brancos se eriçavam
abaixo dos óculos.
– Não... – sussurrou de volta o Togoriano. – Meu povo vive em planícies.
Não gosta cavernas. Não gosta escuro. Muuurgh vai ficar feliz quando Piloto
quer sair deste lugar. Só palavra de honra de Muuurgh segura ele aqui no escuro
maldito.
– Calma – respondeu Han. – Não vamos ficar aqui tanto tempo. Só quero dar
uma olhada.
Ele saiu na frente fábrica adentro. A área cavernosa estava cheia de um
farfalhar suave, mas não havia nenhum outro ruído. Longas mesas estavam
encostadas ao longo das paredes e distribuídas em colunas nos corredores. Cada
mesa era uma estação de trabalho, e um trabalhador ficava sentado ou acocorado
diante dela, de acordo com sua anatomia individual. Havia muitos humanos, Han
percebeu, sentados em altos bancos e encurvados sobre o trabalho.
Poucos ergueram o olhar quando Han e Muuurgh foram até a supervisora do
andar, uma peluda Devaroniana, e se identificaram. A supervisora indicou o
andar com um gesto da mão vermelha com unhas afiadas.
– Meus trabalhadores são os mais habilidosos – declarou ela, orgulhosa. – É
preciso muita perícia para medir e cortar o número certo de filamentos fibrosos
para que cada dose contenha a quantidade certa de especiaria. É essencial, e
muito difícil, alinhar as fibras tão precisamente de forma que sejam ativadas ao
mesmo tempo quando expostas à luz visível.
– Essa substância é um mineral? – perguntou Han. – Sei que é minerada.
– Ocorre naturalmente, mas não sabemos como é formada, Piloto.
Acreditamos que tenha uma origem biológica, mas não temos certeza. É
encontrada bem nas profundezas dos túneis em Kessel e precisa ser extraída em
escuridão absoluta, tal qual você vê aqui.
– E os filamentos precisam ser colocados nesses recipientes do jeito certo.
– Isso mesmo. O alinhamento incorreto pode fazer os pequenos cristais se
fraturarem uns contra os outros. Se isso acontecer, eles moem uns aos outros
num pó muito menos potente e valioso. Um trabalhador habilidoso leva uma
hora para alinhar adequadamente só um ou dois cilindros de brilhestim.
– Faz sentido – disse Han, fascinado. – Você se importaria se eu desse uma
olhada por aí? Prometo que não vou mexer em nada.
– Pode dar uma volta, sim. Porém, por favor, evite distrair os trabalhadores
enquanto eles estiverem alinhando a especiaria. Um giro acidental, como eu
disse, poderia arruinar um filamento inteiro.
– Entendi – disse Han.
Os filamentos de brilhestim cru eram todos negros, mas Han tinha ouvido
falar que brilhariam azuis quando ativados com luz visível. Han parou atrás de
um dos trabalhadores humanos e assistiu com fascinação enquanto ele separava
os filamentos de especiaria cor de ébano, alinhando-os com cuidado absoluto. Os
filamentos se enrolavam nos dedos do trabalhador, alguns deles tão delicados
quanto seda, mas os pequenos cristais os deixavam muito afiados.
O trabalhador posicionou um grupo de filamentos incrivelmente
emaranhados nas mandíbulas de um pequeno torno, depois passou a separá-los
meticulosamente, até que as estruturas cristalinas ficaram alinhadas. Os dedos do
trabalhador se moviam quase rápido demais para se ver, e Han percebeu que
estava assistindo a um artesão... não, artesã , incrivelmente habilidosa. Ele ficou
espantado que os peregrinos conseguissem realizar alguma coisa que exigisse
tanta destreza assim. Depois de vê-los na noite passada, depois da “Exultação”,
tinha mais ou menos presumido que se tratava de cretinos mentalmente
limitados. Certamente pareciam sê-lo...
A operária de brilhestim pegou um minúsculo alicate para desembaraçar um
emaranhado particularmente ruim. Ela enfiou as pontas finas da ferramenta no
meio da maçaroca, espiando intensamente para localizar o ponto em que os
pequenos cristais se prenderam uns nos outros. O brilhestim fibroso se enrolava
nas mãos dela como pequenos tentáculos vivos, com cristais cintilantes. A artesã
de repente trouxe a mão para trás, puxando, e num instante o emaranhado se
endireitou até que todas as fibras se alinharam perfeitamente.
Exceto uma.
Han observou angustiado quando um filamento cravejado de cristais afiados
cortou a carne entre o indicador e o polegar da mulher. Uma linha fina de sangue
emergiu do corte profundo. Han prendeu a respiração. Mais alguns milímetros de
profundidade, e o tendão do polegar teria sido rompido. Ela sibilou de dor,
murmurou alguma coisa em língua básica e, soltando a mão, ergueu-a para parar
o sangramento. Han ficou paralisado ao ouvir o sotaque. Essa peregrina era
corelliana!
Ele nem tinha olhado para ela antes, escondida como estava pelo manto bege
sem forma, com o chapéu bem puxado sobre a cabeça e os óculos. Só que agora
o rapaz notou que ela era jovem, não velha. A mulher fez uma careta de leve ao
examinar o corte. Virou a mão, girou no banco e apoiou a mão sobre o piso, para
que o sangue não pingasse na mesa de trabalho.
Han sabia que não deveria falar com a peregrina, mas ela não estava
trabalhando no momento, e ele estava preocupado. Ela sangrava profusamente.
– Você está ferida – afirmou ele. – Deixe-me chamar a supervisora para que
ela possa ajudar você.
A garota (que tinha a idade dele, talvez menos) levou um leve susto, depois o
encarou. Seu rosto era um borrão branco esverdeado sob os óculos e o chapéu, e
parecia mortalmente pálida sob a luz infravermelha. Não é de se estranhar,
pensou Han, trancafiada aqui embaixo o dia inteiro, sem exposição à luz do sol.
– Não, por favor, não – respondeu ela, falando língua básica com um sotaque
suave que a marcava como sendo do continente meridional de Corellia. – Se ela
me mandar para a enfermaria, eu vou perder a Exultação. – A moça estremeceu
com o pensamento, ou talvez de frio. O próprio Han tinha começado a se sentir
meio friorento, e não estava lá embaixo há horas. Como aqueles peregrinos
aguentavam trabalhar ali embaixo na escuridão gélida o dia todo?
– Mas esse corte está com uma cara horrível – protestou Han.
A peregrina deu de ombros.
– Já está parando de sangrar.
Han percebeu que era verdade.
– Mas e quanto a...
Ela balançou a cabeça, interrompendo o rapaz no meio da frase.
– Agradeço sua preocupação, mas não foi nada. Acontece toda hora. – Com
um sorriso irônico, ela estendeu as mãos. Os dedos, pulsos e antebraços estavam
completamente riscados com pequenos cortes. Alguns eram antigos, brancos e já
tinham sarado, mas muitos estavam roxos, ainda recentes e dolorosos.
Han viu pequenos pontos fosforescentes entre os dedos dela e percebeu que
deveriam ser o fungo que ele tinha descoberto em si mesmo aquela manhã.
Enquanto ele observava, um filete luminescente se estendeu de repente,
crescendo na direção do corte entre os dedos. Ela exclamou baixinho e arrancou
a coisa.
– O fungo adora sangue fresco – comentou ela, evidentemente notando o
nojo dele. – Pode infeccionar um corte e deixar você doente muito fácil.
– Coisa asquerosa – disse ele. – Tem certeza que não precisa cuidar disso?
Ela balançou a cabeça.
– Como você pode ver, acontece o tempo todo. Com licença, mas... você é
corelliano, não é?
– Que nem você – respondeu Han. – Eu sou Vykk Draygo, o novo piloto. E
você é?
A moça apertou os lábios.
– Eu... não deveria estar conversando. Melhor voltar ao trabalho.
Muuurgh, que tinha ficado observando em silêncio, falou de repente:
– Trabalhadora certa. Piloto tem que deixar trabalhadora voltar a trabalho
agora.
– Certo, meu chapa, entendi – respondeu Han ao Togoriano, mas depois
acrescentou para a corelliana: – Talvez a gente possa conversar outra hora. No
jantar, talvez.
Ela balançou a cabeça silenciosamente e voltou ao trabalho.
Muuurgh sinalizou para que Han seguisse adiante.
O rapaz deu um passo, mas continuou falando.
– Certo, mas... nunca se sabe. A gente com certeza vai se esbarrar de novo,
este lugar não é tão grande assim. Então... qual é o seu nome?
Ela balançou a cabeça de novo, sem falar. Muuurgh soltou um rosnado
gutural bem grave, mas Han continuou ali, teimoso.
A mulher parecia perturbada pela ameaça implícita de Muuurgh. Enquanto
amarrava uma bandagem no corte, respondeu:
– Abandonamos nossos nomes quando desistimos de todas as coisas
mundanas pelo santuário de Ylesia.
Han se sentia cada vez mais frustrado. Ali estava alguém que conhecia este
lugar intimamente, e ela era a primeira pessoa do seu mundo natal que ele
descobria neste planeta.
– Por favor – insistiu ele enquanto Muuurgh o empurrava de leve. – Deve ter
algum jeito que eles usam para se referir a você. – Han abriu seu sorriso mais
charmoso. Muuurgh rosnou de novo, mais alto, e mostrou as presas.
Os olhos da mulher se arregalaram com a exibição de dentes.
– Sou Peregrina 921 – respondeu ela apressadamente. Han ficou com a
impressão de que ela falou para salvá-lo da ira de Muuurgh.
Muuurgh agarrou o braço de Han e começou a se afastar, arrastando o
corelliano sem esforço.
– Obrigado, Peregrina 921 – exclamou Han para ela, acenando
animadamente, como se ser arrastado pelo Togoriano fosse uma ocorrência
corriqueira. – Boa sorte com essas fibras. A gente se vê.
Ela não respondeu. Quando Muuurgh enfim o soltou, no fim do corredor,
Han seguiu o guarda-costas obedientemente, meio que esperando uma bronca do
ser gigante. Mas Muuurgh parecia satisfeito que Han o estivesse obedecendo e
retornou ao silêncio atento.
Han olhou de volta e percebeu que a corelliana estava mais uma vez
concentrada no trabalho, como se já o tivesse esquecido.
Peregrina 921 , pensou ele. Eu me pergunto se seria mesmo capaz de
reconhecê-la... Considerando os óculos, o chapéu e a visão prejudicada dele,
Han não fazia ideia de qual seria a aparência da mulher; sabia apenas que era
jovem.
Han perambulou por toda a instalação, observando vários outros
trabalhadores que alinhavam filamentos e cristais para que ficassem
perfeitamente simétricos. Não tentou falar com nenhum deles. Finalmente,
voltou à supervisora Devaroniana.
– Então, quando eles terminam o trabalho aqui, quem é que coloca os
filamentos e cristais nos frascos? – indagou.
– Isso é feito no quinto andar – explicou a supervisora.
– Acho que vou dar um pulo lá – comentou Han. – Isto é muito fascinante,
sabia?
– Certamente.
Certo, então eles terminam o processamento do bagulho realmente bom aqui
em cima , pensou Han enquanto ele e Muuurgh subiam pelas trevas. O Togoriano
soltou um uivinho de protesto quando Han levou o elevador só um andar acima.
– Fica frio, Muuurgh – disse ele. – Só quero dar uma olhadinha rápida por
aqui.
O rapaz vagueou pelos corredores, tentando descobrir discretamente o lugar
onde o brilhestim de alta qualidade era embalado nos pequenos frascos negros
que qualquer usuário da substância reconheceria. Quando chegou lá, porém, seu
estômago gelou. Quatro guardas armados estavam ao lado da esteira
transportadora, vigiando os pequenos frascos enquanto os trabalhadores traziam
cestas cheias e as despejavam. Han sentiu uma corrente de ar, percebendo que
havia uma pequena unidade aquecedora ali, afastando a friagem, evidentemente
para o conforto dos guardas.
Quatro guardas? Han espiou mais atentamente a penumbra. Não, espera um
segundo . Viu um borrão de movimento, mas não conseguiu discernir nada por
um longo instante. Depois, no que focalizou os olhos, distinguiu lentamente um
negrume oleoso e granulado, mal visível no meio de tanta treva. Só que havia
olhos no meio da escuridão, olhinhos vermelho-alaranjados. Quatro deles. Han
estreitou os dele, ficou imóvel, forçando a visão. Então notou duas pistolas, cada
uma atada a uma perna negra verruguenta.
Aar’aa! Percebeu. Camaleões!
Os Aar’aa eram uma espécie do outro lado da galáxia. Habitantes de Aar
eram capazes de mudar de cor gradualmente para igualar-se à cor do que
houvesse atrás deles. Essa habilidade os deixava muito difíceis de ver,
especialmente nas trevas.
Han tinha ouvido falar nos Aar’aa antes, mas nunca esbarrara num deles até
agora. Eram criaturas reptilianas, o que explicava por que aquela seção da
fábrica subterrânea era aquecida. Muitos répteis ficavam lentos e abobados no
frio.
Han espiou a penumbra e lenta e gradualmente percebeu os contornos dos
dois guardas Aar’aa. Tinham uma pele de textura pedregosa, mãos e pés com
garras e uma pequena crista de pele correndo pelas costas. As cabeças eram
grandes, com arcadas supraorbitárias salientes, sob as quais os olhos pareciam
duplamente pequenos. As caras tinham focinhos curtos e, quando uma das
criaturas abriu a boca, Han vislumbrou uma língua vermelha grudenta e dentes
brancos afiados. Uma crista ereta de pele começava entre os olhos, subia pelo
alto da cabeça até descer para a nuca e se conectava com a crista das costas.
Apesar da aparência desajeitada, pareciam ser bem ágeis. Han decidiu que
não queria se meter com eles. Apesar de serem mais baixos que o rapaz, tinham
ombros largos e certamente eram mais pesados que ele por uma vasta margem.
Han suspirou. Esqueça o Plano A.
Além dos Aar’aa, os outros guardas -– dois Rodianos, um Devaroniano e um
Twi’lek – pareciam durões e obviamente levavam o serviço a sério. Não eram
Gamorreanos, então não havia muita chance de desnorteá-los, confundi-los,
distraí-los ou, de alguma forma, enrolar algum deles para lhe entregar uma
fortuna em especiaria. Han fez uma careta e partiu com Muuurgh de volta ao
turboelevador. E não há Plano B, pensou ele soturno. Acho que terei que faturar
meus créditos do jeito honesto.
Nem ocorreu ao rapaz que transportar especiaria pela galáxia já seria, em si,
altamente ilegal.

A Peregrina 921 mordiscou um bolo de grãos amanhecido e tentou esquecer


o jovem corelliano que tinha visto mais cedo. Ela era uma peregrina, afinal, parte
do Todo, uma com o Um, e preocupações mundanas como rapazes bonitões
tinham ficado definitivamente para trás. Ela estava ali para trabalhar, de modo a
ser Exultada e oferecer suas preces pela bênção do Um como parte do Todo; e
conversas com rapazes chamados Vykk não faziam parte disso.
Ainda assim, ela se perguntava como ele seria debaixo daqueles óculos. Qual
era a cor dos cabelos? Dos olhos? Aquele sorriso tinha feito um calor brotar
dentro dela, apesar do frio...
Balançando a cabeça, a Peregrina 921 (Que saudade do meu nome! ) tentou
exorcizar a memória do sorriso torto, de parar o coração, de Vykk Draygo. Ela
precisava rezar, oferecer a devoção apropriada. Tinha que se redimir por ter se
separado do Um, para não ser expulsa do Todo.
Ainda assim, aqueles pensamentos sacrílegos continuavam se intrometendo.
Pensamentos... memórias, também. Ele era corelliano... assim como ela.
A Peregrina 921 pensou no seu planeta natal e, por um mero instante, se
permitiu lembrar-se dele, lembrar-se da família. Os pais dela ainda estariam
vivos? O irmão?
Há quanto tempo ela já estava ali? 921 tentou recordar, mas os dias ali eram
todos iguais... trabalho, alguns bocados de comida insossa, Exultação e preces,
depois sono exausto. Um dia fluía no outro, e Ylesia quase não tinha estações...
Por um momento, ela se perguntou há quanto tempo estava lá. Meses? Anos?
Quantos anos ela tinha? Será que teria rugas? Cabelos grisalhos?
As mãos cheias de cicatrizes de 921 voaram até a testa, as faces. Ossos sob
carne, ossos proeminentes. Muito mais do que jamais foram antes.
Mas nada de rugas. Ela não era velha. Poderia estar lá há meses, mas não
anos.
Que idade ela tinha quando ouviu falar em Ylesia e vendeu todas as joias
para comprar passagem numa nave de peregrinos? Dezessete... ela tinha
encerrado seus estudos pré-universitários e estivera ansiosa para deixar seu
mundo e frequentar a universidade em Coruscant. Ela ia estudar... arqueologia.
Com ênfase em arte antiga. Sim, era isso. Ela ia até passar uns dois verões
trabalhando numa escavação, aprendendo a preservar tesouros ancestrais.
Ela queria se tornar curadora de museu.
Desde criança, história sempre fora sua matéria favorita. Ela adorava
aprender sobre os cavaleiros Jedi e ficava fascinada com suas aventuras. Tinha
crescido no período pós-Guerras Clônicas, e o conflito a interessava também. E
o nascimento da República, há tantos e tantos anos...
921 suspirou enquanto engolia mais uma mordida do bolo farelento. Às
vezes ela se incomodava que suas memórias estivessem se esvaindo, que sua
inteligência parecesse estar se esvaindo, junto com sua habilidade de perceber o
mundo exterior. Ela sabia que, como peregrina, era seu dever expulsar de sua
mente e corpo a apreciação dos prazeres carnais.
Nos velhos tempos, prazer e diversão tinham sido o foco de sua vida.
Naqueles dias, sua vida tivera pouco propósito, comparado com agora. Nos
velhos tempos, ela vagueava de lugar em lugar, assunto em assunto, festa em
festa...
E tudo fora tão sem sentido .
A vida agora tinha sentido . Agora ela era Exultada. Todas as noites, o Um
conferia sua bênção sobre ela, por meio dos sacerdotes. Exultação era a forma
como o Todo se comunicava com os peregrinos. Era uma experiência
profundamente espiritual – e era tão gostosa ...
921 pensou que tinha conseguido com sucesso apagar da mente toda
lembrança de Vykk Draygo e de seu sorriso, então voltou a trabalhar na pilha de
brilhestim – só para perceber, minutos mais tarde, que estava se perguntando se
o rapaz realmente procuraria por ela, tentaria falar com ela de novo...
921 sentiu um calafrio naquela eterna friagem úmida e fez um grande esforço
para esquecer Vykk Draygo e tudo o que ele representava...

Naquela noite, Han faltou à cerimônia para poder passar tempo com vários
dos simuladores. Era sua primeira oportunidade de ganhar a vida
“honestamente” e não queria estragar tudo. Han sabia que os cidadãos
reclamavam sobre como trabalhavam duro e concluiu que isso seria essencial
para o sucesso. Era verdade que mendigar, bater carteiras, roubar casas e aplicar
golpes em cidadãos muitas vezes exigia muito tempo e esforço, mas Han sabia,
de alguma forma, que simplesmente não era comparável.
Ele foi até o console de simulação no quarto e verificou o conteúdo do
sistema, os programas que estavam disponíveis para ele. Teroenza tinha
cumprido a promessa, e os simuladores estavam lá. Han viu quais eram as
opções, escolheu os simuladores que queria praticar e ordenou ao sistema que
preparasse várias sequências. Tomou o cuidado de especificar que “turbulência
atmosférica” fosse incluída em cada exercício de treinamento.
Olhou para Muuurgh, que estava ali parado, observando.
– Vou ficar trabalhando um tempo – anunciou. – Por que você não tira um
tempo para descansar?
Muuurgh balançou a cabeça devagar.
– Muuurgh não deixa piloto sozinho. Contra ordens.
– Tudo bem. – Han deu de ombros. – Você que sabe.
Muuurgh observou nervoso enquanto Han vestiu o visicapuz, cortando
qualquer contato com o mundo real ao seu redor e mergulhando num voo de
treino que parecia exatamente a coisa real. Tecnologia deixava o Togoriano
desconfortável.
Han se deixou afundar no simulador e, em questão de minutos, o programa
tinha alcançado um de seus objetivos primários – ele tinha esquecido
completamente que estava num simulador. Estava convencido de que realmente
pilotava – que realmente traçava uma rota em meio a campos de asteroides em
alta velocidade, que realmente navegava na atmosfera ylesiana, que realmente
aterrissava a nave sob toda sorte de condições adversas.
O corelliano emergiu do simulador duas horas depois, tendo obtido sucesso
em pousos, voos, decolagens e executado todas as variações de manobras
possíveis para a nave auxiliar que pilotaria até Colônia Dois e Colônia Três no
dia seguinte. Tinha também revisto os controles das naves de transporte que
comandaria – a Sonho Ylesiano estava sendo convertida para pilotagem manual
– além dos controles do iate particular de Teroenza.
Àquela altura, o curto dia ylesiano já tinha se esvaído há muito. Muuurgh
estava cochilando na cadeira, mas acordou instantaneamente assim que Han se
espreguiçou. Han espiou o Togoriano, lamentando o fato de o alienígena ser tão
alerta. Seria muito difícil partir nas expedições furtivas noturnas que ele tinha
em mente...

Muuurgh caminhava atrás do piloto, feliz que seu fardo tivesse sugerido uma
visita ao refeitório para uma ceia tardia. O Togoriano estava sempre faminto. Seu
povo estava acostumado a caçar e matar, depois compartilhar da presa, então
carne fresca era uma parte constante da dieta deles. Aqui, ele tinha que se virar
com carne cura descongelada.
Antes de o Piloto aparecer na sua vida, ele tinha a liberdade ocasional de
entrar na selva e caçar, para manter as garras – e as habilidades – afiadas.
Sentia falta da sua mosgoth, de voar pelo ar montado nela, de sentir os
poderosos músculos das asas propelindo-o pelos céus de Togoria.
Muuurgh suspirou. Os céus de Togoria eram de um azul-esverdeado vívido,
muito diferente deste azul-acinzentado desbotado do céu em Ylesia. Sentia falta
disso. Será que um dia os veria de novo, algum dia voaria em sua mosgoth rumo
a um ocaso carmesim naqueles céus tão vívidos?
Os sacerdotes tinham feito o Togoriano assinar um contrato de seis meses
pelos seus serviços de guarda. Ele tinha dado a palavra de honra de que
cumpriria o contrato. Se passariam muitas dezenas de dias antes que pudesse
voltar à sua busca por Mrrov.
Muuurgh a visualizou em sua mente, o pelo cor de creme, as listras
alaranjadas, os olhos amarelos inteligentes. Linda Mrrov. Ela tinha sido parte da
vida dele por tanto tempo que não saber seu paradeiro era como uma ferida
aberta no coração. Será que ela teria voltado a Togoria? Estaria ela de volta ao
mundo dos dois, esperando por Muuurgh?
Muuurgh desejou poder mandar uma mensagem ao seu mundo natal,
perguntar se Mrrov tinha voltado, mas mensagens enviadas por distâncias
interestelares eram muito caras, e uma delas acrescentaria quase dois meses ao
seu tempo aqui em Ylesia.
Ainda assim... Muuurgh considerou, depois pensou que talvez numa das
entregas de especiarias a Nal Hutta, Piloto não se incomodaria se Muuurgh
mandasse uma mensagem. O Togoriano não tinha confiança suficiente nos
sacerdotes Ylesianos para mandar uma mensagem deste mundo.
Piloto parecia ser um camarada decente, para um humano, ruminou
Muuurgh. Ardiloso, rápido, sempre procurando por um jeito de contornar as
coisas, mas humanos eram frequentemente assim. Pelo menos Piloto tinha
aceitado a dominância de Muuurgh como líder de alcateia. Foi esperto da parte
dele. Viveria muito mais tempo assim...
Muuurgh realmente torcia para que Piloto continuasse sendo esperto. Ele
gostava do humano e não queria ser obrigado a machucá-lo.
Só que, se Piloto tentasse quebrar as regras, Muuurgh não hesitaria em
machucar – ou mesmo matar – o corelliano. Teroenza tinha dado a Muuurgh
ordens específicas, e o Togoriano as cumpriria da melhor maneira possível.
Tinha dado a palavra de honra, e isso era a coisa mais importante do mundo para
seu povo.
O Togoriano distraidamente penteou os bigodes e o pelo do rosto, refletindo
que, desde que Piloto não saísse da linha, tudo ia ficar bem...
No dia seguinte Han levou a nave auxiliar ylesiana a Colônia Dois e Colônia
Três. Descobriu que gostava muito de comandar naves maiores, e sua pilotagem
era perfeita. Conseguiu descolar alguns minutos extras no trajeto de volta a
Colônia Um para praticar voo em baixa altitude, dando um rasante tão baixo
com o transporte que a barriga quase raspou nas copas das árvores da selva. Ao
lado dele, Muuurgh alternava entre a euforia e o terror enquanto vivenciava
rasantes, tonneaus e até voar de cabeça para baixo em alta velocidade. Han
estava em seu elemento, executando manobras com a nave auxiliar que só tinha
feito antes em simulador. O corelliano percebeu que gritava alegre e empolgado
com a pura emoção daquilo tudo.
Como seu último e melhor feito de voo de precisão, Han mergulhou com a
nave a toda velocidade e correu por um cânion escavado por um rio, zunindo
entre as paredes rochosas com tão pouco espaço de sobra que Muuurgh uivou,
fechou os olhos e se recusou a abri-los. Uma vez que eles estavam de volta a céu
aberto, Han teve que chacoalhar o braço do Togoriano e assegurar repetidamente
ao grande alienígena que ele tinha terminado a prática daquele dia.
– Muuurgh certo de que Piloto é louco – afirmou o Togoriano, abrindo
cuidadosamente os olhos e se endireitando no assento. – Muuurgh voa na sua
mosgoth em casa, mas não desse jeito . Mosgoths sensatos demais para voar
assim . Muuurgh sensato também. Piloto – o Togoriano lançou um olhar
queixoso –, prometa a Muuurgh que não vai mais voar maluco.
– Mas, Muuurgh – retrucou Han, pousando cuidadosamente no campo de
aterrissagem em Colônia Um –, eu tenho que treinar sempre que tiver uma
chance! Veja bem... – Ele hesitou, depois decidiu confiar parte da verdade a
Muuurgh. – Eu meio que exagerei um pouquinho os fatos quando contei da
minha experiência de voo a Teroenza. Realmente sou um piloto campeão, isso é
verdade, mas... eu preciso praticar com esta nave auxiliar. E com as naves
maiores. Simuladores são legais, mas não se comparam à experiência real.
Muuurgh encarou Han longa e diretamente, depois concordou com um aceno
de cabeça.
– Muuurgh compreende. Piloto confia em Muuurgh para não dizer isso a
Teroenza?
– É, alguma coisa do tipo – admitiu Han. – Então, eu posso? Quero dizer,
confiar em você?
O Togoriano tratou pensativo dos bigodes brancos.
– Enquanto Piloto não bater com nave, Muuurgh não fala nada.
– Muito justo, meu chapa – respondeu Han com um sorriso.
Quando ele e Muuurgh desceram pela rampa da nave, Veratil os aguardava
na chuva torrencial. Àquela altura, Han já estava acostumado com os temporais
diários, apesar de o calor úmido ainda o deixar exausto.
– O sumo sacerdote deseja vê-lo imediatamente, piloto Draygo – informou-o
Veratil.
O sacredot levou Han e seu guarda-costas aos aposentos pessoais do sumo
sacerdote, que ocupavam uma grande porção do nível subterrâneo do centro
administrativo. Depois que Veratil digitou o código de autorização de segurança
e eles entraram pelas imensas portas duplas no santuário pessoal do sumo
sacerdote, Han não conseguiu conter um assovio de espanto.
– Lugarzinho bacana!
– Esta é a sala de exposição do sumo sacerdote – anunciou Veratil. – Ele é
um colecionador ávido e muito orgulhoso de sua coleção de raridades.
– Merecidamente – afirmou Han, com sinceridade.
O aposento era pelo menos dez vezes maior que o pequeno apartamento de
Han no primeiro andar. Mesas, prateleiras e estantes de exposição continham
tesouros e antiguidades de toda a galáxia. Esculturas de uma dúzia de mundos,
pinturas e outros objetos de arte estavam espalhados em meio a ornadas armas
antigas. Tapeçarias decoravam as paredes. Tapetes de beleza extraordinária
estavam cobertos por campos de força protetores que tinham uma textura
gelatinosa quando Han caminhou sobre eles.
Gemas semipreciosas adornavam a coleção de flautas e outros instrumentos
musicais. Garrafas das bebidas alcoólicas mais raras da galáxia estavam
suspensas numa estante com altos-relevos dourados.
Os dedos de Han literalmente coçaram durante todo o tempo que ele levou
para atravessar a sala de exposição. Se eu pudesse ter cinco minutos a sós aqui
dentro, estaria feito pelo resto da vida! , pensou, desejoso, enquanto reduzia o
passo para observar um drreelb escavado em gelo vivo. A pequena estatueta
estava coberta com uma camada de poeira, que foi perturbada pela respiração de
Han. O pó se espalhou no ar, e o piloto deu um espirro retumbante.
Poeirento ou não, este lugar vale várias fortunas. Se ao menos...
Severo, Han lembrou a si mesmo que tinha virado a página e era um cidadão
honesto e trabalhador naqueles tempos.
Veratil levou os dois por mais outra porta de segurança até o alojamento
pessoal do sumo sacerdote. Os visitantes foram recebidos por um antiquíssimo
mordomo Zisiano, que Teroenza chamou de Ganar Tos. O Zisiano era
humanoide, mas tinha uma pele verde enrugada que pendia em papadas flácidas
do queixo quase inexistente. Os olhos alaranjados eram ranhentos, e ele fungava
constantemente, como se tivesse sinusite. Provavelmente alérgico a toda aquela
poeira, pensou Han.
O sumo sacerdote acenou para que Han e Muuurgh se sentassem e se dirigiu
aos dois.
– Tão bom você ter vindo, piloto Draygo. Ouvi boas coisas sobre sua
pilotagem de Colônia Dois e Três. Hoje nosso droide médico colocou o outro
piloto, Jalus Nebl, em licença por duração indeterminada, então você assumirá o
lugar dele em voos interestelares de agora em diante.
Han assentiu com a cabeça, tentando esconder o entusiasmo.
– Ótimo, senhor. Vou cumprir os prazos. Quando eu parto?
– Depois de amanhã – contou Teroenza. – Muuurgh vai acompanhá-lo, é
claro.
– Quais são a carga e destino, senhor? – indagou Han.
– Você vai se encontrar com uma nave de Nal Hutta nas coordenadas que
vamos lhe passar no último minuto. A segurança é vital, como você pode muito
bem entender. Sabe que tivemos problemas com piratas no passado. – Teroenza
aceitou uma pequena criatura debilitada que o mordomo lhe estendeu e fez uma
pausa para engoli-la. – Você treinou Muuurgh como artilheiro, piloto?
– Hum, não, ainda não, senhor.
– Cuide disso. Um bom piloto está preparado para todas as eventualidades,
correto?
– Sim, senhor – concordou Han. – Vou cuidar disso. Hum, senhor? Qual é a
carga?
– Você levará uma remessa de carsunum processado e receberá um
carregamento de ryll virgem trasladado de Ryloth.
– Mas a nave com a qual vou me encontrar é de Nal Hutta?
– Sim. – Teroenza não se estendeu na explicação, então Han abandonou o
assunto, decidido a ficar de orelhas em pé. Percebeu que havia mais que o sumo
sacerdote não lhe contava, mas não estava exatamente em posição de exigir
todos os detalhes sujos.
Teroenza se sentou sobre os imensos quartos traseiros, acenando com os
bracinhos para o portal pelo qual Muuurgh e Han entraram.
– Soube que você gostou da minha sala de exposição?
– Se eu gostei? – Han pôde responder com total honestidade. – É incrível ,
senhor. Nunca vi tantos tesouros reunidos fora de um museu!
– Minha espécie tem uma longa vida, assim como nossos primos, os Hutts –
contou Teroenza. – Já venho colecionando há centenas de anos-padrão, mais
tempo que você, em sua juventude, poderia imaginar, piloto.
– Eu realmente queria fazer um tour um dia – comentou Han.
– Eu gostaria que minha coleção estivesse em condições de ser vista –
lamentou Teroenza. – Ganar Tos, mesmo sendo um excelente cozinheiro e um
camareiro eficaz, não recebeu o treinamento necessário para fazer a manutenção
das minhas peças, muito menos catalogá-las e arrumá-las adequadamente. E eu
sou muito ocupado para dedicar meu tempo a essa atividade. – O ser gigante os
dispensou com um aceno da mãozinha. – Por hora é tudo. Nos vemos quando
você voltar, piloto.
– Sim, senhor. – Han se levantou e chamou Muuurgh. Os dois partiram,
escoltados por Veratil.
Uma vez do lado de fora, o sacredot saiu para cuidar de alguma tarefa,
deixando os dois sozinhos. Han deu uma olhada no crono e então para o sol
ocidental.
– Esta noite vou começar a treinar você na função de artilheiro – disse ele ao
Togoriano –, mas, por enquanto, acho que a gente merece uma folga. Na
verdade, está bem na hora de visitarmos o refeitório onde os peregrinos comem.
Vamos lá.
– Por quê? – indagou Muuurgh. – Piloto não quer comida de peregrino.
Piloto e Muuurgh comem no refeitório do centro administrativo... comida
decente, não lixo.
Han balançou a cabeça e seguiu pela trilha que cortava a selva até a área dos
peregrinos.
– Eu não quero comer com os peregrinos, meu chapa – explicou ele. – Só
quero conversar com alguns deles. Calculei que, na hora do jantar, eles estarão
todos juntos, e eu poderei encontrar... eles... mais fácil.
– Eles? Quantos são “eles”?
– Hum... bem, olha só... – começou Han, depois parou, fazendo uma careta.
– Só uma – admitiu. – Peregrina 921, aquela que eu vi no outro dia. Eu gostaria
de ver como ela realmente é.
Muuurgh assentiu com a cabeça.
– Ah, sssim... Muuurgh entende muito bem o que Piloto quer.
Han sentiu a cara ficar quente e ficou feliz que o Togoriano não pudesse
reconhecer aquele sinal denunciador de vergonha.
– Você sabe, Muuurgh, meu velho chapa – começou ele, deliberadamente
mudando de assunto –, você fala língua básica muito bem para quem só
aprendeu há menos de um ano. Só que tem uma parte do idioma que você ainda
não dominou, que são os pronomes. Nunca achei que ia dar uma de professor,
mas, vamos lá...
Os dois caminharam juntos pelo caminho, enquanto Han explicava as regras
gramaticais que governam o uso dos pronomes...

Uma vez no refeitório dos peregrinos, Han e Muuurgh perambularam pela


enorme área onde os peregrinos jantavam. Han espiava cada rosto, imaginando
se conseguiria reconhecê-la sem os óculos, sob iluminação normal. O cabelo
dela estivera coberto pelo chapéu, então o rapaz não sabia nem se era claro ou
escuro.
Han acelerou o passo ao perceber que a refeição estava quase encerrada e ele
ainda não tinha localizado 921. Talvez ela não estivesse ali. Talvez tivesse
jantado num outro turno, como ele tinha ouvido que alguns peregrinos faziam.
Só que ele tinha achado que quase todos os humanoides comiam durante este
turno...
Lá está ela! É ela mesma! Han não tinha muita certeza de como sabia... mas
sentia-se seguro como se ela tivesse uma placa pendurada no pescoço dizendo
PEREGRINA 921.
Numa iluminação normal, o rapaz notou que ela era alta e esguia – esguia
demais, na verdade. As maçãs do rosto se destacavam proeminentes, e os olhos
pareciam ainda maiores do que realmente eram naquele rosto magro e
excessivamente pálido.
Porém, magra demais ou não, ela era, mesmo de modo simples, linda. Não
classicamente bela. A mandíbula era um pouco larga demais e meio quadrada, o
nariz meio longo para a beleza clássica. Mas linda... ah, sim...
921 tinha grandes olhos azuis-esverdeados, cílios escuros e pele branca e
lisa. Várias madeixas de cabelos curtos e cacheados tinham escapado de baixo
do chapéu de peregrina, e Han viu que eram vermelho-dourados – a cor de um
pôr-do-sol corelliano num dia limpo.
O salão geralmente era bem silencioso. Os peregrinos não conversavam
muito, cansados como estavam de um longo dia de trabalho nas fábricas, e a
Exultação que se aproximava. Mas eles geralmente comiam em grupos.
921 estava completamente só.
Han viu que ela cutucava o jantar, e depois de uma olhada na massa nada
apetitosa de mingau grudento, verduras murchas e pão ázimo no prato dela, ele
não a culpou. A comida cheirava mal – quase estragada. Han franziu o nariz
enquanto puxava a cadeira diante dela e se sentava. Estava vagamente ciente da
presença de Muuurgh, encostado na parede, observando.
921 – eu tenho que convencê-la a me contar seu nome verdadeiro! – ergueu
os olhos cor de turquesa, que se arregalaram ao reconhecê-lo. Han ficou
imensamente feliz com isso e sorriu para ela.
– Olá. Encontrei você de novo, viu?
A moça o encarou, olhos ainda arregalados, depois baixou o olhar para o
prato. Han se inclinou na direção dela.
– Então, qual é o rango? Não parece grande coisa, tenho que admitir. Mas
você não pode só ficar empurrando pelo prato, sabe.
Ela balançou a cabeça.
– Por favor... vá embora. – Sua voz era pouco mais que um sussurro. – Não
deveria estar falando com você. Você não é do Um.
– Claro que sou – retrucou Han. – Só que eu sou um tipo um pouco mais
individual de Um, pode-se dizer.
A boca de 921 estremeceu, muito de leve. Han percebeu que desejava ser
capaz de fazê-la sorrir de verdade.
– Você não sabe do que está falando, piloto Draygo – respondeu ela em voz
baixa. – Temo que isso seja óbvio.
– Bem, pregue para mim, então – argumentou Han. – Tenho a mente aberta,
talvez você consiga me converter. – Ele sorriu, feliz em tê-la encontrado, e que
ela estivesse, pelo menos, falando com ele.
921 balançou a cabeça.
– Temo que você seja infiel em demasia, piloto – comentou ela.
Han estendeu a mão e pegou na dela, aquela que tinha se machucado.
– É Vykk – disse ele, sufocando um impulso louco de contar seu nome
verdadeiro . Conseguiu resistir. – Então, como vai sua mão? Alguma sequela
daquele machucado no outro dia?
Quando Han tocou a peregrina, ela se enrijeceu, como se fosse puxar a mão.
Depois, quando ele perguntou do corte, ela relaxou.
– Está sarando – contou ela, confirmado o que Han tinha visto. – Só vai levar
um tempinho.
– É um serviço duro, ficar ralando lá embaixo no escuro e no frio o dia todo
– apontou Han. – Você não preferiria fazer alguma coisa mais... fácil?
– Tipo o quê? – perguntou ela.
– Não sei. No que você é boa? O que você estudou?
– Bem... um dia eu quis ser curadora de museu – revelou 921, soando um
tanto nostálgica. – Eu ia estudar arqueologia. Sei muita coisa sobre isso.
– Só que você veio para cá em vez de seguir com os estudos – deduziu Han.
– Sim – confirmou 921. – Esta vida é espiritualmente recompensadora.
Minha antiga vida era vazia e sem sentido.
Han hesitou.
– Como você sabe que a doutrina que eles ensinam aqui é a certa? Tem um
monte de religiões na galáxia.
Ela considerou a pergunta cuidadosamente, então, finalmente, respondeu.
– Porque, quando nós somos Exultados, eu me sinto muito próxima do Um.
É um momento místico. Eu me sinto Uma com o Todo. Tenho certeza que os
sacerdotes devem ser Divinamente Dotados para poderem oferecer aos
peregrinos a chance de serem Exultados.
– Humm – comentou Han. – Parece que eu deveria experimentar. – Por cima
do meu cadáver, pensou ele, mas tomou cuidado para esconder os verdadeiros
sentimentos.
– Talvez você devesse – concordou ela. – Está na hora de seguir para o Altar
das Promessas. Talvez você seja abençoado e receba a Exultação, também.
– Nunca se sabe – disse Han. – Posso acompanhar você até lá?
Ela deu um sorriso discreto, olhando para o chão.
– Tudo bem.
Os dois caminharam juntos pela trilha na selva, lado a lado em meio aos
peregrinos, com Muuurgh no rastro. Han tentou puxar conversa, mas 921 estava
quieta e sem reação. Quando alcançaram o altar, Han não se retirou para o fundo,
mas ficou ao lado de 921 no meio do grupo de fiéis.
– Você não deveria estar aqui – sussurrou ela. – É óbvio que você não é um
peregrino.
– Se alguém reclamar, é só dizer que eu sou um candidato a peregrino – disse
Han, tentando provocá-la de leve, mas 921 não caiu. Fez uma cara feia e lhe deu
as costas, concentrando-se na cerimônia.
Teroenza e os outros sacerdotes recompensaram a multidão de fiéis com uma
devoção idêntica àquela que Han tinha visto antes. Desta vez, Han teve pouca
dificuldade em resistir aos efeitos da Exultação – permaneceu lúcido do começo
ao fim. Em vez disso, observou 921, viu sua expressão arrebatada e balançou a
cabeça por dentro. Como ela pode ser iludida por esse embuste? , perguntou-se
ele. Ela é claramente inteligente. Por que não percebe que seja lá o que for que
esses sacerdotes fazem, é algum truque, e não um Dom Divino?
Han assistiu angustiado enquanto 921 se prostrava para receber a Exultação,
depois se acocorou ao lado dela enquanto ela se contorcia no chão. É um milagre
que os corações deles não parem de funcionar de repente, pensou. Mais tarde,
depois que o momento de Exultação terminou e os sacerdotes se foram, ele a
ajudou a se sentar. A peregrina sorria, ainda que muito fraca.
– Tudo bem? – indagou Han, preocupado. A Exultação, além de qualquer
que fossem seus efeitos emocionais e físicos, parecia deixar os peregrinos
exaustos. – Você parece meio mal.
– Estou bem – disse ela, ainda tremendo, e tentou se levantar. Han
rapidamente a segurou e ofereceu a mão.
– Obrigada – sussurrou 921, com a respiração ainda ofegante. – Vou ficar
bem, agora.
– Vou acompanhar você de volta ao dormitório – decidiu Han. – Por via das
dúvidas. Você parece meio fraca.
Ela não discutiu quando Han pegou seu braço e os dois seguiram o caminho
de volta. Estava ficando bem escuro, e Ylesia não tinha lua. Han mal podia
distinguir a trilha adiante, mas 921 pegou seus óculos no bolso do robe e os
colocou. Ela guiava, mas Han continuou segurando seu braço e servindo de
apoio para a peregrina.
– Então, você tem saudades de Corellia de vez em quando? – perguntou o
piloto.
– Não – respondeu ela, mas Han percebeu que era mentira. – E você?
– Não sinto falta das pessoas, mas tenho saudades do planeta – contou Han
com sinceridade. – Corellia é um belo lugar. Sempre quis visitar o oceano, mas
nunca tive uma chance. Você já foi ao oceano?
– Sim... – disse ela lentamente, como se a pergunta trouxesse de volta
memórias que ela preferia não recordar.
– Você tem família por lá?
– Tenho... – 921 hesitou, depois acrescentou: – Pelo menos acho que sim.
Não falo com eles há quase um ano.
– Desde que chegou aqui? – perguntou Han.
– Isso.
Eles seguiram em silêncio pela escuridão quente e úmida. Han estava muito
consciente de que segurava o braço dela sob a larga manga do robe. Os ossos da
peregrina ficavam muito próximos da pele, mas a carne em si era quente, macia
e muito feminina.
– Então, você tá planejando ficar aqui de vez? – inquiriu Han enquanto um
pequeno grupo de peregrinos cambaleantes passava por eles nas trevas. – Ou
isso aqui é tipo temporário?
– Temporário? – O piloto mal podia ver o borrão indistinto do rosto dela, que
a linha escura dos óculos dividia ao meio, quando ela se virou para ele. – Como
poderia ser temporário? Eu quero servir ao Um, ser parte do Todo, para sempre.
– Ah. Bem, hum... e quanto às coisas tipo... se apaixonar, viajar, talvez se
estabelecer em algum lugar e ter filhos?
– Desistimos de todas essas coisas quando nos tornamos parte do Todo –
explicou ela, mas havia um tom de arrependimento em sua voz.
– Que pena.
Sem aviso, começou uma chuva constante. Han sentiu 921 tremer um pouco,
apesar do calor. O piloto puxou um poncho de chuva do bolso e abriu sobre a
cabeça de ambos. Os dois continuaram andando, encolhidos debaixo da
cobertura, os corpos em contato. Han estava ciente de que Muuurgh os seguia a
uma distância discreta. Pobre camarada. Ele odeia se molhar.
Han começou a falar mais alto para que fosse escutado apesar do barulho da
chuva.
– Sabe, eu não posso ficar chamando você de 921. Se a gente vai ser amigo,
você tem que me dizer seu nome.
– E quem disse que a gente vai ser amigo? – indagou ela.
– Eu simplesmente sei que vamos – insistiu Han. Ele sorriu, sabendo que ela
conseguia vê-lo no escuro. – Eu sou irresistível quando quero.
– Você é um metido, isso sim – retrucou ela, soando meio irritada, meio
divertida. – Metido, presunçoso, arrogante... insuportável... – A peregrina parou
de falar para rir. Han percebeu que era a primeira vez que ouvia a risada dela.
– Ah, por favor, continue! – protestou de brincadeira o piloto, rindo também.
– Eu adoro quando as mulheres me elogiam, é música para meus ouvidos. – Han
ficou deleitado de ouvir 921 soando tão viva .
– Estou cansada – declarou ela, o bom humor momentâneo sumindo como a
névoa da manhã. – E aqui estamos nós diante do alojamento. Obrigada por me
acompanhar de volta... piloto Draygo.
Havia um fraco círculo de luz emanando das janelas do dormitório, e Han
parou bem na beira, de modo que conseguia ver 921, mas que eles não
estivessem sob o foco da luz e não pudessem ser vistos por alguém.
– Nada de “piloto” – lembrou ele. – É Vykk.
A peregrina tentou dar um passo para trás e se afastar dele, mas Han
segurou-lhe o braço com mais força, tomando cuidado de não machucá-la, mas
não deixando que ela se desvencilhasse.
– Vykk, está bem?
– Vykk... certo – repetiu ela. – Agora, por favor... me deixe ir. E... não volte.
Por favor.
– Por que não? – Han estava magoado.
– Porque... você não é bom para mim. Para a minha essência espiritual.
Ele sorriu nas trevas calorosas.
– Admita, você gosta de mim.
– Não gosto, não.
– Gosta, sim. Admita. – Ele deu um passo adiante, olhando para baixo, para
o rosto dela. 921 era alta, só meia cabeça mais baixa que ele. Gentilmente, Han
ergueu as mãos para levantar os óculos que escondiam os olhos dela. Os dedos
se demoraram no rosto da mulher durante o gesto. – Pronto – disse ele baixinho.
– Assim fica melhor. É errado... totalmente errado... cobrir esse rosto, esses
olhos...
– Você está... está blasfemando – acusou ela, sem fôlego, mas não se afastou.
– Não, não estou. Me diz o seu nome.
921 balançou a cabeça miseravelmente, com olhos assombrados.
– Vykk... eu não posso...
– Tudo bem. – Eu posso esperar, pensou Han. – Mas a gente vai se ver de
novo, né?
A peregrina hesitou por tanto tempo que Han notou que ele mesmo prendia a
respiração. Então ela abaixou a cabeça, murmurou “sim” e se afastou. Desta vez,
Han a deixou ir.
921 saiu correndo, dormitório adentro, sem olhar para trás.

Han se inclinou para frente no assento do piloto, espiando os números que


corriam pela tela do navicomputador.
– Prontos para voltar ao espaço real, nas coordenadas de encontro – anunciou
em voz alta. – Três... dois... um...
Puxou a alavanca, e as estrelas ao redor da Sonho Ylesiano subitamente se
alongaram em finos rastros de luz, todos se estendendo a um ponto central – um
ponto para onde a nave se lançava. Os motores rugiram, depois reduziram a
marcha, e enfim – de uma forma abrupta que levava algum tempo para se
acostumar – eles estavam de volta ao espaço real.
– Bem na rota, Muuurgh – exclamou Han, triunfante. – Tô ficando bom
demais nesse negócio de voos interestelares, não tô?
– “Estou” – corrigiu o Togoriano. – Eu estive lendo livro que Piloto deu para
Muur... – ele se deteve. – Hum, mim , e “tô” não é forma correta de falar língua
básica.
– Me lembre de ensinar você a usar artigos, algum dia – murmurou Han. –
Eu não mereço nem parabéns por ter nos trazido ao ponto de encontro bem na
mosca?
– Bem melhor que primeira vez – comentou Muuurgh, referindo-se à
primeira jornada interestelar deles, três semanas atrás. Han tinha cometido um
pequeno erro ao programar no navicomputador exatamente onde eles sairiam do
hiperespaço, e a Sonho tinha acabado a três parsecs de distância do lugar em que
deveriam ter emergido.
Han tivera que fazer um salto hiperespacial extra para alcançar a posição
correta.
– Ei – protestou Han –, aquela foi a minha primeira vez! E não é culpa minha
que essa tela seja tão velha que o oito parecia um seis.
– Piloto tem ido melhor desde então – reconheceu Muuurgh. – Segunda e
terceira viagens foram bem.
– Pode apostar que foram – murmurou Han. – Eu sou bom , Muuurgh... bom
mesmo. Aposto que agora consigo passar nas provas de admissão da Academia
Imperial. Mais alguns meses de prática, e eu estarei pronto.
– Muuurgh vai sentir... – O Togoriano fez uma pausa. – Correção. Eu vou
sentir falta de Piloto quando ele se for.
– Vou sentir saudades suas também, chapa – respondeu Han, com
sinceridade. – Mas não se preocupe, a gente pode...
A Sonho Ylesiano estremeceu violentamente quando um alto whang!
reverberou pelo casco.
– Mas que... – Han apertou alguns botões, ativando a tela traseira. –
Muuurgh, alguma coisa atingiu a gente!
– Asteroide? – sugeriu o Togoriano.
Whanggggg!
– Não! – gritou Han, encarando incrédulo a tela. – Duas naves! Só podem ser
piratas! Vá para a cabine de tiro!
Enquanto Han encarava a tela, a nave à direita disparou outro tiro.
– Se segura!
Muuurgh, que tinha acabado de se desatar de seu assento e estava se
levantado para ir à cabine de tiro, gritou quando mais um tiro retiniu contra o
casco, jogando-o de volta à cadeira com força o bastante para deixar hematomas.
Praguejando, Han guinou a Sonho forte para bombordo. Quem eram aqueles
caras? Piratas geralmente davam tiros de advertência e exigiam que a nave
atacada se rendesse. O objetivo era roubar a carga, sequestrar a nave e manter a
tripulação viva para que pudesse ser vendida como escravos. Destruir ou
incapacitar a nave e matar os ocupantes não era economicamente vantajoso.
– Muuurgh! Vá lá para baixo! Eles vão nos fazer em pedaços! Perdemos um
escudo!
Enquanto o Togoriano se propelia da cadeira do copiloto e saía cambaleante
da sala de comando, mais dois disparos pegaram a Sonho Ylesiano de raspão.
Eles estão mirando nos motores de hiperespaço! Querem nos imobilizar!
Han lançou a nave numa manobra desesperada, virando-a de lado, bem a
tempo de escapar de outra rajada que quase acertou o ventre da nave e teria
explodido o núcleo energético Quadex dela.
O piloto acelerou, tentando se afastar o bastante dos piratas para poder dar
meia-volta e atirar neles. Tinha pouca confiança na habilidade de Muuurgh de
conseguir de fato atingir alguma coisa ao manobrar a cabine de tiro. O Togoriano
era rápido e capaz, mas nunca tinha realmente atirado contra um alvo vivo –
muito menos em movimento.
Enquanto lançava a nave adiante, forçando a velocidade ao máximo, Han
abriu o canal de comunicações. Tinha que avisar alguém sobre o que estava
acontecendo, para o caso da Sonho ser inutilizada e eles terem que escapar numa
cápsula salva-vidas.
– Colônia Um Ylesia, aqui é a Sonho Ylesiano . Colônia Um, é a Sonho .
Estamos sendo atacados, repito, sendo atacados. Duas naves nos emboscaram
assim que emergimos do hiperespaço! – A voz do rapaz rachou com o esforço. –
Honestamente, não foi minha culpa! Eles estão perseguindo a gente, e eu estou
fazendo manobras evasivas. Piloto Draygo câmbio e desligo!
Han deu uma olhada na tela com as leituras dos sensores abaixo, viu que
tinham se afastado dos perseguidores – ainda não tinha dado uma boa olhada nas
naves piratas – e então jogou a Sonho num parafuso para baixo, sob as naves que
se aproximavam. Quando elas passaram a toda acima dele, Han virou a Sonho
numa curva fechada.
– Muuurgh! Agora! – gritou no intercom.
Um rugido togoriano e uma erupção de lasers recompensaram o comando –
só que Muuurgh errou completamente o alvo. Um dos piratas deu a volta e
começou a atirar de novo...
Bam!
A Sonho Ylesiano tremeu violentamente ao receber um sério impacto. O
estômago de Han deu um nó quando o piloto ouviu um uivo de pura agonia subir
da cabine de tiro.
– Muuurgh? Muuurgh? Você foi atingido? – gritou ele, mas não houve
resposta.
Uma rápida verificação de status revelou que eles tinham sofrido uma
minúscula queda de pressão, mas que o vazamento tinha sido automaticamente
selado pelos sistemas da nave.
– Tudo bem, seus palhaços... – murmurou Han, fazendo pontaria com seus
mísseis de concussão, centralizando o pirata da direita na mira – ... tomem isto!
A Sonho deu um tranco violento quando o míssil voou. Han fez uma careta
quando o pirata conseguiu se esquivar no último segundo. Ele tentou de novo...
se pelo menos pudesse fazê-lo se mover um pouco mais para bombordo...
– Isso! – murmurou Han selvagemente ao lançar outro míssil bem no
caminho do pirata, antecipando a manobra evasiva dele. – Te peguei!
Um segundo depois, uma luz amarela e branca se espalhou em todas as
direções, expandindo numa bola de fogo de beleza incandescente. Han teve que
desviar o olhar e, quando encarou a tela novamente, o outro pirata estava em
fuga na direção oposta com aceleração máxima.
– Ah, não, sem chance – grunhiu Han. – Vou te pegar também... – Com um
apertão feroz do dedo, ele rastreou o alvo e disparou de novo.
O míssil de concussão seguiu o alvo, mas então a nave pirata desapareceu
num estouro de luz estriada. Eles tinham escapado para o hiperespaço em
segurança. Han praguejou enquanto botava a Sonho em piloto automático e
corria para a cabine de tiro. Será que Muuurgh estava bem?
Segundos depois, Han se encontrava nas ruínas do suporte do canhão,
examinando o selante de pressão que os sistemas da Sonho tinham espirrado
automaticamente para fechar o vazamento de ar. Havia um forte cheiro de
ozônio e marcas de chamuscado onde os raios tinham atingido.
Muuurgh ainda estava atado ao assento móvel, mas o Togoriano estava
desmoronado, inconsciente, e nem se mexeu quando Han soltou o cinto e
conseguiu meio que arrastá-lo, meio que carregá-lo pela escadinha até a sala de
controle.
Muuurgh ainda respirava, mas tinha uma marca de queimadura num lado da
cabeça, logo abaixo da orelha direita. Han examinou mais atentamente, passando
os dedos pelo pelame negro, e descobriu um galo cada vez mais inchado logo
atrás da orelha. O Togoriano obviamente tinha levado uma pancada feia na
cabeça. Han não sabia o que fazer – conhecia primeiros socorros para humanos,
e algumas espécies de alienígenas, mas o povo de Muuurgh era raro na galáxia.
Preciso levá-lo a uma instalação médica, pensou ele, cobrindo o alienígena
inconsciente com um cobertor. Em seguida, conferiu o navicomputador. Onde
fica o sistema mais próximo?
Han esquadrinhou as cartas estelares, cravando o dedo num ponto específico.
– Certo – sussurrou. – Lá vamos nós. – Deu uma olhada no Togoriano. –
Aguenta firme, Muuurgh!
Han programou o curto salto pelo hiperespaço e, antes de dar o comando, foi
verificar os motores. O cheiro desagradável de conectores queimados lhe
provocou uma careta. Será que eu deveria usar a unidade de hiperdrive de
reserva?
Só que a reserva era muito mais lenta, e ele não tinha como avaliar a
seriedade da condição de Muuurgh. Han decidiu correr o risco de usar o motor
hiperdrive principal. Prendeu a respiração ao iniciar o salto para o hiperespaço.
Han começou a suar com a forma como a nave hesitou e com o barulho de
esforço que o motor fez.
A Sonho estremeceu, gemeu, mas as estrelas subitamente correram contra ela
em listras, e eles saltaram.
Han saiu do hiperespaço um curto período depois, agradecendo às suas
estrelas da sorte que a Sonho Ylesiano tivesse aguentado o pulo. Os motores de
velocidade da luz da nave certamente precisavam de reparos...
O corelliano seguiu para o sistema estelar que tinha escolhido, na direção do
único mundo habitado. Enquanto ainda estavam bem distantes, colocou a Sonho
em piloto automático e foi no compartimento de carga verificar a caixa de
brilhestim. O mundo que ele tinha escolhido era conhecido por ter inspeções de
alfândega e especiarias, então o rapaz abriu o compartimento secreto que os
sacerdotes tinham incluído no convés de carga e tirou as caixas de perfume
âmbar gris doreeniano que transportava como carga de “cobertura”. Grunhindo
com esforço, Han carregou os pesados caixotes de perfume até o porão. Depois
levou a caixa muito menor de frascos de brilhestim ao compartimento oculto,
assegurando-se de que o tinha fechado bem. A não ser que alguém soubesse que
aquilo estava ali, jamais encontraria, e o espaço tinha sido criado para ser à
prova de varreduras.
Quando Han chegou de volta ao assento de piloto, o mundo escolhido já
crescia nas telas. Com a aproximação, viu que era um lindo planeta, azul, branco
e bege contra a treva noturna do espaço.
O piloto lembrou de repente que tinha desligado o sistema de comunicações
depois de mandar a mensagem a Ylesia. Melhor ligar de novo, pensou, entrar
em contato com o controle do espaçoporto e receber autorização para pousar.
Olhou de volta para Muuurgh, que não tinha se mexido ou feito um ruído. E
solicitar transporte ao hospital mais próximo...
Assim que seus dedos clicaram na unidade de comunicação, a tela de vídeo
foi preenchida com a imagem de um homem de aparência gentil, com uma
garotinha de cabelos negros sentada no seu colo. Han levou um susto, depois
percebeu que a mensagem era pré-gravada e transmitida a todas as naves num
vetor de aproximação.
Uma narração identificou o homem:
– Sua majestade, Bail Prestor Organa, vice-rei e primeiro-secretário.
O homem sorriu para a tela.
– Saudações. Em meu nome e do meu povo, lhe dou as boas-vindas a
Alderaan.
Han ouviu sem prestar muita atenção enquanto o homem – rei Fulano de Tal,
ele disse? – continuou com a vídeo-mensagem.
– Como muitos de nossos visitantes já sabem, Alderaan é um mundo
pacífico, onde nos abstemos das armas e de seu uso. Enquanto você for nosso
hóspede, pedimos que respeite nossas tradições e leis e deixe suas armas com a
Capitania dos Portos durante sua estadia. Você perceberá que Alderaan tem
muito a oferecer aos visitantes. Não temos praticamente nenhum crime...
Certo, pensou Han. Aposto que...
– ... e nenhuma poluição. Nossos lagos são límpidos, nosso ar é puro e nosso
povo é feliz. Temos museus maravilhosos, e o convidamos a visitá-los. Não
perca nossas gravuras de grama quando as sobrevoar na sua aproximação de
pouso. Nossos pintores de relva estão entre os maiores artistas da galáxia.
Damos as boas-vindas a todos os visitantes de nosso bel mundo e pedimos
apenas que venham em paz e que obedeçam nossos...
Han murmurou uma ofensa, inclinou-se para a frente e desativou o som da
transmissão. Fez um gesto rude para a tela. Um planeta inteiro de cidadãos
honestos? Só vou acreditar quando vir...
Minutos depois, a mensagem enlatada de Bail Organa foi substituída por um
controlador de tráfego da Capitania dos Portos. Han reativou o áudio.
– Capitão Draygo, pilotando a Sonho Ylesiano – anunciou, eficiente. – Peço
permissão para pousar. Fui atacado por piratas, minha nave está danificada, e eu
estou com um artilheiro ferido. Vocês poderiam providenciar um veículo de
remoção médica para se encontrar com minha nave assim que eu pousar?
– Certamente, capitão Draygo. Designei a você um vetor de aproximação
prioritário. Vamos encaixá-lo na Baia de Atracação 422. É só seguir o
sinalizador de aterrissagem até seu ponto. Teremos um transporte e um droide
médico no aguardo.
– Obrigado.
O vetor de aproximação de Han realmente o levou por sobre as pinturas de
grama e, mesmo ocupado como ele estava, não conseguiu deixar de se
impressionar. A imensa planície de relva ondulante, soprada pelo vento, exibia
um design abstrato de quilômetros de extensão, composto com flores silvestres
multicoloridas. Truque bacana, pensou. Como será que eles fazem? E por que se
dão ao trabalho? Não é como se você pudesse vender arte desse tipo e ganhar
dinheiro com isso...
A capital de Alderaan, Aldera, ficava numa ilha no meio de um lago. O local
do lago na verdade era uma cratera de meteoro que tinha se enchido com a água
dos lençóis freáticos. Os restos da cratera imensa e relativamente “recente” (em
termos geológicos, pelo menos) cercavam o lago numa série de contrafortes
baixos e pontiagudos cujas encostas estavam salpicadas com prados verdes e
florestas. A água azul-gelo que preenchia a cratera milenar faiscava sob os raios
do sol matinal.
O espaçoporto ficava do lado oposto da ilha, e Han mergulhou sobre a cidade
no seu vetor de aproximação designado. Em poucos minutos, ele baixou a Sonho
Ylesiano num pouso perfeito. Agora tinha tanta experiência aterrissando apesar
das imensas tempestades e correntes de ar maldosas que pousar uma nave num
planeta normal parecia brincadeira de criança.
A unidade médica estava esperando, conforme prometido. Han rapidamente
pegou a pistola de Muuurgh e a guardou, depois trouxe a bordo o droide médico
com a maca antigrav e ajudou a colocar Muuurgh nela.
– Você acha que ele vai ficar bem? – perguntou ao droide atendente.
– Minha varredura preliminar indica que não há trauma com risco de vida
como resultado do ferimento craniano – respondeu o droide. – Entretanto,
teremos que executar testes adicionais. Eu anteciparia que seu tripulante vai
precisar passar a noite em nossa instalação.
– Certo – disse Han. Tenho que dar algum jeito para pagar pelo tratamento
de Muuurgh , pensou ele enquanto observava a maca que levava o Togoriano
desaparecer dentro do transporte, que imediatamente decolou e seguiu para o sul.
Han viu uma técnica passando e a chamou com um aceno.
– Escuta, eu sofri alguns danos – contou ele. – Tem como uma equipe de
reparos aparecer aqui imediatamente?
– Deixe-me ver o tamanho do estrago – respondeu ela. Han a guiou até o
suporte do canhão, depois até a sala de máquinas para conferir o hiperdrive. – Os
dois serviços vão levar pelo menos seis horas para ficarem prontos – informou
ela. – Mas já podemos começar a trabalhar hoje mesmo.
– Ótimo – disse Han. Ele fizera pequenos reparos em swoops e speeders
quando era piloto de corrida, mas nunca tinha lidado com algo tão grande assim
e queria se assegurar de que o serviço ficaria perfeito.
Quando a equipe de reparo embarcou na Sonho , Han se perguntou o que
deveria fazer em seguida. Ligar para Ylesia, decidiu. Os sacerdotes teriam que
providenciar o pagamento dos reparos e do tratamento de Muuurgh.
Han seguiu para a cabine de comando, querendo fazer a chamada
imediatamente. A mão estava no botão quando o rapaz subitamente ficou
paralisado.
Espeeeeeera um minuto... pensou ele. O que eu estou fazendo? Estou
sentado aqui com uma remessa de brilhestim, a especiaria mais valiosa de
todas, e vou simplesmente levá-la de volta a Ylesia para que eles possam vendê-
la de novo?
Han conferiu a gravação automática dos registros, prestando atenção no que
tinha dito durante a transmissão. Sorriu para si mesmo. Isso é moleza. Só tenho
que dizer aos sacerdotes que fui abordado e os piratas levaram o brilhestim.
Muuurgh estava apagado, e não sabe o que aconteceu. Posso vender essa
especiaria aqui em Alderaan, esconder o dinheiro numa conta local, depois
transferir mais tarde. Eles nunca vão saber...
Porém, se ele quisesse manter o emprego de piloto para os sacerdotes
Ylesianos, teria que fazer negócio rápido . Tinha informado que estava nas
coordenadas de encontro na mensagem, e os sacerdotes não eram burros.
Poderiam conferir quanto tempo levava para uma nave ir de onde ele tinha sido
atacado até Alderaan. Han poderia explicar algumas horas adicionais apontando
o dano que a Sonho tinha sofrido e alegando a lerdeza da viagem, a necessidade
de pegar leve com a nave...
Certo, pensou Han. Posso enrolar mais ou menos cinco horas por aqui... não
mais. A essa altura, eu terei que ligar e contar para eles que estou vivo, que a
nave está danificada, e que eles terão que providenciar pagamento. Mais tempo
que isso, e eles vão ficar desconfiados...
Han tirou a surrada jaqueta marrom de couro de lagarto do armário e
endireitou o velho macacão de piloto do melhor jeito que pode. Depois penteou
o cabelo. Não quero parecer relaxado, pensou ele ironicamente, recordando
Dewlanna e como a Wookiee sempre insistira que ele ficava bonito com o cabelo
espetado para cima, como o povo dela fazia.
Vestiu a jaqueta sobre o uniforme cinzento e contemplou com tristeza a
pistola de raios de Muuurgh, desejando poder levá-la. Planeta idiota. Quem já
ouviu falar num mundo onde armas não são permitidas? Suspirou, balançou a
cabeça e deixou a Sonho Ylesiano para as equipes de reparo.
Caminhou rapidamente até a entrada do espaçoporto, depois tomou um dos
transportes gratuitos que levavam à capital de Aldera. A metrópole reluzia
branca sob a luz do sol, tão limpa e luxuriante quanto uma cidade de sonho. Han
encarava tudo pela janela do transporte, prestando atenção nas torres, domos e
prédios em camadas, todos ultramodernos, formas brancas entremeadas com
terraços verdes. A ilha era montanhosa, e os arquitetos da cidade tinham seguido
as linhas naturais do terreno em vez de terraplenar tudo. O resultado era
agradável e variável aos olhos... belo e moderno, sem parecer agressivo ou
artificial.
O programa enlatado do transporte automatizado indicava pontos de
interesse conforme passavam por eles. Han viu museus, galerias fechadas
gigantescas, edifícios de escritórios e governamentais e, finalmente, ao se
aproximar do coração da cidade, viu os altos pináculos e domos rasos do palácio
real cintilando brancos e dourados ao sol. Han sorriu ironicamente, imaginando
se aquela princesinha que tinha visto na mensagem estaria em algum lugar por
ali, vivendo sua vidinha rica e perfeita. Com alguma sorte, eu logo serei rico
também...
Han ficou no transporte enquanto ele deslizava pela rota e continuou
avaliando a cidade. Tinham saído da área de grandes prédios e agora seguiam em
meio aos subúrbios residenciais.
O piloto admitiu que parecia um bom lugar para se viver, enquanto
contemplava as muitas praças com chafarizes e pátios, as casas opulentas, ruas
limpas, e as pessoas bem vestidas por quem eles passavam. Só que esta não é a
área que eu quero... Melhor eu sair explorando sozinho. Eles não querem que os
turistas vejam os lugares que eu preciso visitar...
Depois de saltar do transporte, Han perambulou pela parte central da cidade,
conferindo a disposição do terreno. Por instinto, seguiu para uma região em que
as casas eram menores e não tão bem mantidas. Por fim, numa vizinhança que
era definitivamente de baixa renda e contava com mais de uma taverna e loja de
penhores, o rapaz percebeu que tinha chegado ao lugar certo.
Han esquadrinhou as ruas conforme andava, procurando um tipo particular
de indivíduo. Finalmente, encontrou o que queria. Um garoto vestindo roupas
quase pequenas demais, esfarrapadas, e não muito limpas passeava pela rua,
espiando ah-tão-casualmente cada transeunte. Han reconheceu o menino, mesmo
que nunca o tivesse visto antes.
Um batedor de carteiras. Dez anos antes, ele tinha sido esse menino.
Han esticou o passo até alcançar o menino. Como esperado, o garoto
deslocou o peso e alterou a passada para esbarrar em Han quando o corelliano
passou por ele. E, também como esperado, os dedos rápidos como relâmpagos
mergulharam fundo no bolso da jaqueta do piloto. Mas emergiram vazios; a
identidade e poucos créditos que Han carregava estavam selados dentro do bolso
interno do macacão.
Han andou mais rápido até estar à frente do menino, então, sem aviso, deu
meia-volta e confrontou a criança.
– E aí? – disse ele, sorrindo agradavelmente e estendendo o identidisco e o
dinheiro do menino. – Perdeu alguma coisa?
O garoto ficou boquiaberto de espanto, depois se recuperou e fez cara feia
para Han, com olhos negros incandescentes.
Han se encostou casualmente numa vitrine de loja.
– Você é descuidado de perder essas coisas...
O menino inchou como um lagarto mrelfa envenenado, depois se lançou
numa descrição furiosa e detalhada dos ancestrais, hábitos pessoais e provável
destino de Han. O piloto escutou pacientemente até que o pivete começou a
gaguejar e se repetir, aí ele acenou, pedindo silêncio.
– Eu vou te devolver – afirmou, alegremente –, em troca de algumas
informações.
O garoto o encarou zangado, tirando os cabelos longos demais dos olhos.
– Que tipo de informações, seu filho de um tarado pestilento?
Han jogou uma das moedas no ar e a pegou de novo com facilidade, sem
olhar.
– Meça suas palavras, moleque. Só quero saber aonde as pessoas vão nesta
cidade para fazer negócios.
– Que tipo de negócios?
– Você sabe que tipo de negócios. Negócios que elas não querem que a lei
fique sabendo. Negócios que envolvem substâncias que você não pode comprar
legalmente.
– Especiaria? – O menino franziu o cenho. – Qual tipo?
– Brilhestim.
O cenho do menino se franziu ainda mais.
– Que que é isso?
Bem a minha sorte, pensou Han. Eu encontrei o único pivete burro de
Aldera. Maravilha.
– Brilhestim – repetiu Han. – É tipo... bem, é valioso pra caramba. Mais até
que carsunum ou andris.
O menino balançou a cabeça de novo.
– Nunca ouvi falar neles também.
Não acredito nisso!
– E quanto a andris? Vocês têm andris aqui? Usam para temperar a comida,
preservar?
O menino fez que sim com a cabeça.
– É, andris. Temos isso sim. Troço caro.
– Certo, quando vocês compram andris, com quem vocês compram?
– Eu não compro andris, seu nojento – retrucou o menino. – Agora me
devolve meu dinheiro e documento.
– Só um segundo, tenha paciência – insistiu Han, levantando os itens para
fora do alcance do menino. – Tá, tudo bem, você não compra andris você
mesmo. Mas e se os seus amigos quiserem um pouco, onde eles conseguiriam?
Numa loja? Numa agência do governo?
A expressão do menino foi eloquente enquanto ele balançava a cabeça.
– Não, cara. A gente compra do Darak Lyll.
Finalmente! Um nome!
– Era isso que eu queria. Darak Lyll. Como é que ele é?
– Mais alto que você. Cabelo comprido, barbudo. Barrigudo.
– Velho ou jovem?
– Velho. Cabelo grisalho.
– E por onde ele circula?
– Eu lá tenho cara de mãe dele? – zombou o pivete.
Han respirou fundo.
– É só você me dizer os nomes de quaisquer lugares que ele frequente num
dia normal. Não minta, ou eu juro que vou gritar que você tentou me roubar.
O garoto indicou seis tavernas, explicando que todas ficavam a 5 minutos
dali. Han se endireitou e devolveu as posses do menino.
– Da próxima vez, guarde suas coisas dentro das suas roupas, moleque –
aconselhou. – Junto ao seu corpo. – Han deu tapinhas no próprio dinheiro e abriu
um sorriso arrogante.
O garoto vociferou para Han e se afastou xingando.
Tavernas alderaanianas eram limpas e bem iluminadas demais, Han concluiu
uma hora mais tarde. Já tinha visitado três das seis até aquele momento, e
nenhuma delas tinha parecido suficientemente mal frequentada para seus
propósitos. Nenhum sinal de Darak Lyll também.
Num dos lugares ele viu de relance um sujeito, no fundo, deslizar alguma
coisa para outro homem, escondida debaixo do braço, e em seguida um disco de
créditos foi passado de volta para ele de uma forma igualmente clandestina. Han
esperou até que o primeiro homem se levantasse para usar a unidade de limpeza,
depois foi atrás dele. Quando o sujeito saiu, Han esperava por ele no corredor
escuro.
– Queria bater um papo contigo, meu chapa.
O “comerciante”, um cara pequeno e de rosto fino que lembrava Han de um
ranat, espiou desconfiado o corelliano, depois claramente concluiu que Han não
representava risco.
– É mesmo? Sobre o quê?
– Você trabalha com especiarias?
O homem hesitou por um longo momento.
– Quanto você quer?
– Não, chapa, eu tô vendendo, não comprando. Interessado?
– Que que você tem?
– Brilhestim. Cem frascos.
– Brilhestim! – A voz do homem se elevou, mas ele a baixou apressadamente
e chegou mais perto. – Onde que você arranjou isso , filho?
– Não sou seu filho, e não é problema seu onde eu arranjei. Tá interessado?
– Em qualquer outro mundo que não este, pode crer que eu estaria
interessado, mas... – O sujeito balançou a cabeça. – Não. Nenhum canal para
desovar o material. Teria que contrabandear para fora do planeta, e isso é
arriscado demais. Eles me mandariam para as minas de Kessel para escavar essa
coisa infernal. Brilhestim pode ser perigoso, sabe. Te deixa cego se você tomar
demais. Deixa os Biths loucos, sabe.
– Sei disso tudo – retrucou Han, impaciente. – Obrigado por nada, chapa.
Fazendo cara feia, Han saiu da taverna.
Finalmente esbarrou com Darak Lyll na quinta taverna que visitou.
Reconheceu o traficante pela descrição do pivete. Lyll jogava sabacc e, quando
viu Han parado ali, observando o jogo, cordialmente chamou o jovem corelliano
com um aceno.
– Topa jogar uma mão?
Han já tinha jogado sabacc antes, mas não era esse o motivo da sua vinda.
Encarou Darak Lyll diretamente e ergueu as sobrancelhas.
– Tudo depende do que você aceitar como aposta, Lyll.
A expressão do homem não mudou em nada enquanto ele deu uma olhada
casual para Han.
– Tem alguma coisa boa, piloto?
– Talvez.
– Bem, a aposta inicial é de vinte créditos.
Han balançou a cabeça.
– Mudei de ideia. Vou lá fora pegar um ar fresco.
O rapaz esperou do lado de fora, encostado na parede do beco, por uns 5
minutos. Quando ouviu alguém se aproximando, Han falou sem olhar:
– Demorou bastante. Estava ganhando?
– Mão do idiota – explicou Lyll, usando o jargão de jogador de sabacc para
uma poderosa sequência vencedora. – Então, o que você tem?
Han se virou para o homem.
– Brilhestim. Cem frascos.
– Uau! – Darak Lyll assoviou, impressionado. – Onde você arranjou isso ?
– Não é assunto seu – retrucou Han. – Vai querer? Faço um bom preço...
– Bem que eu queria, meu jovem amigo, bem que eu queria – respondeu
Lyll, soando pesaroso. – Mas eu seria um idiota de aceitar. Não tem mercado
nenhum aqui em Alderaan.
Han praguejou em voz baixa e lhe deu as costas. O que eu vou fazer? ,
perguntou-se. O tempo dele estava definitivamente acabando. Talvez ele devesse
embarcar num transporte intercontinental e tentar outra cidade. Talvez só Aldera
fosse assim tão absolutamente limpa neste mundo.
Han suspirou. Não tenho tempo. Ou vendo o bagulho em uma hora, ou eu ...
Alguém pôs a mão em seu ombro. Han precisou de cada gota de autocontrole
que tinha para não gritar e sair correndo, de tão tenso que estava. Em vez disso,
apenas se virou e olhou feio para o homem de meia-idade e pele escura que
caminhava ao seu lado.
– Acho que você me confundiu com outra pessoa – afirmou o rapaz com voz
calma.
– Acho que não, Vykk – respondeu o homem. – Piloto Vykk Draygo, vindo
de Ylesia, não é?
– E se eu for? – retrucou Han. – Eu não te conheço.
– Marsden Latham – apresentou-se o sujeito, sacando um distintivo de
holoidentidade debaixo do nariz de Han. – Força de segurança interna
alderaaniana.
Ah, não...
– Estamos de olho em você, piloto Draygo, desde que você chegou todo
estragado esta manhã. Ficamos felizes em poder ajudar com os reparos e com o
tratamento do seu colega. Você viu aquela mensagem quando entrou no alcance
da frequência de Alderaan?
– Vi.
– Bem, é para ser levada a sério. Não gostamos de encrencas aqui. – O
homem sorriu de repente, mostrando dentes muito brancos e retos. – Você não
gostaria de provocar encrencas, gostaria, piloto?
Han fez um esforço para manter o rosto impassível. Eles sabem que eu andei
tentando vender o bagulho ... devem estar me vigiando a manhã inteira ...
Silenciosamente, amaldiçoou o policial. Em voz alta, respondeu:
– Claro que não, senhor. Sou um cara do tipo paz e amor.
– Disse isso ao meu chefe e fico feliz que a minha impressão tenha se
confirmado. Bom falar com você, piloto Draygo. Tenha uma boa estadia em
Alderaan.
Os passos do homem se alongaram e aceleraram, então, e ele se afastou de
Han, rua acima.
O corelliano se forçou a continuar andando devagar, a não olhar para trás.
Sem dúvida alguma eles estariam lá, seguindo-o. A brincadeira acabara, e Han
tinha perdido. Fez uma cara feia e balançou a cabeça, meio aborrecido, meio
impressionado. Aqueles agentes de segurança eram muito bons. Han não fizera
ideia de que estava sendo vigiado.
Era óbvio que a “conversa” do homem tinha sido uma advertência não tão
velada para que ele parasse de tentar vender a carga. Teria que levá-la de volta a
Ylesia. Não havia nenhum outro planeta próximo que ele pudesse alcançar para
fazer negócio.
Conferiu a hora e percebeu que teria tempo apenas para visitar Muuurgh
antes de ligar para Ylesia. Han apertou o passo e seguiu para a estação de
transporte público mais próxima.
O hospital universitário aonde o Togoriano tinha sido levado ficava no
campus da Universidade de Alderaan. Han saltou do transporte e deu uma
olhada em volta por um momento. Bacana... pensou ele, bacana mesmo... Por
um momento, perguntou-se se a Academia seria parecida com aquilo.
Provavelmente não , concluiu. É uma instalação militar. Vai ser mais parecida
com uma base, aposto ... mas isto aqui ... é classudo de verdade ...
Gramados verdes e azuis se estendiam pelo quadrângulo central. Canteiros
de flores criavam manchas brilhantes de cor e cercavam o imenso chafariz
central. No meio do chafariz havia uma enorme escultura em gelo vivo de um
jovem casal alderaaniano de mãos dadas e estendidas aos céus. Ei, isso deve
valer um barril de créditos , pensou Han, espiando a escultura e concluindo que
deveria ser uma obra de arte sem preço.
Definitivamente um casebre de classe , decidiu Han enquanto passava ao
lado da escultura e seguia em direção à impressionante escadaria de pedra branca
que levava ao hospital.
O infodroide na recepção forneceu o número do quarto do Togoriano. Han se
apressou pelos corredores e, diante do quarto, parou para falar com o droide
médico.
– Seu amigo sofreu um impacto severo no crânio – explicou o droide. –
Provavelmente teria matado um humanoide. Felizmente, Togorianos têm tecidos
ósseos muito densos, portanto ele está relativamente ileso. Está recebendo
tratamento de cura rápida desde que chegou aqui e deve estar pronto para partir
amanhã de manhã.
– Obrigado – disse Han, abrindo a porta e entrando.
Muuurgh estava enrodilhado num grande catre redondo. Estava coberto por
pequenos sensores que monitoravam sua condição. Quando Han entrou, o
Togoriano abriu os olhos azuis. Muuurgh se ergueu parcialmente.
– Piloto!
– Ei, como vai você, meu chapa? – Han ficou surpreso ao sentir uma imensa
onda de alívio ao ver o Togoriano consciente e lúcido outra vez. Não tinha
percebido que passara a gostar tanto do grande felinoide. – Tão te tratando
direito?
– Piloto... – Muuurgh dava impressão de estar completamente espantado de
encontrar Han ali.
– Você parece surpreso em me ver – comentou Han. Era um tremendo
eufemismo. Muuurgh não parecia surpreso, ele estava totalmente pasmo.
– Muuurgh está... – O grande alienígena balançou a cabeça peluda, meio
tonto. – Quer dizer, eu estou sim. Não pensei que veria você de novo nunca
mais.
Han se endireitou.
– Por que não? Você achou que eu ia simplesmente largar você aqui e sumir
com a carga?
– Isso – confirmou Muuurgh com simplicidade.
– Bem, eu tô aqui, não tô? Se eu não tivesse arrastado nós dois até o espaço
de Alderaan por um triz, você estaria morto agora. Sugiro que você se lembre
disso, chapa. Você me deve uma.
Muuurgh concordou com a cabeça, tonto.
– Sim, Piloto... Eu lhe devo uma.
Han fez uma careta e se sentou na beira do catre.
– E chega dessa formalidade de “piloto”. Sou Vykk de agora em diante, está
bem?
Muuurgh estendeu a pata e a pousou com gentileza no braço de Han. Os
enormes dedos com as garras agora retraídas faziam o membro humano parecer
minúsculo.
– Certo, Vykk...

Depois que Han deixou Muuurgh aos cuidados atenciosos dos droides
médicos, voltou à Sonho e ligou para Ylesia. Teroenza não estava disponível,
então ele pediu para falar com Veratil. Quando o semblante chifrudo e inchado
do Ylesiano apareceu na tela, Han lhe deu um relato resumido das aventuras
recentes, prometendo partir de volta para Ylesia no dia seguinte. Veratil, por sua
vez, se comprometeu a providenciar o pagamento pelos reparos da nave e o
tratamento de Muuurgh.
Depois de encerrar a chamada, Han percebeu que estava com fome. Então,
depois de conferir sua pequena reserva de créditos, seguiu para uma combinação
de taverna e lanchonete no campus da Universidade de Alderaan. Ficava num
pátio reservado, e um chafariz das cores do arco-íris lançava cascatas de gotas
cristalinas no ar diante da entrada.
Han abriu a porta e entrou.
A taverna estava cheia de jovens vestidos com roupas da moda...
conversando, rindo, bebendo e comendo. Han hesitou, sentindo-se subitamente
inibido, mas sua ousadia natural veio ao resgate. Sou tão bom quanto qualquer
um deles, pensou ele, desafiador, seguindo o droide garçom até uma mesinha.
Apesar da fachada de coragem, o jovem corelliano estava embaraçosamente
ciente da forma como seu macacão manchado de suor e jaqueta surrada
contrastavam com os trajes elegantes e contemporâneos dos estudantes que
papeavam e riam nas mesas.
Uma vez sentado, Han pediu uma cerveja alderaaniana. Estudou o menu e
notou que o lugar oferecia, como prato do dia, “cubos de nerf e tubérculos em
molho de vinho”. Era meio caro, mas ele pediu mesmo assim, sabendo que nerf
era conhecido como uma iguaria. O ensopado veio com um prato de pão ázimo,
o que o fez pensar na Peregrina 921. Queria que ela estivesse aqui, pensou ele.
Seria legal ter alguém com quem conversar... Mergulhou um pedaço de pão no
caldo, provou, mastigou e sorriu. Isto é bom demais! Fazia muito, muito tempo
que ele não comia algo bom de verdade... os habitantes da Sorte de Mercador
frequentemente sobreviviam à base de rações espaciais durante as viagens. As
únicas vezes que Han comera bem tinha sido quando desempenhava um papel
num dos golpes de Garris Shrike. Lembrava de um churrasco a que tinha ido em
Corellia. Costelas de traladon com molho especial...
Só que mesmo costelas de traladon grelhadas não se igualavam a nerf,
concluiu ele. Esfomeado, Han caiu matando no prato. Quando estava na metade,
uma menina bonita com longos e cacheados cabelos castanhos e olhos azuis
brilhantes subiu no pequeno palco, carregando uma bandoviola. Sentou-se num
banco e começou a dedilhar. Então, um momento mais tarde, sua voz soou, clara
e cristalina, no que era evidentemente uma balada tradicional alderaaniana.
Era aquela história de sempre, sobre uma garota que perdeu o namorado para
o encanto das trilhas espaciais, e como ela o esperava, mas ele nunca voltava
para casa – só que a voz da cantora era tão pura, tão sem afetações, que ela
conferia emoção verdadeira e dignidade à letra cheia de clichês.
Depois que ela terminou, Han, acompanhado dos outros presentes, bateu
palmas com entusiasmo. A jovem cantou outra canção, depois desceu do palco e
veio direto na direção de Han. Por um momento, ele achou – torceu! – que ela
estivesse vindo se sentar com ele, mas não teve essa sorte. Ela se acomodou num
assento na mesa ao lado.
Como a taverna era evidentemente um ponto de encontro popular, as mesas
ficavam todas bem próximas; a moça estava a um braço de distância de Han. A
outra pessoa na mesa era um jovem de rosto redondo, um ano ou dois mais velho
que o piloto. Provavelmente o namorado dela, pensou Han, espiando o rapaz
disfarçadamente. Tinha cabelos castanho-claros e olhos verde-castanho-claros
pálidos. Ao contrário da garota, que vestia um vestido simples, que descia até os
tornozelos, e sandálias, o acompanhante era um tributo à moda moderna.
Sua túnica roxa era atada com um largo cinturão laranja que contrastava com
as botas vermelhas até os joelhos. As calças amarelas aderiam às pernas como
uma segunda pele. Han, em seu velho macacão cinzento, parecia um pardal perto
de uma ave do paraíso.
Quando a cantora jogou o cabelo para trás e sorriu triunfante, Han conseguiu
chamar sua atenção. Fez um gesto de bater palmas em silêncio, e ela sorriu e se
curvou em agradecimento.
– Você foi ótima! – disse ele.
– Obrigada! – respondeu ela. – Foi a primeira vez que eu tive coragem de
cantar diante de uma plateia! – A garota estava corada, sem fôlego e era muito
charmosa. Han sorriu de volta para ela. Não me incomodaria em passar algumas
horas (e o resto da noite) com ela...
Em voz alta, ele disse:
– Somos uma plateia muito sortuda, então. Testemunhamos o nascimento de
uma grande carreira.
– Obrigada! – Ela estendeu a mão. – Sou Aryn Dro, e este é Bornan Thul.
Han tomou a mão dela e, em vez de apertar, curvou-se sobre ela, como se
Aryn fosse da nobreza corelliana. Seus lábios não chegaram a tocar as costas da
mão da cantora, mas chegaram perto o bastante para que ela sentisse o calor do
hálito dele na pele.
– Estou honrado, Aryn – disse ele. – Vykk Draygo.
Depois que soltou a mão de Aryn e se virou para cumprimentar o rapaz, Han
percebeu que este estava irritado e não fazia o menor esforço para esconder.
– Saudações... – disse Han, já que não sabia qual honorífico seria apropriado
em Alderaan, isso se eles usassem algum.
– Saudações – respondeu Thul. – Aryn, você esteve magnífica. Gostaria de ir
a algum outro lugar para celebrar seu triunfo?
Não aguenta a competição ... pensou Han, sufocando um sorriso maroto. Ele
também tinha visto os olhos azuis de Aryn se iluminando quando Han se
apresentou.
– Olha, não quero atrapalhar – afirmou Han, abrindo seu sorriso mais
charmoso para a cantora. – Só queria lhe dizer o quanto eu gostei de te ver
cantar. Não vou mais tomar seu tempo.
Thul o encarou como se quisesse dizer “ótimo!” mas não tivesse coragem.
Aryn balançou a cabeça e pousou a mão de forma reconfortante no braço de
Han.
– Ah, não! Claro que você não está atrapalhando... Vykk. – Ela espiou o
macacão. – Eu ia perguntar se você era aluno aqui, mas você não é, é?
Han fez que não com a cabeça.
– Não, eu só estou por aqui esta noite. Cheguei esta manhã para fazer
reparos. Me meti numa luta com alguns piratas e minha nave sofreu alguns
danos.
Os grandes olhos azuis se arregalaram ainda mais.
– Nave? Piratas? Você é piloto estelar?
Han deu de ombros modestamente.
– Sou.
Bornan Thul estava ficando irritado, o corelliano notou. Não gosta da ideia
da sua garota conversando com um cara trabalhador que nem eu, esse palhaço
metido a besta... bem, azar o seu, irmão Bornan...
– Minha nossa... – suspirou Aryn. – Isso é tão... empolgante. Piratas de
verdade? O que aconteceu?
Han deu de ombros outra vez.
– Saí do hiperespaço, e eles colaram em mim mais rápido que fedor num
skeeg. Dois deles. Detonei um, mas os dois juntos conseguiram estragar meu
hiperdrive. Então eu vim para Alderaan consertar a nave.
– Você detonou um? – inquiriu Bornan agressivamente, erguendo uma
sobrancelha cética. – Com o quê?
– Com um míssil Arakyd, meu chapa – respondeu Han calmamente. –
Explodi o traseiro dele em mil pedacinhos.
Aryn teve um calafrio, em parte de excitação, em parte de aflição.
– Isso parece... realmente assustador.
Han deu um gole na cerveja.
– Um mero dia de trabalho – comentou, deliberadamente lacônico.
A essa altura, Bornan já tinha aturado demais. Com o rosto vermelho, ele
segurou o braço de Aryn.
– Querida, vamos indo? Vou levar você ao melhor restaurante da cidade. Se
você nos dá licença... Piloto Draygo.
Aryn hesitou por um longo momento. Eu poderia conquistá-la, pensou Han.
Sei que poderia. E isso ia deixar esse babaca de alta classe realmente fulo da
vida, ver sua garota sair daqui comigo...
Por um momento, Han se sentiu tentado, depois decidiu relaxar e abrir mão
da conquista. Sentia que Aryn era uma garota muito legal , alguém que não
merecia ser tratada como uma peça de jogo para que ele pudesse ganhar pontos
em cima do namorado arrogante dela. Uma das razões que ele a achava tão
atraente, Han percebeu, era que Aryn o lembrava um pouco de 921, com seus
grandes olhos azuis e sorriso doce.
Além disso, pensou ele, aqueles sujeitos de segurança provavelmente ainda
estão me seguindo. O velho Bornan aqui poderia ser homem o bastante para
comprar uma briga, e se eles ainda estiverem por aí, a coisa pode ficar feia...
Então Han se levantou de forma respeitosa e se curvou formalmente para
Aryn.
– Foi um grande prazer – disse. – Divirta-se na sua celebração.
– Obrigada... – respondeu ela, abrindo um último e rápido sorriso para o
piloto antes de deixar que Bornan a conduzisse para fora.
Han se sentou de volta com o jantar que esfriava, refletindo que o incidente
reforçava o quanto ele detestava gente rica e metida. Tinha encontrado muitos
deles em Corellia, quando trabalhava nos golpes de Shrike, e o fato de que a
maioria deles não valia o custo de um tiro de arma de raios para desfazê-los em
átomos era a única coisa que possibilitara sua participação nos golpes.
Quando Han chegou à Sonho Ylesiano e à minúscula cama de campanha que
tinha sido instalada na área de carga para ele, já estava meio afetado pela cerveja
alderaaniana. Pensamentos sobre 921 continuavam voltando à sua cabeça, e ele
praguejou em voz alta na nave silenciosa, desejando ser capaz de parar de
pensar nela. Han nunca tinha encontrado uma mulher em quem pensasse tanto
quando não estava com ela...
Saber que 921 tinha se aninhado tão profundamente na sua mente deixava
Han perturbado e incomodado. Ela é só uma garota, Solo. Você nem sabe o
maldito nome dela. Pare de sonhar acordado assim. Tá ficando abestalhado?
Han se jogou na cama e grunhiu em voz alta, relembrando os eventos do dia.
Que planeta, pensou ele, sonolento. Tão certinho que um cara não consegue
nem vender uma carga perfeitamente boa de especiaria...

A viagem de volta a Ylesia foi tranquila. Han pilotou a Sonho através das
nuvens na reentrada sem problema nenhum, e praticamente não houve
turbulência. Nem mesmo Muuurgh, que ainda sofria de dor de cabeça, pôde
reclamar. Para Han, o processo de ver, analisar e evitar os imensos sistemas de
tempestades do planeta estava se tornando algo instintivo.
Assim que a nave se assentou na plataforma de pouso, o comunicador de
Han ganhou vida, convocando-o para se encontrar com Teroenza imediatamente.
Han já esperava por isso. Mandou Muuurgh para a enfermaria para que
cuidassem da sua dor de cabeça e caminhou sozinho até o centro administrativo.
Desta vez, foi recebido por Ganar Tos e escoltado ao santuário interior do
sumo sacerdote, que já tinha visitado antes. Teroenza descansava numa peça de
mobília muito exótica – um tipo de rede que permitia que o sumo sacerdote se
reclinasse para trás sobre os imensos quartos traseiros, tirando o peso das patas
posteriores. As grossas pernas dianteiras ficavam apoiadas num descanso
acolchoado que girava para dentro e para fora, permitindo que ele entrasse e
saísse da engenhoca.
Assim que o sumo sacerdote viu Han, sua expressão (que o rapaz estava
começando a conseguir interpretar) se tornou positivamente benevolente.
– Piloto Draygo! – ribombou. – Fiquei sabendo que você é um herói! Sua
bravura e coragem não têm preço, mas ordenei que um bônus fosse depositado
na sua conta.
Han piscou, depois sorriu.
– Obrigado, senhor.
– No último ano e meio, perdemos duas naves que deixaram de voltar dos
pontos de encontro – continuou Teroenza. – Você é o primeiro piloto a dar uma
olhada nos atacantes e voltar para nos contar quem eram. O que você viu?
Han deu de ombros.
– Bem, tudo aconteceu muito rápido, e eu estava meio que ocupado, senhor.
Mas eu tenho bastante certeza de que a nave que eu destruí era de construção
drelliana. Parecia muito. Aquela proa afilada e popa atarracada são bem
distintas.
– Eles se comunicaram com você? Deram alguma chance de se render antes
de atacar?
– Não, eles chegaram atacando e atiraram sem parar. Não estavam tentando
destruir a Sonho , porque, se eles quisessem isso, teriam conseguido. Só que eles
não tinham interesse pela nave, o que é estranho. A maioria dos piratas tentaria
enfraquecer a nave o suficiente para tomá-la, mas sem causar estragos que não
fossem fáceis de consertar, para poderem usá-la ou vendê-la depois. Esses caras
queriam avariar a Sonho e matar Muuurgh e eu.
– Como eles atacaram?
– Por trás. Poderiam ter detonado a gente antes mesmo que soubéssemos que
eles estavam lá. Tiveram pelo menos dois tiros livres, e os escudos da Sonho não
são tão bons assim. – Ao se lembrar da batalha, Han respirou fundo. – Acho que
temos que reforçar os escudos, senhor.
– Vou mandar que isso seja feito, piloto – concordou Teroenza. O enorme
T’landa Til cruzou os bracinhos e franziu a testa imensa enquanto considerava o
relatório de Han. – Interessante que eles tenham atacado primeiro, sem usar um
raio trator para tentar provocar sua rendição.
– É... foi isso que eu pensei.
Han havia conhecido vários mercadores na Sorte que tinham passado algum
tempo em tripulações de piratas e tinha ouvido esses sujeitos se gabando sobre
suas aventuras. Um ataque direto não fazia o estilo piratesco; teria sido mais
típico que um pirata interestelar disparasse um tiro de advertência, e então,
depois que o piloto tivesse se rendido, abordasse a nave.
– Estranho, é como se eles tivessem planejado aleijar a Sonho ,
provavelmente matando Muuurgh e eu no processo, e então abordar, enquanto
ela estivesse à deriva no espaço.
– Absolutamente nenhuma comunicação ou exigência de rendição.
– Não – confirmou Han.
Teroenza alisou as dobras de pele frouxa da papada pensativamente.
– Quase como se eles estivessem dispostos a correr o risco de destruir a
Sonho e sua carga em vez de se comunicar com você...
– É, eu diria que sim.
– Quão perto você estava do ponto de encontro quando foi atacado?
– A gente tinha saído do hiperespaço há menos de cinco minutos. Sem
dúvida, senhor, eles estavam esperando. Sabiam que a gente estava chegando.
– Você fez alguma transmissão fazendo referência à sua rota ou coordenadas,
piloto Draygo?
– Não, senhor. Conforme instruído, mantive silêncio estrito em todas as
frequências.
Teroenza retumbou nas profundezas do peito, enquanto pensava, e por fim
assentiu com a enorme cabeça chifruda.
– Mais uma vez, parabéns pela sua bravura. Como vai Muuurgh?
– Ele vai ficar bem. Mas levou uma bela pancada na cabeça.
– Quero falar com ele quando estiver melhor. Muito bem, piloto, dispensado.
Han não se moveu.
– Senhor... gostaria de pedir um favor.
– Sim?
– Minha pistola de raios foi confiscada quando eu cheguei em Ylesia. Queria
ela de volta. Se há chance de eu ser abordado por piratas em algum momento do
futuro, quero poder atirar de volta.
Teroenza considerou por um momento, depois fez que sim com a cabeça.
– Vou mandar que lhe devolvam sua arma, piloto. Você certamente
demonstrou sua lealdade e conquistou nossa confiança com suas ações nestes
últimos dias. – O enorme ser acenou com a mãozinha. – Diga-me, piloto Draygo,
nunca lhe ocorreu tentar vender a carga e nos dizer que ela foi roubada por
piratas?
Han balançou a cabeça.
– Não, senhor, de forma alguma – respondeu ele, soando sincero.
– Muito bem. Eu estou... impressionado. – A boca larga e sem lábios de
Teroenza se curvou para cima naquilo que obviamente era para ser um sorriso de
aprovação. – Muito impressionado...
Han saiu do centro administrativo, grato por ser capaz de mentir de forma
convincente desde os 7 anos de idade. Estava especialmente orgulhoso da
habilidade de inventar histórias no calor do momento.
Seus passos o levaram pela trilha da enfermaria. Hora de conferir Muuurgh,
ver como o Togoriano estava. Além disso... era hora de conhecer Jalus Nebl, o
piloto Sullustano que tinha sido colocado em licença médica.
Han tinha algumas perguntas para o Sullustano...
Muuurgh estava deitado, enrodilhado num dos grandes catres que a espécie
dele usava como cama. Han foi até o Togoriano e se sentou ao lado dele.
– Como vai a cabeça?
– Minha cabeça ainda dói – respondeu Muuurgh. – O droide médico disse
que eu tenho que ficar aqui esta noite. Mas eu lhe disse que não, eu não poderia
fazer isso, porque Vykk poderia precisar de mim.
– Não, eu estou bem – garantiu Han ao grande felinoide. – Vou visitar o
Sullustano, jantar, treinar no simulador e praticar um pouco de tiro ao alvo.
Depois eu vou me deitar cedo. Foi um longo dia.
– Vykk falou com Teroenza sobre os piratas?
– É, falei sim. Ele vai querer conversar com você quando você conseguir. E...
boas notícias. Teroenza me deu minha pistola de volta.
– Ótimo – afirmou Muuurgh. – Vykk precisa se proteger de piratas.
– Foi isso que eu comentei, meu chapa. – Han se levantou. – Escuta, eu vou
no quarto ao lado, bater um papo com o outro piloto. Volto aqui para te ver de
novo amanhã de manhã, está bem?
Muuurgh se espreguiçou luxuriantemente, depois se enrodilhou no catre,
parecendo quase um enorme círculo negro e peludo.
– Tudo bem, Vykk.
Han seguiu pelo corredor até encontrar o droide médico, depois pediu para
ser levado ao quarto do piloto Sullustano.
Uma vez lá, tocou a campainha e, um momento depois, ouviu uma voz em
sullustano dizer:
– Entre.
Han abriu a porta e se deparou com uma parede de vento que cobria a
entrada como uma cortina. O rapaz passou do calor a uma atmosfera fria e
refrescante. A porta se fechou atrás dele com um sibilo. Ar enlatado, percebeu
Han. Eles colocaram o Sullustano num sistema de ar recirculante, para que ele
não respire ar ylesiano. Por que será?
Jalus Nebl estava sentado diante de uma vid-unidade de entretenimento,
assistindo a um documentário de notícias galácticas. Han foi até lá e ofereceu a
mão ao ser olhudo com bochechas caídas.
– Oi, sou Vykk Draygo, o novo piloto. Prazer em conhecê-lo.
Falou em básico, torcendo para o alienígena entender. O ser bochechudo
assentiu para Han e respondeu na própria linguagem, rápida e aguda.
– Você entende a língua do meu povo, ou vamos precisar de um tradutor para
conversar?
– Eu entender – respondeu Han em sullustano extremamente precário –, mas
fala só mau. Entender básica você bom?
– Sim – confirmou o Sullustano. – Eu entendo língua básica muito bem.
– Ótimo – concluiu Han, voltando ao próprio idioma. – Você se importa se
eu me sentar?
– Por favor, fique à vontade – respondeu o outro piloto. – Eu já queria falar
com você há algum tempo, mas estive muito doente e, como você pode ver,
confinado a estes poucos aposentos onde o ar é filtrado especialmente para mim.
Han se sentou num banco baixo e deu uma boa conferida no alienígena. Não
conseguiu ver nenhum ferimento ou dano externo.
– Que chato, meu chapa. O que foi que aconteceu? Trabalho demais?
A boca pequena e molhada do Sullustano se franziu, infeliz.
– Missões demais, é. Tempestades demais, eu tive que enfrentar. Quase-
colisões demais, meu amigo. Um dia eu acordei, e minhas mãos... – O
Sullustano ergueu as pequenas mãos delicadas com suas estreitas unhas-garras
ovais. – ... minhas mãos não paravam de tremer. Eu não conseguia mais lidar
com os controles da minha nave. – A expressão já pesarosa do alienígena ficou
ainda mais triste. Han quase esperou ver lágrimas enchendo aqueles grandes
olhos já tão úmidos.
Han espiou as mãos do outro piloto e viu que, de fato, tremiam
descontroladamente. Sentiu uma mistura de consternação e pena. Pobre sujeito!
Isso deve ser horrível!
– Mas que azar, meu chapa – comentou o rapaz. – Foi só, cê sabe, os seus
nervos indo pro espaço, ou o quê?
– Muita pressão, sim – concordou o Sullustano. – Missões demais, descanso
de menos, repetidamente. Tempestades demais. Só que também... muito
transporte de brilhestim. Droide médico diz que eu tenho reação ruim a isso.
Deixa Jalus Nebl muito doente mesmo.
Han se ajeitou desconfortável no banco.
– Você quer dizer que é alérgico a brilhestim?
– Isso. Descobri assim que comecei a transportar e tentei ficar longe da
substância, mas está no próprio ar deste mundo. Mesmo trancado naqueles
frascos, mínimos resíduos escapam no ar. Quando Jalus Nebl respira isso tudo,
ao longo de dias, semanas, mais de um ano planetário... causa maus efeitos.
Tremores nos músculos. Reflexos reduzidos. Estômago revirado, respiração
difícil...
– Então é por isso que você está confinado à enfermaria, com esses filtros de
ar – percebeu Han. – Tentando tirar isso aí do seu sistema.
– Correto. Eu quero voar de novo, amigo e colega piloto Draygo. Você é um
dos poucos que conseguem entender, correto?
Han pensou em como se sentiria se não pudesse mais voar – se ficasse tão
sobrecarregado de trabalho e envenenado por exposição a especiaria que suas
mãos tremessem o tempo todo – e assentiu com a cabeça.
– Ei, chapa – comentou ele com sinceridade. – Lamento muito mesmo.
Espero que você melhore logo. – Baixou a voz e passou a falar em jargão de
mercador. – Entende tu fala-de-mercador, amigo?
O Sullustano fez que sim com a cabeça.
– Não falo – respondeu, em voz igualmente baixa. – Mas entendo bem.
Han deu uma olhada para o teto. Estariam os Ylesianos ou seus seguranças
monitorando o quarto? Não havia como ter certeza. Mas Han não conhecia
muitos droides capazes de traduzir jargão de mercador, porque se tratava de uma
mistura bastarda de uma dúzia ou mais línguas e vários dialetos, sem uma
sintaxe fixa. Han aumentou o volume do documentário mais... e mais, depois
disse, mal emitindo som:
– Amigo-piloto, quando mãos ficar firme, então se eu você, não dizer adeus,
só voar para longe mau mundo de especiaria, rápido rápido, entende?
O Sullustano fez que sim com a cabeça.
Han baixou um pouco o volume do programa, depois continuou
conversando, como se nada tivesse acontecido.
– Fui atacado por piratas outro dia.
O Sullustano se inclinou para a frente.
– O que aconteceu?
– Eles atiraram na minha nave, estragaram os motores hiperdrive, mas eu
consegui pegar um deles com um míssil – contou Han, fazendo um gesto de
“buum” com as mãos. – Tive que fazer uma parada em Alderaan para o conserto.
Já passou por lá?
– Mundo legal – comentou o Sullustano secamente. – Legal até demais, em
alguns aspectos.
– Nem me fale – concordou Han de coração. – Enfim, quando cheguei aqui
de volta, Teroenza me fez um milhão de perguntas sobre que tipos de nave os
piratas usaram, por que eles não dispararam tiros de advertência ou tentaram
sequestrar a Sonho , coisas assim. Eu fiquei com a impressão clara de que esse
ataque era algo mais que uma mera ação de pirataria. Para começar, eles estavam
me esperando no ponto de encontro. Como poderiam ter descoberto as
coordenadas?
– Ah – disse Jalus Nebl. – Pode mesmo haver muita coisa por trás desse
ataque, piloto.
– Por favor... me chame de Vykk. Nós, pilotos, temos que ficar unidos.
– Você me chame de Nebl, então. Meu nome de ninho.
– Obrigado. Então, o que você acha que está acontecendo?
– Acredito que os T’landa Til estejam preocupados que essas naves “piratas”
possam ser na verdade de Nal Hutta. Despachadas por Hutts, se passando por
piratas comuns.
Han assoviou baixinho.
– Por todos os Lacaios de Xendor... essa foi demais. Os Hutts estão lutando
uns contra os outros?
– Não é difícil de acreditar se você já tiver passado um tempo entre eles –
comentou Nebl secamente. – As alianças dos Hutts são criadas e rompidas no
girar de uma moeda. A lealdade hutt derrete diante da perda de lucro ou poder,
sabe?
– Estou começando a perceber um padrão, aqui – afirmou Han, se ajeitando
desconfortável no banco duro, pensando em como chegou perto de virar poeira
cósmica. – Tem facções hutts em Nal Hutta?
– Ah, sim. Uma família ou clã acumula poder e riqueza só para cair quando
outra família planeja sua derrota. Não é de se espantar que os Hutts sejam os
mais desconfiados dos sencientes. Ser um provador de comida para um Hutt é
provavelmente uma carreira muito curta, Vykk. É bem difícil envenenar um
Hutt, mas isso não impede os assassinos de tentar e, de vez em quando, de
conseguir. Os clãs também não deixam de usar mísseis, assassinos ou tropas de
infantaria para atingir seus objetivos.
– Só que são os Hutts que realmente mandam aqui – argumentou Han.
– Ah! Você viu Zavval, então?
– Se esse for o filho da mãe inchado que anda por aí num trenó repulsor,
pode apostar que eu vi. Ainda não tive a honra de me encontrar com ele cara a
cara.
– Reze para isso nunca acontecer, Vykk. Zavval, como a maioria dos Hutts,
não é fácil de agradar. Os sacerdotes podem até ser mestres difíceis de satisfazer,
mas não são nada comparados aos Hutts, os mestres deles .
– Então, o que está rolando neste mundo? Temos Hutts que mandam aqui e
que estão brigando com outros clãs de Hutts em Nal Hutta. Por quê? – Han
pensou por um momento, depois respondeu à própria pergunta. – Ah. É claro.
Pela especiaria.
– Naturalmente. Os Hutts e os T’landa Til, seus representantes, lucram com
Ylesia de duas formas. Primeiro, tem a especiaria processada. Só que os Hutts
Ylesianos precisam comprar a especiaria-base de outras famílias Hutts que
fornecem a matéria-prima. Você já ouviu falar em Jiliac ou Jabba?
– Jabba? – Han franziu o cenho. – Jabba, o Hutt? Acho que ouvi falar nele
sim. Não é o tal do cara que praticamente controla toda Nar Shaadaa, a lua de
contrabandistas em órbita de Nal Hutta?
– Ele mesmo. Jabba divide o tempo entre seu lar em Nal Hutta e uma
operação de translado de especiarias que ele faz passar por um planeta no meio
do nada, chamado Tatooine.
– Tatooine? Nunca ouvi falar.
Nebl estremeceu.
– Acredite em mim, você não ia querer ir lá. É uma espelunca.
– Vou me lembrar disso. Então os tais Jabba e Jiliac pegam a especiaria crua
e mandam para cá para ser processada, certo?
– Isso. Só que eu acho que, ultimamente, eles podem estar tentando engordar
os lucros, mandando naves se passando por piratas para roubar os transportes de
especiarias ylesianos. Assim, Jabba e Jiliac ficam com a especiaria processada
de graça, algo que os agradaria imensamente.
Han franziu os lábios num assovio silencioso.
– Isso é que é morder a mão que o alimenta...
– De fato. Porém, não tenho dificuldade alguma em crer que eles são capazes
de tal ato.
Han passou a mão no cabelo e suspirou. Tinha sido um dia muito longo.
– É, pelo que eu ouvi, um Hutt venderia a própria avó por um crédito de
lucro; isso se eles tiverem avós.
– Portanto você precisa ser muito, muito cauteloso, jovem Vykk. Diga a
Teroenza que você precisa de escudos reforçados.
– Já disse.
– Ótimo. Mais poder de fogo também não seria ruim.
– É, tem razão. – Han encarou fixamente o Sullustano. – Nebl, já que a gente
tá conversando francamente aqui, me diz uma coisa. Essa religião que os
sacerdotes empurram pros peregrinos não vale nada, né?
– Acredito que não, Vykk. Porém, eu não entendo exatamente no que
consiste a Exultação. Não sou um fiel, então nunca a senti. Entretanto, a julgar
pela forma como os peregrinos reagem, tem um efeito mais intoxicante que
qualquer dose de especiaria.
– É, tem um coice brabo mesmo – concordou Han. – O que eu estou
percebendo é que essa coisa toda aqui em Ylesia é um imenso golpe para poder
processar especiaria baratinho.
– Não é o único motivo, Vykk. Você lembra que eu afirmei que havia duas
formas pelas quais os sacerdotes e Hutts lucravam com estas colônias?
– Lembro – disse Han. – Então me conta, qual é a segunda forma?
– Escravos – revelou Nebl sem rodeios. – Escravos treinados e dóceis. Os
Ylesianos exportam os peregrinos das fábricas de especiarias quando consideram
ter terminado seu treinamento e removido toda vontade de resistir. São levados a
outros mundos para serem vendidos. Seus lugares nas fábricas são ocupados por
novas levas de peregrinos.
– E os escravos estão submissos e condicionados demais para reclamar ou
contar a verdade sobre Ylesia e sobre o que aguarda os peregrinos por aqui? –
complementou Han.
– Certamente. E mesmo se eles falassem, quem é que escuta um escravo? E
se o escravo ficar barulhento demais... – Nebl fez um gesto súbito e
inconfundível com a mão, como se cortasse a garganta. – Silenciar um escravo é
fácil.
Han estava pensando em 921. Ela contou que já estava em Ylesia havia
quase um ano...
– Quanto tempo os escravos ficam aqui antes de serem despachados? E para
onde são mandados?
– O padrão é um ano. Eles mandam muitos dos mais fortes para Kessel, para
trabalhar nas minas de especiaria. Ninguém nunca sai vivo de Kessel, você sabe.
E os bonitinhos... São os poucos sortudos. Viram dançarinos ou dançarinas, ou
acabam nas casas de prazer de quartel. Uma vida sem dignidade, talvez, mas
muito mais fácil que escravidão e morte nas minas.
Nebl observava Han atentamente com seus olhos úmidos e luminosos.
– Por que você pergunta? Tem alguma escrava em particular que lhe é
importante?
– Bem... mais ou menos – admitiu Han. – Ela trabalha na fábrica de
brilhestim, lá no nível mais fundo. Já está aqui há quase um ano.
– Se você se importa com ela, deveria tirá-la daqui, Vykk – aconselhou o
Sullustano. – As taxas de mortalidade dos operários de brilhestim são muito
altas. A especiaria os corta, depois o fungo entra na corrente sanguínea deles, e...
– Nebl fez um gesto de jogar fora. – Tire-a daqui. Ser despachada para fora deste
mundo como escrava é sua última esperança.
– Fora deste mundo? – Han sufocou uma pontada de medo ao pensar que
poderia não ver a Peregrina 921 nunca mais. – O quê, eu tenho que torcer para
que ela seja mandada para uma casa de prazer de quartel, para ser um brinquedo
para soldados imperiais entediados?
– Melhor que uma morte lenta e dolorosa por envenenamento sanguíneo.
Han estava pensando rápido e não gostava de seus pensamentos.
– Escuta, Nebl, foi bom a gente ter conversado. Vou voltar para te visitar de
novo outro dia. Por enquanto... tem uma coisa que eu preciso fazer.
O alienígena acenou com a cabeça, compreensivo.
– Eu entendo bem, Vykk.

Uma vez do lado de fora, Han percebeu que o curto dia ylesiano estava
definitivamente terminando. Os peregrinos estariam nas devoções vespertinas.
Se ele corresse, talvez pudesse alcançar 921 e falar com ela. Tinha que inventar
algum jeito de tirá-la daquela fábrica e mesmo assim mantê-la em Ylesia.
Apesar do calor úmido e da garoa fina que caía, Han começou a correr pela
selva, até a trilha familiar. Seu peito ardia a cada respiração, depois dos
primeiros cinco minutos, mas ele se recusou a reduzir o passo. Tinha que ver o
rosto de 921 de qualquer jeito, se assegurar de que ela ainda estava lá, em Ylesia.
E se ela tivesse sido despachada? Ele nunca a encontraria... nunca! Han
sentiu o pânico roer os limites da sua mente e se xingou em todas as línguas que
conhecia. O que foi que deu em você, Solo? Você tem que se controlar! As coisas
vão bem para você aqui em Ylesia. No fim do ano, você terá uma pilha de
créditos lhe esperando numa conta em Coruscant. Agora não é hora de perder a
cabeça por causa de uma fanática religiosa qualquer. Supere isso!
Só que seu corpo e seu coração não estavam escutando aos apelos de sua
mente. Os passos de Han ficaram mais longos e rápidos até que ele começou a
correr a toda velocidade. Virou uma curva perto das Planícies Floridas e quase se
chocou contra os primeiros peregrinos que voltavam da cerimônia de fim de
tarde. Eles cambaleavam ou bamboleavam adiante, com aquela expressão
drogada e extasiada nos olhos vidrados.
Han começou a se acotovelar pela massa, sentindo-se como um peixe
nadando rio acima. Espiava os rostos na penumbra crescente, sob os chapéus,
procurando, procurando...
Cadê ela?
Cada vez mais preocupado, Han começou a segurar os peregrinos pelo braço
e inquirir se algum deles tinha visto a Peregrina 921. A maioria o ignorou ou só
olhou estupidamente, de queixo caído, mas finalmente uma velha mulher
corelliana apontou para trás com o dedão. Han se virou e descobriu 921 a
alguma distância atrás dos outros. O alívio lhe inundou o corpo. Se apressou ao
seu lado, ainda ofegante, suado e desarrumado por conta da corrida.
– Oi – ofegou ele, torcendo para que a saudação não tivesse soado tão
ridícula para ela quanto soara para ele.
Ela ergueu o olhar para o rapaz no crepúsculo.
– Oi – respondeu, incerta. – Você sumiu por um tempo.
– No espaço – explicou Han. Tomou o braço dela e passou a caminhar ao seu
lado. – Tinha carga para levar.
– Ah.
– Então, como vão as coisas? – indagou ele.
– Bem. A Exultação foi maravilhosa esta noite.
– É – concordou Han, aborrecido. – Tenho certeza de que foi.
– Como foi sua viagem, Vykk? – perguntou ela depois de um minuto de
silêncio. Han ficou feliz com a pergunta; era a primeira vez que 921 demonstrara
qualquer curiosidade sobre ele e sua vida.
– Acabou tudo bem – contou o rapaz, escolhendo um caminho pela trilha
enlameada, tentando não deixar as botas ainda mais sujas do que já estavam. Por
causa da corrida, sua perna estava emporcalhada até a altura dos joelhos. – Mas
uns piratas atiraram em mim.
– Ah, não! – Ela parecia angustiada. – Piratas! Você poderia ter se
machucado!
Han sorriu e mudou o braço de lugar para que eles caminhassem de mãos
dadas.
– Que bom saber que você se importa – comentou ele com um traço da sua
velha arrogância. Por um momento, Han achou que 921 poderia se afastar, mas
deixou que ele continuasse segurando sua mão.
Quando eles chegaram ao dormitório, já estava escuro. Han a levou até o
mesmo lugar, a meio do caminho entre a luz e as trevas. Então tirou os óculos
infravermelhos dela.
– O que você está fazendo? – indagou ela, nervosa.
– Eu quero te ver – explicou Han. – Você sabe que estes óculos escondem
seus olhos. – Han levou aos lábios e beijou a mão de 921. – Senti sua falta
enquanto estava fora – murmurou.
– Sentiu?
Han não conseguia definir se a ideia a agradava ou angustiava. Talvez
ambos.
– É, eu pensei em você – continuou ele baixinho. O rapaz percebeu que
nunca tinha sido tão honesto sobre seus sentimentos com uma garota. Pela
primeira vez na vida, não estava fingindo. – Eu não queria – acrescentou, com
sinceridade –, mas pensei. Você também sente alguma coisa, né? Um
pouquinho?
– Eu... eu... – gaguejou ela. – Eu não sei... – 921 tentou puxar a mão, mas
Han não deixou. Ele começou a beijar os dedos, os dedos cheios de cicatrizes e
cortes. O toque da pele da menina contra seus lábios o intoxicou tanto quanto a
cerveja alderaaniana. Ele despejou beijinhos delicados nos nós e pontas dos
dedos.
– Pare com isso... – sussurrou ela. – Por favor...
– Por quê? – indagou ele, virando a mão dela para beijar o pulso. Han se
sentiu extasiado com o saltar da pulsação dela contra os lábios. Pressionou a
boca contra a palma, sentindo o relevo das velhas e novas cicatrizes. – Você não
gosta?
– Sim... não... eu não sei! – explodiu 921, soando à beira das lágrimas. Puxou
a mão de volta e, desta vez, Han deixou, mas deu um passo à frente para pegar
sua manga.
– Por favor... – pediu o piloto, segurando-a com os olhos tanto quanto com as
mãos. – Por favor... não vá. Você não percebe que eu gosto de você? Eu me
preocupo com você, eu penso em você... Eu gosto de você. – Han engoliu, e isso
doeu. – Muito.
Ela ofegou e soou como um soluço de choro.
– Eu não quero que você goste – retrucou ela com a voz emocionada. –
Porque eu não posso gostar...
– Você não me disse nem o seu nome – acusou Han, sem conseguir esconder
o amargor na voz.
921 estava pronta para fugir, como um pássaro, com olhos arregalados e
atormentados.
– Eu gosto de você também – ela sussurrou, finalmente. A voz tremia. – Mas
eu não deveria. Só devo me importar com o Um e com o Todo! Você quer que eu
quebre meus votos, Vykk! Como eu poderia desistir de tudo em que acredito?
Ouvir a admissão de que ela tinha sentimentos por ele fez o coração de Han
dar um salto.
– Me diga seu nome – implorou ele. – Por favor...
921 o encarou, olhos brilhantes com lágrimas, depois sussurrou:
– É Bria. Bria Tharen.
Então, sem outra palavra, ela ergueu a barra do robe e saiu correndo pela
porta dormitório adentro.
Han ficou na escuridão e sentiu um lento e largo sorriso se abrindo no rosto.
Todo o cansaço sumiu, e o piloto se sentiu como se vestisse botas repulsoras.
Afastou-se do alojamento, ainda sorrindo, e mal notou quando os céus se
derramaram num temporal.
Ela gosta de mim... pensou ele, caminhando pela lama onipresente. Bria...
que bonito. Parece música ou coisa assim. Bria...

No dia seguinte, depois de longas horas pensando e planejando durante uma


noite praticamente sem dormir, Han foi atrás de Teroenza. Encontrou o sumo
sacerdote e Veratil relaxando nos alagadiços que ficavam a mais ou menos um
quilômetro do raso oceano ylesiano. Os dois sacerdotes se espojavam à vontade,
imersos em lama morna vermelha até os imensos flancos. De vez em quando,
um deles ficava de patas para cima e chafurdava um pouco para cobrir uma área
que tivesse secado.
Os dois Gamorreanos de guarda pareciam sentir uma profunda inveja dos
mestres. Han, por outro lado, chegou perto o bastante do lamaçal para sentir o
perfume e fez uma careta. Ugh! Fede como se alguma coisa tivesse morrido
semana passada!
O corelliano se equilibrou precariamente na margem e acenou para chamar a
atenção de Teroenza.
– Hã, senhor? Gostaria de falar com o senhor, se possível.
O sumo sacerdote estava de ótimo humor, relaxado com a lama. Acenou com
o bracinho.
– Nosso heroico piloto! Por favor, se junte a nós!
Entrar nesse lodo? De propósito? pensou Han, reprimindo uma careta. Só
que ele sabia que o T’landa Til lhe oferecia uma grande honra. Então suspirou.
Quando Teroenza lhe chamou de novo com um gesto, Han sorriu e acenou de
volta, animado. Desatou o cinto do coldre e pousou sua recém-recuperada pistola
no chão. Depois de tirar as botas, abriu o macacão de piloto e o tirou, ficando
apenas de shorts. Com cuidado, colocou a cartucheira do cinto em cima da pilha,
com o lado aberto virado para o lodaçal.
Então, com uma careta que tentou transformar em sorriso, o corelliano
desceu da margem. Lama vermelha subiu pelas pernas e, por um segundo, Han
quase entrou em pânico, imaginando que afundaria por completo até sumir de
vista. Só que havia chão sólido sob a lama. Acenando e sorrindo para os dois
T’landa Til, Han vadeou até a lama ficar na altura das coxas.
– Não é maravilhoso? – indagou Veratil, generosamente pegando uma
mãozada de lama e esfregando nas costas de Han. – Nada nesta galáxia se
compara a um bom banho de lama!
Han assentiu vigorosamente com a cabeça.
– É! Legal!
– Sugiro que você role um pouco – ribombou Teroenza. – Isso sempre me
recupera depois dos estresses da vida cotidiana. Experimente!
– Claro! – concordou Han, sorrindo entre dentes trincados. – Um bom
chapinhar nessa lama toda parece um sonho! – Cuidadosamente, ele se baixou na
lama e, com um grande slosh e um splat! , rolou completamente na coisa
gosmenta e viscosa. Não ajudou perceber que havia longas minhocas brancas
vivendo na substância. Han presumiu que não seriam carnívoras, ou os
sacerdotes não estariam se divertindo tão maravilhosamente.
Bria, meu bem, espero que você fique agradecida... pensou Han enquanto
completava seu giro e se sentava, recoberto do pescoço para baixo.
– Que maravilha! – exclamou. – Tão... melequento!
– Então, piloto Draygo... o que você queria falar comigo? – indagou
Teroenza enquanto se afundava languidamente ainda mais no lodaçal.
– Bem, acho que posso ter resolvido seu problema, senhor. Aquele de como
cuidar da sua coleção, quer dizer.
Teroenza girou a imensa cabeça sobre o pescoço quase inexistente.
– É mesmo? Como?
– Fiz amizade com uma das peregrinas, uma jovem do meu planeta natal.
Antes de ela ter vindo para cá, estava estudando para ser curadora de museu, e
sabe muita coisa sobre como cuidar de objetos raros. Antiguidades,
colecionáveis, essas coisas. Aposto que ela poderia catalogar e manter as coisas
na sua coleção.
Teroenza ouviu muito atento, depois o sumo sacerdote se sentou sobre os
quartos traseiros, esguichando lama ao seu redor.
– Não fazia ideia que uma de nossas peregrinas tinha recebido tal
treinamento. Talvez eu entreviste essa moça. Qual é a designação dela?
– É a Peregrina 921, senhor.
– E onde ela trabalha?
– Na fábrica de brilhestim, senhor.
– Há quanto tempo ela já está aqui em Ylesia?
– Quase um ano, senhor.
Teroenza se virou para Veratil, e os dois começaram a conversar na própria
língua.
Eu tenho que aprender a entender essa linguagem deles, pensou Han. Tinha
encontrado um programa que ensinava huttês básico e passara o mês estudando.
Só que não conseguira localizar nenhum guia ou programa de tradução para o
idioma t’landa til. Han prestou muita atenção, na esperança de decifrar o que os
sacerdotes diziam, mas t’landa til parecia ser diferente de huttês o suficiente para
que Han não entendesse nada.
Voltando-se para Han, Veratil perguntou:
– Essa Peregrina 921... você diria que ela é atraente, de acordo com os
padrões de avaliação de atratividade da sua espécie? Por exemplo, você a
considera interessante como uma parceira sexual em potencial?
Dentro da lama, Han cruzou os dedos.
– 921? Ah, não senhor, ela é... bem, para ser franco, senhor, é tão feia que, se
eu tivesse um bicho de estimação com aquela cara, faria ele andar de costas.
Ao escutar as palavras de Han, os dois santos seres caíram na gargalhada,
dando tapas com as mãozinhas no peito, o que, aparentemente, era a forma
daquela espécie de prestar tributo a uma frase espirituosa.
– Muito bem, piloto Draygo – ribombou Teroenza. – Você é realmente um
camarada esperto, e eu vou investigar essa jovem. – Ele chafurdou mais um
pouco, deixando a lama se acumular e escorrer pelos grandes flancos. –
Ahhhhhh... – suspirou com prazer.
– Então, Veratil. – Han se remexeu na lama até ficar de frente para o
sacredot. – Eu estou curioso com uma coisa. O senhor se importaria se eu fizesse
uma pergunta?
– De forma alguma – respondeu o sacerdote mais jovem.
– Como que vocês fazem aquele lance com os peregrinos todas as noites na
cerimônia? Aquilo que eles chamam de Exultação? Tem um coice brabo, o que
quer que seja.
– A Exultação? – Veratil deu uma risadinha, um som grave e ribombante. –
Aquele momento de êxtase que os peregrinos consideram uma dádiva divina?
– Isso mesmo – concordou Han. – Nunca consegui sentir – admitiu. Porque
eu lutei contra ele com toda a minha força, acrescentou silenciosamente. Porque
a última coisa que eu quero é uma criatura feia que nem você dando choques
nos meus neurônios de prazer...
– Isso porque você é um indivíduo com muita força de vontade, piloto
Draygo – explicou Veratil. – Nossos peregrinos vêm até nós porque não têm
muita força de vontade, são fracos e buscam orientação. E suas dietas foram
criadas para deixá-los ainda mais... maleáveis.
– A Exultação é o refinamento de uma habilidade que nós, machos da
espécie T’landa Til, usamos para atrair as fêmeas durante a temporada de
acasalamento – explicou Teroenza. – Estimulamos os centros de prazer criando
uma ressonância de frequência dentro do cérebro do receptor. Esse zumbido é
gerado pelo ar fluindo sobre os cílios no interior das nossas papadas, quando nós
as inflamos. Nossas fêmeas acham irresistível.
– Nós machos também temos uma habilidade de projeção empática em baixo
nível – continuou Veratil. – Se nos concentrarmos em nos sentir bem, podemos
projetar essas sensações sobre a multidão de peregrinos. Ambos efeitos,
combinados, produzem a Exultação.
– Que truque bacana! – exclamou Han, admirado. – É difícil de fazer?
– De forma alguma – respondeu Teroenza. – O mais difícil é ter que celebrar
aquelas cerimônias e preces intermináveis para os peregrinos. Às vezes, eu fico
tão entediado que quase caio no sono, enquanto espero pela minha vez de falar
durante a devoção.
– Ano passado, um dos sacredots chegou a cair no sono de verdade – contou
Veratil, ribombando com a versão da espécie dele para uma risada. – Palazidar
desabou ali mesmo. Os peregrinos ficaram muito chateados.
Os dois sacerdotes curtiram a memória. Han riu também, mas por dentro
fervia de raiva, pensando nos peregrinos que cambaleavam pela trilha, com
olhos brilhantes de devoção e fé religiosa. Este lugar faz qualquer um dos golpes
de Garris Shrike parecer brincadeira, pensou ele enojado. Alguém deveria
encerrar o negócio desses vermes gananciosos...
Por um momento, Han desejou que pudesse ser o cara que iria acabar com
aquilo. Depois, se lembrou que se arriscar pelos outros era um ótimo jeito de ter
a cabeça permanentemente separada do pescoço. Então por que você está
fazendo tudo isto por Bria? , indagou com sarcasmo sua mente traiçoeira.
Porque , respondeu o coração, o bem-estar de Bria se tornou tão importante
para mim quanto o meu próprio. Eu não tenho como evitar, as coisas
simplesmente são assim...
Agora que tinha alcançado a meta que o trouxera até ali, Han começou a
pensar em como se remover graciosamente (em termos metafóricos) da lama e
da companhia dos sacerdotes.
Foi resgatado pela chegada de um Hutt, que veio pairando sobre o lamaçal
no seu trenó repulsor. Um pequeno esquadrão de guardas trotava com vigor ao
lado, ofegando no calor úmido enquanto se esforçavam para acompanhar.
– Zavval! – Teroenza saudou seu mestre Hutt e se levantou respeitosamente.
Sentindo-se ridículo, Han fez o mesmo.
Aquele era o primeiro encontro ao vivo e de perto do corelliano com um
Hutt, e ele tentou não encarar o vulto imenso e reclinado da criatura, os enormes
olhos empapuçados em meio à pele castanha coriácea, e a gosma verde que
escorria dos cantos da boca. Ugh... eles são ainda mais feios que Teroenza e a
turma dele, pensou Han. O rapaz lembrou a si mesmo que os Hutts já eram
civilizados provavelmente desde muito antes que os seres humanos – mas ainda
assim não conseguiu eliminar a repulsa que a aparência deles causava.
Ou talvez sua repugnância viesse da simples consciência de que tinham sido
os Hutts que desenvolveram aquele plano de tocar uma religião em Ylesia como
forma barata de escravizar sencientes inocentes.
O Hutt se inclinou para Teroenza e disse em huttês:
– Recebi uma mensagem de casa. Jabba e Jiliac negam tudo, e nós não temos
provas. O conselho dos clãs se recusou a... – Han não conseguiu entender a
palavra –, então não temos outro jeito de... – e terminou com uma frase que Han
não sabia traduzir.
– Lamentável – respondeu Teroenza na mesma língua. – E quanto ao meu
pedido de mais soldados, armamentos e escudos para nossas naves, vossa
excelência?
– Aprovado – confirmou Zavval. – Devem chegar a qualquer momento.
– Ótimo.
Teroenza então continuou em língua básica:
– Zavval, gostaria de lhe apresentar nosso corajoso piloto, Vykk Draygo, que
salvou nosso carregamento de brilhestim.
O enorme Hutt deu uma risada, um som de “heh, heh, heh” que era tão grave
e ressonante que Han se sentiu tonto quando ouviu.
– Saudações, piloto Draygo. Você tem nossa gratidão.
– Obrigado, senhor...
Teroenza acenou com o bracinho.
– A forma correta de tratamento é “vossa excelência”, piloto Draygo.
– Certo, então. Obrigado, vossa excelência. Fico honrado em poder servi-lo.
O Hutt riu de novo e falou com Teroenza em huttês:
– Um rapaz muito educado e perceptivo, para um humano. Você
providenciou um bônus? Queremos mantê-lo feliz.
– Sim, providenciei, vossa excelência – respondeu Teroenza.
Han, é claro, não deixou transparecer que entendia as conversas em huttês.
– Ótimo, ótimo – concluiu Zavval.
Han observou enquanto o alienígena girou seu trenó repulsor e se afastou.
Teroenza e Veratil começaram a vadear para sair do alagadiço, grunhindo com o
esforço. O sumo sacerdote falou com Han em língua básica:
– Sua Excelência está satisfeito com o seu desempenho, piloto. O capataz da
fábrica já lhe informou quando o próximo carregamento estará pronto para
transporte?
Han também voltava à margem.
– Ele disse que deve ser no fim da semana, senhor. Enquanto isso, tem dois
carregamentos de peregrinos chegando na estação espacial; um amanhã, o outro
no dia seguinte.
– Ótimo. Não queremos ficar sem mão de obra nas fábricas.
Uma vez de volta à terra seca, Han catou as roupas, depois se virou para leste
e fez um gesto na direção do oceano, a um quilômetro dali.
– Acho que vou fazer uma caminhada e me enxaguar – comentou – antes de
me vestir.
– Ah, sim – concordou Veratil. – Nós usamos a lama como um agente de
limpeza, mas ela não gruda na nossa pele da forma que parece grudar na sua.
Uma vez secos, nós só precisamos chacoalhar. – Ele deu uma estremecida forte,
e a poeira se ergueu em nuvens. – E a coisa toda descasca, como você pode ver.
– É, tô vendo – concordou Han. – Mas eu vou precisar de água para
enxaguar.
– Tome cuidado de não entrar demais no oceano, piloto Draygo – acautelou
Teroenza. – Alguns dos habitantes dos oceanos ylesianos são bem grandes, e
muito famintos.
– Sim, senhor – respondeu Han.
Han ergueu as roupas e botas, mantendo-as longe do corpo coberto de lama
vermelha, e partiu descalço em direção ao oceano, escolhendo onde pisava.
Quando lá chegou, pouco tempo depois, aventurou-se com cuidado, ficando
com água até os joelhos, e se agachou para deixar a arrebentação lavá-lo. As
ondas o recobriram repetidamente, enxaguando cada traço do lodo vermelho.
Han voltou à praia arenosa, encontrou um pedaço liso e se esticou para secar.
Sentiu o turvo sol ylesiano castigando-o, secando-o, deixando seu cabelo
endurecido e bagunçado. Só que qualquer coisa é melhor que lama, concluiu ele,
sonolento.
Han estava quase adormecido quando acordou num susto, lembrando algo
que tinha esquecido. Levantou-se, foi até as roupas e remexeu na cartucheira do
cinto. Olhou em volta muito atentamente, e depois puxou o minúsculo
dispositivo de gravação de áudio que ele tinha pegado “emprestado” da Sonho
Ylesiano e, ao ver que ainda estava gravando, o desligou com um estalo decisivo.
Depois de confirmar que tinha gravado a conversa inteira com os sacerdotes
Ylesianos, Han voltou ao seu lugar, deitou na areia morna e tirou uma bem
merecida soneca.
Han voou em muitas missões para os Ylesianos nos três meses seguintes.
Várias vezes, com a cumplicidade de Muuurgh, ele fez pequenos “voos
secundários” para treinar suas habilidades de pilotagem e permitir que Muuurgh
praticasse com os canhões. Han conseguiu pousar naves em luas sem atmosfera,
luas gélidas, até mesmo num pequeno asteroide apenas um pouco maior que a
nave. Aprendeu a atracar com estações espaciais, acoplando escotilhas
perfeitamente na primeira tentativa.
Como resultado do encontro de Han com os “piratas”, os Hutts Ylesianos
aumentaram o armamento e equiparam as naves com escudos melhores. Também
incrementaram a segurança ao redor das datas e dos locais dos carregamentos e
passaram a recusar pontos de encontro no espaço. Em vez disso, Han recebia
ordens de levar a carga a algum planeta e trocar a especiaria processada pela
matéria-prima em solo. Em regiões habitadas, havia menos chance de uma
traição que poderia levar a uma emboscada.
Teroenza deixou claro para Muuurgh que Vykk Draygo tinha provado seu
valor como empregado de confiança, então Muuurgh não se sentia mais obrigado
a passar cada segundo com o corelliano. Porém, o Togoriano grandalhão ainda
estava preso à sua promessa de guardar o piloto e nunca se esquecia disso.
Teroenza cumpriu sua promessa, entrevistou Bria e deu a ela o serviço de
manter e catalogar sua coleção. Uma vez que começou a comer melhor no
refeitório da administração e receber uma exposição saudável ao ar fresco e à luz
do sol, aquela aparência pálida, doentia e magra demais desapareceu. Os olhos
verdes ficaram mais brilhantes, os passos mais leves, e o sorriso, mais fácil.
Ela gostava do novo serviço, tanto porque curtia cuidar das antiguidades
como por considerar uma honra sagrada servir o sumo sacerdote. Bria
continuava participando das preces toda manhã e da cerimônia toda noite.
Quando Han estava em Ylesia, ele geralmente a acompanhava na ida e na volta
da Exultação.
Haviam oferecido a Bria um quarto no centro administrativo, mas ela disse a
Teroenza que preferia ficar no dormitório dos peregrinos. Não só ela gostava da
companhia dos colegas peregrinos na hora das preces, mas também se sentia
constrangida com a ideia de ocupar um apartamento no mesmo prédio que Vykk
Draygo. Bria Tharen ainda preferia evitar o corelliano; ainda estava indisposta a
reconhecer os sentimentos que haviam acordado dentro de si. Ela era uma
peregrina, lembrava a si mesma constantemente. Sua lealdade, dever e seu eu
espiritual estavam reservados para o Um e o Todo.
Ainda assim, não havia dúvidas de que Bria gostava da companhia de Vykk.
Ele era tão vivo, tão cheio de energia, tão charmoso e atraente... ela nunca
encontrara ninguém assim.
Durante a hora anterior às devoções vespertinas, quando seu trabalho com a
coleção do sumo sacerdote já estava encerrado, Bria desenvolveu o hábito de
procurar Vykk e Muuurgh (os dois estavam sempre juntos), e os três iam para o
refeitório administrativo para tomar uma xícara de estim-chá juntos...

Bria caminhou pela selva, curtindo o pequeno alívio do calor proporcionado


pelo sol poente. Uma brisa soprava vinda do mar, que era aonde a peregrina
rumava. Andava com rapidez, sentindo as barras do robe bege de fiel roçar as
plantas que cresciam às margens da trilha. Flores brilhantes pendiam de cipós...
escarlates, roxas e verde-amareladas. O perfume cortante e um pouco
adstringente fazia Bria abrir as narinas ao passar pelas plantas.
O Exaltado, Teroenza, tinha dito a Bria que ela poderia vestir roupas
normais, em vez dos volumosos trajes de peregrino, argumentando que assim
seria mais fácil cuidar da coleção dele... Porém, a garota ainda insistia nos robes,
assim como insistia nos votos.
A jovem corelliana alcançou o alagadiço e parou para prestar uma reverência
diante do lamaçal onde os dois sacerdotes se espojavam. Ambos a ignoraram,
mas Bria estava acostumada com isso. Sacerdotes não prestavam muita atenção
aos peregrinos, a não ser que precisassem orientar o trabalho deles. Era natural...
suas mentes se atinham a coisas mais elevadas, alçando-se a planos espirituais
que humanoides como Bria não tinham esperança de alcançar.
Na primeira vez que Bria viu os santos seres chafurdando na fétida lama
vermelha, ficou chocada. Era perturbador vê-los se entregar a uma atividade
tão... secular. Porém, ao longo dos últimos três meses, desde que começara a
trabalhar para Sua Exaltidade, Teroenza, Bria se acostumara a vê-los assim.
Estava feliz em não ter que trabalhar mais nas trevas da fábrica de brilhestim.
O serviço no centro administrativo era tão melhor. Climatizado, com boa
iluminação e a comida... a comida era muito mais saborosa. Bria levara quase
um mês inteiro para conseguir comer uma refeição normal. Inicialmente, ela
estivera tão apática, tão drenada de energia, que só cutucava a comida, como já
fazia há meses. O droide médico teve que tratar sua malnutrição, além de traços
de doença de sangue induzida pelos fungos.
Mas agora ela estava bem.
As coisas tinham melhorado muito para ela, Bria tinha que admitir, desde
que Vykk entrara na sua vida. Se ao menos...
Bria franziu o cenho e suspirou. Se ao menos Vykk fosse um peregrino
também. Então eles poderiam adorar juntos, participar das preces juntos e
receber o sacramento da Exultação juntos. Só que Vykk... ela não podia ignorar o
fato de que ele era um infiel, mesmo que o rapaz nunca admitisse. Vykk não
acreditava em nada além de si mesmo.
Quando eles frequentavam a cerimônia juntos, ele segurava a mão ou o braço
dela para apoiá-la no caminho de volta ao dormitório. O toque da mão dele fazia
Bria questionar a própria devoção ao Um, ao Todo, e ela não gostava disso. Não
queria que nada abalasse sua fé ou enfraquecesse seus votos.
Bria chegou às dunas. Como tinha meio que esperado, ouviu o som de um
tiro de pistola gemer e chiar.
– Vykk! – chamou, não querendo pegar de surpresa um homem que praticava
tiro ao alvo. – Vykk, sou eu!
Quando alcançou o topo da duna, o vento soprou-lhe os robes e os agitou em
volta das pernas. Bria teve que segurar o chapéu, para que não fosse levado pelo
vento do oceano.
Na praia abaixo ela viu Vykk, pernas afastadas numa postura de pistoleiro, a
arma de raios no coldre que usava bem baixo, no meio da coxa. Muuurgh estava
a alguma distância do corelliano, segurando vários alvos de cerâmica negra. Sem
aviso, o Togoriano grandalhão jogou dois dos alvos no ar, um bem alto e à
esquerda, o outro baixo e à direita.
A mão de Vykk se moveu num borrão tão rápido que os olhos de Bria mal
conseguiram acompanhar. Raios de pistola destruíram primeiro o alvo da direita,
depois o da esquerda. Pequenos destroços de cerâmica derretida choveram na
incansável arrebentação ylesiana.
Muuurgh uivou sua aprovação. Vykk se virou, pronto para treinar tiro à
distância com o alvo estacionário que tinham montado, mas então viu Bria. Com
um aceno e um sorriso, colocou a arma de raios de volta no coldre e correu até
ela.
Bria ficou estarrecida, como sempre acontecia, com como o rapaz era bonito,
com suas feições regulares, cabelos e olhos castanhos e físico esguio. Tudo
somado, ele não era exatamente um homem classicamente belo – mas nenhuma
mulher que fosse o alvo daquele sorriso perceberia isso.
– Oi! – gritou ele, correndo duna acima.
Antes que Bria pudesse escapar, ele plantou um beijo na testa dela. Sem
fôlego, ela o empurrou para trás.
– Não, Vykk. Isso vai contra meus votos.
– Eu sei – admitiu ele, sem vergonha. – Só que, algum dia, meu bem, você
vai me beijar de volta.
– Eu queria saber se você gostaria de tomar um estim-chá antes da cerimônia
– disse ela.
– Hoje não – respondeu ele, subitamente sério, contemplando o rosto dela. –
Precisamos conversar sobre uma coisa, Bria. Esperei até que você estivesse...
melhor, porque eu temo que será um grande choque. Só que você vai ter que
descobrir um dia.
Bria olhou para ele, tentando entender o que estava acontecendo.
– Do que você está falando, Vykk?
– Vamos nos sentar um pouco. Ali, na praia, tudo bem?
Ele a levou até uma área de areia lisa e, quando Muuurgh veio ver se eles
iam voltar, Vykk balançou a cabeça.
– A gente vai precisar de um pouco de privacidade, tudo bem, meu chapa?
O Togoriano se afastou, duna acima. Bria observou o vulto sombrio
desaparecer atrás do monte de areia.
O coração dela se acelerou quando Vykk tirou um pequeno dispositivo do
bolso.
– Este é o gravador de registros de áudio que eu tirei do painel de controle da
Sonho – explicou o piloto. – Vou tocar uma gravação que eu fiz há uns dois
meses, antes que Teroenza lhe pedisse para tomar conta da coleção dele. Seja
paciente e escute, tudo bem?
– Eu não sei... Já vi que não vou gostar disso – murmurou ela. – Estou com
um mau pressentimento sobre essa gravação.
– Por favor – pediu ele. – Por mim. É só escutar.
Bria concordou com um aceno de cabeça, torcendo as mãos no colo. De
repente, a brisa oceânica, em vez de parecer agradável, fez a peregrina tremer
apesar do sol que mergulhava a oeste.
Vykk ligou o gravador. Bria escutou a conferência que se seguiu... Ouviu
Vykk saudar os sacerdotes e ouviu quando eles o convidaram para um banho de
lama. Bria reconheceu as vozes do Exaltado Teroenza e do sacredot Veratil
falando com o piloto. Banhos de lama. Eles discorriam sobre como os banhos de
lama eram relaxantes. Bria se mexeu, agitada, e Vykk ergueu o dedo em aviso e
moveu os lábios, dizendo “espere”.
Ela se obrigou a continuar quieta, ainda que ficasse cada vez mais
constrangida. Certamente os sacerdotes não sabiam que Vykk estava gravando a
conversa – as ações dele eram piores que bisbilhotice, eram espionagem
descarada!
Então Bria prendeu o fôlego, chocada. Ela podia ouvir Veratil e Teroenza
rindo e comentando sobre a Exultação – estavam dizendo que não era uma
dádiva divina, que não tinha absolutamente nada a ver com o Um e o Todo!
Bria arregalou os olhos, depois os estreitou furiosa, e se levantou num salto.
O vento levou seu chapéu de peregrina, permitindo que cachos ruivo-dourados
se libertassem, mas ela não prestou atenção. Tremia de raiva enquanto encarava
Vykk. Ao perceber a reação dela, o piloto desligou o gravador e se levantou para
encará-la.
– Como você pôde ? – exigiu Bria, com voz grave e trêmula. – Eu achei que
você era meu amigo.
Ele deu um passo adiante, as mãos erguidas em atitude apaziguadora.
– Bria, meu bem, eu sou seu amigo. Fiz isso por você... Você tem que saber a
verdade. Lamento que...
O braço e a mão de Bria pareceram se mover por conta própria, acertando
um slap! sólido na bochecha do piloto. Vykk cambaleou para trás, segurando o
rosto.
– Você está mentindo! – gritou ela. – Mentindo! Você falsificou isso para me
fazer quebrar meus votos! Admita!
Vykk baixou a mão e ficou parado, olhando fixamente para ela, com olhos
cheios de tristeza e pena. Devagar, ele balançou a cabeça.
– Eu lamento muito, querida – respondeu ele. – Lamento mais do que eu
poderia expressar. Mas eu não falsifiquei nada. Isso que você ouviu é a verdade,
e ficar com raiva de mim não vai mudar nada. Teroenza e a turma dele não têm
nenhuma dádiva divina. Inventaram essa vigarice toda só para conseguir
operários para as fábricas e escravos para vender.
A marca da mão de Bria escurecia no rosto de Vykk, um vermelho baço onde
ela tinha acertado. Bria viu as marcas dos próprios dedos e controlou o impulso
de se jogar nele e se desmanchar em pedidos de desculpas. Como ela pôde
machucá-lo assim?
Ao mesmo tempo, porém, ela estava absolutamente brava e sentia o rosto se
mexendo. O queixo tremia enquanto ela tentava se controlar.
– Não! – Ela cerrou os punhos. – Não! Não é verdade! Você falsificou. O que
você é... telepático? Como é que você sabe do sacredot Palazidar? Você nem
estava aqui naquele dia!
Vykk balançou a cabeça.
– Eu não sabia, Bria. Eu não sabia, nem falsifiquei essa gravação. Vou provar
a você. – Remexeu no bolso e tirou um pequeno vidro negro.
Bria conhecia o objeto bem até demais.
– Brilhestim? Onde você conseguiu?
– Surrupiei durante uma entrega – respondeu Vykk. – Você sabe o que ele
pode fazer, né?
Bria assentiu lentamente com a cabeça.
– Esse é meu único jeito de provar que não estou mentindo. Se você abrir,
expor à luz e então engolir, vai ficar com habilidades telepáticas temporárias. Vai
poder ler minha mente e saber que eu não estou mentindo sobre a Exultação; e
que eu não falsifiquei a gravação. Aqui – ele estendeu o frasco e soltou na mão
dela –, pegue.
Bria contemplou o tubo.
– Eu... eu preciso pensar nisso, Vykk. Preciso decidir o que fazer.
– Não estou mentindo, meu bem, eu juro. – O piloto se aproximou da
peregrina e estendeu as mãos para pegar as dela. – Confie em mim.
Bria se afastou de Vykk.
– Olha... me deixa em paz por enquanto, Vykk. Eu... falo com você mais
tarde. Depois da cerimônia. Agora, eu tenho que ir.
Ele olhou para ela.
– Você poderia faltar, só hoje. Não é como se eles fizessem chamada.
Faltar à Exultação? Bria se sentiu nauseada só de pensar nisso, e a reação a
aterrorizou. E se Vykk estivesse certo? E se a Exultação não passasse de uma
combinação de vibrações físicas e mentais de uma espécie alienígena? Se não
havia nenhuma dádiva divina presente, então os peregrinos não eram nada além
de viciados atrás de uma dose.
Bria fitou os olhos de Vykk e teve a sensação vertiginosa de que ele estava
dizendo a verdade. Os dedos dela se apertaram em volta do pequeno cilindro
negro de brilhestim. Ali estava a resposta dela. Com aquilo, ela poderia
descobrir a verdade...
Virou-se e saiu andando, deixando Vykk na praia. Bria ouviu o piloto
chamar, mas o dispensou com um aceno e seguiu em frente. Não tinha tempo a
perder se quisesse participar da cerimônia.
Meia hora depois, ela estava em meio às hordas de peregrinos, vendo o sol se
pôr em esplendor sangrento atrás do Altar de Promessas. Era quase hora da
Exultação. Deu uma olhada em volta, pensando que, se ela ia fazer aquilo, tinha
que ser logo. Furtivamente, seus dedos puxaram o cilindro negro do bolso no
robe. Luz... ela precisaria de luz para ativar o brilhestim. Porém... não poderia
fazê-lo enquanto alguém mais pudesse ver.
Por fim, chegou o momento que Bria esperava – o sinal para os fiéis de que a
Exultação estava prestes a começar.
Bria se posicionou na multidão para que tivesse visão livre do sumo
sacerdote e dos sacredots enquanto eles liderassem os peregrinos na cerimônia.
Porém, ela estava bem no fundo da massa, longe o bastante para que pudesse
ocultar o brilhestim na larga manga, de modo que a ativação não seria notada
pelos T’landa Til. E os outros peregrinos estariam tão ocupados com a Exultação
que provavelmente nem notariam um tiro de pistola.
A toda sua volta, os peregrinos caíam de joelhos. Bria se deixou segui-los, e,
ao se abaixar, abriu a tampa do frasco de brilhestim. Sob a proteção do próprio
corpo, dobrado para a frente, puxou a dose fibrosa da droga – e se perguntou, por
um segundo insano, se ela mesma teria preparado aquela dose.
Quando os peregrinos se prostraram, as papadas dos sacerdotes começaram a
distender. Enquanto o princípio da vibração reverberava no ar, Bria ergueu o
brilhestim, expondo-o por completo aos últimos raios do sol poente.
Depois de alguns segundos ele se ativou, faiscando azul, mas nenhum dos
peregrinos percebeu, e o efeito ficou escondido do sumo sacerdote. Mesmo que
nunca tivesse tomado brilhestim antes, Bria sabia exatamente quantos segundos
esperar. Um momento depois, ela enfiou a fibra na boca e permitiu que a saliva
apagasse a substância faiscante.
Assim que ela levou a droga à boca e depois engoliu, a Exultação começou.
Bria estremeceu como se tivesse sido atingida por um raio de pistola. Os
efeitos do brilhestim foram imediatos. O sangue corria pelo corpo como uma
nave entrando no hiperespaço. O coração disparou.
Só que os efeitos físicos não eram nada comparados aos mentais. A mente da
peregrina se abriu de uma forma que ela jamais conseguiria explicar depois.
Quando as ondas de Exultação a alcançaram, ela experimentou o prazer de todos
os outros peregrinos na multidão.
A sensação era tão poderosa que Bria quase desmaiou. Só a raiva que fervia
dentro de si desde que Vykk lhe tocara aquela gravação a manteve sã e
concentrada.
Tenho que... abrir... meus olhos... pensou ela. Foco...
Engasgada e ofegante, Bria abriu os olhos, estremecendo com as ondas de
prazer que a devastavam com tamanha intensidade que estavam quase virando
dor. Encarou Teroenza, forçando a si mesma a não afastar o olhar, a estreitar a
própria mente para abarcar apenas a dele.
Imagens de natureza alienígena inundaram a mente de Bria, entalhando-se de
forma indelével em sua consciência. Não importava o quanto ela queria
esquecer, sabia que nunca, jamais conseguiria. A mente de Teroenza, assim
como a de qualquer senciente, estava cheia de trivialidades superficiais –
perguntava-se o que comeria no jantar, estava entediado com a cerimônia,
pensava sobre as novas medidas de segurança que os Hutts tinham lhe mandado
implementar, sentia uma pequena agitação gastrointestinal...
Não havia o menor traço de divindade na mente do sumo sacerdote. Ele não
acreditava no Um ou no Todo. Na verdade, Teroenza tinha orgulho de si mesmo
por ter inventado o Um e o Todo, para que aqueles peregrinos crédulos
pudessem ter algo em que acreditar.
Bria teve ânsia de vômito; sentia a boca cheia do gosto amargo do brilhestim.
Era difícil pensar com a Exultação em curso, mas ela se obrigou a continuar
sintonizada à mente do sumo sacerdote... peneirando, assegurando-se com
certeza absoluta de que o que ele fazia era um truque puramente físico e mental
– algo que todos os machos de sua espécie poderiam fazer quando quisessem.
De repente, Teroenza se sacudiu, olhando em volta com ansiedade. Sua
mente se encheu de desconfiança, depois certeza – ele sabia que estava sendo
sondado telepaticamente!
A Exultação vacilou, depois enfraqueceu abruptamente quando o sumo
sacerdote parou de participar. Os sacredots continuaram num coro esfarrapado
mas, sem o líder, a Exultação se deteve. Peregrinos gritaram, em choque, e
alguns até desmaiaram.
Bria desconectou sua mente de Teroenza e se juntou aos peregrinos que
gemiam em angústia, choravam e cambaleavam, desorientados. Alguns se
levantaram tremendo e choramingando enquanto contemplavam suplicantes os
sacerdotes.
Teroenza desceu da plataforma junto ao Altar e se enfiou na multidão. O
T’landa Til espiava os rostos, murmurando bênçãos distraído, enquanto tentava
encobrir o fato de que buscava em desespero o peregrino que tinha acabado de
esquadrinhar sua mente.
Felizmente, Bria estava bem no fundo do grupo, próxima do fim do
anfiteatro. Ela se deixou ser empurrada para trás, para fora do permacreto, até
que seus pés encontraram o barro viscoso da selva. Com um único movimento
rápido e decisivo, Bria cravou o dedão do pé num monte de lama e folhas
pisoteadas e o ergueu. Soltou o cilindro de brilhestim, que caiu no centro do
buraco recém-aberto.
Bria se virou e, ao fazê-lo, o pé pisou a bola de lama de volta no solo da
floresta. A sequência de eventos toda levou apenas um segundo.
Ela começou a se deslocar ao longo do fundo da multidão, em direção à
trilha, permitindo-se ser levada pela maré de peregrinos incoerentes,
resmungões, confusos e insatisfeitos.
Uma cautelosa olhadela para trás assegurou que Teroenza tinha abandonado
a busca, aparentemente por ter percebido como seria infrutífera, e o quanto seu
comportamento atípico estava aborrecendo os peregrinos. Bria torcia para que
ele descontasse a experiência toda como sendo fruto da curiosidade de algum
recém-chegado quanto ao brilhestim.
Caminhou apática pela trilha, com passos lentos e inseguros. Os efeitos do
brilhestim tinham se esvaído tanto que ela mal estava ciente dos pensamentos e
emoções daqueles ao seu redor.
Não ficou surpresa quando Vykk surgiu caminhando ao seu lado. Como de
costume, tomou-lhe o braço para sustentá-la. Bria se encostou nele, agradecida
pelo apoio, e sentiu o braço do rapaz passando por sua cintura, até que ele estava
praticamente segurando-a.
As velozes trevas equatoriais agora os envolviam. Bria mal via Vykk. Ele a
guiou pela trilha, evitando as piores poças de lama. Então, quando chegaram ao
dormitório, ela parou.
– Eu... não vou entrar agora – murmurou. – Eu preciso... preciso falar com
você, Vykk.
Ele assentiu. Seus traços mal eram visíveis sob a luz lançada pelas portas
abertas.
– Certo. Acho que ninguém se importaria se a gente fosse para o refeitório
administrativo para uma xícara de estim-chá. Você parece estar precisando.
Juntos deram meia-volta, escuridão adentro. Bria se encostou em Vykk
enquanto eles subiam o caminho. Nunca tinha se sentido tão cansada. Um droide
teria se movido com mais animação.
Quando chegaram ao refeitório, Vykk a sentou e foi buscar xícaras de estim-
chá, além de um doce confeitado, que ele empurrou para Bria.
– Aqui, coma isso. Você parece estar precisando.
Obediente, ela bebericou o chá e mordiscou o doce. Não jantara, e a comida
parecia acalmá-la, trazendo o mundo de volta a foco.
Inclinou-se na direção de Vykk, pronta para falar, mas bem quando a
peregrina abriu a boca, Vykk balançou a cabeça em advertência.
– Acho melhor você voltar ao seu dormitório – comentou ele bem alto. – Isso
vai ensinar você a não pular refeições, 921. Achei que você fosse desmaiar lá
atrás.
Recado recebido, Bria se levantou em silêncio e o seguiu para fora.
Quando chegaram ao lado de fora, Vykk pegou e colocou um par de óculos
infravermelhos.
– Você trouxe os seus?
Bria fez que sim com a cabeça, localizou-os e os colocou. A noite
subitamente se definiu em imagens fantasmagóricas verdes e negras. Ela via o
rosto de Vykk agora, semioculto pelos óculos.
Ele passou o braço por ela de novo quando os dois partiram juntos pela trilha
na selva.
– Você tomou o brilhestim – disse ele em voz baixa.
– Sim – confirmou ela, sentindo-se tão dormente quanto se tivesse sido
espancada até desmaiar. – Você tinha razão. Me perdoe por ter duvidado...
– Ei – disse ele, tentando soar animado, mas fracassando completamente. –
Eu também ia querer confirmar minha história, no seu lugar. Foi... foi difícil?
Bria assentiu com a cabeça, e de repente o sentimento voltou, numa maré
negra, deixando-a trêmula e sem fôlego.
– Ah, Vykk! – balbuciou. – Eu entrei na mente dele, na mente de Teroenza, e
foi terrível! Nada de dádiva divina, só um senciente entediado e egoísta que quer
ficar rico para poder aumentar sua coleção!
– Calma lá – disse Vykk, segurando os ombros de Bria para acalmá-la. –
Você recebeu um choque horrível.
– Eu me sinto... me sinto... tão... traída – desabafou Bria, entre dentes que
batiam. – Foi... terrível...
– Ei, calma, querida... – Vykk a abraçou, e sua expressão de solidariedade foi
a gota d’água. Bria começou a chorar, soluçando tão forte e devastadoramente
que chegava a doer. Vykk a ajudou a tirar os óculos, depois ficou apenas
abraçado a ela, acariciando os cabelos e murmurando palavras carinhosas e
tranquilizantes.
Bria agarrou a frente do macacão dele com as duas mãos, torcendo e
amassando o tecido, e chorando tão forte que assustou a si mesma. Ela jamais
chorara assim antes. A sensação de desolação era terrível.
– Não... não... me resta mais nada – afirmou ela entre espasmos de choro. –
Nada... nada...
– É claro que resta – murmurou Vykk, beijando a bochecha dela
carinhosamente. – Você ainda tem nós dois, né?
– Hã... nós dois? – sussurrou ela.
– Claro. Vamos ficar juntos, meu bem. A gente vai cair fora deste planeta
infernal e vai ser feliz.
Bria levantou a cabeça, encarando cegamente a escuridão; mal conseguia
distinguir o borrão mais claro do rosto dele.
– Só que eles nunca deixam os peregrinos irem embora – resmungou Bria. –
Eu li isso na mente de Teroenza.
– Nós não vamos pedir para ir embora, querida. A gente simplesmente vai.
– Fugir?
– Isso mesmo. Assim que eu conseguir bolar um jeito, a gente vai dar o fora
daqui. Já comecei a tramar. – Ele deu um beijo rápido na bochecha dela. –
Confie em mim. Tenho experiência com esse tipo de coisa. Vou dar um jeito.
– Mas... e o seu dinheiro? – inquiriu ela. – Você está sob contrato, e não pode
romper. Se fugir, vai perder o dinheiro. Você me contou que precisa dos créditos
do seu salário para tentar entrar na Academia. Como pode desistir disso?
Vykk encolheu os ombros.
– Um crédito é tão bom quanto qualquer outro. Eu só tenho que tirá-lo de
Teroenza de outro jeito.
A mente de Bria estava nublada com exaustão e a dor da traição. Ela levou
um minuto inteiro para perceber o que Vykk queria dizer.
– A coleção... – sussurrou. – Você está planejando roubar a coleção de
Teroenza e fugir.
– Muito bem – respondeu ele com aprovação. – Você tem certeza de que não
está mais recebendo as transmissões de pensamento do brilhestim?
– Acho que não estou, não – respondeu Bria, cansada. – Só sei que você me
perguntou sobre a coleção um monte de vezes, perguntou quais itens são mais
valiosos. Você realmente acha que consegue romper as travas de segurança e
roubar a coleção?
– Não a coisa toda. Eu precisaria de um cargueiro maior do que qualquer um
em Ylesia para levar tudo embora. Vou carregar só as coisas pequenas e
realmente valiosas. – Vykk fitou Bria intensamente. – Você vai me ajudar, né?
Bria hesitou. Roubar antiguidades ia contra tudo que ela já acreditara. Só que
as antiguidades de Teroenza não estavam num museu, onde o público poderia
vê-las. Eram acumuladas por um colecionador particular ganancioso. Se Vykk as
roubasse, elas seriam postas de volta em circulação, e havia uma boa chance de
que pelo menos algumas delas acabariam em exposição pública em lojas ou
galerias.
– Tudo bem – concordou Bria. Inspirou profunda e tremulamente. – Vou te
ajudar, Vykk.
– Ótimo. Eu e você, a gente vai puxar uma nave e vai cair fora deste planeta.
Tô de saco cheio do calor, da umidade, e de saco muito cheio desses sacerdotes e
da religião fajuta deles.
Bria respirou fundo. Ir embora daqui? Nunca mais participar da cerimônia e
receber a Exultação? Como posso viver sem ela?
Decidida, afastou a pergunta da mente. Ia conseguir, de algum jeito. Talvez
pudesse ir se libertando gradualmente ao longo da semana seguinte, até que eles
partissem.
– Tem só mais uma coisa, Vykk – comentou ela, incerta.
– O quê, meu bem?
– Muuurgh. E quanto a Muuurgh? Você me disse que ele deu a palavra que
seria tanto seu guardião como seu protetor. O que você fará quanto a ele?
Vykk respirou fundo, e Bria viu o borrão do rosto dele se mover quando ele
balançou a cabeça.
– Esse é o vrelt na cozinha – respondeu, usando uma velha frase corelliana
para “azar” ou “desastre”. – Eu não sei o que fazer com ele. Gosto muito do
grandalhão, mas ele me contou sobre o código de honra do povo dele. Temo que
Muuurgh será leal a Teroenza custe o que custar.
– Você quer dizer que, se descobrir o que nós estamos planejando, ele vai nos
entregar?
– Grandes chances.
– Ah, Vykk... – A voz dela estava embargada. – O que nós vamos fazer? E se
não conseguirmos escapar?
– Não se preocupe com isso, querida, deixa comigo. – Vykk suspirou. – Se
for o caso, eu cuido de Muuurgh. Eu atiro muito melhor que ele e sou muito
mais rápido no gatilho.
– Você atiraria nele?
– Se for uma escolha entre nós dois ou Muuurgh, é, eu vou atirar sim. Eu só
queria que tivesse como convencê-lo a vir com a gente. Se ele viesse, eu o
levaria aonde ele quisesse. E lhe daria créditos suficientes para que continuasse
sua busca.
– Busca?
– É, ele está procurando pela parceira, e veio para cá achando que ela estaria
em Ylesia; só que eu acho que ele deduziu errado. Togorianos são raros, tão
raros que eu nem tinha ouvido falar neles até chegar aqui. Se tivesse uma
Togoriana neste planeta, seria muito fácil de encontrar.
Bria arfou, espantada.
– Mas... Vykk! Havia outro Togoriano aqui! Eu me lembro de ter visto um
deles; hum, há seis ou oito meses. Só um vislumbre, mas tenho certeza da
espécie.
– É mesmo? Era macho ou fêmea? Como se parecia?
– Não faço ideia do sexo. Acho que esse Togoriano não era tão grande
quanto Muuurgh. Era branco, com listras laranjas... Acho. Vi uma noite, logo
após a cerimônia, e estava escurecendo.
– Tenho que contar ao Muuurgh – decidiu Vykk. – Esses sacerdotes mentem
para viver. É muito capaz que Mrrov, acho que esse é o nome dela, esteja aqui
em Ylesia esse tempo todo. Talvez em Colônia Dois ou Três.
O rapaz se calou. Bria ficou ali parada, ruminando o que ele tinha acabado de
dizer e, finalmente, não aguentou mais.
– Por favor, Vykk – implorou. – Diga que você não falou sério quanto a atirar
em Muuurgh se ele tentar nos impedir de roubar a coleção de Teroenza! Tem que
haver um jeito de evitar! – Bria gostava de Muuurgh. Ao longo dos últimos
meses, os dois haviam se conhecido melhor, e a peregrina admirava o grande
felinoide.
– Vou cuidar dele, custe o que custar. Se eu for obrigado, atiro nele. – Vykk
falava com determinação. – Mas, talvez, eu possa só... atordoar ele, ou então dar
uma pancada naquela cabeça dura, e deixar ele amarrado, para que os sacerdotes
não o culpem quando nós fugirmos.
– Ah, Vykk... – Os olhos de Bria se encheram de lágrimas de novo. – Por
favor, tente pensar em alguma coisa para que Muuurgh não se machuque. Você é
bom nisso.
– Vou pensar, querida, vou pensar...
O piloto se inclinou para frente, para pregar um beijinho na testa da
corelliana, e desta vez ela não o lembrou de seus votos. Eu não tenho mais votos
, pensou Bria atordoada enquanto os dois voltavam ao dormitório. Nada de
votos, nada de religião... nada de nada...
Deu uma olhada de lado nas trevas.
Nada além de Vykk...

Muuurgh saiu silenciosamente da selva e seguiu a trilha. A visão noturna do


Togoriano era muito melhor que a dos humanos; conseguia facilmente distinguir
o casal distante andando pelo caminho. Estavam quase no dormitório.
O felinoide tinha se esgueirado pela mata com cuidado exagerado pelos
últimos minutos, determinado a chegar perto o bastante para escutar o fim da
conversa – mas tinha ouvido o suficiente.
Piloto e Bria planejavam escapar. Planejavam roubar dos mestres dele. Piloto
planejava “cuidar” de Muuurgh.
O Togoriano balançou a imensa cabeça, infeliz. Muuurgh tinha dado sua
palavra de honra aos mestres – seu curso deveria estar claro. Mas não estava.
Ele sabia muito bem o que deveria fazer. Deveria ir falar com Teroenza e lhe
contar o que tinha escutado. Ou, talvez, ele mesmo, Muuurgh, deveria matar
Piloto e contar ao sacerdote o motivo depois que estivesse feito.
Só que ele ficou parado ali, hesitando. Era óbvio que Piloto estava
desesperado o bastante para atirar nele para fugir. Muuurgh tinha dado sua
palavra de honra de guardar Piloto.
Só que Piloto também era Vykk... e Muuurgh tinha passado a pensar em
Vykk como amigo. Vykk estava determinado a defender sua mulher. Muuurgh
entendia isso. Ele faria quase qualquer coisa para defender Mrrov... se ao menos
conseguisse encontrá-la...
Muuurgh rosnou no fundo da garganta. Talvez ele devesse se passar por
amistoso, para que Piloto lhe deixasse chegar suficientemente perto para usar os
dentes e as garras. Muuurgh era um excelente caçador. Depois que ele pegava a
presa, não havia mais escapatória.
Ele conseguiria matar Vykk para manter sua palavra de honra?
Muuurgh rosnou de novo e voltou à selva. Naquela noite ele ia caçar, e ia
matar. Ia eviscerar e consumir a presa fresca. Talvez isso desanuviasse sua
mente, e ele então conseguiria decidir o que fazer.
Muuurgh deslizou sob as árvores gigantes, tão silencioso e invisível quanto
um espectro.
Na manhã seguinte, Han assoviou animado enquanto tomava banho, e nem
mesmo aquela fétida e nojenta gosma antifúngica que ele tinha que esfregar no
corpo o deprimiu. Ele e Bria iam sair daquele mundo, e ele teria créditos de
sobra depois que vendesse os itens roubados da coleção de Teroenza. Han
poderia pagar pela nova identidade, comida e hospedagem enquanto participasse
do processo seletivo da Academia.
E, quando saísse, seria um oficial, um homem respeitado, e Bria estaria
esperando por ele...
Enxugou os cabelos molhados com uma toalha e foi até as roupas, que
estavam arrumadas no pé da cama.
Ele não teve aviso, nada mesmo. Num momento estava andando, no outro
alguma coisa o tinha agarrado e arremessado no chão com tanta força que ele
ficou sem fôlego. Ofegou como um baleiodonte encalhado e pontos negros
voaram diante dos seus olhos.
Havia mais alguma coisa ali, também... prendendo-o no chão, alguma coisa
que tinha uma imensa pata que segurava seu peito. Por instinto, Han ficou
parado, ofegando e tentando respirar, percebendo que a mão poderia esmagá-lo
como uma noz-dilga.
As trevas se mexiam diante dos olhos dele – não, a escuridão era real. Real e
peluda, com um ponto branco no meio do peito e bigodes brancos eriçados. Han
conseguiu focalizar os olhos.
– Muuurgh...? – ofegou fracamente. – Que tá’contecendo...?
Muuurgh rosnou na cara de Han, as presas enormes tão próximas que Han as
viu reluzir com saliva.
– Piloto planeja escapar, levar Bria – grunhiu. – Vykk planeja roubar de
mestres Ylesianos. Vykk planeja cuidar de Muuurgh...
– Mas...– A mão pressionou para baixo, um pouco, e Han desistiu, com olhos
arregalados.
Muuurgh ergueu uma imensa mão-pata e a flexionou de leve. Garras como
cimitarras surgiram.
– Agora Piloto traiçoeiro vai morrer – rosnou o Togoriano.
– Não! – Han ergueu as mãos num gesto de apelo. – Por favor! Me escuta!
– Muuurgh escutou noite passada. Muuurgh escutou muito – retrucou o
Togoriano com severidade.
– Ei, meu chapa – balbuciou Han, imaginando o que aquelas garras fariam
com sua garganta exposta. – Achei que a gente fosse amigo!
– Muuurgh gostava Piloto. Muuurgh triste ter que matar Piloto. Mas palavra
de honra foi dada. Sem opção para Muuurgh.
A mão começou a descer. Han apertou os olhos e esperou o fim.
Sentiu a brisa do golpe do Togoriano passar de raspão pela bochecha, pela
garganta, mas nada o tocou. Depois de várias eternidades, Han abriu os olhos de
novo. Muuurgh o encarava, claramente dividido.
Por fim, ele segurou Han pelo ombro e o cabelo, puxou-o até ficar de pé, e
depois o empurrou até as roupas.
– Vista-se! Muuurgh não quer sangue de piloto em suas garras. Vamos contar
a Teroenza o que Piloto e garota planejam. Sacerdote vai mandar guardas matar
traidores.
Han se apressou até a cama e começou a se vestir. Pelo menos, ele não ia
morrer pelado e molhado.
– Escuta, Muuurgh, você tem que me escutar. Por favor! Que mal pode
fazer?
– Piloto mente. Muuurgh sabe que mente. Eu não vou escutar.
É um bom sinal de que ele está recuperando a calma, pensou Han. A
gramática que eu lhe ensinei está voltando.
Han selou a frente do macacão e se sentou na beira da cama para calçar as
botas.
– Seu povo tem um código de honra, não tem? – indagou o rapaz, pensando
mais rápido do que nunca.
– Temos.
– Se você der sua palavra de honra para alguém que te emprega, você tem
que manter, né?
– Tenho. Piloto pode se mexer mais rápido que isso. Calce logo essas botas.
Han lentamente colocou o pé direito, com os dedos esticados, e começou a
puxar a bota.
– Bem, meu chapa, suponha que você deu sua palavra de honra para alguém
e descobriu que tudo que ele lhe contou era uma mentira na parte dele do
contrato. O que isso faz com seu acordo? Você tem que manter sua palavra para
alguém que mentiu para você e fez você de idiota?
Muuurgh espiou Han desconfiado, mas não disse nada.
– Vamos lá, chapa, o que seu código de honra diz quanto a fazer acordos com
mentirosos, hein?
Muuurgh balançou a cabeçorra, depois suas orelhas se achataram de raiva.
– Se um Togoriano der palavra de honra a um mentiroso, contrato é inválido.
Não há honra alguma em se lidar com um mentiroso.
– Tudo bem – disse Han com uma onda de satisfação. Ele pegou a bota
esquerda. – Me escute bem, chapa. Acho que Mrrov está aqui em Ylesia. Acho
que Teroenza mentiu para você.
Muuurgh encarou Han, depois estreitou os olhos azuis.
– Você mentiria para continuar vivo, Vykk.
– É, eu mentiria, chapa – admitiu Han com honestidade. – Mas eu vou jurar
pra você que não estou mentindo quanto a isso.
– Jurar? O que é isso de “jurar”?
– É como... como uma palavra de honra, mais ou menos. Meu povo jura
pelas coisas mais importantes no universo para eles. É como se fosse... sagrado,
acho que você diria.
– Então pelo que Vykk jura?
Han pensou por um momento.
– Eu juro – começou ele, lenta e claramente – pela vida de Bria. Você sabe
como ela é... muito importante para mim, não sabe?
Muuurgh considerou por um momento, depois assentiu.
– Tudo bem, então, eu juro para você, pela vida de Bria, que noite passada
ela me contou que viu um Togoriano aqui, há uns seis meses ou mais. Isso se
encaixaria com a época em que você estava procurando Mrrov, não é?
Silenciosamente, o Togoriano assentiu de novo.
– Ela viu um Togoriano, Muuurgh. Pense bem. Teroenza e seus capangas
mentiram para você quando disseram que ela nunca veio aqui. Provavelmente
ainda está aqui, em Ylesia. Provavelmente não em Colônia Um, porque seria
arriscado demais. Mas há uma boa chance de ela estar em Colônia Dois... ou
mesmo Três. Mas Colônia Dois já está lá há mais tempo, eles têm muito mais
peregrinos lá do que em Colônia Três. Então eu aposto que ela tá em Dois. Vale
a pena conferir, né?
– E como era esse Togoriano? – indagou Muuurgh lentamente.
Por um momento, Han se sentiu tentado a mentir, dizer que não sabia...
porque, e se ele estivesse errado quanto a esse Togoriano ser Mrrov, e Muuurgh
ficasse furioso e o matasse ali mesmo, naquele instante? Respirou fundo.
– Bria disse que ela era branca e alguma outra cor. Listrada. Disse que
poderiam ser listras laranjas, mas que estava quase de noite, então não tinha
certeza.
Eu realmente espero que Mrrov não seja de cor sólida ou malhada!
Muuurgh achatou as orelhas e sibilou como uma válvula furada, dentes
expostos com ferocidade. Han olhou em volta em desespero, em busca de algo
para bater na cabeça do Togoriano, mas não havia nada ao alcance. Em silêncio,
se resignou a ser rasgado em dois.
Então o sibilo furioso de Muuurgh se transformou num uivo doloroso de
angústia. O grande alienígena caiu no chão, segurando a cabeça e uivando um
lamento ululante.
– Você descreveu ela! – grunhiu, finalmente. – Por todos os deuses dos meus
pais, será que ela estava aqui todos esses dias enquanto eu acreditava nesses
mentirosos? Eu vou lá agora arrancar suas gargantas e comer seus corações!
– Ufa – murmurou Han bem baixo. Que bom que deu certo!
Muuurgh se levantou num salto, obviamente pronto para cumprir a ameaça.
– Espere! – Han pulou e segurou um bração, pendurado nele enquanto era
arrastado pelo quarto, pela sala de estar, quase pela porta. Cravou os calcanhares
no chão e se recusou a soltar. – Muuurgh, se você quiser ela de volta, pare!
Muuurgh reduziu o passo, depois parou.
– Ótimo – disse Han, ofegante. – Agora vamos conversar sobre isso como
sencientes racionais, está bem? Sente-se.
Muuurgh desabou no seu catre. Han ligou a música, depois puxou a cadeira
surrada para tão perto do Togoriano que os dois ficaram quase encostados.
– Fale baixo – sussurrou ele, e Muuurgh fez que sim com a cabeça.
– Eu tenho um plano, acho que sei como buscar Mrrov, se ela ainda estiver
aqui em Ylesia. – Eu só espero que ela não tenha sido despachada para as
minas de especiarias, pensou, mas não disse em voz alta. Muuurgh já sabia o
que acontecia aos escravos tão bem quanto ele.
– Certo, Vykk – respondeu Muuurgh, em voz igualmente baixa –, me conte o
plano.
Han pensou por um momento.
– Vou precisar da sua ajuda para algumas partes. Tenho que fazer alguns
preparativos e vou tentar deixar tudo que eu puder armado antes que eu parta.
– Partir? Vykk vai partir?
– Vou, mas não estou falando da nossa fuga final. Daqui uns dois dias eu
tenho que entregar uma mensagem e um presente de Zavval a um Hutt chamado
Jiliac em Nal Hutta. Vou ter que ficar lá e esperar por uma resposta. Nunca estive
em Nal Hutta e não conheço as manhas por lá, mas Jalus Nebl conhece.
Muuurgh fez que sim com a cabeça para mostrar que estava prestando
atenção e começou a limpar os bigodes brancos, nervoso.
– Então, tudo bem. A Sonho é pequena demais para três. Vou comentar isso
com Teroenza e dizer a ele que Nebl quer voltar a voar como meu copiloto.
Tenho certeza de que ele vai concordar em deixar eu e Nebl irmos nessa missão
juntos. Vou sugerir que você fique aqui, porque não vai ter lugar pra você.
Han se levantou e começou a andar de um lado ao outro.
– Os sacerdotes sabem que você gosta de caçar, né? Então, quando eu
receber permissão para levar Nebl comigo, você deve pedir para passar uns dois
dias caçando. Você consegue correr bem rápido em terreno irregular, né?
– Muito rápido – concordou o Togoriano. – Rápido o bastante para rastrear e
matar presas.
– Você acha que consegue chegar a pé em Colônia Dois?
– Sim. – Muuurgh parecia ter certeza.
– Bem, é a nossa melhor chance. Se Mrrov ainda estiver aqui em Ylesia, há
mais de 50% de chance de que esteja em Colônia Dois. Você deveria ir lá e dar
uma olhada, descobrir se ela está lá mesmo.
– E resgatar ela! – Muuurgh se levantou num salto.
– Não! – retrucou Han. – Fique sentado . Essa seria a pior coisa que você
poderia fazer. Eles iniciariam uma busca planetária por vocês dois. Usariam
sensores sintonizados em sinais togorianos para encontrar vocês. Então vocês
seriam capturados e provavelmente mortos. Ou mandados para as minas de
Kessel, o que dá no mesmo.
– Você quer que Muuurgh veja Mrrov e não deixe que ela veja ele?
– Exatamente. É só você encontrar ela, descobrir onde ela dorme, come,
essas coisas. Então, quando chegar a hora da nossa fuga, eu e você damos um
pulo em Colônia Dois e tiramos ela de lá. Eu andei fazendo reconhecimento
noturno por estas bandas, no caso de você não ter notado.
– Muuurgh notou – respondeu o Togoriano secamente. – Todo lugar que
Vykk ia, Muuurgh estava atrás dele, vigiando. Como você acha que eu sabia que
tinha que ouvir quando você levou Bria de volta para dormitório?
– Bem, de qualquer maneira, eu descobri como criar uma distração que vai
manter os guardas ocupados enquanto a gente pega as melhores coisas da
coleção. E eu sei onde o centro de comunicações fica. Eu vou me assegurar de
que a conexão entre as colônias esteja rompida na hora da gente cair fora. Então
a gente dá um pulo em Colônia Dois e, antes que eles saibam o que está
acontecendo, a gente agarra Mrrov e dá no pé deste planeta. Aí eu levo vocês
dois de volta a Togoria, tudo bem?
Muuurgh olhou para Han, estreitando os olhos azuis enquanto os bigodes
estremeciam de emoção.
– Você faria isso por Muuurgh e Mrrov?
– Sim. Eu juro. Se você ajudar Bria e eu a invadir e roubar as coisas de
Teroenza, eu juro para você que não vamos sair daqui sem Mrrov.
O Togoriano grandalhão pensou nisso por um longo tempo, depois olhou nos
olhos de Han.
– Eu vou ajudar. Palavra de honra.
Han assentiu com a cabeça.
– Negócio fechado, meu chapa.

Naquela mesma noite, Han foi até a sala de tesouro de Teroenza se encontrar
com Bria. Estava se perguntando se ela iria à cerimônia agora que sabia que era
falsa. Parado do lado de fora, Han bateu na pesada porta revestida de metal.
– Sou eu – disse ele em resposta à voz dela do lado de dentro.
A porta se abriu, e Bria saiu. Han arregalou os olhos.
– Ei! Você está linda !
Pela primeira vez desde que Han a conhecera, Bria dispensou os robes beges
e o chapéu. Em vez deles, ela vestia uma túnica azul-clara simples e calças.
Mesmo não sendo reveladoras, as roupas evidenciavam uma silhueta esguia, mas
definitivamente feminina.
– O Exaltado Teroenza me disse que eu poderia dispensar meus robes de
peregrina quando estivesse trabalhando com a coleção – explicou ela. Quando
notou a ternura nos olhos do piloto, Bria corou um pouco, mas sorriu. – Ele
temia que eu esbarrasse com o robe em algum artefato precioso e o derrubasse
da estante.
– Bem, eu aprovo – comentou Han. – Topa tomar uma xícara de chá?
– Claro.
Quando os dois estavam sentados no refeitório administrativo, com xícaras
de estim-chá diante de si, Bria sorriu timidamente para Han.
– Então... você realmente gosta da minha aparência?
– Pode crer. Você é a garota mais bonita deste planeta, sem brincadeira.
Bria sorriu, só que o sorriso se desfez e ela pareceu preocupada.
– Parece que você não é o único a pensar assim, Vykk...
– Como assim?
– Tive a experiência mais estranha com Ganar Tos, o mordomo de Teroenza,
hoje de manhã. Ele aparentemente nunca tinha visto além dos robes de
peregrina, só que, quando eu vesti estas roupas, ele me notou pra valer. Ficou me
seguindo por uma hora enquanto eu tentava reorganizar algumas peças, puxando
conversa, ou pelo menos tentando. Aqueles olhos vermelhos-alaranjados dele me
dão arrepios. Ele é velho, mas é óbvio que ainda tem... hum... vida de sobra
dentro de si, se você me entende. Vida masculina.
Han se recostou.
– Você quer dizer que o velho safado estava dando em cima de você?
Bria teve um calafrio.
– Temo que sim. Ele queria saber qual era a minha idade, se eu já fui casada,
se já tive filhos. Perguntou por que acabei vindo parar em Ylesia para ser
peregrina. Perguntas muito pessoais! Ele foi muito intrometido.
Han se inclinou para a frente.
– Então, por que você veio para cá, afinal? Ou você acha que isso é pessoal
demais para me contar, também?
Ela sorriu languidamente.
– Claro que não, Vykk. Por que eu vim parar aqui? Parece que foi há tanto
tempo que é difícil de lembrar. Eu estava passando por um momento ruim. Tinha
acabado o ensino médio e tinha um pouco de medo de ir para a universidade.
Nunca ficara sozinha antes. Mamãe sempre me manteve em rédea curta e me
deixava com a impressão de que eu não era capaz de fazer nada direito. Que eu
fosse muito estudiosa e muito comportada não era suficiente para ela. – Bria
sorriu um sorriso nada simpático. – Papai me encorajou a seguir uma carreira,
mas mamãe só conseguia pensar em me arranjar “um marido fantástico”. Achou
que seus sonhos se realizaram quando comecei a namorar Dael.
Han sentiu uma pontada de ciúmes, mas lembrou a si mesmo que houve
algumas garotas no seu passado. Mais do que algumas, na verdade...
– Estávamos prestes a noivar quando eu o peguei no flagra com outra garota.
Então terminei tudo. Mamãe ficou furiosa comigo por acabar com Dael. Ele era
de uma das famílias mais ricas de Corellia, e ela já tinha começado a planejar o
casamento. – Bria suspirou. – Ela me mandou procurar Dael e pedir desculpas,
fazer ele me aceitar de volta. Pela primeira vez na minha vida, eu lhe disse
“não”.
– Sua mãe parece uma mulher muito... determinada – comentou Han
cautelosamente.
– Determinada não é palavra. Mamãe tinha me empurrado para cima de Dael
desde que éramos colegas de escola, e eu nunca tive coragem de dizer a ela que
eu nem gostava muito dele. É engraçado – seus olhos azuis esverdeados ficaram
úmidos –, eu não queria muito Dael, mas quando eu soube que ele andava
ficando com outra mulher pelas minhas costas, me senti traída e com o coração
partido. As pessoas são estranhas, não são?
Han concordou com a cabeça.
– Continue – encorajou.
– Bem, foi por volta dessa época que eu ouvi que um missionário Ylesiano
estava promovendo reuniões. Eu estava me sentindo muito mal comigo mesma,
porque sabia que simplesmente não conseguia fazer nada direito. Isolada, sabe?
Separada de todo mundo. Então eu fui à reunião. O sacerdote Ylesiano encerrou
o serviço com alguns poucos segundos de Exultação... e aquilo me fez me sentir
tão bem . Como se o meu lugar fosse com aquelas pessoas. Então eu vendi
minhas joias, fugi de casa e peguei a próxima nave para Ylesia.
Ela sorriu melancólica.
– Então essa é minha história. Voltando ao assunto em questão, o que você
acha que eu deveria fazer para manter o pobre e velho Ganar Tos à distância?
– Bem, se ele te incomodar muito, fale com Teroenza. Tenho certeza que ele
não quer que nada interfira com o seu trabalho e, se Ganar Tos estiver
atrapalhando, então ele vai acabar com isso.
– Certo – concordou Bria, se animando. – É uma boa ideia.
– Você vai à cerimônia? – perguntou Han, olhando Bria com seriedade.
Ela balançou a cabeça.
– Não. Não quero ir.
– Eles não vão notar que você não foi?
– Eu sempre posso dizer que fiquei com dor de cabeça ou que fiquei
trabalhando até tarde. A maioria dos peregrinos mal pode esperar para ir, então
eles não controlam quem vai.
– Verdade. Que tal uma caminhada, então?
– Vamos.
Uma vez do lado de fora, Han esperou até chegar às Planícies Floridas para
tocar no assunto que tinha em mente. Resumiu rapidamente a interação daquela
manhã com Muuurgh. Bria ficou alarmada ao descobrir que o Togoriano tinha
escutado a conversa da noite anterior e comentou isso com Han.
– É, eu também fiquei preocupado – respondeu Han. – O grandalhão sabe ser
silencioso de verdade quando quer. Não é de se espantar que ele diga que é o
melhor caçador do planeta. Aparentemente, me seguiu todas as vezes que eu saí
para fazer reconhecimento do terreno e descobrir a melhor maneira de escapar
daqui.
– É melhor nós tomarmos cuidado com a nossa localização quando
discutirmos os planos de fuga – comentou ela, olhando em volta nervosamente.
– Por que você acha que eu trouxe a gente até aqui antes mesmo de tocar no
assunto? As árvores aqui têm ouvidos. A gente tem que ser muito cuidadoso.
Noite passada foi só Muuurgh, então está tudo bem, mas podia ter sido qualquer
um dos camaleões que eles usam de guarda lá na fábrica de brilhestim.
Bria estremeceu com a ideia.
– Então, o que você tinha para me contar?
– Muuurgh vai pedir para sair numa viagem de caça enquanto Jalus Nebl e
eu vamos na missão para Nal Hutta. Estamos com tudo armado. Teroenza
aprovou meu pedido para levar Nebl comigo hoje. Nal Hutta fica a dois sistemas
de distância, e vamos levar quatro, talvez cinco dias. Prometi a Muuurgh que ele
teria esse tempo para descobrir se Mrrov ainda está aqui e que, se ela estiver, a
gente vai levar ela junto.
– Isso seria bom – concordou Bria. – Odiei a ideia de deixar Muuurgh para
trás. Se Teroenza ficar furioso o bastante, ele provavelmente o mataria por nos
deixar escapar, quer fosse culpa dele ou não.
– Verdade. – Han suspirou. – Eu só queria descobrir um jeito de invadir os
aposentos de Teroenza e vasculhar o lugar até achar onde ele guarda os códigos
de acesso das naves e os códigos de segurança da coleção. Até agora, estou
empacado. Sei como manter os guardas ocupados, só que, se eu não conseguir os
códigos, talvez tenha que mudar os planos. Quem sabe tacar fogo no Centro de
Hospitalidade ou coisa assim.
– Códigos de segurança? – Bria franziu o cenho e fechou os olhos. – Códigos
de segurança... – Ela respirou fundo e começou a recitar uma sequência de
números, símbolos e letras.
– Parece que é isso mesmo! – Han segurou o braço de Bria, empolgado. – E
como você descobriu?
Bria abriu um sorriso trêmulo.
– Estavam na mente de Teroenza. Temo que estejam gravados na minha,
junto com tudo mais. Eu queria poder esquecer os códigos e todas as outras
coisas, só que não consigo.
Han segurou os ombros dela e lhe deu uma chacoalhada animada.
– Bem, não deseje isso até que a gente esteja fora deste buraco imundo. Bria,
querida, isto é ótimo! Você me poupou um trabalhão.
Ela deu outro sorriso incerto.
– Paguei um preço horrível por isso mas, se nos ajudar... acho que valeu a
pena.
– Vai valer – prometeu Han. – Confie em mim. Eu juro que vai valer.
Ela assentiu com a cabeça.
– Então a gente só precisa evitar criar suspeitas até que estejamos prontos
para dar no pé. Vai ser fácil para mim; Nebl e eu estaremos em Nal Hutta. Você
acha que consegue manter tudo na normalidade por aqui até eu voltar?
– Acho que sim. Mas... não demore!
– Não vou demorar, querida.
Bria lhe lançou um olhar suplicante.
– Depois que nós estivermos livres, poderíamos ir a Corellia, Vykk? Quero
ver minha família de novo. Quero que eles saibam que eu estou bem.
Han lhe deu um sorriso tranquilizador.
– Claro, meu bem. Eu tenho alguns assuntos a resolver em Corellia, então
essa vai ser uma das nossas primeiras paradas, tudo bem?
Bria abriu um sorriso radiante em resposta.
– Tudo bem.

Quando Vykk a deixou à entrada do dormitório, Bria disse a si mesma que só


ia dar um pulo no andar de cima e tirar um cochilo até que fosse hora do jantar.
Se alguém perguntasse, ela alegaria uma dor de cabeça como desculpa para
perder a cerimônia.
Porém, quando chegou ao quarto, Bria pegou o robe e o chapéu e ficou
parada, segurando-os. Amanhã, pensou ela. Vou começar amanhã. Afinal, tive
dois dias difíceis. Ninguém poderia esperar que eu perdesse a Exultação assim.
Vou precisar de um dia para me preparar...
E, antes que soubesse o que estava fazendo, Bria se pegou de volta nos trajes
de peregrina, avançando apressada pela Trilha da Imortalidade, em direção ao
Altar das Promessas...

Dois dias depois, um Han nervoso e um Jalus Nebl plácido esperavam do


lado de fora do salão de audiências de Jiliac, o Hutt, no seu Palácio de Inverno.
Um pequeno dispositivo de hologravação jazia aos pés de Han; tinha sido criado
para projetar um simulacro audiovisual do remetente. Nebl endireitava uma
grande e elaborada caixa sobre um suporte antigrav. A caixa continha o presente
que Zavval, o Hutt, tinha mandado para seu parceiro de negócios, e
ocasionalmente rival, Jiliac.
– Quanto tempo será que a gente vai ter que esperar? – resmungou Han,
nervoso, dando alguns passos. – Já faz quase uma hora.
– Para uma audiência com um líder de clã, isso não é nada – respondeu Jalus
Nebl. – Uma vez eu esperei dois dias só para alcançar a antecâmara. E, não se
esqueça, nós temos que aguardar uma resposta. Uma vez eu esperei uma semana.
– Não me fala uma coisa dessas – reclamou Han. – Não quero escutar sobre
tudo o que pode dar errado. Ainda acho difícil de acreditar que a gente vai sair
vivo deste lugar. Hutts são famosos pelo mau humor, sabe.
– Eu já disse, estamos perfeitamente seguros – insistiu o Sullustano.
– Perdoe-me pela minha burrice, mas como você pode ter tanta certeza
disso? – retrucou Han.
– Há muito tempo, nos primeiros dias após a chegada deles a Nal Hutta, os
Hutts perderam tantos mensageiros que a comunicação entre os clãs foi
completamente rompida, e todo mundo perdeu lucros com isso – explicou Nebl.
– Então todos os clãs fizeram um pacto: um mensageiro de um Hutt a outro é
sacrossanto. Enquanto estivermos entregando a mensagem de Zavval e levando
sua resposta, não podem nos tocar ou atrapalhar de forma alguma.
– É, espero que você esteja certo – resmungou Han. Deu uma olhada na
grande caixa. – Então por que ele está mandando um presente?
Nebl balançou a cabeça.
– Presentes são tradicionais. Para ganhar a atenção de um Hutt, você precisa
apresentar-lhe um presente ou uma ameaça. Às vezes, os Hutts fazem as duas
coisas ao mesmo tempo.
Han fez uma careta.
– Esquisito. Você não faz ideia mesmo do que tem aí dentro? Essa caixa é
grande o bastante para conter praticamente qualquer coisa. Até um cadáver, se
você dobrasse todo. Eu me sentiria melhor se eu soubesse.
– A caixa está selada – observou Nebl. – Se nós a abríssemos, sua excelência
Jiliac saberia. Não queremos criar problemas.
– É... eu sei. – Han fez outra careta e, para se distrair das preocupações, deu
uma olhada em volta.
A antecâmara tinha teto alto, com claraboias. Era construída com pedra de
cor clara, e as paredes pálidas estavam revestidas com tapeçarias que tinham
sido tecidas (pelo que se dizia) pelos inimigos de Jiliac enquanto eles
definhavam na masmorra dele, esperando pela misericórdia da execução. Uma
delas ilustrava o planeta natal original dos Hutts, o desolado e infértil mundo de
Varl. Outra mostrava o grande cataclismo que o destruíra há muito, muito tempo.
Ainda outra tapeçaria exibia a grande diáspora dos Hutts para Nal Hutta, no
sistema Y’Toub. Han sabia que Nal Hutta significava “joia gloriosa” em huttês.
A última tapeçaria era um retrato em tamanho real do próprio Jiliac,
reclinando-se em seu pódio extravagante, mas de bom gosto.
Han não tinha visto muita coisa de Nal Hutta, já que ele e Nebl tinham sido
enfiados num landspeeder com droide chofer e levados para o sul, para o remoto
Palácio de Inverno de Jiliac. O retiro do poderoso Hutt ficava numa pequena ilha
próxima ao equador. Jalus Nebl informou Han que ele era sortudo – que essa ilha
era, em comparação ao resto de Nal Hutta, um verdadeiro “jardim” naquele
mundo úmido e nauseante.
A ilha o lembrava de Ylesia – quente, úmida e cheia de árvores gigantes
coalhadas de cipós imensos.
A atenção de Han se voltou ao aqui e agora quando percebeu que Dorzo, o
mordomo Rodiano de Jiliac, os estava chamando.
– Sua suprema excelência Jiliac, líder de clã e protetor dos justos, os verá
agora.
Han catou o gravador apressadamente, e em seguida ele e Nebl entraram na
câmara de audiências.
Era imensa. Han caminhou pela nave central em direção ao pódio, sentindo a
textura luxuriante de um carpete caríssimo sob suas botas. A câmara estava
lotada de puxa-sacos obsequiosos de todas as espécies, dançarinas e dançarinos
trajados com muito bom gosto e uma orquestra num canto. Uma enorme mesa de
bufê coberta com a comida de uma dúzia de mundos fez as narinas de Han se
agitarem quando ele se lembrou subitamente de que não tinha almoçado.
Jiliac se reclinava num pódio de audiências, fumando alguma coisa que Han
não conseguia identificar e que jamais gostaria de provar. Até mesmo o leve
sopro de fumaça que ele recebeu fez sua cabeça girar.
Jalus Nebl deu uma cutucada em Han, que deu um passo à frente, nervoso.
– Todo poderoso Jiliac – disse ele em huttês, relembrando o discurso que
Zavval tinha ensaiado com ele. – Viemos em nome de nosso mestre Ylesiano,
Zavval, o Hutt, para lhe trazer uma mensagem e um presente. Primeiro, o
presente... – Fez um gesto para Nebl, e o Sullustano se adiantou, conforme
combinado.
Jiliac contemplou os dois, depois ordenou, em huttês:
– Abra. Quero ver o que Zavval considera digno de mim.
– Sim, Vossa Excelência – guinchou o Sullustano, que tratou de cortar todos
os selos e desfazer todas as travas.
Han observou fascinado enquanto o Sullustano erguia a tampa e puxava dois
globos cristalinos com suportes de bronze, que ele equilibrou um sobre o outro, e
depois colocou a geringonça toda sobre uma sólida base curva de bronze.
Todo o metal era entalhado com desenhos em ouro e prata. Havia um
pequeno compartimento na parte inferior do globo traseiro que continha algum
tipo de bateria, pensou Han. O corelliano fitou a coisa, perplexo. Não fazia ideia
do que era.
Jiliac, por outro lado, fazia.
– Um combo de narguilé com lancheiraquário! – ribombou, falando,
obviamente, em huttês, que, àquela altura, Han entendia muito bem. – E quase à
altura da nossa grandeza! Era bem o que eu queria! Como é que ele soube? –
Voltou sua atenção aos mensageiros de novo e continuou, mais formalmente. –
Mensageiros, o presente de Zavval me agrada. Vamos torcer para que a
mensagem também o faça. Ative-a, humano.
Han se curvou profundamente, pôs o gravador numa mesa baixa e o ligou.
No instante seguinte, um holossimulacro de Zavval surgiu, ocupando o espaço
diante da plataforma de Jiliac.
– Meu caro Jiliac – dizia Zavval, estendendo uma das mãos para Jiliac, como
se ele realmente pudesse ver o outro e estivesse presente de verdade. – Ao longo
do último ano, algumas ocorrências infelizes assolaram nossas operações de
transporte de cargas ylesianas. Naves desapareceram, e uma delas foi atacada.
Como um dos líderes do nosso Kajidier, era meu dever investigar essas incursões
tão desprezíveis.
A expressão de satisfação de Jiliac tinha desaparecido. Han lançou um olhar
nervoso ao Sullustano. Eu realmente espero que ele tenha razão quanto à nossa
segurança!
– Nós rastreamos esses supostos “piratas” a Nar Shaddaa, e recentemente os
meus agentes capturaram e interrogaram um dos capitães dessas naves. O infeliz
indivíduo revelou, antes de sucumbir a um coração fraco, que foi recrutado e
enviado nessas missões ignóbeis por você e seu sobrinho-neto, Jabba. Sua
inimizade nos magoa profundamente e, acima de tudo, reduz nossa margem de
lucro. Esteja advertido, Jiliac. Deixe nossas remessas em paz. Quaisquer outros
ataques produzirão represálias velozes contra você e seu clã. Reunimos uma
grande frota, que certamente aniquilará suas míseras forças.
Reunimos? pensou Han angustiado. Somos só eu e Nebl! Zavval está
blefando. Ou será que ele contratou mais pilotos recentemente?
A mensagem de Zavval continuou, inexorável.
– Aceite nosso presente como uma oferenda de paz ou aguarde as
consequências severas, dentre as quais sua morte será uma das mais leves. Jiliac,
apelo a você, em nome da irmandade Hutt, que pare de sequestrar e aterrorizar
nossas naves. Podemos lucrar muito mais se trabalharmos juntos em vez de
enfrentarmos uns aos outros.
A essa altura, Han e o Sullustano recuavam aterrorizados, pois Jiliac inchava
como uma ferida envenenada.
– Atenda à minha advertência, Jiliac. Cesse seus...
– AiiiiiieeeeeeaaaaaaarrrrrrrRRGGGGGGGGGGHHHHHHHHHHHHH!!!
O grito de fúria de Jiliac fez Han e Nebl saltarem para trás da mesa de bufê.
A cauda do lorde Hutt chicoteou num largo arco para atingir o dispositivo de
gravação, que foi atirado longe. A imagem de Zavval desapareceu.
Jiliac deslizou adiante. Han assistiu em fascinação horrorizada. Era a
primeira vez que via um lorde Hutt se mover por conta própria.
– Mensageiros! – gritou Jiliac. – Adiantem-se!
Devagar e com relutância, Han e Nebl contornaram a mesa engatinhando e
se levantaram tremulamente.
– Pois não, todo-poderoso Jiliac? – indagou Nebl. Han não conseguia falar.
– Mando vocês de volta àquela infestação parasítica de vermes que se chama
de Zavval – bradou Jiliac, com a cauda chicoteando enquanto ele andava de um
lado ao outro. – Digam-lhe que caluniou a mim e meu sobrinho, Jabba. Digam-
lhe que sua tentativa apalermada de me provocar a um ataque precipitado
fracassou completamente. Eu vou aguardar o momento propício. Ele é um Hutt
morto, mas, por enquanto, concederei a graça de permitir que finja estar dentre
os vivos. Somente eu decidirei quando ele morrerá, e será de acordo com a
minha conveniência. Vocês entendem, mensageiros?
– Entendemos, ó todo-poderoso! – declarou Han, depois de recuperar a voz.
Era óbvio que Jiliac os estava dispensando, e Han não queria nada mais que sair
daquele planeta. Curvou-se, e curvou-se de novo. – Eu direi a ele exatamente o
que o senhor disse!
– Ótimo! Vocês podem ir. Levem minha mensagem a Zavval,
imediatamente!
Curvando-se, Han e Nebl saíram do salão de audiências de costas. Uma vez
do lado de fora, saltaram apressadamente no transporte e mandaram o droide-
motorista voltar ao espaçoporto o mais rápido possível.
Han nunca ficara tão feliz em ver a Sonho Ylesiano esperando por ele. O
corelliano e Jalus Nebl correram pelo campo de pouso, subiram pela rampa e se
jogaram na cabine de controle.
Foi só quando eles estavam no espaço e Han puxou a alavanca que os lançou
ao hiperespaço que conseguiu recuperar o senso de humor em quantidade
suficiente para abrir um sorriso para o Sullustano.
– Bem, Nebl, não podia ter ido melhor, hein?
O Sullustano revirou os imensos olhos úmidos.
– Você ainda não entendeu, Vykk. Quando se está lidando com Hutts, há
engrenagens dentro de engrenagens dentro de engrenagens. É completamente
possível que Zavval tenha mandado a mensagem porque nós estamos
vulneráveis, para evitar que Jiliac ataque mais abertamente. Nós somos meros
lacaios. Vemos só uma parte do quadro geral. Podemos apenas rezar para nossos
deuses para jamais enfurecer um Hutt. Seria melhor estar morto, e isso não é um
eufemismo.
Han concordou com a cabeça.
– Eu acredito. Ainda assim, se eu fosse Zavval, não dormiria muito bem à
noite. Ele pode não ter muito tempo de vida.

Muuurgh deslizou pela selva na penumbra do curto crepúsculo ylesiano.


Tinha levado um dia e meio para percorrer os 147 quilômetros até Colônia Dois.
Parte da lentidão tinha sido causada pela perigosa travessia do rio Gachoogai.
Ficou tão cansado depois de lutar contra a poderosa correnteza que teve que tirar
duas horas da jornada para caçar, e mais uma para dormir. Ainda estava exausto
com a provação, mas finalmente tinha chegado.
Prestou atenção nos sons de cânticos enquanto contornava o perímetro do
complexo. Até onde ele sabia, Colônia Dois seguia a mesma programação que
Colônia Um, então os peregrinos deveriam estar na cerimônia vespertina.
Suas narinas se abriram no que ele testava o vento, farejando constantemente
em busca de rastros togorianos. Várias vezes, Muuurgh ficou de quatro e
avançou, farejando, aspirando os odores deixados pelos peregrinos que tinham
passado por ali recentemente.
Cinco minutos depois, levou um baque como se tivesse sido atingido com
um aguilhão atordoante. Mrrov! Mrrov passou por aqui, não mais que um dia
atrás! Movendo-se cautelosamente ao redor dos prédios, ele primeiro localizou o
dormitório onde ela dormia, depois a fábrica onde ela trabalhava.
Por fim, seguiu a trilha de cheiro mais recente por um caminho que
certamente levaria ao Altar das Promessas. Pelo jeito, Colônia Dois era
organizada com uma planta idêntica a Colônia Um.
Sem verificar mais adiante, o Togoriano desapareceu de volta na selva e foi o
mais rápido possível até o local de cerimônias. Por um momento, perguntou-se
se Mrrov farejaria o rastro dele , mas era pouco provável. Ele tinha se
encharcado por completo naquele rio e tinha evitado instintivamente esbarrar em
qualquer coisa e deixar marcas de cheiro. Não queria que Mrrov tentasse segui-
lo de volta a Colônia Um e se perdesse na mata quando a trilha fosse
interrompida pelo rio.
O Togoriano chegou bem a tempo de resistir às ondas mentais e físicas da
Exultação. Muuurgh estreitou os olhos e esquadrinhou os vultos que se retorciam
à sua frente...
...e encontrou Mrrov. Ela se contraía, mas não chegava a se retorcer... e havia
algo de falso na forma como ela se movia que permitia que ele a localizasse
facilmente.
Ela está fingindo, pensou Muuurgh. Eu sabia que Mrrov era forte demais
para ser enganada por esses mentirosos por muito tempo!
O Togoriano forçou os olhos para divisar cada linha dela sob o robe de
peregrina. Porém, ele só conseguia ver claramente a cabeça, listras alaranjadas
contrastando vividamente com o branco. Ele desejava ver os lindos olhos
amarelos, mas estava atrás dela, para a direita. Mrrov não conseguiria vê-lo.
Por um segundo, Muuurgh quase jogou a cautela e seu juramento a Vykk
para o alto – teve que fazer um enorme esforço para não sair correndo pela
massa de peregrinos, agarrar sua prometida e carregá-la para a selva.
Só que Muuurgh tinha dado sua palavra de honra a Vykk. Mrrov não poderia
saber que ele estava ali.
Quando os peregrinos se levantaram cambaleantes, com o fim da Exultação,
os olhos de Muuurgh se arregalaram ao ver que Mrrov vestia uma faixa azul –
assim como mais uns cinquenta dos cem peregrinos na cerimônia.
Aquela faixa! Aquela é a faixa dos Escolhidos! Ah, não! Muuurgh quase
sibilou bem alto sua frustração e medo. Já estava em Ylesia há muitos meses. Já
vira aquelas faixas antes.
De fato, conforme os peregrinos começaram a se dispersar na noite, o sumo
sacerdote se adiantou para chamá-los com sua voz ribombante.
– Todos os peregrinos que receberam faixas azuis hoje, por favor fiquem
para trás! Seu sumo sacerdote tem um anúncio a fazer.
Obedientes, os peregrinos com faixas azuis interromperam a caminhada em
direção à trilha e seguiram ao altar. Mrrov aparentava estar pensando em
arrancar a faixa e correr dali, mas não fez nada. Muuurgh uivou por dentro. Será
que ela sabe o que as faixas significam?
– Aqueles de vocês que receberam as faixas azuis estão sendo honrados
como Escolhidos. Sua fé e devoção ao Um e ao Todo nos fizeram selecioná-los
para esta honra singular. Amanhã à noite vocês receberão sua última Exultação
aqui neste Altar. Ao amanhecer da manhã seguinte, vocês serão levados numa
espaçonave para se encontrar com nossos missionários, e cada um será
selecionado por um deles para acompanhá-lo e espalhar a palavra do Um e do
Todo.
Muuurgh ouviu os murmúrios excitados e gananciosos da multidão e sabia
que os verdadeiros peregrinos estavam extasiados com a implicação de que
poderiam receber Exultações sem compartilhá-las com centenas de outros
peregrinos.
Idiotas... foi o primeiro pensamento do Togoriano. Eles não passam de
meros bists ou etelos, dignos apenas de serem caçados e devorados. Essas
espaçonaves vão levá-los apenas às minas de Kessel ou às casas de prazer dos
soldados imperiais. Nunca mais receberão nenhuma Exultação, viverão a
degradação e a miséria, e a maioria morrerá dentro de um ano...
O segundo pensamento eriçou o pelo de sua nuca e espinha. Só um dia e
meio até que ela seja despachada daqui! E, como os soldados imperiais só
querem humanoides nas casas de prazer deles, isso quer dizer que Mrrov está
destinada às minas de Kessel. Eles devem pensar que, como ela é Togoriana e
forte, vai durar um tempão nas minas...
Muuurgh socou o tronco de uma árvore. Malditos sejam, o tempo é muito
curto! Os senhores Ylesianos certamente vão chamar Vykk ou o Sullustano para
transladar esses peregrinos à estação espacial para aguardar o cargueiro que
virá de Kessel. Tenho que voltar a Colônia Um para ajudar Vykk, de modo que
todos possamos escapar juntos!
Muuurgh se levantou num salto e cavalgou pela selva, sentindo o medo
afastar o cansaço de seu corpo. Virou-se para sudeste, rumo a Colônia Um. Não
havia tempo a perder... A vida de Mrrov estava em risco.
O Togoriano correu, saltando troncos e córregos, abaixando-se sob arbustos.
O fôlego veio com facilidade, mas Muuurgh sabia que não ia durar muito. Ele já
estava fatigado – mas não ia permitir que isso atrapalhasse.
Como uma sombra negra numa noite ainda mais escura, o Togoriano
correu...

A cerimônia tinha acabado, e Bria seguia para a trilha de volta ao dormitório


quando Ganar Tos surgiu caminhando ao seu lado. Ela se enrijeceu, manteve a
cabeça baixa e se recusou a erguer o olhar. Eu queria que Vykk já tivesse
voltado! Já faz três dias que ele partiu... Ganar Tos não estaria me seguindo
assim se Vykk estivesse aqui...
O idoso Zisiano tentou segurar o braço dela, mas Bria o puxou. O mordomo
sorriu e se posicionou à frente da peregrina, barrando seu caminho.
– O Exaltado Teroenza deseja falar com você, Peregrina 921 – disse ele.
Ah, não! pensou Bria, sentindo como se seu coração tivesse parado e depois
recomeçado a bater contra o seu peito tão forte que ela temeu que Ganar Tos
pudesse ouvir. Teroenza descobriu que fui eu quem sondou a mente dele
telepaticamente!
– O qu-que ele quer? – Ela conseguiu perguntar com lábios rígidos,
considerando se deveria simplesmente sair correndo. Talvez conseguisse se
esconder na selva por um dia ou dois até que Vykk voltasse...
– Ele tem algo a conversar com você – respondeu Tos, sorrindo para ela. Bria
estremeceu com aquele sorriso, mas decidiu que correr não adiantaria de nada.
Os guardas simplesmente a rastreariam e a matariam...
Então ela deu meia-volta e seguiu para o Altar das Promessas.
Quando alcançou Teroenza, o sumo sacerdote a espiou do alto enquanto ela
prestava os respeitos. O coração de Bria batia muito forte, e ela estava tão
assustada que se sentia tonta.
– Peregrina 921 – começou Teroenza em sua voz retumbante. – Você nos
serviu fielmente, e eu estou satisfeito com você. Também estou satisfeito com
meu fiel servo, Ganar Tos. Quero recompensar vocês dois.
Bria deu uma olhada de lado no Zisiano, cujos olhos alaranjados
praticamente brilhavam de felicidade. Ah, não. Estou com um mau
pressentimento quanto a isto...
Teroenza apontou o mordomo.
– Ganar Tos me pediu sua mão em casamento e fico feliz em anunciar que eu
concedi o pedido. Venha aqui na minha frente, e eu pronunciarei as palavras para
torná-la a esposa dele.
Bria arfou e tentou decidir se deveria se deixar desmaiar. Tinha a sensação de
que conseguiria – pontos pretos flutuavam diante dos seus olhos, e tinha um
zumbido nos ouvidos. Então Bria sentiu uma onda de prazer engolfá-la, um
prazer tão delicioso que ela quase desmaiou daquilo. A sensação era tão intensa,
calorosa, amorosa, que ela quase teria concordado com qualquer coisa, só para
que não acabasse.
Porém, bem quando ela estava pronta para assentir como um zumbi
obediente, o rosto de Vykk surgiu diante dos olhos dela. Bria endireitou as costas
e ergueu o queixo. Não ousou desmaiar – se o fizesse, provavelmente acordaria
casada com Ganar Tos, sendo carregada para o leito nupcial. O pensamento lhe
deu ânsia de vômito, e as vibrações de prazer do sacerdote perderam seu poder
sobre ela. Bria experimentou uma imagem súbita e vívida dela mesma
compartilhando uma cama com Ganar Tos e, por um segundo horrível, ela teve
medo de vomitar.
Controle-se! comandou ela. Pense!
– Mas, Exaltado – ela murmurou com timidez, forçando-se a manter os olhos
modestamente baixos. – Eu fiz votos de castidade. Não posso me casar com
ninguém.
– Sua devoção é inspiradora, peregrina – ribombou Teroenza. – Mesmo
assim, o Um e Todo abençoa uniões frutíferas, tanto quanto abençoa o estado
celibatário. Estou lhe concedendo uma dispensa especial para que possa se casar
com Ganar Tos e criar seus filhos para serem fiéis ao Um e ao Todo.
Monstro espertalhão, pensou Bria, odiando Teroenza como nunca tinha
odiado ninguém em sua vida. Não tem como eu contornar esse argumento sem
cometer blasfêmia.
Bria respirou longa e profundamente para ganhar tempo para pensar.
– Muito bem, ó Exaltado – respondeu ela com humildade. – Se você diz que
esta é a vontade do Um e do Todo, então eu me submeterei. Serei uma boa
esposa para Ganar Tos. – Trincando os dentes por dentro, ela se obrigou a pousar
a mão no braço verde verruguento do mordomo.
– Ótimo, Peregrina – declarou Teroenza, erguendo os braços para iniciar a
cerimônia.
– Só que, Exaltado – Bria ergueu um pouco a voz –, eu preciso seguir os
costumes do meu povo antes que possa me considerar legalmente casada. –
Antes que o sacerdote pudesse recusar, ela se apressou em continuar. – São
simples e facilmente cumpridos, Exaltado. Peço apenas um dia para me purificar
e meditar sobre o sagrado estado de casamento. Além disso, em Corellia, é
tradicional que a mulher traje um vestido verde no casamento. Posso pedir com
facilidade ao droide-alfaiate que prepare um para mim até amanhã à noite.
Bria segurou a respiração enquanto Teroenza hesitava. Por fim, o sumo
sacerdote deve ter decidido que ela não estava pedindo demais.
– Muito bem, Peregrina 921 – retumbou ele. O rosto de Ganar Tos ilustrou
seu desapontamento. – Amanhã à noite, diante de todos os fiéis, você e Ganar
Tos serão unidos. Que a bênção do Um e do Todo esteja com você.
Teroenza fez um sinal rápido no ar, deu meia-volta e se afastou.
Ganar Tos rumou decidido para Bria.
– Eu a levarei de volta ao seu dormitório – anunciou.
– Muito bem – concordou ela, mas se afastou quando ele tentou passar o
braço ao seu redor. – O noivo não pode tocar a noiva no último dia antes da
cerimônia – arrulhou ela, mentindo descaradamente. – Mais uma tradição
corelliana. Certamente você pode esperar um diazinho, meu futuro marido?
Ele assentiu.
– Muito bem, minha futura esposa. Juro para você, serei um bom marido. É
meu desejo profundo que sejamos abençoados com muitos filhos.
– É igualmente o meu – concordou Bria docemente. Dentro das mangas
volumosas dos robes, ela cruzou todos os dedos das duas mãos.
Por favor, Vykk ¸ ela pensou desesperadamente, volte logo! Por favor!
A viagem de volta de Han e Nebl correu muito bem, e Han guiou a Sonho
Ylesiano na descida em meio às nuvens do lado noturno. Viram várias células de
tempestade espetaculares iluminadas por relâmpagos, porém, quando pousaram
em Colônia Um mais ou menos uma hora depois da meia-noite, milagrosamente
não estava chovendo.
– Bela aterrissagem. Não posso dizer que já fiz melhor – comentou Jalus
Nebl.
Han sorriu com o elogio e ainda trazia a expressão feliz quando os dois
desceram pela rampa até o campo de pouso. Tanto ele como o Sullustano
tiveram que colocar os óculos infravermelhos apressadamente; a noite estava
negra como piche, e não havia uma única estrela visível.
– Bem, vou tirar algumas horas de sono, meu rapaz – anunciou o Sullustano
enquanto seguia pelo caminho da enfermaria, onde ele ainda estava sendo
tratado, mesmo que não precisasse mais respirar ar filtrado. – Boa noite.
– Boa noite, Nebl – respondeu Han, tomando a trilha para o centro
administrativo. Minha cama vai estar deliciosa, ele pensou. Acho que vou
dormir até mais tarde e...
Sem aviso, alguma coisa grande o agarrou por trás, e uma mão-pata peluda
cobriu sua boca para sufocar o grito de surpresa. Han arfou ao ser erguido da
trilha e carregado alguns passos selva adentro. Por fim, uma voz familiar
sussurrou no ouvido dele.
– Muuurgh lamenta ter feito isso, mas Vykk ia gritar. Temos que ser
silenciosos.
O Togoriano colocou o corelliano no chão de novo, e Han respirou fundo,
preparando-se para dar uma bela bronca no alienígena quanto a assustar pessoas
em noites escuras. Muuurgh balançou a cabeça peluda, e alguma coisa na
expressão dele, vista pelos óculos infravermelhos, fez Han desistir. Em vez
disso, ele indagou:
– O que foi?
– Encontrei Mrrov – explicou Muuurgh. – Piloto será acordado ao alvorecer
para voar até Colônia Dois e levar Mrrov mais uma carga de peregrinos para
estação espacial. Lá vão esperar outra nave, vem de Kessel, só pode ser. Então
não tem tempo a perder. Tem que escapar. Agora . Ou Mrrov será perdida.
Han balançou a cabeça. Ele estava cansado. Tinha dormido em turnos curtos
pelas últimas cinco noites, e o sacrifício estava cobrando o preço.
– Escapar? Esta noite?
– Ssssim! – A ansiedade de Muuurgh era contagiante. Han sentia a
adrenalina começando a correr pelo corpo. – Tem que escapar! Diz a Muuurgh o
que fazer! Quase duas horas até o sol nascer. Aí Mrrov estará esperando com
outros no Altar, e Vykk e Muuurgh precisam estar prontos com nave!
– Tudo bem, tudo bem, chapa. Calma aí. – Han tentou pensar no que
precisava ser feito primeiro. – Você me pegou de surpresa aqui, eu preciso de um
segundo para desembaralhar meu cérebro. Uma coisa de cada vez. Precisamos
de algumas armas de raios. Cinco ou seis delas. Você vivia no alojamento dos
guardas. Acha que consegue entrar lá discretamente e pegar?
Muuurgh assentiu com a cabeça.
– Ssssim... Vou pegar cinco ou seis armas.
– Se eu fosse você, eu surrupiava dos Gamorreanos. Eles são burros como
um saco de pedras e dormem como portas.
Os bigodes de Muuurgh se agitaram no que ele achou graça.
– Ssssim...
– Tudo bem, então. Me encontre em frente ao centro administrativo em meia
hora.
Com um último aceno de cabeça, Muuurgh desapareceu na mata.
Han seguiu para o centro administrativo. O primeiro item na lista era
desativar o sistema de comunicações da Colônia. Ele não queria que ninguém
chamasse reforços das outras colônias ou as avisasse que havia problemas.
Quando o corelliano alcançou o centro de comunicações, enfiou a mão no
bolso para encontrar o pedacinho de papel que Bria lhe dera com todos os
códigos de segurança que tinha obtido em sua visita à mente de Teroenza. Isso
incluía o código do iate pessoal do sumo sacerdote, Talismã , que era a nave que
Han pretendia usar na fuga. Também trazia o código da sala de coleção e do
centro de operações onde ficavam os geradores da Colônia, as telas de segurança
da base, a oficina de droides, o arsenal e a unidade de comunicações.
Han se esgueirou pelos corredores silenciosos, perguntando-se se veria
Muuurgh de relance na tarefa dele, mas não teve nem vislumbre de movimento.
Àquela altura ele já conhecia o bastante sobre o layout de segurança de Colônia
Um para evitar automaticamente os entediados guardas noturnos, que muito
provavelmente estavam dormindo em seus postos, pelo que ele tinha visto em
suas explorações anteriores.
Pareceu levar uma eternidade até chegar ao centro de operações, mas ele
finalmente estava lá, digitando o código de Bria. Com um leve zumbido
eletrônico, a porta se abriu.
– Essa é a minha menina – murmurou Han enquanto entrava.
Havia um guarda postado ali, como Han sabia. Um Twi’lek, adormecido na
cadeira, pés apoiados no console de comunicações, os lekkus pendurados atrás
dele como duas cordas de carne pálida. Roncos ressoantes vibravam no ar
parado.
Han sacou a pistola de raios, configurou para ATORDOAR e puxou o gatilho.
Emitiu um raio azul circular, que envolveu o guarda. O Twi’lek deu um tranco,
depois desabou molenga na cadeira, exatamente como estivera, exceto pelos
roncos, que pararam.
– Isso foi um belo bônus – murmurou Han, guardando a arma no coldre.
Foi até o console de comunicação, puxou a pequena multiferramenta que a
maioria dos pilotos sempre trazia nos bolsos e começou a abrir a tampa do
aparelho. O plano era desativar a unidade de comunicação e depois colocar a
tampa de volta, de modo que qualquer pessoa que tentasse usá-la levaria algum
tempo para perceber que tinha sido sabotado.
Um momento depois, tirou a tampa e a colocou no chão. Arregalou os olhos
diante da miríade de fios, circuitos, transceptores, cabos e fileiras e mais fileiras
de compartimentos idênticos e não marcados. Han grunhiu em voz alta.
– Como é que eu vou saber qual desses se conecta aos geradores de força?
Escolheu um fio aleatoriamente e o cortou com o pequeno maçarico laser da
multiferramenta. O indicador de força continuou marcando LIGADO . Han cortou
outro fio. E mais outro. Com frustração crescente, segurou um punhado dos
circuitos e os arrancou.
Nada de resultado visível.
Praguejando em voz baixa, rasgou e arrancou e cortou implacavelmente, até
que ofegava com o esforço – e o aparelho ainda estava ligado!
Mais de cinco minutos tinham se passado.
– Painel idiota... – rosnou Han, que em seguida sacou a arma de raios,
colocou-a em intensidade máxima e atirou bem no meio das entranhas do
console teimoso. Chamas irromperam, o cheiro de isolamento atingiu suas
narinas, fagulhas voaram...
...e o indicador de força se apagou.
– Aí sim – murmurou Han irritado. Por via das dúvidas, atordoou o Twi’lek
de novo, deu meia-volta e saiu.
Uma vez do lado de fora do centro administrativo, Han botou os óculos e
seguiu pela trilha da selva num trote. Seus passos foram ficando cada vez mais
rápidos, até que começou a correr quase em velocidade máxima, e só uma queda
de cara numa poça de lama o deteve. Pingando e praguejando, se levantou de
novo e saiu correndo outra vez.
Os outros prédios estavam à sua frente agora, incluindo o dormitório de Bria.
Han tinha determinado que, ao contrário do centro administrativo e das fábricas
de especiarias, os dormitórios não eram guardados à noite. Afinal de contas, os
T’landa Til não davam a mínima se alguém machucasse seus escravos; eles eram
facilmente substituíveis.
A pequena cama de Bria ficava no segundo andar. Uma fraca luz noturna
brilhava na escadaria. Han subiu pé ante pé, com a arma de raios em ATORDOAR
na mão, mas não encontrou ninguém. Os peregrinos ficavam tão eufóricos
depois da Exultação toda noite que dormiam como mortos.
Han não sabia direito qual cama Bria ocupava. Espiou pelos óculos e
avançou rapidamente até centro, olhando os rostos adormecidos nos vários tipos
de sofás, catres e camas que cada espécie preferia.
Uma tábua rangeu sob o pé dele, e Han parou, segurando a respiração. Um
vulto se sentou numa cama estilo humano, vestindo uma camisola branca sem
mangas.
– Vykk? – sussurrou ela.
Han assentiu com a cabeça e acenou com urgência.
– Rápido! – sibilou ele.
Para sua surpresa, ela já estava vestindo calças. Pegou a túnica e as sandálias
e veio até Han na ponta dos pés, evitando a tábua que rangia.
Juntos, em silêncio, eles desceram cuidadosamente a escadaria, passaram
pelo átrio e saíram para a escuridão da noite. Bria pôs os óculos.
– Vamos lá – disse Han segurando a mão de Bria antes que ela tivesse tempo
de responder. – Temos que correr!
Ele saiu correndo, e Bria o acompanhou. Logo, porém, os passos da
peregrina se encurtaram, e Han percebeu que ela estava ficando sem fôlego.
Reduziu o passo para uma caminhada rápida e a rebocou pela trilha da floresta.
Bria ofegava demais para falar, mas Han, que estava em melhor forma,
recuperou o fôlego em instantes.
– É hoje à noite – informou ele. – Preciso que você e Muuurgh comecem a
recolher a coleção de Teroenza enquanto eu tiro os guardas da nossa cola. Você
acha que consegue?
Bria assentiu sem conseguir falar.
– Ganar Tos... – tentou dizer.
– Esquece ele – retrucou ríspido. – Você nunca mais vai ver o cara, com
alguma sorte.
– Mas ele... e Teroenza... – Ela cedeu ao puxão urgente e começou a correr
de novo. – Vão me fazer... casar... com ele...
Han arregalou os olhos.
– Ganar Tos queria casar com você? Pelos Lacaios de Xendor! Ainda bem
que a gente tá dando o fora daqui!
Incapaz de falar, Bria apenas concordou com a cabeça.
Quando eles alcançaram o centro administrativo, Bria já tinha recuperado o
fôlego. Seguiu Han conforme ele caminhava pelos corredores escuros até a porta
da sala de coleção de Teroenza. Muuurgh esperava os dois. Aos seus pés havia
uma pilha de armas de raios. Bria arregalou os olhos.
– Para que isso tudo?
– Distração – respondeu Han. – Certo, agora... aqui está o código de
entrada... – Digitou o código rapidamente e, como antes, a porta se abriu. Os três
entraram furtivamente no imenso salão mal iluminado. Han pegou uma poderosa
eletrotocha na escrivaninha de Bria e iluminou o aposento com o feixe forte. –
Acha que a gente pode correr o risco de acender as luzes?
Bria fez que sim com a cabeça.
– A sala é bem isolada. Conferi semana passada. Não tem como se ver do
apartamento de Teroenza.
Han ligou as luzes do teto, e o salão subitamente se iluminou completamente.
Desde que Bria assumira a manutenção da coleção, tinha arrumado o salão
inteiro. Os expositores de itens reluziam, as estantes estavam bem menos
entulhadas, e as cores das tapeçarias eram vívidas, livres da camada de poeira.
Os três pilares centrais de sustentação tinham uma camada fresca de tinta.
– Certo – sussurrou Han. – Você e Muuurgh comecem a recolher os itens que
você escolheu. Eu volto em uns quinze minutos, tudo bem?
Bria concordou com um aceno de cabeça.
– Mas onde eu vou carregar isso tudo?
– Semana passada eu escondi uma mochila na parte de trás das duas fadas
naquela fonte de jade branco – disse Han, apontando o imenso objeto. – Vai dar
para começar. Vou tentar trazer algo comigo se encontrar qualquer coisa que
sirva.
– Tudo bem – sussurrou ela.
Muuurgh já estava mais adiante, examinando uma coleção de adagas
cravejadas. Bria hesitou, com expressão angustiada. Han pôs as mãos nos
ombros dela.
– O que foi, querida?
– Vykk... eu nunca fiz nada assim antes! – Ela mordeu o lábio e apontou as
armas que Muuurgh tinha trazido. – Armas e roubos! Alguém pode se machucar
, e até morrer ! Você pode ser morto, ou eu! – Ela tremia de cima a baixo.
Han a abraçou e a puxou para perto.
– Bria, nós temos que ir esta noite – afirmou, ainda que fosse um esforço
manter a voz gentil e esconder a impaciência. – Amanhã eles vão despachar
Mrrov para as minas de Kessel. A nave provavelmente vai chegar em órbita a
qualquer momento agora para levá-la. É agora ou nunca, meu bem.
– E... e... – Bria agarrava a frente do macacão de Han com as duas mãos. –
Eu tenho medo do que vai acontecer comigo quando eu sair daqui. Sem a
Exultação... Como eu vou viver assim?
– Você vai ter a mim – relembrou ele. – Vamos ficar juntos. Eu estarei com
você... cada minuto. Você vai ficar bem...
Bria engoliu seco e fez que sim com a cabeça, mas duas lágrimas lhe corriam
pelo rosto. Han lançou um sorriso encorajador.
– Ei... Eu sou melhor que Ganar Tos, né?
Bria conseguiu soltar uma risada engasgada, depois abriu um sorriso aguado.
Han pegou as armas e saiu pela porta, tomando o cuidado de verificar que
estava fechada depois de passar.
Descobriu que carregar seis armas sozinho não era fácil. Por fim, acabou
metendo-as na frente do macacão e no cinto. Isso atrapalhava um pouco os
movimentos, mas era melhor que fazer malabarismo com as armas e ficar com
medo que uma ou mais caíssem com um estardalhaço.
A noite estava escura como sempre, mas Han sabia que não devia faltar mais
de uma hora para a alvorada. Conseguiu engrenar uma corridinha desengonçada
pela trilha enlameada, com as armas batendo nas pernas e no peito.
Levou quase sete minutos para chegar à primeira fábrica de brilhestim, e
mais dois para se esgueirar até perto o bastante do guarda, um enorme
Gamorreano, para então poder atordoá-lo à queima-roupa. Ao ver o vulto
gigante e porcino da criatura, Han lhe deu um tiro adicional para garantir que
ficaria quieto pelo tempo que fosse necessário.
O rapaz então se virou e entrou na fábrica, indo direto até o turboelevador,
quase levando um tombo por causa das armas quando se espremeu pela grade da
porta. Despachou o turboelevador para o andar mais baixo e aguentou a jornada
de descida para as trevas gélidas e mais escuras que a escuridão.
Quando Han alcançou o fundo, o nível onde Bria costumava trabalhar, partiu
direto para onde tinha espiado os recipientes de brilhestim bruto que esperavam
para ser distribuídos pelos trabalhadores.
Han puxou cinco armas de raios do cinto (ficou com a sexta de reserva, já
que não tivera como saber que deveria ter mantido a própria totalmente
carregada para a fuga) e as arrumou em cima do brilhestim num belo desenho de
“sol raiado”. Depois abriu cada uma das poderosas armas e, usando os óculos
para ver, configurou-as para SOBRECARGA . Um apito agudo soou, ficando mais
alto, ecoando no espaço cavernoso conforme mais apitos se juntaram ao primeiro
nas profundezas úmidas da fábrica.
– Isso deve resolver – sussurrou Han para si mesmo. Sabendo que só tinha
minutos para escapar dali antes que o lugar inteiro explodisse, saiu correndo para
o turboelevador.
Foi gostoso sentir o sopro do vento batendo contra seu rosto suado. Han
saltou para fora, correu pelo andar térreo da fábrica, saltou sobre o Gamorreano
derrubado – que começava a fungar e se mexer – e saiu correndo noite adentro.
Han estava a meio caminho do centro administrativo quando sentiu o chão
tremer e virou-se para ver uma labareda de chamas amarelas subindo ao céu.
Momentos depois, as faíscas azuis de brilhestim voaram como fogos de artifício,
lançando fitas reluzentes bem alto.
Han mal conseguia estimar quantos créditos ele via virar fumaça. Era de
fazer pensar.
Adiante, ouviu uma comoção vinda do centro administrativo e, momentos
depois, teve que saltar da trilha e continuar correndo pela selva quando uma
turba de guardas que gritavam quase o atropelou.
Derrapando no lodo do piso florestal, Han conseguiu manter um bom ritmo
ao correr pelo resto do caminho. As botas deixaram pegadas enlameadas nos
degraus do centro administrativo quando Han os subiu velozmente e depois
seguiu pelos corredores até a sala de tesouros de Teroenza.
Havia guardas por todos os lados agora, gritando e berrando perguntas, mas
nenhum deles deteve ou interrogou Han. O piloto chegou à porta do salão de
exposição, olhou para os dois lados e por fim entrou furtivamente.
Bria e Muuurgh ergueram o olhar, viram que era Han e então relaxaram
perceptivelmente.
– Como vocês estão indo? – sussurrou Han.
– Tudo bem – respondeu Bria em voz baixa. – Quase terminamos a lista A.
– Ótimo.
– O que foi que Vykk fez? – indagou Muuurgh.
– Vykk explodiu a fábrica de brilhestim – respondeu Han, satisfeito. – Um
monte de peregrinos ficou desempregado.
– Ah, Vykk! Se nós formos pegos... – O rosto de Bria ficou branco como giz.
– Não seremos – retrucou Han. – Estou com tudo sob controle.
Estendeu a mão para puxar uma pequena escultura de um torsk de Alzoc III,
entalhada em lápis-lazúli, que demonstrou ser mais pesada do que ele esperava, e
deu um puxão forte.
A escultura se inclinou para cima e revelou um emaranhado de fios e
transponderes. Em algum lugar ali perto, nos aposentos pessoais de Teroenza,
um alarme começou a trinar estridente.
Han olhou a escultura, depois os colegas ladrões.
– Oh-oh...
Bria encarou Han, aterrorizada e furiosa.
– Ah, ótimo! Agora o que nós vamos fazer?
Han pensou rápido.
– Vamos dar o fora daqui. A lista A já é boa o bastante. Bria, você leva a
mochila, está bem? E aqui, pegue isto. – Tirou a arma de raios extra do cinto e
entregou a Bria. Mostrou como mirar e onde ficava o gatilho. – Talvez a gente
tenha que lutar para sair daqui.
– Maravilhoso – retrucou ela amargamente. – Tudo sob controle, não é,
Vykk? Nada com que se preocupar!
Han só podia dar de ombros. Desta vez, era definitivamente culpa dele .
– Para que lado? – indagou Muuurgh, o mais prático do grupo. – Por porta de
sacerdote ou porta principal?
Han considerou por um segundo, mas foi salvo de ter que tomar uma decisão
– as duas portas foram abertas ao mesmo tempo.
Teroenza surgiu emoldurado pela porta de seus aposentos, fungando de raiva.
Zavval e um esquadrão de guardas preenchiam as grandes portas duplas.
Han agarrou Bria e mergulhou detrás da imensa fonte de jade branco,
enquanto Muuurgh se protegia atrás do pilar central de suporte do aposento.
– Peguem eles! – vociferou Zavval, avançando no trenó repulsor. Teroenza
investiu como uma fera enlouquecida, a cabeça baixa e o chifre em riste.
Han deu um tiro, viu o raio azul de atordoamento e praguejou enquanto
ajustava a intensidade da arma para TOTAL . O raio atordoante nem desacelerou
Teroenza. Muuurgh mirou, disparou e derrubou um guarda Sullustano.
Han puxou o gatilho de novo, mas o raio da arma ricocheteou no trenó de
Zavval e atingiu o pilar de sustentação mais próximo da porta, queimando-o pela
metade. O pilar cedeu, mas não desabou.
Teroenza investiu contra Muuurgh, e o grande Togoriano saltou e agarrou o
sumo sacerdote, segurando-o pelo pescoço e o chifre. Muuurgh cravou os pés no
carpete e tentou conter o ex-chefe. O impulso do T’landa Til, detido pela força
do Togoriano, fez com que seus quartos traseiros se dobrassem para cima,
atingindo o pilar central com um baque.
O chão tremeu e poeira choveu do teto. Os pés posteriores de Teroenza
derraparam, e o sumo sacerdote desabou. O chão tremeu de novo.
Han mirou e atirou, e um Gamorreano caiu de volta no corredor, com um
grito. Bria contornou o chafariz com a pistola em riste, mas, antes que pudesse
atirar, um dos guardas disparou. Ela gritou e se abaixou no que um raio estourou
um pedaço do chafariz, lançando fragmentos de jade no ar. Teroenza, que tentava
se levantar, soltou um uivo angustiado de protesto.
Outro raio zuniu perto de Han, tão perto que o corelliano sentiu o cabelo
sendo queimado. Jogou-se no chão, rolou e deu mais dois tiros no ventre do
trenó de Zavval. Como ele tinha planejado, os raios atingiram a unidade de
repulsão. Porém, em vez de afundar para o chão, o trenó sofreu danos nos
controles de velocidade e direção.
Zavval tentou em vão controlá-lo, mas o trenó disparou à frente em
velocidade máxima. Segundos depois, ricocheteou na parede oposta.
Atropelando tudo em seu caminho, o trenó quicou pelo salão de exposição,
levando Zavval como um passageiro indefeso.
Um guarda Rodiano, concentrado em tentar acertar Han, não viu o veículo
desgovernado e foi esmagado numa chuva de sangue. O trenó destroçou uma
mesa expositora, e Teroenza gritou ao ver sua preciosa coleção de vasos antigos
virar poeira.
O Hutt bateu na parede oposta, e o salão inteiro tremeu. Poeira e destroços
caíram do teto. Han e Bria se deitaram no chão quando o trenó desgovernado
bateu numa das ninfas de jade e a destroçou.
Zavval gritava, e a maioria dos guardas tinha sabiamente fugido.
Então o trenó, com o imenso peso de Zavval em cima, se esborrachou direto
na coluna central do aposento. O suporte cedeu e gemeu, depois se dobrou em
dois e se partiu – seguido por aquele que Han tinha parcialmente vaporizado.
Com um último suspiro agonizante, o trenó repulsor se assentou no chão e
morreu.
Han contemplou em horror paralisado quando, aparentemente em câmera
lenta, metade do teto estrondou, cedeu, rachou e por fim desabou em imensos
pedaços. O piloto se recuperou bem a tempo de agarrar Bria e arrancá-la do
caminho de um enorme pedaço do piso de pedra do andar de cima que caiu na
direção deles. Jogou-a no chão, debaixo da bacia do chafariz, e caiu em cima da
peregrina, protegendo-a.
Zavval gritou esganiçado enquanto enormes escombros caíam nele,
soterrando-o sobre os restos destruídos do trenó. A poeira subiu numa nuvem
sufocante. Tossindo e engasgando, Han rastejou de cima de Bria assim que
percebeu que o teto tinha acabado de desabar. Olhou para o lugar onde Zavval
tinha ficado, mas daquele senhor do crime Hutt ele só viu a cauda que se
contorcia em espasmos.
Teroenza tinha se enfiado sob a proteção de uma imensa mesa antiga e
acabara relativamente ileso. Quando os escombros terminaram de cair, ele saiu
engatinhando de sob a poeira e os destroços da mesa agora rachada. O T’landa
Til cambaleou em direção a Han, Bria e Muuurgh – o Togoriano tinha se
abrigado sob o batente da porta do apartamento do sacerdote – e uivou,
espumando de raiva. Obviamente ainda determinado a se vingar, Teroenza
baixou a cabeça, de chifre em riste, e investiu.
Han mirou e disparou um tiro no flanco direito, derrubando-o no chão com
um grito. Um cheiro nauseante de carne queimada inundou o ar. Um tiro de um
dos guardas acertou o chafariz de novo, e pequenos estilhaços de pedra
incandescente passaram bem diante do rosto de Han. Um deles se cravou no seu
pescoço, e os dedos do piloto ficaram sujos de sangue ao arrancá-lo.
Han fez pontaria ao longo do cano da pistola, disparou, e o último guarda
caiu, fora de combate.
– Vamos! – gritou Han, agarrando Bria e a mochila, enquanto fazia um gesto
para Muuurgh. – Vamos cair fora daqui!
Escorregando em escombros e tropeçando em corpos, os três ladrões
seguiram para as portas duplas. Quando chegaram lá, Han fez um gesto para que
os colegas esperassem enquanto ele metia a cabeça cuidadosamente para fora, só
para ser recompensado por um tiro que quase lhe arrancou a orelha.
– Muuurgh, leve Bria pelo outro lado! – ordenou. – Vá pela porta de
Teroenza, e a gente pega eles no fogo cruzado. Na contagem de cinquenta!
O Togoriano assentiu com a cabeça e saiu com Bria, deslizando e
escorregando de volta pelas ruínas da sala de tesouro; passou por Teroenza, que
gemia, e atravessou a porta que levava ao apartamento do sacerdote.
Han contou em silêncio. No quinze, enfiou a mão pelo batente da porta e
metralhou quatro tiros rápidos, sendo recompensado com um grito de agonia.
Menos um guarda...
O piloto esperou, ofegando, tentando não tossir com a poeira que ainda
enchia o ar.
Quarenta e cinco, quarenta e seis, quarenta e sete, quarenta e oito, quarenta
e nove... cinquenta!
Han mergulhou porta afora, fez um rolamento no corredor e atirou. Raios
vermelhos quase lhe acertaram as pernas e a cabeça, mas ele derrubou outro
guarda, um Whiphid. Conforme planejado, Muuurgh e Bria disparavam de trás
dos guardas, e mais dois caíram.
Os dois últimos guardas, um Devaroniano e um Gamorreano, deram no pé e
saíram correndo para longe da corelliana e do Togoriano, pulando por sobre Han,
que ainda estava caído no chão.
O piloto se levantou cambaleante, bem a tempo de ouvir Muuurgh soltar um
poderoso urro de batalha e começar a lutar com... quem? Han não conseguia ver
ninguém!
Será que ele ficou maluco? perguntou-se Han, mas então teve um vislumbre
de um olho vermelho-alaranjado, uma boca cheia de dentes, e ouviu um sibilo
alto. Viu uma arma de raios sendo chacoalhada, aparentemente no ar, e por fim
distinguiu o ser pálido, verruguento e escamoso. Um camaleão!
Muuurgh grunhiu e rosnou enquanto atacava o Aar’aa. O Togoriano era tão
mais alto que o oponente que quase se dobrava ao meio. Han estremeceu quando
Muuurgh caiu de joelhos, agarrando o adversário. A criatura reptiliana era da cor
exata das paredes e do piso neutros no corredor mal iluminado. Com um
movimento como o bote de uma víbora-graal, o Togoriano cravou as presas na
garganta do ser e arrancou. Sangue vermelho alaranjado espirrou no ar.
Muuurgh saltou para trás, e Han assistiu, fascinado, enquanto o Aar’aa
vacilou, depois caiu, com lentidão pesada, para o chão. Ali esparramado no
chão, a criatura reverteu à sua pálida cor natural, um bege acinzentado. Han não
precisou olhar duas vezes para saber que estava morta.
Bria encarava horrorizada o ponto onde o Aar’aa morto jazia.
– Ele quase me pegou – sussurrou ela. – Se não fosse por Muuurgh...
– Como foi que você viu ele, chapa? – indagou Han, guardando a pistola no
coldre. – Eu não consegui ver nada!
– Eu não o vi , eu o farejei – declarou Muuurgh, categórico. – Togorianos
caçam com a visão e o faro. Muuurgh é um caçador , lembra?
– Obrigado, chapa – disse Han e passou o braço pelos ombros de Bria. – Eu
te devo uma. Agora é melhor a gente...
– Cuidado! – gritou Bria, e Han se abaixou por instinto. Bria disparou a arma
em modo atordoante logo acima da cabeça dele, fazendo seus ouvidos zumbir.
Endireitou-se a tempo de ver Ganar Tos desabando lentamente para o chão
enquanto uma pistola escorregava de seus dedos verdes.
Han foi até o velho mordomo, pegou a pistola e a meteu no cinto. Bria parou
ao seu lado.
– Eu só consigo pensar que, se você não tivesse voltado hoje, esta noite eu
me tornaria a mulher dele – murmurou Bria, estremecendo tão forte que Han lhe
deu um abraço tranquilizante.
– Ainda bem que você só atordoou ele – comentou Han. – Ele pode até ser
um velho tarado nojento, mas como eu poderia culpar ele por ter se sentido
atraído por você? – Han sorriu para Bria, com um olhar intenso.
Bria olhou para baixo e ficou corada.
– Eu não queria me casar com ele, mas fico feliz que não esteja morto.
– Bem, eu te devo uma, meu bem.
– Não, não deve. Estamos quites. Se não fosse você, eu estaria soterrada por
aquele teto lá atrás, que nem o Hutt.
– É, temo que o velho Zavval não esteja mais conosco – afirmou Han. – E eu
acho que os Hutts vão me culpar por isso.
Por um momento, Han se lembrou de Teroenza, que ainda estava vivo, só
ferido. Será que ele deveria voltar para acabar com o T’landa Til? A ideia de
andar até um senciente indefeso e atirar na criatura a sangue-frio não o agradava.
– Vamos dar o fora daqui – decidiu, chamando Muuurgh, que limpava com
lambidas o sangue Aar’aa das patas com nojo fastidioso.
– Anda logo, Muuurgh, você pode cuidar dos bigodes mais tarde. Não se
esqueça que Mrrov está esperando.
Os três saíram correndo do centro administrativo e viram que a fábrica de
brilhestim ainda lançava faíscas azuis no ar – mas o céu não estava mais negro, e
sim mais claro, quase azul.
– A aurora não está longe! – exclamou Han. – Vamos lá!
O trio disparou a correr pela trilha da selva. Quando chegaram perto do fim,
Han acenou para que esperassem enquanto ele esquadrinhava o campo de pouso
com cuidado. Não viu nenhum guarda... aparentemente todos eles ainda
enfrentavam o incêndio ou estavam no centro administrativo.
Mesmo assim, eles avançaram cuidadosamente, com armas de raios em riste,
todos os sentidos atentos a movimentos ou sons.
Quando Han alcançou a Talismã , digitou com rapidez na tranca o código de
acesso que Bria lhe dera, e os três subiram a rampa.
A Talismã era um pouco maior que a Sonho Ylesiano , em forma de lágrima,
com uma quilha protuberante. Porém, em vez de um porão de carga, a maior
parte do interior era dedicada a luxuosos aposentos de passageiros e amenidades.
Era dividida e desenhada para os T’landa Til, então apenas a cabine de pilotagem
tinha assentos no estilo humanoide. Havia uma pequena cama de tamanho
humano numa cabine de guarda, mas o resto das cabines de passageiros estava
equipado com as “redes” de dormir que os T’landa Til preferiam.
Uma vez lá dentro, Han indicou com gestos que Bria deveria assumir o
assento do copiloto e instruiu Muuurgh a se afivelar num dos leitos de
passageiros.
Nunca tinha voado aquela nave em particular durante sua estadia em Ylesia –
Teroenza estava preocupado demais com os ataques piratas para arriscar viajar
antes que as armas e melhorias de escudos estivessem equipados.
Han se familiarizou com os controles rapidamente. A Talismã não tinha
tantas armas ou escudos quanto a Sonho mas, para um iate particular, estava
agora pesadamente armada e bem protegida.
– Checagens pré-voo completas, estamos prontos para zarpar. Apertem os
cintos, amigos... Vamos dar o fora daqui! – gritou Han e tirou a nave do solo. A
Talismã reagiu bem ao toque dele e parecia ser uma nave boa, porém bem lenta.
– Agora é a vez de Mrrov – exclamou Muuurgh, empolgado. – Certo, Vykk?
– Certo, meu chapa – respondeu Han. – Vamos chegar lá bem a tempo da
alvorada. Onde eles estão reunindo os peregrinos destinados à nave de Kessel?
– No Altar das Promessas – disse Muuurgh.
– No Altar das Promessas Quebradas – corrigiu-o Bria, com amargura. –
Será que Teroenza vai sobreviver?
– Eu não machuquei ele tanto assim – disse Han. – Aposto que agora mesmo
ele deve estar a caminho da enfermaria e do droide médico.
Han pilotava de olho no mapa.
– Ah, aliás, tem uma coisa importante que eu tenho que contar para vocês
dois.
– O quê? – indagaram Bria e Muuurgh ao mesmo tempo.
– Meu nome não é Vykk Draygo. Meu verdadeiro nome é Han Solo. Seria
bom se vocês começassem a me chamar assim.
– Han? – repetiu Bria. – Por que você não me contou antes?
– Eu tinha medo que, se eu contasse, você poderia escorregar e me entregar
para Teroenza ou um dos capangas dele – explicou Han. – Mas eu queria que
você soubesse, então contei assim que possível.
– Vykk era um pseudônimo?
– Era. Um de vários, inclusive.
– Muuurgh vai ter que se acostumar com isso – comentou o Togoriano. –
Quão perto estamos agora... Han?
– Vamos chegar em menos de cinco minutos.
– E como nós vamos buscar Mrrov? – perguntou Bria. – Quer dizer, deve ter
guardas lá também.
– Eu não sei – respondeu Han. – Mas vou pensar em alguma coisa.
Han se concentrou em pilotar e então, quando chegaram a Colônia Dois,
sobrevoou o campo com a Talismã do sul ao norte, dando um rasante sobre as
copas das árvores.
– Você disse que os peregrinos deveriam se reunir no Altar, né? – perguntou
Han a Muuurgh.
– Ssssim.
– Tudo bem, então. Será que vamos ter espaço suficiente para fazer o que eu
estou pensando... – murmurou, espiando a tela que mostrava a área real e
também a planta que exibia as características topográficas e os prédios do
campo. Colônia Dois ficava do outro lado das Montanhas da Fé, em relação a
Colônia Um, na margem nordeste de Zoma Gawanga, o oceano raso que rodeava
o continente oriental inteiro.
– Acho que dá – murmurou Han. – Espero que os repulsores desta belezinha
estejam em perfeitas condições de funcionamento. Vamos ter que pairar e baixar
um cabo. Não acho que terei espaço para pousar de verdade. Muuurgh, vá à
escotilha central e veja se tem algum cabo que a gente possa baixar. Acho que a
maioria destas naves tem equipamentos de emergência, e um cabo com guincho
devem estar incluídos.
Muuurgh desapareceu, e Han se concentrou em voar num circuito lento sobre
a Colônia. Bria espiava a tela.
– Estou vendo eles! – exclamou, empolgada. – Tem uma multidão reunida no
Altar!
– Ótimo – respondeu Han, distraído.
Muuurgh reapareceu.
– Sim, temos cabo. Tem um arnês que pode ser atado nele.
– Certo, meu chapa, eis aqui o que a gente vai fazer. Vou baixar esta lata
sobre o anfiteatro, bem devagar. Então vou colocar ela para pairar sobre os
repulsores. Mrrov não tem motivo para saber quem é a gente, então ela vai ter
que te ver para correr até a nave, né?
– Ssssim.
– Você vai ter que descer no arreio e deixar Mrrov te ver. Bria, você controla
o cabo, está bem?
– Tudo bem... Han.
– Vocês dois fiquem espertos. Eles podem atirar. Os escudos da nave vão nos
proteger contra armas de mão, mas, uma vez que você sair, isso não vai te ajudar,
Muuurgh.
– Entendi.
– Se os guardas ficarem muito agressivos, eu posso lançar uma rajada dos
canhões laser leves da nave – continuou Han. – Vou mirar acima da cabeça
deles, para não atingir os peregrinos, mas isso deve deixar o recado bem claro.
– Muuurgh está pronto, Han.
– Certo. Lá vamos nós.
Com cuidado, Han levou a Talismã até acima do anfiteatro, lamentando não
ter mais tempo para pegar o “jeito” daqueles controles. Circundou o anfiteatro,
com as holocâmeras ventrais ligadas, para que pudesse dar uma boa olhada no
layout. Han estava consciente de todos os peregrinos que olhavam para cima e
apontavam, conforme ele baixava cada vez mais com cada circuito. Por fim,
estava perto o bastante para ativar os repulsores e pairar, mais ou menos doze ou
treze metros acima do permacreto.
Han viu vários sacerdotes e um grupo de guardas atrás do grupo ansioso de
peregrinos. Sabia que os sacredots provavelmente estavam se perguntando por
que o iate pessoal do sumo sacerdote estava sendo usado para transportar
peregrinos para a nave de escravos para Kessel.
– Isso é o mais baixo que eu posso descer e pairar com segurança! – gritou
Han. – Baixe Muuurgh!
O piloto ficou com o dedo sobre os controles que baixariam o canhão laser
leve, mas ele não queria fazer o primeiro movimento agressivo. Ouviu Bria
conversando com Muuurgh, as vozes abafadas pela distância. Deu uma olhada
na holocâmera ventral bem a tempo de ver Muuurgh descendo com a pistola
ainda no coldre.
A câmera não contava com áudio, mas Han percebeu que Muuurgh abria a
boca e sabia que ele só poderia estar chamando Mrrov.
Os guardas perambulavam, ainda sem saber o que estava acontecendo, mas
claramente inquietos. Tudo que acontecia era muito irregular, e eles estavam
ficando desconfiados. Um dos guardas abriu caminho dentre a multidão de
peregrinos aos empurrões. Quando o humano chegou à frente, estava com a arma
de raios em riste e parecia gritar para Muuurgh que se identificasse e dissesse o
que estava fazendo.
– Bria! – gritou Han, virando a cabeça com cuidado para não mexer nos
controles da nave que pairava. – Fique esperta! Parece que eles vão...
Duas coisas aconteceram ao mesmo tempo: um vulto alto vestindo robes de
peregrino começou a correr de repente na direção de Muuurgh, e o guarda mirou
a arma de raios.
Han conseguiu apenas vislumbrar as listras laranjas e o pelo branco e
entendeu que só poderia ser Mrrov. Viu a pistola do guarda ser disparada e ser
correspondida rapidamente por Bria e Muuurgh.
Mais dois guardas sacaram e atiraram. A multidão de peregrinos entrou em
pânico e se espalhou, pisoteando uns aos outros e os guardas.
Han baixou o canhão laser leve, grato pelos ataques piratas que fizeram
Teroenza reforçar o armamento e as defesas da nave. Disparou uma rajada,
tomando o cuidado de mirar sobre as cabeças da multidão que corria e gritava.
Mais ataques dos guardas e então Han ouviu um leve uivo de dor. Conferiu
na tela e viu Muuurgh pendendo no arreio, segurando o flanco, apesar de não ter
soltado a arma. Mrrov o alcançou um segundo depois e saltou para se agarrar ao
companheiro, se prendendo a ele com os braços e as pernas.
Bria atirava constantemente agora, e Han viu um Gamorreano tombar. O
cabo estava sendo içado agora, girando lentamente com sua carga
desequilibrada. Mrrov tirou a pistola de Muuurgh da mão frouxa dele e disparou
por sob o ombro do companheiro. Han não tinha como ver se ela atingiu o alvo.
O piloto percebeu que a maioria dos peregrinos tinha se espalhado e apenas
os guardas e sacerdotes permaneciam perto do Altar. Muitos dos guardas tinham
se misturado à multidão, mas alguns ainda estavam lá, ainda atirando. Han mirou
no Altar das Promessas, assegurou-se de que sua pontaria tinha precisão
absoluta, e disparou o canhão de novo.
O Altar irrompeu com um buum que Han ouviu de dentro da Talismã. Poeira
subiu enquanto pedaços de pedra choviam. Os sacerdotes se espalharam, fugindo
a galope. Han ficou surpreso com a velocidade e agilidade daqueles enormes
corpos quadrúpedes. Os guardas tinham desaparecido.
O silêncio reinou subitamente. Os segundos se passaram, mas nada se mexia
do lado de fora. Alguns corpos, tanto guardas como peregrinos, jaziam imóveis
onde tinham sido pisoteados no pânico.
Das profundezas da nave, ele ouviu a voz de Bria.
– Eles estão comigo! Vamos lá!
Han conferiu se as portas ventrais estavam corretamente fechadas, depois
decolou com a Talismã . As holocâmeras mostravam uma vista estonteante do
anfiteatro sumindo ao longe. Han desligou as câmeras enquanto dava a volta e
verificava o clima em seu vetor de escape mais próximo.
Ironicamente, ele teria que voltar na direção de Colônia Um para alcançar a
melhor “janela” de saída de Ylesia. Han acelerou a Talismã e a levou para o sul e
para cima... para cima...
Estamos quase lá, pensou Han com uma onda de empolgação. Quase livres...
Muuurgh sufocou um gemido quando seu ombro bateu no casco da Talismã .
Sentiu as mãos de Bria em si, depois ouviu a voz de Mrrov em língua básica:
– Me ajude a subir. Eu consigo levantá-lo.
Segurou-se ao arnês com a mão boa e sentiu o corpo de Mrrov esbarrar no
dele enquanto era puxada à Talismã que pairava. O ferimento em seu flanco era a
estocada de fogo das garras de um demônio da noite. O Togoriano conseguia
apenas respirar e se manter quieto. Era um caçador, e caçadores sabiam ficar em
silêncio.
Os tiros de arma de raios tinham parado. Muuurgh abriu os olhos enquanto o
arnês girava lentamente e viu que o Altar das Promessas tinha sido destruído.
Talvez aquela tivesse sido a explosão que ele ouvira. Tinha pensado que fora
dentro da cabeça dele.
O ferimento de raio latejava agora, em ondas. Muuurgh se esforçou em
continuar consciente enquanto Bria e Mrrov seguravam seus braços e o
puxavam, ainda no arnês, para dentro da Talismã. Percebeu vagamente a
escotilha de carga sendo fechada atrás de si.
Então ouviu a voz de Bria gritar:
– Eles estão comigo! Vamos lá!
Muuurgh ficou deitado no convés, respirando superficialmente, mas um
pouco da sua força voltou. Ouviu Mrrov falando com Bria.
– Tem algum kit médico a bordo?
– Vou procurar! – Com um farfalhar a humana se foi, deixando-o a sós com
Mrrov. Muuurgh fez um esforço e abriu os olhos.
Ao ver que ele a olhava, Mrrov se inclinou e esfregou a bochecha na dele
com carinho, trocando cheiros.
– Meu caçador – murmurou ela na língua natal deles, lambendo-lhe o rosto
com carinho. – Você me rastreou. Você é o maior caçador que nosso povo já viu!
– Mrrov... – murmurou Muuurgh.
– Calado. Não tente falar. Seu ferimento é grave, porém acredito que vá sarar
com o tempo. Ah, Muuurgh! Quando eu o vi descendo da barriga desta nave, não
pude acreditar que era você! Por todos esses dias e semanas, eu me perguntava
se você conseguiria me encontrar, e você conseguiu!
– Você sabia que eu estava aqui? – Muuurgh estava confuso. – Se você sabia,
então por quê...
As lindas feições rajadas em cor laranja estavam perturbadas quando ela se
esfregou de novo no rosto dele. Os bigodes se emaranharam nos dele, e Muuurgh
suspirou de prazer, apesar da dor.
– Eu estava aqui há pouco tempo quando percebi que o lugar inteiro era uma
vigarice. Eu buscava verdades, mas só havia mentiras aqui. Então disse aos
sacerdotes que queria partir. Eles me mostraram sua imagem, Muuurgh!
Disseram que, se eu tentasse ir embora, eles matariam você!
– Então você ficou? Deveria ter arrancado as gargantas deles! – protestou
Muuurgh.
– E sacrificar sua vida? – Ela balançou a cabeça, com olhos grandes e
vividamente dourados. – Não, meu futuro-companheiro, não ousei correr o risco.
Eu apenas tinha esperanças de que você algum dia me encontraria e que você
teria uma nave. E... esse dia finalmente chegou.
Muuurgh concordou fracamente com a cabeça.
– Graças a... Vykk... Han...
Bria chegou correndo ao compartimento de carga.
– Encontrei!
Momentos depois, a dor de Muuurgh se reduzia, e Mrrov e Bria enfaixavam
o ferimento em seu flanco.
– Você vai ficar com uma cicatriz horrível, Muuurgh – comentou Bria,
consternada.
– Caçadores exibem suas cicatrizes orgulhosamente em Togoria – afirmou
Mrrov. – Muuurgh vai se curar e terá uma cicatriz digna da inveja de todos.
A nave estremeceu de repente. Bria gritou:
– Han, o que foi isso?
– Tem alguém atirando na gente! – gritou ele da ponte. – Alguém tem que
subir aqui e guarnecer a estação de artilharia! Preciso de Muuurgh!
O Togoriano fez um esforço para se levantar.
– Não – disse Mrrov. – Deixe comigo. Dentre meu povo, as fêmeas têm a
habilidade técnica. Eu sou engenheira. Eu cuido disso.
Muuurgh abriu os olhos, viu a expressão de dúvida de Bria, e comentou:
– Acredite nela. Muuurgh não é muito bom de mira, de qualquer maneira.
Pergunte a Piloto...
Fechou os olhos, sentindo que as trevas aguardavam detrás das pálpebras.
Não podia mais resistir... então, com um suspiro, Muuurgh se deixou apagar...

Han deu uma olhada no alto vulto Togoriano que ocupou o assento de piloto
ao lado dele e exclamou, surpreso:
– Você não é Muuurgh!
– Sou Mrrov – apresentou-se a fêmea Togoriana. Ela tinha se livrado do robe
de peregrina, e a gloriosa pelagem branca com listras alaranjadas reluzia como
fogo. – Vou cuidar das armas para você; apresente-me o que nós temos, por
favor. Você verá que sou uma oficial artilheira muito melhor que Muuurgh. Na
nossa espécie, as fêmeas são as técnicas e as especialistas em instrumentos. – Ela
deu uma olhada para Han, que viu que os olhos de pupilas fendidas dela eram
amarelos. – Além disso, Muuurgh foi ferido, e não está em condições de lutar.
– Ele vai ficar bem? – Han sentiu uma pontada de preocupação.
– Acho que sim. Meu povo é muito forte e resistente. Bria; esse é o nome
dela? – Han assentiu com a cabeça. – Sua Bria está com ele. Muuurgh está
descansando.
– Certo – disse Han. – Esta belezoca não tem muito armamento, mas conta
com alguns mísseis de concussão e um canhão laser leve. Bem ali. Canhões laser
à sua direita, lança-mísseis à esquerda. Computador de tiro bem à frente.
– Muito bem. – Depois de alguns momentos conferindo o painel diante dela,
Mrrov assentiu com a cabeça. – Tudo bem, eu dou conta. Quem atirou em nós?
– É isso que eu estou tentando descobrir – respondeu Han, estudando as
leituras de sensores. – Não acho que os sacerdotes tenham armas superfície-ar,
mas não consigo...
Han se interrompeu com uma gargalhada, bem quando a Talismã estremeceu
de novo. Mrrov olhou para o piloto, que ainda ria, como se ele fosse louco.
– Está tudo bem – afirmou ele.
Ela apontou a leitura técnica do espaço ao redor deles. Havia várias células
de tempestade, a uma distância segura do vetor de escape deles, mas havia
também uma pequena nave em forma de lágrima que se aproximava rapidamente
da Talismã.
– Como assim, “tudo bem”? Tem alguém nos perseguindo e atirando, e está
chegando perto!
– Ahhhh... é só o velho Jalus Nebl na Sonho Ylesiano – respondeu Han,
acenando de forma desdenhosa. – Os sacerdotes devem ter mandado ele subir
aqui e derrubar a gente. – Ele riu de novo.
A Talismã deu um tranco leve. Han riu mais uma vez.
Mrrov o encarava, obviamente se perguntado se o piloto tinha enlouquecido
com a pressão. Han sorriu alegremente para ela.
– Você não entendeu.
– Não – concordou Mrrov. – Você se importaria em explicar?
– Sem problema. Jalus Nebl é meu amigo. Ele não me derrubaria, assim
como eu não derrubaria ele. Então está atirando com o canhão laser, errando a
gente por pouco todas as vezes, fazendo parecer de verdade. Estamos ganhando
velocidade a cada momento, logo vamos sair da atmosfera e, cinco minutos
depois disso , teremos escapado do campo gravitacional do planeta. Está tudo
bem, Mrrov. Confie em mim.
Os bigodes de Mrrov tremeram.
– Acredito que esteja começando a entender. Seu amigo Jalus Nebl está
fingindo tentar nos derrubar? Portanto não temos nada com que nos preocupar?
– Isso – confirmou Han, animado. – Estamos quase livres da atmosfera e, se
Nebl tiver um grão de bom senso, vai pegar a Sonho Ylesiano e carregar aquela
carcaça bochechuda para longe de Ylesia, também. Ou talvez ele tenha decidido
ficar com os sacerdotes e pedir um aumento. Eles vão ficar desesperados, com só
um piloto.
Outro tiro de raspão fez a Talismã tremer.
– Esse passou perto – murmurou Han, verificando o casco da nave e os
sistemas. – Aquele desgraçado está se exibindo.
Han continuou rastreando a Sonho Ylesiano enquanto ela os seguia pelo final
da estratosfera até a fina camada da ionosfera. Adiante aguardava a mais tênue
camada da atmosfera superior – a exosfera.
Enquanto disparavam para cima, Han voltou sua atenção ao navicomputador,
conferindo a programação do salto ao hiperespaço. Eles ainda levariam vários
minutos para se libertar do campo gravitacional de Ylesia, mas ele queria estar
pronto.
– Vejo um veículo em nossos sensores – anunciou Mrrov. – Acima e no
nosso caminho.
– É só a estação espacial. Ela se mantém numa órbita geossíncrona sobre
Colônia Um – respondeu Han sem erguer o olhar. – É onde eles descarregam os
peregrinos quando as naves os trazem. Você deve ter passado por lá.
– Não, Han. – Mrrov soava subitamente alarmada. – Eu me lembro dela
muito bem, mas não é isso. Aquilo não é uma estação espacial, é uma
espaçonave! E das grandes!
Finalmente preocupado, Han ergueu o olhar e começou a praguejar em seis
línguas.
– É uma corveta corelliana! O que está fazendo aqui?
As mãos do piloto voaram sobre os controles quando ele iniciou manobras
evasivas, acelerando e alterando o curso para longe da enorme nave. Com uma
parte da mente, Han notou que o blip da Sonho se desviou na direção oposta.
De repente, a Talismã deu um tranco forte e corcoveou. O motor começou a
se esforçar.
– Qual é o problema? – inquiriu Mrrov bem quando Bria irrompeu na cabine.
– Han... o que aconteceu? – perguntou ela.
Han ativou a força auxiliar, sentiu o iate ylesiano fazendo esforço, mas...
não... ia... ser... suficiente...
– Não! – gritou ele, frustrado, à beira do pânico. – Não, a gente não pode
voltar!
As passageiras o encararam, os olhos arregalados de medo, quando Han
começou a desativar os motores para que não se queimassem.
Foi então que uma voz surgiu na unidade de comunicação.
– Atenção, Talismã . Aqui fala o capitão Ngyn Reeos, no comando da
corveta corelliana Grilhão do Servo, vinda de Kessel. Aconselhamos que vocês
desliguem seus motores. Estão presos em nosso raio trator.
– Eu sei! – gritou Han, sem se dar ao trabalho de ativar a unidade de
comunicação. – Obrigado por me contar!
Capitão Reeos continuou falando, inexorável.
– Nós os detivemos porque fui informado pelas autoridades planetárias que
vocês levaram a Talismã sem autorização. Essas mesmas autoridades planetárias
nos pediram para entregá-los de volta a Ylesia para responder às acusações.
Preparem-se para serem abordados. Qualquer tentativa de resistência será
respondida com força sumária.
Han fitou a nave acinturada com seus onze enormes tubos de reatores. A
corveta era facilmente vinte vezes maior que a nave deles. Han percebeu que ela
tinha sido modificada com um vão de atracagem.
– É uma nave imensa – sussurrou Bria. – Estão nos puxando, Han.
– Não tem nada que eu possa fazer, meu bem – retrucou Han. – Eles
prenderam a gente, não tem como a gente escapar.
– Quantos tripulantes a bordo daquela nave? – indagou Mrrov, fitando a nave
de escravos como se estivesse hipnotizada, a nave que viera levá-la e os outros
peregrinos a um destino amargo nas minas.
– Com uma tripulação da Marinha, são 165. Mas esta é uma corveta
modificada . Foi alterada para atracar no espaço, provavelmente para facilitar o
carregamentos ou embarque de escravos. Provavelmente são quarenta ou
cinquenta tripulantes.
– Gente demais para enfrentar – concluiu Bria asperamente.
– Eles não vão me levar sem luta – declarou Han. Sacou a arma de raios e
olhou para elas. – Quem está comigo?
Bria balançou a cabeça.
– Só nós três? Contra quarenta? Han, você tem mais coragem que bom
senso!
Han balançou a cabeça e, com um gesto súbito e violento, guardou a pistola
de volta no coldre.
– Tem razão. Mas eu não tenho que gostar disso.
Sem aviso, um crepitar súbito numa frequência diferente ecoou na cabine de
controle.
– Aceleração máxima. Guinada para bombordo. Sete segundos. Contando! –
disparou uma voz em Sullustano.
– Mas quê... – Os dedos de Han se moveram automaticamente e aceleraram
de novo, usando toda a potência que ele conseguiu espremer dos motores
principais e auxiliares. O som do esforço das máquinas era doloroso de ouvir
enquanto elas giravam, enfrentando inutilmente o raio trator inexorável.
Àquela altura, a Talismã já tinha sido quase engolida pela bocarra da baia de
atracagem da nave maior. Algumas poucas centenas de metros separavam as
duas naves.
Han programou os controles para uma guinada a bombordo e manteve a mão
erguida, pronto para implementar o comando. Os motores gemiam e forçavam.
Seriam destruídos em instantes.
– O que aquele maluco...
Han se calou espantado quando a Sonho Ylesiano veio na direção deles,
movendo-se numa velocidade terrível.
Todos na cabine de comando da Talismã se abaixaram quando o pequeno
cargueiro zuniu acima, depois guinou forte para estibordo. Jalus Nebl levou a
Sonho Ylesiano entre a Talismã e a Grilhão do Servo com aceleração máxima.
Esse espaço era tão apertado que o pequeno Sullustano teve que virar a Sonho de
lado para que pudesse passar entre as duas naves que se aproximavam.
– Vai! – gritou Han. – Vai, Nebl! – Ele ativou os controles, virando a Talismã
para bombordo o máximo possível.
Quando a Sonho passou entre as duas naves, rompeu o raio trator por poucos
e preciosos segundos. A nave subitamente libertada de Han ricocheteou para
longe da corveta corelliana como um raio de pistola, disparando para a esquerda
enquanto Jalus Nebl se afastava para a direita.
– Yeeeeehah! – gritou Han em puro júbilo quando sentiu que a nave se
afastava da Grilhão do Servo . Enquanto dava um rasante sobre a imensa nave,
só por via das dúvidas, Han disparou dois mísseis de concussão contra o
principal painel solar da Grilhão e a aleta estabilizadora, que ficavam no dorso à
meia nave.
Assistiu, boquiaberto, quando o primeiro míssil eliminou o escudo mínimo
que fora a única proteção da aleta, permitindo que o segundo míssil explodisse
com força letal e a destruísse quase por inteiro.
– Eles estavam com os escudos pesados baixados, os idiotas ! – comemorou.
– Pensaram que a gente estava no papo, então deixaram aquela aleta quase
desprotegida!
Ele sabia que a corveta ainda representava uma ameaça, então não reduziu a
velocidade. Jalus Nebl também não. O pequeno Sullustano ainda ganhava
velocidade quando o sensor de Han relatou, vários minutos mais tarde, que ele
tinha completado o salto para o hiperespaço com sucesso.
– E nós somos os próximos – anunciou Han, sorrindo para Bria. – Diga
adeus ao paraíso, meu bem...
Com um floreio, ele cravou o dedo no controle que os levaria ao hiperespaço
e exultou com a onda súbita de poder que os arrancou do espaço real e os lançou
no túnel riscado de estrelas.
– Sãos e salvos – sussurrou Han, desabando na cadeira, percebendo só então
como estava profundamente cansado.
Bria sorriu e apertou-lhe a mão. Mrrov esfregou o rosto em sua bochecha.
– Obrigada – sussurraram as duas.
Han nunca se sentira tão bem...
Han acordou com o som de um soluçar leve e abafado. Estava dormindo no
chão dos aposentos de Teroenza, numa pilha de tapetes caros que tinha arrastado
até ali. Insistira que Bria ficasse com a única cama estilo humano. Já que Mrrov
era a única que descansara na noite anterior, se oferecera para cochilar no
assento do piloto e ficar de olho nos alarmes – mesmo que, agora que eles
tinham alcançado o hiperespaço, não houvesse muito que pudesse dar errado.
Han se sentou com um grunhido, sentindo-se todo duro. O dia anterior tinha
sido muito difícil e agora ele lembrava, tardiamente, que não tinha comido nada.
A sede estava ainda pior que a fome. Levantou-se, cambaleou até o bebedouro
do quarto e tomou vários copos.
Enquanto bebia, a mão esbarrou no rosto, e Han franziu o cenho ao tocar o
queixo e sentir a barba que crescia grossa. Tinha se esquecido de fazer a barba
desde que pousaram em Nal Hutta.
Os sons de soluçar humano cessaram. Han pegou as roupas e entrou na
luxuosa unidade de higiene, feliz porque ela continha itens para quase todos os
tipos de espécies. Achou até mesmo um aparelho de barbear.
Minutos depois, vestido e se sentindo consideravelmente melhor, foi
procurar Bria.
Encontrou-a na pequena saleta de guarda, sentada no leito, com os braços
segurando os joelhos e com o rosto encostado nestes.
– Ei – sussurrou Han. – O que foi? O que está acontecendo?
Bria não ergueu o rosto, só o dispensou com um aceno.
– Não, por favor... me deixa... em paz. Eu vou... ficar bem. Não quero que
você... me veja assim. – Ela fungou. – Eu estou... horrível.
Han se sentou ao lado dela, mas não a tocou.
– Eu estou horrível, também – disse ele. – Uma troca de roupas cairia bem
para todos nós. Ei... – brincou ele, tentando fazer que Bria olhasse para ele –,
pelo menos eu me livrei da barba. Melhorei muito.
Bria levantou a cabeça e lhe lançou um sorriso aguado. O nariz e os olhos
estavam vermelhos, mas ela ainda parecia linda para Han.
– Você realmente estava meio... relaxado... ontem à noite.
Han se endireitou, fingindo estar ofendido.
– Relaxado? Eu? Nunca! – passou um braço com delicadeza em volta dela. –
Bria, querida... qual é o problema? Me conta.
Ela começou a estremecer.
– É a Exultação, Han. Eu acordei e percebi que os peregrinos estão se
reunindo para a cerimônia agora mesmo. E percebi que nunca mais a receberei;
nunca mais vou me sentir tão bem!
Han não sabia o que dizer. Ele percebeu que sentia falta das sensações físicas
e emocionais que acompanhavam a Exultação tal e qual um viciado sentiria falta
de uma dose da sua droga preferida. A percepção o assustou. Será que Bria
poderia enfrentar a dependência e vencer? Ou será que ela passaria o resto da
vida lamentando o que tinha perdido?
– Acho que isso é natural – comentou ele com cuidado, sem querer assustá-la
dando voz aos pensamentos reais. – Claro que você vai sentir falta por um dia ou
dois, talvez uma semana. Mas nós todos vamos te ajudar a superar, meu bem.
Você é uma pessoa forte. Vai conseguir. E então... – Han fez um gesto amplo
com a mão. – É uma galáxia grande, gata. E agora ela é toda nossa. Vamos
vender as coisas de Teroenza, vender a Talismã ...
– Vender a Talismã ? – indagou ela.
– É, infelizmente ela é muito reconhecível. Vou deixar Muuurgh e Mrrov em
casa, depois a gente procura um lugar para vender esta nave. Acho que sei onde.
Um vendedor de naves usadas em Tralus, no sistema corelliano. E a gente pode
comprar uma passagem de lá para Corellia fácil, fácil.
Han deu uma apertadinha nos ombros de Bria.
– E tem uma enorme vantagem em irmos como passageiros... Eu não vou
ficar ocupado pilotando. Você terá a minha – Han deu um beijo no rosto dela –
atenção completa.
Bria engoliu em seco e pareceu acanhada. Han começou a se inclinar na
direção dela de novo, mas Bria recuou um pouco, e Han entendeu a dica.
Ela mordeu o lábio, com olhos assombrados.
– Ah, Han... e seu eu não conseguir superar essa... essa... ânsia? Han – Bria
torceu as mãos num gesto convulsivo –, é pior que uma ânsia! É como um... um
desejo ! Todo meu corpo e alma gritam pela Exultação! Eu me sinto como se
alguém tivesse aberto um buraco enorme em mim e levado parte de mim
embora!
Bria começou a tremer violentamente. Han a puxou para perto de si,
abraçou-a com força e acariciou-lhe os cabelos, murmurando palavras de
conforto. Por dentro, porém, a mente dele estava agitada, e o rapaz percebeu que
ele também estava com medo. Com medo do quanto ele sentia por aquela
mulher. Han fizera alguns planos bem definidos em relação a Bria que
envolviam passar muito, muito tempo a sós, nos braços um do outro.
Só que ela não está pronta para isso, percebeu ele com ansiedade crescente.
Ela precisa de um amigo, não de um amante.
Quanto tempo Bria levaria para recuperar o próprio eu?
Só o tempo diria.

– Estamos chegando a Togoria – anunciou Han. – Onde é que eu pouso?


– Nossa maior cidade é Caross – explicou Mrrov, apontando uma área no
mapa. – De Caross podemos mandar um mensageiro ao marquês de Togoria, o
governante de todos os caçadores. Há um campo de pouso bem nos arredores de
Caross. Ainda não temos naves próprias no planeta, mas comerciantes e naves de
passageiros nos visitam.
– Certo, então vamos para Caross – decidiu Han. Com grande cuidado, ele
pilotou a Talismã até uma aterrissagem perfeita no centro do campo. Naquele
momento, não havia mais nenhuma nave.
– Muuurgh, vocês não se preocupam com represálias dos T’landa Til ou dos
Hutts? – perguntou Han enquanto atualizava o diário de bordo.
– Não muito – respondeu Muuurgh, flexionando as garras de forma
ostentosa. – Quando Mrrov e eu tivermos reunido nossas tribos, nós nos
casaremos. É tradição do nosso povo que, em seguida, o casal recém-casado
passe uma longa... como é que vocês chamam? – Ele disse uma palavra em
togoriano a Mrrov, cujo domínio da língua básica era muito melhor que o dele.
– Lua de mel – respondeu ela.
– Isso, uma longa lua de mel juntos. Lembre-se que, em nosso mundo,
machos e fêmeas vivem separados boa parte do ano. Depois que acabar nossa lua
de mel, Mrrov e eu nos veremos só uma vez por ano, durante mais ou menos um
mês. Mas, antes – o gigante Togoriano esfregou o rosto no rosto da noiva –,
vamos passar um longo tempo juntos, só nós dois, nas montanhas. Os Hutts e
Ylesianos não nos encontrarão, e o nosso povo não vai tolerar que eles
procurem. Qualquer piloto que pousar em Togoria e fizer perguntas sobre Mrrov
e Muuurgh será... despachado.
Mrrov abriu um sorriso feral que exibiu muitos dentes afiadíssimos.
– Não há muitas espécies com a coragem de enfurecer intencionalmente os
Togorianos. Acredito que a maioria dos caçadores de recompensa preferiria
caçar presas mais... fáceis.
– E eu acredito – concordou Han com sinceridade. – Tudo bem, então.
Estamos aqui. E agora? Vocês dois simplesmente vão embora, de garras dadas? –
Ele sorriu para Bria, que lhe devolveu um sorriso pálido. Alimentação e
descanso tinham recuperado um pouco a corelliana, mas o piloto sabia que ela
ainda enfrentava seus demônios e desejos interiores.
– Se Han precisa ir embora, Muuurgh e Mrrov vão entender – afirmou o
gigante. – Mas se Han e Bria puderem ficar por um ou dois dias, eles poderiam
ficar conosco na cerimônia que nos unirá para sempre. Você poderia chamar de
“casamento”.
Han se virou para Bria.
– Então... acabamos de ser convidados para um casamento, querida. Quer
ficar por uns dois dias? Acho que a gente bem que precisava descansar.
– Claro – respondeu ela e sorriu para os dois Togorianos. – Nada me deixaria
mais feliz.
Um contingente de fêmeas Togorianas, com um punhado de machos
visitantes, se aproximava da nave. Han e seu grupo desceram pela rampa. Mrrov
e Muuurgh foram imediatamente envolvidos pelos conterrâneos, em meio a
rugidos, uivos e ronronares de alegria.
Ainda parados ao pé da rampa, Han segurou a mão de Bria e olhou em volta,
contemplando Togoria.
– Belo planeta – comentou. – Depois de Ylesia, isto sim parece um paraíso
de verdade .
– É bonito mesmo – concordou ela. – Perfeito.
Era, de fato, um belo mundo. Acima erguia-se um céu azul profundo, com
algumas nuvens brancas e fofinhas. O céu tinha um leve tom de verde, de modo
que ficava quase índigo junto ao horizonte. Florestas escuras formavam o pano
de fundo para um lago azul cercado de pradarias. Exóticas flores brancas com
bordas verdes e folhas escarlates balançavam com a brisa suave.
No alto, Han notou uma grande criatura voadora e concluiu que deveria ser
um dos mosgoths que Muuurgh tinha descrito como o principal meio de
transporte em Togoria. Mosgoths eram enormes lagartos voadores, muito
inteligentes. Os Togorianos os haviam domesticado há muito tempo. As duas
espécies trabalhavam juntas para se proteger mutuamente contra répteis alados
ainda maiores, os letais liphons que roubavam tanto filhotes Togorianos como
ovos de mosgoth.
Enquanto Han observava, o mosgoth circulou sobre o campo de pouso e
começou a descer. Han viu um macho Togoriano montado no dorso, guiando a
criatura com um cabresto. Ficou impressionado com a harmonia que parecia
existir entre montaria e cavaleiro.
O ar togoriano era um dos mais limpos e refrescantes que Han jamais
respirara. Mrrov lhe explicara mais cedo que toda tecnologia togoriana era
baseada em energia solar, exatamente por esse motivo. Togorianos
reverenciavam seu mundo e não tinham a menor vontade de espoliá-lo ou poluí-
lo em nome do progresso, como tantas espécies da galáxia tinham feito.
Han deu um ou dois passos experimentais, e então quicou sobre os
calcanhares. Sentiu-se leve... quase flutuante. Fazia sentido, pois a gravidade em
Togoria era um pouco mais fraca que em Corellia ou Ylesia.
De repente, a multidão se abriu e Muuurgh, ainda enfaixado mas já
caminhando com seu gingado confiante, emergiu acompanhado de Mrrov.
– Nossos clãs estão sendo convocados para a cerimônia de união, e o
banquete que se seguirá – anunciou. – Vocês são nossos convidados de honra.
Por favor... sigam-nos.
Han e Bria seguiram.
Caross era uma linda cidade – pedra branca nativa era usada para construir
casas geminadas nas encostas. Por toda parte havia jardins e parques onde
passear. Fêmeas Togorianas se ocupavam com projetos ou cuidavam de filhotes
agitados. Muuurgh explicou que os filhotes dos dois sexos continuavam com as
mães até que se aproximassem da idade adulta, quando os machos voltavam ao
clã com os pais para aprender os costumes da vida de caçador.
Nos dois dias seguintes, Han e Bria descansaram, fizeram refeições
deliciosas (mesmo que insistissem que a carne fosse cozida) e deram longos
passeios juntos pelos parques e jardins. Han também recebeu lições de voo de
um jovem macho, Rrowv – lições de como cavalgar e controlar um mosgoth.
Com seus reflexos ágeis e ousadia, Han logo estava planando montado num dos
lagartos bem alto acima das árvores, curtindo a sensação das poderosas asas
batendo atrás de si enquanto ele se sentava na pequena sela nos ombros do
mosgoth.
Os lagartos eram criaturas afetuosas que gostavam de coçadinhas nas
pequenas orelhas e carinhos no peito.
Ao longo de todo o dia seguinte à chegada, mosgoths trazendo montadores
chegaram de todas as partes de Togoria. A notícia da chegada de Muuurgh, o
caçador, tinha se espalhado, e todos os seus parentes de clã se reuniam para
recebê-lo e comparecer ao casamento dele com Mrrov.
Muuurgh e Mrrov ficaram ocupados contando suas aventuras estelares ao
público de seu povo. Mrrov nunca se cansava de repetir a narrativa do que tinha
acontecido com ela, para evitar que alguma fêmea Togoriana inocente caísse na
conversa das promessas de um “paraíso” ylesiano.
A “cerimônia” de casamento aconteceu ao pôr do sol do terceiro dia em
Togoria. Han e Bria ficaram ao lado de Muuurgh e Mrrov enquanto eles
encaravam solenemente os clãs reunidos. A pelagem deles reluzia depois de
horas de cuidados atentos. Só a pequena bandagem branca no flanco de Muuurgh
maculava o pelame brilhoso. No mundo nativo deles, os Togorianos raramente
vestiam roupas – o clima era tão clemente que raramente era necessário.
Primeiro o casal prometido encarava os clãs, virando-se lentamente para que
todos pudessem ver seus rostos. A um sinal de Muuurgh, Han e Bria então se
afastaram para se juntar ao resto dos presentes.
Mrrov e Muuurgh se viraram um para o outro. Han piscou, surpreso, quando
um uivo grave e rosnante começou a emanar das gargantas deles. Ambos
exibiram as presas e sibilaram. As garras surgiram.
Então, com tanta rapidez que o olho mal poderia seguir, eles saltaram um
contra o outro e caíram no chão, com dentes cravados nas gargantas
mutuamente. Grunhindo, rosnando e uivando, rolaram repetidamente,
golpeando-se com as patas-mãos. As patas traseiras também estavam ocupadas,
atacando furiosamente as barrigas peludas.
Han olhou para Bria, que parecia um tanto alarmada. Só que ninguém na
plateia parecia ver nada de estranho no que estava acontecendo. Uma galáxia é
feita de todos os povos... pensou Han.
Finalmente, ofegando e grunhindo, os dois combatentes se separaram.
Apesar da ferocidade aparente, não havia sangue visível nos pelames. Os dois
circundaram um ao outro, e os uivos gradualmente morreram e se tornaram
ruídos suaves e gentis. Ficaram bem próximos, esfregando os rostos mutuamente
por um longo tempo. Han escutava o ronronar rouco de onde estava.
Então, de repente, Mrrov sibilou, cuspiu e atacou Muuurgh novamente. Ele
saltou contra ela, e os dois estavam no chão outra vez, rolando, arranhando e
mordendo.
Han apertou a mão de Bria.
– Romântico, né? – sussurrou ele, sorrindo.
– Shhhh! – respondeu ela.
Momentos depois, o par nupcial estava ronronando e se esfregando de novo,
os olhos semicerrados de prazer.
A multidão estava ficando mais excitada. Han ouvia um ronronar vibrante se
erguendo de todos os lados. De novo, Muuurgh e Mrrov passaram pela “luta”.
Porém, dessa vez, quando eles alcançaram o estágio de esfregar os rostos,
Muuurgh agarrou Mrrov pelas dobras de pele na nuca. Prendendo-a com os
dentes e poderosos braços, ergueu a companheira, menor que ele, e a carregou
através do círculo. A multidão se abriu diante deles como uma porta.
Muuurgh desapareceu na escuridão, ainda carregando a companheira.
Momentos depois, dois altos uivos triunfantes de êxtase romperam a quietude, e
por fim o silêncio reinou.
A multidão murmurou sua aprovação da conclusão do ritual. Han foi quase
derrubado pelos parentes Togorianos de Muuurgh que lhe davam tapas no
ombro, garantindo que aquele tinha sido um dos melhores casamentos que eles
já tiveram o privilégio de testemunhar.
O banquete se estendeu noite adentro. Han e Bria se esgueiraram para dar
uma volta no parque, sob as duas pequenas luas de Togoria. As estrelas
fulguravam acima.
– Então – perguntou Han. – Como é que foi o dia hoje? Está ficando mais
fácil?
Ela deu um pequeno aceno de cabeça.
– Um pouco. Às vezes eu consigo passar uma hora inteira sem sentir falta,
Han. Outras vezes, porém, sinto como se os minutos se arrastassem e eu
estivesse me agarrando à minha sanidade pelas unhas.
– Bem, pra amanhã eu tenho planos especiais – afirmou Han, sorridente. –
Prepare-se para se divertir. Estou com tudo organizado.
– Como assim? – indagou Bria. – O que nós vamos fazer?
– Não vou estragar a surpresa – provocou ele. – Só se prepare para levantar
com os passarinhos, está bem?
– Não tem passarinhos em Togoria – ela relembrou. – Só pequenos
lagartinhos voadores.
– Verdade – admitiu Han. – Mas não deixe de acordar cedo, tudo bem?
– Tudo bem.

Quando Bria se levantou na manhã seguinte, não conseguiu achar Han em


parte alguma da suíte onde eles estavam hospedados. O que ela encontrou foi
uma cesta de frutas, uma jarra de suco, algumas tiras de carne defumada e um
pão numa bandeja. Também achou uma tira de papel com as seguintes palavras:
“Vista-se, coma e venha para fora. Estarei esperando – H.”.
Bria leu o bilhete, ergueu as sobrancelhas e partiu para seguir as instruções.
A curiosidade era tão grande que até abafou um pouco da ânsia constante pela
Exultação. Às vezes os desejos vinham em ondas tão intensas que ela se sentia
prestes a enlouquecer. Porém, com o passar dos dias, as ocorrências iam ficando
mais raras.
Bria rezou a todos os deuses verdadeiros do universo que algum dia elas
cessassem completamente.
Quando chegou ao pátio ao lado do prédio onde estavam hospedados, Bria
deparou com Han esperando por ela. Estavam montado num mosgoth, com uma
mochila e uma toalha de mesa amarrados atrás da sela. Enquanto ela ficava ali
parada, incerta, ele se abaixou e estendeu a mão.
– Venha! Suba aqui!
O olhar de Bria foi de Han ao mosgoth, depois à vastidão do céu togoriano.
– Você quer que eu voe com você nessa... criatura? – indagou ela. Voar numa
espaçonave, ou num landskimmer, era uma coisa. Embarcar num réptil gigante e
alçar voo céu acima era outra completamente diferente.
– Claro! – Han se inclinou para dar tapinhas no pescoço da montaria. – Esta
é Kaydiss, e ela é um docinho, não é, garota?
A mosgoth arqueou o pescoço esguio e estendeu a longa língua bífida,
claramente curtindo o carinho.
Bria respirou fundo.
– Tudo bem – decidiu. Afinal de contas , pensou ela, o pior que pode
acontecer é nós cairmos do céu e morrermos. Então eu não teria mais que me
preocupar com a Exultação, não é?
Bria aceitou a mão estendida e pôs o pé na perna da criatura, que tinha
gentilmente curvado o membro para ajudá-la a montar. Com um puxão e uma
subida, Bria estava montada, sentada à frente de Han. Ele passou os braços em
volta da corelliana, que ficou presa como se vestisse um arnês de segurança. Bria
arfou e fechou os olhos quando Han estalou a língua para Kaydiss e agitou as
rédeas.
Com dois enormes passos e um impulso das poderosas asas da mosgoth, Han
e Bria decolaram e subiram cada vez mais. Bria abriu os olhos e descobriu que
estava bem acima dos prédios. O vento soprava em seu rosto, nos cabelos, e
trazia lágrimas aos seus olhos.
– Ah! – exclamou ela. – Han, isto é maravilhoso!
– Se é – respondeu ele, com uma nota perdoável de convencimento na voz. –
E espera só para ver aonde eu estou te levando.
Bria segurava a frente da sela (com os dois espremidos juntos, ela não estava
muito preocupada em cair) e exultou-se na sensação de voar de verdade.
Florestas e rios fluíam abaixo deles. Bria contemplou os campos, as vilas e
os lagos, sorrindo em êxtase. Não tinha se sentido tão bem desde... bem, desde a
última Exultação.
Porém, mesmo a Exultação parecia ter perdido seu poder sobre ela,
momentaneamente. Bria inclinou-se para frente e abriu a boca, sorvendo o vento
de sua passagem. Ela queria bater os braços e gritar bem alto, mas resistiu ao
impulso, sem querer correr o risco de desequilibrar a mosgoth.
– Ela não vai se cansar, carregando dois? – gritou Bria para Han.
A voz dele veio quase em seu ouvido. Ela sentiu o calor do hálito de Han.
– Ela está acostumada a carregar machos Togorianos. Você e eu juntos não
pesamos tanto quanto Muuurgh, ou mesmo que alguns dos machos menores.
Kaydiss está bem.
Meia hora mais tarde, o largo rio que eles seguiam se alargou, até que se
dividiu num vasto delta. Han virou a mosgoth para norte, e, depois de mais
alguns minutos, Bria viu ondas brancas arrebentando sobre areia dourada. Virou-
se para Han com um sorriso empolgado.
– A praia!
– Eu prometi a mim mesmo que um dia a gente iria a uma praia de verdade –
respondeu o rapaz. – Onde a gente pudesse nadar, sem se preocupar em ser
devorado.
Ele guiava a mosgoth cada vez mais baixo e, finalmente, ela pousou na areia.
Han colocou a amarração de asa nela e a deixou para procurar comida sozinha
no mangue próximo. Voltou até Bria, trazendo a toalha e a comida.
– Nadar primeiro – indagou ele –, ou comer primeiro?
Bria olhou as ondas brancas e sentiu o chamado do mar. A família dela tinha
uma casa de praia em Corellia, e ela amara nadar desde criança.
– Nadar – decidiu ela.
Feliz por estar vestindo um collant debaixo da camisa e das calças, Bria tirou
as roupas e correu para a água. Han, que já tinha se despido até ficar de shorts, a
seguiu.
Bria logo descobriu, para sua surpresa, que ele não sabia nadar.
– Nunca tive chance de aprender – admitiu o rapaz, um pouco envergonhado.
– Eu estava sempre trabalhando e, quando não estava trabalhando, estava
pilotando swoops nas corridas e coisas assim. Eu já te disse, a praia em Ylesia
foi a primeira vez que eu vi tanta água assim junta.
– Bem – decidiu Bria, com firmeza. – Hoje você vai aprender. É jovem, forte
e tem bom equilíbrio e reflexos. Vai aprender fácil.
Han se provou um pupilo capaz. Bria ficou impressionada com a forma
como ele se concentrou, quão precisamente seguia as instruções dela sobre o
modo de mexer os braços, as pernas, quando respirar etc. Ela comentou isso com
ele num dado momento. Han sorriu sardonicamente.
– Pilotos aprendem a seguir instruções – afirmou ele. – Ou acabam virando
pilotos mortos .
Antes que eles saíssem da água para comer, ele já estava dando algumas
braçadas sem medo na arrebentação e tinha começado a conseguir coordenar a
respiração com as braçadas e pernadas.
– Você é um ótimo aluno – elogiou-o Bria enquanto eles se sentavam na
toalha, contemplando o mar.
– Obrigado, você é uma boa professora.
Eles compartilharam a comida das provisões que Han trouxera, e então
fizeram um passeio de mãos dadas pela praia. Num dado momento, um
minúsculo lagarto passou voando, cintilando em tons de verde e ouro. Bria
estendeu a mão e ficou muito, muito imóvel, e o pequeno bichinho pousou em
seu dedo e ficou ali, agarrado, com as asas sendo agitadas gentilmente à brisa.
Han sorriu para ela.
– Você está... linda...
– Eu me sinto como se fosse dona do mundo – respondeu Bria, meio que
brincando. – Este dia... eu me lembrarei dele para sempre, Han.
– Você é dona desta praia – afirmou Han, ainda sorrindo. – Eu dou ela para
você. É sua, por hoje.
O lagartinho bateu asas e voou, ainda bem destemido.
Enquanto os dois caminhavam pela arrebentação, Han lhe contou mais sobre
sua determinação de entrar para a Academia Imperial.
– Os oficiais do Império inspiram respeito das pessoas – explicou. – Nunca
inspirei respeito em ninguém antes, mas, se eu conseguir entrar, isso tudo vai
mudar. Vou poder dar a volta por cima, Bria. Nunca mais vou ter que roubar,
contrabandear ou trapacear de novo.
Os olhos de Bria se encheram de lágrimas com a sinceridade na voz do
rapaz. Estendeu a mão e acariciou o rosto dele gentilmente.
– Meu coração se parte por você, às vezes – sussurrou ela. – Você já
conheceu tanta traição, tanta crueldade...
Han por sua vez tocou o rosto dela, com uma expressão atenta nos olhos
castanhos.
– Mas eu também tive uma pessoa que me amou – afirmou ele. – Me deixa
contar sobre Dewlanna...
Seguiram caminhando lentamente, de mãos dadas, e Bria ouvia enquanto
Han lhe contava sobre sua melhor amiga durante a infância. Quando alcançaram
a toalha de novo, andavam em silêncio.
– Garris Shrike parece alguém que se encaixaria bem em Ylesia – comentou
Bria, por fim.
– Ele provavelmente acabaria governando o lugar – concordou Han com
amargura. Sentou-se na toalha, os braços apoiados em cima dos joelhos,
contemplando o mar, com uma expressão preocupada. – Eu deveria ter matado
ele quando tive a chance, Bria. Mas... eu não matei.
Ela se sentou ao lado dele.
– É porque você é uma pessoa decente, Han – afirmou ela ferozmente. –
Você acha que é durão, e é; mas também é decente . Não é um assassino a
sangue-frio como Shrike. Se você tivesse atirado nele, não seria melhor que ele.
Han se virou pra Bria, com uma expressão muito atenta, muito séria.
– Você tem razão – respondeu ele em voz baixa. – Às vezes, quando as
coisas parecem tão confusas, você faz tudo ficar claro... com apenas algumas
palavras. Você é uma mulher... muito... sábia.
Bria ficou absolutamente imóvel quando Han se inclinou para frente e a
beijou, com delicadeza, no rosto. Seus lábios eram quentes. Quando ele começou
a se afastar, ela pôs a mão em sua face.
– Não pare.
Han virou a cabeça, e os lábios dos dois se encontraram. Ela sentiu gosto de
água do mar. Fechou os olhos, e o tempo pareceu parar.
Depois de vários longos instantes, Han se afastou. Bria abriu os olhos e viu
que ele avaliava sua expressão.
– O que você achou? – perguntou ele com suavidade, soando um pouco sem
fôlego. – Foi bom?
Bria estava mais do que um pouco sem fôlego.
– Melhor que bom – sussurrou ela de volta, passando os braços pelo pescoço
dele, sentindo a pele quente de sol dos ombros nus. Han a abraçou com força. –
Muito, muito melhor.
No dia seguinte, Mrrov e Muuurgh se prepararam para partir na lua de mel
deles, e Bria e Han se prepararam para zarpar para o sistema corelliano.
Na despedida final, Muuurgh segurou Han pelos ombros e o chacoalhou de
leve.
– Vou sentir saudade sua – afirmou em sua língua básica hesitante, mas
muito melhorada. – Você precisa ir? Você gosta de Togoria, já me disse isso.
Sem você, eu nunca encontraria Mrrov. O marquês de toda Togoria me pedir
para lhe dizer que você e Bria são bem-vindos para ficar para sempre. Você pode
caçar conosco, Han. Voar em mosgoths. Nós seríamos felizes.
Han sorriu para o alienígena grandalhão.
– E ver Bria só uma vez por ano? Infelizmente não é assim que os humanos
fazem as coisas, meu chapa. Mas obrigado pelo convite, Muuurgh. Quem sabe
eu volto um dia para ver como você e Mrrov estão.
– Han faz isso, e logo – respondeu Muuurgh, com seu domínio da língua
básica se desintegrando diante da forte emoção. Ele agarrou o corelliano num
abraço, levantando-o completamente do chão. Han retribuiu o abraço.
Bria e Mrrov também trocaram despedidas calorosas.
– Você vai superar sua necessidade de Exultação – afirmou Mrrov a Bria,
com sinceridade. – Eu superei. Por um longo tempo, depois que eu me obriguei a
resistir, eu sofri com sua falta. Porém, depois de muitos dias, o desejo
enfraqueceu, e agora eu não sinto mais nada. Deixei que minha raiva contra
aqueles escravizadores me ajudasse a apagar a ânsia do meu espírito.
– Espero que eu consiga ser tão forte quando você, Mrrov – disse Bria.
– Você já é – garantiu-lhe a fêmea Togoriana. – Você só não percebeu ainda.
Uma vez a bordo da Talismã , Han alçou o iate ylesiano aos límpidos céus de
Togoria com uma sensação genuína de arrependimento.
– Este é um bom mundo – disse ele a Bria, que estava sentada ao lado dele
no assento do copiloto. – Boa gente, também.
– É verdade – concordou ela. – Certamente foram bons conosco . Eu nunca
me esquecerei do dia de ontem, mesmo que eu viva até os 100 anos.
Han sorriu para ela.
– Nem eu, meu bem. Minha vida inteira eu quis ir à praia e simplesmente
poder agir como um cidadão comum: nada de golpes, nenhuma força de
segurança com que se preocupar, nenhum contrabando estressante no meu bolso.
Graças a você, agora eu sei como é essa sensação.
A corelliana abriu um sorriso tão carinhoso que Han se inclinou e a beijou.
– Bria... eu... – Han hesitou, respirou fundo e balançou a cabeça.
Han endireitou os ombros, virou-se de volta para os controles e ficou muito
ocupado com a pilotagem. Bria ficou ali sentada, observando, sem jamais tirar os
olhos do rapaz enquanto ele calculava o salto para o hiperespaço e alimentava as
coordenadas escolhidas no navicomputador.
Quando as estrelas riscavam o espaço ao redor da nave, e eles tinham feito o
salto com sucesso, ela girou o assento para ele e pôs a mão em seu braço.
– Pois não? Pode falar. O que você ia dizendo?
Han tentou parecer inocente, mas fracassou.
– Hein? Como assim?
– Você estava prestes a me dizer alguma coisa e ficou ocupado pilotando.
Bem, agora estamos em segurança no hiperespaço, então você não tem motivo
para não falar. – Ela sorriu de leve. – Estou esperando.
– Bem, eu estava só pensando... que estou com fome – completou Han
apressado. – Com muita fome. Vamos almoçar.
– Comemos antes de partir, mal faz uma hora – ela relembrou a ele. Com
expressão gentil, pegou uma das mãos dele e segurou com as duas dela. – Diga-
me.
– Bem... – Ele deu de ombros. – Estou dizendo que estou com fome de novo.
– Está mesmo? – perguntou Bria em voz baixa.
– Eu... – Han balançou a cabeça, obviamente constrangido. – Hum, não. Ei...
Bria, meu bem... eu não sou bom nisso.
– Você é bom em algumas coisas – retrucou ela, sorrindo marota.
– Tipo o quê? – inquiriu ele, sorrindo de volta.
– Tipo... pilotar. E lutar. E resgatar pessoas.
– É, acho que sou mesmo. – Han fitou Bria outra vez e toda a bravura súbita
desapareceu. – Bria... o que eu estava tentando dizer era que eu... – Ele
pigarreou. – Isto não é fácil.
– Eu sei. Eu sei.
Bria levou a mão dele aos lábios, beijou e então disse:
– Han... eu também te amo.
O rapaz parecia tão feliz quanto surpreso.
– É verdade?
– É. Já faz muito tempo. Acho que me apaixonei por você naquele dia no
refeitório dos peregrinos, quando você não ia embora, não importando o quanto
eu mandasse.
– É mesmo? Eu não percebi até... não sei quando percebi. Mas, quando
entendi o que era... fiquei assustado, Bria. Nunca tinha acontecido comigo antes.
– Amar alguém? Ou ser amado?
– Nenhum dos dois. Exceto por Dewlanna. Ela me amava, eu acho. Mas era
diferente.
– Sim. – Os olhos dela brilhavam. – Isto é diferente. Eu só espero que a
gente possa ficar juntos, Han.
Agora foi a vez dele de pegar a mão dela.
– É claro que a gente vai ficar juntos. Não vou deixar que nada atrapalhe
nosso amor. Pode contar com isso, querida.

Han traçou uma rota para a Talismã que os levava para bem longe do espaço
Hutt e os trouxe numa jornada descansada de três dias até o sistema corelliano.
Ele prolongava deliberadamente o tempo que passaria sozinho com Bria. Por
dentro, ficava muito apreensivo de ter que voltar a Corellia e conhecer a família
dela. Não sabia quase nada sobre como os “cidadãos” viviam e tinha certeza de
que teria dificuldades em se adaptar.
Também sabia que, uma vez que chegassem a Tralus, ele teria que botar
mãos à obra. Han estava preparado para mudar de identidade assim que pousasse
em Corellia. Mas Bria era procurada pelos T’landa Til e os Hutts também, e eles
sabiam o nome verdadeiro dela. A primeira coisa que Han planejava fazer, assim
que tivesse créditos para tanto, era fornecer uma identidade falsa a Bria.
Além disso, Han tentava dar a ela o máximo de tempo possível para sarar.
Ele sabia que ela ainda ansiava pela Exultação, mesmo que não tivesse mais
ataques de pânico ou crises de choro. Porém, várias vezes ele acordara no meio
da noite e dera pela falta dela.
Ao procurar por Bria, geralmente a encontrava na cabine de controle, sentada
no assento do copiloto, contemplando as estrelas com um desejo tão intenso nos
olhos que Han sentia uma pontada de ciúmes.
Por que eu não posso ser suficiente para ela? Por que nosso amor não
basta? perguntou-se ele. Han queria ser suficiente para Bria, queria que ela fosse
feliz e contente, mas percebia claramente que esse não era o caso. Isso o
entristecia e o deixava irritado também.
Certa vez, tentou falar sobre a questão com ela.
– Já faz quase dez dias! Por que você sente tanta falta, ainda? – inquiriu ele,
notando o tom de raiva na voz, mas incapaz de contê-lo. – Me conta, Bria, me
explica!
Bria o fitou com olhos verde-azulados muito tristes, quase assombrados.
– Eu não posso explicar, Han. É como se eles tivessem tirado um pedaço de
mim... um pedaço do meu espírito. Não é só questão de eu sentir falta da própria
Exultação, do prazer, do calor. Estou superando isso. É...
Han estava sentado ao lado dela no lugar do piloto e pegou as mãos dela, que
estavam frias, e as aqueceu gentilmente.
– Continue... – disse ele em voz baixa. – Estou aqui. Estou ouvindo.
– Tanto Mrrov quanto Teroenza estavam enganados quando disseram que só
pessoas de mente fraca caem na armadilha da religião ylesiana – afirmou Bria
lentamente, escolhendo as palavras com cuidado. – Ah, alguns dos peregrinos
podem ser gente descontente que nunca teve sucesso na vida e que procuram um
jeito de fugir das responsabilidades. Mas não é o caso da maioria. Conheci
muitos deles, Han.
– É verdade – encorajou ele.
– A maioria dos peregrinos Ylesianos era de... idealistas, acho que se poderia
dizer. Gente que acreditava que havia alguma coisa melhor , algum sentido para
a vida. Saíram procurando nos lugares errados e foram iludidos pela baboseira
dos sacerdotes sobre o Um e o Todo... mas isso não faz que a meta deles, a
aspiração deles de acreditar num poder superior, seja idiota.
Han concordou com um aceno da cabeça e viu as lágrimas se acumulando,
depois se derramando dos belos olhos. Preocupado, começou a falar:
– Bria... meu bem. Não se torture assim! Só porque esta religião acabou
sendo uma farsa e uma vigarice, não quer dizer que a vida não valha a pena. Nós
temos um ao outro. Nós vamos ter dinheiro. Vamos ficar bem.
– Han... – Bria tocou a bochecha dele, acariciou seu rosto e lhe abriu um
sorriso carinhoso. – Você é um pragmático absoluto, não é? Se não tiver
ninguém atirando em você, ou nenhum raio trator, a vida está ótima, não é?
Han balançou a cabeça, um pouco magoado.
– Eu sou um cara simples, verdade, mas isso não significa que eu seja
incapaz de entender do que você está falando, Bria. Seria bom se houvesse
algum poder superior, talvez. Eu só não calho de acreditar que isso exista. E me
magoa ver você tão magoada.
– Han... você não percebe que a única pessoa de quem você pode realmente
cuidar e proteger é você mesmo...
– E você , Bria – interrompeu-a ele. – Não se esqueça disso nem por um
segundo. Nós somos uma equipe, querida.
– É, nós somos uma equipe. Mas é difícil para mim ficar satisfeita em não
levar tiros ou ter algum dinheiro. Eu quero mais.
– Você quer alguma razão que explique tudo que acontece. Você quer
trabalhar para transformar seus ideais em realidade – afirmou Han.
– Isso – concordou ela. – Mas eu entendo que você não permite que questões
como o sentido da vida o atormentem. Você provavelmente é o mais inteligente
aqui, Han.
– Inteligente? – Han franziu o cenho. – Eu não sou burro, sei disso, mas
nunca fingi que era um filósofo ou coisa assim.
– Certo. Você não se rasga todo por causa da injustiça, da corrupção e dos
malfeitos. Você aceita as coisas como elas são e descobre um jeito de contorná-
las. Não é?
Han pensou nisso e finalmente concordou com a cabeça.
– É mesmo, acho que sim. Talvez, há muito tempo, eu tivesse algumas ideias
sobre como eu poderia me tornar alguém que faria o bem e enfrentaria os vilões,
mas... – Ele suspirou e abriu um sorriso irônico. – Acho que essas noções foram
expelidas de mim na base da porrada quando eu ainda era bem novinho. Quando
você vive sob o jugo de Garris Shrike, aprende rapidinho que ninguém vai cuidar
de você exceto você mesmo, e que correr qualquer risco por qualquer outra
pessoa é um bom jeito de acabar morto.
– E quanto a Dewlanna? – indagou Bria.
– É, eu sabia que você ia falar nela. – Han passou a mão pelo cabelo e sorriu.
– Dewlanna era diferente. Nós cuidávamos um do outro, sim. Mas ela era a
única, Bria. A única pessoa que dava a mínima para se eu viveria ou morreria.
Saber disso me transformou num... pragmático, eu acho.
– É claro que transformou. É perfeitamente natural.
– Mas continue – urgiu Han. – Você estava me contando sobre como os
peregrinos eram... idealistas. Você também é?
Bria fez que sim com a cabeça.
– Acho que sim, Han. A minha vida inteira eu sempre quis ser mais , ser
melhor, tornar o universo um lugar melhor por causa da minha presença. Quando
eu descobri a religião ylesiana, realmente, verdadeiramente pensei que tinha
encontrado. Que eu, de alguma forma, poderia mudar o universo com a minha
crença e a minha fé. – Ela sorriu ironicamente e deu de ombros. – Obviamente,
escolhi a fé errada em que acreditar.
– É – concordou ele, revirando na cabeça tudo que ela tinha dito. – Só que
existem outras coisas em que acreditar, Bria. Talvez algumas delas sejam reais.
Talvez você só tenha que descobrir quais são essas coisas.
Bria se levantou e veio até ele, depois se curvou e beijou o topo da cabeça
dele. O piloto se levantou e a abraçou com força.
– Eu sei de uma coisa real – afirmou ela. – Você é real . Você é a pessoa mais
real que eu já conheci. A mais viva.
Han beijou o rosto de Bria, que apoiou a cabeça no ombro dele. Ficaram
assim por um minuto, sem falar.
– Dewlanna me contou sobre algo em que ela acreditava – disse ele,
finalmente. – Alguma forma de energia vital compartilhada por todas as
criaturas, todas as coisas. Ela acreditava nisso. Jurou para mim que era real.
– Talvez eu devesse ir a Kashyyyk – comentou ela. – Numa peregrinação.
– Claro – concordou Han. – Um dia a gente vai lá. Eu gostaria de conhecer.
Dewlanna me contou que é um belo mundo. Eles vivem no alto das árvores.
– Seria muito bom – disse Bria, sonhadora. – Só eu e você em cima de uma
árvore. O que a gente ia fazer o dia todo?
– Eu sei de uma coisa – retrucou Han e se curvou para beijá-la com tanta
paixão que até mesmo as estrelas pareceram girar ao redor dela com longos
rastros, e seus ouvidos começaram a apitar...
Não, ela percebeu, um momento depois, aquelas não eram reações ao beijo
de Han – era o alarme avisando que eles tinham saído do hiperespaço. Han fez
uma careta.
– Por falar em timing ruim, doçura. Bom, mais tarde, está bem?
Ela sorriu.
– Mais tarde... eu vou te lembrar disso.
Ele já tinha voltado ao assento de piloto e conferia as coordenadas, mas
separou um momento para lançar um sorriso que fez o coração de Bria dar uma
cambalhota.
– Eu mal posso esperar.

Han aterrissou a Talismã num campo de pouso particular em Tralus.


– Que lugar é este? – indagou Bria, enquanto seguia o rapaz rampa abaixo e
olhando em volta espantada. Havia naves de todos os tamanhos e tipos
agrupadas ali. Algumas eram pouco mais que carcaças enferrujadas... outras
pareciam quase novas em folha. Nenhuma delas tinha quaisquer códigos de
identificação ou nomes, entretanto. Essas marcas tinham sido apagadas com
maçaricos laser. – Parece... um cemitério de naves, ou coisa do tipo.
– Pois é. Velhas espaçonaves nunca morrem... Elas simplesmente acabam no
Pátio de Naves Usadas de Veryl Verídico – explicou Han. – Quando você precisa
de uma nave, ou precisa se livrar de uma nave, e não quer deixar... rastros... você
vem aqui.
Bria arregalou os olhos.
– Essas naves são todas... roubadas?
– A maioria – respondeu Han. – A nossa também é... lembra?
Bria fez uma careta.
– Estou tentando esquecer.
Han deu uma olhada para o escritório que ficava no meio do imenso campo
de pouso.
– E lá vem o Veryl Verídico em pessoa.
Veryl Verídico era um Duros, um humanoide alto e magro de pele azul.
Completamente careca, seu rosto era bem humano exceto pela ausência de um
nariz – o que lhe dava uma aparência pesarosa. Han deu um passo à frente, com
a mão estendida.
– Bom dia para você, viajante Veryl – disse o rapaz. Os Duros gostavam
tanto de viajar que a palavra “viajante” era seu honorífico preferido. – Sou Keil
d’Tana, e esta é minha sócia, Kyloria m’Bal. Muito prazer em conhecê-lo.
– Igualmente – respondeu Veryl. – Saudações aos dois viajantes. Vocês
teriam tempo para um lanche e uma troca de histórias?
Os Duros eram conhecidos como excelentes contadores de histórias por toda
a galáxia. Um Duros tinha memória quase fotográfica para qualquer história que
escutasse. A maioria dos Duros “colecionava” histórias e, aparentemente, Veryl
não era exceção.
– Lamento – disse Han. – Estamos com um pouco de pressa. Temos uma
nave de passageiros para pegar.
– Entendo perfeitamente – disse o Duros. – Já que vocês se utilizarão de
transporte público, deduzo que estejam aqui para vender uma nave, não para
comprar.
– Isso mesmo, viajante – confirmou Han. – Está em excelentes condições,
inclusive. Um lindo iatezinho de laser. Só precisa de pequenas reformas para se
tornar perfeito para alguma família corelliana que queira levar as crianças em
férias ideais.
– Iate? – Bria achou que a voz de Veryl tinha se alterado com a palavra, mas
não tinha certeza. – Vou dar uma olhada e farei uma oferta, viajante d’Tana.
Han foi na frente, até onde a Talismã aguardava. Os traços já normalmente
pesarosos do Duros ficaram ainda mais tristonhos quando ele viu a nave
ylesiana.
– Deixe-me mostrar o interior – convidou Han, apontando a rampa.
O Duros balançou a cabeça azul careca.
– Não é necessário. Posso lhe oferecer 5 mil. Final.
Han ficou de boca aberta olhando o alienígena, seu comportamento confiante
de costume completamente abalado.
– Hein? – indagou ele, espantado. – O quê? Isso é loucura! Cinco mil por
uma nave como esta? Isso é preço de sucata!
O Duros se curvou de leve na direção de Han.
– De fato o é, viajante Draygo. – Curvou-se na direção de Bria. – E viajante
Tharen. – Acenou para a Talismã e continuou, entristecido. – Concordo que é
uma vergonha reduzir uma nave tão bela a sucata. Mas é tudo que eu posso fazer
com ela. Os Hutts estão procurando por esta nave... intensamente. Assim como
procuram pelo astucioso piloto Vykk Draygo, que a roubou.
Han lhe deu as costas, e Bria viu seus lábios se movendo num xingamento
brutal, mas, quando se virou de volta para Veryl Verídico, tinha se recomposto.
– Entendo. Cinco mil... final.
– Isso. Eu poderia ser persuadido a aumentar o preço um pouco se você e sua
companheira me contassem suas histórias... – acrescentou Veryl, esperançoso.
– Foi mal, meu chapa, sem chance – respondeu Han, dando de ombros. –
Certo, fechamos por 5 mil. Em dinheiro vivo.
– Dinheiro vivo – confirmou Veryl Verídico.

Mais tarde, naquele mesmo dia, “Janil Andrus” e sua esposa, “Drea Andrus”,
embarcaram num transporte de passageiros intersistêmico com destino a
Corellia. Bria ficou preocupada em posar como marido e mulher, mas Han tinha
lhe garantido que os boletins de ALERTA DE SEGURANÇA dos Hutts os listavam
como sendo solteiros. Privativamente, ele se preocupava com a possibilidade de
os Hutts tentarem rastreá-los, já que sabiam o sobrenome de Bria, mas também
sabia que os Hutts não queriam criar uma cena ou revelar o golpe de Ylesia ao
público. Ele torcia para que isso fosse o suficiente para que eles evitassem tentar
prendê-los abertamente. Han não planejava ficar em Corellia por muito tempo...
O par chegou ao mundo natal no começo da noite e pegou um transporte
transcontinental para o continente sul, onde o lar dos Tharen ficava. Quando
chegaram à estação, de onde, segundo Bria, dava para ir a pé até a casa dela, os
dois estavam cansados e suados, sem ter como trocar de roupa. A única bagagem
era a mochila que continha os tesouros de Teroenza.
– Então... – começou Han, passando o peso do corpo de um pé ao outro,
olhando pela janela da estação para a neblina e a garoa leve que caía. – E agora?
Procuramos um lugar para nos entocarmos até de manhã? Ou seria melhor ligar
para sua família e avisá-los?
– Acho melhor ligar – respondeu Bria, soando tão em dúvida quanto Han. –
Espere aqui. – Ela foi pedir emprestado o comlink do administrador da estação e
voltou alguns minutos depois.
Han percebeu quão cansada Bria parecia e passou o braço pelos seus ombros.
– Então... como foi?
Ela sorriu palidamente.
– Mamãe quase desmaiou, depois começou a gritar comigo. – Ela suspirou. –
Eu sei que ela me ama, mas a forma como demonstra faz que eu fique com
vontade de gritar, às vezes. Quer o melhor para mim, desde que seja de acordo
com o que ela considera melhor!
Han concordou com um aceno de cabeça, pensando pela primeira vez na
vida que talvez tivesse tido sorte, de certa forma, de nunca ter precisado lidar
com pais.
– Então, vamos andando?
Bria balançou a cabeça.
– Não vai ser necessário, papai vem nos buscar no speeder. Deve chegar a
qualquer momento.
Enquanto ela ainda falava, um speeder luxuoso parou diante da estação. Era
pilotado por um homem bonito e distinto, com cabelos grisalhos e porte
corpulento.
Quando Han e Bria se aproximaram do veículo, o homem saltou do speeder
e, rindo e chorando ao mesmo tempo, abraçou a filha. Longos momentos depois,
virou-se para apertar a mão de Han.
– É um prazer conhecê-lo – disse o homem. – Pelo que entendi, você salvou
Bria de... bem, de coisas terríveis. Só posso lhe dizer... obrigado. Obrigado, er...
– Solo, senhor – respondeu Han. – Pode me chamar de Han.
O aperto de Tharen era firme.
– Por favor, me chame de Renn, Han.
– Sim, senhor.
A volta para a casa de Bria foi rápida. Passaram por um conjunto reforçado
de portões de segurança, depois seguiram por uma estrada que parecia não ter
nenhuma casa. Han deu uma olhada para os dois lados e viu grades altas, do tipo
que ele costumava zombar nos seus tempos de ladrão.
– Não tem muita gente morando aqui – comentou.
– Ah, esta terra é nossa – respondeu Renn Tharen distraidamente. – Comprei
há alguns anos para nos separar dos nossos vizinhos. Sou um homem que
valoriza a privacidade.
Entrou com o veículo numa estrada secundária que era fechada com outro
portão igualmente reforçado, porém mais ornamentado. Além dele, Han viu a
casa e murmurou um xingamento virulento em huttês. Bria, meu bem... pensou
Han severamente, por que você não me contou que sua família era rica o
bastante para comprar e vender metade de Corellia?
A casa era imensa... alas e torres modificadas, e paisagismo à altura. A
mansão Tharen fazia a moradia do primo Thrackan parecer um casebre. Bria se
virou para Han e abriu um sorriso trêmulo.
– Bem, chegamos.
– É – respondeu Han, fazendo um esforço deliberado para manter a voz
neutra. Tinha notado que Bria estava quase nauseada de ansiedade e não queria
deixá-la ainda mais preocupada. Havia pelo menos uma vantagem no fato de os
pais de Bria serem ricos – os Hutts nunca ousariam tentar agarrá-la enquanto
estivesse em casa. Isso certamente causaria um grave incidente interestelar, e os
Hutts preferiam trabalhar clandestinamente.
Antes que o grupo pudesse alcançar a porta da frente, a mãe de Bria saiu
correndo, usando um vestido que Han só podia descrever como “rico”.
– Querida! – exclamou, abraçando a filha. Han ficou um pouco afastado,
feliz em ficar fora do caminho até que os pais de Bria terminassem de lhe dar as
boas-vindas.
No meio de todo o tumulto de saudações, recriminações, lágrimas, abraços e
perguntas e respostas animadas, o irmão de Bria chegou em casa. Han lembrava
que Bria tinha dito que o nome do irmão era Pavik. Ao contrário da irmã, Pavik
Tharen tinha puxado a mãe; era baixo, magro, com cabelos escuros e olhos
verdes. Era um rapaz bonito e parecia gostar de verdade da irmã.
Demorou um bom tempo até Bria conseguir se desembaraçar da família para
apresentar Han. Com olhos brilhantes, tomou a mão dele e o levou para conhecer
a mãe, Sera Tharen, e o irmão.
– Prazer conhecê-la, lady Tharen – disse Han, apertando mãos e exibindo
suas melhores maneiras. – Você também, Pavik.
O aperto de mão de Sera era frouxo e sem entusiasmo. Estudou Han, que
logo percebeu que ela não tinha gostado muito do que via. Han suspirou por
dentro. Tenho um mau pressentimento quanto a isso...
– Bem, por favor, entre – disse Sera Tharen. – Vamos todos nos sentar. Tenho
que dizer, isto foi um choque. Pensei que jamais veria minha filhinha de novo,
nunca mais mesmo. Bria, querida, como você pôde fazer isso conosco?
Ainda murmurando recriminações, Sera Tharen os levou para dentro.
Quando Han chegou à sala de estar e todos se sentaram, ele teve que reprimir
o impulso de se levantar num salto e sair apressado. Aqui não é o meu lugar,
pensou. Eu sei disso, e eles sabem também.
O pensamento o deixou com raiva. Han se recusou a permitir que o
constrangimento transparecesse, e assim se sentou e se reclinou nas almofadas
opulentas, com um ar deliberado de relaxamento. Deu uma olhada em volta, seu
senso profissional avaliando automaticamente o valor em créditos que
bugigangas e objetos decorativos teriam para um receptador.
– Casa bacana – comentou ele, casualmente.
– Bem, er... – começou Sera.
– Han. Pode me chamar de Han, lady Tharen.
– Muito bem, Han – continuou a mãe de Bria, muito séria. – Entendo que foi
graças a você que Bria voltou. – Os olhos dela estavam fixados na arma de raios
de Han, que percebeu que, como a maioria dos cidadãos, ninguém na família de
Bria andava armado. Só lamento, madame , pensou Han. Não tiro minha pistola
para você nem para ninguém. Vai ter que me aturar.
– Bem, eu tentei ajudar, lady Tharen – respondeu Han. – Mas eu não teria
conseguido sem Bria. Ela é bem durona quando quer. Boa de briga.
Lady Tharen se enrijeceu, e Han percebeu que a mulher não consideraria as
palavras dele como elogios.
– Ah, céus... – murmurou ela. – Bria, querida, antes de se sentar, por que
você não vai se trocar? Ora, minha filha, onde você arranjou essas roupas
horríveis ?
– Com o droide alfaiate na colônia ylesiana – respondeu Bria rapidamente, e
lançou um olhar a Han, como se para perguntar se ele ficaria bem.
Han acenou para tranquilizá-la.
– Pode ir, meu bem.
Lady Tharen se enrijeceu de novo perante o tratamento íntimo e casual. Bria
sorriu para Han, lançou um olhar duvidoso à mãe e ao irmão, e saiu rapidamente
da sala.
– Então, Han – disse Pavik Tharen. – O que você faz? – O rapaz fitava Han
atentamente, contemplando-o de um jeito que deixou o piloto desconfortável.
– Ah, o que for necessário para me virar – respondeu Han, despreocupado. –
Mas o que eu mais faço é pilotar.
– Na Marinha? – indagou lady Tharen, animando-se um pouco. – Você é um
oficial?
– Que nada. Cargueiros, senhora. Consigo pilotar qualquer coisa em qualquer
lugar. Por isso que eu estava em Ylesia, trafi...– Han se deteve, lembrando pela
primeira vez em muito tempo que o negócio de contrabando de especiarias era
altamente ilegal. – Quer dizer, transportando carga.
– Ah – murmurou lady Tharen, obviamente não entendendo, mas
desconfortável com a resposta de Han. – Que interessante.
– É, tem lá seus momentos.
– Eu comecei como piloto, há muitos anos – afirmou Renn Tharen, com um
tom de aprovação na voz. – Quando eu tinha mais ou menos a sua idade, Han.
Dei duro até virar dono da empresa de transportes. Foi assim que eu fiz o meu
primeiro milhão.
Han pensou em contar a Renn Tharen que pretendia entrar para a Academia
Imperial, mas o hábito dele de nunca revelar nenhuma informação pessoal estava
arraigado demais. Apenas sorriu e assentiu para o pai de Bria.
– Aqueles eram os dias emocionantes, senhor – Han comentou. – Muitos
piratas naqueles tempos, não é?
Renn Tharen sorriu.
– Eu me meti em algumas escaramuças. Imagino que você tenha, também.
Han sorriu de volta.
– Algumas.
Sera Tharen olhou de um para o outro, vagamente perturbada.
– Ah, céus. Isso soa... perigoso.
– Faz parte do trabalho, lady Tharen – disse Han.
– Mas eu estou esquecendo meus bons modos! – exclamou ela. – Capitão
Solo, posso lhe oferecer algo para comer ou beber?
– Eu gostaria de uma cerveja alderaaniana – pediu Han. – E um pouco de pão
ázimo com carne e queijo. Passamos o dia viajando.
– Vou pedir à cozinheira – disse lady Tharen. Han ficou espantado ao
perceber que a “cozinheira” era um ser vivo, uma Seloniana, em vez de um
droide. Esta evidência adicional de riqueza impressionou Han além de tudo mais
que ele tinha visto até então.
Quando Bria finalmente voltou, Han estava sentado na sala de jantar,
comendo. Ao vê-la chegar, o piloto parou no meio da mordida.
Ela usava um vestido verde-azulado simples que combinava com seus olhos.
O tecido macio brilhava levemente e colava no corpo em todos os lugares certos.
E, pela primeira vez desde que Han a conhecera, Bria tinha os cabelos
arrumados de forma atraente, escovados num halo de cachos ruivo-dourados
macios. Ela parecia tão diferente da ladra armada de alguns dias antes que
parecia ter saído de outro universo.
Ainda bem que Ganar Tos não pode vê-la agora , pensou Han com ironia.
– Você está linda, meu bem – comentou ele. – É um belo vestido.
Han era sofisticado o bastante para concluir que o vestido provavelmente
custava mais créditos do que um piloto espacial médio ganharia em uma semana.
Ela foi criada para ter tanto , pensou Han, preocupado. Como vai reagir à vida
sustentada pelo salário de um cadete imperial, no começo, e depois de um
oficial do Império?
Bria sorriu e sentou-se ao lado dele.
– Mãe, eu poderia ter alguma coisa para comer, também? Estou morrendo de
fome!
Enquanto Han e Bria devoravam seu lanche de fim de noite, a família Tharen
se reunia ao redor da mesa e bebericava caro-cofeína em frágeis xicrinhas de
porcelana de Levier, enquanto o mordomo, outro Seloniano, os servia.
– Então, capitão Solo... você é corelliano? – indagou lady Tharen, erguendo
uma delicada sobrancelha para indicar que tinha bastante certeza que sim. Han,
que ainda mastigava, assentiu com a cabeça, depois engoliu.
– Sim, senhora.
– E a sua família? – continuou ela. – Você é um dos Sal-Solos? – Havia um
toque de esperança na voz dela. – Eles têm uma linda mansão ancestral, pelo que
eu soube. Encontrei o filho algumas vezes, mas lady Sal-Solo é muito reclusa.
Entendo que a saúde dela é frágil.
– Não, lady Tharen – respondeu Han. – Não temos parentesco.
– Ah, disse ela, visivelmente decepcionada. – De qual ramo da família você
vem, então?
Bria parecia muito constrangida, Han notou, mas não conseguiu concluir se
era por ele, ou por causa dele.
– Não sei dizer, lady Tharen – respondeu o piloto, com honestidade. – Sou
muito provavelmente um órfão. Mercadores me encontraram vagueando num
beco das docas perto do Espaçoporto Capital, quando eu era um menininho. Fui
criado por eles. Passei quase minha vida toda no espaço. – Parte dele teve um
prazer perverso em ver a reação da dama àquela informação.
– Que estranho – comentou Pavik Tharen. – Você me pareceu tão familiar.
Sei que já o vi antes. Em algum lugar... num churrasco, penso eu. Tenho uma
imagem mental de vê-lo num churrasco que se seguiu à uma corrida de swoop.
Han se enrijeceu por dentro. Agora que Pavik mencionara, Han se lembrou
dele também. O irmão de Bria era talvez 2 ou 3 anos mais velho que Han e tinha
sido um competidor frequente em algumas das corridas de swoop. Devido à
diferença de idade, eles nunca tinham corrido um contra o outro, mas Han se
lembrava de tê-lo visto.
E, é claro, toda vez que Han participara de algum circuito de corrida de
swoop, ele tinha sido membro de alguma “unidade familiar” criada por Garris
Shrike para extorquir dinheiro de corellianos ricos.
– Desculpa, mas não me lembro de você – afirmou Han, casual. – Passei os
últimos anos todos longe de Corellia. Acho que não como um churrasco
corelliano desde que era criança.
– Só que eu me lembro com tanta clareza... – insistiu Pavik, estreitando os
olhos, desconfiado. – Você estava encostado num swoop, comendo um prato de
costelas de traladon. A imagem na minha mente é muito distinta.
– Isso é um troço engraçado que acontece comigo – comentou Han, se
reclinando com um sorriso. – As pessoas estão sempre me dizendo coisas assim.
Eu devo ter uma daquelas caras tão comuns que muita gente me confunde com
outros sujeitos.
– Não acho que você tenha aparência comum, Han – disse Bria, sem
entender o que estava acontecendo, mas tentando ser leal. – Não penso que
ninguém que o conhecesse poderia esquecê-lo. Você é... único. – Bria sorriu. –
Bonito, também.
Han respirou fundo e conseguiu sorrir fracamente para os Tharen reunidos.
– Obrigado, querida. Mas eu sou só um cara bem comum, mesmo.
Bria por fim captou a mensagem sutil e ficou quieta. Pavik Tharen continuou
a estudar Han, desconfiado.
– Bem – exclamou Sera Tharen, animada demais. – Imagino que vocês dois
estejam cansados. Capitão Solo, vou mandar Maronea preparar um dos quartos
de hóspedes para você. Bria, você obviamente vai querer seu quarto de volta e,
querida, não mudei nada nele. Eu simplesmente sabia que algum dia você
recuperaria a cabeça e voltaria para nós!
– Eu não tinha como decidir voltar, mamãe – respondeu Bria em voz baixa. –
Uma vez que você vai a Ylesia, eles não deixam você sair. Não há naves, mas
tem guardas armados de sobra. Se não fosse por Han... eu jamais teria
conseguido escapar.
– Ah, céus... – disse lady Tharen, aflita e parecendo incapaz de decidir no
que acreditar. Han teve a impressão de que ela só tivera contato com o lado mais
amargo da vida por meio das séries de aventuras em holo.
– Eu entendo isso, Bria – afirmou Renn Tharen, sustentando o olhar de Han.
– E jamais me esquecerei. Han é um herói, Sera, e nós lhe devemos mais do que
um dia poderíamos pagar. Se não tivesse sido por ele, nunca mais teríamos visto
Bria outra vez. Ele provavelmente salvou a vida dela.
– Ah... ah, céus... – lady Tharen estava cada vez mais aflita com essas
alusões ao perigo que a filha tinha corrido. O ceticismo de Pavik Tharen parecia
crescer.
Han seguiu a empregada Seloniana, Maronea, até o quarto no lado oposto da
casa. Achou engraçado quando percebeu que seu quarto ficava o mais longe
possível do de Bria e que a suíte master ocupada pelos pais dela ficava entre os
dois. A mãe de Bria pelo jeito tinha decidido cortar pela raiz qualquer
possibilidade de encontros amorosos na calada da noite entre o hóspede e a filha.
Mal posso esperar até a gente vender as tralhas de Teroenza e cair fora
daqui, pensou Han enquanto se despia e se deitava. O pai de Bria é gente boa,
parece ter sido um sujeito comum, mas a mãe e o irmão...
Han suspirou e fechou os olhos. Naquela noite, pelo menos, lady Tharen não
precisava ter medo. Ele estava tão cansado que só pensava em dormir.
Engraçado isso, aliás... de certa forma, passar duas horas na companhia da
família de Bria o tinha exaurido mais que aquela fuga inteira de Ylesia...

A mãe de Bria veio ao quarto dela para dizer boa noite e lhe dar um último
abraço antes de adormecer. Foi um momento de lágrimas tanto para a mãe como
para a filha. Abraçaram-se e choraram um pouco, depois se abraçaram de novo.
– Estou tão feliz em ter minha garotinha de volta – sussurrou lady Tharen.
– É bom estar de volta, mamãe – concordou Bria, e naquele momento estava
sendo sincera. Aquela noite tinha sido uma provação, sem dúvida. Só que as
coisas vão melhorar, com certeza, pensou ela, tentando se confortar. Han é tão
adorável. Ela certamente vai ceder ao charme dele e verá como ele é
maravilhoso.
– Esse jovem que você trouxe para casa... – começou a mãe, quase como se
tivesse lido o pensamento da filha. – É bem óbvio que vocês não são apenas...
amigos, querida. Exatamente quão... envolvidos... vocês estão?
Bria contemplou a mãe sem vacilar.
– Eu amo Han, mamãe, e ele me ama. Ele quer que eu fique com ele.
Ninguém falou em casamento, ainda, mas eu não ficaria surpresa se o assunto
fosse mencionado.
A mãe inspirou nitidamente, como se seus piores temores tivessem se
confirmado. Mas alguma coisa na escolha de palavras de Bria a tinha alertado e,
como um vrelt faminto, deu o bote.
– Entendo. Bem, ele parece ser um bom rapaz, mesmo que um tanto...
rústico, minha querida. Porém, você diz que ele quer que você fique com ele. É
isso que você quer?
Bria assentiu com a cabeça, depois a balançou, depois teve que enfrentar as
lágrimas. Deu de ombros miseravelmente.
– Mamãe, eu não sei com certeza. Eu sei que o amo, de verdade, mas... tem
sido difícil para mim. Deixar Ylesia, descobrir que a religião na qual eu
acreditava e à qual devotava minha vida inteira não passava de uma mentira. Isso
me feriu... muito. Parece que uma parte de mim está faltando, mamãe. E eu
também sinto que não posso prometer ficar com Han quando não estou... inteira.
– Ele sabe que você tem essas dúvidas? – indagou a mãe, acariciando
delicadamente os cabelos de Bria. A jovem mulher não deixou de perceber a
fagulha de alegria que se acendeu nos olhos da mãe quando ela falou de sua
incerteza quanto a ficar com Han.
Ela não quer que eu fique com ele , percebeu Bria com a dor embotada de
uma expectativa cumprida. Eu sabia que ela seria assim. É tão injusto! Eu só
não sei se quero ficar com Han por minha causa, não por causa dele! Só que a
minha mãe não entende; ela é incapaz de entender.
– Nós conversamos – respondeu Bria, não querendo fazer confidências à mãe
mais do que já tinha feito. – E eu não consigo imaginar a vida sem Han, então
vou fazer tudo que puder para ficar com ele e lhe ser útil.
A mãe parecia perturbada, mas não disse mais nada. Bria se deitou e tentou
dormir. Deitar-se na sua velha cama era um luxo depois de ter dormido nos duros
catres ylesianos, e na nave. Sentia falta do calor de Han, porém. A cama parecia
fria. Bria se remexeu e revirou, pensando em Han, perguntando-se o que deveria
fazer.
Ele merece alguém melhor, pensou ela, entristecida. Alguém que possa estar
presente ao lado dele cem por cento...
Bria socou o travesseiro, frustrada, e sentiu as lágrimas se acumulando outra
vez. Por que nada nunca pode ser fácil? Encontrei um homem que posso amar,
que me ama – por que isso não pode ser suficiente?
Mas não era. Sozinha na escuridão do quarto de infância, ela chorou até
adormecer...
No dia seguinte, Han deixou a casa dos Tharen logo depois do café da manhã
e foi pegar um transporte para a cidade grande mais próxima. Levava consigo a
mochila com os itens que ele e Bria tinham roubado de Teroenza. Depois da
renda decepcionante recebida pela venda da Talismã , Han sabia que precisava
obter o preço máximo pelo seu pequeno tesouro.
Desembarcou do transporte na cidade portuária de Tyrena e buscou um
escritório de caixas-fortes, onde sacou algumas centenas de créditos e um
conjunto de documentos “limpos” de um tal de “Jenos Idanian”. Em seguida
visitou uma agência do Banco Imperial e abriu uma conta usando os créditos e
documentos de identidade.
Quando a tarefa foi cumprida, Han saiu em busca de uma loja de arte e
antiguidades que lembrava de ter visto numa de suas escapadas do passado.
Fazia muitos anos desde que ele a visitara e, até onde ele sabia, a lojinha poderia
ter fechado.
Mas não, o lugar ainda estava lá. O letreiro acima da porta era destacado com
luzes holográficas discretas, opalescentes, contra a pedra cinzenta da fachada.
Han entrou com a mochila. Ao abrir a porta, ouviu uma campainha suave em
algum lugar da loja.
O piloto viu a atendente atrás do balcão, mas ignorou a Seloniana. Em vez
disso, avançou tão diretamente quanto possível pelo caminho labiríntico entre as
estantes de mercadorias, até alcançar uma porta discreta nos fundos. Estava
coberta por uma tapeçaria antiga que ilustrava a fundação da República, e apenas
certos “clientes” descobriam que a porta estava ali.
Uma vez lá, Han olhou em volta para garantir que estava sozinho e ninguém
o observava, e em seguida bateu forte, num padrão específico. Esperou e, depois
de mais um minuto, o som de uma tranca eletrônica se abrindo soou do outro
lado da porta. Han ergueu a tapeçaria, passou por baixo e atravessou a porta,
chegando à sala dos fundos.
O proprietário era um homem muito velho, ainda vivaz apesar do corpo
curvado, rosto enrugado e raros cabelos branco-amarelados. Galidon Okanor
tinha exatamente a mesma aparência cinco anos atrás, quando Han o conhecera.
Agora, ergueu o rosto e sorriu para Han.
– Bem, é... hum... quem é hoje, filho?
Han sorriu.
– Jenos Idanian, senhor. Como vai? – Ele gostava genuinamente do
homenzinho, que era, ao mesmo tempo, um assessor e avaliador de arte
genuinamente respeitável, e um receptador muito competente e confiável.
– Ah, não posso reclamar, não posso reclamar – respondeu o homenzinho. –
Porque, se eu o fizesse, que bem isso me faria? – acrescentou, soltando uma
risadinha chiada.
– Tem razão.
Okanor sentava-se num banco alto diante de uma bancada iluminada com
uma luz de joalheiro, especialmente posicionada e equipada para exibir
imperfeições em gemas ou rachaduras e falhas em antiguidades.
– Sente-se, sente-se, Jenos Idanian. O que você me trouxe hoje?
– Muitas coisas – respondeu Han. – Eu gostaria de um preço pelo lote e
gostaria que os créditos fossem depositados imediatamente no Banco Imperial de
Coruscant.
– Muito bem, muito bem – respondeu Okanor. Ele esfregou as mãos idosas e
cheias de veias. – Você geralmente tem bom gosto, Jenos. Agora vejamos o que
você trouxe para mim.
– Certo – disse Han, e começou a descarregar a mochila, colocando cada
item na mesa sob a luz. Guardou para si seu tesouro favorito, uma pequena
estatueta de um paledor corelliano há muito extinto. Era bela, e seus olhos eram
gemas de fogo de Keral perfeitas.
Okanor observou com avidez, murmurando de vez em quando um “oh!” ou
“ahhh”, mas se manteve calado até que Han terminou. Então pegou cada peça
com cuidado, estudou-a com muita atenção, às vezes com uma lupa de joalheiro,
e depois a colocou de volta na mesa e pegou a seguinte.
– Incrível, muito incrível – declarou, por fim. – Vou quebrar uma das minhas
regras e lhe perguntar onde, em nome da galáxia, você encontrou tudo isso?
Num museu? Eu não aprovo roubo a museus, sabia?
Han balançou a cabeça.
– Não foi de um museu.
– Uma coleção particular, então? – Okanor franziu os lábios. – Estou muito
impressionado, meu rapaz. O colecionador em questão é um senciente de bom
gosto e juízo. Também lhe direi, jovem, que ele é bem ousado com suas fontes
de aquisições. Reconheço, pela descrição, que pelo menos metade destes itens já
tinha sido registrada como roubada. Algumas peças já estão nas listas de
PROCURA-SE há anos.
– Isso não me surpreende – disse Han. – E o senhor, o senhor vai vender as
peças a museus, não vai?
– A maioria delas, a maioria delas – concordou Okanor.
– Certo, então, isso é bom – comentou Han, pensando que a informação
agradaria Bria. – É lá que elas deveriam estar. Então... quanto?
Okanor ofereceu um número.
Han lançou ao velho um olhar de desprezo calcinante e pegou a mochila.
– Tem um cara em Kolene que ficará empolgado em dar uma olhada nestas
coisas. Percebo que deveria ter visitado ele primeiro – disse, estendendo a mão
para uma presa entalhada de bantha de Tatooine.
Okanor disse outro número, mais alto. Han começou a guardar os itens em
silêncio.
Okanor suspirou como se fosse seu último sopro de ar e ofereceu outro
número, consideravelmente mais elevado que o anterior.
– E esse é final – acrescentou.
Han balançou a cabeça.
– É melhor que não seja, Okanor. Preciso de pelo menos 5 mil a mais que
isso.
Okanor agarrou o peito e observou com olhos angustiados enquanto Han
continuava guardando itens na mochila. Por fim, quando Han estendeu a mão da
última peça, uma pequena escultura em gelo vivo, ele guinchou:
– Não! Espere! Você está me matando! Empobrecendo! Vou ter que viver
pelado nas ruas, Jenos, meu jovem! Você faria isso com um homem idoso?
Han abriu um sorriso feral.
– Sem pensar duas vezes, Okanor. Eu sei o quanto preciso ganhar nesta
negociação, tenho uma boa ideia do quanto vale, e não vou aceitar menos. –
Fitou o idoso com intensidade. – Sério, Okanor, não posso aceitar o prejuízo de
receber menos. Tenho algo muito importante no que gastar esses créditos. Se os
meus planos derem certo, você nunca mais vai me ver. Vou pular fora dessa vida
de vez.
Okanor assentiu com a cabeça.
– Tudo bem. Você venceu, Idanian. Vou aceitar seu preço.
– Ótimo – respondeu Han, e começou a tirar os tesouros da mochila outra
vez.
Saiu da loja com um sorriso satisfeito, e guardou cuidadosamente as
identidades e os dados bancários de “Jenos Idanian” na bolsa de crédito. Viajaria
usando documentos diferentes, e guardaria “Jenos Idanian” “limpo”, usando-o
apenas na retirada bancária. Planejava guardar o paledor dourado num lugar
seguro que conhecia. Nunca fazia mal ter uma coisinha escondida para as
emergências.
Sabendo que os créditos de Okanor o aguardariam no mundo-capital do
Império, Han seguiu pela rua até a estação de transportes, assoviando.

Quando Han atravessou os portões da mansão Tharen, percebeu um pequeno


landspeeder muito esportivo pairando no pátio pavimentado. Aproximou-se da
porta e viu um rapaz lá dentro, na sala de estar. Pavik Tharen e sua mãe estavam
com ele, conversando. Quando Sera Tharen viu Han, fez cara azeda. Ela
esperava que eu tivesse dado no pé, pensou Han, azedo.
– Oi, lady Tharen – disse Han. – Bria está por aí?
O jovem se virou para olhar Han. Era um camarada bonito, talvez 1 ou 2
anos mais velho que Han, e estava vestido de forma elegante e na última moda
para uma partida vespertina de netbol.
– Olá – disse o rapaz de forma agradável, estendendo a mão. – Sou Dael
Levare, e você é... – Ele estreitou os olhos e, antes que Han pudesse falar, Dael
exclamou: – Espere um minuto! Eu achei que você parecia familiar! Tallus
Bryne, não é?
Han não conseguiu pensar num xingamento ruim o bastante. Sorriu
fracamente e apertou a mão.
– Oi, prazer conhecê-lo.
– Tallus Bryne? – exclamou Pavik Tharen.
– Mas ele é... – Sera Tharen parou brutalmente quando o filho lhe deu um
cutucão, sem nenhuma gentileza.
Dael Levare não percebia nada do que acontecia ao seu redor enquanto
apertava a mão de Han.
– Mas que honra! Ainda me lembro do dia que você bateu aquele recorde, e
você o fez voando pelo túnel do Planalto de Mesa, em vez de passar por cima !
Todo mundo achou que você já era, mas você conseguiu! – Ele se virou para
Pavik. – Você quer dizer que não o reconheceu? Este é o novo pretendente de
Bria? O campeão de swoop de toda Corellia! Seu recorde ainda não foi batido,
Bryne. Ou eu poderia lhe chamar de Tallus?
– Tallus está bem – respondeu Han, dando de ombros mentalmente. O vrelt
está na cozinha com certeza, desta vez.
A entrada de Bria foi uma interrupção bem-vinda. Han tentou capturar seu
olhar e lançar um sinal de “fique esperta”, mas toda a atenção dela estava
voltada ao recém-chegado.
– Dael! O que você está fazendo aqui?
– Sua mãe me convidou. Você está linda, Bria. Estou tão feliz em ver você
aqui de volta, sã e salva, e com um acompanhante tão distinto! Eu quero apertar
a mão desse homem desde que ele ganhou o campeonato de swoop, ano passado!
Bria se virou para a mãe.
– Você o convidou , mamãe? Que simpático... – Han não deixou de perceber
a irritação na voz dela, e o clarão de culpa nos olhos de Sera Tharen. Entendi,
pensou Han, furioso. A mamãezinha aqui queria que Bria me visse ao lado do
ex-noivo ricaço, para que assim eu parecesse um canalha pobretão.
– Bem, sim, minha querida... Sabia que Dael poderia lhe atualizar sobre
todas as novidades dessa turma jovem daqui... muito melhor que eu... – trinou
Sera Tharen, nervosa. Bria fez uma careta e deu as costas à mãe para sorrir para
Dael.
– Bem, Dael, foi muito gentil da sua parte aparecer. Quem sabe nós não
vamos todos almoçar um dia? Quem você está namorando hoje em dia? –
Enquanto falava, Bria ia até Dael e, num único movimento preciso, tomou-lhe o
braço e começou a levá-lo à porta. Han sorriu por dentro. Suave, Bria, querida...
muito bem.
– Sulen Belos – respondeu Dael. – Ela adoraria conhecer Tallus também. É
uma grande fã de corridas de swoop.
– Tal... – Bria se deteve imediatamente e riu. – Bem, ela sempre foi! –
Lançou um olhar de flerte para Han. – Vou ter que ficar de olho em você, não
vou, Tallus ? Sulen Belos é linda e nunca conseguiu resistir a um piloto de
swoop.
Han sorriu para ela com simpatia. Ótimo. Maravilhoso. De mal a pior.
– Você tem que ficar de olho em nós, pilotos de swoop, também. Nós
amamos o perigo.
Já quase porta afora, Dael Levare riu, como se Han tivesse dito alguma coisa
espirituosa.
– Bem, eu te ligo. Prazer em conhecê-lo, Tallus!
– Prazer em conhecê-lo também – respondeu Han.
– Não se esqueça de ligar! – urgiu Bria, e então fechou a porta atrás de
Levare e se encostou nela.
O silêncio se estabeleceu.
Han nunca tinha ouvido um silêncio tão absoluto, nem num traje espacial no
vácuo. Olhou com rapidez de Bria para Pavik e Sera. Todos os três o encaravam
com expressões severas. Han pigarreou.
– Acho que vou dar uma volta – anunciou ele. – Pegar um ar fresco.
Sem encarar o olhar de ninguém, ele saiu.
Bria teve vontade de gritar, depois de chorar, mas fez um esforço para manter
o controle. A situação já estava suficientemente ruim sem que ela se dissolvesse
num ataque histérico. Andava de um lado para o outro no quarto de vestir da
mãe. Pavik sentava-se no sofá, agitando os braços, com a voz alterada, e a mãe
estava numa poltrona de brocado rosa, alternando exclamações de “Ah, céus” e
“Bria, seu irmão tem razão, precisamos fazer alguma coisa!”.
– Você o ouviu ontem à noite! – gritou Pavik. – Ele negou ser piloto de
swoop e nos deu um nome falso! Han Solo, até parece! Quem sabe qual é o
verdadeiro nome dele?
– Pare com isso! – exclamou Bria. – Han Solo é o nome real dele!
– Então por que esse “Tallus Bryne” se tornou campeão de corrida de swoop
em Corellia ano passado? – inquiriu Pavik. – Ele não pode ser ambos, Bria.
Admita, Bria, o cara está usando um pseudônimo, e o único motivo para fazê-lo
é ter alguma coisa a esconder! E este é o sujeito que você quer que nós
aceitemos de braços abertos, só porque você decidiu?
– Ah, céus! – Sera torceu as mãos.
Bria mordeu os lábios para não gritar.
– E mais uma coisa – continuou Pavik. – Minha memória está começando a
voltar, e Tallus Bryne não é o único pseudônimo de Solo. A vez que eu lembrei
foi três anos antes. Era só um menino, comendo churrasco depois de uma corrida
de swoop. Daquela vez, Solo era Keil Garris, o filho de Venadar Garris. Lembra
dele? O cara que saiu por aí um verão vendendo cotas daquele asteroide de
duraliga, e a coisa toda acabou que era mentira? Um golpe?
Bria realmente lembrava.
– Porém, mesmo que esse tal de Garris fosse um vigarista, isso não quer
dizer que Han...
Pavik ergueu os braços, exasperado.
– Mana, você não lembra como os pais de alguns dos nossos amigos ficaram
praticamente falidos depois de ter comprado cotas sem valor do asteroide
inexistente? – Ele fungou. – A família Garris inteira não passava de um bando de
vigaristas, e isso inclui seu novo namorado, Bria!
– Isso é terrível! – comentou Sera Tharen. – Talvez nós devêssemos fazer
alguma coisa.
Tanto Bria quanto Pavik ignoraram a mãe.
– Só que Han era só um menino na época – argumentou Bria, lutando para
não ceder às lágrimas. – Você mesmo admitiu isso. Ele não pode ser
responsabilizado pelo que você disse que os pais dele fizeram.
– Mas ele não tem pais. Ou pelo menos foi isso que ele contou!
Bria olhou com raiva para o irmão.
– Bem, então talvez eles fossem os pais dele, e Han os desertou porque eram
sem caráter – retrucou Bria. – Pavik, Han é uma boa pessoa! Ele teve uma vida
difícil e acabou tendo que fazer coisas de que não gostava para sobreviver, isso
eu já sabia. Mas ele deu a volta por cima! Está lutando para ser respeitável, e
você não vai lhe dar essa chance!
Pavik fungou com desprezo.
– Isso se eles eram mesmo os pais dele. Mana... não se iluda com a boa
aparência e com o fato de ele ter resgatado você! Admita, esse cara
provavelmente só cortejou você porque conferiu nossa família e descobriu que
papai tem dinheiro!
– Ah, céus – exclamou Sera. – Você está dizendo que o rapaz é um ladrão?
– É exatamente o que eu estou dizendo, mamãe.
– Eu deveria conferir se tem alguma coisa faltando – arfou Sera Tharen. –
Ah, céus, ah, céus, onde vou colocá-lo para dormir esta noite?
– Mamãe, ele não vai ficar aqui esta noite – afirmou Pavik. – Vou chamar a
segurança. Tenho certeza de que esse cara é procurado por todo tipo de coisa.
– Você não ouse! – gritou Bria. – Se você chamar a segurança, eu nunca mais
falo com nenhum de vocês! Vocês estão errados quanto a Han! Ele não tinha
absolutamente nenhuma ideia de que minha família era rica quando nos
conhecemos. Eu não lhe contei até chegarmos aqui!
– Um cara como esse tem contatos para verificar – apontou Pavik. – Ele
provavelmente conferiu você dias depois de conhecê-la e descobriu tudo que
precisava saber.
– Não conferiu não!
– Bria... eu não sou o monstro aqui! – disse Pavik. – Só estou tentando fazer
que você seja racional. Não quero que você se magoe e não quero que você se
envolva com alguém do lado errado da lei!
– Han não é assim! – insistiu Bria. Respirou fundo, e acrescentou: – Tudo
bem, eu admito que no passado ele provavelmente foi. Mas Han está diferente,
agora. Vai entrar para a Academia Imperial e virar um oficial. Você não pode lhe
dar uma chance? Ele está tentando mudar sua vida.
– Isso é o que ele disse, Bria, mas caras assim mentem para viver – concluiu
Pavik. – Vou chamar a segurança.
– Ah, céus!
– Não! – Bria encarou o irmão furiosa, por um momento desejando ter uma
pistola. Não poderia permitir que ele fizesse aquilo!
A mão de Pavik estava no botão CONECTAR do comlink quando uma voz
vinda da porta o deteve.
– Não, Pavik. Eu o proíbo.
Todos se viraram para ver Renn Tharen parado ali.
– Mas, papai, você não sabe... – começou Pavik.
– Sei, sim – retrucou Renn. – Estava no meu escritório, com a porta aberta.
Ouvi toda esta cena vergonhosa e estou lhe dizendo, Pavik, que você não vai
chamar a segurança.
– Mas, Renn... – começou Sera Tharen. O marido se virou para ela, com um
olhar furioso.
– Sera, estou farto das suas tentativas de usar nossa filha como moeda de
troca para promover suas ambições sociais. Você é o principal motivo da fuga
dela ano passado. Então pare com isso . Você me entendeu?
– Renn! – exclamou Sera Tharen. – Como você ousa falar assim comigo?
– Falo assim porque estou furioso, Sera, completamente furioso – vociferou
o pai de Bria. – Como você pode ser tão cega? Você não entende o perigo que
nossa filha passou em Ylesia! Veja!
Pegou a mão de Bria e a levou até diante da mãe. Ergueu os braços da filha e
os colocou bem diante dos olhos da esposa.
– Olhe, Sera! Está vendo as mãos dela? Estas cicatrizes? Aquelas pessoas
maltrataram Bria, fizeram dela uma escrava . Ela podia ter morrido, Sera, se não
fosse por Han. Sou grato a ele, mesmo que você não tenha a decência básica de
perceber isso! Ele é um bom rapaz, e eu digo que Bria poderia ter arranjado um
namorado muito pior.
– Mas... – sussurrou Sera, torcendo as mãos e começando a chorar. – Ah,
Bria, suas pobres mãos, querida...
– Nem mais uma palavra, Sera. Eu proíbo.
Sera Tharen afundou na poltrona, chorando baixinho.
Renn Tharen girou para confrontar o filho.
– Pavik, você se tornou tão preconceituoso e classista quanto sua mãe. Estou
farto de você, também. – Renn olhou para o filho com muita raiva. – Você está
falando sobre um homem que arriscou a vida para salvar Bria da escravidão.
Bria está certa quanto a Han se inscrever na Academia Imperial. Han Solo é um
cara decente. Ele me lembra de mim mesmo quando tinha a idade dele. Há
alguns incidentes no meu passado dos quais eu não me orgulho, também. Ele
merece uma chance, não a cadeia. Ele merece nossa gratidão, não um chamado à
SegCor.
Quando Renn Tharen parou de falar, o silêncio reinou. Então, com um
profundo soluço de choro, Bria correu para o pai e se jogou nos seus braços.
– Obrigada, papai!

Han tinha caminhado por toda extensão da propriedade dos Tharen e estava
no caminho de volta quando viu alguém vindo pela trilha, na direção dele. Era
Bria, carregando uma bolsa de bom tamanho pendurada no ombro.
Han viu a cara dela e parou.
– O que houve?
– Vamos embora – disse Bria. – Antes que sintam a nossa falta. Vamos cair
fora daqui. Não confio que Pavik não vá ligar para a segurança pelas costas de
papai.
Han se virou de volta para a estação de transporte.
– Você saiu escondida?
– Deixei um bilhete – respondeu Bria na defensiva. – Você transferiu o
dinheiro para Coruscant?
– Sim, está tudo bem.
Os dois andaram em silêncio por alguns minutos, depois Bria comentou:
– Algum dia eu gostaria de saber toda a verdade. Eu odeio surpresas deste
tipo, Han.
O rapaz suspirou.
– Eu deveria ter contado. Eu vou contar. Tudo. Prometo. É que não estou
habituado a confiar em ninguém.
– Percebi – retrucou Bria, severa.
– Legal do seu pai me defender.
– Papai me disse que você o lembra dele mesmo, quando era um jovem
piloto. – Bria abriu um sorriso leve. – Pelo que sei, ele levou uma existência bem
duvidosa por alguns anos, lá na Orla.
Han assentiu com a cabeça e, com cuidado, estendeu a mão para a bolsa.
– Eu realmente lamento por isto tudo. Posso carregar?
Bria suspirou e entregou a bolsa.
– Tudo bem. Acho que foi uma má ideia vir para cá, de qualquer maneira. –
Depois de um momento, pegou a mão dele. – Agora somos só nós dois outra
vez.
Han concordou com a cabeça.
– É assim que eu gosto, querida.
Não aconteceu nada de mais durante a viagem até Coruscant. Han cumpriu
sua promessa e contou sua história a Bria, sem embelezar ou omitir nada. Ficou
incomodado em ter que admitir muitas das coisas que fizera no passado, mas
levou a sério sua promessa e foi tão honesto quanto possível.
No começo, Han ficou preocupado com a possibilidade de Bria ser repelida
por todas as coisas que ele tinha feito em seu passado renegado, mas ela
tranquilizou o rapaz, dizendo que o amava ainda mais, agora que sabia a
verdade.
A jornada de cinco dias até Coruscant foi longa. Han começava a sofrer de
tédio quando o transporte de passageiros atracou numa das imensas estações
espaciais que serviam à grande cidade-mundo imperial.
Os passageiros foram informados que seriam levados da estação espacial ao
espaçoporto em naves menores. Han ficou surpreso ao descobrir que não havia
praticamente nenhum lugar no imenso mundo onde o chão natural pudesse ser
visto ou tocado.
– Só na Praça Monumental – contou o comissário de bordo aos passageiros
reunidos que tinham viajado na Radiante. – Lá os cidadãos podem tocar o topo
da última montanha restante no planeta. Mais ou menos vinte metros do pico se
erguem ao ar. O resto está escondido sob os prédios.
Coruscant, aparentemente, era um aglomerado de prédios, arranha-céus,
torres, telhados, e mais prédios, todos construídos uns sobre os outros num
imenso emaranhado labiríntico. Han ergueu a mão quando o comissário quis
saber se havia alguma pergunta.
– Você disse que os telhados mais altos ficam mais de um quilômetro acima
das ruas mais baixas? O que que tem lá embaixo?
O comissário balançou a cabeça, numa advertência.
– Senhor, acredite em mim. Você não quer saber. Os níveis inferiores nunca
veem o sol. Ficam tão longe do ar limpo que são fétidos, úmidos e têm seus
próprios sistemas climáticos. Chuva imunda escorre pelas laterais dos prédios.
Os becos são infestados com lesmas graníticas, vermes permacréticos, cracas das
sombras... e, pior de tudo, com os resquícios degenerados daqueles que um dia
foram seres humanos. Esses trogloditas são pálidos devoradores de carniça e
lixo, repugnantes de todas as formas.
– Hum – sussurrou Han a Bria. – Parece meu tipo de lugar.
– Para com isso! – sibilou ela, sufocando um sorriso. – Você é tão
engraçadinho...
– Eu sou mesmo. – Han se reclinou no assento, rindo. – Sou impossível, não
sei como você me aguenta.
– Nem eu – concordou Bria, sorrindo com ironia.
O casal foi até uma das vigias da estação enquanto esperavam pela nave
auxiliar “da superfície”.
– Parece uma linda gema dourada – sussurrou Bria. – Todos aqueles prédios
iluminados...
– Parece uma joia que corusca – concordou Han, espiando o planeta,
pensativo. – Deve ser daí que o mundo tirou o nome.
Eles estavam numa fila, esperando para entrar na nave, quando um oficial se
adiantou e apontou a pistola de Han.
– Lamento, senhor, mas será necessário depositar sua pistola. Armas não são
permitidas em Coruscant.
Han ficou ali parado por um longo momento; então, deu de ombros e
desafivelou a tira da perna, depois soltou a grande fivela do cinturão. Embrulhou
o coldre e a arma com o cinto e os entregou ao oficial, recebendo uma ficha
numerada em troca.
– Basta entregar isto ao oficial antes de embarcar no transporte de volta, e
você receberá a arma de volta – explicou o homem.
Han e Bria voltaram à fila. Han fez uma careta ao sentir como a perna direita
tinha ficado leve sem o peso de sempre na coxa.
– Eu me sinto nu – murmurou ele para Bria. – Como se eu estivesse num
daqueles sonhos em que você aparece em algum evento importante e percebe de
repente que esqueceu das calças.
Bria começou a rir da ideia.
– Não sabia que os homens também tinham esses sonhos.
– Não tenho com muita frequência – respondeu Han, sério.
– Bem, se não tem ninguém armado, então fica justo – argumentou ela,
racional.
Han deu uma olhada para ela enquanto eles caminhavam pelo corredor da
nave auxiliar.
– Querida, não seja ingênua. Tem um submundo criminoso neste planeta, e
você pode apostar seus lindos olhos que eles andam armados.
Bria encarou o namorado enquanto eles atavam os cintos de segurança.
– Como é que você sabe?
– Dei uma olhada nos guardas imperiais. Eles estão armados. Vi os guardas
de segurança em Alderaan, e nenhum dos que eu enxerguei estava armado.
Então eu aposto que os adversários deles também não estariam. Só que estes
imperiais estão armados e vestindo armadura também. Deve ter um bom motivo
para isso.
Bria deu de ombros.
– Tenho que admitir, sua lógica faz sentido.
– Vou me sentir estranho quando entrar naquele banco amanhã sem uma
pistola do meu lado – afirmou Han, olhando entristecido para a perna.
– Fala sério , Han – sussurrou Bria. – De todos os lugares do mundo, o
último em que você poderia entrar armado seria o banco !
– Por que não? – indagou Han. – Não é como se desse para levar os créditos.
Eles não mantêm quase nenhum disco de crédito por lá, ou moedas. É tudo
dados eletrônicos registrados em identidades pessoais. É um bom sistema –
acrescentou, pensativo. – Economiza nos guardas.
– Bem, tanto faz, já que você já teve que deixar a pistola – respondeu Bria,
observando pela vigia a cidade-mundo crescer. Logo eles entrariam na
atmosfera.
– É. Escuta, Bria, acho que agora é uma boa hora para discutirmos planos de
contingência.
– Para o quê? – inquiriu ela, alarmada. – Está esperando problemas?
– Fale baixo – alertou. – Não, não estou esperando problemas. Deve ser uma
operação simples, sopa no mel. “Jenos Idanian” está limpo, porque eu só o usei
para abrir a conta e depositar o dinheiro. Ele deve estar à prova de laser. Mas,
meu bem... eu aprendi há muito tempo que sempre preciso de um plano para as
encrencas.
– Tudo bem – concordou ela. – Que plano você quer fazer?
– É uma cidade grande, e um planeta grande – apontou Han, bem quando a
nave começou a tocar os limites superiores da atmosfera. – Se alguma coisa
acontecer e nós nos separarmos, quero marcar um ponto de encontro.
– Certo, isso faz sentido. Onde?
– O único endereço que eu conheço, porque memorizei o lugar há muito
tempo, é um bar chamado “A Aranha Radiante”. É lá que eu vou entrar em
contato com Nici, o Especialista – explicou Han, mantendo a voz baixa, mas não
chegando a sussurrar. Sussurros atraíam atenção, Han tinha aprendido há muito
tempo, porém, as conversas em voz baixa não tinham esse efeito.
– É o cara que arranja identidades tão perfeitas para as pessoas que nem
mesmo os imperiais podem detectar?
– Ele mesmo. Tem contatos com gente nos escritórios imperiais que faz as
identidades. São perfeitas, acredite em mim. Então, é Nici, o Especialista. Ele
fica na Aranha Radiante. Entendeu?
– Nici, o Especialista. Aranha Radiante – repetiu ela. – Onde fica?
– Nível 132, megabloco 17, bloco 5, sub-bloco 12 – recitou Han. –
Memorize isso perfeitamente. Este mundo é um labirinto, Bria.
Em silêncio, Bria repetiu o endereço para si mesma, até que conseguiu dizer,
confiante:
– Certo, decorei.
– Ótimo.
Quando eles chegaram à “superfície” – o campo de pouso num telhado, onde
a nave pousou –, Han deixou Bria com a parca bagagem deles, enquanto ia até
um centro turístico automatizado para pedir informações e indicações de
caminhos. Ele e Bria precisavam de um lugar econômico para ficar enquanto o
piloto estudava para os exames de admissão à Academia. Han planejava alugar
um quarto barato durante o processo.
Quando voltou para Bria, ela percebeu que ele tinha um computador
localizador portátil.
– E quanto isso aí custou? – perguntou ela, espiando preocupada o
dispositivo. Os fundos da venda do iate ylesiano estavam acabando.
– Só vinte. Eu pensei que é muito fácil se perder neste mundo. Só preciso
colocar nosso destino, assim... – Estreitou os olhos, concentrado, e inseriu: –
Nível 86, megabloco 4, bloco 2, sub-bloco 13...
– Que lugar é esse?
– O hotel onde a gente vai ficar esta noite – respondeu Han, sem erguer o
olhar. – E... ali!
As indicações da localização atual deles surgiram na tela.
– Primeiro, pegamos o turboelevador até o nível 16... – murmurou Han,
olhando em volta. – Ali!
Eles seguiram até o sinal de TURBOELEVADOR .
Uma vez lá dentro, Bria se espantou com a queda súbita. Eles caíram... e
caíram...
– É como estar no espaço – comentou Han, desconfortável. – Quase queda
livre...
– Meu estômago não gosta disso. – Bria engoliu em seco.
Felizmente, o turboelevador reduziu a velocidade ao chegar ao destino. Bria
saiu cambaleante, meio esverdeada.
– Agora é encontrar o megabloco 4... – resmungou Han, ainda concentrado
no aparelhinho. – Aí a gente desce de novo...
Uma vez fora do turboelevador, Bria olhou em volta, impressionada e cada
vez mais claustrofóbica. Por toda parte os prédios se erguiam sobre ela, tão altos
que a mulher tinha que dobrar o pescoço para trás para ver os topos. O ápice de
vários deles suportava outro telhado, provavelmente como aquele onde ela
estava.
Na plataforma de pouso, o dia estivera luminoso, mas friozinho, mas ali
embaixo estava escuro e quente. Nenhum ar parecia se mover nos cânions de
permacreto e transparaço entre os prédios. Bria ouviu um rumor distante de
trovão, mas nenhuma chuva a alcançou, e ela não tinha como determinar se a
tempestade estava acima ou abaixo dela.
Ocasionais poços de circulação de ar desguarnecidos rompiam o permacreto
do telhado e, a uns cem metros, Bria viu a linha de demarcação súbita no fim do
terraço. Evidentemente, um logradouro corria nos níveis mais profundos.
Ela foi até um dos poços olhar para baixo e, depois de uma espiada rápida,
cambaleou para trás, tonta e com as palmas suando de vertigem. Deu uma olhada
em volta, não viu ninguém perto de si, ficou de quatro e engatinhou até a beira
de novo para espiar outra vez. Achava que, desde que não estivesse de pé, a
tontura não seria tão ruim.
Ao se aproximar bem da beirada, segurou com as duas mãos e espiou poço
abaixo.
O poço descia... e descia... e descia. Era incrível, assustador, imaginar o
próprio corpo caindo naquele abismo aparentemente sem fundo, virando e
girando no ar.
Bria encarou as profundezas, tremendo. Se ela se inclinasse um pouco mais,
só mais um pouquinho, cairia poço abaixo. Não haveria esforço. Não teria que
pular, não. Só... inclinar-se... e, se ela o fizesse, jamais sentiria a falta agonizante
da Exultação outra vez. Estaria livre da dor, do desejo. Estaria livre...
Tanto atraída como repelida, Bria oscilou, se inclinando mais e mais em
direção à beira...
– O que você está fazendo ?
Alguém lhe agarrou o ombro e puxou-a de volta, para longe daquela bocarra
aberta para o nada. Bria olhou para cima estonteada, e viu Han a encarando de
volta, com o rosto contorcido de preocupação.
– Bria, meu bem, o que você estava fazendo ?
Ela ergueu a mão à cabeça, que então balançou, tonta.
– Eu... eu não sei, Han. Me senti... tão estranha. – Engoliu seco, com pontos
pretos dançando diante dos olhos, e fez um esforço para não desmaiar ou
vomitar.
Han baixou a cabeça da namorada entre os joelhos dela, depois se ajoelhou
ao lado dela enquanto ela tremia. Acariciou-lhe o cabelo, abraçou-a com força
conforme os tremores pioraram. Bria chacoalhava inteira.
– Calma... calma... é só relaxar.
Finalmente, Bria ergueu o olhar, sentindo os calafrios se reduzirem um
pouco.
– Han, eu não sei o que aconteceu. Me senti tão estanha por um momento.
Acho que quase caí...
– Quase caiu mesmo – respondeu ele. – Chama-se vertigem, meu bem. Já vi
gente com isso antes, no espaço, quando olham para “baixo” e se desorientam.
Vamos lá. Eu sei para onde ir agora. Vamos pegar um tubo horizontal por um
tempo.
No tubo, Bria se encostou em Han, e ele a abraçou com carinho. A
tremedeira foi passando.
– Você não fica incomodado também? – indagou ela. – Com este mundo? Eu
me sinto oprimida. Fascinada, mas oprimida também.
– Não se esqueça de que eu cresci no espaço – lembrou Han. – Não podemos
nos dar ao luxo de ter vertigem ou claustrofobia por lá. Eu devo ter me ajustado
há muito tempo, porque este lugar não me incomoda. Só que você... você
cresceu em Corellia, com um céu acima o tempo todo. Não é de se espantar que
esteja odiando isso aqui.
– Não vou tentar olhar para baixo outra vez – comentou Bria.
– Ótima ideia.
Depois de mais várias descidas em turboelevadores, eles alcançaram a
pequena pousada onde Han tinha reservado um quarto e pagaram com dinheiro
vivo de suas reservas cada vez menores.
– Quando é que você vai buscar o dinheiro no Banco Imperial? – perguntou
Bria, se jogando na cama e se esticando com um suspiro cansado.
– Vou amanhã de manhã cedinho. Escuta, querida, você parece exausta. Vou
buscar comida e trazer aqui de volta. A gente se deita cedo.
– Mas você não quer ver os pontos turísticos? – indagou ela, pensando
consigo mesma que o plano dele parecia a melhor coisa que ela ouvira o dia
todo.
– Terei tempo de sobra para isso. Só quero comer e dormir. Talvez assistir
um pouco de videotela, ver que tipo de propaganda política a Cidade Imperial
anda passando hoje em dia.
– Tudo bem – concordou Bria, sufocando um bocejo exausto. – Gostei do
seu plano.

Na manhã seguinte, Han deixou Bria mastigando um salgado no quarto e


bebericando estim-chá.
– Estarei de volta em mais ou menos uma hora – afirmou Han. – Depois que
eu pegar o dinheiro, a gente vai procurar aquele bar que eu falei. Qual era o
nome?
– A Aranha Radiante – repetiu ela, obediente.
– E onde fica?
Bria recitou o endereço.
– Muito bem – disse Han, com aprovação. – Se eu me perder, você me guia
até lá.
Bria riu.
– Este planeta é mais difícil de navegar que o espaço?
– De algumas formas – respondeu Han. Deu um beijo na testa de Bria. –
Volto logo.
– Tudo bem, até mais.
Com um aceno animado, ele se foi. Bria se deitou na cama com um suspiro.
Acho que vou dormir até mais tarde, pensou, e se esticou luxuriosamente.

O Banco Imperial de Coruscant ocupava três andares de um monstruoso


arranha-céu do nível mais alto. Han foi até a porta e olhou lá dentro. O lobby era
enorme, todo em vidrine esfumaçado, permacreto e mármore negros, e
transparaço reluzente.
Respirou fundo e, ainda sentindo falta do peso da pistola, entrou e foi até o
balcão reluzente. O lobby estava lotado de homens de negócio e cidadãos, e Han
parecia e se sentia deslocado vestindo seu velho macacão de piloto, agora
desprovido de todas as insígnias, e a jaqueta e botas surradas.
Quanto mais constrangido ficava, mais arrogantemente se comportava.
Teve que esperar na fila por vários minutos, mas logo se viu diante de uma
caixa. Era jovem e bonita, mas seu olhar era impessoal – até que Han lhe lançou
seu melhor sorriso torto. Quase contra a vontade, ela sorriu de volta.
– Bom dia – disse Han. – Abri uma conta há um tempinho, em Corellia,
sabendo que viria para cá. Queria sacar os fundos agora.
– O senhor deseja fechar sua conta.
– Isso.
– Muito bem, senhor, poderia ver seu cartão de identidade? Vamos transferir
os fundos para ele, e então eles estarão disponíveis em qualquer estação de
crédito em Coruscant ou qualquer um dos sistemas interiores. Isso seria
satisfatório, senhor... – Han passou o cartão para ela sob a barreira de vidrine. –
Idanian?
– Tudo bem, por mim – respondeu Han, sufocando a ânsia de pedir tudo em
certidões de crédito e moedas. Se ele fizesse algo tão incomum, certamente
pareceria suspeito.
A caixa escaneou o cartão e ergueu as sobrancelhas de leve ao perceber o
valor na conta. Nunca esperou que um cara como eu tivesse essa grana toda,
concluiu Han com um sorriso divertido.
– Senhor, esta soma excede o valor que eu estou autorizada a desembolsar
sem autorização do meu supervisor. Se o senhor esperar só um momento, eu vou
providenciar a autorização, e então farei a transferência para o seu cartão.
Não havia muito que Han pudesse dizer além de:
– Tudo bem.
Parado diante do balcão, Han suprimiu a vontade de ficar se remexendo e
teve que se controlar para não ficar esquadrinhando muito descaradamente o
imenso lobby em busca de guardas ou segurança.
Fica frio, ordenou a si mesmo. Você sabe que, com um saque deste tamanho,
eles precisam de aprovação. Pelo menos agora eu sei com certeza que Okanor
transferiu os fundos do jeito que eu mandei...
Han viu a caixa falando rapidamente com um sujeito grande e corpulento
vestindo um terno caro. O homem assentiu com a cabeça, pegou o cartão de Han
e se aproximou do rapaz pelo lado de fora.
– Jenos Idanian? – indagou cortesmente. Tinha um rosto gorducho e rosado,
pálidos olhos azuis e uma calvície avançada com esparsos cabelos brancos.
– Isso.
– Sou Parq Yewgeen Plancke, gerente desta agência. Autorizei sua retirada,
senhor, mas antes que eu possa devolver seu cartão, preciso ver mais um item de
identidade, puramente por uma formalidade. – O homem sorriu com polidez. –
Instituições financeiras estão sujeitas a estas regras, infelizmente. O senhor viria
ao meu escritório?
Indicou um cubículo com paredes de vidrine. Han ficou desconfiado, mas
conseguia ver o escritório inteiro, e não havia mais ninguém ali, nem guardas
visíveis em nenhum lugar.
– Tudo bem, mas eu estou meio com pressa, então não posso me demorar
muito.
– Só vai levar um minutinho – assegurou Plancke, acenando para que Han
seguisse em frente.
O corelliano entrou no escritório confiante, mas todos os seus sentidos
estavam alertas, todos os músculos preparados para agir. O escritório de Plancke
era insosso e tranquilizante – uma cara escrivaninha com tampo de mármore
negro, com uma caneta e tablet. Um arranjo floral ultramoderno de lorcádias
negras embelezava um canto da mesa. Havia duas cadeiras para os visitantes, e a
extravagante poltrona de couro negro clonado de Plancke.
– Sente-se, sr. Idanian – disse Plancke, indicando uma das cadeiras. Han se
sentou. – Agora, se o senhor puder me oferecer outro documento de identidade,
eu poderei escaneá-lo, e o senhor estará livre para partir.
Han pegou a identidade sem fazer cena, mas não tirou o olho de nenhum
movimento de Plancke. Por dois créditos eu dava no pé daqui, pensou. Estou
com um mau pressentimento...
Plancke pegou a identidade, escaneou-a.
– Ah, céus – disse ele, não soando nada surpreso ou pesaroso. – Temo que
haja um problema, senhor. Recebi ordens de congelar sua conta. Não posso
liberar nem uma fração do seu dinheiro.
Han estava de pé.
– O quê? Mas eu... o que em nome da galáxia está acontecendo aqui?
Plancke balançou a cabeça.
– Só sei que o banco foi contatado pelo inspetor Hal Horn da SegCor. Seus
fundos estão sob suspeita de terem sido obtidos ilegalmente e estão congelados,
pendendo uma investigação por parte dos departamentos de Segurança Imperial
e Corelliana.
Han não perdeu tempo discutindo, simplesmente partiu rumo à porta. Seu
peito parecia estar preso nas garras de um torno-gê. Não... não pode acabar
assim...
Estava a um metro da grossa porta de vidrine esfumaçado, quando ouviu um
clique eletrônico.
– Lamento, senhor. Temo ter sido instruído a contê-lo aqui para as forças de
segurança imperiais – afirmou Plancke, parecendo curtir sua chance de ser um
herói. – Sente-se.
Han se virou para encarar o gordo. Ele sorria agradavelmente, as
bochechinhas gorduchas e rosadas o fazendo parecer um gnomo feliz de uma
história de criança.
– Também já chamei nosso guarda. Ele chegará a qualquer momento. Por
favor... sente-se enquanto aguarda para ser preso.
A raiva encheu Han com uma força que ele não sabia ter.
– Só se for por cima do meu cadáver ! – vociferou, saltando para a frente.
Jogou-se por cima da escrivaninha, agarrando a caneta digital do gerente
bancário. Chocou-se contra o espantado Plancke e o empurrou para trás de sua
cara cadeira. Num segundo, posicionou a ponta afiada da caneta logo atrás do
lóbulo rosado e gorducho da orelha dela.
– Uma estocada – disse entre dentes –, e isto se cravará entre sua mandíbula
e crânio, direto no seu cérebro, Plancke. Se você tiver um. Você tem um cérebro,
Plancke?
– Sim...
– Ótimo, então use ele. Eu já estou furioso... então não me provoque mais,
entendeu?
Han sentiu todos os músculos da garganta de Plancke se contraindo enquanto
ele engolia. A voz soava rouca e esganiçada.
– Sim...
– Ótimo. Agora vou sair de cima de você, e você vai se levantar e se sentar
na sua cadeira. Você vai deixar o guarda entrar, quando ele chegar, como se tudo
estivesse bem, entendeu?
– Sim...
Movendo-se com precisão, Plancke fez exatamente o que Han tinha
mandado. Han se agachou atrás da cadeira de Plancke, e agora a mão que
segurava a caneta cutucou o instrumento afiado nas costas do sujeito.
– Acredite em mim, Plancke, uma boa cutucada no seu rim vai lhe causar
mais dor do que você jamais quis conhecer. Pode até matar. Quer correr o risco?
– Não...
– Ótimo. Lá vem o guarda. Deixa ele entrar.
– Sim...
A tranca da porta estalou e o guarda entrou. Num segundo, Han estava de pé,
com a ponta a caneta digital pressionando a garganta de Plancke de novo.
– Fala para ele!
– Não se mexa – exclamou Plancke, desesperado. – Ele vai me matar!
– Vou mesmo – afirmou Han, com sorriso feroz. – E vou gostar de matar,
também. Agora você, faça exatamente o que eu mandar, se quiser receber seu
próximo salário. Coloque a pistola aqui na mesa de Plancke. Mexa-se bem
devagar, entendeu?
– Sinsenhor ! – respondeu o guarda. Era um humano idoso e parecia
aterrorizado em ter que fazer qualquer coisa além de ficar parado com a pistola
no coldre.
Lenta e cuidadosamente, o guarda puxou a pistola do coldre e a colocou
sobre o mármore negro. Han a pegou com a mão esquerda.
– Agora... vá para debaixo da escrivaninha. Não saia até eu mandar.
– Sinsenhor .
Han colocou o cano da pistola na têmpora de Plancke, ainda segurando o
homem obeso bem de perto.
– Agora nós vamos sair do banco – explicou Han. – Vamos sair andando,
devagar e calmos. Vamos para o turboelevador. Quando eu chegar lá, se você
tiver sido um gerentezinho bem-comportado, eu vou te soltar. Entendeu?
– Sim...
– Ótimo.
Eles já estavam a meio caminho pelo lobby quando alguém percebeu que
havia alguma coisa errada. Um homem gritou, outro cacarejou de medo, e uma
mulher soltou um berro.
Han apontou a pistola de raios ao teto e puxou o gatilho. Destroços
flamejantes caíram.
– Todo mundo no chão! – gritou Han.
O comando foi desnecessário. Todos os cidadãos já estavam estendidos no
caro carpete.
– Certo, Plancke... devagar e sempre, agora.
Juntos avançaram em direção às portas, depois através delas. Han relaxou
um pouco a força que fazia para segurar Plancke, pronto para empurrar o
gorducho e depois saltar para o turboelevador. Recusou-se a pensar no que faria
depois! Uma coisa de cada vez, acautelou a si mesmo. Uma coisa de cada vez...
Estava prestando muita atenção enquanto ele e Plancke avançavam até o
turboelevador e, portanto, avistou o esquadrão de stormtroopers imperiais antes
que eles os vissem. Han puxou Plancke para bem perto de si e colocou a arma
contra a cabeça dele.
– Não atirem! – balbuciou Plancke enquanto os soldados erguiam as armas. –
Fui eu que chamei vocês! Sou o gerente do banco!
Han recuou para o turboelevador, arrastando o homem obeso consigo. Uma
olhada para o painel confirmou que o elevador estava a caminho daquele nível.
– Ele está escapando! – gritou um dos stormtroopers. Han parou diante da
porta, tenso, suando, pronto para saltar. Mas não deixou nada disso transparecer,
apenas esperou, com o corpo protegido pela forma corpulenta e trêmula do
gerente de banco.
Han ouviu as portas do turboelevador se abrindo atrás de si.
– Não deixem que ele escape! Abram fogo! – gritou o oficial.
– Nããããooo! – gritou Plancke enquanto o crepitar dos raios das armas
preencheu o ar.
Han saltou para trás, sentindo o cheiro de carne queimada, arrastando o
corpo em queda de Plancke consigo para dentro. Conseguiu dar um tiro, bem
quando as portas do elevador se fecharam, e socou o botão mais baixo da
listagem de andares.
O turboelevador de alta velocidade caiu como uma pedra.
Ofegando, Han conseguiu se levantar, cambaleante. Uma olhada bastou para
ver que Plancke estava morto. Pena. Ele teria soltado o sujeito, se aqueles
soldados não tivessem começado a confusão...
Os ouvidos de Han estalaram rapidamente no que o turboelevador
mergulhava. Puxou o mapa digital e verificou sua posição. Se o aparelho
estivesse correto, o elevador o levaria mais ou menos 150 andares para baixo,
depois ele teria que pegar outro.
No momento que as portas se abriram, Han pulou para fora. O corelliano
tinha arrastado o corpo de Plancke para o canto mais escuro do elevador, para
que não desse para vê-lo de fora. Também tinha guardado a pistola na jaqueta de
couro, mas manteve a mão apoiada de leve no cabo, pronto para sacar.
A cena com que deparou era inteiramente pacífica. Cidadãos passeando por
uma passarela entre prédios e, de algum lugar não muito distante, vinha uma
melodia.
Han continuou verificando o mapa digital enquanto andava. Virar à direita
aqui...
E lá estava o próximo turboelevador. Han passou por ele, pois era óbvio
demais, e seguiu por um tubo horizontal até o megabloco seguinte. Então outro
elevador para baixo. Duzentos andares, desta vez.
As ruas eram mais sujas agora, enquanto o rapaz procurava o elevador
seguinte, tomando o cuidado de fazer uma rota aleatória. Desceu de novo. Estava
uns quinhentos andares abaixo, agora. As ruas ficavam cada vez mais sórdidas.
Uma gangue de pivetes se aproximou dele. Han balançou a cabeça como
advertência.
– Nem tentem – avisou.
– “Nem tentem”? – zombou o líder, um enorme menino de pele escura com
uma longa cabeleira sebosa. – Ooooooh, o homem grande tá com medo? Homem
grande vai ficar com muito medo quando a gente acabar com ele...
Seis vibrolâminas reluziram na imundice do beco em que a rua tinha se
tornado. Han suspirou, revirou os olhos e sacou a pistola.
A gangue evaporou tão rápido que era como se tivessem sido levados por
morcegos-falcões. Han ficou ali, parado, de arma na mão, até ter certeza de que
os moleques tinham sumido.
Alguns transeuntes espantados olharam de relance, depois se apressaram
adiante, com uma cara de “quem, eu? Não vi nada !”.
Han meteu a pistola de volta na jaqueta e deu uma corridinha pela rua
sombria até o próximo elevador.
Mais cem andares, depois outra centena. Estava agora setecentos andares
abaixo. O mapa digital tinha se tornado inútil. Quão profundo é este lugar? , ele
se perguntou, embarcando em outro elevador horizontal. O turboelevador fedia a
dejetos humanos e alienígenas.
Oitocentos... oitocentos e cinquenta.
Àquela altura, Han se movia por ruas iluminadas apenas por brilhos
aleatórios dos poços de ventilação, ou por fracas lâmpadas nas laterais de
prédios miseráveis. O permacreto sob suas botas estava geralmente imerso num
líquido fétido e viscoso. Chuva venenosa espirrava em volta, e os fungos
cresciam por toda parte nas pedras.
Não havia mais cidadãos à vista – apenas vultos que dardejavam furtiva e
rapidamente demais para serem identificados. Han pensou que alguns deles
poderiam ser alienígenas e, conhecendo a repulsa e desconfiança que o
imperador Palpatine sentia por não humanos, e não fazia a menor questão de
esconder, Han não estava surpreso em encontrá-los ali, nas profundezas.
Mil andares. Mil e cem.
Han saiu em busca de outro elevador, mas não conseguiu encontrar. Em vez
disso, deparou com uma série de escadarias que o levaram para baixo, cada vez
mais...
O corelliano estava agora a quase 1 200 andares de profundidade.
Aproximadamente 3 600 metros abaixo de onde tinha começado no nível
superior do Banco Imperial.
Han ofegava, mesmo que estivesse descendo. O ar ali embaixo era espesso e
úmido e fedia horrivelmente, como se ele estivesse no fundo de um túnel.
Nenhum sinal de perseguição. Eu os despistei , pensou Han, perambulando
sem destino. Captou um vislumbre de alguma coisa rastejando pela lateral de um
dos prédios afundados, algo que se movia abaixado, como um animal, mas
andava sobre as pernas traseiras. Retalhos esfarrapados de pano mal escondiam a
pele pálida, manchada com lesões e feridas abertas. A criatura rosnou para Han
detrás de um emaranhado de cabelos imundos, revelando uma boca cheia de
tocos apodrecidos de dentes.
Han não conseguiu concluir realmente se aquilo seria – ou fora um dia –
humano.
A criatura fugiu, sibilando como um vrelt, meio de pé, meio de quatro.
Abalado, Han tirou a pistola da jaqueta e a meteu no cinto, deixando-a bem
visível na esperança de que a presença da arma fosse espantar outras criaturas
como aquela.
Passou pela boca de outro beco e, ali, na gosma, havia vários dos trogloditas
agachados, rasgando e arrancando pedaços de alguma coisa, enfiando-os na boca
manchada de vermelho. Revoltado, Han sacou a arma de raios, deu um tiro sobre
as cabeças deles e olhou enquanto se espalhavam.
Não queria chegar perto da presa deles, mas engoliu em seco quando viu as
costelas aparentemente humanas que saíam do torso mutilado. Pelos Lacaios de
Xendor, que raio de lugar é este?
Suas pernas estavam ficando muito cansadas. Não tinha um crono, mas,
quando passou debaixo de um poço de ventilação, esticou o pescoço para olhar
bem para o topo estonteante. Um indistinto quadrado de luz pálida era visível
bem no alto. A luz está acabando. Pela hora que eu conseguir alcançar o ponto
de encontro, já estará escuro... Pela primeira vez em horas, Han pensou em Bria,
e ficou muito feliz em não a ter levado consigo ao banco naquela manhã.
Ela estaria preocupada, ele sabia disso. Com um suspiro, Han encontrou
outra escadaria e começou a longa, longa subida.
Quando finalmente alcançou um andar onde havia amenidades tais quais
parques e bancos onde se sentar, as pernas de Han doíam com cãibras, e ele
tremia de exaustão. Desabou no banco, perguntando-se, pela primeira vez, o que
faria em seguida.
Estava tão cansado e desanimado que sua mente girava como um animal
dentro de um barril que rolava morro abaixo. Preciso pensar, disse a si mesmo.
Não posso voltar para Bria assim...
Porém, apesar dos seus melhores esforços, nenhuma solução para o dilema
se apresentou. Han se levantou e cambaleou para o turboelevador mais próximo,
sentindo-se como um dos trogloditas que vira – apenas marginalmente humano.
Ao conferir o localizador, descobriu que estava funcionando de novo, e
começou a segui-lo em direção às coordenadas que tinha dado a Bria.
Nível 132, megabloco 17, bloco 5, sub-bloco 12... ficou repetindo para si
mesmo. Enquanto galgava até níveis que eram, a seu ver, habitáveis, o estômago
começou a roncar quando ele captou resquícios do cheiro de cafés e restaurantes
pelos quais passava.
Por fim, viu um letreiro que iluminava a noite na seção sórdida que
margeava o enclave alienígena. Uma imensa e peluda aranha devaroniana,
gotejando veneno, destacada em luzes verdes extravagantes, estava pendurada
numa teia escarlate de fazer os olhos arderem. A Aranha Radiante, finalmente...
Barulho e confusão preenchiam as ruas, e muitos dos pedestres estavam em
mau estado por causa de bebida ou drogas. Han passou pela entrada de um beco
e viu alguém ativar uma luz, depois o clarão azul e as fagulhas de uma dose de
brilhestim sendo acendida.
Han pausou numa alcova em frente à cantina, perguntando-se se Bria estaria
esperando do lado de dentro ou de fora. Esperava que ela não tivesse entrado
sozinha... ou será que tentara fazer contato com Nici, o Especialista? Han
suspirou, enxugou o suor do rosto com a mão, e sentiu a cabeça girar de
exaustão, sede e fome.
Enquanto hesitava, sentiu alguém segurar seu braço. Deu meia-volta,
levando a mão à jaqueta, onde a pistola estava escondida, e parou quando viu
Bria.
– Querida! – exclamou, segurando-a e abraçando-a com tanta força que a
mulher começou a se debater depois de um momento. Ela tinha um toque e um
perfume tão bons !
– Han! – ofegou ela. – Não consigo respirar!
Ele relaxou um pouco o aperto e ficou cambaleando. Bria afastou os cabelos
do rosto dele, encarando ansiosa os olhos do namorado.
– Ah, Han! O que aconteceu?
Han sentiu a garganta se fechar e, por um momento, teve medo de se
desgraçar e cair em prantos. Porém, respirou fundo, balançou a cabeça e falou:
– Aqui não. Vamos encontrar um lugar para ficar e comer. Estou acabado.
Meia hora depois, os dois estavam trancados no quarto que tinham alugado
numa pensão barata. Han já se hospedara em coisa pior, mas ficou magoado ao
ver a corajosa tentativa de Bria de fingir que não estava chocada pela sujeira, o
fedor e os insetos. Porém, o lugar era barato e parecia seguro.
A primeira coisa que Han fez foi se lavar e beber vários copos de água.
Ainda se sentia meio tonto, mas o cheiro da comida que trouxeram consigo o
reanimou um pouco. Sentou-se à beira da cama instável e ele e Bria se
revezaram comendo do recipiente.
A comida recarregou as baterias do corpo exausto de Han. Engoliu a última
garfada e se reclinou, fitando Bria com olhos vazios, tentando decidir por onde
começar.
– Han, você precisa me contar. Sei, pela sua expressão, que é ruim. Você não
conseguiu o dinheiro, né?
Han balançou a cabeça e por fim, devagar e hesitante, contou a ela o que
acontecera. Lágrimas encheram os olhos de Bria enquanto ela escutava.
Finalmente, Han parou... ou se esgotou.
– E então eu cheguei aqui de novo – concluiu ele. – O resto... o resto você
sabe. Querida – ele olhou para ela, sentindo a garganta se fechar –, este é o fim.
Não tenho para onde ir. Não consigo pensar em nada o que fazer além de usar
nossos últimos créditos para tentar sair deste mundo. Então... poderemos
trabalhar. Eu consigo um emprego de piloto, sei que consigo. – Suspirou e
enterrou a cabeça nas mãos. – Meu bem... é culpa minha. Eu deveria ter previsto
que os Hutts fariam uma varredura sistêmica geral com meus padrões de retina, e
que isso revelaria todos os meus pseudônimos. Eu achei que tinha sido esperto,
mas fui burro como uma porta. Ah, Bria... – grunhiu ele, e se virou para a
namorada, abraçando-a e apoiando a cabeça no ombro dela. – Você me perdoa?
Bria lhe beijou a testa e disse baixinho:
– Não há nada para perdoar. Não foi culpa sua. Se você não tivesse feito o
que fez, eu estaria numa casa de prazer sendo passada de um stormtrooper ao
outro. Nunca se esqueça disso, Han. Você é um herói. Me salvou, e eu te amo.
– Eu também te amo – respondeu ele, fitando seus olhos. – Não consegui
dizer antes... mas... queria que você soubesse. Eu te amo, Bria.
Ela assentiu com a cabeça, e uma lágrima se soltou e desceu pela sua
bochecha. Han a enxugou-a com a ponta do dedo.
– Não chore. Eu admito que quase chorei mais cedo, mas andei pensando. Se
a gente conseguir escapar deste mundo maldito, eu sei que a gente consegue dar
um jeito. Podemos trabalhar. Podemos ganhar a vida... sei que sim. – Ele hesitou,
depois falou de uma vez: – Podemos até nos casar, meu bem. Se você quiser.
Han viu que ela estava profundamente comovida pelo pedido desajeitado,
mas balançou a cabeça.
– Seus sonhos, Han. Você não pode desistir deles. Chegamos tão perto.
Temos que pensar em alguma coisa. Você vai ser um oficial da Marinha
Imperial, lembra?
Foi a vez dele de balançar a cabeça.
– Não vou mais, Bria. Isso acabou, agora. Tenho que pensar o que mais vou
fazer com a minha vida.
– Ah, Han! – Bria começou a chorar para valer. – Não aguento ver você tão
magoado!
– Estou bem – insistiu Han, apesar de ser mentira.
Bria apoiou a cabeça no peito dele, depois o abraçou com força.
– Vamos ficar bem por hoje – continuou Han. – Amanhã teremos que
planejar seriamente nosso curso de ação.
Bria o beijava agora, a bochecha, o queixo, a mandíbula... pequenos beijos
desesperados, de raspão. Han a abraçou com força e capturou sua boca,
beijando-a, tocando seu rosto, passando a mão pelos cabelos, desesperado para
tocá-la, ser curado por seu toque.
O quartinho pobre desapareceu, e Han só conseguia pensar em como ficava
feliz em estar com ela...

Nas horas que antecediam a aurora, neste mundo onde noite e dia
significavam muito pouco para qualquer um que não vivesse uma existência
privilegiada do “alto nível”, Bria Tharen estava sentada encolhida na grudenta e
apertada unidade de higiene. Tinha nas mãos uma caneta digital, e diante dela,
uma folha de flimsi e uma grande pilha de créditos.
Ouvia de leve, vindos do quarto, os roncos de Han. O piloto estava tão
exausto que nem ouviu quando ela se levantou e saiu, nem acordou quando ela
voltou, horas mais tarde.
Agora Bria lutava com o flimsi e a caneta, parando toda hora para enxugar as
lágrimas que borravam seus olhos, dificultando imensamente o ato de escrever.
Seis ou sete vezes ela apagou o flimsi e recomeçou, mas o tempo passava, e ela
não poderia estar ali quando Han acordasse. Se isso acontecesse, Bria sabia que
nunca, jamais conseguiria partir.
Ela estava sendo covarde, mais uma vez. Seus soluços entalaram na
garganta, e Bria levou as duas mãos ao peito. Por um momento, se perguntou se
o coração pararia com a dor que sentia, então balançou a cabeça e disse a si
mesma para deixar de enrolar. Eu sinto muito , ela se fez escrever. Por favor me
perdoe por fazer isto...
Aquela noite, pela primeira vez, Bria percebeu que Han poderia nunca
alcançar seu sonho se ela ficasse com ele. Bria o atrasara, como uma âncora, por
semanas, mas não quis admitir. Porém, aquela noite... ela tinha visto a angústia
nos olhos dele, ouvido a tristeza em sua voz – tinha sido terrível demais para
aguentar.
Então ela saiu escondida, encontrou um bar em que o proprietário permitiu
que ela pagasse para pegar o comlink emprestado e ligou para o pai. Bria pediu
ajuda, tanto para si como para Han. A pilha de certidões de crédito no chão era o
resultado. Renn Tharen era um homem que sabia como resolver as questões e
não perdia tempo. O dinheiro tinha sido entregue a Bria por um dos parceiros de
negócios do pai em Coruscant, que lhe entregou os créditos, recusou o
agradecimento e depois saiu de volta para a noite, claramente feliz em se livrar
da taverna sórdida.
Durante a curta conversa, o pai de Bria lhe avisara que não deveria voltar
para casa. Renn Tharen contou que inspetores de SegCor tinham aparecido na
mansão logo após a fuga de Bria e Han, indagando pelo paradeiro dela.
– Eu não lhes disse nada. Seu irmão e sua mãe não falam mais comigo,
porque eu cortei a mesada deles por um mês, mesmo que tenham jurado que não
chamaram a SegCor. Tome cuidado, querida...
– Vou tomar, papai – prometeu Bria. – Eu te amo, papai. Obrigada...
Eu o magoei também , pensou Bria. Por que eu sempre magoo as pessoas
que mais amo?
O desespero a tomou, mas Bria se recusou a ceder. O melhor que ela poderia
fazer por Han, se ela o amava, era deixá-lo. Seja forte, Bria, comandou a si
mesma.
Segurando a caneta com força, Bria enxugou as lágrimas, depois se obrigou a
terminar a carta mais difícil que ela escreveria na vida...

Han sabia que tinha alguma coisa errada antes mesmo de abrir os olhos. Não
havia som nenhum.
– Bria? – chamou ele. Cadê ela? Saiu da cama e se vestiu. – Bria, querida?
Sem resposta.
Han respirou fundo e mandou o coração violentamente disparado se acalmar.
Ela provavelmente saiu para comprar estim-chá e pães para o café-da-manhã ,
disse a si mesmo. Era uma dedução razoável, dadas as circunstâncias – mas
alguma coisa lhe disse que estava enganado.
Selou a frente do macacão e pegou a jaqueta. Só então percebeu que a bolsa
de Bria tinha sumido.
Com um gemido baixo de angústia, viu algo branco saindo do bolso da
jaqueta. Han puxou o objeto – e deparou com uma bolsa contendo certidões de
crédito de valor elevado. E havia algo mais, também...
Um bilhete. Escrito em flimsi vincado e dobrado. Han fechou os olhos,
agarrando o bilhete. Levou um minuto inteiro para se obrigar a abrir os olhos, se
obrigar a ler:

Meu querido Han,


Você não merece que isto aconteça, e tudo que eu posso dizer é que sinto
muito. Eu te amo, mas não posso ficar...
Ela vai voltar , foi a primeira coisa que Han pensou, e eu a perdi para
sempre... foi a segunda. Olhou em volta descontroladamente, sentindo-se como
se fosse explodir se não fizesse alguma coisa. Praguejou em voz alta e jogou a
jaqueta na parede, depois pegou os travesseiros na cama e fez a mesma coisa.
Não foi suficiente – Han se perguntou, frenético, se estava enlouquecendo. A
cabeça parecia pequena demais para conter sua mente, e o rapaz sentia uma
necessidade incontrolável de uivar sua dor e agonia bem alto, como um
Wookiee.
– AAAAHHHHHHHHH! – gritou, pegou a velha cadeira que servia como
uma das três peças de mobília do quarto, golpeou com ela por sobre a cabeça e a
atirou com toda força contra a porta. O vizinho de quarto ao lado gritou um
impropério. A cadeira ficou caída no revestimento gasto do chão, inteira. A porta
também estava intacta.
Han desabou na cama e ficou ali deitado por vários minutos, a cabeça
enterrada nos braços. A dor vinha e ia em ondas. O peito doía, e a mera
respiração ardia . O único alívio foi quando se sentiu o corpo inteiro dormente.
De alguma forma, a dormência era o pior de tudo.
Depois de um longo tempo, Han percebeu que não tinha terminado de ler a
carta de Bria. Exceto pela pilha de créditos, era tudo que lhe restava dela, então
ele se sentou e estreitou os olhos na luz fraca para ler as palavras trêmulas no
flimsi.

Meu querido Han,


Você não merece que isto aconteça, e tudo que eu posso dizer é que sinto
muito. Eu te amo, mas não posso ficar...
Todos os dias eu me pergunto se vou fraquejar e pegar o próximo transporte
de volta a Ylesia. Temo que não seja forte o bastante para resistir... mas eu
tenho que resistir. Tenho que encarar o fato de que sou viciada na Exultação
e que preciso enfrentar o vício. Precisarei de toda minha energia para fazer
isso e vencer, infelizmente. Eu me apoiei em você para ter essa energia, mas
isso não é bom para nenhum de nós dois. Você precisa de toda sua força e
determinação para passar naquelas provas e entrar na Academia.
Por favor, não abandone seu sonho de se tornar um oficial, Han. Não tenha
medo de usar o dinheiro que eu deixei. Meu pai nos deu os créditos sem
amarras, porque ele gosta de você e lhe é grato. Como eu, reconhece que
você salvou minha vida. Aceite o presente dele, por favor. Nós dois
queremos que você seja bem-sucedido.
Aprendi tanto com você. Como amar, como ser leal e corajosa. Também
aprendi como encontrar pessoas que me ajudarão a mudar minha identidade,
então nem tente me procurar. Eu vou embora e vou vencer esse vício. Vou
conseguir nem que precise da minha última medida de força e coragem.
Você foi livre sua vida inteira, Han. E forte. Eu o invejo por isso. Serei livre
um dia, também. E forte.
Talvez então a gente possa se encontrar de novo.
Tente não me odiar muito pelo que estou fazendo. Eu não o culparei se você
o fizer, porém. Por favor, saiba que, agora e sempre, eu te amo...
Com carinho,
Bria.

Han se obrigou a ler a carta até o fim. Cada palavra se calcinou na mente
dele como um maçarico laser. Quando terminou, decidiu relê-la, para assim adiar
o momento em que teria que voltar a pensar e sentir de novo. Enquanto lia o
flimsi de Bria, era como se ela ainda estivesse ali. Quase dava para ouvir a voz
dela. Han sabia que, assim que ele parasse de ler, ela sumiria de novo.
Só que, desta vez, apesar de estar espremendo muito os olhos, ele não
conseguiu mais ler as palavras. Estavam borradas demais.
– Querida – sussurrou para a carta, com a garganta tão áspera que mal
conseguiu forçar as palavras. – Você não deveria ter feito isso. Nós éramos um
time , lembra?
Ao se ouvir usar o pretérito, Han estremeceu, como um homem nas garras da
febre. Levantou-se e começou a andar de um lado ao outro, de um lado ao outro.
Mover-se parecia ser a única coisa que ajudava a aguentar. Ondas de raiva e
frustração se alternaram com momentos de mágoa tão profunda que ele achou
que seria mais fácil enlouquecer.
Ela mentiu. Nunca me amou. Garotinha rica, metida, só queria um lance
fugaz... ela me usou para fugir, me usou até ficar entediada. Eu odeio ela...
Han grunhiu em voz alta, balançou a cabeça. Não odeio, não. Eu amo ela.
Como ela pôde fazer isso comigo? Ela disse que me amava. Mentirosa!
Mentirosa? Não... era verdade. Admita, Han, ela estava sofrendo, você sabe
disso. Bria estava perturbada, em agonia...
É, ela estava em agonia. Han se lembrava de todas aquelas noites em que a
encontrou chorando e a abraçou, tentando reconfortá-la. Meu bem... por quê? Eu
me esforcei tanto para te ajudar. Você não deveria ficar sozinha. Você devia ter
ficado. A gente teria resolvido...
Han ficou aterrorizado com a ideia de que o vício de Bria pudesse mandá-la
de volta a Ylesia. Ele não tinha ilusões quanto à reação de Teroenza caso ela
aparecesse lá. Os T’landa Til não tinham capacidade de sentir pena ou ser
misericordiosos. O sumo sacerdote mandaria que Bria fosse executada se algum
dia pusesse os olhos nela outra vez.
Han olhou em volta atordoado para o quartinho esquálido. Tinha sido apenas
noite passada que eles estiveram ali, nos braços um do outro? Bria o abraçara tão
forte, tão ferozmente. Agora Han entendia o motivo de tanta paixão. Ela soubera
que o abraçava pela última vez...
Ele balançou a cabeça. Como as coisas poderiam mudar tão
irrevogavelmente em apenas poucas horas?
Faça o tempo voltar , disse alguma parte infantil da mente dele. Faça ser
então, não agora. Não gosto do agora. Quero que seja então...
Só que, é claro, aquilo era idiota. Han prendeu a respiração, e o som foi
frágil, cheio de dor. Quase um soluço.
De repente, não aguentava mais estar ali, vendo aquele quartinho horrível.
Meteu as poucas posses na pequena bolsa e distribuiu punhados de certidões de
créditos nos bolsos internos, junto à pele. Por fim, vestiu a velhíssima jaqueta e
meteu a arma nela.
Saiu andando, pelo corredor, além da mulher estranha na recepção.
E continuou andando...
O dia inteiro ele andou, movendo-se como um droide em meio ao povo
suspeito daquela área, que era um dos distritos de luz vermelha “fronteiriços”,
que se misturavam a um dos enclaves de não humanos. Ele não comeu, não
suportava a ideia de comida.
Estava sempre consciente da pistola roubada na frente da jaqueta. Parte de
sua mente torcia que alguém tentasse roubá-lo. Isso lhe daria uma desculpa para
explodir, ferir ou matar – queria destruir alguma coisa. Ou alguém.
Só que ninguém o incomodou. Talvez Han projetasse alguma aura, alguma
linguagem corporal que avisava aos outros que ficassem longe.
A mente brincava de cabo de guerra com o coração. Repassava
repetidamente tudo que os dois tinham feito e dito. Será que ele fizera algo
errado? Será que Bria era uma garota doce, problemática, mas decente que
enfrentava um vício mortal? Ou seria uma menininha rica mimada que jogara
um jogo cruel? Será que ela algum dia o amara de verdade?
Num dado momento, Han se encontrava numa esquina entre duas imensas
pilhas de escombros. Nas mãos tinha o flimsi de Bria e tentava lê-lo à luz
tremeluzente de um bordel. Han piscou. Deve estar chovendo ... O rosto dele
estava úmido.
Olhou para cima, para o céu, mas, obviamente, não havia céu, só um telhado,
bem alto. Estendeu a mão, com a palma para cima. Nada de chuva.
Han dobrou a carta e a guardou cuidadosamente. Resistiu ao impulso
momentâneo de rasgá-la, de transformá-la em cinzas. Alguma coisa lhe disse
que se arrependeria se o fizesse.
O que quer que ela fosse, ela se foi, decidiu Han, endireitando os ombros.
Ela não volta mais, e eu preciso recuperar meu controle. Amanhã de manhã
cedinho, vou procurar Nici, o Especialista, na Aranha Radiante...
Han percebeu que era tarde da noite. Ficara vagando pelas ruas por doze ou
quinze horas. Felizmente, naquele distrito, alguns lugares nunca dormiam. O
corelliano percebeu que precisava de comida e sono – estava tão faminto e
exausto que a cabeça girava.
Começou a voltar lentamente de onde tinha vindo e percebeu que cada passo
era como pisar em areia incandescente. As solas dos pés estavam esfoladas e
cheias de bolhas, e ele mancava.
A dor nos pés era uma distração bem-vinda.
De agora em diante, sou só eu, Han Solo , pensou ele, e parou para espiar o
céu noturno, mal visível no topo de um poço de ventilação. Uma estrela – ou
seria uma estação espacial? – piscava contra as trevas. A declaração mental de
Han tinha a convicção de um juramento. Ninguém mais. Não dou a mínima para
mais ninguém. Ninguém vai se tornar próximo, de agora em diante. Não me
interessa se ela for bonita, inteligente ou doce. Nem amigos, nem amantes...
ninguém vale esse tipo de dor. De agora em diante, sou só eu... Solo. Com uma
parte da mente, percebeu a triste ironia do trocadilho acidental, e riu secamente.
De agora em diante, o nome era ele. Seu nome tinha passado a representar o que
ele era, o que havia dentro dele.
Solo. De agora em diante. Só eu. A galáxia e todo mundo mais nela pode se
explodir. Sou Solo, agora e sempre.
O último resquício de brandura da juventude desapareceu dos traços de Han,
e agora havia uma nova frieza, uma nova dureza nos seus olhos. Ele caminhou
noite adentro, e os saltos das botas soavam duros contra o permacreto – tão
duros e implacáveis quanto a casca que agora protegia seu coração.
Uma semana mais tarde, Han Solo se dirigiu ao Salão de Admissões da
Academia Espacial Imperial. O prédio era uma enorme estrutura no nível mais
elevado, imensa, discreta e com um design solidamente digno.
A luz do pequeno sol branco de Coruscant fez o rapaz piscar. Havia um
longo tempo que ele não via luz solar, e seus olhos ainda estavam sensíveis,
facilmente irritáveis.
Alterar os padrões de retina de um indivíduo era possível, como Han tinha
acabado de provar, mas não fora uma experiência agradável. Fez a cirurgia laser
e o rearranjo celular, depois passou um dia num tanque de bacta, sarando. Então
teve que usar um visor de bacta por mais três dias, deitado num quartinho dos
fundos na “clínica” de Nici.
Aproveitou bem a inatividade forçada, entretanto, e escutou horas de
gravações sobre História e Literatura, preparando-se para as provas que esperava
iniciar. Han não tinha ilusão de que os exames seriam fáceis para ele. Sua
educação fora inconsistente, na melhor das hipóteses.
Nici, o Especialista, tinha valido cada crédito de sua tarifa exorbitante. “Han
Solo” agora existia nos bancos de dados imperiais, além de seus padrões de
retina, e outras marcas de identificação. (A maioria dessas cicatrizes era nova em
folha, cuidadosamente colocadas em seu corpo pelos droides médicos de Nici.
Quase todas as velhas cicatrizes foram apagadas.)
“Han Solo” agora tinha identidades indistinguíveis daquelas de posse de
todos os cidadãos leais do Império. Pela primeira vez em mais de uma década,
ele estava “limpo” – Han Solo não era mais procurado por ninguém por coisa
nenhuma. Não tinha mais que olhar para trás cheio de culpa, ou tentar criar olhos
na nuca. Não precisava mais ficar alerta para o clarão de luz revelador de um
cano de pistola recém-exposto. Ainda ficava tenso com barulhos altos, mas era
apenas reflexo.
Han Solo era um cidadão comum, não um fugitivo caçado.
Ainda tinha as identidades de Vykk Draygo e Jenos Idanian, socadas no
fundo de uma caixa de créditos, mas aguardava uma boa chance de se livrar
delas. O rosto de Han nunca tinha aparecido num pôster de PROCURADO ou num
banco de dados, apenas seus padrões de retina originais. E estes tinham sumido,
sido apagados.
Ao galgar os degraus de pedra do Salão de Admissões, os passos de Han
eram seguros e confiantes. Foi até o oficial de recrutamento humano sentado
detrás de uma escrivaninha e sorriu educadamente.
– Olá. Meu nome é Han Solo, e eu gostaria de me inscrever na seleção da
Academia Imperial. Sempre quis ser um oficial da Marinha.
O atendente não sorriu de volta, mas foi educado.
– Posso ver sua identidade, sr. Solo?
– Certamente – respondeu Han, e a colocou na mesa.
– Vai levar um momento. Sente-se, por favor.
Han se sentou, sentindo-se tenso por dentro, mas dizendo a si mesmo que
não tinha nada a temer. Os créditos de Renn Tharen tinham cuidado disso...
Minutos depois, o atendente devolveu a identidade a Han e ofereceu um
sorriso remoto.
– Está tudo certo, Solo. Você pode iniciar o processo de inscrição e testes
hoje mesmo. Você está ciente de que mais de cinquenta por cento dos candidatos
não são aceitos? E que cinquenta por cento dos aceitos não completa o curso na
Academia?
– Sei sim, senhor. Mas estou determinado a tentar. Sou um bom piloto.
– O imperador precisa de bons pilotos – concordou o homem, com um
sorriso genuíno por um momento. – Muito bem, vamos começar...

A semana seguinte foi um pesadelo calculado. O primeiro passo foi um


exame físico meticuloso, mais detalhado que qualquer outro que Han tivesse
experimentado antes. Os droides médicos cutucaram e sondaram lugares que
fizeram Han querer lhes dar um chute rápido nos circuitos, mas ele aguentou
tudo estoicamente.
Ficou tenso durante o exame oftalmológico, mas o droide de Nici era um
especialista. O droide médico imperial não encontrou nada de errado.
Han teve um desempenho excelente no exame físico. Seu tempo de reação e
reflexos eram excepcionais.
Aí veio a parte difícil...
Dia após dia, um grupo cada vez menor de candidatos a cadetes era levado às
salas de avaliação individual. Cada sala continha um droide de avaliação, que
fazia perguntas aos candidatos, registrava suas notas e mantinha uma tabulação
do seu status.
Toda noite Han voltava ao minúsculo cubículo em mais uma pensão barata e
adormecia, exausto, só para sonhar a noite inteira com as provas:
– Candidato a cadete Solo, vou lhe mostrar quatro tipos de armadura
corporal. Qual delas foi usada pelas forças mandalorianas durante o último
século?
– Candidato a cadete Solo, em que ano o nosso glorioso imperador se
tornou chanceler do Senado da República? Que evento histórico precedeu sua
eleição?
– Candidato a cadete Solo, se um destroier estelar da classe vitória deixa o
Centro Imperial no momento abaixo exibido e transporta a massa e peso de
armamento, carga e tropas, conforme exibido na tela, qual rota e vetor de
aproximação ao sistema Dedalon oferecerá a maior eficiência em consumo de
combustível? Qual rota e vetor de aproximação oferecerá a melhor velocidade?
Esteja preparado para demonstrar os valores da sua resposta.
– Candidato a cadete Solo, qual batalha da Crise Nooliana resultou na
libertação do setor Bothano? Em que data ocorreu?
O pior de tudo, do ponto de vista de Han, eram as perguntas culturais. Era
esperado que cada cadete fosse um oficial e um cavalheiro (ou dama), e uma
certa quantidade de discernimento cultural era necessária. Han suou muito para
lidar com perguntas como: “Candidato a cadete Solo, vou tocar música de três
mundos diferentes. Por favor, identifique o mundo de origem de cada canção”.
Ironicamente, Han foi muito melhor nas questões sobre artes plásticas do que
sobre música. Seu histórico de ladrão e assaltante lhe proporcionou pelo menos
familiaridade com história da arte e arte galáctica moderna.
Quando, depois de três dias de testes implacáveis, Han se encontrou ainda
listado dentre os CANDIDATOS A CADETE no vid-painel do imenso Salão de
Admissões, ele ficou tanto surpreso como feliz.
Os testes de pilotagem ocuparam os dois últimos dias do período de testes de
uma semana. Durante esta parte, a experiência de Han fez com que ele se
destacasse. Os candidatos eram levados para o espaço em grandes transportes e
despachados para bases imperiais próximas. Apenas uma seção dos testes de
colocação avançada era conduzida em Coruscant.
Todos os dias, os candidatos praticavam pilotagem numa variedade de
situações diferentes. Han foi bem e sabia que tinha passado em cada teste.
Ocorreu apenas um incidente – um dos oficiais avaliadores de Han (instrutores
humanos eram usados nesta parte) comentou azedo com os outros instrutores
que, na opinião dele, a pontuação de Han para “tempo mais rápido para rota
designada” deveria ser desconsiderada porque era muito irregular que um
candidato a cadete voasse com a nave auxiliar por dentro do Arco do Triunfo do
imperador Palpatine, no Centro Imperial, em vez de por cima.
– Ele assustou vários milhares de cidadãos imperiais! Recebemos centenas
de reclamações! – reclamou o oficial.
O oficial-chefe de avaliação deu de ombros.
– Ninguém se machucou, não foi?
– Correto, senhor.
– Então a pontuação do candidato a cadete Solo permanece. Aqueles
cidadãos bem que precisam de um pouco de emoção de vez em quando. Faz bem
à circulação – decidiu o oficial-chefe de avaliação.
Han tomou cuidado de não deixar transparecer que ele tinha escutado a
conversa.
O corelliano sabia que, apesar de ter ido muito bem nas avaliações de
pilotagem, tinha passado em várias das outras disciplinas por uma questão de
milésimos.
Várias vezes, um sinal de “menos” aparecia ao lado do nome dele, indicando
que ele teria que participar de aulas de recuperação naquela área, caso passasse e
fosse aceito na Academia.
Não surpreendia que essas disciplinas incluíssem música, assim como
história antiga pré-republicana, física quântica interespacial e geometria não
linear hiperespacial.
Han estudava todas as noites e caía no sono ao som de gravações de cursos
que tagarelavam resmas de informação enquanto ele dormia. Na verdade, Han
não se incomodava em sonhar sem parar sobre as provas todas as noites.
Era melhor que sonhar com Bria.
Finalmente, chegou o dia em que ele parou diante do vid-painel e procurou
pelo próprio nome na lista de CADETES DESCLASSIFICADOS – e não conseguiu
encontrar.
Com o coração acelerado, mal ousando sonhar, foi olhar na outra lista, do
outro lado do Salão, aquela rotulada CADETES APROVADOS .
Han Solo.
Lá estava, em letras brilhantes. Han fitou o nome, incapaz de pensar, mal
ousando acreditar.
Só que lá estava. Han ficou perambulando pelo Salão por uma hora, e voltou
ao painel três vezes, e lá estava, todas as vezes. Enfim, depois da terceira vez,
Han se permitiu sussurrar “Isso aí! ” e socou o ar em triunfo.
Desceu os degraus até a enorme praça de nível elevado, sentindo o ar frio da
noite de Coruscant, como um toque de água refrescante.
Isso pede uma comemoração, pensou, exultante.
Han se presenteou um jantar num dos restaurantes chiques dos níveis
elevados, não muito longe do Salão de Admissões. Pediu medalhões de nerf em
molho redor penetrante, com uma guarnição de tubérculos fritos e uma salada de
verduras. Também pediu cerveja alderaaniana, que sorveu lentamente,
saboreando.
Uma vez, durante o jantar, olhou em volta para a bela decoração, notando a
elegante escultura de metal e gelo vivo, o discreto trio de jizz, e os garçons
humanos . Vários oficiais imperiais de alta patente estavam lá, acompanhados de
belas mulheres em lindos vestidos de noite. Han ergueu o copo reservadamente
no ar e sussurrou:
– Bria, eu consegui. Queria muito que você estivesse aqui para compartilhar
deste momento comigo, querida...
Depois de pagar o preço exorbitante da refeição sem o menor
arrependimento, Han saiu do restaurante e passeou pela larga e elegante praça.
Os defletores climáticos montados no alto, acima da praça, mantinham a maior
parte do vento fora, então ele estava quase aquecido o bastante enquanto andava.
Selou a velha jaqueta contra o frio.
Por toda volta ao seu redor e acima, Han viu os pináculos e telhados dos
prédios mais altos. Aquela praça ficava logo abaixo do nível mais alto daquela
parte de Coruscant. Longas rampas espirais levavam ao nível superior, além dos
sempre presentes turboelevadores.
Uma vez fora do brilho exagerado das luzes, Han se encostou contra um
parapeito e tentou ver as estrelas. Encontrou uma ou duas das mais brilhantes,
mas o horizonte ofuscava completamente o céu. Auroras vermelhas e verdes
tremeluziam e piscavam, parecendo pintadas contra as trevas por algum artista
louco e gigantesco. Era uma vista de tirar o fôlego.
Eu consegui!
Han sorriu...
E então ficou paralisado, quando um objeto pequeno, duro e redondo foi
empurrado contra as costas dele. O bocal de uma pistola de raios. Uma voz que
Han reconheceu, mesmo que já fizesse quase cinco meses que ele não a ouvisse,
comentou jovialmente:
– Ei, Han. Bom te ver de novo, garoto. Tenho que admitir, não foi fácil te
achar.
Isto não pode estar acontecendo, pensou Han. Não agora! Não é justo!
Os tons simpáticos agora continham uma risada.
– Han, por que você não dá meia-volta bem devagar, e a gente conversa cara
a cara?
Han se virou, muito lentamente e, como já sabia, deu de cara com Garris
Shrike. O capitão da Sorte do Mercador tinha trocado o uniforme cafona pelo
velho traje de caçador de recompensas – colete de couro marcado, calças e uma
túnica justa de lã de nerf alderaaniana – porém, de resto, ele parecia igual àquela
noite em que Han o deixara esparramado e inconsciente no convés.
Não... pensou Han. Tem alguma coisa diferente...
Depois de um momento, percebeu que ele olhava Shrike um pouco de cima .
Eu é que estou diferente. Cresci um pouco. Estou mais alto...
Shrike o contemplou.
– Ora, se você não é um moleque bonitão. Pena que não pode voltar comigo
à Sorte para que algumas das mulheres passem o olho em você. Ia fazer muito
sucesso, te garanto.
Han finalmente conseguiu falar.
– O que você quer, Garris? – inquiriu friamente.
– Ah, então é “Garris” agora, é? Tá achando que é meu igual, é? – O sujeito
acertou o rosto de Han com um tapa violento com as costas da mão. Quando Han
começou a reagir, a pistola foi cravada ameaçadoramente em seu abdômen. Em
silêncio, o rapaz limpou o sangue do lábio inferior ferido. – Bem, você não é
meu igual, e não se esqueça disso. Pra mim você não passa de uma pilha de
créditos dos Hutts por ter trazido “Vykk Draygo” de volta para eles vivo.
– Os Hutts estão me procurando? – indagou Han, enrolando para ganhar
tempo.
– Estão procurando por Vykk Draygo, e Jenos Idanian, e todos os seus outros
pseudônimos, moleque. Só que você é “Han Solo”, agora, né? E eu sou
praticamente o único na galáxia inteira que sabe que Han Solo também era Vykk
Draygo e todos aqueles outros. Então, quando eu vi o anúncio dos Hutts, decidi
sair da aposentadoria só pra você. Créditos demais para ignorar.
– Entendi.
Shrike o fez virar a cabeça com outro forte tapa.
– Não, você não entendeu, Han. Você não entendeu que as coisas não andam
muito boas para a Sorte , ultimamente. Você não entendeu que Larrad nunca
mais foi o mesmo, depois que a sua bruxa Wookiee deslocou o braço dele. Esses
créditos dos Hutts vão virar a mesa pra todos nós.
– É mesmo? – perguntou Han. – Não vejo como só me capturar vai mudar
sua sorte. Seria melhor armar algum tipo de golpe em Gamorr. E eu temo...
Garris... que eu não possa participar desse seu esqueminha... – Enquanto falava,
Han começou a baixar a voz, gradualmente, falando cada vez mais sussurrado.
Sem perceber, Shrike se inclinou para frente para ouvir...
...e foi aí que Han, com um grito selvagem, saltou direto contra ele. Um
braço subiu num bloqueio, afastando o braço de Shrike, e quase ao mesmo
tempo Han acertou uma joelhada na virilha do sujeito. Enquanto Shrike se
dobrava ao meio com um grunhido, Han o socou no queixo, bem forte. O capitão
desabou.
A pistola caiu da mão de Shrike, que tentou agarrá-la. Han a chutou para
longe, e a arma saiu girando para as sombras profundas. Então o piloto saltou
sobre a forma agachada de Garris e saiu correndo para a rampa que levava ao
terraço mais alto. De lá, poderia se esconder e pegar um tubo horizontal ou um
turboelevador.
Han não podia acreditar que tinha realmente conseguido derrubar Shrike
numa luta. Durante todo seu tempo na Sorte , sempre vivera aterrorizado pelo
temperamento e punho do capitão.
O piloto alcançou a rampa e subiu a espiral com a aceleração de uma nave
com propulsores à plena potência. Alcançou o topo e hesitou, olhando em volta.
O terraço parecia fantasmagórico com as sombras duplas formadas pela luz das
duas pequenas luas de Coruscant, que contornavam tudo em um branco
dolorosamente brilhante e projetavam faixas cinzentas que mergulhavam numa
escuridão impenetrável.
Enquanto Han seguia pelo terraço, ainda procurando um turboelevador, um
raio azul de pistola foi disparado das trevas à direita. O tiro tinha vindo da porta
de um turboelevador. Arma de raios em atordoar! pensou Han, correndo de novo
num ziguezague frenético. Shrike? Como ele chegou aqui tão rápido?
Outro raio atordoante.
Han disparou pelo terraço como um vrelt fugindo de um raio de pistola,
correndo como jamais correra na vida. Passou por outra entrada de
turboelevador, parou e foi até ela. Ao alcançá-la, a porta se abriu e Shrike estava
lá, pistola em riste.
Han derrapou ao parar no permacreto gélido e inverteu a direção. Shrike
aqui? Quem foi que deu aqueles tiros, então?
Mas ele estava ocupado demais correndo pelo terraço para pensar muito
nessa questão.
A arma de Shrike cuspiu fogo azul-esverdeado em meio às sombras. O nível
mais alto era reservado a casais de namorados, e por isso não era bem iluminado.
Apenas as pequenas luas gêmeas de Coruscant brilhavam na área.
A respiração de Han era visível na escuridão enquanto ele corria no
permacreto, saltando meios-fios e conduítes expostos. Os pináculos de vários
prédios emergiam do permacreto como grotescos pinheiros de pedra. Han saltou
um deles e derrapou no gelo ao aterrissar. Era frio ali em cima, longe da proteção
do defletor climático. A jaqueta de couro ajudava muito pouco.
– Pare ou eu frito seus miolos! – berrou Shrike, e outro raio atordoante
rasgou a noite.
Han esticou o passo, fugindo como um animal caçado, desesperado para
escapar. Ousou olhar para trás e viu o vulto escuro de Shrike se destacar de leve
no brilho refletido de outro raio atordoante.
Han se virou de volta para frente e correu mais rápido, mais forte – só para
ter que brecar de repente e quase cair num abismo, onde a plataforma de
permacreto terminava sem aviso!
Girando os braços para se equilibrar, Han se jogou para trás. Vislumbrou
rapidamente uma praça lindamente iluminada, mais de dez andares abaixo, onde
ficava o restaurante elegante em que tinha jantado. Através do tremeluzir dos
defletores climáticos, dava para ver as belas estátuas, flores e plantas exóticas...
O jantar parecia ter sido uma vida atrás.
Han virou à direita, escorregando um pouco, e seguiu para o outro lado.
Outro raio atordoante passou perto. A respiração queimava no peito enquanto ele
ofegava no ar gélido.
Saltou outro pináculo, sentiu a ponta raspar o lado de dentro da perna da
calça, mas conseguiu passar e continuou correndo, dando uma guinada em
direção a uma área encoberta pelas sombras, para escapar de outro raio
atordoante.
A sombra subitamente se abriu para o vazio completo e absoluto de um poço
de ventilação que caía para o nada!
Han estava rápido demais para parar. Com um berro de terror, saltou com
toda sua força...
... e conseguiu transpor a bocarra escancarada. Aterrissou pesadamente do
outro lado, caiu e rolou, ofegante, sem ar, tentando se levantar de novo. Deslizou
descontroladamente no permacreto gelado, bem quando um raio atordoante
espirrou bem ao seu lado.
A parte direita inteira do corpo de Han ficou dormente.
O corelliano desabou de volta ao permacreto com um grunhido agonizante.
Deixou-se cair, molengo, e esperou, torcendo para recuperar o uso do lado
direito do corpo a tempo. Dependendo da intensidade que Shrike usava, poderia
levar dois minutos... ou dez.
Respirar era uma tortura, mas Han engoliu cada inspiração, ignorando a dor.
Precisava recuperar o fôlego, para o caso de recuperar o controle do corpo.
Passos se aproximaram pela esquerda. Era Shrike, contornando o poço de
ventilação que Han tinha saltado. Han ficou imóvel. Apenas a pluma branca de
sua respiração revelava que ainda estava vivo.
Os passos pararam ao seu lado. Han viu a forma de Shrike vagamente, por
entre os cílios. Então uma bota o chutou violentamente na perna direita. Han
arfou de dor.
– Seu marginalzinho safado – vociferou Shrike. – Por dois créditos eu te
jogaria nesse abismo, depois do que você fez.
Era bom o fato de Han ter sentido dor no lugar onde fora atingido pela
pesada bota de Shrike. A paralisia do raio atordoante estava passando. Só que
Han não se moveu; ficou caído, mole, enquanto Garris o pegava pelo colarinho
da jaqueta e o arrastava pelo permacreto, batendo e resvalando, em direção ao
turboelevador mais próximo.
O capitão mercador praguejava sem parar e claramente mancava, Han
percebeu com uma pontada de satisfação. O corelliano fez de si mesmo o peso
mais morto que pôde enquanto era arrastado pelo terraço, sentindo o atrito
gelado do permacreto. A mão direita formigava ao arranhar no chão, o que era
bom, também.
Quando Shrike alcançou o turboelevador, soltou o colarinho de Han. Foi
difícil se deixar cair, mas Han conseguiu manter a ilusão de paralisia sem bater a
cabeça com força demais. O semblante de olhos brilhantes de Shrike, com um
hematoma no queixo, apareceu no campo de visão do rapaz.
– Agora a gente vai descer este elevador, e você vai se comportar, seu
vreltzinho. Vamos ficar bem camaradas, eu e você. Vou dizer que você é meu
amigo, que bebeu demais.
Han ouviu o turboelevador chegando. Flexionou os músculos da perna e do
braço direitos. Eles responderam, um tanto lentos. Não restava muito tempo...
– Então me conta, Han, você conseguiu entrar na Academia Imperial? –
indagou Shrike, como se Han pudesse responder. – Foi por isso que você se deu
ao luxo de jantar fora esta noite, é?
O capitão riu.
– Os imps devem estar passando sufoco para aceitar um perdedor como
você. – Garris cuspiu, e a saliva quente atingiu o rosto de Han, logo acima do
olho direito. Han se esforçou para não reagir. O turboelevador estava bem
próximo. Quando as portas se abrissem, Shrike ficaria distraído por alguns
segundos preciosos... então seria hora de agir.
De forma imperceptível, Han flexionou os dedos da mão direta, e eles
responderam ao comando do cérebro. Shrike ainda tagarelava.
– Aqueles imperiais... não sabem atirar, não sabem pilotar e não sabem
brigar. Não sei como o velho Palpatine consegue sair da cama de manhã. Todos
um monte de perdedores...
As portas do turboelevador se abriram. Shrike ergueu o olhar, bem quando
Han saltou do permacreto.
O elemento de surpresa lhe foi útil por um momento. Han conseguiu
derrubar a arma de raios da mão de Shrike, mas logo Garris partiu para cima do
rapaz. Mãos de ferro se fecharam sobre a garganta do homem mais novo. Os
olhos de Han se esbugalharam, e ele passou a perna por trás da perna de Shrike e
o derrubou para trás. Shrike não soltou o pescoço, então Han caiu junto, e os
dois rolaram num monte de socos e chutes.
Han meteu um punho no abdômen de Shrike e o ouviu grunhir de dor. Os
dedos ao redor da garganta se afrouxaram por um segundo – então Garris o
libertou e tentou enfiar o dedão no olho de Han.
No olho direito . O violento polegar arrancador de olhos derrapou no cuspe
do próprio Shrike, e então Han virou a cabeça e o mordeu como um animal. Seus
dentes se fecharam no dedão, morderam forte. Shrike gritou quando Han lhe
rasgou a carne. O corelliano sentiu gosto de sangue.
Han se aproveitou da distração momentânea para acertar uma joelhada na
barriga do inimigo. O ar nos pulmões de Garris foi soprado numa nuvem branca
e fétida para o ar da noite.
Han corcoveou para cima e tirou Shrike de cima de si. O homem não
conseguiu se segurar e se esparramou para trás. Han acorreu para onde tinha
ouvido a arma cair, e seus dedos a encontraram.
Shrike já tinha se levantado e rumava determinado para o rapaz, quando Han
ficou de joelhos, apontando a pistola direto para ele. O corelliano fez um gesto
exagerado para elevar a intensidade da arma ao nível máximo com o dedão.
– Sua vez de congelar, Shrike – disse ele. Falar provocou um acesso de tosse
e dor lancinante na garganta maltratada de Han, mas ele conseguiu manter
Shrike na mira.
O capitão riu e diminuiu o passo, mas continuou andando. Estava a uns seis
metros.
– Ora, Han, meu filho – disse ele, em tom lisonjeiro. – O velho capitão
Shrike estava só brincando, só isso. Eu não ia te entregar para aqueles Hutts, não
ia mesmo. Você sabia que matou um deles, moleque? Hutts não gostam disso,
não gostam não. Nunca vão parar de caçar o velho “Vykk Draygo”, você sabia?
– Pode parar aí mesmo – retrucou Han, que ficou aterrorizado ao notar o
tremor na própria voz. Nunca tinha atirado em ninguém a sangue-frio.
Especialmente em alguém que conhecesse. Será que ele conseguiria?
Shrike sorriu como se pudesse ler a mente de Han.
– Vamos lá, Han. Você sabe que não vai atirar em mim. Não vai conseguir.
Eu sou tipo o seu papai, quase.
Han balançou a cabeça e respondeu com uma obscenidade tão virulenta que
Shrike ergueu as sobrancelhas.
– Caramba, você desenvolveu uma boca suja enquanto estava fora, hein,
moleque?
O capitão ainda avançava. Apenas quatro metros os separavam agora. Han
segurou a pistola com mais força, mas ficou horrorizado ao ver que o cano
vacilava.
– Vamos descer e conversar sobre isso tudo, Han – sugeriu Shrike, com a voz
baixa e calmante. – Não vou te machucar, você tem minha palavra.
– Sua palavra? – Han riu, depois tossiu. – Mas que piada. Sua palavra não
vale um cuspe.
– Claro, minha palavra. Além disso... se você atirar em mim, moleque, nunca
vai saber a verdade sobre os seus pais. Quem eles eram... por que você acabou
largado naqueles becos onde eu te achei.
Han encarou Shrike.
– Você sabe quem eles eram? Você sabe por que eu fui abandonado? – Han
engoliu, e a dor foi imensa. – Me conte e talvez eu te deixe viver.
Shrike estava quase perto o bastante para agarrar a pistola. Só faltava pouco
mais de um metro. Han sabia que deveria atirar nele, sabia que não podia confiar
em Shrike – mas ainda assim hesitou.
– Me conta, Shrike!
– Eu conto tudo se você me entregar a pistola – respondeu Shrike. – Tudo.
Você tem a minha palavra.
Atira nele! Agora! gritava a mente de Han.
Com um clarão de luz vermelha, um disparo de pistola acertou Garris Shrike
bem no peito. O capitão lançou as mãos para o alto, com uma expressão de terror
e dor contorcendo seu rosto. Caiu para trás como uma pedra, morto antes de
atingir o permacreto.
Han fitou a mão, apavorado. O dedo estava no gatilho da pistola, mas ele não
o tinha mexido... tinha?
O tiro, percebeu o rapaz, um segundo depois, tinha vindo de trás dele.
Han girou, ainda de joelhos, e deparou com outro homem. Era humano,
jovem, estatura média. Cabelos escuros, iluminados pelo luar. Segurava uma
pistola, e tudo nele gritava “caçador de recompensas”.
– Tudo bem, moleque, acabou – disse o recém-chegado, tirando um par de
algemas do cinto. – Levante-se. Você vem comigo.
Aqueles dois primeiros tiros! pensou Han. Devem ter sido ele. Me seguiu até
aqui em cima e esperou que Shrike me capturasse, para depois aparecer e me
levar.
Como se pudesse pressentir o que Han estava pensando, o caçador de
recompensas acrescentou:
– Eu sabia que o velho Shrike te encontraria. Os Hutts não tinham uma
imagem sua, então segui Shrike, porque ele praticamente te criou, né, Vykk? Eu
sabia que ele te acharia pra mim.
Não! gritou a mente de Han. Agora não! De novo não!
Ainda estava enrijecido pela paralisia, exausto e ferido pela luta com Shrike.
Todos os seus músculos gritavam com dor e cansaço.
O caçador de recompensas fez um gesto com a pistola.
– Largue a arma, moleque, ou eu atordoo sua cabeça e misturo seus miolos
para valer. Os Hutts querem você vivo , mas não disseram nada sobre seu estado
mental. Largue.
Trêmulo, Han deixou a pistola cair de seus dedos. Com um grunhido de
esforço, tentou se levantar, mas a perna direita cedeu debaixo dele.
– Minha perna... – murmurou. – Perna direita não vai aguentar meu peso...
Shrike me chutou.
– É, eu vi. Não foi muito profissional da parte dele, mas o velho Shrike
sempre foi cabeça quente – comentou o caçador. Deu um passo à frente e
acrescentou: – Agora eu vou te dar uma mão. Não tente...
Com um uivo demente, Han se atirou de cabeça contra a barriga do caçador
de recompensas.
O homem era mais jovem que Shrike, mais forte e mais rápido. Mas Han
lutava como um louco, com a força nascida do desespero completo. Não tinha
nada a perder, e sabia muito bem disso.
O caçador caiu para trás com um grito de surpresa. Han se jogou atrás dele e
o socou. O caçador se recuperou e bateu com o cano da arma na têmpora do
rapaz.
O sangue espirrou e escorreu até o olho esquerdo de Han, que não se deixou
esmorecer. Escalou o corpo do adversário como se fosse um cipó e lhe acertou
uma cabeçada, testa contra nariz. Han ouviu e sentiu a cartilagem se quebrar
contra o osso do crânio. O grito agudo do sujeito ecoou na noite.
O caçador de recompensas praguejou e se agarrou com Han, golpeando-o nas
costas e nos rins com a pistola. Han pegou o braço dele e bateu a mão do sujeito
no permacreto, bam... BAM! A pistola caiu no chão. Han deu outra cabeçada no
rosto do caçador, sem se importar com o ferimento na própria pele.
– Você não vai me levar! – gritou o corelliano, dando cabeçadas repetidas na
cara do homem. Com um grito de terror, o caçador deu um tranco para cima com
toda sua força e jogou Han para longe.
O corelliano caiu, tentou rolar e se chocou contra a estrutura que continha o
turboelevador. O caçador, cujo rosto tinha se tornado uma máscara sangrenta
graças ao nariz quebrado e os lábios cortados, partiu para cima de Han, com ódio
no olhar.
Han esperou até o último segundo possível e se esquivou. No que o homem
passou por ele, Han lhe acertou um tranco com todo o seu peso contra o ombro
dele.
A cabeça do caçador se chocou contra a estrutura de pedra com um crack que
pareceu ecoar pela noite gélida.
O homem sofreu um espasmo, amoleceu, depois deslizou parede abaixo,
para desabar imóvel no permacreto.
Trêmulo, mordendo o lábio e engolindo bile, Han se levantou e foi
cambaleante até o sujeito. Dois dedos contra a garganta asseguraram ao
corelliano que o caçador de recompensas agora estava tão morto quanto Garris
Shrike, que jazia a alguns metros, fitando as luas gêmeas com olhos vazios e sem
vida.
Han escorregou pela parede, por sua vez, e simplesmente ficou ali sentado,
com a cabeça girando, enjoado e exausto. Começou a tremer fortemente, e o
acesso durou quase um minuto.
Tenho que me controlar , pensou, vagarosamente. Tenho que pensar.
Pensar...
Han se levantou e tropegamente voltou até o caçador de recompensa. Ficou
ali fitando o corpo. O homem era mais ou menos do mesmo tamanho que ele, e
também tinha cabelos castanhos. Mais escuros que os de Han, mas talvez
ninguém percebesse...
O hálito de Han soprava em brancas nuvens enquanto ele puxava e tirava as
botas do sujeito. Lenta e metodicamente, despiu o caçador de recompensas.
Cinco minutos depois, lá estava Han, oscilando e se vestindo com as roupas
do caçador de recompensas. Morbidamente, começou a vestir as próprias roupas
no cadáver... o macacão cinzento gasto, a surrada jaqueta de couro de lagarto, as
botas. Guardou a pistola do caçador de recompensas no coldre. Por último,
pegou um punhado de créditos e todas as identidades falsas e as guardou no
bolso de dentro do sujeito, fechando-o em seguida. Por fim, selou a jaqueta,
também.
Cambaleando e mancando, Han foi procurar a pistola de Shrike. Encontrou-
a, finalmente, e voltou ao corpo. Hesitante, colocou na potência máxima e,
virando a cabeça para o lado, disparou direto na cara do cadáver. Quando se
obrigou a olhar, o homem morto não tinha mais uma cara – ou olhos.
Ou retinas.
Han se afastou um pouco e vomitou longa e violentamente. A lembrança do
quanto aquela refeição tinha custado o deixou ainda mais enjoado...
Com um grunhido de esforço, segurou o cadáver por sob os braços e arrastou
o caçador de recompensas sobre o permacreto gelado, tal qual Shrike tinha feito
com ele. Andou de costas devagar e com cuidado, até se encontrar novamente ao
lado daquele poço de ventilação tão profundo que tinha saltado.
Han espiou poço abaixo, depois afastou o olhar, enfrentando a tontura. O
poço era muito, muito fundo.
Rolou o cadáver até a beira e então, com um forte empurrão com as duas
mãos, lançou o caçador de recompensas no buraco, o corpo girando no vazio.
Han não ficou olhando o homem cair. Com passos arrastados e mancos,
voltou ao corpo de Shrike e colocou a pistola do capitão na mão morta. Depois
apertou o botão para chamar o turboelevador.
Quando as portas se abriram, ele quase caiu no interior iluminado.
O turboelevador começou a descer, e Han ficou ali, se balançando e se
abraçando com as duas mãos. Teve que se esforçar para não desmaiar.
A noite tinha sido longa...
Han Solo estava sozinho em meio à massa fervilhante de cadetes reunidos no
campo de pouso num terraço em Coruscant. O colarinho apertado do novo
uniforme irritava-lhe o pescoço, mas o rapaz resistiu ao impulso de dar um
puxão. Isso poderia amassá-lo, e Han queria estar em sua melhor aparência.
À sua volta, cadetes eram abraçados e beijados ao se despedirem das
famílias. Só alguns poucos cadetes estavam sozinhos, como ele. Han
esquadrinhou a multidão e notou um menino de pele negra a alguns metros, que
não parecia ter ninguém. E havia uma jovem mulher com cabelo curto estilo
militar, do outro lado do campo de pouso, que também estava sozinha.
Porém, a maioria dos cadetes tinha pais, mães, irmãos e irmãs e avós, tios e
tias e primos, que tinham vindo se despedir em seu momento de triunfo. Han era
mais velho que os outros cadetes e isso, também, o destacava.
Mas, ei... eu estou aqui. Eu consegui.
O transporte Imperator os aguardava no campo de pouso. Logo, os cadetes
embarcariam em sua jornada a Carida, o mundo de treinamento militar imperial.
Han sorriu um pouco ao estudar as linhas da nave, sua barbatana dorsal
supercrescida. Uma corveta corelliana. Quão adequado...
Contemplou a multidão outra vez, procurando, e percebeu de repente que
queria vislumbrar uma certa cabeça ruiva dentre os visitantes. Burro, Solo. Muito
burro. Você não esperava mesmo que ela aparecesse, esperava? Ela se foi há
muito tempo!
Não, decidiu Han, ele não tinha realmente esperado que Bria aparecesse.
Mas, porém, bem no fundo, ele queria que ela tivesse...
Han suspirou. Dewlanna sempre lhe recitava um velho provérbio wookiee,
que traduzido em língua básica dizia, mais ou menos: “A alegria despida de
tristeza é suspeita”.
Dewlanna.
Se ao menos ela pudesse vê-lo agora. Han imaginava sua silhueta alta e
peluda, o nariz preto curto, os olhinhos reluzentes quase escondidos sob tufos de
pelo wookiee grisalho. Ela estaria muito orgulhosa naquele dia, Han tinha
certeza. Por um momento, a lembrança dela foi tão real que ele quase a
imaginou, quase ouviu seus grunhidos e gemidos ao lhe dizer o quão orgulhosa
ficara dele. Bagunçaria os seus cabelos para que ficassem atraentemente
“relaxados”.
Han sorriu de leve com a cena. Eu consegui , Dewlanna , ele disse em
silêncio à imagem em sua mente. Olhe para mim. Você é minha família, minha
única família, então é justo que você esteja aqui, mesmo que só na minha
memória...
E Bria...
Admita, Solo, você ainda sente. Você ainda espera que ela apareça e tenta
ouvir o som de seus passos, sua voz. Você precisa superar isso tudo, cara...
Han balançou a cabeça, como se pudesse se livrar da imagem de Bria com a
mesma facilidade que conjurara a de Dewlanna. Só que ele levaria Bria consigo
a bordo da Imperator , com tanta certeza quanto se ela lá estivesse, andando ao
seu lado. Não importava o quanto tentasse, não conseguia esquecê-la.
Outro dos velhos provérbios wookiees de Dewlanna surgiu na mente do
rapaz: “Ter uma boa memória é tanto uma bênção como uma maldição”...
E quanta razão você tinha, Dewlanna , pensou Han.
Ele se ajeitou, e uma dor aguda na perna direita o relembrou da briga de duas
noites atrás. Han suspirou. Ele está morto, Dewlanna , pensou. Seu assassino
está morto. Você pode descansar melhor, sabendo disso, eu aposto...
Um oficial imperial caminhava em meio à multidão agora. Ao passar por
Han, o tenente parou e o contemplou com severidade.
– Seu nome, cadete?
Han ficou em posição de sentido.
– Cadete Han Solo, senhor!
– Esqueceu como prestar continência, cadete Solo?
– Não, senhor? – respondeu Han, oferecendo ao homem sua melhor
continência.
O oficial fitou o rosto de Han.
– Cadete Solo, o que aconteceu ao seu rosto?
Por um momento, Han se sentiu tentado a dizer que tinha dado de cara numa
porta, mas decidiu que a verdade provavelmente seria a melhor resposta.
– Eu me meti numa briga, senhor.
– É mesmo? Eu jamais teria percebido – retrucou o tenente, com sarcasmo na
voz. – E qual foi o motivo da briga, cadete Solo?
Han pensou rápido.
– Meu oponente insultou a Marinha Imperial, senhor.
Afinal de contas, era verdade.
O tenente ergueu uma sobrancelha.
– É mesmo, cadete? Isso foi muito... insensato da parte dele. Você lhe
aplicou uma bela surra por esse desrespeito, cadete Solo?
Han se lembrou bem a tempo de que não deveria assentir com a cabeça.
– Sim, senhor. Eu asseguro ao tenente que ele jamais dirá nada de ruim sobre
as forças imperiais de novo, senhor.
– Muito bem, cadete Solo. – O tenente sorriu de leve e seguiu adiante, até a
frente do grupo.
Han soltou um longo suspiro de alívio. Escapei bem dessa!
Uma voz amplificada ecoou pela plataforma de pouso. Um oficial subalterno
estava ao lado do tenente, dando ordens.
– Cadetes imperiais! Formar fileiras!
Houve uma confusão geral por um segundo, depois as linhas de cadetes se
formaram em fileiras.
– Vamos embarcar nas naves de transporte em filas. Nada de conversas, e
mexam-se rápido.
O silêncio reinou. Han estava na fileira quatro. Ficou tão ereto quanto pôde,
sem olhar nem à direita, nem à esquerda, esperando pela ordem de avançar. De
algum lugar, o tema marcial da Marinha Imperial começou a tocar no fundo.
– Fileira um! Marchar!
– Fileira dois! Marchar!
– Fileira três! Marchar!
Han sentiu a empolgação percorrer seu corpo, cantando em seu sangue. É
isso. O que eu esperei minha vida inteira...
– Fileira quatro! Marchar! – berrou o subalterno.
Han deu meia-volta à direita com elegância e seguiu o homem à frente em
direção à Imperator. Enquanto marchava, se permitiu um leve sorriso.
Hoje ela começa, pensou ele. Minha verdadeira vida começa .
Imaginou os rostos de Dewlanna e Bria. Elas sorriam, também.
Os pés alcançaram a rampa. Han respirou fundo, o mesmo tipo de respiração
de um recém-nascido ao abrir o primeiro choro, o primeiro grito de estou aqui!
Me escutem, eu estou vivo!
Han Solo sentia-se novo, como se tivesse acabado de nascer. O passado
sombrio desabou de seus ombros, e apenas o futuro brilhante se estendia adiante.
Marchou para ele com energia, e não olhou para trás.
STAR WARS / A ARMADILHA DO PARAÍSO
TÍTULO ORIGINAL:
Star Wars / The paradise snare
COPIDESQUE:
Matheus Perez
REVISÃO:
Isadora Prospero
Giselle Moura
Balão Editorial
CAPA, PROJETO GRÁFICO E DIAGRAMAÇÃO:
Desenho Editorial
ILUSTRAÇÃO DE CAPA:
David Palumbo
DIREÇÃO EXECUTIVA:
Betty Fromer
DIREÇÃO EDITORIAL:
Adriano Fromer Piazzi
EDITORIAL:
Daniel Lameira
Katharina Cotrim
Mateus Duque Erthal
Bárbara Prince
Júlia Mendonça
Andréa Bergamaschi
COMUNICAÇÃO:
Luciana Fracchetta
Pedro Henrique Barradas
Renata Assis
Stephanie Antunes
Ester Vitkauskas
COMERCIAL:
Orlando Rafael Prado
Fernando Quinteiro
Lidiana Pessoa
Roberta Saraiva
Ligia Carla de Oliveira
Eduardo Cabelo
FINANCEIRO:
Rafael Martins
Roberta Martins
Rogério Zanqueta
Sandro Hannes
LOGÍSTICA:
Johnson Tazoe
Sergio Lima
William dos Santos
COPYRIGHT © & TM 1997 LUCASFILM LTD.
COPYRIGHT © EDITORA ALEPH, 2016
(EDIÇÃO EM LÍNGUA PORTUGUESA PARA O BRASIL)

TODOS OS DIREITOS RESERVADOS.


PROIBIDA A REPRODUÇÃO, NO TODO OU EM PARTE, ATRAVÉS DE QUAISQUER MEIOS.
A ARMADILHA DO PARAÍSO É UM LIVRO DE FICÇÃO. TODOS OS PERSONAGENS,
LUGARES E ACONTECIMENTOS SÃO FICCIONAIS.
EDITORA ALEPH
Rua Henrique Monteiro, 121
05423-020 – São Paulo – SP – Brasil
Tel.: [55 11] 3743-3202
www.editoraaleph.com.br
DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP)
Vagner Rodolfo CRB-8/9410

C932a
Crispin, A.C.
A armadilha do paraíso [recurso eletrônico] / A. C. Crispin ; traduzido por Edmo
Suassuna. - São Paulo : Aleph, 2017.
287 p. : 2,11 MB.

Tradução de: The Paradise Snare


ISBN: 978-85-7657-363-0 (Ebook)

1. Literatura norte-americana. 2. Ficção. I. Suassuna, Edmo. II. Título.


2017-287 CDD: 813.0876
CDU: 821.111(73)-3

Índice para catálogo sistemático:


1. Literatura : Ficção Norte-Americana 813.0876
2. Literatura norte-americana : Ficção 821.111(73)-3
Star Trek: portal do tempo
Crispin, A. C.
9788576573289
256 páginas

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Star Trek: Portal do Tempo, de A. C. Crispin, fez história em 1983 ao se


tornar o primeiro livro da série a entrar para a lista de best-sellers do The
New York Times. No Brasil o livro foi publicado em 1992, também pela
Editora Aleph. Na época, a obra marcou o início de uma coleção de
romances baseados em Star Trek no país.

A nova edição leva ao leitor uma apresentação de cada personagem,


um glossário que explica termos da saga, além de notas que ajudam a
entender e buscar os episódios mencionados no texto. O prefácio,
assinado por Salvador Nogueira – jornalista científico e editor do portal
Trek Brasilis – comenta a importância da série e alguns fatores que
explicam o sucesso dos personagens, que cativam e inspiram os fãs
pelo mundo.

A trama do livro gira em torno da descoberta de um filho que Spock teve,


durante uma viagem ao passado. Ele, o capitão Kirk e o Dr. McCoy
viajam mais uma vez através do portal do tempo a fim de resgatar o
menino, para que ele possa ocupar seu lugar de direito na cultura
vulcana. Resgatado, o garoto tentará aprender tudo sobre a Federação
e sobre as tradições de seu pai, enquanto a tripulação da Enterprise o
conhece e se acostuma à sua presença. Mas seus dias de aprendizado
são interrompidos quando uma invasão romulana pode mudar
perigosamente o curso da história.

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Coração de Aço
Sanderson, Brandon
9788576573500
392 páginas

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Misteriosamente várias pessoas, de diferentes origens, recebem


superpoderes, mas são corrompidas por eles e tornam-se vilões cruéis.
Após tomarem o controle das cidades para si, eles criam uma nova
realidade distópica, submetendo os humanos a uma vida de servidão.
Isso aconteceu há dez anos, quando David viu seu pai ser morto por
Coração de Aço, ditador de Nova Chicago. Agora, ele se dedica a
estudar as fraquezas desse e de outros supervilões, planejando fazer
parte do misterioso grupo dos Executores, pessoas comuns com a
ousada missão de matar os tiranos um a um.

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STAR WARS - Darth Plagueis
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440 páginas

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Um dos romances mais populares do universo expandido, STAR WARS:


Darth Plagueis, de James Luceno, apresenta a história do lorde Sith -
citado com uma lenda no filme STAR WARS: A Vingança dos Sith, e a
sua relação com seu aprendiz, Darth Sidious.

Ambientado 50 anos antes de STAR WARS: Uma Nova Esperança, o


enredo leva ao leitor Darth Plagueis, um ambicioso Sith que, mais do
que qualquer um, ansiava pelo poder absoluto e, para isso, a partir do
uso da ciência e da Força, desenvolveu uma habilidade inimaginável: o
controle da vida e da morte.

Já seu aprendiz, Darth Sidious, conhecido também como Palpatine,


possuía outras ambições. Seu objetivo não era apenas dominar o lado
sombrio, ele desejava iniciar uma escalada até o mais alto posto no
governo intergaláctico.

Nesta trama envolvente, repleta de ação e golpes políticos, os dois Sith


buscam o poder supremo: um por meio da imortalidade; o outro pelo
controle político. Juntos, eles poderiam enfim destruir os Jedi e dominar
a galáxia, mas certas tradições podem impedir esse glorioso caminho...

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Um Cântico para Leibowitz
Jr., Walter M. Miller
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Após ter sido quase aniquilada por um holocausto nuclear, a


humanidade mergulha em desolação e obscurantismo, assombrada pela
herança atômica e pelo vazio de uma civilização perdida. Os anos de
loucura e violência que se seguiram ao Dilúvio de Fogo arrasaram o
conhecimento acumulado por milênios. A ciência, causadora de todos os
males, só encontrará abrigo na Ordem Albertina de São Leibowitz, cujos
monges se dedicam a recolher e preservar os vestígios de uma cultura
agora esquecida. Seiscentos anos depois da catástrofe, na aridez do
deserto de Utah, o inusitado encontro de um jovem noviço com um velho
peregrino guarda uma surpreendente descoberta, um elo frágil com o
século 20. Um foco de luz sobre um mundo de trevas. Cobrindo mil e
oitocentos anos de história futura, "Um cântico para Leibowitz" narra a
perturbadora epopeia de uma ordem religiosa para salvar o saber
humano. Marco da literatura distópica e pós-apocalíptica, vencedor do
prêmio Hugo de 1961, este clássico atemporal é considerado uma das
obras de ficção científica mais importantes de seu tempo.

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As Fontes do Paraíso
Clarke, Arthur C.
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Há dois séculos, Kalidasa desafiou sua família e sua religião para


empreender uma verdadeira maravilha arquitetônica: a construção de
um suntuoso palácio no topo de uma montanha, que o alçaria aos céus
e o igualaria aos deuses. Duzentos anos depois, o ambicioso
engenheiro Vannevar Morgan, que já unira dois continentes com a Ponte
Gibraltar, se propõe a construir uma nova ponte, desta vez ligando a
Terra ao espaço sideral. O que ele não imagina, porém, é que em seu
caminho está um monastério budista, localizado sobre a única montanha
na qual seu projeto poderia ser construído. Em paralelo, a humanidade
detecta um estranho sinal de rádio, de origem não humana. Pela
primeira vez na história, o planeta Terra é contatado por uma raça
alienígena que, ao que tudo indica, está cada vez mais próxima.

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