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19/3/2018 Senso comum e conservadorismo: o PT e a desconstrução da consciência – Blog da Boitempo

Senso comum e conservadorismo: o PT e a


desconstrução da consciência
Publicado em 25/04/2013 // 42 comentários

(https://boitempoeditorial.files.wordpress.com/2013/04/13-04-25_mauro-iasi_senso-comum-e-
conservadorismo.jpg)Por Mauro Iasi (https://blogdaboitempo.com.br/category/colunas/mauro-iasi/).

Um dos mitos da estratégia democrática popular é o acumulo de forças. A ideia geral é que por não
haver condição de rupturas revolucionárias, nem correlação de forças por mudanças estruturais no
sentido do socialismo, a democratização da sociedade e as reformas graduais iriam criando as bases
políticas para o desenvolvimento gradual de uma consciência socialista de massa.

No 5o Encontro Nacional do PT em 1987, o problema é colocado da seguinte maneira: certos


companheiros não distinguem entre as ações ligadas ao acumulo de forças daquelas voltadas
diretamente à conquista do poder, não entendendo, segundo o juízo dos formuladores, a diferença
entre o “momento atual, (…) em que as grandes massas da população ainda não se convenceram de
que é preciso acabar com o domínio político da burguesia, e o momento em que a situação se inverte
e se torna possível colocar na ordem do dia a conquista imediata do poder”.

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19/3/2018 Senso comum e conservadorismo: o PT e a desconstrução da consciência – Blog da Boitempo

O resultado desta incompreensão seria que os “pretensamente revolucionários” não seriam


entendidos pela população e pelos trabalhadores contribuindo, assim, de fato para a “desorganização
das lutas” ficando condenados a “pequenos grupos conscientes e vanguardistas”.

Bem, o centro deste argumento que contrapõe os pretensos revolucionários aos verdadeiros seria que
estes últimos teriam a capacidade de dialogar com a consciência imediata das massas e dos
trabalhadores criando a mediação necessária para elevá-la à compreensão da necessidade da
conquista do poder.

Nada como uma década depois da outra para julgarmos as pretensões anunciadas. A prova da
validade ou não de tal formulação deve ser buscada na seguinte pergunta: após dez anos de governo
petista os trabalhadores estão hoje (considerando como ponto de referencia 1987 e o 5o Encontro do
PT) mais organizados e se desenvolveu uma consciência de classe que coloca de forma mais evidente
a necessidade de conquista do poder “acabando com o domínio político da burguesia”?

Comecemos pela expressão maior dessa estratégia e seu líder incontentável: Luis Inácio Lula da Silva.
Como operário ele expressava no início de sua trajetória política os elementos evidentes do senso
comum, nos termos gramscianos, ou de uma consciência reificada nos termos de Lukács. Em seu
discurso de posse no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema em 1975,
dizia que vivíamos em um momento “negro” para o destino dos indivíduos e da humanidade,
porque tínhamos “de um lado” o homem “esmagado pelo Estado, escravizado pela ideologia
marxista, tolhido nos seus mais comezinhos ideais de liberdade”, e de outro lado, tínhamos o homem
“escravizado pelo poder econômico explorado por outros homens” (Discurso de Lula na posse do
Sindicato dos Metalúrgicos de SBC e Diadema, 1975).

As mudanças na consciência dos trabalhadores não vêm da autodescoberta ou do esclarecimento, são


o resultado de sua inserção na luta de classes. As lutas operárias do final dos anos 1970 e início dos
anos 1980 colocariam novos elementos à consciência deste operário em construção.

Em seu discurso na 1a Convenção Nacional do PT em 1981, Lula já diria: “O PT não poderá, jamais,
representar os interesses do capital”.  Em outra parte do mesmo discurso o líder em formação
afirmaria:

“Nós, do PT, sabemos que o mundo caminha para o socialismo. Os trabalhadores que tomaram a
iniciativa histórica de propor a criação do PT já sabiam disso muito antes de terem sequer a ideia da
necessidade de um partido (…). Os trabalhadores são os maiores explorados da sociedade atual. Por
isso sentimos na própria carne e queremos, com todas as forças, uma sociedade (…) sem
exploradores. Que sociedade é esta senão uma sociedade socialista”
(Discurso de Lula na 1a Convenção Nacional do PT, 1981).

Os trabalhadores, no momento de fusão que os constituía em classe contra o capital, expressavam a


difícil passagem da consciência reificada à consciência em si, apontando já neste momento os germes
de uma consciência para si, ou seja, mais que a consciência de uma classe da ordem do capital, mas
uma classe portadora da possibilidade de uma nova forma societária para além da sociedade
burguesa.

As lutas operárias, assim como o retomar de um conjunto muito amplo de lutas sociais, tornaram
possível um salto organizativo que resultou na formação de um partido e, depois, de uma central
sindical, da mesma forma que se alastra pela sociedade a retomada de associações, movimentos
sociais e lutas das mais diversas.

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Façamos um corte e pulemos para uma entrevista (http://www.youtube.com/watch?


v=qRVlhRbERJM) em que Lula recebe o repórter do programa norte americano 60 minutes por
ocasião do final de seu segundo mandato como presidente.

Nesta entrevista o repórter norte americano pergunta ao ex-presidente:

“Havia empresários, no Brasil e no exterior, muito preocupados com sua posse, que pensavam que
era um socialista e que daria uma virada completamente à esquerda. Agora estas pessoas são seus
maiores apoiadores. Como isso aconteceu?”

E Lula responde:

Veja, eu de vez em quando brinco que um torneiro mecânico com tendências socialistas se tornou
presidente do Brasil para fazer o capitalismo funcionar.  Porque éramos uma sociedade capitalista
sem capital. E se você olhar para os balanços dos bancos neste ano (final do segundo mandato de
Lula) verá que nunca antes os Bancos ganharam tanto dinheiro no Brasil como eles ganharam no meu
governo. E as grandes montadoras nunca venderam tantos carros como no meu governo. Mas os
trabalhadores também fizeram dinheiro.

O repórter um tanto surpreso pergunta: “Como você consegui fazer isso?”. E Lula responde: “Eu
descobri uma coisa fantástica. O sucesso do político é fazer o que é óbvio. É o que todo mundo sabe
que precisa ser feito, mas que alguns insistem em fazer diferente”.

Notem bem, Lula expressava entre 1975 e 1987 o movimento da consciência de classe que passava de
uma determinação da alienação à consciência de classe em si. Da mesma forma fica manifesto na
consciência de sua liderança mais expressiva o caminho de volta à reificação.

O problema é que a consciência expressa na liderança é representativa do resultado político da


estratégia por ele implementada no conjunto da classe e em sua consciência. Como a consciência em
seu movimento é síntese de fatores subjetivos e objetivos, a ação política da classe conformada por
uma estratégia incide diretamente sobre a classe e sua formação enquanto classe.

Em sua análise sobre a social-democracia, Adan Przeworski (Capitalismo e Social-democracia, São Paulo:
Cia das Letras, 1989) afirma que:

“A classe molda o comportamento dos indivíduos tão-somente se os que são operários forem
organizados politicamente como tal. Se os partidos políticos não mobilizam as pessoas como
operários, e sim como “as massas”, o “povo”, “consumidores”, “contribuintes”, ou simplesmente
“cidadãos”, os operários tornam-se menos propensos a identificar-se como membros da classe.”
(Przeworski, 1989:42).

O mito do acumulo de forças só se sustenta renovando-se ao infinito, isto é, nunca estamos prontos,
nunca há a correlação de forças favorável, nunca o nível de consciência das massas e dos
trabalhadores chega à necessidade da conquista do poder. O problema é que agindo desta forma
criam-se as condições para que de fato nunca estejam dadas as condições.

No entanto, a questão é ainda mais séria. Os defensores do acumulo de forças acreditam piamente
que os patamares de consciência não regridem, isto é, a consciência de classe desenvolvida nos anos
oitenta e noventa ficaria ali no ponto onde chegou e iria se tornando massiva em consequência do
andamento positivo das ditas reformas. Nesta leitura, se ainda não temos uma consciência
revolucionária, que já coloca a necessidade da conquista do poder, teríamos a generalização gradual
de uma consciência em si, digamos democrática, disposta a manter o patamar das conquistas e reagir
quando estes estão ameaçados.

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Não é o que verificamos. A consciência expressa na liderança revela que o conjunto da classe retoma
um patamar que Sartre denominava de serialidade e ao qual corresponde a consciência reificada. Esta
é a consciência da imediaticidade, da ultrageneralização, do preconceito, da perda do capacidade de
vislumbrar, ainda que potencialmente,  a totalidade.

Presos a esta forma de consciência, os trabalhadores não agem como uma classe nos limites da ordem
do capital em luta contra suas manifestações mais aparentes e, pior, eles a naturalizam e se
comportam como agentes de sua reprodução e perpetuação desta ordem.

O senso comum reflete este movimento e é no cotidiano que ele se manifesta. Se podíamos falar de
um senso comum progressista, ou tendencialmente de esquerda, no contexto de intensificação da luta
de classes na crise da autocracia burguesa e no processo de democratização, hoje no quadro de uma
democracia de cooptação consolidada temos um senso comum que tende a ser conservador e, por
vezes, reacionário.

Permitam-se um exemplo caseiro, mas creio que significativo. Lincoln Secco escreveu um texto sobre
a situação da Coréia do Norte em nosso blog (Kim Jong-un
(https://blogdaboitempo.com.br/2013/04/17/kim-jong-un/) 17/04/2013). Um comentador simplesmente
respondeu com um direto “vai morar lá”, mas deixemos este de lado. Destaco dois comentários mais
substanciosos e que revelam uma forma de compreensão do mundo atual e seus dilemas:

“Olha, até pouco tempo tinha raiva dos EUA pela sua indústria cultural, sua arrogância, sua
intromissão em assuntos de outras nações, etc. Entretanto, depois de conhecer o país e seu povo,
mudei completamente minha concepção. Os caras são os “caras” porque trabalham duro, estudam
bastante e são muito educados e politizados. O fazem mundo afora é conhecido na natureza como a
lei do mais forte. Queria eu morar num país que dita as regras aos outros e ninguém tira farinha.
Além disso, em pleno século XXI, os norte coreanos são tratados como um rebanho e não como
cidadãos livres. Abaixo o apoio ao totalitarismo, como ocorre por lá!!!”

Um outro, mais duro, afirma:

“kkkkkkkkkkkkkkkkk . País sitiado? por quem? Paranoicos, malucos mesmo, todos eles, o “estadista
mirim”, o “professor” que assina esta bobagem. Veja bem, a lição de história pode até ser boa, talvez o
que o trai sejam as convicções políticas… o tempo passou e eles não perceberam… O Presidente dos
Estados Unidos, já é Obama, viu pessoal…Ameaça do Ocidente? Para quem? Despertem deste “sono”
louco, sejam felizes, ou não, mas, deixem de loucura! Vivemos num mundo diferente do das
“cartilhas” que vocês estudam!!!”.

Não vou entrar no mérito, não guardo nenhuma simpatia pela forma política norte coreana, mas em
seu núcleo central o texto do companheiro Lincoln, apenas afirma que existe um espaço de soberania
dos Estados nacionais e que estes tem direito de se defender, o que o leva a constatação que não são
eles que provocam e atacam, mas ao contrário, estão sendo provocados por “exercícios militares” que
partem dos EUA. Como explicar tal reação?

Não vai aqui nenhuma consideração aos comentadores, eles tem direito de expressar sua opinião,
concordemos ou não. Um blog tem de tudo e tais comentários o deixam ainda mais interessante. O
que nos preocupa é que ele revela, e isto é uma virtude, um elemento do senso comum que indica
uma preocupante guinada conservadora, mesmo em relação a valores mais elementares, e isso em um
leitor de um blog de uma editora com uma linha claramente de esquerda em um pais que está há dez
anos “acumulando forças”.

Podemos ver este fenômeno como um resquício ou uma exceção em um senso comum que tende a ser
mais progressista. Infelizmente eu acredito que não. A forma do senso comum é resultado de toda a
história da formação social, sua resultante cultural, a permanência das relações sociais de produção
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burguesas, mas também do processo político mais recente que como toda práxis pode superar ou
reforçar o existente. No caso reforçou.

Lembrando ainda Przeworski, sabemos que a chamada organização das massas precisa ser
compreendida de forma mais profunda. Não há uma relação direta entre organização e ação, é
possível organizar para apassivar. Diz o autor:

“Os líderes tornam-se representantes. Massas representadas por lideres – eis o modo de organização
da classe trabalhadora no seio das instituições capitalistas. Dessa maneira, a participação desmobiliza
as massas” (Przeworski, 1989: 27).

É triste.

60 Minutes: O Brasil pós-Lula na visão dos americanos!

***

Mauro Iasi é professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ, presidente da ADUFRJ,
pesquisador do NEPEM (Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do
Comitê Central do PCB. É autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o não ser da consciência
(http://boitempo.com/livro_completo.php?isbn=85-87767-10-0) (Boitempo, 2002). Colabora para o
Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.

26 comentários em Senso comum e conservadorismo: o PT e a


desconstrução da consciência

1. Rubinho Divinéia (@RubinhoDivi) // 25/04/2013 às 16:46 // Responder


Belo Texto! Segundo Marx, o Estado está á serviço da Classe Dominante. No Brasil a Classe
Trabalhadora chegou, realmente, ao poder? Se chegou, e já se vão mais de 10 anos, é chegada a
hora de fazer valer tal afirmativa?! Como?!
Tenho observado o materialismo histórico em leituras de obras históricas, das quais A
Internacional Capitalista de René A. Dreifuss, me esclareceu vários questinamentos. (sugiro a
leitura). Tenho a impressão de que demos alguns passos. De fato acumulamos forças para travar a
Luta de Classes, que se dá por etapas, com dificuldade, dadas as condições sociais encontradas
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