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O amor conjugal como determinante da qualidade

de vida familiar
Maria Rita d’Angelo Seixas

Até o princípio do século XX no Brasil, os casamentos eram, na sua maior parte, decididos pelos pais do
casal. O amor vinha depois e, caso não viesse, também não tinha importância, porque não era tão
valorizado. A mulher sendo saudável e produtiva era o que importava para garantir a descendência. Os
filhos advindos dessa união nem sempre eram amados e, muitas vezes, eram mandados para estudar em
outros países, de forma a serem afastados da responsabilidade dos pais e do convívio com eles.

Só após a Revolução Industrial, os casais adquiriam o direito de escolha mútua, sendo que, no Brasil,
isso só veio a se concretizar mais fortemente por volta dos anos 20–30, quando surgiram os primeiros
casamentos por amor ou casamentos por livre escolha.

O termo casal (matrimonial) designa uma relação a dois constituída por uma escolha mútua, que gera um
vínculo com a intenção de durar. Inicia-se quando os dois estabelecem um compromisso de fazer parte
dessa relação em toda a sua amplitude, independentemente de poderem cumpri-lo ou não.

Toda pessoa disposta a constituir um vínculo de casal sabe, consciente ou inconscientemente, a partir
dos seus modelos socioculturais, que isso implica certos elementos e pressupostos, que definem o que é
permitido e o que é proibido, ou seja, “o contrato conjugal”.
Exemplo: O nosso modelo sociocultural prescrito para casais inclui relações sexuais, quer as tenham ou
não, e os desejos de ter filhos e perpetuar-se no tempo, através de vínculos de aliança.
O início do vínculo de casal (matrimonial) ficou registrado na consciência como o momento do
enamoramento.

E aí surge o “Mito da livre escolha”.


Os casais se escolhem acreditando que o fazem sem nenhuma interferência. Esquecem-se de que não
há a confluência de duas famílias anteriores, que lhes transmitiram crenças, valores, mitos, tradições, que
influenciam, necessariamente, em todos os seus atos, inclusive na escolha do cônjuge. Além disso, os
dois trazem consigo modelos parentais de casal para a nova unidade que irão constituir e que, em geral,
são diferentes, o que vai implicar, posteriormente, necessidade de negociação entre eles. Essa
negociação será mais ou menos fácil, dependendo da capacidade de cada um de superar as ligações
familiares anteriores.

É comum se dizer que o casal se escolhe inconscientemente, no mesmo nível de diferenciação da família
de origem. Ou seja, os dois são igualmente dependentes ou independentes de suas famílias anteriores.
Quando o casal é imaturo, ou seja, não recebeu atenção e cuidados suficientes em casa, tem mais
dificuldades em se libertar da família de origem. Os parceiros querem ainda ser filhos, trazem em si um
vazio afetivo e buscam, um no outro, a proteção, o apoio e o afeto que não tiveram e projetam no outro
qualidades que não têm em si mesmos. É a ilusão da complementaridade. Essa projeção recíproca que
se faz em cima de uma base biológica é a paixão. Ela faz com que ambos fiquem “cegos” para perceber
as qualidades e os defeitos do outro e vejam apenas o que querem ver.

Exemplo: A, que é muito tímida, escolhe B, que é extrovertido, acreditando que será, para ela, a ponte
para o social. B escolhe A porque lê a sua timidez como calma e maturidade que poderão conter a sua
agitação. Depois de algum tempo, A não agüenta mais a inquietação de B, que mal pára em casa com
tantos compromissos, e B sente A como um peso, porque ela não quer sair de casa. Houve um erro de
escolha, difícil de ser reparado, justamente pela imaturidade dos dois, e que pode, muito facilmente, levar
o casal a separar-se. Quando não o fazem, é por falta de coragem, mas o casamento fica difícil.
Quando um casal é maduro, ou seja, cada um desenvolveu bem a auto-estima e a individualidade,
também faz escolhas apaixonadas, mas não espera que a satisfação de suas vidas venha só do outro.
Escolhem alguém com quem esperam compartilhar as alegrias e dificuldades da vida.

Quando a paixão acaba, nesses casos, como a expectativa e a dependência em relação ao outro não era
tão grandes, fica mais fácil aceitar as diferenças e seguir em frente através do desenvolvimento de um
afeto maduro entre os dois, que pode se consolidar no que chamamos de amor.

alaremos, então, sobre as fases do relacionamento conjugal, que tomaremos emprestadas de Breunlin et
al. (in: Metaconceitos, 2000), quando fala sobre o desenvolvimento relacional:

1 ATRAÇÃO–PAIXÃO – Fase transitória e projetiva, que acaba com a convivência, em geral, baseada na
atração física, biológica, “química”. Como desencadeante inicial de um relacionamento, a atração é
importante e não deve acabar, embora diminua com o tempo. O que precisa acabar é a PROJEÇÃO.
Algumas pessoas que não se gostam e têm medo de se mostrar para o outro conseguem manter essa
fase por mais tempo, pois receiam ser rejeitadas quando o outro perceber quem elas são. Esse
relacionamento não pode ser verdadeiro, porque o outro passa a gostar de alguém que não existe e, o
que é pior, impede o fluxo natural do afeto maduro, que é o COMPARTILHAR.
2 O AFETO, o AMOR, embora às vezes seja uma função de atração, é também diferente dela, porque
envolve apreciação e valorização dos atributos da outra pessoa. O ideal é que as pessoas que constituem
um par contribuam com atributos complementares que criem e mantenham o afeto. São as trocas que
devem ocorrer nos níveis afetivo, social e sexual.

3 Dessas trocas, decorre o APOIO EMOCIONAL , que é a capacidade de dar e receber, qualidade
fundamental do amor maduro. Proporciona a garantia de contarmos com o outro nos momentos de
necessidade e, portanto, confere segurança. Esse apoio implica fidelidade, ou seja, cumplicidade,
compromisso e comunicação que, circularmente, crescem à medida que o apoio emocional se
desenvolve. Essas qualidades do amor se entrelaçam, e não sabemos qual a que vem primeiro nem a
mais importante.
A cumplicidade é fundamental, porque é a condição de se saber que podemos dizer tudo o que pensamos
e sentimos e que o outro estará lá para nos apoiar e incentivar.

Os melhores relacionamentos são aqueles em que os parceiros se sentem livres para serem o que são,
dizerem o que pensam e fazerem o que quiserem dentro de normas flexíveis por eles estipuladas.
Essa cumplicidade, contudo, existe e se desenvolve porque confiamos um no outro, e confiamos porque o
conhecemos e só o conhecemos porque dialogamos e nos comunicamos abertamente.
Não existe nada mais doloroso do que a INCAPACIDADE DE DIALOGAR com a pessoa a quem se ama.
Precisamos compartilhar nossos medos e sermos tranqüilizados. Quando magoamos o outro, precisamos
pedir perdão e, quando somos magoados, precisamos compartilhar nossa dor e chegar a um
entendimento que nos dê a segurança de voltarmos a confiar. Quando não conseguimos partilhar,
mágoas mesquinhas nos levam a ferir quem nos magoou. Nossa mágoa transforma-se em raiva e,
quando a expressamos, parece exagerada. Podemos ser cruéis um com o outro, e aqueles que não
sabem o que está acontecendo nos transformam em vilões do relacionamento (e estes outros podem ser
nossos filhos), embora a mágoa seja real. Caímos na armadilha que ajudamos a montar.
Também precisamos COMPARTILHAR nosso amor. O amor que não é demonstrado não é amor. É
condição, para o amor a dois crescer e se desenvolver, que se manisfeste ao outro. Compartilhar mágoas
e sentimentos negativos torna possível voltar a amar. Na verdade, amamos verdadeiramente alguém
quando podemos ser nós mesmos perante essa pessoa, sem temor. O amor só é possível quando
podemos dizer aos nossos parceiros como realmente nos sentimos. As pessoas que temem a rejeição
sempre arrumam desculpas para não dizerem o que têm no coração. Atribuem ao cônjuge uma rejeição e
um desamor que trazem da família de origem e punem, com um silêncio sombrio, o parceiro, porque não
puderam punir os pais. Mas, sobretudo, sofrem muito, porque acabam levando o outro a rejeitá-los, que é
o que mais temem. Não conseguem assumir a própria raiva antiga e cavam um fosso entre o parceiro e
ele, porque impossibilitam a segurança, a cumplicidade e a troca.
4 Um casal maduro precisa, ainda, chegar à coordenação de significados. Isso acontece quando ambos
atribuem significados similares aos atos e episódios dos quais participam conjuntamente. Isso cria uma
base consensual no relacionamento, que sustenta a comunicação entre os parceiros. Quando falta essa
base, ela é conhecida pelos significados divergentes, atribuídos ao episódio (Os filhos sofrem muito
quando essas divergências ocorrem entre os pais. Ninguém se entende, e eles ficam perdidos. Acabam
optando não pelo significado mais adequado, mas pelo que mais lhes convém). Em um relacionamento
complexo como o casamento, a ausência de afeto e apoio emocional podem prejudicar a coordenação
dos significados, e, inversamente, a presença de ambos facilita muito esse consenso, porque a discussão
não é permeada de competição.

5 Regras – o estabelecimento de regras é o processo pelo qual o relacionamento irá se definir e operar.
Se um relacionamento tem regras funcionais, será capaz de resolver problemas. As regras podem surgir
naturalmente, ser implícitas ou produto de diálogo e interação. São criadas desde o começo do
relacionamento. Aquele contrato inicial que estabelecemos encobre uma negociação ativa de como o
relacionamento funciona e deve ser discutido sempre que for necessário.
6 Todo relacionamento bem-sucedido e persistente funciona por meio de METARREGRAS — regras para
mudar as regras do relacionamento, quando preciso.

Exemplo: o momento em que o casal passa de um ciclo vital para outro — diferença de ser pai de
crianças e adolescentes — implica revisão de regras. Pais que trabalham fora precisam criar regras
funcionais para que os dois satisfaçam suas exigências.
7 Finalmente, tudo isso deverá levar à INTIMIDADE AMOROSA, definida por Wynne, como:
Compartilhamento de sentimentos pessoais, de fantasias e experiências afetivamente significativas,
associadas a cada um dos estágios¹…, que implica uma aceitação do ouvinte, que poderia trair ou
explorar quem está falando, mas em quem se confia que não vai fazê-lo (Wynne, 1988, pág. 95).

A capacidade para a intimidade implica confiança absoluta, de modo


que cada pessoa passe a acreditar no relacionamento como completamente seguro. A confiança pode ser
corroída com o tempo, quando as partes de um relacionamento longo se desapontam e, às vezes, traem
uma a outra, inviabilizando a intimidade. Por outro lado, a intimidade envolve risco de entrega grande e
pode ser ameaçadora. Alguns casais com relacionamentos estáveis e bem-sucedidos não conseguem
atingir uma intimidade plena, e, por isso, ela deve ser colocada como uma meta sempre a ser
aperfeiçoada, um objetivo a ser atingido.

Os sete processos relacionais aqui apresentados são recursivos, permitem que o relacionamento floresça
e que tenha continuidade durante um longo período e estão presentes desde o começo.

O amor conjugal é o mais vulnerável de todos os sentimentos. Uma insinceridade e uma dúvida podem
ameaçá-lo.

O amor é um estado de percepção e sensibilidade ampliado. Os amantes vêem tanta coisa boa um no
outro que baixam a guarda e se expõem a serem magoados. Quando isso acontece, a primeira reação é
revidar e magoar o parceiro como ele mesmo foi magoado. Compreender e aceitar um ao outro levam
tempo. Mas, se o amor nos torna vulneráveis, também nos torna fortes e aumenta nossa capacidade de
lutar e respeitar o outro, como seu semelhante, numa relação de igualdade e colaboração.

Só dessa maneira, conseguiremos passar para nossos filhos um modelo de amor sem retaliação e sem
dominação, ou seja, um modelo de sacralização do casamento.

Sagrado quer dizer merecedor de respeito, consagrado a. Nesse sentido, damos à relação conjugal uma
dimensão também espiritual, que nos ajuda a transcender suas dificuldades.

Dimensão de respeito ao outro enquanto “ser” consagrado ao amor. Essa sacralização é extensiva
também aos filhos.

Os lares que oferecem a seus filhos um clima de amor, tranqüilidade e respeito (um ambiente sagrado)
oferecem-lhes uma qualidade de vida indispensável para o desenvolvimento de suas personalidades,
através do equilíbrio entre o amor e o limite, condição básica para a educação.

Eles se sentirão amados e aceitos nas suas dimensões: corporais, sexuais, psicológicas, desde o
nascimento. Serão, ao mesmo tempo, respeitados na sua espontaneidade e nas diferenças, mas
receberão orientação, valores e regras que lhes trarão segurança e a sensação de serem livres, porque
conhecerão seus limites. Conseqüentemente, terão, em relação às pessoas que os cercam, atitudes de
amor, respeito e confiança, porque foram os padrões relacionais com os quais conviveram. Saberão
controlar seus sentimentos de ciúme e raiva em relação aos outros, porque terão aprendido com seus
pais como se lida com esses sentimentos quando se ama a quem nos magoou.

Saberão dialogar e expressar a sua mágoa e o seu amor, porque se sentirão aceitos e confiantes para
partilhar seus sentimentos.
Certamente, haverá conflitos nessa família, mas serão resolvidos porque os pais passaram aos filhos a
forma de enfrentá-los adequadamente.

Quando chegarem à adolescência, com todas as dificuldades próprias da fase, terão interlocutores para
seus problemas, porque seus pais, apesar de certamente estarem passando também pela crise de
reavaliação que vivemos na meia-idade, terão resolvido seus problemas de sexualidade, autoridade e
auto-afirmação com a ajuda mútua que se deram e poderão enfrentar em conjunto, sem discordâncias, o
conflito independência x dependência de seu filho e orientá-lo para uma sexualidade consciente.

Por outro lado, quando chegar o momento desses filhos saírem de casa, o farão com segurança, porque,
na medida em que o casal se ama, certamente não fará jogos para prendê-los porque não conseguem
ficar sozinhos. Eles serão apoiados e saberão que, na hora em que precisarem voltar, serão bem
acolhidos, porque nunca serão rejeitados ou vistos como incômodo nesse lar, até porque têm a auto-
estima bem desenvolvida.

Quando chegar a hora da escolha do parceiro, com certeza saberão escolher alguém que ame com
respeito e sem dominação, pois foi esse o modelo que receberam de seus pais. Além disso, como
introjetaram ótimas imagens de homem e mulher, a partir da vivência que tiveram com as figuras
parentais, sua escolha, apesar de inconsciente, tenderá a ser adequada, o que vem a favorecer a
constituição de um outro lar bem formado. É o ciclo da vida que se repete.

Pensamos que, dessa forma, pudemos esclarecer como esses pais, vivendo com amor, poderão garantir
uma excelente qualidade de vida para os filhos, passando-lhes um ótimo padrão de relacionamento.

Queremos terminar com uma frase que resume todo o nosso pensamento e que poderá servir de
referência aos pais:

“O exemplo é mais eficaz do que o preceito.”


Samuel Johnson
¹ Estágios são etapas do ciclo vital familiar.
Maria Rita d’ Angelo Seixas é professora doutora psicóloga, sociodramatista. Doutora em Psicologia
Clínica – PUC/SP. Coordenadora do curso de Terapia Familiar em Hospital / Unifesp – Escola Paulista de
Medicina. Autora do livro Sociodrama Familiar Sistêmico.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BREUNLIN, D. C; SCHWARTZ, R. C; MAC KUNE-KARRER, B. Metaconceitos: transcendendo os
modelos de terapia familiar. Porto Alegre: Artmed, 2000.
PUGET, J.; BERENSTEIN, I. Psicanálise de casal. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993.
SEIXAS, M. R. D. Sociodrama familiar sistêmico. São Paulo: Aleph, 1992.
SKYNNER, A. C. R. Pessoas separadas: um só corpo. Rio de Janeiro: Zarah, 1979.
VISCONTT, D. Eu te amo! E aí?. São Paulo: Summus, 1987
WYNNW, L. C. An Epigenetic Model of Family Process. In: FALICOV, C. J. (Ed.) Family Transitions:
continuity and change over the life cicle. New York: Guilford, 1988.
Fonte: A família educando para a paz – Escola de Pais do Brasil – Editora Marco Markovitch – págs. 61 a
66.