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Programa de Pós­Graduação em História Social

Departamento de História
Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo

DISSERTAÇÃO

CONTRADIÇÕES E CONFLITOS DO 
DESENVOLVIMENTO TECNOLÓGICO: 
Impactos do Software Livre no Brasil – Uma História em Progresso

Dissertação depositada como parte dos requisitos
para obtenção do título de mestre em história.

Rubens Araujo Menezes de Souza Filho
Orientador: Prof. Dr. Gildo Magalhães dos Santos Filho

Agosto de 2006

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1
 Vide: Anexos, documento V

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Sumário
Resumo....................................................................................................................................5
Agradecimentos.......................................................................................................................7
Dedicatória..............................................................................................................................8
Siglas........................................................................................................................................9
 1.Introdução..............................................................................................................................10
1.1. Justificativa Pessoal........................................................................................................10
1.2. A História do minuto anterior.......................................................................................12
1.3. Sistemas Operacionais?..................................................................................................16
1.4. Considerações Metodológicas.......................................................................................18
1.5. Estrutura da Dissertação................................................................................................21
 2.A idéia de progresso e a disputa pelas patentes de softwares.............................................23
 3.Uma História de softwares e sistemas operacionais............................................................37
 3.1.Do hardware ao software................................................................................................37
 3.2.Do nascimento da Micro­soft à conquista do Desktop................................................43
 3.3.O nascimento do Linux.................................................................................................55
 3.4.O GNU/Linux e a antiga novidade do Software Livre................................................56
 3.5.Visões de Mundo...........................................................................................................58
 3.6.O Linux e o movimento do Software Livre pelos olhos da Microsoft, o Windows e a 
Microsoft pelos olhos do movimento do Software Livre....................................................61
 3.7.Considerações Sobre a Natureza da Informática e a Autodeterminação Tecnológica 
................................................................................................................................................86
 4.Uma História do desenvolvimento tecnológico brasileiro...................................................91
 4.1.Brasil: raízes da industrialização e do desenvolvimento tecnológico..........................91
 4.2.Mudanças no quadro político........................................................................................95
 4.3.A Industrialização..........................................................................................................98
 4.4.História do Software no Brasil....................................................................................109
 4.5.O Software Livre e a política brasileira de desenvolvimento tecnológico, uma nova 
tentativa de autodeterminação.............................................................................................117
 5.Conclusões...........................................................................................................................127
 5.1.Balanço Final................................................................................................................133
 6.Glossário..............................................................................................................................135
 7.Bibliografia..........................................................................................................................136
 7.1.Livros............................................................................................................................136
 7.2.Teses e Dissertações.....................................................................................................138
 7.3.Artigos..........................................................................................................................138
 7.4.Artigos da Imprensa Diária..........................................................................................138
 7.5.Bibliografia Técnica de Referência.............................................................................139
 7.6.Documentos na Internet...............................................................................................139
 7.7.Legislação Consultada..................................................................................................139
 7.8.Material de Apoio........................................................................................................139

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 8.Anexos..................................................................................................................................140
 8.1.Documento I.................................................................................................................140
 8.2.Documento II (Resolução n° 5.213 de junho de 2005)...............................................141
 8.3.Documento III (Lei n° 7.646 de 18 de dezembro de 1987)........................................143
 8.4.Documento IV (Decreto de 29 de outubro de 2003)..................................................150
 8.5.Documento V (Creative Commons Licença de Atribuição­Uso Não Comercial 2.5 
Brasil)..................................................................................................................................152
 8.6.Documento VI (The Open Source Definition)...........................................................153

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Resumo

O  software  represente hoje uma das mais interessantes criações humanas, pois é o 
conhecimento em estado puro. Ainda que não se possa tocar o  software ele está presente em 
todos   os   lugares   onde   estão   as   tecnologias   digitais:   telefones   celulares,   MP3  players, 
máquinas fotográficas digitais, computadores e a Internet. Peças da rotina diária de milhões 
de pessoas, todos regidos por softwares.

A evolução e indiscriminada disseminação das tecnologias digitais impõe desafios 
às   pessoas,   empresas   e   governos,   tornando   imperativo   a   compreensão   das   relações 
econômicas, sociais e políticas que determinam a criação e utilização dos softwares, ou em 
outras palavras a criação e utilização do conhecimento humano. 

Este trabalhado está centrado na questão dos sistemas operacionais, abordando as 
histórias do Windows e do Linux, mas trata também da idéia do progresso, da disputa pelo 
conhecimento, da disputa pelas patentes, e do movimento GNU/Linux.

Avalia­se   ainda   a   relação   da   informática   com   a   autodeterminação   tecnológica, 


dando ênfase ao desenvolvimento tecnológico brasileiro.

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Abstract

Today software is one of the most important human creations, once it knowledge in 
pure form. Even if we can not touch the software it is present at all the places where you can 
find   the   digital   technologies:   cell   phones,   MP3   players,   digital   photographic   cameras, 
computers and the Internet. Pieces in the every day life of millions of persons around the 
world, all of them ruled by softwares. 

The   evolution   and   indiscriminate   dissemination   of   digital   technologies   imposes 


challenges   to   people,   enterprises   and   governments,   making   it   urgent   to   understand   the 
economic, social and political relations that define the creation and use of softwares, or 
rephrasing it, the creation and use of human knowledge.

This work is focused in the problem of the operating systems, covering the history 
of Windows and Linux, but it also addresses the very idea of progress, the dispute over 
knowledge, the dispute over patents, and the GNU/Linux community.  

It also evaluates the relations of information technology and the technological self­
determination, with focus on the Brazilian technological development. 

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Agradecimentos

Agradeço à minha esposa Ana, pelo apoio, incentivo, compreensão e todo amor. A  
ela peço desculpas por todas as madrugadas no computador enquanto redigia este  
texto. 
Agradeço à minha Mãe pelo gosto que me incutiu pelas palavras longas e ao meu  
Pai que tantos anos financiou esta excentricidade.
Agradeço a todos os amigos que abandonei para poder me trancar em “meu mundo”  
e perseguir estas idéias, em especial Dedé, Klaus, Léo, Rigotti e Madrugada, de  
quem, com grande aperto no coração, efetivamente me escondi. 
Agradeço muito ao Prof. Dr. Gildo Magalhães, tanto por sua consistente orientação  
como por sua paciência de monge que já atingiu a iluminação. Agradeço as leituras  
cuidadosas das versões deste texto, agradeço a oportunidade, as aulas e a amizade.  
Espero um dia conquistar erudição semelhante. 
Como   é   de   praxe   declaro   que   os   erros   são   meus   e   os   acertos   compartilhados.  
Agradeço a todos que injustamente não estão sendo mencionados. Se quem disse  
que “o trabalho do historiador é solitário” tivesse recebido metade da ajuda que eu  
recebi, teria ficado calado.

São Paulo, 27 de Agosto de 2006 

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Dedicatória

Esta dissertação é dedicada a minha filha, ou ao meu filho, cuja chegada
se avizinha. Afinal, como todos sabemos, a história se dedica ao futuro.

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Siglas

1. BBS ­ BBS ou bulletin board system. Software, que permite conexão via telefone a um 
sistema via computador, permitindo a interação com o sistema e com outros usuários.
2. CNPq ­ Conselho Nacional de Pesquisas
3. CPD ­ Centro de Processamento de Dados
4. FINEP ­ Financiadora de Estudos e Projetos
5. FLOSS ­ Free/Libre Open Source Software
6. FNDCT ­ Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
7. FUD – Fear Uncertanty Doub
8. HTML ­ Hiper Text Markup Language, ou Linguagem de Marcação de Hipertexto
9. HTTP ­ Hiper Text Transfer Protocol, ou Protocolo de Transferência de Arquivos de 
Hipertexto
10. LED ­ sigla em inglês para Light Emitting Diode (Diodo que Emite Luz), um dispositivo 
semicondutor emissor de luz bastante utilizado como indicador de utilização em 
dispositivos eletro­eletrônicos.
11. NCSA ­ National Center for Supercomputing Applications.
12. NDA ­ Nondisclosure Agreements ou NDAs
13. NT, Windows ­ Windows New Technology, ou Windows NT
14. NTFS ­ New Technology File System, algo traduzível como Sistema de Arquivos de Nova 
Tecnologia.
15. OEM ­ Original Equipment Manufacturer 
16. RAM ­ Random Access Memory, ou Memória de Acesso Randômico
17. SEI ­ Secretaria Especial de Informática
18. SO ­ Sistema Operacional
19. TI ­ Tecnologia Informação, ou em inglês IT (information technology), sigla utilizada para 
referir profissionais e recursos deste ramos da engenharia.
20. TCO ­ Total Cost of Ownership, ou em português Custo Total de Propriedade.

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 1. Introdução

"(...) fiel no sentido, não tanto na forma, o que se compreende e desculpa, já que a memória, que é 
susceptível e não gosta de ser apanhada em falta, tende a preencher os esquecimentos com criações de 
realidade próprias, obviamente espúrias, mas mais ou menos contíguas aos factos de cujo acontecer só lhe 
havia ficado uma lembrança vaga, como o que resta da passagem de uma sombra."
José Saramago ­ Todos os Nomes

1.1. Justificativa Pessoal

2
Este trabalho começou a ser imaginado em fins de 1996 e foi em grande medida 
motivado e inspirado pelo editor de textos MS­Word. 

No   ano   de   1997,   como     aluno   de   graduação   do   Departamento   de   História   da 


Faculdade   de   Filosofia   Letras   e   Ciências   Humanas   da   USP,   obtive   uma   bolsa   de   apoio 
técnico, junto à CAPES, para auxiliar a Profª. Drª. Zilda Márcia Grícoli Iokoi e o seu grupo 
de alunos, em alguns projetos acadêmicos que então desenvolviam.

Meu   papel   era   auxiliar   o   grupo   em   suas   necessidades   com   computadores   e 


softwares. Nesta  ocasião   ­    como   em   certa medida,  ainda  hoje ­  o   software  central  nos 
trabalhos acadêmicos das ciências humanas era o processador de texto, porém o meu papel 
era auxiliar na apresentação das possibilidades, criação e manutenção de bancos de dados 
(que começavam a ser popularizados na baixa plataforma e cujo potencial considero, ainda 
hoje, sub­aproveexperiências de implantaçãoitado).

2
  N. do A. ­ As citações de obras ou documentos encontrados originalmente em inglês foram traduzidas 
sempre que isto pareceu pertinente para a compreensão do texto, sendo as traduções de responsabilidade do 
autor. No capítulo sobre o desenvolvimento tecnológico brasileiro, nos documentos da Microsoft se optou por 
não fazer adaptações ao texto, mantendo redundâncias e vícios de linguagem presentes nos originais já que 
estes são quase sempre transcrições de apresentações e palestras. 
Nas   traduções   o   termo  Open   Source  deliberadamente  não  foi   transformado  em  Software   Livre  como  no 
restante do texto, visando justamente ajudar a diferenciar quando  a referência é feita ao Software Grátis (Free 
Software)   e   quando   é   feita   ao  Software  Aberto   (Open   Source),   pois   o   inglês  free  não   se   traduz 
automaticamente como livre, podendo ter (e aqui em geral terá) a acepção de grátis.

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Nesta   época   comecei   a   notar   que   para   um   número   sensível   de   usuários,   os 
processadores de texto, que deveriam ser relativamente simples, por alguma razão não o 
eram. O software em questão era o MS­Word ­ hegemônico já naquela época ­ que teimava 
em   tomar   "decisões"   sem   consultar   os   usuários,   "corrigindo"   palavras,   alterando 
formatações e em certa medida submetendo usuários menos experientes à sua "vontade". 
Mesmo   eu,   usuário   pretensamente   avançado,   tinha   um   inevitável   desconforto   em   ser 
obrigado a alterar configurações e o setup de "fábrica" para utilizar o software. 

Parecia, para mim, que aquela tecnologia subvertia o pensamento, acrescentando aos 
textos   do   usuário,   de   maneira   sub­reptícia,   suas   próprias   idéias.   Algo   sem   dúvida 
descabido, pois a máquina computador, apesar de toda sua tecnologia não seria capaz de 
pensar mais do que a máquina de escrever ou o aspirador de pó.  Ainda assim a máquina de 
escrever e o aspirador não interferiam no que era datilografado ou aspirado.

A  este pequeno fator incomodativo aliou­se uma palestra do intelectual e ativista 
político norte­americano, Noam Chomsky. Em visita ao Brasil, em novembro de 1996, a 
convite  da  ABRALIN   (Associação  Brasileira de  Lingüística),  o  Prof.  Chomsky   proferiu 
uma palestra no Departamento de Letras Modernas, onde entre outras coisas destacava a 
língua como uma manifestação ideológica dos grupos que a utilizavam e/ou apropriavam e 
modificavam3.

Estes fatores deram início à fermentação do pensamento de que poderia haver mais 
nos softwares do que simplesmente uma ferramenta estritamente técnica. Parecia, ao menos 
para mim, que ali estava contido um pensamento concreto, uma lógica particular, uma visão 
de mundo concretizada nas soluções apresentadas na tela ou, se preferirmos outro termo, ali 
estava   embutida   uma   ideologia.   Logo,   talvez   aquela   sensação   não   fosse   tão   descabida 
afinal.

Em   vista   do   fato   que   estes  softwares  eram   hegemônicos   e   onipresentes;   da 


generalizada expectativa de que cedo ou tarde eles dominariam todos os ramos da atividade 
humana;   da   percepção   de   que   eram   produzidos   por   um   grupo   relativamente   pequeno   e 

3
  Knowledge of History and Theory Construction in Modern Linguistics. Palestra proferida em São Paulo, 
Brasil (Novembro de 1996). Documentação de Estudos em Linguística Teórica e Aplicada (D.E.L.T.A.) 13, 
(1997): 103­122. Em português no mesmo exemplar, p. 129­52.

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homogêneo de pessoas, todas partilhando os mesmos valores culturais de um país, e que 
este produto era massificado para (e consumido por) todo o planeta, surgiu em mim uma 
crescente   preocupação   com   a   aceitação   dos  softwares  como   simples   ferramentas 
desprovidas   de   intenções.   Produtos   intangíveis   que   eram   passíveis   de   críticas   apenas 
quando falhavam, e não, como  eu  principiava a enxergá­los: uma  produção  cultural, tão 
passível de análise crítica e, quiçá, regulação. 

Neste   terreno   brotaram   as   primeiras   inquietações   motivadoras   deste   trabalho. 


Assim,   apesar   dos   desvios   e   re­elaborações   que   sofreu   ao   longo   de   sua   execução, 
movimento conhecido e bastante natural nos trabalhos de pesquisa, pode­se seguramente 
dizer   que este texto foi, antes de mais nada, motivado pelo MS­Word e seu pretensioso 
comportamento de intervir nos textos digitados pelo usuário.

1.2. A História do minuto anterior

A   história   é   o   dialogo   entre   os   vivos   e   os   mortos,   pois   a   própria   sociedade   é 


herdada, são herdados os costumes, as crenças e os valores. As relações sociais, econômicas 
e de trabalho de vivos (e mortos), as relações de agora e as relações possíveis então, foram 
herdadas.

No diálogo de vivos e mortos, também a tecnologia é herdada e, como toda herança, 
traz sua carga histórica e ideológica, sendo esta carga o objeto de análise deste trabalho. 

Pretendendo abordar a história de uma tecnologia recente, iniciada há pouco tempo, 
quando   a   posicionamos   na   longa   cronologia   do   tempo   histórico,   somos   forçados   a 
confrontar algumas  questões de ordem  prática e metodológica que emergem  de maneira 
inevitável.

Ao tratar da história da micro­informática, em nosso caso específico do ramo de 
softwares, a primeira e mais irrefletida das questões é se há afinal uma história para ser 
contada   em   algo   tão   recente.   Digo   irrefletida   pois   ao   iniciar   este   texto,   com   a   lúgubre 
ilustração da história como o diálogo entre os vivos e os mortos, pretendo deixar clara a 
natureza do  hoje como  derivada do  ontem; de forma que fique patente que, mesmo  um 

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fenômeno   recente   tem   suas   raízes   plantadas   nas   gerações   precedentes,   por   vezes   em 
profundidades insuspeitas.  

Marc   Bloch   já   observava   em   sua   "Introdução   à   História"   como   era   pedregoso   o 


caminho do historiador que se aproxima do tempo presente, apontando que o juízo que se 
faria deste historiador era que ele se afastava da história para lidar com "política", talvez em 
uma   avaliação   mais   gentil   com   "sociologia",   ou   em   outra   menos   gentil   que   seria 
"jornalismo". Mas Bloch observa que concordar com esse julgamento "é esquecer também 
que,  quando as ressonâncias  sentimentais entram em jogo, o limite entre o actual e  o  
inactual não se regula necessáriamente pela medida matemática de um intervalo de tempo" 
e que haveria ainda aqueles que, mesmo aceitando o presente humano como suscetível de 
conhecimento científico, este seria reservado a outras disciplinas.  "Consideram a época em  
que vivem separada das antecedentes por contrastes grandes demais para não  ter em si  
mesma a sua própria explicação” ,   deixando   o   estudo   das   sociedades   dividido   em   duas 
partes:  "De uma banda, um punhado de antiquários ocupados, por deleite macabro, em  
desenfaixar os deuses mortos; de outra, sociólogos, economistas, publicistas: os únicos  
exploradores   das   coisas   vivas...",  algo   inaceitável,   uma   vez   que   é   justamente   "nesta 
faculdade de apreensão do que é vivo é que reside, efectivamente, a qualidade fundamental 
do historiador"4.

Imbuído deste espírito, acredito que um trabalho desta natureza traz em si elementos 
de   grande   motivação   para   o   pesquisador   e   interesse   para   a   sociedade.   Por   ser   a   micro­
informática aspecto dominante da economia e das sociedades modernas, ela está submetida 
a forte apropriação ideológica, já que é uma ponta de lança do capitalismo moderno. 5 E esta 
é uma apropriação, sem dúvida, histórica. 

Um   dos   traços   mais   proeminentes   desta   apropriação,   parece   ser   justamente   a 


prontidão   e   veemência   com   que   é   negado   o   peso   de   preconceitos   e   idéias,   que   tenham 
motivações   diversas   dos   critérios   técnicos   em   sua   evolução.   Estivessem   os 

4
 BLOCH, Marc. Introdução à H istória. Edições Europa­América.
(vide páginas 38 e 43, nas citações foi preservada a grafia do texto consultado).
5
 Afirmação que pode ser verificada por um lado nos escritos de José Luiz Fiori e Giovanni Arrighi sobre a 
globalização financeira do capital e por outro nos escritos de Manuel Castells sobre a nova configuração da 
sociedade em rede.

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desenvolvimentos do hardware e software blindados do peso das ideologias, constituiriam, 
apenas por isso, irresistível tema para historiadores e outros cientistas sociais, pois tratar­se­
ia de caso único na história da humanidade. 

Uma das premissas desta reflexão é que esta negação faz parte de um raciocínio 
economicista   dominante   na   atualidade,   raciocínio   que   afasta   as   formas   sociais   de 
compreensão  do  mundo  em  favor de  uma  onipresente  lógica  empresarial, poderosa para 
cooptar   até   mesmo   os   Estados   Nacionais.   O   principal   resultado   dessa   situação   é   que 
ressaltada   a   racionalidade   econômica,   esconde­se   a   racionalidade   humana;   desta   forma 
embora   esta   pesquisa   verse   sobre   a   historia   da   tecnologia   motriz   da   chamada   “nova 
economia”, o que nos interessa são as formas sociais que a engendraram e as formas sociais 
por ela engendradas, mais do que qualquer outra coisa.

Assim, este texto não pretende recontar a história da informática, nem tão pouco dos 
computadores, embora por vezes façamos menção a tais temas, com o objetivo de embasar 
determinadas teses, perpetrar analogias ou simplesmente por ser impossível atingir nosso 
objetivo sem  passar por estes temas em  algum momento. Sem  menosprezar a relevância 
destas   áreas   de   investigação,   acreditamos   que   neste   sentido   nossa   contribuição   seria   de 
pequena relevância em  relação  à  bibliografia  já  disponível, bibliografia vasta o  bastante 
para   nos   dar   uma   pista   do   grande   interesse   que   o   tema   desperta   na   sociedade 
contemporânea6.

Como já foi dito, este trabalho aborda uma subdivisão da história da informática, a 
história dos  softwares  que operam  os  microcomputadores de hoje. Portanto  temas  como 
hardware e Internet estão fora do escopo inicial desta investigação, sendo o nosso objetivo 
específico recontar parte da história dos softwares ­ com um especial interesse nos sistemas 
operacionais Windows e Linux ­ porém, menos com o objetivo de fazer o simples registro 
cronológico de sua trajetória, do que analisar e expor as forças sociais e econômicas que 
operaram e operam esta trajetória.
6
Cf.   CERUZZI,   Paul   E.  A   History   of   Modern   Computing.  Massachusetts   :   MIT   Press,   1998.   ou 
MAGALHÃES, Gildo. Um bit auriverde: Caminhos da tecnologia e do projeto desenvolvimentista   na 
formulação  duma política nacional de informática para o Brasil (1971­1992). 1994. Tese (Doutorado 
História) ­ FFLCH, USP para uma história da computação geral e para o caso específico brasileiro; ou os 
trabalhos de Pierre Levy e Manuel de Castells para a elaboração de aspectos mais gerais do impacto desta 
tecnologia na sociedade.

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O principal pressuposto deste trabalho é a idéia que  a ideologia opera ativamente 

no   desenvolvimento   da   tecnologia7  (e   dos  softwares  por   conseqüência),   não   sendo   a 


evolução   da   tecnologia   resultado   exclusivo   da   imparcial   aplicação   de   novas   técnicas. 
Acreditamos que a seleção das técnicas e os caminhos escolhidos por técnicos e cientistas 
no   desenvolvimento   da   tecnologia   são   resultado   de   fatores   que   trazem   mais   do   que 
pressupostos técnicos e neutros, como em geral se considera. 

Este é um trabalho de investigação no campo da história da ciência, que ao “contar a 
história dos  softwares”, busca apontar o peso da ideologia nesta história. Porém, ao tratar 
“da   ideologia”,   estamos   obrigados   a   definir   com   qual   conceito   de   ideologia   estaremos 
trabalhando, pois o termo em si é suficientemente controverso para dar origem a inúmeros 
trabalhos   acadêmicos.   Aqui   utilizaremos   o   termo   ideologia   sem   aplicar   a   ele 
necessariamente um juízo de valor, sem desconsiderar que a ideologia pode, como tudo, ser 
boa ou má. No nosso caso trabalharemos o termo ideologia simplesmente como “ idéias que 

servem a determinados fins”8, não raro, mascarando os seus reais objetivos.

Por   fim   cabe   apontar   que   se   esta   pesquisa   não   busca   o   “deleite   macabro,   em 
desenfaixar   os   deuses   mortos”,   há   o   tom   herético   de   quem   conta   uma   história   in   the 
making,   que   ainda   não   permite   o   distanciamento   temporal   tão   caro   a   tantos   colegas 
historiadores. Para os críticos da proximidade só resta oferecer o conforto de que para tratar 
da história do que está acontecendo foi necessário recuar no mínimo um quarto de século, e 
em alguns momentos mais do que isso, já que os vivos dialogam constantemente com os 
mortos. Os riscos e desvantagens desse situação eram conhecidos e foram assumidos, com 
seu peso inerente de imprecisão, que não deve porém impedir a crítica dessa história desde 
já.

7
  Esta   idéia   é   apenas   uma   extensão   natural   da   noção   já   bastante   sedimentada   da   força   exercida   pela(s) 
ideologia(s) no desenvolvimento científico. Sobre este tema existe extensa bibliografia disponível, da qual 
destacamos alguns títulos a seguir: MAGALHÃES, Gildo. Introdução  à metodologia científica: caminhos 
da ciência e tecnologia. São Paulo : Ática, 2005; CANGUILHEM, Georges. Ideologia e racionalidade nas 
ciências da vida. Lisboa : Edições 70, 1997; JAPIASSU, Hilton. As Paixões da ciência. São Paulo : Letras & 
Letras,  1991;  CHALMERS,  Alan.  A  Fabricação  da  Ciência.  SP:   UNESP,  1994;  LACEY,  H.  Valores  e 
Atividade Científica. São Paulo : Discurso Editorial, 1998; LACEY, H. Is Science Value Free? Values and 
Scientific Understanding. London and New York: Routledge, 1999. 
8
 MAGALHÃES, Gildo. Introdução à metodologia científica: caminhos da ciência e tecnologia. São Paulo : 
Ática, 2005.

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1.3. Sistemas Operacionais?

É  muito comum  que  a história da micro­informática seja contada com  ênfase no 


aspecto físico, e mais evidente, das máquinas: o computador propriamente dito, tratando os 
programas que neles são utilizados como algo secundário, por vezes desimportante. Nossa 
percepção   é   contrária   a   esta   abordagem,   acreditamos   que   os   programas   ( software)   têm 
relevância, se não superior, ao menos igual às máquinas (hardware).

Para ilustrar nossa visão, e familiarizar o leitor menos embrenhado nas searas da 
técnica, com o objeto deste trabalho, utilizemos a seguinte imagem cartesiana: em sendo o 
computador uma entidade “viva” o  hardware  seria seu corpo, e o  software  seu  espírito. 
Nesta dissertação, trataremos pois de questões “espirituais”.

A motivação desta abordagem é, em primeiro lugar, dada pela seguinte constatação: 
ainda   que   sejam   aplicados   os   mais   inovadores  designs,   quer   estejamos   tratando   de 
poderosos mainframe no CPD9 de grandes empresas ou órgãos públicos, de um tradicional 
clone dos PC em um escritório, de um roteador gerenciando tráfegos de rede, ou de um 
compacto  palmtop anotando pedidos em um restaurante, a tecnologia física de todas estas 
máquinas   é,   sob   diversos   aspectos,   muito   parecida.   Na   verdade,   trata­se   de   tecnologia 
recorrente e comum. 

O  hardware,   pelo   menos   o  hardware  comercialmente   disponível,   fora   dos 


laboratórios de empresas e universidades, oferece uma gama limitada de abordagens, sem 
menosprezar   características   técnicas/tecnológicas   de   cada   plataforma.   Mesmo   que 
considerados diferentes modelos, fabricantes e tecnologias, todos obedecem a um mesmo 
conjunto de soluções e princípios solidamente estabelecidos pela indústria e pela história. 
Por   isso,   para   um   técnico   não   há,   ou   raramente   parece   haver,   muita   diferença   entre 
computadores   que   são   “diferentes”   para   o   público   em   geral.   Descontando   pequenas 
variações características de cada tipo de equipamento, podemos, por exemplo, fazer uma 
generalização   sobre   os   processadores.   Basicamente   todos   as   máquinas   que   podem   ser 
classificadas   como   computadores   seguem   uma   arquitetura   que   inclui   um   ou   mais 
9
  Sigla utilizada para Centro de Processamento de Dados, vide no início deste texto a lista com siglas e 
abreviaturas aqui utilizadas.

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microprocessadores10, memória de acesso randômico (RAM 11) e em geral alguma forma de 
armazenamento  de dados  como  hard­drives12  ou  memórias  flash13, o  que  contudo  não  é 
obrigatório.   Estes   princípios   são   constantes,   constituindo   um   padrão   que   independe 
totalmente da plataforma e do sistema operacional.

Mas não acreditamos que o mesmo possa ser dito sobre os softwares14, que mesmo 
dentro   dos   limites   impostos   pelo  hardware  podem   ser   tão   criativos   como   a   imaginação 
humana. Dito isto, a próxima justificativa que se faz necessária é a razão de escolhermos 
sistemas operacionais (SO) e não, por exemplo, planilhas ou processadores de texto para 
nossa análise.

10
 Na definição da Wikipédia: “Um microprocessador (abreviado como µP ou uP) é um componente eletrônico 
de computador, feito de transistores miniaturizados em um único circuito integrado (IC) de material semi­
condutor  (também chamado microchip ou apenas chip). A unidade central de processamento (CPU) é o mais 
comum microprocessador, mas muitos outros componentes em um computador contêm microprocessadores, 
como   as   unidades   de   processamento   gráfico   (GPU)   em   uma   placa   de   vídeo.   (....)”   ­ 
(http://en.wikipedia.org/wiki/Microprocessor ; acesado em 12/10/05 )
11
 Memória de acesso randômico, comumente conhecida pelo acrônimo em inglês RAM, tipo de armazenador 
para   computadores   (na   prática   um  chip  de   computador)   do   qual   os   conteúdos   podem   ser   acessados   em 
qualquer   ordem   (random).   Em   contraste   com   dispositivos   de   armazenamento   seqüencial   como   fitas 
magnéticas e discos, no qual o movimento mecânico da mídia de armazenamento força o acesso em uma 
ordem fixa. (...) Computadores utilizam a RAM para guardar o código dos programas durante a execução. 
Uma característica que define a RAM é que o acesso a diferentes blocos da memória é feito quase na mesma 
velocidade,   em   contraste   com   outras   tecnologias(...).   (http://en.wikipedia.org/wiki/RAM   ;   acessado   em 
12/10/05)
12
 Um disco rígido (hard disk) utiliza pratos rígidos que se movimentam em alta rotação. Cada prato tem uma 
superfície   magnética   plana   na   qual   os   dados   são   armazenados.   A   informação   é   escrita   no   disco   pela 
transmissão de um fluxo eletromagnético disparado por uma antena ou cabeça de leitura­gravação contra o 
material magnético da superfície, alterando assim sua polaridade em blocos específicos. A informação pode 
ser lida de volta por esta mesma cabeça de leitura­gravação devido a alteração elétrica causada pelo campo 
magnético na cabeça de leitura­gravação quando ela passa por este disco em rotação. (explicação adaptada da 
definição   da   Wikipédia,   conforme   acessado   em   12/10/05   no   endereço: 
http://en.wikipedia.org/wiki/Hard_disk)
13
 Memória Flash é uma forma de EEPROM (Electrically­Erasable Programmable Read­Only Memory) que 
permite que múltiplos setores sejam lidos e apagados em uma única operação de programação. (...) uma forma 
de chip de memória re­gravável que, ao contrário do chip de memória de acesso randômico (RAM), mantém 
seu conteúdo sem a necessidade de alimentação constante de energia. É um exemplo de memória não volátil 
(Non­Volatile Read Write Memory ou NVRWM).
14
  Pode­se   contra­argumentar   que   também   os  softwares  obedecem   a   um   mesmo   conjunto   de   soluções   e 
princípios   solidamente   estabelecidos   pela   indústria,   mas   mesmo   assim   acreditamos   que   eles   apresentam 
variabilidade mais do que suficiente para esta análise, bem como outras características únicas que ainda serão 
exploradas, como sua forma de produção que serão vistas em capítulos subsequentes, para justificar nossa 
posição.

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A opção pelos SO deve­se em primeiro lugar à sua centralidade e sua função vital 
dentro das máquinas15. Todos os demais softwares são dependentes do SO para conseguirem 
“rodar” como se diz no jargão, ou de forma mais objetiva, os  softwares  precisam do SO 
para   desempenhar   os   papéis   para   os   quais   foram   projetados16,   como   também   precisa   o 
próprio hardware, que sem o SO consegue fazer pouco mais do que piscar alguns  LEDs. O 
SO é pré­condição para que tanto o hardware ou outros softwares efetivamente funcionem, 
mal comparando poder­se­ia pensar no SO como um administrador, que mantém a máquina 
operacional e cuida das funções básicas do computador, mantendo­o ligado e funcionando 
para   que   os  softwares  possam   executar   as   funções   específicas   para   as   quais   foram 
projetados. 

Assim, nosso estudo será dirigido ao universo dos sistemas operacionais (SO) tanto 
por sua importância relativa em comparação com outros softwares, como pela possibilidade 
de análise de dois SO concorrentes e, sob diversos aspectos, antagônicos, o Windows da 
Microsoft   e   o   GNU/Linux   do   movimento  Open Source.   A   escolha   destes   dois   sistemas 
deve­se não tanto a suas características técnicas distintivas, que sem dúvida existem, mas 
principalmente à divergência dos princípios que norteiam suas criações e desenvolvimentos. 
Enquanto   o   Windows   é   um   sistema   comercial,   propriedade   de   uma   empresa   norte­
americana e desta forma protegido por patentes e segredos industriais, o GNU/Linux existe 
como   uma   espécie   de   criação   coletiva   transnacional.   Sobre   estas   diferenças   e   seus 
significados trataremos adiante.

1.4. Considerações Metodológicas

O recorte temporal desta dissertação foi definido como compreendendo os anos de 
1991 e 2005, anos que respondem  respectivamente pela gênese do sistema Linux e pelo 

15
 Todas as máquinas citadas no exemplo de tecnologias recorrentes (início desta seção), apesar de fisicamente 
parecidas trabalham com SO próprios e diversificados, lá temos: Mac OS X (uma variação do OpenBSD)  no 
caso da Apple, HP­UX (uma variação do Unix) dentro do mainframe HP, uma versão do Windows, Linux ou 
BSD no clone IBM­PC, um SO proprietário e específico da CISCO para o seu roteador, e no Palmtop um 
PalmOS.
16
 Claro, sempre existem exceções, como por exemplo os softwares de particionamento de disco, ou mesmo os 
códigos gravados dentro dos  chips  dos computadores, mas são aplicações específicas o bastante para que 
possam ser ignoradas sem prejuízo ou invalidação das teses aqui apresentadas.

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surgimento  do  Brasil   como  uma   das   mais  relevantes   forças   mundiais   do   Software Livre 
(FLOSS)17. 

Esta delimitação levou­nos a expor com clareza quatro aspectos que precisariam ser 
abordados   nesta   dissertação:   1)   a   questão   da   propriedade   das   idéias,   2)   a   história   dos 
softwares  e   dos   sistemas   operacionais,   3)   a   história   do   desenvolvimento   tecnológico 
brasileiro   e  4)   os   impactos   do   advento   do   Software Livre  no   Brasil;   respectivamente   as 
quatro partes em que está dividida esta dissertação.

Reconstruir   o   desenvolvimento   tecnológico   brasileiro   exigiu   o   levantamento   e 


posterior  análise  da  bibliografia  (fontes  secundárias)  disponível   sobre  o  tema;   o   mesmo 
deu­se   com   a   maior   parte   do   trabalho   necessário   para   debater   a   evolução   histórica   da 
propriedade das idéias e o seu reflexo no campo dos softwares. Já no processo de pesquisa 
da história dos softwares (tanto no Brasil como no exterior) tivemos fontes primárias pouco 
ortodoxas,   incluindo­se   aí   documentos   oficiais   de   empresas   divulgados   na   internet, 
mensagens de e­mail e mesmo  bulletin board threads18  cristalizadas em servidores; além 
das tradicionais fontes secundárias.

Algumas   hipóteses   apresentam­se   ante   os   questionamentos   propostos   nesta 


dissertação, a primeira e mais instigante é o que poderia ser chamado de  teoria do refluxo, 
utilizando   aqui   a   acepção   geofísica   da   palavra   refluxo:  um  movimento  que se opõe  a 

outro. A hipótese é que o próprio afã do capital em mercantilizar o conhecimento cria um 
movimento   contrário,   animado   justamente   com   a   idéia   de   libertar   o   conhecimento   das 
amarras do capital. 

Esta idéia só pôde ganhar o relevo que têm hoje graças ao advento da Internet, a 
rede   de   computadores   reelaborou   a   geografia   espacial   e   política   do   conhecimento. 
Reelaborou a geografia espacial na medida que distendeu o seu acesso para além dos Campi 
das universidades e dos muros dos laboratórios das corporações, e reelaborou a geografia 

17
  FLOSS   ou   Free/Libre   Open  Source  Software  é  a   sigla   pela   qual   o  Software  Livre   é   atualmente   mais 
conhecido. A idéia por trás do  Software  Livre (FLOSS) não é a da gratuidade do produto, mas sim (ou 
também) a liberdade para usar, distribuir, copiar e alterar o programa sem restrições legais. Em nome da 
simplicidade, será utilizado o termo Software Livre ao longo da dissertação. As principais características do 
Open Source (Software Livre) se encontram ao final do capítulo 2, à frente.
18
 Seqüência de mensagens em um fórum de debates eletrônico.

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política na medida em que diluiu o  espaço das nações, criando um não lugar e não tempo, 
onde convivem e convergem indivíduos cujas identidades não são pautadas unicamente por 
uma condição de funcionários de uma empresa ou membros de uma nação, mas sim por um 
ou mais  interesses comuns. 

Este convívio deu início, ou melhor acelerou tremendamente o compartilhamento, 
reelaboração   e   geração   de   novos   conhecimentos   em   torno   dos   interesses   comuns   destes 
indivíduos que passaram a se organizar em grupos de interesse na rede de computadores. 

Como o produto desta reunião no  não  lugar  e  não  tempo  da  Internet  pertence a 


ninguém em especial e a todos ao mesmo tempo, começaram a surgir anomalias no seio da 
lógica  capitalista,  como  uma  forma  diferente de  produção  de valor. Trabalho  autônomo, 
força de trabalho livre, combustão de energia humana que não é transformada imediata ou 
diretamente em capital. 

Ao   mesmo   tempo   que   as   corporações   e  os   Estados   buscam   controlar   a  nascente 


idéia   da   economia   do   conhecimento,   um   problema   se   apresenta,   pois   "uma   autêntica 
economia do conhecimento corresponderia a um comunismo do saber no qual deixam de 
ser necessárias as relações monetárias de troca", como observa com certa ironia André 
Gorz19.

Esta anomalia do  não  lugar  e  não  tempo  da Internet gera outras contestações ao 


capital, pois para além da difusão e geração livre de conhecimento propicia ainda (ou até 
por   isso)   a   contestação   da   propriedade   dos   bens   imateriais   como  softwares,   conteúdos 
artísticos e do próprio conhecimento. Todos estes itens são "bens" ou "produtos intangíveis" 
da   sociedade   moderna   que   têm   sido   livremente   distribuídos   pela   rede,   a   despeito   dos 
protestos dos detentores legais dos direitos de exploração.

Justamente   partindo   desta  contestação   surge   a  segunda   hipótese,   que   deriva   dela 
com linearidade, a hipótese de que o capital vem promovendo uma apropriação indébita de 
um   conhecimento   outrora   pertencente   a   toda   sociedade,   privatizando   idéias   e   processos 
antes   públicos.   Trata­se   de   um   movimento   que   ocorre   com   maior   vigor   no   centro   do 
capitalismo,   nos   países   desenvolvidos   ou   mais   industrializados,   mas   que   repercute   com 
19
 GORZ, André. O Imaterial. Conhecimento, valor e capital. São Paulo : Annablume; Janeiro de 2005

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maior   força   nas   bordas   do   capitalismo   prejudicando   sensivelmente   os   países   em 
desenvolvimento ou subdesenvolvidos. 

Uma terceira hipótese a ser verificada nesta dissertação é mais específica em relação 
aos  softwares  e o seu desenvolvimento tecnológico. Mais à frente serão apresentados os 
dois   “macro   modelos”   de  desenvolvimento   tecnológico  que  competem   na  elaboração   de 
softwares  na  atualidade.   O   modelo   empresarial   tradicional,   onde   o   desenvolvimento   é 
protegido por um segredo industrial e tem o objetivo de ser vendido como um produto, e o 
modelo do Software Livre onde os códigos são conhecidos e alterados por uma rede trans­
nacional   de   programadores   e   entusiastas   (não   necessariamente   remunerados   por   seu 
trabalho) e que é livremente distribuído.

Parte de nosso trabalho consiste em identificar até que ponto estas diferentes formas 
de desenvolvimento e de licenciamento interferem nos rumos tomados pela tecnologia de 
cada sistema operacional.

1.5. Estrutura da Dissertação

O   encadeamento   lógico   proposto   para   esta   dissertação   é   inicialmente   debater   a 


questão da propriedade das idéias, derivando daí a história dos  softwares. Depois o foco 
será   dirigido   ao   caso   brasileiro,   tratando   primeiro   da   história   do   desenvolvimento 
tecnológico e depois de questões relativas aos  softwares e em especial ao Software Livre no 
Brasil.

No   primeiro   capítulo   a   idéia   central   é   averiguar   a   maneira   pela   qual   o   capital 


apropria­se e mercantiliza conhecimentos públicos. Esta apropriação acontece em bases que 
restringem formal e legalmente o desenvolvimento contínuo ou subseqüente de uma idéia 
antes livre, propondo uma contradição que se torna especialmente perceptível no ramo dos 
softwares. Neste capítulo trataremos a questão da propriedade das idéias.

Depois   abordaremos   a   história   dos  softwares  propriamente   dita,   refazendo   a 


cronologia de eventos e conflitos que culminaram nas principais tecnologias em uso nos 

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microcomputadores atuais. Contudo o foco deste capítulo estará na história dos Sistemas 
Operacionais e não na história dos softwares como um todo. Também é neste capítulo que 
trataremos   de   temas   como  Windows,   Microsoft,  Linux,  movimento  do   Software Livre  e 
suas interações. 

Antes   de   abordarmos   os   significados   do  Software   Livre  para   o   Brasil,   será 


necessário   entender   em   que   bases   se   deu   o   desenvolvimento   tecnológico   brasileiro, 
considerando que este desenvolvimento é invulgar para um país subdesenvolvido.

Buscaremos   especialmente   compreender   como   foi   possível   o   surgimento   do 


pensamento técnico­científico nacional e como foram constituídas as primeiras gerações de 
engenheiros   e   cientistas,   já   que   foram   eles   os   responsáveis,   entre   outras   coisas,   pelo 
desenvolvimento da indústria brasileira possível de micro­informática.

Assim  esperamos   ter  as  bases  necessárias  para   entender   o   caminho   traçado  pelo 
Brasil até ser reconhecido como uma das potências mundiais do  Software Livre, tanto em 
desenvolvimento como em adoção.

Por fim  pretendemos  refletir sobre quais os  significados deste reconhecimento, e 


sobre a consolidação do Software Livre enquanto alternativa viável incorporada pelo Brasil. 
Também   neste   capítulo   serão   discutidos   quais   os   impactos   do  Software  Livre   sobre   o 
desenvolvimento tecnológico e quais as possibilidades que ele apresenta ao Brasil. Junto a 
estas discussões agregamos nossas conclusões e considerações finais.

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 2. A idéia de progresso e a disputa pelas patentes de softwares.

"We are like dwarfs sitting on the shoulders of giants. We see more, and things that are more distant, 
than they did, not because our sight is superior or because we are taller than they, but because they raise us 
up, and by their great stature add to ours." 
John de Salisbury20, em 1159.

Este texto busca expor o antagonismo existente entre “a idéia de progresso”, situada 
em termos do período histórico contemporâneo, abordando­a dentro das idéias dominantes 
da sociedade; e a apropriação capitalista da Inteligência Geral21, como proposto por Marx 
nos  Grundrisse22,   e   posteriormente   re­elaborado   pela   escola   autonomista 23.   Para   tanto 

20
  Aparentemente não é realmente possível estabelecer, com absoluta precisão, a autoria desta frase. Sendo 
mais conhecida como um aforismo original de Isaac Newton ("If I have seen farther, it is by standing on the  
shoulders of giants"), ela é de fato apenas uma re­elaboração do que já havia sido dito por John de Salisbury 
em 1159. 
Segundo M.T. Clanchy (em From Memory to Written Record: England 1066­1307 e Abelard: A Medieval 
Life) a idéia por trás desta frase possivelmente pertenceria a Bernard de Chartres (Bernardus Carnotensis) 
outro acadêmico do século XII, hipótese provável uma vez que grande parte do que se sabe sobre seu trabalho 
é conhecido somente por escritos de John de Salisbury. Devido aos estudos de Bernard de Chartes terem 
aparentemente  concentrado­se  sobre  a  obra  de  Platão, há  quem  defenda  que  a  idéia  por trás  desta  frase 
pudesse derivar diretamente do pensamento platônico, embora a comprovação de tal idéia não seja possível. O 
eminente sociólogo Robert K. Merton, tem um livro entitulado  On the Shoulders of Giants : The Post­
Italianate Edition onde discute questões como o plágio, criatividade e o conceito de progresso partindo da 
busca pela origem desta famosa frase.
21
 Esta Inteligência Geral pode ser compreendida como a subjetividade das coletividades sociais, o conjunto 
de saberes historicamente acumulados pelos grupos sociais, introjetados em diferentes atividades sem que 
“pertençam” a um indivíduo ou mesmo que se lhes possa apontar um autor.
22
 MARX, Karl. Grundrisse: Elementos Fundamentales Para La Critica de la economia politica (Borrador)  
1857­1858; Buenos Aires; Siglo XXI Argentina Editores S.A: junho 1972.
23
  Marxismo autonomista designa uma escola de pensamento que coloca o centro da autodeterminação na 
classe trabalhadora. Esta corrente de pensamento marxista foi formulada durante as greves e protestos de 
trabalhadores, movimento feminista e estudantes italianos nos anos 1960 e 70. Os principais intelectuais desta 
linha do marxismo são Antonio Negri, Mario Tronti, Sergio Bologna, Mariarosa Dalla Costa, Francois Beradi 
e Raniero Panzieri.
A autodeterminação da classe trabalhadora é uma idéia que tem ramificações profundas dentro de toda a 
tradição marxista, mas o conceito autonomista em particular enfatiza o poder autônomo dos trabalhadores, 
colocando   sua   autodeterminação   acima   do   poder   do   capital,   dos   partidos,   dos   sindicatos.   No   marxismo 
autonomista o poder autônomo de um grupo de trabalhadores é autônomo até mesmo dos outros grupos de 
trabalhadores. Aqui autonomia entende­se em geral como a habilidade dos trabalhadores de identificarem seus 
próprios interesses e lutarem por eles, indo além da mera reação à exploração que são submetidos pelo capital 
ou do direcionamento dado por "líderes trabalhadores" ao seu foco/objetivo de luta.

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pretendemos explorar a questão sob a luz do crescente recrudescimento das legislações de 
Copyright e patentes.

Embora, por um lado, reconheçamos que a escola autonomista faz uma leitura um 
tanto   polêmica   do   conhecimento   marxista,   substituindo   o   operário   como   o   “sujeito”   da 
revolução,   por   outro   lado   acreditamos   que   suas   formulações   sobre   diversas   facetas   do 
capitalismo   contemporâneo   e   sobre   as   formas   de   trabalho   imaterial   são   extremamente 
pertinentes, merecendo portanto ser consideradas.

Esta formulação insere­se na necessidade de compreender e explicitar a apropriação 
capitalista da subjetividade dos trabalhadores e, em seu desdobramento, a apropriação da 
subjetividade das coletividades sociais. O tema suscita o debate tanto sobre a necessidade 
do Capital em dominar a cultura e a inteligência das massas,   quanto sobre o seu poder e 
“direito” de fazê­lo.

Tratando então da relação entre o Copyright e a apropriação da Inteligência Geral, 
procuraremos   de   forma   específica   explicitar   o   antagonismo   existente   entre   a   idéia   de 
progresso  no  desenvolvimento histórico  da informática e o fenômeno  contemporâneo  do 
recrudescimento das patentes de  softwares. Estas idéias são parte do raciocínio acerca da 
influência   da   ideologia   no   desenvolvimento   dos  softwares  de   computador,   campo   do 
conhecimento   humano   tomado   tacitamente   como   livre   de   influências   de   natureza 
ideológica e percebido, em geral, como apenas técnico.

A idéia de progresso está bastante presente e solidamente documentada na história 
da cultura ocidental, especialmente a idéia do progresso científico­tecnológico24, progresso 
do   qual   os   atuais   estágios   e   perspectivas   para   o   futuro   próximo   nos   campos   da   física, 
biologia   e   micro­informática   parecem   ser   a   materialização,   apenas   para   ficarmos   nos 
exemplos   mais   recorrentes.   Dentro   destes   trataremos,   como   dito   acima,   da   micro­
informática, ou da especificidade de seus softwares.

Não será portanto, foco deste texto discutir o conceito de progresso, nem pesquisar 
sua validade. Dentro de nosso recorte o progresso parece tangível, se pretendemos atrelar 

  Cf.   BASALLA   G.  The   Evolution   of   Technology.  Cambridge,   1988.   e  ROSSI,   P.  Naufrágios   sem 
24

Espectador. A idéia de progresso. EDUNESP, 2000. 

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ao   conceito   meramente   o   aperfeiçoamento   técnico,   a   potência   das   máquinas   e   o 
generalizado espraiamento de suas aplicações em diferentes ramos da atividade humana.

Compreender   o   progresso   em   um   sentido   mais   amplo,   como   progresso   da 


humanidade em geral, como a melhoria de suas condições de vida e trabalho, exigiria um 
debate maior do que o proposto aqui, que ainda que não levasse fatalmente à negação do 
progresso, nos levaria ao menos a questionar sua pertinência, ou colocá­lo dentro de termos 
mais objetivos, como “progresso de quem?” ou, “progresso para quem”.

Portanto,   ficaremos   com   a   idéia,   por   certo   unânime,   de   que   entre   as   primeiras 
calculadoras mecânicas como a “pascalina” de Pascal (1642) ou o “relógio contador” de 
Wilhem   Schickard   (1626),25  e   os   atuais   computadores   houve   por   certo   um   progresso 
técnico,   ou   com   a   apropriação   do   conceito   biológico,   uma   evolução,   conforme 
elaboraremos a seguir. 

Em   seu   livro  The   Evolution   of   Technology,   George   Basalla   busca   explicar   a 


mudança tecnológica, seu progresso portanto, de uma perspectiva evolucionária, centrando 
sua   análise   em   quatro   grandes   conceitos:   diversidade,   continuidade,   inovação   e   seleção. 
Para nós, é justamente esta idéia de evolução que põe em relevo o antagonismo mencionado 
no   início   do   texto.   A   evolução   da   informática,   em   especial   dos  softwares,   parece 
incompatível  com a necessidade capitalista de proteger por meio de patentes e restrições de 
direito autoral estes mesmos softwares.

George   Basalla   coloca   o   desenvolvimento   tecnológico   como   desvinculado   das 


necessidades básicas e imediatas de sobrevivência dos homens, estando para o autor, muito 
mais relacionado à história das aspirações humanas, onde as coisas feitas pelos homens são 
fruto de suas fantasias, desejos e necessidades elaboradas.  “O mundo dos artefatos exibiria  
uma   diversidade   bem   menor   se   operasse   primeiramente   sob   os   limites   impostos   por  
necessidades fundamentais”. 26

25
 MAGALHÃES, Gildo. Um bit auriverde: Caminhos da tecnologia e do projeto desenvolvimentista  na 
formulação  duma política nacional de informática para o Brasil (1971­1992). 1994. Tese (Doutorado 
História) ­ FFLCH, USP
26
 BASALLA, George. The Evolution of Technology. USA; Cambridge University Press; 1995. p 14.

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Basalla cita Karl Marx27, na defesa da idéia de que a invenção é um processo social, 
que repousa na acumulação de inúmeras pequenas melhorias e não nos esforços heróicos de 
alguns poucos gênios. Como no exemplo do elevador, onde não é possível determinar sua 
data de invenção, nem seu inventor, uma vez que seu princípio básico, o equilíbrio entre 
peso e contra­peso era conhecido no mundo antigo, tendo sido usado na Idade Média, na 
Roma   antiga  e  possivelmente  antes   disso.  Foi  o   Sr.  Otis28  que  no  entanto  entrou  para a 
história do elevador em 185229 como um grande inventor, mesmo que sua contribuição, os 
freios   de   segurança,   indispensáveis   na   proteção   de   pessoas   e   cargas,   em   um   eventual 
rompimento dos cabos, seja relativamente pequena em toda a tecnologia e conhecimento 
empregados na máquina. 

Parece haver, portanto, uma continuidade nas técnicas e ferramentas dos homens, 
“qualquer coisa nova que apareça no mundo das coisas fabricadas é baseado em algum  
objeto já  existente.”30  Mas o que se verificou com o avanço da sociedade industrial foi a 
emergência do inventor como herói, um tipo de gênio, fortemente defendido pelos estados 
nacionais, logo que os reflexos econômicos e a importância estratégica da industrialização 
passaram a ser por eles percebidos. 

“Apesar   das   evidências   em   contrário,  há  um   apoio  generalizado  à  


idéia de que invenções são o resultado de revelações na tecnologia, trazidas  
por gênios individuais. As origens desta visão  tem três pilares: a perda ou  
supressão de antecedentes cruciais; a emergência do inventor como herói; e  
a confusão entre mudança social e mudança sócio­econômica.31” 

27
 Idem, 1995. p 21.
É importante deixar registrado que embora cite Karl Marx, o texto de Basalla é crítico a um bom número de  
idéias apresentadas pelo economista alemão, estando longe de um texto que poderia ser caracterizado como  
marxista.
28
 Elisha Graves Otis, inventou e iniciou a produção de elevadores com freios de segurança entre 1852 e 1856, 
sendo com isso um dos principais responsáveis pela viabilização de edifícios cada vez mais altos nas grandes 
cidades.
29 
The New Encyclopaedia Britanica in 30 Volumes : Ready Reference and Index VII. USA; 
Encyclopaedia Britannica, Inc.; 1980 ­ 15th edition
30
 BASALLA, George. The Evolution of Technology. USA; Cambridge University Press; 1995. p 45.
31
 Idem, 1995. p 57.

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Uma   vez   que   com   a   revolução   industrial,   o   desenvolvimento   tecnológico   foi 
integrado aos sentimentos de nacionalismo ­ pois o crescimento (e o poder) de uma nação 
passou cada vez mais a estar a ele relacionado ­ não apenas os inventores foram alçados à 
categoria de heróis, mas também a tecnologia passou a ser foco de rivalidades, tensões e 
negociações entre países. Esse movimento redundou no fortalecimento da idéia e do sistema 
de   patentes,   legislações   específicas   que   visam   proteger   a   “propriedade   intelectual”   dos 
inventores, garantindo a estes o pleno direito de exploração de seus inventos, proibindo a 
outros   a   cópia   não   autorizada   dos   princípios   e   soluções   empregados   pelo   detentor   da 
patente.

“Patentes são  a forma jurídica pela qual as sociedades industriais  
premiam   e   protegem   os   inovadores   tecnológicos.   Neste   processo,   uma 
invenção é identificada unicamente com seu inventor e as associações com  
os artefatos existentes são  obscurecidas. Toda a legislação  de patentes é  
baseada na premissa que uma invenção é entidade única, nova que pode ser  
atribuída   ao   indivíduo   que   os   tribunais   determinarem   como   sendo   seu  
legítimo   criador.  Desta   forma,   o   sistema   de   patentes   converte   o   fluxo 
contínuo das coisas criadas em uma série de entidades distintas

Em   uma   sociedade   capitalista,   o   detentor   de   uma   patente   está   em  


posição   de   utilizar   a   patente   para   obter   vantagens   financeiras   pessoais.  
Tendo em conta que dinheiro, status social e a gratificação  do ego estão  
simultaneamente   em   jogo,   os   concorrentes   em   uma   disputa   de   patentes  
muitas   vezes   lutam   de   maneira   menos   do   que   justa   para   preservar   sua  
pretensão de originalidade.32”

Sendo   portanto   as   inovações   tecnológicas   decorrência   de   um   processo   evolutivo, 


como   propõe   Basalla,   considerando   os   gênios   criativos   como   uma   construção   social   e 
política   e   não   como   um   fato   dado   e   inconteste,   estamos   aceitando   tanto   o   conceito   de 
progresso   como   o   de   evolução   na   tecnologia   e,   considerando   que   ambos   os   processos 

32
 Idem, 1995. p 60.

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decorrem   do   conhecimento   acumulado   por   gerações   passadas.   Trata­se   portanto   de   um 
conhecimento   de   massas,   ou   da   Inteligência   Geral   como   proposto   por   Karl   Marx   nos 
Grundrisse33.

Alie­se a isso a própria natureza do conhecimento científico, que repousa sobre uma 
base   acumulada   de   conhecimentos   pretéritos   para   avançar   (mesmo   que   seja   negando   e 
reformulando o conhecimento do passado), a presente e crescente dificuldade para separar 
ciência de tecnologia torna­se mais espinhosa na questão das patentes.

E esta não é de maneira alguma uma percepção nova ou recente, o próprio Sir Isaac 
Newton em carta enviada ao cientista inglês Robert Hooke em 1675 (ou 1676), admitia que 
"If I have seen further, it is by standing on the shoulders of giants34", uma idéia, formulada e 
registrada   quase   500   anos   antes   (em   1159)   pelo   monge   John   de   Salisbury,   conforme   a 
citação que acompanha a epígrafe deste capítulo. 

 O que nos parece estar ocorrendo na atualidade é uma apropriação da inteligência, 
da subjetividade construída pelas sociedades. 

Seguindo   o   delineamento   teórico   proposto   pela   escola   autonomista,   pode­se 


compreender e explicitar a apropriação capitalista da subjetividade dos trabalhadores e, em 
seu desdobramento, a apropriação da subjetividade das coletividades sociais, a apropriação 
da Inteligência Geral pelo Capital. 

Como   sugerido   atrás,   o   marxismo­autonomista   refere­se   à   vertente   marxista   que 


coloca a atividade do trabalhador, o próprio trabalho como foco da análise. Assim no lugar 
de centrar­se no avanço teleológico das forças produtivas o marxismo­autonomista centra­se 
no conflito entre aqueles que produzem e aqueles que apropriam. O termo “autonomista” 
deriva da visão da autonomia do trabalhador, pois na leitura autonomista o trabalhador não 
é vítima passiva das determinações do capitalista, sendo sujeito ativo da produção, detentor 
de habilidades, motor de inovações e cooperação com as quais o capital conta. 

Nick   Whiteford   aponta   que   o   que   torna   a   análise   autonomista   particularmente 


importante “is the perspective it opens on the new forms of knowledge and communication  
33
 MARX, Karl. Grundrisse: Elementos Fundamentales Para La Critica de la economia politica (Borrador)  
1857­1858; Buenos Aires; Siglo XXI Argentina Editores S.A: junho 1972;
34
 “Se eu vi mais longe, foi por estar nos ombros de gigantes”.

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not merely as instruments of capital domination, but also as potential resources for working  
class struggle.”35 Uma interpretação subversiva da “Information Society”.

Nas últimas décadas tem havido uma crescente necessidade do Capital em dominar 
a cultura e a inteligência das massas, refletido por exemplo no surgimento de termos como 
“indústria   cultural”,   o   que   suscita   o   debate   sobre   o   poder   e   o   “direito”   do   Capital   em 
proceder a esta apropriação, pois esta parece de certa forma indébita.

A apropriação do conhecimento social encontra­se refletida no recrudescimento da 
proteção do direito autoral e das patentes, dentro de legislações que foram sucessivamente 
alteradas   nas   últimas   décadas   em   diversos   países,   especialmente   aqueles   das   economias 
mais desenvolvidas, pretendendo estender e reforçar o domínio sobre idéias, cuja original 
definição de propriedade e autoria já seriam bastante contestáveis.

Para  além  dos  softwares,  talvez   o   campo   onde   o   conflito   das  patentes   esteja  em 
maior relevo seja a indústria farmacêutica, onde o direito às patentes esbarra em questões 
éticas   e   morais   de   toda   a   sorte.   Este   assunto,   especialmente   no   que   tange   à   indústria 
farmacêutica é recuperado pela jornalista Maria Helena Tachinardi, em seu livro A Guerra  
das Patentes, onde são retratadas as rusgas entre Brasil e EUA neste campo, mas Tachinardi 
não   limita   sua   análise   na   questão   moral   e   ética,   indo   além,   apresentando   questões 
econômicas e de política internacional:

“Os países que lideram o processo tecnológico desejam sistemas de  
propriedade   intelectual   fortes  em  nível  internacional  para  compensar  as  
deficiências nos regimes de apropriação  dos países que estão  aumentando  
sua capacitação  tecnológica e de imitação,  e para compensar, também, a  
taxa de difusão acelerada de novas tecnologias, o que reduz o seu tempo de  
vida.

Os   países   desenvolvidos,   sobretudo   os   EUA,   consideram   vital   a  


ampliação   dos   direitos   de   propriedade   intelectual   em   escala   planetária  
porque garantiria incentivos à  inovação  e serviria de barreira defensiva  
35
 WHITHEFORD, Nick. Autonomist Marxism And The Information Society. Capital & Class, 52, p.85­95, 
Spring 1994.

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contra a imitação  no exterior de tecnologias desenvolvidas nacionalmente  
em seus mercados.

Os países em desenvolvimento, contudo, receiam que surja uma nova 
modalidade   de   protecionismo   tecnológico.   Carlos   Maria   Corrêa   chama 
atenção  para o fato de que os países desenvolvidos estão  empenhados em 
uma   nova   política   comercial   que   tende   a   substituir   a   promoção   do 
investimento direto ou o licenciamento de tecnologia pelo acesso direto aos  
mercados externos, incluindo a abertura forçada de alguns recalcitrantes.

Os países seguidores, que, recorde­se, são  aqueles que se apropriam 
de oportunidades, estão  dificultando aos líderes na corrida tecnológica a 
possibilidade   de   apropriação.   É   o   caso   dos   países   que   estabeleceram  
reservas de mercado, como a informática no Brasil.

A inovação é uma invenção incorporada à produção. A invenção é um  
produto  essencialmente  intelectual,  enquanto  a  inovação   é  um   fenômeno  
econômico.”36

Este   recrudescimento   da   proteção   do   direito   autoral   é   um   fenômeno   mundial, 


encontrando no campo da informática exemplos emblemáticos em leis como o Sonny Bono  
Copyright Act37, lei norte americana que estendeu por vinte anos além do prazo original o 
direito   dos   autores;   a   lei   de   patentes   de  softwares  atualmente   em   vias   de   aprovação   na 
Europa,   que   será   uma   versão   européia   do   Digital   Millenium   Copyright   Act   (DMCA)38 
promulgado nos EUA em outubro de 1998 pelo presidente norte­americano Bill Clinton. 
Este afã capitalista em proteger e cercear de todas as formas o acesso à cultura e tecnologia 
reverbera mesmo na periferia do Capital, primeiro com ações bastante concretas, como o 
36
  TACHINARDI, Maria Helena.  A Guerra das Patentes : O conflito Brasil x EUA sobre propriedade 
intelectual. São Paulo : Paz e Terra, 1993. p 66.
37
 Sonny Bono Copyrigth Act lei promulgada nos EUA em fins de 1998 com objetivo de estender a proteção do 
copyrigth. É por vezes referida pejorativamente como Mickey Mouse Copyrigth Act, em referência ao fato de 
ter “coincidentemente” impedido que personagens da  Walt Disney Company  como o  Mickey  entrassem em 
domínio público.
38
 Lei que revoga direitos históricos de técnicos e cientistas, como a legitimidade da engenharia reversa e que 
vai contra as diversas legislações de outras nações.

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endurecimento da política externa dos EUA contra a pirataria em outros países, que aventa 
mesmo   a   possibilidade   de   sanções   políticas   e   econômicas   contra   os   países   tidos   por 
corsários da cultura; segundo com alterações induzidas nas próprias legislações dos países 
periféricos, como no caso brasileiro, que passou a produzir legislações específicas para o 
combate a pirataria. 

Este tema não deve ser tomado de maneira superficial, sua importância é central 
para   o   desenvolvimento   e   perpetuação   do   conhecimento   e   da   tecnologia   e,   para   o 
desenvolvimento econômico. 

Sobre   o   predomínio   do   fator   econômico   sobre   o   desenvolvimento   tecnológico, 


podemos novamente recorrer a Basalla, que vai ainda tratar da maneira como uma certa 
invenção   ou   tecnologia   é   classificada   de   “genial”.  “Uma invenção  é  classificada como  
genial apenas se a cultura escolher colocar um grande valor associado a ela. Desta forma,  
a reputação do inventor está atrelada a valores culturais.”39 

Em busca da proteção dos direitos (e dividendos) do Capital, eleva­se a questão a 
um grau de importância tal, que se torna capaz de limitar o acesso à cultura, conseguindo 
até fazer eco mesmo dentro das instituições de ensino público, como na situação recente da 
USP40  frente ao cerceamento das cópias   xerox  no Campus41. Isto obrigou a universidade a 
tomar uma posição oficial42, em um comunicado autorizando as cópias  xerox, onde defende 
pura e simplesmente o cumprimento da lei e a utilização justa do material protegido, uma 
vez que até isso estava sendo perseguido.

Tachinardi, ainda em seu livro sobre o conflito de patentes Brasil/EUA observa que:

“Por trás  do discurso de que o objetivo dos direitos de propriedade 
intelectual é o incentivo   à  invenção,  existe o real objetivo econômico de  
permitir   a   apropriação   financeira   do   conhecimento   científico,   um   bem 

39 
BASALLA, George. The Evolution of Technology. USA; Cambridge University Press; 1995. p 34.
40
 Vide: Anexos, documento I
41
 Vide: jornal O Estado de S. Paulo (08/03/2005 ­ Caderno 2); (04/03/2005 ­ Metrópole ­ DEIC apura a ação 
de  professores   em   xerox);   (03/03/2005   ­   Metrópole   ­   Polícia   investiga   comércio   de   cópias   de   livros   em 
universidade);  (02/03/2005  ­ Metrópole  ­  Faculdades   mantêm   xerox  dentro  das   bibliotecas   /  Metrópole  ­ 
Bibliotecas oferecem xerox); (21/02/2005 ­ Índice); Jornal da Tarde (03/02/2005).
42
 Vide: Anexos, documento II

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público,   intangível,   mas   que   gera   vantagens   comparativas   e   aumenta   a  
competitividade   dos   países,   além   de   lhes   permitir   a   penetração   nos  
mercados e o seu controle e reduzir as incertezas associadas à inovação, ao  
grau de obsolescência dos produtos.

O   sistema   de   propriedade   intelectual   é,   portanto,   um   regime   de  


apropriação que pode ser mais ou menos abrangente, mais ou menos rígido,  
dependendo dos países.”43

A apropriação do conhecimento por parte do Capital já havia, como dissemos, sido 
notada por Marx, nos Grundrisse, que constituem os fundamentos do pensamento marxista, 
tendo sido publicados pela primeira vez entre 1939 e 1941, na União Soviética com o titulo: 
Grundrisse der Kritik der politischen Ökonomie (Rohentwurf) 1857­1858. Trata­se de uma 
coletânea  de  obras  inéditas  até  então,  que  para Marx  tinham  a  característica  de  esboço, 
utilizadas   pelo   autor   como   forma   de   organização   de   suas   idéias,   sem   que   houvesse   a 
intenção   manifesta   de   sua   publicação.   Estes   “cadernos”   de   Marx   devem   portanto   ser 
considerados em seu contexto, não representando o pensamento mais elaborado do autor, 
mas sim uma fase pretérita, embrionária. Feita esta ressalva, sobre tratar­se de um  texto 
ainda   em   formulação   pelo   autor,   podemos   considerar,   sem   sombra   de   dúvida,   que   os 
Grundrisse  estabeleceram as bases para a posterior redação do Capital, onde muitos dos 
conceitos propostos serão retomados com maior profundidade.

Nos  Grundrisse  Marx   estabelece   bases   para   a   compreensão   do   desenvolvimento 


tecnológico, sua evolução, e também coloca de maneira clara como ocorre uma forma de 
apropriação que transcende a tradicional apropriação do trabalho, passando a existir uma 
apropriação do poder criador do trabalhador. Na extensa e detalhada introdução da edição 
argentina que consultamos, estas questões estão claramente colocadas: 

“Las fuerzas de producción son en sí mismas un producto histórico y  
social   y   para   Marx   el   proceso   productivo   es   un   proceso   social.   Es  

43
  TACHINARDI, Maria Helena.  A Guerra das Patentes : O conflito Brasil x EUA sobre propriedade 
intelectual. São Paulo : Paz e Terra, 1993. p38.

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necessario   enfatizar   este   punto   con   el   fin   de   poner   en   evidencia   que   el 
importante papel que Marx asigna al desarrollo de las fuerzas productivas  
materiales   bajo   el   capitalismo   no   lo   convierte   en   un   determinista 
tecnológico.  Por   el   contrario,   no   es   la   tecnologia   la   que   obliga   al  
capitalista a acumular, sino la necessidad de acumular la que lo obliga a  
desarrollar   los   poderes   de   la   tecnología.  La   base   del   processo   de  
acumulación, del  proceso por  medio del  cual las  fuerzas  productivas  se 
fortalecem, es la extracción de plusvalía de la fuerza de trabajo. La fuerza  
de producción es la fuerza de explotación.

Es   evidente   entonces   que   la   dicotomía   formulada   por   Marx   en   el  


Prefacio   es   idéntica   a   que   existe   entre   los   dos   processos   perfectamente 
diferenciados que Marx identifica en los Grundrisse como fundamentales  
para la reprodución capitalista: por una parte, la produción consiste en un 
acto de cambio y por la otra, consiste en un acto que es precisamente lo  
oposto   al   cambio.  Por   un   lado,   la   produción   es   un   simple   cambio   de  
equivalentes y por el otro, es la apropriación violenta del poder creador  
del obrero.”44 

Diante das propostas de Marx sobre a apropriação do poder criador do trabalhador e 
de George Basalla sobre o caráter evolucionário da tecnologia, onde um elemento criado 
depende da pré­existência de outro, já em uso corrente, começamos a nos aproximar   da 
tese central deste trabalho, a de que possa existir um antagonismo entre a idéia de progresso 
no   desenvolvimento   histórico   da   informática   e   o   fenômeno   contemporâneo   do 
recrudescimento da defesa das patentes de  softwares. Ou melhor formulando, a legislação 
de   patentes   de  software  tende   a   emperrar   ou   atrasar   a   evolução   deste   ramo   do 
conhecimento.

  NICOLAUS,   Martin.  El   Marx   Desconocido  (Prefácio).   Em   MARX,  Karl.  Grundrisse:   Elementos  
44

Fundamentales Para La Critica de la economia politica (Borrador) 1857­1858; Buenos Aires; Siglo XXI 
Argentina Editores S.A: junho 1972; p.30 (o grifo é nosso).

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Com os argumentos até aqui colocados podemos constatar dois movimentos, 1) a 
evolução da tecnologia baseada no conhecimento geral acumulado, e 2) a apropriação deste 
conhecimento pelo Capital, que se apropria da Inteligência Geral e então procura cercear 
seu acesso pela via legislativa.

A   hipótese   aqui   é   que   estes   dois   movimentos   fornecem   o   combustível   para   os 
movimentos contrários, que buscam tanto romper com as amarras legislativas como libertar 
a   tecnologia   (de  softwares)   do   domínio   exclusivo   do   Capital,   re­transferindo   sua 
propriedade para a comunidade. Casos como o dos movimentos  Open Source  e  Creative 
Commons45 parecem emblemáticos desta resistência e, no ramo dos sistemas operacionais, é 
o   GNU/Linux   quem   melhor   representa   esta   tendência,   politicamente   confusa,   mas   sem 
dúvida revolucionária46.

Aqui cabe a abertura de um pequeno parênteses para explicar o conceito do   Open  
Source.

A   definição   de  Open Source  foi   primeiro   elaborada   por   Bruce   Perens47,   quando 


escreveu o esboço do documento "The Debian Free Software Guidelines", que foi refinado 
com os comentários da comunidade de desenvolvedores do Debian, ao longo de um mês de 
debates   por   e­mail   em   Junho   de   1997.   Perens   terminou   por   remover   as   definições 

45
  Creative Commons  é uma ONG sem fins lucrativos fundada em 2001 com o seguinte objetivo:  "Thus, a 
single goal unites Creative Commons current and future projects: to build a layer of reasonable, flexible  
copyright in the face of increasingly restrictive default rules."
Em dezembro de 2002 o grupo lançou uma série de licenças livres para o uso público, permitindo que uma 
obra intelectual e/ou artística seja licenciada em termos menos restritivos. Declaradamente o conceito por trás 
da  Creative   Commons  veio   do  Software  Livre:  "Taking   inspiration   in   part   from   the   Free   Software  
Foundation's GNU General Public License (GNU GPL)". Fonte: http://creativecommons.org/ 
O CTS, Centro de Tecnologia e Sociedade da Escola de Direito da Fundação Getulio Vargas no Rio de 
Janeiro, dirige o projeto Creative Commons no Brasil, garantindo que as adaptações e traduções das licenças 
estejam em total acordo com a legislação brasileira. Fonte: http://www.direitorio.fgv.br/cts/
46
 Aspecto que pretendemos elaborar e aprofundar com maior ênfase à frente.
47
  Bruce Perens, antigo líder do projeto Debian (uma das mais antigas e tradicionais distribuições Linux, 
reconhecida como a que mais respeita os  princípios  do  Software  Livre) é co­foundador da Open Source 
Initiative e diversas outras instituições de defesa dos  Softwares  Livres. Também trabalhou por 20 anos na 
indústria de computação gráfica, 12 deles na Pixar Animation Studios, onde participou dos filmes Vida de 
Inseto e Toy Story II.

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específicas ao Debian e criou a "Open Source Definition"48, hoje mantida e divulgada pela 
Open Source Initiative49

Esta definição, que busca esclarecer se um  determinado  software  é ou não  Open  


Source, condiciona a observação de algumas premissas para a avaliação de uma licença de 
software e estas premissas não se referem exclusivamente ao acesso ao código fonte, como 
se poderia imaginar.

As principais características de uma licença Open Source50 são: 

● A liberdade de redistribuição, permitindo que o software seja dado 
ou vendido livremente, sem pagamento de royalties;

● A   necessidade   da   distribuição   de   um   programa   incluir   o   código 


fonte;

● Permissão para criação de produtos derivados a serem distribuídos 
na mesma forma de licenciamento;

● Não discriminar qualquer pessoa, grupo, ou finalidade de uso;

● Ser tecnologicamente neutra.

Com esta explicação fecha­se o parênteses para a retomada da linhas de 
raciocínio anterior.

Ainda   mais   à   frente   em   seu   texto,   quando   George   Basalla   pretende   definir   os 
mecanismos   psicológicos   que   motivam   a   inovação   (propondo   três   categorias:   sonhos 
tecnológicos, máquinas impossíveis e fantasias populares), volta a mencionar patentes, ao 
tratar dos sonhos tecnológicos, onde afirma:

“Patentes   compõem   o   segundo   grupo   de   sonhos   tecnológicos.   Sua  


inclusão   aqui   pede   alguma   explicação   pois   patentes   são   usualmente  
concedidas   para   inovações   que   passaram   pelo   cuidadoso   escrutínio   de  

48
  Open Source pode ser traduzido como Código Aberto, mas no Brasil tem sido em geral referido como 
Software Livre.
49
  Open Source Initiative (OSI) é uma  ONG sem fins  lucrativos  dedicada à  manutenção e  promoção da 
definição do Open Source. Fonte: http://www.opensource.org/
50
 Para o texto integral vide anexos, documeto VI.

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examinadores   e   não   são   esquemas   fantasiosos.   Tomadas   como   um   todo, 
contudo, patentes são melhor representantes da potencialidade tecnológica  
do que da tecnologia propriamente dita.51”

É   justamente   a   possibilidade   de   registrar   e   apropriar   idéias   não   realizadas   que 


visualizamos como contradição na relação entre a necessidade do capital em apropriar­se da 
Inteligência Geral e ao mesmo tempo depender da evolução tecnológica para atender sua 
necessidade   de   aprofundar   a   acumulação.   Toda   a  questão   pode   então   ser   apreendida   no 
paradoxo da necessidade de um continuum de idéias, ou relações, ou mesmo de tecnologia 
para o desenvolvimento da tecnologia e a imposição  de propriedades  fragmentando este 
mesmo continuum.

E parece ser desta contradição que emergem os movimentos de resistência, de que 
trataremos à frente. É ainda irônico considerar que o esboço das resistências à apropriação 
da Inteligência Geral parece ser mais sólido no competitivo mercado de softwares, ponta de 
lança do moderno capitalismo financeiro, que só pôde se globalizar com a constituição de 
redes  informacionais  de   telecomunicações52,   permitindo   que   o   tempo   do   capital 
transcendesse   o   espaço   físico,   unindo   mercados   em   todos   os   fusos.   Pois   se   só   com   a 
constituição das redes de comunicação o capitalismo pôde efetivamente se globalizar 53  é 
esta mesma rede o fator determinante para a existência dos movimentos contrários como 
Open Source,  Creative Commons  e mesmo das redes alternativas de mídia e notícias, que 
não poderiam existir e se articular sem as modernas via de comunicação por computador.

51 
BASALLA, George. The Evolution of Technology. USA; Cambridge University Press; 1995. p 69.
52 
MARQUES, Ivan da Costa. O Brasil e a abertura dos mercados: o trabalho em questão. Rio de Janeiro; 
Contraponto; 2002.
53 
CASTELLS, Manuel. A galáxia da Internet: os negócios e a sociedade; Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 
2003

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 3. Uma História de softwares e sistemas operacionais

"Não havendo testemunhas, e se as houve não consta que tenham sido chamadas a estes autos para 
nos relatarem o que se passou, é compreensível que alguém pergunte como foi possível saber que estas 
coisas sucederam assim e não doutra maneira, a resposta a dar é a de que todos os relatos são como os da 
criação do universo, ninguém lá esteve, ninguém assistiu, mas toda a gente sabe como aconteceu."
José Saramago ­ Ensaio sobre a cegueira ­ pg. 253

 3.1. Do hardware ao software

Uma   breve   reconstituição   da   história   da   computação   e   da   micro   informática   são 


obrigatórias antes que se introduza o problema proposto neste texto. A seguir traçamos o 
histórico   do   computador,   do   desenvolvimento   deste   ramo   da   tecnologia   moderna   e 
principalmente de seu espírito fundante nos primeiros anos da informática.

Entendendo  um  computador  dentro  da  definição   já   apresentada  de  uma  máquina 
capaz de processar instruções e apresentar um resultado, poderemos dividi­los para efeitos 
didáticos e práticos em 2 tipos: analógicos e digitais.

O senso comum tende a vislumbrar na presença ou ausência de chips a diferença 
entre um computador digital e um analógico, mas esta diferença é na verdade determinada 
pelo princípio que rege seu funcionamento para obter os resultados das contas processadas.

Os   computadores   analógicos,   que   podem   ser   máquinas   estritamente   mecânicas, 


eletro­mecânicas ou até eletrônicas são diferentes na concepção dos computadores digitais 
que utilizamos hoje em dia, por não responderem a uma lógica binária discreta (em geral 
binária), podendo conceitualmente trabalhar com um espectro de possibilidades maior ou 
tendendo ao infinito. Nossos computadores atuais baseiam­se na lógica digital, ou seja dos 
dígitos, no caso binário o zero e um, oferecendo apenas duas possibilidades de resposta: 
não e sim, ou negativo e positivo, ou 0 e 1.

Considerados de maneira ampla, computadores são máquinas capazes de apresentar 
resultados   de   contas54,   e   pensando   na   história   das   máquinas   mecânicas   que   executam 

54
 Na definição atual se diria máquinas capazes de fazer contas e armazenar dados, de forma ordenada.

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cálculos   podemos,   com   alguma   elasticidade   no   conceito,   citar   o   ábaco,   a   Pascalina   de 
Blaise Pascal, a Máquina de Diferenças do matemático Charles Babbage e os protótipos 
frustrados de sua evolução, a Máquina de Diferenças 2 e a Máquina Analítica, todas de 
certa forma precursoras dos atuais computadores.

Os   computadores   mecânicos   apoiavam­se   em   um   intrincado   esquema   de 


movimentação   de   engrenagens,   tendo   muitas   vezes   que   substituir   peças   para   executar 
contas diversas como somas, multiplicações e subtrações. Já os computadores eletrônicos 
basearam   seu   funcionamento   inicialmente   em   válvulas,   mais   tarde   substituídos   por 
dispositivos semi­condutores.

Em   1944   foi   construído   o   Mark   I,   na   Universidade   de   Harvard,   um   computador 


baseado em relês e princípios eletro­mecânicos, projetado pela equipe de Howard H. Aiken.

Entre os anos de 1946 e 1947 foi construído o famoso ENIAC na Universidade da 
Pensilvânia. ENIAC (ou  Eletronic Integrator And Calculator) foi efetivamente o primeiro 
computador eletrônico, embora seu funcionamento ainda estivesse baseado em válvulas e 
não semi­condutores.

Desta   forma,   com   todas   as   suas   válvulas,   o   ENIAC   é   considerado   o   primeiro 


computador eletrônico, uma incrível máquina capaz de executar diferentes operações sem a 
necessidade   de   re­estruturar   sua   configuração.   Isso   permitiu   que   as   instruções   a   serem 
executadas fossem previamente preparadas, encadeadas e armazenadas, dando origem aos 
softwares.

O surgimento dos computadores, o momento de sua passagem ao “modo digital”, a 
história   de   seu   desenvolvimento,   e   a   evolução   do  hardware  encontram­se   hoje 
extensivamente documentados e têm larga bibliografia disponível, contemplando inclusive 
o caso brasileiro55, de forma que reconstituir novamente a trajetória do hardware não seria 
pertinente  a  esta  pesquisa.  Também  escapa  ao  escopo   proposto   nesta  análise  redesenhar 
toda a trajetória da micro­informática até  a criação dos primeiros sistemas operacionais, 

  Cf.  SANTOS   FILHO,   Gildo   Magalhães.  Um   bit   auriverde:   Caminhos   da   tecnologia   e   do   projeto 
55

desenvolvimentista   na formulação  duma política nacional de informática para o Brasil (1971­1992). 


1994. 280f. Tese (Doutorado História) ­ Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas, Universidade de 
São Paulo, São Paulo.

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outro tema que também conta com bom numero de trabalhos publicados, contudo cumpre 
registrar que a relevância dos softwares foi logo notada. Gildo Magalhães destaca que:

“A programação cedo se revelou como o ponto sensível sem o qual as  
imensas   máquinas   que   foram   os   primeiros   computadores   não   poderiam 
operar com eficiência. Um dos primeiros programas a serem construídos foi  
o que traduzia linguagem digital (binária) das máquinas para linguagem 
mnemônica,   de   fácil   manipulação.   surgiram   assim   as   linguagens   ditas  
“científicas”:   o  FORTRAN   (Formula   Translator)   foi   inventado  por   John  
Backus   entre   1953   –   56;   o   LISP   (List   Processing)   foi   inventado 
especificamente para aplicação  aos problemas de “inteligência artificial”, 
em   1956;   o   COBOL   (Common   Business   Oriented   Language)   e   ALGOL  
(Algorithimic   Language)   são   de   1960,   enquanto   que   o   PL/1   (de  
“Programming Language”) é de 1964, mesmo ano do PASCAL; o BASIC  
(Beginner's   All   Purpose   Symbolic   Instruction   Code)   é   da   década   de  
1970.”56

Esta relevância faz com  que o acesso  ao  código fonte, a seqüência de instruções 


lógicas codificadas pelos programadores de forma inteligível que é depois compilada ­ ou 
transformada em linguagem de máquina ­ gerando os  softwares  ou programas necessários 
para operar o computador ou para permitir que ele execute suas inúmeras funções, se torne 
cada vez maior.

Assim   iniciaremos   a   história   contada   neste   texto   na   década   de   1970,   com   a 


importância dos  softwares  já solidamente estabelecida e após a criação e divulgação das 
principais linguagens de programação, 

A   IBM,   um   tradicional   fornecedor   de   máquinas   para   escritório   anterior   ao 


surgimento dos computadores pessoais, vinha desde meados dos anos 50 comercializando 
software  e  hardware  conjuntamente, em  um  modelo de negócios baseado na locação de 
equipamentos para empresas, algo que mudaria no final dos anos 60. 

56
 Idem, 1994, p. 55

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“A IBM   desvinculou  seus  preços  e  fornecimentos  de   software  e  de  
serviços   em   1968,   uma   decisão   que   foi   encorajada   pela   ameaça   de   um  
processo antitruste. A “dissociação”  do software por parte do principal  
fornecedor   de   hardware   (...)   abriu   oportunidades   para   a   expansão   de  
vendedores de software independentes”.57 

Esta posição aliada ao surgimento do micro­computador, criação atribuída a David 
Ahl quando trabalhava na Digital – que ignorou o invento dado sua capacidade reduzida – 
abriu   espaço   para   um   novo   tipo   de   desenvolvimento   na   indústria,   permitindo   que 
florescesse a “cultura” dos microcomputadores58, algo muito importante para a discussão 
sobre a propriedade dos softwares e das idéias.

“O que as grandes empresas (inclusive a IBM) não perceberam é que  
estava se abrindo a oportunidade para a apropriação  individual de uma 
máquina que até então era o privilégio apenas das empresas, devido ao seu  
alto custo. No ambiente glorificador do mito individualista corporificado  
pelo  movimento “hippie”, a  Califórnia dos anos 70 sediaria também os 
primeiros   fabricantes   de   micro­computadores,   como   Apple,   Commodore, 
etc. Tardiamente tendo se dado conta do erro estratégico cometido, a IBM  
começou a recuperar o terreno perdido, lançando seu próprio modelo de  
micro­computador, chamado de “computador pessoal” (PC, de “personal 
computer”).”59

A   importância   atribuída   aqui   ao   ano   de   1970   deve­se   aos   desenvolvimentos 


alcançados pela Xerox Corporation, através de seu centro de pesquisas em  Palo Alto na 
Califórnia, (o famoso PARC,60  vizinho da Universidade de Stanford), onde investigações 

57
  MOWERY, David C., ROSENBERG, Nathan.  Trajetórias da Inovação  : A Mudança Tecnológica nos 
Estados Unidos da América no Século XX. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 2005. p. 172
58
  SANTOS   FILHO,   Gildo   Magalhães.  Um   bit   auriverde:   Caminhos   da   tecnologia   e   do   projeto 
desenvolvimentista   na formulação  duma política nacional de informática para o Brasil (1971­1992). 
1994. 280f. Tese (Doutorado História) ­ Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas, Universidade de 
São Paulo, São Paulo. p. 58
59
 Idem, 1994, p. 58
60
 PARC = Palo Alto Research Center

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sobre “interfaces de usuário” focadas no desenvolvimento de novos produtos, chegaram nas 
fronteiras mais perceptíveis de nosso objeto de estudo.

O   PARC,   desenvolveu   uma   estação   de   trabalho   gráfica,   algo   inédito   até   então, 
denominada   Xerox   Star,   onde   o   sistema   operacional   e   a   interface   com   o   usuário   eram 
inteiramente gráficas, baseadas em metáforas visuais e ícones. Foram destas pesquisas do 
PARC   que   surgiram   elementos   centrais   nos   sistemas   operacionais   atuais   (e   em   outros 
diversos   tipos   de  softwares),   itens   como   o  mouse61,   as   interfaces   de   janelas,   os   menus 
"drop­down" e os ícones. O primeiro resultado prático destas pesquisas surgiu com o “Alto” 
(1972) uma máquina que não chegou a ser comercializada, e já em 1981 estava disponível o 
“Star 8010 workstation” a primeira máquina comercializada a contar com um  mouse e uma 
interface gráfica. 

 Comercialmente, o projeto foi mal recebido, especialmente por seu elevado custo, 
mas serviu de base e inspiração para que a Apple Computer, fundada por Steve Wozniak e 
Steven   Jobs,   pudesse   desenvolver   seu   novo   PC,   um   microcomputador   chamado   LISA 
(Local Integrated System Architecture), lançado em 1983.

A Apple já havia lançado outros computadores, mas o LISA contava então com 16 
bits,   e   inovava   com   um   sistema   operacional   de   interface   gráfica,   ou   seja,   baseado   em 
windows (janelas), dois itens inovadores que estavam pela primeira vez disponíveis em um 
computador pessoal com preço mais acessível. 

Esta   geração   de   máquinas   da   Apple   também   não   foi   um   grande   sucesso,   muito 
embora   tenha   sido   comercializada   até   1985   com   o   nome   de   Macintosh   XL,   mas   teve   o 
mérito de abrir caminho para a geração seguinte, os agora denominados   Apple Macintosh 
de   1984,   uma   geração   de   microcomputadores   que  penetrou   rapidamente   o   mercado 
acadêmico  dos  EUA,  tendo  também  boa  aceitação  na automação  de escritórios.  Foi  um 
sucesso   de  vendas,  até  hoje lembrado  pela  indústria como   um  dos   mais   revolucionários 
microcomputadores de todos os tempos, pois trazia a integração de soluções gráficas, aliada 
a potência e um mouse.

61
 De fato o mouse fora oficialmente apresentado em uma demonstração pública em 9 de dezembro de 1968 
por Douglas C. Englebart e sua equipe do Satnford Research Institute, um projeto em que vinham trabalhando 
desde 1962. Mais detalhes em: <http://sloan.stanford.edu/mousesite/1968Demo.html>

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O   grande   sucesso   comercial   de   seu  hardware  encontrou   a   jovem   Apple   sem 
capacidade   para   atender   à   demanda   por  softwares,   assim   a   empresa   precisou   recorrer   a 
desenvolvedores   externos,   favorecendo   o   cenário   para   que   empresas   especializadas   em 
software  pudessem  surgir e/ou crescer com  a indústria; pode­se pensar em  nomes  como 
Lotus, Novell e  Microsoft como empresas que foram beneficiadas por este momento.

Mas   apesar   da   demanda   por   computadores   Apple,   foi   a   IBM   que   obteve   maior 
sucesso na forma de comercialização e fabricação de seu produto, o IBM­PC, aumentando 
muito   sua   participação   no   mercado,   apesar   de   rodar   um   sistema   operacional   que   em 
comparação com o do Macintosh poderia, já naquela época, ser considerado antiquado62. 

O sistema operacional dos IBM PC era o MS­DOS63 da Microsoft, que não contava 
com   interface   gráfica   e   tinha   todos   os   seus   comandos   controlados   exclusivamente   por 
inputs de teclado; mais à frente, ainda neste capitulo será narrada a história do MS­DOS.

“Tanto a entrada de fornecedores independentes de software quanto o  
crescimento   até   a   dominância   da   arquitetura   do   IBM­PC   estiveram  
relacionadas com a decisão  da IBM de obter a maioria dos componentes  
para   seu   microcomputador   de   fornecedores   externos,   incluindo   a   Intel  
(fornecedora do microprocessador) e a Microsoft (fornecedora do sistema  
operacional do PC, MS­DOS), sem forçá­los a restringir as vendas desses  
componentes a outros produtores”64

Apesar da tecnologia defasada, em favor da IBM pesavam os canais de distribuição 
já bastante estabelecidos, representantes comerciais, uma campanha de   marketing  e a sua 
reputação   no   mercado.   Todos   fatores   que   aliados   a   um   pesado   investimento   na 
reestruturação   das   linhas   de   produção   e   canais   de   distribuição   fizeram­na   sobrepujar   a 
Apple   e   os   demais   concorrentes   com   relativa   rapidez,   assim,   “para   concorrer   com   a  
florescente Apple, a IBM vendeu seu PC nas mais conhecidas lojas de departamento, como  
62
 Esta colocação parte da constatação de que um sistema baseado em interfaces amigáveis é mais moderno 
que um sistema baseado exclusivamente em linha de comando, permitindo por exemplo uma melhor curva de 
aprendizagem dos usuários.
63
 Sigla de Microsoft Disk Operational System
64
  MOWERY, David C., ROSENBERG, Nathan.  Trajetórias da Inovação  : A Mudança Tecnológica nos 
Estados Unidos da América no Século XX. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 2005. p. 173.

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Sears e Macy's, o que foi fundamental para transformar o computador em nova mercadoria  
de consumo”65. 

Este cenário fez com que em poucos anos, a participação do Macintosh no mercado 
mundial de  desktops  declinasse, de seu auge em 30 %, para os menos de 2 %, estimados 
hoje em dia. A crise que se instalou com a sucessiva perda de mercado dos computadores 
Apple para os PCs da IBM  fez com  que a companhia afastasse seu executivo fundador, 
Steven Jobs em 1985, assustando os leais usuários do “Mac”. Um novo presidente, John 
Sculley,   que   vinha   da   Pepsi­Cola   trazendo   na   bagagem   novas   técnicas   de   marketing, 
conseguiu, por um período, fazer a empresa reagir, contudo, para esta pesquisa o interesse 
por   Sculley   dar­se­á   mais   à   frente,   como   coadjuvante   de   um   significativo   detalhe   no 
desenvolvimento do Windows.66

 3.2. Do nascimento da Micro­soft67 à conquista do Desktop

Fundada em 1975 por William H. Gates III e Paul Allen – dois estudantes que se 
conheceram  por partilharem um  hobby  em comum: programar o computador PDP­10 da 
Digital Equipment Corporation – a Microsoft viria a se tornar um dos gigantes do setor de 
informática.

Foi neste ano (1975) que a revista Popular Electronics68 publicou uma reportagem de 
capa sobre o Altair 8800, considerado o primeiro computador pessoal. Reza a lenda que foi 
este artigo que empolgou Gates e Allen a desenvolverem a primeira versão da linguagem de 
programação conhecida como BASIC, pensada para funcionar no Altair.

A   fabricante   do   Altair,   Micro   Instrumentation   and   Telemetry   Systems   (MITS), 


comprou a linguagem da dupla, fornecendo­lhes assim o capital utilizado na fundação da 
Microsoft   em   Albuquerque,   Novo   México.   A   nova   empresa   tinha   como   objetivo 

65
  SANTOS   FILHO,   Gildo   Magalhães.  Um   bit   auriverde:   Caminhos   da   tecnologia   e   do   projeto 
desenvolvimentista   na formulação  duma política nacional de informática para o Brasil (1971­1992). 
1994. 280f. Tese (Doutorado História) ­ Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas, Universidade de 
São Paulo, São Paulo. p. 58
66
 KAWASAKI, Guy. O Jeito Macintosh. São Paulo: Callis, 1993.
67
 O nome da Microsoft era originalmente escrito desta forma: Micro­soft.
68
 Janeiro de 1975, Popular Electronics Magazine

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desenvolver novas versões de BASIC para outras companhias do setor. A Apple Computer, 
fabricante   do   Applle   II,   a   Commodore,   fabricante   do     PET,   e   a   Tandy   Corporation, 
fabicante do Radio Shack TRS­80, foram alguns dos primeiros clientes da Microsoft.

Em   1977   a   Microsoft   lançou   no   mercado   seu   segundo   produto,   o   Microsoft 


FORTRAN69,  outra  linguagem  de   programação,  e   lançou   também  versões   da  linguagem 
BASIC para os microprocesadores 8080 e 8086. Gates e Allen mudaram a companhia para 
Bellevue, Washington em 1979, estando agora já bem próximos de Seattle (a cidade natal 
de ambos). A mudança definitiva para Redmond, cidade próxima de Bellevue e atual sede 
da empresa, aconteceria em 1986.

Mas o que determinaria o destino da Microsoft foi o contrato com a IBM, em 1980, 
para escrever um sistema operacional para o IBM PC, microcomputador que seria lançado 
no ano seguinte para concorrer com a Apple e outras empresas do segmento. 

“A   decisão   de   comprar   o   software   do   sistema   operacional   da  


Microsoft foi guiada por dois fatores. O desenvolvimento do IBM­PC foi um  
“programa   de   choque”   empreendido   por   uma   unidade   de   negócios  
autônoma que tinha uma equipe ou tempo insuficientes para assegurar o  
desenvolvimento interno de uma família de componentes ou de um único  
sistema operacional. Igualmente importante, entretanto, foi a preocupação  
da IBM de que o PC pudesse operar um grande número de aplicações e  
outros programas desenvolvidos (...)”70 

Com o pouco tempo disponível para realizar a tarefa, a Microsoft adotou aquela que 
seria uma de suas principais práticas nos anos vindouros sempre que quisesse entrar em um 
mercado que não fosse de sua expertise: comprou a solução de outra empresa. 

69
 O FORTRAN ou Formula Translator já era empregado em 1955 no IBM 704, tendo sido inventado por John 
Backus em 1953.
70
  MOWERY, David C., ROSENBERG, Nathan.  Trajetórias da Inovação  : A Mudança Tecnológica nos 
Estados Unidos da América no Século XX. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 2005. p. 173­174.

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A aquisição foi o QDOS (Quick and Dirty Operating System) de Tim Paterson, um 
programador de Seattle, por US$ 50.000,00; este sistema seria rebatizado para MS­DOS ou 
Microsoft Disk Operational System.

Na medida que as vendas do MS­DOS disparavam, a Microsoft passou a ampliar 
seu   leque   de   produtos,   desenvolvendo   novos   ou   portando   uma   série   de   aplicativos 
comerciais   para   serem   utilizados   nos   IBM­PC.   Em   1982   lançou  softwares  como   o 
Multiplan,   um   programa   de   planilha   de   cálculo,   e   no   ano   seguinte   um   processador   de 
textos, denominado MS­Word.

Conforme apresentado anteriormente a Microsoft foi uma das primeiras companhias 
do   setor   que   se   dedicou   a   desenvolver   aplicações   para   o  Macintosh,   o   já   mencionado 
microcomputador lançado com grande sucesso pela Apple em 1984. Inicialmente a empresa 
obteve um grande êxito de venda em programas para Macintosh como o Word (1983) que 
fora   escrito   originalmente   para   os   IBM/PC   e   portado   em   1984   para   os   Macintosh,   o 
Multiplan,   um  software  de   planilhas   para   CP/M   (um   sistema   operacional   da   Digital 
Research), mais tarde portado para MS­DOS e Macintosh.

No ambiente do MS­DOS o Multiplan foi quase totalmente obliterado pela famosa 
planilha   de   cálculos   Lotus   1­2­3,   da   Lotus   Development   Corporation   e   mesmo   o   Word 
passou   a   enfrentar   forte   competição   de   diversos   concorrentes   como   WordStar   e 
WordPerfect.   Porém   de   posse   do   sistema   operacional   que   viria   a   se   tornar   o   sistema 
operacional  de  facto  dos   microcomputadores,   em   pouco   tempo   a   Microsoft   conseguiria 
eliminar ou absorver a concorrência em quase todas as frentes.

Para ela persistia a necessidade de “evoluir” o MS­DOS até o nível do sistema dos 
Macintosh, agregando a interface gráfica ao sistema, o que traz Sculley de volta à cena. 
Além de promover a recuperação nas vendas de computadores Macintosh, o executivo John 
Sculley   da   Apple,   deixou   outra   importante   herança   durante   sua   temporada   à   frente   da 
companhia. Foi Sulley quem firmou um acordo, autorizando a Microsoft, de Bill Gates a 
utilizar   a   interface   gráfica   do   sistema   operacional   Macintosh   no   desenvolvimento   do 
software que viria a ser batizado como Windows 1.0, lançado em 1985.

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O   Windows   conseguira   se   tornar   viável   no   final   da   década   de   1980,   sendo   não 
exatamente um sistema operacional, mas uma interface gráfica para a utilização do MS­
DOS71,  passo   necessário   no   rompimento   de   uma   das  principais  barreiras  à  adoção  mais 
generalizada dos PCs, que careciam de um ambiente  amigável, que não exigisse do usuário 
comandos escritos, algo, como sabemos, há muito disponível no Macintosh.

Com o Windows era possível ampliar (ou tornar mais acessíveis) as funcionalidades 
do   MS­DOS   e   incorporar,   pela   primeira   vez   às   máquinas   IBM­PC   com   este   sistema 
operacional uma interface gráfica, simplificando o trabalho do usuário.

Como o contrato da Microsoft com a IBM permitia­lhe, de forma expressa, vender 
seu   sistema   operacional   para   outras   empresas   e   fabricantes,   a   Microsoft   cresceu 
praticamente junto com o próprio mercado de computadores pessoais. Em 1984 ela já havia 
licenciado   seu   MS­DOS   para   mais   de   200   fabricantes   de   equipamentos   e,   assim,   seu 
sistema operacional se converteu no mais utilizado entre todos os PCs; alie­se a isso o fato 
de que para tornar o MS­DOS mais amigável era necessário adquirir também o Windows 
1.0 (1985) e temos o cenário que proporcionou à empresa um crescimento vertiginoso na 
década de 1980. 

O   ano   de   1987   testemunhou   o   lançamento   do   Windows   2.0,   que   melhorava   o 


rendimento da máquina e oferecia um novo visual, com mais cores. Três anos mais tarde, 
uma nova versão, o Windows 3.0, que foi seguido pelo Windows 3.1 e 3.11 (1992). Estas 
versões,   que   já   vinham   pré­instaladas   na   maioria   dos   equipamentos   converteram­se 
rapidamente   nos   sistemas   operacionais   mais   utilizados   do   mundo,   assim,   em   1990   a 
Microsoft já era a empresa líder de programas para computadores pessoais. O Windows 
3.11 que agregava capacidades de rede ao sistema deu início à derrocada de empresas como 
Novell e Lantastic que produziam sistemas operacionais focados em redes corporativas de 
computadores.

Para   fazermos   curta   uma   história   longa,   reproduzimos   abaixo   um   trecho   da 
reportagem "The Gates Operating System", publicada na revista TIME:

71
 Para rodar o Windows 1.0 era necessário ter instalado no computador o MS­DOS 2.0 (no disco rígido) e um 
mínimo de 256 KB de RAM.

31/08/2006 ­ 20060830_rbns.odt 46
"Logo depois que Gates apresentou seu programa Windows 3.0 em  
1990, a indústria de softwares estava se entregando. Mais de 60 milhões de 
cópias do programa Windows haviam sido vendidas, o que estabeleceu o  
sistema operacional da Microsoft como o software padrão dos PCs e deixou  
companhias como a Lotus e WordPerfect incomunicáveis (fora do padrão)  
pois elas vinham criando aplicações para o sistema da IBM, o OS/2. Seis  
anos após o lançamento do Windows a Microsoft domina os mercados de  
processadores de textos e planilhas de cálculo."72

Este caminho levou a Microsoft a consolidar seu domínio mundial no campo dos 
sistemas operacionais para computadores pessoais (PCs) e conseguir assim  uma enorme 
capacidade de fundos e penetração em diversos outros segmentos. A base deste domínio da 
Microsoft estava então estabelecida: o controle sobre o sistema operacional e o conseqüente 
controle sobre os softwares de escritório como planilhas e processadores de texto. 

A   posição   da   Microsoft   quando   se   consolida   como   líder   do   mercado   de   PCs, 


coincide com as acusações de práticas desleais e/ou monopolistas praticadas pela empresa. 
A primeira acontece em 1990, quando a FTC 73  inicia uma investigação sobre a Microsoft 
por supostas práticas contrárias à livre concorrência, mas sendo incapaz de determinar uma 
sentença   (positiva   ou   negativa)   a   FTC   abandona   o   caso   em   1993,   sendo   o   mesmo 
continuado pelo Departamento de Justiça norte­americano.

Em 1994 a Microsoft e o Departamento de Justiça firmaram um acordo em que a 
Microsoft   deveria   abandonar   práticas   que   foram   consideradas   abusivas,   modificando   a 
forma   de   vender   e   conceder   licenças   de   seus   sistemas   operacionais   aos   fabricantes   de 
computadores   (OEM),   e   impedindo   que   fossem   feitos   contratos   que   exigissem   a 
exclusividade de instalação do Windows. O acordo também impedia a Microsoft de celebrar 
contratos de confidencialidade (NDAs) com outros desenvolvedores de  software, e impedia 
que     a   Microsoft   exigisse   de   seus   parceiros   a   assinatura   de   qualquer   contrato   de 
confidencialidade que os proibisse de desenvolver software para outras plataformas.

72
 The Gates Operating System; TIME; JANUARY 13, 1997 VOL. 149 NO. 2; USA.
73
 Federal Trade Commission, ou  Comissão Federal do Comércio

31/08/2006 ­ 20060830_rbns.odt 47
Em 1991 a Microsoft e a IBM encerraram uma década de parceria, quando a IBM, 
apercebendo­se das  dimensões  do  mercado  de  softwares, e  da  centralidade dos  sistemas 
operacionais   neste   mercado,   decidiu   dar   seqüência   a   um   antigo   projeto   que   tinha   em 
comum   com   a   Microsoft,   o   sistema   operacional   OS/2   (lançado   no   mercado   em   1987). 
Defasado o OS/2 Warp, segunda versão do OS/2, este não encontrou espaço e nunca chegou 
a ser um real concorrente para o Windows nos desktops.

O efetivo domínio da Microsoft nas redes corporativas aconteceria apenas com o 
lançamento do Windows NT em 1993, seu primeiro sistema multitarefa e multiusuário de 
32  bits.   O   Windows   NT   foi   um   lançamento   de   sistema   operacional   especialmente 
desenhado   para   ambientes   corporativos,   onde   foi   introduzida   uma   Nova   Tecnologia 74  de 
controle de arquivos no disco, chamada NTFS que permitiu um SO semelhante aos UNIX, 
com controle de usuários e permissões de leitura e gravação.

Também  em  1993  a Apple perdeu um  processo  movido  contra a Microsoft  onde 


acusava a empresa de violação do direito autoral por haver copiado o desenho da interface 
gráfica do Macintosh.

Em 1995 a Microsoft lançou o Windows 95, que trazia uma mudança sensível na 
interface gráfica e não necessitava mais do MS­DOS, sendo agora um sistema totalmente 
gráfico.   Multi­tarefa   e   com   uma   boa   capacidade   multi­mídia,   o   Windows   95   foi   um 
sucesso,   passadas   apenas   sete   semanas   de   seu   lançamento   haviam   sido   vendidas   sete 
milhões   de   cópias.   A   Microsoft   passou   ainda   nesta   época   a   operar   também   meios   de 
comunicação,   instituindo   empresas   e   divisões   como   The   Microsoft   Network   (1995)   e 
MSNBC (1996). 

A visão de Bill Gates de que haveria um computador em cada mesa de cada casa e 
escritório75  foi   realmente   uma   grande   antecipação   do   que   estava   por   vir,   porém   tanto   o 
executivo como a Microsoft falharam em ver algo realmente grande que vinha na mesma 
direção: a Internet.

74
 New Technology, ou NT
75
 http://www.microsoft.com/billgates/speeches/industry&tech/iayf2005.asp

31/08/2006 ­ 20060830_rbns.odt 48
A Internet, ou melhor a WWW ou World Wide Web nasceu como uma estrutura 
descentralizada de computadores em rede, capazes de comunicarem­se entre si e manterem 
a comunicação independente da perda de algum servidor (ou algum nó da rede). A idéia 
original   partira   dos   militares   norte­americanos   e   depois   expandiu­se   para   o   mundo 
acadêmico, contando com diversos protocolos de comunicação e transferência de arquivos. 

A   entrada   do   grande   público   na   rede   deu­se   com   o   lançamento   de   um   software 


chamado Mosaic, pelo National Center for Super Computing (NCSA) entre 1992 e 1993, 
este  software  permitia   uma   navegação   simplificada   por   páginas   HTML   acessíveis   pelo 
protocolo HTTP, algo que até hoje é identificado pelas pessoas em geral como sendo “A 
Internet”, quando na verdade esta envolve e contempla diversos outros elementos.

Em   1994   foi   fundada   a   Netscape   Communications   Corporation   que   lançou   o 


Netscape Navigator, um browser que rapidamente dominaria a quase totalidade do mercado, 
atingindo 90% em seu auge. 

Já na metade de 1995 a Internet começou a ganhar especial atenção do público e da 
mídia, sendo colocada por muitos analistas e veículos de comunicação como a derradeira 
evolução   da   indústria   da   informática,   trazendo   promessas   de   novos   paradigmas   em 
educação, comunicação, lazer e trabalho. Sem dúvida as promessas vinham embaladas no 
tradicional  exagero  que  acompanha  o  entusiasmo   por  novas  tecnologias,  mas  neste  caso 
estavam ao menos parcialmente dentro do que aconteceria nos anos vindouros.

A Microsoft só ingressou efetivamente no mercado dos  browsers  em 1995 com o 


lançamento   do   Windows  95  Plus!,  uma   pacote  que   trazia  atualizações,  novos  elementos 
gráficos   e   instalava   o  browser  Internet   Explorer   1.076  no   Windows   95.   Apesar   do 
engajamento   tardio   a   empresa   fez   do   controle   do   mercado   dos  browsers  um   ponto 
estratégico e empenhou muito de seus amplos recursos nesta meta.

A   história   da   ascensão   da   Netscape   e   seu   browser,   o   lançamento   do   Internet 


Explorer e a posterior queda da Netscape englobam o que é referido pela indústria como  a 
guerra dos browsers (browser wars) e são um dos principais casos lembrados quando se 

76
  O  Internet   Explorer  utilizava   já  desde   sua  primeira  versão  o  código  fonte   do  Mosaic  Spyglass,  que   a 
Microsoft licenciou da Spyglass, uma empresa de Internet originada dentro da Universidade de Illinois.

31/08/2006 ­ 20060830_rbns.odt 49
quer   exemplificar   o   poder   disponível   à   Microsoft   por   controlar   o   mercado   de   sistemas 
operacionais   como   o  Windows.  A  estratégia  da  Microsoft   consistiu   em   oferecer  versões 
grátis dos produtos para servidores que a Netscape comercializava, o que inicialmente não 
teve   grande   efeito   pois   o   mercado   central   da   Netscape   eram   servidores   SUN,   rodando 
UNIX, mas com a popularização do Windows NT a companhia foi sendo asfixiada pela 
baixa em suas receitas. Além disso, a Microsoft passou a integrar o Internet Explorer em 
seus produtos, alegando que não era um software, mas sim uma funcionalidade do sistema.

Em 1996 surgiu o Windows CE (Compact Edition), projetado para computadores 
portáteis   e   outros   aparelhos   de   pequeno   porte   e   processamento   que   necessitem   de   um 
sistema operacional, e em 1998 surgia o Windows 98 que corrigia inúmeras falhas de seu 
antecessor   e   tinha   como   diferencial   uma   alardeada   integração   do   SO   com   a   Internet, 
viabilizada pelo   Internet Explorer 4, um  software  que vinha praticamente “soldado” ao 
Windows e interagia com diversas funções do SO e com outras camadas de software. 

Esta   fusão   do   Internet   Explorer   ao   Windows,   que   era   apresentada   como   uma 
evolução do sistema, era também um golpe mortal no  browser  Netscape, que não tinha a 
mesma vantagem competitiva de vir pré­instalado no sistema operacional, muito embora a 
Netscape, sem condições de se manter na briga com a Microsoft, tinha sido comprada pelo 
provedor de acesso e conteúdo América On­Line neste mesmo ano.

O saldo da guerra dos  browsers  foi positivo para a Microsoft, que terminou com 


mais de 90% do mercado (mais do que a Nestcape teve em seu auge), porém a vitória não 
aconteceu sem danos.

Ainda   dentro   da   proposta   de   estender   sua   atuação   para   os   campos   da   mídia   e 


comunicações, em 1997, por US$ 425 milhões, a Microsoft adquiriu a WebTV Networks, 
um fabricante de aparelhos de baixo custo para conectar televisores à Internet, e no mesmo 
ano   a   empresa   investiu   US$   1   bilhão   na   Comcast   Corporation,   um   operador   norte­
americano   de   televisão   a   cabo,   como   parte   de   sua   declarada   política   de   estender   a 
disponibilidade de conexões de banda larga à Internet.

No final de 1997 o Departamento de Justiça acusou a Microsoft de violar o acordo 
de   1994,   obrigando   os   fabricantes   de   computadores   que   instalavam   o   Windows   95   a 

31/08/2006 ­ 20060830_rbns.odt 50
incluírem   o   Internet   Explorer   como   seu  browser  de   Internet.   O   Governo   alegou   que   a 
companhia estava se aproveitando de sua posição no mercado de sistemas operacionais para 
conseguir o monopólio dos browsers. Em sua defesa a Microsoft justificava que deveria ter 
o  direito  de  melhorar  as  funcionalidades  do   Windows,  integrando   o   browser  ao  sistema 
operacional, acrescentando a este funções e capacidade relativas ao acesso à Internet. 

Também em fins de 1997 a Sun Microsystems processou a Microsoft, alegando que 
esta   havia   descumprido   o   contrato   pelo   qual   se   permitia   que   a   Microsoft   utilizasse   a 
linguagem JAVA, um tipo de linguagem de  programação desenvolvida pela SUN, com forte 
característica   de   universalidade,   que   em   tese   permite   que   programas   escritos   nesta 
linguagem   sejam   executadas   em   qualquer   plataforma   e/ou   sistema   operacional.   A   SUN 
acusava a Microsoft de introduzir na linguagem melhoras específicas e exclusivas para o 
Windows,   o   que   na   prática   equivalia   a   minar   a   principal   característica   do   JAVA,   sua 
capacidade multi­plataforma. 

Em novembro de 1998 um tribunal atendeu às demandas da SUN e sentenciou a 
Microsoft   a   revisar   seu  software  para   atender   os   padrões   e   especificações   de 
compatibilidade com JAVA. 

No início de 1998 a Microsoft chegou a um acordo com o Departamento de Justiça 
no caso relativo ao processo de 1997 (onde foi acusada de violar o acordo de 1994). Este 
novo acordo permitia aos fabricantes de PC oferecerem uma versão do Windows 95 sem 
acesso ao Internet Explorer. 

Mesmo   assim,   em   maio   de   1998   o   Departamento   de   Justiça   e   vinte   estados   dos 


Estados   Unidos   apresentaram   queixas   contra   a   Microsoft   por   supostas   práticas 
monopolistas   e   por   abusar   de   sua   posição   dominante   no   mercado   para   destruir   os 
concorrentes. Estas ações obrigaram a Microsoft a vender uma versão do Windows sem o 
Internet Explorer ou a incluir o Navigator, então o   browser  da Netscape Communications 
Corporation, e seu principal competidor. Estas ações a obrigaram ainda a modificar alguns 
contratos e a sua política de preços.

31/08/2006 ­ 20060830_rbns.odt 51
O   julgamento   da   Microsoft   por   violação   das   leis   anti­monopólio   começou   em 
outubro   de   1998,   nele   testemunharam   executivos   da   Netscape,   SUN   e   diversas   outras 
empresas de software e hardware, sobre seus contratos empresariais com a Microsoft.

Em novembro de 1999, o juiz norte­americano Thomas Penfield Jackson do tribunal 
federal,   declarou   que   a   Microsoft   detinha   o   monopólio   do   mercado   de   sistemas 
operacionais,  em   abril  de  2000   esse  juiz  declarou  sua  sentença  contra a  companhia  por 
haver violado as leis anti­monopólio ao empregar táticas que minavam a competitividade.

Neste   ano   a   Microsoft   pagou   US$   5   bilhões   à   companhia   de   telecomunicações 


AT&T Corporation para que esta utilizasse seu sistema operacional Windows CE (CE para 
Compact   Edition,   ou   Edição   Compacta,   em   português)   em   dispositivos   projetados   para 
oferecer aos consumidores serviços integrados de televisão a cabo, telefone e acesso rápido 
à  Internet77. Além  disso, neste mesmo  ano a companhia lançou o Windows 200078, uma 
nova versão de seu sistema operacional Windows NT. O ano 2000 iniciou com Bill Gates 
transferindo seu cargo de presidente executivo (CEO) a Steve Ballmer, alegadamente para 
que pudesse concentrar­se no desenvolvimento de novas tecnologias, agora com o cargo de 
Chief Software Engineer.

Em   junho   de   2000,   o   mesmo   juiz   Jackson   decidiu   que   a   Microsoft   Corporation 


deveria   ser   dividida   em   duas   empresas   por   haver   violado   a   lei   anti­monopólio   norte 
americana79 (conhecida como Sherman Antitrust Act). Esta decisão que poderia ter trazido 
profundas conseqüências para a indústria de tecnologia e para a regulação das empresas no 
Estados Unidos não foi levada a cabo.

Diretores da Microsoft qualificaram a decisão de pouco razoável e afirmaram que 
ela poderia ser anulada com uma apelação para os responsáveis pelo  caso no Departamento 
de Justiça. Esta vitória repercutiria em benefício tanto dos consumidores como da própria 
indústria. 

A sentença que ordenou a divisão da empresa foi, possivelmente, a mais rigorosa 
desde 1982, quando a justiça norte­americana eliminou o monopólio da AT&T no ramo das 

77
 http://www.cfoasia.com/archives/9910­38.htm
78
 Lançado em 1999.
79
 http://money.cnn.com/2000/06/07/technology/microsoft_ruling/

31/08/2006 ­ 20060830_rbns.odt 52
telecomunicações,   desmembrando   a   empresa.   O   Juiz   Jackson   baseou   sua   decisão   nas 
recomendações   do   Departamento   de   Justiça,   e   a   ordem   do   juiz   estipulou   que   uma   das 
companhias deveria ocupar­se dos sistemas operacionais, enquanto a outra dos softwares de 
aplicações   e   de   serviços,   como   o   MS   Office,   MS   Exchange,   a   enciclopédia   eletrônica 
Encarta e os serviços de Internet oferecidos via MSN. Ainda segundo a decisão, os altos 
executivos da empresa, entre eles Bill Gates e Steve Ballmer, deveriam escolher para qual 
das duas novas empresas iriam trabalhar. 

A   sentença   também   impôs   significativas   restrições   às   praticas   de   negócio   da 


Microsoft,   o   que   para   alguns   analistas   eram   potencialmente   mais   prejudiciais   do   que   a 
própria divisão de empresa. Entre as decisões do tribunal constavam determinações como: o 
estabelecimento de controles estritos sobre o modo de venda e comercialização do sistema 
Windows. 

A Microsoft deveria proporcionar a outros desenvolvedores de   software  acesso ao 


código fonte do Windows, e aos fabricantes de computadores a possibilidade de adaptar o 
Windows   às   suas   necessidades   e   especificações.   Windows   e   Internet   Explorer   deviam 
desvincular­se e ser vendidos como produtos separados.

Na   época   o   juiz   afirmou   que   se   vira   forçado   a   tomar   esta   decisão   porque 
“relutantemente cheguei a conclusão  que uma punição  estrutural se tornou imperativa: a  
Microsoft da maneira que está atualmente organizada e conduzida é incapaz de aceitar a  
noção de que infringiu a lei ou cumprir uma decisão corrigindo sua conduta.”80.

Os representantes da Microsoft reagiram violentamente à decisão de Jackson de não 
conceder­lhes   o   tempo   que   solicitaram   para   preparar   e   apresentar   argumentos   contra   a 
decisão. Especialistas em jurisprudência questionaram o abrupto final dado ao caso com 
esta decisão do juiz Jackson, e os advogados da Microsoft expressaram sua confiança na 
atuação do Tribunal de Apelações do Distrito de Colúmbia e recordaram que este tribunal já 
havia contestado uma decisão de Jackson em  1998 e determinou que a companhia tinha 
direito de fundir o Internet Explorer com o Windows se isso resultasse em benefício para o 
consumidor.

80
 http://money.cnn.com/2000/06/07/technology/microsoft_ruling/

31/08/2006 ­ 20060830_rbns.odt 53
Jackson ordenou deixar em suspenso o plano de divisão até que fosse cumprida a 
fase de apelações. Em 20 de junho, inesperadamente, o juiz alterou sua opinião e obrigou a 
empresa a mudar suas práticas comerciais até que um tribunal superior decidisse sobre o 
caso.   Ao   mesmo   tempo,   posicionou­se   favoravelmente   ao   Departamento   de   Justiça   e 
decidiu enviar o caso para o Supremo Tribunal. Este, por sua vez, poderia dar andamento ao 
caso ou devolvê­lo ao Tribunal de Apelações.

Aqui   cabe   um   parênteses   para   retomarmos   restrospectivamente   a   evolução   desta 


idéia  de   interface   gráfica:   ela   foi   adotada   pelo   Windows   1.0   (Microsoft)   em   1985,   com 
idéias baseadas na interface gráfica do LISA (Apple) de 1983, que fora inspirado/copiado 
da interface do Star 8010 (Xerox) de 1981, este derivando diretamente do Alto (Xerox) de 
1972.  Todas estas interfaces gráficas são, claro, dependentes da utilização e dos conceitos 
propostos pelo mouse de Douglas Englebart e sua equipe, desenvolvido entre 1962 e 1968 
na Universidade de Stanford.   Novamente a questão da propriedade das idéias se coloca 
com ênfase. A quem pertence a idéia da interface gráfica?

Assim, o Windows como o conhecemos tem parte de sua origem no Q­DOS de Tim 
Paterson, no Xerox Star e na interface dos Macintosh., já o outro sistema operacional objeto 
de  nossa  análise,  o   Linux,  deriva  sua  origem  de  um   sistema  operacional  mais   antigo,  e 
durante um bom tempo mais sofisticado81, o UNIX. 

Criado   nos   Bell   Laboratories82  o   UNIX   teve   sua   primeira   versão   compilada   em 
196983,   e   no   que   diz   respeito   a   sua   arquitetura   e   premissas   o   Linux   é   considerado   um 
“clone84”   do   UNIX   utilizando   inclusive   a   mesma   nomenclatura   em   seus   comandos 
operacionais principais .

Enquanto o sistema operacional MS­DOS e sua evolução, o Windows, avançavam 
no domínio do mercado mundial de desktops, o UNIX e seus diversos clones tornavam­se a 
opção   do   mercado   de   servidores,   tinham   boa   penetração   entre   pesquisadores, 

81
 Como exemplo dessa sofisticação pode­se indicar a existência de diferentes usuários com perfis próprios e a 
faculdade de atribuir permissões de acesso aos arquivos 
82
 http://www.bell­labs.com/history/unix/
83
 http://cm.bell­labs.com/cm/cs/who/dmr/hist.html
84
 A popularidade do sistema UNIX, que em geral é atribuída às suas capacidades e arquitetura, fez com que 
surgissem diversos “clones”, ou seja, outros sistemas operacionais que emulam seus conceitos. Alguns destes 
clones são: HPUX (da Hewlett­Packard), Solaris da SUN Microsystems, MINIX e Linux. 

31/08/2006 ­ 20060830_rbns.odt 54
departamentos   de   ciência   da   computação   e   no   meio   acadêmico   universitário   em   geral, 
possivelmente   por   suas   características   de   arquitetura   e   administração,   então   sem 
similaridade nos produtos da Microsoft.

 3.3. O nascimento do Linux

Em   25   de   agosto   de   1991,   uma   mensagem   postada   por   um   então   aluno   da 


Universidade   de   Helsinki,   em   um   BBS,   inesperadamente   tornava­se   um   documento 
histórico, anunciando pela primeira vez, o nascimento de um modesto sistema operacional 
batizado de Linux, outro clone do UNIX como o seu próprio nome denunciava:

“From: torvalds@klaava.Helsinki.FI (Linus Benedict Torvalds)
Newsgroups: comp.os.minix
Subject: What would you like to see most in minix?
Summary: small poll for my new operating system
Keywords: 386, preferences
Message­ID: 1991Aug25.205708.9541@klaava.Helsinki.FI
Date: 25 Aug 91 20:57:08 GMT
Organization: University of Helsinki
Lines: 20

Olá a todos aí fora usando minix ­
Eu estou fazendo um sistema operacional (grátis) (é só um passatempo, não vai ser grande e 
profissional como o gnu) para clones 386(486)AT. Ele tem fermentado desde abril, e está  
começando a ficar pronto. Eu gostaria de comentários sobre coisas que as pessoas 
gostam/desgostam no minix, uma vez que meu SO lembra­o de alguma forma (mesma organização  
física do sistema de arquivos (devido a razões práticas) entre outras coisas).
Eu já portei o bash (1.08) e o gc(1.40), e as coisas parecem funcionar.
Isso sugere que eu vou conseguir algo prático em alguns poucos meses, e eu gostaria de saber quais  
as funções que a maioria das pessoas quer. Qualquer sugestão é bem­vinda, mas eu não vou 
prometer que vou implementá­las :­)

Linus (torvalds@kruuna.helsinki.fi)
PS.  Sim ­ ele está livre de qualquer código do minix, e tem um fs (file system ­ sistema de arquivos) 
de múltiplas transações.
Ele NÃO é portável (utiliza chaveamento de tarefas do 386 etc), e ele provavelmente nunca irá  
suportar qualquer coisa além de discos rígidos AT, uma vez que são tudo o que tenho :­(.85”
85
 Texto Original: “Hello everybody out there using minix ­
I'm doing a (free) operating system (just a hobby, won't be big and professional like gnu) for 386(486) AT 
clones.  This has been brewing since april, and is starting to get ready.  I'd like any feedback on things people 
like/dislike in minix, as my OS resembles it somewhat (same physical layout of the file­system (due to  
practical reasons) among other things).

31/08/2006 ­ 20060830_rbns.odt 55
Com esta mensagem, em 1991 Linus Torvalds deu início ao processo de construção 
coletiva do sistema operacional Linux, um sistema operacional “tipo X”86.
O   embate   entre   Windows   e   Linux   traz,   além   do   mérito   técnico   de   cada   sistema 
operacional, uma avaliação e ponderação sobre as soluções tecnológicas e as metodologias 
adotadas em  cada sistema, que acabam  evidenciando questões  ideológicas  em  seara que 
seria inicialmente apenas técnica. 

 3.4. O GNU/Linux e a antiga novidade do Software Livre

Richard   Stallman   criou   a  Free   Software   Foundation  em   1984   iniciando   o   projeto 


GNU87, segundo Stallman sua motivação foi constatar o virtual desaparecimento da cultura 
de compartilhamento de softwares dentro do laboratório de Inteligência Artificial do MIT, 
de   onde   seus   pares   estava   saindo   para   entrar   ou   para   fundar   companhias   de  software 
proprietário.
Stallman é o autor da idéia por trás do " free software" (no Brasil batizado de Software 
Livre)   segundo   a   qual   aos   programadores   deveria   ser   garantido   o   direito   de   acesso   ao 
código fonte dos softwares permitindo que alterações fossem feitas para adaptar o software 
a cada necessidade.
Foi   Stallman   quem   criou   a   famosa   licença   GNU/GPL   (sob   a   qual   o   Linux   é 
licenciado), a GNU General Public License (GNU/GPL) garante ao usuário de um  software 
o direito de ter acesso ao código fonte e produzir as alterações que julgar conveniente, mas 
obriga a distribuição futura deste software a ser feita nos mesmos termos.
I've currently ported bash(1.08) and gcc(1.40), and things seem to work. 
This implies that I'll get something practical within a few months, and I'd like to know what features most 
people would want.  Any suggestions are welcome, but I won't promise I'll implement them :­)

Linus (torvalds@kruuna.helsinki.fi)
PS.  Yes ­ it's free of any minix code, and it has a multi­threaded fs. 
It is NOT protable (uses 386 task switching etc), and it probably never will support anything other than AT­
harddisks, as that's all I have :­(.”
86
 Diz se sistema “tipo X” quando um sistema operacional é derivado do UNIX.
87
 GNU é um acrônimo recursivo para "GNU's Not Unix", um tipo de piadinha recorrente entre os hackers e 
geeks.   A   página   oficial   do   projeto   GNU   na   internet   (http://www.gnu.org/gnu/gnu­history.html)   oferece   a 
seguinte explicação sobre a sigla: "O nome 'GNU' foi escolhido porque atende alguns requisitos; primeiro, era 
um   acrônimo   recursivo   para   'GNU   não   é   Unix'   (GNU's   Not   Unix),   segundo,   porque   era   uma   palavra 
verdadeira, e terceiro, era divertida de dizer (ou cantar)."

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Esta   idéia   ganhou   força   inicialmente   na   comunidade   acadêmica   e   já   em   1989   a 
Universidade   da   California   em   Berkeley   lançaria   alguns  softwares  livres   (protocolos   e 
ferramentas para rede) sob outra licença a Berkeley  Software Distribution ou BSD como é 
conhecida, e em 1991 sob a mesma licença quase todo o código fonte de seu clone do Unix, 
o BSD Unix.
Assim   dois   aspectos   fundamentais   separam   os   dois   sistemas   operacionais   que 
analisamos, o primeiro sua maneira de licenciamento, enquanto o Windows vende licenças 
de utilização para seu  software  compilado, o Linux é licenciado sob a égide do  Software 
Livre  que permite a livre distribuição e utilização do   software. Isso não significa apenas 
uma diferença de custos, mas na verdade uma diferença de conceitos, em tese um usuário 
do Linux pode ter acesso ao seu código fonte e fazer alterações diretamente no coração do 
sistema, algo não permitido no Windows.
Esta primeira dicotomia, leva à segunda que é também relevante para este trabalho, a 
forma   de   desenvolvimento   das   duas   tecnologias.   Além   de   estarem   historicamente 
enraizados   em   conceitos   diferenciados   os   dois   sistemas   operacionais   são   desenvolvidos 
dentro de duas lógicas completamente diferentes, o Windows tem uma equipe (ou equipes) 
de   desenvolvimento,   que   trabalham   o   código   (ou   parte   do   código)   sem   contato   com   o 
mundo exterior e atendendo apenas as demandas internas de cada departamento ou líder de 
projeto,   construindo   funcionalidades   e   otimizações   que   além   de   se   originarem   em 
necessidades técnicas também são geradas por departamentos de marketing e mesmo por 
psicólogos.  Já o Linux, insere­se em um anárquico processo de criação coletiva, sofrendo 
interferências   de   programadores   de   diferentes   países,   companhias   e   formações.   Parte   de 
nosso   trabalho   consiste   em   identificar   até   que   ponto   estas   diferentes   formas   de 
desenvolvimento e de licenciamento  interferem nos rumos tomados pela tecnologia de cada 
sistema operacional.

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 3.5. Visões de Mundo.

A   História   é   poder,   ou   melhor,   a   história   pertence   ao   poder.   Expressões   como 


"história dos vencidos" ou "história oficial" evidenciam a curiosa noção de que exista mais 
de uma história a ser contada.
Nosso objetivo é retratar e compreender os diferentes discursos envolvidos na acirrada 
contenda dos sistemas operacionais para computadores. A pretensão é produzir um resgate 
histórico   e   a   analítico   dos   discursos   de   dois   universos   coexistentes   porém   antagônicos, 
representados  pela lógica empresarial  capitalista  já  solidamente  consolidada do  software 
proprietário, e a alternativa de cores comunais do movimento do Software Livre.
Focando a reflexão no caso dos sistemas operacionais (Windows e Linux), a pretensão 
não   é   fazer   o   resgate   do   processo   histórico   que   constituiu   cada   um   dos   lados,   tarefa 
impossível aqui dada a limitação de espaço, propomos­nos sim a fazer o resgate histórico da 
maneira como  cada lado  tem  enxergado  e classificado a si  mesmo  e ao  seu  nêmesis ao 
longo de suas histórias.
Esse   debate   no   primeiro   plano   evidencia   a   disputa   capitalista   pelo   domínio   ­   e 
eventual   monopólio     ­   de   um   mercado   mundial   de   bilhões   de   dólares,   que   porém,   se 
considerado para além dos lucros é estratégico para empresas e mesmo para os  Estados 
Nacionais, pois constitui­se em ponto nevrálgico de uma das mais importantes tecnologias 
em   uso   na   sociedade   atual,   afetando   não   apenas   a   economia   mas   também   a   difusão   do 
conhecimento e até a organização social.
Portanto,   quais   são   e   têm   sido,   as   motivações   declaradas   e   ocultas   nos   diferentes 
discursos   das   partes,   em   especial   naqueles   que   emanam   de   “fatos”   aparentemente 
incontestáveis,   estatísticos,   técnicos,   econômicos,   que   criam   e/ou   aplicam   rótulos,   e 
pretendem­se   por   isso   aptos   a   definir   o   caminho   futuro   da   disputa   pela   hegemonia   da 
tecnologia. 
A luta pelo poder, presente nos discursos destes dois grupos, organizada na cronologia 
do tempo histórico auxilia na compreensão dos caminhos do desenvolvimento tecnológico, 

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que   passam   não   só   pela   busca   da   superação   técnica   do   antagonista,   mas   também   pela 
conquista dos corações e mentes dos usuários, das empresas e dos governos.
Novamente não é uma análise de mérito quanto à qualidade de cada tecnologia que se 
busca aqui, algo fora dos propósitos do texto, mas sim evidenciar que ainda que se pretenda 
o contrário, para o desenvolvimento tecnológico, o futuro não está dado e não é certo, e que 
críticas ao atual raciocínio economicista dominante podem surgir mesmo no interior dos 
mecanismos que originalmente o haviam engendrado, sendo capazes de derivar em formas 
de   resistência.   No   fim   as   escolhas   tecnológicas   parecem   estar   marcadas   de   maneira 
indelével por diferentes visões de mundo.
Aqui   buscamos   retratar   o   quanto   da   disputa   pela   técnica   e   pela   tecnologia   é 
determinada por aspectos comerciais, ideológicos e passionais, pretendendo produzir um 
resgate histórico e analítico dos discursos de dois universos co­existentes e antagônicos da 
micro­informática: a lógica empresarial já solidamente consolidada do software proprietário 
e a recente alternativa a esta lógica proposta pelo movimento do Software Livre.
Uma   vez   que   o  Software   Livre  é   alternativa   de   desenvolvimento   tecnológico   de 
natureza difusa é impossível que seja identificado com uma única entidade ou grupo (já que 
diferentes empresas, governos, ONGs e comunidades o representam e/ou advogam em seu 
favor), aqui trabalharemos com  duas vertentes, a forma de licenciamento GNU/GPL  e o 
sistema operacional Linux que dela faz uso. Na defesa das posições do  software proprietário 
e em oposição ao ideário do Software Livre, posicionamos a Microsoft Corporation – sem 
dúvida um dos maiores expoentes deste outro modelo de desenvolvimento tecnológico.
Antes   de   avançarmos   cabe   breve   conceituação   sobre  Software   Livre  e  software 
proprietário: o  software  proprietário é o  software  desenvolvido e comercializado por uma 
determinada empresa da mesma maneira que um produto tradicional. 
Porém   a   empresa   tem   sobre   este   produto   (que   é   um   produto   essencialmente 
intelectual) direitos de propriedade ainda mais abrangentes do que em outros segmentos, 
podendo legalmente impedir o consumidor final de utilizar, copiar, distribuir, revender e 
alterar o  software  da  maneira  que  bem  entender,  algo  por exemplo  impensável  com  um 
automóvel. O usuário fica portanto restrito aos termos de licenciamento do fabricante do 
software.

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O software proprietário é o modelo mais conhecido de licenciamento de software, mas 
é um modelo que vem sendo constantemente desafiado pelo   Software Livre, que pode ser 
definido da seguinte maneira:

“É   um   programa   de   computador   de   código­fonte   aberto,  


possibilitando que qualquer técnico possa estudá­lo, alterá­lo, adequá­lo às  
suas próprias necessidades e redistribuí­lo, sem restrições. Geralmente os  
softwares livres também são gratuitos.”88

É   certo   que   no   início   da   indústria   da   informática   ninguém   se   ocupava   muito   dos 


softwares,   eles   já   eram   parte   integrante   do   pacote   para   empresas   e   instituições   com 
capacidade orçamentária suficiente para adquirir um computador, além disso, os primeiros 
técnicos   e   pesquisadores   estavam   imbuídos   do   espírito   de   cooperação   acadêmica   e 
compartilhamento.
Como   visto   atrás,   com   a   popularização   do   computador,   especialmente   dos   micro­
computadores   domésticos   (os   PCs89)   empresas   especializadas   na   produção   de  softwares 
surgiram e ganharam força, entre elas estava a Microsoft que embarcou em um vantajoso 
contrato com a já poderosa IBM que proporcionou a popularização de seu sistema DOS. 
Sobre o DOS a Microsoft construiu o Windows, seu primeiro sistema gráfico, gerenciado 
por janelas e uma interface que tornava o contato com  o computador mais humanizado, 
permitindo uma ampliação da base usuária (nos moldes de pesquisas e desenvolvimentos 
que já haviam sido feito por outras empresas como a Apple e a Xerox). 
O   surgimento   dessas   empresas   fez   cair   em   desuso   o   software  “sem   dono”   a   que 
haviam   se   acostumado   os   acadêmicos   e   os   entusiastas   dos   primeiros   tempos   do   micro­
computador, algo  que  não  passaria  sem  uma  resposta  e uma tentativa  de resgate com  o 
Software Livre. Se as guerras, para além dos campos de batalha, são também ganhas nos 
corações e mentes das pessoas, o combate entre o software proprietário e o Software Livre 
segue acirrado já faz alguns anos.

88
  CASSIANO, João. Cidadania Digital: Os Telecentros do Município de São Paulo.  In: SILVEIRA, Sérgio 
Amadeu da., CASSIANO, João (Org.)  Software Livre e Inclusão  Digital.  São Paulo: Conrad Editora do 
Brasil, 2003. 
89
PC = Personal Computers, ou Computador Pessoal.

31/08/2006 ­ 20060830_rbns.odt 60
 3.6. O Linux e o movimento do Software Livre pelos olhos da  
Microsoft, o Windows e a Microsoft pelos olhos do movimento do  
Software Livre.

"Com as palavras todo cuidado é pouco, mudam de opinião como as pessoas."
José Saramago ­ As Intermitências da Morte ­ pg. 69

Roszack90 rememora que o espírito dos jovens técnicos que iniciaram a revolução da 
micro­eletrônica nos EUA era o espírito do movimento “hippie”, a idéia de “compartilhar” 
o fruto do trabalho estava na base do que viria a ser conhecido como a cyber­cultura, os 
computadores   pessoais   eram  per   si  socialmente   revolucionários   quando   começaram   a 
surgir, ou pelo menos assim pensava uma grande parcela dos pioneiros. 
Mas   tão   logo   sua   importância   econômica   tornou­se   evidente,   ganhou   força   o 
movimento   de   refluxo   neste   conceito   de   compartilhar,   logo   considerado   amador   e 
inadequado   ao   mundo   empresarial.   Já   em   1976   Bill   Gates   alertava   para   o   problema   da 
pirataria, em sua uma “Carta aberta aos Hobistas91” onde acusava os entusiastas amadores 
(hobbyists)   de   roubarem   seu  software  e   desta   forma   prejudicarem   as   possibilidades   de 
evolução,   já   que   sem   os   dividendos   ele   não   poderia   contratar   programadores   para 
aperfeiçoar os softwares.
Esta carta é nosso ponto de partida para a análise dos diferentes discursos envolvidos 
na acirrada contenda dos sistemas operacionais que eclodiria com força total um quarto de 
século adiante.
90
  ROSZAK,  Theodore.  The   Cult  of   Information   :  A   Neo­Luddite   Treatise   on   High   Tech,  Artificial 
Intelligence, and the true Art of Thinking. New York : Pantheon Books, 1986.
91
  “Bill Gates is one of the first programmers to raise the issue of software piracy. In "An Open Letter to 
Hobbyists," first published in MITS Computer Notes, Gates accuses hobbyists of stealing software and thus 
preventing "...good software from being written." He prophetically concludes with the line, "...Nothing would 
please me more than being able to hire ten programmers and deluge the hobby market with good software."”
Disponível em: Key Events in Microsoft History ­ key_events_in_microsoft_history.doc (83 KB) em:  
http://www.microsoft.com/downloads/info.aspx?na=46&p=4&SrcDisplayLang=en&SrcCategoryId=&SrcFam
ilyId=b604bb05­7c33­4643­96b4­
38e06383bda5&u=http%3a%2f%2fdownload.microsoft.com%2fdownload%2f6%2f3%2fa%2f63a018ae­711f­
4edb­8b79­ca109e5eed07%2fkey_events_in_microsoft_history.doc

31/08/2006 ­ 20060830_rbns.odt 61
Até 1999 o movimento  do  Software  Livre foi solenemente ignorado pela Microsoft, 
tratado como algo interessante para estudantes, mas inescapavelmente amador. Porém, neste 
ano “vazou” o notório "Halloween Memo92" que trazia a primeira “imagem semi­pública de 
reconhecimento do Software Livre como ameaça competitiva”93.
Neste documento interno da Microsoft eram apontados alguns aspectos considerados 
nevrálgicos sobre o Software Livre, entre os quais o fato de representar uma ameaça direta à 
Microsoft,   especialmente   no   mercado   de   servidores;   trazer   um   problema   prático   da 
percepção de custo zero do  Software Livre  contra o modelo de licenças da Microsoft; a 
constatação   de   que   qualidade   comercial   poderia   sim   ser   atingida   e   até   excedida   pelo 
Software Livre. 
O documento trazia ainda a concepção que uma política de FUD 94  não poderia ser 
sustentada no longo prazo e que o ideal seria combater o conceito de  Software Livre e não 
uma companhia específica.
Além  disto  o  mais  interessante eram  algumas  constatações  como  a  enormidade da 
comunidade   envolvida,   com   milhares   de   pessoas   envolvidas   em   um   desenvolvimento 
simultâneo  de velocidade sem  precedentes, valendo­se de seu  tempo  livre e trabalhando 
sem um objetivo financeiro imediato.
Apesar da idéia de que a política de FUD não teria como ser mantida no longo prazo, 
sem dúvida, ela não foi evitada pela Microsoft e em 2000, durante o   Microsoft's Annual 
Financial   Analysts   Meeting,   Steve   Ballmer,   agora   presidente   executivo   da   Microsft, 
declararia: 

92
 Vide: http://www.catb.org/~esr/halloween/
93
  DIBONA,   Chris;   STONE,   Mark;   COOPER,   Danese   (Eds.).  Open   Source   2.0.  O'Reilly   Media.   ISBN 
0596008023.
94
  FUD é a sigla de Fear, Uncertanty, Doubt (ou em português Medo, Incerteza, Dúvida). Trata­se de uma 
técnica de marketing, pouco ética porém largamente difundida baseada na propagação de desinformação. Na 
prática consiste em espalhar boatos que desacreditem um produto ou um concorrente, em geral no que tange à 
qualidade, preço e sua capacidade de se manter no mercado. Um FUD pode incluir ainda confusão proposital 
de   conceitos,   ameaças   jurídicas   fictícias   e   relatos   inverídicos   corroborando   as   testes   sustentadas.   Na 
atualidade   é   comum   associar   a   prática   de   FUD   com   a   Microsoft   dadas   suas   práticas   em   relação   aos 
concorrentes, mas em geral a primeira larga utilização de FUD no mercado de informática é atribuída a IBM 
nos anos de 1970, quando preparava­se para entrar no mercado dos computadores pessoais e desencadeou 
diversas   campanhas   contra   os   concorrentes   por   meio   de   seus   canais   de   vendas.  
Mais   informações   sobre   a   história   do   FUD   podem   ser   encontradas   neste   endereço: 
<http://web.archive.org/web/20020807000404/www.geocities.com/SiliconValley/Hills/9267/fuddef.html>. 
Acesso em: 27 abr. 2006 ou em <http://www.catb.org/~esr/jargon/html/F/FUD.html>. Acesso em: 01 jul. 2006 

31/08/2006 ­ 20060830_rbns.odt 62
"Não   há   uma   empresa   chamada   Linux,   mal   há   um   roadmap 95  do  
Linux. Ainda assim o Linux brota organicamente da terra. E ele tem, você  
sabe, as características do comunismo que as pessoas amam tanto, tanto  
nele. Que são, ele é grátis.”96 

Qualquer que fosse o tom de vermelho com que o pinguim 97 do Linux estivesse sendo 
pintado ele seria logo coberto de um  azul 98  bem  capitalista pela IBM, que anunciou em 
dezembro planos de investir 1 bilhão de dólares em Linux ao longo do ano seguinte 99, de 
longe o maior investimento feito até então em um  Software Livre e sem dúvida um fator de 
atenção adicional em Redmond100.
Logo   em   seguida,  em   fevereiro  de  2001101  Jim   Allchin,  executivo   responsável   pelo 
Windows dentro da Microsoft, alertava sobre os danos que seriam causados por softwares 
livremente   diustribuídos   como   o   Linux   e   sobre   a   necessidade   de   tornar   isto   claro   aos 
legisladores,   para   que   eles   entendessem   a   ameaça.   Em   junho   do   mesmo   ano,  em   uma 
entrevista ao  jornal  Chicago  Sun­Times102, novamente Ballmer,  deixou  claro  como  via o 
movimento do Software Livre, elaborando com mais objetividade o ponto de vista esboçado 
por Allchin: "

95
  Roadmap, ou mapa da estrada é o termo utilizado para descrever as funcionalidades previstas para cada 
nova versão de um software a ser lançada.
96
  MS'   Ballmer:   Linux   is   communism.   Disponível   em: 
<http://www.theregister.co.uk/2000/07/31/ms_ballmer_linux_is_communism/>. Acesso em: 12 jul. 2005
97
 O mascote e símbolo do Linux é um pinguim, animal admirado por Linux Torvalds. O pinguim do Linux foi 
batizado de Tux, derivado de “tuxedo” (fraque), dada a brincadeira de dizer que os pinguins estão vestidos 
com esta roupa.
98
 O azul é a cor da IBM, às vezes também referida como “Big Blue”.
99
 WILCOX, Joe. IBM to spend $1 billion on Linux in 2001 : CNET News.com. Dez. 2000. Disponível em: 
<http://news.com.com/2100­1001­249750.html?legacy=cnet>. Acesso em: 18 abr. 2006.
100
  Redmond é o local da sede da Microsoft nos EUA. No jargão da indústria é comum  que se refira a 
Redmond para falar da Microsoft.
101
  Microsoft Executive Says Linux Threatens Innovation. Disponível em:   <http://www.news.com>. Acesso 
em: 15 dez. 2004;   <http://www.linuxtoday.com/news_story.php3?ltsn=2001­02­15­008­06­PS­MS>. Acesso 
em: 12 set. 2005; <https://www.linux.org/news/2001/02/14/0002.html>. Acesso em: 12 set. 2005
102
  NEWBART, Dave. Microsoft CEO take launch break with the Sun­Times : Chicago Sun­Times, 2001. 
Disponível   em:   <http://www.suntimes.com/output/tech/cst­fin­micro01.html>.   Acesso   em:   5   jun.   2001; 
Disponível   em:   <http://nl.newsbank.com/nl­
search/we/Archives?p_product=CSTB&p_theme=cstb&p_action=search&p_maxdocs=200&s_dispstring=(bal
lmer)%20AND%20AND%20date(5/31/2001%20to%206/2/2001)&p_field_date­
0=YMD_date&p_params_date­0=date:B,E&p_text_date­
0=5/31/2001%20to%206/2/2001)&p_field_advanced­0=&p_text_advanced­
0=(%22ballmer%22)&p_perpage=10&p_sort=YMD_date:D&xcal_useweights=no>

31/08/2006 ­ 20060830_rbns.odt 63
Linux é um câncer que se fixa no sentido de propriedade intelectual em tudo o que 
toca (...) Pela maneira como a licença é escrita, se você quiser utilizar um software open­
source, você têm que fazer o resto do seu software Open Source".   Assim   não   restaram 
dúvidas sobre o que afinal deveria ser explicado aos legisladores de acordo com a ameaça 
vislumbrada de dentro da Microsoft.
Menos   de   vinte   dias   depois,   uma   entrevista   de   Bill   Gates   reforçava   estas   idéias   e 
eliminava   qualquer   dúvida   sobre   se   a   Microsoft   tinha   ou   não   uma   política   de   FUD   em 
andamento,   em   um   primeiro   momento   o   objetivo   parece   efetivamente   ser   o   de   criar 
confusão   sobre   os   termos   pertinentes   ao   Software   Livre  e   caracterizá­los   com   cores 
comunistas ou pelo menos anti­capitalistas.

“Há uma parte do Open Source chamada GPL que interrompe aquele  
ciclo­­que é, ele torna impossível para uma companhia comercial utilizar  
qualquer parte daquele trabalho ou construir sobre qualquer parte daquele  
trabalho. Então  o que você viu com o TCP/IP ou (tecnologia de e­mail)  
Sendmail ou o browser nunca poderia ter acontecido. Nós acreditamos que  
deve existir software grátis e software comercial; que deve existir um rico  
ecossistema que trabalhe em torno disto. Existem pessoas que acreditam 
que o software comercial não  deve existir  sob nenhuma forma­­que não  
devem existir empregos ou impostos em torno do software comercial. E este 
é um grupo pequeno, mas a GPL foi criada com este objetivo em mente.

E assim, as pessoas devem entender a GPL. Quando as pessoas dizem  
Open Source elas em geral querem dizer GPL. Quando alguém faz uma  
pergunta, “E que tal Open Source?” eles querem dizer Open Source ou eles  
querem dizer a GPL?

Nós acreditamos naquele ecossistema e em ter um mix de software  
comercial e grátis.”103
103
  RICCIUTI,   Mike   .   Gates'   grand   design   :   CNET   News.com,   Jun.   2001.   Disponível   em: 
<http://news.com.com/Gates+grand+design/2009­1082_3­268707.html>. Acesso em: 22 mar. 2005.

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Em 2002 a Microsoft já admitia o Linux como um competidor que viera para ficar, e 
novamente declarava na voz de Ballmer: 

"Nós temos que competir com software grátis, em valor, mas de uma  
maneira esperta. Nós não podemos precificar a zero, então nós precisamos 
justificar nossa postura e precificação. O Linux não vai desaparecer­­nosso  
trabalho é fornecer um produto melhor no mercado."104

Assim parece claro que desde os primeiros momentos de consolidação do   Software 
Livre  a   Microsoft   esteve   consciente   da   ameaça   que   estava   colocada   ao   seu   modelo   de 
negócios. Pela primeira vez as estratégias empresariais a que se acostumara não valeriam, 
não havia uma companhia específica para combater ou comprar, nem tão pouco era possível 
oferecer ao mercado um produto competitivo com um preço mais atraente, como constatava 
o próprio Ballmer com certa perplexidade em dezembro de 2003 ao falar do Linux: 

“É um concorrente esquisito. Não há uma empresa por trás dele. Você  
não sabe exatamente quem o faz. Ele é grátis. Eu prefiro dizer: “Olhe, o que  
temos aqui é uma pequena desvantagem no preço.” É a primeira vez que 
temos uma desvantagem no preço.”105 

Ainda   em   2002   fora   fundado   o   consórcio  UnitedLinux,   que   tinha   o   objetivo   de 
consolidar   e   padronizar   diversas   distribuições   Linux,   que   eram   populares   em   pontos 
geográficos   distintos,   dando   origem   a   uma   única   e   nova   distribuição.   A   idéia   era   tanto 
fundir as qualidades específicas de cada distribuição quanto produzir um sistema que fosse 
global, unificado e capaz de fazer frente ao Windows. 
O  consórcio era composto pela norte­americana Caldera (mais tarde renomeada de 
Santa Cruz Operation, ou SCO), pela brasileira Conectiva (mais tarde adquirida por uma 
distribuição francesa chamada Mandrake, de cuja fusão resultou a Mandriva), pela SUSE 

104
  JUDGE,   Peter.   Ballmer:   We'll   outsmart   Open   Source   :   ZDNet   News.   Set.   2002.   Disponível   em: 
<http://news.zdnet.com/2100­3513_22­959112.html>. Acesso em: 18 abr. 2006.
105
  Steve   Ballmer   On   Microsoft's   Future   :   BusinessWeekOnline,     Jan.   2003.   Disponível   em: 
<http://www.businessweek.com/magazine/content/03_48/b3860078_mz063.htm>. Acesso em: 18 abr. 2006.

31/08/2006 ­ 20060830_rbns.odt 65
LINUX   (distribuição   alemã   considerada   a   mais   popular   da   Europa)   e   pela   Turbolinux 
(distribuição asiática).
O consórcio lançou uma única versão e nunca chegou a dar efetivamente certo, fato 
que atribuímos em especial a uma mudança de postura de um dos participantes e ao fato de 
não   ter   contado   com   a   adesão   da   Red   Hat,   então   a   distribuição   mais   importante,   e   do 
Debian, uma das mais populares entre os antigos usuários do Linux.
Porém independente do insucesso deste consórcio, em 2003 o combate dos sistemas 
operacionais   já   se   dava   em   campo   aberto,   e   se   Ballmer   afirmava   que   não   havia   uma 
empresa por trás do Linux, também poderia ter afirmado que havia várias.
Cada vez mais empresas passaram  a basear seus negócios em Linux para competir 
com   a   Microsoft;   além   da   IBM   e   seu   mega   investimento   outras   companhias   de   vulto 
aderiam ou erguiam­se diretamente do  Software Livre. Empresas como a novata Red Hat, 
fundada em 1993 com o objetivo de distribuir e dar suporte ao Linux, mantenedora de uma 
das distribuições mais populares na América do Norte e que viu seu negócio crescer no 
mesmo rítimo do Software Livre. Ou a Novell, talvez o mais ilustrativo exemplo das novas 
possibilidades colocadas pelo Software Livre. 
A  histórica Novell, uma  empresa de  softwares  fundada em  1979, que competiu no 
mercado de sistemas operacionais e chegou a dominar o filão das redes corporativas nos 
anos 80 com o   seu lendário “NetWare”, constitui um sólido exemplo de empresa quase 
colocada fora do mercado com a ascenção dos produtos de rede e dos sistemas operacionais 
da Microsoft.
Iniciando   um   reposicionamento   estratégico   em   janeiro   de   2004   a   Novell   mudou 
radicalmente sua inserção no mercado de softwares, adquiriu a SUSE, principal distribuição 
Linux da Europa, alterou sua estratégia de ação e fez  investimentos pesados em Linux, e 
desde   então   vem   tentando   –   com   relativo   sucesso   –   se     equilibrar   na   fina   linha   entre 
Software Livre e Software Proprietário.
Assim, mesmo com o confortável virtual monopólio dos sistemas operacionais dos 
microcomputadores  desktop,   a   Microsoft   passou   a   enfrentar   dificuldades   em   setores 
específicos   com   a   ascensão   do   Linux,   setores   como   servidores   de   Internet   e   super­
computadores apenas para nomear dois nichos.

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Um   movimento   inesperado,   que   pegou   o   mercado   de   tecnologia   de   surpresa, 
aconteceu em março de 2003 quando uma empresa membro da iniciativa   United Linux, a 
Caldera,   agora   adotando   o   nome   de   SCO   (Santa   Cruz   Operation),   para   espanto   geral 
processou  a  IBM  em  mais  de  1   bilhão   de  dólares,  alegando   que  os  investimentos   desta 
empresa no Linux violavam e tornavam públicos códigos UNIX, de propriedade da SCO, 
que agora estariam inseridos no Linux. 
A  SCO  afirmava ser, em  um  complicado emaranhado de transferências, compras e 
fusões a atual proprietária das patentes do UNIX, e que estas estariam sendo violadas pela 
IBM e por qualquer empresa, indivíduo ou Governo que utilizasse o Linux. 
A resposta da IBM foi contra­processar a SCO, seguida logo depois pela Red Hat em 
um processo onde afirma que as alegações da SCO prejudicam seu negócio 106; ainda para 
continuarmos falando dos advogados e de táticas de FUD a SCO passou a enviar cartas para 
grandes corporações usuárias de Linux, alertando­as sobre a possibilidade de virem a ser 
processadas por violação de sua propriedade, e em Novembro a SCO finalmente passou da 
ameaça à ação processando as empresas AutoZone e DaimlerChrysler107. Red Hat, Novell, e 
HP prontamente passaram a oferecer proteção legal a seus clientes e o OSDL (Open Source 
Development Labs) criou um fundo para defesa contra processos.
Não  é  razoável  sugerir que a Microsoft  estivesse envolvida nas  demandas  da SCO 
(como   muito   da   imprensa   especializada   aventou   na   época) 108,   mas   o   movimento   foi 
providencial e com um bom senso de oportunidade a Microsoft rapidamente licenciou o 
código fonte e patentes do UNIX da SCO com o objetivo declarado de deixar claro que a 
"Microsoft respects legitimate licenses, and Microsoft took that license (from SCO)." 

106
 Detalhes sobre o andamento do processo, seus desdobramentos e outras questões de Propriedade Intelectual 
podem ser acompanhadas no site <http://www.groklaw.net>. Mas cabe apontar que até o momento (julho de 
2006) a SCO falhou em todas as oportunidades de demonstrar onde e quais de suas patentes teriam sido 
infringidas, encaminhando o processo para um vitória quase certa da IBM, de forma que em geral a imprensa 
especializada da indústria já raramente menciona os desdobramentos do processo.
107
 SHANKLAND, Stephen. SCO suits target two big Linux users : CNET News.com. Mar. 2004. Disponível 
em   <http://news.com.com/2100­1014­5168921.html>.     Acesso   em:   18   abr.   2006
LYMAN, Jay. SCO Sues DaimlerChrysler, AutoZone : www.TechNewsWorld.com / LinuxInsider. mar. 2004. 
Disponível em <http://www.linuxinsider.com/story/33031.html>. Acesso em: 18 abr. 2006.
108
 SHANKLAND, Stephen. Fact and fiction in the Microsoft­SCO relationship : CNET News.com / ZDNet 
News. Nov. 2004. Disponível em <http://news.zdnet.com/2100­3513_22­5450515.html>. Acesso em: 18 abr. 
2006.

31/08/2006 ­ 20060830_rbns.odt 67
O efeito colateral deste licenciamento foi, além de um reforço na política de FUD, 
alguma   injeção   de   fundos   no   caixa   da   SCO   que   vinha   apresentando   balanços 
sucessivamente negativos, e que após a divulgação do acordo viu suas ações subirem quase 
38%109. Estes aportes de fundos deram à SCO fôlego para seguir com os processos.
Assim,   a   questão   principal   da   argumentação   desenvolvida   no   capítulo   sobre   a 
propriedade das idéias, é novamente colocada, agora no mundo dos sistemas operacionais. 
Já que o Linux não pode ser comprado, apropriado, ou diretamente processado, pode­se 
utilizar o sistema de proteção intelectual estabelecido, o sistema de patentes, contra os seus 
desenvolvedores e até contra os seus usuários. O raciocínio é linear: na impossibilidade de o 
superar, destruir ou assimilar, resta a possibilidade de o proibir.
Assim, se em um primeiro momento, possivelmente pega de surpresa com  o veloz 
crescimento do Linux, a estratégia defensiva da Microsoft foi a de rotular o Linux como 
brinquedo e depois como algo anti­americano, uma nova possibilidade de barrar o avanço 
do concorrente (e dos Softwares Livres em geral) passa a ser a possibilidade de valer­se do 
sistema legal norte americano. Tendo sido tantas vezes arrastada as barras do tribunal por 
concorrentes, consumidores e órgãos governamentais ao redor do globo, a idéia até que faz 
bastante sentido. 
Em 2004 Ballmer, falando a líderes asiáticos, mencionou, de passagem, um estudo do 
qual ficara sabendo, onde o Linux estaria violando mais de 200 patentes 110, algumas delas 
da   Microsoft,   e   claro,   eles   (a   Microsoft)   “ deviam   algum   tipo   de   estratégia   a   seus  
acionistas”. Depois, com a repercussão que encontraram na Internet, os comentários foram 
oficialmente   desmentidos   pela   Microsoft,   que   alegou   uma   interpretação   errônea   das 
palavras   de   seu   presidente   executivo.   Contudo,   desde   a   ação   da   SCO   contra   a   IBM,   a 

109
 LaMONICA, Martin. RICCIUTI, Mike. Microsoft sends message with Unix deal : CNET News.com. Mai. 
2003. Disponível em <http://news.zdnet.com/2100­3513_22­1007715.html>. Acesso em: 18 abr. 2006.
  Microsoft   Licenses   Unix   From   SCO   :   Wired   News.   Mai.   2003.   Disponível   em: 
<http://www.wired.com/news/business/0,1367,58904,00.html>. Acesso em: 18 abr. 2006.
110
  KERNER,   Sean   Michael.   Linux's   Patent   Risk.   :   InternetNews.   Ago.   2004.   Disponível   em: 
<http://www.internetnews.com/dev­news/article.php/3389071>. Acesso em: 18 abr. 2006.
  VAUGHAN­NICHOLS, Steven J. Author of Linux Patent Study Says Ballmer Got It Wrong. : Eweek.com. 
Nov.   2004.   Disponível   em:   <http://www.eweek.com/article2/0,1759,1729908,00.asp>.   Acesso   em:   18   abr. 
2006.
 FOLEY, Mary Jo. Is Microsoft Rattling the Linux­Patent Sabers? : Eweek.com. Nov. 2004. Disponível em: 
<http://www.microsoft­watch.com/article2/0,1995,1729352,00.asp>. Acesso em: 18 abr. 2006.

31/08/2006 ­ 20060830_rbns.odt 68
questão das patentes vem sendo a principal ameaça ao Linux, dando inclusive origem a um 
movimento contrário à aprovação de leis que regulamentem patentes de  softwares  – que 
seriam em última análise, patentes de idéias. 
É   oportuno   lembrar   que   foram   justamente   patentes   de   softwares  e   acusações   de 
pirataria   que   que   ajudaram   a   derrubar   a   Política   Nacional   de   Informática,   durante   a 
redemocratização do Brasil, como será melhor elaborado na segunda metade do capítulo 
quatro111.
A leitura dos documentos oficiais da Microsoft, mantidos em seu site de relações com 
os   investidores   permite   traçar   a   mudança   que   se   processou   na   cultura   da   empresa   em 
relação à ameaça do Linux e dos Softwares Abertos.
Em   julho   de   2003   Bill   Gates,   em   um   encontro   com   analistas   financeiros, 
comentando o processo da SCO dava como certo que a propriedade intelectual da Microsoft 
e de muitas  outras empresas  estava sendo  utilizada e clonada pelo  movimento do   Open  
Source:  

“BILL GATES: 

Certamente   não   há   duvida   que,   particularmente   em   algumas   das  


atividade   mais   clonadoras,   propriedade   intelectual   de   muitas,   muitas  
empresas,   incluindo   a   Microsoft,   está   sendo   usado   no   software   Open  
Source.   É   em   geral   quando   as   pessoas   clonam   coisas   que   isso 
freqüentemente se torna inevitável. O processo da SCO, é realmente – você  
fez um comentário sobre este assunto, que está largamente relacionado, ou  
existem aspectos dele que são únicos a eles, porque eles se relacionam com  
marcas registradas e copyright.”112 

111
  Sobre este tema ver: COSTA MARQUES, Ivan da.  Cloning Computers: From Rigths of Possession to 
Rigths of Creation.  In:  Science as Culture.  Routledge, Jun. 2005. Vol. 14, No. 2, 139­160. e   SANTOS 
FILHO, Gildo Magalhães. Um bit auriverde: Caminhos da tecnologia e do projeto desenvolvimentista  na 
formulação   duma   política   nacional   de   informática   para   o   Brasil   (1971­1992).  1994.   280f.   Tese 
(Doutorado História) ­ Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São 
Paulo.
112
  Financial Analyst Meeting ­ Executive Q&A  : MSFT Investor Relations. 24 Jul. 2003. Disponível em: 
<https://www.microsoft.com/msft/speech/FY03/ExecQAFAM2003.mspx>. Acesso em: 29 abr. 2006.

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Um assunto, sem dúvida, palpitante, retomado por Steve Ballmer na mesma reunião, 
agora com ênfase  no aspecto da clonagem:

“Existe um item crítico: Irá o software – e irá TI, você pode dizer em  
geral, mas eu vou falar apenas do preço do software – irá o software ser um  
negócio   de   inovação   e   valor,   ou   irá   ele   ser   um   negócio   que   se   torna 
comoditizado?  E   ele   é   comoditizado  por  clones,  ele  é   comoditizado  por 
custos menores, ou alternativas com custo menor do que aquelas que os  
vendedores comerciais produzem. E essa é a questão”113.

Determinar os termos em que se dará a discussão é, como se sabe, ter metade da 
discussão ganha, se Steve Ballmer é famoso no mundo da tecnologia por seu temperamento 
explosivo, estilo performático, personalidade intempestiva e pelo hábito de falar em alto e 
bom som o que lhe vem à mente, podemos dizer que com certeza se trata de um homem que 
sabe escolher bem as palavras. Ao opor a “comoditização” como diz, à “inovação e valor” 
Ballmer   sugere   que   o  software  proprietário   é   o   único   capaz   de   inovar   e   entregar   valor, 
justamente   por   seu   aspecto   comercial,   ao   contrário   do   Software   Livre,   que   estaria 
transformando a indústria de softwares em uma indústria de commodities. Quando Ballmer 
coloca o Software Livre na categoria de commoditie, a interpretação possível é a seguinte: 
um produto de baixo valor agregado, com pouca industrialização, que portanto mantidas as 
condições mínimas de qualidade pode ser adquirido de qualquer produtor (ou distribuição, 
no caso do Linux) utilizando­se apenas o critério do menor preço.

Os   dois   discursos   acima   também   deixam   claro,   que   a   esta   altura,   tanto   Ballmer 
quanto Gates se esqueceram completamente (ou convenientemente) do acordo firmado com 
John   Sculley   em   meados   dos   anos   80,   e   do   subsequente   processo   da   Apple   em   1993, 
acusando a Microsoft de ter clonado sua interface gráfica.

113
 Financial Analyst Meeting ­ Changing the World with Software : MSFT Investor Relations. 24 Jul. 2003. 
Disponível em: <https://www.microsoft.com/msft/speech/FY03/BallmerFAM2003.mspx>. Acesso em: 29 abr. 
2006

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Ballmer continua explicitando que o problema da “comoditização” do  software não 
afeta apenas a Microsoft, mas toda indústria de tecnologia, inclusive seus principais rivais, 
pois para Ballmer o Software Livre é um obstáculo à inovação:

“Não  é uma questão  apenas na Microsoft. Deveria ser uma questão  


na Oracle; deveria ser uma questão até de caras como a SAP. Continuará o 
software a ser uma área na qual inovação cria valor, inovação é protegida  
por um período de tempo, cria valor, cria novos cenários consumidores, é  
capaz  de  atrair   pessoas   para  gastar   dinheiro?  Este  é  o  tipo  de  cenário  
competitivo de alto nível”114.

A conclusão de Ballmer aponta inevitavelmente o vilão que ameaça a continuidade 
da indústria de tecnologia:

“Haverá   uma   competição   maior   no   negócio   de   softwares   para   o 


mundo como um todo? Será  o negócio de software maior daqui a cinco  
anos do que ele é hoje? Ou irá o trabalho gratuito das pessoas ser tão bom 
quanto a inovação e valor que as empresas comerciais criam? Então esse é  
o diálogo Numero Um aqui. E as pessoas dizem, “Ok, eu entendi. Isso é  
sobre Open Source. Isso é sobre software não comercial. Blá, blá, blá. Isso  
é sobre Linux."115

E novamente a escolha de palavras de Ballmer é feita sob­medida para transmitir 
mais   do   que   o   que   está   dito   de   forma   direta.   A   idéia   de   um   modelo   de  software  “não 
comercial” coloca o Linux e seus pares do Software Livre fora da indústria de tecnologia. É 
muito bem pensado identificar estes  softwares  como não comerciais, o não comercial se 
ajusta como uma luva às idéias anteriores da Microsoft sobre o Software Livre, ou seja:

Não comercial é algo fora do mercado, um brinquedo; não comercial é comunista; 
não  comercial  é  grátis  e   não   gera  renda  ou  arrecadação;   não   comercial  é  a   infração   da 
propriedade intelectual, enfim, não comercial é um termo carregado de preconceito e que 
114
 idem.
115
 idem.

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será comum nas declarações, entrevistas e documentos da Microsoft e seus executivos deste 
momento em diante, o  Software Livre, em inglês, é uma expressão que vem carregada de 
promessas de liberdade e transparência, portanto, algo a ser evitado.

Outro   executivo   da   empresa,  John   Connors116,   no   mesmo   encontro   repete   a 


fraseologia de Ballmer referindo­se ao Linux como software não comercial: 

“Eu gostaria de reiterar os fatores de risco que são muito importante  
para   as   pessoas   gerenciando   dinheiro.   Primeiro   de   tudo,   o   ambiente 
econômico.   Nós   falamos   sobre   o   fato   de   que   não   antecipamos   que   a  
economia melhore radicalmente por todo o mundo  mas nós também não  
esperamos que ela decline de forma mensurável. 

Segundo,   Linux   e   software   não   comercial:   Nós   temos   mostrado   a  


vocês o que nós pensamos ser a cota de ganho do Linux para 04. Se o Linux  
ganhar   uma   fatia   no   desktop,   isso   é   um   impacto   para   nós.   Se   nós  
executarmos bem, nós atenuamos o risco.”117

Além   da   harmonização   do   discurso,   o   ano   de   2003   trouxe   para   a   Microsoft   a 


consolidação pétrea do Linux como um concorrente que deveria ser levado a sério em todas 
as   frentes,   agora   menções   ao   Linux,  Software   Livre  e  software  “não   comercial”   serão 
constantes na documentação da empresa; em novembro, no encontro de acionistas, Ballmer 
volta a deixar claro o quanto o assunto Linux subiu na escala de prioridades de Redmond.

“STEVE   BALLMER:  Nós   não   somos   nada   sem   competição.   John  


enfatizou o fato que cada um dos nossos negócios tem bons competidores  
neles,   e   nós   certamente   sentimos   que   nós   temos   intensa   competição   a  
qualquer hora, ao menos nos meus 23 anos com a Microsoft. Nós temos 
alguns   competidores   únicos   que   tem   emergido   nos   últimos   anos,  
competição   vindo   do   assim   chamado   software   não   comercial,   que   é  

116
 Microsoft Senior Vice President, Finance and Administration, Chief Financial Officer
117
  Financial Analyst Meeting ­ Financial Update  : MSFT Investor Relations. 24 Jul. 2003. Disponível em: 
<https://www.microsoft.com/msft/speech/FY03/ConnorsFAM2003.mspx>. Acesso em: 29 abr.  2006

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disponibilizado   por   comunidades   de   pessoas   trabalhando   em   uma   base 
voluntária sem custo pela Internet. 

Nós acreditamos que temos um bom plano, um plano que nos vai  
permitir inovar e entregar valor que exceda aquele que vem de softwares  
não  comerciais. Mas eu tenho que lhe contar, sempre que alguém diz não  
ter  custo inicial de aquisição,  ou seja, que é  gratuito, isso atraí muita  
atenção. 

E   então   realmente  ajudando   as   pessoas   a   entender   por   que   nós  


acreditamos   oferecer   um   melhor   valor   total   e   melhor   custo   total  é  
certamente um desafio que todos nós no nosso time de gerência estamos  
encampando,   e   um   desafio   onde   nós   sabemos   que   necessitaremos   foco  
afiado como uma lâmina para ter êxito.”118

Os quatro trechos destacados em negrito, sintetizam pontos importantes do que a 
Microsoft já havia concluído sobre o Linux e sobre quais seriam os passos da empresa para 
enfrentar a competição no ano seguinte.

O primeiro destaque já foi apontado, trata da definitiva mudança do Linux para o 
centro   das   atenções   na   Microsoft,  agora   considerado   como  um   concorrente  “único”  por 
suas característica, e (terceiro destaque) a repetição daquilo que Ballmer aponta como  o 
grande diferencial do Linux: o preço (algo que mencionara em 2002, vide nota 105).

O segundo destaque é a declaração de que a empresa já elaborou uma estratégia de 
combate ao inimigo, que se liga ao quarto destaque, que é na verdade um vislumbre desta 
estratégia:  Ballmer  propõe  ajudar  as  pessoas  a perceberem  como  o  custo  do  produto  da 
Microsoft é, de fato, mais vantajoso. Este é um conceito inusitado, que ainda será melhor 
explorado neste texto.

118
  Microsoft Corporation 2003 Shareholder Meeting  : MSFT Investor Relations. 11 Nov. 2003. Disponível 
em: <https://www.microsoft.com/msft/speech/FY03/shareholdermeeting03.mspx>. Acesso em: 29 abr.  2006

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Seis dias mais tarde outro executivo da Microsoft, Jeff Raikes119, surgia com uma 
idéia parecida, embora agora já um pouco mais elaborada:

“JEFF RAIKES:  (...)  nós pensamos sobre o Linux e a alternativa  


Open Source como sendo um importante fator no mercado. Agora, serão  
eles   hoje   um   fator   importante   em   termos   de   share   atual?   Não,  
provavelmente não, mas eu acho que você sabe que o software comercial é  
muito mais do que gorjetas e isso é algo que temos que pensar a respeito. 

Qual é nossa estratégia? Nossa estratégia é ter certeza de que criamos  
o melhor custo total de propriedade, e eu penso que na maioria dos casos  
nós estaremos aptos a ter custos totais de propriedade menores quando você  
considera o espectro do custo total.

Muitas pessoas ouvem sobre o governo de uma cidade, um governo na  
Alemanha120 buscando o Linux como uma alternativa. Esse é um importante  
pensamento para concluirmos e entendermos o que nós deveríamos ter feito  
diferentemente. (...) então o levamos muito seriamente”.121

Assim, a Microsoft vai dando forma ao conceito de “custo total de propriedade”, 
com   o   qual   pretende   demonstrar   ao   mercado   que   seus  softwares  são,   na   verdade,   mais 
baratos   do   que   os  Softwares  Livres.   Outro   destaque   é   a   intensificação   da   pressão   de 
governos ao redor do mundo na adoção do Software Livre, postura que será cada vez mais 
difundida.

No  final  do ano, em  sua tradicional carta aos acionistas a Microsoft  resume sua 


posição sobre o Linux e delineia a estratégia a ser seguida: 

“(...) Algumas organizações migrando do UNIX estão  considerando 
software não comercial como Linux e OpenOffice. Enquanto o custo inicial  

119
 Microsoft Group VP, Productivity and Business Services
120
 Jeff está falando da cidade de Munich.
121
  Bear Stearns Trek to COMDEX Conference  : MSFT Investor Relations. 17 Nov. 2003. Disponível em: 
<https://www.microsoft.com/msft/speech/FY04/raikes1117comdex.mspx>. Acesso em: 29 abr. 2006

31/08/2006 ­ 20060830_rbns.odt 74
de aquisição  de sistema operacional simplificado, faça você mesmo possa  
parecer   atraente,   um   conjunto   crescente   de   pesquisas   independentes,  
mostram   que   nossa   plataforma   integrada   fornece   não   apenas   melhor  
funcionalidade, mas também menor custo total de propriedade nas funções  
mais comuns nos negócios.

(...) Contudo, Linux e outros softwares não comerciais apresentam um  
desafio, e nós não somos complacentes. Nós estamos trabalhando duro para  
assegurar que nossos produtos e serviços continuem a melhorar e atender  
demandas   dos   consumidores   por   valor.   Nós   estamos   comprometidos   a  
ultrapassar as expectativas do consumidor por produtos confiáveis, seguros,  
e com excelência em engenharia.”122 

Não é demais notar a observação pejorativa sobre o Linux  “stripped­down, do­it­
yourself operating system”, ou “sistema operacional simplificado, faça você mesmo”, um 
comentário que dificilmente encontraria eco em um administrador de sistemas da época que 
tenha tido oportunidade de trabalhar com os dois sistemas. Pode­se sem dúvida atribuir ao 
Linux de então o rótulo do “faça você mesmo”, mas considerar isto algo bom ou ruim, é 
questão de opinião, e pode, na verdade, ser dito até mesmo do Linux atual. Mas classificar o 
Linux, herdeiro do UNIX de “sistema operacional simplificado” estampa perplexidade no 
rosto   de   um   técnico   que   conheça   os   dois   sistemas.   O   ponto   nevrálgico   desta   carta   aos 
acionistas é a informação de que “um crescente corpo de pesquisas independentes” estaria 
mostrando   a   maior   funcionalidade   e   menor   custo   total   de   propriedade   das   soluções 
Windows da Microsoft, este é o tom  da fase seguinte do combate entre o Windows e o 
Linux. 

A  organização do pensamento e do discurso da Microsoft acompanhado até  aqui 
desemboca   no   que   seria   sua   evolução   natural,   o   lançamento   em   janeiro   de   2004,   da 
campanha   publicitária   “Get   the   Facts”.   Voltada   aos   administradores   de   sistemas   e 

122
  MSFT  Annual  Report   2003  Letter   to  Shareholders   :  MSFT   Investor   Relations.  2003.  Disponível   em: 
<http://www.microsoft.com/msft/reports/ar03/alt/brazil.htm>   (português)   e 
<http://www.microsoft.com/msft/reports/ar03/alt/letter.htm> (inglês). Acesso em: 29 abr. 2006

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profissionais de TI em geral a campanha, que contava com mídia impressa, anúncios em 
sites de tecnologia e até seu próprio site123, veiculava “estudos”  comparando os custos entre 
a adoção  do Linux e do  Windows,  chegando invariavelmente à  conclusão sobre o custo 
superior do Linux.

Esta campanha marcou uma mudança de posição da Microsoft em relação ao Linux, 
se inicialmente o foco era desacreditar o concorrente com preconceitos, agora pretendia­se 
desacreditar o concorrente com “fatos”. Não que as prática anteriores de FUD estivessem 
totalmente desautorizadas, especialmente no que tange à propriedade intelectual, a ameaça 
mais   relevante   recebida   pela   comunidade   do   Linux,   como   discursava   o   executivo   da 
Microsoft John Connors em janeiro para analistas financeiros:

“Quando   você   pensa   sobre   financiar   novos   programas,   nós  


adicionamos mais de 300 pessoas esse ano no setor publico, tanto para 
propósitos de política publica e para evangelização e vendas em nas arenas  
acadêmicas e do governo, onde o desafio Open Source é o mais forte.

(...) Open Source continua sendo uma ameaça para nós porque somos  
a   maior   empresa   de   software   no   mundo   que   ganha   dinheiro   vendendo  
software, mas é uma ameaça para qualquer um que licencia IP (Intellectual 
Property) e são pagos pelo software. É uma ameaça se você é a Oracle no  
espaço de banco de dados. É uma ameaça se você é a IMB e você vende  
software.”124 

Menos   de   um   mês   depois,   o   mesmo   executivo   estava   em   um   simpósio   onde   foi 


inquirido sobre como via os riscos representados pela tentativa da China, Coréia do Sul e 
Japão em desenvolver sua própria versão do Linux, já que aparentemente o objetivo deste 
desenvolvimento seria dar condições para o desenvolvimento de uma indústria de  softwares 
local, baseada em um sistema operacional próprio. A mesma pergunta englobava o Estado 
123
http://www.microsoft.com/windowsserver/facts/default.mspx ou 
http://www.microsoft.com/windowsserversystem/facts/default.mspx
124
 John Connors, CFO, Presentation to Financial Analysts in Boston : MSFT Investor Relations. 27 Jan. 2004. 
Disponível   em:   <http://www.microsoft.com/msft/speech/FY04/Connors0127Boston.mspx>.   Acesso   em:   29 
abr. 2006

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americano   de   Massachusetts,   que   fazia   movimentos   semelhantes,   e   embora   não   tenha 
mencionado   o   Brasil,   poderia,   já   que   o   país   também   havia   se   engajado   no   mesmo 
movimento.

Ao que parece esta é um pergunta sem resposta satisfatória, pois embora tenha sido 
respondida com  objetividade por Connors, os trechos destacados em  negrito na resposta 
abaixo, deixam claro que  a visão da Microsoft só consegue contemplar o desenvolvimento 
da   indústria   de  softwares  da   cada   um   destes   países   subordinada   ao   seu   próprio 
desenvolvimento. A  inovação  da própria Microsoft  é  a inovação  possível  para  os  países 
submetidos, situação da qual a empresa tem aparente consciência, e que pretende manter.

É   instigante   notar   que   Connors,   em   sua   resposta,   apresenta   a   dependência 


tecnológica de um sistema operacional alienígena, como um cenário positivo para os países 
que anseiam em desenvolver sua indústria de softwares, ainda que não lhes seja permitido 
produzir inovação localmente. 

“JOHN CONNORS: Bem, primeiro de tudo, é meio estranho ter um 
estado nos Estado Unidos no mix que você menciona, mas isso é o que é.

Se você olhar para a companhia e o que nós tentamos fazer, temos  
tentado ser muito claros que Linux é um competidor e um desafio para a  
Microsoft. Temos também sido muito claros que o Open Source e modelos  
de software gratuitos são uma ameaça para todos os vendedores de software 
comercial.   Visto   que   obtemos   o   maior   lucro   que   qualquer   vendedor   de  
software comercial, nossa ameaça é maior. Mas é uma ameaça para todos.

De muitos modos  você  pode ver e dizer o que os  governantes na  


maioria dos países estão  propondo é que eles desenvolvam sua própria  
indústria de software.  Você poderia dizer, bem, nossa, pode ser que eles  
estejam desenvolvendo sua própria versão  do UNIX. Mas eu penso que a  
coisa   chave   é   que   eles   estão   tentando   desenvolver   uma   indústria   de  

31/08/2006 ­ 20060830_rbns.odt 77
software,   e   desenvolver   uma   área   onde   postos   de   trabalho   possam   ser  
criados.

(...) A ponto de não  sermos melhores, não  importa se é um governo,  


não  importa se é uma outra companhia, nós temos uma ameaça. Se nós  
somos melhores, então  nós temos que nos sentar com aqueles governos e  
aquelas entidades que têm uma visão  de que nós não  somos, e explicar  
porque nós pensamos que nós somos melhores; mas, mais importante, quão  
crítico nosso papel tem sido em desenvolver suas economias de TI como  
elas existem hoje. 

A maioria dos estados durante o período de '99 a 2000, com o caso do  
DOJ (Department of Justice), ficam surpresos em saber quantas pessoas no  
seu   estado   realmente   desenvolvem,   distribuem   e   suportam   a   tecnologia  
Microsoft. Achamos que muitos países similarmente não  estão  conscientes  
do   quão   grande   um   ecossistema   de   pessoal   de   TI   existe   em   torno   da  
plataforma  Microsoft  –  com  quantos  clientes   nós  trabalhamos  de  seus  
países que recebem valor pela entrega de nossa inovação.  

E   assim   nós   temos   primeiro   e   principalmente,   a   fazer   um   ótimo  


trabalho em inovação.  Nós temos que fazer um ótimo trabalho em ambos,  
na venda e no lado do relacionamento.  E então  eu penso que a terceira  
coisa chave é nós termos que esperar que você veja as pessoas que vêem  
TI e a indústria do software como sendo oportunidades para seus países, e  
eles incentivarão a inovação local, e nós apenas temos que fazer um bom  
trabalho de agregar valor impedindo isto.”125

125
 John Connors, CFO, Presentation at the Goldman Sachs Technology Investment : MSFT Investor Relations. 
25   Fev.   2004.   Disponível   em:   <http://www.microsoft.com/msft/speech/FY04/Connors0225GSTech.mspx>. 
Acesso em: 29 abr. 2006

31/08/2006 ­ 20060830_rbns.odt 78
A questão do interesse dos governos pelo controle das ações do sistema operacional 
parece ser o maior calcanhar de Aquiles da estratégia da Microsoft, o modelo do software 
proprietário e estrangeiro não tem como superar as questões macroeconômicas que coloca, 
como a evasão de divisas, nem tampouco as questões da segurança das informações e da 
autonomia tecnológica.

Assim em 2004 a emergência do Linux já havia se convertido em um problema de 
grande relevo dentro da Microsoft e todos os executivos tinham os discursos alinhados na 
estratégia de se aterem aos “fatos”: 

JOHN   CONNORS   (25/02/2004)   :   “E  assim   me   deixe   explicar   um  


pouco   sobre   o   cenário   do   mercado.   Uma   das   coisas   mais   interessantes  
sobre o Linux e o mundo Open Source é a quantidade de hype e ruído,  
religião   e  emoção  que  existe  quando  você   está   tendo  estas   discussões  e 
diálogos. E assim o que eu gostaria de tentar fazer é talvez separar um  
pouco   do   ruído   da   realidade   e   deixa­los   saber   como   nós   vemos   o 
mercado.”126 

CURT ANDERSON (18/05/2004) : “Primeiro  os riscos: obviamente 
software não comercial é um risco para o nosso negócio. O software grátis  
pode ter um impacto em nosso modelo do negócio. E nós estamos pensando  
sobre como o que isso se pareceria. 

A maneira que nós combatemos o Linux e os Softwares não comerciais  
francamente   é   superando­os   na   inovação   e   nós   acreditamos   que   nossos  
produtos   ofereçam   mais   valor   ao   consumidor,   menor   custo   total   de  
propriedade   (TCO)   e   melhor   interoperabilidade   avançando,   e   esse   é  
realmente o nome do jogo, para nós é continuar a investir e diferenciar  

126
 Martin Taylor Presentation on Microsoft Platform Competitive Strategy : MSFT Investor Relations. 27 Fev. 
2004.   Disponível   em:   <http://www.microsoft.com/msft/speech/FY04/taylor022704.mspx>.   Acesso   em:   29 
abr. 2006

31/08/2006 ­ 20060830_rbns.odt 79
nossos   produtos   contra   o   Open   Source,   mais   isso   é   de   fato   um   risco  
importante.”127

KEVIN   JOHNSON   (30/11/2004):   “Deixe­me   ir   agora   de  


proporcionar satisfação  para ganhar consumidores e a questão  de como  
estamos   nos   saindo   contra   o   Linux.   Deixe­me   começar   enquadrando   a  
perspectiva de como o diálogo mudou com os clientes. Eu diria que três a  
quatro anos atrás, o diálogo em torno do Linux era muito mais um debate  
emocional sobre as metodologias de desenvolvimento de software do Open  
Source versus a metodologia do software comercial. Hoje, aquele diálogo se  
alterou para uma análise bastante lógica de valor do negócio.

(...) Número um, custo total de propriedade (TCO). Muitos clientes  
notaram que uma vez que software Open Source como o Linux tem um custo 
de   aquisição   de   software   de   zero,   que   ele   deve   ter   o   menor   custo   de  
propriedade (TCO). Contudo se você olhar os fatos, eles não  corroboram  
isto. Em nosso site, www.getthefacts.com, nós temos mais de 17 analistas da 
indústria e mais de 100 consumidores que passarm pela experiência de ou  
testar o Linux e descobrirem que o custo total de propriedade (TCO) era  
maior do que no Windows ou fazerem a análise.”128

E no final do ano, na carta anual aos acionistas, assinada por Bill Gates e Steve 
Ballmer, o esforço era apresentado:

“Ao longo do último ano, nós trabalhamos duro para comunicar aos 
consumidores sobre o valor único da plataforma Windows em comparação  
com   o   Linux   e   outros   softwares   open­source.   Inúmeros   analistas  
independentes reportaram que o Windows oferece um menor custo total de  
127
  Curt Anderson Address to Institutional Investors at Ragen MacKenzie Investment Conference : MSFT 
Investor   Relations.   18   Mai.   2004.   Disponível   em: 
<http://www.microsoft.com/msft/speech/FY04/Anderson051804.mspx>. Acesso em: 29 abr. 2006
128
  Kevin Johnson (Group Vice President, Sales, Marketing, Services Group) at Credit Suisse First Boston 
Technology   Conference   :   MSFT   Investor   Relations.   30   Nov.   2004.   Disponível   em: 
<http://www.microsoft.com/msft/speech/FY04/Johnson113004.mspx>. Acesso em: 29 abr. 2006

31/08/2006 ­ 20060830_rbns.odt 80
propriedade   (TCO),   maior   segurança,   e   uma   proteção   mais   abrangente 
contra processos na justiça129.”130 

Em julho de 2005 o executivo da Microsoft Kevin Johnson131  oferecia no encontro 
dos analistas financeiros, um resumo da situação do combate contra o Linux e o  Software 
Livre,   fornecendo   além   de   um   panorama   claro   da   atuação   da   Microsoft,   interessantes 
insights sobre o que reservaria o futuro para os mercados de países pobres como o Brasil. 
Esse assunto será tratado em maior detalhe no capítulo sobre a industrialização brasileira, 
quando esta apresentação de Johnson será novamente utilizada:

“(...)   Eu   vou   começar   com   mobilização.   Em   2003   nós   realmente  


focamos em como poderíamos contar nossa história e enviar a mensagem  
para deixar claro que há uma clara proposição de valor no Windows versus 
Linux. A percepção que o Linux provê um menor custo de propriedade não é  
verdadeira (TCO). E assim Get the Facts visava ter análises terceirizadas132 
das   evidências   e   divulgar   amplamente   os   fatos.   Nósestamos   com   a 
campanha   Get   the   Facts   em   mais   de   50   países,   e   nós   continuamos   a  
acumular mais e mais evidências de analistas.

Em 2004, construímos com base nisto. (...) Nós agora temos mais de 
300 casos de estudo de consumidores, onde consumidores em cenários reais  
medindo perfomance, testaram o Linux, mediaram sua performance contra  
a plataforma Microsoft, e tomaram a decisão de que a plataforma Microsoft 
provê claro valor para eles.

129
  N. do A. ­   No caso a expressão em inglês era  more comprehensive indemnification, mas optou­se por 
traduzir pelo sentido, já que é da proteção legal contra processos semelhantes ao da SCO a que Ballmer e 
Gates pretendem se referir.
130
 GATES, Bill (Chairman and Chief Software Architect). BALLMER, Steve A. (Chief Executive Officer) ­ 
MSFT   Annual   Report   2004   ­   Letter   to   Shareholders   :   MSFT   Investor   Relations.   2004.   Disponível   em: 
<http://www.microsoft.com/msft/reports/ar04/flash/default.html>. Acesso em: 29 abr. 2006
131
  Group Vice President, Worldwide Sales, Marketing and Services Group
132
  N. do A. ­ O correto nesta tradução seria “independentes” no lugar de “terceirizados”, mas a palavra 
acrescentaria um duplo sentido a frase que não existe no original em inglês.

31/08/2006 ­ 20060830_rbns.odt 81
(...) Gartner acaba de divulgar um estudo que eles fizeram, eu acho,  
com uma grande instituição de serviços financeiros que avaliou o Linux no 
desktop. E eles concluíram que o Windows não  apenas provê um menor  
custo   de   propriedade   (TCO)   mas   que   também   os   custos   de   aquisição  
daquela   solução   Linux   eram   maiores   que   os   custos   de   aquisição   do  
Windows. Então  mais e mais evidência surge suportando a proposição  em  
torno de um menor custo de propriedade.”133 

O ano de 2006 está fora do período analisado neste texto, mas é muito importante, 
para   a   apreciação   dos   eventos   narrados   até   aqui,   deixar   registrado   que   foi   o   ano   de 
lançamento do website “Port 25” 134, que marca uma nova postura da Microsoft em relação 
ao “não comercial”, Software Livre.

O Port 25 agrega os esforços da Microsoft no universo do Software Livre, e aborda 
muito a interoperabilidade do Windows, Unix e Linux, configurando um reconhecimento 
do Linux pela Microsoft como um  player do mercado, um sistema com o qual, a despeito 
dos   esforços   empreendidos   até   aqui,   terminou­se   por   chegar   à   conclusão   que   será 
necessário estabelecer uma convivência. 

O nome Port 25 se refere à porta de um servidor usualmente utilizada pra o tráfico 
de emails SMTP, uma vez que o site é a tentativa da Microsoft de se comunicar com a 
comunidade   do  Software  Livre.   O   site   é   mantido   pelo  Open   Source   Software   Lab  da 
Microsoft, dirigido por Bill Hilf, um antigo militante do Linux, ex­empregado da IBM e 
agora gerente geral de estratégia da Microsoft para o Software Livre. 

É claro, há o sempre um outro lado, e lá do outro lado as comunidades do Linux e 
do   Software Livre não assistiram pacificamente aos ataques da Microsoft e, de fato, seria 
muito difícil determinar qual lado atirou a primeira pedra.

A   postura   religiosa   tantas   vezes   mencionadas   pelos   executivos   da   Microsft   nas 


citações anteriores refere­se a um posicionamento bastante radical e quase generalizado da 
comunidade contra a Microsoft. É comum encontrar nas listas de discussão, fóruns, posts e 
133
  Financial   Analyst   Meeting   2005   :   MSFT   Investor   Relations.   28   Jul.   2005.   Disponível   em: 
<http://www.microsoft.com/msft/speech/FY05/JohnsonFAM2005.mspx>. Acesso em: 29 abr. 2006
134
 http://port25.technet.com

31/08/2006 ­ 20060830_rbns.odt 82
comentários de blogs, sites e correntes de e­mail todo tipo de críticas e comentários jocosos 
contra a Microsoft. As frases mais comuns referem­se à Microsoft como “the evil empire” 
e “dark side of the force”, a Bill Gates como  “Darth Gates”, todas referências aos vilões 
da série Guerra nas Estrelas (Star Wars). Também é comum que a Microsoft seja referida 
como “The Borg” em referência aos alienígenas da série de cinema e televisão Jornada nas 
Estrelas   (Star Trek),   a   crítica   aqui   se   dá   pela   característica   dos  Borgs  de   “assimilarem” 
outras formas de vida em uma única consciência coletiva, e pelo bordão sempre repetido 
pelos alienígenas:  “resistance is futile”, duas referências ao comportamento da Microsoft 
no mercado. Esta última crítica é tão recorrente que no site Slashdot, um portal de notícias 
fundado em 1997 e um dos redutos das comunidades Linux e do Software Livre, as notícias 
referentes a Microsoft vêm acompanhadas por um ícone de Bill Gates, transfigurado em 
“borg”.

O que se pode dizer sobre os dois lados da contenda é que se a Microsoft trata o 
Linux   inicialmente   como  um   brinquedo   para   estudantes,   depois   como   um   câncer   anti­
capitalista,   depois   um   inimigo,   até   que   tenta   mostrar   os   “fatos”   e   termina   admitindo   a 
concorrência, do outro, a comunidade do Software Livre em geral e do Linux em especial, 
tratam a Microsoft de forma bem mais constante e consistente135.

Em quase todas as suas manifestações a Microsoft é retratada como o império do 
mal, sem muitas concessões, e coube à Red Hat em 2005, possivelmente pela pressão que 
sofreu com campanha Get The Facts da Microsoft, sendo a maior distribuidora de soluções 
Linux   da   América   do   Norte,   responder   com   outra   campanha   publicitária,   que   parece 
traduzir o espírito da comunidade Linux de maneira fidedigna.

A campanha “Truth Happens”, ou “A Verdade Acontece” é sintetizada desta forma:

“Através   da   história,   novas   tecnologias   enfrentaram   resistência  


daqueles   que   diziam   que   não   poderia  ser   feito.  Ainda  assim,  apesar   da  
oposição,  tempo e de novo o impossível é feito possível por aqueles com  

135
  Sobre  a   imagem  da   Microsoft   e  sua  representação  na   cultura   de  massas  ver:  SOUZA  F.,  Rubens   A. 
Menezes. Percepção e imagem da informática. In: XXII Simpósio Nacional de História ­ História: Guerra e 
Paz,   2005,   Londrina.   XXII   Simpósio   Nacional   de   História   ­   História:   Guerra   e   Paz.   Londrina,   PR   : 
Associação Nacional de História ANPUH / Editorial Midia., 2005.

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determinação  e visão.  Nós acreditamos que o open source é uma maneira  
melhor.   Uma   maneia   melhor   de   desenvolver   tecnologia   e   uma   maneira  
melhor de a tornar acessível. E ainda que existam aqueles que ignoraram o  
open   source   ou   alegassem   que   não   funcionaria   ou   alegassem   que   não  
duraria, nós acreditamos que a verdade acontece.”136

Realizar o impossível com determinação e visão  dão bem o tom messiânico que por 
vezes o Software Livre e o Linux adotam, e são exatamente as variações desta postura, em 
maior   ou   menor   grau,   que   a   Microsoft   pretendeu   combater   com   com   sua   campanha   de 
“fatos”.

A Red Hat por sua vez, tem sua peça publicitária principal em um vídeo137 que pode 
ser dividido em duas partes, na primeira ele é genérico e trata da evolução tecnológica geral 
da   humanidade,   apresentando   cenas   dos   primórdios   da   aviação,   do   automóvel,   do 
fonógrafo, alternadas com imagens de células, animais e microscópios, dando um “ar de 
tecnologia”   às   imagens.   Sua   estrutura   consiste   em   imagens,   vídeos   ou   fotos   de   época, 
contrastando com frases que são colocadas sobre as imagens e que expõem o ridículo de 
certas previsões do futuro. 

Na segunda parte mantém­se a linguagem, mas se concentra no caso específico do 
Linux,   onde   acontece   o   ponto   alto   do   vídeo,   uma   frase   de   Gandhi,   entrecortada   com 
declarações sobre o Linux, concluindo que se estaria vivendo o último estágio, o estágio da 
vitória. A transcrição abaixo ajudará a compreensão da peça publicitária.

O MUNDO É PLANO
A TERRA É O CENTRO DO UNIVERSO APESAR DA IGNORÂNCIA
[FATO] ATÉ PROVA EM CONTRÁRIO O   TELEFONE   TEM   MUITAS   LIMITAÇÕES 
PARA   SER   SERIAMENTE   CONSIDERADO   COMO 
APESAR DA IGNORÂNCIA UM MEIO DE COMUNICAÇÕES
APESAR DO RIDÍCULO WESTERN UNION [1876]
APESAR DA OPOSIÇÃO
A VERDADE ACONTECE

136
 http://www.redhat.com/magazine/008jun05/features/truth_happens/
137
 http://www.redhat.com/truthhappens/

31/08/2006 ­ 20060830_rbns.odt 84
EM   [1899]   O   ESCRITÓRIO   NORTE­
AMERICANO DE PATENTES DECLAROU, TUDO O  640K   DEVEM   SER   O   BASTANTE   PARA 
QUE PODE SER INVENTADO JÁ FOI INVENTADO QUALQUER UM
BILL GATES [1981]
APESAR DO RIDÍCULO
O FONÓGRAFO NÃO TÊM NENHUM VALOR  PRIMEIR ELES IGNORAM VOCÊ...
COMERCIAL LINUX É O HYPE DU JOUR
THOMAS EDISON [1880] GARTNER GROUP [1999]
ENTÃO ELES RIEM DE VOCÊ...
A LOUCURA DO RÁDIO VAI MORRER LOGO NÓS   PENSAMOS   NO   LINUX   COMO   UM 
THOMAS EDISON [1922] COMPETIDOR NO MERCADO DOS ESTUDANTES E 
AFICCIONADOS   MAS   EU   REALMENTE   NÃO 
O AUTOMÓVEL PRATICAMENTE ATINGIU O  PENSO   QUE   NO   MERCADO   COMERCIAL   NÓS   O 
LIMITE DO SEU DESENVOLVIMENTO VEJAMOS DE QUALQUER FORMA SIGNIFICATIVA
SCIENTIFIC AMERICAN [1909] BILL GATES [2001]

APESAR DA OPOSIÇÃO ENTÃO ELES LUTAM CONTRA VOCÊ...
APESAR DISTO TUDO LINUX NÃO VAI DESAPARECER
A VERDADE ACONTECE LINUX É UM COMPETIDOR SÉRIO
NÓS VAMOS ENFRENTAR ESTE DESAFIO
O HOMEM NÃO IRÁ VOAR POR CINQUENTA  STEVE BALLMER [2003]
ANOS
ORVILLE WRIGTH [1901] ENTÃO VOCÊ VENCE... 
PRIMEIRO ELES IGNORAM VOCÊ...
UM   FOGUETE   NUNCA   IRÁ   DEIXAR   A  ENTÃO ELES RIEM DE VOCÊ...
ATMOSFERA DA TERRA ENTÃO ELES LUTAM CONTRA VOCÊ...
NEW YORK TIMES [1936]

ENTÃO VOCÊ VENCE... 
HÁ UM MERCADO MUNDIAL PARA TALVEZ  MOHANDAS GANDHI 
CINCO COMPUTADORES
THOMAS WATSON DA IBM [1943] VOCÊ ESTÁ AQUI

"First  they  ignore you,  then  they laugh  at you,  then they  fight you,  then you  win", 
Mohandas Karamchand Gandhi, o “Mahatma138 Gandhi”, utilizou esta frase para descrever 
a  luta de independêcia do sub­continente indiano sob o jugo colonial britânico. 

138
 O termo “mahatma” pode ser traduzido como “grande alma”.

31/08/2006 ­ 20060830_rbns.odt 85
Uma luta que poderia ser caracterizada como uma história de Davi e Golias, onde os 
ingleses, tal como o Golias bíblico, apesar da desproporção das forças e da percepção óbvia 
de que eram inimigos formidáveis, possivelmente invencíveis e contra os quais nada valia 
lutar, perderam.
A   imagem   bíblica   associada   ao   parágrafo   anterior   vem   no   socorro   de   ampliar   a 
compreensão da auto­imagem que parte das comunidades do Linux e  Software Livre fazem 
de suas atividades. 
A comparação lateral da Microsoft ao poderoso império britânico, que apesar de tudo 
foi   derrotado   pelo   movimento   de   independência   indiano,   esbarra   novamente   no   tom 
messiânico mencionado acima, apontando para a crença da inevitabilidade da vitória.
O  fato do movimento do  Software Livre  ter se espalhado pelo planeta, ganhando 
grande torque com a adoção por governos ao redor do mundo – com destaque para o caso 
brasileiro – e ter também contado com a adesão de grandes companhias de  software  que 
competiam com a Microsoft em um ou mais produtos, só faz aumentar a certeza da vitória.

Portanto dos discursos de Ballmer ao vídeo da Red Hat, é possível constatar como 
os dois lados competem, como já foi dito, por corações e mentes de usuários, empresas e 
governos.

 3.7. Considerações Sobre a Natureza da Informática e a  
Autodeterminação Tecnológica 

A   importância   da   cronologia   de   eventos   narrada   até   aqui   reside   no   que   se   pode 


encontrar   quando   os   discursos   dos   dois   grupos   são   analisados.   Organizando­os   na 
cronologia do tempo histórico transparece a luta pelo poder, que está o tempo todo presente 
e atuando nos caminhos do desenvolvimento tecnológico. 

Desqualificar   uma   dada   tecnologia   é   também   qualificar   outra,   no   combate   entre 


softwares livres e softwares proprietários, o que se almeja conquistar são os caminhos que 

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ainda serão percorridos pela tecnologia, ou como definiu Sérgio Amadeu, então presidente 
do ITI: “O que está em disputa é o futuro, não o presente”139.
Ainda que seja recorrente encontrar profetas pregando o contrário, o futuro não está 
dado   e   não   é   certo,   sendo   já   isto   razão   suficiente   para   que   o   raciocínio   economicista 
determinista dominante deva ser contestado. Mesmo diante do imponderável, a resistência 
existe   e   acontece   de   forma   vibrante,   oscilando   entre   o   heróico   e   o   quixotesco,   muitas 
resistências ocorrem como lutas de apropriação; desta forma as populações não se deixam 
levar e praticam sim diversas formas de resistência, até mesmo a apropriação da tecnologia.
Sem o objetivo de fazer análises de mérito quanto à qualidade de cada tecnologia, é 
possível evidenciar que existem rachaduras no atual raciocínio economicista dominante e 
que   a   tecnologia   não   contém   apenas   a   componente   técnica,   sendo   também   política   e 
ideológica, mesmo em campos onde isso não transpareceria em um primeiro olhar, como 
nos sistemas operacionais de computadores.
O conceito que apresentaremos a seguir é original do pesquisador e “evangelista” do 
movimento   do  Software  Livre140,   Eric   S.   Raymond,   conforme   apresentado   em   seu   livro 
"The Cathedral & the Bazaar141".
Baseado em sua observação do kernel142 do Linux e no processo de desenvolvimento 
do software fetchmail, em a Catedral e o Bazar143, Raymond apresenta duas metodologias de 
desenvolvimento de software aberto radicalmente diferentes e por vezes quase antagônicas: 
o modelo da catedral, onde o código fonte está disponível juntamente com o lançamento do 
software,   mas   somente   neste   momento,   sendo   até   então   exclusivo   ao   grupo   de 
desenvolvedores; e o bazar, onde o código é desenvolvido via Internet, aos olhos do público. 
Raymond   concede   a   Linus   Torvalds,   lider   do   projeto   do   kernel   do   Linux,   o   título   de 
inventor deste processo.

139
 O Pingüim Avança. Carta Capital,  17 de março de 2004 ­ Ano XI ­ Número 345.
140
 The Open Source Definition is used by the Open Source Initiative to determine whether or not a software 
license can be considered Open Source. The definition was based on the Debian Free Software Guidelines, 
adapted   primarily   by   Bruce   Perens   and   by   April   2004   has   reached   version   1.9,   conforme   definido   na 
WIKIPEDIA em: http://en.wikipedia.org/wiki/Open_Source_Definition
141
 Inicialmente apresentado como um ensaio no Linux Kongress em 27 de maio de 1997.
142
 Parte central do sistema operacional, responsável por funções básicas.
143
 http://www.catb.org/~esr/writings/cathedral­bazaar/

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A   constatação   de   Raymond   é   importante   para   nossa   análise   na   medida   em   que 
evidencia um aspecto particularmente anárquico do processo de criação do Linux e talvez o 
elemento   que   permitiu   a   ele   crescer   onde   tantos   projetos   semelhantes   fracassaram:   “o 
código é desenvolvido via Internet, aos olhos do público”.
Este   talvez   seja,   para   além   dos   modelos   de   licenciamento   das   duas   alternativas 
estudadas aqui (Windows e Linux) o principal ponto de divergência entre duas abordagens 
para o desenvolvimento tecnológico.
Enquanto   a   Microsoft   trabalha   fornecendo   tecnologia   a   seus   clientes,   tecnologia 
proprietária, feita sob segredo industrial em seus laboratórios, o Linux tem cada segundo de 
sua   evolução   aberto   e   acompanhado   por   seu   público   consumidor,   que   opina   e   altera   os 
rumos tomados por esta tecnologia.
Isso leva a dois resultados muito distintos, se o objetivo perseguido pela Microsoft ao 
desenvolver o Windows é a obtenção de lucro e conquista e manutenção de novos mercados, 
este com certeza não é o objetivo do Linux, ou pelo menos não é o objetivo central de seus 
desenvolvedores, que em seu trabalho buscam atender as demandas diretas de seus usuários 
e mantenedores. E as demandas dos usuários podem não necessariamente coincidir com 
conquista   de   novos   mercados,   ou   traduzindo,   para   a   criação,   integração   e   instalação   de 
novas características no sistema operacional.
Esta disparidade de objetivos distancia ainda mais os dois sistemas operacionais do 
que suas próprias origens históricas, levando as duas tecnologias, focadas na solução do 
mesmo problema (a operação básica do computador), a adotarem padrões e mesmo opções 
arquitetônicas muito diferenciadas.
Por sua gênese e tradição a comunidade Linux busca apoiar e manter padrões abertos 
de   computação,   intercambiáveis   entre   todos   os   sistemas   operacionais   e   plataformas, 
enquanto a Microsoft, dentro da lógica de empresa privada, busca padrões proprietários, 
compatíveis apenas com seus produtos.
Constatado que os dois sistemas operacionais divergem em seus objetivos e métodos, 
é   cabível   iniciar   a   ponderação   do   quanto   isso   afeta   o   usuário   final   destas   tecnologias 
distintas.

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No caso do Windows, a mesma empresa que fabrica o sistema operacional, fabrica 
também  suítes  de escritório  (os pacotes Office), leitores de e­mail,   browser  de Internet, 
instant messenger  e toda uma gama de  softwares  em diferentes funções e atividade. Isso 
significa que além do sistema operacional, a Microsoft compete com outras empresas em 
diversos segmentos, e todas estas empresas fazem seus produtos para serem utilizados no 
Windows.
Como   apenas   a   Microsoft   tem   acesso   ao   código   fonte   do   Windows   e   apenas   ela 
comanda os rumos de seu desenvolvimento, pratica muitas vezes uma política considerada 
predatória e também perigosa. Ela promove uma grande integração entre seus aplicativos e 
o kernel do sistema, o que é, desconsiderando­se o aspecto de falta de competitividade, um 
risco de segurança.
Por ocasião do processo dos estados americanos contra a Microsoft por políticas anti­
competitivas os advogados da Microsoft chegaram a alegar que não era possível remover o 
browser  Internet Explorer do Windows dado seu grau de integração com o sistema, e que 
mesmo que tal fosse possível não cabia ao Departamento de Justiça interferir e impedir a 
Microsoft de “inovar”.
Porém   este   princípio   de   “inovação”   não   é   adotado   pelos   mantenedores   do   Linux, 
sendo   na   verdade   considerado   um   erro   conceitual,   Eric   Raymond,   apesar   de   seu   estilo 
notadamente   panfletário,   parece   estar   baseado   nos   argumentos   corretos   em   seu   artigo 
“Editorial ­­ Microsoft: Designed for Insecurity 144” que traz maiores detalhes sobre outro 
problema de arquitetura de produtos Microsoft.
Assim enquanto o Windows segue um plano de desenvolvimento onde os executivos, 
pessoal   de  marketing  e   analistas   de   mercado   foram   ouvidos,   o   Linux   permanece   uma 
criação coletiva da comunidade, ou como definiu Linus Torvalds: "Linux is evolution, not 
intelligent design."145
144
 http://www.oreillynet.com/pub/a/oreilly/opensource/news/insecure_0400.html
145
 Citação atribuída a Linus Torvalds por Greg Kroah­Hartman, funcionário da SUSE e um dos mantenedores 
do kernel  do  Linux (e  de  diversos   subsistemas   de  drivers),  que  exibiu  esta citação em  um  slide  de  sua 
apresentação no encerramento do OLS 2006 (Ottawa Linux Symposium), uma das principais conferência 
sobre o desenvolvimento do kernel do Linux. 
A tradução desta citação é  Linux é evolução,  não  desenho inteligente, e faz referência ao combate entre as 
idéias do evolucionismo biológico e criacionismo divino. Daí a comparação de Torvalds, que não vê um plano 
traçado de para onde o Linux deva seguir, mas o vê sendo capaz de se adaptar a novos ambientes e novas 
condições. 

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Esta   diferença   de   abordagem   entre   os   dois   sistemas   operacionais,   traz   um   reflexo 
direto   na   vida   dos   usuários   de   computadores,   na   medida   em   que   os   usuários   do   Linux 
parecem muito menos sujeitos a ataques de vírus e sempre com efeitos notadamente menos 
devastadores, já que o coração do sistema não é facilmente atingido por outros programas.
Há portato, menos lógica matemática e muito mais idéias e ideais, direcionando os 
rumos dos bits e bytes, dentro dos onipresentes computadores.

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 4. Uma História do desenvolvimento tecnológico brasileiro

 4.1. Brasil: raízes da industrialização e do desenvolvimento  
tecnológico.

Tendo em vista que a existência pretérita do material humano qualificado tem sido 
um   pré­requisito   para   a   inserção   do   Brasil   como   um   ator   relevante   no   atual   estágio   de 
desenvolvimento tecnológico do capitalismo e na arena do Software Livre, cabe a pergunta: 
“Qual a origem dos técnicos e engenheiros de informática brasileiros?” 

Não há, como é de se imaginar, uma resposta curta para esta pergunta. Chegar até 
ela exige a reconstrução dos caminhos que conduziram à industrialização brasileira, pois só 
assim pode­se compreender a origem dos técnicos, engenheiros e cientistas nacionais.

Esta   necessidade   aqui   colocada   já   foi   bem   explicitada   por   Milton   Vargas   ao 
constatar   que   existe   um  “fato   primordial   de   que   a   tecnologia   depende   do   valor   e   do  
preparo do corpo de pesquisadores nacionais”.146 Gildo Magalhães aponta ainda que “Se o 
próprio   mecanismo   da   tecnologia   avançada   implica   na   adaptação   e   no   progresso   do  
conhecimento, não  há  como separar ciência, pura ou aplicada, bem como sua utilização,  
do desenvolvimento como um todo. (...) Muitos, imprecisa e vagamente, denominam isto de 
“know­how” (e para nós, o verdadeiro conhecimento tecnológico precisa incluir o “know­
why”).”147

Não   há   aqui   a   intenção   de   confundir   desenvolvimento   tecnológico   com 


industrialização, mas há que se estabelecer uma relação causal entre uma coisa e outra, já 
que   para   operar   as   máquinas,   executar   sua   manutenção,   e   controlar   seus   processos   é 
necessária uma formação técnica. A indústria se transforma, portanto, no primeiro passo 
para a demanda por novo desenvolvimento tecnológico e por conhecimentos atualizados de 
ciências   e   engenharias,   ou   seja,   conhecimentos   que   se   não   são   científicos,   deles   são 
146
 VARGAS, Milton. Para uma Filosofia da Tecnologia. Editora Alpha Omega, 1994, São Paulo, pág. 225.
  SANTOS   FILHO,   Gildo   Magalhães.  Um   bit   auriverde:   Caminhos   da   tecnologia   e   do   projeto 
147

desenvolvimentista   na formulação  duma política nacional de informática para o Brasil (1971­1992). 


1994. 280f. Tese (Doutorado História) ­ Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas, Universidade de 
São Paulo, São Paulo. p. 106

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derivados.   Para   implantar   as   primeiras   indústrias,   por   rudimentares   que   fossem   era 
necessária   a   existência   de   um   corpo   mínimo   de   técnicos   e/ou   de   artesãos   mais   bem 
preparados, até com algum rudimento de conhecimento em ciências.

“O   Brasil,   entretanto,   antes   de   ser   o   âmbito   de   uma   sociedade  


criadora de saber científico, para seu próprio conhecimento, foi objeto de  
investigação alheia. (...) O primeiro  modo de pensamento moderno que de 
algum modo integrou a atividade científica na sociedade brasileira foi o  
positivismo, já  nos meados do século XIX. Isto deu como resultado final a  
idéia de ciência como necessidade social – a qual prevalece até hoje entre  
nós. (...) O segundo foi a criação  das academias militares e de medicina,  
por D. João  VI, a partir de 1808. As escolas militares desdobraram­se em  
escolas de engenharia, onde ao correr do século ensinava­se matemática, 
física e geologia. Nas escolas de medicina, a química e as biologias faziam 
parte do currículo. Além disso, o ensino das ciências do homem começava a  
despontar nas já existentes escolas de direito. Assim formaram­se ambientes  
de estudos ligados às profissões liberais, onde havia também o aprendizado  
de ciências.”148 

Assim as raízes da industrialização brasileira encontram­se parcialmente plantadas 
no século XIX, pois em meados deste século o Brasil já havia experimentado um pequeno 
surto   de   industrialização   com   o   desenvolvimento   da   indústria   têxtil,   a   implantação   de 
ferrovias para escoar a produção agrícola, alguns portos, hidrelétricas e mesmo sistemas de 
comunicação149. 

No início do século XX a implantação dos institutos de pesquisa é talvez o primeiro 
ponto importante para o desenvolvimento científico no Brasil, já que tinham como objetivo 
resolver problemas da sociedade por meio da pesquisa. Refletindo as necessidades  sociais 

148
  Idem, 1994, p. 226­227
149
 PEREIRA, L.C. Bresser. Desenvolvimento e Crise no Brasil. Zahar Editores, 1968, Rio de Janeiro, pág. 
29.

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estes institutos eram biológicos, agronômicos e de tecnologia, cobrindo as searas da saúde 
pública, agricultura e engenharia150.

Mesmo assim o país permanecia basicamente agrário, e por contraditório que possa 
parecer é com a crise mundial de 1929, com a quebra da bolsa de Nova York que serão 
dadas   as   condições   para   o   início   da   industrialização   brasileira,   pois   a   crise   trará   a 
necessidade de substituição das importações.

Até   então   o   Brasil   mantinha­se   em   um   estado   economicamente   semi­colonial, 


controlado pela elite cafeeira exportadora, que cuidava apenas de garantir que o processo de 
exportação   do   café   fosse   mantido   em   funcionamento.   Esta   elite   importava   praticamente 
todos os produtos que o Brasil consumia e agia ora com indiferença, ora com impedimentos 
e   até   sabotagem   e   perseguição   às   iniciativas   de   industrialização,   como   aquelas 
capitaneadas  pelo  Visconde de Mauá  na  segunda metade  do  século  XIX.  Além  da elite 
cafeeira havia uma pequena burguesia, parasitária do Estado, indicada aos cargos estatais 
por esta elite agrária e, portanto, plenamente em uníssono com os seus  interesses.

Quando a família real portuguesa foi forçada a se transferir para o Brasil cuidou de 
ajustar a “nova sede” aos padrões de quem agora era o centro do Império, assim em 1808 o 
Príncipe Regente D. João liberava às colônias portuguesas a liberdade de indústria, que por 
si só era insuficiente para iniciar a industrialização, como já apontou Nícia Vilela Luz:

“Não   se   efetuava,   entretanto,   a   industrialização   de   um   país   por  


simples   decreto   concedendo   liberdade   econômica.   A   própria   doutrina 
liberal   reconhecia   a   necessidade   de   um   pequeno   impulso   às   indústrias 
nascentes e o Príncipe Regente foi instado a dar mais um passo à gente, no  
sentido de favorecer o desenvolvimento industrial do Brasil. O resultado foi  
o   alvará   de   28  de   abril   de  1809  que   não   se   limitou,   porém,   aos   meios  
preconizados   pelos   liberais.   Além   da   isenção   de   direitos   aduaneiros   às  
matérias­primas necessárias às  fábricas nacionais, isenção  de imposto de  
exportação  para produtos manufaturados do país e utilização  dos artigos  
nacionais  no fardamento das  tropas  reais,  medidas  todas  essas  que  não  
150
 VARGAS, Milton. Para uma Filosofia da Tecnologia. Editora Alpha Omega, 1994, São Paulo, pág. 230.

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podiam   deixar   de   ser   aplaudidas   pelos   liberais,   estabeleciam­se   certas  
concessões que iriam, no decorrer do século, favorecer certos abusos contra  
os quais protestariam defensores do liberalismo econômico.”151

Como a propriedade das idéias, patentes e o direito autoral são assuntos centrais 
neste texto, cumpre notar que parte desses “abusos” consistia na  “outorga de privilégios 
exclusivos, por 14 anos, aos inventores ou introdutores de novas máquinas”152.

Mas   apenas   dois   anos   depois,   por   imposição   dos   interesses   ingleses   os 
manufaturados   oriundos   da   Grã­Bretanha   conseguiram   uma   tarifa   de   importação 
preferencial, inferior a 15%, menor que os 16% praticados contra os produtos portugueses, 
sendo isto o  bastante para minar os esforços anteriores  de industrialização e estabelecer 
clara   dependência   externa.   Findos   estes   tratados   na   década   de   40   o   Brasil   buscou   novo 
protecionismo à sua indústria quando em 1843 estabeleceu impostos de 50 a 60% sobre 
bens que tivessem similares nacionais, mas logo em 1844 a tarifa Alves Branco estabeleceu 
uma taxa de importação na casa de 30%. Os anos de 1846 e 1847 viram novos esforços e 
incentivos à indústria brasileira, em especial a têxtil, mas o café então já tomava o cenário 
político   e   econômico,   tornando   menos   favorável   o   ambiente   para   as   discussões   sobre   o 
desenvolvimento industrial brasileiro, reforçando a crença da notória “vocação agrícola” do 
Brasil e colocando os dirigentes em uma gangorra oscilando ora para o protecionismo ora 
para a liberalização. Para Nícia Vilela Luz:

“Colocados nesse dilema – promover a industrialização  do país, que  
reconheciam ser uma necessidade nacional, e atender ao mesmo tempo os  
interesses da lavoura – hesitaram, assim, os dirigentes brasileiros em adotar  
uma   política   francamente   protecionista.   Por   outro   lado,   repousando   o  
sistema tributário brasileiro na renda alfandegária, exigiam os interesses  
do  fisco uma tarifa essencialmente fiscal. Nesse impasse permanecerá  a  
política alfandegária brasileira, durante todo o período abrangido por este 

151
 LUZ,  Nícia Vilela. A Luta pela Industrialização do Brasil. Editora Alpha Omega, 1978, São Paulo, pág. 
21.
152
  Idem, 1978, p. 21.

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estudo,   incapaz   de   satisfazer   nem   aos   partidários   de   uma   política  
protecionista, nem aos defensores de um regime de livre troca.”153

Os anos seguintes trouxeram novas discussões sobre as taxas a serem aplicadas aos 
produtos importados e sobre a proteção da indústria nacional; se num primeiro momento o 
principal entrave à industrialização haviam sido os interesses ingleses, nos anos seguintes 
este   entrave   foi   interno,   configurado   como   a   pressão   exercida   pelos   interesses   da 
monocultura. Mas em 1878 os problemas de caixa do Tesouro cuidaram de elevar para 50% 
as taxas de importação, que redundaram em alívio e certa proteção para a indústria interna, 
finalmente dando condições para um primeiro surto industrial entre as décadas de 1880 e 
1890.

“Em  1885, registra­se em São Paulo o funcionamento de 13 fábricas  
têxteis com 1.670 operários e 3 fábricas de chapéus com 315 operários. No 
mesmo ano no mesmo Estado sabemos ainda da existência de 7 empresas  
metalúrgicas que reúnem cerca de 500 operários. Em 1889, conta­se no  
Brasil 636 empresas industriais onde trabalham 54 mil operários. Em 1901,  
entre as 91 mais importantes empresas industriais paulistas, 33 empregam 
de 10 a 49 operários, 33 de 50 a 199, 22 de 200 a 499, duas outras ocupam  
600 operários cada e uma empresa possui cerca de 800 operários.”154

 4.2. Mudanças no quadro político

Mas a real implantação da industrialização brasileira só poderia ter seu início com 
uma   mudança   radical   processada   nas   direções   políticas   do   país,   onde   os   exportadores 
agrícolas não fossem mais os controladores da máquina estatal, ainda que o processo de 
acumulação   da   lavoura   tenha   sido   determinante   para   o   nascimento   da   indústria,   como 
destaca Sérgio Silva:

153
 Idem, 1978, p. 26­27.
154
 SILVA, Sérgio. Expansão Cafeeira e Origens da Indústria no Brasil. Editora Alpha Omega, 1976, São 
Paulo, pág. 77.

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“Ainda   assim   a   produção   de   café   serviu   de   base   para   a 
industrialização   enquanto  cumpriu  seu   papel   na  acumulação   de   capital.  
Mas   na   década   de   1880   a   1890,   as   necessidades   historicamente  
determinadas pelo próprio desenvolvimento do capitalismo no Brasil e pela 
sua inserção  na economia mundial capitalista em formação  conduzem ao  
rompimento   com   as   formas   de   acumulação   do   trabalho   escravo,  
características da economia colonial.

Essas   transformações   não   podem   ser   reduzidas   à   passagem   ao  


trabalho assalariado, sob risco de não entendermos a própria passagem ao  
trabalho assalariado. O trabalho assalariado é o índice de transformações  
que   incluem   as   estradas   de   ferro,   os   bancos,   o   grande   comércio   de 
exportação  e importação  e, inclusive, uma certa mecanização  ao nível das 
operações de beneficiamento da produção.

São essas transformações que fazem da economia cafeeira o centro de  
uma rápida  acumulação  de capital baseada no trabalho assalariado. E é  
como parte integrante dessa acumulação  de capital que nasce a indústria  
no Brasil.”155

A   crise   de   1929   redunda   na   derrocada   econômica   da   elite   cafeeira   e,   em   1930, 


Getúlio Dornelles Vargas, então com 47 anos, toma o poder pela Revolução, tornando­se 
chefe do então Governo Provisório, provisório apenas até 10 de novembro de 1937, quando 
Vargas capitaneou um golpe de Estado, instituindo o Estado Novo que o manteve no poder, 
pondo fim à luta sucessória dos candidatos à Presidência da República.

Porém   a   desestruturação   do   poder   oligárquico   não   segue   com   suavidade   e 


travestidos sob o ideal constitucionalista – uma idéia em torno da qual podiam­se aliar de 
comum acordo diferentes correntes políticas – estavam  os interesses da elite empresarial 
urbana   paulista   que,   cooptou   outras   camadas   com   seu   discurso   progressista   veiculado 
principalmente no jornal O Estado de São Paulo do então editor Júlio de Mesquita Filho.

155
  Idem, 1976, p. 80­81.

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Da Revolução de 1930 que levou Vargas ao poder, desencadeou­se o Movimento 
Constitucionalista onde os paulistas em 1932 levantaram armas contra o Governo. Durante 
três meses ocorreram combates no território paulista e matogrossense, isolando São Paulo 
do restante do país  durante julho, agosto e setembro de 1932.

Comandada pelas elites a Revolução de 1932 foi apoiada pela FIESP que engajou 
diversas fábricas na produção de material bélico; assim durante estes três meses, além de 
tentar seguir com a vida civil na retaguarda, a indústria, o comércio, os transportes e as 
comunicações,   foram   colocados   diante   do   invulgar   desafio   de   abastecer   também  várias 
frentes de batalha com armas, munições e suprimentos. “A primeira vez que um instituto de  
pesquisas brasileiro tomou parte ativa num movimento político militar foi quando o LEM156 
desenvolveu atuação decisiva na Revolução Constitucionalista de São Paulo em 1932”.157

Os   outros  estados  que  inicialmente  apontaram  que  iriam   apoiar  São   Paulo   como 
Rio   Grande   do   Sul   e   Minas   Gerais   recuaram,   vindo   a   única   adesão   do   Mato   Grosso. 
Isolados e em inferioridade numérica os paulistas foram derrotados, mas mesmo assim a 
elite empresarial posará, no ano seguinte, com a convocação da Constituinte, de vencedora 
moral e política do combate, alegando que Vargas foi incapaz de ignorar o clamor de São 
Paulo. Por conta desta “visão paulista”, que em grande medida persiste até hoje, a revolução 
de 1932 teve e tem um curioso aspecto bairrista do qual ainda se ufanam os paulistas.

Além   do   engajamento   da   indústria   na   produção   (e   concepção)   de   armamentos 


durante a revolução, a derrota paulista trouxe um importante e inesperado desdobramento 
para a ciência e tecnologia no Brasil. Mesmo de posse da dita “vitória moral” a derrota de 
1932 deixou um gosto amargo para a elite e as classes médias de São Paulo, e a idéia de que 
São Paulo perdeu por não estar preparado para a guerra tomou vulto.

Assim em 1934 foi fundada a Universidade de São Paulo, criada com a união de 
faculdades pré­existentes (como Direito e Medicina) e a criação de novos institutos (como a 
Faculdade de Filosofia). A a USP já nasceu com  um  brasão onde se lê sugestiva divisa 
latina "Scientia Vinces", ou “Vencerás pela Ciência”. 

156
 LEM – Laboratório de Ensaio de Materiais da Escola Politécnica de São Paulo.
157
 VARGAS, Milton. Para uma Filosofia da Tecnologia. Editora Alpha Omega, 1994, São Paulo, pág. 233.

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O   mais   interessante   do   episódio   talvez   resida   no   fato   de   que   pela   primeira   vez 
tomou­se   consciência   em   território   nacional   do   valor   prático   da   pesquisa   científica   e   a 
necessidade   de   se   investir  nela.  Nos  anos   seguintes  a   Universidade   de   São   Paulo  irá   se 
firmar como uma das mais relevantes instituições de ensino e pesquisa da América Latina, 
contribuindo  decisivamente para o  desenvolvimento científico e industrial  alcançado por 
São Paulo e pelo Brasil.

Destaca­se o processo de constituição das universidades como  um  dos fatores de 


peso na industrialização do Brasil, e em geral datam dos anos 30 as primeiras universidades 
brasileiras que surgem  tardiamente mas firmam­se como centros produtores de ciência e 
tecnologia, ocupando o espaço de alguns institutos (muitos dos quais foram integrados às 
universidades).   Porém   Milton   Vargas   considera   que  “o   que   abriu   definitivamente   a 
atividade de pesquisas tecnológicas na universidade foi a instituição  dos cursos de pós­
graduação a partir dos primeiros anos da década de 60.”158 Sua argumentação baseia­se na 
percepção   de   que   o   estabelecimento   destes   cursos   é   igual   à   execução   de   pesquisas   na 
universidade, pesquisas estas agora financiadas por agências governamentais especialmente 
estabelecidas para tanto como a FINEP, FAPESP e CNPq.

 4.3. A Industrialização

Desta   forma,   se   por   um   lado   a   revolução   de   30,   não   permite   a   Vargas   romper 
totalmente   com   a   antiga   elite   agrária   do   país,   por   outro   afasta­a   pela   primeira   vez   na 
história do cume do poder, abrindo espaço para novas posturas e novos interesses. 

Porém   transições   desta   natureza   raramente   são   tão   simples,   e   diante   do   levante 
armado de 1932 em São Paulo, o Governo provisório se viu coagido pela necessidade de 
compor   com   a   elite   cafeeira.   O   resultado   desta   composição   foi   a   série   de   medidas 
destinadas a auxiliar o setor em sua crise, lançadas em 1933.

A crise leva o Governo a comprar as safras de café que não tinham mais condições 
de serem exportadas. Agindo desta maneira o Governo manteve o nível de demanda interna, 
impedindo o colapso da economia cafeeira. 
158
  Idem, 1994, p. 238.

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“Ao   garantir   preços   mínimos   de   compra,   remuneradores   para   a  
grande maioria dos produtores, estava­se na realidade mantendo o nível de  
emprego na economia exportadora e, indiretamente, nos setores produtores  
ligados   ao   mercado   interno.   Ao   evitar­se   uma   contração   de   grandes 
proporções   na   renda   monetária   do   setor   exportador,   reduziam­se 
proporcionalmente   os   efeitos   do   multiplicador   de   desemprego   sobre   os  
demais setores da economia.

(...) Dessa forma, a política de defesa do setor cafeeiro nos anos de  
grande depressão  concretiza­se num verdadeiro programa de fomento da 
renda nacional.

(...) É portanto perfeitamente claro que a recuperação  da economia  
brasileira, que se manifesta a partir de 1933, não  se deve a nenhum fator  
externo e sim à política de fomento seguida inconscientemente no país e que  
era um subproduto da defesa dos interesses cafeeiros.159” 

Ao   mesmo   tempo,   as   diferenças   cambiais   impediam   sumariamente   que   fosse 


mantida a política de importação de bens, um fator decisivo no cenário e necessário para o 
surgimento e consolidação da empresa nacional. 

Assim, quando o primeiro Governo de Vargas deu início ao processo de substituição 
de importações, causou um surto – talvez inadvertido – de industrialização no país, logo, 
em pouco tempo a capacidade ociosa da empresa nacional foi preenchida e o investimento 
na produção industrial passou a ser altamente lucrativo, mesmo que contemplando apenas o 
mercado interno, conforme relata Bresser Pereira:

“Vai­se desenrolar então,  a partir de 30, um drama, cujos contornos 
se irão  definindo cada vez mais. De um lado, lutando por uma volta ao  
antigo regime, a agricultura latifundiária do café e o alto comércio ligado 
ao café ou diretamente ao capitalismo internacional, com o apoio da classe  

159
 FURTADO, Celso. Formação econômica do Brasil. São Paulo: Nacional, 1999. p.190, 192 e 193.

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média parasitária ligada por laços econômicos e sociais (familiares mesmo)  
à antiga classe dominante. Do outro, o Governo, no qual, além de parte das  
referidas   classes   de   oposição   que   aderiram   para   poder   lutar   por   seu  
interesses em campos mais favoráveis, além dêsse grupo vamos encontrar a 
classe industrial, a classe proletária e uma nova classe média.” 160

A economista Maria da Conceição Tavares estudou o processo de substituição de 
importações   que   foi   operado   no   Brasil   e   no   restante   da   América   Latina   a   partir   deste 
período,  para   ela   o   desequilíbrio  externo   de   1914   a  1945   levou   os  governos   a  adotarem 
medidas objetivando a defesa do mercado interno frente à crise mundial. O objetivo seria 
antes   defender­se   do   desequilíbrio   externo   do   que   estimular   o   mercado   interno,   e   estas 
medidas consistiam quase que exclusivamente em controle e restrição de importações.

Tais   medidas   proporcionaram   um   processo   de   desenvolvimento   para   “dentro”, 


contrastando como o modelo primário­exportador que operava com a exportação de um ou 
dois   produtos   primários   e   circunscrevia   o   crescimento   à   demanda   externa   por   estes 
produtos.   Se   no   modelo   anterior   a   demanda   interna   de   manufaturados   era   suprida   por 
importações, agora, com as importações limitadas seria possível tentar suprir internamente 
a  demanda,  abrindo  espaço   para  a  industrialização161,  o  que  segundo  Conceição  Tavares 
corresponde a novo modelo de desenvolvimento.

“Inicialmente   utilizando   e   mesmo   sobreutilizando   a   capacidade 


existente   foi   possível   substituir   uma   parte   dos   bens   que   antes   se  
importavam.   Posteriormente,   mediante   um   redistribuição   de   fatores   e,  
particularmente, do recurso escasso, as divisas, utilizou­se a capacidade  
para importar disponível com o fim de obter do exterior os bens de capital e 
as   matérias­primas   indispensáveis   à   instalação   de   novas   unidades  
destinadas a continuar o processo de substituição” 162.

160
 PEREIRA, L.C. Bresser, Desenvolvimento e Crise no Brasil, Zahar Editores, 1968, Rio de Janeiro, pág. 
25. [sic]
161
  TAVARES, Maria da Conceição.  Da Substituição  de importações ao capitalismo financeiro: ensaios 
sobre a economia brasileira. Rio de Janeiro: Zahar, 1982.
162
 Idem, 1982, p. 33.

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Outros fatores contribuiriam para o desenvolvimento da industrialização brasileira, 
como   a   facilidade   do   transporte   e   a   presença   do   imigrante   que   produziram   um   salto 
qualitativo entre 1919 e 1929 na indústria paulista. 

Além   disso,   as   relações   capitalistas   estavam   mais   avançadas   no   Sul,   dando   as 
condições,   juntamente   com   a   política   estatal   de   substituição   de   importações,   para   que 
tivesse   início,   após   a   crise   de   1929,   a   produção   industrial   de   manufaturados   no   Brasil. 
Alinhados   a   estes   fatores   podemos   colocar   a   dependência   nordestina   com   o   comércio 
internacional   e   sua   baixa   integração   regional   para   começamos   a   pintar   o   quadro   das 
desigualdades regionais que a industrialização brasileira agravaria. 

Apesar de ainda sentir a pressão da elite agro­exportadora, neste período o Governo 
passa a atender as demandas de novas classes emergentes: a classe proletária e uma nova 
classe média, que agora é menos parasitária do Estado. Uma disputa política que pode ser 
mais claramente compreendida quando analisamos a composição da nova classe industrial.

É comum encontrar relatos de que com a crise do café os produtores da monocultura 
cederam espaço para os imigrantes, porém parece haver mais cinza nesta transição do que 
preto e branco. Bresser Pereira sustenta que, com  efeito, apenas uma pequena fração da 
classe industrial surge na parcela da antiga classe dirigente que se alinha ao novo Governo, 
tendo   seus   principais   representantes   na   classe   média   paulista,   especialmente   entre   os 
imigrantes:

“Os empresários brasileiros, ou melhor, paulistas, segundo pesquisas  
que realizamos, eram em geral imigrantes êles mesmos (50%), ou filhos e  
netos   de   imigrantes.   Apenas   16%   dos   empresários   tinham   origem   em  
famílias brasileiras, em que os pais e os avós eram brasileiros” 163

Aqui está colocada a controversa idéia de que o capital para esta produção industrial 
era inicialmente familiar e imigrante, que passou a ser reinvestido na produção e expandiu­
se. Mesmo Caio Prado Junior cai, em sua  História Econômica do Brasil, na armadilha de 

163
 PEREIRA, L.C. Bresser, Desenvolvimento e Crise no Brasil, Zahar Editores, 1968, Rio de Janeiro, pág. 
55.

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visualizar uma origem modesta para o empresariado brasileiro. Sérgio Silva não deixa de 
notar esta imprecisão quase tradicional da historiografia e aponta que:

“Warren   Dean   dá   uma   contribuição   decisiva   para   demonstrar   o 


caráter errôneo dessas teses: os imigrantes que se tornam industriais não se  
confundem   com   a   massa   de   migrantes.   Dean   os   denomina   'burgueses  
imigrantes', ressaltando desse modo aquilo que os distingue da massa de 
imigrantes constituída de trabalhadores.

(...)  Para  a  burguesia  industrial  nascente,  a  base   de  apoio  para  o  


início da acumulação não é a pequena empresa industrial, mas o comércio,  
em   particular   o   grande   comércio   cujo   centro   está   na   atividade   de  
exportação   e   importação.   Do   mesmo   modo   que   na   exportação,   a  
importação é controlada por empresas estrangeiras. Graças às suas origens  
sociais,   o   burguês   imigrante   encontra   facilmente   um   lugar   no   grande  
comércio. Ele torna­se representante de firmas e marcas estrangeiras e se  
encarrega da distribuição de produtos importados pelo interior do país.

(...)   A   situação   privilegiada   do   importador   durante   esse   período  


implica particularmente a possibilidade de dispor de capitais relativamente 
importantes, seja aplicando lucros de seus  negócios, seja recorrendo ao  
crédito   dos   bancos   estrangeiros   com   os   quais   mantém   relações  
comerciais.”164

Corroborando  esta  tese   está  também  Conceição  Tavares   ao  apontar  que  “grande 
parte das atividades substituidoras de importações era realizada por investimentos diretos  
estrangeiros, associados ou não  a empresários nacionais, que traziam consigo, além do  
capital, a técnica adotada em seus países de origem”165. Some­se a isso, o fato inegável de 

164
 SILVA, Sérgio. Expansão Cafeeira e Origens da Indústria no Brasil. Editora Alpha Omega, 1976, São 
Paulo, pág. 93 e 95.
165
  TAVARES, Maria da Conceição.  Da Substituição  de importações ao capitalismo financeiro: ensaios 
sobre a economia brasileira. Rio de Janeiro: Zahar, 1982. p.51

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que   com   o   florescimento   da   indústria   parte   do   capital   acumulado   pela   monocultura 
encontrou seu caminho até esta nova fase de acumulação.

Os anos 30 trazem assim um  conturbado período na história brasileira, marcados 
por um forte nacionalismo, disputas políticas166 e pelo início da industrialização. Se até os 
anos 30 o foco das políticas econômicas era a monocultura, não havendo política industrial 
no   Brasil,   a   mudança   de   atitude   que   vinha   se   consolidando,   tomaria   vulto   durante   o 
segundo Governo Vargas167. 

Além   do   foco   da   política   econômica,   muda   também   a   mentalidade,   e   a 


industrialização passa finalmente a ser vista como uma necessidade para fortalecer o país 
frente   os   humores   dos   mercados   externos   que   consumiam   os   produtos   agrícolas 
dominantes na pauta de exportações.

No   primeiro   Governo   Vargas,   durante   a   2ª   Guerra   Mundial,   ganharam  relevo   as 


obras de infra­estrutura e a criação das indústrias de base (siderurgia e cimento), pois é 
quando o  “Governo decidiu entrar no setor da siderurgia dando início ao investimento  
pioneiro de Volta Redonda, cuja entrada em funcionamento em 1946 constitui a primeira  
operação   em   grande   escala   na   indústria   pesada   da   América   Latina” 168.   Após   o 
desmantelamento do Estado Novo, o Governo Dutra paralisou a tendência industrializante e 
de   iniciativa   estatal,   retomada   no   segundo   Governo   Vargas,   que   marca   a   volta   da 
industrialização, “reservando um papel estratégico para as estatais”169, 

Em 1948 com o esgotamento das reserva de divisas o país precisa entrar em uma 
política de controle cambial e discriminação das importações, o que termina por oferecer 

166
 Com a instituição do Estado Novo em 1937 foi dissolvido o Congresso, outorgada uma nova Constituição e 
garantida a permanência de Vargas no poder até 29/10/1945, data em que tomou posse o advogado José 
Linhares, levado à presidência por convocação das Forças Armadas, como Presidente do Supremo Tribunal 
Federal, tendo em vista a deposição do titular Getúlio Vargas.
167
  José Linhares permanecerá no cargo apenas até 1946, quando em 31/01/1946, toma posse o Marechal 
Eurico Gaspar Dutra, eleito por sufrágio direto e de acordo com todos os dispositivos constitucionais de então. 
Dutra é novamente sucedido por Getúlio Vargas, também em eleição direta.
168
  TAVARES, Maria da Conceição.  Da Substituição  de importações ao capitalismo financeiro: ensaios 
sobre a economia brasileira. Rio de Janeiro: Zahar, 1982. p.70
169
  SANTOS   FILHO,   Gildo   Magalhães.  Um   bit   auriverde:   Caminhos   da   tecnologia   e   do   projeto 
desenvolvimentista   na formulação  duma política nacional de informática para o Brasil (1971­1992). 
1994. 280f. Tese (Doutorado História) ­ Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas, Universidade de 
São Paulo, São Paulo. p. 131

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novo  estímulo  à industrialização, pois  além  da proteção  cambial  institui uma reserva de 
mercado.  Esta   foi   basicamente   a   fase   de   implantação   das   indústrias   de   aparelhos  
eletrodomésticos e outros artefatos de consumo durável170.

Apesar de toda a “confusão”171 no quadro político durante os anos 50, a necessidade 
de industrialização  e  a sua  importância  haviam  se tornado  quase consenso  nas  camadas 
dominantes da sociedade brasileira, em parte pela situação deficitária da balança comercial, 
em  parte pela  influência  do  pensamento  de Raul  Prebish  e da CEPAL 172, que após  a  2ª 
Guerra Mundial ocuparam­se do estudo do desenvolvimento dos países sub­desenvolvidos 
da   América   Latina.   Assim,  “Graças   à   emergência   de   uma   camada   tecno­burocrática 
imbuída   dessas   idéias,   criou­se   um   padrão   de   intervenção   de   forma   até   relativamente  
independente do grupo político no poder: o plano SALTE, de 1949­1954 (governos Dutra e  
Vargas), o Programa de Metas, de 1956­1960 (governo JK) e o Plano Trienial (governo  
Goulart).   Também   nesta   fonte   podem   ser  encontradas  as   raízes   das   grandes   empresas  
brasileiras, tais como a Petrobrás, BNDE e SUDENE.”173

Os   anos   50   trazem   um   aumento   da   participação   indireta   do   Governo   nos 


investimentos   e   permite   que   o   capital   privado   estrangeiro   entre   de   maneira   oficial   na 
economia.   Este   capital   estrangeiro   impulsiona   novos   investimentos,   especialmente   na 
indústria   mecânica.   “Neste   período   teve   lugar   a   instalação   de   algumas   indústrias  
dinâmicas   como  a automobilística,   de  construção  naval,  de material  elétrico  pesado  e  

170
  Idem, 1994, p. 71
171
 Vargas suicida­se em 24 de agosto de 1954, assumindo então seu vice João Fernandes Campos Café Filho. 
Segue­se um novo período bastante conturbado na arena política brasileira, onde Café Filho é afastado por 
motivo   de   saúde   e   depois   sofre   um   impedimento.   Com   o   afastamento   de   Café   Filho,   em   08/11/1955,   o 
advogado   Carlos   Coimbra   da   Luz,   Presidente   da   Câmara   dos   Deputados,   assume   a   presidência,   onde 
permanece por apenas três dias, tendo sido deposto por um dispositivo militar e considerado impedido de 
exercer o cargo de Presidente da República pelo Congresso Nacional.
Entre 11/11/1955 a 31/01/1956 Nereu de Oliveira Ramos, então Vice­Presidente do Senado Federal, assumiu o 
Governo em virtude do impedimento do Presidente João Fernandes Campos Café Filho e do Presidente da 
Câmara dos Deputados, conforme deliberação do Senado Federal e da Câmara dos Deputados. Somente em 
31/01/1956, por eleição direta, a normalidade é restaurada, com a eleição do médico Juscelino Kubitschek de 
Oliveira como Presidente da República. ­ dados e datas: https://www.planalto.gov.br/historia.htm
172
 CEPAL – Comissão Econômica para a América Latina
173
  SANTOS   FILHO,   Gildo   Magalhães.  Um   bit   auriverde:   Caminhos   da   tecnologia   e   do   projeto 
desenvolvimentista   na formulação  duma política nacional de informática para o Brasil (1971­1992). 
1994. 280f. Tese (Doutorado História) ­ Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas, Universidade de 
São Paulo, São Paulo. p. 115

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outras     indústrias   mecânicas   de   bens   de   capital”174.  O   preço   desta   nova   fase   da 
industrialização foi o agravamento das desigualdade regionais e aumento da inflação, além 
disto passa a existir a percepção de que algo está faltando na industrialização brasileira e 
que a mesma ocorre acelerada, mas incompletamente:

“Nesse modelo de desenvolvimento “dependente”, havia lugar para o  
crescimento de um setor industrial local, que se efetuaria com recurso à  
tecnologia estrangeira. Note­se porém que a produção  transplantada dos  
países   adiantados   se   desloca   para   a   periferia   do   sub­desenvolvimento  
apenas após a tecnologia envolvida ter se tornado rotineira.

(...)  Assim, a  indústria local  não  chega a  necessitar  de  pesquisa  e 


desenvolvimento próprios, pois atua no mais das vezes como entreposto de  
vendas para as multinacionais”.175

Até a implantação da indústria automobilística não são feitas grandes perguntas ou 
reflexões sobre a origem da tecnologia, aceitando­se como certo que a tecnologia seria de 
alguma forma importada e paga, porém, entre o fim dos anos 60 e início dos 70 com  a 
percepção de que “[u]m país que não desenvolva por si mesmo sua capacidade científica e  
tecnológica, sem dúvida se tornará  dependente tecnológicamente e será  dominado pelos  
países   mais   avançados.”176,   foi   desencadeando   uma   mudança   de   postura   do   Governo 
brasileiro.

O   Plano   Estratégico   de   Desenvolvimento,   lançado   em   1967,   cria   a   FINEP 


(Financiadora   de   Estudos   e   Projetos),   fortalece   o   CNPq   e   constituí   o   FNDCT   (Fundo 
Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), ações que implementam uma base 
institucional sólida de apoio à pesquisa científica.
174
  TAVARES, Maria da Conceição.  Da Substituição  de importações ao capitalismo financeiro: ensaios 
sobre a economia brasileira. Rio de Janeiro: Zahar, 1982. p.72
175
  SANTOS   FILHO,   Gildo   Magalhães.  Um   bit   auriverde:   Caminhos   da   tecnologia   e   do   projeto 
desenvolvimentista   na formulação  duma política nacional de informática para o Brasil (1971­1992). 
1994. 280f. Tese (Doutorado História) ­ Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas, Universidade de 
São Paulo, São Paulo. p. 145
176
  SAGASTI,   Francisco   R.  Tecnologia,   Planejamento   e   Desenvolvimento   Autônomo.  São   Paulo: 
Perspectiva, 1986. p.16

31/08/2006 ­ 20060830_rbns.odt 105
Em 1974 Geisel lançou o II PND, que incluía a acentuada atuação das estatais na 
economia   e   visou   promover   novamente   um   movimento   de   substituição   de   importações 
como forma de poupar divisas (especialmente devido à crise do petróleo). Os empresários 
brasileiros  encontraram  neste  período   uma   infra­estrutura  bastante  favorável   em   energia, 
metalurgia, química e bens de capital, além de um novo padrão qualitativo na mão de obra 
oriunda das universidades e institutos de pesquisa. 

Dentro do segundo PND estava finalmente uma política de informática icialmente 
desvinculada de outras áreas em geral, que não a militar como nota Gildo Magalhães,  “[a] 
formação  de uma política nacional de informática após 1974 se daria no ápice de um  
segundo ciclo industrial após Vargas, que se poderia situar em princípio entre os anos de  
1967 e 1981.”177 É nesta época, com a formulação desta política nacional de informática, que 
ganha corpo, entre os profissionais da nova área, a idéia de que a dependência tecnológica 
era muito prejudicial ao desenvolvimento: 

“(1)   a   falta   de   conhecimento   científico­tecnológico   de   como   os  


produtos era concebidos e desenhados situou o Brasil no lado da execução  
na   divisão   internacional   do   trabalho;   e   (2)   o   compromisso   no   lado   da  
execução   resulta   em   comparativa   desvantagem   econômica.   Esta   dupla  
construção   de   significado   traduzia   a   falta   de   conhecimento   científico­
tecnológico   como   a   causa   da   desvantagem   econômica   no   contexto   da 
divisão internacional do trabalho, que era também traduzida como a causa  
da pobreza”178  

Durante os anos 70 o Governo brasileiro buscou fugir do seu modelo tradicional de 
importação   de   tecnologia   e   objetivou   desenvolver   uma   indústria   de   microcomputadores 
100%   nacional,   empreendimento   que   ao   menos   no   quesito   técnico   teve   significativo 

177
  SANTOS   FILHO,   Gildo   Magalhães.  Um   bit   auriverde:   Caminhos   da   tecnologia   e   do   projeto 
desenvolvimentista   na formulação  duma política nacional de informática para o Brasil (1971­1992). 
1994. 280f. Tese (Doutorado História) ­ Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas, Universidade de 
São Paulo, São Paulo. p. 135
178
 COSTA MARQUES, Ivan da. Cloning Computers: From Rigths of Possession to Rigths of Creation. In: 
Science as Culture. Routledge, Jun. 2005. Vol. 14, No. 2, 139­160.

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sucesso. Além da idéia de capacitação nacional, animava também este projeto o peso dos 
computadores e componentes eletrônicos na situação desfavorável da balança comercial.

A   capacitação   nacional   deveria   ser   baseada   na   criação   de   uma   massa   crítica   de 
técnicos brasileiros, uma posição que inicialmente encontra eco em diferentes setores da 
sociedade, dos militares à comunidade científica e burocracia estatal, fortalecida ainda com 
a existência de relativa capacitação tecnológica no Brasil179.

Para   atingir   tal   objetivo   foi   garantido   às   pesquisas   universitárias   de   engenharia­


reversa   das   máquinas   importadas,   e   comercialmente   disponíveis,   o   status   de   pesquisa 
científica “legítima”. O conceito apoiava­se na argumentação de que a engenharia­reversa 
consistia na “descoberta” e capacidade de reprodução de uma tecnologia alienígena, sem 
que a mesma fosse previamente conhecida, ou tivesse seu processo original de produção 
conhecido180.

Neste período está a resposta da pergunta que abre este capítulo, qual a origem dos 
técnicos e engenheiros de informática brasileiros? 

Basicamente a partir do final dos anos 60, com o esforço da engenharia reversa e a 
posterior reserva de mercado181 – implementada quando o Brasil atingiu capacidade técnica 
para produção de computadores, sem ter a capacidade industrial para sua produção – foram 
formados os primeiros grupos de profissionais de informática com profundo domínio de 
hardware  e  software, o material humano que foi base de sustentação e multiplicação da 
informatização brasileira nas décadas de 80 e 90.

Vigevani, assim como Gildo Magalhães (vide nota 173) também enxerga uma tecno­
burocracia que adere ao conceito de capacitação nacional para além das visões ideológico­
partidárias,  “[o]s   técnicos   desses   núcleos   tinham   diferentes     origens:   escolas   de   alto  

179
  VIGEVANI,  Tullo.  O  Contencioso  Brasil   x  Estados  Unidos  da  Informática  :   Uma  Análise   Sobre 
Formulação da Política Exterior. São Paulo : Alfa Omega : Editora da Universidade de São Paulo, 1995.
180
 COSTA MARQUES, Ivan da. Cloning Computers: From Rigths of Possession to Rigths of Creation. In: 
Science as Culture. Routledge, Jun. 2005. Vol. 14, No. 2, 139­160.
181
  Para a discussão detalhada da Reserva de Mercado da Informática, estressando diferentes aspectos, ver: 
Ivan da Costa Marques, Gildo Magalhães do Santos Filho, Maria Helena Tachinardi e Tullo Vigevani.

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gabarito tecnológico (Politécnica da USP, ITA, Engenharia da PUC/RJ, COPPE­UFRJ),  
orgãos públicos, etc.”182

Contudo   tecnocratas   de   médio   escalão   compõem   um   “bloco   social   débil”,   e   a 


desarticulação da academia e do poder público com o capital impediram a continuidade do 
desenvolvimento   alcançado   nos   laboratórios,   não   sendo   possível,   afinal,  “separar   o 
problema do desenvolvimento tecnológico do problema da capacidade industrial”183. 

O   que   ficou   demonstrando   no   caso   do   projeto   brasileiro   de   informatização   foi   a 


necessidade   de   se   trabalhar   conjuntamente   a   Tecnologia   de   Projeto,   a   Tecnologia   de 
Produção e a Tecnologia de Uso. Isto significa que além de ser capaz de manufaturar um 
artefato   em   laboratório,   é   precisa   investimento   industrial   para   ganhar   os   mercados,   sem 
esquecer  do  condicionante  de  um   ambiente  cultural   e  educacional  compatível,   capaz   de 
absorver o novo artefato.

Chegando nos anos 1980 a crise econômica aliada à ideologia liberalizante colocou 
um freio nas conquistas até aqui realizadas:

“O   Estado   brasileiro,   sem   diretrizes   e   incapaz   de   realizar   as  


necessárias reformas sociais, iniciou na década de 1980 o rápido declínio 
que o levaria ao colapso de vitórias conseguidas a duras penas desde os 
anos   30   com   a   decadência   da   educação,   saúde,   segurança,   energia,  
transporte, telecomunicações, etc. No afã de minimizar o Estado em funções 
claramente obsoletas e de fortalecer uma iniciativa privada encabeçada por 
empresas multinacionais, jogou­se fora a criança com a água  do banho:  
destruiu­se   também   a   capacidade   de   o   Estado   brasileiro   promover   a  
modernização  e o desenvolvimento, em meio a uma crise sem precedentes  
em que o poder de caixa do Estado minguou cada vez mais.”184
182
  VIGEVANI,  Tullo.  O  Contencioso  Brasil  x  Estados   Unidos   da  Informática  :  Uma  Análise  Sobre 
Formulação  da Política Exterior.  São Paulo : Alfa Omega : Editora da Universidade de São Paulo, 1995. 
p.76
183
  Idem, 1995, p. 80.
184
  SANTOS   FILHO,   Gildo   Magalhães.  Um   bit   auriverde:   Caminhos   da   tecnologia   e   do   projeto 
desenvolvimentista   na formulação  duma política nacional de informática para o Brasil (1971­1992). 
1994. 280f. Tese (Doutorado História) ­ Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas, Universidade de 
São Paulo, São Paulo. p. 151

31/08/2006 ­ 20060830_rbns.odt 108
Ao   contrário   do   que   aconteceu   em   outros   países,   nos   anos   80,   o   capital   para   a 
produção   do  computador  brasileiro   não   teve  origem   nos   grupos  industriais,  mas  sim  no 
sistema   financeiro.   Duas   razões   são   apontadas   para   esta   origem,   a   primeira   sendo   a 
indução do Estado, e a segunda a visão do setor, que considerou os benefícios da automação 
como caminho para a diminuição de custos na operação da economia inflacionária; assim 
nos anos 80, no Brasil, os bancos criam e/ou adquirem empresas de tecnologia. Grandes 
empresas de tecnologia, ainda em operação no Brasil, são herança deste movimento como a 
Scopus (banco Bradesco) e a Itautec (banco Itaú). 

Porém, a pressão americana sobre as reservas aplicadas ao setor de informática pelo 
governo   brasileiro   –   formalizada   em   ameaça   de   sanções   aos   produtos   exportados   pelo 
Brasil – aliada   ao descontentamento interno com a burocracia e questionamentos sobre a 
capacidade do governo em gerir a política de informática, indicavam que logo este mercado 
sofreria uma mudança185. Um dos principais pontos do qual faziam questão os americanos 
era uma lei brasileira do software, assunto abordado a seguir.

 4.4. História do Software no Brasil

A   transformação   proposta   por   uma   inovação   tecnológica   não   pode   ser 


satisfatoriamente engendrada se estiver dissociada da acumulação de capital (como Celso 
Furtado já havia notado), uma vez que a difusão da inovação é, ou deve ser, sustentada pelo 
capital previamente acumulado. 

Como já foi mencionado neste texto, além da pesquisa, são necessários mais dois 
passos   na   consolidação   da   tecnologia:   produção   e   uso.   O   uso   é   um   fato   culturalmente 
determinado   e   se   relaciona   com   a   capacidade   social   de   absorver   a   tecnologia,   está 
diretamente ligado ao nível educacional da população. Produção, contudo, é um fator mais 

  Cf.  SANTOS   FILHO,   Gildo   Magalhães.  Um   bit   auriverde:   Caminhos   da   tecnologia   e   do   projeto 
185

desenvolvimentista   na formulação  duma política nacional de informática para o Brasil (1971­1992). 


1994. 280f. Tese (Doutorado História) ­ Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas, Universidade de 
São Paulo, São Paulo. e VIGEVANI, Tullo. O Contencioso Brasil x Estados Unidos da Informática : Uma 
Análise Sobre Formulação da Política Exterior. São Paulo : Alfa Omega : Editora da Universidade de São 
Paulo, 1995.

31/08/2006 ­ 20060830_rbns.odt 109
complexo, está relacionado com a existência ou criação da base industrial necessária para 
tornar   a   inovação   em   produto   viável,   logo   depende   da   acumulação   prévia   de   capital   já 
convertido ou passível de conversão em instalações produtivas.

“No Brasil, como, aliás, em outros países, a indústria de informática  
não  surgiu como consequência do fluir das forças produtivas ou da “mão  
invisível do mercado”, mas como consequência de uma ação deliberada do 
Estado, que foi levado a isto pela conjugação de diferentes razões, inclusive  
e   principalmente   por   vontade   política   e   por   interesses   que   não   eram  
diretamente empresariais, ao menos na origem”186.

E   já   no   começo   da   indústria   de   informática   no   país   o   software  foi   uma   questão 


espinhosa   a   ser   administrada   pelo   Governo   Brasileiro,  “desde   1968   a   Marinha   estava  
preocupada com o domínio tecnológico dos computadores de bordo para controle de tiro  
vindos em suas novas fragatas, recém­importadas da Inglaterra”187.

O  protótipo G­10 (“Patinho Feio”), realizado pela Escola Politécnica da USP em 
1971 foi o primeiro computador brasileiro, construído sob o patrocínio do GTE (Grupo de 
Trabalho Especial) da Marinha/BNDE, formado com objetivo de desenvolver o projeto do 
computador   nacional.   Além   da   Escola   Politécnica   da   USP   que   ficou   responsável   pelo 
projeto do hardware, a PUC­RJ foi patrocinada para desenvolver o software188. 

Fundada em 1974 a COBRA 189 industrializou o protótipo G­10, cuja evolução o G­
11 foi o início de sua linha comercial (modelo 530).  “Ao mesmo tempo foi nacionalizado o  
computador da Ferranti inglesa, para a Marinha (que como vimos estava na origem da 

186
    VIGEVANI,   Tullo.  O   Contencioso   Brasil   x   Estados   Unidos   da   Informática   :   Uma   Análise   Sobre  
Formulação da Política Exterior. São Paulo : Alfa Omega : Editora da Universidade de São Paulo, 1995. p.75.
187
  SANTOS   FILHO,   Gildo   Magalhães.  Um   bit   auriverde:   Caminhos   da   tecnologia   e   do   projeto 
desenvolvimentista   na formulação  duma política nacional de informática para o Brasil (1971­1992). 
1994. 280f. Tese (Doutorado História) ­ Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas, Universidade de 
São Paulo, São Paulo. p. 157 
188
 SANTOS FILHO, loc. cit.
189
 Computadores Brasileiros S.A.

31/08/2006 ­ 20060830_rbns.odt 110
substituição  de importações de   computadores), resultando na fabricação  de um modelo  
destinado também para o uso civil em controle de processos.190” 

O dirigismo estatal na criação da  indústria de informática deu origem a diferentes 
atritos   com   os   Estados   Unidos191,   agravados   sensivelmente   em   outubro   de   1984,   com   a 
aprovação pelo congresso nacional da Lei de Informática 192 quando se intensificou a pressão 
norte­americana contra a política de informática do governo brasileiro, com a possibilidade 
concreta de retaliações contra produtos brasileiros. Desde os primórdios destes atritos, os 
softwares  se apresentam como questão estratégica para o Brasil, estratégia e problemática 
com o forte impulso protecionista dos anos de 1982, 1983 e 1984. 

“Com o Ato Normativo 022/82 a SEI conferiu ao software natureza de  
tecnologia não patenteável, negando a tais produtos direitos de propriedade 
autoral (copyright), e ao mesmo tempo instituiu o registro dos programas de 
computador   comercializados   no   mercado   local,   cedendo   preferência   aos  
produtos desenvolvidos no país”193.

Essa medida foi tomada em resposta à tentativa de empresas norte­americanas de 
registrar no Brasil os seus softwares como obras intelectuais, ou seja, já em 1982 a questão 
da propriedade das idéias estava colocada no mercado brasileiro de softwares.

No ano de 1986 as relações com os Estados Unidos estavam extremamente tensas e 
o  copyright  para o  software  era uma das principais questões em discussão. Os órgãos do 

190
  SANTOS   FILHO,   Gildo   Magalhães.  Um   bit   auriverde:   Caminhos   da   tecnologia   e   do   projeto 
desenvolvimentista   na formulação  duma política nacional de informática para o Brasil (1971­1992). 
1994. 280f. Tese (Doutorado História) ­ Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas, Universidade de 
São Paulo, São Paulo. p. 159
191
 Cf. VIGEVANI, Tullo. O Contencioso Brasil x Estados Unidos da Informática : Uma Análise Sobre 
Formulação da Política Exterior. São Paulo : Alfa Omega : Editora da Universidade de São Paulo, 1995. ; 
SANTOS   FILHO,   Gildo   Magalhães.  Um   bit   auriverde:   Caminhos   da   tecnologia   e   do   projeto 
desenvolvimentista   na formulação  duma política nacional de informática para o Brasil (1971­1992). 
1994. 280f. Tese (Doutorado História) ­ Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas, Universidade de 
São Paulo, São Paulo. ; TACHINARDI, Maria Helena. A Guerra das Patentes : O conflito Brasil x EUA 
sobre propriedade intelectual. São Paulo : Paz e Terra, 1993.
192
  Vide: Anexos, documento III
193
  VIGEVANI,  Tullo.  O  Contencioso  Brasil  x  Estados   Unidos   da  Informática  :  Uma  Análise  Sobre 
Formulação  da Política Exterior.  São Paulo : Alfa Omega : Editora da Universidade de São Paulo, 1995. 
p.104.

31/08/2006 ­ 20060830_rbns.odt 111
governo encarregados de gerir a política de informática, pretendiam que o   software  fosse 
comercializado   com   controle   sobre   o   limite   de   pagamentos   de   royalties  e   pela   via   do 
licenciamento de empresas brasileiras. Havia também a intenção de exigir que o registro 
dos softwares fosse feito na forma de código fonte, reflexo da busca da capacitação para a 
concepção   e   engenharia   dos   produtos,   tom   principal   de   toda   a   política   brasileira   de 
informática, o que alarmava as empresas norte americanas.

“Em relação  à  questão  do software, além dos pontos já  citados, um  


outro era considerado essencial pelos Estados Unidos: a regulamentação  
da   obrigatoriedade   ou   não   das   empresas   exportadoras   de   software   de  
divulgar   seus   códigos­fonte.   Aí   residia   uma   questão   de   princípio   que,  
conforme a decisão  final do governo, implicaria debilitamento de todo o 
conceito   de   capacitação   nacional.   A   embaixada   norte­americana 
preocupava­se   com   o   risco   de   que   fossem   reduzidos   para   três   anos   os 
direitos das empresas estrangeiras sobre seus programas. Enquanto isso,  a  
questão  do código­fonte mobilizaria rapidamente, além dos negociadores  
dos Estados Unidos, as próprias empresas daquele país, em particular as de  
software, que começava a mover­se concretamente em relação  ao Brasil e 
suas empresas.

(...) a abertura do programa fonte era um risco inaceitável para as  
empresas   produtoras   de   software,   pois   abririam   mão   da   matéria­prima 
básica   do   retorno   de   seu   investimento   intelectual   em   pesquisa   e  
desenvolvimento.   Este   era,   certamente,   um   caso   de   conflitualidade  
estrutural   de   difícil   equacionamento,   em   que   a   perspectiva   cooperativa 
tinha difícil aplicação”.194

A   questão   do  software  mereceu   então   lei   específica 195,   criada   devido   à   pressão 
americana e que foi enviada para tramitar no Congresso, mantendo as premissas brasileiras 

194
 Idem, 1995, p. 246 e 248.
195
  Vide: Anexos, documento III (Lei No 7,646, de 18 de dezembro de 1987)

31/08/2006 ­ 20060830_rbns.odt 112
de  inserção   na  indústria  de  informática:  mantendo   o  controle  do   mercado  e  buscando   a 
capacitação para a concepção e engenharia dos produtos informáticos.

Em   maio   de   1986   a   Microsoft   comunicou   a   empresas   brasileiras,   incluindo   aí   a 


Itautec, que poderiam ser processadas pela violação da propriedade do MS­DOS. A defesa 
da Itautec alegou ter desenvolvido um  software  de sistema operacional, compatível com o 
IBM­PC,   sem   consulta   a   especialistas,   código   fonte   ou   documentação   da   Microsoft, 
portanto não configurando cópia.

“A iniciativa da Microsoft visou, inicialmente, a algumas empresas  
brasileiras: além da Itautec, Sid, Microtec, Prológica e outras. Cerca de 
cinqüenta empresas brasileiras poderiam ser atingidas pela acusação. (...) a  
SDD – Sistemas de Informática que licenciou para outros quinze fabricantes  
o chamado SSD­DOS, negou desde o princípio qualquer plágio. (...) provas  
em   poder   da   Microsoft,   obtidas   através   de   peritagem   em   micros   e  
programas,   eram   em   alguns   casos   comprobatórias   e   em   outros  
insustentáveis,   mas   o   fato   é   que   estas   pressões   produziram   resultados 
importantes (...)”.196

Destes   o   mais   relevante   talvez   tenha   sido   o   auxílio   em   minar   o   apoio   interno   à 
Reserva de Mercado. Diante das acusações, diversos empresários viram­se compelidos a 
considerar e defender o licenciamento do produto da Microsoft. Esta postura parece ter sido 
particularmente forte entre os casos onde havia a perspectiva   “comprobatória” de fraude, 
que tornava o licenciamento ainda mais atraente, já que não haveria grande investimento em 
pesquisa e desenvolvimento a ser perdido.

Este relato dá a idéia da importância para o Brasil da autonomia sobre os  softwares 
e em especial sobre o seu próprio sistema operacional, assunto sobre o qual pode­se juntar a 
efetiva atuação do USTR197 contra a obtenção de um sistema operacional pelo Brasil.

196
  VIGEVANI,  Tullo.  O  Contencioso  Brasil  x  Estados   Unidos   da  Informática  :  Uma  Análise  Sobre 
Formulação da Política Exterior. São Paulo : Alfa Omega : Editora da Universidade de São Paulo, 1995. p. 
252.
197
 United States Trade Representative

31/08/2006 ­ 20060830_rbns.odt 113
Um  conjunto   de  empresas   brasileiras,  unidas  na  Associação   para  o  Progresso   da 
Informática (API) vinha negociando há três anos com a ATT 198  a compra de seu sistema 
UNIX, com o código fonte incluso, até que a negociação foi terminada pela ATT.

“(...) o Departamento de Comércio e o USTR não ordenaram medidas 
concretas à ATT, mas alertaram para os perigos que a falta de proteção de  
software   no   Brasil   traria   para   um   produto   no   qual   estava   implícito   o  
licenciamento do código­fonte.

(...) a ATT interrompeu as negociações, o que evidenciou a força de  
liderança da ação estatal norte­americana, que, confirmando mais uma vez  
nossa hipótese, tinha objetivos de caráter estratégico, mais amplos que os  
aspectos comerciais específicos”.199

Nesta época o Brasil já contava com inúmeros “clones” do UNIX desenvolvido por 
empresas como  “COBRA (SOX), Digirede (Digix), Edisa (Edix), USP e Prológica (Real),  
Núcleo de Computação e Eletrônica da UFRJ (Plurix)”200, mas os empresários brasileiros 
estavam em busca do licenciamento do UNIX para contarem com um padrão único.

O contencioso da informática entre Estados Unidos e Brasil arrastou­se por anos, 
periodizados entre setembro de 1985 e outubro de 1989 pelo Prof. Tullo Vigevani. Entre 
todas as questões levantadas nos anos de debate entre as duas nações foram  contestadas 
posições   sobre:   a   legalidade   da   engenharia   reversa,   o   direito   à   autonomia   tecnológica, 
proteção à indústrias nascentes, reserva de mercado e clonagem de sistemas. 

Porém   foi   a   questão   da   propriedade   intelectual   e   do   direito   à   propriedade   dos 


softwares,   em   especial   dos   sistemas   operacionais,   que   levou   mais   tempo   para   ser 
equacionada, levando o Brasil à beira de pesadas sanções econômicas, justamente por uma 
ação contrária ao MS­DOS da Microsoft.

198
 American Telephone and Telegraph
199
  VIGEVANI,  Tullo.  O   Contencioso  Brasil  x  Estados   Unidos   da  Informática  :  Uma  Análise  Sobre 
Formulação  da Política Exterior.  São Paulo : Alfa Omega : Editora da Universidade de São Paulo, 1995. 
p.264.
200
 Idem, 1995, p. 264.

31/08/2006 ­ 20060830_rbns.odt 114
Atuando dentro dos limites técnicos da lei de reserva de mercado, a SEI (Secretaria 
Especial de Informática) recusou o registro e proibiu a comercialização no Brasil do MS­
DOS em setembro de 1987, por existir um similar nacional, o Sisne, da Scopus. Com a crise 
econômica instalada no Brasil o momento era oportuno para o governo americano “atender  
às reivindicações da Microsoft”201 (que então não tinha nenhuma participação no mercado 
brasileiro)   e   anular   porções   da   lei   do   software,   relacionadas   à   propriedade   intelectual, 
inaceitáveis para os negociadores norte­americanos.

Esta ação fora desencadeada por empresas brasileiras que considerando a posição da 
Microsoft de líder neste segmento, entraram em um acordo com a empresa e solicitaram o 
registro do MS­DOS a SEI. O resultado da negativa foi a Scopus ser acusada de pirataria 
pela   Microsoft,   que   inclusive   ao   lado   de   outras   produtoras   de  software  como   Lotus   e 
Autodesk, buscou levar o caso ao Congresso Norte Americano.

O resultado direto dos protestos da Microsoft foi o anúncio, pelo presidente Reagan, 
que o Brasil  sofreria sanções no valor de 105  milhões  de dólares, em  produtos a serem 
definidos, ação que serviu definitivamente para minar o já vacilante apoio da sociedade e 
da classe empresarial (que como sabemos nunca aderiu com muita convicção) à reserva de 
mercado.   O   valor   da   sanção   inclusive   cheou   a   ser   contestado,   pois   se   fosse   constatado 
algum prejuízo da Microsoft ele escilaria entre 1,5 e 4 milhões de dólares.

“(...)   Bill   Gates   se   empenhou   pessoalmente   em   reverter   a   decisão  


brasileira   de   não   autorizar   o   licenciamento   do   MS­DOS.   (...)   Gates   em  
nenhum   momento   aceitou   que   a   similaridade   prevista   na   legislação  
brasileira era uma idéia razoável e válida (...) ele usaria todo seu poder de  
lobby para conseguir licenciar o DOS, o que efetivamente ocorreu”.202 

Pela   segunda   vez   neste   texto   é   necessário   remeter   o   leitor,   pela   semelhança   dos 
casos, à questão da clonagem do software do Lisa, o acordo da Microsoft com John Sculley 
e   o   indeferido   processo   da   Apple   contra   a   Microsoft   por   conta   da   “similaridade”   do 
Windows com os sistemas operacionais dos Macintosh.
201
 Idem, 1995, p. 298
202
 Idem, 1995, p. 301

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Como forma de suavizar a postura americana e tentar evitar as sanções anunciadas 
Sarney sancionou a Lei 7.646 (18/12/1987), chamada Lei dos Softwares, com 13 vetos, que 
atendiam   parcialmente   às   demandas   norte­americanas,   que   viriam   a   ser   plenamente 
satisfeitas até a regulamentação da lei203.

Desta   forma,   em  “(...)   1989,   os   gastos   em   P&D   das   empresas  


nacionais   de   informática   atingiram   US$  340   milhões,  correspondendo  a  
8,2% de seu faturamento total. Neste contexto, havia grande demanda por 
profissionais altamente qualificados, serviços técnicos e treinamento.

A   partir   de   1990,   com   o   início   do   processo   de   liberalização   do  


mercado de informática, as empresas passaram a buscar no exterior não só  
a tecnologia como os próprios produtos finais, através da importação  de 
kits ou equipamentos totalmente montados. Em conseqüência, as empresas  
nacionais reduziram suas atividades de P&D em até 70%, desmobilizando  
grande parte das equipes técnicas.

A   natureza   da   demanda   por   serviços   tecnológicos   também   foi  


alterada,   refletindo   a   ênfase   em   marketing   das   novas   estratégias   das  
empresas nacionais.”204

E em 1991 a Lei 8.248, de 23 de outubro é sancionada pelo presidente Fernando 
Collor   de   Mello,   terminando   em   definitivo   com   a   reserva   do   mercado   brasileiro   de 
informática em outubro de 1992, datas que marcam a capitulação brasileira no seu objetivo 
de autodeterminação tecnológica.

203
 VIGEVANI, Tullo, loc. cit.
204
  TIGRE,   Paulo   Bastos.   Liberalização   e   capacitação   tecnológica:   o   caso   da   informática   pós­reserva   de 
mercado no Brasil. In: SWARTZMAN, Simon (Coord.); KRIEGER, Eduardo... [et. al.]. Ciência e Tecnologia 
no Brasil : política industrial, mercado de trabalho e instituição  de apoio.  Rio de janeiro: Editora da 
Fundação Getúlio Vargas, 1995. p. 179.

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 4.5. O Software Livre e a política brasileira de desenvolvimento  
tecnológico, uma nova tentativa de autodeterminação.

O florescimento dos microcomputadores nos Estados Unidos e no Brasil, apesar de 
tudo, guarda certas semelhanças. Se nos Estados Unidos foi a contra­cultura quem criou o 
PC, no Brasil ele foi criado pela engenharia reversa, ambos movidos a combustíveis com 
uma identidade comum: a rebeldia.

É preciso destacar o peso do conceito de “engenharia reversa” e dar alguma noção 
de  sua   importância,   pois   mesmo  diante   do   fracasso,   ele  capacitou  toda   uma  geração   de 
técnicos brasileiros.

Este conceito faz um paralelo com a importância do conhecimento do código fonte 
dos  softwares  e   do   sistema   operacional,   já   que   é   nesta   dimensão   que   está   a   diferença 
fundamental   da   capacitação   para   o   Estado:   ter   técnicos   que   sejam   apenas   “operadores 
certificados”   de   um   sistema   operacional   alienígena   ou   ter   “engenheiros”   de   um   sistema 
operacional, nacional (ou transnacional no caso do Linux).

O   ocaso   da   política   nacional   de   informática   põe   em   relevo   a   questão   da 


autodeterminação   tecnológica   dos   países,   demonstrando   que   ela   não   estava   acessível   ao 
Brasil de então – nem em suas décadas de desenvolvimentismo estruturalista, de inspiração 
cepalina, muito menos na guinada neo­liberal que o acomete em seguida.

“Uma   condição   prévia   para   a   autodeterminação   é   ter   um   grau  


significativo de autocontrole ou independência nacional, entendendo­se por  
isso a liberdade de fixar objetivos nacionais e de escolher os meios para  
alcançá­los. Isto implica um ato político de afirmação e a possibilidade de  
mantê­lo – neutralizando interferências externas e internas – durante todo o  
tempo necessário para consolidar as transformações e fixar as bases da  
estrutura sócio­econômica que se deseja alcançar. Este ato de afirmação  
deve incluir medidas que permitam regular investimentos, modificar pautas  

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de   consumo,   dirigir   a   orientação   das   atividades   sociais   produtivas,   e  
determinar o uso dos recursos naturais.”205

Dos três pontos que Sagasti elege como centrais na autodeterminação tecnológica de 
um   país206,   o   Brasil   só   conseguiu   implementar   satisfatoriamente   a   capacidade   de   gerar 
conhecimento técnico, falhando na tomada de decisões autônomas e falhando na capacidade 
de produção interna. Assim, os anos 90 vão configurar o Brasil basicamente em mais um 
mercado consumidor de informática.

Este cenário ficará praticamente inalterado até 2002 quando o PT chega ao poder 
com a eleição de Lula. O PT trazia consigo diversas experiências implantação bem sucedida 
de Softwares Livres em administrações municipais, embora o Software Livre não seja seja 
exclusividade   do   PT207  é   sintomático   que   logo   que   se   confirmou   a   vitória   de   Lula,   a 
imprensa tenha especulado que Bill Gates, por intermédio do senador Cristóvão Buarque, 
tenha enviado uma cópia de seu livro A empresa na velocidade do pensamento, e uma carta 
convidado Lula  para visitar os EUA e conversar sobre como implementar projetos de alta 
tecnologia   no   Brasil208.   Afinal,   a   adoção   em   escala   Federal   da   políticas   petistas 
representaria   não   apenas   uma   perda   de   mercado,   como   um   péssimo   precedente   para   a 
Microsoft.

205
  SAGASTI,   Francisco   R.  Tecnologia,   Planejamento   e   Desenvolvimento   Autônomo.  São   Paulo: 
Perspectiva, 1986. p. 130­131
206
  Francisco   Sagasti,   professor   da   Universidade   do   Pacífico,   em   Lima   na   década   de   90,   foi   chefe   de 
Planejamento   Estratégico   do   Banco   Mundial   de   1987   a   1991   e   trabalhou   nos   ministérios   das   Relações 
Exteriores e Planejamento e Indústria, do Peru. Segundo Sagasti três pontos são centrais na autodeterminação 
tecnológica:
a) A capacidade de tomar decisões autônomas em questões de tecnologia. 
b) A capacidade de gerar de modo independente os elementos críticos do conhecimento técnico que 
são necessários à obtenção de um determinado produto ou processo.
c) Capacidade  potencial   autônoma  de produzir, dentro do  país,  os  bens   e  serviços  considerados 
essenciais na estratégia de desenvolvimento.
in   SAGASTI,   Francisco   R.  Tecnologia,   Planejamento   e   Desenvolvimento   Autônomo.  São   Paulo: 
Perspectiva, 1986. p.128­129
207
  O Metrô da cidade de São Paulo constituí um  dos casos de sucesso mais  antigos na implantação de 
Software Livre na administração pública brasileira, com um processo cujo início data de 1997 e tem servido 
de  modelo  para  diversas   autarquias,  mas  é   com   os   programas  governamentais   de  inclusão  digital  que   o 
Software Livre vai ganhar o seu momentum no Brasil.
208
  LÓPEZ,   Nayse   ­   Publico.pt   ­   Eleições   Brasil   2002   :   Lula   virtualmente   eleito   com   66   por   cento   das 
intenções de voto. 22 set. 2002. Disponível em:
 <http://dossiers.publico.pt/shownews.asp?id=191976&idCanal=989>. Acesso em: 20 ago. 2006

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Do  exposto  até  agora, fica  evidente a importância estratégica do   Software  Livre, 
para o governo brasileiro (e para outros governos); um ponto importante é a diminuição dos 
gastos com licenciamento de softwares, que reflete na remessa de dólares ao exterior, e traz 
o   benefício   adicional   de   diminuir   os   impedimentos   orçamentários   para   programas 
governamentais   de   inclusão   digital,   uma   característica   que   é   em   si   mesma   geradora   de 
resultados sociais maiores. 

Entre   outras   medidas,   os   programas   de   inclusão   passam   invariavelmente   pela 


criação de Telecentros; espaços públicos dotados de computadores e acesso à Internet onde 
o   cidadão   (em   geral   de   baixa   renda)   tem   acesso   ao   uso   e   a   uma   formação   básica   na 
operação de computadores.

A   idéia   de   implantar   Telecentros   equipados   com  Software  Livre   na   periferia   da 


cidade   de   São   Paulo,   como   parte   da   política   de   inclusão   digital,   partiu   do   sociólogo   e 
militante político Sérgio Amadeu da Silveira. Em 2000, no Instituto de Políticas Públicas 
Florestan   Fernandes,   Amadeu   idealizou   o   projeto   que   seria   utilizado   pela   futura 
administração petista da capital. De acordo com uma de suas declarações:  "Queria fazer um  
programa que servisse inclusive para ajudar na eleição da então candidata à Prefeitura de  
São Paulo Marta Suplicy."209

Com  a eleição de Marta Suplicy, o primeiro Telecentro foi implantado em  18 de 


junho de 2001, na zona leste de São Paulo, no bairro Cidade Tiradentes. O programa foi 
vitorioso   e   hoje   conta   com   145   Telecentros   espalhados   por   toda   São   Paulo,   mantidos 
“quase”210 dentro da mesma filosofia pela administração do PSDB, que se seguiu ao PT na 
administração da Capital paulista.

209
  Jornal O Estado de S. Paulo (15/08/2004 – Geral ­ Um militante na batalha pelo  software  livre ­  Ex­
comunista, chefe do ITI agora luta pela adoção dos programas gratuitos).
210
 Notícias veiculadas pela imprensa em 05/05/2006 dão conta da disposição da Prefeitura paulista em utilizar 
softwares proprietários nos Telecentros indicando uma mudança de postura sobre o Software Livre juntamente 
com a mudança da administração. Vide: 
 IDG Now! ­ Internet ­ Governo Eletrônico : Telecentro de São Paulo começa a usar softwares da Microsoft. 
05  Abr.   2006.   Disponível   em:   <http://idgnow.uol.com.br/internet/2006/04/05/idgnoticia.2006­04­
05.6370476977/IDGNoticia_view>.  Acesso em: 12 Abr. 2006
  IDG   Now!  ­  Computação   Corporativa  ­  Software   Livre  :  Software   livre   não   é   prioridade   em   SP,   diz 
secretário.   26   Mai.   2006.   Disponível   em: 
<http://idgnow.uol.com.br/computacao_corporativa/2006/05/25/idgnoticia.2006­05­
25.1402726512/IDGNoticia_view>.  Acesso em: 12 Abr. 2006

31/08/2006 ­ 20060830_rbns.odt 119
Com   a   chegada   do   PT   ao   poder   em   2002,   chega   também   a   política   petista   de 
adoção de Software Livre em geral e do Linux em particular, consolidada por experiências 
em diversas prefeituras e no governo do Rio Grande do Sul, e pelos Telecentros paulistas. 

Quando Lula assume em 2002 Sérgio Amadeu da Silveira é indicado como diretor 
do ITI (Instituto Nacional da Tecnologia da Informação) onde dá início a agressiva política 
de implantação do Software Livre em toda a administração federal.

As motivações desta política são consistentes, para um governo o Software Livre é 
estratégico por diversas razões, além da já mencionada questão macroeconômica, existem 
ainda   a   independência   e   autonomia   tecnológica,   a   segurança   de   informações,   e   a 
independência em relação a fornecedores para serem consideradas.

Razões que não passam despercebidas pelo novo Governo Federal, que oficialmente 
integra o Software Livre à política de ciência e tecnologia:

“O presidente Luís Inácio Lula da Silva, em Decreto de 29 de outubro 
de 2003211, instituiu oito comitês técnicos com o objetivo de coordenar e  
articular o planejamento e a implementação  de Software Livre, inclusão  
digital   e   integração   de   sistemas,   dentre   outras   questões   relacionadas. 
Atualmente,   o   Instituto   Nacional   de   Tecnologia   da   Informação   ­   ITI 
coordena o Comitê Técnico de Implementação de Software Livre.”212

A posição do governo é reiterada em várias oportunidades, onde incentiva a adoção 
e   a   produção   de  Software   Livre  como   um   novo   paradigma   capaz   de   possibilitar   o 
crescimento e fortalecimento da indústria de softwares, gerando emprego e renda. 

Novamente   o   Brasil   passa   a   ter   uma   política   federal   para   o   desenvolvimento 


tecnológico focada na a área de informática. Também fica clara a importância estratégica e 
especialmente a dimensão política do Software Livre, agora colocada em relevo.

211
 Vide: Anexos, documento IV.
212
 fonte: http://www.iti.br/

31/08/2006 ­ 20060830_rbns.odt 120
O discurso do então Ministro da Casa Civil (ministério ao qual o ITI é filiado), José 
Dirceu,   feito   na   abertura   do   Seminário   de  Software   Livre  organizado   pelo   Congresso 
Nacional213, dá o tom dessa dimensão política:

 Senhoras e senhores...

Felicito   o   Congresso   Nacional   por   incentivar   o   debate   sobre   a  


importância da adoção  do software livre neste momento em que o mundo  
começa a superar o paradigma do software proprietário. O atual Governo  
tem um claro compromisso com o desenvolvimento nacional. 

(...) A tecnologia da informação é um dos caminhos para o almejado  
crescimento.  É   necessário   que   o   país   produza   bens   de   elevado   valor  
agregado, como é o caso de softwares, e seja capaz de colocá­los de forma  
competitiva no mercado internacional. Somente assim conseguirá quebrar  
o ciclo histórico e empobrecedor caracterizado por importações de bens de  
elevado custo contra exportação de mercadorias de pequeno valor. (...) Da  
mesma   forma   devemos   incentivar   a   nossa   inteligência   coletiva   que 
permita   a   redução   do   pagamento   de   direitos   autorais,   na   forma   de 
royalties.

Possivelmente,   temos   neste   momento   uma   janela   de   oportunidade  


única para a nação,  capaz de colocar o Estado brasileiro em patamar de  
igualdade com países economicamente mais fortes. 

(...) O movimento do software livre traduz exatamente esses anseios,  
além  de  reafirmar   nosso  compromisso  com  a  redução  de   custos,  com   a  
diversificação   de   fornecedores,   com   o   domínio   tecnológico   e   com   a  
capacitação de nossas empresas. Dominar o código fonte, usar totalmente 

213
  Com o objetivo de discutir a utilização do  Software  Livre no Brasil, o Senado Federal e a Câmara dos 
Deputados promoveram a “Semana do  Software  Livre no Legislativo”, entre os dias 18 e 22 de agosto de 
2003, no Congresso Nacional. Vide: www.congresso.gov.br/softwarelivre

31/08/2006 ­ 20060830_rbns.odt 121
um software sem restrições, propiciar a criatividade e o desenvolvimento  
coletivo são condições para o rápido progresso nessa área.

(...)   Este   evento   realizado   pelo   Congresso   Nacional   é   um   marco  


histórico, sendo mais uma demonstração de que o software livre é mais do  
que  uma  possibilidade  para  o  nosso  crescimento,  na  verdade,  veio  para 
ficar.214

Além do convite para Lula visitar a Microsoft, a empresa norte­americana passou a 
atuar   com   renovado   interesse   no   estabelecimento   de   parcerias   com   diversas   esferas   do 
governo, na forma de descontos e/ou doações de  softwares, enquanto este por sua vez mais 
se mostrou arredio aos novos gestos de amizade, declinando e optando por buscar outras 
soluções tecnológicas.

Em   entrevista   à   revista   Carta   Capital215,   Sérgio   Amadeu   sumarizou   a   postura   do 


governo a estas investidas, alegando que eram “prática de traficante” acreditando se tratar 
de   um  “presente   de   grego,   uma   forma   de   assegurar   massa   crítica   para   continuar  
aprisionando o País.”  Os comentários renderam a Amadeu um processo na justiça 216, do 
qual, talvez pela má publicidade, talvez pelo movimento de defesa que a comunidade do 
Software Livre organizou para Sérgio Amadeu, ou talvez pela necessidade de manter boas 
relações com o governo, a Microsoft terminou por desistir.

As   relações   da   Microsoft   com   o   governo   brasileiro   (e   outros   governos)   são 


abordadas   em   julho   de   2005   pelo   executivo   da   Microsoft   Kevin   Johnson 217  no   já 

214
 Discurso do ministro­chefe da Casa Civil, José Dirceu, na solenidade de abertura do seminário "Software 
livre e Desenvolvimento do Brasil", no Americel Hall, localizado na Academia de Tênis, em Brasília/DF. 19 
Ago. 2003. Disponível em:  
<www5.senado.gov.br/boletimprodasen/ssl/semanaslleg/dirceu/document_view?month:int=6&year:int=2005> 
ou   <www.iti.br/twiki/bin/view/Main/DiscursoDirceu>   ou 
<www.presidencia.gov.br/casacivil/pronunciamentos/jd_19082003pr.htm>  
Acesso em: 10 Ago. 2006. Grifos nossos.
215
 O Pingüim Avança. Carta Capital,  17 de março de 2004 ­ Ano XI ­ Número 345.
216
 Interpelação judicial da Microsoft contra Sérgio Amadeu, presidente do ITI.
3a. Vara de Justiça Federal de Barueri, SP. Disponível on­line em:
<http://www.cic.unb.br/docentes/pedro/trabs/eucaristia_files/interpMS.html>   e 
<http://www.softwarelivre.org/downloads/interpelacaoMicrosoftxAmadeu.pdf>. Acesso: 17 Ago. 2006
217
  Group Vice President, Worldwide Sales, Marketing and Services Group

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mencionado   encontro   dos   analistas   financeiros   (os   negritos   destacam   os   trechos 
considerados mais relevantes):

“(...) Eu gostaria de lhes dar três coisas: Eu gostaria de falar um 
pouco sobre como nós mobilizamos. (...) Eu gostaria de tocar brevemente  
no  trabalho que estamos fazendo com governos acerca de alguns destes  
cenários de inclusão digital.

(...)  Conforme   nos   comprometemos   com   líderes   de   governo,   eles  


falam   sobre   suas   prioridades,   suas   agendas,   (...)   De   muitas   maneiras  
alguns líderes de governo, inicialmente, podem ter pensado que o Linux ou  
Open Source eram o caminho para ajudar com estas áreas. E temos focado 
em   nos   comprometer   de   uma   maneira   que   permita   mostrar   o   valor   da 
proposição  da Microsoft para o governo. (...) Então  como você cria uma  
economia tecnológica forte e saudável em um país?

(...) Agora nós temos um programa chamado Partners in Learning218 
que   está   operando   em   91   países,   onde   nós   fornecemos   softwares   para  
educação, treinamos professores, e fazemos parcerias com empresas locais  
para a reciclagem de PCs. (...) Um exemplo que encontramos em diversos 
países   é   que   eles   focam   em   programas   de   PCs   populares.   Vou   lhes  
apresentar um cenário. Vou tratar do Windows Starter Edition, mas quero  
lhes apresentar o cenário no Brasil. O governo brasileiro estava bastante 
focado   na   inclusão   digital,   e   eles   iniciaram   uma   discussão   sobre   o   que 
chamam PC Conectado, que era fornecer no país um PC de baixo custo  
para usuários iniciantes.   O  governo, através de um boa discussão  com  
parceiros, promoveu uma redução  de impostos para PCs  independente de  
qual sistema operacional eles usem, sendo ele Linux ou Windows, deixando  
o consumidor decidir. 

218
 ou “Parceiros no aprendizado” em português.

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Nós então  trabalhamos bem próximos aos consumidores no Brasil  
para   criar   uma   versão   do   Windows   Starter   Edition   em   português  
brasileiro.  Nós trabalhamos com inúmeras empresas brasileiras, incluindo 
Positivo, um OEM local, e outros OEMs incluindo Itautec, Novadata, Semp 
Toshiba;   e   trabalhamos   com   os   principais   distribuidores   brasileiros 
incluindo Magazine Luiza, Casas Bahia, Extra, e Ponto Frio. 

E conforme o governo continua a dar forma ao seu programa, nós  
descobrimos que indo ao mercado com estes parceiros, com a versão focada  
do   Windows   Starter   Edition,   obtivemos   resultados   muito   positivos.   Na  
verdade, no Brasil, se olharmos para o trimestre atual versus o trimestre de  
um ano atrás, a venda de PCs para o consumidor cresceu 45%, e  nossa  
venda de unidades do Windows cresceu 107%.

Windows Starters Edition foi uma grande parte desse crescimento, 
mas também o Windows XP Windows XP Home Edition cresceu,então  não  
apenas   atingimos   o   usuário   iniciante   de   PCs,   como   a   oportunidade   de 
upgrades no país é ainda bastante positiva.

(...)  Nós  estamos muito contentes com o nível das discussões  que  


temos tido com líderes de governo no Brasil, e o fato de que temos muitos,  
muitos   parceiros   participando   disto   no   Brasil.  E   isto   está   focado   na 
inclusão  digital, trazendo tecnologia para usuários iniciantes de PCs, seja 
pela educação  com o Partners in Learning, ou pelo trabalho que fizemos 
com   o   Windows   Starter   Edition   e   o   times   brasileiros   locais,   que   estão  
construindo   uma   economia   local   de   softwares   mais   saudável,   economia  
tecnológica local no Brasil. Nós estamos mostrando que existem benefícios  
que podemos entregar, não  apenas para o consumidor, mas para o país  
como um todo.”219 
219
  Financial   Analyst   Meeting   2005   :   MSFT   Investor   Relations.   28   Jul.   2005.   Disponível   em: 
<http://www.microsoft.com/msft/speech/FY05/JohnsonFAM2005.mspx>. Acesso em: 29 abr. 2006

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As   declarações   de   Kevin   Johnson   são   verdades   parciais,   suscitam   a   reflexão   de 
alguns pontos, e auxiliam na contextualização de outros. Primeiro há a admissão clara e 
formal de uma política de  lobby  sobre os governos e seus representantes 220, o que não é 
exclusividade da Microsoft, mas ajuda a contextualizar o convite feito por Bill Gates a Lula.

Depois há a questão da catequização de professores e alunos, conforme a Microsoft 
fornece “software para educação”, que por sua vez ajuda a contextualizar as declarações de 
Sérgio Amadeu à Carta Capital.

Porém,   o   principal   elemento   que   merece   contextualização   aqui   é   a   natureza   do 


software Windows XP Starter Edition, repetidamente mencionado. Uma versão simplificada 
do Windows XP, que foi lançada em fins de 2003 visando países como Rússia, Tailândia, 
Indonésia, Índia e Malásia.

Ele é vendido com um preço diferenciado e faz parte da estratégia da Microsoft de 
combate à pirataria. Também  tem sido utilizado pela empresa como  forma de concorrer 
com o custo quase zero do Linux nos programas governamentais de inclusão digital.

Devido às suas limitações práticas foi apelidado por seus críticos de "Windows dos 
pobres", em referência ao fato de que a simplificação do sistema, alegadamente a razão para 
o   preço   diferenciado,   traduz­se   em   limitações   de   uso   em   relação   as   outras   versões   do 
Windows XP. 

Segundo a Microsoft as limitações não são relevantes para o primeiro computador 
de um usuário, e o público­alvo do Starter Edition é justamente a população que busca sua 
inclusão digital com o programas como o do PC Conectado.

Entre as limitações do Starter Edition temos a fato de que o usuário não pode abrir 
mais de três aplicativos por vez, com três janelas de cada um; desconsiderados programas 
antivírus e  discadores de internet que não são contabilizados. Esta versão simplificada do 
Windows também não traz recursos de conexão para redes locais de computadores.

220
 Sobre isto é interessante notar, por exemplo, a insistência de Bill Gates em um encontro pessoal com Lula. 
Depois do primeiro fracasso em 2002, logo após a eleição presidencial, o fundador da Microsoft faz nova 
investida em 2005 no fórum de Davos. 
Vide: SOUZA, Leonardo ­ Folha OnLine ­ Presidente evita ter encontro com Bill Gates. 29 Jan 2005. 
Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u66930.shtml>. Acesso em: 20 ago. 2006

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O  Windows XP Starter Edition é talvez o mais eloqüente exemplo da importância 
da   autodeterminação   tecnológica   para   os   países   do   Terceiro   Mundo 221,   pois   exibe 
claramente a impossibilidade de um país consumidor de tecnologia alienígena em  tomar 
decisões autônomas  e ter acesso a artefatos técnicos avançados, novamente recorremos à 
citação   de   Gildo   Magalhães   lembrando   que  “a   produção   transplantada   dos   países  
adiantados se desloca para a periferia do sub­desenvolvimento apenas após a tecnologia 
envolvida   ter   se   tornado   rotineira”  (citação   na   página  105).     No   caso   específico   do 
Windows XP Starter Edition há um componente perverso que é a intenção  de produzir um 
produto   inferior  derivado   de  outro  superior.  Todas   as  explicações  técnicas,  comerciais  e 
mercadológicas   que   possam   ser   enumeradas   na   defesa   desta   abordagem   não   podem 
competir com o argumento de que no Software Livre as limitações, quando existirem, serão 
determinadas   pelo   usuário   que   tem   pleno   acesso   a   tecnologia   e   não   por   uma   empresa 
estrangeira. Este aspecto será melhor discutido nas conclusões que se seguem.

221
 O conceito de “Terceiro­Mundo”, com o desaparecimento daquele que seria o Segundo­Mundo, vem sendo 
revisto e muitos acadêmicos concordam que é uma categoria ultrapassada, melhor substituída por expressões 
como “em desenvolvimento”. Sendo este um trabalho de história a defesa da expressão “Terceiro Mundo” é 
baseada na carga histórica e ideológica que carrega, já que separa com clareza o lado da mesa em que países 
como   o   Brasil   estão   sentados.   O   peso   do   termo   “Terceiro   Mundo”   não   nos   parece   nem   próximo   da 
subentendida direção de progresso presente no termo “em desenvolvimento” justificando assim, plenamente, 
sua utilização. 

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 5. Conclusões

Francisco Sagasti alerta em sua obra “Tecnologia, Planejamento e Desenvolvimento 
Autônomo” que os meios de controle dos países desenvolvidos sobre os sub­desenvolvidos 
mudaram   dos   equipamentos   produtivos   para   a   os   recursos   financeiros   e   agora     estão 
representados no controle da tecnologia.  “Haverá  uma tendência em utilizar o acesso à  
tecnologia como alavanca principal nas relações de dominação entre os hemisférios norte  
e sul, com a utilização  subsidiária dos alimentos e, em alguns casos, do capital, como  
complemento.”222

Para esta pesquisa, tratando agora do significado que tem para o Brasil o  Software 
Livre, é interessante refletir sobre a proposta de Sagasti para a superação desta dominação 
tecnológica e a eventual viabilização de uma autodeterminação tecnológica para o Terceiro 
Mundo. 

Esta   proposta   passa   pela   criação   de   uma   aliança   de   cooperação   científica,   que 
confessadamente só funcionaria em um contexto de cooperação econômica e política mais 
amplo. Destarte, ciente das dificuldades e da aparência utopista de sua proposta, Sagasti 
enumera as vantagens que tal cooperação traria aos países subdesenvolvidos:

1. Necessidade   comum   de   enfrentar   o   acelerado   processo   de   mudança  


tecnológica.

2. Aumento da massa crítica mínima necessária para que o esforço tecno­
científico seja viável.

3. Redução   dos   gastos   individuais   dos   países   em   pesquisa   e  


desenvolvimento.

4. Redução dos gastos individuais dos países com recursos humanos.

5. Maior   poder   de   negociação   frente   os   vendedores   de   tecnologia,  


independente do tamanho do mercado interno.

  SAGASTI,   Francisco   R.  Tecnologia,   Planejamento   e   Desenvolvimento   Autônomo.  São   Paulo: 


222

Perspectiva, 1986. p. 133. 
N. do A. ­ a versão original em espanhol, Tecnología, Planificación y Desarrollo Autónomo, data de 1977

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E aponta também o que considera as principais dificuldades na implementação de 
sua proposta:

1. A   simplicidade   com   que   são   celebrados   acordos   de   cooperação  


puramente científica não  é tão  simples quando a atividade científica pode ter  
aplicação econômica direta.

2. Mudança do conceito de “região”, onde o agrupamento dos países dar­
se­ia não  mais por critérios geográficos e sim pela natureza dos problemas a  
serem resolvidos.

3. Heterogeneidade dos regimes políticos e suas orientações.

4. Diferença nos níveis de desenvolvimento, especialmente tecnológico.

5. Pressões dos países industrializados.

6. Conduta das comunidades científicas autóctones, que não raro preferem  
ligar­se a centros de excelência nos países desenvolvidos.

Por tudo que se leu até aqui, a proposta de cooperação do livro de Francisco Sagasti, 
aparece   contemplada   na   maioria   das   vantagens   e   superando   as   desvantagens   no   atual 
movimento do Software Livre e em especial no caso do Linux.

A   necessidade   de   enfrentar   um   acelerado   processo   de   mudança   tecnológica   tem 


marcado a história do Linux e de outros  Softwares Livres. O Linux em especial, nasceu em 
1991 e hoje compete em pé de igualdade, por vezes superando, a técnica de outros sistemas 
operacionais.

A  massa crítica mínima necessária para tornar viável o esforço tecno­científico do 
seu desenvolvimento é fornecida pela própria comunidade de desenvolvedores de Software 
Livre,   superando   sob   qualquer   forma   de   aritmética   a   capacidade   individual   de 
desenvolvimento de um Governo ou empresa. A redução dos gastos individuais dos países 
em pesquisa e desenvolvimento ou com com recursos humanos acontece igualmente pelo 
mesmo fator.

Representado por um “mercado” global transnacional, os vendedores de tecnologia, 
sempre estarão colocados frente a uma tecnologia com enorme penetração e conseqüente 
poder de barganha.

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Além   de   englobar   estas   vantagens   o   Linux   e   os   Softwares  Livres   superam   com 
galhardia as principais dificuldades apontadas na cooperação entre países, pois:

O desenvolvimento da tecnologia acontece sem restrições ou dirigismos sobre o uso 
comercial que cada membro  da comunidade fará dela, a aplicação econômica é  direta e 
livre.   O   aspecto   transnacional   mencionado   acima   já   faz   com   que   as   comunidades   se 
organizem por interesses, ou pela natureza dos problemas a serem resolvidos. A questão 
geográfica   não   chega   nem   mesmo   a   ser   uma   questão,   e   a   heterogeneidade   de   regimes 
políticos e suas orientações tem um peso muito pequeno. Apenas para ficar com o caso do 
Linux, este atende programas governamentais implementados em países tão diversos como 
Alemanha, Brasil, China, Argentina, Índia, Coréia do Sul, Rússia, Japão, Peru e Bélgica, 
para citar alguns223.

O   que   nos   demonstra   que   a   diferença   nos   níveis   de   desenvolvimento   social   ou 
tecnológico não chegaram a constituir uma barreira para nenhum destes países nem para os 
desenvolvedores   nativos,   já   que   com   todos   ligados   entre   si,   diluem­se   os   conceitos   de 
“centro”   e   “periferia”.   Com   adoção   tão   diversificada   na   esfera   geográfica,   econômica   e 
política a pressão que poderia ser exercida pelas nações industrializadas não tem um ponto 
focal onde ser aplicada.

Sagasti   concluí   em   tom   sombrio   que  “a   menos   que   países   subdesenvolvidos  
empreendam a curto prazo ações concretas – organizando um plano de cooperação como o  
que   aqui   se   propõe,   ou   executando   na   prática   qualquer   outra   forma   de   esquemas   de  
colaboração – a autodeterminação em matéria de tecnologia continuara uma ilusão para a  
quase totalidade do Terceiro Mundo”224.

Não se trata aqui de pretender mudar os destinos dos países subdesenvolvidos pela 
via do  Software Livre, mas sim apontar a relevância desta peça no quebra­cabeças a ser 
montado por cada nação do Terceiro Mundo.

223
  Brasil,   Índia,   Rússia   e   China   são   constantemente   referidos   como   os   “BRIC   Countries”,   países   com 
potencial de crescimento, grandes mercados e políticas governamentais incentivando maciçamente a adoção 
de Softwares Livres.
224
  SAGASTI,   Francisco   R.  Tecnologia,   Planejamento   e   Desenvolvimento   Autônomo.  São   Paulo: 
Perspectiva, 1986. p.142

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Outro ponto a ser tratado aqui, é que a questão dos  softwares  se coloca além  da 
ideologia   motriz   do   seu   desenvolvimento,   ela   coloca   a   relevante   questão   do   domínio 
tecnológico   e  cultural,  passando  assim  a   ser   uma  questão   estatal,   relevante   ao   ponto  de 
mobilizar países díspares em população, cultura e interesses como Coréia do Sul, Japão, 
Alemanha, Brasil, Rússia, Índia e China.

Consolidados os efeitos perversos da mundialização do capital, da globalização da 
cultura   e   com   o   crescente   recrudescimento   das   posturas   e   constantes   tomadas   de 
posição unilaterais por parte do Governo Norte Americano, os governos passam a ter 
real interesse no desenvolvimento de soluções computacionais "domésticas", capazes de 
retirar área tão sensível de sua economia do monopólio de empresas americanas.
O Brasil é hoje um dos países mais envolvidos e ativos na defesa, implantação e 
desenvolvimento   do  Software  Livre,   esta   posição   só   é   possível   como   colheita   de 
dividendos do investimento estatal feito na indústria de informática durante o período 
de reserva de mercado. O Brasil se tornou capaz de produzir tecnologia informática e o 
software  (livre  ou  não)  surge  hoje  como   produto   de  alto   valor  agregado  passível   de 
exportação.   O  Software  Livre   concede   ao   Brasil   a   possibilidade   de   permanecer   na 
vanguarda   tecnológica,   tanto   se   aproveitando,   como   contribuindo   com   o 
desenvolvimento tecnológico de diversos outros países.
Investir no  Software  Livre é por estas razões e por todas as outras que já foram 
apontadas estratégico para o desenvolvimento tecnológico brasileiro. A maciça adesão 
das administrações petistas ao Software Livre coloca, portanto, tanto uma oportunidade 
de desenvolvimento que não acontecia em  uma década, como  um  perigo de ter este 
processo abortado a qualquer momento. 
O   sistema   democrático   pressupõe   a   alternância   de   partidos   no   poder,   a 
partidarização   da   tecnologia   pode   colocar   o   país   em   um   ciclo   interminável   de 
desmandos capazes de comprometer o desenvolvimento tecnológico brasileiro.
Ao   identificar   o  Software  Livre   como   “bandeira   petista”   imediatamente   ele   é 
posto como algo a ser combatido, substituído ou no mínimo evitado no exato momento 
em   que   muda   uma   administração.   Não   faltam   exemplos   desta   consequência,   onde   a 
prefeitura da cidade de São Paulo parece caminhar para se tornar o caso emblemático.

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A ação em favor do Software Livre não pode estar identificada com um partido ou 
uma   causa   partidária,   embora   o  Software  Livre   seja   sem   sombra   de   dúvida   uma 
tecnologia   política,   esta   tecnologia   não   pode   e   não   deve   ser   partidarizada.   A   causa 
política  do  Software  Livre  deve  ser  social  e  não  partidária,  não  é  a  bandeira  de  um 
partido   que   deve   ser   com   ela   erguida,   mas   sim   a   bandeira   do   desenvolvimento 
tecnológico nacional.
Por fim, um último aspecto que merece ser abordado é o da  apropriação capitalista 
dos conhecimentos sociais. Uma das questões centrais neste trabalho, perseguida sempre 
pela questão subjacente de como romper com o Capital? 

Afinal, se a atuação dos indivíduos no movimento do  Software  Livre é, como foi 


colocado com a  teoria do refluxo, um movimento que se opõe à mercantilização das idéias 
e   do   conhecimento   pelo   capital,   não   há   como   negar   que   a  “idéia   de   libertar   o  
conhecimento das amarras do capital” irá também gerar uma desoneração de custo para as 
empresas, já que estas irão com o Software Livre, como já o fazem, se apropriar de trabalho 
realizado e não pago. 

Com o  Software  Livre existe portanto a apropriação de um trabalho imaterial, em 


geral executado pelo trabalhador em seu momento de lazer. Existe em parte da literatura 
uma   confusão   entre   “produto   imaterial”   e   “trabalho   imaterial”.   Muito   possivelmente   o 
“trabalho   imaterial”   é   uma   categoria   nova   e   talvez   desprovida   de   sentido   dentro   do 
marxismo, considerando o trabalho como combustão da energia humana, ele está presente 
igualmente   na   produção   imaterial,   uma   área   onde   a   exploração   capitalista   da   força   de 
trabalho parece ser na verdade otimizada. De acordo com André Gorz:

“O   fornecimento   de   serviços,   esse   trabalho   imaterial,   torna­se   a  


forma hegemônica de trabalho; o trabalho material é remetido à  periferia  
do processo de produção  ou abertamente externalizado. Ele se torna um  
“momento subalterno” desse processo, ainda que permaneça indispensável  

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ou mesmo dominante do ponto de vista qualitativo. O coração, o centro da 
criação de valor, é o trabalho imaterial”225.

O Software Livre não é, claro, a única forma de apropriação de trabalhado não pago 
da sociedade atual. O engajamento exigido pela maior parte das companhias e o avanço das 
redes telemáticas fazem com o que o trabalhador esteja 24h por dia “conectado” à empresa; 
assim, ainda que formalmente trabalhe um número menor de horas, ele está todo o tempo 
conectado   à   empresa   e   a   ela   agregando   sua   subjetividade,   esta   última   a   nova   unidade 
utilizada para medir sua produção em contraste com antigas medidas de tempo de trabalho.

Com isto pode­se chegar à conclusão de que o   Software Livre deva na verdade ser 
combatido e não incentivado, mas esta conclusão estaria considerando apenas a relação do 
trabalho   com   a   empresa   capitalista,   esquecendo   sua   relação   com   a   sociedade,   já   que   o 
trabalho busca sua emancipação do capital. Ou como coloca André Gorz:

“Essa tendência se vê abertamente ilustrada na luta que, no centro  
dos   dispositivos   de   poder   do   capital,   os   artesãos   dos   programas   de  
computador   e   das   redes   livres   levam   adiante.  Com   eles,  ao   menos   uma  
parte dos que detém o “capital humano”, em seu mais alto nível técnico, se 
opõe   à   privatização   dos   meios   de   acesso   a   esse   “bem   comum   da  
humanidade”, que é o saber sob todas as suas formas. Trata­se aqui de uma  
dissidência   social   e   cultural   que   reivindica   abertamente   uma   outra  
concepção  de economia e sociedade. Ela tem um alcance estratégico em  
relação da importância com que a classe dos trabalhadores do imaterial –  
os   americanos   a   chamam   de   knowledge   class   –   pensa   a   evolução   da 
sociedade e seus conflitos.”226

Assim,   para   contrabalançar   a   questão   colocada   pela  desoneração   de   custo,   que 


acontece na forma de apropriação de tabalho realizado e não pago, como o do   Software 

225
 GORZ, André. O Imaterial. Conhecimento, valor e capital. São Paulo : Annablume; Janeiro de 2005. 
p.19
226
 Idem, 2005, p. 63­64

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Livre, não se pode perder de vista o panorama geral, onde este trabalho aparece como a 
busca da emancipação do capital. 

 5.1. Balanço Final.

Com   esta   dissertação   se   espera   ter   contribuído   para   colocar   em   relevo   um   novo 
processo   histórico   em   andamento.   No   coração   das   principais   ferramentas   de   controle   e 
otimização desenvolvidas pelo Capital para se apropriar do tempo e da Inteligência Geral, 
surge de forma dialética, um movimento contrário, contestador das próprias amarras que 
esta otimização e controle estenderam sobre a sociedade e seus bens intangíveis. 
Também  se espera contribuir com argumentos para a discussão da propriedade das 
idéias, em especial destacando o quanto a defesa cada vez mais ferrenha das propriedades 
imateriais é prejudicial aos países em geral e aos países subdesenvolvidos em especial.
Outro objetivo perseguido foi o de compreender o processo histórico que fez do Brasil 
um ator relevante na arena do  Software  Livre, premissa necessária para que se aponte na 
direção   do   desenvolvimento   tecnológico   autônomo.   Este   desenvolvimento   passa   pela 
estreita janela de oportunidade que o Software Livre agora nos oferece, oportunidade que se 
aproveitada   pode,   por   sua   natureza,   trazer   reflexos   benéficos   nos   campos   social   e 
econômico.
Dentro dos objetivos que não foram atingidos o maior destaque é para a omissão sobre 
a anômala articulação política da comunidade do Software Livre, pois ao mesmo tempo que 
tem uma grande amplitude, articulação social e por vezes econômica, parece ser totalmente 
desprovida   de   uma   ideologia   política   no   sentido   clássico,   tendo   mesmo   dificuldade   em 
admitir que promove uma atividade que rompe com as regras estabelecidas pelo Capital.  A 
desarticulação da comunidade do Software Livre em torno de bandeiras políticas (ao menos 
para além da defesa da liberdade do conhecimento) é um processo sintomático de nossa era 
e mereceria estudo a parte.
O trabalho realizado e não pago do Software Livre é por si um tema controverso e que 
mereceria aprofundamento teórico, ele permite que seja feito um questionamento sobre as 
direções em que avança o Capitalismo.

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Também  não se conseguiu tratar das novas articulações geo­políticas que emergem 
com  as redes e os  softwares, como os  BRIC Countries  (Brasil, Rússia, Índia e China) e 
outros países. Estas relações, como  foi colocado na introdução, passam  a independer do 
tempo e do espaço, já que acontecem o tempo todo e em todos os lugares.
Novas perspectivas que parecem se abrir a partir dessa dissertação são justamente o 
estudo mais aprofundado das relações do trabalho imaterial com o Capital, no seio da alta 
tecnologia. Também haveria relevância em uma análise que perscrutasse como se dá, se deu 
ou se dará a implementação de políticas tecnológicas quando estas se encontram frente a 
uma tecnologia essencialmente política como a do Software Livre. 
Ainda outro tema seriam os desdobramentos de conceitos que “vazam” do  software 
livre e escorrem para outras áreas como o Direito e a Arte, se descolando cada vez mais da 
tecnologia, como o Creative Commons.

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 6. Glossário

1. Baixa Plataforma – termo utilizado para referir os micro­computadores de arquitetura Intel, 
geralmente em oposição à Alta Plataforma dos Mainframes.
2. Geek – De acordo com a Wikipédia [http://pt.wikipedia.org/wiki/Geek] “Geek é uma palavra  
associada a subculturas ligadas aos computadores e à internet. Nestas subculturas, um 
geek é uma pessoa com um talento e um interesse por tecnologia e programação acima do  
normal.” 
3. Hacker – Termo utilizado para designar um especialista em Informática, habitual e 
errôneamente confundido com cracker, que seria o equivalente para criminosos 
eletrônicos.
4. Kernel ­ “Kernel de um sistema operacional é entendido como o núcleo deste ou, numa  
tradução literal, cerne. Ele representa a camada mais baixa de interface com o Hardware,  
sendo responsável por gerenciar os recursos do sistema computacional como um todo. É 
no kernel que estão definidas funções para operação com periféricos (mouse, disco,  
impressora, interface serial/interface paralela), gerenciamento de memória, entre outros.” 
Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Kernel.
5. Mainframe – computadores de grande porte, que são em geral soluções caras utilizadas 
em aplicações de missão critica, em geral administrados por técnicos e DBAs 
especializados.
6. Multitarefa ­ Capacidade de executar mais de uma ação simultaneamente, como rodar um 
programa e formatar um disquete. 
7. Multiusuário ­ Capacidade de administrar diferentes perfis e permissões para usuários em 
uma mesma máquina.
8. Palmtop – ou (Personal Digital Assistant), ou Assistente Pessoal Digital. Um modelo de 
computador portátil popularizado pela empresa Palm. 
9. Portar ­ No jargão da indústria “portar” uma aplicação significa traduzir e adaptar 
determinado software desenvolvido para uma plataforma para outra que não era seu foco 
inicial.
10. Setup – sinônimo para configuração. Largamente utilizado na indústria e na literatura 
especializada.

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 7. Bibliografia

 7.1. Livros

1. ARRIGHI, Giovanni. O longo século XX: dinheiro, poder e as origens de nosso tempo. 
São Paulo: Contraponto: Unesp, 1996.
2. BASALLA,  George.  The  Evolution  of Technology. USA;  Cambridge  University  Press; 
1995
3. BLOCH, Marc. Introdução à H istória. Edições Europa­América.
4. CANGUILHEM,   Georges.   Ideologia   e   racionalidade   nas   ciências   da   vida.   Lisboa   : 
Edições 70, 1997; 
5. CASSIANO,   João.  Cidadania   Digital:   Os   Telecentros   do   Município   de   São   Paulo.  In: 
SILVEIRA,   Sérgio   Amadeu   da.,   CASSIANO,   João   (Org.)  Software   Livre   e   Inclusão 
Digital. São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2003. 
6. CASTELLS, Manuel. A galáxia da Internet: os negócios e a sociedade; Rio de Janeiro: 
Jorge Zahar Ed., 2003
7. CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. 8ª edição. São Paulo: Paz e Terra, 1999.
8. CERUZZI, Paul E. A History of Modern Computing. Massachusetts : MIT Press, 1998.  
9. CHALMERS, Alan. A Fabricação da Ciência. SP: UNESP, 1994; 
10. COUTINHO, Luciano; FERRAZ, João Carlos (Coord.).  Estudo da competitividade da 
indústria   brasileira.  Campinas,   SP:   Papirus;   Editora   da   Universidade   Estadual   de 
Campinas, 1995.
11. DIBONA,   Chris;   STONE,   Mark;   COOPER,   Danese   (Eds.).  Open   Source   2.0.  O'Reilly 
Media. ISBN 0596008023.
12. FURTADO, Celso. Formação econômica do Brasil. São Paulo: Nacional, 1999.
13. GAMA,   Ruy.  A   tecnologia   e   o   trabalho   na   história.  São   Paulo:   Nobel;   Editora   da 
Universidade de São Paulo, 1986.
14. GORZ, André.  O Imaterial : Conhecimento, valor e capital.  São Paulo : Annablume; 
Janeiro de 2005.
15. GUROVITZ, Helio.  Linux: o fenômeno do Software Livre.  [São Paulo]: Editora Abril, 
2002.
16. JAPIASSU, Hilton. As Paixões da ciência. São Paulo : Letras & Letras, 1991; 
17. KAWASAKI, Guy. O jeito Macintosh. São Paulo: Callis, 1993.
18. LACEY, Hugh.  Is Science Value Free?  Values and Scientific Understanding.  London 
and New York: Routledge, 1999. 
19. LACEY, Hugh. Valores e Atividade Científica. São Paulo: Discurso Editorial, 1998.
20. LAZZARATO,   Maurizio   &   NEGRI,   Antonio.  Trabalho   Imaterial.   Formas   de   vida   e 
produção de subjetividade. Rio de Janeiro: DP&A editora, 2001
21. LOHR, Steve. Go to. [New York]: Basic Books, 2001
22. LUZ, Nícia Vilela. A Luta pela Industrialização do Brasil. Editora Alpha Omega, 1978, 
São Paulo.
23. MAGALHÃES,   Gildo.   Introdução   à   metodologia   científica:   caminhos   da   ciência   e 
tecnologia. São Paulo : Ática, 2005; 

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24. MARQUES, Ivan da Costa. O Brasil e a abertura dos mercados: o trabalho em questão. 
Rio de Janeiro; Contraponto; 2002
25. MARX, Karl. Grundrisse: Elementos Fundamentales Para La Critica de la economia 
politica (Borrador) 1857­1858; Buenos Aires; Siglo XXI Argentina Editores S.A: junho 
1972.
26. MAZA,   Fábio.  O   idealismo   prático   de   Roberto   Simonsen:   ciência,   tecnologia   e 
indústria na construção da Nação. São Paulo: Instituto Roberto Simonsen, 2004.
27. MELLO,   João   Manoel   C.   de,  O   Capitalismo   Tardio.  6ª   edição.   São   Paulo:   Editora 
Brasiliense, 1987. 182 p.
28. MOWERY,   David   C.,   ROSENBERG,   Nathan.  Trajetórias   da   Inovação   :   A   Mudança 
Tecnológica nos Estados Unidos da América no Século XX. Campinas, SP: Editora da 
UNICAMP, 2005.
29. NEGROPONTE, Nicholas. A vida digital. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
30. PEREIRA, L.C. Bresser. Desenvolvimento e Crise no Brasil. Zahar Editores, 1968, Rio de 
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31. PROPP, Vladimir Iakovlevitch.  Comicidade e riso.  Sao Paulo: Atica, 1992. 215p. ISBN 
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32. ROSSI, P. Naufrágios sem Espectador. A idéia de progresso. EDUNESP, 2000. 
33. ROSZAK, Theodore. The Cult of Information : A Neo­Luddite Treatise on High Tech, 
Artificial Intelligence, and the true Art of Thinking. New York : Pantheon Books, 1986.
34. SAGASTI, Francisco R.  Tecnologia, Planejamento e Desenvolvimento Autônomo. São 
Paulo: Perspectiva, 1986.
35. SENAI. De homens e máquinas. São Paulo: SENAI, 1991
36. SILVA,   Sérgio.  Expansão   Cafeeira   e   Origens   da   Indústria   no   Brasil.  Editora   Alpha 
Omega, 1976, São Paulo.
37. SILVEIRA, Sérgio Amadeu da; CASSINO, João (Org.). Software Livre e inclusão digital. 
São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2003.
38. SILVEIRA, Sérgio Amadeu da.  Exclusão  digital: a miséria na era da informação.  1ª 
reimpressão. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2003.
39. SILVEIRA, Sérgio Amadeu da. Software Livre: a luta pela liberdade do conhecimento. 
São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2004. (Coleção Brasil Urgente).
40. SINGER, Paul. Economia Política da Urbanização. Editora Brasiliense, 1973.
41. TACHINARDI, Maria Helena. A Guerra das Patentes : O conflito Brasil x EUA sobre 
propriedade intelectual. São Paulo : Paz e Terra, 1993.
42. TAVARES,   Maria   da   Conceição.  Da   Substituição   de   importações   ao   capitalismo 
financeiro: ensaios sobre a economia brasileira. Rio de Janeiro: Zahar, 1982.
43. TIGRE, Paulo Bastos. Liberalização e capacitação tecnológica: o caso da informática pós­
reserva de mercado no Brasil. In: SWARTZMAN, Simon (Coord.); KRIEGER, Eduardo... 
[et. al.].  Ciência e Tecnologia no Brasil : política industrial, mercado de trabalho e 
instituição de apoio. Rio de janeiro: Editora da Fundação Getúlio Vargas, 1995.
44. TIGRE, Paulo Bastos. Liberalização e capacitação tecnológica: o caso da informática pós­
reserva de mercado no Brasil. In: SWARTZMAN, Simon (Coord.); KRIEGER, Eduardo... 
[et.   al.].  Ciência   e   Tecnologia   no   Brasil  :   política   industrial,   mercado   de   trabalho   e 
instituição de apoio. Rio de janeiro: Editora da Fundação Getúlio Vargas, 1995. p. 179.
45. TROTSKY,   Leon.  Resultados   y   perspectivas:   las   fuerzas   motrices   de   la   revolucion. 
Buenos Aires: Ediciones CEPE, 1972

31/08/2006 ­ 20060830_rbns.odt 137
46. UTTERBACK,   James   M.  Dominando   a   dinâmica   da   inovação.  Rio   de   Janeiro: 
Qualitymark Editorial, 1996.
47. VARGAS, Milton.  Para uma Filosofia da Tecnologia.  Editora Alpha Omega, 1994, São 
Paulo.
48. VIEIRA, Eduardo. Os bastidores da internet no Brasil. Barueri, SP: Manole, 2003.
49. VIGEVANI,   Tullo.  O   Contencioso   Brasil   x   Estados   Unidos   da   Informática   :   Uma 
Análise Sobre Formulação  da Política Exterior.  São Paulo : Alfa Omega : Editora da 
Universidade de São Paulo, 1995.

 7.2. Teses e Dissertações

SANTOS FILHO, Gildo Magalhães.  Um bit auriverde: Caminhos da tecnologia e do 
projeto desenvolvimentista  na formulação duma política nacional de informática para 
o   Brasil   (1971­1992).  1994.   280f.   Tese   (Doutorado   História)   ­   Faculdade   de   Filosofia 
Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo.

 7.3. Artigos

1. WHITHEFORD,   Nick.   Autonomist   Marxism   And   The   Information   Society.  Capital   & 
Class, 52, p.85­95, Spring 1994.
2. CHAUI, Marilena. USP 94: a terceira fundação. Estudos Avançados, Set./Dez. 1994, vol.8, 
no.22, p.49­68.
3. COSTA MARQUES, Ivan da. Cloning Computers: From Rigths of Possession to Rigths of 
Creation. In: Science as Culture. Routledge, Jun. 2005. Vol. 14, No. 2, 139­160.
4. SOUZA F., Rubens A. Menezes. Percepção e imagem da informática. In: XXII Simpósio 
Nacional de História ­ História: Guerra e Paz, 2005, Londrina. XXII Simpósio Nacional de 
História ­ História: Guerra e Paz. Londrina, PR : Associação Nacional de História ANPUH 
/ Editorial Midia., 2005

 7.4. Artigos da Imprensa Diária

1.  O Pingüim Avança. Carta Capital,  17 de março de 2004 ­ Ano XI ­ Número 345.
2. Jornal da Tarde: em 03/02/2005 ­ Polícia apreende cópias de livros em universidades.
3. Jornal O Estado de S. Paulo (15/08/2004 – Geral ­ Um militante na batalha pelo software 
livre ­ Ex­comunista, chefe do ITI agora luta pela adoção dos programas gratuitos).
4. Jornal O Estado de S. Paulo: 02/03/2005 ­ Metrópole ­ Faculdades mantêm xerox dentro 
das bibliotecas / Metrópole ­ Bibliotecas oferecem xerox;
5. Jornal O Estado de S. Paulo:  03/03/2005 ­ Metrópole ­ Polícia investiga comércio de 
cópias de livros em universidade;
6. Jornal O Estado de S. Paulo: 04/03/2005 ­ Metrópole ­ DEIC apura a ação de professores 
em xerox;
7. Jornal O Estado de S. Paulo: 08/03/2005 ­ Caderno 2
8. Jornal O Estado de S. Paulo: 21/02/2005 ­ Índice;

31/08/2006 ­ 20060830_rbns.odt 138
9. RIVLIN, Gary. Leader of the free world. Wired, EUA, n.11, p.152­157/206­208, nov. 2003.
10. The Gates Operating System; TIME; JANUARY 13, 1997 VOL. 149 NO. 2; USA.

 7.5. Bibliografia Técnica de Referência

OLIVEIRA, Rômulo Silva; CARISSIMI, Alexandre da Silva; TOSCANI, Simão


Sirineo. Sistemas Operacionais. 3ª Edição. Porto Alegre: Editora
Sagra-Luzzato, 2004. p. 274. ISBN 85-241-0643-3

 7.6. Documentos na Internet

1. key_events_in_microsoft_history.doc (83 KB) em: 
http://www.microsoft.com/downloads/info.aspx?na=46&p=4&SrcDisplayLang=en&SrcCat
egoryId=&SrcFamilyId=b604bb05­7c33­4643­96b4­
38e06383bda5&u=http%3a%2f%2fdownload.microsoft.com%2fdownload%2f6%2f3%2fa
%2f63a018ae­711f­4edb­8b79­ca109e5eed07%2fkey_events_in_microsoft_history.doc
2. fastfacts.doc (1255 KB) em: 
http://www.microsoft.com/downloads/info.aspx?na=46&p=3&SrcDisplayLang=en&SrcCat
egoryId=&SrcFamilyId=b604bb05­7c33­4643­96b4­
38e06383bda5&u=http%3a%2f%2fdownload.microsoft.com%2fdownload%2f6%2f3%2fa
%2f63a018ae­711f­4edb­8b79­ca109e5eed07%2ffastfacts.doc

 7.7. Legislação Consultada

1. DECRETO DE 29 DE OUTUBRO DE 2003 ­ Institui Comitês Técnicos do Comitê 
Executivo do Governo Eletrônico e dá outras providências. (Diário Oficial da União – 
Seção 1. No 211, quinta­feira, 30 de outubro de 2003. p.4, ­ ISSN 1677­7042)
2. LEI No 7.646, DE 18 DE DEZEMBRO DE 1987 ­ Dispõe quanto à proteção da propriedade 
intelectual sobre programas de computador e sua comercialização no País e dá outras 
providências (Revogado pela Lei nº 9.609, de 19.2.1998)
3. LEI Nº 7.232, DE 29 DE OUTUBRO DE 1984 ­ Dispõe sobre a Política Nacional de 
Informática, e dá outras providências. (publicado no D.O.U. de 30 de outubro de 1984)

 7.8. Material de Apoio

The Columbia Dictionary of Quotations. Columbia University Press. 1993

31/08/2006 ­ 20060830_rbns.odt 139
 8. Anexos

 8.1. Documento I
    POLÍCIA APREENDE CÓPIAS DE LIVROS EM UNIVERSIDADES227

Um inquérito aberto na Divisão de Investigações Gerais DIG apura o comércio de cópias de livros em 
universidades de São Paulo. Ele foi aberto em dezembro com base em uma representação da Associação 
Brasileira de Direitos Reprográficos.
A entidade apresentou aos policiais uma lista de locais usados pelos estudantes para fazer cópias dos 
livros. "Nossos homens apreenderam grande quantidade de cópias e livros", disse o delegado Edson Soares, 
diretor da DIG, do Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado (Deic). 
Segundo   o   delegado,   os   investigadores   apreenderam   cópias   perto   de   instituições   de   ensino 
tradicionais, como a Universidade de São Paulo USP, a Pontifícia Universidade Católica PUC e a Universidade 
Mackenzie. O inquérito ainda não foi concluído, pois a polícia termina a identificação dos envolvidos. "Os 
locais   eram   próximos   das   universidades.   Não   encontramos   nenhum   dentro   delas."  

A reprodução de trechos de livros é crime contra a propriedade intelectual, cuja pena varia de 2 a 4 anos de 
reclusão. O combate a essa prática é uma das medidas aprovadas pelo Conselho de Combate à Pirataria e 
Delitos contra a Propriedade Intelectual, do Ministério da Justiça. Divulgado anteontem, o plano do governo 
federal prevê a execução dessas ações nos próximos dois anos. 
"Se eu não pudesse tirar xerox  certamente não poderia estudar. No início do ano, os professores 
passam a bibliografia e a gente vê que não dá para comprar tudo. E muita coisa não tem na biblioteca", 
protestou a pós­graduanda de língua portuguesa da USP D.C., 30, que tirava cópias de um livro europeu cujo 
preço fica em torno de R$ 300. O xerox saiu por R$ 28.
"Outro dia, eles não quiseram tirar a cópia, disseram que era proibido, mas assim ninguém estuda. 
Consegui o original com uma amiga que viajou para fora, mas não posso ficar com o exemplar dela."
A colega de classe de D. Verena Kewitz, 30, sofre com o mesmo problema. "Muitos títulos já saíram de 
catálogo e aí não tem jeito, temos de fazer cópia."
Outro crime de falsificação foi flagrado pela reportagem ontem à tarde, na Avenida Senador Queiroz, 
Centro da Cidade. Cinco ambulantes vendiam mercadoria falsificada na calçada, em sua maioria camisetas, 
CDs e DVDs, ao lado de um carro do DEIC.

227
 Jornal da Tarde ­ 03/02/2005

31/08/2006 ­ 20060830_rbns.odt 140
 8.2. Documento II (Resolução n° 5.213 de junho de 2005)

    RESOLUÇÃO Nº 5.213, DE 02 DE JUNHO DE 2005.228 ­ (D.O.E. ­ 06.2005)    

    Regula a extração de cópias reprográficas de livros, revistas científicas ou periódicos no âmbito da 
Universidade de São Paulo.

    O Reitor da Universidade de São Paulo, no uso de suas atribuições legais, com fundamento no art. 
207 da Constituição Federal e no art. 42, IX, do Estatuto, baixado pela Resolução nº 3461, de 07.10.88, e de 
acordo com o deliberado pelo Conselho Universitário, em Sessão de 31 de maio de 2005, baixa a seguinte

    RESOLUÇÃO:

       Artigo 1º ­ As normas constantes desse ato deverão ser observadas em todas as instalações e 
órgãos   da   Universidade   de   São   Paulo,   quer   sejam   vinculados   diretamente   à   autarquia,   quer   se   trate   de 
permissionários ou concessionários de serviços.

    Artigo 2º ­ Visando garantir as atividades­fins da Universidade, será permitida a extração de cópias 
de   pequenos   trechos,   como   capítulos   de   livros   e   artigos   de   periódicos   ou   revistas   científicas,   mediante 
solicitação individualizada, sem finalidade de lucro, para uso próprio do solicitante.

        Artigo   3º   ­   As   bibliotecas   deverão   marcar   seu   acervo   com   sinais   distintivos   diferenciando   as 
seguintes categorias de obras:

    I – esgotadas sem republicação há mais de 10 anos;
    II – estrangeiras indisponíveis no mercado nacional;
    III – de domínio público;
    IV – nas quais conste expressa autorização para reprodução.

    Parágrafo único ­ De qualquer obra que contenha o sinal distintivo de uma dessas categorias, será 
permitida a reprodução reprográfica integral.

    Artigo 4º ­ É permitido, por parte de docentes, o fornecimento de material destinado estritamente ao 
ministério de disciplina constante do programa da universidade, sendo autorizada sua reprodução para os 
alunos regularmente inscritos, observado o disposto nos artigos precedentes.

228
Fonte: http://www.fflch.usp.br/sdi/imprensa/eventos/resolucao_xerox.html

31/08/2006 ­ 20060830_rbns.odt 141
        Artigo   5º   ­   Fica   garantido   o   livre   exercício   das   atividades   desenvolvidas   pelas   bibliotecas   de 
intercâmbio de material entre instituições de ensino e pesquisa nos limites desta Resolução.

    Artigo 6º ­ Esta Resolução entrará em vigor na data de sua publicação. (Proc. 2005.1.13361.1.1)

    Reitoria da Universidade de São Paulo, 02 de junho de 2005.

    ADOLPHO JOSÉ MELFI
    Reitor

    NINA BEATRIZ STOCCO RANIERI
    Secretária Geral

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 8.3. Documento III (Lei n° 7.646 de 18 de dezembro de 1987)

LEI No 7.646, DE 18 DE DEZEMBRO DE 1987.

Revogado pela Lei nº 9.609, de 19.2.1998

Dispõe quanto à proteção da propriedade intelectual sobre programas de computador e sua 
comercialização no País e dá outras providências. 

  O  PRESIDENTE   DA   REPÚBLICA  ,   faço  na Lei nº 5.988, de 14 de dezembro de 1973, com as 


saber   que   o   Congresso   Nacional   decreta   e   eu  modificações que esta lei estabelece para atender às 
sanciono a seguinte lei:  peculiaridades   inerentes   aos   programas   de 
computador. 

TÍTULO I TÍTULO II

Disposições Preliminares  Da Proteção aos Direitos de Autor 

  Art. 1º São livres, no País, a produção e a    Art. 3º Fica assegurada a tutela dos direitos 

comercialização   de   programas   de   computador,   de  relativos   aos   programas   de   computador,   pelo   prazo 
origem  estrangeira  ou  nacional,  assegurada  integral  de 25 (vinte e cinco) anos, contado a partir do seu 
proteção   aos   titulares   dos   respectivos   direitos,   nas  lançamento em qualquer país. 
condições estabelecidas em lei.   § 1º A proteção aos direitos de que trata esta 

  Parágrafo único. Programa de computador é  lei   independe   de   registro   ou   cadastramento   na 


a expressão de um conjunto organizado de instruções  Secretaria Especial de Informática ­ SEI. 
em   linguagem   natural   ou   codificada,   contida   em    §  2º   Os  direitos   atribuídos  por   esta  lei   aos 

suporte   físico   de   qualquer   natureza,   de   emprego  estrangeiros,   domiciliados   no   exterior,   ficam 


necessário em máquinas automáticas de tratamento  assegurados,   desde   que   o   país   de   origem   do 
da   informação,   dispositivos,   instrumentos   ou  programa   conceda   aos   brasileiros   e   estrangeiros, 
equipamentos   periféricos,   baseados   em   técnica  domiciliados   no   Brasil,   direitos   equivalentes,   em 
digital, para fazê­los funcionar  de modo  e para fins  extensão   e   duração,   aos   estabelecidos   no  caput 
determinados.  deste artigo. 

  Art. 2º O regime de proteção à propriedade    Art.   4º   Os   programas   de   computador 

intelectual de programas de computador é o disposto  poderão, a critério do autor, ser registrados em órgão 

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a   ser   designado   pelo   Conselho   Nacional   de   Direito  instalações   ou   equipamentos   do   empregador   ou 
Autoral ­ CNDA, regido pela Lei nº 5.988, de 14 de  contratante de serviços. 
dezembro  de   1973,   e   reorganizado   pelo   Decreto   nº    Art.   6º   Quando   estipulado   em   contrato 
84.252, de 28 de julho de 1979.  firmado   entre   as   partes,   os   direitos   sobre   as 
 § 1º O titular do direito de autor submeterá ao  modificações tecnológicas e derivações pertencerão à 
órgão  designado  pelo  Conselho  Nacional  de  Direito  pessoa   autorizada   que   as   fizer   e   que   os   exercerá 
Autoral   ­   CNDA,   quando   do   pedido   de   registro,   os  autonomamente. 
trechos do programa e outros dados que considerar    Art. 7º Não constituem ofensa ao direito de 
suficientes para caracterizar a criação independente e  autor de programa de computador: 
a identidade do programa de computador.    I   ­   a   reprodução   de   cópia   legitimamente 
 § 2º Para identificar­se como titular do direito  adquirida,   desde   que   indispensável   à   utilização 
de autor, poderá o criador do programa usar de seu  adequada do programa; 
nome   civil,   completo   ou   abreviado,   até   por   suas    II   ­   a   citação   parcial,   para   fins   didáticos, 
iniciais, como previsto no art. 12 da Lei nº 5.988, de  desde que identificados o autor e o programa a que 
14 de dezembro de 1973.  se refere; 
  §   3º   As   informações   que   fundamentam   o   III ­ a ocorrência de semelhança de programa 
registro   são   de   caráter   sigiloso,   não   podendo   ser  a   outro,   preexistente,   quando   se   der   por   força   das 
reveladas,   a   não   ser   por   ordem   judicial   ou   a  características   funcionais   de   sua   aplicação,   da 
requerimento do próprio titular.  observância de preceitos legais, regulamentares, ou 
  Art.   5º   Salvo   estipulação   em   contrário,  de   normas   técnicas,   ou   de   limitações   de   forma 
pertencerão   exclusivamente   ao   empregador   ou  alternativa para a sua expressão; 
contratante   de   serviços,   os   direitos   relativos   a   IV ­ a integração de um programa, mantendo­
programa de computador, desenvolvido e elaborado  se   suas   características   essenciais,   a   um   sistema 
durante   a   vigência   de   contrato   ou   de   vínculo  aplicativo ou operacional, tecnicamente indispensável 
estatutário,   expressamente   destinado   à   pesquisa   e  às   necessidades   do   usuário,   desde   que   para   uso 
desenvolvimento,   ou   em   que   a   atividade   do  exclusivo de quem a promoveu. 
empregado, servidor ou contratado de serviços seja  TÍTULO III
prevista, ou ainda, que decorra da própria natureza  Do Cadastro 
dos encargos contratados.   Art. 8º Para a comercialização de que trata o 
  §   1º   Ressalvado   ajuste   em   contrário,   a  art.   1º   desta   lei,   fica   obrigatório   o   prévio 
compensação do trabalho, ou serviço prestado, será  cadastramento   do   programa   ou   conjunto   de 
limitada à remuneração ou ao salário convencionado.  programas  de   computador,   pela   Secretaria   Especial 
  §   2º   Pertencerão,   com   exclusividade,   ao  de Informática ­ SEI, que os classificará em diferentes 
empregado,   servidor   ou   contratado   de   serviços,   os  categorias, conforme sejam desenvolvidos no País ou 
direitos   concernentes   a   programa   de   computador  no   exterior,   em   associação   ou   não   entre   empresas 
gerado sem relação ao contrato de trabalho, vínculo  não nacionais e nacionais, definidas estas pelo art. 12 
estatutário ou prestação de serviços, e sem utilização  da Lei nº 7.232, de 29 de outubro de 1984, e art. 1º do 
de   recursos,   informações   tecnológicas,   materiais,  Decreto­lei nº 2.203, de 27 de dezembro de 1984. 

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  §   1º   No   que   diz   respeito   à   proteção   dos    I   ­   ser   original   e   desenvolvido 
direitos do autor, não se estabelecem diferenças entre  independentemente; 
as categorias referidas no caput deste artigo, as quais    II   ­   ter,   substancialmente,   as   mesmas 
serão diversificadas para efeito de financiamento com  características de desempenho, considerando o tipo 
recursos públicos, incentivos fiscais, comercialização  de aplicação a que se destina; 
e remessa de lucros, ou pagamento de direitos aos    III   ­   operar   em   equipamento   similar   e   em 
seus   titulares   domiciliados   no   exterior,   conforme   o  ambiente de processamento similar; 
caso.   b) observar padrões nacionais estabelecidos, 
 § 2º O cadastramento de que trata este artigo  quando pertinentes; 
e a aprovação dos atos e contratos referidos nesta lei,   c) (Vetado); 
pela Secretaria Especial de Informática ­ SEI, ficarão    d)   executar,   substancialmente,   as   mesmas 
condicionados,   quando   se   tratar   de   programas  funções, considerando o tipo de aplicação a que se 
desenvolvidos   por   empresas   não   nacionais,   à  destina e as características do mercado nacional. 
apuração da inexistência de programa de computador   Art. 11. Fica estipulado o prazo de 120 (cento 
similar, desenvolvido no País, por empresa nacional.  e   vinte)   dias   para   que   a   Secretaria   Especial   de 
 § 3º Além do disposto no caput deste artigo, o  Informática   ­   SEI   se   manifeste   sobre   o   pedido   de 
cadastramento de que trata esta lei é condição prévia  cadastramento (Vetado), contado a partir da data do 
e essencial à:  respectivo protocolo. 
 I ­ validade e eficácia de quaisquer negócios    Art.   12.   Às   empresas   não   nacionais,   o 
jurídicos relacionados a programas;  cadastramento   será   concedido,   exclusivamente,   a 
  II ­ produção de efeitos fiscais e cambiais e  programas   de   computador   que   se   apliquem   a 
legitimação   de   pagamentos,   créditos   ou   remessas  equipamentos produzidos no País ou no exterior, aqui 
correspondentes, quando for o caso, e sem prejuízo  comercializados   por   empresas   desta   mesma 
de outros requisitos e condições estabelecidos em lei.  categoria. 
  Art.   9º   O   cadastramento,   para   os   fins   do    Art. 13. Será tornado sem efeito, a qualquer 
disposto no artigo anterior, terá validade mínima de 3  tempo, o cadastramento de programa de computador: 
(três) anos, e será renovado, automaticamente, pela   I ­ por sentença judicial transitada em julgado; 
Secretaria Especial de Informática ­ SEI, observado o    II   ­   por   ato   administrativo,   quando 
disposto no § 2º do citado artigo.  comprovado   que   as   informações   apresentadas   pelo 
  Parágrafo  único.  Da  decisão  que  deferir   ou  interessado para instruir o pedido de cadastramento 
denegar o pedido de cadastramento, caberá recurso  não forem verídicas. 
ao Conselho Nacional de Informática e Automação ­   Art. 14. A Secretaria Especial de Informática ­ 
CONIN, observado o disposto no Regimento Interno  SEI   poderá   cobrar   emolumentos   pelos   serviços   de 
deste Conselho.  cadastro   (Vetado),   conforme   tabela   própria   a   ser 
  Art.   10.   Para   os   efeitos   desta   lei,   um  aprovada pelo Ministério da Ciência e Tecnologia. 
programa de computador será considerado similar a  TÍTULO IV
outro, quando atender às seguintes condições:  Da Quota de Contribuição 
  a)   ser   funcionalmente   equivalente,    Art.  15.  O  Fundo  Especial  de  Informática  e 
considerando que deve:  Automação,   de   que   trata   a   Lei   nº   7.232,   de   29   de 

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outubro de 1984, será destinado ao financiamento a    II   ­   assegurar,   aos   respectivos   usuários,   a 
programas de:  prestação   de   serviços   técnicos   complementares 
 a) pesquisa e desenvolvimento de tecnologia  relativos ao adequado funcionamento do programa de 
de informática e automação;  computador, consideradas as suas especificações e 
  b)   formação   de   recursos   humanos   em  as particularidades do usuário. 
informática;    Art. 25. O titular dos direitos dos programas 
  c) aparelhamento dos Centros de Pesquisas  de computador, durante o prazo de validade técnica, 
em   Informática,   com   prioridade   às   Universidades  tratado   nos   artigos   imediatamente   anteriores,   não 
Federais e Estaduais;  poderá retirá­los de circulação comercial, sem a justa 
 d) capitalização dos Centros de Tecnologia e  indenização   de   eventuais   prejuízos   causados   a 
Informática,   criados   em   consonância   com   as  terceiros. 
diretrizes   do   Plano   Nacional   de   Informática   e   Art. 26. O titular dos direitos de programas de 
Automação ­ PLANIN.  computador   e   de   sua   comercialização   responde, 
  Parágrafo   único.   O   Fundo   Especial   de  perante o usuário, pela qualidade técnica adequada, 
Informática e Automação será constituído de:  bem como pela qualidade da fixação ou gravação dos 
 a) dotações orçamentárias;  mesmos   nos   respectivos   suportes   físicos,   cabendo 
 b) quotas de contribuição;  ação   regressiva   contra   eventuais   antecessores 
 c) doações de origem interna ou externa.  titulares desses mesmos direitos. 
 Art 16. (Vetado).    Art.   27.   A   exploração   econômica   de 
 Art. 17. (Vetado).  programas   de   computador,   no   País,   será   objeto   de 
 Art. 18. (Vetado).  contratos   de   licença   ou   de   cessão,   livremente 
 Art. 19. (Vetado).  pactuados   entre   as   partes,   e   nos   quais   se   fixará, 
TÍTULO V quanto aos tributos e encargos exigíveis no País, a 

Da Comercialização  responsabilidade pelos respectivos pagamentos. 

 Art. 20. (Vetado).    Parágrafo   único.   Serão   nulas   as   cláusulas 

 Art. 21. (Vetado).  que: 

 Art. 22. (Vetado).   a) fixem exclusividade; 

 Art. 23. Os suportes físicos de programas de    b)   limitem   a   produção,   distribuição   e 

computador  e respectivas embalagens,  assim  como  comercialização; 


os contratos a eles referentes deverão consignar, de    c)   eximam   qualquer   dos   contratantes   da 

forma   facilmente   legível   pelo   usuário,   o   número   de  responsabilidade   por   eventuais   ações   de   terceiros, 
ordem de cadastro, (Vetado) e o prazo de validade  decorrente de vícios, defeitos ou violação de direitos 
técnica da versão comercializada.  de autor. 

  Art.   24.   O   titular   dos   direitos   de    Art. 28. A comercialização de programas de 

comercialização   de   programas   de   computador,  computador,  ressalvado  o  disposto  no  art.  12  desta 
durante   o   prazo   de   validade   técnica   da   respectiva  lei,  somente   é  permitida   a  empresas  nacionais   que 
versão, fica obrigado a:  celebrarão,   com   os   fornecedores   não   nacionais,   os 

 I ­ divulgar, sem ônus adicional, as correções  contratos de cessão de direitos ou licença, nos termos 
de eventuais erros;  desta lei. 

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  Parágrafo   único.   A   aprovação   pelos   órgãos    Art.   31.   Nos   casos   de   transferência   de 
competentes   do   Poder   Executivo,   dos   atos   e  tecnologia   de   programas   de   computador,   será 
contratos   relativos   à   comercialização   de   programas  obrigatória,   inclusive   para   fins   de   pagamento   e 
de computador de origem externa, é condição prévia  dedutibilidade da respectiva remuneração, e demais 
e essencial para:  efeitos previstos nesta lei, a averbação do contrato no 
 a) possibilitar o cadastramento do programa;  Instituto Nacional de Propriedade Industrial ­ INPI. 
 b) permitir a dedutibilidade fiscal, respeitadas   Parágrafo único. Para averbação de que trata 
as normas previstas na legislação específica;  este   artigo,   além   da   inexistência   de   capacitação 
  c)   possibilitar   a   remessa   ao   exterior   dos  tecnológica nacional, fica obrigatório o fornecimento, 
montantes devidos, de acordo com esta lei e demais  por parte do fornecedor ao receptor de tecnologia, da 
disposições legais aplicáveis.  documentação completa, em especial do código­fonte 
  Art.   29.   A   aprovação   e   a   averbação   serão  comentado,   memorial   descritivo,   especificações 
concedidas aos atos e contratos, relativos a programa  funcionais   e   internas,   diagramas,   fluxogramas   e 
de origem externa, que estabelecerem remuneração  outros   dados   técnicos   necessários   à   absorção   da 
do   autor,   cessionário   residente   ou   domiciliado   no  tecnologia. 
exterior,   a   preço   certo   por   cópia   e   respectiva   Art. 32. As pessoas jurídicas poderão deduzir, 
documentação técnica, que não exceda o valor médio  até o dobro, como despesa operacional, para efeito 
mundial praticado na distribuição do mesmo produto,  de   apuração   do   lucro   tributável   pelo   Imposto   de 
não sendo permitido pagamento calculado em função  Renda e Proventos de Qualquer Natureza, os gastos 
de produção, receita  ou lucro  do cessionário  ou do  realizados   com   a   aquisição   de   programas   de 
usuário.  computador,   quando   forem   os   primeiros   usuários 
  1º Excluem­se da permissão deste artigo as  destes, desde que os programas se enquadrem como 
empresas   não   nacionais,   a   elas   assegurada,   em  de relevante interesse, observado o disposto nos arts. 
decorrência da comercialização regulada pelo art. 12  15 e 19 da Lei nº 7.232, de 29 de outubro de 1984. 
desta   lei,   a   remessa   de   divisas   previstas   nas   § 1º Paralelamente, como forma de incentivo, 
disposições   e   nos   limites   da   Lei   nº   4.131,   de   3   de  a   utilização   de   programas   de   computador 
setembro de 1962, e legislação posterior.  desenvolvidos   no   País   por   empresas   privadas 
  2º   A   nota   fiscal   emitida   pelo   titular   dos  nacionais   será   levada   em   conta   para   efeito   da 
correspondentes   direitos   ou   seus   representantes  concessão dos incentivos previstos no art. 13 da Lei 
legais,   que   comprove   a   comercialização   de  nº  7.232, de 29 de outubro de 1984, bem como de 
programas de computador de origem externa, será o  financiamentos com recursos públicos. 
suficiente   para   possibilitar   os   pagamentos   previstos   § 2º Os órgãos e entidades da Administração 
no caput deste artigo.  Pública Direta ou Indireta, Fundações, instituídas ou 

TÍTULO VI mantidas pelo Poder Público e as demais entidades 

Disposições Gerais  sob   o   controle   direto   ou   indireto   do   Poder   Público 

  Art.   30.   Será   permitida   a   importação   ou   o  darão   preferência,   em   igualdade   de   condições,   na 
internamento,   conforme   o   caso,   de   cópia   única   de  utilização   de   programas   de   computador 
programa   de   computador,   destinado   à   utilização  desenvolvidos   no   País   por   empresas   privadas 
exclusiva pelo usuário final, (Vetado). 

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nacionais, de conformidade com o que estabelece o  crime previsto no art. 35 desta lei, serão precedidas 
art. 11 da Lei nº 7.232, de 29 de outubro de 1984.  de vistoria, podendo o juiz ordenar a apreensão das 
  §   3º   A   participação   do   Estado   na  cópias  produzidas  ou   comercializadas   com  violação 
comercialização   de   programas   de   computador  de   direito   de   autor,   suas   versões   e   derivações,   em 
obedecerá ao disposto no inciso II do art. 2º da Lei nº  poder   do   infrator   ou   de   quem   as   esteja   expondo, 
7.232, de 29 de outubro de 1984.  mantendo   em   depósito,   reproduzindo   ou 
  Art. 33. As ações de nulidade do registro ou  comercializando. 
do   cadastramento,   que   correrão   em   segredo   de   Art. 39. Independentemente da ação penal, o 
justiça,   poderão   ser   propostas   por   qualquer  prejudicado   poderá   intentar   ação   para   proibir   ao 
interessado ou pela União Federal.  infrator a prática do ato incriminado, com a cominação 
  Art.   34.   A   nulidade   do   registro   constitui  de pena pecuniária para o caso de transgressão do 
matéria   de   defesa   nas   ações   cíveis   ou   criminais,  preceito (art. 287 do Código de Processo Civil). 
relativas à violação dos direitos de autor de programa    1º   A   ação   de   abstenção   de   prática   de   ato 
de computador.  poderá ser cumulada com a de perdas e danos pelos 
TÍTULO VII prejuízos decorrentes da infração. 

Das Sanções e Penalidades    2º   A   ação   civil,   proposta   com   base   em 

 Art. 35. Violar direitos de autor de programas  violação   dos   direitos   relativos   à   propriedade 


de computador:  intelectual   sobre   programas   de   computador,   correrá 

 Pena ­ Detenção, de 6 (seis) meses a 2 (dois)  em segredo de justiça. 
anos e multa.    3º   Nos   procedimentos   cíveis,   as   medidas 

 Art. 36. (Vetado).  cautelares   de   busca   e   apreensão   observarão   o 

  Art. 37. Importar, expor, manter em depósito,  disposto no parágrafo único do art. 38 desta lei. 
para   fins   de   comercialização,   programas   de    4º   O   juiz   poderá   conceder   medida   liminar, 

computador de origem externa não cadastrados:  proibindo ao infrator a prática do ato incriminado, nos 

 Pena ­ Detenção, de 1 (um) a 4 (quatro) anos  termos do  caput  deste artigo, independentemente de 


e multa.  ação cautelar preparatória. 

 Parágrafo único. O disposto neste artigo não   5º Será responsabilizado por perdas e danos 

se   aplica   a   programas   internados   exclusivamente  aquele que requerer e promover as medidas previstas 


para demonstração ou aferição de mercado em feiras  neste   e   no   artigo   anterior,   agindo   de   má­fé   ou   por 
ou   congressos   de   natureza   técnica,   científica   ou  espírito de emulação, capricho ou erro grosseiro, nos 
industrial.  termos dos arts. 16, 17 e 18 do Código de Processo 

  Art. 38. A ação penal, no crime previsto no  Civil. 
art.   35,   (Vetado)   desta   lei,   é   promovida   mediante  TÍTULO VIII
queixa, salvo quando praticado em prejuízo da União,  Das Prescrições 
Estado,   Distrito   Federal,   Município,   autarquia,    Art. 40. Prescreve em 5 (cinco) anos a ação 
empresa   pública,   sociedade   de   economia   mista   ou  civil por ofensa a direitos patrimoniais do autor. 
fundação sob supervisão ministerial.   Art. 41. Prescrevem, igualmente em 5 (cinco) 
  Parágrafo   único.   A   ação   penal   e   as  anos,   as   ações   fundadas   em   inadimplemento   das 
diligências   preliminares   de   busca   e   apreensão,   no  obrigações decorrentes, contado o prazo da data: 

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  a)   que   constitui   o   termo   final   de   validade    Parágrafo   único.   O   Poder   Executivo 
técnica de versão posta em comércio;  regulamentará esta lei no prazo de 120 (cento e vinte) 
  b)   da   cessação   da   garantia,   no   caso   de  dias, a contar da data de sua publicação. 
programas   de   computador   desenvolvidos   e    Art.   43.   Revogam­se   as   disposições   em 
elaborados por encomenda;  contrário. 
  c)   da   licença   de   uso   de   programas   de 
computador.  Brasília,   18   de   dezembro   de   1987;   166º   da 
TÍTULO IX Independência e 99º da República.

Das Disposições Finais  JOSÉ SARNEY 

 Art. 42. Esta lei entra em vigor na data de sua  Luiz Henrique da Silveira 
publicação. 

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 8.4. Documento IV (Decreto de 29 de outubro de 2003)

DECRETO DE 29 DE OUTUBRO DE 2003229       

                       

Institui Comitês Técnicos do Comitê Executivo do Governo Eletrônico e dá
outras providências.

O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, no uso da 
atribuição que lhe confere o art. 84, inciso VI, alínea  Art.   2o­  Os   Comitês   Técnicos   serão 
"a", da Constituição, compostos por representantes de órgãos e entidades 
da   administração   pública   federal,   indicados   pelos 

DECRETA:  integrantes   do   Comitê   Executivo   do   Governo 


Eletrônico. 
§ 1o­ Ato dos Ministros de Estado Chefe da 
Art.  1o­  Ficam  instituídos Comitês Técnicos, 
Casa   Civil   da   Presidência   da   República   e   do 
no   âmbito   do   Comitê   Executivo   do   Governo 
Planejamento,   Orçamento   e   Gestão   estabelecerá   a 
Eletrônico, criado pelo Decreto de l8 de outubro de 
composição dos Comitês Técnicos e designará seus 
2000,   com   a   finalidade   de   coordenar   e   articular   o 
membros e coordenadores. 
planejamento e a implementação de projetos e ações 
§   2o­   Em   seus   impedimentos,   os   membros 
nas   respectivas   áreas   de   competência,   com   as 
dos   Comitês   Técnicos   serão   substituídos   por   seus 
seguintes denominações: 
suplentes. 
§   3o­   Os   órgãos   e   entidades   cujos 
I ­ Implementação do Software Livre;
representantes   integrem   os   respectivos   Comitês 
II ­ Inclusão Digital;
Técnicos   prestarão   o   necessário   apoio   técnico   e 
III ­ Integração de Sistemas;
administrativo   ao   seu   funcionamento,   inclusive   por 
IV   ­   Sistemas   Legados   e   Licenças   de 
meio da designação de servidores dos seus quadros 
Software;
para a atuação em atividades e projetos. 
V ­ Gestão de Sítios e Serviços On­line;
§ 4o­ Poderão ser convidados a participar das 
VI ­ Infra­Estrutura de Rede;
reuniões   dos   Comitês   Técnicos,   a   juízo   do   seu 
VII ­ Governo para Governo ­ G2G; e
coordenador,   representantes   de   outros   órgãos   e 
VIII ­ Gestão de Conhecimentos e Informação 
Estratégica. 
229
 Diário Oficial da União – Seção 1. No 211, quinta­feira, 30 de outubro de 2003. p.4, ­ ISSN 1677­7042

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entidades   públicas,   de   empresas   privadas   ou   de 
organizações da sociedade civil.  Art. 3o­  Este Decreto entra em vigor na data 
§   5o­   O   Secretário­Executivo   do   Comitê  de sua publicação. Brasília, 29 de outubro de 2003; 
Executivo   do   Governo   Eletrônico   supervisionará   os  182o­ da Independência e 115o­ da República. 
trabalhos  dos  Comitês   Técnicos,  inclusive  por   meio 
da   convocação   dos   seus   coordenadores   para  LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA
participação   em   reuniões   periódicas   de  Guido Mantega 
acompanhamento. 

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 8.5. Documento V (Creative Commons Licença de Atribuição­Uso Não 
Comercial 2.5 Brasil)

Atribuição­Uso Não­Comercial 2.5 Brasil

Você pode:

• copiar, distribuir, exibir e executar a obra 
• criar obras derivadas 

Sob as seguintes condições:

Atribuição . Você deve dar crédito ao autor original, da 
forma especificada pelo autor ou licenciante.

Uso Não­Comercial. Você não pode utilizar esta obra 
com finalidades comerciais.

• Para cada novo uso ou distribuição, você deve deixar claro para outros 
os termos da licença desta obra. 
• Qualquer uma destas condições podem ser renunciadas, desde que 
Você obtenha permissão do autor. 

Qualquer direito de uso legítimo (ou "fair use") concedido por lei, ou 
qualquer outro direito protegido pela legislação local, não são em hipótese 
alguma afetados pelo disposto acima.

Este é um sumário para leigos da Licença Jurídica (na íntegra) 
[http://creativecommons.org/licenses/by­nc/2.5/br/legalcode]. 

Termo de exoneração de responsabilidade 
[http://creativecommons.org/licenses/disclaimer­popup?lang=pt­br] 

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 8.6. Documento VI (The Open Source Definition230)

Introduction

Open   source   doesn't   just   mean  access   to  the   source   code.  The   distribution  terms   of  open­source 
software must comply with the following criteria: 

1. Free Redistribution

The license shall not restrict any party from selling or giving away the software as a component of an 
aggregate   software   distribution   containing   programs   from   several   different   sources.   The   license   shall   not 
require a royalty or other fee for such sale.

2. Source Code
The program must include source code, and must allow distribution in source code as well as compiled 
form. Where some form of a product is not distributed with source code, there must be a well­publicized means 
of obtaining the source code for no more than a reasonable reproduction cost preferably, downloading via the 
Internet without charge. The source code must be the preferred form in which a programmer would modify the 
program.  Deliberately  obfuscated  source  code is   not allowed.  Intermediate forms   such as  the output  of a 
preprocessor or translator are not allowed.

3. Derived Works

The license must allow modifications and derived works, and must allow them to be distributed under 
the same terms as the license of the original software.

4. Integrity of The Author's Source Code

The license may restrict source­code from being distributed in modified form only if the license allows 
the distribution of "patch files" with the source code for the purpose of modifying the program at build time. The 
license must explicitly permit distribution of software built from modified source code. The license may require 
derived works to carry a different name or version number from the original software.

5. No Discrimination Against Persons or Groups

The license must not discriminate against any person or group of persons.

6. No Discrimination Against Fields of Endeavor

The license must not restrict anyone from making use of the program in a specific field of endeavor. For 
example,   it   may   not   restrict   the   program   from   being   used   in   a   business,   or   from   being   used   for   genetic 
research.

7. Distribution of License

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 http://www.opensource.org/docs/definition_plain.php

31/08/2006 ­ 20060830_rbns.odt 153
The rights attached to the program must apply to all to whom the program is redistributed without the 
need for execution of an additional license by those parties.

8. License Must Not Be Specific to a Product

The   rights   attached   to   the   program   must   not   depend   on   the   program's   being   part   of   a   particular 
software distribution. If the program is extracted from that distribution and used or distributed within the terms 
of the program's license, all parties to whom the program is redistributed should have the same rights as those 
that are granted in conjunction with the original software distribution.

9. License Must Not Restrict Other Software

The license must not place restrictions on other software that is distributed along with the licensed 
software. For example, the license must not insist that all other programs distributed on the same medium must 
be open­source software.

10. License Must Be Technology­Neutral

No provision of the license may be predicated on any individual technology or style of interface.

31/08/2006 ­ 20060830_rbns.odt 154