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REVISTA DE

CIÊNCIAS
SOCIAIS
Instabilidade política e
quedas presidenciais na
América Latina

Volume 49—número 1—2018


ISSN, v. eletrônica 2318-4620. Fortaleza
Universidade Federal do Ceara—UFC
Departamento de Ciências Sociais
Programa de Pós-Graduação em Sociologia

Revista de
Ciências Sociais
Instabilidade política e quedas presidenciais
na América Latina

ISSN, v. eletrônica 2318-4620. Fortaleza, v.49, n. 1, p.01—618, mar./jun., 2018


Ficha Catalográfica

____________________________________________________________________________

Revista de Ciências Sociais — periódico do Departamento de Ciências Sociais e do Programa


de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal do Ceará — UFC

n.1 (1970) - Fortaleza, UFC, 2018

Quadrimestral

ISSN, v. eletrônica 2318-4620

1. Instabilidade; 2. América Latina

I — Universidade Federal do Ceará, Centro de Humanidades


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Irapuan Lima Peixoto Filho, Vibri Design & Branding
Clayton Mendonça Cunha Filho.

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Clayton Mendonça Cunha Filho
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Volume 49. número 1—2018
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ISSN, v. eletrônica 2318-4620

Publicação Quadrimestral
Sumário
Revista de Ciências Sociais, Fortaleza, v. 49
n.1, 2018

// DOSSIÊ – OS SIGNIFICADOS DAS NOVAS QUEDAS PRESIDENCIAIS NA


AMÉRICA LATINA: INSTABILIDADE DOS GOVERNOS OU DOS REGIMES?

14 Apresentação
André Luiz Coelho

30 Presidencialismo em crise ou parlamentarismo por outros meios?


Impeachments presidenciais no Brasil e na América Latina
Yuri Kasahara, Leiv Marsteintredet

55 Os neogolpes e as interrupções de mandatos presidenciais na


América Latina: os casos de Honduras, Paraguai e Brasil
Leonardo Valente Monteiro

98 Regressão democrática na América Latina: do ciclo político


progressista ao ciclo político neoliberal e autoritário
Josué Medeiros

134 Aprovação presidencial (1996-2015) na América Latina: mais


participação pode ser uma saída quando a economia vai mal?
Daiane Boelhouwer Menezes

166 Hegemonia, fração de classe e financeirização do capital:


Elementos para uma abordagem marxista e sistêmica sobre a
crise política brasileira.
Mayra Goulart da Silva, Beatriz Soares Lourenço, Júlio César Pereira de
Carvalho

202 Os juristas políticos e suas convicções: para uma anatomia do


componente jurídico do golpe de 2016 no Brasil
Pedro Luiz Lima, Jorge Chaloub
253 O impeachment de Dilma Rousseff e a instabilidade política na
América Latina: a aplicabilidade do modelo de Perez-Liñan
Gabriel Gutierrez Mendes

279 O nome das coisas: a disputa simbólica impeachment versus golpe


na mídia internacional
Monalisa Soares Lopes, Grazielle Albuquerque

317 Da instabilidade política ao mau desempenho constitucional:


uma análise dos processos de destituição presidencial paraguaios
após 1990
Gustavo Silva Mattos

// ARTIGOS

349 Instabilidade político-militar, deslocamentos compulsórios e a vida


cotidiana em Moçambique: uma agenda de pesquisa
Albino José Eusébio, Sônia Barbosa Magalhães

375 O auge e o declínio: a trajetória institucional da Sudene e o futuro


do planejamento no Nordeste
Luciléia Aparecida Colombo

400 Sociologia das ausências e das emergências na análise teórico-


epistemológica de uma política pública participativa
Adriane Vieira Ferrarini

426 O imaginário como algo inimaginável. A sociologia rez de


chaussée de Roger Bastide

Dora Vianna Vasconcellos


// ESPECIAL: O AMAPÁ COMO DESAFIO SOCIOLÓGICO

458 Apresentação
Antonio Cristian Saraiva Paiva, Eliane Superti

461 Das ribeiras ao cais de Macapá: a cidade vista sob a trajetória de


um migrante
Verônica Xavier Luna, Antonio George Lopes Paulino

498 Experiências de perda e ressignificação da moradia: Sobre


sofrimento social de mulheres macapaenses no contexto de uma
tragédia urbana
Roberta Scheibe, Leonardo Damasceno de Sá

535 O pathos docente em narrativas: relações entre trabalho,


subjetividades docentes e adoecimento psíquico
Selma Gomes Silva, Antonio Cristian Saraiva Paiva

// RESENHAS

580 A Democracia na Periferia: uma análise de “La difícil democracia:


una mirada desde la periferia europea” de Boaventura de Sousa
Santos.
Marcos Antonio da Silva

589 A democracia impedida


Clayton Mendonça Cunha Filho

594 Para além do objeto: método etnográfico em pesquisa sociológica


de torcidas organizadas de futebol
Marcílio Dantas Brandão

599 Gênero e sexualidade para iniciantes


Gislene Oliveira Rodrigues, Wagner Xavier de Camargo

// INSTRUÇÕES AOS AUTORES

610 Normas de publicação


Contents
Social Sciences Journal, Fortaleza, v. 49
n. 1, 2018

// DOSSIER – THE MEANINGS OF NEW PRESIDENTIAL FALLS IN LATIN


AMERICA: INSTABILITY OF GOVERNMENTS OR OF REGIMES?

14 Presentation
André Luiz Coelho

30 Presidentialism in crisis or Parliamentarism by other means?


Presidential impeachments in Brazil and Latin America
Yuri Kasahara, Leiv Marsteintredet

55 The neo coups and the interruptions of presidential terms in Latin


America: the cases of Honduras, Paraguay and Brazil
Leonardo Valente Monteiro

98 Democratic setback in Latin America: from a progressive political


cycle towards a neoliberal and authoritarian political cycle
Josué Medeiros

134 Presidential approval in Latin America (1996-2015): can more


participation be a solution when the economy is going bad?
Daiane Boelhouwer Menezes

166 Hegemony, class fraction and financialization of capital: elements


for a Marxist and systemic approach to the Brazilian political
crisis
Mayra Goulart da Silva, Beatriz Soares Lourenço, Júlio César Pereira de
Carvalho

202 Political jurists and their convictions: towards an anatomy of the


juridical component in Brazil’s 2016’ Coup
Pedro Luiz Lima, Jorge Chaloub
253 The impeachment of Dilma Rousseff and the political instability in
Latin America: the applicability of the Perez-Liñan’s model
Gabriel Gutierrez Mendes

279 The name of things: the 'impeachment versus coup' symbolic dispute
in the international media
Monalisa Soares Lopes, Grazielle Albuquerque

317 From political instability to constitutional poor performance: An


analysis of the Paraguayan presidential recall processes after 1990
Gustavo Silva Mattos

// ARTICLES

349 Political and military instability, compulsory displacement and daily


life in Mozambique: a research agenda
Albino José Eusébio, Sônia Barbosa Magalhães

375 The boom and the decline: the institutional trajectory of Sudene and
the future of planning in the Northeast
Luciléia Aparecida Colombo

400 Sociology of absences and emergencies in the theoretical-


epistemological analysis of a participatory public policy
Adriane Vieira Ferrarini

426 The unimaginable Imaginarium. The sociology rez de chaussee of


Roger Bastide
Dora Vianna Vasconcellos
// SPECIAL: AMAPÁ AS A SOCIOLOGICAL CHALLENGE

458 Presentation
Antonio Cristian Saraiva Paiva, Eliane Superti

461 From the rivers to the pier of Macapá: the city seen from a
migrant's trajectory
Verônica Xavier Luna, Antonio George Lopes Paulino

498 Experiences of loss and resignification of housing: on the social


suffering of Macapaense women victims of an urban tragedy
Roberta Scheibe, Leonardo Damasceno de Sá

535 The teaching pathos in narratives: the relationship between work,


teachers subjectivities and stories of psychological illness
Selma Gomes Silva, Antonio Cristian Saraiva Paiva

// REWIES

580 Democracy on the periphery: an analysis of Boaventura de Sousa


Santos' “La difícil democracia: una mirada desde la periferia
europea”.
Marcos Antonio da Silva

589 Impeded democracy


Clayton Mendonça Cunha Filho

594 Beyond the object: ethnographic method in sociological research


of organized football supporters
Marcílio Dantas Brandão

599 Gender and Sexuality for beginners


Gislene Oliveira Rodrigues, Wagner Xavier de Camargo

// INSTRUCTIONS TO AUTHORS

610 Posting Rules


Apresentação

A manutenção da democracia tem sido um dos maiores desafios da


América Latina nas últimas décadas. A redemocratização (iniciada a partir
do fim dos anos 1970) e o advento das reformas políticas e econômicas
(com início na década seguinte) caracterizaram a emergência de um novo
momento histórico para a América Latina. Na virada de 1980 para 1990, o
otimismo das promessas de melhoria nas condições de vida animou os
cidadãos a acreditarem na mediação realizada pela política, elegendo seus
representantes, membros do Executivo e do Legislativo, para mandatos
fixos de quatro ou cinco anos.

A busca pelo aprofundamento da democracia trouxe a reboque o


desenvolvimento das instituições políticas, a organização de novos sistemas
partidários e o aumento da participação popular. A renovação da esperança
dos latino-americanos nos fez acreditar que estávamos vivendo o período
mais longo da nossa história sob a égide da democracia. A realidade,
contudo, nem sempre foi tranquila. Presenciamos um grande número de
eventos de instabilidade política e presidencial na região nas últimas
décadas, por vezes resolvidos de maneira pactuada e consensual entre os
envolvidos. Muitas outras vezes, entretanto, não. Aquelas promessas,

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Apresentação 15

oriundas do binômio “redemocratização + neoliberalismo”, em grande parte,


não foram cumpridas. Golpes de Estado e mesmo flertes com o
autoritarismo também estiveram presentes, realizados de formas distintas e
por atores diferentes.

Assim, o aumento da participação política e o desenvolvimento da


democracia na América Latina não trouxeram, necessariamente, mais
estabilidade política. Se, por um lado, grupos historicamente fora do
processo político passaram a participar e a eleger seus representantes –
muitos até mesmo identificados à sua imagem e semelhança (como na
eleição de um indígena para a presidência da Bolívia ou de um operário no
Brasil) –; por outro, a estabilidade política artificial do passado, baseada no
comando quase que exclusivo das elites, não se sustenta mais. Não podemos
esquecer que contar a história da região significa narrar uma infinidade de
pactos entre as elites, que impediam forças subalternas de concorrerem às
eleições ou, em caso de vitória, de assumirem o poder. Um dos casos mais
clássicos é o chamado “Pacto de Punto Fijo”, na Venezuela1.

Se, no histórico recente da América Latina, as elites civis


conservadoras aliaram-se aos militares e governaram por longos períodos
autoritários, a realidade atual é diferente. A instabilidade política
contemporânea chega até mesmo a ser desejada se comparada ao medo que
dominava o passado e impedia a manifestação dos anseios da soberania
popular. Não há instabilidade presidencial nas ditaduras porque esse tipo de
arranjo não permite o consenso e a participação.

Hochstetler (2007) afirma que 23% dos presidentes latino-


americanos eleitos democraticamente desde a década de 1970 foram
forçados a deixar seus cargos antes do fim de seus mandatos. A autora
chama atenção para a importância desses números e para a pouca atenção
1
O pacto de Punto Fijo foi um acordo realizado após o fim do regime militar, em 1958, na
cidade venezuelana de Punto Fijo, entre os partidos Ação Democrática (AD) e Comitê de
Organização Política Eleitoral Independente (COPEI), dando origem ao celebrado e pouco
inclusivo sistema bipartidário venezuelano

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Apresentação 16

sistemática recebida pelas quedas presidenciais nos debates acerca da


qualidade da democracia e da instabilidade nos sistemas presidenciais. Já
Marsteintredet (2009) salienta que as diferenças entre os casos de
interrupção de mandatos presidenciais na América Latina foram pouco
exploradas pela literatura – que, ao tratar todos os casos de interrupção da
mesma maneira, não explica corretamente as causas e efeitos do referido
fenômeno2.

Segundo Hochstetler (2007), dos 40 presidentes eleitos na região


entre 1970 e 2003, 16 (40%) enfrentaram contestações à sua permanência
no cargo e nove (23%) tiveram seus mandatos “fixos” encerrados
prematuramente. Assim, os presidentes da região, ainda que eleitos, não
podem pressupor que terão o exercício de um mandato fixo e determinado.
Do mesmo modo, a autora sugere que as eleições presidenciais diretas na
América do Sul não dão aos presidentes legitimidade consistente que dure
todo o período de seu mandato constitucional.

A própria literatura especializada da Ciência Política também


passou por várias fases no estudo do tema. O pessimismo de autores como
Linz (1990), Valenzuela (1993) e Mainwaring (1993), entre outros – para os
quais a configuração do presidencialismo na região geraria inevitavelmente
crises de governabilidade –, foi suplantado pela geração posterior de
Chasquetti (2001), Cheibub (2002), Negretto (2003) e Badillo (2007) – que,
por sua vez, acreditavam que governos minoritários não redundariam
necessariamente em crises políticas e de governabilidade, uma vez que os
presidentes seriam capazes de formar coalizões majoritárias com uma taxa
de insucesso relativamente baixa e aceitável.

De acordo com Marsteintredet (2008, 2009), as quedas


presidenciais foram relacionadas, nos últimos anos, a escândalos de
2
Cheibub (2006) afirma a necessidade de pesquisas que demonstrem que o
presidencialismo não gera necessariamente instabilidade democrática e que se inicie a
busca por outros fatores institucionais que nos levem a entender como esses regimes
funcionam contemporaneamente, substituindo as análises apoiadas apenas pelos princípios
constitucionais do regime.

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Apresentação 17

corrupção (Pérez-Liñán, 2008), a apelo das ruas (mais do que desafios


institucionais – Hochstetler, 2007), à força presidencial no Congresso (Kim
e Bahry 2008) e à incapacidade de controle do mediano do Congresso
(Negretto, 2006). Refletindo sobre os mesmos acontecimentos, Pérez-Liñán
(2008) lista um vasto repertório de termos e autores que trazem explicações
pouco divergentes sobre a queda de presidentes na América Latina:
instabilidade presidencial (Ollier, 2008), quedas presidenciais (Hochstetler,
2007), fracassos presidenciais (Edwards), remoção do presidente (Pérez-
Liñán, 2007) ou presidências interrompidas (Kim e Bahry, 2008; Negretto,
2006; Valenzuela, 2004).

Em trabalho recente (Coelho, 2013), propus uma análise do


fenômeno da instabilidade política e presidencial lançando mão de duas das
vertentes mais clássicas do estudo do tema: 1) a ação da sociedade civil e
dos movimentos sociais, 2) a explicação institucional. Um dos principais
argumentos seria o de que nenhuma das duas dimensões possui um caráter
predominantemente explicativo sobre a outra, mas que seria exatamente a
interação de ambas que aumentaria o poder elucidativo da análise do
surgimento das crises presidenciais, do seu desenvolvimento e,
principalmente, da previsão de possíveis resultados. A queda dos governos
geralmente envolveria uma “interação dialética” entre o povo e as
instituições, nas quais os protestos das ruas adquiriram um papel
determinante. Assim, o pior cenário para um mandatário seria o de
manifestações nas ruas pedindo sua saída do poder ao mesmo tempo em que
conflitos institucionais estivessem acontecendo. Se o clamor das ruas
consegue efetivamente chegar até o Legislativo (e o presidente passa a ter
dificuldades para controlar seu apoio majoritário no Congresso), a chance de
uma queda é muito grande.

Dessa forma, o padrão de destituição de mandatários mais usual


das três últimas décadas ocorreria principalmente em razão dos conflitos
entre o chefe do Executivo e os demais poderes do país (principalmente o

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Apresentação 18

Legislativo), em um contexto de forte pressão das ruas pela saída dos


presidentes – geralmente identificados pela maioria da população como os
principais culpados pelas crises políticas e econômicas, dentro das normas
constitucionais vigentes (Coelho, 2017, p. 15).

Se tentarmos estabelecer um tipo ideal de queda presidencial nos


anos 1990, podemos dizer que – na grande maioria dos casos em que um
mandatário não chegou ao fim de seu mandato constitucional – ele assumiu
uma campanha eleitoral na centro-esquerda; mas, uma vez no poder,
governou na direção da centro-direita. Assim, o emprego da policy switch
(estelionato eleitoral) por presidentes legitimamente eleitos contrariou os
anseios populares e o exercício do respectivo accountability vertical. As
aspirações do eleitorado, traduzidas no voto em propostas de mudança, nem
sempre tiveram correspondência na arena política real.

Todavia, se considerarmos a possibilidade do accountability


vertical ser relacionado não somente ao sufrágio, mas a qualquer
manifestação popular de controle dos atos dos governantes, veremos que as
mobilizações populares contrárias aos presidentes que efetuaram o
estelionato eleitoral, por meio da ação da sociedade civil e dos movimentos
sociais, fiscalizaram e puniram os mandatários que não corresponderam às
suas expectativas. Logo, a atuação da sociedade civil e dos movimentos
sociais refinou ainda mais o conceito de O´Donnel (1998), indo além da
participação na arena eleitoral a cada quatro ou cinco anos. Tais atores,
portanto, exerceram seu poder de fiscalização e decisão nos momentos que
julgaram necessário, tornando-se um dos principais artífices das quedas
presidenciais.

No entanto, cabe ressaltar que a policy switch não resulta


necessariamente em crise política e derrocada da coalizão, como parece ser
o caso de alguns países na América do Sul – até porque o fenômeno do
chamado estelionato eleitoral não pode ser considerado exclusivo da região.
Devemos levar em consideração, ainda, que o chamado “estelionato

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Apresentação 19

eleitoral” na América Latina teria diminuído consideravelmente a partir dos


anos 2000. Os novos presidentes eleitos pareciam ter aprendido com as
experiências desastrosas do passado, ou efetivamente modificaram o teor de
suas ações em uma guinada de centro-esquerda; de modo que, em sua
atuação política e econômica, procuraram adotar trajetórias mais lineares
(Panizza, 2006; Silva, 2011).

Nesse contexto, os três casos mais recentes de instabilidade


presidencial na América Latina devem ser percebidos como inspiradores
para a deposição de Dilma Rousseff no Brasil, em 2016 (Coelho, 2017,
p.13). Dessa forma – seguido da expulsão de um presidente vestindo
pijamas (deposição de Manuel Zelaya – Honduras, 2009); da trajetória
vitoriosa de Rafael Correa sobre a instabilidade crônica equatoriana e o
malfadado golpe policial de 2010 e, ainda, do “juízo político Express”
(derrubada de Fernando Lugo – Paraguai, 2012) – o “golpe cívico-militar”
deve ser encarado como uma estratégia de golpes ilegais contra os
mandatários identificados com ideologias de esquerda, consistindo em um
novo modelo possível da ação política das elites conservadoras e
antidemocráticas na região.

Uma possível explicação para essa nova estratégia seria a


percepção e posterior aprendizagem (pelas elites conservadoras) de que o
sistema político dos países latino-americanos, no decorrer das últimas
décadas, depois de longos períodos conturbados geralmente voltava ao
equilíbrio somente após a queda dos mandatários (Coelho, 2017, p. 47) –
como foi presenciado nos anos 1990 e início dos 2000, quando presidentes
de centro-direita foram retirados do poder. Contudo, após uma relativa
estabilização política inscrita em um momento em que a América Latina
vivia o boom eleitoral de governos progressistas (Soares de Lima, 2008) –
ou da chamada marea rosa (Panizza, 2006) –, as elites conservadoras da
região passaram a atuar de maneira objetiva para retirar os presidentes
identificados com valores de esquerda. No entanto, conscientes de que não

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Apresentação 20

poderiam contar com o apoio popular para isso, elas se uniram a setores
oposicionistas dos respectivos Congressos, das Cortes Supremas e das
Forças Armadas para efetivar suas ações, realizadas de forma
extraconstitucional.

Os recentes episódios de instabilidade política e presidencial, em


boa parte dos países da América Latina, e suas consequências para os
cidadãos e para a região como um todo indicam, portanto, a importância da
publicação do dossiê “Os significados das novas quedas presidenciais na
América Latina: instabilidade dos governos ou dos regimes?”;
possibilitando uma reflexão acurada sobre conceitos como crise política,
estabilidade presidencial, governabilidade e, principalmente, sobre o estado
da democracia na região. A ocorrência de seguidas crises políticas e
econômicas, das quedas do Executivo, das diferentes respostas do sistema
político e da atuação da sociedade civil organizada junto aos movimentos
sociais nos leva à necessidade de um aprofundamento teórico sobre os graus
de liberdade de ação dos mandatários dos países em questão.

O dossiê está divido em dois momentos. Os primeiros artigos


possuem um caráter mais teórico e geral, estabelecendo – por meio de
abordagens comparativas – reflexões que discutem, por exemplo, temas
como: a possibilidade de uma crescente “parlamentarização” do
presidencialismo latino-americano; a emergência de um novo conceito para
explicar as quedas presidenciais mais recentes – o “neogolpismo”; o fato de
que estaríamos presenciando um momento de “regressão democrática na
América Latina” e o possível ocaso do ciclo político progressista recente
(que estaria sendo substituído por um novo ciclo político neoliberal e
autoritário); a relação entre aprovação presidencial e desempenho da
economia e, finalmente, um artigo de abordagem marxista que debate
hegemonia, fração de classe e financeirização do capital na América Latina.

A segunda parte é dedicada a textos que elaboram cuidadosos


estudos de caso, sendo a maioria deles sobre o processo de destituição de

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Apresentação 21

Dilma Rousseff da presidência do Brasil, em 2016. A seguir, destaco de


forma resumida os principais temas debatidos nessa seção: o componente
jurídico do golpe de 2016 no Brasil; a aplicabilidade do modelo de Perez-
Liñan ao impeachment de Dilma Rousseff; a disputa simbólica entre
impeachment versus golpe na mídia internacional e, finalmente, uma análise
dos processos paraguaios de destituição presidencial após 1990.

O primeiro artigo do dossiê conta com a valiosa contribuição do


cientista político norueguês Leiv Marsteintredet (University of Bergen) –
uma das principais referências mundiais sobre o estudo das crises políticas e
presidenciais –, que, em parceria com Yuri Kasahara (Norwegian Institute
for Urban and Regional Research), escreve o artigo Presidencialismo em
crise ou parlamentarismo por outros meios? Impeachments presidenciais
no Brasil e na América Latina. Os autores buscam contextualizar o
impeachment de Rousseff na literatura mais ampla sobre interrupções de
mandatos presidenciais na América Latina, argumentando que os sistemas
presidencialistas latino-americanos têm encontrado vias institucionais para
lidar com crises entre os poderes Executivo e Legislativo, ainda que tais
soluções não sejam despidas de controvérsias.

Levando em consideração um contexto em que as quedas


presidenciais são motivadas pela ação do Legislativo (na maior parte dos
casos), Marsteintredet e Kasahara propõem a introdução de alguns
mecanismos institucionais em regimes presidencialistas, com o objetivo de
facilitar a resolução de impasses político-institucionais. Suas duas principais
propostas são polêmicas, mas instigantes. A primeira sugere a possibilidade
de destituição do presidente por motivações exclusivamente políticas, tal
qual um voto de desconfiança no parlamentarismo3, mas com um desenho

3
Uma das principais diferenças entre parlamentarismo e presidencialismo consiste na
inexistência, no presidencialismo, do chamado voto de desconfiança do Parlamento ao
chefe do Executivo. O voto de desconfiança aconteceria nos sistemas parlamentaristas, em
momentos de crise e paralisia decisória, consistindo em uma votação na qual o controle da
coalizão de governo pelo Primeiro Ministro é questionado. Se, após a referida votação, a
maior parte dos legisladores votar contra o presidente, o mesmo é destituído do poder. Seria

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Apresentação 22

institucional que busque aumentar os custos para tal, contando com a


manutenção do quórum de 2/3 dos membros do Legislativo para sua
aprovação combinada com a inclusão de uma cláusula de dissolução
simultânea do Congresso. A segunda faz referência à ordem sucessória em
casos de afastamento presidencial: os autores afirmam que, quando
presidentes são removidos por motivações políticas, vice-presidentes não
deveriam estar aptos a assumirem o poder, uma vez que a ascensão de um
vice-presidente não traria necessariamente uma resolução ao conflito
existente. Assim, tanto o presidente como o vice deveriam ser afastados
simultaneamente.

Leonardo Valente, em “os neogolpes e as interrupções de mandatos


presidenciais na América Latina: os casos de Honduras, Paraguai e Brasil”,
propõe a adoção de um novo conceito para explicar as quedas presidenciais
mais recentes na América Latina: o “neogolpismo”. Valente busca
caracterizar conceitualmente as deposições dos presidentes do Brasil (Dilma
Rousseff), do Paraguai (Fernando Lugo) e de Honduras (Manuel Zelaya)
como “neogolpes”, mostrando que tal prática teria se tornado um novo
modus operandi regional, substituindo os golpes clássicos dos anos 1960 e
1970. Essa nova estratégia teria o objetivo de derrubar governos
progressistas e restaurar forças políticas conservadoras por vias não
eleitorais no comando dos Poderes Executivos desses países. O autor
diferencia ainda o que chama de “golpes clássicos de Estado” e os
“neogolpes”, delimitando as características de cada um e identificando suas
áreas de intersecção.

O artigo de Josué Medeiros, Regressão democrática na América


Latina: do ciclo político progressista ao ciclo político neoliberal e

uma espécie de destituição por desempenho no meio do mandato, algo que não é previsto
no presidencialismo, uma vez que a principal diferença do presidencialismo para o
parlamentarismo são os mandatos fixos dos presidentes em relação aos mandatos flexíveis
dos primeiros-ministros. Assim, os defensores do sistema parlamentarista argumentam que
o voto de desconfiança é um dos seus principais trunfos, por permitir a destituição legal de
um mandatário que perdeu seu caráter majoritário.

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Apresentação 23

autoritário, dialoga diretamente com as reflexões de Leonardo Valente.


Josué Medeiros apresenta o quadro político contemporâneo da América
Latina a partir da noção de ciclo político – afirmando que, desde 2015,
estaríamos presenciando o ocaso do ciclo progressista que marcou a região
desde o fim do século XX, que estaria sendo substituído por um novo ciclo
político neoliberal e autoritário. Os mesmos casos debatidos no artigo de
Leonardo Valente são analisados por Medeiros (Honduras, 2009; Paraguai,
2012 e Brasil 2016), acrescidos ainda do que o autor denominou de “um
processo político mais amplo de avanço do neoliberalismo e das forças
oligárquicas”: a vitória de Macri na Argentina, em 2015; a derrota de Evo
Morales no plebiscito sobre uma nova reeleição, em 2016, e a grave crise
política em curso na Venezuela de Nicolás Maduro. Com o objetivo de
clarificar e complexificar seus argumentos, Medeiros caracteriza o que seria
um ciclo político para, em seguida, aprofundar as caraterísticas do novo
ciclo político, em um contexto de “redução do alcance da democracia
representativa”, nos termos que alguns autores (Wanderley Guilherme dos
Santos, Luís Felipe Miguel, José Maurício Domingues) estão apresentando
para o Brasil.

O artigo Aprovação presidencial (1996-2015) na América Latina:


mais participação pode ser uma saída quando a economia vai mal?,de
Daiane Menezes, mostra-nos como a aprovação presidencial pode variar
com o uso de mecanismos de democracia direta e de acordo com distintos
eventos políticos. A autora utiliza dados da Corporação Latinobarómetro
que englobam pesquisas de opinião realizadas anualmente, em 16 países,
entre 1996 e 2015 – analisadas por meio de modelos multiníveis. Os
resultados da pesquisa indicam que “entre as variáveis micro, a percepção
da situação econômica corrente do país é a mais importante; ao passo que,
entre as de nível macro – eleições, referendos e plebiscitos facultativos,
assim como eventos políticos positivos –, são as que mais influenciam a
aprovação do chefe do Executivo”. Dessa maneira, Menezes nos traz uma

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.14-27, mar./jun., 2018


Apresentação 24

importante contribuição para o entendimento de quais variáveis afetariam a


popularidade dos presidentes na região de forma mais relevante, ajudando
tanto mandatários quanto cidadãos na avaliação dos atos realizados pelos
chefes do Executivo.

O último artigo da primeira parte do dossiê, escrito por Mayra


Goulart da Silva em parceria com Beatriz Soares Lourenço e Júlio César
Pereira de Carvalho, tem título Hegemonia, fração de classe e
financeirização do capital: Elementos para uma abordagem marxista e
sistêmica sobre a crise política brasileira. Nas palavras dos autores, “o
objetivo do artigo é oferecer um enquadramento analítico para a
compreensão dos fenômenos que levaram à interrupção do governo do
Partido dos Trabalhadores (2003-2016), considerando a conjuntura de
dissolução da era Bretton Woods e o subsequente processo de
financeirização do capitalismo global”. Para a pesquisa, são utilizadas
variáveis endógenas e exógenas que analisam não só o caso brasileiro, mas
também o contexto regional e global. Dessa forma, observam que tais
variáveis atuaram na ascensão e no refluxo de lideranças progressistas na
América Latina, possibilitando – em um primeiro momento – a realização
de projetos de crescimento e de distribuição até seu limite, quando tais
dinâmicas passam a apresentar ameaças à rentabilidade dos investimentos
financeiros.

A hipótese estruturada no referido trabalho parte do pressuposto de


que a derrocada do governo Dilma está associada à prevalência do capital
financeiro sobre o produtivo, ainda que os atores sociais que atuam nessas
duas esferas muitas vezes sejam os mesmos. A partir dessa perspectiva,
sustentam que o “esfacelamento da base aliada” de Rousseff possui relação
com a prevalência de uma lógica rentista sobre uma lógica produtiva de
acumulação capitalista.

Em Os juristas políticos e suas convicções: para uma anatomia do


componente jurídico do golpe de 2016 no Brasil, Jorge Chaloub e Pedro

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.14-27, mar./jun., 2018


Apresentação 25

Luiz Lima investigam o protagonismo contemporâneo da figura do jurista


político no Brasil, tendo como ponto de partida a nova feição do Judiciário
após 1988. Assim, desenvolvem importantes reflexões sobre as relações
históricas entre os juristas, o Judiciário e a política no Brasil. Para tal,
utilizam o método da análise de discurso “tendo como objeto a atuação na
esfera pública de dois dos mais relevantes personagens desse tipo: o
ministro do Supremo Tribunal Federal, Luís Roberto Barroso, e o juiz
Sérgio Moro”.

Mesmo considerando as diferenças no modo de atuação de ambos,


Chaloub e Luiz Lima defendem a hipótese de que eles convergem em
determinadas percepções, que acabaram determinando a “formação do
contexto ideológico do golpe de 2016” – como, por exemplo, na legitimação
das instâncias judiciais sobre a política e sobre a sociedade, o que acabaria
deslegitimando as instâncias políticas sob o discurso de combate à
corrupção. Jorge Chaloub e Pedro Luiz Lima terminam seu texto afirmando
que foram numerosos “os protagonistas do mundo jurídico que atuaram no
sentido de ora conferir uma chancela sobranceira ao desenrolar dos
acontecimentos, ora insuflar diretamente as disputas políticas para que elas
corressem em uma determinada direção”.

Gabriel Gutiérrez Mendes realiza o esforço de testar o trabalho de


um dos mais influentes cientistas políticos contemporâneos em O
impeachment de Dilma Rousseff e a instabilidade política na América
Latina: a aplicabilidade do modelo de Pérez-Liñán. O cientista político
argentino Aníbal Pérez-Liñán, atualmente professor da Universidade de
Pittsburgh, é autor de um dos livros mais influentes no estudo das crises
políticas e quedas presidenciais na América Latina, justamente a obra
utilizada como referência na análise de Gutiérrez Mendes. Como o livro
Presidential impeachment and the new political instability in Latin America
foi originalmente publicado em 2007, Gabriel Gutiérrez Mendes busca
verificar, em seu trabalho, em que medida os traços característicos do

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.14-27, mar./jun., 2018


Apresentação 26

modelo de Pérez-Liñán podem ser encontrados na destituição de Dilma


Rousseff, em 2016. Dentre os eixos explicativos do modelo estariam o
momento de crise econômica, a presença massiva do escândalo político na
mídia corporativa, a indignação popular com o tema da corrupção e a
relação conflituosa entre o Poder Legislativo e o Executivo.

O último texto do dossiê dedicado à queda de Dilma Rousseff é


redigido por Monalisa Soares Lopes e Grazielle Albuquerque, com o título
O nome das coisas: a disputa simbólica impeachment versus golpe na mídia
internacional. As autoras avaliam a pauta da destituição de Dilma Rousseff
em 2016 na imprensa internacional como estratégia de denúncia e disputa
simbólica e – por meio de uma análise focada na comunicação –
reconstroem o “movimento usado pelo Executivo para romper a espiral do
silêncio presente na imprensa nacional”. Soares Lopes e Albuquerque
realizam uma análise de conjuntura dos eventos que antecederam a abertura
do processo de impeachment, bem como o posterior acirramento discursivo
em torno do impeachment/golpe. Nesse contexto, mostram como muitas
vezes Rousseff utilizou alguns veículos de mídia estrangeira como estratégia
de produção de uma contranarrativa ao enredo estruturado pela mídia
nacional.

Gustavo Silva Mattos nos brinda com o único estudo de caso que
não tem como principal referência o caso brasileiro. Em Da instabilidade
política ao mau desempenho constitucional: uma análise dos processos de
destituição presidencial paraguaios após 1990, são analisados os vários
casos de instabilidade presidencial ocorridos no país nas últimas três
décadas, com especial atenção para a destituição de Fernando Lugo, em
2012. Por meio de uma abordagem comparativa, o caso de Lugo é tomado
como base para a análise dos demais eventos de crises presidenciais
anteriores. O principal achado da pesquisa, de acordo com o autor, reside no
fato de que o processo instaurado contra Fernando Lugo “apresenta
características similares com outras tentativas de deposição no país, mas a

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.14-27, mar./jun., 2018


Apresentação 27

ausência de ‘crime de responsabilidade’ e a falta de apoio internacional


apontam novas formas de resolução do conflito de poderes que ferem as
regras do jogo democrático”.

Finalmente, esperamos que a leitura possa ser proveitosa e que


inspire muitas outras análises e reflexões sobre o estado da democracia na
América Latina.

André Luiz Coelho


organizador

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.14-27, mar./jun., 2018


// DOSSIÊ
Os significados das novas quedas presidenciais na América Latina:
instabilidade dos governos ou dos regimes?
Presidencialismo em crise ou
parlamentarismo por outros meios?
Impeachments presidenciais no Brasil e
na América Latina

Yuri Kasahara
Oslo Metropolitan University (NOR)

Leiv Marsteintredet
University of Bergen (NOR)

Introdução

Observando a trajetória da recente crise política brasileira – que


culminou com a perda de mandato da presidente Dilma Rousseff, em agosto
de 2016 – é impossível não retornarmos ao clássico debate sobre os
“perigos” do presidencialismo. Elencadas por Juan Linz, em 1990, o sistema
presidencialista apresentaria sérias limitações estruturais, em comparação
com o sistema parlamentarista, para lidar com impasses políticos entre os
poderes Executivo e Legislativo. Devido ao fato de os poderes Executivo e
Legislativo terem, ambos, legitimidade eleitoral e mandatos independentes,

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.30-54, mar./jun., 2018


Presidencialismo em crise ou parlamentarismo por outros meios? 31

conflitos entre os dois poderes frequentemente levariam a impasses que


mais facilmente se desdobrariam em ruptura das regras democráticas (Linz,
1990). Sem a possibilidade de remover presidentes por meio de um “voto de
desconfiança”, ou convocar novas eleições para a formação de uma nova
legislatura (e eleição de um novo presidente), atores políticos tenderiam a
buscar soluções “extraconstitucionais” em casos de graves crises políticas.
No caso de países latino-americanos, repetidos episódios de golpes
militares, ao longo de períodos democráticos da região, ilustrariam de forma
trágica esse argumento.

Contrariando essa lógica, rupturas democráticas não têm sido mais


episódios recorrentes na América Latina durante as últimas décadas. Desde
a onda de redemocratização da região, iniciada nos anos 1980, somente dois
presidentes foram removidos inconstitucionalmente de seus cargos por
forças militares: o presidente equatoriano Jamil Mahuad, em 2000, e o
hondurenho Manuel Zelaya, em 20091. Isso não significa, porém, que a
interrupção de mandatos presidenciais tenha se tornado menos frequente na
região. Excluindo a recente cassação de mandato de Dilma Rousseff, como
a tabela 1 mostra, tivemos 16 presidentes em países latino-americanos cujos
mandatos foram interrompidos desde 1985.

Se, por um lado, esse número mostra uma recorrente instabilidade


de presidentes na região; por outro, ela demonstra certa capacidade dos
sistemas presidencialistas em solucionar conflitos políticos internos sem
fazer uso de uma traumática ruptura constitucional. Enquanto a renúncia
presidencial ainda é o meio mais comum para apaziguar graves crises
políticas em países latino-americanos, o afastamento presidencial pelo
legislativo (popularmente conhecido como impeachment) tem sido um
mecanismo utilizado de forma mais frequente em tempos recentes. Em
2012, o presidente paraguaio, Fernando Lugo, foi afastado e cassado com

1
Felizmente, essas interrupções não resultaram em regimes ditatoriais, visto que eleições
foram rapidamente retomadas.

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.30-54, mar./jun., 2018


Presidencialismo em crise ou parlamentarismo por outros meios? 32

base em acusações de governar de modo “impróprio, negligente e


irresponsável”. O presidente guatemalteco, Otto Pérez Molina, teve sua
imunidade removida em 2015 por acusações de envolvimento direto em
corrupção; enquanto a presidente brasileira Dilma Rousseff foi afastada, em
2016, com base em descumprimento de leis fiscais e orçamentárias. No
contexto brasileiro, o impeachment presidencial não é inédito. Em 1992, o
primeiro presidente eleito desde o retorno à democracia, Fernando Collor de
Mello, foi afastado por corrupção e teve seu mandato cassado pelo
Legislativo.

Tabela 1: Mandatos presidenciais interrompidos desde 1985

Via institucional Decisão unilateral Via ação militar


do presidente
Impeachment Incapacidade/ Renúncia Renúncia e Golpe
abandono de eleições
cargo antecipadas

Collor, 1992 Bucaram, 1997; Alfonsín 1989; Siles Zuazo, 1985 Mahuad,
Brasil; Pérez, Gutiérrez 2005, de la Rúa, 2001 Bolivia; Balaguer, Equador 2000;
1993 Venezuela; Equador Argentina; Rep. Dom. 1996 Zelaya,
Cubas, 1999; Serrano, 1993 Honduras 2009
Lugo 2012, Guatemala;
Paraguai; Pérez Fujimori 2000
Molina 20152, Peru; Sánchez
Guatemala; de Lozada,
Rousseff, Brasil 2003, Mesa,
2016; 2005 Bolivia.

Fonte: Marsteintredet, Llanos e Nolte, 2013.

2
Oficialmente, o presidente guatemalteco Pérez-Molina renunciou após o Congresso ter
removido sua imunidade contra processos judiciais.

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.30-54, mar./jun., 2018


Presidencialismo em crise ou parlamentarismo por outros meios? 33

Na perspectiva crítica de Linz, renúncias são, em última instância,


atos discricionários de presidentes; são o resultado de uma decisão
individual e não de mecanismos institucionais. Desse modo, casos de
renúncia não deveriam ser vistos como soluções naturais para crises
políticas. Um impeachment presidencial (e eventual cassação de mandato),
por outro lado, representaria o uso de prerrogativas institucionais
normalmente concedidas ao legislativo para a remoção de presidentes.
Apesar de ser concebido como um instrumento para a remoção de
presidentes que atentassem diretamente contra a ordem constitucional (e,
por isso, um recurso de última instância), alguns casos recentes de
impeachment mostram sua utilização como instrumento de facto de solução
de conflitos entre Executivo e Legislativo. Em outras palavras, um uso que
o aproxima de um voto de desconfiança, típico de regimes parlamentaristas.

Em termos formais, o impeachment presidencial apresenta, no


entanto, custos mais significativos do que um voto de desconfiança em
sistemas parlamentares. O requisito frequente de que um presidente tenha
cometido um crime ou delito considerado grave durante o exercício de seu
mandato e a necessidade de quóruns qualificados, no Legislativo, para sua
aprovação fazem do impeachment um mecanismo extremo de solução de
conflitos políticos. Apesar de seu alto custo, o recente caso brasileiro
revela, sobretudo, um uso do impeachment como meio para destituir chefes
do Executivo com graves problemas de relacionamento com o Legislativo.
Contrariando o argumento de Linz, o presidencialismo teria suas válvulas de
escape de facto. O acirramento do conflito entre presidente e Congresso não
levaria necessariamente a um impasse e à ruptura democrática, mas sim à
consolidação de uma maioria legislativa qualificada, capaz de afastar um
presidente. O presidencialismo, dessa forma, parece não ser um sistema tão
rígido quanto Linz argumentava.

Diante desse contexto e tomando como principal referência


empírica o recente caso brasileiro, este ensaio tem três objetivos: o primeiro,

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.30-54, mar./jun., 2018


Presidencialismo em crise ou parlamentarismo por outros meios? 34

discutir como sistemas presidencialistas, na prática, possibilitam a remoção


do Executivo em moldes similares a um “voto de desconfiança” no sistema
parlamentar; o segundo, analisar as condições que levam legislativos a se
valer do impeachment para afastar presidentes do cargo; por último,
argumentar que, apesar de ser uma alternativa constitucional para a solução
de crises políticas no presidencialismo, o recurso ao impeachment importa
custos elevados e gera controvérsias que frequentemente colocam a
legitimidade de seu uso em xeque. Afastar presidentes pode ser um recurso
legal-constitucional utilizado parar solucionar crises, porém nem sempre
considerado legítimo ou consensual. Com isso, concluímos apresentando
algumas propostas de alteração no desenho institucional do
presidencialismo que facilitariam a resolução de conflitos entre os poderes
Executivo e Legislativo.

Variedades de Presidencialismo e Impeachment

Uma das críticas mais contundentes ao dualismo proposto por Linz


é justamente sua concepção de presidencialismo como um tipo ideal cuja
validade é limitada quando contrastada com a institucionalização concreta
desses tipos de governo. Apesar de a origem do poder Executivo ser uma
característica distintiva entre os sistemas presidencialista e parlamentarista,
há outras características normalmente atribuídas a um dos dois sistemas que
não são corroboradas pela realidade. Enquanto diversas análises tomam
como referência para o presidencialismo o modelo norte-americano,
institucionalizado ao longo do século XIX, sistemas presidenciais ao redor
do mundo apresentam importantes particularidades institucionais que
amenizam (ou aumentam) os potenciais conflitos identificados por Linz.

Segundo autores como Shugart e Carey (1992) e Mainwaring


(1993), ao ignorar essa diversidade, a tipologia de Linz subestimaria a
capacidade de regimes específicos resolverem crises sem rupturas
constitucionais. Em relação a particularidades institucionais que

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.30-54, mar./jun., 2018


Presidencialismo em crise ou parlamentarismo por outros meios? 35

aumentariam o risco de impasses, é importante destacar que esses autores


enfatizam o nível de fragmentação do sistema partidário. Quanto maior a
fragmentação, maior seria o risco de presidentes com apoio legislativo
minoritário enfrentarem a oposição de maiorias congressuais e,
consequentemente, as situações de imobilidade decisória. Todavia, os
mesmos autores sustentam que particularidades institucionais poderiam
contornar esses problemas. Shugart e Carey, por exemplo, argumentam que
impasses poderiam ser resolvidos em situações com presidentes fortes,
capazes de se sobrepor a maiorias legislativas beligerantes; ou em situações
nas quais presidentes fracos convivessem com partidos fortes capazes de
manter uma coalizão legislativa que garantisse a governabilidade.

Recentemente, Cheibub, Elkins e Ginsburg (2012) retomam essas


críticas a Linz com base na identificação de vertentes regionais de
presidencialismo. Apesar de inspirado no recém-nascido presidencialismo
norte-americano, sistemas presidencialistas latino-americanos teriam
desenvolvido, desde o século XIX, características próprias. Ao contrário do
modelo norte-americano, no qual o Executivo tem relativamente poucos
poderes legislativos formais, a vertente latino-americana seria caracterizada
atualmente por conceder maiores prerrogativas legislativas ao Executivo.
Nas últimas décadas, praticamente todos os presidentes latino-americanos
passaram a contar (em graus variados) com poderes de decreto,
possibilidade de iniciar processos legislativos (em alguns casos, de modo
exclusivo) e amplos poderes emergenciais. Além disso, quatro das vinte
constituições vigentes na América Latina, desde 1979, possibilitam que o
Executivo dissolva o Legislativo e convoque novas eleições. Ironicamente,
todas essas são características normalmente atribuídas ao poder Executivo
em sistemas parlamentaristas (Ibid., p.81).

Essas ressalvas vão justamente ao encontro do presidencialismo de


coalizão consolidado no Brasil desde o fim da ditadura militar (Abranches,
1988). A combinação potencialmente perigosa entre presidencialismo e um

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.30-54, mar./jun., 2018


Presidencialismo em crise ou parlamentarismo por outros meios? 36

sistema partidário altamente fragmentado seria compensada por um


Executivo com consideráveis poderes legislativos capazes de aumentar a
capacidade de coordenação do processo legislativo. Dessa forma, no caso
brasileiro, a possibilidade de editar medidas provisórias3, requerer pedidos
de urgência para acelerar projetos de lei de seu interesse e a possibilidade de
vetos parciais seriam características típicas desse fortalecimento do
Executivo. Somando-se à capacidade de controlar o ritmo de execução
orçamentária, presidentes brasileiros têm desse modo alto poder de agenda e
barganha em relação ao Legislativo e seriam capazes de construir maiorias
legislativas, apesar da alta fragmentação partidária (Figueiredo e Limongi,
1999).

Servindo como contraponto a esse fortalecimento do Executivo, o


poder Legislativo nesses países também mantém importantes prerrogativas
de fiscalização e de controle. Como Cheibub, Elkins e Ginsburg (2012)
elencam, ao tradicional poder de derrubar vetos presidenciais, incluem-se:
capacidade de criar comissões de investigação, pedir esclarecimento público
a ministros, acompanhar e aprovar a execução orçamentária e, em muitos
casos, possibilidade de destituir ministros à revelia do presidente.

No contexto latino-americano recente, a consolidação desse tipo de


presidencialismo foi acompanhada por uma drástica redução de golpes
militares e rupturas constitucionais. Apesar da aparente estabilidade e do
senso comum de que presidentes latino-americanos são institucionalmente
fortes, o fenômeno de presidentes que não conseguem terminar seus
mandatos, porém, tornou-se mais frequente e alvo de um intenso debate
acadêmico. Para autores como Valenzuela (2004), a recorrência do
fenômeno na América Latina confirmaria o argumento linziano segundo o
qual a interrupção abrupta de mandatos presidenciais seria a manifestação
contemporânea de rupturas democráticas.
3
Após 2001, medidas provisórias tornaram-se decretos presidenciais com validade de lei e
que devem ser votados de modo compulsório pelo Congresso, sob pena de bloquear a pauta
de votações.

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.30-54, mar./jun., 2018


Presidencialismo em crise ou parlamentarismo por outros meios? 37

Outros autores, no entanto, apresentam argumentos mais otimistas


sobre interrupções presidenciais, ao afirmar que a remoção (voluntária ou
institucional) de um presidente seria um desfecho melhor do que a
perpetuação de um impasse que poderia levar a uma ruptura democrática.
Dessa forma, presidentes cujos mandatos são interrompidos seriam casos
que desafiariam a lógica do argumento linziano, uma vez que a instabilidade
de governos não implicaria necessariamente a instabilidade do regime
presidencialista. Na prática, regimes presidenciais seriam capazes agora de
resolver impasses que anteriormente poderiam levar a interrupções
democráticas (Marsteintredet e Berntzen, 2008). Nessa perspectiva mais
positiva, Hochstetler (2006) enfatiza a ação de mobilizações populares
como um elemento que precede e ajuda a decidir boa parte das interrrupções
presidenciais na região. Nesse sentido, as ruas – em vez dos militares –
tornam-se o novo “poder moderador”, fiscalizando as ações presidenciais e
servindo como mecanismo de accountability vertical.

Apesar de mobilizações populares serem um fator que, sem dúvida,


contribui para a interrupção de um mandato presidencial (sobretudo para
renúncias), são as legislaturas de todos os países latino-americanos que
detêm a prerrogativa constitucional de remover presidentes4. Formalmente,
os meios mais comuns são o impeachment e, em menor número, várias
formas da chamada declaração de incapacidade e abandono de cargo.
Mesmo sendo mecanismos altamente controversos, como no caso da
presidente Dilma Rousseff, eles podem ser considerados como importantes
recursos para garantir a accountability horizontal do Executivo em relação
ao Legislativo (Autor, 2008). Apesar de estar além do escopo desse ensaio
estabelecer uma análise detalhada desses instrumentos, é importante
destacar como diferentes modos de institucionalização e operacionalização
impõem custos mais ou menos elevados para que Legislativos possam

4
A exceção era Honduras. Porém, após a cassação inconstitucional do mandato do
presidente Manuel Zelaya, o país aprovou recentemente uma legislação específica para
regular o uso do impeachment presidencial.

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Presidencialismo em crise ou parlamentarismo por outros meios? 38

destituir presidentes. Três aspectos formais, em particular, merecem ser


destacados.

Uma primeira distinção importante é a definição das ações (ou


inações) do presidente que podem dar início a um juízo político pelo
Legislativo5. Muitos textos constitucionais não especificam atos que
poderiam levar a um juízo político, permitindo que Legislativos possam
adotar interpretações mais livres sobre o que constituiria um “crime grave”
ou um “desrespeito à Constituição e às leis”. Quanto mais genérica a razão –
como “mau desempenho de seus cargos” descrita no artigo 225 da
Constituição Paraguaia vigente – maior a liberdade de interpretação
concedida a Legislativos; logo, maior a liberdade para acionar esse
instrumento. Essa amplitude conceitual foi claramente usada pelo Congresso
paraguaio para destituir Fernando Lugo da presidência com acusações
controversas sobre mau desempenho do cargo, a partir do caso de um
conflito de terras. No caso brasileiro, as condutas são especificadas na lei
complementar 1.079 de 1950. Em contraste com o caso paraguaio, a
legislação brasileira, além de prever condutas vagas como “quebra de
decoro”, pauta uma lista detalhada de atos presidenciais (ou crimes de
responsabilidade, como denominados na lei) que podem ensejar um
impeachment. No caso do impeachment da presidente Rousseff, esse
detalhamento – especificamente em relação ao cumprimento da lei
orçamentária e de práticas contábeis – foi utilizado para fundamentar a
cassação de seu mandato. Desse modo, listas detalhadas de práticas também
podem facilitar o uso do impeachment pelo Legislativo.

Um segundo aspecto importante a ser considerado é a definição da


instituição responsável pelo juízo político. Em países onde o juízo político é
realizado pela instância judiciária mais elevada, como uma Corte
Constitucional, o processo para cassação de um mandato presidencial

5
Para uma apresentação mais ampla das regras de impeachment na América Latina, ver
Pérez-Liñán (2007, p.140-141).

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Presidencialismo em crise ou parlamentarismo por outros meios? 39

adquire uma dinâmica jurídica em que se espera que o processo seja mais
imparcial. O mais comum na região, porém, é que uma segunda casa
legislativa, como o Senado, seja responsável por realizar o julgamento.
Nesse caso, torna-se praticamente impossível excluir as motivações políticas
que muito provavelmente nortearão esse julgamento. A fim de mitigar essa
dinâmica política, algumas constituições vigentes – como a equatoriana –
requerem a admissibilidade prévia da acusação pela instância judiciária
máxima do país. No caso brasileiro, a constituição de 1988 definiu a
Câmara dos Deputados como instância que acolhe e inicia o juízo político,
autorizando o Senado Federal a agir como instância julgadora.

Um terceiro elemento de fundamental relevância são os quóruns


necessários para a abertura de um processo de impeachment e para a
condenação de um presidente. Na América Latina, há maior diversidade em
relação ao quórum necessário para instaurar um juízo político de um
presidente. Em países como Peru e Chile, basta uma maioria simples dos
membros da Comissão Permanente e da Câmara dos Deputados,
respectivamente, para que a acusação seja oficializada. Em países como
Brasil e Argentina, é necessária uma maioria qualificada de dois terços. Em
relação à condenação, porém, todos os países estabelecem o quórum de dois
terços como requisito. Essa é uma diferença significativa em relação aos
sistemas parlamentaristas, nos quais normalmente um voto de desconfiança
aprovado por maioria simples é suficiente para destituir um governo6.

Mesmo que o impeachment de presidentes seja relativamente pouco


usual como solução para crises políticas na região, é importante considerar
que esse número pode ser baixo devido ao comportamento estratégico de
presidentes. Renúncias não levam a nenhuma punição, além da perda do
mandato. Ao ter o mandato cassado pelo Legislativo, no entanto, presidentes
também sofrem punições de perda de direitos políticos e de impossibilidade

6
O requisito frequente de que o voto de desconfiança seja acompanhado pela proposição de
um novo governo obivamente aumenta os custos dessa ação.

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Presidencialismo em crise ou parlamentarismo por outros meios? 40

de ocupar cargos públicos por diferentes períodos de tempo. Desse modo, a


punição decorrente do impeachment é uma última dimensão a ser
considerada. Principalmente porque algumas renúncias presidenciais podem
ser consideradas reações estratégicas à perda de apoio legislativo e ao
consequente aumento da possibilidade de uma destituição por
impeachment7. Os casos de renúncia do presidente boliviano Sánchez de
Lozada, em 2003, e do presidente argentino De la Rúa, em 2001,
enquadram-se nessa lógica, uma vez que renunciaram devido à ameaça de
impeachment em conjunto com intensos protestos populares8. No caso do
impeachment da presidente Rousseff, a decisão inesperada do Senado
brasileiro de cassar seu mandato, mas não seus direitos políticos, aproxima o
impeachment de um mero voto de desconfiança.

De modo geral, portanto, o impeachment pode ser considerado, na


prática, como um instrumento adicional de controle do Legislativo sobre o
Executivo. Sobretudo quando o Legislativo detém exclusivamente o poder
decisório sobre a condenação e quando presidentes passam a ter um apoio
parlamentar bastante reduzido. A partir dessas condições, um Legislativo
majoritariamente opositor pode mais facilmente utilizar o juízo político nos
moldes de um voto de desconfiança parlamentar a fim de interromper o
mandato de um presidente.

O impeachment e suas motivações

Apesar da possibilidade de Legislativos usarem o impeachment


como um instrumento para a remoção de presidentes, sua aplicação não é
trivial, mesmo em contextos de elevado conflito entre o Executivo e
Legislativo. Além da necessidade de um quórum elevado de 2/3 dos
membros do Legislativo para sua aprovação e de alguma ação presidencial
7
O presidente Fernando Collor de Mello, por exemplo, formalmente renunciou ao cargo
logo antes de seu julgamento pelo Senado brasileiro. Todavia, o Senado brasileiro decidiu
continuar com seu julgamento e o condenou à perda de seus direitos políticos por oito anos.
8
No caso argentino, a constituição vigente prevê a perda perpétua de direitos políticos de
presidentes afastados do cargo.

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.30-54, mar./jun., 2018


Presidencialismo em crise ou parlamentarismo por outros meios? 41

considerada crime ou violação de deveres constitucionais, os aspectos


procedimentais do impeachment o tornam uma prática extremamente
custosa quando comparada com o voto de desconfiança parlamentarista. Em
termos procedimentais, o impeachment apresenta a estrutura de um
julgamento, com espaços para acusação e defesa e regulação do processo
por tribunais constitucionais9. O aspecto controverso do impeachment como
instrumento para a remoção de presidentes reside no fato de que, a despeito
de sua forma jurídica, o julgamento de presidentes é feito por membros do
legislativo e não por juízes profissionais, tornando o processo
invariavelmente político10.

Como os recentes casos paraguaio e brasileiro mostram, a natureza


política do impeachment pode fundamentar processos baseados em
acusações juridicamente controversas e expostas a críticas de casuísmo. Do
mesmo modo, decisões de agentes políticos sobre a responsabilidade
política de um presidente são invariavelmente tomadas com bases em
considerações que extrapolam a análise imparcial das evidências, fatos e
argumentos técnicos. Políticos estão mais preocupados com suas carreiras,
com possibilidades de reeleição, com acesso a cargos e recursos e,
eventualmente, com questões ideológicas do que julgar com imparcialidade.
Além de preocupações políticas estritamente individuais, esses atores
também são influenciados por lideranças partidárias e seus redutos
eleitorais. No caso do afastamento da presidente Dilma Rousseff, um fato
representativo dessa lógica política é a divisão claramente partidária dos

9
A partir de seu formato judicial, espera-se que presidentes também tenham tempo para
preparar suas defesas. Logo, a celeridade exagerada do processo aumenta as controvérsias
em relação a sua adoção. O presidente paraguaio Fernando Lugo, por exemplo, teve
algumas horas para elaborar e apresentar sua defesa antes da votação que levou à cassação
de seu mandato.
10
Como mencionamos acima, Legislativos também podem declarar presidentes incapazes
de exercer suas funções. Originalmente, essa é uma medida pensada para casos em que
presidentes apresentem alguma doença ou condição médica que o impossibilita de ocupar o
cargo. Porém, essa cláusula também pode ser usada como um instrumento político para
remover presidentes, como ocorreu no Equador em 1997. Nesse caso, a maioria do
Legislativo afastou o Presidente Bucaram por insanidade a fim de contornar o requisito de
quórum mais elevado necessário para um impeachment.

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Presidencialismo em crise ou parlamentarismo por outros meios? 42

votos. A presidente Rousseff recebeu o apoio de seu partido, o Partidos dos


Trabalhadores (PT), e de outros partidos historicamente aliados; enquanto a
oposição se uniu a partidos desertores da antiga base governista para
aprovar o impeachment e a posterior cassação de seu mandato11.

Essas considerações políticas produzem claramente resultados que


passam ao largo de um desejável processo imparcial. Por um lado, elas
podem também seguir a direção oposta, permitindo que presidentes
potencialmente “culpados”, do ponto de vista jurídico, sobrevivam a um
impeachment ou simplesmente não cheguem a ser submetidos a um
processo do tipo. Diante de presidentes altamente populares, por exemplo,
congressistas teriam receios de os atacarem e, posteriormente, serem
punidos pelo eleitorado. Por outro, presidentes “inocentes” podem
facilmente ser punidos por razões puramente políticas, em especial se forem
impopulares. Na ausência de apoio popular, congressistas teriam custos
políticos mais baixos para utilizar o impeachment para afastar presidentes
indesejados.

A fim de obter uma melhor visualização do fenômeno, voltemos à


tabela 1. Como podemos ver, a maioria dos casos são de renúncias. Em
praticamente todos eles, as renúncias ocorreram após pressões populares,
provocadas ora por uma combinação de crises políticas com crises
econômicas (como na Argentina em 1989 e 2001); ora por reformas e
políticas impopulares (como na Bolívia em 2003 e 2005); ora por ataques
diretos a instituições democráticas (como no caso do fracassado autogolpe,
promovido em 1993, na Guatemala). Nos casos específicos de
impeachments, apesar de alguns processos serem movidos por razões

11
No caso brasileiro, a dinâmica política do impeachment também pode ser identificada no
fato de que o próprio PT, enquanto parte da oposição, protocolou pedidos de afastamento
de todos os presidentes desde Fernando Collor de Mello. O único caso bem-sucedido foi
justamente o pedido contra Collor de Mello, que já apresentava sérios problemas de
relacionamento com o Congresso antes da eclosão do escândalo de corrupção que levou a
seu afastamento.

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.30-54, mar./jun., 2018


Presidencialismo em crise ou parlamentarismo por outros meios? 43

claramente políticas, a maioria dos presidentes esteve envolvida


pessoalmente em algum escândalo político ou atividade criminosa.

O caso do ex-presidente brasileiro Fernando Collor de Mello não é


só o primeiro caso de impeachment na América Latina, como também é
particularmente representativo dessa dinâmica. O escândalo envolvendo o
recebimento de propinas em troca de contratos governamentais a empresas
privadas serviu como estopim para que uma maioria congressual insatisfeita
com seu estilo isolacionista de governar abrisse um processo de
impeachment com forte apoio popular12. Nessa mesma linha, o ex-
presidente venezuelano, André Pérez, foi afastado pelo Congresso, em 1993,
após revelações de que teria se apropriado de fundos públicos administrados
pelo Executivo. A insatisfação de seu próprio partido com a guinada
neoliberal adotada por Pérez e a baixa popularidade desde o massacre de
Caracazo – promovido em 1989 por policiais e militares sob ordens do
governo – catalisaram o escândalo em um processo de impeachment. Mais
recentemente, o presidente guatemalteco Otto Pérez Molina teve sua
imunidade suspensa pelo Congresso após uma investigação comandada pela
Comissão Internacional contra a Impunidade na Guatemala (CICIG). A
investigação encontrou evidências de que Pérez Molina estava envolvido em
um esquema de pagamento de propinas por importadores em troca de
reduções tarifárias, desencadeando uma onda de protestos populares
decisiva para que deputados o afastassem. Em todos esses casos, escândalos
de corrupção foram o catalisador para que Legislativos cassassem
presidentes com sérios problemas para construir maiorias congressuais,
enfrentassem graves crises econômicas e/ou tivessem níveis extremamente
baixos de popularidade13.

12
Para análises sobre o impeachment do Presidente Collor de Mello, ver Weyland (1993),
Flynn (1993), Figueiredo (2010) e Sallum jr. e Casarões. (2011).
13
Ver Pérez-Liñán (2007) para uma discussão comparativa dos casos de impeachment na
América Latina.

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Presidencialismo em crise ou parlamentarismo por outros meios? 44

Enquanto todos os casos de impeachment mencionados acima


foram percebidos como importantes passos no combate a corrupção – e até
mesmo para o processo de redemocratização de seus respectivos países – o
mesmo não pode ser dito sobre o recente impeachment da presidente Dilma
Rousseff. Chamado de golpe parlamentar por apoiadores da presidente, o
afastamento de Dilma tem sido comparado ao Golpe Militar de 1964 –
sofrido pelo então presidente brasileiro, João Goulart – e apontado como um
episódio de deterioramento da democracia brasileira. Ao contrário do
relativo alto grau de consenso social existente nos casos discutidos
anteriormente, o processo de impeachment da presidente Rousseff tem
dividido a sociedade brasileira, a comunidade acadêmica e jurídica e a mídia
internacional. As diferenças entre Dilma e João Goulart não se deve a
aspectos políticos conjunturais. Nos dois casos, os presidentes eram
impopulares e enfrentavam constantes manifestações públicas pedindo sua
renúncia, mostravam-se incapazes de melhorar suas relações com o
Legislativo e enfrentavam condições econômicas adversas. No caso de
Dilma, uma primeira diferença é o fato de que seu pedido de afastamento
não foi formulado a partir de acusações sobre seu envolvimento direto no
atual escândalo de corrupção, iniciado pela operação Lava-Jato, que vem
abalando os mundos político e empresarial brasileiros. Enquanto diversos
políticos que apoiaram o afastamento de Rousseff estão implicados
diretamente nas investigações promovidas pela Lava-Jato14, Dilma teve seu
pedido de impeachment fundamentado em acusações de manipulação
contábil do orçamento (as “pedaladas fiscais”) e de edição de decretos
fiscais sem autorização prévia do Congresso – atos considerados como
violações à lei de responsabilidade fiscal e à lei orçamentária15. Uma

14
O caso mais expressivo é o do ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha,
responsável por colocar o pedido de impeachment da presidente Dilma em votação. Meses
depois, ele foi afastado do cargo pelo Supremo Tribunal Federal (STF), por interferir nas
investigações da operação Lava-Jato que o implicam de maneira direta. Atualmente,
cumpre prisão preventiva.
15
Entre juristas, há sérias divergências sobre a legitimidade dessas acusações para
fundamentar um processo de impeachment. Apesar dos montantes de recursos envolvidos

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.30-54, mar./jun., 2018


Presidencialismo em crise ou parlamentarismo por outros meios? 45

segunda diferença importante é que a fundamentação pouco usual e


casuística do impeachment alia-se às justificativas da grande maioria dos
congressistas para afastar a presidente. Menos preocupados com os
eventuais crimes de responsabilidade cometidos, o afastamento de Dilma
seria justificado por sua incapacidade de estabelecer maioria congressual e
de governar o país ou por críticas a sua condução da política econômica.
Esses discursos caracterizam uma motivação clara do impeachment em
assegurar uma mudança de policy do governo – a motivação mais comum
para um voto de desconfiança no parlamentarismo. Por essa razão, o
processo de impeachment contra Dilma poderia ser visto como uma espécie
de resposta parlamentarista à crise atual, na qual um voto de desconfiança
requer a aprovação de 2/3 dos membros de ambas as casas legislativas.

Apesar da legalidade do processo – confirmada até o fim pelo


Supremo Tribunal Federal brasileiro, em suas várias manifestações durante
o processo – por que as motivações para o afastamento de um presidente são
relevantes? A motivação para o afastamento do chefe do Executivo em um
regime presidencialista importa para a legitimidade tanto doméstica quanto
internacional do processo. A remoção de presidentes por motivos
abertamente políticos e com fundamentações controversas têm custos não
triviais, podem gerar efeitos colaterais não desejados e, simultaneamente,
não resolver os impasses que levaram ao próprio impeachment.
Internacionalmente, por exemplo, o caso brasileiro tem sido visto pela mídia
estrangeira como um processo extremamente controverso e chamado de
ruptura da ordem democrática por acadêmicos e políticos de esquerda ao
redor do mundo16. Claramente, a importância regional e internacional do

terem sido bastante expressivos em 2014, as pedaladas fiscais e a edição de decretos fiscais
sem autorização prévia do Congresso eram práticas adotadas por presidentes anteriores e
que nunca haviam sido questionadas pelo Congresso.
16
Para referências internacionais, ver, por exemplo, os editoriais do jornal francês Le
Monde do dia 26 de agosto de 2016 ou o editorial do New York Times de 31 de agosto de
2016.

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.30-54, mar./jun., 2018


Presidencialismo em crise ou parlamentarismo por outros meios? 46

Brasil garante que o país não sofrerá sanções como as experimentadas pelo
Paraguai após o igualmente controverso afastamento do presidente
Fernando Lugo, em 2012. A imagem do Brasil no exterior como uma
democracia vibrante e estável, porém, foi arranhada, principalmente após a
performance tragicômica de deputados durante a sessão que aprovou a
abertura do processo de cassação de Dilma e o novo ministério anunciado
pelo presidente interino, Michel Temer – o primeiro sem mulheres desde
1979. No plano doméstico, apesar da baixíssima popularidade da presidente,
o comportamento claramente oportunista de congressistas que apoiaram o
impeachment levou a uma gradual rejeição ao processo de afastamento e ao
governo recém-empossado de Temer pela maioria da população, cuja
preferência majoritária é a realização de novas eleições presidenciais.
Apesar de responsabilizar a presidente pela atual situação econômica do
país, a manipulação do mecanismo do impeachment pelo Congresso
aumentou o descrédito da população em relação a suas instituições
representativas, uma vez que o afastamento contribui muito pouco, por
exemplo, para a redução da corrupção sistêmica identificada a partir da
operação Lava Jato. Ao mesmo tempo, o perfil das reformas conduzidas
pelo atual governo de Michel Temer mostra uma mudança abrupta na
plataforma que elegeu Dilma Rousseff, aumentando ainda mais os
problemas de legitimidade relacionados ao processo de impeachment.

No atual contexto brasileiro, o afastamento de Dilma tampouco


significa uma superação da atual crise política enfrentada pelo país, gerada
pelo aprofundamento das investigações da Lava Jato. O envolvimento de
diversos políticos de partidos que apoiaram o impeachment no gigantesco
esquema de pagamento de propinas e financiamento ilegal de campanhas
por grandes construtoras nacionais em troca de contratos com a Petrobrás e
outras empresas estatais só contribui para a sensação de que o impeachment
é uma cortina de fumaça do Congresso para encobrir problemas mais

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.30-54, mar./jun., 2018


Presidencialismo em crise ou parlamentarismo por outros meios? 47

estruturais. Desse modo, mesmo com o afastamento da presidente Dilma, as


pressões sobre o governo Temer continuam, com as investigações trazendo
novos fatos que implicam não só membros do núcleo político do governo,
mas o próprio presidente. Ao mesmo tempo, a incapacidade de implementar
reformas capazes de tornar o sistema político mais transparente e menos
vulnerável a conluios contribui para seu próprio descrédito e para a
possibilidade de eleição futura de outsiders políticos, cujos efeitos são ainda
mais potencialmente disruptivos para o sistema. Ao menos, esse tem sido o
resultado de presidências interrompidas por motivos prioritariamente
políticos em países da região como Bolívia, Equador e Venezuela
(Marsteintredet, 2014). Em suma, o afastamento definitivo da presidente
Dilma está longe de ser uma solução satisfatória para a crise brasileira.

Conclusão: presidencialismo parlamentarizado?

O uso do impeachment para afastar presidentes cujos governos


desagradam a maioria do Legislativo e que são destituídos com base em
acusações vagas ou relativamente brandas levanta importantes questões
sobre os impactos dessa prática no modo como definimos regimes
presidenciais. Se Legislativos podem usar o impeachment para afastar
presidentes com o intuito de resolver impasses políticos, isso poderia ser
visto como uma evolução positiva do presidencialismo latino-americano que
minimizaria os potenciais problemas sistêmicos identificados por Linz? Ou
deveríamos considerar esse uso do impeachment como um preocupante
desvirtuamento de sua função original e uma forma contemporânea de
golpe, como críticos mais severos postulam?

Claramente, não há uma resposta inequívoca a essas perguntas. Se,


por um lado, usos mais flexíveis do impeachment podem reduzir as chances
de rupturas constitucionais mais drásticas; por outro, seu uso leviano
representa manipulações que claramente distorcem a vontade popular. Em
análise recente, Llanos e Nolte (2016) resumem esse dilema com base em

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.30-54, mar./jun., 2018


Presidencialismo em crise ou parlamentarismo por outros meios? 48

observações sobre o recente caso brasileiro. Enquanto os autores defendem


que as cláusulas do impeachment não deveriam ser manipuladas como no
caso da presidente Dilma, eles também ressaltam a impossibilidade de
esperar que atores políticos se restrinjam a um uso comedido dos recursos
de poder a sua disposição. Desse modo, a lição mais produtiva desse
episódio seria pensar em reformas institucionais que reduzissem o risco de
manipulação do impeachment e consolidasse mecanismos de afastamento de
presidentes por motivações exclusivamente políticas. A proposta visa
justamente reduzir as tensões em volta das interpretações sobre a legalidade
e legitimidade do uso do impeachment pelo Legislativo, apesar de que,
obviamente, qualquer caso de destituição presidencial – constitucional ou
não – cria certo nível de tensão e polarização social.

A proposta de Llanos e Nolte (2016) é interessante, pois abre


espaço para uma agenda que vai além da discussão sobre o impeachment da
presidente Dilma Rousseff (e também do presidente paraguaio Fernando
Lugo) ser constitucional ou não, se é um golpe ou não. Porém, essa proposta
não estabelece um diagnóstico suficientemente compreensivo sobre a atual
crise brasileira. Mais do que uma crise típica de um regime presidencialista,
a atual crise é mais abrangente e envolve todo o sistema político. A
principal distinção é que a crise desencadeada pelas investigações da
operação Lava-Jato não envolvem somente a presidente, mas boa parte da
classe política brasileira, uma vez que praticamente todos os principais
partidos e políticos do país receberam contribuições eleitorais ilegais de
grandes construtoras nacionais. Enquanto defensores do impeachment
argumentam que a remoção da presidente Dilma é necessária para
solucionar a crise econômica, sua saída efetivamente contribuirá muito
pouco para arrefecer a crise de legitimidade do sistema político brasileiro.
Aqui, o contraste com o recente caso guatemalteco (e mesmo do ex-
presidente Collor de Mello) é claro, uma vez que o impeachment do

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.30-54, mar./jun., 2018


Presidencialismo em crise ou parlamentarismo por outros meios? 49

presidente Otto Pérez Molina efetivamente abriu espaço para a solução da


crise gerada por envolvimento presidencial direto em casos de corrupção.

Diante desse cenário, sugerimos duas propostas de reforma, cada


qual com consequências distintas, mas que visam aumentar o leque de
opções institucionais e a legitimidade de processos de destituição
presidencial. A primeira envolveria a instituição da possibilidade de
destituição do presidente por motivações exclusivamente políticas, tal qual
um voto de desconfiança parlamentarista. Porém, a fim de aumentar os
custos para o uso de tal instrumento e evitar que presidentes sejam
removidos corriqueiramente – além da manutenção do quórum de 2/3 dos
membros do Legislativo para sua aprovação – seria desejável a inclusão de
uma cláusula de dissolução simultânea do Congresso. Assim, ao aprovar a
destituição de um presidente com base em motivações exclusivamente
políticas, legisladores também dividiriam com o Executivo os custos da
remoção, uma vez que deveriam se submeter a novas eleições.
Complementarmente, presidentes também poderiam ter a possibilidade de
convocar novas eleições gerais (simultaneamente para o Executivo e para o
Legislativo) quando ameaçados por remoção. A intenção aqui seria oferecer
a presidentes a possibilidade de conter as aspirações – de um Legislativo
eventualmente controlado pela oposição – em remover um presidente
impopular. A vantagem desse arranjo seria a divisão dos custos de uma
eventual crise política entre os poderes. E o mais importante: ao instituir a
obrigatoriedade de novas eleições, esse tipo de mecanismo transferiria ao
eleitorado a possibilidade de decidir os rumos políticos do país. Os
reiterados pedidos de novas eleições no recente caso brasileiro (ou mesmo
em 2001, na Argentina) nos leva a crer que esse tipo de mecanismo seria um
modo de criar alternativas legítimas para a resolução de impasses em
regimes presidenciais. O problema dessa proposta obviamente é que os
custos adicionais para a remoção de um presidente a partir de motivações
exclusivamente políticas podem fazer com que o Legislativo continue a

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.30-54, mar./jun., 2018


Presidencialismo em crise ou parlamentarismo por outros meios? 50

utilizar o impeachment (ou outras modalidades de perda de mandato) como


um modo mais fácil de afastar presidentes indesejados.

A segunda proposta diz respeito à ordem sucessória em casos de


afastamento presidencial. Apesar de o tema receber pouca atenção em
debates constitucionais recentes, a sucessão presidencial passa a ter
importância renovada com o aumento da frequência de casos de presidentes
que não terminam seus mandatos; uma vez que políticos e partidos atuam
estrategicamente em relação a quem ocupará a presidência vacante. Ao
analisar a crise argentina de 2001, por exemplo, Malamud (2015) descreve
como o Partido Peronista – oposicionista ao governo do presidente De la
Rúa – não atuou aberta e diretamente para a sua renúncia, mas sim para
controlar a linha sucessória. Com a renúncia prévia do vice-presidente,
Carlos Álvarez, os peronistas concentraram esforços em organizar um bloco
legislativo capaz de indicar indiretamente o novo presidente. Do mesmo
modo, no atual caso brasileiro, é difícil imaginar que o principal partido da
base aliada da presidente Dilma Rousseff, o PMDB, apoiasse o processo de
impeachment sem que ocupasse a vice-presidência e tivesse o controle de
ambas as casas legislativas. Acreditamos que, se um presidente é afastado
com base em crimes cometidos pessoalmente, sem participação do vice-
presidente, a linha sucessória deveria ser mantida. No entanto, quando
presidentes são removidos por motivações políticas – como no mecanismo
proposto acima – vice-presidentes não deveriam assumir; não só pelo fato
de que novas eleições deveriam ser convocadas; mas, sobretudo, porque –
em casos de afastamento político do presidente – a ascensão de um vice-
presidente não traria necessariamente uma resolução ao conflito,
considerando que (pelo menos em teoria) presidente e vice compartilham
vários posicionamentos sobre os rumos do governo. Desse modo, tanto o
presidente quanto o vice deveriam ser afastados. A vantagem dessa proposta
é que ela não traria custos adicionais para o uso de um voto de não
confiança pelo Legislativo quando apropriado, o que evitaria possíveis

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.30-54, mar./jun., 2018


Presidencialismo em crise ou parlamentarismo por outros meios? 51

manipulações do impeachment para favorecer vice-presidentes.


Consequentemente, ao aumentar a incerteza sobre a sucessão presidencial,
atores políticos podem se ver menos inclinados a destituir presidentes.

Essas duas propostas têm por objetivo animar o debate sobre o que
a prática de regimes presidencialistas na América Latina mostrou ser
recorrente: presidentes podem e são removidos dos seus cargos por meios
institucionais. Contrariando Linz, Legislativos latino-americanos têm
lançado mão de vários mecanismos para afastar presidentes indesejados
politicamente. O recente caso brasileiro é apenas mais uma manifestação
dessa tendência. Porém, o uso de instrumentos como o impeachment, que
não foram pensados originalmente para o afastamento de presidentes por
motivações claramente políticas, tem sérios problemas de legitimidade e não
levam necessariamente à solução de impasses. Por isso, propomos quebrar o
tabu das distinções entre presidencialismo e parlamentarismo e trazer ao
debate algumas propostas de reformas que permitam a remoção de
presidentes com bases estritamente políticas; mas que, ao mesmo tempo,
dividam os custos dessa ação entre os poderes. O cerne dessas propostas,
porém, é envolver eleitores no processo e torná-los os principais juízes para
a arbitragem de crises políticas.

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.30-54, mar./jun., 2018


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Presidencialismo em crise ou parlamentarismo por outros meios? 54

Palavras- Resumo: O objetivo desse artigo é contextualizar o impeachment


da presidente brasileira Dilma Rousseff na literatura mais ampla
chave: sobre interrupções de mandatos presidenciais na América Latina.
Contrariando a tese linziana de instabilidade sistêmica,
argumentamos que sistemas presidencialistas latino-americanos
Presidencialismo, têm encontrado vias institucionais para lidar com crises entre os
poderes Executivo e Legislativo. Isso não significa, porém, que as
América Latina, soluções para os impasses são despidas de controvérsias.
Brasil, Problemas de legitimidade, questionamentos legais e elevados
níveis de polarização política permeiam boa parte dos casos de
Interrupção de presidentes cujos mandatos são interrompidos por ação do poder
mandato, Legislativo. Diante desse contexto, e inspirados no recente caso
Política brasileiro, propomos a introdução de alguns mecanismos
institucionais em regimes presidencialistas destinados a facilitar a
comparada resolução de impasses político-institucionais.

Keywords ABSTRACT: The goal of this article is to set the impeachment of


Brazilian president Dilma Rousseff in the context of the broader
literature on presidential breakdowns in Latin America. Going
Presidentialism, against the Linzian thesis of systemic instability, we argue that
Latin America, presidential systems in Latin America have found institutional
mechanisms to deal with crisis between the Executive and
Brazil, legislative branches. It does not mean, however, that the solutions
Presidential for the deadlocks are uncontroversial. Issues of legitimacy and
Breakdown, legality, as well as a highly polarized political environment,
Comparative characterize the majority of cases of presidential breakdowns
Politics. mobilized by the Legislative. Taking this broader context and the
recent Brazilian case, we propose some institutional mechanisms
in presidential systems that could facilitate solving political
deadlocks between branches of government.

Recebido para publicação em junho/2017


Aceito para publicação em agosto/2017

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.30-54, mar./jun., 2018


Os neogolpes e as interrupções de
mandatos presidenciais na
América Latina:
os casos de Honduras, Paraguai e Brasil

Leonardo Valente Monteiro


Universidade Federal do Rio de Janeiro (BRA)

A América Latina é historicamente marcada por golpes de Estado,


que são, ao mesmo tempo, causa e consequência de grandes períodos de
instabilidade política, além de responsáveis por uma estatística
extremamente desfavorável de não cumprimento de mandatos presidenciais.
Desde o início do século XX, ocorreram mais de 200 golpes na região1, e os

1
Diferentes levantamentos divergem sobre os números, em razão da metodologia,
chegando alguns estudos a apontarem mais de 300 golpes na América Latina, desde o início
do século XX, como o feito pelo historiador venezuelano Virgilo Rafael Beltrán, em seu
livro “El político y social de las Fuerzas Armandas en America Latina: ensayos“. A maior
parte, no entanto, aponta ao menos 200 desde 1901.

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.55-97, mar./jun., 2018


Os neogolpes e as interrupções de mandatos presidenciais na AL 56

países mais instáveis chegaram a ter dezenas de deposições no mesmo


período, como é o caso da Bolívia (56), Guatemala (36) e Peru (31).

Em vários momentos, os golpes de Estado ocorreram em ondas


regionais, atingindo vários países simultaneamente em um curto período de
tempo, motivados pelas diferentes realidades locais combinadas às
conjunturas hemisféricas de suas épocas. A última dessas ondas começou na
década de 1960, no pós-Revolução Cubana de 1959, em meio à Guerra Fria.
Nesse contexto, o golpe militar brasileiro, em 1964, é apontado como o mais
relevante e também o estopim de uma série de outras iniciativas semelhantes
(República Dominicana, em 1965; Peru, em 1968; Chile e Uruguai, em
1973; Argentina, em 1976) que levaram a longos regimes ditatoriais. Os
golpes militares paraguaio (perpetrado pelo general Alfredo Stroessner, em
1954), guatemalteco (no mesmo ano) e argentino (em 1962) – apesar de
terem ocorrido anos antes da deposição do presidente João Goulart no Brasil
– são considerados muito mais como laboratórios de uma tendência que se
confirmaria na década seguinte do que propriamente como estimuladores de
uma nova onda de golpes, sendo este papel atribuído comumente ao caso
brasileiro.

A redemocratização da América Latina – iniciada nos anos 1980 e


consolidada nos anos 1990 (após o fim da Guerra Fria) – marcou o quase
total desaparecimento dos golpes, sendo as exceções mais significativas as
duas tentativas frustradas na Venezuela (1992 e 2002), e o autogolpe do
presidente Fujimori, no Peru, em 1992 (este último não podendo ser
classificado como uma iniciativa militar).

O fim da Guerra Fria não só marcou o fim do período dos regimes


militares frutos de golpes na América Latina, como representou também a
ascensão em quase toda a AL de governos democráticos neoliberais,
marcados tanto por uma orientação econômica centrada no chamado
Consenso de Washington, quanto por uma política externa de grande

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.55-97, mar./jun., 2018


Os neogolpes e as interrupções de mandatos presidenciais na AL 57

alinhamento com os Estados Unidos – que figuraram como a grande


potência unipolar nos primeiros anos do cenário pós-Muro de Berlim. Em
um contexto marcado pelo fim da ameaça comunista, por governos que
tinham como orientação a redução do Estado e, ainda, por um notório papel
exercido pelos Estados Unidos de principal formulador da agenda
internacional nas questões de segurança; os setores militares latino-
americanos rapidamente perderam relevância, capacidade de influência e de
penetração social e também recursos – o que reduziu ainda mais as chances
de manterem algum tipo de protagonismo na nova arena política regional. A
combinação de uma nova agenda internacional, marcada pelo estímulo à
propagação das democracias liberais e de receitas econômicas ortodoxas
adotadas na maior parte dos países latino-americanos foi a pá-de-cal tanto
para muitos projetos militares, quanto para ambições políticas que ainda
tinham alguns de seus oficiais.

A onda de democracias neoliberais na América Latina durou até o


fim dos anos 1990; quando a chegada de Hugo Chávez à Presidência da
Venezuela, em 1998, marcou o início de outro movimento, dessa vez de
orientação progressista. Movimento este que ganhou forte impulso com a
eleição, no Brasil, de Luís Inácio Lula da Silva, em 2001. No ano seguinte,
Lula assumiu o maior e mais importante país latino-americano, após uma
série de crises econômicas que provocaram grande frustração regional com
o modelo neoliberal. O período também é marcado pela guinada da política
externa norte-americana pós-11 de setembro (que se voltou essencialmente
para a guerra contra o terrorismo e para os conflitos no Iraque e no
Afeganistão, dando muito pouca atenção aos assuntos hemisféricos,
orientação política conhecida como Doutrina Bush). Após a chegada de
Lula à Presidência do Brasil, a maior parte dos países da América Latina
elegeu governos progressistas, que repensaram a dimensão do Estado,
focaram suas atenções em programas sociais e promoveram, em alguns

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.55-97, mar./jun., 2018


Os neogolpes e as interrupções de mandatos presidenciais na AL 58

casos, políticas externas revisionistas em relação aos EUA, que, por sua vez,
manteve-se distante, ainda que atento.

A transição da fase neoliberal para a progressista – feita de forma


pacífica e por meio de vitórias em eleições diretas – contribuiu ainda mais
para a sensação de que os tempos turbulentos dos golpes de Estado e de
instalação de regimes autocráticos haviam realmente ficado para trás. Salvo
por instabilidades pontuais – devidas especialmente às enormes assimetrias
institucionais entre os seus países – a América Latina passou a ser
considerada, em todo o mundo, como uma região com relativa e crescente
estabilidade política e democrática e com notório fortalecimento de suas
instituições.

A crise econômica de 2009 (que afetou de forma mais intensa os


Estados Unidos e a Europa), a chegada do democrata Barack Obama à
Presidência dos Estados Unidos (mudando de forma considerável os
objetivos da política externa norte-americana), a ascensão da China como
grande potência global (e sua maior presença em áreas antes sob total
influência dos EUA), o endurecimento da Rússia em relação à sua periferia
(num claro movimento de recuperação de áreas de influência) e as
articulações internacionais ditas emergentes (especialmente a do grupo dos
BRICS – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul); porém, não apenas
deram a sensação de que o mundo caminhava de forma mais acelerada para
uma nova arquitetura de poder, como também provocaram uma forte reação
dos Estados Unidos a essas ameaças. Entre as muitas ações, destaca-se a
clara mudança de seu olhar para a América Latina. Se, no governo Bush –
exceto por questões pontuais como as relações com a Venezuela – a AL
passou por quase uma década praticamente desapercebia; no governo
Obama, as atenções da Casa Branca voltaram-se de forma mais engajada,
com clara intenção de recuperar terreno e prestígio perdidos nos anos
anteriores.

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.55-97, mar./jun., 2018


Os neogolpes e as interrupções de mandatos presidenciais na AL 59

Ao mesmo tempo, além da perda de popularidade – mais acentuada


especialmente em países como Argentina e Brasil, resultado dos vários anos
no poder –, os governos progressistas da região passaram a enfrentar uma
série de dificuldades estruturais, frutos tanto dos diferentes problemas
domésticos quanto dos rescaldos da crise econômica de 2009 sentidos após
os efeitos sobre os países ricos – e que encerraram um período de benesses
proporcionadas principalmente pelos altos preços das commodities.
Problemas estruturais estes que serviram como motor de insatisfação,
especialmente dos segmentos de renda média da população, por conta da
deterioração dos serviços públicos e do recrudescimento de problemas como
a violência urbana e o aumento da inflação. Diversas manifestações
ocorridas em vários países – especialmente no Brasil e no Chile, em 2013 –
foram resultado direto dessas insatisfações (ainda que sem reivindicações
claras) e, politicamente, fragilizaram ainda mais seus governos já em franco
processo de desgaste.

Simultaneamente a esses problemas, países como Brasil, Argentina,


Colômbia e Peru se viram em meio a escândalos de corrupção envolvendo
políticos de primeiro escalão e empresários – vindos à tona a partir de
operações e atuações da Polícia e do Judiciário desses países (até então
inéditas), com ampla repercussão midiática e em meio a um crescente
sentimento de indignação por parte da população, especialmente dos
segmentos de renda média e alta.

A combinação dos problemas de origem interna e externa, a perda


de popularidade, os escândalos de corrupção e a emergência de uma
conjuntura internacional marcada por intensa disputa de poder entre grandes
potências – e por um evidente chamamento feito pelos Estados Unidos à sua
tradicional área de influência a se reposicionar no tabuleiro das alianças –
deram vigor novo às elites políticas, sociais e econômicas que eram rivais
aos governos progressistas em vários países latino-americanos – muitas
delas, até aquele momento, enfraquecidas e desestimuladas devido às

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.55-97, mar./jun., 2018


Os neogolpes e as interrupções de mandatos presidenciais na AL 60

derrotas eleitorais e à perda de prestígio nos anos anteriores. Vigor novo que
as estimulou a novas articulações sociais e à recuperação do espaço político
há anos perdido.

A partir de 2009, gradativamente, as forças de oposição


conservadoras foram se reorganizando e reconquistando terreno em vários
países, especialmente em eleições legislativas e regionais. Tais resultados
criaram, entre essas forças, uma expectativa de que uma nova transição
regional (dessa vez do progressismo para a centro-direita de tradição
neoliberal) aconteceria, por via eleitoral, na leva seguinte de eleições
presidenciais. Tal cenário, no entanto, não se confirmou. As eleições de
Ollanta Humala, em 2011, no Peru; de Michelle Bachelet, em 2013, no
Chile2; a acirrada eleição de Nicolás Maduro, na Venezuela, também em
2013; a de Tabaret Vázquez, em 2014, no Uruguai; e a apertadíssima
reeleição de Dilma Rousseff no Brasil, também em 2014; indicaram que –
apesar do notório fortalecimento das forças opositoras – estas não haviam
conseguido reverter a tendência de governos progressistas em países
considerados centrais para a região.

As disputas apertadas podem não ter resultado em vitórias da


oposição, mas provocaram – especialmente no Brasil, na Venezuela e no
Chile – um enorme acirramento político, a formação de novas alianças
partidárias e um poder maior de ação dos opositores, especialmente nos
Legislativos, contribuindo para um cenário de maiores dificuldades
econômicas e crises de governabilidade.

O Brasil sofreu com muito mais intensidade a escalada desses


acirramentos e dificuldades, que resultaram, em 2016 (um ano e meio após
as eleições que reelegeram Dilma Rousseff), na ruptura da ordem
institucional e na interrupção do mandato presidencial. Ruptura esta que não
foi feita aos moldes dos golpes de Estado clássicos, mas por meio de um

2
Eleição esta que retomou para a centro-esquerda a Presidência, vencidas anteriormente
pelo liberal Sebastián Piñera.

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Os neogolpes e as interrupções de mandatos presidenciais na AL 61

neogolpe, uma forma de destituição complexa, relativamente nova na


literatura política, que tem como principal característica a ausência do uso
da força e a aparente manutenção da ordem institucional, por meio de um
estrito, porém deturpado, respeito ao rito constitucional; mas que se
apresenta, contudo, como uma das maiores ameaças contemporâneas ao
cumprimento de mandatos presidenciais democraticamente eleitos.

O caso brasileiro, exemplar por sua importância e complexidade,


não foi o primeiro da região na história recente, mas pode se configurar
como um perigoso estopim regional para uma nova onda de destituições,
dessa vez amparadas pela roupagem da legalidade e do respeito à
democracia, mas que se caracterizam, a priori, como formas não eleitorais
de transição de poder e de reposicionamento de elites políticas nacionais.

Assim como na década de 1960 – período em que, anos antes do


golpe militar brasileiro, experiências semelhantes ocorreram em países
menores da região –, dois casos de neogolpes anteriores à destituição de
Dilma Rousseff despertam a atenção: a deposições dos presidentes Manuel
Zelaya, em Honduras, em 2009; e de Fernando Lugo, no Paraguai, em 2012.
Ambos corroboram tanto para a hipótese de que foram espécies de balão de
ensaio deste tipo de golpe quanto para a tese de que, somados ao caso
brasileiro, os neogolpes são um fenômeno regional.

A partir do exposto, este artigo tem como objetivo caracterizar


conceitualmente as deposições dos presidentes do Brasil (Dilma Rousseff),
do Paraguai (Fernando Lugo), e de Honduras (Manuel Zelaya) como
neogolpes; mostrando, ao mesmo tempo, que tal prática tornou-se um novo
modus operandi regional, em substituição aos golpes clássicos, levados a
cabo com êxito pela última vez nos anos 1960 e 1970, com o objetivo de
derrubar governos progressistas e restaurar forças políticas conservadoras,
por vias não eleitorais, no comando dos Poderes Executivos desses países.

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.55-97, mar./jun., 2018


Os neogolpes e as interrupções de mandatos presidenciais na AL 62

Tal objetivo decorre para o cumprimento de outro secundário,


porém não menos importante, que é o de apontar a correlação entre os
neogolpes na América Latina e a atual conjunta geopolítica regional e
internacional – marcada por uma intensa reação norte-americana ao avanço
global de polos alternativos de poder, por uma política forte de
realinhamento de sua área de influência direta – o continente americano – e
pelo revigoramento de forças políticas latino-americanas conservadoras,
tradicionalmente mais próximas dos Estados Unidos que das progressistas.

Para o cumprimento dos objetivos, torna-se necessária,


inicialmente, a separação conceitual entre golpes clássicos de Estado e
neogolpes, delimitando as características de cada um e identificando suas
áreas de intersecção. Em seguida, são apresentados, em ordem cronológica,
os casos de Honduras, Paraguai e Brasil. Não se trata de descrições
exaustivamente detalhadas, mas focadas prioritariamente em fatos que se
correlacionam com a parte conceitual anterior, com o claro objetivo de
configurar os exemplos como casos de neogolpes. Nos comentários finais,
os exemplos relatados são relacionados à conjuntura hemisférica e
internacional, mostrando que a quebra da ordem institucional nesses países é
resultado de uma combinação de fatores internos com condicionantes
externas. Compreender as características dessas novas formas de interrupção
de mandatos presidenciais na América Latina torna-se de fundamental
importância tanto para o estudo sobre as instituições e regimes regionais
quanto para a reflexão sobre que caminhos devem ser percorridos para a
manutenção da estabilidade democrática.

Os negolpes como nova forma de tomada do poder

Apesar de não ser tão ampla quanto a literatura sobre os golpes de


Estado – especialmente por se constituírem como fenômeno relativamente
recente – a conceituação e a delimitação teórica dos neogolpes (também
conhecidos como golpes brancos e, em alguns casos, golpes parlamentares

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.55-97, mar./jun., 2018


Os neogolpes e as interrupções de mandatos presidenciais na AL 63

ou jurídico-parlamentares) já aparecem em diferentes estudos e trabalhos, o


que nos permite não apenas reproduzir tal arcabouço, como desdobrá-lo à
luz dos casos recentes, destrinchando ainda mais sua arquitetura conceitual,
vis à vis à noção clássica de golpes de Estado.

Na teoria política, a expressão coup d´État, como ficou conhecido


internacionalmente o conceito de golpe de Estado, foi formulada
inicialmente pelo francês Gabriel Naudé e publicada em 1693 na obra
“Considerations politiques sur le coups d'Etat”. Nela, Naudé define o termo
como uma violação feita pelo governante das regras e das leis estabelecidas,
porém sempre perpetrada em defesa do interesse público. A mudança dessa
interpretação alinhada ao Poder Absolutista só começou a ocorrer após o
episódio que pôs fim à Revolução Francesa e alçou Napoleão Bonaparte ao
comando da França, que ficou conhecido como “Golpe do 18 Brumário”,
ocorrido em 1799. A partir de então, golpe de Estado passou a significar, de
forma geral, a tomada de poder e a consequente queda do governante, a
partir de uma brusca e violenta ruptura institucional. Importante ressaltar
que nesses mais de cem anos entre a definição de Naudé e o golpe de
Napoleão, também era comum encontrar na literatura o termo “revolução”
para se referir a eventos responsáveis por quebras institucionais bruscas, o
que caiu em desuso após a Tomada da Bastilha, em 1789 – quando o termo
passou a ser usado essencialmente para retratar mudanças profundas
provocadas necessariamente por uma intensa participação popular3.

Com o desenvolvimento de regimes políticos complexos nos


séculos posteriores, com governos democráticos e baseados em eleições, a
definição geral de golpe de Estado foi se tornando igualmente mais
complexa e incorporando novos mecanismos e modus operandi, ainda que
mantendo sua essência. Importante ressaltar, contudo, que se trata de
definição, a priori, elaborada a partir da observação da realidade política, o
3
O termo revolução é objeto de amplo e sistemático estudo da teoria política, e adquire
uma série de significados a partir de diferentes visões conceituais e de processos históricos,
que não são alvo deste trabalho.

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Os neogolpes e as interrupções de mandatos presidenciais na AL 64

que permitiu (e ainda permite) releituras sobre eventos históricos que não
tinham em tempos passados sido definidos como tal; como, por exemplo, o
golpe de Cesar, em 49 a.C, que feriu de morte a República Romana.

Do mesmo modo com que a definição do conceito mudou


radicalmente a partir do 18 Brumário – e que este só passou a ser
caracterizado como um golpe a partir dessa mudança de olhar – outras
alterações também ocorreram ao longo dos anos, a partir da observação e da
análise de diferentes eventos que resultaram em deposições de governos. A
intensa participação das Forças Armadas em quedas de governos latino-
americanos no século XX, por exemplo, resultou no uso corrente da
expressão “golpe militar”, que é um golpe de Estado levado a cabo por
militares e que, comumente, é seguido pela instalação de um regime de
exceção controlado por militares. Para Bonavides (2000), no entanto,
independentemente das variáveis históricas e de alguns modus operandi, os
golpes de Estado se diferem claramente de outras formas de instabilidade
institucional.

Não obstante as afinidades que tem com os conceitos de


revolução, guerra civil, conjuração e putsch, o golpe de Estado
não se confunde com nenhuma dessas formas e significa
simplesmente a tomada do poder por meios ilegais. Seus
protagonistas tanto podem ser um governo como uma
assembleia, bem assim autoridades já alojadas no poder. São
características do golpe de Estado: a surpresa, a subtaneidade, a
violência, a frieza do cálculo, a premeditação, a ilegitimidade.
Faz-se sempre às expensas da Constituição e se apresenta qual
uma técnica específica de apoderar-se do governo,
independente das causas e dos fins políticos que a motivam.
(2000: 549)

Malaparte (2002), por sua vez, em seu clássico livro “A Técnica do


Golpe de Estado”, alerta para dois pontos fundamentais: o primeiro, que –
para ser bem-sucedido – um golpe precisa ter a capacidade de paralisar o
que ele define como centros nervosos de uma nação, por meio do controle
de áreas estratégicas de infraestrutura como rede elétrica, estradas e estações
de TV; o segundo ponto é que, no decorrer do golpe, o público tem apenas

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Os neogolpes e as interrupções de mandatos presidenciais na AL 65

informações escassas e impressões de que algo anormal está acontecendo,


sendo a deposição do antigo governo e a ascensão dos novos donos do poder
perpetradas de maneira repentina, noticiadas como fatos consumados.

Já para Nogueira Pinto (1985: 66), os golpes de Estado


diferenciam-se de outras formas de ruptura institucional “por serem feitos
por órgãos do Estado, usando meios do Estado”. Além disso, para o autor,
outro elemento diferenciador é a velocidade: golpes de Estado são, em
regra, rápidos, pois a lentidão no processo é uma ameaça ao seu êxito,
característica também descrita por Malaparte.

Galbraith (1979), por sua vez, tem como preocupação principal a


descrição do ambiente em que um golpe de Estado tem chances de êxito.
Em “A era da incerteza”, ele aponta três pré-requisitos fundamentais para o
êxito de um golpe: o governo a ser derrubado precisa estar fraco, decadente
e impopular – o que, segundo ele, permite a ação que denomina “pontapé
em porta podre” –; é preciso haver um líder do golpe, capaz de levantar e
arregimentar a população; é preciso, ainda, formar uma massa de aliados
desse líder, favorável ao golpe e capaz de morrer por essa ação.

Mais do que uma disputa de caráter personalista, os golpes de


Estado envolvem essencialmente disputas entre elites – a elite governante e
as que estão fora do núcleo duro do governo, mas geralmente entranhadas
nos aparelhos de Estado, como aponta Nogueira Pinto.

O desenvolvimento das democracias representativas e a


consolidação do voto popular como meio de escolha dos governantes – na
Europa, nos Estados Unidos e, mais recentemente, em outras partes do
mundo, com destaque para a América Latina – tornaram as rupturas
abruptas e os uso da força para deposições de governo mais difíceis,
especialmente nos países mais desenvolvidos, onde a estabilidade política, o
fortalecimento das instituições, o protagonismo crescente dos meios de
comunicação e a formação de uma sociedade civil complexa e com

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Os neogolpes e as interrupções de mandatos presidenciais na AL 66

interesses cada vez mais distintos e conflitantes dificultam de forma


exponecial ações autoritárias e violentas exitosas para a obtenção do
controle sobre os governos. Isto não quer dizer que golpes de Estado não
tenham ocorrido em países onde vigorava de forma relativamente estável o
sistema democrático representativo, mas é fato notório que a disseminação
desses sistemas de governo, o apoio dado a eles por países do núcleo duro
do sistema internacional, e o aumento da complexidade das sociedades civis
inibiram de forma considerável as iniciativas de caráter violento.

Tal dificuldade, no entanto, não deve ser interpretada como uma


estabilidade fruto da conscientização dessas elites políticas de que não há
mais outro caminho para se chegar ao poder a não ser pela via eleitoral.
Seria ingenuo imaginar que a democracia representativa sufocou
completamente, em nome da vontade da maioria, toda e qualquer iniciativa
de se derrubar governos não alinhados às elites insatisfeitas com o que fora
decidido nas urnas. Se o processo violento e abrupto tornou-se obsoleto e
ineficaz frente às democracias contemporâneas, é fato também que essas
mesmas elites insastisfeitas procuraram e ainda procuram instrumentos mais
sofisticados e adequados à nova realidade para chegarem a esse fim. É
exatamente neste contexto que surgem os neogolpes, novas formas de se
derrubar governos, adaptadas para serem exitosas em sociedades
democráticas, diversas e informacionais.

O conceito de neogolpe tem sido empregado por autores em


diferentes situações de instabilidade institucional que resultaram em
mudanças de governo desde meados do século XX. O termo se refere
geralmente a uma conspiração ou trama, com diferentes graus de
complexidade, que tem como objetivo a mudança da liderança política, em
alguns casos por meios aparentamente legais. Scaruffi (2002), em “The
mechanics of political desestabilization and Constitutional subversion in tha
1990´s Italy” emprega o conceito para definir as bruscas mudanças de
governo parlamentarista na Itália dos anos 1990, provocadas pelo combate à

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Os neogolpes e as interrupções de mandatos presidenciais na AL 67

corrupção e pela queda de braço entre o Judiciário e as elites políticas do


país. Juan Gabriel Tokatian (2010), por sua vez, preocupa-se com as
características dessa forma de golpe no presidencialismo, especialmente em
países latino-americanos.

Varios elementos caracterizan el neogolpismo. Por lo general,


se trata de fenómenos graduales: no tienen la dinámica
vertiginosa que les imprimían los militares a los golpes de
Estado sino que poseen la lentitud de los procesos intrincados
en los que acciones variadas de diversos grupos civiles van
configurando precondiciones para la inestabilidad. En el caso
del golpe de Estado convencional sobresale la ejecución de un
alzamiento expeditivo; en el caso del neogolpismo, la gestación
de un caos dilatado. En el primero, prevalece el cuartel; en el
segundo, la calle. A su vez el “lenguaje” neo-golpista no remite
a proclamas y provocaciones abiertas típicas del golpismo
tradicional. Se tiende a invocar la noción de una imperiosa
salida “institucional”, “constitucional” o “legal” ante los
presuntos equívocos, arbitrariedades y dislates del gobierno
establecido. Los viejos golpistas descreían de la democracia y
suponían que el Estado y la sociedad debían ser plenamente
reorganizados. Los neogolpistas remarcan que el empujón final
para destituir al gobernante y la coalición de turno es necesario
para salvaguardar la democracia. Los golpistas del pasado y los
actuales abrazan, con discursos retóricamente distintos pero
sustantivamente idénticos, el llamado “cambio de régimen” 4.

Tanto para Scaruff quanto para Tokatian, uma das principais


características desse tipo de golpe é a manutenção de uma aparente
normalidade institucional durante todo o seu processo e após sua
consumação, com a construção de um discurso de transição legal.

Kalina Vanderlei Sila e Maciel Henrique Silva (2005:156) tem


definição semelhante, afirmando que o golpe branco acontece quando
“grupos políticos e sociais usam de pressão – e não de força – para forçar
uma decisão governamental ou impor um governante”. Segundo os autores,
um exemplo de golpe branco perpetrado no Brasil foi a implantação do
regime parlamentarista, em 1961 – após a renúncia do presidente Jânio
Quadros – e a recusa das elites militares, sociais e políticas do país em

4 Diretor do Departamento de Ciência Política da Universidad di Tella. Em “El


Neogolpismo” Le Monde Diplomatique Edición Nro 178 - Abril de 2014. Disponível em
http://www.eldiplo.org/archivo/178-la-nueva-guerra-fria/el-neogolpismo?token=&nID=1

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Os neogolpes e as interrupções de mandatos presidenciais na AL 68

aceitar que João Goulart, um político de esquerda, assumisse o governo com


plenos poderes de um presidente em um regime presidencialista. O episódio
foi também caracterizado como golpe branco em vasta literatura específica
sobre o tema5.

As definições apresentadas pelos autores citados nos permitem não


apenas reconhecer essa forma de golpe, mas também – combinadas à
observação de diferentes casos em países distintos e ao desdobramento do
conceito – compreender algumas de suas principais características e os
requisitos e contextos necessários à sua execução. Entre as características,
podemos apontar:

Ausência do uso da força para a tomada do poder

Esta é a principal diferença entre a definição clássica de golpes e os


neogolpes. O uso da força para a destituição de um governante ou mudança
de regime é sinal inequívoco de um golpe, e uma das principais
características de um golpe branco é não aparentar ser um golpe. Neogolpes
surgiram para substituir os golpes, em um contexto histórico em que estes
perderam sua eficácia em boa parte do mundo. Por isso, não podem, em
hipótese alguma, se parecer com eles.

Aparente legalidade, transmitida por meio do respeito aos ritos


constitucionais, mas com interpretação casuística das leis

Este é um dos pontos mais importantes para o êxito de um


neogolpe. A manutenção do rito legal – ainda que o conteúdo da lei seja
deturpado por meio de interpretações casuísticas e distorcidas de forma
deliberada – serve de sustentação para o discurso da manutenção da
legalidade no processo de destituição. Importante ressaltar que é tênue a
fronteira entre o que as leis de diferentes países, especialmente
5
Definição feita tanto por historiadores e cientistas políticos, quanto por jornalistas. Entre
eles destacam-se José Paulo Netto, em Pequena história da ditadura Brasileira (1964-
1985) e Durango Duarte, em 61 dias em 1964: 50 anos de golpe militar.

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Os neogolpes e as interrupções de mandatos presidenciais na AL 69

presidencialistas, definem como processos de destituições legítimos do


chefe de Estado e o extrapolamento dessas leis que caracteriza o golpe. Mas
não é tarefa impossível identificar as estratégias golpistas, que devem ser
analisadas caso a caso, não apenas por meio de um exame das legislações,
como também do contexto político em que as destituições e mudanças de
regimes são levadas a cabo. Apesar de, em essência, violarem a
Constituição e o Estado de Direito, especialmente, no caso do
presidencialismo, ao desrespeitarem o cumprimento dos mandatos
estabelecidos por eleições livres, os golpes brancos não necessariamente
resultam em Estado de Exceção. Ao contrário, na grande maioria dos casos,
há um esforço grande por parte de seus perpetradores de mandar a
mensagem de que todos os direitos constitucionais estão e serão mantidos.

Em quase todos os casos de golpes brancos ocorridos em regimes


presidencialistas, observa-se a preservação do rito legal por meio de
processos de impeachment, geralmente previstos em textos constitucionais
de regimes presidencialistas que se espelharam no modelo norte-americano,
ou pela ação judicial da mais alta corte do país. Nos dois casos, a
manutenção do rito não impede a identificação, tanto de distorções de
interpretação dos textos constitucionais quanto de procedimentos
considerados pouco usuais (ainda que legais) como aceleração atípica de
processos e trâmites burocráticos, rejeição de provas e elementos que
beneficiariam a defesa, entre outros que não seriam observados em
contextos não propícios à destituição.

Os contextos social e político, capazes de propiciarem a execução


de um neogolpe, têm semelhanças com as conjunturas do século XX que
historicamente resultaram em golpes clássicos de Estado, apesar de
particularidades que tornam este tipo de deposição dependente de um
cenário ainda mais complexo.

Entre os requisitos conjunturais, destacam-se:

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Os neogolpes e as interrupções de mandatos presidenciais na AL 70

Governo frágil, impopular e com altos índices de rejeição

Trata-se de cenário idêntico ao apontado por Galbraith (1979)


como necessário para a execução de um golpe de Estado em seu sentido
clássico. A tomada de poder pela via não eleitoral requer uma perda da
capacidade de adesão ao governo, o que geralmente acontece em razão de
crises de ordem econômica e/ou política. A diferença é que em um golpe
com o uso da força, a queda do governo frágil ocorre, como aponta o autor,
com um “pontapé em porta podre”, de forma rápida e abrupta; ao passo que,
em um golpe branco, a estratégia é o discreto arrombamento da fechadura, o
que, em alguns casos, pode se estender por semanas ou mesmo meses.

Acordo entre forças parlamentares e apoio popular à destituição

No pacote de fragilidades de um governo presidencialista para ser


alvo de um neogolpe, a perda de apoio do Poder Legislativo e a
incapacidade de reverter a situação é fator crucial, mesmo em casos onde a
deposição não tem condições de ocorrer pela via parlamentar, mas apenas
pela judicial. Governos em crise podem (e geralmente conseguem)
sobreviver à perda de maioria em seus parlamentos. O cenário para um
golpe branco, no entanto, requer não apenas uma ausência ou perda
expressiva de apoio, quanto um acordo entre as principais lideranças
parlamentares, seja para levar a cabo um processo formal de destituição ou
para não se mobilizar e acatar eventual decisão de uma corte superior sobre
o tema. Enquanto golpes clássicos, em regra, ameaçam o Poder Legislativo
e muitas vezes também o destituem; os neogolpes requerem o apoio
parlamentar, o que faz com que, dependendo da forma como sejam
executados, passem também a ser chamados de golpes parlamentares.

Neogolpes necessitam de apoio de parcela considerável da


população, que serve como estimulador das forças políticas interessadas na
destituição. Quanto mais fortes forem as instituições do Estado e mais
complexo seu regime político, maior a necessidade de respaldo popular para

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Os neogolpes e as interrupções de mandatos presidenciais na AL 71

o êxito do golpe. Altos índices de rejeição e, especialmente, protestos


populares, diminuem ou anulam o desgaste político dos atores políticos
envolvidos no neogolpe, facilitam a construção de uma visão de legalidade e
se contrapõem a eventuais movimentos de defesa do governo, que – em uma
conjuntura de alta impopularidade – não consegue fazer frente ao número de
descontentes. Em países onde as instituições democráticas são mais frágeis,
o apoio popular, ainda que relevante, não tem papel tão crucial quanto nos
de regimes políticos mais complexos e com instituições mais fortes,
podendo a destituição ocorrer sem que para isso ocorram grandes
manifestações com esse fim.

Apoio da mídia e participação efetiva, colaboração ou omissão da


mais alta corte do Poder Judiciário no processo

A construção de uma narrativa verossímil da destituição e a


desqualificação das vozes denunciantes do processo é ponto fundamental
para o êxito de um golpe branco. Os principais veículos de comunicação
assumem, neste processo, papel fundamental e precisam estar alinhados à
tentativa de destituição. Quanto maior a complexidade social e institucional
de um país, mais importante se torna a participação da mídia no golpe
branco – seja apenas como apoiadora, ou como aliada política mais ativa das
forças engajadas no processo.

Enquanto os golpes clássicos não precisam do Judiciário e, uma


vez executados, geralmente se voltam contra ele; nos neogolpes, a mais alta
corte do país torna-se primordial no processo, seja como garantidora do
golpe concretizado no Parlamento, seja como ator efetivo no processo de
destituição. O principal motivo é a necessidade de aparência da legalidade e
de manutenção do rito legal. Supremas cortes são as guardiãs do respeito à
Constituição e suas interpretações favoráveis aos processos de destituição
constituem-se no mais forte elemento de construção de uma narrativa
discursiva em defesa do processo. Em regra, tal discurso tem como base o

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Os neogolpes e as interrupções de mandatos presidenciais na AL 72

princípio de lisura técnica da corte, o que desqualifica qualquer denúncia


sobre envolvimento de seus juízes ao contexto político e partidário. A
participação ou pelo menos a omissão do Poder Judiciário no processo de
golpe branco é o único pré-requisito que, se não cumprido, inviabiliza
completamente a iniciativa, a despeito de todas as outras situações.
Neogolpes podem até não ser perpetrados diretamente sem o Poder
Judiciário, mas não existem sem sua conivência.

Outro ponto importante a ser ressaltado está na diferença entre


golpes e neogolpes quanto ao controle sobre a situação pós-golpe. Enquanto
nos golpes clássicos, os golpistas têm grande controle sobre o
estabelecimento do governo seguinte; no neogolpe, esse controle é mais
frágil, geralmente com a chegada ao poder de um governo tampão, que
precisa obedecer à legislação sobre sucessão, até a realização de novas
eleições. Os neogolpes, portanto, são muito mais controladores da
destituição do governo em curso do que da formação do governo seguinte.
Por mais que as forças responsáveis por sua execução tenham alguma
indicação mais ou menos precisa de que tipo de elite assumirá o poder, o
foco principal é concentrado na retirada de uma determinada força política
do poder.

Também como observado, tanto os golpes clássicos quanto os


golpes brancos precisam da convergência de uma série de fatores para se
concretizarem de forma eficiente. Contudo, necessitam de condicionantes
ainda mais complexas. Tamanha complexidade e necessidade de conjunção
de fatores faz crer que a ocorrência desse tipo de golpe é necessariamente
rara. No entanto, entre 2009 e 2016, três neogolpes ocorreram na América
Latina: em Honduras, no Paraguai e no Brasil. O alto índice de incidência na
região em pouco tempo sugere, portanto, a existência de fatores externos a
esses países, regionais e sistêmicos, que podem ter contribuído para que
suas conjunturas políticas internas resultassem nas deposições de seus

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Os neogolpes e as interrupções de mandatos presidenciais na AL 73

governos. A análise dos três casos em questão, no entanto, ainda que


resumidamente, torna-se fundamental para a construção desta conclusão.

O neogolpe judiciário em Honduras, em 2009

Apesar de ser considerada por alguns analistas como um golpe


militar, a deposição do presidente de Honduras, Manuel Zelaya, em junho
de 2009, tem muito mais características de um neogolpe protagonizado pelo
Poder Judiciário do país, ainda que com características mais duras, do que
de um golpe militar clássico, como os perpetrados na América Latina,
especialmente nas décadas de 1960 e 1970.

Zelaya teve prisão preventiva decretada pelo Ministério Público


hondurenho, que o acusou de crime de traição à pátria, previsto na
Constituição do país, por ter organizado um referendo popular não aprovado
pelo Parlamento, proibido pela Suprema Corte de Justiça e não organizado
pelo Tribunal Superior Eleitoral (o que é obrigatório, de acordo com as leis
hondurenhas). Na consulta, organizada pelo Instituto Nacional de Estatística
de Honduras (INE) e marcada para o dia 28 de junho, seria perguntado ao
eleitor se, nas eleições gerais que ocorreriam em novembro daquele mesmo
ano, ele gostaria de ser consultado sobre a convocação de uma Assembleia
Constituinte para fazer uma nova Carta Magna do país, que substituísse a de
1982.

Na madrugada do dia 28, no entanto, horas antes do início do


referendo, Zelaya foi preso em casa, por militares e ainda de pijama, levado
para o aeroporto de Tegucigalpa e enviado para a Costa Rica. A deportação
de cidadãos hondurenhos, no entanto, é vedada pela Constituição e não
estava na ordem judicial a ser executada.

A medida gerou denúncias de golpes feitas por vários países e em


órgãos como a Organização dos Estados Americanos (OEA) e as Nações
Unidas. Os Estados Unidos, que adotaram uma postura dúbia em todo o

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Os neogolpes e as interrupções de mandatos presidenciais na AL 74

processo, inicialmente se manifestaram contra a deposição, afirmando que


ela teria sido um golpe.

A extradição ilegal não contou com protestos ou qualquer outra


medida tanto da Suprema Corte, quanto do Congresso – que alegou ainda ter
vários outros processos de corrupção contra o presidente em tramitação.
Este, por sua vez, empossou imediatamente o presidente da Casa, Roberto
Micheletti, como presidente interino de Honduras, o que provocou rejeição
de muitos países, entre eles o Brasil, mas foi respaldado pelo Poder
Judiciário hondurenho. Micheletti confirmou eleições presidenciais para
novembro do mesmo ano, para que o novo presidente tomasse posse em
janeiro de 2010, data do término do mandato de Zelaya.

Três meses depois da ação, no entanto, no dia 21 de setembro, o


presidente deposto entrou em segredo em território hondurenho, e buscou
refúgio na Embaixada do Brasil, com o objetivo de restaurar a ordem
constitucional, o que aumentou a tensão no país. A partir de então, os
Estados Unidos se mostraram contrários ao retorno de Zelaya ao poder e
favoráveis ao cumprimento do mandato pelo presidente interino. Chegaram,
inclusive, a forçar a rejeição de uma proposta de resolução feita pelo Brasil
ao Conselho de Segurança das Nações Unidas de condenação de Honduras
pelo golpe, alegando que tal questão era da esfera da OEA. As negociações
do presidente deposto, alojado na embaixada, com o governo hondurenho
duraram até dezembro, após as eleições vencidas por Porfirio Lobo, quando
o Congresso rejeitou em votação a volta de Zelaya ao poder.

Em 2010, após uma intensa barganha diplomática envolvendo a


Venezuela, o Tribunal de Apelações da Corte Suprema de Justiça
considerou nulos todos os processos contra Zelaya, o que possibilitou sua
repatriação e o resgate de seus direitos civis e políticos. Após a decisão do
tribunal, o governo venezuelano reconheceu Porfirio Lobo como novo
presidente de Honduras.

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Os neogolpes e as interrupções de mandatos presidenciais na AL 75

A partir das características já expostas, pode-se afirmar que a


deposição de Zelaya não foi um golpe de Estado militar pelas seguintes
razões:

- Apesar de a prisão ter sido feita por militares e destes terem


extrapolado o que teria sido determinado, a detenção ocorreu a
partir de ordem judicial da Suprema Corte, que não sofreu qualquer
tipo de intervenção direta dos militares.

- A destituição não resultou no fechamento do Congresso e nem em


substituições de juízes ou fechamento de cortes superiores, o que é
comum nestes tipos de golpes. Exceto pela prisão, também não
houve episódios de uso da força para a tomada de poder.

- Os militares não tomaram o governo, nem mesmo para um


período de transição, ficando este a cargo do presidente do
Congresso, o que é previsto da Constituição do país. As eleições
presidenciais previstas para novembro foram mantidas e a transição
para o novo governo eleito foi feita normalmente.

No entanto, várias características qualificam o episódio como um


neogolpe, entre elas as principais são:

- A omissão do Judiciário e do Legislativo diante da expulsão ilegal


do presidente do país, que deveria ter apenas sua prisão preventiva
executada. Prisão esta que, ainda que permitida pela legislação,
caracterizou-se como decisão drástica e desproporcional,
especialmente por ter como alvo o chefe de Estado e de governo.
Com a expulsão, Zelaya teve cerceados todos os seis direitos à
ampla defesa e à permanência em seu cargo.

- A nomeação imediata do presidente do Congresso como


presidente interino do país, com anuência da Suprema Corte, o que
não mostra apenas a omissão em relação à expulsão do presidente,

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Os neogolpes e as interrupções de mandatos presidenciais na AL 76

como uma predisposição a uma transição rápida e sem chance de


retorno. Os dois episódios, portanto, tornam evidente que a
deposição decorrente da expulsão do presidente teve a aprovação e
a atuação direta dos poderes Legislativo e Judiciário, além das
Forças Armadas.

- A recusa do Congresso, em dezembro de 2009, de reconhecer os


erros cometidos na expulsão ocorrida em junho; a anulação de
todos os processos contra Zelaya pela Suprema Corte em janeiro
(após as eleições) e a posse do novo presidente eleito não deixam
dúvidas da motivação política (e não criminal) do episódio.

Honduras foi o primeiro caso de golpe branco na América Latina


após a redemocratização da região, o que resultou na queda de um governo
de orientação progressista – próximo da Venezuela e mais voltado para as
relações com países sul-americanos – e na ascensão de forças
conservadoras, notoriamente mais próximas dos Estados Unidos.

O golpe parlamentar relâmpago no Paraguai, em 2012

A destituição do presidente paraguaio Fernando Lugo, em 2012, é o


caso mais claro de golpe branco, a partir das características apresentadas
anteriormente. Lugo perdeu seu cargo em um processo de impeachment
aberto e levado a cabo no Senado paraguaio em menos de 48 horas, cujo
direito à ampla defesa foi ignorado. Bispo católico, Lugo foi o primeiro
presidente paraguaio de orientação progressista, em meio a um cenário
político marcado por ditaduras e pelo domínio político conservador de 61
anos do Partido Colorado. Venceu as eleições, em 2008, pela Aliança
Patriótica, que não conseguiu maioria no Congresso (o que lhe rendeu,
desde o início, dificuldades para manter a governabilidade).

Apesar de ter mantido uma política econômica ortodoxa e com


forte apoio à agroindústria, graças aos preços favoráveis das commodities

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Os neogolpes e as interrupções de mandatos presidenciais na AL 77

no âmbito internacional, conseguiu aumentar a receita do país e beneficiar


milhões de paraguaios com programas sociais e de distribuição de renda.
Entre as medidas, universalizou o sistema de saúde, que pela primeira vez se
tornou público e gratuito; entregou notebooks para todos os estudantes do
ensino fundamental e seus professores e criou projetos comunitários de
assistência social em vários pontos do país. Conseguiu ainda fazer com que
o então presidente do Brasil, Luís Inácio Lula da Silva, aceitasse triplicar o
montante que pagava ao Paraguai pela venda de energia elétrica da central
de Itaipu e, assim, aumentar ainda mais os cofres do Estado. Em 2010, o
Paraguai chegou ao seu recorde histórico de crescimento econômico: 15%
de seu PIB.

Apelidado de o “bispo dos pobres”, ganhou considerável apoio


entre as classes mais baixas, especialmente entre os camponeses sem-terra,
mas desagradou a elite conservadora – temerosa de um afastamento mais
prolongado dos aparelhos de Estado – e grandes empresas nacionais e
estrangeiros de agronegócios, que temiam que seu governo pusesse em
prática uma ampla reforma agrária, sob pressão dos camponeses, o que foi
promessa de campanha. Com uma política externa extremamente focada na
integração regional e no bom relacionamento com seus maiores vizinhos,
Brasil e Argentina, além da aproximação com a Venezuela, Lugo também
provocou desconfianças, ainda que discretas, dos Estados Unidos,
incomodados com a perda relativa de influência.

Seu governo enfrentou vários pedidos de impeachment que foram


arquivados, mas o estopim do processo que resultou em sua destituição
ocorreu em maio de 2012, quando cerca 150 manifestantes sem-terra
ocuparam a propriedade Campos Morombi, do ex-senador Colorado, Blas
Riquelme. Os sem-terra alegaram que a propriedade, na região de
Curuguaty, havia sido tomada ilegalmente durante o governo no ditador
Alfredo Stroessner. A ação dos sem-terra enfureceu os conservadores, que
acusaram Lugo de ser permissivo com a invasão. Para piorar a situação, no

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Os neogolpes e as interrupções de mandatos presidenciais na AL 78

dia 15 de junho, uma operação policial para remover os sem-terra, ordenada


por uma decisão judicial a pedido de Riquelme, acabou com a morte de 6
policiais e 11 manifestantes, o que resultou nos pedidos de demissão do
ministro do interior, Carlos Filizzola, e do Chefe Nacional da Polícia,
Paulino Rojas, transformando o incidente em uma crise no primeiro escalão
do governo.

Em 19 de junho, após todos os camponeses terem sido retirados, foi


confirmado que o ex-senador Riquelme realmente não tinha o título dos dois
mil hectares em disputa, e no dia 20, Lugo anunciou uma comissão especial
para investigar o incidente, que contaria com apoio da Organização dos
Estados Americanos, dando sinais de que poderia utilizar as terras para
reforma agrária. No mesmo dia, o deputado colorado Luis Gneiting,
apresentou a proposta de submeter a julgamento político o Presidente da
República por responsabilidade política a respeito dos acontecimentos de
Curuguaty. O parlamentar recebeu o apoio imediato tanto de seu partido
quanto das bancadas dos partidos Pátria Querida e do Partido Liberal
Radical Autêntico (PLRA), membros da coalizão política que levou
Fernando Lugo e seu vice-presidente, Federico Franco, ao poder em 2008,
mas já afastados do presidente e de olho na possível posse de Franco, que
era do PLRA. Em poucas horas, a proposta foi aprovada com 76 votos a
favor, um contra e três ausências.

Logo após o julgamento no Congresso, o pedido foi enviado ao


Senado, e o PLRA pediu a seus filiados com cargos no gabinete de Lugo
que renunciassem, o que provocou uma debandada relâmpago e em massa,
com as saídas, no mesmo dia, dos titulares das pastas de Justiça, Indústria,
Esportes, Educação e Cultura e Agricultura e Pecuária. A acusação
apresentada ao Senado alegava que Lugo governou de maneira "imprópria,
negligente e irresponsável", gerando "a constante confrontação e luta de
classes, que como resultado final trouxe o massacre entre compatriotas, fato
atual, em tempo de paz".

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Os neogolpes e as interrupções de mandatos presidenciais na AL 79

Os pontos para a perda de mandato, apontados no documento,


foram: falta de reação frente à morte dos 11 camponeses e seis policiais no
enfrentamento de Curuguaty; autorização do uso das dependências do
Comando de Engenharia das Forças Armadas da Nação, em 2009, para um
ato político; autorização do uso de forças militares contra colonos em um
conflito de terras localizadas em Nacunday; não ter posto em prática uma
política eficaz para diminuir a violência e, por último, ter apoiado o
protocolo regional sobre o compromisso com a democracia no
Mercosul sem ratificação parlamentar. Os deputados e senadores acusadores
alegaram no documento que, com o protocolo, os países vizinhos poderiam
cortar o abastecimento de energia ao país.

Lugo entrou com um recurso na Suprema Corte, alegando a


inconstitucionalidade do processo, pois não havia tido tempo para preparar
sua defesa, mas a corte rapidamente o negou. Também em questão de horas,
no dia 22 de junho, o Senado aceitou, votou e aprovou o impedimento do
presidente, com 39 votos a favor e quatro votos contra.

Entre as principais características que enquadram a destituição de


Lugo como um neogolpe, podemos destacar:

- Interpretação casuística de lei e tentativa de criminalização do


presidente de forma desproporcional.

- Falta de apoio político no Parlamento e notória conspiração


política para a deposição.

- Omissão da mais alta corte do país em relação ao direito de ampla


defesa do presidente, previsto na Constituição, declarando legal um
processo de destituição do chefe de Estado e de governo realizado
em questão de horas.

- Ausência de interrupções no processo de transição presidencial


por meio de eleições, realizadas no período previsto.

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Os neogolpes e as interrupções de mandatos presidenciais na AL 80

O neogolpe jurídico-parlamentar no Brasil, em 2016

As manifestações de junho e julho de 2013 – deflagradas


inicialmente como protestos contra aumentos de passagens de ônibus nas
grandes capitais, mas que tomaram dimensões e pautas de contestação
inesperadas logo em seguida – marcaram simbolicamente o início de uma
relevante perda de adesão social e política dos governos progressistas
brasileiros, iniciados com o presidente Lula, do Partido dos Trabalhadores
(PT), em 2002; naquele momento sob chefia de sua sucessora, Dilma
Rousseff. Sem lideranças identificáveis, com uma agenda repleta de
insatisfações, mas sem exigências claras e uma forte rejeição aos partidos
políticos, os movimentos – que juntaram milhões de pessoas nas ruas de
todo o país – mobilizaram tanto setores da esquerda quanto da direita, mas
foi esta última, e suas variantes mais extremas, que ganharam a partir delas
fôlego novo, mais organicidade nas redes virtuais e uma maior disposição
em aderir de forma mais intensa – ainda que naquele momento sem muita
organicidade – à oposição ao governo Dilma.

Em março do ano seguinte, outro acontecimento, aliado à


insatisfação já exposta nas ruas, serviu como combustível altamente
inflamável para a fogueira da indignação crescente em relação ao governo: a
deflagração pela Polícia Federal da Operação Lava-Jato, com a prisão em
Curitiba do doleiro Alberto Youssef e o início de uma série de descobertas
de escândalos de corrupção envolvendo a gigante Petrobrás, grandes
empreiteiras e políticos do primeiro escalão. Apesar de ainda não
envolverem diretamente o governo em um primeiro momento, as
investigações serviram como aditivo extra – bem explorado pelos grandes
meios de comunicação, quase todos contrários ao governo – para que os
descontentes ganhassem paulatinamente mais organicidade e apoios
importantes de setores políticos e empresariais.

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Os neogolpes e as interrupções de mandatos presidenciais na AL 81

A crescente rejeição ao governo, até então sem desenho


institucional claro, ganhou corpo partidário nas eleições presidenciais de
2014, especialmente quando o candidato à Presidência pelo PSDB, Aécio
Neves, surpreendeu ao tirar o posto de segundo lugar da candidata da Rede
Sustentabilidade, Marina Silva, habilitando-se a enfrentar a presidente
Dilma Rousseff no segundo turno. Desde então, uma até então rara
polarização política, penetrada nos meios sociais e culturais por meio das
mídias sociais, passou a ganhar corpo. De um lado, os insatisfeitos com o
governo de Dilma Rousseff, em número cada vez maior, voltados
circunstancialmente para o apoio a Aécio Neves; do outro, os que ainda
apoiavam o governo ou temiam retrocessos com o fim de uma era de
governos progressistas e com a volta dos conservadores ao Palácio do
Planalto. A rejeição ao governo cresceu de forma acelerada nas semanas que
antecederam às eleições, a polarização tornou-se ainda mais acirrada,
especialmente por conta de uma clara e feroz campanha dos meios de
comunicação em prol do candidato do PSDB, o que rendeu um empate
técnico entre eles nas pesquisas de intenção de voto às vésperas das
eleições. A tendência, no entanto, não foi suficiente para virar o quadro
eleitoral, que terminou com a reeleição de Dilma Rousseff – no mais
apertado resultado eleitoral para a Presidência desde a redemocratização,
com apenas quatro milhões de votos a mais para a vencedora. Dilma, no
entanto, perdeu ao vencer.

A vitória apertada – em meio a uma rejeição que não parou de


crescer após as eleições, aliada a uma crise econômica aguda, fundamentada
por problemas internos, externos e por uma intensa campanha midiática que
devastou o ânimo dos atores econômicos em questão de meses –, fortaleceu
e incentivou ainda mais a reorganização de alguns setores políticos e
empresariais rivais às políticas progressistas, que viram na fragilidade do
recém-vitorioso governo uma oportunidade. Essa conjunção de fatores,
combinada à inabilidade do governo em reconhecer a gravidade do

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Os neogolpes e as interrupções de mandatos presidenciais na AL 82

problema e a elaborar estratégias de ação para conter sua sangria, tornou a


coesão política para a governança impraticável e abriu as portas para o
neogolpe, que passou a ser vislumbrado, mesmo que de forma incipiente,
ainda nos primeiros momentos do novo mandato.

Por ter condicionantes estruturais e um regime político mais


complexos – além de instituições tradicionalmente mais estáveis que
Honduras e Paraguai – a execução bem-sucedida do neogolpe no Brasil
exigiu mais tempo (um ano e oito meses desde o início do segundo
mandato, sendo nove meses em processo formal de destituição) e mais
características conjunturais favoráveis para sua conclusão. Manteve-se,
ainda, durante boa parte de seu desenvolvimento com um alto grau de
imprevisibilidade, especialmente quanto aos papéis dos atores políticos
envolvidos em sua execução, especialmente o Senado e o Supremo Tribunal
Federal (STF).

Como já citado, não se pretende neste trabalho fazer uma


minuciosa cronologia, nem uma análise político-conceitual mais
aprofundada da crise política deflagrada entre 2013 e 2014 (que ainda se
prolonga). Esta, por si só, é merecedora – e também já alvo – de artigos e
outros extensos materiais analíticos. Tantos os aspectos cronológicos,
quanto a análise político-conceitual serão utilizados na medida em que
contribuem para a compreensão do processo de impeachment como um
golpe não clássico, mas de natureza jurídico-parlamentar.

As correlações entre os requisitos necessários para a


execução de um neogolpe, descritos na parte conceitual deste artigo, e o
histórico recente da política brasileira, contudo, são diretas, como podemos
verificar a seguir.

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Os neogolpes e as interrupções de mandatos presidenciais na AL 83

Apoio popular à destituição

Trata-se de uma característica, como visto anteriormente, de grande


relevância, especialmente em democracias mais complexas, para que os
atores políticos e sociais interessados em derrubar o governo invistam neste
tipo de empreitada. A transformação dos protestos – inicialmente
deflagrados com aparência progressista em manifestações de direita; numa
segunda fase, tendo como pauta principal o combate à corrupção – não
foram suficientes para virar o quadro eleitoral de 2014, mas resultaram em
danos de imagem que o governo não conseguiu mais reparar. Como aponta
Singer (2013), o uso da corrupção como motivo de indignação foi um dos
principais fatores.

A direita buscou tingir as manifestações de um sentimento


anticorrupção. Convém lembrar que, no Brasil, essa é sempre a
arma favorita da oposição, e o objetivo quase único da direita,
nesta quadra, é opor-se ao governo federal, tirando o PT do
poder e, se puder, impedindo-o para sempre de voltar. Como a
corrupção é um fluxo de transações indevidas entre os bens
públicos e os interesses privados, os governos, enquanto
gestores da riqueza coletiva, estão constantemente no centro
das denúncias. (2013: 2)

Os protestos, a vitória nas eleições por margem apertada, a forte


atuação dos grandes veículos de comunicação em oposição ao governo e o
agravamento da crise econômica desembocaram em índices desastrosos de
popularidade do governo Dilma – registrados em 2015 e início de 2016 – e
em novas manifestações, dessa vez claramente de direita desde o início,
primeiramente com a pauta contra a corrupção e, numa segunda fase, pela
destituição da presidente. Insuflada por uma campanha midiática poucas
vezes vistas naquela dimensão, grandes contingentes da população, ainda
que a maioria formada por quem já havia rejeitado o governo, foram para as
ruas como os primeiros apoiadores declarados pela interrupção do mandato
presidencial. Forças políticas de oposição e antigos aliados entenderam o
recado, e viram nele um grande estímulo para a busca de alternativas para
que esse processo fosse consolidado.

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Os neogolpes e as interrupções de mandatos presidenciais na AL 84

Governo frágil, com dificuldades para a governabilidade, e


existência de acordo entre forças parlamentares para a
destituição

Como já analisado, tanto golpes clássicos como os neogolpes


atingem especialmente governos frágeis, impopulares e com problemas de
governabilidade. A queda vertiginosa nos índices de aprovação do governo
Dilma, especialmente a partir de seu segundo mandato, em 2015, e as
manifestações de rua pedindo sua destituição atingiram em cheio o frágil
equilíbrio do governo no Congresso Nacional, fazendo com que a oposição
– liderada pelo PSDB, mas principalmente parte relevante do PMDB, base
de sustentação da presidente na Câmara e no Senado – partisse, primeiro,
para arranjos que inviabilizaram o governo, impedindo a aprovação de toda
a sorte de medidas, aumentando ainda mais as crises política e econômica, o
que alimentou ainda mais a impopularidade; segundo, para um rearranjo de
forças que vislumbrou a sucessão por meio do impeachment, ou por
impugnação da chapa vencedora nas eleições, a partir denúncias de
irregularidades junto ao Supremo Tribunal Eleitoral (STE), caso as
tentativas de impedimento fossem por algum motivo frustradas.

O governo Dilma teve seu final sentenciado a partir do momento


em que seu principal partido aliado viu em uma guinada à oposição e na
aproximação com outras forças conservadoras mais oportunidades que em
sua permanência no governo. A saída oficial do PMDB do governo, em
março de 2016, foi, portanto, o início de um caminho sem volta, marco da
definitiva perda de governabilidade e sinal para que o então presidente da
Câmara, Eduardo Cunha, aceitasse um dos muitos pedidos de abertura de
processo de impeachment. Sob a alegação de que a presidente teria
cometido crime de responsabilidade ao assinar seis decretos de
suplementação orçamentária sem autorização do Congresso, em 2015, e por
atrasar o repasse de R$ 3,5 bilhões ao Banco do Brasil para pagamento do
programa de crédito agrícola Plano Safra, no que ficou conhecido como

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Os neogolpes e as interrupções de mandatos presidenciais na AL 85

“pedaladas fiscais”, a Câmara dos Deputados autorizou, no dia 17 de abriu


de 2016, por 367 votos a favor e 137 contra, a instauração de processo de
impeachment no Senado. No dia 12 de maio, o Senado aceitou o processo
contra a presidente, por 55 votos a favor e 22 contra, o que resultou em seu
afastamento do cargo, e fez o vice-presidente, Michel Temer, assumir na
condição de interino.

Respeito ao rito constitucional (com interpretação casuística da


lei) e apoio dessa interpretação por segmentos jurídicos,
políticos e midiáticos

O afastamento por impeachment de um presidente no Brasil é um


recurso, por si só, repleto de controvérsias jurídicas. Põe de um lado o texto
da Constituição de 1988 e, do outro, a Lei 1.079/1950 (Lei dos Crimes de
Responsabilidade – LCR), pré-existente e recepcionada pela última Carta
Magna. Os dois textos enviam mensagens muito mais que contraditórias,
antagônicas, sobre como se deve entender juridicamente e politicamente o
impeachment.

Segundo a Constituição, o regime político brasileiro é o


presidencialismo de mandato fixo, em que o presidente – chefe de Estado e
de governo – só pode ser afastado de seu cargo em casos excepcionais e
notoriamente de extrema gravidade. A responsabilidade de se definir que
casos são esses fica por conta da Lei 1.079/1950. O problema é que os casos
previstos pela lei não são nada excepcionais. Pelo contrário, são tão amplos
que, em alguns casos, sequer se parecem com o que se chama de crime.
Importante ressaltar que não se trata de um simples conflito entre a
Constituição e uma lei (existem outros inúmeros casos de conflitos desta
natureza). O fato grave é que a Constituição necessita do complemento de
uma lei que aponte o que são crimes de responsabilidade, mas o
complemento da lei vigente é contraditório e entra em notório choque com

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Os neogolpes e as interrupções de mandatos presidenciais na AL 86

um dos pilares do regime de governo que a mesma Constituição adotou, que


é o presidencialismo.

Esse desacordo tem motivo histórico. A LCR de 1950, adotada pela


Constituição de 1988, começou a tramitar em junho de 1948 e fazia parte de
uma ofensiva política muito forte, liderada pelo médico e político gaúcho
Raul Pilla, para implementar o parlamentarismo no Brasil. Pilla era
conhecido como o “Doutor Parlamentarismo”. Muitos opositores a Getúlio
Vargas viam desde o início da década de 1940 o parlamentarismo como
uma possível solução contra o centralismo federativo inaugurado no Estado
Novo, ideia esta que permaneceu. Em 1949, Pilla teve seu projeto de
emenda constitucional para mudar o regime barrado em uma das comissões
especiais pelas quais precisava passar, mas isso não o impediu de seguir em
frente, tentando estabelecer uma espécie de “parlamentarismo branco”, por
meio de legislação ordinária. E conseguiu, com a ajuda de notáveis
defensores da ideia – como Gustavo Capanema e João Mangabeira. Foi
dessa forma que Lei 1.079/1950 foi aprovada, construindo-se a
possibilidade de juízo político do presidente, típico do parlamentarismo,
entrar pela porta dos fundos do regime brasileiro, para nunca mais sair.

A fragilidade das leis que regulam o impeachment tornou mais fácil


as interpretações casuístas de crime em contextos políticos de fragilidade do
governo, e foi o que aconteceu no caso da presidente Dilma. Além dos
motivos alegados para a abertura de processo serem passíveis de
controvérsia jurídica, o que por si só já deveria ser motivo para não se ir à
frente na destituição de uma chefe de Estado e de governo, os decretos
assinados pela presidente – um dos motivos do processo – não ampliaram
gastos, apenas os remanejaram, como foi comprovado e amplamente
divulgado por sua defesa durante o processo. Dilma assinou os decretos por
solicitação de órgãos do Judiciário e do Tribunal de Contas da União
(TCU), apenas após avaliação do corpo técnico. Já o que ficou conhecido
como pedaladas fiscais foram, na verdade, atrasos em pagamentos, e não

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.55-97, mar./jun., 2018


Os neogolpes e as interrupções de mandatos presidenciais na AL 87

configuram empréstimos, como alegou a acusação. Nenhuma dessas


alegações, no entanto, foram suficientes para reverter uma decisão de cunho
político já acertada no Legislativo e, ainda, na mais alta corte do país. Em
uma clara penalidade desproporcional e contraditória às prerrogativas de um
chefe de Estado, no dia 31 de agosto de 2016, o Senado – por 61 votos a
favor e 20 contrários – considerou Dilma culpada e a destituiu de forma
definitiva da Presidência. Em um estranho e surpreendente procedimento
interno, no entanto, o mesmo Senado votou pela não cassação dos direitos
políticos da presidente, o que – pela Constituição – seria decorrente de sua
condenação. Tal fato fortaleceu ainda mais o fato de que se tratou de uma
condenação exclusivamente política, e não jurídico-política, como prevê a
Constituição.

Participação efetiva do Supremo Tribunal Federal no processo

O desafio feito à democracia foi respondido vigorosamente.


Sua recuperação tornou-se legítima através do movimento
realizado pelas Forças Armadas, já estando restabelecido o
poder do governo pela forma constitucional. (Alvaro Moutinho
Ribeiro da Costa, presidente do STF, em 2 de abril de 1964)

Também como já analisado anteriormente, não existe a


possibilidade de perpetração de um golpe branco sem a participação da mais
alta corte do país, seja ela atuando de forma ativa no processo – como no
caso de Honduras – seja por omissão, como no caso do Paraguai, ou por
ambos os papéis alternadamente, como no caso do Brasil.

No caso brasileiro, a participação ativa deu-se na intervenção do


Supremo Tribunal Federal, em abril de 2016, limitada ao estabelecimento
dos ritos de tramitação do processo na Câmara e no Senado, e na
participação do então presidente do STF, ministro Teori Zavascky, na
condução, como presidente da mesa diretora, nas sessões do Senado que
resultaram na destituição.

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.55-97, mar./jun., 2018


Os neogolpes e as interrupções de mandatos presidenciais na AL 88

A omissão, por sua vez, ocorreu na rejeição de todos os recursos


contra o processo de impeachment, sob a alegação, em quase todos os casos,
de que tal decisão consistiria em uma interferência do Poder Judiciário no
Poder Legislativo, apesar de todas as irregularidades já apontadas.
Ignoraram, no entanto, outro fato: o de que, ao negar a interferência nas
ações do Legislativo, permitiram não apenas uma interferência no
Executivo, mas a destituição da chefe de Estado e de governo a partir de
pena, no mínimo, desproporcional.

Comentários finais: os neogolpes como fenômeno regional

Em discurso proferido no Parlamento Britânico, em 2011, o


presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, não deixou dúvidas quanto à
preocupação norte-americana com a ascensão de novos países ao papel de
lideranças mundiais, enfatizando ao mesmo tempo sua disposição em
manter a aliança entre Estados Unidos e Reino Unido como o principal eixo
de poder e em traduzir esse objetivo em ações efetivas de política externa.

No decorrer dessa rápida mudança, tornou-se moda em alguns lugares


questionar se a ascensão dessas nações (China, Índia e Brasil) implicará
no declínio da influência americana e europeia no mundo. Talvez, de
acordo com o argumento, essas nações representem o futuro, e a época da
nossa liderança tenha passado. Mas o argumento está errado. O momento
para a nossa liderança é agora. Foram os Estados Unidos e o Reino Unido
e nossos aliados democráticos que moldaram um mundo no qual novas
nações pudessem emergir e as pessoas pudessem prosperar. E mesmo
com mais nações assumindo responsabilidades da liderança global, nossa
aliança continuará indispensável para a meta de um século mais pacífico,
mais próspero e mais justo 6.

Nessa clara estratégia de manutenção do status quo, a América


Latina ganhou, após mais de uma década relegada a segundo plano,
destaque especial. Governos democratas sempre viram com mais atenção a

6
Discurso disponível na íntegra em:
http://iipdigital.usembassy.gov/st/portuguese/texttrans/2011/05/20110526135538x0.521064
4.html#ixzz4A42UzUEA

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.55-97, mar./jun., 2018


Os neogolpes e as interrupções de mandatos presidenciais na AL 89

região, considerada área de influência direta dos EUA, do que os


republicanos, mais interessados na agenda dura de segurança global.
Importante ressaltar que foi durante os mandatos de George W. Bush, com
sua estratégia de combate ao terrorismo e seu decorrente distanciamento
hemisférico, que praticamente todos os governos latino-americanos recentes
de orientação progressista chegaram ao poder.

Obama se empenhou de forma particular durante seus dois


mandatos para reverter a perda de influência na região e para recuperar
terreno perdido para países como China e Rússia. Intensificou as visitas de
Estado, reavivou acordos militares com a Colômbia, intensificou acordos de
comércio com Chile e Peru, reaproximou o país da Argentina após a eleição
de Maurício Macri e promoveu uma história e simbólica reaproximação
com Cuba. Foram tantas mudanças em tão pouco tempo que o jornal
espanhol “El País” chegou a afirmar que o presidente norte-americano
“consolidou a reconciliação com a América Latina” e transformou 2016 “no
ano do reposicionamento dos EUA no continente”7.

A maior presença dos EUA na região e o claro sinal dado pela Casa
Branca à intensificação da cooperação serviram como um estímulo a mais
para as oposições conservadoras latino-americanas – quase todas
declaradamente insatisfeitas com o pragmatismo diplomático adotado pelos
governos progressistas em relação à grande potência e desejosas do
reestabelecimento de relações políticas mais próximas com Washington. A
correlação entre forças políticas internas e forças externas não é novidade
nos estudos políticos. Putnam (2008), na análise que denomina como um
“jogo de dois níveis”, estabelece que, apesar das dificuldades em se
estabelecer os níveis de influência da política externa sobre os assuntos
domésticos (e vice-versa), ela existe, é perceptível e deve fazer parte de um
todo interpretativo.

7
Edição online do “El Pais” Brasil de 20 de março de 2016, disponível no link
http://brasil.elpais.com/brasil/2016/03/19/internacional/1458363634_714219.html

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.55-97, mar./jun., 2018


Os neogolpes e as interrupções de mandatos presidenciais na AL 90

No nível nacional, os grupos domésticos perseguem seu


interesse pressionando o governo a adotar políticas favoráveis a
seus interesses e os políticos buscam o poder constituindo
coalizões entre esses grupos. No nível internacional, os
governos nacionais buscam maximizar suas próprias
habilidades de satisfazer as pressões domésticas, enquanto
minimizam as conseqüências adversas das evoluções externas.
Nenhum dos dois jogos pode ser ignorado pelos tomadores de
decisão, pois seus países permanecem ao mesmo tempo
interdependentes e soberanos. Cada líder político nacional está
presente em ambos os tabuleiros. (2008: 151)

A convergência entre as orientações e interesses internos das elites


conservadoras latino-americanas, o que inclui pelos mais diferentes motivos
econômicos, históricos e sociais uma reaproximação com os EUA e a
tentativa conjuntural de maior presença da Casa Branca na região, ficou
ainda mais evidente após os três neogolpes, entre 2009 e 2016, pelas
seguintes razões:

1- Nos três casos, em Honduras, Paraguai e Brasil, os governos


conservadores e liberais que chegaram ao poder após as
destituições dos presidentes promoveram uma rápida guinada na
política externa, com clara tentativa de maior aproximação com os
EUA em detrimento do relacionamento com centros alternativos de
poder, especialmente a China. Mudança esta que não significou,
por razões óbvias, uma mudança brusca nas relações comerciais
com Pequim, mas, sem dúvida, no rápido, ainda que discreto,
esvaziamento dos relacionamentos político-estratégicos.

2- Apesar da postura oscilante no início da crise política


hondurenha, nenhum dos três casos foi considerado pelos EUA
como um golpe; e nenhum tipo de retaliação, sanção ou crítica foi
feita de forma mais enfática. No caso de Honduras, as acusações de
golpe foram rapidamente minimizadas e o reconhecimento do novo
governo foi rápido. Os governos paraguaio e brasileiro, após as

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.55-97, mar./jun., 2018


Os neogolpes e as interrupções de mandatos presidenciais na AL 91

deposições, também foram reconhecidos imediatamente, sem


qualquer restrição.

3- Também nos três casos, observa-se uma importante e quase


imediata regressão de políticas desenvolvimentistas e de assistência
social, e um forte incentivo a políticas de cunho liberal,
capitaneadas especialmente pelas privatizações e pela redução dos
gastos do Estado em áreas como saúde e educação – políticas esta
tradicionalmente defendidas pelos Estados Unidos como as mais
adequadas para o desenvolvimento regional.

4- Tanto Honduras quanto Paraguai e Brasil promoveram


mudanças substanciais em suas políticas regionais de integração,
tradicionalmente vistas com reservas pelos EUA, revendo seus
papéis em organizações regionais e alterando acordos e prioridades
antes concedidas ao relacionamento com países vizinhos.

As mudanças nas políticas externa e econômica, promovidas de


forma acelerada nos três países após os neogolpes, têm características muito
próximas às que foram adotadas pelos governos neoliberais latino-
americanos dos anos 1990, convergem com as diretrizes dos EUA adotadas
partir do governo Obama e – especialmente por causa do Brasil – levam a
grande potência mais uma vez para o lugar mais central das prioridades e
das ações regionais. Se as destituições ocorridas em Honduras e Paraguai
acenderam um alerta para um possível novo método regional de interrupção
de mandatos presidenciais, o neogolpe ocorrido no Brasil não apenas
confirma esta tendência, como se apresenta como possível foco irradiador,
especialmente para os países onde os governos progressistas ainda estão no
poder, constituindo-se como importante ameaça ao cumprimento de
mandatos presidenciais. Os países da América Latina, mais uma vez, são
rodeados pelo fantasma da ruptura institucional e do desrespeito aos
mandatos eleitos de forma democrática; e para reconquistarem a

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.55-97, mar./jun., 2018


Os neogolpes e as interrupções de mandatos presidenciais na AL 92

estabilidade, precisarão desenvolver mecanismos constitucionais de


proteção contra essas novas formas de tomada de poder.

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Os neogolpes e as interrupções de mandatos presidenciais na AL 97

Palavras-
Resumo: A partir de Resumo: Este artigo tem como objetivo caracterizar
conceitualmente as deposições dos presidentes do Brasil
chave: Dilma Rousseff, do Paraguai Fernando Lugo, e de Honduras
Manuel Zelaya, como neogolpes; mostrando, ao mesmo
tempo, que tal prática tornou-se um novo modus operandi
Neogolpes; regional, em substituição aos golpes clássicos levados a cabo
com êxito pela última vez nos anos 1960 e 1970, com o
América Latina; objetivo de derrubar governos progressistas e restaurar forças
Brasil; Paraguai; políticas conservadoras, por vias não eleitorais, no comando
dos Poderes Executivos desses países. Tal objetivo decorre
Honduras. para o cumprimento de outro secundário, porém não menos
importante, que é o de apontar a correlação entre os
neogolpes na América Latina e a atual conjunta geopolítica
regional e internacional, marcada por uma intensa reação
norte-americana ao avanço em nível global de polos
alternativos de poder, por uma política forte de
realinhamento de sua área de influência direta (o continente
americano) e pelo revigoramento de forças políticas latino-
americanas conservadoras, tradicionalmente mais próximas
aos Estados Unidos que as progressistas.

Keywords ABSTRACT: The neo coups and the interruptions of


presidential terms in Latin America: the cases of Honduras,
Paraguay and Brazil This paper aims to characterize the
Neo coups; depositions of the presidents of Brazil Dilma Rousseff,
Latin America; Paraguay Fernando Lugo, and Honduras Manuel Zelaya as
neo coups, showing at the same time that this practice has
Brazil. become a new regional modus operandi, replacing the coups
Paraguay, that were successfully for the last time in the 1960s and
1970s, with the goal of overthrowing progressive
Honduras
governments and restoring conservative political forces
through non-electoral leadership to the Executive Powers of
these countries. Not less important is the correlation between
the neo coups in Latin America and the regional and
international geopolitics, marked by an intense American
reaction to the advance at the global level alternative poles of
power, a strong policy of realignment of its direct area of
influence, the American continent, and the reinvigoration of
conservative Latin American political forces, traditionally
closer to the United States than progressive ones

Recebido para publicação em junho/2017

Aceito para publicação em outubro/2017

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.55-97, mar./jun., 2018


Regressão democrática
na América Latina:
do ciclo político progressista ao ciclo
político neoliberal e autoritário

Josué Medeiros
Universidade Federal do Rio de Janeiro (BRA)

Esse artigo é dedicado a Eduardo Galeano e Gabriel Garcia Marquez, dois latino-
americanos que nos ajudam a imaginar nossa identidade coletiva na América Latina.

Em abril de 2014, o uruguaio Eduardo Galeano esteve no Brasil e


declarou – ao ser perguntado sobre seu livro mais vendido, As Veias Abertas
da América Latina (1971) – que “não seria capaz de ler de novo. Cairia
desmaiado”. Prossegue o ensaísta, falecido um ano depois, em abril de
2015, dizendo que “a prosa da esquerda tradicional é chatíssima. Meu físico
não aguentaria. Seria internado no pronto-socorro”1.

1
http://brasil.elpais.com/brasil/2014/05/04/cultura/1399232315_232658.html

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.98-165, mar./jun., 2018


Regressão democrática na AL 99

A rejeição, na maturidade, à própria obra-prima também marcou a


trajetória de Gabriel Garcia Márquez – romancista colombiano morto em
abril de 2014 e ganhador do prêmio Nobel de literatura em 1982. No caso
do “Gabo”, apelido carinhoso do escritor, havia algo mais que do que um
simples desapego, era mesmo um verdadeiro ódio do autor ao seu livro de
maior alcance, o clássico Cem Anos de Solidão (1967). Em entrevista
concedida a um jornal espanhol, em 1991, republicada parcialmente quando
ele morreu, Garcia Márquez resolve falar sobre o seu romance mais célebre,
considerado o segundo mais importante da literatura hispânica pelo IV
Congresso Internacional da Língua Espanhola, ocorrido em 2007, na
Colômbia, atrás apenas de Dom Quixote.

Apesar dos prêmios, Gabo declarava que “Yo no reniego 'Cien


años de soledad'. Me ocurre algo peor: la odio”. Ao explicar o porquê desse
ódio, ele contava que

Antes, cuando era una persona normal y espontánea, quedaba


con alguien para almorzar y bromeábamos de cualquier
insignificancia y nos lo pasábamos estupendamente. Ahora,
cuando llego a un restaurante, hay veinte personas
esperándome, como si fuese una atracción de circo. Y no sólo
eso: durante el transcurso de la comida esperan la frase
inteligente, la ocurrencia magistral.

Márquez afirmou ainda, naquela ocasião, que tal sucesso não fazia
sentido
Los críticos tratan de solemnizar y de encontrarle el pelo al
huevo a una novela que dice muchas menos cosas de lo que
ellos pretenden. Sus claves son simples, yo diría que
elementales, con constantes guiños a mis amigos y conocidos,
una complicidad que sólo ellos pueden entender 2.

Entre chaves simples e prosas chatas – existe uma anedota que


atribui ao escritor argentino José Luís Borges a frase “com 50 anos, já dava

2
http://www.abc.es/cultura/libros/20140417/abci-garcia-marquez-odio-cien-
201404172322.html

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.98-133, mar./jun., 2018


Regressão democrática na AL 100

para contar toda a história" para criticar a obra do colega colombiano 3 – o


fato é que a atual conjuntura política na América Latina parece contrariar
Garcia Márquez e Galeano no desapego aos seus clássicos. Vivenciamos a
substituição do ciclo político progressista (Soares Lima: 2008) por um ciclo
político neoliberal e autoritário. Se aquele parecia confirmar a virtude e a
necessidade dos nossos povos de produzir novas coordenadas simbólicas
para além das veias abertas e dos muitos anos de solidão, este último repõe
as dores e dramas que foram universalizados nestas (e em muitas outras)
obras seminais.

O ciclo político progressista tem como primeiro marco a eleição,


em 1998, de Hugo Chávez para presidente da Venezuela e se consolida com
a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, no Brasil, em 2002, e de Nestor
Kirchner, na Argentina, em 2003. Suas dinâmicas e processos se
desenvolvem até 2013 mais ou menos, quando vários sinais de crise se
apresentaram por todo lado. A partir de 2015, com a vitória de Maurício
Macri, na Argentina, a derrota de Nicolas Maduro nas eleições
parlamentares da Venezuela e a abertura do processo de impeachment da
presidenta Dilma Rousseff no Brasil, abriu-se o ciclo político neoliberal, o
qual buscaremos caracterizar mais adiante.

Não obstante, demarcaremos o começo e o fim do ciclo político


progressista com processos eleitorais, seus sentidos transformadores foram
profundos e ultrapassam em muito o calendário de votações. Gustavo Codas
nos apresenta uma excelente sistematização desse alcance ampliado do ciclo
político progressista, afirmando:

a emergência, na região, de um ciclo político diferente de tudo


quanto foi visto em nossa era independente, no qual a busca de
um novo papel no cenário mundial e na divisão internacional
do trabalho são não apenas discursos ou intenções, mas se
concretizam em mudanças reais (2013: 3).

3 http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2017/05/1880597-50-anos-bastavam-teria-dito-
borges-sobre-cem-anos-de-solidao.shtml

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.98-133, mar./jun., 2018


Regressão democrática na AL 101

Codas recupera o processo de resistência e de superação do projeto


da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA). O autor relembra a
realização da Cúpula das Américas, em Quebec (Canadá), em 2001.
Naquele momento
O governo dos Estados Unidos parecia já tocar com a ponta
dos dedos a realização do projeto pan-americanista que lançara
ainda no final do século XIX e que, cem anos depois, na
década de 1990, havia encontrado terreno fértil numa região
com governos sob hegemonia neoliberal e já despojados de
qualquer veleidade de desenvolvimento com soberania.
(2013:3)

O autor destaca que, em 2001, apenas Chávez “aproximou-se ‘do


lado de fora’, dos movimentos contestatários, para prestar sua
solidariedade” e, mais importante, “colocou, ‘do lado de dentro’ da reunião
oficial, objeções ao acordo que vinha sendo negociado desde meados da
década anterior”. Quatro anos depois, prossegue Codas, o quadro se alterara
radicalmente. A Cúpula das Américas de 2005, em Mar del Plata, na
Argentina, “enterra definitivamente as negociações da ALCA, um tema que
sai da agenda hemisférica” (2013:3) ao ser recusada pelos principais
governos do continente.

Enfim, o ciclo político progressista consistiu em um inédito


processo de afirmação soberana, que hoje é deixado no passado, em um
contexto no qual Brasil e Argentina buscam se inserir subalternamente em
arranjos geopolíticos hegemonizados pelos países do Norte, tais como a
tentativa brasileira de aderir à Organização para a Cooperação e
Desenvolvimento Econômico (OCDE)4 ou o pleito argentino para fazer
parte da Aliança para o Pacífico em detrimento do Mercosul5.

É verdade que a América Latina mudou muito desde a publicação


dos dois livros; e mesmo desde o momento em que as duas obras tornaram-

4
http://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2017-05/brasil-formaliza-pedido-de-
adesao-ocde
5
http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,macri-comeca-aproximacao-com-o-
pacifico,10000057220

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Regressão democrática na AL 102

se obrigatórias para o pensamento crítico dos nossos povos: nossa


urbanização está consolidada, com suas contraditórias e ricas dinâmicas
sociais e políticas totalmente ativadas; nossa democracia apresentou, até
aqui, um grau de continuidade jamais alcançado, e é nesse quadro que as
novas gerações de latino-americanos estão a sonhar e fazer identidades
coletivas que não cabem mais nos símbolos consagrados pelos dois
escritores.

A despeito dessa América Latina viva que floresce no século XXI,


existem estruturas mesquinhas que teimam em sobreviver e que lançam suas
sombras sobre os povos do nosso continente, inibindo o crescimento dos
nossos melhores frutos. Desigualdade e violência que parecem atualizar – e
mesmo eternizar – as imagens que marcam a identidade latino-americana
extraída dos clássicos de Galeano e Garcia Márquez, ainda que contra a
vontade (estética e política) de ambos.

Muitas dessas estruturas estão na raiz das recentes quedas


presidenciais em Honduras (2009), Paraguai (2012) e Brasil (2016) e que
ameaçam a democracia, os direitos e os povos em toda a região. Não
convém ignorá-las, portanto. Entretanto, o que parece repetição do trágico
destino colonial que nos marcou, latino-americanos, até o século XX, é
também muito mais que isso, pois existem dimensões conjunturais
atualíssimas e tendências de longo prazo que ultrapassam os sentidos da
mera reposição do passado. Conforma-se, portanto, um novo ciclo político
na América Latina que atualiza estruturas pregressas, reforça tendências
futuras e que apresenta dinâmicas conjunturais nas quais as quedas
presidenciais são um dos elementos a serem destacados.

Buscaremos argumentar, na segunda parte deste artigo, qual é a


natureza desse ciclo político neoliberal e autoritário. Antes, na primeira
parte, o objetivo é conceituar o que é um ciclo político, de modo a fornecer

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.98-133, mar./jun., 2018


Regressão democrática na AL 103

patamares comuns para avaliar situações políticas, econômicas e sociais que


atravessam vários países de uma mesma região.

O conceito de ciclo político

São muitos os desafios de analisar as recentes quedas presidenciais


na América Latina. São todas elas resultados de crises políticas agudas em
seus respectivos países, situações em que a conjuntura avança com
velocidade, quando é grande (muitas vezes irresistível) a tentação de
encerrar as análises nas dinâmicas internas e na chave dos eventos de curto
prazo – por exemplo, a inabilidade da/do presidenta/e ou algum tipo de ação
externa da potência imperialista. Outra tentação que decorre da intensa
lógica endógena de cada nação é a da extrema especialização de cada
situação, como se não fosse possível encontrar elementos comuns a todos –
ou a maioria – dos países.

É preciso inserir, contudo, as específicas conjunturas em uma


dinâmica mais geral dos conflitos de classe na América Latina, qual seja, a
das disputas pelos sentidos do desenvolvimento capitalista no continente. É
fundamental identificar e analisar as “linhas de força” (Domingues, 2017: 7)
que informam a política latino-americana. Somente assim poderemos inserir
outros processos em curso na região no mesmo contexto político das quedas
presidenciais de Manuel Zelaya, em 2009, em Honduras; de Fernando Lugo,
no Paraguai, em 2012 e de Dilma Rousseff, em 2016, no Brasil.

Entre outros, pensamos na já referida vitória de Macri nas eleições


presidenciais argentinas de 2015 e na derrota de Evo Morales no referendo
de 2016, que perguntou à população boliviana se o presidente poderia tentar
uma nova reeleição. No mesmo sentido, é apenas investigando as tendências
gerais que atravessam a maioria os países da América Latina que é possível
compreender as dinâmicas políticas mais recentes, tais como a vitória de
Pinera nas eleições presidenciais chilenas em dezembro de 2017 e a derrota

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.98-133, mar./jun., 2018


Regressão democrática na AL 104

de Rafael Correa no plebiscito equatoriano em fevereiro de 2018, bem como


aquelas situações cujo conflito se exacerba (pré-guerra civil, ameaça de
intervenção externa dos EUA) sem que o equilíbrio de forças se altere, tal
como verificamos na Venezuela, onde chavismo e oposição alternam
vitórias e derrotas: primeiro, a apertada vitória de Maduro na disputa do
cargo máximo da República Bolivariana, em abril de 2013; em seguida, a
acachapante supremacia da oposição nas eleições legislativas de dezembro
de 2015; e mais recentemente, o novo triunfo governista nas eleições
regionais em outubro de 2017. Ademais, o método de ampliar o olhar sobre
as especificidades nacionais para inseri-las em dinâmicas mais amplas e
estruturais é fundamental para entendermos as crises nas esquerdas do
continente, que se manifestam nas cisões entre o atual presidente do
Equador, Lênin Moreno, e seu antecessor, Rafael Correa, e mesmo na
recente denúncia de corrupção que levou Raul Sendic a renunciar do posto
de vice-presidente do Uruguai.

Por fim, constituir uma reflexão a partir da dialética entre


conjuntura e estrutura é condição para avaliarmos corretamente os processos
que parecem significar uma continuidade do ciclo político progressista, em
especial as eleições de Tabaré Vásquez no Uruguai, em 2015; de Daniel
Ortega na Nicarágua, em 2016; de Lênin Moreno no Equador, em 2017.
Proceder da maneira que estamos defendendo nestas páginas nos ajudará a
qualificar esses resultados enquanto tendências que estão em vias de
superação e que se constituem como dimensões de resistência ao novo
contexto do ciclo político neoliberal, certamente mais desfavorável para as
classes subalternas do que o ciclo político anterior.

Daí vem a importância do conceito de ciclo político, que em geral


já é amplamente usado nas análises sobre política internacional. Trata-se de
uma categoria bastante útil para que possamos apreender situações de
correlação de força e de tendências de longo prazo que se repetem em vários
países de uma mesma região que pode nos ajudar também – quer na análise

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.98-133, mar./jun., 2018


Regressão democrática na AL 105

sobre as dinâmicas políticas internas a uma nação específica, quer nas


reflexões sobre a geopolítica internacional como um todo.

Na introdução da coletânea de artigos sobre a esquerda europeia


intitulada “Mapa da esquerda na Europa Ocidental”, Perry Anderson
identifica, para a Europa central e a do Norte, o advento de um ciclo político
socialdemocrata no pós-2ª Guerra Mundial, alicerçado na “edificação de
welfare states, com pleno emprego e amplos serviços sociais” (Anderson,
1994: 10). Ele fala de um ciclo de 30 anos e finalmente, na metade da
década de 1970, “pela primeira e única vez na história do pós-guerra, havia
primeiros ministros socialdemocratas em todos os Estados da região: Grã-
Bretanha, Alemanha Ocidental, Áustria, Bélgica, Holanda, Noruega,
Dinamarca, Suécia e Finlândia” (Idem). O auge marcou o começo do
declínio, pois como afirma Anderson,

Esmoreceram as condições econômicas subjacentes ao sucesso


do reformismo do Norte. (...). Ficou claro que a economia
capitalista mundial estava caminhando um longo declínio. Na
nova conjuntura, a socialdemocracia não carecia apenas de
políticas eficazes para enfrentar a crise. Ela se viu associada à
própria crise, quando o ressurgimento ideológico do
monetarismo escolheu os gastos estatais excessivos e os
sindicatos superpoderosos como as causas-chaves da
estagflação. (1994: 10-11).

Com relação à América do Sul, Maria Regina Soares Lima nos


mostra que os ciclos políticos se dão de modo integrado, ora de modo
subordinado, ora com tensões que buscam abrir caminhos autônomos aos
ciclos políticos originados e protagonizados pelas potências globais. Assim,
enquanto a Europa e os EUA viviam o que ela chama de “consenso
socialdemocrata” (Soares Lima, 2008: 5); na América Latina, imperava o
“ciclo autoritário” que se estende de 1954 (Guatemala) até o fim dos anos
1970 – ciclo esse sustentado pelos EUA no contexto da Guerra Fria
justamente para evitar que qualquer tipo de dinâmica progressista se
consolidasse nos países latino-americanos, possibilidade que se mostrava
concreta para os povos da região.

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Regressão democrática na AL 106

Quando passamos para o ciclo político da redemocratização latino-


americana na década de 1980, o quadro no Norte global verificava uma
alteração profunda:
As forças sociais representantes dos interesses do grande
capital industrial e financeiro e seus aliados políticos reagiram
ao consenso socialdemocrata - erigido no pós Segunda Guerra
em resposta ao colapso do liberalismo clássico - restaurando
um ordenamento orientado para o mercado em muito
semelhante aquele que havia entrado em colapso nos anos 30
(Soares Lima, 2008: 5).

Nossa transição à democracia se deu, desta forma, subordinada à


hegemonia neoliberal, resultando em um “novo ordenamento” político,
jurídico e institucional que “seguiu de perto os preceitos do Consenso de
Washington, cujas recomendações estavam centradas na abertura comercial,
liberalização financeira, desregulamentação, privatização, redução estado
empresário e equilíbrio fiscal” (Soares Lima, 2008: 5).

O quadro só se altera no final dos anos 1990 e começo dos anos


2000, com a série de vitórias “dos governos progressistas, definidos de
forma esquemática como aqueles originários de partidos de esquerda” e que
devem sua emergência ao “impasse, em algumas situações, falência mesmo,
daqueles experimentos neoliberais dos anos 1990” (Soares Lima, 2008: 5-
6).
Uma vez identificados os diferentes ciclos políticos – seja na
Europa, seja na América Latina, que de fato interessa ao presente artigo –
trata-se então de avançar em uma definição conceitual do que é um ciclo
político, o que faremos destacando três das características mais gerais que,
acreditamos, estão acima das diferenças conjunturais que cada ciclo
apresenta em comparação com o outro. São elas a multiplicidade dos
tempos históricos (i); a articulação dialética entre conjuntura e estrutura (ii);
as várias dimensões políticas e sociais que, juntas, formam um ciclo
político, tais como as lutas, as eleições, as formas de ação coletiva daquele

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Regressão democrática na AL 107

determinado período, as questões programáticas que são mobilizadas por


cada nova geração (iii).
A primeira característica fundamental é, então, a questão da
temporalidade histórica. Anderson destaca o aspecto mais duradouro desse
tipo de ciclo em comparação com as contingências eleitorais:

Os ciclos eleitorais vão e vêm. (...). Continuará a haver


governos conduzidos por partidos socialdemocratas (...) e
futuras eleições serão ganhas por eles. (...). Mas há uma crise
subjacente, cujo sentido é inequívoco. Ela não foi aliviada, mas
agravada, pelo colapso do comunismo na Europa Oriental. (...).
O triunfo ideológico do mercado foi tão completo no Leste que
ricocheteou contra qualquer uso do Estado para a regulação
econômica ou a previdência social no Ocidente (Anderson,
1994: 15).

Maria Regina Soares Lima ressalta que o ciclo político progressista


na América do Sul “só pode ser entendido de forma plena quando se leva
em conta movimentos profundos no sistema internacional e na própria
região que se observaram no final do século e início do novo milênio”
(2008: 6). Que movimentos são esses? A autora destaca dois – e em ambos
sobressai a questão do tempo histórico que se prolonga: “O primeiro deles,
por sua abrangência sistêmica, é a expansão territorial do capitalismo e a
configuração de um capitalismo realmente global” (Soares Lima, 2008: 6).
Complementando os processos mais gerais e estruturais que informam os
ciclos políticos, vem “o segundo movimento que se alastrou nos anos 1990
foi a crise dos governos autoritários e as bem-sucedidas transições
democráticas nos países do Sul e no Leste Europeus” (Soares Lima, 2008:
7).

Podemos inferir, portanto, que os ciclos políticos só podem ser


adequadamente compreendidos a partir da multiplicidade dos tempos
históricos tal qual formulou o historiador francês Fernand Braudel. Membro
da influente Escola dos Annales e por muito tempo seu diretor, Braudel é
autor de uma das mais significativas contribuições que essa escola deu à
teoria social (Burke, 1990: 54).

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.98-133, mar./jun., 2018


Regressão democrática na AL 108

A primeira contribuição que o pensamento de Braudel traz a este


artigo consiste em sua constante militância pela derrubada das fronteiras que
cindem os diversos domínios das ciências humanas. Segundo o historiador
francês, “há uma crise geral das ciências do homem: estão todas esmagadas
sob seus próprios progressos” (Braudel, 1978: 41). Ele vai além e diz que
“cada ciência social é imperialista” quando apresenta “suas conclusões
como uma visão global do homem” quando são, na verdade, “visões
particulares” (Braudel, 1978: 80). A segunda e principal contribuição está
na formação de “uma noção cada vez mais precisa da multiplicidade do
tempo e do valor excepcional do tempo longo” (Braudel, 1978:44). De
acordo com Braudel,

A história se situa em três patamares diferentes, mas isto é


modo de falar, muito simplista. São dez, cem patamares que
seria preciso pôr em pauta, dez, cem durações diversas. Na
superfície uma história factual se inscreve no tempo curto: é
uma micro-história. A meia encosta, uma história conjuntural,
segue um ritmo mais lento. (...). Para além desse recitativo da
conjuntura, a história estrutural ou de longa duração coloca em
jogo séculos inteiros; está no limite do móvel e do imóvel e por
seus valores fixos, há muito tempo, faz figura de invariante em
face de outras histórias, mais vivas a se escoar, a se consumar e
que, em suma, gravitam em torno dela”. (Braudel, 1978:105).

Os ciclos políticos condensam essa multiplicidade dos tempos e, a


partir delas, vem a segunda característica fundamental de um ciclo político,
a saber, a articulação dialética entre liberdade e necessidade, entre agência e
determinação, entre conjuntura e estrutura. Soares Lima e Anderson
destacam a importância dos eventos eleitorais e políticos mais imediatos
para entender a emergência e ocaso dos ciclos. Há, nas duas análises, um
espaço importante para a agência. Soares Lima demarca que é preciso
recusar a ideia de que a sucessão dos ciclos políticos na América Latina “foi
um processo evolutivo natural”, entendendo que tal sequência “dependeu
fundamentalmente das escolhas e decisões tomadas pelos agentes públicos e
privados” em cada sociedade (Soares Lima, 2008: 6). Anderson afirma que
“os partidos são vistos como atores coletivos, que fazem suas escolhas”

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.98-133, mar./jun., 2018


Regressão democrática na AL 109

cujas trajetórias não podem ser reduzidas “a algum destino predeterminado”


e que “o retrospecto histórico mostra possibilidades que não se realizaram,
oportunidades perdidas tanto quanto erros evitados” (Anderson, 1994: 17).

Não obstante, os autores não recaem em uma análise voluntarista, a


qual despreza as estruturas – isto é, a longa duração braudeliana. Para
Soares Lima, o ciclo político progressista é fruto de escolhas políticas feitas
a partir de bases estruturais tais como a expansão do capitalismo enquanto
sistema mundo, o fim da guerra fria e a constituição de uma nova ordem
mundial e a crise do neoliberalismo, projeto político e valorativo
hegemônico dos processos estruturais que ela identifica. Em suas palavras,

a emergência dos governos de esquerda na América do Sul,


suscitada pela falência dos experimentos neoliberais anteriores,
deve ser entendida levando-se em conta as profundas
transformações na economia política do capitalismo e na
geopolítica global, bem como as transformações políticas e
econômicas regionais, ressaltando-se entre elas o vigor da onda
de democratização política em curso. (Soares Lima, 2008: 8).

Por seu turno, Anderson (1994: 20-22) aponta caraterísticas


estruturais do capitalismo mais avançado como decisivas para o ciclo
político neoliberal na Europa, cujas manifestações na América Latina
devem ser investigadas, pois são características incontornáveis caso a
socialdemocracia (ou o progressismo latino-americano) almeje reconstituir
um ciclo político sob sua hegemonia.

Segundo o autor, trata-se, principalmente, da nova configuração da


classe trabalhadora, mais heterogênea do que o grosso do proletariado
industrial que se constituiu entre os anos 1950 e 1970. São cinco as
dinâmicas sócio-políticas estruturais que, na análise de Anderson,
diversificaram a classe trabalhadora europeia: gênero (mais feminina),
idade, etnia (migração das ex-colônias), composição profissional
(predominância do setor terciário/serviços sobre o secundário/indústria) e
diferentes formas de pertencimento ao Estado do Bem-Estar (consolidação
do desemprego estrutural e da informalidade sistêmica). “O resultado foi

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.98-133, mar./jun., 2018


Regressão democrática na AL 110

uma polarização social do próprio operariado manual, com crescentes


conflitos de interesse entre seus grupos mais desprotegidos e os mais
privilegiados” (Anderson, 1994: 21).

Em suma, recorrendo novamente a uma passagem de José Mauricio


Domingues, trata-se de operar a necessária e urgente investigação sobre as
recentes quedas presidenciais na América Latina em um quadro analítico
que incorpora “avaliações substantivas da conjuntura” com a “busca de
processos de mais longo prazo, com compromissos conceituais sistemáticos
em muitos momentos, culminando com uma discussão sobre tendências de
desenvolvimento” (Domingues, 2017: 8, grifos do autor). Ao fazermos isso,
podemos dar substância ao diagnóstico de que a América Latina vive um
novo ciclo político, que passaremos a caracterizar na próxima seção.

A terceira característica conceitual dos ciclos políticos que precisa


ser destacada é a existência de múltiplas dimensões sociais e políticas em
cada período, tais como os ciclos eleitorais – ou os ciclos de luta que
emergem dos conflitos de longo prazo – e também os ciclos organizativos e
programáticos das classes sociais em movimento e disputa, que geralmente
estão ligados à entrada na cena política de novas gerações, com suas
próprias demandas e subjetividades.

José Mauricio Domingues apresenta sobre o Brasil pós-golpe de


2016 um tipo de reflexão que podemos estender para o conjunto da América
Latina na medida em que dela é possível extrair elementos importantes para
conceituar essa terceira características dos ciclos políticos. Diz o sociólogo
que “o Brasil vive conjuntura particularmente complexa por se encontrar em
um momento em que os finais de vários ciclos se cruzam e se
sobredeterminam” (Domingues, 2017: 42). O primeiro é o ciclo da
redemocratização, iniciado nos anos 1970 com a anistia e as greves e que se
desenvolve na década de 1980: “as energias mobilizadas naqueles tempos já
não existem, os quadros que as teceram envelheceram, algumas de suas

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Regressão democrática na AL 111

ideias se concretizaram, muitas foram abandonadas, as formas de


organização que engendraram se encarquilharam ou se mancharam”.
(Domingues, 2017: 43).

O segundo ciclo que se esgota no Brasil é o “da absoluta e


inconteste hegemonia do PT na esquerda brasileira” (Domingues, 2017: 43),
ciclo que tem como marco as primeiras eleições presidenciais de 1989,
quando as forças políticas e sociais que produziram a redemocratização
apresentaram cinco candidatos diferentes (Lula pelo PT, Brizola pelo PDT,
Ulisses pelo PMDB, Roberto Freire pelo PCB e Mário Covas pelo PSDB).
Como é sabido, Lula foi quem conseguiu ir para o segundo turno
enfrentando os setores mais identificados com o bloco histórico de poder
das classes dominantes. Embora derrotado, a maior liderança operária do
Brasil consolidou-se, naquela quadra, como principal liderança da esquerda
brasileira (o mesmo valendo para o seu partido).

Coincide com o crescente esgotamento da hegemonia petista na


esquerda o fim do ciclo eleitoral do lulismo, tal como foi definido por
Singer, baseado em um reformismo fraco e na composição de uma nova
base social para o PT, naquilo que o autor chama de “resolução da questão
setentrional” brasileira, com a aliança entre os pobres do Norte e Nordeste
com o sindicalismo organizado pelo PT, ambos referenciados em Lula
(Singer, 2012: 40). Mas vai além da questão eleitoral, conforme os
questionamentos que Domingues apresenta ao PT: “será o partido capaz de
se renovar? Manterá sua unidade? Será capaz, ao tentar se reencontrar, de
superar o pragmatismo, mas igualmente a ideia equívoca de que basta voltar
a suas feições dos anos 1980 para encontrar seu rumo?” (Domingues, 2017:
54).

A definição dessa terceira característica dos ciclos políticos não


será completa sem levar em conta os ciclos de lutas que marcam cada
período. As energias de um determinado ciclo político são produzidas, em

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.98-133, mar./jun., 2018


Regressão democrática na AL 112

grande parte (e primeiramente), pelas lutas sociais que se organizam – quer


na resistência ao ciclo anterior que será substituído, quer antecipando
tendências programáticas e organizativas que serão parte do ciclo futuro.
Novas agendas e novas formas de ação coletiva, ou ainda a atualização de
questões e métodos de ação que já existiam antes, aparecem com força na
cena política e precisam ser levados em conta. De acordo com Domingues,
ainda para o Brasil pós-golpe, “novos movimentos sociais e certa renovação
de alguns dos mais tradicionais se apresentam” e noções como
desenvolvimento sustentável e horizontalidade ganham centralidade
inexistente nos ciclos anteriores (Domingues, 2017: 55-60).

O foco, nesse texto, não é aprofundar uma análise sobre o quadro


brasileiro, que vem à tona somente para nos ajudar a conceituar o que é um
ciclo político – algo que consideramos importante para aprimorar nosso
entendimento sobre o atual contexto latino-americano mais geral de um
ciclo político neoliberal e autoritário no qual se inserem as recentes quedas
presidenciais no continente.

De sorte que é fértil pensar de modo análogo ao que Domingues


apresentou sobre o Brasil para os demais países latino-americanos. Assim,
podemos identificar que as energias da redemocratização se esgotam não só
no Brasil, mas em toda a região. Isso gera tanto novos ciclos de lutas e de
movimentos sociais (Bringel e Pleyers: 2017) como novos ciclos eleitorais e
novas configurações da esquerda – o fim da Concertacion e a emergência da
Frente Ampla, no Chile; crise do PT no Brasil; crise do chavismo na
Venezuela – todas tendências que convergem para a identificação deste
novo ciclo político neoliberal e autoritário na América Latina, cujos
sentidos, tendências e conteúdos tentaremos estabelecer na próxima seção
do presente artigo.

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Regressão democrática na AL 113

Ciclo progressista versus novo ciclo neoliberal

Paralelo à constituição e consolidação do novo ciclo político


progressista na América Latina, instaurou-se um debate intelectual de vulto
nas esquerdas e na intelectualidade sobre o caráter dessas experiências de
governo. Afinal, é um fato reconhecido por todos que os governos
progressistas não romperam em definitivo com os preceitos do ciclo político
neoliberal e, ao mesmo tempo, não o seguiram ao pé da letra, em uma
dinâmica pendular de continuidades e descontinuidades que estimula a
polêmica e a polissemia sobre tais processos.

Entendemos que o conceito de ciclo político, tal como procuramos


definir na seção anterior, ajuda-nos a buscar soluções para esse intenso
debate. Afinal, na medida em que ele contempla o tempo da longa duração e
a ação das estruturas, podemos entender que a expectativa de ruptura radical
com o neoliberalismo já nasce frustrada, pois se trata de empreitada que em
muito ultrapassa o alcance de governos eleitos em uma região periférica do
capitalismo. Ademais, uma vez que o conceito de ciclo político valoriza a
agência e as demais temporalidades, organizando as várias dimensões
políticas e sociais – estatais, societais, organizativas, programáticas,
geracionais – em um mesmo quadro analítico, podemos encontrar as
diferenças estratégicas que marcam cada período e que nos permitem
caracterizar um ciclo político específico em que pese a continuidade das
dinâmicas estruturais.

É justamente por isso que insistimos em afirmar que, nos primeiros


quinze anos do século XXI, a América Latina viveu um ciclo político
progressista distinto do ciclo político neoliberal da redemocratização (anos
1980 e 1990) e também do atual ciclo político neoliberal e autoritário, não
obstante as ambiguidades e contradições que marcaram os governos
progressistas – muitas das quais são cruciais para explicar a própria
substituição daquelas experiências progressistas pela presente onda de

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Regressão democrática na AL 114

governos de direita escolhidos pelo voto popular ou ilegitimamente


empossados depois da derrubada de presidentes eleitos.

Soares Lima e Coutinho resumem essa dinâmica enfatizando, como


já destacamos na seção anterior, a inserção do ciclo progressista em
estruturas que limitam o campo da ação. Assim, para os autores, essas
experiências se dão nos marcos de “dois movimentos estruturais” de maior
escala, a saber, “a liberalização econômica, com suas privatizações,
desregulamentações, choques de abertura comercial e demais ajustes” e, ao
mesmo tempo, “a democratização política, expressa nos aumentos da
liberdade e da participação política” (Soares Lima e Coutinho, 2007: 11).
Por conta disso,

se a tentativa de recuperação do Estado é um dos traços que se


sobressaem nos anos pós-Consenso de Washington, então essa
tentativa não significa exatamente um retorno ao passado, ao
paradigma nacional-desenvolvimentista, ou ao burocrático-
autoritário, mas, sim, no âmbito doméstico, uma coordenação
política mais eficiente do Estado no que se refere aos valores e
ao conflito de interesses contemporâneos que antagonizam
diferentes setores do mercado e segmentos populares (...). A
busca de uma convergência nas relações que envolvem os
processos de democratização política e liberalização econômica
se traduz, de forma dinâmica, em pontos ideais entre as
preferências capitalistas e os anseios dos menos favorecidos.
Evitar que a interação dessas partes se torne um jogo de soma
negativa, ou de soma zero, é provavelmente o maior desafio
das democracias da região no novo século, tendo em vista a
constatação de que não se vislumbra saída para o
desenvolvimento que não passe pelo mercado, como tampouco
pode haver democracia sem as ruas livres e ativas. (Soares
Lima e Coutinho, 2007: 16).

Em diapasão semelhante, Fabrício Pereira da Silva oferece um


quadro que sistematiza as escolhas feitas pelas esquerdas latino-americanas,
inserindo-as em uma análise mais geral do processo político e histórico da
região:
um contexto mais favorável historicamente de estendida
manutenção das democracias da região nas últimas duas ou três
décadas, e de superação do bloqueio gerado pela Guerra Fria,
essas esquerdas chegaram ao poder por uma combinação de
adaptação organizativa, conferindo-lhe mais fluidez e

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Regressão democrática na AL 115

flexibilidade; ampliação de suas propostas ideológicas e


“público-alvo”, conferindo-lhe maior amplitude programática e
novas tradições; aceitação de valores democráticos básicos, e em
alguns casos acúmulos eleitorais; e a preservação ao longo
da década anterior de um núcleo oposicionista e programático
bem delimitado e claro, a oposição às políticas neoliberais
(Pereira da Silva, 2014:4)

Isso posto, entendemos que a intensa polêmica interpretativa sobre


os governos progressistas divide-se em três blocos de questões. Primeiro, a
ideia de que não houve grandes mudanças, mas sim continuidade neoliberal
na maior parte da região. Novamente seguimos com Soares Lima e
Coutinho e com Pereira da Silva nas análises que eles apresentam sobre esse
ponto. Quanto aos primeiros, embora reconheçam que “as mudanças não
implicam obrigatoriamente rupturas radicais”, insistem que o ciclo político
progressista altera sim o quadro de ação dos Estados-Nação na região rumo
a direções que não cabiam no ciclo político anterior, quando a
redemocratização foi feita sob hegemonia neoliberal. Afirmam os autores,
sobre os governos progressistas, que “cada um a seu modo reexamina
privatizações, aberturas comerciais, reformas previdenciárias e trabalhistas,
de modo bastante pragmático na maioria das vezes. Alguns países também
reveem seu passado autoritário” (Soares Lima e Coutinho, 2007: 17).

Pereira da Silva, por seu turno, congrega quatro eixos analíticos nos
quais os governos progressistas apresentaram mudanças substanciais que
nos permitem caracterizá-los como experiências distintas daquelas que os
precederam. São eles “papel do Estado; da ênfase e redesenho das políticas
sociais; da participação social no governo; dos organismos de integração
regional” (2014: 6). Em todas elas, o que podemos verificar, ainda segundo
o autor, é que – não obstante apresentarem “matizes variados de acordo com
o tema avaliado e com o governo” – há um ponto de unidade no fato de que
“houve mudanças, em alguns casos de grau, em outros de abandono de
paradigmas (ainda que sem grande clareza do que estaria substituindo-os)”
algumas das quais com “relativo sucesso (redução da pobreza e
desigualdade notoriamente)” (2014:18).

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Regressão democrática na AL 116

A segunda ordem de debates é consequência dessa primeira


polêmica, uma vez que a despeito de integrar o conjunto das experiências
progressistas em um único ciclo político, faz-se mister diferenciar as
dinâmicas nacionais, sobretudo porque elas apresentam, de fato,
significativas variações e distinções. Existiriam, assim, dois polos, um de
transformações radicais – liderado pela Venezuela – e outro de mudanças
moderadas ou mesmo de continuidade do neoliberalismo, com o Brasil à
testa. Soares Lima e Coutinho identificam essa polarização para
imediatamente recusá-la, sempre ressaltando a característica da ambiguidade
e das mediações entre agência e estrutura:

Verifica-se certa tendência, na literatura especializada e na


mídia em geral, em avaliar estes movimentos de mudança em
termos de oposições duais: fragmentação e integração;
democracias representativas e neopopulismos; disputa pela
liderança regional entre Chávez e Lula. (...). Este tipo de
abordagem analítica oculta aquilo que há de novo e diferente
em relação à década passada. Por exemplo, que há mais
diversidade nos experimentos democráticos em curso na região
e que podemos estar diante de inovações nos modelos
democráticos antes impensáveis de ocorrerem no interior da
área de influência dos Estados Unidos. Que apesar das
acusações de “chavismo”, “nacionalismo”, “neopopulismo” e
outros “ismos” a serem inventados de acordo com a
conveniências dos setores dominantes, o capitalismo nunca foi
tão florescente na região quanto hoje. A globalização pode ter
contribuído para a crise do modelo de economia fechada e
comandado pelo Estado, mas seu sucessor na América do Sul
certamente não é o Estado liberal, dos livros-textos de
Economia. Ao contrário, o que parece estar em curso é a
consolidação de uma ordem capitalista coordenada pelo
Estado, seguindo a mesma tendência que estaria ocorrendo nas
economias maduras em resposta às crescentes incertezas e à
escala necessária dos investimentos, na era da globalização
(Soares Lima e Coutinho, 2007: 27-28).

Tal análise pode ser complementada pela diferenciação que Pereira


da Silva faz entre as nações que apresentam um quadro de “crise orgânica”
(com elementos políticos, sociais, culturais, econômicos) e aqueles em que
se verificam “insuficiências do modelo neoliberal”. Para o cientista político,
estas últimas estão presentes em toda a região, porém – em alguns países –
há “uma situação de empate catastrófico”, na qual há uma “decomposição

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Regressão democrática na AL 117

mais radical da hegemonia expressada anteriormente” devido ao


“esgotamento de formas de organização estatal, dominação social, baixa
inclusão político-social e monopólio partidário”. Assim, “temporariamente,
as forças em disputa não conseguem se impor e construir uma nova
hegemonia”, o que teve como resultado a formação de governos de
propostas mais radicalizadas, que procuram ser “refundadores” de suas
sociedades e Estados, diferente daqueles casos em que a derrocada
neoliberal não se converte em crise orgânica, quando então se formam
governos “renovadores de políticas públicas e defensores de novas ênfases”
(2014: 5)

Da consolidação da ordem capitalista decorre o terceiro conjunto


de polêmicas, qual seja, o debate sobre o subimperialismo brasileiro na
região como o elemento definidor do ciclo político então em curso. Os que
defendem essa perspectiva baseiam-se na obra de Ruy Mauro Marini, que
formulou o conceito de subimperialismo ao analisar a ação do Brasil durante
a ditadura militar. Coube a Gustavo Codas organizar a posição de recusa a
essa visão, com a qual nos afinamos:

Além de toda analogia histórica em circunstâncias tão diversas


em geral distrair mais do que explicar, é bastante óbvio que
Marini se referia a “outro Brasil”. Para colocar apenas dois
aspectos econômicos da discussão: ele fazia referência a um
esquema no qual a superexploração da mão de obra assalariada
era a tônica, enquanto que os anos 2000 têm sido no Brasil os
da formalização do mercado de trabalho, da melhora
substancial do salário mínimo, dos aumentos reais de salários
nas negociações coletivas etc. No esquema anterior, o Brasil
tenderia a reproduzir com seus vizinhos a mesma relação de
comprador de matérias primas e exportador de manufaturas que
o imperialismo teve com sua periferia. Já o que se tem visto na
política exterior dos governos petistas foi o incentivo à
industrialização de seus vizinhos, ligando-os a suas cadeias
produtivas ou demandando deles produtos manufaturados. (...).
Dificilmente possa se considerar que os mornos arroubos de
autonomia em relação ao imperialismo americano da ditadura
militar (ao reconhecer os governos revolucionários resultantes
dos processos de descolonização da África e o Acordo Nuclear
Brasil-Alemanha na década de 1970) podem ser equiparados à
política exterior de consolidação do Mercosul com a
Venezuela, de constituição da UNASUL e da CELAC, para
citar alguns marcos do período presente. O Brasil não parece o

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Regressão democrática na AL 118

sub-imperialismo dos estudos de Marini nos anos 1970; é outra


coisa, e é isso o que deve ser analisado e estudado. (Codas,
2013: 10).

Filiamos-nos, pois, ao conjunto de interpretações que afirmam a


existência de um ciclo progressista distinto do ciclo político neoliberal da
redemocratização. Queremos, contudo, avançar para além do balanço desse
passado recente, a fim de identificar as tendências futuras que se abrem com
o novo ciclo político neoliberal. Em qualquer dos casos (isto é, seja para
diferenciar o ciclo político progressista do ciclo neoliberal anterior, seja para
compreender o atual ciclo político neoliberal) é fundamental definir o que é
neoliberalismo, para então produzir as cartografias políticas do ciclo
progressista e do atual ciclo que o substitui.

Não se trata de tarefa acessória ou supérflua. Todavia exista um


consenso histórico com relação ao fenômeno da hegemonia neoliberal - há
um acordo com relação à visão de que tal conjunto de ideias e propostas
surgiu no pós-guerra 2ª Guerra (propondo resistência ao Estado de Bem-
Estar Social) e permaneceu incubado por três décadas, tendo na ditadura de
Pinochet, no Chile, iniciada em 1973, a sua primeira chance de se traduzir
em práticas estatais concretas, para depois, ao fim dos anos 1970, tomar de
assalto a cena política enquanto resposta global para crise do capitalismo
(Anderson: 1995) – existem vários ângulos de entrada no exame do
neoliberalismo.

Um deles, importante e crescentemente mobilizado nas ciências


sociais, é aquele elaborado pelo filósofo francês Michel Foucault, cujos
alicerces residem na noção de biopolítica. Trata-se de um tipo de reflexão
que investe na questão do neoliberalismo enquanto produtor de novos tipos
de subjetividade, para além das políticas de Estado, avançando para um
modo próprio de governo da vida, um tipo de poder que “conduz a conduta
dos homens” e que Foucault propôs chamar de “governamentalidade”
(Foucault, 2008: 257-258.). Trata-se, de acordo com Gabriel Cohn, de um

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Regressão democrática na AL 119

tipo de racionalidade entendida não na chave das políticas públicas, mas


enquanto forma de pensar que legitima, condiciona e produz a ação
(2003:7). Desde essa perspectiva, organizam-se correntes interpretativas que
pensam o neoliberalismo enquanto processo de desdemocratização (Dardot
e Laval: 2016) ou de marcos que definem, por exemplo, quais vidas
merecem ser vividas e quais não merecem (Butler: 2011), entre outras
chaves possíveis.

O ângulo que optamos aqui será outro, e tem na questão de classe


sua dimensão explicativa fundamental. Partimos da definição de
neoliberalismo elaborada por David Harvey em seu livro “O
Neoliberalismo: história e implicações”, em que ele começa falando que o
neoliberalismo é
Em primeiro lugar uma teoria das práticas político-econômicas
que propõe que o bem-estar humano pode ser melhor
promovido liberando-se as liberdades e capacidades
empreendedoras individuais no âmbito de uma estrutura
institucional caracterizada por sólidos direitos a propriedade
privada, livres mercados e livre comércio. O papel do Estado é
criar e preservar uma estrutura institucional apropriada a essas
práticas (Harvey, 2008: 11)

Harvey argumenta que esse “primeiro lugar” é apenas o ponto de


partida, a superfície de um processo político, econômico e social mais
profundo, cujo sentido estratégico principal foi derrotar o Estado de Bem
Estar Social e de se constituir enquanto “um projeto utópico de realizar um
plano teórico de reorganização do capitalismo internacional ou como um
projeto político de restabelecimento das condições da acumulação do capital
e de restauração do poder das elites econômicas” (Harvey, 2008: 27, grifos
do autor).

O geógrafo marxista defende ainda que o neoliberalismo não foi


tão exitoso com relação ao primeiro objetivo – restabelecer a acumulação de
capital – mas que foi extremamente vitorioso no segundo, o de restaurar o
poder político das elites econômicas. E que essa configuração de fracasso
em um aspecto e sucesso em outro é ainda mais dramática para as classes

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Regressão democrática na AL 120

subalternas, pois implicou na produção de uma desigualdade extrema e na


formação de uma “pequena e poderosa oligarquia” (Harvey, 2008: 26) nos
países capitalistas.

A análise classista de Harvey é interessantíssima para pensarmos o


contexto atual da América Latina. Tomando como marco a crise do
capitalismo nos anos 1970, Harvey argumenta que a vitória neoliberal não
estava dada e que foi resultado de um intenso processo de lutas sociais e
políticas:

O desenvolvimento geográfico desigual do neoliberalismo, sua


aplicação frequentemente parcial e assimétrica de Estado para
Estado e de formação social para formação social atestam o
caráter não elaborado das soluções neoliberais e as complexas
maneiras pelas quais forças políticas, tradições históricas e
arranjos institucionais existentes moldaram em conjunto por
que e como o processo de neoliberalização de fato ocorreu.
(Harvey, 2008: 23).

A alternativa política ao neoliberalismo era forte e sacudiu as


sociedades europeias nos anos 1970, tendo como epicentro político o Maio
de 1968 global.
A insatisfação foi generalizada, e a conjunção do trabalho com
os movimentos sociais urbanos em boa parte do mundo
capitalista avançado parecia apontar para a emergência de uma
alternativa nativa socialista ao compromisso social entre capital
e trabalho que fundamentara com tanto sucesso a acumulação
do capital no pós-guerra. Partidos comunistas e socialistas
ganhavam terreno, quando não tomavam o poder, em boa parte
da Europa, e mesmo nos Estados Unidos forças populares
agitavam por amplas reformas e intervenções estatais. Havia
nisso uma clara ameaça política às elites econômicas e classes
dirigentes em toda parte, tanto em países capitalistas avançados
(como a Itália, a França, a Espanha e Portugal) como em
muitos países em desenvolvimento (como o Chile, o México e
a Argentina). (Harvey, 2008: 23-24).

Harvey enfatiza que à ameaça política somava-se uma concreta e


palpável “ameaça econômica à posição das elites e classes dirigentes”. E
prossegue lembrando que “o acordo do pós-guerra em quase todos os
países” do Norte global previa que “o poder econômico das classes altas
fosse restrito e que o trabalho recebesse uma parcela bem mais ampla do

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Regressão democrática na AL 121

bolo econômico”. Os dados sobre a redução da desigualdade que resulta


desse pacto são impressionantes: “Nos Estados Unidos, por exemplo, a
parcela da renda nacional nas mãos do 1% mais rico caiu de uma taxa de
16% antes da 2ª Guerra Mundial para menos de 8% depois dela, tendo
ficado perto desse nível durante quase três décadas.” (Harvey, 2008: 25). O
problema se dá em como manter esse arranjo com a crise da acumulação
capitalista dos anos 1970.

Enquanto o crescimento se mantinha em altos níveis, essa


restrição não parecia importante. Uma coisa é ter uma parcela
estável de um bolo em crescimento. Mas quando o crescimento
entrou em colapso nos anos 1970 (...) as classes altas em toda
parte se sentiram ameaçadas. Nos Estados Unidos, o controle
da riqueza (em oposição à renda) pelo 1% mais rico da
população permaneceu mais ou menos estável por todo o
século XX, mas na década de 1970 sofreu uma acentuada
queda (...). As classes altas tinham de agir com mais vigor para
se proteger da aniquilação política e econômica. (Harvey,
2008: 25).

O resultado desse embate entre as classes não poderia ter sido pior
para os subalternos. Uma vez derrotada a alternativa socialista – devido a
vários processos políticos que não vem ao caso esmiuçar6 – os números da
desigualdade explodem nos países do capitalismo central:

Depois da implementação de políticas neoliberais no final dos


anos 1970, a parcela da renda nacional do 1% mais rico dos
Estados Unidos disparou, chegando a 15% (bem perto de seu
valor pré-Segunda Guerra Mundial) perto do final do século. O
0,1% mais rico dos Estados Unidos aumentou sua parcela da
renda nacional de 2% em 1978 para mais de 6% por volta de
1999. (...). Os Estados Unidos não estão sozinhos nisso. O 1%
mais rico da Bretanha dobrou sua parcela da renda nacional a
partir de 1982: de 6,5% a 13%. E um exame mais detido revela
extraordinárias concentrações de riqueza e de poder surgindo
em toda parte. (...). Os países da OCDE (Organização para a
Cooperação Econômica e para o Desenvolvimento) também
registraram grandes aumentos da desigualdade a partir dos anos
1980, enquanto "a diferença de renda entre os 20% da
população do mundo que vive nos países mais ricos e os 20%
da população do mundo que vive nos países mais pobres era d
mais ricos e os 20% da população do mundo que vive nos

6
Sobre isso, ver a já mencionada introdução de Perry Anderson ao Mapa da Esquerda na
Europa Ocidental.

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países mais pobres era de 74 para 1 em 1997, vindo de 60 para


l em 1990 e de 30 para 1em 1960. (Harvey, 2008: 26-27).

Ora, o paralelo desse quadro apresentado por Harvey entre Europa e


EUA (dos anos 1970 até o fim do século XX) com a América Latina do
século XXI é não só pertinente como se encaixa com precisão no que ele
chama de “desenvolvimento geográfico desigual” do neoliberalismo.

Ocorre que a primeira onda do neoliberalismo no continente se deu


durante a redemocratização dos anos 1980. Tratava-se, então, de uma
situação bastante diversa daquela verificada nos países da Europa e dos
EUA. Por um lado, o neoliberalismo chegava à América Latina apoiado por
uma classe dominante que não precisava reconstituir seu poder de classe,
pois já saía fortalecida do ciclo autoritário. Seu objetivo era manter suas
posições no novo arranjo democrático.

Não obstante tal poder de classe, o fato é que as nações latino-


americanas da democratização eram sociedades com muita energia
mobilizada em favor dos valores da justiça e da igualdade e dos sonhos de
que a democracia seria não apenas formal, mas também substantiva. Um
tipo de energia criativa que foi se acumulando nas ditaduras e que explode
nos processos de redemocratização.

É essa energia que volta, nos anos 1990, para resistir e derrotar o
neoliberalismo e que vai alimentar os governos progressistas no seu
primeiro impulso. Soares Lima e Coutinho destacam esse processo das
“calles” como crucial para o ciclo progressista:

Frente às restrições econômicas e à incapacidade do Estado em


atender às demandas sociais, as calles, como metaforicamente
são chamadas em espanhol, perdem a paciência e se
incendeiam. Por duas décadas, a reorganização de
trabalhadores urbanos e rurais, sobretudo novos atores e
movimentos emergentes, inclusive alguns de corte étnico,
passam a protagonizar a história, regendo um dos momentos de
maior pressão popular registrado nessas democracias. Instala-
se, assim, uma crise mais generalizada e profunda do que
outras que continuaram a habitar o contexto sul-americano

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mesmo após o fim dos regimes militares. Na realidade, essa


crise é apenas o ápice de processos já em andamento, não
ocorrendo da mesma forma, nem com a mesma intensidade, em
todos os países do Continente. As crises que caracterizaram a
virada de século na América do Sul são sintomas agudos da
ausência de um modelo de desenvolvimento para a região, da
persistente inoperância do Estado e da insatisfação que se
alastra mais e mais em sociedades desejosas de inclusão
política e social. Sob o manto dogmático da liberalização
econômica, trocou-se o já exaurido nacional-
desenvolvimentismo, baseado, por décadas, na substituição de
importações, por um modelo econômico que não chega a ser
propriamente de desenvolvimento, uma vez que fragiliza ainda
mais o Estado e reduz suas preocupações para o curto prazo em
torno da questão monetária. (Soares Lima e Coutinho, 2007:
12-13).

É nesse contexto que começa o ciclo progressista na América


Latina, e é por isso que a imagem escolhida por Codas (a derrota da ALCA)
para marcar o êxito do ciclo é tão precisa e impactante. A força das energias
sociais e políticas das sociedades latino-americanas era tal que nossos
povos, juntos, conseguiram impor uma derrota histórica ao imperialismo dos
EUA, algo inédito no século XX, quando as derrotas estadunidenses são
poucas e promovidas em conflitos políticos isolados – sendo Cuba e
Nicarágua as mais significativas – os quais não conseguiam se espraiar para
a região de modo sustentável e generalizado.

Ainda mais importante é seguirmos nesse caminho comparativo


com a análise feita por Harvey, sempre tomando como base analítica a
questão do poder de classe. E, no caso do ciclo progressista, a conclusão é
que foi um período em que o poder das classes dominantes recuou diante do
poder das classes subalternas e isso tem uma importância tamanha, tanto
para reforçarmos a ideia de que o ciclo progressista precisa ser mais
estudado e entendido quanto para afastar as teses de que o ciclo progressista
foi mera continuidade do ciclo neoliberal anterior.

Em outras palavras, queremos afirmar que embora as contradições


e impasses dos governos progressistas sejam evidentes e em boa parte
responsáveis pela emergência do novo ciclo político neoliberal e autoritário

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Regressão democrática na AL 124

(pensamos, entre outros, na relação do progressismo com o


desenvolvimento capitalista em detrimento da natureza e das populações
tradicionais e, para os fins deste artigo, ainda mais importante, na
incapacidade que as experiências progressistas latino-americanas
apresentaram em lidar com a questão democrática, a qual voltaremos na
conclusão); no ciclo político progressista, o poder político das classes
subalternas aumentou e o das classes dominantes diminuiu – que pode ser
medido tanto pela régua das eleições quanto pelos efeitos das lutas, por
exemplo, na capacidade que as greves têm de arrancar vitórias em um
quadro de pouco desemprego – o que não significa que as primeiras tenham
deixado de ser subalternas e as últimas tenha perdido sua posição
dominante.

Alguns dados sobre isso se encontram disponíveis, enquanto outros


precisam ser mais bem sistematizados ou ainda carecem de pesquisa. Em
2015 – último ano do ciclo progressista – a OCDE divulgou um estudo
alertando para o crescimento da desigualdade em todo mundo, com exceção
da “América Latina e em alguns outros emergentes como o Brasil”, em que
a desigualdade “está em queda” 7.

Se passarmos para os exames qualitativos do processo, a conclusão


será a mesma, com a vantagem de que – por essa metodologia – poderemos
sair da frieza dos números e encontrar a temperatura quente da política, com
suas criações e contradições. É o que nos mostra, por exemplo, Álvaro
García Linera em seus estudos sobre a Bolívia tomada pela “potência
plebeia” (Linera: 2010) ou Gilberto Marangoni e seu livro sobre a
“Venezuela que se inventa” (Maringoni: 2004). Em ambos os casos, a
conclusão é que o poder das classes subalternas se fortaleceu diante do
poder das classes dominantes.

7
http://exame.abril.com.br/economia/desigualdade-e-a-maior-em-30-anos-da-pra-reverter/

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Regressão democrática na AL 125

No Brasil não foi diferente, conforme podemos extrair de “Os


Sentidos do Lulismo” (2012), de André Singer, naquela que foi a primeira
grande obra de interpretação dos governos Lula. O autor argumenta que a
forte redução da miséria e lenta redução da desigualdade organizaram um
reformismo que, embora fraco, foi significativo para o quadro social e
político nacional. Ainda no caso brasileiro, vale a pena trazer à baila o
estudo de Ruy Braga – um intelectual insuspeito, posto que sempre crítico à
esquerda dos governos petistas – sobre o novo ciclo grevista que se abre em
2013, o maior do país desde 1989, (Braga: 2017). Ciclos grevistas
ascendentes não significam outra que coisa senão a redução do poder das
classes dominantes.

Sabemos que a recente explosão grevista no Brasil não se dá por


acidente. Ela se insere no conjunto de contradições que marcam o ciclo
progressista na América Latina – desde 2013 mais ou menos – e que
novamente favorecem a comparação com a análise de Harvey. O geógrafo
marxista afirmou, para a Europa e para os EUA, “que o crescimento
econômico se mantinha em altos níveis”, a restrição ao poder das classes
dominantes não ganhava centralidade na ação política daquele setor.
Contudo, nos anos 1970, a situação muda e as elites partem para uma
ofensiva com o intuito de recuperar seu poder de classe.

É exatamente o mesmo cenário que vivenciamos na América


Latina nessa segunda década do século XXI. Com a eclosão da crise
econômica internacional em 2008, a situação política na região se alterou e
o equilíbrio entre mercado e ruas identificado por Soares Lima e Coutinho
para o começo do ciclo se viu inviabilizado. Era preciso fazer escolhas; e o
que se viu foi um avanço keynesiano em países estrategicamente
determinantes na região, em especial Argentina e Brasil.

O nível de conflitos entre as classes se exacerbou em todo o


continente, em torno do que o sociólogo Adalberto Cardoso chamou de um

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Regressão democrática na AL 126

“conluio antidistributivo”8 ou, nos termos que estamos usando a partir de


Harvey, em uma intensa ação das classes dominantes para recuperar seu
poder de classe. Tão intensa que as elites não hesitaram em mandar às favas
a institucionalidade democrática onde isso foi necessário – e é isso que, em
nossa opinião, explica as recentes quedas presidenciais na região.

A derrubada, em 2009, do presidente Zelaya, em Honduras, vista


dessa perspectiva temporal, aparece como um laboratório de uma prática
radical das elites para recuperar o seu poder de classe; enquanto a queda, em
2012, do presidente Lugo, no Paraguai, já significa o começo da crise
terminal do ciclo progressista, processo esse que se completaria em
2015/2016 com a eleição de Macri, na Argentina; o cerco ao governo
Maduro, na Venezuela, e o golpe jurídico-parlamentar contra Dilma, no
Brasil.

O resultado desse processo já começa a aparecer nas estatísticas,


favoravelmente às classes dominantes. Estudo da CEPAL, publicizado em
2016, afirma que a desigualdade social voltou a subir na América Latina e
as perspectivas são de um aumento ainda maior da distância entre os mais
ricos e os mais pobres9.

É importante extrair os sentidos mais profundos desse processo que


abre o ciclo neoliberal. O fato de que, no mesmo ano (2015), as elites
tenham usado três estratégias diferentes em três das nações mais
importantes com governos progressistas (eleições na Argentina, golpe
parlamentar no Brasil e o enfrentamento aberto na Venezuela) mostra que
não se trata que algum processo conspiratório, mas sim de movimentos
orgânicos das classes dominantes em todo o mundo – na nossa região em
especial.

8
http://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/06/1466547-conluio-antidistributivo-puniu-
dilma-e-campanha-sera-mais-radicalizada-diz-sociologo.shtml
9
https://nacoesunidas.org/cepal-pobreza-teria-aumentado-na-america-latina-atingindo-175-
milhoes-de-pessoas-em-2015/

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Regressão democrática na AL 127

Wanderley Guilherme dos Santos, José Mauricio Domingues e


Juarez Guimarães vão convergir para o diagnóstico de que o mundo e a
América Latina – esta mais recentemente – estão vivendo um processo de
regressão democrática no qual as democracias representativas em sentido
mais liberal (o que quer dizer restritas a questão da alternância de poder pelo
voto universal) estão sendo substituídas por regimes oligárquicos
“representativos” (Santos, 2017: 17) ou “avançados” (Domingues, 2017: 93)
em uma “contrarrevolução neoliberal” (Guimarães: 2017). Isso significa
que a soberania popular perde o seu valor, pois – independente da vontade
das urnas – o arranjo de poder toma as decisões para seguir fortalecendo o
poder das classes dominantes.

Soares Lima e Coutinho já haviam registrado que, na América


Latina, o neoliberalismo apresentava esse impasse, uma vez que nos anos
1990 “A centralidade das reformas estruturais cegou o processo decisório
para o abismo” (Soares Lima e Coutinho, 2007: 13). Se, naquela quadra, tal
cegueira permitiu o avanço do ciclo progressista; nesta, ela vem implicando
em uma transição do ciclo progressista para algo mais do que um ciclo
neoliberal: Na imagem formulada por Luis Felipe Miguel (2016) para o
Brasil, que entendemos como fértil para pensar toda a região, trata-se de
“uma transição à ditadura”, ainda que seja uma ditadura velada e não aberta
com tanques nas ruas como ocorreu no ciclo político autoritário dos anos
1960 e 1970.

Conclusão

O presente artigo organizou a reflexão sobre as recentes quedas


presidenciais na América Latina em um contexto político mais amplo de
disputas entre as classes sociais a respeito de que tipo de desenvolvimento
capitalista hegemonizará o continente. Isso significa inserir o que ocorreu
em Honduras, Paraguai e Brasil nas dimensões geopolíticas fundamentais
do mundo hoje (e desde pelo menos todo o século XX), aquelas que opõem

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Regressão democrática na AL 128

um capitalismo desigual e antidemocrático a outro tipo de pacto social, no


qual a desigualdade é reduzida e a democracia se fortalece.

Na mesma direção, entendemos que pensar a política


contemporânea da América Latina em termos de ciclo políticos que vão se
sucedendo ajuda-nos a compreender qual dinâmica de classes sociais tem
predominado em cada período, o que é crucial tanto para um entendimento
acadêmico dos processos políticos, sociais e culturais da nossa região
quanto para as necessárias e urgentes reflexões políticas que são parte de um
conhecimento engajado que é (ou deveria ser) a vocação das ciências
humanas em geral e, em particular, da ciência política.

Concluímos, portanto, afirmando que o atual ciclo político na


América Latina não é só neoliberal, como também autoritário. Trata-se, em
realidade, da fusão das características mais substantivas dos dois ciclos
políticos que precederam o ciclo político progressista na região. Na medida
em que a primeira experiência neoliberal nos países latino-americanos foi
derrotada pela energia social e política das lutas pela redemocratização, as
elites do continente avançam contra a institucionalidade democrática, a fim
de garantir seu poder de classe e se aproveitando de uma tendência
internacional de oligarquização dos regimes liberais representativos na
Europa e nos Estados Unidos.

Em suma, desigualdade econômica e desigualdade política


caminham juntas, e é isso que podemos chamar da questão democrática no
século XXI, ela própria uma atualização dos problemas da democracia no
capitalismo que se apresentaram ao longo do século passado.

Essa dupla configuração de neoliberalismo e autoritarismo reforça


a centralidade da questão democrática para o pensamento crítico latino-
americano e para as esquerdas em geral – algo que foi pouco refletido,
debatido e, por consequência, implementado durante o ciclo político
progressista.

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Regressão democrática na AL 129

O fato é que o conjunto das experiências progressistas não


formulou e testou mecanismos de transformar as conquistas econômicas e
sociais em avanços democráticos, nem na sociedade civil e nem na
formatação de uma nova institucionalidade – salvo os processos
constituintes em Bolívia, Equador e Venezuela, mas mesmo eles com
impasses importantes, dos quais a dramática conjuntura venezuelana é
expressão mais aguda.

Sem superar essa lacuna, não podemos explicar satisfatoriamente


nem as quedas ilegítimas de presidentes eleitos, nem os dilemas políticos
que se apresentam para os povos de todo o continente tais como a quase
guerra civil na Venezuela ou as vitórias nas urnas das forças neoliberais, tais
como Macri na Argentina e Pinera no Chile. Tampouco é possível entender
os reveses em plebiscitos populares, o que ocorreu na Bolívia, Colômbia e
Equador. Por fim, ficamos sem entender plenamente a crise de
representação política sem precedentes no Brasil, cuja consequência mais
perigosa é o fortalecimento de alternativas autoritárias do tipo Bolsonaro10.

As esquerdas, do sul ao norte da América Latina – parafraseando a


inversão política e estética desenhada pelo uruguaio Torres García (outro
ícone da identidade dos povos latino-americanos) –, vivem uma crise
profunda devido à ligação estrutural que têm (ou deveriam ter) com a
democracia. Se esta se encontra em crise, o mesmo ocorrerá com as formas
organizativas que emanam das classes subalternas.

Ademais, é impossível imaginar que as esquerdas poderão


recuperar sua vitalidade apenas prometendo novos surtos de
desenvolvimento econômico, ou seja, mais uma vez menosprezando a
questão democrática. A emergência de novos movimentos e de novas
gerações políticas – que tiveram nas jornadas de junho de 2013, no Brasil,
seu episódio mais extraordinário em todo continente, mas que se repetem

10
http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2017/06/1895452-violencia-e-medo-insuflam-
defesa-de-autoritarismo-no-brasil.shtml

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.98-133, mar./jun., 2018


Regressão democrática na AL 130

em vários países com várias configurações desde, pelo menos, a Revolução


dos Pinguins, ocorrida no Chile em 2006 – interpelam as esquerdas
(partidos, sindicatos, movimentos, intelectualidade) de um modo
incontornável.

Resolver a questão democrática e retomar uma dinâmica de


mobilização e criação desde baixo é condição para que a atualização das
Veias Abertas e dos Cem Anos de Solidão não se confirme da pior maneira
possível, não enquanto universalidade criativa dos nossos povos, mas sim
enquanto dinâmica de recolonização da América Latina.

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.98-133, mar./jun., 2018


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Regressão democrática na AL 133

Palavras- Resumo: O presente artigo tem como objetivo analisar o quadro


político da América Latina a partir de noção de ciclo político.
chave: Entende-se que, desde 2015, o continente vive um novo ciclo
político neoliberal e antidemocrático, em substituição ao ciclo
Ciclo político, político progressista (Soares Lima: 2008) que marcou a região
desde o final do século XX. Trata-se, com o conceito de ciclo
Democracia, político, de inserir o conjunto de quedas presidenciais recentes -
América Latina Zelaya, Honduras, em 2009, Lugo, Paraguai, 2012 e Rousseff,
Brasil, 2016 – em processo político mais amplo de avanço do
neoliberalismo e das forças oligárquicas, no qual podemos listar
a vitória de Macri na Argentina em 2015, a derrota, em 2016, de
Evo Morales no plebiscito sobre uma nova reeleição, uma
possível vitória de Pinera no Chile nas eleições presidenciais de
dezembro de 2017 e, por último mas não menos importante, a
persistente e profunda crise política e social na Venezuela. Tal
processo mais amplo deve contemplar, portanto, dinâmicas
conjunturais com tendências mais permanentes, e é com essa
dialética que o presente artigo buscará, primeiro, definir o que é
um ciclo político, para em seguida, aprofundar as caraterísticas
do novo ciclo político, em especial o seu caráter de redução do
alcance da democracia representativa, nos termos em que alguns
autores (Wanderley Guilherme dos Santos, Luís Felipe Miguel,
José Maurício Domingues) estão apresentando para o Brasil.

Keywords ABSTRACT: The present article intends to analyze the political


framework of Latin America through the notion of political
cycle. Since 2015, the continent has been living a neoliberal and
Political cycle; non-democratic political cycle that has replaced the progressive
Democracy; political cycle (Soares Lima, 2008), dominant since the end of
the 20th century. With the concept of political cycle, our aim is
Latin America. to take into account many recent presidential overthrows in the
region – Zelaya in Honduras (2009), Lugo in Paraguay (2012)
and Rousseff in Brazil (2016) –, situating them in a broader
political process of neoliberal and oligarchical advance. This
process also encompasses Macri; victory in Argentina (2015),
Evo Morales; defeat in the 2016; referendum on reelections in
Bolivia, a possible Piñera; victory in Chile (December 2017)
and, last but not least, the deep and persistent crisis in
Venezuela. Such a broader process must thus encompass the
conjunctural dynamics along with more permanent tendencies –
and this dialectics guides this article; search for a definition of
political cycle, in order to deepen our understanding of the new
political cycle, paying special attention to its subtraction on
representative democracy; scope in the region (a theme that has
been decisive for many analysts of the Braziliancase, such as
Wanderley Guilherme dos Santos, Luís Felipe Miguel and José
Maurício Domingues)

Recebido para publicação em junho/2017

Aceito para publicação em novembro/2017

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.98-133, mar./jun., 2018


Aprovação presidencial (1996-2015)
na América Latina:
mais participação pode ser uma saída
quando a economia vai mal?

Daiane Boelhouwer Menezes


Universidade do Vale do Rio dos Sinos (BRA)

A América Latina tem um alto índice de presidentes que não


conseguem completar o mandato. O último afastamento ocorreu em agosto
de 2016, com o impeachment da então presidenta brasileira, Dilma
Rousseff. Ela se juntou ao grupo de 14 presidentes que não terminaram o
governo para o qual foram eleitos. No momento em que este artigo é
escrito, não há garantia de que Michel Temer, o vice que assumiu a
Presidência, não cairá antes do fim de 2018.

Além dessa característica latino-americana, o fim do ciclo de altos


preços das commodities produziu mudanças na percepção dos cidadãos,
segundo o Informe do Latinobarômetro (2016). De 2015 para 2016, nos

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.134-165, mar./jun., 2018


Aprovação presidencial (1996-2015) na AL 135

países latino-americanos, a satisfação com o funcionamento da economia no


país caiu cinco pontos, chegando a 20% – dez pontos percentuais a menos
do que em 2010. Em 2016, 43% disseram que essa situação econômica
piorou – o nível mais alto desde 2005 – na comparação com os 29% de
2015. Os resultados das eleições ocorridas entre 2015 e 2016 foram
predominantemente contrários aos governos de turno. Esse cenário apontou
para o fim do hiperpresidencialismo. Em 2009 – ano em que a média de
aprovação presidencial dos países aqui estudados1 apresentou seu maior
percentual – havia seis presidentes com mais de 70% de aprovação e
somente dois com menos de um terço.

Ainda segundo o Informe (2016), o período chamado de “lua-de-


mel dos cidadãos com presidente” tem sido cada vez mais curto. De 2015 a
2016, a confiança nos governos Executivos caiu de 33% para 28%, sendo
que a média da série histórica da região é de 37% – uma queda maior que a
sofrida pelos Congressos ou pelos Partidos Políticos. A percepção de que se
governa para todos – escolha alternativa a se governar para uns quantos
grupos poderosos em seu próprio benefício – vinha aumentando de 2004 a
2011 (de 24% para 36%), tendência que foi invertida. Nos últimos três anos,
a confiança interpessoal alcançou os patamares mais baixos da série, por um
período maior de anos. Por outro lado, a crença de que é justificável não
pagar impostos tem registrado aumento desde 2011.

Somente esses dados apontariam para um cenário bem complicado


para a política em geral e para os presidentes da região. Assim, além de
variáveis econômicas, variáveis políticas e outras variáveis institucionais
são apontadas como possíveis explicações para a aprovação presidencial.
Essas variáveis são discutidas na próxima seção, junto aos trabalhos já
realizados na América Latina sobre essa questão. A originalidade desse

1
Argentina, Bolívia, Brasil, Colômbia, Costa Rica, Chile, República Dominicana, Equador,
El Salvador, Guatemala, Honduras, México, Nicaragua, Panamá, Paraguai, Peru, Uruguai e
Venezuela.

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Aprovação presidencial (1996-2015) na AL 136

artigo está no fato de que ainda não foi pesquisada, na região, a relação entre
aprovação presidencial e utilização de Mecanismos de Democracia Direta
(MDDs) nacionais, a julgar pelos estudos encontrados. A participação em
MDDs é considerada “boa” ou “muito boa” por 53,3% dos entrevistados e
“regular” por outros 16,8% (avaliações que, somadas, totalizariam 70% de
cidadãos com sentimentos positivos ou neutros em relação aos
instrumentos). 7,5% não sabiam do que se trata MDDs e outros 14% não
responderam – o que era esperado, dado que alguns países nunca usaram
MDDs (LATINOBARÓMETRO, 2009). Na América Latina, entre 1995 e
2015, ocorreram apenas 32 MDDs nacionais, em onze países latino-
americanos2.

Analisar essa relação é interessante porque plebiscitos (facultativos


ou mandatórios), referendos e iniciativas populares permitem que
autoridades aproximem-se mais dos cidadãos, ainda que os papéis
desempenhados por chefes do Executivo sejam diferente em cada tipo de
MDD. Ainda: estudos comparativos sobre aprovação presidencial na
América Latina são raros. Na realidade, foi localizado apenas um trabalho,
também abordado na próxima seção.

A terceira seção apresenta os modelos multiníveis nos quais a


influência das variáveis de percepção da situação econômica, de confiança
interpessoal, educação e idade (nível 1) são testadas, assim como a
influência de variáveis relativas a indicadores macroeconômicos
(crescimento do PIB, inflação, desemprego e coeficiente Gini), a ocorrência
de eleições, de MDDs e outros eventos políticos importantes (nível 2).
Esses modelos são uma alternativa à análise seriada quando não há número
de observações suficientes ao longo do tempo. Os dados utilizados são
provenientes de surveys do Latinobarômetro realizadas anualmente3. A

2
Os onze países mencionados são: Bolívia (5 MDDs), Brasil (1), Colombia (2), Costa Rica
(1), Equador (6), Guatemala (1), Panamá (2), Paraguai (1), Peru (1), Uruguai (8) e
Venezuela (6).
3
Com exceção de 1999, 2012 e 2014. Ainda que a periodicidade anual não seja ideal para

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Aprovação presidencial (1996-2015) na AL 137

amostra dessa pesquisa inclui 16 países com observações de 1996 a 2015,


deixando de fora apenas um ano (1995) e dois países que não possuem
dados completos4. Além do Latinobarômetro, dados sobre os MDDs do
Center for Research on Direct Democracy (C2D) e de Altman (2010)
também foram aproveitados. Embora os casos não sejam abundantes e não
seja possível fazer afirmações taxativas e generalizantes, com a análise dos
modelos propostos, pretende-se responder se os MDDs impactam a
aprovação presidencial e, se sim, o quanto – comparativamente às eleições,
ao desempenho da economia, a eventos políticos importantes, à confiança
interpessoal, à faixa etária dos cidadãos e à sua escolaridade.

Aprovação presidencial e a influência de variáveis econômicas,


institucionais e políticas

Berlemann e Enelkemann (2012) sugerem que, entre os


determinantes da popularidade do presidente, as pesquisas apresentam certo
consenso em relação à importância das questões econômicas. Apesar disso,
após 40 anos de pesquisas empíricas e centenas de publicações sobre o
tema, o papel das variáveis econômicas não é exatamente claro na literatura
norte-americana. Quando períodos relativamente longos são estudados
(ainda que o papel dessas variáveis possa mudar com o passar do tempo), no
entanto, inflação e desemprego tendem a ser apresentar como variáveis
estáveis para explicar a aprovação do Chefe do Executivo.

Além da extensão da série analisada, há a questão das variáveis


propriamente políticas não serem incluídas em alguns dos modelos ou serem
mal escolhidas. Nos últimos 20 anos, viu-se uma tendência a incluir
medidas subjetivas da situação econômica, como o sentimento do

estudar aprovação de governo e ver o impacto de eventos políticos e do desenvolvimento da


economia, Berlemann e Enkelmann (2012) citam estudos que usaram tanto dados mensais
quanto trimestrais e não encontraram diferença nos seus resultados.
4
Apenas oito países participaram dos surveys de 1995. A República Dominicana, um dos
países excluídos da amostra, só foi incorporada em 2004. Honduras, o segundo país
desconsiderado, não possui dados para a aprovação presidencial em um dos anos.

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Aprovação presidencial (1996-2015) na AL 138

consumidor ou a inflação percebida. Inclusive, interessantes resultados


foram encontrados ao comparar os resultados dos dois principais institutos
de pesquisa americanos:

The Gallup and the SRC approval time series turn out to be
highly correlated (0.99). Interestingly enough, this holds true
although the SRC question has an explicit economic focus
while the Gallup question has not. This finding either implies
that respondents are not able to assign their approval (or
disapproval) to specific topics or economic issues play the
dominant role in evaluating the president. (Berlemann,
Enelkemann, 2012, p.14)

Neste artigo, não se trabalha apenas com uma presidência,


tampouco com um período tão longo como 50 anos – porém, consideram-se,
igualmente, variáveis institucionais e políticas, de forma que se espera
encontrar resultados minimamente generalizáveis para a América Latina –
que, como veremos, tem suas particularidades.

Em pesquisa seminal, Mueller (1970, 1973 apud Berlemann,


Enelkemann, 2012) encontrou algumas regularidades: a aprovação
presidencial tende a declinar ao longo do mandato e durante guerras; tende a
aumentar em momentos de crise internacional; o nível de popularidade
difere em diferentes administrações; e um período econômico ruim tende a
diminuir a aprovação presidencial, ao passo que um período econômico bom
não costuma afetar a popularidade do presidente.

Pinto (2013) problematiza esse modelo, lembrando que apenas o


desemprego é utilizado como proxy para a economia e que o
comportamento dessa dimensão é muito pouco explicada por Mueller.
Ainda, Pinto aponta para outros efeitos relativos ao tempo de mandato,
citando autores que consideram que seja uma função em formato de “U”;
aumenta à medida que o governo amadurece; existe um período variável de
efeito lua-de-mel; o presidente pode ganhar popularidade no final do seu
mandato por meio de um "efeito nostalgia".

Talvez esse efeito nostalgia se dê mais em função de alguns

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Aprovação presidencial (1996-2015) na AL 139

governos adotarem uma política expansiva no último ano, em preparação às


eleições. Há também o efeito campanha, quando o incumbente normalmente
consegue levar o eleitorado a fazer uma avaliação retrospectiva do
desempenho do governo. Berlemenn e Enekelmann (2012) testam esse
efeito com três e seis meses e não encontram qualquer resultado
significativo. Este artigo faz esse teste especificamente para a realidade
latino-americana, conforme explicado mais abaixo.

Há outra variável importante na América Latina: o afastamento de


presidentes antes do término de seus mandatos. Pérez Liñan (2007) constata
que as crises presidenciais da região, por vezes advindas de processos de
impeachment, são precedidas de níveis de aprovação presidencial muito
baixos e altos níveis de mobilização social, instigados por investigações e
exposição midiática de escândalos políticos, assim como pela perda de
controle sobre o Congresso. O impeachment de Dilma Rousseff, no Brasil,
ilustra perfeitamente essa situação. Além disso, o autor lembra o quanto
essas situações desfazem a ideia de que presidentes são muito fortes e o que
os parlamentares não conseguem mantê-los responsivos.

Fato é que os mecanismos de democracia direta (MDDs) são canais


de expressão da população fora das eleições regulares. Nos países latino-
americanos, servem para diminuir a tensão produzida pela ausência de
instituições representativas eficientes. Muitas vezes, os cidadãos não votam
nos MDDs pensando exclusivamente no assunto em questão, mas os
utilizam para expressar sua frustração em relação à performance do governo
ou em relação à política e aos políticos em geral. Ainda sim, os MDDs têm
um papel importante como forma adicional de expressão política
(ZOVATTO, 2006). Isso poderia explicar a razão pela qual o Uruguai, por
exemplo, não experimentou nenhuma grande crise social: “they created a
channel through which citizens could express themselves and protest – for
example, the neoliberal policies – in a formalized institutional framework
(ALTAM, 2010, p.198).

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Aprovação presidencial (1996-2015) na AL 140

A partir dessas considerações, testa-se a hipótese de que o


envolvimento dos presidentes durante o processo de um MDD nacional
pode fazer com que a aprovação deles se torne maior. Abordando
campanhas, Vreese e Semetko (2004, p.12) observam que um MDD “may
alter the domestic political power equilibrium and it may lead to changes in
the approval ratings of parties and political leaders”. Porém, esse efeito não
parece ser igual para todos os tipos de MDDs. Aqueles iniciados pelo
próprio chefe do Executivo devem ter impacto positivo, ao contrário de
MDDs iniciados pelos cidadãos, especialmente os que são contra leis recém-
sancionadas pelo presidente.

No caso específico de iniciativas populares, entre as preferências


do Legislativo e do Executivo, tende a ser o presidente quem se beneficia;
pois, como esse é eleito pela maioria dos cidadãos, provavelmente está mais
alinhado com as preferências do eleitor médio (MATSUSAKA, 2008). O
mesmo pode ser estendido para os plebiscitos facultativos iniciados pelo
presidente, sempre que estiver mais próximo do eleitor médio do que o
Legislativo. Bowler e Glazer (2008) diagnosticaram que a pesquisa empírica
sobre o efeito da iniciativa popular no governo e na governabilidade é quase
inexistente, o que reforça a importância da pesquisa aqui realizada.

Além da questão dos afastamentos dos presidentes, outros eventos


políticos podem afetar a avaliação presidencial. De forma positiva, podemos
citar crises internacionais, conquistas diplomáticas e eventos que afetam
diretamente a pessoa do presidente, usualmente relacionados com a sua
saúde; de forma negativa, escândalos políticos, agitação doméstica e
iniciativas políticas impopulares (OSTROM, SMITH, 1992 apud PINTO,
2013). Ainda não há consenso em relação aos critérios de escolha desses
eventos, de forma que são sempre criticáveis. A cobertura midiática, no
entanto, é condição necessária para defini-lo como um rally event, uma vez
que ela possui centralidade na definição da agenda pública de questões e na
formação da opinião dos indivíduos.

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Aprovação presidencial (1996-2015) na AL 141

Pesquisas mais recentes indagam se as avaliações presidenciais são


mais retrospectivas ou prospectivas e se são feitas considerando seu próprio
bolso (pocketbook) ou o cenário econômico da coletividade (sociotropic) –
normalmente os indivíduos não responsabilizam o presidente por suas
condições individuais (PINTO, 2013). Cohen (2004), comparando 44 países,
em 2002, descobriu que – em países em desenvolvimento e em democracias
mais recentes – a visão é predominantemente retrospectiva, ao passo que
entre os avançados, prospectiva. Dessa forma, para estudar a América
Latina, utilizamos a avaliação da situação corrente do país.

Tratando especificamente de América Latina, um único estudo


comparado foi encontrado. Cabezas (2015) utiliza outra base de dados, o
Latin American Public Opinion Project (LAPOP), além de focar no curto
período, entre 2010 e 2012. Grande trabalho é empreendido classificando
todas as identificações partidárias como oposição e governo de acordo com
as coalizões formadas em cada mandato. O autor conclui que os latino-
americanos consideram as expectativas da economia (tanto egocêntrica
como sociocêntrica) para a aprovação presidencial e que o terço de eleitores
que se identifica com algum partido avalia o presidente de acordo com sua
posição de situação ou governo. Outro estudo nos Estados Unidos, de 1955
a 2005, tinha apontado que aqueles que se dizem independentes ou que
votaram contra o governo são mais propensos a levar as questões
econômicas em consideração (LEBO, CASSINO, 2007).

Há estudos de casos específicos de certos países da América Latina.


No México, por exemplo, estudando o período de 1988 a 1993, Buendia
(1996) encontrou evidências de que os cidadãos avaliam a performance do
presidente de acordo com o desempenho da economia; como, por exemplo,
a inflação. Além disso, encontrou indícios de que as reformas econômicas
precisam ser introduzidas no começo dos mandatos de novos presidentes,
para que estes não sejam culpados por problemas dos governos passados.

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Aprovação presidencial (1996-2015) na AL 142

Em relação ao Chile, destaca-se o aumento da popularidade da


presidenta Michele Bachelet, justamente com o início da crise financeira
mundial, quando foi lançado um pacote que amplia o repasse aos
municípios, antecipa a restituição do imposto de renda e aumenta os bônus
entregues a pessoas participantes de programas sociais (APABLAZA;
JIMÉNEZ, 2009). Comparando os mandatos de Lagos, Bachelet e Piñera,
constata-se que os níveis de aprovação dependem fortemente do presidente
de turno (RAMIREZ, VARAS, 2013) e que quanto mais os ministérios
espelham o peso dos partidos da coalizão na composição do governo (isto é,
tem um governo de mais políticos e menos técnicos), maior é aprovação
presidencial (JOFRÉ, NAVIA, 2017), entre outros estudos.

No Peru, Arce (2002) estudou o impacto do combate contra a


guerrilha na aprovação presidencial nos mandatos dos presidentes García e
Fujimori, descobrindo que aquele depende da inclinação ideológica dos
governos. Quando Arce e Carrión (2010) estendem o período analisado
(1985-2008), concluem que as variáveis econômicas tradicionais – como
desemprego e salários – têm efeitos bem visíveis e que os resultados
diferentes encontrados estão relacionados com crises bem específicas. Esses
achados reforçam os resultados encontrados por Berlemann e Enkelmann
(2012) de que parte da inconsistência dos estudos sobre aprovação
presidencial se dá em função da análise de séries muito curtas.

Quanto ao Brasil, estudando os dois mandatos de Fernando


Henrique Cardoso, Gramacho (2005) conclui que a desvalorização da
moeda, seguida pelo desemprego, foram os fatores que mais influenciaram a
aprovação de tal presidente, mas que ciclos de atenção temática podem
alterar a influência das variáveis econômicas. Em outro estudo sobre os
mandatos desse presidente e de Luís Inácio Lula da Silva, conclui-se que a
opinião pública brasileira avalia o trabalho do presidente a partir do bom
desempenho da inflação e do desemprego, de características específicas do
mandatário relativas ao carisma, sob influência extraordinária do cenário

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Aprovação presidencial (1996-2015) na AL 143

político (PINTO, 2013). Por constatações como essas, testamos também a


variável de eventos políticos extraordinários (positivos ou negativos).

No Uruguai, resultados um pouco diversos são encontrados. Os


cidadãos julgariam o presidente segundo a avaliação prospectiva da sua
economia pessoal; porém, o período analisado diz respeito somente a 2007-
2013 (CARLIN, HUNT, 2015). Na Argentina, Catterberg e Pallanza (2012)
analisam o mandato de Cristina Kirschner, com uma dinâmica diferente do
que houve no Governo de Bachelet, no Chile, mencionado acima. Seu
governo era mal avaliado no começo da crise internacional, melhorando sua
aprovação apenas em 2010, quando a economia apresentou sinais de
melhora (crescimento econômico com geração de empregos, apesar da alta
da inflação) e consolidando o patamar com a onda de empatia decorrente da
morte de seu marido, o ex-presidente Néstor Kirschner. Trata-se de um
evento político próximo aos casos citados de problemas de saúde dos
presidentes, que normalmente se revertem em avaliações mais positivas.

Na seção seguinte, boa parte das variáveis aqui trabalhadas são


inseridas nos modelos que se propõem a explicar a aprovação presidencial,
tanto com variáveis macro (nível 2), como indicadores econômicos,
realização ou não de MDDs, quanto por variáveis micro (nível 1) derivadas
de opiniões de indivíduos latino-americanos e suas características referentes
à escolaridade, faixa etária etc.

Os modelos multiníveis explicativos da aprovação presidencial


na América Latina

A questão sobre a aprovação do Presidente no Latinobarômetro é


uma variável dummy. Ela foi formulada assim: “Você aprova ou desaprova
o modo como a atual administração chefiada pelo/a (nome do/a Presidente)
está conduzindo o país?”. A resposta “desaprovo” foi codificada como zero
e “aprovo” como 1. Entretanto, essa questão começou a fazer parte dos
surveys somente em 2002 – permanecendo nos questionários por todo

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Aprovação presidencial (1996-2015) na AL 144

período até o presente.

A solução encontrada para os anos anteriores a 2002 foi utilizar a


variável confiança no Presidente entre os anos 1996 e 2001 como proxy para
a aprovação. Dessa forma, as opções “nenhuma confiança” e “um pouco de
confiança” foram transformados em “desaprovo” (codificadas como zero), e
“alguma confiança” e “muita confiança” (codificadas como um). O gráfico
1 apresenta a média dessa variável na América Latina. O gráfico 2, por sua
vez, demonstra as variações em todos os 16 países.

Gráfico 1. Aprovação presidencial média de 16 países latino-


americanos (1996-2015)

70,0%

60,0%

50,0%

40,0%

Média
30,0%

20,0%

10,0%

0,0%
1996 2001 2006 2011

Fonte: Elaboração própria


Fonte dos dados brutos: Latinobarômetro

Para lidar com surveys em 17 diferentes anos, provenientes de 16


países, são utilizados modelos multiníveis. Nesses modelos, as variações do
âmbito dos indivíduos são relacionadas com as variações do âmbito do

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Aprovação presidencial (1996-2015) na AL 145

sistema; ou seja, as informações provenientes do sistema ajudam a mitigar o


poder explicativo das características individuais. Esses modelos, além de
permitirem que dados de vários anos e vários países sejam analisados
conjuntamente – quando o número de observações não é suficiente para a
realização de uma análise seriada – apontam ainda a importância dos fatores
contextuais não considerados, de cada país e de cada ano, pelas variáveis
inseridas.

Gráfico 2: Aprovação presidencial em cada um dos 16 países


latino-americanos (1996-2015)

100,0% Argentina
90,0% Bolívia
Brasil
80,0%
Colombia
70,0% Costa Rica
Chile
60,0%
Equador
50,0% El Salvador
Guatemala
40,0%
Mexico
30,0% Nicaragua
Panama
20,0%
Paraguay
10,0% Peru
Uruguay
0,0%
1996 2001 2006 2011 Venezuela

Fonte: Elaboração própria


Dados Brutos: Latinobarômetro

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Aprovação presidencial (1996-2015) na América Latina 146

Aprovação presidencial com variáveis de nível 1

Nos modelos de aprovação presidencial, a diferença na precisão de


um modelo que não faz distinção entre as médias dos países e dos anos e o
modelo multinível de ordenada de origem que varia e declive fixo é de nove
pontos percentuais (52,2% - Tabela 1 - e 61,2%1, respectivamente). Esses
números mostram que não é possível ignorar as diferenças entre os países
ou a situação conjuntural de cada ano. A variância de nível 1 é sempre, nos
casos de variáveis qualitativas, de aproximadamente 3,29. Portanto, a
variância dos países é responsável por 3% da total 2, e a dos anos, por
6,2%3.

Adicionando, uma a uma, as variáveis dos indivíduos, a que mais


aumenta a precisão do modelo é a percepção da situação econômica do país,
alcançando 65,6% – isto é, melhora 4,4 pontos percentuais. Isso é mais do
que a percepção da situação pessoal (63%), demonstrando uma consideração
mais social e menos egoísta na hora em que os latino-americanos avaliam
seus presidentes – o que já tinha sido observado em outras pesquisas sobre o
tema. As outras variáveis – sozinhas – ou não aumentam a capacidade de
explicação do modelo ou não apresentam significância estatística. De todo
modo, quando inseridas conjuntamente, elas apresentam melhor
desempenho; logo, a confiança interpessoal, a educação, a idade foram
incluídas no segundo modelo apresentado na tabela 14. Esse modelo de
variáveis de nível 1 apresenta precisão de 65,8%5.

Comparados com aqueles que percebem a situação econômica

1
Critérios de informações 1,219,755.160.
2
0,102 / (0,102+3,29)
3
0,219 / (0,219+3,29)
4
A variável “sexo” não se apresentou significativa nem aumentou o poder de explicação do
modelo, mesmo junto às outras variáveis apresentadas na Tabela 1, de forma que, por
motivos de parcimônia, foi deixada de fora.
5
Critérios de informações 1.189.906,113.

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Aprovação presidencial (1996-2015) na América Latina 147

como muito ruim, os que a avaliam positivamente têm seis vezes mais
probabilidade de aprovar o chefe do Executivo – isto é, 620% mais chances,
desde que mantendo todas as outras variáveis constantes, ou seja, na
categoria de referência zero (os mais jovens, menos educados e sem
confiança interpessoal), omitidas aqui por terem parâmetros redundantes.

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Aprovação presidencial (1996-2015) na América Latina 148

Tabela 1. Variáveis do nível 1 nos modelos de aprovação


presidencial na América Latina (1996-2015)

1) Efeitos aleatórios apenas 2) Variáveis indivíduos

Coef. Sig. Exp. Coef. Sig. Exp.

Ordenada de -0,111 ,423 0,895 -1,030 ,000 0,357


origem

País 0,102 ,006 0,077 ,006

Ano 0,219 ,005 0,133 ,005

Situação MB 1,985 ,000 7,281

Situação B 1,909 ,000 6,748

Situação M 1,156 ,000 3,176

Situação R 0,391 ,000 1,479

Confiança 0,209 ,000 1,233


Interpessoal

Superior -0,230 ,000 0,794


compl.

Superior -0,197 ,000 0,821


incompl.

Médio -0,158 ,000 0,854


compl.

Médio -0,130 ,000 0,878


incompl.

Fundamental -0,053 ,000 0,949


completo

Fundamental 0,012 ,000 1,012


incompl.

61+ anos 0,221 ,000 1,247

41 a 60 0,134 ,000 1,143

26 a 40 0,090 ,000 1,094

A confiança interpessoal aumenta em 23% a probabilidade de


aprovar o presidente. Pessoas com pouca escolaridade têm mais chance de

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Aprovação presidencial (1996-2015) na América Latina 149

avaliar bem o chefe do Executivo. Aqueles no grupo com ensino superior


completo têm 21% menos probabilidade de aprovação presidencial do que
aqueles sem escolaridade, mantidas as outras variáveis constantes.

Em relação à idade, os mais velhos tendem a ter melhores


avaliações que os mais jovens, com chances de aprovação presidencial em
torno de 25% maiores6 – o que faz sentido de acordo com as teorias pós-
modernas que apontam os jovens e aqueles com maior escolaridade como
mais críticos em relação às formas tradicionais de organização e atividade
política.

Modelo com variáveis de nível 2

Entre as variáveis macroeconômicas disponíveis, o crescimento do


PIB, o coeficiente Gini, a inflação e o desemprego são algumas das que
podem explicar a avaliação econômica corrente dos países. Ao se inserir
cada uma isoladamente no modelo para explicar a aprovação presidencial,
elas melhoram pouco o poder de explicação dos modelos (inflação e PIB um
pouco mais 61,8% e 61,7%, desemprego e Gini um pouco menos, 61,3% e
61,4%), porém são todas significativas e com o sinal esperado: mais
desemprego, desigualdade e inflação diminuem as chances de aprovação
presidencial; e maior crescimento do PIB as aumenta. Todas elas juntas,
com as variáveis de nível 1, alcançam uma precisão de 66% e são
apresentadas no modelo 1 da tabela 2. As variáveis de nível 1 conservam
coeficientes muito parecidos em todos os modelos, de forma que foram
omitidos nas tabelas seguintes.

6
Achados anteriores de Booth e Seligson (2009) apresentaram a mesma relação negativa da
escolaridade com a aprovação, mas encontraram, na sua base de dados mais restrita (oito
países latino-americanos com dados de apenas um ano), relação inversa também quanto à
idade. Com dados de mais países e mais anos, aponta-se aqui que os cidadãos de grupos
etários de idade mais avançada têm mais tendência de aprovar o governo do que os mais
jovens.

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Aprovação presidencial (1996-2015) na América Latina 150

Centradas e divididas pelo seu desvio-padrão, para poderem ser


comparadas, sem coeficientes minimamente comparáveis com aqueles que
são fruto da avaliação dos cidadãos, conclusões de outros trabalhos
(POWER, JAMISON, 2005; MCALLISTER, 1999) são reiteradas, em que
pesam muito mais as percepções subjetivas dos cidadãos sobre a situação
econômica do país do que os macro-indicadores normalmente utilizados
para avaliar a economia7. Essas percepções vêm mediadas pela situação
social da pessoa entrevistada, pela cobertura midiática e por outros fatores.
A importância dos meios de comunicação no discurso dos latino-americanos
(mas não necessariamente em seu comportamento), pode ser constatada
quando, por exemplo, percebe-se que quase 90% dos cidadãos desconfia dos
partidos (o que concorda com a agenda informativa), porém, 42% estão
dispostos a votar neles (INFORME, 2003). Há também diferença entre
percepção dos problemas (como corrupção ou violência) considerados como
o maior problema do país e a ocorrência do problema em si. A Venezuela,
por exemplo, era o único país onde havia

más congruencia entre la tasa de victimización y la percepción


del problema. En todos los otros países donde la delincuencia
es el problema principal del país, este no es el problema
principal de las personas. Esto confirma […] que el problema
principal del país es una consecuencia de la agenda pública y
política, mas que se la ocurrencia de los hechos. (INFORME,
2008, p.22)

O fornecimento de novos serviços públicos, por exemplo, pode


fazer com que parte do orçamento de várias famílias seja desonerada e gerar
a percepção de que a situação econômica do país vai melhor, ainda que os
grandes indicadores econômicos não mostrem muitas alterações ou
demonstrem até deteriorização. Outros trabalhos já apontaram que “la
entrega de subsidios y el incremento en el gasto social aportarían
positivamente a la forma en que la ciudadanía percibe a un gobierno”
(CERDA, VERGARA, 2009 apud APABLAZA, JIMÉNEZ, 2009, p.7).

7
Em relação ao desempenho econômico, Matsusaka (2008) conclui que os eleitores
incorporam informação de dois anos, portanto, não são tão imediatistas.

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Aprovação presidencial (1996-2015) na América Latina 151

Tabela 2. Variáveis de níveis 1 e 2 nos modelos de aprovação


presidencial na América Latina (1996-2015)

1) Variáveis nível 1 + nível 2) Variáveis de nível 1 3) Variáveis de nível 1 +


2 econômicas + nível 2 institucionais nível 2 política

Coef. Sig. Exp. Coef. Sig. Exp. Coef. Sig. Exp.

Ordenada de -0,120 ,415 0,887 Ordenada de -1,100 ,000 0,333 Ordenada de -1.306 ,000 0.271
origem origem origem

País 0,093 ,006 País 0,089 ,006 País 0.080 ,006

Ano 0,104 ,005 Ano 0,137 ,005 Ano 0.134 ,005

Situação MB 1,954 ,000 7,054 Situação MB 1.988 ,000 7,301 Situação MB 1.991 ,000 7.324

Situação B 1,885 ,000 6,584 Situação B 1.898 ,000 6,673 Situação B 1.916 ,000 6.673

Situação M 1,139 ,000 3,124 Situação M 1.150 ,000 3,157 Situação M 1.161 ,000 3.194

Situação R 0,382 ,005 1,465 Situação R 0.382 ,000 1,465 Situação R 0.395 ,000 1.484

Confiança 0,210 ,000 1,234 Confiança 0.219 ,000 1,245 Confiança 0.208 ,000 1.231
Interpessoal Interpessoal Interpessoal

Superior -0,236 ,000 0,790 Superior -0.226 ,000 0,798 Superior -0.231 ,000 0.794
compl. compl. compl.

Superior -0,202 ,000 0,817 Superior -0.196 ,000 0,822 Superior -0.200 ,000 0.819
incompl. incompl. incompl.

Médio -0,164 ,000 0,848 Médio -0.154 ,000 0,858 Médio -0.160 ,000 0.852
compl. compl. compl.

Médio -0,133 ,000 0,875 Médio -0.125 ,000 0,882 Médio -0.132 ,000 0.876
incompl. incompl. incompl.

Fundamental -0,058 ,003 0,944 Fundamental -0.063 ,000 0,939 Fundamental -0.054 ,000 0.948
completo completo completo

Fundamental 0,007 ,704 1,007 Fundamental 0.020 ,300 1,020 Fundamental 0.013 ,000 1.013
incompl. incompl. incompl.

61+ anos 0,214 ,000 1,238 61+ anos 0,222 ,000 1,249 61+ anos 0.219 ,000 1.245

41 a 60 0,131 ,000 1,140 41 a 60 0,136 ,000 1,146 41 a 60 0.133 ,000 1.142

26 a 40 0,088 ,000 1,092 26 a 40 0,090 ,000 1,094 26 a 40 0.089 ,000 1.093

PIB Cresc 0,025 ,000 1,025 Eleições 0.661 ,000 1.936 Eventos 0.541 ,000 1.717
políticos
positivos

Inflação -0,118 ,000 0,889 Referendos -1.004 ,000 0.336 Sem eventos 0.273 ,000 1.314
positivos ou
negativos

Desemprego -0,028 ,001 0,972 Plebiscitos 0.040 ,201 1.041

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Aprovação presidencial (1996-2015) na América Latina 152

1) Variáveis nível 1 + nível 2) Variáveis de nível 1 3) Variáveis de nível 1 +


2 econômicas + nível 2 institucionais nível 2 política

Mandatórios

Gini -0,081 ,000 0,922 Plebiscitos 0.321 ,000 1.378


Facultativos

Iniciativas -0.210 ,000 0.811


Populares

Entre as variáveis institucionais, uma das mais importantes é a


ocorrência de eleições nacionais, que têm efeitos semelhantes aos esperados
dos MDDs sobre a avaliação que os cidadãos fazem dos processos
democráticos, das instituições e das autoridades (INFORME, 2006, 2009,
2010). Quando inserida apenas essa variável de eleições ocorridas no ano
anterior à realização dos surveys, o modelo alcança 62% de eficácia e
aumenta em 52% as chances de aprovação presidencial. Se ocorridas no
período de apenas seis meses antes da aplicação dos questionários, a eficácia
do modelo permanece a mesma; porém, o efeito lua-de-mel é identificado,
já que as chances de aprovação presidencial crescem para 94%.

Se somente é inserida a variável relativa à ocorrência de MDDs no


ano anterior à aplicação dos questionários, a eficácia do modelo fica em
61,1% e as chances de aprovação presidencial com a sua ocorrência
aumentam 14%. Ao contrário das eleições, diminuir o período de influência
das votações para seis meses melhora a eficácia do modelo (61,5%); porém,
a variável perde significância estatística. Isto certamente está relacionado
aos diferentes tipos de MDDs8. O papel do presidente tende a ser um
quando ele propõe a votação e outro quando são os cidadãos/grupos de
interesses, às vezes organizados pela oposição, que convocam o MDD. Da

8
Quando eleições e MDDs entram no modelo juntamente, explicam 61,9% da variação do
modelo, sendo que ocorrência de eleições aumenta 57%, ao passo que os MDDs, 12%.
Restringindo o período para seis meses, a eficácia fica em 62% e eleições aumentam 95% a
probabilidade de aprovação presidencial, enquanto o MDDs 17%.

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Aprovação presidencial (1996-2015) na América Latina 153

mesma forma, o Chefe do Executivo tem oportunidade de se comportar de


uma maneira quando o MDD tem fins propositivos e, de outra, quando tem
fins revogatórios. Há diferenças, ainda, quando o MDD é requerido por lei
ou não.

Ao inserir apenas a variável “tipos de MDDs”, o poder de


explicação do modelo é 61,5%, a iniciativa popular não é significativa, o
refendo apresenta 67% de probabilidade de diminuir a aprovação
presidencial, o que faz sentido dado que a ideia é revogar uma lei recém-
aprovada pelo governo no turno, ao passo que o plebiscito mandatório
aumenta 19% e o facultativo, 31%9. Quando inserimos tipos e eleições nos
modelos, a eficácia fica de 62,5% e todos os MDDs perdem a significância
– porém, tudo isso sem as variáveis de nível 110.

Quando inseridas as variáveis institucionais junto às variáveis de


nível 1 (modelo 2 da tabela 2), a eficácia do modelo sobe para 66,4%11. A
ocorrência de eleições, depois da percepção da situação corrente da
economia do país, é a variável que mais influencia a aprovação presidencial:
eleições aumentam 94% as chances de que o presidente seja aprovado,
lembrando que essas probabilidades de aprovação do chefe do Executivo
são calculadas mantendo as outras variáveis constantes no valor zero – isto
é, a probabilidade relativa às eleições é calculada em relação ao grupo que
não teve ocorrência de eleições naquele ano, considerando pessoas que não

9
Considerando os surveys pelo período de até um ano após a realização dos MDDs, a
eficácia alcança 61,7%, todos os tipos são estatisticamente significativos. O referendo tem
sinal negativo, isto é, ele diminui em 74% as chances de aprovação presidencial. O
plebiscito mandatório, cuja ingerência do Presidente é um pouco menor, aumenta em 21%
as chances de aprovar o chefe máximo do Executivo. Como era de se esperar, o plebiscito
facultativo aumenta 29%, mas apenas 1% do que a iniciativa popular, que tem pouca
ingerência do Presidente, mas parece que mesmo essa aproxima o mandatário da
população.
10
O período expandido em um ano mostra um modelo que alcança 62,6% de eficácia, as
eleições aumentam em 55% as chances de aprovação presidencial, o referendo tem
influência negativa (76%), juntamente com as iniciativas populares (11%), ao passo que os
plebiscitos facultativos têm influência positiva, aumentando 8% e os mandatórios 1%.
11
Com critério de informações de 1,193,690,907

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Aprovação presidencial (1996-2015) na América Latina 154

votaram em MDDs, avaliam a situação do país como muito ruim, não têm
escolaridade e pertencem ao grupo mais jovem.

Os referendos, como se contrapõem a leis aprovadas (propõem o


retorno ao status quo normalmente modificado pelo próprio governo), além
de frequentemente tirar do presidente seu papel de liderança ativa, têm clara
influência negativa na aprovação do chefe do Executivo: diminuem em 64%
a probabilidade de tal. As iniciativas populares, que apesar de proporem
uma lei, retiram também parte do poder de iniciativa do chefe do Executivo,
reduzem essas chances em 19%.

Os plebiscitos facultativos, aqueles propostos pelo presidente,


aumentam 38% a chance de aprovação: menos do que as eleições, porém
mais do que a confiança interpessoal, a escolaridade ou a idade, por
exemplo. Isso apesar de três dos oito casos que possuem surveys nos seis
meses seguintes terem resultados anti-hegemônicos. Quer dizer, o Executivo
teve a sua posição rejeitada (QVORTRUP, 2005), demonstrando algum
sucesso da estratégia de muitos presidentes de convocar MDDs com a
expectativa de aumentar sua legitimidade pessoal (ALTMAN, 2010;
MOREL, 2001).

Um dos casos de rejeição – o da Colombia, em 2003 – o então


recém-eleito presidente, Álvaro Uribe, embora não tenha conseguido
quorum para a aprovação do plebiscito, conseguiu reunir mais votos do que
em sua própria eleição (PÉCAUT, 2004). Outro caso, o do Brasil, está na
mesma zona de influência do escândalo do Mensalão, quando o então
presidente Lula foi acusado pela mídia de envolvimento direto no episódio
de compra de votos de parlamentares (PINTO, 2013). No caso venezuelano,
após a vitória das eleições de 1998, do plebiscito facultativo sobre a
Assembleia Constituinte, do plebiscito obrigatório da nova Constituição e
das eleições gerais em 2000, o plebiscito facultativo sindical foi a primeira

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Aprovação presidencial (1996-2015) na América Latina 155

derrota do presidente Hugo Chávez, ocorrida três meses após a greve


petroleira de setembro de 2000. A consulta foi, inclusive, contestada pela
Comissão Interamericana de Direitos Humanos por “haber permitido a la
población em general participar en dicho referendo, es decir, incluyendo a
personas distintas de los trabajadores afiliados, implicó uma violación al
derecho a la liberdad sindical y al de los trabajadores a elegir a sus
dirigentes” (LISSIDINI, 2006, p.17). A taxa de filiação sindical era de
somente 14% da população economicamente ativa.

Por fim, em relação aos eventos políticos importantes encontrados


em estudos de casos sobre os diferentes países da América Latina, eles
foram classificados da seguinte forma: quando o presidente tem uma doença
grave ou perde um familiar (como nos casos de Chávez, na Venezuela, ou de
Kirschner, na Argentina), essas situações tendem a produzir empatia no
eleitorado e, portanto, foram classificados como tendo efeitos positivos nos
surveys realizados em até seis meses depois da divulgação dessas notícias.
No caso de afastamento dos presidentes, como visto na seção anterior, a
situação do chefe do Executivo quando renuncia ou é retirado do poder é
geralmente bastante ruim em termos de popularidade. Dessa forma, em
comparação ao período anterior, tende a ter um efeito positivo na aprovação
presidencial de quem assume depois. O afastamento de três presidentes (De
la Rua, na Argentina; Fujimori, no Peru; e Mesa, na Bolívia), ocorridos até
2015, são incluídos nos modelos. Nesses casos, a queda se deu num período
de seis meses antes da aplicação dos questionários; nos outros, o
acontecimento já tinha ficado no passado12. Já situações como a crise na
educação e no sistema de transporte público no Chile, o apagão ou o
mensalão no Brasil, foram classificados como efeito negativo quando

12
Um deles foi o Presidente Zelaya de Honduras em 2009, porém esse país não faz parte da
amostra desse trabalho. Os dados de 2016 ainda não foram disponibilizados gratuitamente,
de forma que Rousseff no Brasil também ficará de fora. Os presidentes Lozada da Bolívia,
Bucaram do Equador, Cubas e Lugo no Paraguai, Pérez Molina na Guatemala caíram a
mais de seis meses antes dos surveys serem aplicados.

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Aprovação presidencial (1996-2015) na América Latina 156

ocorridas até seis meses antes dos questionários serem aplicados.

Esse corte de seis meses utilizado em todas as variáveis


apresentadas é baseado especialmente nas descobertas de Zaller (1992, p.79-
80) relativas à caraterística fundamental das preferências políticas da
população: “a tendência das pessoas a serem ambivalentes (talvez até de
forma inconsciente) e lidar com essa ambivalência tomando decisões com
base nas ideias que estão mais salientes”. Para os casos estudados aqui, é
mais provável que os cidadãos se lembrem, ao responder às pesquisas de
opinião, do processo de destituição de um presidente, das campanhas
eleitorais e das ações do presidente, assim como da votação de um MDD,
quando suas avaliações foram coletadas não muito tempo após a ocorrência
desses fatos.

Quando a variável “eventos políticos” é colocada isoladamente


para explicar a avaliação do presidente, não se mostra significativa; porém,
quando adicionada às variáveis de nível 1 (modelo 3 da tabela 2), em
relação às situações em que algum evento político ruim é registrado, a não
ocorrência de evento político anormal aumenta em 31% as chances de
aprovação presidencial e a ocorrência de um evento positivo amplia em 72%
essas chances. A eficácia do modelo alcança 65,8%. Comparando o poder de
explicação das variáveis de nível 2, as institucionais são as que alcançam o
melhor desempenho.

No caso dos efeitos das campanhas ou de possível expansão dos


gastos realizados no fim do governo, essa variável não se mostrou
significante quando colocada sozinha no modelo, tampouco quando
colocada junto aos eventos políticos e variáveis de nível 1, reforçando
achados de estudos anteriores de que tal efeito “nostalgia” não é uma regra.

O modelo final, demonstrado na tabela 3 – que considera as


variáveis de nível 1 (porém as omite, porque possuem resultados muito

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Aprovação presidencial (1996-2015) na América Latina 157

semelhantes aos da Tabela 1), e as variáveis de nível 2 econômicas,


institucionais e políticas simultaneamente – aponta que, entre as variáveis
“macro”, as variáveis institucionais e políticas são mais importantes para
explicar a aprovação presidencial. Eleições, eventos políticos positivos e
plebiscitos facultativos afetam a avaliação do Chefe do Executivo
positivamente, ao passo que referendos e iniciativas populares,
negativamente. Esse modelo alcança 66,6% de eficácia.

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Aprovação presidencial (1996-2015) na América Latina 158

Tabela 3. Variáveis do nível 1 e 2 nos modelos de aprovação


presidencial na América Latina (1996-2015)

Variáveis de nível 1 + nível 2


(econômicas, institucionais e políticas)

Coef. Sig. Exp.

Ordenada de origem -0,872 ,000 0,418

País 0,104 ,006

Ano 0,113 ,005

Eleições 0.636 ,000 1.889

Referendos -1.174 ,000 0.309

Plebiscitos Mandatórios 0.016 ,610 1.016

Plebiscitos Facultativos 0.279 ,000 1.322

Iniciativas Populares -0.188 ,000 0.828

Eventos Políticos Positivos 0.637 ,000 1.891

Sem eventos positivos ou 0.186 ,000 1.204


negativos

Crescimento do PIB 0.020 ,000 1.020

Inflação -0.008 ,000 0.991

Desemprego 0.000 ,901 1.000

Gini -0.008 ,000 0.992

Considerações finais

Vários estudos de casos específicos de aprovação presidencial


foram realizados sobre países latino-americanos, alguns deles mencionados
neste artigo. Porém, no que diz respeito a estudos comparativos, apenas um
foi encontrado – e ainda assim não tratou de um período muito extenso. A
literatura aponta que o tamanho das séries faz com que variáveis

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.134-165, mar./jun., 2018


Aprovação presidencial (1996-2015) na América Latina 159

econômicas tenham desempenhos diferentes. No entanto, quando as séries


são maiores, costumam apresentar resultados mais estáveis.

Para lidar com as diferenças entre os países e o contexto de cada


ano, assim como com o fato da série anual de 1996 a 2015 não ser longa o
suficiente para a utilização de análise seriada, modelos multiníveis foram
utilizados e apontaram uma diferença de 3% em relação aos 16 países
estudados, e de 6% em relação ao contexto dos 17 anos analisados.

Entre os resultados mais significativos está a importância


predominante da percepção sobre a situação corrente da economia do país, o
que vai ao encontro da tendência a incluir medidas subjetivas da situação
econômica para a explicação da aprovação presidencial. Essa variável é
mais importante do que aquela que diz respeito à situação econômica
pessoal do entrevistado, mostrando que o cidadão latino-americano não faz
suas avaliações considerando apenas a si próprio. Com menor intensidade, a
confiança interpessoal aumenta a probabilidade de aprovação presidencial
assim com as faixas etárias maiores, ao contrário da escolaridade: mais
estudo diminui as chances de o Chefe do Executivo ser bem avaliado.

Quando as variáveis de nível macro (econômicas, institucionais e


políticas) são inseridas separadamente nos modelos com as variáveis
“micro” recém-mencionadas, são as institucionais as que tornam a eficácia
do modelo melhor. No caso das eleições, o efeito lua-de-mel é constatado,
ao contrário do efeito nostalgia, e a ocorrência de eleições é a segunda
variável que mais afeta a probabilidade de aprovação presidencial (depois da
percepção dos cidadãos em relação à economia nacional). Próxima a ela, há
a influência negativa dos referendos, que são propostos pelos cidadãos para
revogar leis recém-aprovadas, e a influência positiva de eventos políticos
que criem ondas de empatia em função da situação de saúde do presidente
ou da perda de algum familiar e de destituição de presidentes que, em geral,

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.134-165, mar./jun., 2018


Aprovação presidencial (1996-2015) na América Latina 160

se encontraram com baixa popularidade, enfrentando momentos de grande


mobilização popular. Esses eventos contrastam com aqueles que dizem
respeito a escândalos políticos e políticas malsucedidas.

Assim, numa região em que vários presidentes não conseguem


terminar o mandato e que crises econômicas normalmente afetam as
maiorias mais vulneráveis de suas populações, é importante que se saiba que
outras variáveis afetam a sua popularidade. Em alguns momentos, propor
aos cidadãos alternativas para o país que sejam discutidas e votadas
diretamente por eles pode ajudar na avaliação do Chefe do Executivo. Os
índices de aprovação costumam, inclusive, servir como fator que influencia
as relações entre o presidente e o Legislativo. Por outro lado, se um grupo
de cidadãos toma a iniciativa de propor leis a serem votadas por todos, é
provavelmente porque o Chefe do Executivo se afastou demais da
preferência média do eleitorado. Essa movimentação pode servir de alerta e
aqui se encontra o poder de haver previsão de mecanismos de democracia
direta (MDDs) mesmo quando eles não são usados.

Ainda que muitos outros eventos ainda não constatados precisem


entrar nos modelos, esses resultados já mostram a impossibilidade de se
ignorar eventos políticos extraordinários quando se tenta explicar as
avaliações dos chefes do Executivo. Essas constatações apontam para a
necessidade de integração de pesquisa quantitativa e qualitativa para
explicar aspectos tão complexos das democracias, como a aprovação
presidencial.

Se houvesse disponibilidade da avaliação dos cidadãos sobre as


políticas públicas, estas teriam impacto na aprovação do presidente. Booth e
Seligson (2009), trabalhando com oito países da América Latina,
encontraram resultados positivos ao incluir segurança e corrupção na
dimensão de avaliação das autoridades democráticas. Da mesma forma, a

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.134-165, mar./jun., 2018


Aprovação presidencial (1996-2015) na América Latina 161

inclusão da variável sobre quem votou no presidente eleito talvez


aumentasse a precisão dos modelos. Esses aspectos merecem ser mais
estudados em uma perspectiva comparada, especialmente que combine
dados quantitativos e qualitativos.

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.134-165, mar./jun., 2018


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Aprovação presidencial (1996-2015) na América Latina 165

Palavras- Resumo: Em uma região onde, não raro, os presidentes não


conseguem terminar seus mandatos, é interessante perguntar,
chave: para além do desempenho da economia, o quanto a aprovação
presidencial pode variar com o uso de mecanismos de
democracia direta e com eventos políticos. Apontar a relevância
Aprovação dessas questões econômicas, institucionais e propriamente
políticas, como a destituição de presidentes, na avaliação que os
presidencial. cidadãos fazem do Chefe do Executivo é o objetivo aqui. Os
Mecanismos de dados provêm do Latinobarômetro e englobam pesquisas de
opinião realizadas anualmente em 16 países, de 1996 a 2015,
democracia direta. analisadas por meio de modelos multiníveis. Os coeficientes
Percepção da gerados indicam que, entre as variáveis micro, a percepção da
economia. situação econômica corrente do país é a mais importante; ao
passo que entre as de nível macro, eleições, referendos e
América Latina. plebiscitos facultativos, assim como eventos políticos positivos
Modelos são as que mais influenciam a aprovação do Chefe do Executivo.
Multiníveis

Keywords ABSTRACT: In a region where presidents often fail to


complete their mandates, it is interesting to ask, beyond the
Presidential performance of the economy, how much presidential approval
can vary with the use of direct democracy mechanisms and with
approval. political events. To point out the relevance of these economic,
Mechanisms of institutional, and properly political issues, such as the dismissal
direct of presidents, in the assessment that citizens make of the Chief
democracy. Executive is the goal here. The data come from Latinobarometro
Economy’s and encompass opinion surveys conducted annually in 16
countries from 1996 to 2015, analyzed through multilevel
perception. models. The coefficients generated indicate that among the
Latin América. micro-level variables, the perception of the current economic
Multilevel situation of the country is the most important, whereas among
models. the macro level, elections, referenda and facultative plebiscites,
as well as positive political events are those that influence more
the approval of the Chief Executive.

Recebido para publicação em maio/2017


Aceito para publicação em agosto/2017

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.134-165, mar./jun., 2018


Hegemonia, fração de classe e
financeirização do capital:
elementos para uma abordagem
marxista e sistêmica sobre a crise
política brasileira
Mayra Goulart da Silva
Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (BRA)

Beatriz Soares Lourenço


Universidade Federal Fluminense (BRA)

Júlio César Pereira de Carvalho


Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (BRA)

Introdução

O objetivo deste trabalho é enquadrar a crise que levou à


interrupção do governo do Partido dos Trabalhadores (PT) no Executivo
Federal brasileiro, em uma perspectiva sistêmica que a compreenda como
parte de uma estrutura global, marcada por mudanças no processo de
acumulação capitalista; e também de uma conjuntura regional, marcada pelo

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.166-201, mar./jun., 2018


Hegemonia, fração de classe e financeirização do capital 167

refluxo da Maré Rosa. No que diz respeito à primeira dimensão, nosso


propósito é argumentar que, ao longo do século XX, a dinâmica capitalista
passou a ter no sistema financeiro seu principal lócus de acumulação e, nas
classes rentistas, sua fração hegemônica. No que concerne à segunda
dimensão, buscar-se-á demonstrar que, na América Latina, a ascensão das
elites financeiras e sua hegemonia sobre os demais segmentos da elite
(econômica e política) está submetida a uma dinâmica de abundância e
escassez de moeda conversível (boom and boost cycles), associada,
sobretudo, às oscilações nos preços das commodities.

Para isso, na primeira parte do trabalho, será apresentado um


instrumental teórico de origem marxista (COX, 2007; POULANTZAS,
1977; 1980; GRAMSCI, 1968; 2000a; 2000b), com o intuito de apresentar
os conceitos de hegemonia e fração de classe. Em seguida, será
empreendida uma breve incursão na história econômica, sinalizando uma
alteração no bloco histórico estruturado a partir das instituições de Bretton
Woods (NAYYAR, 2006; EPSTEIN & POWER, 2003). Na segunda parte
do trabalho, por sua vez, analisaremos o impacto da financeirização do
capital na periferia do sistema capitalista, aqui caracterizados pela
vulnerabilidade econômica e pela dependência do ingresso de moeda
estrangeira, obtida, sobretudo, através da exportação de matérias primas e
por investimentos financeiros.

Na terceira e última parte, averiguaremos como essa relação de


dependência e vulnerabilidade se materializa no plano político. Por fim, o
instrumental será aplicado ao caso brasileiro, de modo a demonstrar que o
impeachment de Dilma Rousseff é um fenômeno multidimensional, cuja
compreensão é ampliada quando são contemplados fatores que ultrapassam
as vicissitudes do Presidencialismo de Coalizão (LIMONGI, 2006) e a
agência de indivíduos singulares dentro do então bloco de governo. Diante
disso, nosso argumento associa a interrupção do projeto levado a cabo pelo
PT a uma conjuntura econômica de escassez, que se traduz na percepção de

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Hegemonia, fração de classe e financeirização do capital 168

ameaça por parte das elites financeiras – que, ao abandonarem a coalizão de


forças que sustentava a administração petista, foram acompanhadas pelos
demais segmentos do empresariado brasileiro. Contudo, conforme será
demonstrado mais adiante, a separação entre os setores rentistas e
produtivos adquire, neste trabalho, um cunho meramente metodológico,
dado o caráter multifacetário de atuação e acumulação da burguesia atuante
no Brasil.

Hegemonia, fração de classe e financeirização do capital:


elementos para uma abordagem marxista e sistêmica sobre a
crise política brasileira

O conceito de hegemonia se origina na tradição marxista,


demarcando uma inflexão no debate teórico acerca da relação entre estrutura
econômica e superestrutura política, enfatizando a importância da última na
configuração da teia de relações sociais que forma as diferentes
comunidades distribuídas no tempo e no espaço. Com isso, a sociedade civil
e a ideologia emergem, respectivamente, como espaço e ferramenta das
lutas por poder.

De acordo com Gramsci (1968), uma classe mantém seu domínio


não somente por meio do uso da força, mas exercendo uma liderança
intelectual e moral, fazendo concessões, dentro de certos limites, a uma
multiplicidade de aliados integrados em um bloco social de forças, ou (na
terminologia do autor) em um bloco histórico. Sobre ele, enraízam-se os
pressupostos de uma determinada ordem social, segundo os quais a
hegemonia de uma classe dominante específica é criada e reproduzida em
um complexo campo formado por instituições, ideias e relações sociais
(BOTTOMORE, 2013).

Sob este prisma, o desenvolvimento da hegemonia deve estar


pautado no consentimento ativo, ou seja: em um anseio coletivo formado
por diversos grupos da sociedade civil, porque a hegemonia é a conexão

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Hegemonia, fração de classe e financeirização do capital 169

entre a sociedade civil e os aparelhos do Estado (COX, 2007). O controle


democrático se desenvolve por meio da hegemonia em um nível mais
elevado, no qual a ideologia que a perpassa é fundamental. A ideologia
hegemônica, portanto, não é automaticamente determinada pelos interesses
imediatos da classe econômica predominante, mas é um espaço em disputa
(BOTTOMORE, 2013). Neste espaço, concorrem práticas e relações sociais
alternativas, que disputam a capacidade de determinar as instituições e os
aparelhos de poder que formam a sociedade civil. Além do Estado, cabe
destacar outros espaços nos quais é possível observar essa dinâmica, em que
se conformam e disseminam os mecanismos de coerção e consenso que
formam a hegemonia – como as escolas, a Igreja e os meios de
comunicação. É nesse contexto que os intelectuais orgânicos ganham
destaque como instrumentos de irradiação ideológica, uma vez que são
responsáveis pela construção da base de consenso na sociedade em torno de
seus interesses em uma disputa por corações e mentes, cujo locus prioritário
é a sociedade civil (GRAMSCI, 2000b).

Nesse esforço para ressaltar o caráter dinâmico e conflitivo do


conceito de hegemonia, a obra de Nico Poulantzas aparece como ferramenta
teórica particularmente interessante, uma vez que em “O Poder Político e
Classes Sociais” (1978), observa-se uma definição normativa de Estado, que
almeja superar o determinismo econômico – apontado como característico
de análises marxistas até então. Apesar das reformulações e viragens no
interior da obra do autor, é possível traçar como fio condutor a ideia de que
a natureza do Estado não pode ser avaliada de maneira afastada das
contradições dos conflitos provenientes da luta de classes que perpassam a
sociedade capitalista. Não obstante, dessa conexão não é derivada uma
relação inexorável de determinação, uma vez que o autor ressalta a
necessidade de se pensar as classes sociais para além das relações
econômicas de produção, levando em conta relações ideológicas e políticas

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Hegemonia, fração de classe e financeirização do capital 170

que, junto às econômicas, determinariam as formas de lutas de classe


(MOTTA, 2009).

Ao considerar a natureza das relações capitalistas de produção,


Poulantzas chega à conclusão de que existe uma fragmentação da classe
burguesa de acordo com o lugar que cada fração do capital ocupa no
processo de produção e acumulação capitalista (POULANTZAS, 1977).
Essa fragmentação é fundamental para o campo analítico e teórico de
Poulantzas, mesmo aparecendo de maneira mais complexa quanto à
realidade observada. As frações de classe são, portanto, resultado das
estruturas (econômica e política) do modo de produção capitalista, sendo
possível identificar, no plano econômico, a existência das burguesias
comercial, financeira e industrial e dos grandes proprietários de renda
fundiária.

O Estado é uma unidade repleta de contradições entre essas


distintas frações da classe dominante, que lutam entre si com o objetivo de
ampliar suas parcelas no processo de acumulação de capital. De acordo com
Poulantzas (1977, p. 225), “o estado capitalista, através do jogo interno das
suas instituições, torna possível, na sua relação com o campo da luta política
de classe – relação esta concebida como fixação de limites, a constituição do
bloco no poder”. O bloco no poder é uma unidade complexa e contraditória.

Sendo assim, o bloco no poder concentra as contradições entre


classes ou frações de classes dominantes, que coexistem no nível da
dominação política. A classe que possui a capacidade de liderar os
interesses econômicos, políticos e ideológicos das outras frações de classes
do bloco no poder detém

um papel dominante particular, o qual pode ser caracterizado


como papel hegemônico. Neste segundo sentido, o conceito de
hegemonia exprime a dominação particular de uma das classes
ou frações dominantes em relação às outras classes ou frações
dominantes de uma formação social capitalista
(POULANTZAS, 1977, p.137. grifo do autor).

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Hegemonia, fração de classe e financeirização do capital 171

A fração de classe hegemônica lidera os interesses políticos,


econômicos e ideológicos das outras frações de classes do bloco no poder,
porque polariza

(...) os interesses contraditórios específicos das diversas classes


ou frações do bloco no poder, constituindo os seus interesses
econômicos em interesses políticos, representando o interesse
geral comum das classes ou frações do bloco do poder:
interesse geral que consiste na exploração econômica e na
dominação política (Idem, p.234).

Diante dessa definição, o propósito das próximas seções será


demonstrar que foi este o papel exercido pelas classes rentistas ao guiarem
as demais frações da elite e da sociedade no processo de ruptura com os
governos petistas a partir de 2013, revelando sua hegemonia no tocante à
capacidade de apresentar seus valores e interesses particulares como uma
tradução do interesse nacional.

Sob essa perspectiva, as políticas de Estado são resultado, no curto


prazo, das relações de forças no âmbito do bloco no poder e da influência
que as frações de classe imprimem nas instituições e nos aparelhos do
Estado capitalista. Essas atuações geram processos contraditórios, limites e
bloqueios, característicos da natureza conflitiva do bloco no poder. Nas
palavras de Poulantzas:

Emanam daí táticas movediças e contraditórias, cujo objetivo


geral ou cristalização institucional se corporificam nos
aparelhos estatais. Esse campo estratégico é transpassado por
táticas muitas vezes bastante explícitas ao nível restrito onde se
inserem no Estado, táticas que se entrecruzam, se combatem,
encontram pontos de impacto em determinados aparelhos,
provocam curto-circuito em outros e configuram o que se
chama "a política" do Estado, linha de força geral que atravessa
os confrontos no seio do Estado (POULANTZAS, 1980,
p.157).

Essas relações se dão no âmbito da luta de classes e basicamente do


controle ou influência que a classe dominante pode ter sobre o aparelho
concentrador de poder, diminuindo a capacidade de uma vitória eleitoral em
alterar este domínio (TEIXEIRA & PINTO, 2012). Nessa chave analítica, os

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Hegemonia, fração de classe e financeirização do capital 172

ocupantes do poder não possuem autonomia para seguir conteúdos


programáticos efetivamente distintos, que de algum modo divirjam dos
interesses das frações hegemônicas da elite; inviabilizando, portanto, a
sustentabilidade de projetos comprometidos com os interesses das classes
produtivas que de algum modo reduzam a lucratividade das atividades
rentistas. Não obstante, como mostraremos na segunda seção, a
autonomia/heteronomia entre elites políticas e econômicas não é uma
relação estática, posto que varia conforme a conjuntura econômica – isto é,
conforme a capacidade de conciliar iniciativas voltadas ao crescimento e a
distribuição de renda com uma elevada rentabilidade dos investimentos
rentistas.

Desse modo, o conceito de hegemonia não se traduz em uma


dependência direta da máquina estatal de uma fração de classe, sendo o
Estado detentor de um grau de autonomia relativa que lhe assegura uma
função ativa e determinante na organização da coesão do bloco de poder
(POULANTZAS, 1980). Poulantzas utiliza, pois, o conceito de hegemonia
de Gramsci e o aplica ao interior do bloco no poder, observando suas
consequências para além dele, ou seja, na relação entre a fração de classe
hegemônica, a sociedade civil e o Estado capitalista. Nessa relação, a
proeminência material sobrepõe-se à supremacia ideológica – isto é, a
capacidade de legitimar através das instituições políticas, jurídicas e
científicas que disseminam os valores e interesses das elites hegemônicas,
neutralizando seu conteúdo particular e os apresentando como elementos
compartilhados pelos distintos grupos da sociedade.

No que se refere ao sistema internacional, a lente neogramsciana é


particularmente útil para ressaltar as conexões entre o nível societário,
estatal e internacional, uma vez que o conceito de hegemonia nos auxilia a
atentar para a articulação entre ideias (ciência, academia), as forças
materiais (economia) e as instituições (política) (COX, 2007, p. 141).

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Hegemonia, fração de classe e financeirização do capital 173

Conforme esse entendimento, compreende-se a hegemonia das


frações de classe rentistas no Brasil como parte de uma dinâmica global, na
qual o mercado financeiro tornou-se o locus preferencial da acumulação
capitalista, em detrimento das dinâmicas produtivas (ROBINSON, 1998).
Isso porque o fenômeno aqui analisado enraíza-se em um contexto global de
transformação do modo de produção capitalista, que se caracteriza pela
emergência do sistema financeiro como dimensão central do capitalismo em
detrimento das atividades propriamente produtivas. Essa transformação tem
como condição de existência uma alteração nas relações entre os atores que
constituem o sistema, associada à redução das barreiras às atividades
financeiras e à ação das elites que as controlam (HARVEY, 2008). Como
parte central de nossa hipótese, as elites rentistas correspondem à fração de
classe hegemônica da nova fase do capitalismo global, inaugurada com a
dissolução da era Bretton Woods e as transformações que ensejaram a
financeirização do capitalismo.

Tais elites são vulgarmente entendidas como uma oligarquia que


obtém a maioria de seus proventos através de ativos financeiros, em vez de
trabalhar ou de possuir ativos produtivos (PATNAIK, 2003; CROTTP &
EPSTEIN, 1996; STIGLITZ, 2002). De modo mais preciso, essa fração de
classe, que é o objeto central desta pesquisa, pode ser definidas como aquela
cuja base material são rendas (rentier income) que consistem em
rendimentos provenientes da atividade do mercado financeiro e da
propriedade de ativos financeiros em vez da atividade no setor "real" ou da
detenção de ativos "reais", tais como bens imobiliários ou de capital
(KALECKI, 1990; EPSTEIN & POWER, 2003).

Em “Limits to Capital” (2006), David Harvey nos alerta que, na


atual configuração do sistema capitalista, os empreendimentos produtivos
tornam-se crescentemente articulados ao pagamento de rendas (rentier
incomes), sejam elas provenientes da exploração de recursos naturais, da
criação de monopólios, da existência de diferenciais de produtividade, ou

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.166-201, mar./jun., 2018


Hegemonia, fração de classe e financeirização do capital 174

das mais diferentes formas de rent-seeking (HARVEY, 2006). Essa


observação é corroborada empiricamente pela pesquisa de Epstein e Power
(2003). Segundo os autores, nas décadas de 1980 e 1990, teria havido um
aumento considerável no montante de capital transacionado sob a forma de
renda, quando comparadas com as décadas anteriores (1960-1970). Não
obstante – conforme demonstrado através de dados relativos aos países da
Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) –
nesse período, também houve crescimento no montante arrebatado pela
dimensão produtiva do capitalismo, isto é, nos recursos mobilizados em
atividades não financeiras, embora esse incremento tenha sido muito menor
do que aquele alcançado pelo setor financeiro. No entanto, se as elites
produtivas conseguiram manter sua capacidade de reprodução e taxas de
lucros, o mesmo não pode ser dito dos trabalhadores, uma vez que a
pesquisa demonstra uma compressão geral no montante destinado à
remuneração dos assalariados (EPSTEIN & POWER, 2003).

A elevação no montante de recursos transacionados sob a forma de


rendas (rentier incomes) acompanhou os ciclos de crescimento e expansão
da economia desde as origens do capitalismo. Porém, a partir da década de
1970, observa-se um escalonamento nesse processo, que deve ser entendido
como um fenômeno complexo, com causas múltiplas e idiossincráticas.
Desse modo, mais do que buscar resgatar essa teia de relações causais, nos
interessa observá-la sob uma perspectiva dialética que contemple a
correlação entre as mudanças na estrutura material do sistema e em sua
superestrutura política, jurídica e científica, assim compreendida pela
aplicação das perspectivas gramsciana e poulantziana. Desse entendimento,
resulta nosso interesse pela dinâmica de esfacelamento do sistema de
Bretton Woods e do consenso keynesiano que caracteriza o pós 2ª-Guerra
Mundial, na qual se inicia a construção da hegemonia da fração rentista
sobre os demais segmentos da burguesia.

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Hegemonia, fração de classe e financeirização do capital 175

Enquanto vigorou esse sistema, o capitalismo viveu sua era de


ouro, observando-se um crescimento constante da economia mundial
associado ao aumento dos salários, da produtividade e do comércio
internacional (NAYYAR, 2006, p. 153). Tal crescimento, por sua vez, está
associado a um consenso em torno de uma abordagem econômica
heterodoxa que enfatiza o uso contracíclico da máquina estatal para fins de
estímulo aos setores produtivos (trabalhadores e empresariado). Nesse
contexto, as políticas fiscal e monetária foram utilizadas como instrumentos
preferenciais de inúmeros projetos nacionais de crescimento e redistribuição
de renda, não apenas nos países europeus, mas por todo mundo
(BITTENCOURT, 2003).

Assim, é possível inferir que a financeirização (transição entre a era


de ouro do capitalismo – no que diz respeito aos seus setores produtivos,
estruturada em Bretton Woods (1944) – e a era da financeirização) não
representa o ocaso das atividades produtivas, mas uma mudança no lócus
preferencial de acumulação de capital que se transfere da dimensão
produtiva para a financeira. Ademais, quando comparadas à era da
financeirização (1990 – 2005) e à era dourada do capitalismo (entre 1940 e
1970), uma evidência interessante se sobressai: o decréscimo nos
indicadores de crescimento e o aumento da desigualdade (NAYYAR, 2006).
Como já havia sido alertado por Marx (1983), a financeirização do
capitalismo acelera o processo de acumulação que o caracteriza.

Essa mudança, sob um prisma neogramsciano (COX, 2007), pode


ser entendida como a emergência de um novo bloco histórico, posto que
essas transformações observadas na estrutura material do sistema são
acompanhadas de alterações, no plano da superestrutura, que se referem à
emergência de uma nova fração de classe hegemônica (rentistas), cujos
valores – distintos daqueles que caracterizavam o antigo hegemon (o
empresariado, ou frações de classe não rentistas) – passam a ser
disseminados como universais por um novo arcabouço institucional. É nessa

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Hegemonia, fração de classe e financeirização do capital 176

chave que podemos ler a decadência das instituições de Bretton Woods e do


consenso keynesiano que estruturavam a era de ouro do capitalismo (COX,
2007).

Utilizando essas definições como parâmetro, nosso objetivo será


mensurar a capacidade de influência desses atores no sistema político
brasileiro, observando seu papel no desmoronamento da coalizão de forças
que sustentou o governo petista. Não obstante, é importante ressaltar que a
emergência desse novo bloco histórico marcado pela hegemonia das frações
rentistas sobre as produtivas não se traduz necessariamente em uma relação
de sobreposição de um ator sobre outro, mas de uma dinâmica de
acumulação sobre outra.

Como será argumentado na terceira parte deste artigo, as mesmas


elites econômicas, outrora engajada em atividades produtivas, passam a
transferir parte de seus atores para os setores financeiros. Desse modo, a
separação entre tais frações decorre de uma pretensão analítica, voltada aos
propósitos da pesquisa aqui apresentada, que dizem respeito à observação
das alterações da composição de forças que sustentou o governo do Partido
dos Trabalhadores (2003-2016). Nossa hipótese, por conseguinte, observa –
nas opções macroeconômicas adotadas ao longo do mandato de Dilma
Rousseff – uma variável explicativa para a crise política que se deflagra em
seguida. Isso porque, ao priorizar processos produtivos de acumulação,
diminuindo os incentivos aos ganhos financeiros a partir de um processo de
redução dos juros, o governo teria ensejado o descontentamento não apenas
de atores identificados com o sistema financeiro, mas, também, de uma
burguesia industrial progressivamente financeirizada.

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Hegemonia, fração de classe e financeirização do capital 177

Boom and Boost: os ciclos de escassez e abundância e seus


impactos na periferia do capital.

A era de ouro da globalização, ou financeirização do capitalismo,


foi introduzida por um ideário que apresentava a liberalização dos fluxos de
capital como única alternativa para a garantia do crescimento e da
estabilidade (NAYYAR, 2006). Esse novo consenso, de natureza ortodoxa,
popularizou-se ao longo dos governos de Margareth Thatcher e Ronald
Reagan, consolidando a hegemonia das classes rentistas a partir da sua
disseminação no ambiente acadêmico e societário. Nesse período, como
vimos, observa-se uma aceleração do processo de internacionalização do
sistema financeiro e de seus principais segmentos: câmbio, empréstimo
bancário, investimento financeiro e títulos da dívida, que tornar-se-iam, em
poucos anos, o ambiente preferencial para a acumulação capitalista (DE
SOUZA BRAGA, 2016).

Contrariando a promessa de estabilidade que a inaugura, a era da


financeirização aumentou o número e a gravidade dessas convulsões (boom
and bust cycles). Como destaca Bastos (2015), na época de prevalência do
consenso keynesiano e da regulação do sistema Bretton Woods, não houve
crises financeiras significativas, sendo que – entre os anos de 1970 e fim da
década de 1980 – a proporção de países em crise esteve entre 5% e 10%; já
em meados da década de 1990, esse valor passou para 20% e 35%, em 2009.

Durante essas convulsões, nos países periféricos, houve uma


redução considerável nos recursos auferidos pelas classes produtivas
(trabalhadores e empresariado). As classes rentistas, todavia, tiveram seus
proventos garantidos pela ação do Fundo Monetário Internacional e o
Banco Mundial, que se transformam em operadores institucionais essenciais
na legitimação e na consolidação da hegemonia das classes rentistas
(BUKHARIN, 1974). Não obstante, a despeito de sua dimensão estrutural e
prefiguradora do próprio sistema internacional, a maior vulnerabilidade e o

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Hegemonia, fração de classe e financeirização do capital 178

caráter dependente das economias periféricas não são atributos estáticos,


posto que respondem às oscilações inerentes aos ciclos de contração e
expansão das economias globais (CAMPELLO, 2014). Essas oscilações, por
sua vez, foram agravadas pelas transformações ao longo do processo de
liberalização econômica e financeira que caracteriza as décadas finais do
século XX (FRENCH–DAVIS, 1999). Tal processo, portanto, torna esse
conjunto de países ainda mais expostos aos ciclos de crescimento e crise
(boom and bust), característicos do sistema capitalista e mais frequentes em
sua fase financeira, haja vista a volatilidade deste tipo de capital
(BRESSER-PEREIRA, 2010).

As consequências dessa maior exposição adquirem um novo


patamar quando se considera a estrutura produtiva dos países latino-
americanos, historicamente dependente da exportação de commodities. Uma
característica central desses bens é que se definem por terem seus preços
estabelecidos através de dinâmicas globais de mercado, o que aumenta a
vulnerabilidade de seus produtores à conjuntura internacional e à ação das
frações rentistas da classe hegemônica. Isso porque o mercado de ativos
correspondente a este tipo de mercadoria é mais volátil do que os
tradicionais, pois “a determinação dos preços das commodities sob a
influência dos mercados de derivativos sofre a influência de três variáveis
cruciais: das expectativas quanto ao preço futuro, da taxa de juros corrente e
do nível de estoques” (CARNEIRO, 2012, p. 26).

Esses fatores são inerentes às características desse setor produtivo,


como esclarece Carneiro (2012) na passagem abaixo, que comenta o ciclo
expansivo engendrado na primeira década do século XXI, relacionando a
determinação dos preços das commodities à dos demais ativos financeiros.
Em suas palavras, tal ciclo:

também esteve influenciado pela sua financeirização,


caracterizada pela transformação das commodities numa classe
de ativo financeiro, cujo preço é determinado simultânea e
sucessivamente pelos fundamentos e pela especulação nos

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Hegemonia, fração de classe e financeirização do capital 179

mercados futuros. Essa financeirização certamente


potencializou os impulsos à elevação de preços oriunda do
plano estrutural, exacerbando a trajetória altista, ampliando
também sua volatilidade e correlação. (Idem, p.44)

Nos países da América Latina, os ciclos de abundância e escassez


de moeda estrangeira são particularmente articulados às oscilações nos
preços das commodities e às taxas de juros estabelecidas pelos mercados
centrais, tendo em vista a estrutura deficitária dos balanços de pagamento e
a baixa poupança interna que caracterizam as economias periféricas e as
situam em uma posição de particular vulnerabilidade1 (FURTADO, 1961;
BRESSER-PEREIRA, 2012; MARINI, 2000).

Seguindo as conclusões da pesquisa realizada por Daniela


Campello (2015), o impacto das flutuações no valor das commotities tem
consequências econômicas, mas também políticas, estando diretamente
relacionado com o maior ou menor grau de autonomia relativa do sistema
político face aos interesses do mercado – isto é, das frações hegemônicas da
elite. Nessa medida, os efeitos da volatilidade dizem respeito aos seus
impactos sobre a expectativa de investimento e de crescimento em longo
prazo (CARNEIRO, 2012), o que propicia uma atmosfera de instabilidade
sobre a capacidade de arrecadação do governo e, por conseguinte, sobre a
capacidade de arcar com os repasses à sociedade (gastos públicos) sem
comprometer o montante destinado à remuneração das aplicações
financeiras e à rolagem das dívidas públicas.

Desse modo, quando ocorre uma alta de preços das commodities


(boom cycle), as fortes receitas de exportação diminuem a demanda dos
governos por moeda estrangeira para cumprir as obrigações financeiras

1
Contraposições a essa fragilidade pode ser notada em distintas correntes teóricas. Bresser-
Pereira (2012), por exemplo, entusiasta do “novo-desenvolvimentismo”, coloca a taxa de
câmbio como um problema central na concepção de políticas rumo ao desenvolvimento
produtivo, uma vez que a sobreapreciação cambial configura-se enquanto característica
cíclica e estrutural inerente à doença holandesa 1, sendo a alta taxa de juros uma das
variáveis fundamentais na manutenção desse modelo de arrefecimento às indústrias dos
países em desenvolvimento.

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Hegemonia, fração de classe e financeirização do capital 180

externas, ao mesmo tempo em que a aceleração do crescimento econômico


melhora os índices de risco/retorno dos investimentos, tornando essas
economias mais atrativas para as classes financeiras externas e internas. As
baixas taxas de juros internacionais impulsionam esse processo, tornando os
credores mais propensos ao risco e dispostos a desviar o capital dos
mercados de países desenvolvidos para países emergentes.

Em momentos de escassez (boost cycles), por outro lado, as baixas


receitas auferidas com a exportação de commodities reduzem a oferta de
moeda estrangeira, ao mesmo tempo em que o crescimento econômico mais
lento reduz a atratividade dessas economias. Da necessidade de compensar
essa redução no fluxo de moeda conversível decorre uma predisposição para
um aumento nas taxas de juros, deprimindo ainda mais os fluxos de oferta e
demanda de bens e serviços internos.

No âmbito político, por sua vez, nos períodos em que os preços das
commodities estão depreciados, as baixas receitas de exportação diminuem
a quantidade de moeda forte disponível na economia doméstica e limitam os
orçamentos dos governos. Isso pode ocorrer de maneira direta – quando
empresas estatais controlam as exportações de commodities – ou indireta,
por meio de receitas fiscais – quando o setor de commodities está nas mãos
de empresas privadas – (CAMPELLO, 2015). Em caso de escassez, cabe
aos governos aumentar a entrada de divisas atraindo capital financeiro,
sobretudo por meio da venda de títulos da dívida. Para isso, a estratégia
usual é a elevação das taxas de juro que as remuneram. Não obstante, a essa
taxa é acrescida a perspectiva de risco, que aumenta conforme a
deterioração dos indicadores econômicos do país em questão: quanto pior a
condição econômica e política do governo, mais vulnerável ele se encontra a
ataques especulativos.

Por outro lado, em momentos de preços de commodities


excepcionalmente altos, as exportações abundantes levam ao crescimento

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Hegemonia, fração de classe e financeirização do capital 181

econômico, ao incremento das receitas públicas e à maior entrada de


dólares. Isso diminui a dependência das elites políticas no governo com
relação às elites financeiras, uma vez que o setor produtivo se torna capaz
de atrair recursos suficientes para manter o balanço de pagamentos
minimamente equilibrado2.

Levando em conta a supracitada correlação entre o mercado de


commodities e os demais setores do sistema financeiro, em períodos de
bonança, a rentabilidade dos investidores se encontra relativamente
assegurada em relação a eventuais sobrevoos políticos. Por este motivo, as
elites financeiras se veem menos interessadas em orientar seus esforços (e
recursos) para exercer pressões sobre o sistema político; que, por
conseguinte, gozam – durante esse período – de maior autonomia para
perseguir projetos menos convergentes aos interesses do mercado. Ou seja:
as elites políticas que governam nesses momentos têm espaço mais amplo
para avançar uma agenda de desenvolvimento e distribuição de renda3. Esse
foi o cenário que permitiu a persecução de uma série de iniciativas dessa
natureza ao longo da primeira década do século XXI – não apenas no Brasil,
mas também em outros países da América do Sul.

Dessa forma, a despeito de seu posicionamento ideológico original,


os presidentes de esquerda que assumem o poder durante as crises cambiais
frequentemente renunciaram ao seu programa inicial em favor de políticas
destinadas a restaurar a confiança do mercado. Essa mudança ideológica

2
Cabe salientar, novamente, a natureza analítica desta separação entre elites seja no tocante
às frações da elite hegemônica (produtiva e financeira), seja entre esta e a elite política, uma
vez que, no plano empírico os mesmos atores se alternam em diferentes posições.
3
É possível, portanto, conceber as políticas monetária e fiscal como elementos centrais na
diferenciação entre governos de esquerda e direita, enquanto corolários da maior ou menor
convergência com os interesses do mercado, ou, em outros termos, a maior ou menor
autonomia do sistema político face a eles. Nessa chave, a esquerda se caracterizaria por
estratégias mais expansivas voltadas à garantia do emprego e da justiça social. A direita,
por sua vez, se definiria pela ênfase na rentabilidade do capital, implementando, para tanto,
políticas fiscais e monetárias de cunho restritivo.

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Hegemonia, fração de classe e financeirização do capital 182

gerada pela insegurança do mercado leva a policy switches4 (CAMPELLO,


2015; STOKES, 1999; STOKES, 2001). Nas palavras de Campello (2015):

Ultimately, the model evidences why increased capital mobility


associated with financial globalization should foster ideological
convergence by pushing the Left rightward, toward investors’
preferred economic policies. (CAMPELLO, 2015, p.27)

Tais elementos também nos ajudam a compreender as policy


switches observadas ao longo da década de 1980 e 1990, quando, em um
contexto de escassez de moeda (currency crisis), lideranças associadas ao
imaginário da esquerda na América Latina implementaram uma agenda pró-
mercado, contrariando suas trajetórias políticas e as expectativas dos
cidadãos que os elegeram. No entanto, no longo prazo, a disciplina de
mercado pode ter efeitos dessemelhantes para os partidos de esquerda,
dependendo do grau de integração financeira de um país e da exposição aos
ciclos de abundância e escassez de moeda (boom and boost cycles). Isso
significa que uma maior vulnerabilidade diz respeito a variáveis endógenas
(estrutura produtiva e credibilidade da economia nacional) e exógenas
(disponibilidade de capital e variações nos preços das commodities).

Sendo assim, a consolidação de governos de esquerda na região


estaria associada a um contexto internacional de elevação nos preços das
matérias primas, ao passo que a reversão desses processos, mediante a
interrupção dos projetos políticos levados a cabo por tais elites, estaria
correlacionada com uma conjuntura de retração nos preços das
commodities. Nessa perspectiva, podemos oferecer um enquadramento
sistêmico para a crise que levou ao esfacelamento da correlação de forças
que sustentou o governo petista durante todo o ciclo de bonança; pois, se a
abundância de divisas garantiu maior margem de manobra e maior
tolerância por parte dos mercados em relação às políticas fiscais e
monetárias de caráter expansivo adotadas por mais de uma década, o
prenúncio de um período de escassez instaurou uma crise de confiança. Em
4
Sobre o tema, recomendamos: DRAKE, 1992; STOKES, 1999; STOKES, 2001.

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.166-201, mar./jun., 2018


Hegemonia, fração de classe e financeirização do capital 183

virtude de uma afinidade histórica com as classes populares, duvidou-se da


capacidade do PT de garantir, em uma conjuntura de escassez, a
rentabilidade dos investimentos financeiros em detrimento das iniciativas
voltadas ao crescimento econômico e à distribuição de renda.

O refluxo da Maré Rosa e a interrupção do governo do Partido


dos Trabalhadores.

A ascensão do PT ao poder, em 2003, deu-se em um contexto


regional caracterizado pela emergência do que ficou conhecido como Maré
Rosa5 – período a partir dos anos finais da década de 1990 identificado pela
emergência de novas correlações de forças que, a despeito de suas inúmeras
idiossincrasias, ficariam caracterizadas pela persecução de políticas de
crescimento econômico e de distribuição de renda. Essa transição, portanto,
diz respeito não apenas à ascensão de uma nova elite política, mas,
sobretudo, à representação prioritária dos interesses de uma parcela da
população, as classes populares, junto a outra, as elites econômicas. Em
outros termos, da prioridade da justiça social sobre a rentabilidade dos
investimentos, em uma aliança focada no desenvolvimento de capital-
trabalho.

Nesse período, o posicionamento das lideranças políticas face às


frações hegemônicas da elite se constituiu de formas distintas. Segundo o
argumento esboçado na seção anterior, tal variação ocorreu conforme a
maior ou menor autonomia relativa de cada sistema político face às pressões
do mercado, isto é, da capacidade de manter a rentabilidade dos ativos

5
O termo “Maré Rosa” é apresentado para caracterizar a ascensão de partidos ou coalizões
progressistas na região, a partir dos anos finais do século passado (NASCIMENTO
JÚNIOR, 2017). Por “progressistas”, entende-se, segundo a terminologia de Toledo &
Braga (2016): “governos que se propõem a atender as reivindicações populares, com o
objetivo de amenizar as desigualdades sociais, ampliar o acesso aos serviços básicos como
educação e saúde, aumentar a renda das classes trabalhadoras, sob o regime democrático”.
No entanto, a redução do crescimento desses países, motivada, dentre outros fatores, pela
queda no preço das commodities, bem como o insucesso de tais lideranças para conquistar a
fidelidade de suas bases sociais, desencadeou o refluxo dessa Maré (SILVA, 2015).

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Hegemonia, fração de classe e financeirização do capital 184

financeiros e a entrada de moeda conversível no país através de exportações


ou de investimentos diretos.

No que diz respeito ao Brasil, em virtude da complexidade de nossa


estrutura econômica, essa autonomia – embora aumentada em conjunturas
de bonança – observa limitações mais proeminentes quando comparada a de
países como Equador e Venezuela. Nesses casos, em virtude da
concentração quase exclusiva das atividades produtivas na exportação de
commodities, houve um aumento considerável no fluxo de capitais durante
todo o período em que os preços desses produtos (e dos demais ativos
financeiros a eles atrelados) estiveram em alta. Como argumenta Campello
(2015), isso garantiria um maior grau de autonomia relativa das elites
políticas face aos interesses dos mercados em ciclos expansivos (boom
cycles). Não obstante, como salientado pela própria autora, o caso brasileiro
não permite o mesmo grau de autonomia.

These numbers offer a measure of the exposure of the Brazilian


economy to foreign finance. In the Brazilian conditions –
relatively lower exposure to commodity price variation and
higher exposure to foreign finance – it is harder for the
government to afford a sudden loss of market credibility, even
during a boom. Contrary to Venezuela and Ecuador, such loss
has implications that go beyond governments’ accounts, raising
additional pressures from the domestic business community for
“compliance.” (Idem, p. 115)

Por este motivo, diferentemente de outros líderes da região, Luís


Inácio Lula da Silva assumiu a Presidência comprometido em não contrariar
os interesses dos setores empresariais, financeiros e rentistas, conferindo aos
seus representantes acesso preferencial aos processos de tomada de decisão
realizados no governo. Esse padrão de conciliação, que ilustra a complexa
correlação de interesses presentes em tal projeto, manteve-se durante todos
os governos petistas (TEIXEIRA & PINTO, 2012). Seguindo essa
orientação, o presidente adotou uma agenda econômica ortodoxa em
resposta à crise de confiança de 2002, em concordância com as pressões

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Hegemonia, fração de classe e financeirização do capital 185

dirigidas a partir dos mercados (MACHADO, 2009). Entretanto, em virtude


da elevação das taxas de rentabilidade dos investimentos durante o ciclo de
expansão experimentado pela economia a partir de 2004 (conforme gráfico
1), observou-se um aumento (ainda que lento e precário) nas margens de
autonomia das elites políticas face às pressões do mercado. Isso permitiu
que a elite governante adotasse algumas políticas de estímulo ao consumo e
combate à pobreza.

Gráfico 1 - Evolução dos Preços Nominais de Commodities

Fontes: Pfaffenzeller, 2007; World Bank Commodity Price Data; IMF Primary
Commodity Price Tables, U.S. Energy Information Administration (EIA).
Elaboração: CARNEIRO, 2012.

Não obstante, ainda que os governos de Luís Inácio Lula da Silva


tenham logrado o aumento das práticas distributivas e da intervenção estatal,
foi durante o governo Dilma Rousseff que as margens de autonomia relativa
do sistema político foram efetivamente alargadas em favor de um projeto de
governo que priorizasse as classes produtivas.

Sendo assim, como realça André Singer (2015), Dilma Rousseff


apostou nos canais de coordenação junto ao setor produtivo, não apenas
como estratégia para promover o desenvolvimento econômico do país mas,
também, para deslocar as bases de apoio ao governo, diminuindo sua

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.166-201, mar./jun., 2018


Hegemonia, fração de classe e financeirização do capital 186

dependência às elites financeiras. Em favor desse argumento, é possível


reconhecer, no primeiro governo Dilma, um esforço de reduzir as limitações
que engessaram os avanços sociais e econômicos durante as administrações
de Lula. Estes, de modo geral, limitaram-se a iniciativas de inclusão via
consumo, conciliadas com a manutenção da ortodoxia macroeconômica,
sustentada no tripé formado pelo superávit primário, câmbio flutuante e
reduzidas metas de inflação (BRESSER-PEREIRA, 2013).

Tais esforços, abarcados no que o então ministro da Fazenda,


Guido Mantega, denominou de “nova matriz econômica6”, caracterizam o
início do governo Rousseff e foram viabilizados por altas taxas de
crescimento econômico e popularidade, garantidos por um índice de
desemprego de 4,3% (o menor da história recente) e por uma valorização
real do salário mínimo de 72%, entre 2002 e 2014 (SINGER, 2015). Juntas,
essas iniciativas podem ser vistas como movimentos de contestação, ainda
que moderadas, da supremacia do capital financeiro em favor da economia
real e seus protagonistas: no caso, o empresariado e as classes populares.

Nesse tocante, destaca-se o papel da Confederação Nacional da


Agricultura (CNA) e da Confederação Nacional da Indústria (CNI), sendo
esta protagonista na organização do setor industrial brasileiro, participando
ativamente na coordenação da nova fase da Política de Desenvolvimento
Produtivo7, PDP (BOSCHI, 2012).

6
A “nova matriz macroeconômica”, instituída por Guido Mantega, teve um de seus
principais objetivos relativizar cada braço do tripé macroeconômica, enfocando uma
abrupta queda na taxa básica de juros (SELIC).
Ver:http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,mantega-indica-novo-modelo-
economico-imp-,896017. Acesso em: 17/06/2017.
7
A PDP surge em continuidade da Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior
(PITCE), e implementada em maio de 2007, com vistas a ampliar o estímulo à inovação
tecnológica, investimentos e exportações das indústrias brasileiras. Em maio de 2011,
quando a CNI foi escolhida pelo governo para coordenar a PDP, seu presidente, Robson
Andrade, declarou a necessidade de reajuste cambial e tributário, e realçou, também, as
assimetrias das indústrias brasileiras.
Ver: https://oglobo.globo.com/economia/presidente-da-cni-critica-pesada-carga-tributaria-
do-brasil-470887. Acesso em: 17/06/2017.

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Hegemonia, fração de classe e financeirização do capital 187

Inúmeros foram os indícios de que era promissora a aliança entre as


elites políticas e econômicas – pelo menos no tocante aos setores produtivos
nacionais. Em abril de 2012, o presidente da entidade, Robson Andrade,
apesar de exigir a diminuição da carga tributária brasileira, reconheceu os
avanços instaurados por Dilma Rousseff, conclamando o empresariado
nacional a apoiar a presidenta em sua cruzada contra as taxas de juros
abusivas, tendo em vista possíveis retaliações por parte das elites
financeiras, conforme realça o trecho de sua fala, na noite da entrega da
Medalha da Inconfidência, em Ouro Preto8:

É uma demonstração positiva ao desonerar setores da indústria,


reduzir encargos trabalhistas, ampliar o crédito e estimular as
exportações. Ainda não é o suficiente, mas devemos
reconhecer o primeiro passo; sobretudo devemos apoiar a
presidente em sua guerra aberta contra os juros elevados e os
absurdos spreads cobrados pelo sistema financeiro” (grifo dos
autores).

Em agosto de 2011, as implicações da crise de 2008 começaram a


prejudicar a economia mundial, ameaçando o prosseguimento desse projeto.
A especulação de que países europeus – como a Itália e a França – não
honrariam suas dívidas implicou em uma desestabilização nas principais
bolsas de valores do mundo. A Dow Jones, em Nova York, caiu 4,31%, a
maior recessão desde dezembro de 2008. Entretanto, apesar das
instabilidades econômicas constatadas nos Estados Unidos, seus títulos
proporcionavam baixos riscos, o que acarretou na fuga maciça de capitais
para o país. Somado a isso, a diminuição do crescimento chinês abalou as
exportações brasileiras de commodities, o que exigiu novas medidas
econômicas do governo petista a fim de estimular a economia e manter
estáveis os índices de emprego.

8
Ver: https://oglobo.globo.com/economia/presidente-da-cni-critica-pesada-carga-tributaria-
do-brasil-470887. Acesso em: 17/06/2017.

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Hegemonia, fração de classe e financeirização do capital 188

Outras medidas levadas a cabo nesse período também podem ser


consideradas sob a perspectiva de um afastamento com relação às parcelas
da elite nacional associadas ao capital financeiro, cujos interesses materiais
se contrapõem àqueles atrelados ao crescimento da economia real, haja vista
uma disputa pelos recursos disponíveis para investimento. Dentre elas,
podemos citar: a desoneração da folha de pagamentos do setor industrial; a
elevação do IOF; a redução do IPI de produtos específicos; a atuação do
Banco Central no mercado aberto de câmbio; e, principalmente, a redução
da taxa de juros (GODOY & GURGEL, 2014).

Conforme observado nos gráficos 2 e 3, os primeiros anos do


governo Dilma se caracterizam por um considerável processo de redução
das taxas de juros, interrompido em julho de 2013. Esse processo é
concomitante com uma inflexão nas taxas de popularidade da presidenta, até
então ascendentes. Essas evidências, embora não atestem uma relação de
causalidade, são um indício acerca da pertinência de nossa hipótese de
trabalho que observa na hegemonia das frações financeiras da elite e de sua
capacidade de mobilizar apoio através de diferentes aparelhos de reprodução
ideológica – uma variável explicativa para a compreensão da crise política
instaurada a partir de então.

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Hegemonia, fração de classe e financeirização do capital 189

Gráfico 2 - Histórico Taxas SELIC e CDI (% ao ano)

Fonte e Elaboração: Banco Central

Gráfico 3 - Avaliação do Governo Dilma

Fonte: Datafolha

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Hegemonia, fração de classe e financeirização do capital 190

Ademais, levando em conta as singularidades da economia


brasileira, em que o montante despendido para o pagamento de juros e
amortizações da dívida pública representa 42% do gasto federal, o
estabelecimento da taxa Selic9 adquire precedência sobre as demais decisões
macroeconômicas do governo. É nesse tipo de mecanismo de multiplicação
automática da dívida10 – e, por conseguinte, do volume de divisas oferecido
aos investidores financeiros –, que reside a origem do nosso déficit público,
injustamente associado a um suposto excesso de gastos por parte do Estado
brasileiro11. Diante desses dados, é preciso reconhecer na política monetária
e fiscal adotada entre 2011 e 2013 uma tentativa inédita na história da Nova
República de reverter a primazia das elites financeiras sobre as demais
classes econômicas brasileiras.

De acordo com Mantega, tal política operaria uma “mudança


estrutural e fundamental” na economia do país, “normalizando” o custo do
crédito no Brasil – que deixaria de ter as taxas de juros mais elevadas do
mundo e passaria a se situar em níveis compatíveis com a média dos países
desenvolvidos (SINGER, 2015). Com esse propósito, entre agosto de 2011 e
abril de 2013, as taxas foram reduzidas de 12,5% para 7,25% ao ano; o que
em um contexto de inflação acumulada em 6,59% significaria juros reais a
menos de 1% ao ano. Ademais, a redução na SELIC veio acompanhada de

9
Este indicador, estabelecido pelo Banco Central (BACEN), determina a taxa de
financiamento no mercado interbancário para operações de um dia, que possuem lastro em
títulos públicos federais, títulos estes que são listados e negociados no Sistema Especial de
Liquidação e de Custódia (Selic). No caso dos juros cobrados aos cidadãos e empresas
pelas instituições financeiras, a correlação com a Selic se dá em virtude da determinação de
que o BACEN recolha todo o excesso de moeda que os bancos têm em caixa, substituindo-
o por títulos da dívida interna, cuja remuneração é maior do que quaisquer outros
investimentos (FATORELLI, 2015).
10
Dentre outros mecanismos de origem supra-legal, cabe ressaltar o pagamento de juros
por meio da emissão de novos títulos, em detrimento de normativa constitucional (art.167
da CFB) que proíbe este tipo de operação (FATORELLI, 2015, p. 7).
11
A improcedência desta argumentação é demonstrada pela comparação do montante do
Orçamento Geral da União (OGU) destinado à remuneração do capital financeiro através
do pagamento de juros, em relação ao qual os demais gastos revelam-se irrisórios. Se
tomarmos como parâmetro o ano de 2014, por exemplo, observamos que foram
despendidos R$ 978 bilhões (45,11% do OGU) para juros e amortizações da dívida,
enquanto que os gastos com saúde, educação e assistência social somados representaram
10.53% do OGU (3.98%, 3.47% e 3.08, respectivamente).

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Hegemonia, fração de classe e financeirização do capital 191

uma estratégia, capitaneada pelo Banco Central (BACEN) para pressionar


os bancos privados a reduzirem os spreads (idem).

Ao se afastar da égide das classes financeiras em prol de outras


frações da burguesia e das classes populares, o governo depositou suas
fichas na suposição de que contaria com o apoio desses setores caso os
segmentos descontentes se voltassem contra seu governo.

Não foi o que aconteceu. Em dezembro de 2015, duas das mais


importantes entidades empresariais do Brasil, a Federação das Indústrias do
Estado de São Paulo (FIESP) e o Centro das Indústrias do Estado de São
Paulo (Ciesp), divulgaram uma nota conjunta em apoio ao afastamento de
Dilma Rousseff. De acordo com o comunicado, 91,9% do empresariado
local se manifestou em favor da ruptura em levantamento realizado pelo
Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos da Fiesp e do Ciesp
(Depecon).

Em particular, as lideranças petistas apostaram no setor industrial,


acreditando que, a partir dos estímulos concedidos pelo Estado, ele poderia
se tornar motor do desenvolvimento brasileiro capitaneado pelo governo,
apoiando-o quando fosse necessário. Essa pressuposição se lastreava não
apenas nas medidas acima citadas, mas também no fato de que as principais
figuras do empresariado brasileiro foram contempladas com contratos
generosos com as estatais, em especial a Petrobrás, além do acesso
privilegiado a crédito junto ao Banco Nacional do Desenvolvimento
(BNDES) e de uma série de outras benesses menos louváveis,
posteriormente denunciadas pelos escândalos de corrupção12.

12
Como destaca Oliveira (2016), o BNDES adquiriu, na primeira década do século XXI,
um tamanho sem precedentes. O Banco chegou em 2013 com sua carteira de desembolsos
totalizando mais de US$ 79 bilhões, ultrapassando todo o desembolso do Banco
Interamericano de Desenvolvimento (US$ 6,9 bilhões) e do Banco Mundial (US$ 19,8
bilhões), no ano de 2012. A maior parte desses desembolsos, contudo, foi direcionada para
um pequeno número de grandes empresas brasileiras, como a Odebrecht, Camargo Correa,
Andrade Gutierrez, Vale, dentre outras (OLIVEIRA, 2016).

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Hegemonia, fração de classe e financeirização do capital 192

A despeito desses incentivos e confirmando nossa hipótese inicial


acerca da precedência dos interesses financeiros sobre os produtivos, a
burguesia empresarial começa a se afastar do governo motivada, dentre
diversos fatores, pelas sucessivas ameaças de rebaixamento nos índices de
confiança por parte das agências de rating e de analistas de mercado
(SINGER, 2015). Neste tocante, cabe ressaltar o importante papel realizado
por tais entidades ao longo da crise, demonstrando a influência das elites
rentistas (e de seus operadores) sobre o sistema político brasileiro13.

Essa movimentação do empresariado realça o arranjo complexo que


configura as estruturas e relações de tais instituições no sistema político e
econômico brasileiros. Se, por um lado, as frações da burguesia produtiva se
mobilizam e se organizam por meio de entidades associativas de classe de modo a
pleitear e disseminar os seus intentos na sociedade política; por outro, as
corporações financeiras – além de se mobilizarem de forma análoga – muitas vezes
alicerçam suas atividades de forma a tangenciar e amalgamar sua performance e
rentabilidade com a economia “real”. Desse modo, como demonstra Ary Minella
(2006), as grandes instituições bancárias brasileiras, ainda que não sejam
proprietárias diretas, possuem controle acionário ou relações de interesse em boa
parte das grandes empresas não financeiras14. A forma multifacetada dos
rendimentos empresariais também é aqui ilustrada na tabela abaixo, que ilustra as
ramificações financeiras de algumas das maiores empresas brasileiras15.

13
Em setembro de 2015, a agência Standards & Poors retirou o selo de bom pagador do
Brasil (operando outro rebaixamento em fevereiro do ano subsequente). Em dezembro de
2015 e fevereiro de 2016, a Fitch e a Moody’s, respectivamente, rebaixaram a credibilidade
de investimentos no Brasil. Em maio de 2016, a Fitch voltou a rebaixar a nota do país.
Milagrosamente, após o impeachment as suspeitas sobre a solvência da economia brasileira
foram substituídas por um súbito otimismo acerca da sua capacidade de recuperação, ainda
que os fatores materiais responsáveis pela crise (a queda no preço das commodities e a
desaceleração no crescimento chinês) não tenham sofrido qualquer alteração.
14
Dentre esses empreendimentos, o autor realça o surgimento da Bradespar, criada pelo
Bradesco, em 2000, para administrar suas participações acionárias. Por meio dessa
entidade, o banco manteve importantes participações acionárias em empresas como a
Usiminas, Perdigão, Gerdau e outras, passando a ser, ao mesmo tempo, acionista e credor
dessas e de outras empresas (MINELLA, 2006, p.19-20).
15
A tabela demonstra todas as empresas brasileiras que estão na lista das 1000 maiores em
2015, do Valor Econômico, e que também estão cadastradas no Sistema Financeiro
Nacional, vinculado ao Banco Central.

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Hegemonia, fração de classe e financeirização do capital 193

Tabela 1 - Empresas produtivas cadastradas no Sistema


Financeiro Nacional (2015)

CECM Empr. CEMIG Cretovale (coop. de CECM func. Emp. CECM func Elgin Brookfield
crédito mútuo dos Melhoramentos
funcionários da
Vale)

CECM Empr. CC Empr. Grupo CECM func. Morlan CECM Empr. CC Empr. Grupo
Samarco Mineração Akzo Nobel Brasil Grupo Algar Copersucar e CTC

Votorantim Honda BCO AJ Renner S.A CECM Empr. Ind. CECM e Laboratório B.
Unilever Braun LTDA.

CECME Grupo CCM Empr. CECM Func. Villares CECM Emp Grupo SBF CCM Func. Editora
Bayer LTDA Magazine Luiza Metals (Centauro, ByTennis e Globo
Almax Sports)

Pernambucanas CECM Func Ericsson Furnas Eletrobrás CECM Empr. Grupo CECM Serv. Cimento
Saint Gobain Tupi

BCO Cargill S.A CECM Funcionários CECM Empr. Empresas CC Empr Emp Grupo CECM Funcionários
do grupo Avibrás Grupo Zema M&G Brasil Bombril
Volkswagen BCO CECM func. do CECM Col Grupo Saint CECM Empr Novelis CECM Empr.
Grupo Lorenzetti Gobain do Brasil e Hindalco Magnesita
do Brasil
CECM Empr. BCO Toyota do CECM Func. grupo CECM trab. grupo CECME Chocolates
Elektro Brasil S.A Gerdau - Itatiaia Garoto LTDA
Pindamonhangaba

CECMF Sanepar CECM dos func. do CECM Empr. Rhodia CCR Seara CECM Empr. Confab
Grupo Vonpar

CECM Empr. Alcoa BCO Tokyo CECM dos func. do CECMF Grupo
Mitsubishi BM SA Grupo Gerdau Votorantim

CECMF de prod CECM Func. empr. CECM func. Gerdau CCM func. fáb.
Roche quim. farm Owens-Illinois Mogi cimentos Votoran

CECM Empr Vale CECM Empr. Alcatel- CECM Empr. Grupo Saint CECM Empresa
Fertilizantes Lucent Brasil Gobain Brasil Volkswagen Brasil
Uberab (cooperativa de
crédito)

Fontes: Valor e Banco Central16

Legenda: BCO - Banco Comercial; CC - Cooperativa de Crédito; CCR - Cooperativa de Crédito Rural;
CECM - Cooperativa de Economia e Crédito Mútuo

16
http://www.valor.com.br/valor1000/2015/ranking1000maiores?orderby=receita_desc e
https://www3.bcb.gov.br/informes/relatorios?lingua=pt. Acesso em: 15/03/2017;

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Hegemonia, fração de classe e financeirização do capital 194

Sendo assim, conforme argumentação empreendida ao longo dessa


seção, acreditamos que – na opção por uma política econômica voltada às
atividades produtivas – reside uma importante variável para a compreensão
do desmoronamento do pacto que o PT acreditou ter estabelecido junto às
elites econômicas e políticas tradicionais. Isso porque a redução dos juros
representou uma inédita confrontação à rentabilidade dos investimentos
financeiros, dos quais dependiam não apenas os atores identificados com o
sistema financeiro, mas, também, diferentes segmentos da burguesia
industrial. Não obstante, a essa variável endógena, devem ser conciliadas
outras duas de natureza sistêmica, abordadas nas demais seções do trabalho:
a primeira concernente a alterações na estrutura global do capitalismo e a
segunda, ao caráter vulnerável das economias periféricas, cuja autonomia
relativa das elites políticas segue refém da capacidade de atender às
demandas do mercado.

Considerações finais

De acordo com a hipótese apresentada neste artigo, a compreensão


de um conjunto de variáveis de natureza endógena e exógena nos auxilia a
entender a crise política brasileira, sobretudo quando realizada através de
uma contextualização multidimensional que abrange os planos nacional,
regional e global. Para demonstrá-la, na primeira parte do texto,
apresentamos um panorama global marcado pela hegemonia das frações
rentistas da elite econômica. Na segunda parte, por sua vez, a partir de uma
literatura empiricamente orientada (CAMPELLO, 2015; CARNEIRO,
2012), delineamos um argumento que associa a conjuntura econômica
regional à condição periférica dos países nela inseridos, no que diz respeito
ao impacto político dos ciclos de abundância e escassez de moeda
conversível. Convergindo ambos os planos, observamos como tais variáveis
atuaram na ascensão e no refluxo de lideranças progressistas na América
Latina, condicionando projetos de crescimento e distribuição voltados às

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Hegemonia, fração de classe e financeirização do capital 195

classes produtivas a períodos nos quais estas dinâmicas não representavam


ameaças à rentabilidade dos investimentos financeiros.

Considerando-se, pois, a importância destes elementos na


determinação dos graus de autonomia relativa do sistema político face aos
interesses das classes hegemônicas, nosso propósito foi correlacioná-las aos
fenômenos deflagrados no Brasil ao longo do governo do PT (2003-2016).
Nesse tocante, observou-se, portanto, a atuação das seguintes variáveis:

- Econômicas: maior afluxo de moeda, principalmente em virtude da


elevação das receitas de exportação de matérias primas
(commodities) e da elevada da liquidez internacional (no período que
antecede a crise de 2008);

- Políticas: capacidade de perseguir uma agenda que contemplasse


os interesses da economia real (empregados e empregadores) sem
que esta fosse percebida como uma ameaça por parte das elites
financeiras, permitindo a formação de uma coalizão de governo
capaz de reunir elementos do empresariado brasileiro, das classes
populares e das frações rentistas da elite econômica.

Não obstante, para compreendermos o esfacelamento dessa


coalizão em um contexto no qual a maioria dos seus integrantes tinha seus
interesses contemplados pelo então governo, foi necessário considerar dois
fatores. O primeiro se refere ao próprio conceito de hegemonia, uma vez
que diz respeito à capacidade das frações hegemônicas de universalizar seus
valores e interesses, apresentando-os como sendo convergentes à vontade
geral. O segundo diz respeito à dimensão sincrética que corporifica as fontes
de acumulação do empresariado brasileiro, dado o caráter indissociável
entre capital produtivo e financeiro. Por esse motivo, ainda que nossa
hipótese esteja estruturada sob o pressuposto de que a derrocada do governo
Dilma esteja associada à prevalência do capital financeiro sobre o produtivo,
os atores sociais que atuam nessas duas esferas muitas vezes são os mesmos.

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Hegemonia, fração de classe e financeirização do capital 196

Sob essa perspectiva, a chave para a compreensão do esfacelamento da base


aliada diz respeito à prevalência de uma lógica rentista sobre uma lógica
produtiva de acumulação capitalista.

Sendo assim, resgatando esse conjunto de variáveis, acreditamos


ser capazes de contribuir para a compreensão da aparentemente
contraditória ruptura entre o empresariado nacional e uma elite política
comprometida com seus interesses – em um contexto no qual, através de um
processo de redução acelerada dos juros, disseminou-se a percepção de que
as opções do governo ameaçavam a rentabilidade dos empreendimentos
financeiros. Esse processo, concomitante à retração da demanda
internacional aos produtos brasileiros, revelaram, portanto, o caráter
hegemônico dessa lógica de acumulação, mas, também os modos de atuação
do nosso empresariado. Como ressalta Carlos Lessa – ex-presidente do
BNDES –, o empresariado brasileiro seria o maior beneficiário de um
projeto desenvolvimentista; porém, em razão da sua inserção em atividades
rentistas, acabam por comemorar, nos bastidores, a elevação das taxas de
juros17.

17
Ver: http://www.desenvolvimentistas.com.br/blog/blog/2011/05/10/plano-nacional-de-
desenvolvimento-uma-conversa-carlos-lessa/. Acesso em: 18/06/2017

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em Relações Internacionais: abordagens e processos. São
Paulo: Editora UNESP, 2016.

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.166-201, mar./jun., 2018


Hegemonia, fração de classe e financeirização do capital 201

Palavras- Resumo A dissolução da era Bretton Woods e o subsequente


processo de financeirização do capitalismo global demarcaram
chave: uma inflexão nas relações entre economia e política,
traduzindo-se na hegemonia das frações rentistas sobre os
Hegemonia, demais segmentos da elite (NAYYAR, 2006; EPSTEIN &
POWER, 2003) e na modulação das margens de autonomia dos
Financeirização, governos face às pressões do mercado (CAMPELO, 2015).
Periferia, Diante deste panorama, o objetivo deste paper é oferecer um
enquadramento analítico para a compreensão dos fenômenos
Política que levaram à interrupção do governo do Partido dos
Econômica, Trabalhadores (2003-2016). Para isso, foi utilizada uma
Partido dos metodologia multidimensional que abrange variáveis
endógenas e exógenas capazes de contemplar a singularidade
Trabalhadores, do caso brasileiro, mas, também, sua inserção em um contexto
América Latina. regional e global.

Keywords ABSTRACT: The aim of this article is to provide an analytical


framework for understanding the phenomena that led to the
discontinuation of the Partido dos Trabalhadores government
Hegemony, (2003-2016), considering the dissolution of the Bretton Woods
Finance, era and the subsequent process of financialisation of global
capitalism. For this purpose, the methodology encompasses
Periphery, endogenous and exogenous variables in order to be capable of
Economic contemplating the Brazilian case and its insertion in a regional
Policy, and global context. The conclusions of this work were able to
show the false contradiction around the
Partido dos financialization/productive development binomial, since the
Trabalhadores, sources of accumulation of the Brazilian business sector assume
Latin America. a syncretic dimension, in which financial capital does not
dissociate itself from the productive one.

Recebido para publicação em junho/2017


Aceito para publicação em outubro/2017

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.166-201, mar./jun., 2018


Os juristas políticos e suas
convicções:
para uma anatomia do componente
jurídico do golpe de 2016 no Brasil

Jorge Chaloub
Universidade Federal de Juiz de Fora (BRA)

Pedro Luiz Lima


Universidade Estadual de Londrina (BRA)

É abundante, entre muitos cientistas políticos e sociais brasileiros, a


caracterização do “impeachment” da presidenta Dilma Rousseff como um
golpe (Singer, 2016; Santos, 2017; Miguel, 2016; Souza, 2016; Avritzer,
2017; Braga, 2016). A depender da ênfase do narrador e do contexto da
narrativa em que o termo desponta, o golpe de 2016 aparece quase sempre
acompanhado de um dentre três adjetivos: parlamentar, jurídico (ou
constitucional) e midiático. Por vezes, forma-se uma justaposição para
incrementar o qualificativo, estando o golpe revestido ora de um caráter
midiático-parlamentar, ora de uma natureza jurídico-midiática – e de tantas
outras possíveis combinações.

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Os juristas políticos e suas convicções 203

Ainda que não se deva enfraquecer o sentido profundo e as


consequências imediatamente trágicas intrínsecas ao substantivo em
questão, a adjetivação implica o reconhecimento de traços específicos ao
acontecimento que, por diversas razões, cumpre precisar. Em perspectiva
histórica, o marcador de especificidade faz-se necessário para diferenciar
esse golpe dos eventos transcorridos em 1964, sob o protagonismo não
exclusivo dos atores militares. Em termos políticos, ele faz ressaltar os
modos contemporâneos com que se traveste a destituição ilegítima da mais
alta representante da soberania popular – ilegitimidade que prescinde das
armas para se consumar, fazendo apelo, em nosso caso, aos instrumentos
mais amenos da toga e dos microfones.

Por suposto, aqueles adjetivos não são concorrentes, e enfatizar um


deles não obstrui o reconhecimento da ampla validade dos demais. Trata-se
de mera e, no mais das vezes, incontornável prudência analítica – o que não
raro leva a uma maior acuidade do que a pretensão de buscar desde logo a
totalidade dos sentidos de uma história cujo entardecer, em sentido
hegeliano, parece ainda bastante distante no tempo. É assim, concorrendo
para a explicitação de apenas uma das características mais determinantes
desta história prenhe de determinações, que o presente artigo buscará
contribuir para a interpretação do componente jurídico do golpe de 2016.

Associa-se, em geral, o uso do termo golpe jurídico ou


constitucional à identificação do fato de que esse golpe se revestiu de todas
as formalidades legais para a deposição da presidenta, eleita em outubro de
2014. Com efeito, o próprio instrumento do “impeachment” como
mecanismo de destituição confere ao evento a aparência de legalidade e de
cumprimento dos procedimentos previstos na carta constitucional. Há,
contudo, um segundo sentido que sustenta uma análise mediada pela
categoria de golpe jurídico – e, nesse caso (que mais nos interessa) importa
salientar que a substituição de “jurídico” por “constitucional” não teria
apenas efeitos estilísticos. Um golpe constitucional poderia ser aquele

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Os juristas políticos e suas convicções 204

realizado sob a vigência da Constituição, situação em que os golpistas


seriam uma entidade indeterminada, passível ou não de incluir atores
vinculados à aplicação da lei; o golpe jurídico, por seu turno, embute a
participação ativa das instituições judiciais, e de alguns de seus atores
específicos, na ruptura “legal” das regras do jogo democrático. É este último
sentido, mais enfático e proativo, que buscaremos desenvolver no que
segue.

Importa ainda uma delimitação significativa de nosso objeto. A


participação destacada de membros do Supremo Tribunal Federal, de outras
instâncias do Poder Judiciário e do Ministério Público Federal na tessitura
do golpe de 2016 tem evidências que deixam pouca margem para
interpretações abonadoras. Essa participação, por vezes individual, por
vezes institucional, prescinde de arranjos prévios, à moda conspiratória, e se
efetiva de modo claramente heterogêneo – contrastando-se, por exemplo, a
função persecutória do MPF e da primeira instância do Judiciário com o
poder de chancela do STF.

Que o golpe tenha sido (também) jurídico, não constitui uma


hipótese deste trabalho, mas antes seu ponto de partida, razão pela qual não
nos demoraremos na argumentação sobre esse ponto, cabendo a título
introdutório apenas a enumeração, evidentemente não exaustiva, de fatos
indisputados e fartamente noticiados que sinalizam um protagonismo – ou
ao menos uma concentrada vontade de protagonismo – no processo de
formação do contexto político do “impeachment” de Dilma Rousseff:

a) em 27 de julho de 2015, o Procurador da República Deltan


Dallagnol, coordenador da força-tarefa da Operação Lava-Jato no Ministério
Público Federal, convocou fieis de uma Igreja Batista do Rio de Janeiro para
participarem de uma “pregação contra a corrupção” no dia 16 de agosto do
mesmo ano – data agendada de uma mobilização cujos alvos prioritários

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Os juristas políticos e suas convicções 205

eram o governo de Dilma Rousseff e o Partido dos Trabalhadores (Mello


Franco, 2015);

b) em 04 de março de 2016, nove dias antes de outra manifestação


pró-impeachment agendada para o dia 13 do mesmo mês, realizou-se uma
condução coercitiva, autorizada pelo juiz Sergio Moro, da 13ª Vara Federal
de Curitiba, para inquirir o ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da
Silva;

c) na manhã de 16 de março de 2016, por volta das 11h, começou a


ser anunciado, em diversos meios de divulgação de notícias, que o governo
enfim decidira, depois de dias de hesitação, pela nomeação do ex-presidente
Lula para o cargo de Ministro-Chefe da Casa Civil. Algumas horas depois,
por volta das 16h, o juiz Moro levantou o sigilo de áudios interceptados
contendo diversas conversas do ex-presidente Lula com interlocutores com
foro privilegiado, até mesmo a presidenta Dilma. Fatos correlatos: dias
depois, quando os áudios já haviam sido veiculados diuturnamente pelos
meios de comunicação, a suspensão do sigilo foi duramente criticada pelo
ministro Teori Zavascki, caracterizada como uma usurpação de função do
STF por um juiz de primeira instância. Os processos envolvendo Lula
chegaram a ser retirados da Vara de Curitiba e passaram aos cuidados do
ministro Teori; em junho do mesmo ano, contudo, após um pedido de
desculpas do juiz Moro, os processos voltaram à Vara de Curitiba. Não
houve sequer a abertura de processo disciplinar para investigar as ações de
Moro;

d) em 18 de março de 2016, dois dias depois do anúncio da


nomeação e da suspensão do sigilo, o ministro Gilmar Mendes deferiu
liminar apresentada pelo Partido Popular Socialista (PPS) suspendendo a
nomeação de Lula, sob alegação de que os áudios ilegalmente divulgados
comprovariam que a nomeação visaria apenas à concessão de foro
privilegiado ao nomeado e de que, portanto, teria havido um desvio de

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Os juristas políticos e suas convicções 206

finalidade que invalidaria o ato da Presidência da República. Fato correlato:


onze meses depois, julgando liminar apresentada pela Rede Sustentabilidade
contra a concessão de status de ministro para Moreira Franco, então
secretário-geral do presidente Michel Temer, o ministro Celso de Mello
indeferiu o pedido de suspensão da nomeação. A despeito da decisão
diametralmente oposta em circunstância de evidente similaridade, seu
despacho cita o conteúdo da decisão supracitada de Gilmar Mendes como
sendo “impregnado de brilho e de profundidade de análise”;

e) em 05 de maio de 2016, pouco mais de duas semanas depois de


Eduardo Cunha ter presidido a sessão de 17 de abril em que foi aberto o
processo de impeachment da Presidenta da República, o plenário do
Supremo Tribunal Federal decidiu unanimemente pelo afastamento de
Cunha da presidência da Câmara e do mandato parlamentar. O STF havia
recebido a denúncia do Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot,
contra o então presidente da Câmara dos Deputados, em 20 de agosto de
2015 – mais de oito meses antes do julgamento.

Os fatos acima enumerados situam-se, no contexto imediato, nos


meses em que transcorreu o processo político de afastamento de Dilma
Rousseff da presidência da República. O recorte, de fins introdutórios, não
equivale a uma estrita limitação temporal das manifestações do componente
jurídico do golpe de 2016; convergimos, ademais, com a interpretação
segundo a qual a participação das instituições judiciais no golpe de 2016
pode e deve ser remontada ao julgamento da ação penal 470 (Koerner e
Schilling, 2015; Santos, 2017). Como anteriormente assinalado, não se trata
aqui, contudo, de empreender pormenorizada reconstrução factual daquela
participação. Assim, identificados brevemente alguns momentos
convergentes para a cristalização do golpe, interessa-nos mais, aqui,
investigar o modo de atuação de atores das instâncias judiciárias do que
simplesmente atestar tal envolvimento. Uma vez apontada a efetividade
daquela atuação, importará compreender o componente jurídico do golpe;

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Os juristas políticos e suas convicções 207

ou, em outros termos, caberá reconstruir o sentido histórico da atuação


política de alguns dos protagonistas jurídicos do golpe de 2016.

Visando contribuir com a já vasta produção sobre a crescente


relevância do poder Judiciário e do Ministério Público na cena política
brasileira das últimas décadas1, serão analisadas algumas manifestações
públicas desses protagonistas, como o membro da operação Lava-Jato,
Sérgio Moro, e o ministro do STF, Luís Roberto Barroso. A relevância da
análise de tais declarações decorre do seu papel na construção de uma nova
forma de ator político, o “jurista político”2, que, sem dúvida, possui
continuidades com o personagem do bacharel, central na história política
brasileira, mas também cultiva feições bem distintas. Enquanto o bacharel
destacava-se nos salões do parlamento e gabinetes ministeriais, atuante nos
espaços do Executivo e nas tribunas parlamentares, mas presente no
Judiciário quase sempre em momentos de ascensão ou ocaso, o jurista
político atua, sobretudo, por meio das suas colocações em um Poder
Judiciário revigorado após a Constituição de 1988.

A ressonância das suas falas não pode ser vislumbrada, entretanto,


apenas através dos autos processuais, por mais relevante que seja uma
pesquisa de tal feitio. É nas arenas públicas, por meio de palestras,
conferências e entrevistas que esse personagem sai dos corredores dos
tribunais e se torna um tipo de intelectual público, munido, todavia, de
instrumentos de poder que seus pares de outrora apenas sonharam utilizar.
Compreendê-lo requer atenção aos mecanismos de construção da sua
persona pública, por meio das suas manifestações na academia e,
principalmente, da sua representação na mídia3, onde se explicita a

1
O tema, objeto de uma larga bibliografia, constitui um dos principais objetos de
preocupação de cientistas sociais e juristas ao longo dos últimos anos.
2
O termo foi utilizado por Werneck Vianna para analisar o papel da Ordem dos Advogados
do Brasil (OAB) durante a redemocratização (VIANNA 1986). No presente texto, seu uso
possui feição diversa, como será discutido oportunamente.
3
As relações entre mídia e Judiciário são objeto de uma ampla bibliografia, como o
clássico trabalho de GARAPON, 1998.

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Os juristas políticos e suas convicções 208

ambivalência de discursos cujo conteúdo indisfarçadamente político é


construído e fortalecido sob o manto da “autoridade jurídica” do emissor.

Se a posição de poder na instituição judicial é requisito necessário,


apenas com o destaque na arena política mais ampla é possível tornar-se um
efetivo jurista-político, que passa frequentemente a subordinar sua atuação
profissional aos ritmos do debate público, invertendo a fórmula tradicional
do Judiciário que, com vistas a resguardar seu poder contramajoritário4 e se
revelar capaz de evitar os males da temida “tirania da maioria”5, deveria, aos
olhos de certo republicanismo e liberalismo, falar apenas por meio dos autos
e tomar distância das volições das massas. O jurista-político, em regra,
dirige-se a um público de quem se espera, mais do que o consentimento
passivo, uma reação mobilizadora cujo efeito intencional consiste, dentre
outros, na ampliação da legitimação política dos próprios juízes e
procuradores.

Justamente por isso, a ênfase do texto não recai sobre suas


manifestações nos autos processuais, certamente relevantes, mas, na atual
conjuntura, por vezes menos centrais para compreender o sentido das suas
ações. Em chave distinta, o artigo aborda as expressões destinadas ao grande
público desses personagens, analisando seus artigos jornalísticos,
entrevistas, palestras, declarações e livros voltados para um público não
especializado; por esses meios, vislumbra-se uma atuação que precisa,
quando se preocupa com as aparências, manter o equilíbrio tênue que visa,
de um lado, assegurar o “argumento de autoridade” sem incorrer em excesso
de tecnicalidades e, de outro, preservar o “sentido de intervenção” na
realidade sem deslizar para a vulgar pregação política. Uma vez que nosso
intento no presente artigo consiste em perscrutar as formas pelas quais os
discursos dos juristas vêm se firmando na arena política atual, a atenção aos

4
A ideia do caráter contramajoritário do Poder Judiciário é ponto central da noção de
“checks and balances” dos Federalistas norte-americanos.
5
A “tirania da maioria” é tema clássico da teoria liberal, presente nas reflexões de autores
como John Stuart Mill e Alexis de Tocqueville.

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Os juristas políticos e suas convicções 209

enunciados implica o posicionamento epistemológico de levar a sério sua


atuação enquanto jurista político. Em outros termos, entende-se aqui que a
interpretação cuidadosa do conteúdo dos ditos e escritos dos juízes deve ser
encarada como fonte prioritária para a reconstrução do sentido político de
suas ações e expressões, para além de supostas vinculações partidárias
ocultas que estariam a moldar de antemão sua atuação. Não se buscarão,
pois, tais vinculações ocultas situadas em algum plano profundo de
determinações, tarefa sujeita a delírios conspiratórios – trata-se, antes, da
valorização, enquanto potencial fonte de conhecimento, daquilo que
transparece na superfície mesma desta atuação e que resta cristalizado nas
palavras publicamente empregadas.

A análise das expressões externas aos fóruns jurídicos busca


apreender a criação deste novo tipo de ator político, cuja emergência está
diretamente relacionada, em linhas gerais, a processos que ultrapassam
nossas fronteiras, como à própria Judicialização da Política; a
transformações, em termos locais, nas instituições políticas brasileiras (caso
do novo papel do Judiciário no arranjo da Constituição de 1988) e mesmo a
mudanças mais vinculadas à atual conjuntura, caso das transformações no
debate político após junho de 2013. Por outro lado, o trabalho também
busca demonstrar como seus discursos foram relevantes tanto para o Golpe
de 2016 quanto para a consolidação, ao menos inicial, do governo Temer.
Não que haja, evidentemente, uma relação de causalidade unilinear entre
narrativas públicas e eventos políticos, mas é inegável que toda ordem
requer símbolos e argumentos para sua emergência e legitimação. Neste
sentido, não se pode compreender a ruptura democrática e as claras
transformações no debate público dos últimos anos, com a manifesta
emergência de vários matizes de uma Nova Direita6, sem olhar para o papel
da atuação destes atores enquanto um novo tipo de intelectual público. Ao
contrário dos que argumentam a respeito da formação de uma “casta

6
Sobre a “Nova Direita”, ver CHALOUB, PERLATTO, 2016 e CRUZ, KAYSEL,
CODAS, 2016.

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.202-252, mar./jun., 2018


Os juristas políticos e suas convicções 210

jurídica” no país (Souza, 2016), partimos da hipótese de que a atuação


política dos setores jurídicos se realiza precisamente – para além do
insulamento institucional – pela forma como eles produzem e reproduzem (e
se apropriam de) valores e narrativas difundidas por setores material e
simbolicamente dominantes da sociedade.

O artigo abordará inicialmente algumas das condições institucionais


da emergência desse personagem do jurista-político; tratando, de forma
breve, da nova feição do Judiciário após 1988 e da sua inserção em um
movimento global de maior monta. Depois, o texto versará sobre dois dos
mais relevantes personagens desse tipo: o ministro do Supremo Tribunal
Federal, Luís Roberto Barroso, e o juiz Sérgio Moro, de modo a perceber as
distinções e proximidades entre seus discursos e personas públicas.

A evidente escolha de Sérgio Moro, por certo a mais popular figura


de destaque dentre os juristas políticos emergentes na atual conjuntura,
contrapõe-se à opção menos óbvia de abordar o pensamento de Barroso.
Pensando em termos de presença no Supremo Tribunal Federal e de um tom
ostensivamente político, a análise poderia se fixar, por exemplo, em Gilmar
Ferreira Mendes. Caso o olhar se voltasse para magistrados mais cotados
para concorrer a cargos majoritários, o texto poderia se aprofundar no ex-
ministro Joaquim Barbosa, ou mesmo na atual presidenta do STF, Carmen
Lúcia. O constitucionalista carioca congrega, todavia, algumas
características interessantes para serem exploradas, ao conjugar o esforço de
construir uma narrativa mais ampla para o passado e futuro nacionais com
uma clara presença nos debates públicos, apresentada, entretanto, como
manifestação de alguém que se subtrai à disputa passional da política. A
narrativa, como claro esforço de produzir uma interpretação do país, permite
perceber com clareza as afinidades mais amplas, em relação a aspectos
fundamentais da sua visão de mundo, de setores distintos do Poder
Judiciário que se mostraram favoráveis ao Golpe de 2016. A presença
midiática sob o signo da neutralidade expõe, por sua vez, o procedimento

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.202-252, mar./jun., 2018


Os juristas políticos e suas convicções 211

típico de atuação política do Judiciário, que age como ator político por meio
da retórica de que não o faz. As diferenças de estilo entre o herói de toga e o
intelectual ministro explicitam, ademais, convergências e distinções em
meio a esse heterogêneo grupo que, contudo, agiu e age muitas vezes de
modo consonante em meio à crise política.

Os juristas e o Judiciário

A história política brasileira tem no protagonismo dos bacharéis uma


das suas marcas. Seja à frente do longo processo de construção do Estado,
como artífices da definição de uma linguagem política que tem no Direito
sua principal fonte, ou liderando os debates no parlamento, os egressos das
faculdades de direito ocupam posições de franco destaque ao longo de
décadas7. Há, nesse sentido, vasta literatura sobre o papel dos juristas –
egressos dos bancos de Coimbra – na construção da ordem imperial, a
despontarem no Conselho de Estado e no Parlamento, e não menos volumes
sobre seu destaque na Primeira República, quando por vezes colegas do
mesmo ano na Faculdade de Direito do Largo do São Francisco sucediam-se
na Presidência da República, nos mais destacados ministérios e em
mandatos legislativos. (CARVALHO, 1980; ADORNO, 1988; COELHO,
1999; VENANCIO FILHO, 2004).

A Revolução de 1930 rompeu vários fios da tradição política


brasileira, mas continuou a adotar o Direito como forma privilegiada de
ordenação do mundo e contar com os bacharéis em postos de destaque.
Tanto pelo protagonismo de típicos bacharéis à frente do Estado, casos de
Francisco Campos e Gustavo Capanema, quanto pela continuidade do papel
do Direito, que preponderava sobre o mercado como instrumento primordial
de organização da sociedade pelo Estado, tendo no Direito do Trabalho um

7
O papel de destaque dos juristas na construção dos Estados ocidentais é ponto de ampla
bibliografia, já notado por alguns dos clássicos das Ciências Sociais, caso de WEBER,
2011.

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Os juristas políticos e suas convicções 212

instrumento privilegiado (VIANNA, 1999). A República de 1946 trouxe


algumas modificações, com os bacharéis a disputarem os postos de direção
do Estado com portadores de um discurso econômico em vias de
especialização, que tinha no conceito de planejamento aspecto central. Os
aparatos jurídicos, entretanto, não perderam seu posto de destaque,
fortemente presente a ideia de organização do mundo a partir do direito e
merecedores de amplo destaque bacharéis das mais diversas estirpes
(CHALOUB, 2015; ALMINO, 1980).

Maior ruptura, por sua vez, ocorre após o Golpe Militar de 1964. A
ditadura nutria explícita desconfiança do verbalismo jurídico, identificado às
fraquezas da democracia parlamentar destronada pela força, e cultivava
claro entusiasmo pelo discurso técnico da progressivamente autonomizada
economia. Os bacharéis serão relegados às coxias, superados por nomes
como Delfim Neto, Mário Henrique Simonsen, Roberto Campos e João
Paulo Reis Velloso, todos a conjugarem com maior naturalidade os verbos
do campo econômico. Ao preservar sob autoritário jugo a aparente
normalidade de algumas das instituições da democracia representativa,
como o Legislativo e o Judiciário, os militares acabaram por retirar delas
parte da legitimidade pública, incutindo frente à maior parte da população
uma clara desconfiança de sua efetividade; enquanto, por outro lado,
conferiam aos aprendizes de feiticeiro da linguagem econômica a aparência
de segurança e precisão. Nesse sentido, a predominância do discurso
econômico ante os demais vocabulários do debate público, marca do
crescente neoliberalismo na passagem das décadas de 1970 para 1980, em
diversas partes do mundo, encontrou franca afinidade com as
transformações empreendidas pelo regime autoritário brasileiro.

A redemocratização representou um freio nesse processo. Voltava à


cena o discurso jurídico e se abriam as portas para a ação política com maior
grau de liberdade (SANTOS, 1985). Fruto de amplo processo de
mobilização popular, mas também atravessada por evidentes permanências

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.202-252, mar./jun., 2018


Os juristas políticos e suas convicções 213

autoritárias, a Constituição inaugurava um novo tempo marcado por


reminiscências do passado. Uma novidade surgia, entretanto, em meio ao
cenário jurídico: o amplo fortalecimento do Poder Judiciário. O manifesto
protagonismo dos bacharéis, anteriormente destacado, sempre teve como
contraponto o lugar secundário dos juízes, constantemente subalternos ao
Executivo. Mesmo o Supremo Tribunal Federal carecia de maior prestígio,
habitado frequentemente por juristas de menor quilate ou próximos do
ocaso.
Dotado de sua forma moderna com a Proclamação da República, o
Judiciário atravessou a Primeira República sem concretizar a imaginação de
Rui Barbosa, que dele esperava um papel semelhante ao seu congênere
norte-americano, a funcionar como importante poder estabilizador do
regime nascente (LYNCH, 2014). A vaga centralista da Revolução de 1930
não lhe trouxe melhor sorte, com a emergência de tempos ainda mais
difíceis quando da ascensão do Estado Novo. A República de 1946 parecia
reservar-lhe outra fortuna, tendo em vista a imaginação de tons
ruibarbosianos dos antivarguistas autores do Manifesto dos Mineiros e a
aposta deles em uma transição inicialmente capitaneada pelo então
presidente do Supremo Tribunal Federal, José Linhares. Com a exceção de
seu destaque na cassação do Partido Comunista do Brasil (PCB) e dos
mandatos de seus parlamentares, não coube ao Judiciário maior proatividade
nem na ascensão, nem na queda da breve experiência democrática. A
Ditadura Militar reduz ainda mais a liberdade formal e efetiva, com
aposentadorias compulsórias – como a dos ministros Evandro Lins e Silva,
Victor Nunes Leal e Hermes Lima –, modificações na composição do
Supremo Tribunal Federal e hipertrofia da jurisdição militar, marcas da
conhecida desconfiança do regime perante os civis.

Nesse cenário, a Constituição de 1988 representa uma brusca


mudança. O texto constitucional tornou o Judiciário fórum privilegiado das
expressões políticas da sociedade, conferindo-lhe, nesse sentido, amplo

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.202-252, mar./jun., 2018


Os juristas políticos e suas convicções 214

protagonismo nas mais diversas disputas sociais. Há, por certo, continuidade
no papel de destaque dos juristas – em que pese o lugar cada vez mais
hegemônico do discurso da economia no cenário público –, tendo em vista
que “o continuar-descontinuando da Carta de 1988 se expressa na operação
que faz do direito a sua principal referência ético-pedagógica” (VIANNA,
2008, p. 101). O mesmo, todavia, não se pode dizer em relação aos juízes,
que saem de um papel secundário no jogo político para uma estrutura que
lhes permitiria, em algum tempo, tomar a frente da cena.

A ausência de um anteprojeto como diretriz dos debates constituintes


e a amplitude da coalizão pluriclassista à frente do processo de transição
operou de modo a conferir amplos direitos e garantias na Constituição,
como forma de compensar, frente aos desejos das forças mais progressistas,
parte da ausência de conquistas mais ousadas em um primeiro momento
(VIANNA, CARVALHO, MELO, BURGOS, 1999, p. 41). Desse modo,
surge uma carta constitucional afinada com as mais progressistas fórmulas
do Constitucionalismo do pós-1945, inspirada por uma filosofia política
comunitária (CITTADINO, 1999; LESSA, 2008), que atribui ao direito a
possibilidade de ação moral no mundo, retomando o tema da justiça então
relegado a outras esferas pelo Positivismo Jurídico mais tradicional 8. As
mudanças passam pelos direitos conferidos, mas, sobretudo, pelo que
Werneck Vianna e Marcelo Burgos chamaram de “revolução processual”,
com o aumento dos instrumentos de ação jurídica do cidadão perante o
poder público, de modo a construir ao lado da representação política mais
tradicional outra forma de democracia participativa9.

8
Há, por certo, diversas variantes do positivismo, com tratos diversos sobre a relação entre
Direito e Justiça. Nenhuma delas, entretanto, deixará de conferir reduzido papel, senão
nenhum, ao direito enquanto realização de ideais ético-morais.
9
Merecem destaque, neste sentido, o amplo rol de legitimados para propor ações diretas de
inconstitucionalidade (ADIN’s), arguições de descumprimento de preceitos fundamentais
(ADPF’s), ações de inconstitucionalidade por omissão (ADO’s) e ações declaratórias de
constitucionalidade (ADC’s), de modo a conferir a importantes agentes da sociedade civil,
como organizações classistas, a possibilidade de continuamente discutir o sentido da
Constituição. Também relevante é a criação do mandado de injunção, que confere ao

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Os juristas políticos e suas convicções 215

O processo não é especificidade brasileira. Há ampla bibliografia,


com diagnósticos diversos, sobre os processos de Judicialização da Política
e das Relações Sociais nas democracias ocidentais do pós-guerra
(CAPPELLETTI, 1988; TATE, VALLINDER, 1997; HABERMAS, 1998).
O caráter mais amplo do fenômeno não retira, entretanto, suas
manifestações locais específicas. O protagonismo do Judiciário em uma
sociedade com ampla tradição de intervenção do direito (e destaque dos
bacharéis) nos mundos da política e da economia por certo produz
características específicas, que ainda estão por ser compreendidas de forma
pertinente.

A bibliografia já apontou com clareza a demora do Judiciário em


assumir seu novo papel (VIANNA, CARVALHO, MELO, BURGOS,
1999), já que boa parte dos juízes se formaram e tomaram posse ainda em
um contexto autoritário10. O fato – que tem por bom exemplo a
interpretação redutora do mandato de injunção pelo Supremo Tribunal
Federal, praticamente retirando a efetividade do instituto – expõe a natural
demora dos indivíduos em compreenderem e se ambientarem com as
instituições. A maior maturação do atual cenário não deve, entretanto, ser
tomada como forma definitiva. A Constituição de 1988 ainda continua a
produzir novos efeitos, dentre os quais esse novo tipo de protagonismo do
Judiciário estudado no presente artigo.

cidadão a possibilidade de demandar ação efetiva do poder público para viabilizar os


direitos previstos na Carta de 1988, e a reorganização do próprio Judiciário, com a criação
dos Juizados Especiais Cíveis e Criminais, fundamentais para a ampliação do acesso à
Justiça e a concretização de boa parte da legislação ordinária criada no início da década de
1990, como o Código de Defesa do Consumidor (CDC), o Estatuto do Idoso (EI) e o
Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Os efeitos são sentidos no impressionante
aumento no número de novos processos, que passam de 350.000 em 1988 para 8.500.000
em 1998 (VIANNA, CARVALHO, MELO, BURGOS, 1999, p. 11). Por fim, cabe
mencionar o novo papel institucional atribuído ao Ministério Público, o qual não mais atua
como órgão do Estado, mas como suposto defensor dos interesses da sociedade
(ARANTES, 2002; SADEK, 2008).
10
O último juiz do STF nomeado pela Ditadura Militar, José Carlos Moreira Alves, apenas
se aposenta, por exemplo, em 2003.

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.202-252, mar./jun., 2018


Os juristas políticos e suas convicções 216

Aproveitando-se de uma crise que tem na sua ação uma das causas,
com um agressivo ataque às efetivamente corrompidas relações entre classe
política e poder econômico do Brasil, juízes e promotores tomam o centro
da cena pública, atuando não apenas como representantes da sua corporação,
mas como intelectuais públicos hábeis para opinar e influenciar as mais
diversas áreas da disputa política. A cena armada pela Constituição de 1988
é a base para a sua ação – que, entretanto, em muito a ultrapassa – articular
diversas outras linguagens e condições institucionais. De um lado, há uma
clara mobilização de um repertório que atribui aos profissionais do direito o
papel de elite ilustrada, movidos pelo sentido de dever e com a missão de
expurgar o país dos seus vícios. O tom, ora mais contido, como de Luís
Roberto Barroso, ora mais messiânico, como o de Sergio Moro, aponta no
mesmo sentido de uma percepção rebaixada e corrupta do Estado, que se
opõe a uma visão que aponta o mercado como lugar do moderno, sem que o
papel dos corruptores na trama atacada ganhe atenção semelhante ao dos
corrompidos. Por outro lado, há a construção de um cenário midiático em
que o controle de discursos públicos é profundamente eficiente. São vastas
as evidências sobre a enorme concentração da mídia brasileira, ainda
responsável pela (enorme) maior parte do conteúdo veiculado, mesmo nas
redes sociais. A emergência desses personagens, que explicitamente
assumem a utilização interessada da mídia, vem ao encontro da adoção de
um forte discurso antipolítica da imprensa.

O presente texto buscará compreender esse movimento a partir de


dois dos mais relevantes “juristas políticos” a emergirem na presente
conjuntura: Luís Roberto Barroso e Sérgio Moro. O olhar para os atores nos
permite delinear com mais clareza esse novo tipo de ator político, que
destoa do antigo bacharel por seu estilo de atuação, mas guarda certas
marcas da tradição pátria de protagonismo do Direito. Por outro lado,
mesmo não identificados com a retórica econômica crescentemente
relevante após a Ditadura Militar, eles comungam de certo elogio à

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.202-252, mar./jun., 2018


Os juristas políticos e suas convicções 217

centralidade do mercado como instrumento de organização do mundo


social, por vezes agindo como atores que recusam o protagonismo da razão
pública presente no Direito para concederem a determinado saber técnico
econômico a centralidade nos embates políticos. Essa conciliação entre
tradições – de certo modo um encontro entre a longeva linguagem jurídica e
a nascente gramática econômica – permite interpretar esses atores como
personagens atinados a um novo tempo, distantes de qualquer arcaísmo.

Luís Roberto Barroso: o liberalismo de elites virtuosas

Após seu ingresso no Supremo Tribunal Federal, há quatro anos,


Luís Roberto Barroso cedo se tornou um dos líderes da Corte. O prestígio
como constitucionalista, por meio da sua produção bibliográfica e da
participação em grandes julgamentos do Tribunal, como os do aborto de
fetos anencéfalos e da extradição de Cesare Battisti, já lhe conferia bom
destaque em seus primeiros passos enquanto ministro. A desenvolta
participação nos debates públicos será, entretanto, peça fundamental para
sua crescente influência, não apenas dentro do STF, mas enquanto
intelectual público apto a opinar sobre os mais diversos temas em disputa,
mesmo aqueles sobre os quais, provavelmente, será demandado a se
manifestar no plenário do Tribunal. Uma breve consulta ao site pessoal do
ministro11 nos permite encontrar manifestações sobre inúmeros assuntos, em
leque que vai desde a legalização das drogas até as propostas de reforma
política. Ao longo das suas muitas conferências, textos e entrevistas,
repetem-se, contudo, alguns argumentos que permitem vislumbrar uma
perspectiva de mundo e país distante de qualquer novidade ante muitos
precursores, mas muito clara em seus fundamentos e, sobretudo, apta a
apontar um caminho para sua própria atuação. Do discurso do ministro,
ganha contorno um liberalismo de elites crítico a qualquer protagonismo do
Estado, o mesmo sempre secundário ante um olhar para sociedade civil vista

11
http://www.luisrobertobarroso.com.br

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.202-252, mar./jun., 2018


Os juristas políticos e suas convicções 218

como território privilegiado do mercado. O Judiciário, todavia, estaria –


antes no terreno da sociedade civil que no do Estado – a atuar (face ao
atraso predominante) como vanguarda de elites virtuosas, únicas capazes de
superar os entraves representados pela onipresença estatal e pelo déficit
moral da sociedade.

A compreensão dos sentidos de tal narrativa passará não por seus


votos em processos judiciais, mas pelos textos de diversas conferências,
artigos na imprensa e entrevistas do jurista após seu ingresso no Supremo
Tribunal Federal, em 2013. O trabalho parte da premissa de que, após sua
entrada na Corte, o ministro iniciou franco esforço para se afirmar como um
tipo determinado de intelectual público, aqui intitulado “jurista político”,
que retira sua legitimidade no embate político não apenas do posto
privilegiado no Judiciário – o qual também se faz imprescindível – mas
também da persona pública que constrói em suas aparições na grande mídia.

Mesmo onipresente e atuante nos debates públicos, Barroso busca


constantemente construir sua narrativa a partir de uma imagem de
imparcialidade e distância do mundo político. Segundo este topos retórico,
sua atuação enquanto Ministro do STF passaria longe dos embates públicos,
frequentados excepcionalmente com as vestes do professor ou acadêmico,
que em nada conflitariam com sua nova função. A ideia de neutralidade
será central para justificar o lugar de produção de uma ordem a partir do
Judiciário, amparada em premissas mais morais – ou seja, sobranceira aos
conflitos e dotada de uma verdade insuspeita – que políticas.

Naturalmente, desde que me tornei Ministro do Supremo


Tribunal Federal, eu já não participo mais desse debate
público. Porém, os pontos de vista que exponho aqui são
essencialmente os mesmos sobre os quais já escrevi
amplamente na qualidade de professor de direito
constitucional. Ademais, este é um evento estritamente
acadêmico, e ainda por cima fora do Brasil (BARROSO,
2015).

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.202-252, mar./jun., 2018


Os juristas políticos e suas convicções 219

A evidente contradição entre discurso e ação por vezes também é


escamoteada pelo argumento de que ele apenas se atém a uma descrição do
debate, sem expor qualquer posição pessoal: “Mas eu não fiz esta
apresentação para dizer a minha posição. Essa matéria tem de ser decidida
pelo Congresso. Minha exposição foi para demonstrar que as ideias já estão
na mesa” (BARROSO, 2015). Neste argumento, Barroso não passaria de
alguém que soberanamente mapeia o debate, sem tomar parte ou influir na
querela, em exercício outra vez mais afeito aos salões das universidades do
que aos campos do embate político.

Se, no que tange à sua ação individual, Barroso sugere, em sua


autoimagem, neutralidade e contenção, ele não destoa em relação ao
Supremo Tribunal Federal. Recorrendo à conhecida distinção entre a
Judicialização, fenômeno estrutural, e o ativismo, postura individual ou
coletiva, o ministro traça o perfil de um STF ciente das suas
responsabilidades num cenário em que a Judicialização é inevitável, mas
distante dos excessos do ativismo: “Porém, a despeito da judicialização
ampla, o STF, como regra geral, não é ativista, mas autocontido”
(BARROSO, OSÓRIO, 2015)12. Distintamente da visão mais superficial de
alguns, a Corte quase sempre manteria as decisões do Executivo e do
Legislativo. A questão, segue Barroso, não passaria pelas mazelas do
Judiciário, mas sim pelos limites do mundo da política, que padeceria de
limitações estruturais, a imporem a urgente realização de uma radical
reforma política, e de um rebaixamento ético dos seus agentes.

A fluidez generalizada das fronteiras entre Política e Direito se faria,


nesse sentido, ainda mais acentuada e necessária na realidade brasileira13.

12
Um bom exemplo de argumentação mais ampla neste sentido está em BARROSO, Luis
Roberto; OSORIO, Aline. “Crise testou o respeito do país à Constituição Federal e às
instituições”. Disponível em http://www.conjur.com.br/2015-dez-28/retrospectiva-2015-
crise-testou-respeito-constituicao-federal
13
“Esses precedentes ilustram a fluidez da fronteira entre política e direito no mundo
contemporâneo. Ainda assim, o caso brasileiro é especial, pela extensão e pelo volume”.
(BARROSO, 2012). Uma mais vasta interpretação neste sentido está presente em:
http://www.luisrobertobarroso.com.br/wp-

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.202-252, mar./jun., 2018


Os juristas políticos e suas convicções 220

Recusando explicitamente as críticas à Judicialização construídas por


autores como Hirschl, Tushnet e Waldron, Barroso justifica esse aparente
excesso pelas particularidades da nossa política e sociedade, na qual o
Judiciário ainda seria mais progressista do que os demais poderes. É a partir
do conceito de atraso que se delineia a justificativa para a ação excepcional,
ante parâmetros comparativos e históricos, da vanguarda jurídica. Ganha
forma uma narrativa em que os juízes assumem as feições de uma elite
esclarecida, a resolver, por sua ação virtuosa, as mazelas de uma sociedade
secularmente atravessada pelo atraso:

As diferenças se devem, em parte, à realidade específica do


Brasil e, em parte, a concepções diferentes sobre a democracia
e os papeis do Legislativo e dos tribunais constitucionais. Não
terei tempo aqui de aprofundar o tema. Registro apenas que, no
caso brasileiro, não se aplica a premissa de Hirschl de que o
Judiciário tornou-se o último refúgio das elites diante da
democratização da sociedade. No Brasil, por circunstâncias
diversas, o Judiciário e o próprio Supremo Tribunal Federal
são, no geral, mais liberais/progressistas que o Legislativo,
onde a influência do poder econômico se tornou excessiva e
distorciva da representação (...). O Brasil enfrenta muitos
problemas que vêm de longe. Conseguimos avançar muito, mas
ainda estamos atrasados e com pressa. Por essa razão, é preciso
ir buscar soluções e respostas originais, fora da caixa. O debate
de ideias deve ser universal, mas as soluções devem ser
particulares. Nem tudo o que eu penso e disse pode ser
universalizado. Cada povo carrega a sua própria história, as
suas circunstâncias e os seus desafios (BARROSO, 2015b).

Os excessos de Judicialização decorreriam, desse modo, das


ausências das elites políticas, surgindo como sintoma de um problema
externo ao mundo do Judiciário. Se, por um lado, o ministro afirma que “a
judicialização jamais deverá substituir a política, nem pode ser o meio
ordinário de se resolverem as grandes questões”, pois o “Judiciário só deve
interferir quando a política falha” (BARROSO, 2012), por outro ele
diretamente conclui que “o problema brasileiro atual não é excesso de
judicialização, mas escassez de boa política” (BARROSO, 2012). Sem uma

content/themes/LRB/pdf/constitucionalismo_democratico_brasil_cronica_um_sucesso_imp
revisto.pdf

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Os juristas políticos e suas convicções 221

mudança profunda nas instituições políticas, não restaria ao Judiciário outra


alternativa que a manutenção do seu protagonismo:

De tudo o que se disse, é possível concluir que o Judiciário se


expande, sobretudo, nas situações em que o Legislativo não
pode, não quer ou não consegue atuar. Aqui se chega ao ponto
crucial: o problema brasileiro atual não é excesso de
judicialização, mas escassez de boa política. Nesse cenário,
imaginar que a solução esteja em restringir o papel do
Judiciário é assustar-se com a assombração errada. O que o
país precisa é restaurar a dignidade da política, superando o
descrédito da sociedade civil, particularmente em relação ao
Legislativo. É hora de diminuir o peso do dinheiro, dar
autenticidade aos partidos e atrair vocações. Enquanto não vier
a reforma política necessária, o STF terá de continuar a
desempenhar, com intensidade, os dois papéis que o trouxeram
até aqui: o contramajoritário, que importa em estabelecer
limites às maiorias; e o representativo, que consiste em dar
uma resposta às demandas sociais não satisfeitas pelas
instâncias políticas tradicionais (BARROSO, 2012).

Dito em outros termos, é a anomia das elites políticas a responsável


pelo protagonismo das elites judiciais. Precursor na introdução do
neoconstitucionalismo, e do pós-positivismo14 no debate jurídico brasileiro,
o uso de Barroso das doutrinas de forte caráter principiológico expõe o
potencial elitista das teorias, construindo modelo propício a insular o
Judiciário do resto da sociedade, sobretudo quando tal perspectiva é
conjugada à defesa de um Poder Judiciário hierarquizado, com amplo poder
para o Tribunal Constitucional. Sem maior ênfase em uma perspectiva que
abra a interpretação judicial para o conjunto dos grupos sociais em disputa,
à moda da comunidade aberta de intérpretes de Haberle (1997), a superação
do olhar positivista – que recusava a vinculação entre direito e ideais de
justiça que ultrapassem o aplicador – corre o claro risco, já evidenciado por

14
O neoconstitucionalismo costuma se referir a uma série de teorias de interpretação
constitucional, surgidas no Pós-Guerra, mas fortalecidas após a década de 1970, que
reforçava o papel impositivo e a centralidade dos princípios constitucionais, recusando a
distinção entre normas efetivas e programáticas. Tal modificação reforça o caráter
interpretativo do direito, conferindo maior centralidade, portanto, ao Judiciário. Sobre o
tema ver CARBONELL, 2000. O pós-positivismo, por sua vez, vincula-se a uma série de
teorias que questionavam o paradigma positivista sem recorrer, contudo, em adesão ao
jusnaturalista. Também defensor da centralidade dos princípios, o movimento tem em
Ronald Dworkin, sobretudo em sua polêmica com Hart, um marco relevante. Para um
panorama ver SGARBI, 2007.

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Os juristas políticos e suas convicções 222

autores como Hirschl (2004), de construir a hegemonia política de uma elite


jurídica, sem maiores mecanismos de controle por parte da sociedade15. O
problema se agrava em um Supremo que, como aponta boa bibliografia,
atua em lógica individualizada, com ampla prevalência de decisões
monocráticas16 e uso das vistas processuais como recurso de veto
(ARGUELHES, HARTMANN, 2015) dos ministros. Defensor de uma
Corte Suprema capaz de determinar a própria agenda, por meio do
refinamento do instituto da repercussão geral17, fortalecendo a pauta
centralista implementada pela Emenda 45/200518, o jurista carioca vê na
Corte um ator capaz de atuar em meio à sociedade de modo a superar sua
apatia, atraso crônico e falta de valores morais sólidos. Os princípios
constitucionais, bem interpretados, surgem como um dos efetivos meios
para a realização desta empreitada. O direito seria o elixir necessário para
conferir à sociedade a fibra moral nela ausente, seja em virtude de mazelas
de origem, seja pela ausência de atores capazes de solucioná-las.

Em texto recente, Christian Lynch e José Vicente Mendonça (2017)


apontam a inspiração de Raymundo Faoro na construção da doutrina
brasileira da efetividade, versão pátria do neoconstitucionalismo que tem em
Barroso seu principal formulador, já em meados dos anos 198019. No artigo,
os autores descrevem como o constitucionalista organiza tal corrente, que
destoa nesse sentido das versões centrais do pensamento neoconstitucional,

15
Passa pela aposta em uma abertura do Judiciário à sociedade, conformando um novo tipo
de americanismo, lido na chave de Gramsci e Tocqueville, a defesa normativa do
fortalecimento do Judiciário feita por Werneck Vianna. Sobre o tema ver, especialmente,
VIANNA, BURGOS, 2008.
16
Segundo o projeto Supremo em números, da FGV-RIO, 88% dos processos julgados pelo
STF no ano de 2016 tiveram decisões monocráticas. Disponível em.
http://www.fgv.br/supremoemnumeros/
17
O instituto da repercussão geral, instaurado pela Emenda 45/2005, institui como requisito
para a admissibilidade do recurso extraordinário, instrumento processual destinado ao STF,
a importância para o ordenamento jurídico como um todo, com objetivo de reduzir o papel
do Supremo como corte de julgamento de recursos em processos de repercussão
constitucional.
18
A emenda 45/2004 instaurou institutos que fortaleceram o poder do STF como a súmula
vinculante e a repercussão geral.
19
Para uma exposição da doutrina brasileira da efetividade, ver BARROSO, 2006 (1984),
2008.

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Os juristas políticos e suas convicções 223

com o intuito de refundar a tradição constitucional brasileira,


persistentemente marcada pela inefetividade, a qual seria, por sua vez,
promovida por elites possuidoras de uma “insinceridade normativa” crônica.

Tal diagnóstico da sociedade, com não poucos antecedentes no


Pensamento Político brasileiro, opõe de um lado um liberalismo
inescapável, visto como único caminho rumo ao moderno e, de outro, uma
sociedade desfibrada, carente de valores adequados a um novo tempo e
mesmo de uma postura moral necessária à realização dos seus objetivos. O
discurso liberal toma, já como ponto de partida, o mundo privado como
único lugar capaz da produção de riqueza e da mais adequada distribuição
dos bens produzidos. É por meio do mercado, e não do Estado, o caminho
para se alcançar os objetivos do mundo contemporâneo. Não se trata, neste
discurso, de uma alternativa entre muitas, mas da única saída viável, para
além de qualquer olhar ideológico:

Ainda assim, temos um capitalismo envergonhado. Ser


progressista significa querer distribuir as riquezas de forma
mais justa. Mas a história provou que, ao menos no atual
estágio da condição humana, a iniciativa privada é melhor
geradora de riquezas do que o Estado. Trata-se de uma
constatação, e não de uma opção ideológica. É um fato, não
uma escolha. Precisamos aceitar esta realidade e pensar a vida
a partir dela (BARROSO, 2014).

A incapacidade de perceber as evidências, aparentemente claras em


outros meridianos, decorre de mazelas presentes no estado e na sociedade
civil brasileiras: o patrimonialismo e o oficialismo. Barroso frequentemente
cita as duas patologias ao lado de uma terceira, o inigualitarismo, a qual
parece, entretanto, ser causalmente posterior às duas primeiras. O
patrimonialismo surge no texto como – para usar uma expressão que
agradaria a uma das evidentes inspirações do ministro – “vinho novo em
odres velhos”. Barroso retoma, décadas depois, velhos motes do
Pensamento Social Brasileiro, cunhados por autores como Sérgio Buarque
de Holanda, Raymundo Faoro e Simon Schwartzman, ao apontar os

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Os juristas políticos e suas convicções 224

problemas da nossa formação ibérica, que desconheceria as distinções entre


público e privado. Trata-se de uma “marca da formação nacional”,
fortemente presente até os dias contemporâneos quando demandou,
exemplifica o jurista, ação explícita do Supremo contra o nepotismo e o uso
de dinheiro público para fins pessoais. O elogio do mundo privado e o olhar
para o Estado como lugar propício à corrupção, subjacentes ao conceito de
patrimonialismo, ganham, em seguida, tons mais claros com a ideia de
oficialismo, a segunda das doenças nacionais. “Disfunção atávica”, segundo
o vocabulário do ministro, o oficialismo nada mais seria do que “a
característica que faz depender do Estado – isto é, da sua bênção, apoio e
financiamento – todo e qualquer projeto pessoal, político ou empresarial de
grande porte”. Ele ainda complementa, em tom por certo inspirado pela
conjuntura, já que se trata de conferência proferida na Ordem dos
Advogados do Brasil, entre o primeiro e o segundo turnos das eleições de
2014:
Quase tudo o que é verdadeiramente importante no Brasil
depende de financiamento do BNDES, da Caixa Econômica,
dos Fundos de Pensão. Ou depende de apoio do Ministério tal e
qual, de um favor do Governador, do Prefeito ou do Secretário.
Com tudo o que isso acarreta em termos de ingerência
indevida, troca de favores e locupletamento. Esse oficialismo
onipresente traz subprodutos muito ruins e faz com que o
Estado seja mais importante do que a sociedade” (BARROSO,
2014).

O predomínio do Estado (instituição tendente à corrupção) ante a


sociedade é responsável pela timidez do capitalismo brasileiro e pela
aversão ao empreendedorismo e a livre iniciativa, remédios para superar
parte das doenças nacionais. Marcas de um capitalismo de Estado há muito
aqui instaurado, esses traços culturais impedem a efetiva modernização do
país. A reforma não pode passar pelo Estado, mas deve depender de
profundas mudanças na própria sociedade, na qual a resolução das mazelas
do patrimonialismo e do oficialismo são fundamentais para a superação do
cenário de crise, política e moral, do país. O ministro retoma uma velha
estrutura argumentativa, habituada a representar a sociedade pelo viés da

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Os juristas políticos e suas convicções 225

patologia, a qual exigiria, logicamente, uma intervenção excepcional de


alguma elite, com identidade mutável ao sabor dos tempos, visto que já fora
militar, intelectual e política.

Na narrativa de Barroso, o Judiciário curiosamente não aparece


como braço estatal, mas enquanto um posto avançado da sociedade civil,
mais progressista e ilustrado. É justamente tal percepção o que permite
conciliar o aparente confronto, à primeira vista, entre a afirmação de um
liberalismo com forte viés econômico e a defesa, muitas vezes pouco
explícita, do protagonismo do Judiciário. O terceiro poder fugiria das velhas
mazelas ibéricas pertencentes ao Estado brasileiro, capaz, aos olhos do
ministro, de se mostrar atuante sem sufocar a sociedade ou se valer dos
recursos públicos para benefício privado. O caráter corrupto do Estado e da
sociedade brasileiras não se aplicaria aos juízes.

O diagnóstico da sociedade possui claros contornos morais. Há,


no discurso, a ideia de uma sociedade corrompida, que não é apenas vítima
de um Estado algoz, mas também contribui para sua própria sorte. Em olhar
superficial, simples compilação de experiências individuais pouco refletidas
e senso comum, o ministro do STF traça um painel de um país necessitado
de profunda reforma ético-moral, a salvá-lo de mazelas seculares:

O país enfrenta dificuldades éticas não apenas no governo, mas


na sociedade em geral. Pessoas apontam o dedo incisivamente,
mas vivem sob a égide de uma moral dupla, quando não da
mais pura hipocrisia. Exemplo 1. O país tem problemas
civilizatórios básicos em relação ao respeito ao outro, a não
buscar vantagens indevidas e a agir com boa-fé. Entre eles se
incluem a dificuldade em respeitar a fila, as barbaridades no
trânsito (uso do acostamento, estacionamento na calçada,
embriaguez ao volante, atropelamentos com fuga), a prática
costumeira de não dar nota em restaurantes, a cobrança de
preços diferentes por prestadores de serviços se há exigência de
recibo pelo usuário, a vandalização de lugares e monumentos
públicos etc. Exemplo 2. Um caso concreto emblemático.
Tenho um casal de conhecidos que me contou,
incidentalmente, a seguinte história. Ambos manifestaram
indignação com a empregada doméstica, que pedira para não
assinar a carteira para poder continuar a receber a Bolsa
Família. Pouco à frente na conversa, contaram que a filha vivia
conjugalmente com um companheiro há muitos anos, mas que

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Os juristas políticos e suas convicções 226

não havia se casado para não perder a substancial pensão que


recebia do avô, que somente beneficia neta solteira. Como
disse, há uma moral dupla. Mas não se trata de uma atitude
deliberada de má-fé: as pessoas nem se dão conta. Foram
criadas nessa cultura e a consideram um dado da realidade, e
não uma escolha pessoal. Repito, para que não haja dúvida: não
estou endossando ou negando qualquer desses pontos. Trata-se
de uma mera fotografia do momento atual, como eu consegui
captar do meu ponto de observação” (BARROSO, 2015c).

A saída passa em parte pela eterna aposta na Educação, pela qual o


protagonismo no ensino superior (produtor de pesquisa e conhecimento)
está antes reservado ao mercado (reserva da eficiência) do que à sociedade:
“no tocante ao ensino superior, precisamos criar instituições de ponta, em
um modelo totalmente diverso do que está aí (mas sem enfrentar ou desfazer
o que já existe): público nos seus propósitos, privado no seu financiamento,
com bolsas de estudo para recrutar os melhores alunos” (BARROSO,
2015c).

Se a educação é o remédio para o longo prazo, o Judiciário, visto


como mais progressista que a sociedade que deve ajudar a reformar, é o ator
capaz de resolver as mazelas mais prementes. Mais avançado do que o
Legislativo – “a atualidade brasileira, o STF está à esquerda do Congresso
Nacional” (BARROSO, 2012) –, o STF é o ator perfeito para realizar a
agenda de Barroso, que conjuga um progressismo em geral na área dos
direitos individuais, com a defesa de uma forte agenda liberalizante de
reforma do Estado, portadora de claras afinidades com uma perspectiva
neoliberal de poder público.

O principal problema de um Judiciário que se arroga a


possibilidade de atuar em supostos vácuos da política passa pela seguinte
questão: quem julga a própria atuação do Executivo e o Legislativo para
concluir sobre suas faltas? Como a resposta aponta para o próprio poder
judicante, entramos em um cenário onde um ator define seus próprios
limites, preocupação central que motivou a própria construção de toda a
teoria de Montesquieu, e os posteriores desenvolvimentos dos Federalistas

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Os juristas políticos e suas convicções 227

sobre a separação de poderes20. Sem freios externos ou força que a ele possa
institucionalmente se contrapor, o poder tenderia a ampliar sua alçada
dentro das possibilidades dispostas, como apontam os fundamentos
modernos mesmo da mais moderada teoria liberal das instituições políticas.
Subjacente ao argumento de Barroso está a ideia de que o Judiciário, por sua
composição mais qualificada, possuiria melhores atribuições para avaliar os
limites dos poderes de natureza mais explicitamente políticos. Em
concepção explicitamente aristocrática do mundo político, Barroso deriva
da virtude moral dos indivíduos seu lugar no mundo público. Aqui não
caberiam mediações, típicas da política, mas se estabeleceriam as barreiras
mais firmes, quase intransponíveis, da moralidade.

Não apenas a Corte constitucional, entretanto, mostra-se apta a


intervir de modo pedagógico na sociedade, de modo a reformá-la. Mesmo
que reserve papel privilegiado ao STF, Barroso não se furta a elogiar em
evento público Sergio Moro, retratado como “símbolo do combate à
corrupção” (BARROSO, 2016) e mesmo as medidas de combate a
corrupção – muitas vezes inconstitucionais21 – propostas por Deltan
Dallagnol, que merece o epíteto de “porta-voz das mudanças legais e
institucionais que precisam ser implementadas para avançarmos uma agenda
de maior probidade e transparência no Brasil” (BARROSO, 2016). Os
atores dão continuidade àquele que, segundo Barroso, seria um momento de
mudança de paradigma no combate à corrupção no Brasil: o “mensalão”. Ao
passado de impunidade se opõe um momento em que as mais altas
autoridades políticas também são passíveis de responder criminalmente por
seus atos:

20
Tanto Montesquieu quanto os Federalistas tinham uma perspectiva do Poder Judiciário
bem diversa da que posteriormente se desenvolveria, sobretudo depois das modernas teorias
da interpretação jurídica, que não mais viam os juízes como simples “boca da lei”, limitada
pelos legisladores.
21
Caso de algumas das “10 medidas contra a corrupção”, propostas pelo STF e
capitaneadas por Dallagnol, que incluem medidas como a aceitação de provas ilícitas,
direito individual de proteção ao acusado previsto na Constituição e, portanto, cláusula
pétrea, que não pode ser modificada por emenda constitucional.

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Os juristas políticos e suas convicções 228

A acusação difusa de corrupção no governo, sobretudo no


governo dos adversários, sempre fez parte da história política
brasileira. Geralmente, porém, as consequências deste discurso
eram puramente eleitorais, jamais penais. As diversas
denúncias por crimes como corrupção, lavagem de dinheiro e
desvio de verbas públicas envolvendo ocupantes de cargos
públicos em todas as esferas de governo alcançavam sempre o
mesmo resultado: a impunidade. A história começaria a mudar
a partir de 2005, quando se divulgou o escândalo que ficou
conhecido como ‘Mensalão (BARROSO, 2016).

Se a breve análise dos textos e pronunciamentos já permite


identificar diferenças entre Barroso, de um lado, Moro e Dallagnol, de
outro, a postura de crítica radical às instituições, à política e mesmo ao
passado brasileiro os aproxima, atraídos os atores distintos por uma aversão
comum. Alguns dos prognósticos e propostas por certo os colocarão em
lugares diversos, mas a sensação de terra arrasada22 ampara um mesmo
movimento que, a partir do Judiciário, busca promover uma radical
transformação da política e da sociedade.

O momento iniciado pelo mensalão não se singulariza, diz Barroso,


por alvejar o Partido dos Trabalhadores, mas se apoia em uma série de
pressupostos que destoam de parte dos motes e ações dos 13 anos do PT à
frente do poder. Contra um projeto que via na ação estatal motor
fundamental da superação da desigualdade estava o elogio do
empreendedorismo e da livre-iniciativa; face à política de aumento de
investimentos, mesmo que tímida, a defesa da austeridade. A convergência
frente ao partido que o indicou ao posto se dá por meio da postura
progressista ante os direitos de minorias, ponto que distancia o ministro da
vaga radicalizada da nova direita, que ocupa a imprensa, o mercado editorial
e, sobretudo, as redes sociais.

A análise da crise política que desencadeou o Golpe de 2016 é,


como de hábito, outra vez exposta sob o signo da absoluta neutralidade,
tratando-se de “relato da visão majoritária que se formou na sociedade, sem

22
A retórica da terra arrasada também funciona como um elemento de união no que
CHALOUB e PERLATTO (2016) chamam de “nova direita”.

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.202-252, mar./jun., 2018


Os juristas políticos e suas convicções 229

endossá-la ou refutá-la. Eu estou narrando o contexto da crise, e não


emitindo qualquer opinião” (BARROSO, 2016). A narrativa, publicada no
mês do afastamento da presidenta eleita pela Câmara, segue tom habitual na
grande imprensa, começando com uma crítica da política econômica –
depois contraposta à necessidade de contenção de gastos públicos e da
reforma da previdência – para concluir com o desgaste promovido pelos
escândalos de corrupção, tudo culminando em uma suposta “perda de
legitimidade” de Dilma Rousseff. Ao STF, em texto de avaliação do ano de
2015 (BARROSO, OSORIO, 2015), restam elogios à razão serena, que
“optou por seguir à risca, sem desviar um milímetro, a jurisprudência e os
ritos que valeram para o impeachment do presidente Collor. E devolveu o
assunto para a política” (BARROSO, OSORIO, 2015).

Em meio a um cenário de forte violação dos princípios


institucionais, o lavar de mãos do Supremo Tribunal Federal caminha em
direção diversa da sugerida por Barroso, jogando água no moinho que ganha
força com a contestação do resultado eleitoral pelos derrotados e passa a
girar violentamente com as manobras de Eduardo Cunha à frente da Câmara
dos Deputados. Defensor da intervenção explícita do Judiciário em uma
série de outros aspectos e momentos, a contenção praticada e defendida por
Barroso assume outra perspectiva quando cotejada com seu discurso de
repaginação do mundo político, corrupto porque estatólatra. Não há como
negligenciar que, para além do alegado respeito às instituições, há sensível
afinidade entre as mais recentes manifestações do ministro e a plataforma
que chegou ao poder por vias estranhas às urnas.

Sergio Moro: os sentidos de um espírito de cruzada

O juiz Sergio Moro foi alçado à condição de emblema da suposta


luta sem tréguas, que se estaria travando no Brasil, da Justiça contra a
corrupção. O embate, iniciado no célebre julgamento da Ação Penal 470 no
Supremo Tribunal Federal, em 2012, teria alcançado seu ápice com o

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.202-252, mar./jun., 2018


Os juristas políticos e suas convicções 230

desenvolvimento da assim chamada Operação Lava-Jato, a partir de março


de 2014. As ações da operação, amplamente divulgadas pela grande mídia
nacional, são lideradas por um consórcio (também tratado sob o anglicismo
“força-tarefa”) constituído pelos responsáveis legais pela persecução penal
(Ministério Público Federal) e pelos julgamentos (a 13ª Vara Federal de
Curitiba, órgão da primeira instância do Poder Judiciário). Para apreender,
nesse contexto, a vertiginosa ascensão do juiz paranaense rumo ao primeiro
plano da esfera pública nacional, basta um ligeiro passar de olhos nas
edições de revistas e jornais de grandes empresas de comunicação, nacionais
e internacionais, destinadas a congratular as personalidades consideradas
mais importantes de cada ano23.

O material diretamente utilizado nesta seção divide-se em três:


transcrições de algumas palestras proferidas entre os anos de 2015 e 2017,
no Brasil e no exterior; um artigo publicado em 2004, com o título
“Considerações sobre a operação Mani Pulite”; e os despachos lavrados na
última quinzena de março de 2016. A utilização do artigo justifica-se,
embora tenha sido publicado dez anos antes do início do período de
protagonismo do juiz Moro, devido ao fato de que aquele pequeno texto se
tornou objeto corrente de citações e referências na esfera pública – algumas
delas oriundas do próprio discurso recente do autor, que com frequência
vincula o caso brasileiro de “combate à corrupção” ao caso italiano (a
“Operação Mãos Limpas”, por ele estudada no início dos anos 2000). Os

23
Uma breve lista dos prêmios com que foi agraciado o juiz desde 2014 demonstra seu
inquestionável protagonismo: em 2014, foi considerado “Personalidade do Ano”, pelo
Jornal O Globo e pela Revista Veja, e “Brasileiro do ano”, pela Revista Isto É. Em 2015,
voltou a ganhar o mesmo título honorífico concedido pela Revista Veja e passou a figurar,
no início do ano seguinte, em listas das pessoas mais influentes do mundo, tais como as
elaboradas pelas revistas norte-americanas Time e Fortune (nesta última, foi posicionado
como 13º líder mais influente do mundo, à frente de outras lideranças mundialmente
reconhecidas, como por exemplo, o cantor e ativista Bono Vox). Em 2016, voltou a figurar
na premiação da Revista Isto é, mas desta vez foi premiado na subcategoria da Justiça (a
publicação escolheu Michel Temer como “Brasileiro do Ano” de 2016).

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Os juristas políticos e suas convicções 231

referidos despachos, por sua vez, serão utilizados à medida que se situam no
clímax da visibilidade da atuação do juiz, apenas um mês antes do início
formal do processo de “impeachment”: trata-se, como indicamos na
introdução acima, da decisão sobre o levantamento do sigilo de áudios
envolvendo o ex-presidente Lula e vários interlocutores com foro
privilegiado. Entendemos que essas manifestações, ainda que emitidas no
contexto imediato de sua atividade jurídica, têm como público-alvo não
apenas os devidos receptores institucionais das decisões, mas antes a
“opinião pública” – o que se evidencia pelos próprios termos utilizados.
Além disso, que tais despachos tenham tomado a forma de posicionamentos
políticos, isso deriva tanto do conteúdo publicizado quanto da intensidade
com que foram absorvidos no debate público, extrapolando as instâncias
judiciais burocráticas.

Uma análise de discurso sobre a persona pública de Moro deve,


pois, partir daquele que é seu atributo aparente fundamental: o rigor. Antes
de tudo, diante de um quadro de “corrupção sistêmica”, existe “a
necessidade de a justiça demonstrar que está falando sério quando resolve
enfrentar essa problemática” (2016a). Essa “seriedade”, no discurso de
Moro, frequentemente precisa prestar contas a alguns princípios
fundamentais do Direito menos porosos a excessivas demonstrações de
rigor. Daí resulta certa tensão, exposta nas frases que se seguem à passagem
supracitada: “Claro, sempre respeitando os direitos humanos do acusado.
Mas isso não impede o juiz de agir com rigor” (2016a). O rigor, de um lado,
e os respeitos aos direitos, de outro, constituem os termos de uma
conciliação cuja reafirmação, contínua e sintomaticamente reiterada, parece
buscar conferir validade a uma concepção finalista de justiça em que os
princípios são muitas vezes subentendidos como obstáculos. A esse
respeito, veja-se a forma como os riscos do rigor são tratados já em 2004, no
contexto de uma avaliação sobre a divulgação do conteúdo das
“colaborações premiadas”:

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Os juristas políticos e suas convicções 232

Há sempre o risco de lesão indevida à honra do investigado ou


acusado. Cabe aqui, porém, o cuidado na desvelação de fatos
relativos à investigação, e não a proibição abstrata de
divulgação, pois a publicidade tem objetivos legítimos e que
não podem ser alcançados por outros meios (2004: 59).

A tensão entre rigor e respeito aos direitos aparece retraduzida


aqui, amenizando-se o primeiro termo pela vaga noção de cuidado,
enquanto o segundo é indisfarçadamente repelido como mera abstração.
Contra uma “proibição abstrata”, é afirmada a anterioridade normativa de
“objetivos legítimos que não podem ser alcançados por outros meios”.
Seriam esses fins, legítimos, que justificariam a relativização daqueles
princípios considerados abstratos – sem que se atente para o fato de que se
trata, em suma, da contraposição de dois princípios gerais: a privacidade e a
publicidade. A validade equivalente dos princípios é retorcida por uma
argumentação que antepõe a legitimidade de determinados objetivos como
fator predominante. O tratamento enviesado da matéria não permite que se
considere o dado singelo de que também o princípio da privacidade poderia
almejar “objetivos legítimos que não podem ser alcançados por outros
meios”. Mas importa a Moro afirmar sua convicção de que para certos
casos, em momentos específicos, são estes e não aqueles “objetivos
legítimos” que devem ser priorizados. Contra as abstrações, deve vencer a
aderência à concretude – e contra princípios absolutos, deve prevalecer uma
noção do direito que se funda na adequação de meios a fins e,
surpreendentemente, em uma percepção imediata da esfera da moralidade:

A presunção de inocência, no mais das vezes invocada como


óbice a prisões pré-julgamento, não é absoluta, constituindo
apenas instrumento pragmático destinado a prevenir a prisão de
inocentes. Vencida a carga probatória necessária para a
demonstração da culpa, aqui, sim, cabendo rigor na avaliação,
não deveria existir maior óbice moral para a decretação da
prisão, especialmente em casos de grande magnitude e nos
quais não tenha havido a devolução do dinheiro público,
máxime em país de recursos escassos (2004:61).

Um princípio (presunção de inocência) precisou ser traduzido em


termos pragmáticos para que seu sentido fosse mais bem percebido – do

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Os juristas políticos e suas convicções 233

qual resulta a afirmação, aparentemente tautológica, de que a presunção de


inocência é “instrumento pragmático” de prevenção contra a eventual prisão
de inocentes. Mesmo com a desavisada intromissão do elemento
pragmático, a presunção da inocência continua portadora de validade em
termos principiológicos. Mas a mudança de ênfase, dos princípios para os
efeitos, não é acidental. A tradução pragmática do princípio busca tecer
retoricamente um espaço para relativizar certos princípios que resultem
inconvenientes em situações concretas. E a relativização se faz pela
intromissão de um plano moral, com o cauteloso futuro do pretérito da
passagem citada (“não deveria existir maior óbice moral”) dando lugar à
afirmação assertiva de outros trechos (“não há qualquer óbice moral”,
2004:58). O plano da legalidade é, assim, atravessado por um princípio de
moralidade que, formulado pela dupla negativa (inexistência de óbice),
fundamenta de modo críptico a defesa enfática seja da publicização do
conteúdo das investigações-delações, seja da “prisão pré-julgamento”. Essa
modalidade de encarceramento seria útil para “evidenciar a eficácia da ação
judicial” (2004:59), em afirmação que condensa as coordenadas que
podemos derivar de nossa análise, no que diz respeito ao modo como o juiz
Moro compreende o direito: pautado por uma moralidade de fundo,
determinado pelo critério pragmático de eficácia e conduzido pelo
imperativo de “evidenciar” seus feitos a todo momento. Dada a parceria
estabelecida entre o consórcio de investigadores e juízes da Lava-Jato com
as grandes empresas de mídia brasileiras, não é de surpreender que o Direito
apareça em seu discurso portando um atributo exibicionista em que, para
além do caráter público inerente a ele e à implementação das sanções, a
ênfase recai sobre a própria figura do juiz – cujo protagonismo torna-se
componente decisivo da luta contra a corrupção. Um Direito exibicionista
produz e deve produzir juízes-celebridades, a desfilar entre a falsa
contenção blasé da vedete e os arroubos agônicos de justiçamento.

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Os juristas políticos e suas convicções 234

Note-se que a retórica de Moro reincide em uma forma de


justificação que, abdicando do debate de princípios, apela a um contexto
particular de aplicação da lei como se este fosse dotado do condão de
dirimir questões substantivas – e, muitas vezes, percorre esse caminho
instrumentalizando argumentos de estrutura similar à reductio ad absurdum:
extrema-se um cenário negativo para justificar, pragmaticamente,
determinada realidade. Isso transparece, por exemplo, do seguinte trecho: “é
melhor você ter um esquema de corrupção descoberto e algumas pessoas
punidas do que ter esse esquema de corrupção oculto para sempre. É melhor
ter alguém condenado do que ninguém condenado” (2017a). Diante de
questões sobre a pertinência do modus operandi das “colaborações
premiadas”, o juiz constrói um horizonte em que as duas únicas
possibilidades admitidas seriam a atividade da Operação Lava-Jato como ela
se realiza, ou a ocultação “para sempre” dos esquemas de corrupção. A
escolha se põe entre o nada e a realidade. Uma vez aceita esta disjuntiva e a
estreita margem para avaliação da “eficácia” das ações judiciais, restaria
apenas ao interlocutor/receptor de boa fé aquiescer.

Esgrimindo-se na interseção estipulada entre a moralidade, a


utilidade e a permanente exposição de seus feitos, o direito segundo Sergio
Moro encontra, enfim, a política – e, desta vez, sem maiores disfarces,
quando se reveste dos poderes soberanos intrínsecos à exceção24:

A minha percepção, e isso eu tenho colocado nas minhas


decisões e posso falar com muita tranquilidade, é que embora a
prisão preventiva seja um mecanismo excepcional, [pois] a regra
é que se responda em liberdade até o julgamento, o caso [relativo
à Operação Lava-Jato] se reveste de uma certa excepcionalidade.
Às vezes eu falo brincando: “olha, vamos todos fechar os olhos
por um minuto e vamos cogitar, por exemplo, que tudo o que
Paulo Roberto Costa e Alberto Yousseff falaram, em suas
respectivas colaborações, seja verdadeiro”. Não é um quadro
muito tranquilo. Eles descrevem um quadro de corrupção
sistêmica, e aí, infelizmente, remédios duros, remédios amargos,
são necessários no âmbito desse contexto (2015a).

24
A alusão aqui é à clássica definição de Carl Schmitt: “O soberano é aquele que decide no
estado de exceção” (Schmitt, 2005).

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Os juristas políticos e suas convicções 235

Mais uma vez, o contexto específico, excepcional, legitima as


decisões do juiz – o que, vale notar, não apenas foi enunciado na fala do
palestrante Moro, como também se fez ato, um ano depois, em notória
decisão do Tribunal Regional Federal (a quem cumpria instaurar ou não um
processo administrativo disciplinar contra o juiz Moro devido ao
supracitado caso do levantamento de sigilo dos áudios de Lula e Dilma25).

O Judiciário é assim projetado como poder reparador de um


sistema em estado crônico de patologia, cuja cura residiria no ponto em que
uma moralidade utilitária preenche lacunas deixadas pelo legislador, muitas
vezes como obstáculos conscientes. Contra uma normalidade corrompida,
caberiam os “mecanismos excepcionais”, apenas definidos pelos portadores
diretos do verdadeiro interesse da sociedade. Ungido da capacidade de
acessar imediatamente o núcleo de um difuso desejo transformador da
sociedade e desprovido de autointeresse, em um mundo entrecortado pela
pluralidade de interesses, o juiz pode assim aparecer como o ator
democrático por excelência, malgrado pertencer ao Poder da República cuja
legitimidade não deriva imediatamente da soberania popular.

Para melhor apreender esse ponto, nossa análise deve aqui fazer
uma inflexão: buscamos interpretar, por ora, o sentido do Direito e da
Justiça na retórica pública do juiz Moro; no que segue, será preciso
complementar aquele sentido com a análise do modo como ele concebe a
democracia, para que possamos ter a compreensão adequada de sua

25
O Tribunal Regional Federal da 4ª Região, segunda instância responsável pelos processos
referentes aos estados do Sul do país, determinou, por treze votos a um, o arquivamento do
pedido de instauração de processo disciplinar contra Moro. Na ocasião, o voto do relator,
Desembargador Rômulo Pizzolatti, causou certa polêmica ao apelar diretamente à noção de
“exceção” para justificar a validade das ações de Moro: “regras jurídicas só podem ser
corretamente interpretadas à luz dos fatos a que se ligam e de todo modo verificado que
incidiram dentro do âmbito de normalidade por elas abrangido. É que a norma jurídica
incide no plano da normalidade, não se aplicando em situações excepcionais (...). Ora, é
sabido que os processos e investigações criminais decorrentes da chamada ‘Operação Lava-
Jato’, sob a direção do magistrado representado, constituem caso inédito (único,
excepcional) no direito brasileiro. Em tais condições, neles haverá situações inéditas, que
escaparão ao regramento genérico, destinado aos casos comuns” (2016: 4-5).

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Os juristas políticos e suas convicções 236

perspectiva sobre a inscrição das instâncias judiciais no contexto da


realidade brasileira contemporânea.

Como já vimos acima, princípios absolutos e abstratos que


orientam o juiz devem passar pelo crivo dos objetivos pragmáticos da
ocasião, a partir do qual se pode, por exemplo, conferir prioridade ao
princípio da publicidade com relação ao princípio da privacidade ou, ainda,
relativizar a presunção da inocência em nome da necessidade de um
combate rigoroso e eficaz a certos tipos de criminalidade. Visto que a
vinculação entre ação judicial e democracia, para Moro, passa precisamente
pelo imperativo da eficácia, a questão determinante passa a ser: quem
estabelece os parâmetros de medida desta eficácia? Qual é a finalidade pela
qual se pode distinguir criteriosamente entre êxito e fracasso? Pode-se
cogitar três respostas possíveis: a) uma subordinação das instâncias judiciais
à vontade majoritária; b) uma subordinação da vontade majoritária às
instâncias judiciais; c) um encontro harmonioso entre a suposta vontade
majoritária e as finalidades auto-impostas da atuação judicial.
Evidentemente, é desta última, tomada como pressuposto, que parte o juiz.

Ainda que esta identidade forjada entre vontade geral e eficácia


judicial seja um artifício intelectual, construído para contornar o hiato que
na prática as separa; é possível, contudo, a partir de seus próprios termos,
reconstruir dois momentos distintos no devir desta convergência entre a
“opinião pública” e o direito. Antes de tudo, importa a Moro relativizar o
princípio da independência do Poder Judiciário, para poder vinculá-lo a um
componente democrático: “Um Judiciário independente, tanto de pressões
externas como internas, é condição necessária para suportar ações judiciais
da espécie [contra crimes de corrupção]. Entretanto, a opinião pública, como
ilustra o exemplo italiano, é também essencial para o êxito da ação judicial”
(2004:57). Há que se manter a independência, mas há “também” que se
“garantir o apoio da opinião pública às ações judiciais” (2004:59). Vê-se
que a medida do êxito está condicionada por esse endosso – que retorna, em

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Os juristas políticos e suas convicções 237

termos quase idênticos, quando da avaliação da relação entre Operação


Lava-Jato e opinião pública:

O que determina as ações do juiz são os fatos, as provas e a lei.


Agora, em processos envolvendo crimes complexos e muitas
vezes envolvendo personagens poderosos, economicamente ou
politicamente, a opinião pública é fundamental para que o juiz
possa fazer valer a lei, as provas e os fatos. Não tenho nenhuma
dúvida de que a opinião pública tem se posicionado
majoritariamente a favor dos trabalhos que têm sido feitos, e
ela tem sido fundamental. É essencial em uma democracia que
a ação judicial possa contar com esse apoio da opinião pública
(2015a).

Nesse primeiro momento, a convergência entre vontade majoritária


e ação judicial se efetiva pelo “apoio da opinião pública”. A própria
utilização dessa categoria indeterminada, “opinião pública”, indica que a
democracia de que se está a falar possui limites estritos – e que ela se
mantém reificada como entidade monolítica onde se apagam quaisquer
vestígios de desentendimento. Aqueles limites ganham contornos um pouco
mais claros, ainda que persistam aparentemente vagos, quando em outra fala
o juiz enuncia a seguinte convocação, dirigida à plateia de um encontro
religioso no interior do Paraná: “esses casos, envolvendo graves crimes de
corrupção e envolvendo figuras públicas poderosas, só podem ir adiante se
contarem com o apoio da opinião pública e da sociedade civil organizada. E
esse é o papel dos senhores” (2015). O componente democrático aparece,
aqui, também como “sociedade civil organizada”, categoria em que
certamente o juiz não inclui os sindicatos de trabalhadores – nem os partidos
políticos. A convocação define os termos e demanda apoio, enquanto “o
papel dos senhores” parece ser apenas consentir.

Mas esse primeiro momento, passivo, em que a medida da eficácia


parece pertencer exclusivamente ao juiz, coexiste com um segundo
momento em que a manutenção e potencial ampliação daquele apoio é
condicionada aos avanços judiciais. Em outros termos: primeiro, a eficácia
depende do “apoio da opinião pública”; segundo, esse apoio depende da
eficácia. E esta apenas será devidamente apreendida pela “sociedade civil

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Os juristas políticos e suas convicções 238

organizada” quando for estridente o bastante para obter ampla divulgação e


quando, por óbvio, resultar nas condenações ansiadas pelo público-alvo.
Encerra-se, com isso, o círculo vicioso de um justiçamento de resultados,
constituído por punitivismo – relativização de preceitos fundamentais –
apoio da “opinião pública” – afinidades eletivas com uma das partes
interessadas na dinâmica das disputas políticas – punitivismo (em que a
sequência não necessariamente obedece a essa ordem de fatores). A
passagem seguinte é ilustrativa desse momento, em que a demanda do juiz
por apoio é complementada pela correlata demanda da “opinião pública”
pelos resultados:

Talvez a lição mais importante de todo o episódio [“Mãos


Limpas”] seja a de que a ação judicial contra a corrupção só se
mostra eficaz com o apoio da democracia. É esta quem define
os limites e as possibilidades da ação judicial. Enquanto ela
contar com o apoio da opinião pública, tem condições de
avançar e apresentar bons resultados. Se isso não socorrer,
dificilmente encontrará êxito. Por certo, a opinião pública
favorável também demanda que a ação judicial alcance bons
resultados. Somente investigações e ações exitosas podem
angariá-la (2004:61).

O êxito é a condenação dos inimigos políticos da “opinião pública


favorável” – e esta não irá aceitar outro desfecho. No caso mais ruidoso de
protagonismo político do juiz Moro – o levantamento de sigilo de áudios
envolvendo um ex-presidente e a então presidenta da República, em 16 de
março de 2016, quando a Câmara dos Deputados estava prestes a votar a
aceitação do pedido de impeachment (o que ocorreu em 17 de abril) –, seus
despachos não apenas expressam evidente posicionamento no que tange ao
impedimento da presidenta26, como também revelam, o que é mais

26
Em pleno contexto de discussões no Poder Legislativo acerca de um eventual processo de
impedimento da presidenta, o juiz Moro, respondendo no dia seguinte às reações suscitadas
pelo levantamento do sigilo, assim justificou uma medida duplamente ilegal (além de a
gravação da conversa entre Lula e Dilma ter se dado quando já não mais havia permissão
para a interceptação, há previsão constitucional de que eventuais diálogos envolvendo a
Presidência da República devem ser imediatamente transferidos ao STF): “nem mesmo o
supremo mandatário da República tem um privilégio absoluto no resguardo de suas
comunicações, aqui colhidas apenas fortuitamente, podendo ser citado o conhecido
precedente da Suprema Corte norte-americana em US v. Nixon, 1974, ainda um exemplo a

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Os juristas políticos e suas convicções 239

importante para nossos fins nesse artigo, outro traço fundamental de sua
concepção sobre o nexo entre direito e democracia.

Segundo o juiz Moro, “a democracia em uma sociedade livre exige


que os governados saibam o que fazem os governantes, mesmo quando estes
buscam agir protegidos pelas sombras” (2016b). Descontada dos
maneirismos do discurso jurídico a aparente tautologia que abre a frase,
importa atentar para a relação que ali se estabelece entre luzes e sombras 27.
Sabemos, ao menos desde Maquiavel, que a configuração de um hiato entre
o ser e o parecer, entre a realidade e as aparências, é constitutiva da esfera
política – e que, portanto, suprimir tal hiato, submetendo a política a um
princípio de visibilidade permanente, implicaria precisamente anular a
autonomia relativa da política. As sombras que o juiz Moro pretende
dissipar, com a subordinação da democracia a um princípio genérico de
transparência, são a matéria mesma que demarca, desde a aurora da
modernidade, a diferenciação entre o plano da política e a esfera da moral (e
da religião). Talvez por algum platonismo involuntário, a “sociedade livre”
concebida por Moro deixa subentendida a configuração da classe específica
daqueles que serão os portadores das luzes. A liberdade passa a ser
condicionada por um regime de verdade que, como sempre, tem seus
guardiões prioritários.

Construindo dicotomias em aberto diálogo com o senso comum,


chega-se a afirmar, em comunicação oficial, que “a Justiça e o interesse
público seriam mais bem servidos com a publicidade do processo e não com
a imposição de segredo sobre o ocorrido” (2016c), em que o modo
propositadamente assimétrico como se formula a alternativa (“publicidade

ser seguido” (2016c). Em poucas palavras, justifica-se um gesto de insubmissão à regra


básica da divisão de atribuições entre as diferentes instâncias do Poder Judiciário através da
relativização do princípio do sigilo das comunicações presidenciais, usando como exemplo
um caso estrangeiro em que o presidente renunciou depois de aberto um processo de
impeachment.
27
Para uma breve análise desta formulação de Moro e de seu contexto imediato, cf. Lima
(2016).

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Os juristas políticos e suas convicções 240

do processo” X “imposição de segredo”) restringe mais uma vez a


possibilidade de dissenso.

A “sociedade livre” projetada por Moro guarda ainda uma última


(mas não menos importante) característica fundamental que cumpre
observar. Se as sombras estão atreladas à espúria opacidade do submundo
da política, por sua vez a instância potencialmente purificadora, em que
impera a transparência, será associada ao mercado. Subentende-se que o
âmbito da “corrupção sistêmica” e a esfera do mercado são essencialmente
distintos; e daí se segue que os pontos de contato entre corrupção e mercado
seriam acidentais, quase como impurezas trazidas e transportadas daquele
submundo de sombras à lisa superfície da economia. A “luta contra a
corrupção” torna-se codinome de uma luta por um mercado limpo, como
afirma, para uma audiência norte-americana, o palestrante Moro: “another
detrimental effect of systemic corruption is that it chases away local and
foreign investors. If the market is not clean and trustworthy, if bribes and
cheating are the rules, a responsible investor will not have confidence in that
market and he will not put his money in it” (2017b). A projeção de um
mercado “limpo e confiável” habitado por “investidores responsáveis” é o
telos normativo que fundamenta a relação que vimos acima se estabelecer
entre direito e democracia. A “sociedade civil organizada”, em última
instância, é e deve ser espelho das forças do mercado, obedecendo a suas
transparentes e verdadeiras desigualdades28.

Na significativa passagem em destaque abaixo, podemos enfim


perceber que o par pragmatismo-punitivismo não se esgota no plano
jurídico; pelo contrário: a apregoada eficiência judicial é correlata da
eficiência econômica, e o Brasil restaria situado, em perspectiva comparada,
aquém das virtualidades abertas pelo capitalismo global:

28
Para uma definição clássica da sociedade civil como locus de desigualdades – definição
em nada afim às premissas de Moro –, veja-se o Hegel dos “Princípios da Filosofia do
Direito”: “Em suas oposições e complicações, oferece a sociedade civil o espetáculo da
devassidão bem como o da corrupção e da miséria” (Hegel, 2003:169).

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Os juristas políticos e suas convicções 241

É necessário dizer que esse quadro de corrupção sistêmica é


ruim para os negócios em geral. Afasta investidores. Externos e
internos. Quem está lá fora e quer investir no Brasil em
princípio procura um mercado que seja limpo, porque se tiver
que entrar na regra do jogo do pagamento de propina, muitas
vezes pode gerar responsabilização lá fora, além de ser uma
decisão imoral e com custos por vezes reputacionais para essas
empresas. Mesmo dentro do Brasil, potencialmente empresas
brasileiras devem ter se afastado desse mercado por não querer
participar dessa regra do jogo. (...) Existe também esse custo
decorrente da propina que é essa perda de investimento, tanto
externo quanto interno, o que afeta a eficiência da nossa
economia (2016a).

Em mais um desses casos em que as formas da retórica explicitam


conteúdos por vezes conscientemente mantidos ocultos, não terá sido mera
coincidência o fato de que as duas operações-símbolo do “combate à
corrupção” têm como objetivo (simbolizado direta e indiretamente em seus
próprios nomes) alcançar toda a sociedade com aquele atributo que pertence
à essência de um mercado eficiente: a limpeza. Repisando os termos de um
dualismo constitutivo de sua Weltanschauung enquanto jurista-político,
Moro não apenas atribui à esfera da política a origem primordial dos males
causados pela “corrupção sistêmica”, como também postula que sua
superação pode ser motivada pelo que poderíamos chamar de um grande
impulso emancipatório protagonizado pelas empresas. As luzes, para cuja
expansão é indispensável a atuação dos atores jurídicos, também residem
(finalmente descobrimos) na transparente dinâmica do mercado: “as
empresas podem, sem depender nada do governo, promover uma revolução
nos nossos costumes, simplesmente dizendo “não” ao pagamento de
propina. (...) É uma decisão bastante factível e bastante possível” (2016a).
Ou seja, a assim chamada “corrupção sistêmica”, combatida pelas instâncias
judiciais, não derivaria de um sistema tão bem estruturado quanto se faz
crer, vista a facilidade com que estaria prestes a desmoronar por uma
simples “decisão factível e possível”.

Submeter a política à moral para, no passo seguinte, desentrelaçá-la


da economia e postular a libertação do mercado para além das ineficazes
amarras que lhe seriam impostas pelo Estado – essa parece ser a marcha da

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Os juristas políticos e suas convicções 242

retórica do jurista político Sergio Moro. E assim convergem os projetos da


“cruzada judiciária contra a corrupção política e administrativa” (2004:56 e
60) e de uma economicamente orientada “revolução nos nossos costumes”.
Revolução que se atualizaria desde já, seletivamente, nas ruas do país – e
um espírito de cruzada não poderia, como vemos abaixo, deixar de se
contagiar com manifestantes que, a um só golpe, levantaram bonecos
infláveis gigantes dos alvos políticos prioritários da Justiça enquanto
vestiam as capas pretas dos novos super-heróis da nação:

Não podemos nos esquecer do papel da sociedade civil e da


importância para esse caso que foram as manifestações
populares que ocorreram neste ano e no ano passado [2016 e
2015]. Manifestações populares gigantescas, uma delas a maior
da história desse país. (...) Uma bandeira comum dessas
pessoas que foram às ruas era o repúdio à corrupção e o apoio
às investigações. Isso é muito importante. Isso reflete o melhor
do que nós temos em nós, que é a cidadania mobilizada
(2016a).

A “bandeira comum” era a derrubada da presidenta e um duplo


alvejamento: da política, em geral, e da esquerda, em particular. Quando
manifesta sua adesão política à marcha histórica dos acontecimentos que ele
mesmo catalisou em sua atuação judicial, Moro evidencia que não há o que
possa constranger a Justiça quando ela se determina a realizar seus objetivos
pragmáticos.
Se, em uma ponta, um dos atores desta coalizão de cruzados
revolucionários – o protagonista de superfície – apenas pôde se consolidar
através de um turbulento processo de “progressiva deslegitimação do
sistema político corrupto e legitimação da magistratura em relação aos
políticos profissionais” (2004:58)1; na outra ponta, o aliado estrutural – a
elite econômica, coadjuvante imanente – esteve sempre ali, com a grande
recusa “bastante factível e bastante possível” ao alcance de espíritos e
mentes. Talvez estivesse temporariamente anestesiado em meio à perdição
das penumbras do poder.
1
Sobre o espírito de cruzada e a deslegitimação do sistema político, com ênfase nos efeitos
potencialmente devastadores da Operação Lava-Jato para a institucionalidade política
brasileira, cf. Reis (2017a e 2017b).

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Os juristas políticos e suas convicções 243

Considerações finais

O objetivo deste artigo foi contribuir para a vasta literatura


produzida hoje no Brasil sobre o Judiciário a partir de uma abordagem
relativamente pouco utilizada. Com a identificação de uma conjunção
histórica em que o médio prazo da escalada do processo de judicialização da
política, com seu correlato ativismo judicial, encontrou o curto prazo da
conjuntura política de derrubada do governo liderado pelo Partido dos
Trabalhadores, tratou-se de investigar os modos através dos quais emergem
– oriundos do próprio Judiciário – discursos que a um só tempo legitimam o
avanço das instâncias judiciais sobre a política e a sociedade através da
deslegitimação das instâncias políticas. Em uma conjuntura particularmente
agônica na história recente da política nacional, numerosos foram os
protagonistas do mundo jurídico que atuaram no sentido de ora conferir uma
chancela sobranceira ao desenrolar dos acontecimentos, ora insuflar
diretamente as disputas políticas para que elas corressem em uma
determinada direção.

A posteriori, consumado o golpe, tornam-se mais nítidos os


sentidos políticos daquelas atuações. A fim de reconstruir alguns desses
sentidos, nossa argumentação partiu de uma visada panorâmica sobre as
relações históricas entre os juristas, o Judiciário e a política no Brasil, para –
na sequência, delimitadas as especificidades da conjuntura que
imediatamente nos interessa – efetuar uma análise detida sobre os discursos
do ministro do STF, Luís Roberto Barroso, e do juiz de primeira instância,
Sergio Moro. Através de diversos meios, a imersão nas manifestações
públicas dos juízes propiciou uma compreensão mais densa tanto do que
podemos conceber como um núcleo dogmático comum a suas atuações e
interpretações do Brasil, quanto das relevantes nuances que os distanciam
entre si. Se Barroso constrói sua persona pública através da constante
reafirmação de uma aparência de contenção com relação aos assuntos

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Os juristas políticos e suas convicções 244

políticos cotidianos, buscando trafegar quase sempre pelas altitudes de


debates mais amplos sobre a formação histórica do país; Moro, por seu
turno, expressa mais diretamente o entrelaçamento entre o protagonismo das
instâncias judiciais e um ativismo carente de visibilidade para alcançar seus
objetivos. E se Barroso visa a ocupar o espaço de um progressismo
reformista, mantendo seu discurso atrelado ao resguardo do direito das
minorias, em clássico registro liberal; Moro, por sua vez, aparece como um
portador imediato de um discurso mais radical de transformação da arena
política, sem pruridos principiológicos ou maiores considerações sobre a
questão da desigualdade, o que o torna mais afim aos preceitos da “nova
direita” que viceja no Brasil nesta última década.

Nuances à parte, importa aqui, à guisa de conclusão, salientar o


substrato comum dos discursos que ambos, Barroso e Moro, dirigem à
esfera pública nacional (e, por vezes, internacional): contra as limitações
intrínsecas à esfera da política e os vícios congênitos do Estado brasileiro, é
preciso que a “sociedade civil organizada” protagonize um movimento de
saneamento virtuoso das relações políticas e sociais no país – movimento
este que passa necessariamente pela desobstrução das potências
socializadoras do mercado e implica, por óbvio, o fortalecimento da
capacidade de atuação e punição das instituições jurídicas.

Recuperando a longue durée da atuação dos juristas na política


nacional, parece-nos lícito inferir que depois de disputas entre uma
concepção bacharelesca e uma concepção economicista da vida política e
social do país, nas mais recentes décadas, chegamos ao termo em que as
perspectivas se conciliam, quando o protagonismo dos juristas-políticos se
efetiva em prol da maximização da eficiência econômica das empresas e da
abertura do mercado nacional à atuação benfazeja e saneadora dos capitais
internacionais. A emergência, por meio dos Juristas políticos, de uma
perspectiva conciliatória entre as razões jurídica e econômica ocorre,
sobretudo, pela caracterização do mundo do mercado como caminho

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Os juristas políticos e suas convicções 245

inescapável nos tempos modernos, tanto sob o aspecto do discurso


competente, com a economia a limitar o escopo de decisões da política e do
direito, quanto pelo aspecto moral, no qual a tendência reta da dinâmica
privada se oporia à tendência corrupta do Estado. Nessa perspectiva, a
política, sobretudo a democrática, é vista como ruído a atrapalhar a
harmonia do saber econômico, este mais apto do que a lógica confusa das
massas – especialmente as supostamente incultas e moralmente débeis de
um país atrasado – para determinar os melhores caminhos. Unidos pelo
gosto por uma suposta verdade inacessível aos que não dominam os códigos
do saber técnico, seja ele jurídico ou econômico, gurus dos tribunais e do
mercado se mostram aptos a ver o que o olhar marcado pelas
passionalidades da política não alcança. Não sem razão, o debate público se
viu inundado por enunciados técnicos do Direito e da economia, revestidos,
por sua vez, de verniz moral que os atribuía a condição de verdades
absolutas. Não sem motivo, o impeachment passou pela identificação de
supostos “crimes fiscais”, sintomáticos da união das razões jurídica e
econômica, a indicarem para os postulantes presentes e futuros que, a
despeito dos humores da plebe, há certa razão do mundo – a do mercado –
que deve necessariamente prevalecer, por bem ou por mal.

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.202-252, mar./jun., 2018


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Os juristas políticos e suas convicções 252

Palavras- Resumo: O presente artigo busca contribuir para a


interpretação do componente jurídico do golpe de 2016 a partir
chave: de uma investigação sobre o protagonismo contemporâneo da
figura do jurista político no Brasil. Uma reconstrução histórica
das condições institucionais de emergência deste personagem,
Golpe de 2016; dadas a nova feição do Judiciário após 1988 e a sua inserção em
um movimento global de maior monta, embasa a interpretação
Judiciário; sobre os modos de seu protagonismo, efetuada através de
jurista político; análises de discurso tendo como objeto a atuação na esfera
corrupção; pública de dois dos mais relevantes personagens desse tipo: o
ministro do Supremo Tribunal Federal Luís Roberto Barroso e o
moral; juiz Sérgio Moro. Busca-se desenvolver a hipótese de que,
sociedade civil. malgrado relevantes distinções em seus modos de atuação,
ambos convergem na postulação de dois imperativos que
determinaram a formação do contexto ideológico do golpe de
2016: a) legitimar o avanço das instâncias judiciais sobre a
política e a sociedade, ampliando o “combate à corrupção”,
através da deslegitimação das instâncias políticas; b) atribuir
protagonismo à “sociedade civil organizada”, contra as
limitações intrínsecas à esfera da política e os vícios congênitos
do Estado brasileiro, em um movimento de saneamento virtuoso
das relações políticas e sociais no país, via a desobstrução de
supostas potências socializadoras do mercado.

Keywords: ABSTRACT: Through an inquiry on the protagonistic role


played by “political jurists” in contemporary Brazil, the article
provides an interpretation for the juridical component of the
2016’ Coup in 2016’ Coup that founded Dilma Rousseff’s impeachment
Brazil; process. Anchored on methods of discourse analysis, this
research takes as its main objects several public sphere
Judiciary; interventions made by two of the most relevant characters that
political jurists; can be framed as “political jurists” in Brazil’s recent context:
corruption; Luís Roberto Barroso, a Supreme Court judge, and Sergio Moro,
a first instance judge. In spite of relevant differences on their
morality; civil modes of speech, public discourses show two lines of
society. convergence that were crucial for the making of the Coup’s
ideological context: a) the legitimation of a widespread judicial
offensive over politics and society, broadening the scope of the
“fight against corruption” through a de-legitimation of political
actors and institutions; b) the idealization of an “organized civil
society”, which would turn itself against the Brazilian State’s
renitent vices in a movement that links the desired virtuous
reform of political and social relations to an affirmation of the
market’s alleged socializing powers.

Recebido para publicação em junho/2017

Aceito para publicação em outubro/2017

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.202-252, mar./jun., 2018


O impeachment de Dilma Rousseff e
a instabilidade política na América
Latina: a aplicabilidade do modelo de
Perez-Liñan

Gabriel Gutierrez Mendes


Universidade do Estado do Rio de Janeiro (BRA)

Introdução

Ao longo dos anos 1990, a América Latina testemunhou uma onda


sem precedentes de impeachments. Entre 1992 e 2004, seis presidentes
eleitos sofreram processos de impedimento: Fernando Collor (Brasil), em
1992; Carlos Andrés Perez (Venezuela), em 1993; Ernesto Samper
(Colômbia), em 1996; Abdala Bucáram (Equador), em 1997; Raul Cubas,
em 1999 e Gonzalez Machi em 2003, ambos do Paraguai. Destes, apenas o
colombiano e o equatoriano não foram derrubados. Na América Latina

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O impeachment de Dilma Rousseff e a instabilidade na AL 254

contemporânea, mesmo quando seu ocupante havia sido sabatinado pelo


voto popular, a cadeira presidencial tornou-se um lugar inseguro. Como
atestam também os casos de Alberto Fugimori, que fugiu do Peru em 2000,
e Lucio Gutierrez do Equador (2005), Fernando de la Rua da Argentina
(2001) Gonzalo Sanchez de Louzada da Bolívia (2003) e Carlos Mesa da
Bolívia (2005) que renunciaram ao cargo.

O presente artigo tem o objetivo de analisar o recente episódio de


impeachment da presidente Dilma Rousseff, em 2016, no Brasil, à luz da
abordagem teórica do trabalho do cientista político Anibal Perez-Liñan,
presente em seu livro “Presidential impeachment and the new political
instability in Latin America”. O propósito central do trabalho é verificar em
que medida os traços característicos do modelo criado por Perez-Liñan
podem ser encontrados no caso brasileiro. Para realizarmos tal tarefa,
observaremos, em detalhe, o caso Dilma, a partir das categorias mobilizadas
pelo autor para explicar os recentes impedimentos na América Latina.
Inicialmente, veremos quais fatores atuam para favorecer a instabilidade
institucional e política da região. Em seguida, procuraremos compreender
qual foi a agência efetiva dos atores sociais e políticos, mencionados por
Perez-Liñan, no caso brasileiro. Assim, faremos a correlação entre os
eventos históricos que se somam no episódio Dilma e o modelo do autor.
Ao mesmo tempo, teremos mais elementos para verificar a aplicabilidade do
modelo de Perez-Liñan e checar a pertinência de seu pressuposto, segundo o
qual os impedimentos verificados na região nos últimos 30 anos teriam
traços constitutivos semelhantes. Por fim, veremos como uma atenção
detalhada à ação direta do Poder Judiciário no contexto nacional é uma das
principais lacunas da análise de Perez-Liñan.

Segundo Perez-Liñan (2007), um dos aspectos mais regulares dos


processos de impedimento desde os anos 1990 é o fato de os governos
serem destituídos sem que haja uma consequente ruptura com o regime.
Nesse sentido, em meio à instabilidade do governo, há um cenário de

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O impeachment de Dilma Rousseff e a instabilidade na AL 255

estabilidade desse regime. O fim da Guerra Fria e certa atenuação da


intervenção direta dos governos dos EUA nas questões internas dos países
latinos podem ser alguns dos elementos determinantes para essa maior
estabilidade. Há hoje, também, instituições internacionais capazes de
estabelecer sanções relevantes a países que de alguma maneira não
respeitem a cláusula democrática (PEREZ-LIÑAN, 2007). Além disso, o
autor menciona lições extraídas das intervenções militares anteriores como
outro fator contemporâneo que contribui para a manutenção da ordem,
mesmo em contextos politicamente conturbados.

Sobre este último aspecto, a relação da sociedade brasileira com seu


passado autoritário ainda é fortemente ambígua. Diferentemente do que
fazem Uruguai e Argentina (esta, uma referência na punição a crimes contra
a humanidade cometidos pela Ditadura, onde mais de 200 pessoas já foram
condenadas), o Brasil segue com dificuldades para punir militares
associados à repressão política no período de exceção. Apesar da criação da
Comissão da Verdade pelo governo Dilma, em 2012 – sugerindo maior
disposição do Estado para revisitar seu passado obscurantista –, o STF
ratificou a lei de Anistia e validou a absolvição de todos os envolvidos em
conflitos armados, tanto os militares – que propuseram a lei – quanto os
guerrilheiros que se insurgiram contra o regime de exceção. A manutenção
de uma lei que visivelmente interessa às forças que sustentaram os governos
militares fez com que o Brasil sofresse contundentes críticas em fóruns
internacionais da ONU. Autores como Neves (2012) são críticos em relação
à validação da lei da Anistia de 1979 e, apesar de criticar a Corte
Interamericana de Direitos Humanos, que condenou o Estado brasileiro,
afirmam que Comissões da Verdade devem complementar a tentativa de
apuração de violações de direitos humanos via justiça criminal.

A controvérsia em relação a estes mecanismos de elucidação da


história política brasileira ilustra a pouca disposição de importantes setores
da sociedade de lidar com seu passado de adesão antidemocrática. Talvez

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O impeachment de Dilma Rousseff e a instabilidade na AL 256

por isso, no auge das manifestações a favor do impeachment de Dilma,


fosse comum ver nas ruas partes dos manifestantes pedindo explicitamente a
intervenção militar, sem qualquer constrangimento. Apesar dos clamores, as
Forças Armadas não intervieram no processo de impeachment
publicamente, mesmo nos momentos mais conturbados de conflito
institucional – e sempre afirmaram oficialmente que não havia possibilidade
de um novo governo militar e que a democracia formal deveria prevalecer.

O que parece ficar claro para Perez-Liñan (2007) é que, no contexto


contemporâneo, as elites latinas civis encontraram mecanismos
constitucionais para resolver suas disputas, sem necessariamente precisar
fraturar a formalidade da lei. O impedimento, para Perez-Liñan, parece ter
sido usado precisamente como um eficiente mecanismo para desapossar
presidentes “indesejáveis” sem destruir a ordem constitucional. Como se os
impedimentos fossem a versão moderna dos velhos golpes militares.

A suposta manutenção da ordem constitucional foi, no caso


brasileiro, um dos principais argumentos daqueles que defenderam o
impeachment de Dilma. Frequentemente foi lembrado, tanto por políticos
quanto pela imprensa de oposição a então presidente, que o impedimento
estava previsto na Constituição e que o Supremo Tribunal Federal havia
acompanhado todo o processo, salvaguardando a legalidade do rito. Para
satisfazer o componente jurídico, a acusação a Dilma focou-se na noção de
crime de responsabilidade associado a uma manobra fiscal. Do ponto de
vista formal, houve arguição da presidente na condição de ré, contraditório
entre acusação e defesa, tanto na comissão do impeachment, quanto na
Câmara dos Deputados e no Senado. No momento final do processo, a
sessão foi presidida, no Senado, pelo presidente do STF, cuja presença
chancelou definitivamente a aparência de legalidade do procedimento de
impedimento. Curiosamente, poucos dias depois do impeachment
concluído, este mesmo presidente do Supremo afirmou – em uma de suas
aulas como professor de Teoria do Estado na Faculdade de Direito da

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O impeachment de Dilma Rousseff e a instabilidade na AL 257

Universidade de São Paulo (USP) – que o impedimento havia sido um


“tropeço da democracia”1.

O Impedimento como insinuação parlamentarista ou reação ao


neoliberalismo

Talvez Perez-Liñan (2007) analisasse esse “tropeço” enfatizando a


emergência de uma insinuação parlamentarista nas democracias liberais da
América Latina. Nesse sentido, o impeachment equivaleria ao voto de
desconfiança do sistema parlamentarista, através do qual o Legislativo
propõe a votação de uma moção de censura ao chefe do governo pelo
Parlamento. Em regimes parlamentaristas, como afirma Stepan (1990), não
é possível um governo seguir com sua administração contra a vontade da
maioria da Câmara legislativa, pois, para que haja o voto de não confiança,
são necessários apenas 51% do colegiado legislativo – em geral, a câmara
baixa. Logo, na maioria dos casos, a crise do governo não se torna uma crise
do regime. Se o voto de desconfiança é acatado, o primeiro ministro sente-
se constrangido a renunciar.

Entretanto, o próprio Perez-Liñan (2007) considera essa leitura


problemática na medida em que, para o impeachment acontecer, é
necessária também a satisfação de um requisito jurídico: é preciso
comprovar de forma cabal que o presidente cometeu crime de
responsabilidade para que a acusação que pretende revogar a escolha
soberana do eleitorado seja válida. Ou seja: o impedimento é um
procedimento híbrido, que exige um crime, e não apenas o desprestígio
político, como nos casos mais comuns de voto de desconfiança no sistema
parlamentarista.

Além disso, o voto de censura (de não confiança) é um procedimento


comum nesse tipo de ordenamento político. Já o impeachment é um
1
Disponível em: <http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,lewandowski-diz-que-
impeachment-de-dilma-foi-um-tropeco-na-democracia,10000078768>. Acesso em
18.jan.2017.

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O impeachment de Dilma Rousseff e a instabilidade na AL 258

procedimento extraordinário no sistema presidencial, e costumeiramente


traumático para o país. Quando um primeiro-ministro perde um voto de
confiança, lembra Perez-Liñan (2007), ele sai do governo para se apresentar
na próxima eleição. Quando um presidente sofre um impeachment, ele
geralmente sai do governo para ser preso ou exilado. A decisão sui generis
do Senado de cassar o mandato de Dilma mantendo-lhe os direitos políticos
(e a possibilidade de candidatar-se a cargos públicos) demonstra certa
hesitação por parte da Casa Alta do Parlamento brasileiro no que se refere
ao cumprimento da mencionada exigência jurídica.

Relacionando a noção trazida por Perez-Liñan (2007) com o caso


brasileiro, é possível pensar que os senadores que julgavam Dilma talvez
estivessem plenamente convictos de que a presidente deveria sair do cargo
pelo fator político; sem, no entanto, ter a certeza jurídica do cometimento do
crime que justificaria o traumático impedimento. Tal ambiguidade reforça o
argumento do autor. Ao fim, parece-nos que a maior parte do Legislativo
quis remover a presidente, como se estivesse no Parlamentarismo, sem que
estivesse convencido de que havia um ilícito efetivo a ser imputado a ela.
As consequências de tal dubiedade serão vistas no futuro, pois
procedimentos dessa natureza, como afirma Perez-Liñan (2007), geram
intensa polarização política e instabilidade social. A esse respeito, a então
presidente e ré frequentemente acusou seus adversários de estarem
perpetrando o que chamava de um “golpe parlamentar”.

Além do argumento que o aproxima de um procedimento


parlamentarista no Presidencialismo, o impeachment pode ser interpretado
de outra maneira. Nesse sentido, Perez-Liñan (2007) sugere que o
impedimento presidencial, em algumas ocasiões, pode guardar alguma
relação com a expansão do raio de ação da cidadania democrática
mobilizada nas ruas. Insatisfeita com os efeitos devastadores da
implementação de políticas neoliberais no continente, camadas
significativas da população engajar-se-iam em manifestações populares para

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O impeachment de Dilma Rousseff e a instabilidade na AL 259

se opor a tais políticas, derrubando, assim, presidentes impopulares. É fato


que Dilma Rousseff definitivamente não atravessava um momento de alta
popularidade no ano do seu impeachment, 2016. No entanto, o horizonte
programático das forças políticas que mobilizaram a fração da população
que foi às ruas clamar pela sua saída no meio do mandato está distante de
ser antineoliberal. Ao contrário, um dos combustíveis para o fortalecimento
da onda pró-impeachment foi exatamente uma conjunção de fatores
nacionais e internacionais que verificou na fratura do arranjo partidário e
social do governo do PT uma possibilidade de aprofundamento da agenda
neoliberal.

A esse respeito, o autor atualiza seu argumento ao afirmar


recentemente, em entrevista ao jornalista Luãn Chagas (2016), que diversos
pesquisadores (que, no passado, celebraram a queda dos presidentes como
uma revolta popular contra o neoliberalismo) hoje desconfiam dos protestos
e chegam a condenar o impeachment como uma forma de golpe
parlamentar. Os casos de Fernando Lugo, no Paraguai, e o da própria Dilma
são exemplares nesse sentido, já que o expediente do impedimento foi usado
contra o que Perez-Liñan chamou de “presidentes de esquerda” que
enfrentavam momentos de crise econômica. Segundo o autor (PEREZ-
LIÑAN, 2007), na primeira década do século XXI, a economia foi próspera,
o que fez com que a onda de impedimentos arrefecesse e produzisse uma
sensação de segurança aos presidentes. Hoje, quando as consequências da
crise de 2008 do próprio neoliberalismo no centro do capitalismo global
começam a chegar com alta voltagem na América Latina, o subcontinente
volta a testemunhar a instabilidade de governos, agora progressistas, que
tombam enfraquecidos por sua impopularidade.

Impeachment e instabilidade política: o caso Dilma Rousseff

Em nações que adotam o sistema presidencialista, o presidente


normalmente é figura central na vida nacional. Especialmente em países de

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O impeachment de Dilma Rousseff e a instabilidade na AL 260

pouca tradição partidária e cultura personalista, como o Brasil, o chefe do


Executivo Federal personifica simbolicamente todas as iniciativas de sua
administração. Todo o governo, com seus ministérios, autarquias,
repartições e estatais são identificados pela população com aquela única
pessoa: o presidente. Isso quando o chefe do Executivo não é erroneamente
responsabilizado, no senso comum, pelas decisões do Legislativo e do
Judiciário. A caneta do presidente tem poder de sansão e veto e faz com que
uma única pessoa seja absolutamente decisiva no exercício do poder. Ao
mesmo tempo, uma vez que os ventos políticos mudem seu curso, o
presidente pode experimentar o ocaso impiedoso e ser objeto de ódio
irracional.

O caso de Dilma Rousseff é exemplar acerca dessa mudança de


clima político. A presidente, no seu segundo mandato, deparou-se com um
furacão capaz de gerar sua tragédia final: a deposição. Dilma conquistara a
reeleição, em 2014, numa disputa apertada (51,64% dos votos, contra
48,36% de Aécio Neves, do PSDB) que consolidou definitivamente o
realinhamento eleitoral que garantiu as quatro vitórias eleitorais do PT para
a presidência (SINGER, 2012). Apesar de ter garantido mais quatro anos de
poder para o projeto lulista, a eleição daquele ano marcou a fissura
definitiva no pacto de classes que havia sustentado as administrações
petistas anteriores durante 12 anos.

Principal partido de esquerda do Brasil e maior partido de massas da


América Latina, o PT chegou à Presidência do Brasil em 2002, a partir de
um pacto social claramente explicitado em sua campanha (MENDES,
2004). Depois de três tentativas malsucedidas de conquista do Executivo
Federal, o partido resolvera conciliar com os partidos fisiológicos do
Parlamento e chamara o PL (que numa fusão com o PRONA tornou-se hoje
o PR, o Partido da República) para sua chapa, tendo como vice o importante
empresário mineiro José de Alencar. Essa aliança sinalizou aos setores
econômicos hegemônicos do país que Lula estava disposto a fazer um

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O impeachment de Dilma Rousseff e a instabilidade na AL 261

governo de composição, no qual capital e trabalho seriam representados e


teriam seus interesses atendidos. (MENDES, 2004).

Essa composição de classes se refletiu numa coalizão de partidos no


Congresso, que por sua vez se reverberou na divisão de cargos no governo.
De alguma forma, foi esta dupla aliança, na sociedade e no Congresso, que
sustentou os dois governos de Lula e o primeiro governo de Dilma. Em
2014, essa aliança praticamente esfarelou-se. Como afirma Singer (2015), a
pressão a favor da adesão definitiva à agenda liberal foi ganhando cada vez
mais adeptos na burguesia, na classe média tradicional e até em setores da
nova classe trabalhadora. De fato, Dilma já havia entrado em confronto com
parte do grande capital ao utilizar os bancos públicos – Caixa Econômica e
Banco do Brasil – para forçar uma queda na taxa de juros (SINGER, 2015).
Esse episódio e outros fatores relacionados à crise econômica fizeram com
que boa parte do empresariado, que ainda estava ao lado do PT no primeiro
governo Dilma, migrasse definitivamente para a oposição, acirrando, assim,
a disputa eleitoral de 2014 e a disputa social e política como um todo.
(SINGER, 2015)

Ao final, Dilma vence com o apoio eleitoral dos beneficiários diretos


das políticas públicas implementadas pelo petismo no poder, o eleitorado
com menos renda e escolaridade, fundamentalmente habitantes de cidades
pequenas2. A aliança com o PMDB é mantida e Michel Temer continua
como vice-presidente, em nome de garantir a maioria parlamentar para o
governo, num contexto cada vez mais intenso de deterioração econômica.
Na verdade, essa aliança já dava sinais sérios de desintegração mesmo antes
da eleição. No início de 2014, por exemplo, o PMDB do Rio de Janeiro já
havia rompido com o PT, o que fez com que, no pleito presidencial, a facção
carioca do partido apoiasse Aécio Neves, do PSDB.

2
Disponível em: <http://g1.globo.com/politica/eleicoes/2014/blog/eleicao-em-
numeros/post/dilma-vence-nas-cidades-pequenas-e-aecio-nas-grandes-veja-mapa2.html>.
Acessado em 16/6/2017.

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O impeachment de Dilma Rousseff e a instabilidade na AL 262

O Confronto entre Executivo e Legislativo

A compreensão dessa relação conturbada com o PMDB é decisiva


para se entender o processo que culmina no impedimento de Dilma. Perez-
Liñan (2007) ressalta reiteradamente como a confrontação extrema entre
Executivo e Legislativo desestabiliza democracias presidencialistas. Essa é
uma das principais senhas para a compreensão das instabilidades políticas
pesquisadas pelo autor e, especificamente, para a observação da dinâmica
política do Brasil contemporâneo. O que está na raiz desse jogo é o que
convencionou-se chamar de “presidencialismo de coalizão”
(ABRANCHES, 1988), um sistema de exercício de poder em que nenhum
partido detém a maioria no Congresso, o que exige que o partido do governo
tenha que se aliar a outros para conseguir aprovar os assuntos de seu
interesse no Legislativo e, assim, governar de fato.

A crítica geral ao Presidencialismo de Coalizão argumenta que sua


existência inibe a capacidade do presidente de obter maiorias congressuais,
o que geraria, de antemão, um sistema instável. Isso ocorreria no Brasil, de
um lado, à diferença de um presidencialismo combinado com voto
uninominal majoritário distrital – como nos EUA, em que o Congresso é
dividido entre dois partidos – e, de outro, de governos parlamentaristas, em
que a formação da coalizão antecede a escolha do Executivo. Para autores
como Figueiredo & Limongi (1999), a estabilização do regime brasileiro só
foi possível, em grande parte, porque, no fim das contas, os partidos acabam
tendo um comportamento ideológico. Ou seja: eles efetivamente
representam setores diferentes da população, organizam-se como tal e, ao
cabo, o presidente estrutura seu governo em função dessas maiorias
programáticas. Outros autores, como Zucco (2009), argumentam que
alguma medida eficiente de estabilidade do presidencialismo brasileiro é
alcançada mais em razão do poder de cooptação do presidente e menos pela
organização ideológica do Congresso.

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O impeachment de Dilma Rousseff e a instabilidade na AL 263

O argumento de Zucco (2009) talvez nos seja mais produtivo para


compreender o papel jogado pelo PMDB no episódio do impeachment de
Dilma. Quando aderido ao poder central, pela cooptação exercida pelo chefe
do Executivo, o PMDB – mesmo não tendo a presidência – tem a
capacidade de estabilizar (e desestabilizar) o sistema. Parece ter sido assim
no caso do recente impeachment no Brasil. Maior partido do país em
número de filiados e congressistas, o PMDB é o fiel da balança do sistema
político brasileiro. Apesar de ser o partido com maior número de filiados e
maior número de integrantes exercendo cargos eletivos no país, o partido
não tem um nome nacional capaz de ganhar o Executivo Federal, tendo em
vista que sua força reside exatamente no seu enraizamento regional. No
entanto, tanto nos governos de FHC, do PSDB, quanto nos governos do PT,
o PMDB colocou-se como o partido de quem o governo central depende
para obter a maioria no Legislativo. Isso faz com que o governo precise
dividir cargos, negociar pautas e efetivamente governar junto com o PMDB.

Essa dependência em relação ao PMDB por parte do partido


ocasionalmente no governo é uma das causas decisivas para diversos
conflitos no interior da base parlamentar que sustenta as iniciativas do
Executivo. A todo momento, o presidente precisa contornar, fazer
concessões, negociar e, finalmente, compor com o PMDB para conseguir
exercer o poder. Isso aumenta radicalmente o índice de fisiologismo no
interior da máquina do Estado, mas quando executado com destreza política,
estabiliza razoavelmente o exercício do poder pelo Executivo.

O PMDB faz alianças ora com PSDB, ora com o PT. Ora com a
centro-direita, ora com a centro-esquerda. No entanto, não é possível
afirmar que a relação entre o PMDB e os dois governos seja exatamente a
mesma. Apesar de ser, como mencionado, predominantemente um partido
fisiológico (BRAGA & NICOLÁS, 2008), incrustrado no aparato estatal e
disposto a barganhar cargos com o governo central, salvo poucas exceções
que remetem ao MDB, o PMDB tem também atributos do que Braga &

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O impeachment de Dilma Rousseff e a instabilidade na AL 264

Nicolas (2008) chamam de “partido programático de direita”. Isso faz com


que a relação com as pautas progressistas seja ainda mais tensa. Como
afirmam Barbosa e Santos (2016), o PT na condição de partido
originalmente outsider, criado fora do Estado, tem mais dificuldades de
implementar suas agendas do que os partidos insiders, conservadores. Os
autores mostram ainda que a aliança PSDB-PMDB – nos governos
Fernando Henrique – conseguiu fazer avançar sua agenda
significativamente, reformando o Estado no sentido de intensificar suas
características neoliberais. Já a aliança PT-PMDB, capitaneada pelo PT,
mas organicamente heterogênea e contraditória, só conseguiu eventualmente
impedir alguns avanços do neoliberalismo, obtendo, no geral, reduzido êxito
na reforma do Estado em termos normativos coordenados com sua agenda
de partido socialdemocrata.

O arranjo legislativo dos governos do PT com os fisiológicos


pequenos e com o PMDB, foi, portanto, atravessado permanentemente por
conflitos. A noção de partido fisiológico aqui vem de Braga & Nicolás
(2008), que caracterizam partidos fisiológicos como os que não se
posicionam em nenhum dos dois extremos do espectro político-ideológico e
que são oscilantes no plano nacional em relação aos governos, tendo como
característica a baixa consistência programática. Ainda que, em geral,
tenham uma postura ideológica mais conservadora. A consequência deste
descompasso entre Legislativo e Executivo é a reiteração de alguns dos
traços mais problemáticos do presidencialismo brasileiro, que – como dizem
Figueiredo e Limongi (1998) – costuma gerar conflitos institucionais
insolúveis, especialmente num sistema pluripartidário parcamente
institucionalizado.

Objetivamente, se em 2014 não contasse com o PMDB na sua base


no Congresso, o governo Dilma teria apenas 216 dos 513 membros da
Câmara dos Deputados (42%), 26 dos 81 membros do Senado (32%) e
26 dos 65 deputados que compunham a comissão do impeachment (40%).

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O impeachment de Dilma Rousseff e a instabilidade na AL 265

Já com o partido na coalizão, a base aliada do governo tinha a maioria da


Câmara e do Senado, com 304 deputados e 47 senadores respectivamente. O
PMDB só rompeu oficialmente com o governo em março de 2016. No
entanto, a crise terminal na relação entre Executivo e Legislativo chega ao
momento decisivo quando o PT resolve votar a favor da cassação do
mandato do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, no Conselho de Ética da
Câmara3. Em ato contínuo, Cunha aceita o 28° pedido de impeachment, que
chegava à sua mesa em 2016, e implementa uma sequência de pautas hostis
ao Executivo no plenário – o que, praticamente, inviabilizou o Executivo de
governar.

Apesar de o Legislativo poder ser visto como a instituição


democrática por excelência, pelo seu caráter colegiado e de debate, o caso
brasileiro traz complicadores para essa afirmação. Nosso sistema eleitoral
para o Legislativo, o proporcional, fez com que, por exemplo, apenas 36 dos
513 deputados que votaram pela abertura do processo de impeachment
contra Dilma tivessem sido eleitos exclusivamente com votos próprios4.
Além disso, a possibilidade de financiamento empresarial de campanha
introduz na representação um ruído que faz com que o parlamento brasileiro
não reflita as características da sociedade brasileira, especialmente no que se
refere à representatividade das classes populares. Em sentido oposto,
historicamente, a cadeira de presidente tem sido um espaço importante para
as classes populares no Brasil conseguirem alguma representatividade
substantiva no Estado.

Em alguma medida, o impeachment de Dilma carrega esse embate


entre Legislativo e Executivo, costurando esse conflito de interesses. Prova

3
Disponível em: <http://www.diariodocentrodomundo.com.br/video-temer-diz-que-dilma-
caiu-porque-pt-nao-votou-em-cunha-no-conselho-de-etica-e-que-ele-nao-teve-nada-a-ver-
com-nada/>. Acessado em 16/6/2017.
4
Disponível em:
<http://brasil.elpais.com/brasil/2016/04/19/politica/1461023531_819960.html>. Acessado
em 16/6/2017.

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O impeachment de Dilma Rousseff e a instabilidade na AL 266

disso é o fato de que tão logo o PT foi deposto da presidência, o PMDB –


que até o dia anterior ocupava a vice-presidência do governo Dilma e
inúmeros minisistérios – mudou radicalmente o curso da administração e
transformou a oposição (PSDB, DEM e PPS) no principal aliado da base de
sustentação do novo governo.

A crise do capitalismo global chega ao Brasil

Além do embate Legislativo e Executivo, para Perez-Liñan (2007), a


razão fundamental da tempestade que leva ao impeachment é a crise
econômica. É ela que debilita o apoio popular e faz com que os escândalos
de corrupção se convertam em hostilidade efetiva contra a administração
sob fogo cruzado. Para comprovar seu argumento, o autor lembra o caso do
“mensalão” do PT, em 2005, quando – em meio à grave crise política e à
ofensiva do mesmo PMDB, mas num momento sem crise econômica – o
governo de Lula não caiu. Segundo Perez-Liñan (2007), a população é mais
tolerante com a corrupção em momentos de bonança material.

Os governos Lula e o primeiro governo Dilma desfrutaram de uma


situação econômica relativamente boa. Um momento próspero da economia
internacional, com a elevação dos preços das matérias-primas, a parceria
com a China e os países árabes e africanos. Junte-se a isso o
desenvolvimentismo dos governos petistas (SINGER, 2015), que
incentivaram o surgimento de um mercado interno de consumo de massa, a
partir do qual o governo poderia operar medidas anticíclicas contra crises
internacionais. Vale lembrar que a crise estoura na Europa em 2008 e só
chega ao Brasil em 2013. No primeiro mandato (2003-2006), Lula fez a
economia crescer em média 3,5% ao ano. No segundo, a economia cresce,
em média, 4,5% ao ano. Em seu primeiro mandato, Dilma teve crescimento
anual, em média, de 2,1%.

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O impeachment de Dilma Rousseff e a instabilidade na AL 267

Já no fim do primeiro mandato, a crise começa a se anunciar com


mais intensidade. Caem os preços das matérias-primas internacionais, o
mercado chinês desacelera e a economia da América Latina entra em
recessão. Para piorar sua situação e inflamar partes significativas da
população contra ela, a presidente ainda age contra o que havia prometido
no pleito de outubro de 2014. De fato, Dilma afirmara na campanha eleitoral
que a crise econômica se avizinhava do Brasil. Para combatê-la, prometeu
uma ação contundente do Estado, que, de maneira anticíclica, manteria as
conquistas de bem-estar social alcançadas durante o petismo e evitaria o
agravamento dos problemas econômicos. Além disso, no seu programa
eleitoral, Dilma capitalizou eleitoralmente ao acusar seu opositor, Aécio
Neves, de ser o candidato que iria fazer o “ajuste fiscal”, implementando
políticas de austeridade, que significam – na prática – o corte de
investimentos por parte do Estado e a redução de benefícios sociais. Uma
vez presidente reeleita, Dilma implementou o ajuste (SINGER, 2015).

Mobilizações populares pelo impeachment

Com o agravamento da crise capitalista e a reclusão do Estado no


que se refere à sua agência para mitigar as perdas sociais geradas pela
recessão econômica, largas camadas da classe média brasileira encontram
seus motivos para ir às ruas protestar contra o governo e, em sequência,
pedir o impeachment de Dilma. Para Perez-Liñan (2007), quando as
mobilizações sociais alcançam escala massiva, a queda do presidente entra
no horizonte. Apesar de ter havido, nos momentos mais adiantados do
impedimento, manifestações também massivas de apoio à manutenção da
presidente no cargo para o qual havia sido eleita – o que diferencia o seu
caso do de Collor, em 1992 – o fato é que boa parte dos eleitores de Dilma,

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O impeachment de Dilma Rousseff e a instabilidade na AL 268

como diz Perez-Liñan, “escolheu” não se manifestar e, de alguma maneira,


ao final, “deixou” que ela fosse deposta5.

Os que foram as ruas para pedir o afastamento de Dilma tinham


diversas razões para estar ali, todas elas elencadas por Perez-Liñan (2007).
A já mencionada crise econômica, que fez com que parcelas de um
eleitorado de Dilma mais pragmático se voltasse contra ela. Além disso,
estavam lá os eleitores de Aécio, que haviam perdido uma eleição muito
disputada por uma diferença mínima. Outro componente presente nas
manifestações era a revolta com supostos escândalos de corrupção
fartamente noticiados pela mídia corporativa e fomentados pela Operação
Lava-Jato. Em tom de revolta seletiva anti-corrupção, o antipetismo
misturou-se com a antipolítica.

Esses manifestantes podem ser descritos como pertencentes à classe


média brasileira. Segundo o Datafolha6, a fração de classe nas ruas era
composta predominantemente por brancos, de nível superior, com renda de
5 a 20 salários mínimos. Historicamente, a classe média sempre atuou como
um vetor de atenuação ou acirramento dos conflitos sociais brasileiros.
Quando politizada, é capaz ou de conter a efervescência mobilizada que
vem debaixo ou de aumentar as contradições políticas, atrapalhando
seriamente a vida do governo (RIBEIRO, 1996). Assim como em 1964, com
Jango, e 1992 com Collor, as camadas médias foram às ruas para derrubar
mais um presidente.

Perez-Liñan (2007) enfatiza também o impacto dos escândalos


midiáticos no público. Escândalo midiático e desempenho econômico são
dois elementos-chave que levam à manifestação popular, algo que havia se
anunciado já nas revoltas de 2013. É possível perceber isso observando

5
Disponível em http://epoca.globo.com/tempo/noticia/2016/05/anibal-perez-linan-crise-no-
brasil-nao-se-encerrara-logo.html. Acessado em 16/6/2017.
6
Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/poder/2016/03/1749640-protesto-cresce-
mas-manifestante-mantem-perfil-de-alta-renda.shtml. Acessado em 16/6/2017.

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O impeachment de Dilma Rousseff e a instabilidade na AL 269

como a aprovação da presidente cai vertiginosamente na medida em que


aumenta a cobertura dos escândalos. No início de 2013, o governo Dilma
tinha aprovação de 63% dos brasileiros. Ao fim de 2015, essa aprovação
está em 9%. A queda reflete uma derrocada simbólica que culmina depois
no impedimento real. Além disso, com os escândalos e a revolta pública,
ficava cada vez mais difícil manter o Legislativo fisiológico fiel.
Parlamentares até ontem aderidos ao governo, voltavam-se contra a chefe do
Executivo em iminente debacle.

A mídia corporativa, escândalos de corrupção e o papel do


Judiciário

Outro tópico fundamental para a compreensão dos processos de


impeachment, segundo Perez-Liñan (2007), é a divulgação insistente de
escândalos de corrupção política por parte da mídia. Como afirma Miguel
(2000), os meios de comunicação, no mundo contemporâneo, são “tanto o
principal canal de acesso dos cidadãos às informações de que precisam para
agir na esfera política quanto o principal instrumento dos líderes políticos
para a divulgação de suas mensagens, projetos, temas para a agend pública –
em suma, para a batalha política crucial e a construção de vontades
coletivas”.

No que se refere à busca de informação política, umas das principais


características é a dependência da população em relação à grande mídia.
Pouco habituada a ler mais que o jornal diário, a classe média brasileira
informa-se predominantemente através da televisão. Os noticiários das
grandes emissoras são suas principais fontes de narrativas sobre o momento
político (LIMA, 2009). Segundo Aldé (2004), a recorrência ao noticiário
como “repertório de exemplos” para os cidadãos deve-se a três
características principais do jornalismo televisivo. A primeira delas diz
respeito à relação dos jornalistas com a “essência dos fatos”. A ideia central
aí é a de que os jornalistas buscam sempre apresentar aos espectadores a

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O impeachment de Dilma Rousseff e a instabilidade na AL 270

essência dos fatos políticos (seu resumo, seu porquê), fornecendo a eles,
portanto, um produto pré-processado. E as pessoas apreciam essa
“simplificação” de uma realidade política complexa; já que, quando o
cidadão comum vai ao noticiário, assegura Aldé (2004), está em busca de
opiniões “prontas”.

O segundo desses atributos é o que a autora chama de “o estatuto


visual da verdade”. Segundo Aldé (2004), seus entrevistados disseram
acreditar no que veem, utilizando evidências visuais para comprovar suas
explicações políticas. E o telenoticiário tem exatamente como grande
prerrogativa a capacidade de fornecer legitimidade às notícias que exibe em
razão das imagens documentais que apresenta. Como diz a autora, trata-se
da ideia de irrefutabilidade do que se vê com os “próprios olhos” (algo que
o jornal impresso, por exemplo, não tem), já que o princípio que rege a
compreensão geral é o de que “nenhuma justificativa pode eliminar a
evidência cabal das imagens”. (Aldé, 2004).

A terceira faceta do telejornalismo que o torna um quadro de


referência privilegiado para os cidadãos é o mecanismo de personificação
de que o jornalismo televisivo se vale para tratar de política. De acordo com
a autora, o telejornalismo com frequência recorre ao personalismo para
abordar os temas abstratos da política – temas, em geral, difíceis de se
traduzir em imagens. Esclarecendo que esta personalização está presente
nos enquadramentos dos emissores e nas explicações dos receptores, Aldé
(2004) afirma que se cria, assim, uma relação subjetiva e afetiva dos
cidadãos com os personagens da política.

Além disso, para esse cidadão, a mídia não é um ator político


orientado por interesses, que produz seus discursos sobre a realidade guiado
por fatores jornalísticos e compromissos econômicos e políticos. O que só
aumenta a credulidade desse público em relação aos veículos corporativos.
Em oposição a esse senso comum, Porto (2001) sugere que em vez de

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O impeachment de Dilma Rousseff e a instabilidade na AL 271

pensar a TV como mera difusora de um conjunto de estímulos aos quais os


indivíduos respondem, deve-se enxergá-la como o locus onde se dá um
embate simbólico acerca de qual interpretação sobre o mundo público
prevalecerá. Usando seu modelo do “cidadão interpretante”, o autor encara a
TV como uma arena que media o conflito de diferentes atores pela
interpretação de eventos políticos. Interpretações estas que oferecem
enquadramentos que são, em geral, incorporados às narrativas que os
cidadãos constroem acerca dos assuntos da política. Em uma frase, longe de
ser um mero fornecedor de informação objetiva, a TV é uma instituição
chave que oferece significados e interpreta eventos.

O significado central da política na cobertura midiática do


impedimento de Dilma foi o tema da corrupção. Além do noticiário
econômico intensamente negativo, desde 2015, a imprensa corporativa
passou a divulgar enfaticamente vazamentos e delações obtidas pela
operação Lava-Jato. Ou seja, o Poder Judiciário – na figura heroicizada do
juiz Sergio Moro e dos procuradores federais de Curitiba – passaram a ser
atores centrais na trama midiática que reforçava a associação entre o
governo Dilma e a corrupção, por mais que o impedimento nada tivesse
formalmente a ver com casos de corrupção.

Aqui talvez se configure um dos aspectos mais problemáticos do


modelo de análise de Perez-Liñan (2007). Trata-se do papel do poder
Judiciário no contexto do impedimento. Ou daquilo que Vianna (1999)
chama de “judicialização da política”. Já há algum tempo, este autor chama
atenção para a insinuação de um judiciário dotado da capacidade de exercer
jurisdição sobre a legislação produzida pelo poder soberano. O caso da
liminar do STF suspendendo a nomeação de Lula para o Ministério da Casa
Civil feita pela presidente Dilma, no auge do processo de impedimento, é
um exemplo disso; e também uma ilustração perfeita do que Perez-Liñan
(2007) quer dizer quando lembra que – nos momentos de debacle – há uma
discrepância entre o poder formal e o real do presidente.

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O impeachment de Dilma Rousseff e a instabilidade na AL 272

Correndo em paralelo com o rito parlamentar do impedimento de


Dilma, o poder Judiciário, via operação Lava-Jato, ocupou-se nos últimos
meses de desestruturar, pela primeira vez na história do país, esquemas de
propina entre empreiteiras e políticos. O partido de Dilma, o PT, foi sempre
o foco central da investigação; e dentro dele, seu maior nome, Lula. O
principal telejornal do país chegou a divulgar – em horário nobre – grampos
feitos sem autorização de uma conversa da presidente. O trabalho realizado
por Júnior & De Oliveira Sassara (2016) analisa o fenômeno da
escandalização da corrupção no jornalismo brasileiro. Através da
observação da cobertura jornalística das eleições de 2010 e2014, os autores
demonstram a existência de intenso viés na cobertura de escândalos
relacionados à candidatura de Dilma Rousseff, com 95% de matérias sobre
casos de corrupção na administração petista contra 5% de matérias ocupadas
em relatar escândalos tucanos.

Nesse sentido, parece que o Judiciário ajudou a dar consistência ao


noticiário massivo sobre corrupção, associando-o inevitavelmente ao
governo então em vigor. Historicamente esse tema sempre foi usado contra
presidentes populares, como Getúlio Vargas e João Goulart. De fato, a
corrupção é um dado estrutural do Brasil, que se dá no encontro entre
agentes do Estado e o poder econômico. No entanto, a presença diária do
tema da corrupção e dos avanços da operação Lava-Jato partidarizou o
problema, focando especialmente em Lula. Assim, foi obscurecido o
contexto político em que se deu o impeachment, gerando a impressão de que
o impedimento tinha alguma relação com o fim da corrupção no Estado
brasileiro e não com as manobras fiscais encaradas como crime de
responsabilidade pelos julgadores de Dilma. Ela, que pessoalmente não
tinha seu nome envolvido na operação e nem era ré em nenhum processo,
foi deposta em meio à neblina de uma suposta cruzada nacional contra a
corrupção.

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O impeachment de Dilma Rousseff e a instabilidade na AL 273

Diversos estudos já haviam sido feitos, especialmente em períodos


eleitorais, sobre as relações entre a mídia e política no Brasil (ALDÉ;
MENDES; FIGUEIREDO, 2006). Nesse sentido, a mídia corporativa foi,
como afirma Weltman (2006), adaptando-se à democracia na medida em
que a poliarquia no Brasil foi se consolidando depois da redemocratização,
em 1985. Do lado do campo da Comunicação, os veículos experimentaram
um processo de aprendizado frente às novas coordenadas políticas e
institucionais trazidas pela abertura, reorganização e posterior consolidação
do regime democrático.

Desde 2003, a mídia brasileira experimentou a circunstância de estar


na oposição. Por causa das vitórias petistas, sua influência sobre o eleitorado
passou a ser largamente contestada. Mesmo fazendo oposição diária aos
governos de Lula e Dilma, as empresas de mídia não conseguiram fazer seus
candidatos serem eleitos no âmbito federal. O que talvez não estivesse no
horizonte de percepção desses analistas era a influência de longo prazo desta
mídia, criando no tempo consistentes enquadramentos interpretativos que
foram decisivamente ativados no momento crucial do impedimento de
Dilma; especialmente no que se refere à associação da corrupção geral da
política a um partido específico. Dessa maneira, fica claro que – assim como
o Legislativo arredio, a crise econômica do capitalismo e a operação Lava-
Jato – a grande mídia brasileira teve papel central na deposição de Dilma.

Considerações Finais

O artigo apresentado teve o propósito de observar como o recente


episódio de impeachment da presidente Dilma Rousseff, em 2016, no Brasil,
pode ser compreendido à luz da abordagem teórica do trabalho do cientista
político Anibal Perez-Liñan, presente em seu livro “Presidential
impeachment and the new political instability in Latin America”. Ao longo
do texto, verificamos como os eixos do modelo explicativo do autor, o
momento de crise econômica, a presença massiva do escândalo político na

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O impeachment de Dilma Rousseff e a instabilidade na AL 274

mídia corporativa, a indignação popular com o tema da corrupção e uma


relação conflituosa entre o Poder Legislativo e o Executivo podem ser
mobilizados, no caso brasileiro, para compreender a derrubada de Dilma da
presidência.

Efetivamente, ao analisarmos em detalhes a capacidade de agência


desses atores sociais e políticos, verificamos a eficaz aplicabilidade do
esquema de análise do autor, fartamente alimentado com dados que
remetem à toda a região da América Latina e que sugerem a configuração de
uma onda de impedimentos relacionados a uma instabilidade de governos
em meio à estabilidade do regime. Especificamente, a partir da
contraposição entre a hipótese de Perez-Liñan e os eventos que compuseram
o cenário da derrubada de Dilma, pudemos ver o papel desempenhado, no
impeachment, pela contundente chegada ao Brasil da crise do capitalismo
global, iniciada em 2008; pela turbulenta relação com o PMDB, principal
partido aliado no Congresso; pelo noticiário negativo contínuo nas maiores
empresas de comunicação do país e, por fim, pela subsequente mobilização
das camadas médias contra o governo.

No entanto, talvez a ausência de uma visão mais aprofundada sobre a


participação do Poder Judiciário seja a principal lacuna do trabalho de Perez
Liñan. A judicialização da política, que enfatiza a capacidade de intervenção
da justiça nos assuntos dos poderes eleitos, é um traço pouco abordado pelo
autor. E, contudo, conforme vimos, parece ter sido um elemento central
catalizador para a queda da presidente, especialmente tendo em vista a
relação íntima que estabeleceu com o noticiário corporativo sobre
escândalos de corrupção, protagonizados pela promiscuidade entre o poder
político e o poder econômico. Apesar do argumento jurídico formal para o
julgamento de Dilma no Congresso ter sido ancorado em problemas
referidos a manobras fiscais – consideradas, então, como crime de
responsabilidade pelo Legislativo que a julgava – é inegável que a
associação, na opinião pública, entre Dilma, seu partido, o PT, e as

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O impeachment de Dilma Rousseff e a instabilidade na AL 275

revelações proporcionadas pelas delações premiadas contribuíram com o


movimento político que terminou por retirá-la da Presidência.

Perez-Liñan (2007) afirma que o impeachment pode ser visto como


uma forma radical de acountability social na região. Mas, tendo em vista
todos os fatores abordados ao longo do artigo, como articular
democraticamente uma mídia pouco plural, partidos fisiológicos e um
judiciário que invade o campo político, com o respeito à soberania popular
que elege um presidente? Como diferenciar a responsabilização apropriada
de um presidente corrupto, e a consequente perda do seu mandato, de um
golpe parlamentar, se o julgamento do impedimento é feito eminentemente
pelo Legislativo e tem caráter político?

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O impeachment de Dilma Rousseff e a instabilidade na AL 278

Palavras- Resumo: O presente artigo tem o objetivo de analisar o recente


episódio de impeachment da presidente Dilma Rousseff, em
chave: 2016, no Brasil, à luz da abordagem teórica do trabalho do
cientista político Anibal Perez-Liñan presente em seu livro
“Presidential impeachment and the new political instability in
Impeachment, Latin America”. O propósito central do trabalho é verificar em
que medida os traços característicos do modelo de Perez-Liñan
América
pesquisa podem ser encontrados no caso brasileiro. De acordo
Latina, com o autor, o que se viu nos últimos anos foi o estabelecimento
Dilma de um novo padrão de instabilidade política na região da América
Rousseff Latina, em que o chefe do Executivo é removido do comando do
país através de mecanismos constitucionais. O objetivo é
compreender as relações estabelecidas entre os atores que
compõem os eixos da abordagem do autor, ou seja, as
manifestações de massa, a veiculação de escândalos de corrupção
na mídia de massa, o tensionamento entre Legislativo e
Executivo, e o episódio do impedimento de Dilma.

Keywords ABSTRACT: This article aims to analyze the recent


impeachment episode of President Dilma Rousseff in Brazil,
using the theoretical approach of the political scientist Anibal
Impeachment, Perez-Liñan presented in his book "Presidential impeachment and
Latin America, the new political instability in Latin America ". The main purpose
Dilma Rousseff is to verify the extent to which the features of the Perez-Liñan’s
research model can be found in the Brazilian case. According to
the author, in recent years, we have seen the establishment of a
new pattern of political instability in the region of Latin America,
where the chief executive is removed from the country's
command through constitutional mechanisms. This paper tries to
understand how the factors that constitutes the main axes of the
author's approach, that is, mass manifestations, the dissemination
of corruption scandals in the mass media, the tension between
Legislative and Executive, contributed to the episode of Dilma’s
impeachment.

Recebido para publicação em junho/2017


Aceito para publicação em novembro/2017

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.253-278, mar./jun., 2018


O nome das coisas:
a disputa simbólica impeachment
versus golpe na mídia internacional

Monalisa Soares Lopes


Universidade Estadual do Ceará (BRA)

Grazielle Albuquerque
Universidade Estadual de Campinas (BRA)

Introdução

O impeachment de Dilma Rousseff vem sendo amplamente


debatido no âmbito das ciências sociais e jurídicas, nacional e
internacionalmente. Parte considerável do debate envolve a reflexão sobre
em que medida o processo de impedimento representaria uma ruptura
institucional.

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.279-316, mar./jun., 2018


O nome das coisas 280

No que se refere à produção teórica acerca das quedas presidenciais


na América Latina, os autores (PÉREZ LIÑAN, 2007; HOCHSTETLER,
2008) apresentam abordagens que elencam os elementos que têm
contribuído para os cenários de instabilidade vividos pelas presidências
latino-americanas. Tais abordagens se complementam, de certo modo, e
indicam em sua maioria que as quedas presidenciais não representam uma
quebra de regime, ou seja: teríamos um cenário de “democracias estáveis
com governos instáveis” (PÉREZ LIÑAN, 2008, p. 106). No entanto, como
aponta Olier (2008), as quedas presidenciais seriam típicas de “democracias
com baixa institucionalização” (p. 74). Tal interpretação sugere que a
instabilidade das presidências pode ter efeitos problemáticos no que se
refere à institucionalização da democracia na região.

Entre os motivos elencados que indicariam maior probabilidade de


queda presidencial destacam-se: a efetivação de políticas econômicas
neoliberais, o envolvimento do chefe do executivo em escândalos de
corrupção, um governo minoritário no Legislativo e a presença de
manifestações nas ruas contra o presidente (HOCHSTETLER, 2008). Essas
condicionalidades são produzidas através da interação de diversos agentes
sociais: atores do Legislativo, sociedade civil, mídia, elites econômicas,
entre outros (PÉREZ LIÑAN, 2008). O processo de destituição de Dilma
Rousseff se assemelha em seu enredo aos caminhos apontados por esses
teóricos latino-americanos sobre as quedas presidenciais, como veremos
mais adiante.

As produções brasileiras sobre o contexto recente – em grande


parte produzidas no calor da hora – oscilam entre um caráter descritivo do
processo de impeachment (ALMEIDA, 2016) e análises mais engajadas
(SOUZA, 2016; JIKINGS, et al, 2016). Recentemente, Santos (2017) trouxe
a público uma produção que analisa a experiência do impeachment a partir
de um quadro comparativo com outras experiências de ruptura na
experiência democrática brasileira.

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.279-316, mar./jun., 2018


O nome das coisas 281

Sem desconsiderar as produções mencionadas, o presente artigo


analisa o processo de impeachment de Dilma Rousseff sob a perspectiva do
papel desempenhado pela mídia nos contextos de instabilidade presidencial.
Mais especificamente, desenvolvemos uma análise sobre a mobilização, por
parte da então presidenta, de alguns veículos de mídia estrangeira como
estratégia de produção de uma contranarrativa1 ao enredo estruturado pela
mídia nacional.

Para tanto, o artigo está estruturado em duas seções, além desta


introdução e das considerações finais. A primeira seção, intitulada “O
enredo de uma queda presidencial”, traz um breve apanhado da conjuntura
política, pós-eleição presidencial de 2014, que se desdobrou no processo de
queda da presidenta. A segunda seção, por sua vez, traz a análise
propriamente dita dos usos da mídia estrangeira para a disputa simbólica em
torno do processo de impeachment.

O enredo de uma queda presidencial

A eleição de 2014 não se findou com a declaração oficial dos


resultados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A polarização,
exacerbada pelo acirramento da disputa eleitoral mais competitiva desde a
redemocratização, desdobrou-se num clima de campanha permanente. Com
apoio de parte da sociedade, o que há muito tempo não ocorria, a oposição
investiu num discurso que manteve mobilizados segmentos identificados
com o antipetismo. Algumas ações foram evidências desse processo de
prorrogação da disputa política, forjando assim um terceiro turno.
Destacamos: a) solicitação por parte de Aécio Neves e do PSDB de uma
auditoria do resultado eleitoral ao TSE; b) montagem de uma agenda de
mobilizações antigoverno logo depois do fim das eleições c) o ingresso, por

1
O termo “narrativa” é aqui mobilizado num sentido genérico como lógica presente nas
diversas sociedades para a organização da realidade social (BARTHES, 1976).

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O nome das coisas 282

parte da chapa vencida nas eleições, junto ao TSE, de uma ação para a
cassação da chapa Dilma/Temer por abuso de poder político e econômico2.

Essa prática não usual (pedir auditoria de resultado e recontagem


de votos) serviu como estratégia para manter mobilizados os setores
insatisfeitos, o “exército oposicionista”, buscando assim fortalecer um
discurso antigoverno e o clima de campanha permanente.

As estratégias de mobilização de segmentos do eleitorado


insatisfeitos com o resultado eleitoral surtiram efeito e fomentaram a
articulação de uma agenda de manifestações contrárias ao governo Dilma.
Tais manifestações já sinalizavam como pauta o impeachment da presidenta
reeleita, até mesmo antes de sua posse para o segundo mandato. A primeira
manifestação ocorreu no fim de semana seguinte ao do resultado das
eleições. Entre novembro e dezembro, as manifestações se sucederam.

O segundo governo Dilma começou, portanto, em meio a muitas


polêmicas. A presidenta saiu do pleito eleitoral com tarefas importantes para
seu segundo mandato, pois precisava tanto superar a disputa política da
eleição como realizar mudanças na economia.

2
No dia 9 de junho, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) absolveu por quatro votos a três
votos, a chapa Dilma/Temer do processo de cassação por abuso de poder econômico e
político. O julgamento teve enorme repercussão e, após a saída de Dilma Rousseff da
Presidência, representou uma irônica possibilidade para a perda de mandato de Michel
Temer. A ironia deve-se ao fato de a ameaça ao governo Temer ter sido promovida
exatamente pelo PSDB, adversário do PT que, após o impeachment, passou a fazer parte da
base de apoio ao governo Temer. Vale lembrar que no final de 2014, o TSE aprovou as
contas de campanha de Dilma e Temer com ressalvas. Depois disso, o PSDB resolveu
acionar o TSE com uma ação de investigação judicial eleitoral (Aije), com o objetivo de
apurar suspeitas de fatos ilícitos ocorridos durante a campanha. Além disso, após a
diplomação de Dilma Rousseff como presidenta da República, foi proposta uma ação de
impugnação de mandato eletivo (Aime). Mesmo com a chapa empossada e, posteriormente
com o impeachment, a ação teve seguimento porque os dois integrantes da composição
poderiam ficar inelegíveis por oito anos caso o TSE julgasse procedente o pedido de
cassação. Além das questões legais e da mudança do posicionamento político do PSDB,
partido promovente da ação que passou a ser contrário a cassação, um dos elementos que
apontam o clima de revanchismo eleitoral foi a fala do candidato derrotado nas eleições
presidenciais de 2014, Aécio Neves (PSDB-MG), no sentido de que a ação foi protocolada
para “encher o saco”. A fala de Aécio está presente na gravação feita pelo empresário
Joesley Batista, dono da empresa JBS, em material anexo à sua delação premiada.

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.279-316, mar./jun., 2018


O nome das coisas 283

O primeiro movimento envolveu a escolha do novo ministro da


Fazenda. A força política de setores que defendiam uma política econômica
mais ortodoxa tinha sido evidenciada na disputa eleitoral, afinal, mesmo
defendendo “medidas impopulares” para solucionar os problemas da
economia, o candidato de oposição havia angariado votos em todos os
estratos sociais.

Compreendemos que tal cenário sugeria a existência de um apoio,


difícil de desconsiderar, em torno do argumento de que seria necessário
“resolver algumas distorções” da condução da economia realizada até então.
Diante disso, abriam-se dois caminhos à frente de Dilma Rousseff: a)
manter, com algumas restrições, a abordagem em voga, escolhendo um
ministro vinculado à perspectiva desenvolvimentista; b) abrir espaço para
um ministro com mais trânsito junto ao mercado, mas que – por outro lado –
pudesse propor uma agenda econômica muito distinta da que estava em
curso. A opção de Dilma Rousseff indicou a prevalência do segundo
caminho.

A escolha de Joaquim Levy, executivo do Bradesco e ex-secretário


do Tesouro na primeira gestão de Lula, buscava sinalizar para o mercado
que o governo estava disposto a realizar mudanças na economia. Pela
trajetória do ministro recém-nomeado, tais mudanças sugeriam uma
condução mais austera da política econômica, incluindo a demanda por
diminuição de gastos públicos e maior controle fiscal. Em face dos ataques
direcionados aos opositores durante a campanha eleitoral, ações como as
descritas acima sugeriam que o governo estaria dando “sinais trocados”
(SINGER, 2014) para o eleitorado que garantiu sua vitória no segundo
turno.

Os “sinais trocados” continuaram emergindo no processo de


formação do novo governo. A nomeação dos ministérios seguiu uma
orientação radicalmente diferente do primeiro mandato: se neste

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.279-316, mar./jun., 2018


O nome das coisas 284

prevaleceram as nomeações técnicas; no governo Dilma II, passaram a


figurar no primeiro escalão ministros com reconhecida força política e
social – como Kátia Abreu (Agricultura), Cid Gomes (Educação), Jaques
Wagner (Defesa) e Gilberto Kassab (Cidades).

As nomeações na área econômica e na equipe ministerial abriram


um fosso entre o discurso de campanha e as ações efetivas do segundo
mandato, que se aprofundou com o anúncio de um pacote de medidas
econômicas (Medidas Provisórias 664 e 665/2014) que atingiam
frontalmente os direitos de trabalhadores/as. Ainda em dezembro de 2014, o
governo anunciou cortes no montante de R$ 18 bilhões envolvendo
benefícios previdenciários. Entre as medidas estavam: a) alteração no
período de carência estipulado para recebimento de abono salarial; b)
alterações no prazo para solicitação de seguro-desemprego; c) alterações nas
regras para recebimento de pensão por morte; d) mudança no prazo para
solicitação do auxílio-doença; e) alterações na regra para o seguro-defeso,
destinado aos pescadores.

O descompasso entre promessas de campanha e a agenda


governativa são explicados por Campello (2014) como uma prática comum
entre candidatos eleitos na América Latina – sobretudo, entre os que
defendem programas políticos pró-Estado, que deverão enfrentar cenários
de crise econômica no governo,

Currency crises—reflected in substantial decreases in


countries’ international reserves and/or sharp currency
devaluation—potentially exacerbate this dilemma. These crises
often follow sudden changes in terms of trade, especially in
economies reliant on commodities exports, and can also result
from severe capital flight. Losses of international reserves
and/or a depressed exchange rate force governments to take
measures to boost the inflows of foreign currency to the
economy, to avoid a major collapse. Given the relative
stickiness of trade flows, governments most likely respond to
currency crises by attempting to attract short-term inflows of
financial capital, which frequently involves abandoning a leftist
agenda in favor of investor-friendly programs. (p. 266)

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.279-316, mar./jun., 2018


O nome das coisas 285

Desse modo, para a autora,

[...] presidents elected on a state-oriented platform are,


different from those who promise neoliberal policies,
confronted with a trade-off between advancing interventionist
and redistributive policies their voters expect and attracting
investors who prefer a market-oriented agenda. (p. 265-266)

Diante de tais movimentos do governo, os opositores enquadraram


o segundo governo Dilma sob o signo do “estelionato eleitoral”. Nas
palavras de Singer, instalou-se uma “ruptura do elo lógico” entre as
promessas de campanha e a agenda do governo, o que, por sua vez, poderia
“potencializar as reações de violento descrédito [...] quando o efeito real das
medidas começarem a ser sentidas na pele” (SINGER, FSP, 03/01/2015).

Nos meses subsequentes à posse, os anúncios de cortes em áreas


estratégicas para a população – como saúde e educação – contribuíram ainda
mais para ruir a confiança em Dilma Rousseff. A primeira pesquisa de
opinião3 realizada no início do segundo governo sinalizou o desapontamento
do eleitorado com as medidas tomadas pela gestão de Dilma. A inversão de
dados entre aprovação e reprovação foi drástica. Se em dezembro de 2014,
antes de anunciar as medidas, o governo tinha 42% de aprovação
(ótimo/bom) e 24% de reprovação (ruim/péssimo); em fevereiro de 2015, os
dados, segundo pesquisa Datafolha, indicavam que apenas 23% dos
entrevistados aprovavam o governo e 44%, reprovavam. Ainda de acordo
com o Datafolha, “para a maioria dos brasileiros, a presidente Dilma
Rousseff mentiu durante a campanha à reeleição. Esse grupo inclui aqueles
que acreditam que ela disse mais mentiras do que verdades durante a
campanha (46%) e os que avaliam que disse somente mentiras (14%)”.
Outros dados também sinalizavam o crescimento da percepção da

3
APROVAÇÃO a governo Dilma Rousseff cai, e reprovação a petista dispara. Disponível
em: <http://datafolha.folha.uol.com.br/opiniaopublica/2015/02/1587329-aprovacao-a-
governo-dilma-Rousseff-cai-e-reprovacao-a-petista-dispara.shtml>. Acesso em 18 mai.
2016.

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.279-316, mar./jun., 2018


O nome das coisas 286

“corrupção” como um dos principais problemas do país (21%), atrás apenas


de “saúde”.

Não bastassem as dificuldades decorrentes das próprias ações, o


governo Dilma ainda enfrentaria um cenário bastante adverso no Congresso
Nacional, em especial na Câmara dos Deputados. A eleição para Presidência
da Câmara se fez uma ocasião ímpar para explicitar o apoio minoritário de
que o governo dispunha na Casa. Numa disputa em que se esperava que o
candidato do governo, Arlindo Chinaglia (PT), pudesse duelar com Eduardo
Cunha (PMDB) – desafeto antigo da gestão – o que se viu foi uma derrota
escorchante do primeiro (136 votos) face o segundo (267 votos). A Câmara
dos Deputados se consolidava, pois, como terreno inimigo, sob a liderança
de Eduardo Cunha.

Num cenário de grande fragmentação partidária (28 partidos na


legislatura), com a Câmara dos Deputados comandada por um político
adversário do governo e que exercia liderança sobre o denominado “novo
Centrão” (bloco suprapartidário composto por 13 partidos com viés
conservador), além de uma oposição mais organizada e articulada com bases
sociais, o governo Dilma Rousseff teve pouquíssimas chances de usar os
recursos do executivo como o poder de agenda. Por sucessivas vezes ao
longo do ano de 2015, o legislativo votou e aprovou as chamadas pautas-
bomba, denominadas assim em virtude de irem na contramão da política de
ajuste nos gastos proposta pelo governo.

A relação entre Executivo e Legislativo, que trazia fraturas ainda


do primeiro mandato4, revelou-se no início do segundo mandato impossível
de ser recomposta. A presidenta encarregou, inclusive, o vice-presidente
Michel Temer da função de articulador político do governo junto ao

4
O primeiro mandato de Dilma Rousseff foi permeado por dissensos entre a presidenta e
sua base parlamentar. Entre aliados e opositores, Dilma era caracterizada como uma
liderança pouco afeita ao diálogo. Tal perfil intransigente foi mobilizado diversas vezes
pelos congressistas para argumentar sobre suas dissidências na votação de matérias de
interesse do Executivo (LOPES, 2016).

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O nome das coisas 287

Congresso Nacional. Tal ação trouxe fôlego para a gestão ao garantir que
algumas matérias de interesse do governo fossem aprovadas. Por outro
lado, fez emergirem também animosidades significativas entre os ministros
petistas mais ligados à presidenta, como Mercadante (Casa Civil) e Edinho
Silva (Secretaria de Comunicação), que foram acusados de “jogar contra”
Michel Temer. Em meio a esses conflitos, o vice-presidente deixou a função
de articulador do governo.

Os desgastes acumulados no campo político, os desdobramentos da


Operação Lava Jato e o aprofundamento do cenário ruim na economia –
com aumento da inflação e do desemprego – ganhavam as páginas e telas
dos jornais. Nesse contexto, criou-se a percepção de instabilidade, ganhou
força a ideia de que o novo governo estava mergulhado numa crise e de que
não sabia como sair dela. O discurso de impeachment emergiu novamente,
apimentando a temperatura política. A oposição, no entanto, estava dividida
sobre a possibilidade de entrar com o pedido. Mesmo contando com algum
apoio popular, os juristas consultados pelo PSDB indicavam não haver
sustentação para o pedido, pelo fato de as práticas questionadas pelo
Tribunal de Contas da União (TCU) serem referentes ao exercício do
primeiro mandato.

Entre março e agosto, ocorreram diversas manifestações que


evidenciaram a força da insatisfação com o governo, desde mobilizações de
rua até panelaços nos dias de pronunciamento da presidenta, no rádio e na
TV. A oposição, além de insuflar as manifestações, manteve-se fortemente
mobilizada a fim de manter uma agenda prejudicial ao governo. Acrescente-
se a essa conjuntura a presença de grupos de vertente conservadora e liberal
na organização dos protestos de rua a favor da pauta do impeachment, que
começava a ganhar ressonância nos espaços públicos. Entre esses grupos,
destacam-se o “Movimento Brasil Livre” (MBL) e o “Vem para a Rua”. O
principal desafio do cenário de crise esteve na incapacidade do governo de
dar alguma resposta satisfatória aos segmentos que protestavam.

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O nome das coisas 288

Em meio a esse cenário, dois fatos muito contundentes trouxeram


desdobramentos significativos para a narrativa política de 2015: a) o
requerimento do TCU ao Executivo para que este explicasse aspectos
relacionados à execução orçamentária de 2014, que ficaram conhecidos
como “pedaladas fiscais”5; b) o avanço das investigações da Operação Lava
Jato e as delações que passaram a lançar suspeitas sobre a relação entre o
esquema de corrupção na Petrobras e as doações para a campanha eleitoral
de Dilma em 2014.

Diante da forte cobertura midiática em torno dos fatos acima, a


percepção da crise se aprofundou. A pesquisa de avaliação do governo no
início de agosto trazia uma reprovação recorde (71%) e um dado que
acendia o “sinal vermelho” para a gestão: 66% dos entrevistados apoiavam a
abertura do procedimento de impeachment contra Dilma Rousseff. A
sustentação da possibilidade de impedimento da presidenta ganhava cada
vez mais adesões que estavam espalhadas por todos os estratos sociais.

O percurso do governo Dilma pelo fio na navalha seguiu durante o


segundo semestre de 2015. Entre os elementos que contribuíram para o
aprofundamento do desgaste do governo, destacou-se uma fala de Michel
Temer, afirmando que o país necessitava de uma liderança que tivesse a
“capacidade de reunificar a todos”. Após o pronunciamento do vice-
presidente, entidades de representação do empresariado nacional – como
Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e Federação das
Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) – endossaram a urgência de
construção de pactos suprapartidários que pudessem tirar o país da crise
econômica. A recepção da fala de Temer pelo grupo próximo da presidenta

5
Por “pedaladas fiscais” ficaram conhecidas práticas do Tesouro Nacional relativas ao
atraso no repasse de valores relativos à execução de políticas públicas para os bancos
públicos. Tais ações foram praticadas ao longo de diversas gestões no Executivo federal e
demais esferas da administração pública. De acordo com o TCU, as chamadas pedaladas
fiscais comprometiam a transparência na execução orçamentária, pois ao não transferir os
recursos o governo apresentava, nos relatórios sobre a situação fiscal do país, despesas
menores do que as que de fato executava.

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.279-316, mar./jun., 2018


O nome das coisas 289

foi, por seu turno, bastante negativa. A compreensão interna ao governo e ao


PT foi de que o vice-presidente havia sugerido que poderia ser esse agente
unificador, o que se constituía como uma possibilidade negativa em virtude
do clima de impeachment que se formava no Congresso Nacional e na
sociedade. A fala de Temer abriu a porta para um afastamento severo entre a
presidenta e se seu vice. Com isso, Dilma Rousseff assumia a interpretação
de que Temer não era plenamente confiável e de que poderia conspirar para
sua destituição.

Além dos problemas de ordem política, o governo cometeu tropeços


no âmbito da economia. O fato mais crítico foi o envio ao Congresso
Nacional de um orçamento deficitário para o ano de 2016. Fenômeno
inédito na história política recente, a apresentação do orçamento com
evidência de desequilíbrio fiscal gerou controvérsias no ambiente político:
para aliados, representou “coragem e transparência do governo em
evidenciar a situação fiscal do país”; para opositores, significou que a gestão
ainda não apresentava a convicção da necessidade de “cortar na carne” para
garantir o equilíbrio das contas públicas. No âmbito do mercado, a
interpretação foi unânime: faltava aos agentes políticos brasileiros a
intenção efetiva de realizar mudanças que culminassem no saneamento das
contas. O rebaixamento da agência Standard & Poor's, retirando o selo de
bom pagador do Brasil, foi a evidência cabal da percepção negativa com que
os agentes econômicos internacionais estavam acompanhando a situação
econômica no país.

A conjugação entre crise política e crise econômica foi consolidando


uma interpretação de que Dilma estava perdendo as condições de liderar o
governo no percurso para a saída das crises. Tal compreensão sedimentava o
discurso do impeachment – que ganhou musculatura, no início de outubro,
com a reprovação pelo TCU das contas do ano de 2014 do governo Dilma,
por unanimidade. Pela primeira vez no período recente da democracia, um
chefe do Executivo Federal teve sua prestação de contas anual reprovada

Revista de Ciências Sociais. Fortaleza, v.49, n. 1, p.279-316, mar./jun., 2018


O nome das coisas 290

pelo TCU. Em sessão televisionada em rede nacional6, o ministro Augusto


Nardes recomendou a reprovação das contas de Dilma Rousseff em virtude
das pedaladas fiscais. Segundo o ministro, “após exame detalhado, ficou
evidenciado que diversos procedimentos afrontam de forma significativa,
além dos artigos da lei, princípios objetivos e comportamentos preconizados
pela Lei de Responsabilidade Fiscal”7.

Tal decisão do TCU deu um fôlego significativo ao pedido de


impeachment que havia sido protocolado pelos juristas Miguel Reale Jr. e
Hélio Bicudo, o qual enquadrava as pedaladas fiscais cometidas como
crimes de responsabilidade passíveis de impedimento do chefe do
Executivo. Outro fato decorrente da decisão do TCU envolveu uma
representação do Ministério Público para que o Tribunal investigasse a
possível execução dos mesmos procedimentos na execução orçamentária de
2015. Comprovado pelo TCU que o governo Dilma havia cometido
pedaladas fiscais e editado créditos suplementares sem autorização do
Congresso no ano de 2015, o pedido de impeachment foi atualizado,
contando também com a assinatura da jurista Janaina Paschoal.

Diante do avanço das forças políticas pró-impeachment, os agentes


do governo e do PT passaram a disputar a interpretação jurídica de que as
pedaladas fiscais não configurariam crime de responsabilidade e, portanto,
não poderiam fundamentar o pedido de impedimento da presidenta reeleita.
Entretanto, diante do nível de desgaste acumulado em decorrência da piora

6
A sessão do dia 7 de outubro teve cobertura ao vivo da Globo News e da Band News. A
TV Câmara chegou a solicitar o acompanhamento da sessão, mas voltou atrás no pedido. O
Valor Econômico disponibilizou link para o plenário do TCU, e até mesmo a Empresa
Brasil de Comunicação (EBC) colocou em seu site uma chamada direta para a transmissão.
O G1 usou trechos com a filmagem do tribunal em sua matéria, e as coberturas do UOL e
da Folha de São Paulo – na versão on-line – também utilizaram esse recurso”. Ver detalhes
sobre a estratégia de divulgação em: <http://diplomatique.org.br/entre-o-espetaculo-e-o-
controle-a-justica-e-seus-holofotes/>. Acesso em 18 jun. 2017.
7
DILMA Rousseff tem contas de 2014 reprovadas pelo TCU. Disponível em:
<http://www1.folha.uol.com.br/poder/2015/10/1691438-dilma-e-a-primeira-presidente-a-
ter-sua-contas-reprovadas-no-tcu.shtml>. Acesso em 18 jun. 2017.

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O nome das coisas 291

na situação econômica e da dimensão8 que a Operação lava Jato assumiu,


pesquisas indicavam que a “corrupção” havia assumido o status de maior
problema do país para a população (DATAFOLHA, 30/11/2015). A força
da tese do impeachment se consolidou na sociedade e entre agentes políticos
e econômicos.

O arremate veio no início de dezembro, quando o presidente da


Câmara admitiu o pedido de impeachment assinado por Reale Jr., Bicudo e
Paschoal9. A aceitação do pedido foi realizada em meio às controvérsias da
votação na Comissão de Ética da Câmara sobre a abertura ou não de
processo de cassação do mandato de Cunha, sob acusações de que teria
mentido à CPI da Petrobras quando afirmou não possuir contas no exterior,
o que foi confirmado pelo Ministério Público Federal (MPF). De acordo
com a cobertura midiática, a aceitação do pedido de impeachment
configuraria uma retaliação pelo fato de os parlamentares petistas
anunciarem que votariam pela abertura do processo de cassação.

Os movimentos que sucederam a aceitação do pedido de


impeachment revelaram como os agentes políticos estavam posicionados
face a possibilidade do afastamento da presidenta reeleita. No campo da
oposição, a estratégia envolveu a mobilização dos segmentos sociais
favoráveis em manifestações de rua, com vistas a dar legitimidade popular
ao processo. No segmento de apoio ao governo, os movimentos sociais se

8
Em 25 de novembro, o senador Delcídio do Amaral, líder do governo Dilma no Senado
Federal, foi preso em função da acusação de obstrução da justiça. Ver detalhes em:
<http://www1.folha.uol.com.br/poder/2015/11/1711360-entenda-a-prisao-do-senador-
delcidio-do-amaral-em-11-perguntas-e-respostas.shtml>. Acesso em 21 mai. 2016.
9
Figura central no processo de impedimento. Professora do curso de Direito da
Universidade Federal de São Paulo, Janaína Pascoal capitaneou o processo de impeachment
junto aos advogados do PSDB, mesmo quando o partido era refratário a ação. A professora
conseguiu a adesão de Hélio Bicudo, ex-deputado federal, ministro da Fazenda e um dos
fundadores do PT, para assinar a ação de impeachment, o que deu peso simbólico à medida
que passava a contar em sua inicial com um personagem histórico do Partido dos
Trabalhadores, embora a acusação formal tenha ficado a cargo de Janaína Paschoal, Miguel
Reale Jr e dos demais advogados do PSDB. Ver detalhes em:
<http://piaui.folha.uol.com.br/materia/a-acusadora-janaina-paschoal/>. Acesso em 30 out.
2017.

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O nome das coisas 292

rearticularam para defender a legalidade do mandato de Dilma Rousseff.


Tais mobilizações surpreenderam em seu tamanho, indicando, assim, que o
impeachment não figurava como unanimidade entre as alternativas para sair
da crise.

A presidenta, por sua vez, também deu uma declaração sobre o fato,
Ainda hoje recebi com indignação a decisão do senhor
presidente da Câmara de processar pedido de impeachment
contra mandato democraticamente concedido a mim pelo povo
brasileiro. [...] Não possuo contas no exterior e nem ocultei do
conhecimento público a existência de bens pessoais. Não paira
contra mim nenhuma suspeita de desvio de dinheiro público.10

Tal declaração se fundamentava num confronto de biografias, o


interesse da presidenta era descreditar Eduardo Cunha como liderança
legítima para decidir sobre o processo de impeachment11. Dessa estratégia
decorreria o argumento amplamente mobilizado de que o processo havia
nascido corrompido em seus motivos. O discurso de Lula seguiu a mesma
linha argumentativa: de acordo com o ex-presidente, o ato de Cunha foi de
extrema irresponsabilidade, orientado exclusivamente por interesses
pessoais.

O movimento mais ousado e inesperado veio por parte de Michel


Temer. Poucos dias após a aceitação do pedido de impeachment, o vice-
presidente produziu uma carta à presidenta, vazada para a imprensa. O texto
trazia um forte tom de insatisfação e queixa pelo desprezo com o qual o vice
e seu partido, PMDB, foram tratados ao longo do mandato de Dilma
Rousseff. Nas palavras de Michel Temer, houve o cultivo de “absoluta
desconfiança” em relação ao próprio e ao PMDB por parte da presidenta e

10
DILMA diz estar "indignada" com pedido de impeachment. Disponível em: <
https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2015/12/02/dilma-de-diz-indignada-
com-pedido-de-impeachment.htm>. Acesso em 18 jun. 2017.
11
Houve severos conflitos entre governistas e opositores no processo de constituição da
comissão do impeachment na Câmara dos Deputados. Interpelado por parlamentares
governistas, o STF instituiu o rito do impeachment, definindo, assim, as regras que
deveriam ser seguidas.

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O nome das coisas 293

de seus assessores diretos. Desconfiança infundada, segundo ele, tendo em


vista as inúmeras provas de apoio que o PMDB e Temer deram ao governo.

A repercussão do vazamento da carta foi extensa e interpretada por


alguns aliados da presidenta como uma sinalização de Temer para os
adversários de que estaria fora do barco do governo. A estranheza e o
afastamento entre Dilma e seu vice, que vinha se arrastando desde o início
do semestre, aprofundou-se com a repercussão negativa que a carta trouxe.
O PMDB, fiel da balança no Congresso Nacional, parecia caminhar para a
oposição ou, no mínimo, para a ruptura com o governo, seguindo assim a
trilha do impeachment.

O recesso legislativo parecia ter abrandado a onda impeachmentista.


No entanto, o ano de 2016 traria uma sucessão de acontecimentos, todos
com ampla cobertura midiática, que levaram inevitavelmente à consolidação
do caminho do impeachment. Tais acontecimentos em retrospectiva
parecem evidenciar o enredo através do qual a narrativa do lulismo foi
sendo colocada em xeque.

Em meados de fevereiro de 2016, João Santana (marqueteiro da


campanha de Dilma) e Monica Moura (esposa e sócia) tiveram sua prisão
decretada pela operação Lava Jato. De acordo com o pedido de prisão, havia
indícios, conforme delações fornecidas por outros investigados, de que parte
do pagamento feito a Santana, por gastos na campanha de 2014, foi oriundo
de propinas de empresas envolvidas no esquema de corrupção da Petrobras.
Tal prisão colocava Dilma Rousseff no centro do escândalo. Ainda que a
presidenta pudesse responsabilizar seu partido pela arrecadação e pela
execução financeira, ela estaria implicada como beneficiária direta de tais
acordos. Além do mais, a prisão de João Santana dava novo fôlego à
denúncia, feita pelo PSDB ao TSE, de que houve abuso de poder econômico
na campanha à reeleição de Dilma.

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O nome das coisas 294

No início de março, ocorreu o fato decisivo que atingiu


frontalmente o lulismo: o ex-presidente Lula foi levado – por meio de
condução coercitiva – para depor à Polícia Federal sobre aspectos
relacionados à Lava Jato. Tal procedimento teve ampla repercussão
midiática, nacional e internacional: desde muito cedo, daquele dia 4, os
principais programas de TV e rádio cobriam a fase da investigação – que
tinha como alvo o ex-presidente, familiares e assessores. A definição de
uma etapa da operação dedicada a coletar informações sobre Lula acabava
por associá-lo diretamente ao escândalo da Petrobras. Após prestar o
depoimento e ser liberado, o ex-presidente fez pronunciamento no qual
atacou a decisão do juiz Sergio Moro de levá-lo para depor sob condução
coercitiva. Para Lula, tal medida era exagerada pelo fato de ele nunca ter se
negado a prestar esclarecimentos e porque ela revelava o interesse de
espetacularização da operação.

As reações de Lula e Dilma às supostas declarações de Delcídio do


Amaral – ex-senador pelo Mato Grosso do Sul e antigo líder do governo
Dilma no Senado e no Congresso Nacional – não estancaram a crise política
que parecia insustentável. A cobertura midiática evidenciava que o governo
parecia afundar cada dia mais na inabilidade de dar respostas à crise
econômica e estava de vez mergulhado na crise decorrente dos escândalos
de corrupção. O ataque direcionado às duas principais lideranças do lulismo
exigia, portanto, um esforço de união a fim de que o legado se mantivesse
de pé. Caso Dilma viesse a sofrer o impeachment, o lulismo poderia ser
jogado num limbo cujas marcas restantes seriam a do fracasso em realizar a
transformação social que tanto prometera e a de permitir a emergência dos
maiores escândalos de corrupção da história do país.

Numa última tentativa de dar novo fôlego à capacidade de


articulação política do governo junto ao Congresso Nacional e aos setores
da sociedade historicamente vinculados ao lulismo, Dilma Rousseff decidiu
nomear Lula para o ministério da chefia da Casa Civil, ocupado então pelo

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petista Jacques Wagner. A repercussão midiática foi intensa, os líderes da


oposição disseram que a nomeação do ex-presidente significava a renúncia
velada de Dilma, tendo em vista que Lula assumiria todo o poder de
articulação e negociação do governo, esvaziando assim o poder da
presidenta. Já os aliados defendiam a entrada do ex-presidente no governo,
afirmando que a boa relação de trabalho entre ele e Dilma poderiam
contribuir para que o país pudesse sair mais rápido do cenário de crise.
Outro fator que engrossou o debate sobre a nomeação de Lula envolvia o
argumento de que o convite teria ocorrido a fim de garantir foro privilegiado
ao ex-presidente, retirando, assim, as investigações que pesavam sobre ele
que estavam sob a responsabilidade do juiz Sergio Moro.

A imagem de Lula já estava com enorme desgaste. Especulava-se


se, de fato, o ex-presidente ainda teria condições de contribuir para mudar
os rumos no governo. No dia que ocorreu a confirmação de que Lula
assumiria a Casa Civil, vieram à tona diversos áudios de grampos
telefônicos feitos no período de investigação na operação Lava Jato. Entre
as conversas coletadas, uma ganhou maior destaque, por implicar
diretamente a presidenta. Nesse áudio, Dilma liga para Lula informando que
está enviando o termo de posse no ministério e que ele só deve assinar “em
caso de necessidade”. Para opositores, a fala da presidenta deixava claro que
o ex-presidente estava assumindo o ministério a fim de obter foro
privilegiado.

Tal interpretação da oposição colocava também Dilma sob a


suspeita de estar obstruindo a justiça, em virtude de usar a nomeação para
garantir foro privilegiado para Lula. O governo reagiu, questionando a
legalidade da divulgação de grampos da presidenta e apresentando a
justificativa de que era prática usual o ministro receber o termo de posse e
assiná-lo, quando há dúvidas de seu comparecimento na cerimônia. Esse
seria o caso de Lula, que poderia não participar em virtude de problemas de
saúde de sua esposa, Marisa Letícia. As respostas do governo não

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conseguiram conter a ebulição nos campos político, midiático e social. No


dia 17 de março – data em que também ocorreu a posse de Lula no
ministério – a Câmara dos Deputados elegia a Comissão que iria avaliar o
pedido de impeachment e indicar parecer sobre sua admissibilidade ou não.

Após a instauração da comissão na Câmara dos Deputados, o


processo de impeachment correu a passos largos. Em um mês, o parecer
favorável à admissibilidade estava sendo votado no plenário da Casa. O
governo havia somados todos os esforços para impedir que a oposição
conseguisse os votos necessários. Dilma, Lula e ministros ficaram toda a
semana anterior à votação em reuniões com bancadas a fim de garantir
votos contra ou dissuadir votos a favor. Realizada num domingo,
televisionada pelas grandes emissoras de TV do país, a sessão foi marcada
por um tom profundamente dissonante do protocolar. Marcado por discursos
parlamentares que não se referiam propriamente ao argumento jurídico do
impeachment, a votação se configurou numa derrota esmagadora do
governo (367 votos “sim” e 137 votos “não”). O processo de votação e o
resultado obtiveram repercussão nacional e internacional.

Encaminhado o processo para o Senado Federal, os articuladores


políticos do governo já consideravam como dada a derrota na comissão e no
plenário da Casa – o que era bastante negativo, pois traria como resultado o
afastamento temporário de Dilma Rousseff de suas funções como
presidenta. Estando a batalha por votos “perdida”, o governo intensificou
sua atuação na luta simbólica. A estratégia era enquadrar o processo de
impeachment como um golpe parlamentar, liderado pela oposição em
aliança com o vice-presidente e seu partido (PMDB), que conspiraram
contra a presidenta. O governo mobilizava a ausência de consenso jurídico,
sobre se de fato as pedaladas fiscais configuram crime de responsabilidade,
a fim de destacar que o processo de impeachment impetrado contra a
presidenta era exclusivamente político, sem base jurídica que o sustentasse.
Tal estratégia foi mobilizada inicialmente junto à mídia internacional, em

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virtude da compreensão de que a imprensa nacional é partidarizada e já teria


um lado na disputa sobre o impeachment.

A tese do golpe foi sendo construída aos poucos, inicialmente


embalada por sucessivos eventos de demonstração de força política do
governo, assim como de manifestações de rua contra o impeachment.

O primeiro evento realizado com vistas a mostrar o apoio ao governo


de Dilma Rousseff foi o ato “Pela Legalidade e em Defesa da Democracia”,
ocorrido em 22 de março de 2016. Contando com a participação de juízes,
promotores, advogados entre outros operadores do direito, o evento tinha
por intuito demarcar a importância do respeito à legalidade democrática. Tal
intento se voltava, sobretudo, como uma crítica à decisão do juiz Sergio
Moro de divulgar os áudios de conversas entre Lula e Dilma. O tom dos
discursos do evento foi dado por Flávio Dino, governador do Maranhão e
ex-presidente da Associação Nacional de Juízes Federais (Ajufe)12,

Estamos assistindo a um crescimento dramático de posições de


porte fascista representadas pela violência cometida por grupos
inorgânicos sem líderes e em busca de um fuhrer [expressão
alemã usada para designar um líder ou um chefe], de um
protetor. Ontem, as Forças Armadas. Hoje, a toga
supostamente imparcial e democrática.

Foi apresentado ainda o argumento de que o Estado Democrático de


Direito também estava sob ameaça. O porta-voz foi João Pedro de Sabóia
Filho, subprocurador da República, que disse: “Nós não vamos assistir de
braços cruzados à instrumentalização da Justiça, nem vamos assistir de
braços cruzados e permitir que façam com Dilma a mesma covardia que
fizeram com Getúlio Vargas”.

12
JURISTAS fazem ato em apoio a Dilma e 'em defesa da legalidade'. Disponível em:
<http://g1.globo.com/politica/noticia/2016/03/juristas-fazem-ato-em-apoio-dilma-e-em-
defesa-da-legalidade.html>. Acesso em 13 Jun. 2017.

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Uma semana depois, no dia 31 de março, foi realizado outro evento,


dessa vez com a presença de artistas e intelectuais. Intitulado “Encontro
com artistas e intelectuais em defesa da democracia”13, o evento explicitou a
disputa simbólica em curso. Os discursos dos participantes traziam
claramente a denúncia do golpe e do ataque à institucionalidade
democrática14. No mesmo 31 de março, ocorreram manifestações de rua
contrárias ao impeachment nas 27 capitais15. Tais eventos, além de
explicitar apoio popular à contrariedade do impedimento de Dilma
Rousseff, também contribuíam na estratégia da luta simbólica em curso. A
escolha da data havia sido definida em alusão ao Golpe Militar, ocorrido no
Brasil em 31 de março de 196416.

Articulada com as estratégias acima descritas, Dilma Rousseff


produziu outra frente de batalha com vistas a produzir o contraditório em
relação ao seu processo de impeachment: concedeu uma rodada de
entrevistas a correspondentes da imprensa estrangeira.

O porquê da arena internacional: uma estratégia firmada

Diante da falta de espaço no âmbito interno, o ponto central da


mobilização promovida por Dilma Rousseff – tendo como foco a mídia
internacional – era encontrar no cenário externo um espaço mais receptivo
para se colocar. “Governo precisa não só agendar um tema como romper a
espiral do silêncio que sufoca a opinião sobre a ilegalidade do

13
DILMA recebe no Planalto apoio de artistas contrários ao impeachment. Disponível em:
< http://g1.globo.com/politica/noticia/2016/03/dilma-recebe-no-planalto-apoio-de-artistas-
contrarios-ao-impeachment.html>. Acesso em 13 Jun. 2017.
14
Em rara aparição, Raduan Nassar discursa a favor de Dilma em Brasília. Disponível em:
< http://www1.folha.uol.com.br/poder/2016/03/1756085-em-rara-aparicao-raduan-nassar-
discursa-a-favor-de-dilma-em-brasilia.shtml>. Acesso em 13 Jun. 2017.
15
MOVIMENTOS sociais fazem atos contra impeachment nas 27 capitais. Disponível em:
< http://aovivo.folha.uol.com.br/2016/03/31/4677-3-aovivo.shtml>. Acesso em Acesso em
13 Jun. 2017.
16
ATOS contra impeachment tentam se colar a simbolismo do Golpe de 64. Disponível em:
<http://brasil.elpais.com/brasil/2016/03/31/politica/1459442075_584180.html>. Acesso em
13 Jun. 2017.

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impeachment” (ALBUQUERQUE, 2016). Havia, então, o desafio duplo de


dar nome ao golpe e também de fazer ressoar o posicionamento pela defesa
da democracia.

Nesse quadro, em grande parte, as dificuldades de Dilma se deviam


não somente à crise. Somava-se, à questão conjuntural, o histórico do
governo Dilma no campo diplomático que resguardava pouca atenção à
arena midiática, em franco antagonismo com o movimento praticado no
governo Lula17.
Dilma, por sua vez, precisava utilizar uma ferramenta da qual
nunca fez muito uso, ainda que a mobilização da mídia estrangeira em
disputas de poder não configurasse propriamente uma novidade. Se
conceitos como o da Diplomacia Pública e o da Diplomacia Midiática18
olham para esse movimento como parte de uma estratégia mais deliberada e
institucional de disputa, em uma pontuação que deve ser observada numa
relação de forças mais corporativa, Dilma desenhava antes um traçado mais
parecido com o feito pelos movimentos sociais. Acuada, com pouco poder
de agendar a mídia local, a estratégia de mobilização da mídia internacional
constituía chance ímpar de agendar um tema e romper uma abordagem.
Curiosamente, Dilma descobriria a importância da comunicação num fluxo
de “fora para dentro”, garantindo inclusive efeitos que estavam para além do
agenda-setting e da espiral do silêncio.

A mobilização de Dilma no cenário internacional chegou a


produzir manifestações institucionais importantes, dentre os quais
destacamos: a) uma carta assinada por deputados democratas, do Congresso

17
Houve um debate mais geral acerca da própria importância da diplomacia no governo Dilma, como
pode ser visto na matéria produzida pela BBC no contexto da saída de Antonio Patriota do Itamaraty:
“A diplomacia perdeu espaço no governo Dilma?”.
Ver: <http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2013/08/130826_diplomacia_dilma_pai_jf>. Acesso
em 30 out. 2017.
18
Gilboa (2007) apresenta as seguintes definições para os termos: Diplomacia Pública se refere aos
movimentos em que “os atores estatais e não estatais usam a mídia e outros canais de comunicação
para influenciar a opinião pública em sociedades estrangeiras” caracterizando-se por uma lógica de