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As ações coletivas interrompem a prescrição das pretensões individuais trabalhistas?

O tema em questão é bastante polêmico e possui bastante divergências doutrinárias.


Nesse humilde trabalho, a proposta é apresentar de forma mais simples e objetiva e sob um
panorama geral o enfoque do trabalho.

Inicialmente, adentrando no assunto objeto deste trabalho que é a


prescrição, cumpre apresentar as balizadas lições de Pablo Stolze Gagliano e Rodolfo
Pamplona Filho (2002, p. 476):
"Tradicionalmente, a doutrina sempre defendeu que `a prescrição ataca a
ação e não o direito, que só se extingue por via de conseqüência’. Nesse
sentido é a assertiva de Carvalho Santos: `Tal prescrição pode definir-se
como sendo um modo de extinguir os direitos pela perda da ação que os
assegurava, devido à inércia do credor durante um decurso de tempo
determinado pela lei e que só produz seus efeitos, em regra, quando invocada
por quem dela se aproveita`. Mas, tal assertiva, data vênia, ampara-se em
fundamento equivocado. O direito constitucional de ação, ou seja, o direito
de pedir ao Estado o provimento jurisdicional que ponha fim ao litígio, é
sempre público, abstrato, de natureza essencialmente processual e
indisponível. Não importando se o autor possui, ou não, razão, isto é, se
detém ou não o direito subjetivo que alega ter, a ordem jurídica sempre lhe
conferirá o legítimo direito de ação, e terá, à luz do princípio da
inafastabilidade, inviolável direito a uma sentença. Por isso, não se pode
dizer que a prescrição ataca a ação!"1

Tem-se, pois, que a prescrição é o instituto jurídico, de direito material, que extingue
a pretensão relativa a determinado direito após o decurso do lapso temporal fixado em lei.
Pois bem, feitos esses registros, cumpre analisar o tema proposto.

Em relação à pretensão sobre direitos coletivos, Carlos Henrique Bezerra


Leite defende que deve ser aferida a disponibilidade ou indisponibilidade dos interesses
materiais deduzidos judicialmente. Se o interesse for disponível, incide a prescrição; se
indisponível, não há incidência da prescrição.

Argumentando que é necessária a inércia do titular e o decurso do tempo para a


caracterização da prescrição, Adriano Sant’Ana Pedra, por sua vez, defende que a pretensão
relativa a direitos e interesses difusos e coletivos é imprescritível, uma vez que a falta de
exercício do direito não pode ser atribuída à inércia do titular, já que esse não tem
legitimidade para defendê-los. Assim, a pretensão sobre direitos difusos e coletivos (sejam
esses disponíveis e indisponíveis) seria imprescritível; enquanto que sobre direitos individuais
homogêneos haveria incidência da prescrição, uma vez que o titular do direito tem poder e
legitimidade para agir.2

Nesse mesmo sentido é o entendimento de Raimundo Simão de Melo, que defende a


imprescritibilidade da pretensão relativa a interesses e direitos difusos e coletivos sob o
fundamento de que eles "pertencem às pessoas indeterminadas ou apenas determináveis no

1
GAGLIANO, Pablo Stolze; PAMPLONA FILHO, Rodolfo. Direito Civil. Parte Geral. São Paulo: Saraiva,
2002, p. 476.
2
PEREIRA, Ricardo José Macedo de Britto. Breves considerações sobre a interrupção da prescrição
trabalhista. Revista do Ministério Público do Trabalho, Brasília, n. 9, p. 54, mar. 1995.
seio da sociedade, tendo como características marcantes a indivisibilidade, a
indisponibilidade, a essencialidade e a ausência de conteúdo econômico".3

Entendemos que essa última corrente mostra-se mais consentânea com os princípios
processuais que regem o instituto da prescrição. Não há como se reconhecer a
prescritibilidade dos direitos coletivos, uma vez que, não sendo possível a sua tutela
individual, os seus titulares ficam a depender da atuação dos legitimados extraordinários, não
podendo arcar com o ônus da inércia ou mesmo da atuação retardada desses.

Portanto, e em face das particularidades e especificidades dos direitos


metaindividuais, a pretensão relativa a direitos e interesses difusos e coletivos (sejam esses
disponíveis e indisponíveis) é imprescritível. Já a pretensão relativa aos direitos individuais
homogêneos, prescritível.

Diante dessas conclusões, e em relação aos interesses e direitos individuais


homogêneos, cumpre analisar o momento processual adequado para a argüição e declaração
da prescrição.

A análise dessa questão deve partir do disposto no art. 95 do Código de Defesa do


Consumidor, "in verbis":
"Art. 95. Em caso de procedência do pedido, a condenação será
genérica, fixando a responsabilidade do réu pelos danos causados."
(destaques acrescidos).

Nas ações coletivas, portanto, a condenação é genérica e o réu é responsabilizado


pelos danos e prejuízos causados, e não os sofridos. Isso corresponde a um novo enfoque da
responsabilidade civil e significa que, uma vez procedentes os pedidos formulados na ação
coletiva, é fixada a responsabilidade genérica do réu pelos danos e prejuízos decorrentes de
sua conduta, cabendo aos lesados apenas a liquidação dos respectivos danos e a posterior
execução, o que facilita sobremaneira a reparação, na medida em que na liquidação e
execução não se discute mais a responsabilidade do réu pelos danos, que já foi determinada e
tornada certa pela sentença proferida na ação coletiva, discute-se apenas o "quantum
debeatur".

Como nas ações coletivas se discute o direito de todo o grupo, classe ou categoria de
pessoas em abstrato, sem individualização dos substitutos e independentemente de
autorização destes, não há como delimitar nas respectivas sentenças o "quantum" devido a
cada uma dessas pessoas em particular. Se assim não fosse, restaria frustrada a própria
finalidade das ações coletivas, bem como suas principais vantagens: a socialização (função
social), democratização e a efetividade do processo.

Diante desse quadro, e tendo em vista a condenação genérica, é evidente que o Juiz
não dispõe de dados suficientes para declarar a prescrição na sentença que proferir, até porque
muitas vezes incidirão no caso concreto e em favor de determinado(s) substituído(s) causas
impeditivas e suspensivas da prescrição ou, ainda, causas que interrompem o prazo
prescricional. E isso decorre do fato de muitas das causas impeditivas, suspensivas e
interruptivas da prescrição não se comunicarem, ou seja, não beneficiarem outros
substituídos, senão aqueles que se enquadrarem nas respectivas hipóteses legais (arts. 197 a
204 do Código Civil, art. 440 da Consolidação das Leis do Trabalho, entre outras).
3
Idem.
Um exemplo esclarecedor é a situação do trabalhador menor de 18 anos, contra o
qual não corre nenhum prazo de prescrição, conforme o art. 440 da Consolidação das Leis do
Trabalho. Assim, se o trabalhador menor for beneficiário de uma determinada ação coletiva,
não haverá prescrição a ser declarada, muito embora possa ocorrer de a pretensão de outros
substituídos restar prejudicada (total ou parcialmente) pela consumação da prescrição.

Dessa forma, a mesma pretensão, veiculada no mesmo processo, poderá restar


prescrita para uns substituídos e não prescrita para outros, a depender da situação particular e
específica de cada um deles.

Portanto, em se tratando de ações coletivas referentes a interesses e direitos


individuais homogêneos, a prescrição deve ser analisada após o julgamento da ação, mais
precisamente quando da liquidação e execução da sentença pelos substituídos, considerando a
situação particular e específica de cada um deles.

Referências bibliográficas

GAGLIANO, Pablo Stolze; PAMPLONA FILHO, Rodolfo. Direito Civil. Parte Geral. São
Paulo: Saraiva, 2002, p. 476.

PEREIRA, Ricardo José Macedo de Britto. Breves considerações sobre a interrupção da


prescrição trabalhista. Revista do Ministério Público do Trabalho, Brasília, n. 9, p. 54, mar.
1995.