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Estrutura cheia de planos, amontoamento de espectadores.

Os atores vão recebendo o público com cumprimentos e etc. e ajudam o público a se


espalhar na estrutura. EDU tem uma garrafa de vinho na mão e assim que o público
entra, começa a servi-los, ainda em silêncio. AFONSO tem uma câmera, e vai tirando
fotos – fotos para nunca se esquecer.

EDU (depois de um tempo. Continua servindo o público)


Boa tarde (boa noite, enfim...). Sejam bem-vindos ao início do fim, ou aquilo
que restou de antes. Esses são os últimos momentos de alguma coisa, alguma coisa eu
vou deixar de existir. Esse momento começa com o nosso reconhecimento. Bem, eu
sempre fui uma criança guarda-chuva, uma criança capa de chuva, uma criança
moletom, (-----) uma criança que só tomou ponto aos 24 anos, que quebrou o pé aos 27.
Meu primeiro beijo não foi aos 14 anos, minha primeira transa não foi aos 17, meu
primeiro emprego não foi aos 20. Eu sempre achei que tivesse que ter mais ousadia.
Sempre me faltou coragem pra escrever cartas de amor pra quem quer que fosse, sempre
me faltou... Sei lá. Parece que demorei tanto tempo pra começar e agora já tá no fim. O
mundo acabou mesmo antes de eu começar. Aqui estão algumas coisas que eu
colecionei durante algum tempo, mas que não uso... (Listar). O objeto só evoca a coisa,
mas nunca reconstitui a memória. Eis a minha dificuldade em me desfazer das coisas.
Eu tenho essa mania de fazer planos pruma vida inteira e não conseguir ir até a página
dois. É como se eu fosse um multiarquitetador de ideias não realizáveis. Me pergunto
quando foi que o embrutecimento tornou as relações de convivência padronizadas e
meramente éticas. As utopias precisam das relações humanas ou as relações humanas
precisam das utopias? Olhem nos olhos um dos outros. Saúde!

NARA
Essa não sou eu. Nunca foi. Não importa. Não me faz diferença. Existe uma
constante em mim, uma constante de fugas disfarçadas. Eu me mascaro. As minhas
máscaras são sinceras quando eu realmente me mostro, me permito, me deixo ser o ser.
E não ser o corpo. Não ser o cabelo. O enclausuramento dentro desses padrões da
sexualidade, da beleza estética, da organização familiar me fizeram perceber que eu
tenho medo da liberdade. Já deixei de muita coisa por isso. Até que resolvi explodir a
liberdade. Coloquei 20 kilos de TNT e taquei fogo, pra ver se no caminho, eu encontro
pedacinhos dela. / Eu sempre quis expressar isso de um jeito muito piegas, e então eu
pensei em muitas coisas, mas essa música foi a que mais me tocou. (Canta “Chegadas e
partidas”) Isso não é um monólogo sobre mim e a minha dificuldade de falar com você.
Eu tô intacta aqui. Todos saltaram, se jogaram no abismo e eu tô inteira. Descansada.
De rosto limpo. Tô aqui ainda. Vocês me veem. Isso é real. Mas não adianta. É uma
pena. Mas de mim vocês não vão arrancar nada. É assim que eu me despeço. Sozinha e
sem ter contado tudo que deveria. E vocês, sem ter dito. Passamos tanto tempo juntos
aqui e você não me disse nada. E eu também, fiquei aqui falando sem ter dito. É, sem ter
dito. Eu disse tantas coisas! Construí tantas frases! É assim que eu me entrego, ou pelo
menos como consigo me entregar. Deixando pedacinhos de mim em lugares que eu
quero. Até hoje eu sonho.