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Acompanhando, pela sua posição estratégica, o consolidar do reino de Portugal

nos seus primeiros momentos, a situação da Guarda no conjunto dos concelhos


portugueses viu-se concretizada logo a partir dos finais do séc. XII, ao ser agraciada
com carta de foral e elevação a bispado, que a sua dimensão e população talvez não
justificassem. Ao longo do tempo, a necessidade de ali manter um ponto estratégico
forte justifica que para ali se conduzam recursos, pessoas e importância. Já no séc. XIV,
um couto de homiziados é ali instituído, refletindo a necessidade constante de ali atrair e
fixar população.

Esta aspeto de importância estratégica é crucial para compreender que existe na


consolidação da Guarda enquanto centro populacional um especial esforço da Coroa,
mais interventiva que em outros concelhos que tinham a sua economia local e
população já estabelecidas. Progressivamente esse esforço fará o seu efeito, e a cidade
ganhará a sua importância própria; como nos diz Maria Helena da Cruz Coelho: "De
facto, se a Guarda perdeu o seu papel de primeira linha defensiva no campo militar,
ganhou em centralidade administrativa, passando a dominar uma área mais vasta que o
concelho e seu termo. Nela se acumulava a cabeça de uma comarca, a da Beira, e a sede
de um almoxarifado. Além disso, transformada desde há muito em civitas episcopal, a
sua centralidade burocrática dobrava-se também de uma outra de natureza eclesiástica".

Do facto de a cidade ser de alguma forma construída a partir da importância que


lhe é dada, quer militarmente, quer administrativamente, quer na forma eclesiástica,
expressa na atribuição de cargos militares, de justiça e escrita, e do clero, nasce uma
especial tensão no eixo cidade/campo: "Em consentâneo o peso desta elite dirigente
adensou-se sobre os vizinhos da cidade e oprimia mesmo os lavradores do termo
concelhio".

Será essencialmente neste eixo de tensão cidade/campo, que é simultaneamente


elites/povo, e administração central/território, que parte maior dos problemas do
concelho serão levados às Cortes, em forma de agravos ou capítulos. A cidade vivia e
necessitava a sua centralidade administrativa, mas ao mesmo tempo era dos abusos e
desrespeitos daqueles que detinham cargos que teria a ameaça aos seus habitantes.

As queixas vão-se estender aos principais atores: oficiais e juízes régios, alcaide-mor,
coudéis e anadéis, bispos e cónegos… E são sobretudo de abusos e desrespeitos à coisa
pública, ao concelho. Em qualquer das expressões de poder: desrespeito por coutadas de
pastagens; oneração dos vizinhos com custos de inquirições; abusos de juízes, indicados
pelo rei, e ausência do privilégio de os eleger; imposições de ordem militar, aos
acontiados e besteiros, que não atendiam às suas necessidades; abusos da condição
eclesiástica com vista a eximir-se de obrigações concelhias; incumprimento de
portagens e leis que regiam os aspetos económicos (desrespeito pela proibição de
consumir vinho vindo do exterior, por ex.); imposição de impostos e fintas por excessos
de despesa; a progressiva senhorialização da vida concelhia, por "cavaleiros, escudeiros,
donas, clérigos e ordens", desrespeitando direitos consuetudinários, comprando bens no
concelho, e excluindo-se da jurisdição concelhia; etc…

Na apresentação das queixas se mostrará também a clivagem que existe entre as


elites e o Terceiro Estado... São na verdade membros das elites que representam em
geral o concelho, e chegará um momento em que irá simultaneamente uma segunda
representação em Cortes, dos lavradores, e do povo da cidade e do seu termo… O poder
real jogará também aqui com argúcia. Convém-lhe de sobremaneira manter o controlo
administrativo, militar e eclesiástico sobre a sua mão, e terá sempre em relação aos
membros mais fracos da equação uma postura pouco clara. Não se pode deixar de notar
que a apresentação de queixas em Cortes pelo Concelho da Guarda é de especial
relevância em número, pelo que podemos pensar que ali haveria uma maior expressão
destes problemas entre as elites e o Terceiro Estado.

Como refere Maria Helena da Cruz Coelho: "Assim acontecia na Guarda. As


elites mandam e decidem. Querem um mando livre de interferências e abusos dos
poderes que lhe são concorrenciais, do régio ao senhorial e episcopal. Se por vezes com
eles se aliam ou conluiam, se não mesmo os percorrem, no exercício dos seus cargos
municipais desejam deter a máxima autoridade e um efetivo mando. Porque só assim
tinham garantias de gizar e impor uma política a seu contento."