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Kinoglasnost: Soviet Cinema in Our Time

Anna Lawton

CUP Archive, 1992

9 – Filipp Ermash tornou-se presidente da Goskino (1972-86) em decorrência de suas


ligações com o entourage de Brezhnev – Andrei Kirilenko. Já possuía a cadeira no
Departamento da Cultura do Comitê Central.

10 - O direcionamento do plano quinquenal para o consumo (1971-75) favoreceu o


desenvolvimento da cultura de consumo, que foi aburguesada. A Goskino de Ermash
rapidamente direcionou a indústria do cinema para os filmes comerciais, para satisfazer
ao público e gerar lucro ao Estado. Os ideais socialistas não foram completamente
descartados. O resultado foram filmes como Moscou não acredita em lágrimas, que
foram aplaudidos pelas massas, pelos ideólogos do partido e por Hollywood. 10 – a
própria VGIK estabeleceu um ranking dos tópicos com maior apelo popular:

1) “Tema contemporâneo;
2) Produção russa (em oposição a outras repúblicas);
3) Adaptação de um livro popular;
4) Tempo acelerado;
5) Continuidade (sem flashbacks);
6) Simplicidade;
7) Espetacular (efeitos espetaculares, cenas com multidões e figurinos);
8) Personagens conduzidos de maneira ativa e atrativa;
9) Título apelativo.”

“Adicionando sexo e violência e substituindo “americano por “russo” no item número 2,


esta lista poderia ser usada para caracterizar muitos dos sucessos de bilheteria nos
Estados Unidos nas últimas décadas. De fato, Ermash era conhecido como um
admirador da indústria cinematográfica de Hollywood” [Lawton e Youngblood são
representantes dos revisionistas que pensam o cinema soviético como similar ao
americano, ou ao menos em comparação a este].

Institucionalmente, existiam pressões contrárias entre a Goskino e o sindicato – um


exigindo filmes comerciais, o outro, liberdade artística e maior descentralização. O
sindicato, no entanto, era passivo.

11 – nos anos 1970, tanto o chefe da Mosfilm, Nikolay Sizov, quando o chefe do
departamento de roteiros, Leonid Nekhoroshev, apesar da imagem de intelectuais, eram
membros do partido muito bem relacionados.

Filmes comerciais eram desprezados pelos cineastas, chamados de filmes “cinzentos”.


Eram vistos como pouco sofisticados, de baixo nível técnico, com tramas previsíveis.
No entanto, os filmes “mais medíocres” muitas vezes mas nem sempre eram os mais
populares.

22-23 – emigração judia, de 51 mil em 1979 para 896 em 1984.

24 – “Diretoras são bastante escassas no cinema soviético (como qualquer outro).


Mulheres educadas da sociedade soviética atingiam um confortável emprego de nível
médio gerencial mas raramente admitidas a comandar o topo de qualquer
estabelecimento industrial, cultural ou político. Na indústria cinematográfica havia
muitas mulheres editoras, figurinistas, maquiadoras e atrizes, mas poucas diretoras”.

Aprendendo um novo jogo: khozraschet

70 – durante o V Congresso dos cineastas, em novembro de 1988, o Pravda relacionou


de maneira positiva a nova gestão de Klimov à frente dos sindicatos com as reformas
econômicas e politicas: o novo modelo deveria privilegiar a iniciativa criativa e o
autofinanciamento. “O fundamento do Novo Modelo era baseado em uns poucos
simples princípios: liberdade de expressão, descentralização gerencial,
autofinanciamento econômico, livre mercado”.

71 – a transição econômica não foi rápida. A burocracia encontrava maneiras de


contornar a descentralização e privatização. Em 1988 o V Congresso queixava-se de
que a Goskino continuava a controlar boa parte dos fundos do cinema.

O documento do II Plenum do sindicato para as reformas no setor, Um modelo e


estrutura de cinematografia: princípios básicos e mecanismos, ou Modelo Base, de
janeiro de 1987, sofreu alterações na primavera de 1988 e novamente no Conselho dos
Ministros em junho de 1989, quando foi renomeado como Perestroika na cinegrafia,
quando a privatização ganhou impulso.

Reestruturando os estúdios

72 – renovou-se as associações criativas (tvorcheskie obedieniia), ou unidades de


produção, criadas ainda nos anos 1960. Havia o choque entre diretores artísticos que
desejavam “poder ditatorial” e as associações, controladas por funcionários ou
profissionais ligados à Goskino.

Estúdios pequenos possuíam em média duas ou três associações. Os grandes, dez. a


Mosfilm, com seus 4 mil funcionários, possuía 11. As associações eram organizadas
segundo a base temática e o gênero dos filmes. Parte de seu corpo era indicada, e outra,
eleita.

Bondarchuk era o chefe da associação Tempo ou Primeira Associação, que cuidada das
adaptações literárias e temas históricos. Por pertencer à direita e se opor às reformas, foi
excluído de seu posto. Seu prestígio o manteve no estúdio.

73 – a associação União permaneceu com os mesmos membros por 20 anos.


Comandada por Naumov e Alov, cuidava de filmes artísticos, incluindo O espelho
[Tarkovsky dependia dos dois]. Zelava pelos padrões do cinema moderno.

Filmes para a TV [Soldados da liberdade] eram produzidos nos estúdios de cinema. A


Associação dos filmes televisivos eram encabeçada por Sergei Kolosov.

A associação Juventude, para filmes infantis, era chefiada por Rolan Bykov [o
compreensível comandante – e o oposto do rígido politruk Petushkov – Lokotkov de
Julgamento na estrada].

O conselho artístico do estúdio ocupa as funções do financiamento e administração.


Ocupando o lugar do produtor.

76 – as indicações para diretor artístico e diretor, que antes precisavam passar pelo
comitê do partido, o Collegium e o Secretariat, agora eram inteiramente decididas pelas
associações por meio de contratos.

Isso permitiu a associação de grandes estúdios, cooperativas independentes e


associações para a consecução de filmes privados.

A meta do governo é que filmes privados ou o sistema de autofinanciamento já


estivesse implantado em janeiro de 1988. O que era irrealista. O sistema só se implantou
inteiramente no começo de 1990.

No II Plenum, as relações eram com o passado: o estúdio criativo experimental de 1963,


em consonância com as reformas de Kosyngin. Dizia-se que o Novo Modelo era sua
continuação.

77 – seus defensores no Plenum diziam que as carestias provocadas pelo gerenciamento


estatal acabariam com o livre mercado. Para que Chukhrai tivesse seu estúdio, foi
necessária a autorização do Concelho dos Ministros da URSS. Chukhrai, diretor
artístico, Konstantin Simonov chefe do departamento de roteiros, Vladimir Pozner
como diretor executivo. As instalações continuavam sendo jurisdição da Goskino, e em
todos os demais assuntos o estúdio era independente. Chukhrai:

“Os princípios de nosso novo sistema são os mesmos daqueles introduzidos hoje nos
mais dispares setores da economia: khozraschet, avaliação do trabalho de acordo com os
resultados, pagamento em relação com a carga de trabalho”. Em acréscimo, ele
salientou o ponto que era o centro da atual perestroika: “Nós não tínhamos quaisquer
recursos financeiros, exceto pelas receitas da distribuição de nossos filmes”,” que eram
em média 3 milhões de rublos a mais que em filmes estatais. O sistema meritocrático
teria sido acusado pelos demais diretores e estúdios, abaixo do nível de produção e de
lucros.

78 – a censura de The beginning of an unknown era, de 1967, levou a Filipp Ermash ,


chefe da Goskino, a fechar o estúdio experimental em 1972. Chukhrai, durante a
perestroika: o tempo de Brejnev não o inspirava. “Mas o problema não era apenas com a
época, era também comigo... Eu não quero ser percebido como uma vítima do sistema, e
de fato eu não fui uma vítima. Eu estava em uma constante luta com o sistema, e aquele
que luta acerta e é acertado. Isso é normal”

A partir de 1988 o estúdio e associações criativas recebiam da Goskino o financiamento.


Um ano após a estreia no cinema, deveriam devolver o valor financiado e ficar com o
lucro para novos filmes e melhorias técnicas e estruturais. O fim total do financiamento
estatal estava previsto para poucos anos. No entanto, o financiamento inteiramente
privado já estava disponível com a Lei das Cooperativas, de 1 de julho de 1988.
Cooperativas de produção e distribuição surgiram no país.

79 – os ministérios tentaram agir contra o fim do financiamento estatal ainda em 1988,


mas não conseguiram.

A Associação de Cinema Independente (ANK) foi registrada pelo Conselho da


prefeitura de Moscou em maio de 1990. Ela reunia outras 55 organizações (78 até junho
de 1990) de produção e distribuição. As pequenas cooperativas se reuniram e
escolheram um corpo de diretores vindos do ramo: Sergei Solovev, Nikita Mikhalkov,
Vasily Pichul, Yuri Kara.

80 – Lei de Empresas Estatais de 1987 – os estúdios poderiam negociar acordos


comerciais internacionais sem passar por canais e controles estatais, destruindo o
monopólio da Sovexportfilm dentro e fora do país. A porta para ofertas estrangeiras,
coproduções e joint-ventures estava aberta. A euforia inicial de coproduções resultou
em um número concreto muito menor até o fim de 1989.

83 – a Mosfilm decretou sua total separação da Sovexportfilm e transformação em


empresa privada em maio de 1990 e elegeu seu diretor, Vladimir Dostal, também seu
representante junto ao distribuidor nos EUA. A Sovexportfilm entrou com uma ação
contra a apropriação dos direitos sobre os filmes do estúdio, e a Goskino deliberou que
a Mosfilm possuiria apenas os filmes produzidos a partir de 1988.

Enquanto isso, a Goskino procurava manter o controle sobre a oferta de filmes no


mercado interno do país, com a manutenção do Conselho Principal de Distribuição de
Filmes, que decidia valores de ingressos, número de cópias e sua distribuição geográfica
para os cinemas – o que poderia ser usado com fins políticos. O que começou a mudar
no fim de 1988, com a decisão dos conselhos (sovietes) das repúblicas, regiões e
cidades decidirem que filmes exibir. O que, no entanto, não se produziu na realidade. A
partir de 1990, equipes de especialistas (sociólogos, críticos, acadêmicos, diretores de
cinema, distribuidores) se reuniam nos estúdios para deliberar preços, a exibição de que
filmes em que regiões de acordo com a possibilidade de lucros.

184 – a Goskino estabeleceu 154 organizações de cinevideo (KVO) para representar os


sovietes que possuíam teatros, que acabaram se aliando com a AKP para tentar impor
um novo monopólio da distribuição. Segundo o Sindicato dos Cineastas, “isso seria
indubitavelmente um duro golpe na liberdade criativa e na independência econômica
que estava apenas nascendo em nosso cinema, o que irá novamente colocar nossa
cinematografia em um estado de humilhante dependência para novo “centro”, e
permitirá aos distribuidores favorecer filmes estrangeiros importados às expensas de
nossa produção nacional”. Quando o Estúdio Gorki tentou quebrar o monopólio,
negociando diretamente com os teatros, foi posto na lista negra da AKP e impedido de
pôr seu produto no novo mercado.

85 - Os distribuidores, unidos aos novos bancos privados, procuraram controlar também


a publicidade e desregulamentar os preços dos ingressos. Por meio do mercado negro,
apoderavam-se dos ingressos para revende-los por preços maiores, ou atuavam
criminalmente, com intimidações e violência contra os pequenos distribuidores
privados, lançados para fora do negócio.

Alguns cinemas, apesar de apresentarem cartazes de filmes soviéticos, não vendiam


seus ingressos, reservando seu espaço para os lucrativos filmes americanos. Algumas
cidades não viram o produto nacional por anos.

86 – durante as primeiras feiras livres, em 1990, o produto estrangeiro massacrou as


vendas dos filmes soviéticos, especialmente o das republicas e outros países do
moribundo bloco soviético. A impressão geral era a da futura morte do cinema soviético
com a total desregulamentação. Apenas filmes produzidos nos moldes americanos
conseguiram atrair o público.

87 - Alguns diretores que clamavam pela desregulamentação como necessária para os


filmes de arte aos quais se dedicavam, como Yuri Kara, rapidamente passaram a
produzir filmes americanizados, nada artísticos.

90 – A ANK procurou obter até parte do sistema educacional voltado para o cinema, ao
tentar abocanhar a VGIK.

Khozrschet teve efeitos psicológicos diversos na população. Boa parte dela, os setores
conservadores, a burocracia, viam o retorno do NEPman, da usura, do trabalho fácil
recebendo mais do que o trabalho assalariado, e seus bolsos sendo esvaziados – o que ia
tanto contra a moral soviética como a mentalidade camponesa.