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08/04/2018 Vidas desiguais na cidade de São Paulo - Le Monde Diplomatique

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CAUSAE MORTIS DIFERENTES NO CENTRO E NA PERIFERIA

Vidas desiguais na cidade


de São Paulo
ACERVO ONLINE | SÃO PAULO

por Henrique S. Xavier, Raphael Ximenes e Sérgio Helene

Abril 4, 2018

Imagem por Lucas Lima 91

Dados publicados pela Rede Nossa São Paulo sobre a


desigualdade territorial entre os distritos da cidade de São
Paulo trazem resultados estarrecedores

A desigualdade é uma característica das relações sociais e políticas


contemporâneas em diversos países do mundo. Contudo, o Brasil tem se
destacado nesse cenário mundial como sendo um dos países com uma

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histórica desigualdade interna cujas consequências atingem todo o


território em diversas escalas. Se há cerca de trinta anos o Brasil teve a
pior desigualdade social e econômica de todo o mundo, hoje ainda
estamos entre os dez mais desiguais em um conjunto de 140 países.[1] As
consequências dessa desigualdade interna podem ser percebidas de
modo direto na distribuição de renda e, também, em todo o universo de
indicadores sociais, apontando o sofrimento humano ao qual setores
sociais e bairros inteiros são conduzidos.

Em nosso país, os resultados das análises de dados estatísticos em


escalas nacional, regional ou local sempre apresentam essa marca da
falta de equidade. Conforme veremos abaixo, a análise espacial
comparando dados de diferentes regiões de uma cidade mostra que os
resultados dessa desigualdade levam uma expressiva parte da população
a viver em condições muito precárias. E revelam, também, que há
regiões onde a maioria dos habitantes está diariamente exposta a tal
precariedade e há um longo período, alterando, assim, indicadores
fundamentais, como a expectativa de vida.

Os dados publicados em 2017 no estudo desenvolvido pela Rede Nossa


São Paulo sobre a desigualdade territorial entre os distritos da cidade de
São Paulo trazem resultados estarrecedores. Uma das desigualdades
mais marcantes percebidas nessa comparação foi a inaceitável diferença
de quase 24 anos entre as expectativas de vida dos sete distritos melhor
e pior colocados. Os moradores dos bairros de periferia Anhanguera,
Cidade Tiradentes, Grajaú, Iguatemi, Jardim Ângela, Parelheiros e São
Rafael vivem cerca de 52 anos. Já os moradores dos bairros ricos Alto de
Pinheiros, Consolação, Itaim Bibi, Jardim Paulista, Moema, Pinheiros e
Vila Mariana vivem, em média, 76 anos. O fato da população nesses sete

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bairros periféricos ser, segundo o censo de 2010 do IBGE, de 1,3 milhão


de pessoas (2,4 vezes maior que nos sete bairros ricos) evidencia que a
vida longa é para poucos.

Como essa diferença gigantesca se materializa na vida (ou morte) das


pessoas? Através de quais causae mortis a enorme desigualdade social
brasileira suprime o direito à vida da população mais pobre? Os dados
do período de 2002 a 2015 do Programa de Aprimoramento das
Informações de Mortalidade no Município de São Paulo, coordenado
pela Secretaria Municipal de Saúde (SMS), encontram-se condensados
no infográ co abaixo, que mostra os anos de expectativa de vida que são
perdidos para cada causa de morte, indicadas pelas diferentes cores.
Esses anos perdidos devidos a uma certa causa foram calculados
tomando a distribuição de óbitos (por idade e por causa mortis) dos
bairros ricos como referência ideal e contabilizando a perda de anos na
expectativa de vida quando parte dessas pessoas passam a falecer, pela
causa analisada, com as mesmas idades e mesma frequência que as
observadas nos bairros pobres.[2]

O comprimento da barra colorida representa cumulativamente a


diferença em anos entre as expectativas de vida dos bairros ricos e dos
bairros pobres, cujo valor pode ser veri cado na escala horizontal do

grá co. A barra é segmentada de acordo com as contribuições


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associadas a cada causa mortis. Por exemplo, a maior incidência de


violência nos bairros pobres reduz a expectativa de vida em 4,58 anos
em relação aos bairros ricos, enquanto a morte prematura por doenças
cardíacas nos bairros pobres resulta em 4,25 anos a menos de vida, em
média, quando comparado aos bairros ricos. Ao nal, levando em conta
todas as causas, a diferença total na expectativa de vida é de 23,8 anos.

A mortalidade infantil, que corresponde a todos os óbitos de crianças


com menos de um ano, é 7,4 vezes maior na periferia do que nos bairros
mais ricos, o que acarreta em quase 5 anos a menos na expectativa de
vida. Já as mortes causadas por infecções e parasitas são 85% mais
frequentes nos bairros pobres, o que usualmente está relacionado com a
falta de saneamento básico, serviços públicos de saúde e outras ações
preventivas. Dentre as mortes causadas por doenças, os dados da SMS
mostram que uma grande vilã são as doenças cardíacas, que afetam uma
quantidade grande de pessoas, independentemente da classe social. A
diferença, porém, é que infartos e problemas de hipertensão matam
mais cedo nos bairros pobres, provavelmente por falta de prevenção e
tratamento adequados, além de alimentação inadequada e sedentarismo.
Entre os mais ricos, as doenças cardíacas levam a óbito apenas em
idades avançadas, quando nossas limitações naturais não podem mais
ser postergadas. Essa morte prematura por doenças é o panorama típico
da maioria das mortes na periferia relacionadas à saúde. Juntando todas,
elas são responsáveis por 17 anos a menos de vida, ou seja, cerca de dois
terços dos anos de vida roubados dessa parcela da população.
Presumivelmente, boa parte dessas mortes deve-se à falta de
acompanhamento pré-natal e ciente das jovens mães, insu ciência no
atendimento de saúde da população, saneamento básico precário, falta
de leitos hospitalares etc. Em resumo, diversas negligências do setor

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público. De acordo com o estudo da Rede Nossa São Paulo, os sete


bairros mais pobres têm, em média, 0,38 leitos hospitalares por 1.000
habitantes, Cidade Tiradentes é a melhor dentre os piores, com 1,11;
enquanto na outra ponta o distrito da Consolação apresenta índice igual
a 33,65 e a média dos bairros ricos é de 17,44 por 1.000 habitantes, 45,68
vezes maior que a média dos sete bairros mais pobres. A recomendação
da OMS é ter de 3 a 5 leitos para cada mil habitantes. Aqui vale lembrar
que desde 2005 a saúde pública vem sendo privatizada no município de
São Paulo e o sistema público de saúde está sob responsabilidade das
Organizações Sociais de Saúde (OSS), que mesmo com o crescente
aumento de verba destinado a elas (R$2,4 bilhões em 2012 e R$4,9
bilhões em 2017), continua apresentando muitos problemas, tal como a
falta de pro ssionais para atendimento da população, falta de
medicamentos e de materiais, evidenciando que a privatização da saúde
não é solução. E claro, impactando, como podemos ver neste estudo, na
expectativa de vida daqueles usuários do sistema de saúde que não
possuem outra opção a não ser esperar o atendimento de saúde
gratuito.

As demais causas apresentadas no infográ co são chamadas de “Causas


Externas” no jargão médico e totalizam quase sete anos de vida a menos
nos distritos mais pobres. Dentre elas, a violência causa a maior perda
de anos de vida, não só pela alta incidência na periferia quanto por
afetar especialmente os jovens. Nesse pacote estão inclusos os óbitos
classi cados como “homicídio”, “lesões de intenção indeterminada” e
“intervenção legal” (i.e. resultante da intervenção da polícia),
contribuindo, respectivamente, com 3,93, 0,49 e 0,16 anos de diferença
na expectativa de vida. As mortes por homicídio são catorze vezes mais
frequentes na periferia, e as mortes por intervenção legal, dez. Ambas

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decorrem, em última instância, de diversas condições precárias – como


na educação, na renda e no trabalho – que fragilizam e expõem a
população mais pobre, e da falta de ações de segurança pública e cazes.

Por m, mortes acidentais também afetam mais os moradores de bairros


pobres. Dentre elas, os acidentes de trânsito (atropelamento de
pedestres, acidentes com motociclistas e com outros veículos) são os
maiores problemas, reduzindo a expectativa de vida em 1,3 ano se
comparado com os bairros nobres. Além da grande quantidade de
acidentes fatais de motociclistas (entre eles motoboys, que em geral são
moradores de bairros pobres), os atropelamentos também são mais
comuns para moradores desses bairros. A falta da correta gestão da
mobilidade urbana, considerando pedestres, ciclistas e demais
modalidades de transporte, é uma das contribuintes para a maior
exposição dessa população às situações de risco.

As demais mortes acidentais, também com maior incidência nos


moradores das periferias, são compostas em sua maioria por
afogamentos e quedas, e apontam atividades do cotidiano – como lazer e
trabalhos assalariado ou doméstico – como elementos de maior risco
para essa população, em decorrência da falta de infraestrutura adequada
nos locais de trabalho e dentro e fora das moradias, e da falta de
serviços públicos essenciais. Vale ressaltar que a própria precariedade
da saúde recebida pelos mais pobres pode contribuir para transformar
acidentes em acidentes fatais.

Mas não só de segurança pública, saneamento e saúde padecem os mais


pobres. Os dados da SMS também são pertinentes para a discussão da

reforma da Previdência, pois mostram que suas regras afetam de


maneira muito desigual as diferentes classes sociais. O grá co abaixo
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mostra a porcentagem de residentes nos bairros ricos e pobres que


alcançam cada idade mínima de aposentadoria. Enquanto 80% dos
residentes em bairros ricos conseguem atingir uma idade mínima de 65
anos, mais da metade (cerca de 63%) dos residentes nas periferias
morrem antes disso. A desigualdade transborda para a Previdência e
mostra que aposentadoria também é para poucos.

Como se o cenário descrito já não fosse grave o su ciente, os dados da


SMS indicam que existe um grupo que apresenta expectativa de vida
ainda mais baixa (de 46 anos) que a dos residentes em bairros pobres: as
pessoas sem endereço conhecido. Composta pelo menos em parte por
pessoas em situação de rua, sua já patente vulnerabilidade se mostra
evidente nas estatísticas: não ter onde morar pode custar seis anos de
vida a mais do que morar nos bairros mais precários de São Paulo. E o

Brasil também tem falhado há muitas décadas com essa população ao


não dispor de dados estatísticos frequentes, atuais e abrangentes sobre
sua condição de vida, uma omissão igualmente estarrecedora.

Entendemos que as principais causas da redução da qualidade de vida


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Entendemos que as principais causas da redução da qualidade de vida
urbana nos distritos mais pobres da cidade de São Paulo, incluindo essa
trágica diferença da expectativa de vida, estão diretamente relacionadas
à acentuada concentração de renda e de demais formas de privilégios,
entre eles o da atuação desigual do poder público ao prestar serviços
públicos essenciais. Os indicadores aqui apresentados tratam dos
principais componentes da expectativa de vida da população de São
Paulo, mas são, em grande parte, semelhantes ao que se encontra nas
maiores cidades do país: o resultado da profunda desigualdade social
existente no Brasil. Essa condição do país, bem representada no fato de
ter o terceiro pior índice de concentração de renda da América Latina, e
o 10º país mais desigual do mundo, leva cerca de 80% da população a
viver com menos de dois salários mínimos mensais per capita em áreas
urbanas com grande demanda por serviços públicos e cientes, enquanto
o 1% mais rico vive com rendimentos superiores a R$ 40 mil por mês em
bairros bem urbanizados.

*Henrique S. Xavier, físico, é pesquisador pós-doutor no Instituto de


Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP; Raphael
Ximenes, bacharel em física, doutor em ciências pela Faculdade de
Medicina da USP, atualmente é pesquisador pós-doutor na University
Health Network / University of Toronto, onde trabalha com modelagem
matemática de doenças infecciosas; Sérgio Frazão Helene, geógrafo
formado pela USP, atua junto a empresas e órgãos públicos na área de
planejamento e gestão territorial e atualmente é assessor de
planejamento da Rede Nossa São Paulo.

[1] Pelo critério do índice de Gini, média dos dados disponíveis desde

2008. Fonte: https://data.worldbank.org/indicator/SI.POV.GINI

[2] Maiores detalhes sobre o método utilizado podem ser vistos no


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endereço:
http://www.fma.if.usp.br/~hsxavier/analises/vidas_desiguais.html

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Antonio Nunes
Parabéns aos autores do artigo: Henrique Xavier, Raphael Ximenes e Sérgio Helene, por
apresentar e analisar os dados expostos. O abismo de classes vivido no Brasil é assustador a
olhos vistos, porém é indispensável que se apresente, como é o caso, dados estatísticos que
evidenciem nossa tragédia. Acredito que os cidadãos angustiados com esse cenário têm
igualmente o dever de apontar possíveis saídas para a sociedade brasileira reagir a essa mazela e
buscar engajamento político para a combater. Abraço a todos.
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