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MULHERES, VIOLÊNCIA DE GÊNERO E AS DIFICULDADES NO ACESSO ÀS

PROTEÇÕES JUDICIAIS DA LEI MARIA DA PENHA

Alberto Carvalho Amaral1

Resumo: Nesta comunicação oral, serão expostos os resultados da pesquisa de mestrado, em que
busquei situar a violência sofrida pelas mulheres agredidas por seus companheiros e compreender
como elas representavam socialmente os órgãos judiciais de enfrentamento à violência de gênero no
Brasil: Judiciário, Ministério Público e Defensoria Pública. Nesta autoetnografia, foram realizadas
entrevistas semiestruturadas, grupo focal, com técnicas de observação das rotinas e das atividades,
com o objetivo de identificar suas representações sociais (Moscovici) e os discursos do sujeito
coletivo (Lefevre e Lefevre). Juízes anestésicos, promotores desconhecidos e defensores ausentes
emergiram dessas análises. A sala de audiências como campo excludente das pretensões das vítimas
(Bourdieu), posicionando-as em uma areia movediça judicial. O fluxo estruturante das organizações
jurídicas que frustra as expectativas das vítimas (Luhmann). A ausência de assistência jurídica da
Defensoria Pública do DF, nos fóruns distanciados do centro de Brasília, é relevante e gera efeitos
prejudiciais para a proteção de seus direitos. As práticas diminutivas da condição feminina tendem a
permanecer, emergindo a necessidade de buscar-se uma atuação institucional mais sinestésica
(Sánchez Rubio), com maior compreensão dos anseios e necessidades das mulheres, aproximando
suas falas, pela intervenção e auxílio de defensores públicos com uma abordagem sensível e afetiva.

Palavras-chave: Lei Maria da Penha (Lei n.º 11.340/2006), órgãos judiciais de enfrentamento à
violência doméstica, representações sociais, discurso do sujeito coletivo.

Introdução

A ausência de cumprimentos, aparência de estranhamento ou de total ignorância. O ingresso


em um local que, ao contrário do esperado, não lhe garante privacidade, cuidado ou importância. A
ida ao Judiciário, antes de oferecer soluções, parece ser mais uma continuidade nas dificuldades em
obter algo que possa, efetivamente, repercutir na dinâmica de violações sofridas por seu consorte.
O cenário desolador, de aparente insensibilidade, é presente em diversos juizados de
violência doméstica, em aparente contraposição aos anseios da lei de regência e da necessidade de
um atendimento mais próximo, acolhedor, interdisciplinar e atento às mulheres agredidas. Ao lado
do distanciamento, pela própria configuração da ritualística envolvendo “operadores” do Direito,
suas articulações parecem ser dissonantes, quando confrontadas com os pleitos das mulheres
vitimadas por seus consortes.

1
Mestre em Direito e Políticas Públicas (UniCEUB). Especialista em Direito Processual pela Universidade do Sul de
Santa Catarina (2008). Especialista em Ciências Penais pela Universidade do Sul de Santa Catarina (2007). Graduado
em direito pelo Centro Universitário de Brasília (2005). Defensor Público do Distrito Federal, titular da 2ª Defensoria
de Curadoria Especial e Atendimento Inicial de Samambaia/DF. Professor da Escola da Defensoria Pública do DF
(EASJUR). Brasília/DF. Brasil.

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Nesta comunicação oral, serão expostos os resultados da pesquisa de mestrado, em que
busquei situar a violência sofrida pelas mulheres agredidas por seus companheiros e compreender
como elas representavam socialmente os órgãos encarregados pelo enfrentamento judicial à
violência de gênero no Brasil: Judiciário, Ministério Público e Defensoria Pública (Amaral, 2017).
A partir da identificação das representações sociais das mulheres agredidas, pretendi
compreender como interacionam esses órgãos e se a atuação é proveitosa para as vítimas, fazendo
diminuir ou cessar o círculo de violência em que estão submetidas e que é, parcialmente,
visualizado naquele processo judicial, além de situar seus dilemas e frustrações.
Definidas tais premissas, volto para a exposição sucinta dos principais temas e resultados
verificados durante a pesquisa de campo.

Dilemas, contradições. As previsões legais, as práticas institucionais e as frustrações das


mulheres em situação de violência ao encarar o sistema judicial de enfrentamento à violência de
gênero no Brasil

Desde logo, é importante que se defina esse texto e as reflexões nele suscitadas, como uma
proposta de diálogo. Isso, aliás, parece ser o caminho adequado nas pesquisas que versam sobre
violência doméstica. Trata-se de temática complexa, com lastro cultural inegável, ranços históricos
que lutam para se manter e sobreviver às tentativas de inclusão ou exclusão da pauta política.
Se há uma maior conscientização sobre a violência doméstica nos últimos anos, o que parece
ser inegável, é visível o surgimento (ou incremento) de movimentos opostos, de reafirmação sexista
e alarmistas. Sexistas, pois reiteram as diminuições femininas por premissas frágeis, fruto de pura
retórica, de postulados bíblicos desatualizados a pseudo-ciências. Alarmistas, pois conclamam para
uma tomada de atitude por parte daqueles que já detém, em regra, o monopólio da força na relação
doméstica, em uma quase “legítima defesa” da sociedade tradicional e dos arranjos de suposta
modernidade.
Não é de se estranhar, portanto, que estejamos vivenciando momentos de avanço nos
estudos feministas e, também, nos estudos sobre homens e masculinidades (Amaral, 2017), ao
mesmo tempo em que regredimos nas discussões populares e, até científicas, inclusive dentro do
próprio movimento feminista, como expressam as tendências radicais das TERF’s (trans-

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exclusionary radical-feminism) e das SWERF’s (sexual-workers female radical-feminism)2.
Avanços e retrocessos, em processos fluídos, céleres.
Feitas essas considerações e lembrando-me, neste ponto, do constante incremento das taxas
que medem a violência praticada contra as mulheres por seu gênero e no âmbito familiar (Amaral,
2016, p. 111 e ss), volto-me à pesquisa e seus resultados. O que motivou a pesquisa é o primeiro
ponto que devo esclarecer.
Inicialmente, pretendia investigar se as mulheres, após terem contato imediato com os
órgãos judiciais de enfrentamento à violência doméstica no Brasil, conseguiriam obter “bom
proveito” dessa situação, ou seja, se aquele episódio propiciaria empoderamento, se diminuiria ou
faria cessar as agressões praticadas por seus consortes. Assim, sob a óptica de destinatárias dos
serviços prestados pela Lei Maria da Penha, as mulheres agredidas estavam satisfeitas com o que
lhes era ofertado?
Essa pergunta me é muito cara, pois se volta para o público do meu serviço e sobre a própria
efetividade do que desempenho diariamente. Por ser defensor público do Distrito Federal, tive a
oportunidade de participar de diversas audiências de violência doméstica – inúmeras, já que,
diariamente, eram cerca de 20 a 30 mulheres –, sempre auxiliando juridicamente o agressor,
concretizando sua ampla defesa e contraditório naquele ato. Salvo raros juízos e casos, as mulheres
não estavam acompanhadas por advogados. Seu agressor estava. Isso me parecia contraditório e, em
realidade, fazia letra morta de aspectos relevantes da Lei Maria da Penha, que previa expressamente
auxílio amplo para a mulher, não só perante o Judiciário, mas em diversos locais e espaços (Amaral,
2017, p. 143/144). Indagar sobre o atendimento prestado à mulher era, em último caso, questionar
minha própria atuação, dos promotores de Justiça e dos Juízes envolvidos.
Nesta pesquisa do tipo autoetnografia3, foram ouvidas, durante entrevistas semiestruturadas,
10 (dez) mulheres agredidas, antes e depois de suas audiências, sendo que eu participei de suas
audiências, como totalmente observador. Também realizei grupos focais4 com outras mulheres

2
Os movimentos TERF e SWERFs, representam expressões de feminismos radicais, com discursos, respectivamente,
transfóbico (The TERFS, 2016) e de exclusão e preconceito com mulheres que trabalham utilizando sua sexualidade,
como prostitutas e atrizes de filmes pornográficos (Clark, 2017).
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A autoetnografia se caracteriza, primordialmente, por acentuar a relevante e imprescindível contribuição de
características pessoais específicas do pesquisador, que orientam a sua visão de mundo e, invariavelmente, irão
refletir nos resultados da pesquisa. Possui, assim, alto grau de reflexividade, numa pesquisa “social numa prática
menos alienadora, em que o pesquisador não precisa suprimir sua subjetividade” (Motta, Barros, 2015, p. 1339), pelo
contrário, deixa-a evidenciada, mostrando suas vulnerabilidades e rejeitando conclusões de caráter definitivo.
4
Também conhecido por grupo de discussão, o grupo focal é uma técnica de coleta de dados que busca, a partir da
interação entre seus participantes sobre uma ou algumas tematicas problematizadas (Backes et al, 2011, p. 438),

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agredidas, com o objetivo de buscar nelas, de perceber nelas, suas impressões sobre esse sistema
judicial e eventuais dificuldades vivenciadas e óbices que teriam para obter o que desejavam, além
da proteção de seus direitos.
As mulheres foram ouvidas em uma sala própria, gentilmente concedida pela diretora de
secretaria do Juizado, após eu ter explicado a natureza da pesquisa, assegurando privacidade – a
qual se manteve durante o desenvolvimento do trabalho, já que seus nomes foram alterados –, além
de não ter sido declinado o local em que realizei a pesquisa, mantendo-se sigilo dos profissionais
envolvidos nas audiências. Era um juizado de violência doméstica com trato específico nessa
matéria, com uma considerável demanda processual e que atendia a uma grande população, a qual,
da mesma forma, utiliza sobremaneira o serviço prestado pela Defensoria Pública do Distrito
Federal, em razão de seu moderado ou baixo poder aquisitivo.
Com a utilização da teoria das representações sociais, de Serge Moscovici (2013), busquei
em suas falas, após degravação, tratamento, revisão e seleção, aferir saberes populares e do senso
comum, elaborados e partilhados coletivamente. As representações sociais permitem ir além da
ciência formal, o que Moscovici chamaria universo reificado, já que elas podem indicar fatos,
dados, imagens e pensamentos que definem e interpretam o real, com uma dinâmica própria desse
universo consensual5.
Também com o objetivo de confirmar e ampliar os resultados, valei-me da análise do
discurso do sujeito coletivo (Lefevre; Lefevre, 2006), a qual, a partir de depoimentos, transforma
vivências em “ícones coletivos de pensamento de um grupo de pessoas que dividem uma estrutura
simbólica semelhante” (Moura; Lefevre; Moura, 2012, p. 1027), sob a “forma de discursos únicos
redigidos na primeira pessoa do singular, conteúdos de depoimentos com sentidos semelhantes”
(Lefevre; Lefevre, Marques, 2009, p. 1194)6.
A partir da análise detida de todos os seus relatos, emergiu uma cruel tríade judicial, que dá
nome ao título da dissertação7 e é essencial para compreender algumas das limitações vivenciadas

construir conhecimentos em espaços intersubjetivos (Kind, 2004, p. 134). O grupo focal desta pesquisa teve
características singulares, inclusive sobre sua formatação e sua quase frustração (Amaral, 2017, p. 246/250).
5
O universo reificado seria o universo das ciências, do pensamento científico, submetido a diversas regras de
validade, aplicabilidade, metodologia (Moscovici, 2013, p. 52). O consensual, por sua vez, é formado a partir da
interação social, dinâmica entre as pessoas, a partir de suas realidades e dos significados que atribuem às coisas que
vivenciam (Moscovici, 2013, p. 50/51). As representações sociais são fruto do universo consensual.
6
Mais detalhes sobre as representações socias verificadas e os enunciados da análise do discurso do sujeito coletivo,
ver Amaral, 2017.
7
A dissertação de mestrado foi intitulada “Anestésicos, desconhecidos, ausentes: representações sociais das mulheres
em situação de violência doméstica no Distrito Federal”, tendo sido orientado pelo Prof. Dr. Bruno Amaral Machado

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pela mulher no sistema judicial de enfrentamento à violência doméstica: anestésicos, desconhecidos
e ausentes.
Verifiquei, assim, juízes anestésticos, formalistas, legalistas, reduzidos às operações
jurídicas tradicionais, com demasiado enfoque procedimental. Esses juízes partilham uma fé, quase
inquebrantável, nos sistemas jurídicos e a lógica jurídica impede a aproximação da vítima, do que
ela busca realmente ali no Judiciário, extra-autos e sem necessária vinculação a resultados
processuais como condenações ou absolvições.
Apesar de não ser mero observador, tampouco atuando com passividade, a estrutura
sistêmica obsta que o Juiz tenha sinestesia com os reais interesses, preocupações e necessidades da
vítima. Sinestesia, expressão feliz de David Sanches Rubio (2014, p. 128), exige uma atuação mais
próxima e atenta para a proteção dos direitos humanos, com sensibilidade (Belmonte, 2016, p. 29) e
preocupação real. Eram, assim, anestésicos, distanciados, preocupados com o número de processos
e com a necessidade de esses procedimentos alcançarem, em algum momento, um término.

O juiz anestésico é aquele que aposta que o sistema jurídico-positivo consegue


responder adequadamente aos anseios da vítima. Ele faz parte do sistema e, intuitivamente,
possui fé nos instrumentos jurídicos existentes. E não compreende como isso o afasta da
real proteção daqueles direitos humanos. Ele está ali para oferecer respostas jurídicas para
todos os questionamentos, evitando que haja rompimentos da lógica jurídica que
desempenha cotidianamente, mas essa lógica não é permissiva (AMARAL, 2017, p. 263).

A sinestesia, em parte, é devida pela crença no simbolismo da normatização, essa fé cívica


nos efeitos da norma, apostando que, por efeitos inerentes à própria condição normativa, em parte
por sua promulgação, divulgação e suposta eficácia, ela irradiaria imediatamente sobre todos.
Acreditar na eficácia simbólica da norma, como se ela, per se, alterasse a realidade, costumes e
ilegalidades, ao mesmo tempo em que acalma uma parcela daqueles envolvidos com essa temática,
tem o condão de reforçar o efeito anestésico no magistrado, pois impede a visão da realidade
mundana e uma análise crítica da realidade dessa fé (Segato, 2016, p. 170).
De outro lado, com relação ao órgão encarregado de iniciar a ação penal, foi visto um
desconhecimento de sua figura, função e papel desempenhados. As vítimas não reconheciam os
Promotores de Justiça. Aquelas mulheres, principalmente as que estavam tendo o primeiro contato,
em audiência, com o Poder Judiciário e com os demais órgãos presentes, não conseguiam
discriminar quem ou o quê era o Promotor de Justiça (ou Promotora, como ocorreu em algumas

(UniCEUB). Foi defendida em 2016, em banca na qual participaram os professores Dr. Antonio Henrique Graciano
Suxberger (UniCEUB), Dra. Soraia da Rosa Mendes (IDP) e Dra. Rita Laura Segato (UnB).

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audiências). Ele ou ela era confundido com o secretário de audiências, encarregado de redigir a ata,
realizar o pregão ou colher as assinaturas dos presentes, ou com uma defensora pública.
Ao contrário da figura do Juiz, central e com a toga, que o distinguia e resultava em uma
identificação imediata das vítimas, o Promotor de Justiça não trazia, para aquelas mulheres, um
critério diferenciador, não naquele momento. Interessante também foi notar que, mesmo aquelas
que já tinham passado por outras audiências, ou seja, detinham um conhecimento anterior, também
apresentaram dificuldade em identificar qual a função do promotor. De nada valia, assim, que ele se
apresentasse para as vítimas, muito menos que fizesse ilações ou ameaças de prisão para o agressor.
Pesquisa do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP, 2017) já indicava esse
desconhecimento da população com a figura do Promotor de Justiça e do próprio Ministério
Público, talvez devido ao distanciamento em sua atuação habitual, já que sua função primordial,
muitas vezes, estava limitada a atuação em gabinetes, com cotas e pareceres, muito diretamente aos
Juízes e Tribunais (Amaral, 2017, p. 282).
Por derradeiro, defensores ausentes. Faticamente, a Defensoria Pública do Distrito Federal
não tem defensores atuando em prol das vítimas de violência doméstica, exceto no Núcleo de
Defesa da Mulher (NUDEM), localizado em área central de Brasília e no qual duas defensoras
desempenham essa atribuição8. Apesar de, internamente, existir normativa prevendo a atuação de
defensores públicos em prol da vítima de violência doméstica em todos os fóruns que contam com
juizados de violência doméstica, não há defensores lotados nessas defensorias (DPDF, 2017).
Por uma escolha político-orçamentária, nos demais fóruns do Distrito Federal, onde é vísivel
e sensível a situação precária das agredidas, violentadas por seus parceiros e sofrendo as
dificuldades inerentes à pobreza, o seu auxílio jurídico é esporádico (CONDEGE, 2017, p. 8),
realizado de forma primária por eventuais núcleos de faculdade ou por alguns advogados pro-bono
(Amaral, 2017, p. 293, nota 136). Para o agressor, porém, sempre há um defensor público, em todos
os fóruns do DF. É, claramente, uma escolha entre as possíveis e, como tal, com seus próprios e
problemáticos resultados.

A ausência de efetivo auxílio jurídico às vítimas comprometeu a defesa dos


interesses das mulheres, diminuindo suas possibilidades de fala e de participação nas
audiências à mera formalidade de presença formal, além de evitar que elas pudessem
realizar solicitações de produção de provas ou esclarecimentos aos operadores.

8
Durante o período de realização da pesquisa, o quadro técnico do NUDEM era composto por 1 (uma) defensora
pública, cumulando atribuições administrativas por ser a coordenadora do Núcleo, 1 (uma) assessora jurídica, 2 (duas)
psicólogas, 1 (uma) estagiária, de nível superior, e 4 (quatro) colaboradores. Posteriormente, houve a lotação de mais
1 (uma) defensora pública (Amaral, 2017, p. 298).

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Continuavam alijadas do processo e, apesar das previsões da Lei Maria da Penha,
eram tratadas da mesma forma que as demais vítimas no CPP, excluídas do processo.
Tradicionalmente desconsideradas, as vítimas eram sistematicamente neutralizadas, pela
“escasa información que se ofrece a la víctima que non se constituye en parte de un
proceso, y en las escasas posibilidades de participación” (Larrauri, 2003, p. 284).
A desconsideração da vontade e bem estar das mulheres transparece em alguns fatos
rotineiros, mas extremamente simbólicos, como o não oferecimento de água ou café pelos
garçons que servem os operadores jurídicos. Apesar de presentes filtros na sala de
audiência, não tinham copos para que os presentes se servissem. E ninguém ali se atentava
para a possibilidade de os participantes daquela audiência, agressores e agredidas, sentirem
sede e terem vontade de beber água (AMARAL, 2017, p. 306).

Esse quadro já é bastante complicado para as mulheres agredidas. Mas ele não está só.

Dificuldades outras, atuação sistêmica e dilema da areia movediça judicial

Há dificuldade das vítimas em serem devidamente auxiliadas, o que incrementa a sensação


de isolamento e acarreta dificuldades inúmeras, inclusive para entender a dinâmica do processo
criminal, no qual estão participando, e de eventuais medidas que podem tomar em face do agressor,
medidas essas importantes para a superação dos traumas da violência e da fragilidade familiar
causada. A ausência de orientação jurídica adequada vem no bojo de outras limitações de suas
expectativas e de seus direitos.
A sala de audiências é um local fragilizador dos direitos da mulher agredida (Amaral, 2017,
p. 310). Até o momento em que é chamada para sua audiência, a vítima aguarda em um grande
corredor, sem que haja espaços reservados para elas e junto com pessoas estranhas, aguardando
audiências outras que não de violência doméstica, e com a possibilidade de o agressor também estar
ali, a poucos metros dela, o que a deixa em uma situação complicada. Ultrapassado o pregão,
continuam as dificuldades para a mulher, pois a sala de audiência se mostra como espaço de
interações entre os operadores juíridcos e, por sua conformação, ritos e lugares predeterminados, é o
campus em que o habitus desses operadores é concretizado, utilizando-me do marco teórico de
Bourdieu (1989, p. 61). Linguagem técnica, suposta neutralidade, lutas de concorrências entre os
operadores jurídicas e uma certa cumplicidade entre eles caracterizam este espaço e ensejam
dificuldades de interlocução entre operadores e profanos, que não detém esse capital simbólico e, na
maior parte do tempo, apenas presenciam o desenrolar da audiência.
Pelo formalismo mágico dos rituais, outra expressão de Bourdieu (1989, p. 225), as nuanças
desse local indicam que ele é diverso do exterior, com estruturas que seguem uma lógica própria. A
vítima encontra-se, em realidade, no dilema da areia movediça judicial (Amaral, 2017, p. 294), pois
está numa situação extrema, em um local inóspito e desconhecido, perigoso, e se sente alijada,

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sendo que suas manifestações, por não seguirem aquela lógica, por diversas vezes são tolhidas e
cerceadas. A mulher tende a permanecer parada ou não se movimentar mais, com receio de afundar
ainda mais nesse local, o que dificultaria, sobremaneira, sua sobrevivência.
Verifica-se, assim, que há um fluxo estrutrurante, que é essencializador para as organizações
jurídicas em seu atuar, mas que, concomitantemente, enseja a frustração das expectativas cognitivas
das vítimas (Amaral, 2017, p. 326; Luhmann, 2005).
A observação das representações sociais e da atuação do Judiciário indicam a existência de
uma cultura organizacional (Pires; Macedo, 2006, p. 88), que é compartilhada de forma dinâmica, e
que atua de acordo com um fluxo estrutural, voltado para o fim do subsistema judicial,
comunicando-se por decisões, que permitem outras decisões (Machado, 2015, p. 13). A partir dos
ritos e das dinâmicas interacionais entre os atores, busca-se uma resposta decisória, sim ou não,
direito ou não direito.
Enquanto os órgãos judiciais se orientam na busca de uma decisão (Machado, 2014),
qualquer seja ela, as vítimas agem de acordo com sua subjetividade, pensamentos, que não são
alcançados pela cultura organizacional (Amaral, 2017). Este não é o desiderato do subsistema
judicial, ainda que a norma tente, por via transversa, uma maior atenção à vítima de violência. Não
há alcance, já que o sistema apenas consegue ver aquilo que vê, desconsiderando o restante.
O que as mulheres queriam, pelo menos na ótica daquelas que participaram das entrevistas e
do grupo focal, era proteção, término da agressões, defesa de direito, algo diverso do que o
subsistema judicial perseguia – rotinas, procedimentos voltados para uma decisão de
inclusão/exclusão, direito/não-direito –, e, por isso, não eram decodificados, não seguiam uma
lógica autorreferente. Por não ser direito, não eram processados pelo subsistema. Por isso, a
insatisfação após as audiências, mesmo quando o “resultado” da audiência era similar ao que
pretendiam antes de sua realização – como, por exemplo, arquivamento ou continuidade do
processo.
Ademais, constatei verdadeiras táticas de pressão para a extinção processual, em razão da
alta demanda processual e da obrigatória submissão dos juízes aos ditames de eficiência judiciária,
consubstanciada na prolação de sentença (Amaral, 2017, p. 330). Isso, aliado ao número de
servidores e infraestrutura deficiente, ensejava estratégias para propriciar a ocorrência de
decadência, pelo não ingresso tempestivamente da queixa-crime, nos crimes de ação pública de
iniciativa privada – muitas vezes por desconhecimento pela vítima, ausente orientação jurídica
adequada – ou era facilitado pela adoção de suspensões informais, ao arrepio de qualquer previsão

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legal, em audiências designadas ilegalmente, já que não seguiam as previsões do art. 16 da Lei
Maria da Penha.
Além da nova vitimização, já que os caminhos são repetitivos e cansativos para a vítima
(família, delegacia, judiciário), era incentivado o desestímulo ao ajuizamento das queixas crimes,
além de, eventualmente, facilitar a prescrição de crimes menos graves e a adoção de medidas que
privilegiavam casos mais graves e midiáticos, desvalorizando, por sua vez, os mais comuns, como
vias de fato, lesões simples, ameaças, injúrias, que é a criminalidade rotineira e cerne da grande
maioria de violações contra a mulher.

Conclusões

As dificuldades para obtenção de auxílio jurídico à vítima, que se encontra alijada de um


espaço de atendimento adequado e sensível, quando se submete ao sistema judicial de violência
doméstica, acabam por reforçar o sentimento de inferioridade e de certa submissão a essa terrível
prática no interior dos lares.
As problemáticas decorrentes da própria estruturação dos órgãos talvez não possam, em um
curto ou médio lapso temporal, serem realmente modificadas. Decorrem da própria conformação
sistemática e de diversas opções, tomadas em longo período de tempo, que os posicionaram e são,
tambem, óbices para uma melhor atuação na violência doméstica.
Porém, creio que é possível vislumbrar, dentro dessa lógica sistêmica excludente, algo que
pode ser melhorado e ser ressignificado, com uma virada de posicionamento.
A minha aposta é que as dificuldades vivenciadas pelas mulheres agredidas possam, de
alguma forma, ser suplantadas ou diminuídas sensivelmente pela atuação da Defensoria Pública em
seu prol, não como mera presença física, mas como uma intermediária de seus anseios, que
conseguiria propiciar o acesso aos serviços públicos essenciais, ainda que sob ameaça de ingresso
de medidas jurídicas, ou poderia conscientizá-las sobre seus direitos, traduzindo seus anseios para o
processo e tornando mais racional e efetivo o sistema de proteção às vítimas de violência doméstica.
Essa aposta, contudo, necessita de espaço institucional e de uma guinada no direcionamento
das medidas políticas de atuação, ao menos no âmbito local da pesquisa de campo. Ao constatar
que, mesmo diante de uma normatividade específica, que se diz inovadora e se volta para uma
atuação não convencional, ainda há traços sexistas e conservadores, é imperioso mudar a estratégia.
E pode ser uma boa opção tentar essa modificação por intermédio do órgão caçula do sistema de

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justiça no Brasil, que ainda está se definindo e posicionando-se no cenário brasileiro9, como
instituição que possibilita orientação jurídica a carentes e grupos sociais vulneráveis, em uma
atuação não necessariamente judicial na defesa dos direitos humanos essenciais, permitindo,
inclusive, uma abordagem multidisciplinar e compartilhada, com profissionais e conhecimentos de
outras áreas. A dinâmica da violência, antes de ser uma temática jurídica, é uma realidade social e
demanda abordagens não tradicionais para a sua compreensão e atuação.
Os defensores e defensoras públicas tem um papel importante na definição do local de fala
do órgão e, nessa temática, têm muito ainda a oferecer para esse grande contigente de mulheres
agredidas por seus consortes e de famílias desestruturadas por essa atitude desarrazoada. A
ausência, verificada na pesquisa de campo, pode ser bem superada por uma atuação distinta, que
não seja anestésica, nem ensimesmada, mas sensível, próxima e afetiva10.

Referências

AMARAL, Alberto Carvalho. A violência doméstica a partir do olhar das vítimas: reflexões sobre
a Lei Maria da Penha em juízo. Belo Horizonte: D’Plácido, 2017.
AMARAL, Alberto Carvalho. Discursos sobre o enfrentamento à violência doméstica e familiar
contra a mulher no Brasil e a (não) aplicação da suspensão condicional do processo. Argumenta
Journal Law, Jacarezinho – PR, Brasil, n. 23. p. 95-128. Disponível em:<
http://seer.uenp.edu.br/index.php/argumenta/article/view/657>. Acesso em 28 nov. 2016.
BACKES, Dirce Stein; COLOMÉ, Juliana Silveira; ERDMANN, Rolf Herdmann; LUNARDI,
Valéria Lerch. Grupo focal como técnica de coleta e análise de dados em pesquisas qualitativas. O
mundo da saúde, São Paulo, n. 35, p. 438-442, 2011.
BELMONTE, Luciana Lombas. Os Direitos Humanos do século XXI e a Declaração Universal dos
Direitos Humanos: reflexões sobre as limitações da perspectiva normativa. In. Direitos Humanos:
diversas abordagens. Rio de Janeiro: Câmara Brasileira de Jovens Escritores, 2016, p. 17-32.
BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Trad. Fernando Tomaz. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil,
1989.
CLARK, Lucian. Trans Exclusionary ‘Radical’ Feminists Aren’t That Radical. Disponível
em:<http:genderterror.com/2014/05/03/terfs-radical/>. Acesso em 20 maio 2017.
9
A institucionalização da defensoria pública no Brasil, diversa do desenho existente nos sistemas judicare e do
advogado pago pelos cofres públicos (Cappelletti; Garth, 1988, p. 13), constituindo-se em inovação salutar no sistema
judiciário (Suxberger; Amaral, 2016, p. 115), amplia o papel do órgão, para além do auxílio jurídico de carentes e
grupos vulneráveis, para uma efetiva atuação em prol da defesa e implementação dos direitos humano.
10
A assistência jurídica sensibilizada, que, no meu entender, deve ser incentivada e efetivamente prestada pela
defensoria pública quando envolta com grupos vulneráveis que guardam situações peculiares de vitimização por
violências estruturais históricas, não se limita à atuação processual/judicial, perseguindo o empoderamento da
mulher, conscientizando-a em direitos (Amaral, 2017, p. 328) e evitando atitudes recriminatórias, em um nível
interpessoal (Mills, 1996, p. 1228).

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Seminário Internacional Fazendo Gênero 11 & 13th Women’s Worlds Congress (Anais Eletrônicos),
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Women, gender-based violence in Brazil and difficulties to access the Maria da Penha Law's
judicial protections

Astract: In this oral communication, the results of the master's thesis research will be presented, in
which I sought to situate the gender-based violence suffered by the women and to understand how
they represented socially the judicial organs of confrontation the gender violence in Brazil:
Judiciary, Prosecution Office and Public Defender. In this autoethnography, 10 women were
interviewed, a focal group was realized and techniques for observing routines and activities were
identified to understand their social representations (Moscovici) and the collective subject's
discourses (Lefevre and Lefevre). Anesthetic judges, unknown prosecutors and absent's public
defenders emerged from these analyzes. The courtroom is a field excluding the pretensions of the
victims (Bourdieu), placing them in a judicial quicksand. The structuring flux of legal organizations
that frustrates the expectations of the victims (Luhmann). The absence of legal assistance from the
Public Defender Office in Federal District, in courthouses far from the center of Brasília, is relevant
and has harmful repercussions for the protection of their rights. The diminutive practices of the
feminine condition tend to remain. The pursuit of a synesthetic institutional action (Sánchez Rubio),
with a greater understanding of the desires and needs of women, approaching their speeches, by the
intervention of public defenders with a sensitive and affective approach.
Keywords: Maria da Penha Law's (Law nº 11340), Brazilian judicial system against gender-based
violence, social representations, collective subject's discourses.

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Seminário Internacional Fazendo Gênero 11 & 13th Women’s Worlds Congress (Anais Eletrônicos),
Florianópolis, 2017, ISSN 2179-510X