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MEMÓRIAS DOS CINEMAS EM PARINTINS-AM ENTRE AS DÉCADAS DE

1960 E 1980.

JÉSSICA DAYSE MATOS GOMES

Este artigo retrata as memórias do cinema no município de Parintins em duas décadas


distintivas, o que este meio de entretenimento proporcionou a população, e qual sua
relevância à mesma. Igualmente, observa o legado sócio cultural assim como, a
influência que os cinemas desempenharam na economia e sociedade parintinense. No
intuito de trazer à tona diferentes vozes através dos testemunhos orais pretendeu-se
compreender as representações dos cinemas Cine Saul e Cine Oriental presentes na
memória individual e coletiva das pessoas que prestigiaram tal recurso cultural nos anos
de 1960 a 1980.
Palavras-chaves: cinema. memória. História

O município de Parintins localizado a 369 km de Manaus, capital do Estado do


Amazonas é constituído de vários atrativos com relação a sua cultura, folclore, artes e
religiosidade. Nas primeiras ruas da cidade nos deparamos com prédios, igrejas antigas
e residências que transpiram muitas histórias dos seus antigos moradores. Entre os anos
1960 a 1980 o parintinense desfrutava de opções de lazer as quais não encontramos
atualmente. Havia certa tranquilidade do espaço ainda em processo de urbanização.
Homens e mulheres faziam o curso para o trabalho nos mercados, feiras, pequenas lojas
entre outros ofícios que existiam e, dentre as formas de sair do rotineiro trajeto para
aproveitar os momentos de diversão individual ou coletiva estava o cinema.
Nas décadas de 1960 e 1980, os parintinenses frequentavam cinemas com
características peculiares. Em algumas fontes bibliográficas de autoria local, observou-
se que nesse período havia dois prédios em funcionamento: Cine Saul e Cine Oriental.
Para conhecer melhor o cinema em Parintins torna-se necessário o uso da metodologia
da História Oral que através das narrativas de antigos frequentadores nos propicia um
olhar mais abrangente sobre a sétima arte e sua influência em Parintins. Esta
metodologia possibilita o “registro de testemunhos e amplia as intepretações do
passado” (ALBERTI, 2011: 155).
Após a pesquisa bibliográfica sobre os cinemas em Parintins, foi elaborado um
roteiro com perguntas sobre o Cine Saul e Cine Oriental. As perguntas do roteiro


Licenciada em História pela Universidade do Estado do Amazonas; e-mail: daysemhp@gmail.com;
mestranda em Sociedade e Cultura na Amazônia – UFAM.
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visaram nortear a Colônia, ou seja, o grupo de pessoas, moradores da cidade de


Parintins, que poderiam nos fornecer informações sobre a temática através de relatos
rememorados de sua vivência nos anos de 1960 a 1980. Os roteiros também
direcionaram conversas informais que antecederam os depoimentos orais de 4 (quatro)
pessoas com certo grau de conhecimento e experiências a respeito do cinema que
concordaram através da assinatura da Carta de Cessão ceder seus depoimentos,
marcando as datas e lugares convenientes para a realização das entrevistas, que foram
desenvolvidas priorizando a liberdade do depoente para expor suas memórias e
concepções.
No processo de coleta das narrativas orais, utilizou-se um gravador marca
Sony-Ericsson e uma máquina fotográfica digital marca SANSUMG juntamente com o
roteiro de perguntas. Posterior a efetivação das entrevistas, a transcrição literal e a
textualização dos depoimentos orais foram necessárias para análise das narrativas de
acordo com a temática. Com a coleta de depoimentos orais, buscaram-se as memórias
de maior significado ao colaborador. O ato de rememorar apresentou algumas confusões
de lembranças, momentos de divagação. No entanto, ainda que o rememorar do período
de interesse do estudo tenha tido obscuridades (presente e passado se misturam), pôde-
se ter os dados necessários para o desenvolvimento deste artigo.
A base em relatos orais tornou possível a visualização de caracteres do período
década de 1960 a 1980 e perceber que significativas mudanças ocorreram no âmbito da
sociedade parintinense. Os relatos orais nos demonstraram memórias de uma época em
que Parintins tinha outro contexto e ainda as transformações nos diversos âmbitos da
cidade que não pode deixar de ser notada. Sem as memórias dos moradores, a trajetória
do cinema cairia no esquecimento. Não podemos compreender o presente sem nos
reportamos ao passado, a memória nos propicia essa viagem para a compreensão das
mudanças ocorridas. Portanto, a temática Memória vem a contribuir vertiginosamente
para a compreensão da história dos Cine Saul e Cine Oriental, pois, “a memória é um
elemento essencial do que se costuma chamar identidade, individual ou coletiva, cuja
busca é uma das atividades fundamentais dos indivíduos e das sociedades de hoje, na
febre e na angústia” (LE GOFF, 1990: 477).
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Sobre qual dos cinemas funcionava a mais tempo, o senhor Raimundo José da
Silva Neto, frequentador nos anos 1970 afirma que:

Era o Cine Saul por que antes era o Cine Moderno, na época, Cine Brasil.
Acho que pra mim foi um dos primeiros que Parintins possuiu,na época
como cinema né, por certo tempo eu gostava mais do Cine Oriental.

O relato do senhor Raimundo Silva demonstra o Cine Saul como o antigo Cine
Teatro Brasil, onde outro empresário, o senhor José Saul procurou investir fazendo-o
funcionar denominando o cinema com seu nome. Posteriormente passou a funcionar o
Cine Oriental em outro ponto da cidade (SILVA, 2008:163).
O Cine Saul é detalhado pelo Sr. Raimundo que evidencia até sua localização
“na esquina com a rua João Melo e a Faria Neto, onde é hoje o Show dos calçados”,
fazendo uma ligação o passado e presente mostrando que no mesmo local onde hoje é
um comércio, já abrigou um lugar de grande importância para ele, a qual ficaram
lembranças. O lugar representa o interesse, mesmo que hoje tenha outra estrutura, o
espaço sempre vai representar o Cine Saul. A respeito da relação passado/presente, Le
Goff (1992:51) afirma que toda a história é duração, atual, na medida em que o passado
é apreendido no presente e responde, portanto, aos seus interesses, sendo inevitável e
também legítimo.
O senhor Raimundo Silva apresenta em suas memórias o período em que
frequentava o Cine Saul na fase de transição entre a infância e a adolescência onde a
imagem do Cine Saul caracterizava-se pela bela estrutura física do prédio, suas sessões
diárias onde se vivenciava emoções individuais e coletivas. Com a demolição do prédio
do Cine Saul, a tristeza e a saudade marcam bastante as memórias dos que vivenciaram
o cinema em sua história de vida, pois, segundo Raimundo Silva:

[...] o prédio, o cine Saul foi demolido [...] como ele era na época né,hoje já
ta tudo diferente, demoliram. Quem conheceu, na época, hoje olha pra lá só
lembrança, só lembrança, do prédio que era, era um prédio estilo naquele
estilo bem antigo né, e hoje se vê uma coisa que muito diferente, quem
lembra hoje já passa por lá diz que nunca existiu o Cine Saul pra estrutura
que tinha era assim.
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Com este relato percebe-se que é difícil a crença de ter existido um cinema no
ponto em que já funcionou o Cine Teatro Brasil e que posteriormente se tornou o Cine
Saul. Como o próprio Raimundo Silva retrata, ao olhar para o prédio atual, quem não
tem conhecimento da existência do cinema nessa área nem imagina a ocorrência desse
fato. Esta descrença se firma pela estrutura que o prédio possuía:

Era diferente, era bem diferente, ele tinha uns pilares [...] tipo aqueles
prédios romanos, muito bonitos os pilares e aquilo ali foi demolido, e ficou,
eu acho, não sei muitas pessoas na época foram contra a demolição daquele
prédio ali deveria ser um marco histórico pra Parintins, e eles demoliram
aquilo ali e não se sabe qual foi a ideia que os donos tiveram, mais se até
hoje existisse aquele prédio, pra mim seria uma fonte histórica pra
Parintins,entendeu, aquele prédio, por que era muito bonito,era muito bonito
o prédio, quem conheceu, sabe.

Esta exposição do entrevistado demonstra que o cinema, mesmo não


funcionando na atualidade, serviria de “fonte” para a história local, um lugar de
memória não apenas preservado nas recordações de cada pessoa, mas também no
espaço urbano parintinense. Nesse sentido, pode-se visualizar no relato do depoente
que o cinema seria, para ele como também para os demais, muito além do que um
prédio de projeção fílmica, mas, sobretudo um patrimônio material e imaterial.

Figura 1: Cine Saul


Fonte: Arquivo Pessoal
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Ao evidenciar que o Cine Saul poderia ser uma “fonte”, o senhor Raimundo
demonstra que caso o cinema funcionasse, ou mesmo, fosse conservado, este lugar
poderia ser um patrimônio, “marco” da história parintinense. Porém, os que vivenciaram
a experiência das salas de cinemas indagam a demolição do cine Saul. Conforme afirma
SILVA (2008, p.163):

[...] Um prédio majestoso que deveria ser tombado pela administração


municipal, não foi preservado. Hoje quando visitamos a cidade, constatamos
que não só o Cine-Teatro, mas outras obras que embelezaram Parintins não
existem mais, tornando a cidade sem memória [...].

Outro cinema que funcionou em Parintins entre os anos de 1960 a 1980 foi o
Cine Oriental. A respeito do Cine Oriental, foi fundado no dia 26 de dezembro de 1964
pelo senhor Alberto Kasunori Kimura, nipônico apaixonado por fotografias.
Localizado na Rua Faria Neto, próximo a Rua Senador Álvaro Maia, o Cine
Oriental inicialmente se resumia em um salão. Posteriormente foi ganhando
investimentos em sua estrutura física, dando mais conforto e comodidade à população
que prestigiava os filmes. A estrutura física do prédio compreendia a 10 metros de
largura por 33 metros de fundo, sendo espaço composto primeiramente por 150
cadeiras, depois o número aumentou 450 assentos. O Cine Oriental possuía uma
máquina de projeção de 16 milímetros, com o tempo, passou a ter outras máquinas
devido sua ampliação, e assim projetar com uma máquina de 35 milímetros movida a
carvão1 (FILHO, 2007).
Com os dois cinemas, o público dividia sua preferência. Para senhor
Raimundo Barbosa Batalha, 55 anos, antigo frequentador do Cine Oriental e do Cine
Saul, sua vida tem grande influência de suas idas ao cinema, principalmente do Cine
Oriental onde o mesmo vivenciou momentos marcantes de sua vida neste espaço de
memória:

1
FILHO, Alberto Kimura.O Cinema em Parintins. Parintins, UEA, s/d, 2007. Os primeiros passos do
Cine Oriental. Entrevista concedida a Maria de Jesus Muniz de Souza.p.27-28.
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A gente ia, mais a gente gostava mais de ir no Cine Oriental. Eu ia com a


minha namorada que agora é minha esposa. Era um movimento muito bom,
todo final de semana. funcionava todo dia. Só que eu assistia no final de
semana, que era meu dia de folga, né.Sábado. (Raimundo Barbosa Batalha,
55 anos)

Devido sua jornada durante do dias de semana, o senhor Raimundo reservava o


sábado para “fugir” do exaustivo ritmo de trabalho e frequentar o cinema como espaço
de entretenimento e descanso. Relatou suas frequentes idas às sessões e como estas
refletiram como grande influência em sua vida, tendo como destaque, seu
relacionamento amoroso que se desenvolveu também no ambiente do cinema Oriental.
Nisso, o cinema ao mesmo tempo em que exibe várias histórias de diferentes filmes,
também contribui para que seus espectadores construam suas próprias histórias em seu
ambiente.
Continuando seus relatos, a emoção do senhor Raimundo emerge ao falar sobre
os momentos vivenciados no ambiente do cinema onde o mesmo evidencia que “ficava
emocionado em viver aquele filme que assistia naquela época [...] era muito legal”. O
senhor Raimundo rememora o Cine Oriental com grande entusiasmo, recordando as
técnicas usadas pelo cinema para chamar a atenção do povo parintinense. A mais
marcante memória que o entrevistado relatou foi a respeito de uma das músicas
utilizadas pelo cinema para a sua “anunciação” de suas sessões:

Quando tocava aquela musica a gente tava, a gente morava ali na Raimundo
Almada né, Itaguatinga. Quando tocava aquela musica sempre dava uma
emoção na gente, antes de, quando antes de começar o cinema né, tocava
uma musica assim. Anunciando que já ia começar o filme. [...] chega tocava
no coração da gente. [...] Era muito legal. Chama a atenção do povo.
(Raimundo Barbosa Batalha, 55 anos)

Assim como o senhor Raimundo Batalha, a antiga frequentadora do Cine


Oriental, a senhora Ilza de Azevedo Batalha, 52 anos, dona de casa, contribui revelando
suas memórias a respeito do cinema, afirmando que sente muita falta do Cine Oriental,
lugar de memória a qual ela mais estimava, principalmente por que este cinema tocava
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sua emoção através das músicas que alertavam a abertura do prédio para as sessões.
Conforme nos relata a colaboradora:

[...] eles colocavam uma música que até hoje quando o Parintins sai, eles
colocam sabe, sei lá aquela musica me chamava a atenção, eu achava tão
legal,tão.. não sei nem te explicar bem só sei que , gostava, bem a partir das
5 horas já começa a tocar a musica e aquilo me atraia sabe, me chamava
atenção, eu gostava. Era no Cine Oriental que tocava essa música. (Ilza de
Azevedo Batalha)

Se percebe que os antigos frequentadores encontram na música do Cine


Oriental memórias marcantes das emoções vivenciadas no cinema, evidenciando como
este local traz inúmeras recordações importantes para sua vivência. A respeito da visão
que ela possuía sobre a sétima arte e sua projeção nas salas de sessões, a senhora Ilza
coloca que o “cinema representava uma diversão, por que nesse tempo pelo menos a
gente que trabalhava não tinha outra diversão, ia ao cinema pelo menos pra se distrair”.
Desse modo, nos afirma que sua frequente ida ao cinema era em função de se divertir,
sair da rotina, sendo que a mesma trabalhava e necessitava de lazer.
A senhora Ilza demonstrou grande insatisfação com o fim do funcionamento
dos cinemas em Parintins. Sobre o que poderia ter contribuído para a desativação dos
cinemas em Parintins, a senhora Ilza Batalha informa que na época as pessoas
comentavam sobre vários pontos de vista, ela própria tem suas concepções baseadas nos
acontecimentos do período, conforme menciona:

Olha acho que depois que começaram a chegar as televisões ai pronto o


pessoal foram se afastando. [...]é, com certeza depois que começou a chegar
a televisão, pronto o pessoal.[...] abandonaram o cinema né pra assitir só
em casa a televisão. Acho que foi por isso que fechou tanto fazia um como o
outro. Todos os dois fecharam, foi o tempo que os donos morreram né, [...]
Não faz muito, muito tempo, que eles morreram não sei te dizer o ano, mas
não faz muito muito tempo [...]Televisão, é a televisão depois DVD, pronto,
então abandonaram não tinha como os donos sustentar né foi o jeito
fechar.(Ilza de Azevedo Batalha)

Pode-se observar que a colaboradora afirma duas causas para o não


funcionamento do cinema: a televisão, como nova opção de entretenimento familiar; e o
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falecimento dos donos, que seriam os maiores conhecedores das máquinas


cinematográficas. A senhora Ilza de Azevedo Batalha se lembra das diversas sessões
que frequentou, e garante que no Cine Oriental vivenciou muitos momentos felizes de
sua vida. O senhor Raimundo José da Silva Neto, 52 anos, também fala dos cinemas e o
que contribui para que estes fechassem as portas:

Então os cinemas que existiam, que era o Cine Saul “Cine Moderno” e
depois Cine Oriental [...] eles terminaram, porque até mesmo assim, , acho
por que devido, depois com o desenvolvimento, veio a televisão
entendeu,depois que apareceu, a televisão já foi caindo mais o cinema
porque todos os filmes que passavam no cinema a televisão começou também
a mostrar,então geralmente o pessoal já não ia mais pagar ou então sair de
casa pra assistir no cinema,e isso foi, digamos assim, tornou-se mais difícil
pro cinema, foi se acabando, se acabando e pra mim isso ai foi mais a
televisão fez com que os cinemas fechassem as portas na época.

Muitos parintinenses optaram pelo entretenimento particular, reservando


também do pagamento da entrada (ingresso) do cinema. A televisão que entre a década
de 1960 a 1980 teve proliferação pelo Brasil foi ganhando espaço nas famílias
parintinenses, mesmo que, no início da década de 60 ainda era raramente encontrada na
sociedade parintinense, ela foi se expandindo, até a década de 80 já havia muitas
famílias com preferência pela imagem televisiva. O surgimento de novas mídias nos
últimos anos atingiu os cinemas, pois, se proliferaram as salas particulares de projeção
CÂMARA ( s/d:.58) . Deste modo, a sala das residências com a televisão tornaram-se
as salas de cinema particulares, não havendo necessidade de sair do próprio ambiente
familiar para assistir filmes.

Os filmes, personagens e os cinemas da memória


Os curtas e longas metragens refletem muitas visões de mundo e deixam
personagens marcantes com estilos que são adotados como preferência dos
frequentadores através de sua análise pessoal de cada filme e enredo. O senhor
Raimundo Batalha relata que os personagens e filmes que estão marcados em suas
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memórias eram “Naquela época era o Charles [...] Charplim. É, Charles Chaplin.
Naquela época, era o Bang Bang. Preto em branco era a nossa diversão [...]. Era tudo
legendado, mais era legal”.
O cinema mudo e em imagem preta e branca, iconizada pelo ator Charles
Chaplin, encantou e encanta gerações que assistem seus filmes, como o caso do senhor
Raimundo Batalha que fala também sobre a paralisação das exibições dos filmes no
cinema com bastante nostalgia. Sobre o fim das sessões de cinema, em particular, o
Cine Oriental, o colaborador pondera que “o dono faleceu e não tinha outra pessoa pra
continuar [...] acabou fechando [...] Triste”. Percebe-se que o funcionamento do cinema,
para o mesmo, estava profundamente ligado a presença do dono, idealizador do Cine
Oriental, como se a ausência do mesmo não desse motivo para o cinema funcionar. O ex
frequentador relembra como o cinema atraía a população:

Contribuía pra cultura. [...] Corria naquela época corria muito dinheiro. O
preço do ingresso [...] Eles faziam aquelas promoção. Colocavam os cartaz
na frente. Pra chamar atenção da juventude, adolescente, naquela época, o
pessoal gostava. De ingresso. Ai a vez era 100 cruzeiro naquela época, eles
baixavam pra 50 cruzeiros naquela época, gostavam muito, e era muito
divertido. (Raimundo Barbosa Batalha, 55 anos)

Com a realização de promoções no preço do ingresso, o cinema Oriental atraía


consideravelmente seu público o que levou a criação do Cine Oriental.

Figura 2: Estudantes indo para o cinema Fonte: Helena Silva


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Além do convívio social, os filmes do período das décadas de 60 a 80 se


tornaram uma das atrações para a população frequentar as salas de exibição fílmicas. O
senhor Raimundo José da Silva Neto relata que, nos dois cinemas que frequentava, o
Saul e o Oriental, gostava de determinados filmes: “gostava muito de filmes inclusive
esses filmes da época era de terror que eu gostava; filmes de ação, filme de cowboy
assim aqueles filmes na época que hoje a gente não vê mais, eu adorava assistir”. Ele
contribui ainda afirmando quais filmes se destacaram no período em que frequentou os
cinemas:

Pra criança, esses filmes de cowboy, é, de tira, o pessoal que curumim


gosta, que as crianças gostam, filme de Tarzan, sabe aqueles filmes é que a
criança, os jovem gostam, Trapalhões, filme do Teixeirinha, que passava na
época também né, muitos filmes que a gente não ver hoje, a gente via antes e
a gente não ver mais passar na televisão, todos já são filmes diferentes,
entendeu? que é eu pelo menos não vi mais, nem na televisão aqueles filmes
que eu assistia, eu não vi mais né nem na televisão. Filme de ação, aqueles
filmes de ação que o pessoal gosta, terror, aqueles filmes de terror que o
pessoal gosta, Drácula, naquela época existia filmes entendeu que o pessoal
gostava, esses filmes eram bem frequentados o pessoal gostava demais, eu
pelo menos gostava eu nunca perdi uns filmes assim, que eu gostava demais.
Esse filme de Drácula, Drácula, era filme de terror [...] aquele Exorcista foi
um filme que chamou muita atenção na época da população, o Exorcista é
um filme que realmente os cinemas faturaram bastante por que ele foi
campeão de bilheteria, o Exorcista na época, muito comentário. (Raimundo
José da Silva Neto, 52 anos)

Com a demonstração de que os filmes marcam as memórias de seus


admiradores, percebe-se que a imaginação flui dentro do universo do cinema.
A experiência do filme desenvolve um estado de êxtase, isso é devido a busca
de uma “saída de si”, libertação da rotina, o tempo livre dedicado ao cinema favorece
uma construção de realidade diferente da vivenciada pelo apreciador do cinema. O
término de uma sessão significa a volta a vida rotineira e o êxtase do filme contribui
para amenizar a angústia causada pelo cotidiano. Essa consciência de saber o que é real
e o que pode se tornar real caracteriza a influência do imaginário na vida do expectador.
Até mesmo pelo título do filme, divulgado para atrair público (figura 3) o frequentador
do cinema pode ampliar suas concepções e imaginário, pois, o filme mostra
representações, que “[...] tem como objeto principal identificar a forma como em
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diferentes lugares e momentos uma realidade social é construída, pensada, dada a ler”.
(CHARTIER, 1990, p. 40)

Figura 3: Faixa do Cine Orieantal divulgando o filme Três homens em conflito


Fonte: Helena Silva

A senhora Helena Silva, contribui revelando suas memórias e valiosas


informações sobre um dos cinemas que funcionavam entre os anos de 1960 e 1980.
Sendo sobrinha de Adelaide Kimura que era esposa do senhor Alberto Kasunori
Kimura, dono do Cine Oriental, Helena relata que por motivos pessoais, veio a Parintins
para morar com os tios, donos do cinema, e passou a trabalhar na operação de máquinas
cinematográficas. A respeito do funcionamento do Cine Oriental, a colaboradora afirma
que:

Eram dois. Cine Oriental primeiro e Cine Oriental segundo. Primeiro o Cine
Oriental primeiro, depois é [...] assim: porque tinha muita procura naquela
época, pois o cinema tava no auge. Então era muitas pessoas, muita gente,
então a minha tia, ela organizou outro que não era bem um cinema era uma
fábrica, mais eles organizaram, uma fábrica de guaraná, hoje aquele terreno
ele é do filho da minha tia, do Ademar (Helena Silva)

Conforme a senhora Helena, existia primeiramente 1 (um) Cine Oriental. Mas


devido a grande procura, a lotação do prédio, dona Adelaide mandou organizar outro
Cine Oriental, o segundo prédio, localizado na mesma rua, porém situado na esquina,
que, segundo o relato da colaboradora, era uma fábrica de guaraná pertencente a família.
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Nisso, constituiu-se dois Cinemas Orientais: o Cine Oriental Primeiro e o Cine Oriental
Segundo (figura 4), o último satiricamente denominado “buraco quente”, devido seu
espaço ser menor e a sua constante lotação, o que deixava o ambiente abafado.

Figura 4: Cine Oriental segundo


Fonte: Diby Bácry.

Helena Silva narrou as características do Cine Oriental, das máquinas de


projeção, e como era a imagem transmitida no telão destinado a exibição dos filmes, a
qual ela tem memórias de que:

A imagem ela era cinemascope, tinha uns filmes pelo cinemascope, que era
aquelas telas maiores, e, mais a maioria era cinemascope
mesmo.[...]colorido[...]por que antes era em preto e branco quando era
aquelas fitas de 16 mm, depois que passou pra 33, 36 mm melhorou[...]é
porque antes era 16 mm que era, era preto e branco mesmo, era menor a tela
e sabe que com a evolução da tecnologia e tudo né aquelas coisas vão se
modificando, e nos anos 70 houve uma mudança muito grande com relação
ao cinema, então quando as fitas vinham elas já eram em 33, [...] era
colorido, a tela bem maior, ficou muito diferente, melhor mesmo(Helena
Silva)

A colaboradora ressalta que a falta de profissionais capacitados em artes


cinematográficas foi um fator que contribuiu para os cinemas em Parintins fecharem as
portas. A carência de pessoas com conhecimentos no manuseio das máquinas de
projeção refletiu numa crise para a realização das sessões, pois, no município não havia
nenhum tipo de entidade formadora para o manuseio de equipamentos
cinematográficos. Sobre o tema afirma:
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Quando o cinema fechou, ele fechou duas vezes. Quando ele fechou foi na
época que minha prima casou, depois , casei, ai profissionais não tinha. Pra
ele tornar a funcionar a minha tia teve que chamar minha prima. então era
muito complicado, a gente casa, passa a ter a nossa família,e tudo, e lá o
marido as vezes não quer, não deixa, mais mesmo assim a minha prima foi e
voltou a funcionar, [...]. (Helena Silva, 52 anos)

Os cinemas necessitavam de pessoas que soubessem manipular as máquinas


que eram mecânicas ou manuais. Pelo relato da senhora Helena Silva, percebe-se a
necessidade de profissionais cinematográficos para o próprio funcionamento dos Cines
Orientais. A ausência desses conhecedores das máquinas de projeção dificultaria as
exibições de filmes, e o cinema, de grande valia a população iria acabar sendo
desativado. O que ocorreu posteriormente. Porém, outros aspectos devem ser levados
em conta, relativo aos cinemas que proporcionaram diversão ao povo de Parintins. Entre
eles está a possível ausência de incentivo cultural por parte das autoridades, Helena
Silva assinala que:

Tinha condições. eu acredito que sim, que Parintins é uma cidade folclórica,
conhecida mundialmente, não é verdade?Pela cultura e porque que não no
cinema? Por que tá faltando o olho de alguém, uma iniciativa, e esse alguém,
pra mim no meu ver seria assim mesmo do Poder Executivo, no caso, então
chamaria, quem é o dono? Ir chamar, vamos ver o porquê que o cinema
fechou [...]. (Helena Silva, 52 anos)

A colaboradora acredita que o funcionamento do cinema em Parintins pode ser


uma realidade. Pelo exposto se vê a ligação que a senhora Helena Silva faz a respeito da
cidade de Parintins no passado com relação ao presente, ou seja, a atual cultura
evidenciada pelo município através do Festival Folclórico, festa que traz inúmeros
investimentos para a cidade. Nessa relação, a senhora Helena coloca que investimentos
também poderiam ser aplicados ao funcionamento de cinemas, e como o Festival
Folclórico, estes locais também movimentariam a cultura de Parintins. Mas, como a
mesma expõe, são necessários incentivos, principalmente de órgãos públicos ligados a
cultura.
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Entre outras características foi constatado pelos relatos dos colaboradores que
os cinemas possuíam boa estrutura física, no entanto, tinhas suas peculiaridades. O Cine
Saul é lembrando como um grande monumento, de belos traços, com uma área interna
ampla, e o senhor Raimundo José da Silva Neto, 52 anos, afirma que este cinema “era
amplo, mas, só com ventiladores. O Cine Saul não possuía o ar refrigerado, como
possuía o Cine Oriental; era no ventilador na época e as cadeiras eram de madeira”. O
mesmo considera que o Cine Saul tinha um espaço amplo, fazendo comparação com o
Oriental ele evidenciou que os donos do Cine Oriental investiam bastante em conforto,
exemplo disso é o ar refrigerado, climatizando de maneira agradável o ambiente da sala
de exibição:

No Cine Oriental, por certo tempo, a dona começou a digamos assim a


expandir mais dentro do cinema, colocar é, colocar refrigeração dentro, o ar
refrigerado as poltronas todas acolchoadas, ela procurou assim dar mais
conforto as pessoas que assistiam o filme né, já no cine Saul já não vi isso ai,
eram cadeiras boas mas com menos conforto do que no Cine Oriental, pra
mim o Cine Oriental ele deu mais conforto para as pessoas que gostavam,
que eram amantes do cinema, que eram até hoje, quem quiser digamos assim
dar uma olhada no salão até hoje existe, acredito que ainda existem aquelas
cadeiras lá, por que os donos morreram, e aquilo fechou e as máquinas
ainda existem lá, acredito que existem as maquinas lá né, não devem tá
muito boas por que com certeza não tem manutenção, não tem pessoas que
tomem de conta das máquinas. (Raimundo José da Silva Neto, 52 anos)

Os dois cinemas são estimados por suas características físicas, pelas películas
que exibiam e as memórias dos bons momentos de diversão que proporcionam aos
parintinenses. Assim, sua importância reside num fato: o cinema faz parte da história,
não apenas da história cultural e social, mas como da história de cada pessoa que
vivencia ou vivenciou o cinema.
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CONSIDERAÇÕES FINAIS

Parintins vivenciou uma época de grande importância a população, onde foi


proporcionado diversão, encontros de amigos, namoros, emoções a cada pessoa que
frequentou o espaço do Cine Saul ou do Cine Oriental. Memórias de grandes momentos
vividos, filmes que marcaram vidas, inspiraram moda e influenciaram mentalidades. O
Cinema, hoje, reservado na memória coletiva propiciou histórias, memórias e cultura
sendo testemunho de uma época peculiar da história de Parintins.
As grandes mudanças na sociedade parintinense com relação à cultura e
sociedade são visíveis. O auge do cinema foi um período em que a cidade estava em
processo de urbanização com a presença de empresas do ramo da juta. Era então uma
cidade com pouca opção de lazer, porém, processou-se o desenvolvimento, novas
tendências, o fechamento da Fabril Juta, a repercussão do Festival Folclórico, novos
estilos de vida e os cinemas fecharam suas portas. Ao locais onde funcionaram os
cinemas se reportam as memórias dos momentos vividos no ambiente do cinema, e a
melancolia de que estes não funcionam, uma vez que para os colaboradores da pesquisa,
a época de sua experiência nos cines Brasil, Saul e Orientais não voltarão, e mesmo que
funcionasse outro cinema na contemporaneidade, o que foi vivenciado logo não se
repetirá. Porém, os cinemas estão vivos na memória de cada parintinense que esteve em
seu espaço e até mesmo na memória de que não o conheceu, pois, alguns antigos
frequentadores narram suas experiências no cinema de forma tão saudosista que envolve
as novas gerações.
Bastante salientada nas narrativas dos colaboradores, a questão do fechamento
dos cinemas que existiam em Parintins, nos remete a perda de uma referência para a
população da cidade. Dentre os cinemas analisados a falta de conhecimento e proteção
patrimonial do Cine Saul fez a cidade acabar perdendo um rico patrimônio cultural
representado pelo prédio e sua história. É necessário que se destinem recursos para
recuperação do Cine Oriental e profissionais qualificados para analisar, recuperar e
difundir o conhecimento cinematográfico para as novas gerações, uma vez que, o
cinema faz parte da história da cidade, e sua importante memória deve ser preservada e
perpetuada.
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REFERÊNCIAS

ALBERTI, Verena. Histórias dentro da História. In: Fontes Históricas/ Carla


Bassanezi Pinsky, (organizadora). – 3. Ed. – São Paulo: Contexto, 2011.

CAMARA, Antônio da Silva. Por que os cinemas não morreram?. Sociologia


Ciencia&Vida .São Paulo: Editora Escala, n.2, p.50-59.

CHARTIER, Roger. A História Cultural: entre praticas e representações. Rio de


Janeiro: Bertrand Brasil, 1990.

FILHO, Alberto Kimura.O Cinema em Parintins. Parintins, UEA, s/d, 2007. Os


primeiros passos do Cine Oriental. Entrevista concedida a Maria de Jesus Muniz de
Souza.p.27-28

LE GOFF, Jacques. História e Memória. Tradução Bernardo Leitão, et all. 2° Ed.


Campinas: UNICAMP, 1992.

LE GOFF, Jacques. “Memória”. In: História e Memória. Campinas: Ed. UNICAMP,


1990, p. 423-483.

SILVA, Edda Meirelles da. Ecos da Saudade. Manaus: Edições do Autor, 2008.376 p.

Fontes Orais: Entrevistas (histórias de vidas) de pessoas que vivenciaram o cinema em


Parintins nos anos de 60 a anos 80. As entrevistas fora realizadas em 2010.

Iconografias (Fotos)