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Artigo Nova Criminologia

Pós-Graduação Ciências Penais Praça da Liberdade


Professor: Pablo Alves
Nome: Lucas Felipe de Freitas Silva

Introdução

No presente trabalho tem por objetivo fazer uma analise das modernas
teorias do delito, objetos da aula da disciplina nova criminologia, essa que
compõe o curso de pós-graduação em ciências penais da PUC Minas. Para tanto
será feita uma breve explanação do principal fundamento teórico das diversas
teorias, seguido de uma análise crítica dos motivos que tal teoria seria, ou não,
a mais adequada para explicar o delito nas sociedades contemporâneas.

Para fins de uma abordagem mais aproximada da realidade, e uma busca


de exatidão na difícil tarefa que é descrever o fenômeno delitivo, será feita uma
restrição do objeto de pesquisa. Dessa forma buscar-se-á analisar qual seria a
mais adequada para a realidade Brasileira.

1-Abolicionismo

É sabido que existem diversas correntes e autores que tratam do


abolicionismo, contudo para o presente trabalho fara-se a análise da proposição
teórica formulada por Louk Hulsman.

O autor propõe uma mudança estrutural do sistema penal, uma alteração


que parte da linguagem com que se trata o indivíduo que comete o delito, passa
por como a persecução penal é feita, até o ponto da aplicação da sanção penal
tudo isso para que se evite a estigmatizarão do indivíduo, e realize um sistema
mais humanista da resolução de conflitos. O autor parte da concepção que o
fenômeno do crime não é um caso que diz respeito ao autor do delito e a vítima,
mas uma questão social.
Nesse sentido o direito penal teria a função de resolução de conflitos e
paz social, contudo o autor acredita que, na prática, nenhuma desses objetivos
são atingidos, assim o sistema penal é um método inefetivo, que não consegue
proteger a sociedade, muito pelo contrário suscita mais conflitos na sociedade,
por meio da exclusão, estigmatização e dominação de classes.

Além disso o autor acredita que o cárcere, como destino da clientela do


direito penal, não cumpre a função declarada, que esse degrada o individuo e
enfraquece os laços do mesmo com a sociedade, isso por que cria uma marca
que o afasta do convívio social, mesmo após o cumprimento de sua pena.

Para tanto o autor propõe que na resolução de conflitos se busque formas


mais racionais, e principalmente entre os principais interessados, a vítima e o
agente agressor, admitindo assim uma maior intervenção dessa na resolução da
ação que foi danosa para ela.

Dessa forma o que Hulsman busca é o fim do direito penal e a substituição


por algo mais racional, onde as pessoas estejam hábeis a exprimir a sua vontade
acerca do conflito que as uniu, e de forma civilizada e humanizada consigam
uma resolução satisfatória para o delito.

Analise Critica

Apesar de possuir diversos pontos importantes e que poderiam ser


incorporados ao sistema penal vigente o abolicionismo apresenta lacunas em
alguns pontos. O primeiro seria a origem do delito, o ato típico seria um sintoma
de uma “doença” maior, pois o delito é um fenômeno social e como tal possui
origem muitas vezes nos primeiros anos, nos valores sociais que esse absorve
da comunidade onde está inserido, e o mesmo pode não interpretar como típico
um fato caracterizado como tal.

O Brasil é um país de muita diversidade social e os conflitos não seriam


tão simples de chegar a um denominador comum. Por fim há que se falar dos
crimes contra a comunidade, onde seria complicadíssimo alcançar uma solução
que agradasse a toda sociedade ou a maioria dela.
2-Minimalismo Abolicionista

A segunda corrente seria a do Minimalismo Abolicionista, esse modelo


teórico tem como um dos mais expressivos o do criminalista Alessandro Baratta.
O autor parte de uma formulação teórica onde o direito penal não seria abolido
como é proposto por Hulsman, mas seria sim mitigado e seria acionado para
solucionar os conflitos causadores dos maiores danos sociais e apenas para
esses.

Analise Critica

A crítica que se faz é que não há como saber com precisão quais seriam os
direitos realmente indispensáveis para a sociedade, visto que crimes
patrimoniais à primeira vista poderiam ser dispensáveis, contudo é o que mais
causa a sensação de impunidade no seio da sociedade. Dessa forma uma
formulação sem nortes bem estabelecidos estaria fadada a falta de um foco
para a política criminal.

3-Tolerancia Zero
O modelo teórico da Tolerância zero tem origem nos Estados Unidos da
América e parte de um movimento maior, o movimento “lei e ordem”, mais
precisamente em Nova York, implementada pelo prefeito Rudolph Giuliani. Tal
movimento parte da ideia onde o fenômeno criminal merece uma resposta
afirmativa do Estado, não importando o grau de lesividade do delito, em conjunto
com um extensivo policiamento afim de que a comunidade sinta que o poder
estatal se faz presente a todo momento. Por fim é necessária uma movimentação
da sociedade, afim de zelar pela ordem e prevenção delituosa. Tal modelo foi
alvo de propaganda pelo prefeito Giuliani onde, durante seu mandato, reduziu
de forma significante os índices criminais de Nova York.
Analise Critica
Tal modelo mostrou-se na história recente como um modelo fadado ao
fracasso. Na própria experiencia de Giuliani diversos dados foram mascarados,
como o período prospero e de redução criminal de todo o país, além de diversas
acusações de perseguição e abuso de direitos de minorias. Durante o período
de administração do prefeito Giuliani foram protagonizadas diversas execuções
por policiais aos clientes do direito penal (negros e pobres).
Na análise prática seria impossível, ao menos no atual estágio de
segurança pública, se implementar tal política simplesmente por falta de material
humanos para uma fiscalização mais rígida, além de todo o problema de
corrupção que ocorre em todos os setores da sociedade e a policia não se
encontra imunizada.

4-Garantismo Penal
A concepção teórica do garantismo penal que será analisada será a
formulada por Luigi Ferrajoli. O autor parte de uma teoria cujo as bases se
encontram na Constituição, ou seja, a norma fundamental fundante de um
sistema jurídico nacional.
Dessa forma um direito penal para ser legitimo ele deve observar os
princípios essenciais para a criação de seus axiomas, tais quais, pena, delito, lei,
necessidade, ofensa, ação, culpabilidade, jurisdição, acusação, prova e defesa,
qualquer resposta por parte do Estado em que não se faça presente cada um
desses princípios é uma resposta violenta e ilegítima.
Além disso o autor preceitua uma proposta minimalista do direito penal,
onde o mesmo só atuaria onde houvesse uma ofensa aos mais caros direitos
constitucionais, uma efetiva lesão direta aos direitos fundamentais trazidos no
bojo da carta política, então crimes contra honra ou lesões de pequeno potencial
ofensivo não ficariam mais a cargo do direito penal, mas sim de outros institutos.
Na prática ocorreria uma diminuição de tipos penais e as penas seriam
apenas para as condutas de extrema reprovabilidade, pois essas nada fazem no
cenário atual além de afastar do convívio social os praticantes de delito e ocorre
assim uma desumanização do individuo que de nada adianta para a
comunidade.
Analise Critica
A principal crítica é a da efetivação do modelo garantista de modo
equitativo na sociedade. O que ocorre hoje na prática é uma flexibilização de
uma aplicação garantista quando se trata da aplicação do direito penal as
classes mais inferiores da sociedade. Os mais ricos e que geralmente praticam
crimes “do colarinho branco” se apropriam do discurso minimalista para buscar
uma flexibilização da sanção a ser recebida e quando se trata das camadas
inferiores da sociedade o garantismo inexiste.

5- Funcionalismo minimalista
O modelo funcional minimalista ou teleológico idealizado pelo jurista Claus
Roxin acredita no direito penal partindo de uma visão sistêmica, um direito penal
que não existe por si só de forma isolada, mas uma construção aberta que parte
de uma política criminal para a sua materialização.
O autor acredita que a fusão do direito penal normativo com a política
criminal evitaria uma aplicação acrítica do direito como é feito atualmente, onde
para a aplicação do direito penal seria analisado a função da norma penal e da
policia criminal como um todo.
Roxin acredita que cada categoria do delito, tipicidade, antijuridicidade e
culpabilidade, deve ser moldada afim de se adequar a função político criminal
sistematizado pela sociedade em que se insere. Nesse sentido o escritor acredita
que as finalidades estruturantes de seu sistema seriam as modernas finalidades
da pena, ou seja, prevenção geral e prevenção especial.
Analise critica
A principal crítica é a pré-existência de uma política criminal ou função da
pena, para a efetivação do direito penal sem a qual o mesmo se encontraria
esvaziado de significado e sem um conteúdo autônomo.
Além disso o direito penal ficaria de certa forma irrestrito se limitando
apenas a tal política criminal a função da pena que necessariamente deveria ser
o fim de uma política e não o ponto de partida.
6- Direito penal do inimigo
Ainda sobre um enfoque funcionalista o alemão Gunter Jakobs elabora a
sua teoria do direito penal do inimigo. O professor parte de uma dupla função do
direito penal a primeira a de reafirmação da validade da norma penal e uma
segunda de segurança preventiva contra novos delitos.
Dessa forma existiriam dois tipos de direito penal, o primeiro seria
aplicável a cidadãos normais que cometem crimes comuns, esses ficariam
marcados pelo fato de que, apesar de lesar bens jurídicos, não possui o condão
de uma grande perturbação no sistema social. A sanção teria a função de
estabilização das expectativas normativas da comunidade, mas conservaria a
qualidade de pessoa do indivíduo autor do delito.
O segundo direito penal seria direcionado ao inimigo da sociedade,
alguém que com sua ação é capaz de produzir um dano que afetasse a
comunidade de modo a enfraquecer de forma geral. Com essas condutas de alta
traição, e o indivíduo passa a não se encontra mais inserido na comunidade que
inicialmente fazia parte. Por essa falta de adesão social o criminoso perderia o
seu status de pessoa e passaria a ser tratado como inimigo sofrendo as sanções
que um inimigo social sofreria.
Analise critica
A crítica que se faz é no sentido da flexibilidade do discurso do direito
penal do inimigo, onde a parte mais repressiva poderia ser facilmente utilizada
para legitimar discursos punitivistas e autoritários por parte do Estado.
Além disso ocorre uma contradição interna no sistema jurídico onde
inevitavelmente o direito penal do inimigo iria contaminar o direito penal do
cidadão ou vice e versa.

7-Realismo Marginal
Por fim o ultimo dos discursos analisados em aula seria o proposto pelo
jurista argentino Eugenio Zaffaroni, o realismo marginal jurídico penal. O
magistrado parte de uma observação clínica da realidade que se vivencia na
américa latina, uma realidade dissonante da que se vivencia na Europa ou na
América do Norte, e por isso trata-se de uma teoria “marginal”, que parte da
perspectiva vivenciada nessas realidades peculiares da américa latina.
O autor entende que os discursos penais, bem como as funções
tradicionais da pena, não se mostram satisfatórias para a realidade da américa
latina, e propõe uma releitura a partir dessa realidade que vivenciamos.

Conclusão
Por tudo que foi analisado diversos são os discursos modernos de se
explicar o discurso punitivo estatal na modernidade, entre eles é possível achar
pontos positivos e negativos, e nenhum se mostra completamente incoerente ou
algo realmente utópico, a questão é que para uma sociedade onde o direito penal
exerça sua função de forma satisfatória é necessário observar as suas
especificidades e conflitos gerais. Somente ao se aproximar e buscar entender
a origem do problema criminológico é que se poderá apresentar uma solução
satisfatória.
E é exatamente isso que Zaffaroni se propõe, ele parte de uma construção
a partir e para a américa latina, onde são levados em conta as desigualdades e
contradições do sistema punitivo estatal, por isso acredito que atualmente esse
seria o que mais se adequa ao fim do presente trabalho, qual seja achar um
discurso que seja satisfatório para a realidade social vivida no Brasil.