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O SM A N L IN S

LiT B iU fív W f
NOVE, NOVENA
NARRATIVAS

2.^ Edição

\^SéRl^

ESCALADA

EDIÇÕES MELHORAMENTOS
) Comp. Melhoramentos de São Paulo, Indiisirías de Papel
Caixa Posta! 8120, São Pauio
Nx
X-197S

DO A U TO R
O Visilante, romance, Rio, 1955,
Prêmio Fâblo Prado;
Prêm io Coelho Neto (Academia Brasileim de Letras);
Prêm io Especial da A.P.L,
Os Gestas, cornos. Rio, 1957. '‘À ágwcb, 0 vento, a claridade,
Prêm io Monteiro Lobato;
Prêm io da Prefeitura de São Paulo.
de wm lado o ria, no alto as nuvem
situavam na naÈureza o edificio
O Fiel e a Pedra, romance, R io, 195!,
Prêmio Mario Sete. crescendo de suas forças simples."
S2o Pauio, Edições Melhoramentos, 1974, 4.“ edição.
JOÃO CABRAL D E MELO NETO
Marinheiro de Primeira Viúsem, Rio, 196S!.
ÍO Engenheiro)
Lisbela e o Prisioneiro, teatro, Rio, 1984.
Prêm io Nacional de Comédia da Cia. Tônía-Celi-Autran.
Nove, Novena, narrativas, S5o Pauló, 1966.
Um Afundo Sslasnado, ensaio, Recife, i s e s f
Capa-Verde e o Natal, teatro infantiS, S5o Paulo, 1967.
Guerra do "Cmisa-Cavaio", leatro, Petrópoüs, 1967.
Prêm io José de Anchieta.
Guerra sem Testemunhas — o Escritor, sua Condição e a Realidade Social,
ensaio, SSo Paulo, 19B9.
Avalovara, romance. Edições Meihoramenios, !973.
"ü m a concepção geoTnétrica sintética
TRADUÇÃO e clara fornece sempre um bom plano."
0 Urso Polar t outras novelas, de Henrik Ponioppidan, Rio, 1953.
MATILA C. GHYKA {Esthéiique des Propor-
tíons dans la N ature et datis les Arts).

Nos pedidos telegráficos basta c ita r o eód, “-01-02-032

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N O V E , N O V E N A N O V ID A D E

JOÃO ALEXANDRE BARBOSA

Q u e r o c o m e ç a r e s t a introdução transcrevendo um tre­


cho do admirável ensaio que o formalista russo J. Tynia-
nov escreveu sobre "a noção de construção*’ em literatura:

“O fato artístico, dizia ele, não existe fora da sen­


sação de submissão, de deformação de todos os fa­
tores pelo fator construtivo”.

Apesar da distância cronológica que nos separa da época


de realização do referido ensaio (1923), a afirmação pa­
rece-me muito atual e ainda válida. Digo mais: somente
agora é que se começa a dar importância devida à idéia
da obra de arte literária enquanto forma construída a par­
tir de elementos heterogêneos que se resolvem através de
um processo específico de elaboração. E esta perspectiva
parece hoje extrapolar as considerações apenas "poéticas”
para atingir os diferentes gêneros, derrubando fronteiras
anteriormente rijas, esfumaçando características tradicio­
nais. Fazendo com que, em um de seus livros, Roland
Barthes possa afirmar que “un même langage tend à cir-
culer partout dans la littérature, et jusque derrière lui-
même; le livre est ainsi pris à revers par celui que le fait;
il n ’y a plus ni poetes ní romanciers: il n ’y a plus q’une
écriture”
Por outro lado, é precisamente a relação que se pode
estabelecer entre a “noção de construção” e esta idéia da
literatura enquanto “écriture” que desejo adotar como
ponto de referência teórico para as considerações a que
me proponho acerca deste livro de Osman Lins. Isto por­
que, sem um ponto de vista dessa ordem, parece-me difícil

VII
uma análise crítica capaz de incorporar, do modo mais parece ser um dos objetivos do autor, antes confirmando
amplo possível, todas as significações da obra, isto é, “um aquilo que, na análise de Gogol, dizia B. Eikhenbaum,
sistema global de signos, ou uma estrutura de signos, que isto é, que “a obra de arte é um objeto acabado ao qual se
servem um objetivo estético específico” (René Wellek). deu forma, que se inventou, que é não somente artística mas
N o caso presente, tal objetivo é intentado sob o prisma artificial no melhor sentido da palavra.”
■ da construção narrativa, procurando o autor, através de Deste modo, vários elementos tradicionais da técnica
nove peças de ficção em prosa, a~~êTãboração de uma lin­ narrativa foram passados por sob o crivo da experiência
guagem que seia capaz de fisgar, em diferentes planos. pessoal de Osman Lins que procurou reconsiderá-los de
partículas significativas da existência humana. Isto, que acordo com suas próprias necessidades de expressão.
talvez se possa dizer a respeito de qualquer produto do Assim ocorreu, por exemplo, com a adoção sistemática
trabalho criador literário, afirma-se, no entanto, como dos discursos direto e indireto livre,, deixando de ser o
uma característica fundamental na obra de Osman Lins e autor “um medianeiro entre o leitor e a figura” e pro-
lhe confere, verdadeiramente, a novidade com que com­ r;iirando r> e.nrnnfm *'a Hnís-’ — leitor e personagem —,
pletei, no titulo da Introdução, o título do livro. Porque exigindo, portanto, resoluções em outros níveis da com­
não se trata apenas de uma série de contos, mas de exercí­ posição. E o autor não fugiu a tais exigências mas buscou,
cios de “écriture” orientados no sentido da formação de ousadamente, resolvê-las, como aconteceu com o emprego
um universo ficcional que, como tal, inclui personagens, de uma técnica de simultaneidade que, na verdade, cor­
objetos, situações, tramas e significados que, entretanto, responde a uma perspectiva antes espacial do que tem­
são percebidos pelo leitor enquanto intimamente depen­ poral da narrativa, alicerce da cinematografia, e baseada
dentes do próprio ato de reorganização lingüística que numa moderna noção do tempo, “cujo elemento funda­
lhes deu origem. É que, entre a percepção do mundo, mental, para dizer com Arnold Hauser, é a simultanei­
projetado pela linguagem, e a assimilação da leitura, o dade e cuja natureza consiste na espacialização do elemen­
autor obriga-nos a um encontro decisivo com todos os to temporal”.
elementos de execução que configuram a construção do Sendo assim, aquilo que possa chamar a atenção pelo
texto. Ele não conta; escreve. Mas, por este ato, cria um ineditismo nas diversas narrativas, isto é, a utilização de
espaço em que s e ^ tu a a fabulação. E faz surgir, então, alguns sinais para a determinação do ponto de vista encon­
^ a narrativa con}o se fora^m a imposição inevitável decor­ tra razões de ordem estrutural para a sua existência. Cír­
rente do enlaçar-s^e~ir fti'ndir-se das palavras, respondendo culos, quadrados, retângulos, triângulos, traços paralelos
a indagações da sensibilidade ao encontro com a reali­ verticais e outras representações tipográficas já existentes
dade. Daí, possivelmente, o caráter ornamental da lingua­ 011 inventadas pelo autor, tudo vem responder a necessi­
gem utilizada na obra e que parece responder, por outro dade de determinação, sem que ele se veja obrigado a
lado, a um princípio estruturai de extração de significados adotar processos estereotipados. Ao contrário disso, força
a partir da própria organização literária. a abertura de inúmeras possibilidades de organização,
Por outro lado, este procedimento caracteriza também arrastando a participação do leitor, obrigando-o. mais uma
toda a artificialidade de que se revestem as narrativas, não vez, a penetrar por sob o próprio trabalho de criação.
se escondendo por trás de uma “espontaneidade” que não Este procedimento, está claro, assume graus diversos de

V IU
complexidade, desde, por exemplo, “Um ponto no cir­ o trecho do “mistério final”, onde o autor realiza a fusão
culo”, em que um personagem masculino e um outro de lembranças, de nomes e da natureza por meio de um
feminino monologara em torno de uma experiência/ato intenso virtuosismo verbal:
comum, diversificados, contudo, na perspectiva assumida,
até o enovelado mundo que ressalta de “Pentágono de “Vamos carregando Joana para o cemitério, atra­
Hahn" com suas numerosas presenças cruzando um fogo vessando a cidade e seu odor de estábulos, de cera
contínuo de experiências e frustrações, de recordações e virgem, de leite derramado, de suor, de frutas, de
anseios, desde a identificação inicial adulto/criança (era árvores cortadas, de muros úmidos, entre Floras e
que os sinais tipográficos atuam como sistemas de apoio Ruis, Glórias e Sálvios, Hélios e Teresas, Isabéis
para a simultaneidade psicológica, onde o tempo é estra­ e Ulisses, Josés e Veras, Luízas e Xerxes, Zebinas e
çalhado pela justaposição espacial) até o último monólogo Áureos. Viveú seus anos com mansidão e justiça,
do adulto: humildade e firmeza, amor e comiseração. Morreu
com mínimos bens e reduzidos amigos. Nunca de
“Enterra os mortos. Escreve, não importa como nunca a rapinagem alheia liberou ambições em seu
nem o quê. Do passado, senhor que hoje te absorve espírito. Nunca o mal sofrido gerou em sua alma
e trava as forças do viyer, posse conquistada com o outras maldades. Morreu no fim do inverno. Nas­
sangue de teus dias, faz ura servo, não mais uma cerá outra na próxima estação? O branco, o verde,
entidade soberana, um parasita. Sejam as recorda­ o gris. Alvos muros, cipreste, lousas sombrias. Sob
ções, não renegadas, campo sobre o qual exer- a terra, sob o gesso, sob as lagartixas, sob o mato,
cerás tua escolha, que virá talvez a recair sobre perfilam-se os convivas sem palavras. Cedros e Car­
tuas próprias mortes, sobre elefantes que nunca valhos, Nogueiras e Oliveiras, Jacarandás e Lou­
mais verás, para entregar tudo aos vivos e assim reiros” .
vivificar o que foi pelo Tempo devorado. Atra­
vessa o mundo e suas alegrias, procura o amor, Por esses exemplos, o que parece sobremodo importar
aguça com astúcia a gana de criar”. é o fato de que, em toda a narrativa, não se verifica, em
nenhum momento, um esforço no seiitido de reproduzir
Outro exemplo de semelhante processo é “Retábulo de dados da realidade: a intenção parece ser antes a de tornar
Santa Joana Carolina”, talvez a mais construída narrativa sensível ura universo apreendido através da imaginaçao
do livro, em que, através de doze mistérios, Osman Lins poética_
desenvolve uma análise, por assim dizer, convulsiva de Não há dúvida; é, ao mesmo tempo, um jogo refinado
todo um pequeno mundo de seres miseráveis que, por seus e um jogo em estado bruto a que se entrega o autor. Uma
monólogos, diálogos e impressões, vão ajustando a ótica tentativa de impor a ordem sem quebrar a linha dinâmica
de suas vistas turvas e obstruídas pela existência estreita da percepção. Penetrar a aparência, deixando-a, no entan­
em torno de Joana — personagem ao mesmo tempo una to, ressurgir íntegra.
e múltipla, na medida em que é a sua presença que origi­ Neste sentido, Osman Lins aproxima-se do desiderato
na as demais personagens, tanto quanto existe, como de Paul Klee: a arte não como reprodutora mas como.
“flatus voeis”, a partir das outras. É realmente admirável possibilitadora ^õ^visível. Mas não somente de uma reali­
dade pictórica, assim entendida, aproxima-se o autor: em
ÍNDICE
outras narrativas, como "Noivado”, por exemplo, ecoam
técnicas de composição musical que servem ao escritor
como veículos de simultaneidade a visão de um perso­ 0 PÁSSARO T R A N S P A R E N T E ............................................ 7
nagem em três e capas temporais diversas, fundidas pela
UM PDN TO NO CÍRCULO ....................................................... 21
realidade medíocre de um vulgar funcionário. Como se a
personagem feminina captasse os acordes desajustados de PENTÁGONO D E H A H N .......................................................... .. 35
um terceto incapaz de qualquer harmonia. *«0S C O N FU N D ID O S ....................................................................... 73
Desta maneira, quer fazendo transparecer estruturas
RETÁ BULO D E SA N T A JO A N A CAROLINA ............. S5
pictóricas, quer desenvolvendo linhas de um verdadeiro
atonalismo musical, as narrativas não são dadas ao leitor CONTO BARROCO OU U N ID A D E T R IPA R T IT A . . . . 139
mas, permitido o trocadilho, dados, conjuntos de sinais PA STO R A L ....................................................................................... IBS
lingüísticos ou tipográficos, por onde o leitor se sente
escoar durante a leitura, como que fisgado numa teia de NOIVADO ................................................................ ........................ 181
construções superpostas. Novelos de significados. É, mais PER D ID O S E ACHADOS .......................................................... 203
uma vez, a confirmação do que já se tem dito acerca da
arte de escrever: são novos processos que exigem e, simul­
taneamente, dão origem a novas dimensões significativas.
Um amadurecimento técnico, como este de Osman
Lins, haveria de necessariamente importar numa pleni­
tude de compreensão do homem e seu mundo. Nove, N o­
vena, Novidade, Novelo.
o Pássaro Transparente

s. p. I ™ rosto de oito anos. Cabelo fijio,
• A claro, cobrindo a testa. Pensativo, debruça­
do à janela da cozinha, olha o gato de manchas
pretas e brancas, sentado no mura. Haverá, talvez,
uma tristeza escondida nos seus olhos e, nos lábios,
traços de precoce resignação. Entrefítam-se os
dois, gato e menino. Brilham, no rosto, revérberos
de abafada e colérica altivez. Altivez sem firmeza,
qualquer coisa de elástico e ao mesmo tempo de
inseguro: mola solta.
Você me olha de cima, porque está no muro.
Mas vou ser um homem, vou viver cem anos. Cres­
cer. E quando for mais alto que portas e telhados,
onde estarás? Hein? Sentado onde? Olho para
você e já Tejo a ossada brilhando no monturo. An­
das mansinho, és uim süêncio andando. Eu, quando
crescer, meu bater de calcanhar no chão será como
trovões. Gritarei bem alto, voz de sinos. E você,
orgulhoso?
Pulverizados o gato e seu perfil, é inútil buscar,
- iia face desse homem, exausta, emoldurada pela
Janela do trem, os traços do menino. Seus cabélos
escuros começam a embranquecer, a roupa de casi­
mira negra (luto do pai) é demasiado frouxa, de­
masiado cômoda, as meias brancas enrugaiS^se nos
tornozelos, os sapatos não brilham. Na rede, acima
dele, está a sua pasta negra, fosca, com papéis e
dinheiro, seu guarda-chuva com cabo de metal e o uma velha de negro. Grande broche de prata, fora
chapéu cinzento, preso na fita o bilhete de ida e de uso, com o retrato do marido morto, prende-lhe
volta. a abertura do vestido. As duas moças oiham-na
Há quantos anos, neste mesmo trem, rasguei com esperança; vê-se, porém, que o rapaz tem ver­
aquelas cartas, uma a uma? E há quantos vejo — gonha, que sacrificaria muitas coisas para não so­
duas, três vezes por mês, ao amanhecer e à tarde frer a humilhação. O homem sente, do outro lado
— estas mesmas paisagens? Ao contrária de mim, da mesa, os olhos inçontentáveis da esposa, nele
mudaram pouco. E a mudança, a minha, foi para fixados, como que a gntar : ^TNàb a ouças, faz como
melhor, pior? Como agiria, aquele rapaz, durante das outras vezes. A compaixão custa dinheiro.” ^
a cena preparada para hoje à noite: meus parentes ^ d ó x ia , você perde seu tempo. Perde seu tem- p -
e seu inútil pedido de clemência? Este Engenho, po emlitaí^me desse modo, como se eu fosse uma
como os outros que vejo no caminho, parece eterno, roleta a ponto de parar em número no qual você
com seu triste % e i ^ seus telhados velhos e o co­ nada arriscou. Então não me conhece ainda? Não
piar sombrio. Tem-se a impressão de que os mes­ se habituou ainda ao ar de pena com que ouço la­
mos homens, os meninos de sempre, vêem o trem mentos como este? Será preciso que estampe no
passar. E que os bois, nos pastos, são os mesmos. meu rosto a decisão guardada em mim, decisão to­
Só as árvores, por causa do verão e da estação das mada antes que ela pensasse em vir, trazendo, para
chuvas, transformam-se, para recuperar, a cada comover-me, seus três filhos e esse broche onde ve­
ano ^ue vem, sua juventude. A Juventude do ho­ mos, de perfil, o irmão de minha mãe? Não terei
mem, felizmente, não é como a .folhagem dessas complacência, embora seja certo que, por hoje,
árvores. Be fosse, se eu voltasse a ser jovem, co­ darei algumas esperanças. Mas não perdoarei, to­
meteria decerto os mesmos erros, talvez outros dos os papéis estão legais e são a meu favor, dentro
maiores. de poucos dias a casa onde eles vivem será minha,
A luz da sala de jantar é amarela e pastosa, estaremos ainda mais ricos, temos filhos, três, pre­
Ainda que pusessem lâmpadas mais fortes, seria ' ’ cisamos deixar-lhes alguns bens. Esta mulher, o
quase o mesmo, o motor da cidade é ordinário, an­ rapaz, as duas moças habitarão alguns meses, sem
tigo, tem a fôlego curto e trabalha devagar como pagar, a casa que haverão possuído e que não Ihès
a cidade. Faz uma hora que a ceia términou, os pertencerá. Não mais. Assim, farei a eles um favor,
três lugares das crianças estão desocupados, elas que será invocado em nosso benefício, por uns me­
dormem. Sentado à cabeceira da comprida mesa, ses, enquanto o povo se lembrar do fato e for capaz,
da qual a empregada não retirou ainda as xícaras por isto, de nos acusar. Esses quatro, então, nie Jul­
com restos de café, a manteigueira vazia, os pratos e garão perverso, mas não muito, e até um pouco
os talheres (só o fará, é ordem, quando todos se ingênuo. Depois, eu os expulsarei.
erguerem) o homem, sem gravata, as mangas da Embora pense o contrário, eis uma criança. Nu
camisa arregaçadas, ouve impassível as razões de da cintura para cima, trancado no seu quarto, no

10 11
Dois rostos, um derrisório e solene, de perfil no
mesmo leito que deixou há dois anos e dez me­
travesseiro alto, mandíbula presa num lenço, outro
ses — a si próprio jurando não voltar antes que os
de frente, mordaz, fixando o morto, ambos imóveis.
seus sonhos se cumprissem, antes que lhe fosse dado
O perfil — em vida não era assim: nítido — dá uma
lançar, à face dos numerosos, mesquinhos paren­
impressão de juventude, não obstante o bigode cor
tes, que jamais haviam acreditado nele, seus triun-'
de prata suja; o contemplador, pelo contrário, está
fos — e que será preciso substituir, por causa de
envelhecido, e assim os dois parecem estudos quase
seus ossos que cresceram. Está ajoelhado, as cos­
superpostos ~ um em repouso, outro contraído —
tas como um arco, a face no lençol, entre as mãos
frias. Bastão retilíneo, de àço, dobrado pela sua cur­ do mesmo rosto.
Pois é, meu pai. Há muitos anos queria ve-lo
vatura e que buscasse, tenso, a forma original, um
assim, as vontades cortadas, sem poder, sem voz
soluço se distende no seu corpo.
autoritária, desde o dia em que, desamparado, senti
Venceram, É duro aceitar, e é verdade, perdi.
sua inclemência e decidi voltar. Havia, dentro do
Faltou-me fibra. Novamente as ordens, execráveis,
senhor, um morto; este. Ele dirigiu a sua vida,_ es­
novamente esta cidade imóvel, estas ruas que só
tabeleceu as leis em relação a mim, Bu era o filho
um abalo de terra modificaria, novamente a vida
homem, tinha obrigação de receber — herança —
que destesto, fa,mdaye ,oca, esta condenação. De­
não somente as coisas que o senhor prezava e con­
via levantar-m eTiíníaar^ roupa, apanhar o pri­
quistava, mas também seu apego aos valores que,
meiro caminhão na estrada, ir por aí, os dentes em sua régua, eram as representações do grandioso
cerrados. Como naquele dia. Repetir o salta. Desta e do eterno: a armazém, as casas de aluguel, a fama
vez com decisão mais firme. Não irei. Por que não
de homem justo, a vida sem amor nem aventura, a
resisti à fome, por que não me deixei morrer? Res­
cidade, o vezo de moldar vidas alheias. Pois bem,
pirariam com alívio, contentes em dizer a si mes­ eu recebi a herança. Renunciei, para sempre, a
mos que não se deve ousar pois o castigo é a morte,
qualquer expressão pessoal do ato de viver. Despo­
mas no íntimo teriam de aceitar a verdade; '‘Ele
se! a mulher que o senhor decidiu ser a indicada
foi homem. Falhou nos empregos, nos empreendi­ para mim, estou impregnado de tudo que detesto,
mentos tortos, não teve apoio, morreu despojado, corrompi-me, gosto de ser respeitado, dono de ri­
mas aceitou os encargos de sua decisão. Nisto, ven­ quezas que haverão de crescer, trago o senhor em
ceu.” Não teriam o direito de sorrir, de olhar para mim, nunca deixarei esta cidade. Sou o continua­
mim com ironia, pena, complacência e uma espécie
de saciedade, como se houvessem todos devorado,
dor,0 submisso, o filho. O pai.
A moça, cotovelo esquerdo sobre a mão direita,
famintos, minha capitulação. Vou aceitar o destino mão esquerda solta para os gestos — sua antiga
que me deram, Mas hão de ver quem voltou. Dirão,
atitude — sorri e acena para o mar.
.um dia, que melhor seria houvesse feito eu por lon­ Aí está. Depois de tantos anos de espera,
ge minha vida. Vão desaparecer. Serei o rei, o dono
vou atravessá-lo.
deles todos.
lE
12
— ■Tenho visto seu nome nos jornais. Li que — Ponho um nome de homem.
você obtivera uma bolsa na Espanha. Fiquei con­ — Vindo de Granada hei de saber quem man­
tente, disse comigo: “Ora veja, quem podia imagi­ da. Ora veJa! Quem poderia imaginar? Sabe que
nar que ela ia se tornar uma artista famosa.” O num desses dias, abrindo uma gaveta, encontrei
Jornal reproduzia uns quadros seus, frutas, pássa­ também uns versos meus? Incrível. Não me lem­
ros voando. Um era transparente, via-se o pássaro brava deles. Como a gente muda, hein?
e 0 coração do pássaro. Tinha um Jeito de ave de — Acho que não mudei muito. Se mudei, foi
rapina. para melhor. Sou a mesma adolescente de quem
— E olhar de gente. você, um dia, rasgou as cartas no trem. Um pouco
— Isso mesmo. Era assustador. Existe, aque­ mais velha. Mesmo assim, penso que hoje sou mais
le pássaro? bonita do que naquele tempo. Ou será engano de
— Não. minha parte?
— Não. Não é engano.
Ranger de tábuas, o suave embalo do navio,
Tinha um dente de ouro. A pele é menos bri­
frases em língua estranha, a barlavento, gritadas
lhante; não os olhos. Mais bonito o cabelo, os seios
pelos marinheiros.
menores, mais fina a cintura. Atraente, com qual­
— Você não desenhava, naqueles tempos.
quer coisa de intenso e de madura em seu vestido
— Escrevia versos. Nunca lhe mostrei.
azul, contra a parede ocre e o negro telhado do ar­
— Às vezes, quando me sobra tempo, venho mazém. E u d ó x ia é mais Jovem do que ela. E parece
até ao porto, fico olhando os paquetes. Mas não mais velha, em seus vestidos frouxos, em seu Jeito
entro nunca. E você vai fazer uma viagem. Gos­ ausente e sorrateiro, disfarçando a perene atitude
taria de ver outros desenhos. de suspeita. A cada ano que passa, seu andar é
— Quando fizer uma exposição, mando-lhe mais lento, mais penetrantes seus olhos, sua boca
convite. mais ávida. Esta, ao contrário, quase nada mudou.
— Meu pai morreu há tempo, você soube? As­ Papel e lápis, tintas. Imaginações. Foi sempre as­
sumi a direção dos negócios, estou morando na casa sim, uma fonte de sonhos. Agora, à força de so­
que era dele. O endereço.. . nhar, vai a Granada. Bem que me afirmava; “Um
— Eu sei. Você receberá o convite. dia, havemos de fazer uma viagem.” Havemos.
— Quero pedir-lhe um favor. Mande-me um Olho os navios no cais, é tudo que restou, em mim,
cartão-postal da Espanha. Um cartão dos ciganos, de nossas ansiadas aventuras. E dizer que a sua e
em Granada. minha vida, um tempo,, seguiram o mesmo curso!
— Como devo assinar? Seriamos infelizes, essa viagem à Espanha, nunca
— Quem você pensa que sou? Assine como feita, tornaria amarga nossa convivência. A Espa­
quiser. Seu nome ou qualquer outro. Ou não as­ nha existiria em seu espírito como outro destino,
sine. talvez melhor, porém interdito, por isto mais ambi­

14 15
cionado. Ela nunca haveria de mencioná-lo, eis o Aqui: trilhos de estradas de ferro, pintados de
mais grave, interporia entre nós o sonho e o segre­ negro. Os de lá; roliços, bordados, cor de prata,
do. Assim, não. Desde que é mulher de pensar fan­ com as armas da República. Existem jardins pú­
tasias e cumpri-las, dedique sua vida a fazer gara- blicos, cheios de banquinhos. Imagine as cidades
tujas no papel — cajus, aves, palhaços. Mandará maiores, Paris, Singapura, Manchester. Se eu fos­
para mim o cartão colorido, com as bailarinas ci­ se homem, entrava na Marinha. Veja se não é uma
ganas-de Granada? Se o fizer, não porá meu nome: prisão: temos de passar a vida inteira aqui, neste
apesar de tudo, é sensata. Posso ficar tranqüilo. lugar. Mas quem sabe se não havemos de .fazer os
Ela sorri, seu dente de ouro brilhando à luz dois, um dia, nossa viagem, atravessar o mar?
do poste, que desce por entre os ramos do ficus: Havemos. Ela diz havemos. Eu, não tu, farei
parecem, a moça e ele, presos naquela rede feita essa viagem. Não sabes o que disse um poeta, desi­
de cacos de sombra e manchas claras. A mão er­ ludindo a sua namorada, decerto parecida contigo
guida abrange a rua desolada, as calçadas úmidas, e que imaginava continuar ligada para sempre a
0 cheiro de terra molhada que os envoive, os latidos ele? “Eu sou Goethe!'’ Também sou alguém, serei
de cães, as portas e janelas fechadas, o céu negro. um nome, sinto força em mim. Conforto, dinheiro
Ele de braços cruzados, sem gravata, colarinho le­ do pai, família, cidade natal, tudo abandonarei. O
vantado, 0 corpo mal ajustado na roupa ainda nova, que sou destinado a conquistar, desconheço ainda.
curta para os braços e pernas que se alongam; ela Mas sei que um dia voltarei aqui, rodeado de gló­
de franja, o vestido apertado na cintura, amplian­ ria. Teu marido será empregado no comércio, ou
do com numerosas saias os quadris ainda sem defi­ talvez escrevente no cartório, terás um lar e filhos;
nição. Recende a pó-de-arroz, água-de-colônia e mas teu orgulho maior, a ninguém confessado, virá
panos limpos. Envergonhado com o timbre de sua de seres o que és agora: a testemunha de minha
própria voz, cujas inflexões nem sempre reconhece adolescência. Eu sou Goethe.
e que, embora tente fazer harmoniosa, raro lhe obe­ Todos em torno da mesa, sob as lâmpadas de
dece (ainda menos quando, como há pouco, fala muitas velas, ouvindo a retórica do -padre, as frases
muito ou esalta-se), decide silenciar e ouvir a na­ tantas vezes proferidas, em ocasiões idênticas, so­
morada. bre a fidelidade, o zelo e as bodas de Caná, No cen­
— Você está certo, eu também acho esta cidade tro da toalha bordada, guarnecida com pratos
mesquinha. Quando leio os jornais do Recife e vejo ingleses e talheres cintilantes, no topo do enorme
tudo que acontece lá, entristeço. Chegam tran­ bolo confeitado, que lembra vagamente um templo
satlânticos, príncipes, artistas de cinema, tem aero­ babilónico, dois pequenos bonecos, representando
porto, zoológico, biblioteca pública, muitos cinemas, 0 noivo e a noiva, sustentam o coração onde está
paradas militares, bondes, rio atravessando a cida­ escrita com polvüho de prata, em má caligrafia, a
de, prédios de muitos andares. Ruas calçadas. E palavra AMOR. Os rostos das senhoras, adornados
são bem diferentes destes, os postes de iluminação. pelos chapéus de vária procedência, em geral apa-

16 17
gados pelo tempo e ressuscitados pox um laço ou nar-me seu escravo, levado a isto por compaixão
flores de veludo, assumem ares de embeveclmento; que deveria, antes, dirigir-se a mim e não a ela.
os das moças — algumas, pela primeira vez, calçam Por que, então, essas frases piedosas, por que falar
meias compridas e sapatos altos — fremem de an­ de eterno e de sacralidade? Unimos duas fortunas
tecipação; os dos homens, forçam acuidade e cir­ — e duas indigências. Só. Ê o ouro, são as bens
cunspecção, e é possível descobrir (nos olhos, nos de raiz o que para nós ambos existe de sagrado. Se
cantos dos lábios) linhas de ironia e aborrecimento. não nos une o amor — daqui ausente — como po­
Sobre a indistinta nuvem de chapéus e faces, des­ deria ser eterno? E não perca seu tempo em busca
taca-se 0 rosto do pai, ainda com sinais da exulta- de símbolos. Para nós, só um é válido, esses bonecos
ção, ]á amortecida, de ver realizar-se aliança por ocos, ostentando uma palavra grave (a palavra, a
ele calculada e, com hábil pertinácia, coordenada; palavra!) num coração de papel. É possível que
e Já irritado com o padre, que fala interminável- nem chegue a desembaraçar-me dos presentes hoje
mente, encarecendo os mínimos conceitos, desen­ recebidos.
volvendo imagens triviais. Deixou que os empregados se fossem, para
Todos, com esse ar atento, essas roupas novas, abrir a gaveta, revolver as pastas descoradas, pro­
domam o impulso de invadir o huffet, comer, beber, curar os papéis. Lembrar-se-ia deles se não fosse
em proporção ao valor dos presentes enviados: su­ a notícia no jornal da tarde, as fotografias dos qua­
pérfluos, de mau gosto, que atravancarão a casa dros — frutas regionais, um pássaro extravagante
e dos quais terei de desfazer-me. aos poucos, contra — e 0 nome outrora familiar? No armazém deser­
ludóxia, que jamais aceita a idéia de renunciar a to, com ânsia de quem busca, dentre vários, um
um bem, por mais insignificante. Só mesmo o pa­ documento revelador, acabou afinal por encontrá-
dre ouve a sua prática, adequada, pela extensão, á los. Eis que as observam, não reconhecendo as vi­
importância de nossas duas famílias e à recompen­ sões ali expressas, os mesmos olhos que as teste­
sa em dinheiro. Essas palavras dele, sei por onde munharam.
se escoam. Não fogem pelas portas, nem pelas ja­ Poesias. Por que, tantos anos passados, ainda
nelas; desaparecem a meu lado, para sempre, su­ as conservo? São meus poemas; em todo caso, não
gadas por este poço ao qual liguei minha vida e insuportáveis e neles perpassam alguma gene­
de quem sinto o ossudo cotovelo. Sem entusiasmo rosidade, alguma febre. Eu não era, porém, um
por nada, sem amigas, indiferente a tudo que não coração limpo; reconheço que viviam nele, desde
acrescente seu grande cabedal, ela tudo sorve e esse tempo, muitos dos repulsivos bichos que a dili­
nada a alimenta. A ninguém, coisa alguma, nunca, gência de meu pai nutriu e que fazem de mim,
devolve ou doa. Irei, com o passar dos anos, habi­ hoje, um viveiro sombrio. Posse de outro modo, não
tuar-me a seus modos sorrateiros, à sua descon­ seria com desdém, condescendência e orgulho que
fiança incansável; e à custa de vê-la sucumbir em mostraria a ela esses trabalhas. Lembro-me de có­
ambições sem nenhum objetivo, acabarei por tor­ mo prolongava a leitura. Eu imaginava ser por

18 19
incompreensão, quando seu demorado olhar era
sondagem. Ela rebuscava meus versos, alegrava-se
com eles, acreditava em mdm. II não fui eu quem,
afinal, quebrou a casca, descobrindo um modo cria­
dor e livre de existir. Ela amestrou as mãos da sua
juventude, fez com que lhe pertencessem. Quanto
a mim — estas, cautelosas, quase sempre fechadas,
não sei que sutil e laborioso processo as engendrou
— em que armário do tempo, em que espessa noite
de interrogações perdi as minhas? Um Ponto no Círculo
ULHER nenhuma, até ontem, desatara os
.cabelos para mim. Lembro-me de quando
ouvi, adolescente, um concerto de trompa, instru­
mento que acreditava destinado a papel secundário
nas orquestras. Agora, tento imaginar os complexos
toucados que estiveram em uso noutras épocas, há
um século e meio, por exempla. Arrumavam, as
mulheres de então, suas cabeleiras — para as visitas
aos chalés cercados de jardins, com as ombreiras
de-porta e caixilhos de janela em pedra de Lioz, os
passeios em liteira levada por escravos que canta­
vam, a missa nas igrejas de cúpulas ornadas com
telhas brancas e azuis, e mesmo para os dias ociosos
em suas próprias casas — com inúmeros grampos,
flores, marrafas, alfinetes, cobrindo-as com manti-
Ihas rendadas ou de gaze. Soltavam-nas, em um
gesto mole e sinuoso, quando a camarinha se fe­
chava e elas retiravam, dos braços, do pescoço; brin­
cos, fitas coloridas e correntes de ouro, descalçando
a seguir os sapatos que Jamais eram pretos. Divi­
diam-se, assim, em duas entidades diversas; a^dos
cabelos presos, visível para o mundo; a dos cabelos
desatados, cujo ondear imitava o dos ombros e as
pregas da folgada camisa de dormir. Suas cabelei­
ras eram segredos revelados apenas a um homem.
Não houvesse a intrusa (ignoro seu nome e não
pedi que voltasse) desprendido a massa dos cabe-

23
los, torçais brilhantes que lhe roçavam a cintura, nas coisas, tudo executando com destreza e simpli­
que outro gesto poderia ser tão sigi^ificativo, como ficação de gestos.
expressão de intimidade e oíerecimento? Muitas □ Observou o quarto, à maneira dos que ten­
coisas vi nesta pensão, antiga residência de algum tam evocar, num local histórico, os acontecimentos
comerciante abastado, onde floresciam no quintal que 0 distinguem. Subre a cadeira, num copo, eu
— demarcado com uma sebe íeita de folhas de pal­ pusera dois cravos que murchavam. Deixou o sam­
meira trançadas — clematites, rosas da China e burá Junto do copo e descansou no espaldar a mão
pés de maracujá. Nada verei igual ao que me su­ direita; a outra pendia ao longo do quadril. Arran­
cedeu. cara de um cravo, com os dentes eqüinos, a pétala
V No décimo degrau, percebi que errara o en­ que sustentava entre os lábios. Era o instante de
dereço. Subi 0 resto da escada, entrei no quarto fechar, com precaução, a porta. Quanto tempo fi­
e não fechei a porta. O hóspede, na cama de ma­ camos, face a face, a visitante com as mãos para
deira, espreita-me. Sem conceder atenção ao seu trás, talvez sua atitude preferida? Estaria eu in­
olhar desigual, inclino-me, braços nas costas, cin- terposto entre ela e um ser imaginário, para quem,
gido ao pulso esquerdo o samburá de vime ornado com movimentos precisos, desprendera os cabelos?
com uma fita roxa, e analiso o quadro na .parede. Senti-me dentro do quadro, abrangido pelo mesmo
O morador do quarto, sem dizer palavra, levantou- impulso de admiração com que se curvara, antes,
se. Lado a lado, parecemos na sala de uma expo» sobrè éle. Por isto, e também por me haver abis­
sição, quase a emitir Juízos sobre o penteado ou as mado na sondagem de seus traças, parece-me tão
vestes do modelo. Não o fazemos. Para obter do demorado nosso olhar. Agora, como os arqueólogos
desenho uma visão melhor, mais unitária, para des­ que pensam reconstituir, graças ao pedaço de asa
vendá-lo, afasto-me. A verdadeira porta pela qual encontrado numa rocha, aves novas e as curvas de
entrei foi esse quadro, a mulher cujo ramo florido seu vôo, poderia compor, para a desconhecida, todo
um mundo, a partir do fragmento deixado neste
gostaria de ter entre meus dedos. Enquadrada em
quarto.
sua fôsca moldura, de perfil, em trajes seiscentis-
V Simplificação não quer dizer ausência de
tas, lembrando Ana da Áustria no vestuário e nas
ornatos. Estou de saia pérola e de blusa verde, es­
linhas, sustenta — gesto delicado e régio — o ramo tampada com rododendros negros. Brincas também
vertical com uma flor aberta ao nível de seus olhos. pretos, imitando as flores do tecido; pulseira em
Desejaria ser, em parte, como essa adolescente, e espiral, de prata; sandálias com arabescos. A aná-
sustentar com doçura, ano após ano, também emol­ gua é branca, rigorosamente engomada, de braman­
durada, meu ramo sempre verde, sua corola imor­ te, com uma fita larga, cor-de-rosa, entremeada
tal. Examino ainda a figura e me convenço: nossas no bordada inglês da barra. Adquire ainda função
mãos têm a mesma natureza. As minhas não pe­ ornamental tudo onde está impressa, como nos ges­
sam, quando em repouso; em ação, nunca tropeçam tos de meus dedos e mesmo em seu repouso, a essen-
24 25
cialidade daqueles touros finamente gravados, com mento que era feito com granito vermelho ou seixos
pincéis de junco, nos papiros. Sou angulosa e alta; azulados da praia, chego no meu quarto da Gerva­
em mim se percebem, sustentando a carne, as li­ sio Pires com o dia amanhecendo. Se chove, espero
nhas longas, flexíveis e firmes, linhas de florete. que passe; nunca vou de ônibus. Tomo café, dei­
Quanto à minha vida, tento convertê-la em círculo to-me. Desço nas horas das refeições, converso um
e encontrar o Ponto, situado no triângulo e no qua­ pouco na sala de jantar, onde o chão era forrado de
drilátero, ponto a que aludiam os talhadores góticos tapetes e as paredes cobertas de estampas inglesas,
de pedra, para quem, se não alcançamos tal ciência, representando cenas de caçada. Em que lugar fi­
será em vão todo esforço no sentido da lógica e da caria a piano Broaãwooã? Volto a deitar-me e,
harmonia. Por isto exulto ao perceber que o ho­ quando não durmo, assim permaneço, horas e ho­
mem, a quem pela primeira vez encaro, tem um ras, nem por sonho tocando a oboé, palmas das mãos
olho de vidro. Não se fazem olhos de vidro para para cima, aos lados do coxpo, observando as ara­
ver, como os olhos autênticos, o transitório das coi­ nhas que trabalham no teto. Entre um caibro e
sas. Eles imitam o orgânico e suprem vazios com outro, estendem suas teias; de fio em fio', através
sua neutra e específica existência. A perfeição de de movimentos que não falham, estabelecem liga­
tão frágeis objetos está no rigor técnico, no ajus­ ções que 0 vento ou um besouro poderá romper,
tamento ao tecido vivo, na ausência de asperezas, tecem, um após um, seus fios transparentes, tecem
no brilho discreto e sobretudo em não ver. Equivo- uma força entre os caibros,
cam-se, portanto, os que lamentam a cegueira de □ Desde que cheguei, há quatro anos, a pen­
tais peças, esquecidos de que elas não foram conce­ são já passou por três proprietários: o casal de den­
bidas para ser videntes e corruptíveis. Os olhos de tistas, o subtenente, a viúva espanhola. Todos se
vidro são contempladores abstratos do eterno. As­ opuseram a rasgar aqui uma janela, por menor que
sim talvez não se perca, diante desse homem, meu fosse. Os dois retângulos no teto, de vidro baço e
lado geométrico. glauco, separados por um intervalo de oito palmos,
□ Obrigado, para ganhar dinheiro, autocar sa­ a cumeeira entre eles, é que tornam este meu quarto
xofone de nove e meia às quatro da manha, quando habitável. Se não refrescam a peça, a iluminam,
meu instrumento foi sempre o oboé, nunca estou mesmo em dias chuvosos. No começo do século pas­
à noite na pensão. Pela madrugada, saio do traba­ sado, onde estão a mesa, o quadro, o oboé ao lado
lho, lanço um olhar sobre o antigo bairro do Becife, dos papéis de música, o urinol azul e o guarda-rou­
onde ficavam outrora as fortificações, o arsenal da pa com a mala em cima, ficavam a lenha, os tachos,
Marinha e o comércio em grosso, evoco a porte e a as panelas de cobre e os fogões. Era sempre no
brancura das construções fazendárias, atravesso a andar superior que situavam a cozinha. Impro­
Ponte Maurício de Nassau, refresco os beiços no ar vável que 0 refeitório ocupasse aquele mesmo lugar
que sobe do Capibaribe, cruzo a Rua Nova, a Ponte onde comemos: destinando-se o térreo, quase sem­
Boa Vista, a Rua da Imperatriz, pisando o calça­ pre, aos alojamentos de negros e aos estábulos, o

26 27
piano, as estampas inglesas e os tapetes enfeita­ sínteses. Este era seu objetivo. Se conheciam, os
egípcios, 0 júbilo de escrever, é que haviam encon­
riam algum lance do primeiro andar. As sinhás
trado — ■raro evento — o equilíbrio eiltre a vida e
vagavam entre o rés-do~chao e a cozinha, de chi­
0 rigor, entre a desordem e a geometria. De joelhos,
nelos, camisa frouxa, os seios quase à mostra, ra­
mudos, perfil contra perfil, lembramos esses bone­
lbando com os escravos, comenda pratos de doce e
cos recortados sobre uma folhá dupla dê papel, si­
bocejando. Raramente usavam as melhores roupas
lhuetas que, parecendo opor-se, se completam, são
em família e decerto bem poucas se banhavam à
a mesma unidade, desdobrada; ou as padroeiras
noite. Só quando saíam punham adereços de ouro,
do Alto Egito e do Delta, deusas que ornavam a
capa em cores alegres, fitas nos cabelos. Também
fronte dos reis, uma de coroa branca, outra de co­
é pouco provável que houvesse rosas e clematites
roa sangüínea, representando o Sul e o Norte do
plantadas neste quintal, tão perto dos cavalos, Ma­
país, adquirindo unidas um nome que as fundia —
racujás, sim, é possível; e talvez barrigudas, pés de
estranho, aquele nome, a suas anteriores designa­
limão, alguma tamarineira. Hoje é um pátio cimen­
ções. Onde estarão, no múltiplo, vário e excessivo
tado, com tinhorões em latas, cactos e avenças. O
ser que em mim reconheço, aqueles perfis exatos —
gato ressonava entre essas plantas. Cessados os
de abutre ou de serpente alada — descobertos pelos
ruídos metálicos do meio-dia — fechaduras, sinos,
escribas do Nilo?
dobradiças, talheres e ferrolhos — viera o silêncio,
□ Rosto no travesseiro, imaginava-me esten­
a pausa de todas as tardes. Hóspedes faziam a ses-
dido na praia e recordava que ali haviam estado,
ta; a espanhola, com o leque de tartaruga, abana­
poucos minutos antes, seus cabelos. Meu desejo,
va-se trancada no seu quarto, o'vestido a meia al­
lento, retornava. Tinha impulsos de voltar-me, de­
tura das coxas. Esta calma de verão, exaltando-me
ter a visitante, não ousava mover-me nem falar.
os sentidos, embota-me a noção do reai Por isto,
Ouvia-a, distanciando-se outra vez e em definitivo
embora nada houvesse escutado — nenhum passo,
de mim, interpondo entre nós os grampos nos ca­
voz alguma — e estivesse convicto de que havia
belos, suas vestes e uma indefinível rigidez dos ges­
alguém no quarto, alguém descalço ou com sapatos
tos. Antes de virmos, juntos, para a cama, carre­
leves, não fiquei surpreso.
guei-a até o centro do quarto: queria ver sob as
V Ele fechou a porta, sem cuidada; desabo-
réstias o tecido e os tons de sua pele. Notei que o
toei a blusa. Numerosos insetos, aves, peixes, plan­
sol havia desaparecido e ouvi a chuva, macia, ba­
tas e quadrúpedes, há cinco mil anos, povoavam o
tendo nas telhas. Pelo modo profundo como respi­
Nilo e suas margens. A escrita que os recolheu e
rou, achei que também escutava, naquele mesmo
os transmudou, prendendo-os em exigentes limites,
instante, suspensa nos meus braços, o som que me
contrários à sua índole mutável, não pretendia que
houvera escapado. Depois que foi embora, batendo
voassem, ou nadassem, ou cantassem, ou dessem
a porta, sem que me houvesse dito nenhuma pala­
flores na pedra e nos papiros. Apenas, despojan­
vra, nem mesmo para despedir-se, voltei-me com
do-os do que era acessório, reduziu-os a luminosas
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preguiça. Passara a chuva, uma réstia subia pelo ros, e nos pés de veias salientes. Com a chuva, a
guarda-roupa. Quantas vezes ainda faria esse tra­ luz nas clarabóias sujas — verniz escuro — polia
jeto, antes que eu morresse? nossas formas.
V Foi no Golfo do México, em 24 , há pouco □ Houve um momento em que estava de pé
menos de quarenta anos. Um furacão assolou 'o à minha frente — e tão próxima que, se estendês­
litoral da Flórida, do Alabama, do Misslssípi, atin­ semos os braços, nos alcançaríamos. Sem o saber,
giu Louisiana, arrancou árvores, telhados e fios te­ sem o querer, viera ao meu encontro e aqui estava,
legráficos. Por mais que os animais terrestres des­ submissa à própria determinação como a um des­
lizassem, corressem ou voassem, água e ventania tino. Sentado, a cabeça baixa, as duas mãos cris­
eram mais rápidas. Não sobrou muito dos grandes padas no lençol, vi que se desfizera das sandálias.
rebanhos: em poucos segundos, foram mortos Uma aranha invisível, urdidora, diligente, unia-nos.
250.000 bois e cavalos. Quase todos os répteis, anfí­ Não falaríamos, disso estava certo. Éramos, am­
bios, pássaros aquáticos, quase todos os peixes que bos, servos de leis que ignorávamos e tínhamos as
viviam nos lagos e lagunas tiveram sorte idêntica. línguas cortadas, para que tudo se cumprisse com
Atirados à praia, os cadáveres foram sepultados justeza e em silêncio. Uma dança.
num imenso lençol de aluviões e detritos, carreados V Somos dois corpos, somos um corpo. O olho
pelas vagas. Continuarão ali por muitos anos; al­ verdadeiro colhe as minhas asperezas, minha im­
guns serão redescobertos um dia, feitos pedra. Es­ perfeição, 0 que sou. de inacabado e portanto de
tou descalça. contíguo à sua natureza. Enquanto isto, perante
Q Seu corpo desnudo, a cabeleira espalhada. a outra pupila, estranho como em frente ao uni­
Cruzados os longos braços sobre a fronha, as ner­ verso da jovem que lembra Ana da Áustria, apa­
vuras dos pulsos, meio escondidas entre os negros ga-se meu lado mortal. Transformo-me, assim,
cabelos, latejavam. Contemplei o pêlo de suas axi­ numa entidade que, dual, é visível a um olho hu­
las, fulvos, úmidos. Exalavam um cheiro resinoso, mano e resgatada por um olho mecânico, em sua
de castanhas cruas. Traçando-se, entre elas e a fria e lúcida dureza. Para este, sou a Grande Vaca
sombra do umbigo, duas linhas retas, ambas toca­ Celeste, deusa do amor, da alegria, da música, da
riam as rosetas dos peitos volumosos. Os caules dança e do enlaçamento das guirlandas. Então,
invisíveis desses girassóis encontravam-se, ao pé do quando novamente separados, passarei minha per­
ventre, no pequeno jarro de seu púbis. A coxa es­ na direita sobre as dele e desenharei em sua espá-
querda, tensa, comprimia a outra. A resistência dua, com a ponta do seio, como se vertesse leite ou
da pele, sua temperatura, o vibrar dos músculos e sangue, o sol, tranças espessas, triângulos perfeitos,
a descorada penugem, a meia altura das coxas, chifres, o pentagrama, símbolo da vida.
atenuavam a dureza que me desapontava no dese­ □ Para despir a saia pregueada, para desabo­
nho das pernas, nos joelhos ósseos, não muito cla- toar a blusa de cambraia (sua mão direita, com

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displicência, descia pelos pequenos botões de ma­ como 0 de Ana da Áustria. E depois? Que exér­
drepérola), não afastou de mim o' olhar. Mesmo citos, areias e detritos cobrirão esta hora? Hoje,
assim, parecia não ver-me. Os seios, soltos, eram amanhã, sepultada ou não, ou evocada, ou esque­
maiores do que eu imaginava. Estático, os braços cida, recuso-me a existir só em meu rigor; ou só
estendidos, soergui-osj numa atitude de oferta e de em minha desordem. Seja este momento, e assim
recebimento. Estranho pesa e estranha consistên­ minha existência, os ângulos dos geómetras e os
cia: dóceis, fugidios, líquidos, quase impalpáveis. bichos do furacão.
Dobrada para trás, as longas pernas flexionadas, □ Seu rosto, do qual fugira o sangue, cercado
arco abatido, apoiado em meu braço direito, firme pela cabeleira revolta e copiosa, tinha um brilho
na ondeante cintura, prendeu-me o lábio inferior de opala. Era de cedro? Que beleza disfarçava?
entre os dentes; com a mão esquerda emaranhada Hosto mongólico, não acabado, esculpido por quem
entre seus cabelos, que pendiam para o chão quase quisesse impor à madeira um vinco de tristeza, sem
feito a cauda de um cavala, sustentava-lhe a ter mão para abafar a enérgica alegria latente no
cabeça. Linha curva, opaca, superposta à outra, modelo e que, rebelde, se houvesse imposto ao ma­
igualmente espessa, porém que adquiria, em meus terial. Lábios grossos, chatos, sem relevo, entrea­
sentidos, transparência de arco-íris, isto era eu. bertos por causa do calor, da ânsia e do tamanho
Nosso desejo, fazendo-nos mais leves e acrescentan­ dos dentes, Não tentava disfarçar, pintando-os,
do nossa força, nos equilibrava. seu contorno impreciso. Os olhos escuros, quase ne­
V Assim coma os cavalos, as vacas, os anfíbios, gros e naquele instante velados de prazer tinham
os peixes e os pássaros aquáticos esperam sob a 0 oblíquo desenho acentuado a lápis e fitavam-me,
terra, no Golfo do México, a passagem do tempo e com fervor ou agradecimento, como se me esperas­
uma circunstância que nos revele suas efígies em­ sem desde sempre. Imaginava-me sua terra e tam­
pedradas, os outros animais ficaram nos papiros, bém sua raiz. Em breve tombaria exausto, meu
cobertos pelas areias do deserto, protegidos pelo corpo tombaria, enquanto eu próprio continuaria
clima seco, enquanto sobre eles passavam e desa­ — como, não sei — preso a ela. Estávamos unidos,
pareciam, sem nome nem rastro, soldados da Etió­ enlaçados. Os chalés que guarneciam as margens
pia, assírios, persas, gregos, romanos, tantos outros. dò Capibaribe, brancos, com seus caixilhos em pe­
Deste modo agem a vida e a memória, sovertendo dra de Lioz e seus pomares, Já não existiam; desa­
com igual indiferença o terso e o impuro, para parecidos igualmente os alvos prédios fazendários
nunca mais ou até que o trabalho do homem — e os pavimentos de granito vermelho; também não
ou 0 acaso — os devolvam à superfície. Dentro em restavam cúpulas de templos adornadas com telhas
pouco, descerei a escada, atravessarei o vestíbulo brancas e azuis, de porcelana. Ergueu-se de nós,
onde ninguém me verá, ganharei a rua. Levarei de nossa pele brilhante, um hino atormentado,
entre os dedos flores geométricas e meu vestido será atravessou-me o espírito a lembrança da trompa e

32 33
de suas possibilidades, ambos j ’essoamos de prazer.
Tantas coisas mudavam — arquitetura, sistemas
de governo, vestuário, modo de viver, formas da
miséria e da rapacidade — tantas coisas mudavam
e 0 hino era o mesmo.

Pentágono de Hahn
M diferentes cidades, \ eu aqui em Goiana^
eu na Vitória, ^ assistimos o número de
Hahn, e essas duas vezes foram [ são idên­
ticas, tudo se cumprindo com uma regularidade
polida nos ensaios. *=} Tinha, sempre tive, predile­
ção por essa espécie de animais; embora já contasse
quarenta e cinco anos, vibrava ainda ao vê-los. Fas­
cinava-me aqueie ser informe, gravado nas caver­
nas quando nosso destino de homens não se fixara,
cunho de moedas, transporte de reis, montaria de
deuses, ele próprio reverenciado e apontado como o
bicho que suporta o mundo sobre o dorso. Além
disto, sabê-los raça tendente a desaparecer, impres­
sionava-me, talvez por ser celibatárig. Senhorita
Hahn entrava ao som da Marcha Triunfal, da Aída.
Tapete carmesim na testa, tapetes persas no
lombo, '¡I aparecia, \ surge, orelhas abanando,
as presas falseantes sob as lâmpadas; dançava,
\ dança, com seu domador, \ com o grande
general, uma valsa, trechos do Danúbio Azul;
Juntava, \ Junta ^ unia as patas sobre dois
tambores coloridos, erguendo a tromba e girando
lentamente, com extremo cuidado, naquele reduzi-
do pedestal, ^ onde bebia, \ onde bebe ^ onde
tomava ^ um copo de cerveja; '¡l ofertava, en-
trega, oferecia, a alguém sentado na primeira
fila, ^ um ramalhete de dalias, \ três rosas ama-
37
relas; partia, j. vai-se, desaparecia, pi- sequer ouvia os gritos da elefanta (que Deus o te­
sando o chão com brandura: tinha-se í tenho nha em Sua santa glória) e é difícil imaginar o
a impressão de que, encontrando um ovo no cami­ que seria dele, não tivesse os cuidados de irmãs
nho, ficaria, \ ficará ficaria % no ar, sus- como nós duas, ainda moças e capazes de tudo para
pensa, para não quebrá-lo. \ Em meu pesadelo, lhe ser úteis. Quando Latif ia embora (Helônia
abro a Janela: todo o espaço entre as esquadrias é dava-lhe adeuses ao portão) começava o debate.
ocupado por uma barreira parda, rugosa e ondu­ Minha irmã, por mais que eu lhe abrisse os olhos,
lante. Muro levantado em segredo, dissolvendo-se, não queria entender que essas visitas diárias reco­
ameaçando invadir o peitoril, a saia, soterrar-me? mendavam mal: Nassi Latif não era criança, e sim
Brado: “Hahn!” Adélia ouve meus gritos, toma-me homem com trinta e tantos anos, irresponsável,
nos braços. vadio, meio louco, podendo muito bem comprome-
I Ocupada com o velho nosso irmão, o padre, ter-nos, a nós, pobres mulheres, cujos únicos bens
que nesse tempo não passava bem, soube do número eram nosso irmão padre, o nome de família, nossa
por intermédio de Nassi Latif. Nem sequer cheguei reputação e nossa virgindade, estas valiosas em si
a ver a elefanta, embora a casa onde moramos fi­ mesmas e principalmente pelo zelo com que, ao
que por assim dizer no mesmo pátio onde ela pas­ longo de mais de meio século, as havíamos guar­
sava tardes e manhãs; era tão perto que eu e mi­ dado.
nha irmã, 0 dia inteiro, ouvíamos seus gritos. No it' Erguendo quanto posso o busto e meu so­
princípio andei chamando Helônia para ir vê-la, brinho (tem seis anos, cinco anos mais novo que
depois de arrumarmos a casa. Desde muito não meus seios), eis-me em presença de Hahn, vestido
saía comigo, dizia ser ridículo duas ancias na rua, marrom claro, olhando seus mamilos, pequenos co­
passeando juntas, no que é possível lhe coubesse mo os olhos de pestanas claras, lacrimosos, borbo­
razão, porém não muita. Éramos tão velhas? Ela letas pardas, roídas — não mortas — de traças e
não tinha setenta, eu mal passara dos sessenta e formigas. Começou a noite no bojo da elefanta.
três. Há gente que se casa nessa idade e ela mesmo Os que a rodeamos, oferecendo-lhe torrões de sal,
contava desposar Nassi. Nassi Latif ia aa Circo — confeitos, caramelos, cana-de-açúcar e pedaços de
não sei como obtinha dinheiro para isto — e no dia anil, breve deixaremos o pátio agora ensolarado,
seguinte aparecia, doido como sempre, relatando iremos para nossas casas. Fosse a tarde maior! Fi­
as mesmas coisas em grandes pormenores, como se casse eu mais tempo entre os colegiais, vissem-me
não as houvesse contado muitas outras vezes, à todos nesse meu vestido, Não por ser novo; mas
minha irmã e a mim. Helônia, embora negasse, porque, não sendo loura e bonita como Patrícia
tinha adoração por ele: ficava junto, escutando-o, Lane, Marjorie Reynolds ou Carole Lombard, meus
fazendo perguntas, comendo-o nos olhos. Por com­ clarins são os peitos — grandes, firmes — e a blusa
paixão, dizia. Eu saía de perto, ia ver o doente. realça-os. É o início de acontecimentos graves em
Este sim era um velho. Surdo, quase cego, nem minha vida apagada. Ignoro vou sendo conduzida,
38 39
e só, pela corrente (meu sobrinho não foi precipi­ nha esposa na face, uma vez que, embora cientes
tado nessas águas) e olho para Hahn. Sua alegria da distância interposta, mais e sempre, entre nós,
ultrapassa o festivo círculo composto de estudan­ conservamos ainda esses pequenos ritos mortos,
tes, velhos, donas-de-casa, pequenos mercadores, profundamente aflitivos. Se houvesse deixado para
espraia-se no pátio ensolarado, como se não fosse vir de trem, não veria a elefanta: o trajeto entre
ela um bicho lerdo e pouco ruidoso, mas banda de a estação e a casa de minha avó não abrange o
música, ou exibição de fogos de artifício. As imen­ Pátio da Matriz; de ônibus, porém, desço em frente
sas orelhas, semelhantes a velhos trapos sujos, ra­ ao circo. Vejo, portanto, Senhorita Hahn, a uma
jadas de amarelo ouro, branco encardido e rosa da tarde, abrigada sob o toldo, semelhante a esses
desmaiado — buquês de flores murchas, de podri­ potentados do Oriente que presenciamos no cine­
dão e pó — agitam-se por sobre a multidão, fazem- ma, rodeados de sol, parecendo, entre coxins, uns
me pensar em flámulas, penachos, fitas e bandei­ privilegiados, tão orgulhosos do seu quadrado de
ras. Tem seu couro uma sombria cor de ferro velho; sombra, como de seus punhais e de suas frescas
provocados não sei por que Jogos de luz, emite re­ esmeraldas. Um velho contempla-a. Estão os dois
flexos glaucos, como de mar. Só então vejo os olhoB sozinhos, sozinhos à sombra, cercados pelo escal­
de Bartolomeu, também lacrimej antes, mas azuis, e dante silêncio e Hahn tem no ar uma das patas;
penso que são eles a fonte dos inexplicáveis tons executa interminável dança, num vaivém a que seu
marinhos que adoçam o lombo da elefanta, e eu próprio peso, sua vastidão, imprimem graça, um
própria me sinto, por um segundo, banhada de azul. ritmo solene. É um exemplar asiático: tem cinco
Terá, no máximo, doze ou treze anos. Não me en­ unhas nas patas dianteiras, quatro nas outras. A
ganam a perplexidade e o deslumbramento, e a extremidade da cauda, evoca a pena de um pavão.
dúvida, ante esse primeiro olhar. Em estatura, nos Perguntou-me o velho se não acho cruel prender
equiparamos. o animal, isolá-lo de seus companheiros, amestrá-lo
0 Faz quase dois meses que não venho à ci­ com banhos, cânticos, agrados enganosos, gritos,
tudo por dinheiro. Sorri sem responder. Como po­
dade. Levado pelo súbito desejo de rever — o que
não sucede há anos — abertas as lojas e mercea­ deria concordar, se acho que palavras não domadas,
rias, 0 salão de barbeiro que freqüentei em minha soltas no limbo, sós ou em bando, em estado sel­
adolescência e os estudantes sobraçando livros, ru­ vagem, são potestades inúteis? Num gesto ondu-
mo ao colégio onde estudei, coisas que desde muito loso, Hahn alongou a tromba; sopra-me entre os
não. vejo, pois só visito a cidade nos domingos (e dedos.
também, é possível, receando passar — amanhã No escritório, mais frígido e vazio que a mi­
será feriado no Recife — o domingo e a segunda- nha existência de celibatário, não conseguia esque­
feira em casa, sofrendo esta presença desagradável cer-me de Senhorita Hahn. Tenho dois irmãos bem
entre todas, alguém a quem deixamos de amar), diferentes e sou talvez a fusão, o meio-termo entre
parti depois do almoço, beijando rapidamente mi­ eles. O mais velho, Oséas, possuía uma boa loja de

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sapatos, da qual o outro, Armando, fizera-se sócio. mente possuí-la, enredei minha vida^ em distinções
Nessa qualidade lá aparecia duas ou três vezes por e minúcias, nem cego bastante para triturar o que
semana, esgueirava-se entre as prateleiras ou fi­ me apetecesse, nem bastante louco para integrar­
cava à porta, olhos etéreos, sempre de branco, mãos me num sonho e dele fazer parte. Se as moças da
nos bolsos das calças, e a partir de certa época nos cidade não me pareciam romanescas a ponta de
do paletó, por ser assim que fazia George Raft, em exaltar em mim uma paixão, e se jamais concebi
um^ de seus filmes. De repente, sem despedir-se de um casamento não magnificado pela exaltação
Oséas, 0 andar comedido, tomava a direção de casa, ainda que ilusória dos sentidos e da alma, as liga­
passava pelo meu escritório sem voltar a cabeça, ções casuais repugnavam-me. Sobrava-me também
retomava tintas e pincéis, isolava~se no seu ateliê, 0 senso do real, impedindo-me de transcender pela
pintando santos, paisagens escandinavas e animais imaginação o trivial e o mesquinho, bem como de
nunca vistos: hipopótamos, garças, baleias, tuba­ segregar um ser inexistente, tirar à maneira de
rões. Oséas, com vinte e poucos anos, escolheu mu­ Adão uma mulher de minhas próprias entranhas,
lher. Sem grandes exigências, atentando apenas sem mácula, perfeita, invulnerável — e amar, com
para os dentes (reflexo infalível, para ele, de boa um amor real, essa personagem imaginária. Assim,
ou má saúde) e para a finura das pernas. Achava quase todas as noites, livre do escritório, punha-me
que mulher de pernas grossas tende a ser pregui­ a vagar sozinho pelas ruas, já não sabendo mais
çosa. Gostava de pescar, comia bem e muito, bebia (quantos?) havia quantos anos sentira contra o
ainda mais, tinha sempre em casa muitas dúzias meu corpo um corpo de mulher, pensando em ir
de vinho, não lhe importando marcas nem origem.^ embora da cidade, sabendo que jamais o faria, dese­
“Tudo é vinho!” Detestava a tristeza, só indo a jando 0 impossível e súbito aparecimento, numa
cinema para ver filmes de títulos amenos; 7 iva a daquelas ruas afastadas e como que envolvidas em
Marinha, Â Filha ão Capitão, Deliciosa, A Mocidade sua própria miséria, da mulher que viria em meu
Manda. Este o ponto fraco, na construção saudá­ socorro, libertando por um dia que fosse, de sua
vel que afetava ser, a nota falsa que o identificava; solidão, este meu ser repassado de um silêncio como
meu irmão, um amedrontado como nós, olhando 0 dos pátios na madrugada.
para a vida de través. Não pode a homem dizer-se I Era também muita •— em minha irmã, em
corajoso, ávido pelas coisas do mundo, se não é ca­ nosso irmão o padre, em mim — a solidão. Posso
paz de olhar de frente, seja onde for, as represen­ afirmar que nem todos os santos foram tão virtuo­
tações do terrível. Não tolerava que mulheres da sos quanta ele. Talvez por isso mesmo, embora hou­
vida (freqüentava-as mesmo depois de casado) lhe vesse exercido na cidade, durante trinta e nove
falassem das próprias atribulações. “Bapariga já anos, seu sacerdócio, batizando, celebrando casa­
nasce rapariga. Não tem uma que preste,” Foi a mentos, encomendando mortos e organizando pro­
criatura menos propensa a sutilezas que já conheci. cissões, quase ninguém o visitava. Compreensível
Sem haver cultivado essa virtude, sem absoluta­ que, embora receando as conseqüências das visitas

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diarias de Nassi, e não simpatizando muito com seus
constrói em segredo? É como perscrutar, nas tre­
modos, eu as desejasse, sentindo-me inquieta se por
vas, um trecho de terreno onde vagos movimentos
acaso ele demorava a aparecer. Explicável também
nos indicam uma articulação de intenções, um as­
que, duas semanas após a elefanta haver chegado,
salto, uma fuga, uma conspiração, algo cuja natu­
eu, de tanto ouvir falar nos seus modos, sentisse,
reza e fim desconhecemos. Esta criança me assusta,
quando soava no ar sua trombeta, um sentimento
© A casa de minha avó, porta e janela, cinco
raro, uma alegria. Tinha a impressão de que ela
metros de frente. A divisão dos cômodos, obede­
me chamava; dei de responder àqueles gritos, sen­
cendo ao plana que desenhistas e construtores lo­
tindo-me culpada sç não o fazia.
cais há decênios copiam — sala de frente, corredor
i? A sacristía com as luzes apagadas. O padre
no altar-mor, os dois acólitos, velas acesas, ouros perlongando os quartos de dormir, sala de jantar,
cozinha, sanitário, quintal — dá-lhe um ar de ha­
das imagens, alvos panos bordados, o tapete verme­
lho, O hino sacro, cantado em latim. A velha sera­ bitação antiga. Foi edificada há menos de oito anos
e seu material é mais ordinário que o das casas ve­
fina. Pela janela escancarada sobre o quintal com
lhas. Nada de pedra, nada de azulejo, de pinha no
mangueiras, entra o luar; reflete-se no piso de mo­
beirai, nada de cedro ou de grades de metal. Nem
saico, ilumina os bancos de madeira escura. Bar-
mesmo é alta. À direita, num chalé com oitões
tolomeu Junto a mim, ereto, as mãos nos bolsos.
livres, mora a filha casada, a quem diariamente
Cinco dias passaram-se, antes que tivesse coragem
visita 0 que, pouco amiga de passeias, tem nesse
de falar-me. Hoje, seguiu-me resoluto, graduando
ritual, sempre retribuído, sua distração. Portas fe­
o passo, um pouco mais rápido ou maior que o meu.
chadas, todos fazem a sesta. Empurrei o portãozi-
Deixei-o aproximar-se. Avancei mais depressa
nho do chalé, atravessei o alpendre. Minha avó
quando o senti na vertente da decisão pela qual eu
deixou, na sua casa, a porta da cozinha aberta. De­
ansiava. Entramos na igreja quase ao mesmo tem­
vido,a uma irregularidade do terreno, a outra face
po e adivinhei — mais que ouvi — sua voz estran­
do muro, no seu quintal, tem menos altura. Apa­
gulada, perguntando se podíamos falar. Sem olhá-
nhei uma escada (nenhum oriental ousaria chegar
lo, também eu perturbada embora a contragosto, por esse meio vulgar ao dorso dum elefante), escalei
respondi que sim. O hino, a voz do padre, o som 0 muro sem dificuldade, estou no interior silencioso
da campainha, luar na sacristía. Estou um pouco e limpo, entre o guarda-louça, as cadeiras com as­
à frente de Bartolomeu; a intervalos, olho-o. Res­ sento de palhinha e a mesa nua, quadrada, tudo
ponde com seu modo retraído e fino de sorrir. Sei: de madeira branca. A presença de minha avó
0 espírito dele não está vazio. E tenho, desde este abrange o cheiro das coisas. Entre o pátio e esta
primeiro contato, o pressentimento de que alguma sala de jantar, vou esmagando nos dedos, como se
coisa diversa do comum me está guardada. Em seu
fosse areia quente e úmida, o sopro da elefanta.
corpo frágñ (dá-me a impressão quase obsessiva Apercebo-me, pela primeira vez, do quanto minha
de algum raro Instrumento de relojoaria), que se vida se tornou estéril e quão hostil é o meio onde
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flui a mor parte dos meus dias. Um monstro, ao arraias: retangulares, nervosas, ameaçadoras, com
sol e no silêncio; um paquiderme, não de grandeza, afiados vidros na extremidade da cauda — trouxe-
mas de aridez e pobreza interior; com a agravante -me da feira, entre laranjas, olhos de alface e pal­
de que tudo em mim é secreto, nao provocando, mas de banana-ouro, este índio rubro, que palpitava
ainda que acidentalmente, o interesse alheio; com sobre o cesto do carregador, e do qual, com orgulho,
a atenuante de não ser mudo, mas dispor da pala­ sinto a força. Precisei lutar, em casa, contra a resis­
vra, instrumento que manejo mal, podendo ames- tência dos mais velhos: afirmam que os papagaios
trar-me, para consignar, se não o meu exilio, minha trazem para a terra micróbios de bexiga, soltos na
constância no sentido de rompê-lo. Aqui, entre altura. Parecem ter razão, eu mesmo já os vi; e é
esses móveis, descubro que rever a cidade na segun- sempre em outubro, depois das pandorgas, que sur­
da-feira representa um disfarce. Se desde muito, gem na cidade os bexiguentos, a febre, outras doen­
ñas visitas mensais à minha avó, não encontro ças. Como adivinhou Adélia que dentre os papa­
certo indefinido sabor que, estou segura, existiu em gaios é 0 índio que prefiro, o índio, grande quadrado
minha infância, imagino — com a lógica dos indi­ de cor com uma das pontas voltada para baixo,
gentes — haver fugido esse gosto, ou essa atmos­ ornado pela corrente de papel de seda que pende
fera, dos domingos para os outros dias. Coisas de dos vértices laterais e concorre, ao mesmo tempo,
pusilânime. tal como sucede às coroas dos reis, para acrescen­
^ A rua onde moramos é das mais antigas da tar-lhe a imponência e a estabilidade? Debruçada
cidade. Subiu de nível, com os anos; ou a primitiva à janela, Adélia sorri. Sorriso breve,, de curta vida,
calçada de tijolos, quase soterrada, cedeu pouco a igual a todas as minhas alegrias. Depois de man­
pouco, ao longo do tempo: chão da rua e calçada dar para o meu índio vermelho dois ou três avisos
se confundem. Qual será o mês? Fins de agosto? (por mão de que milagre sobem as rodelas de papel
Começo de setembro? O céu povoado de inquietas até ao cabresto dos-papagaios?), a linha curva e
pandorgas. Outros meninos erguem-nas, o dia in­ tensa irá romper-se, o índio, vacilando, enredar-
teiro, na rua de passeios soterrados. Habita, em se-á na corrente de papel de seda, os redondos avi­
frente à nossa casa, uma mulher. Ela compensa sos voarão com ele. Nunca mais o verei.
tudo o que existe de velho e sem encanto, Adélia é [ Houve discussões com Helônia. “Está se
seu nome. Pelas manhãs, depois, que o marido, ne­ afeiçoando a Latif demais!” Insultou-me: era de
gociante de feijão e milho, vai para o trabalho, se maioT e faria da vida o que entendesse. Temos o
debruça à janela pintada de verde. Nessa hora, mesmo nome, respondi, seus erros pegam em mim.
eu também, na ponta dos pés, me debruço à minha. Caiu em pranto, dizendo-se infeliz e bradou que eu
Acena, sorri, deixa-se adorar pelo que julga ser a estava com ciúmes. Nassi Latif seria a última pes­
inocência de um menino. Havendo percebido mi­ soa a me causar ciúmes, declarei. Um doido, Um
nha inveja — queimava-me de sol, vendo subirem vira-mundos. Não se iluminasse. Ele, ainda com
as zumbidoras gamelas, os imponentes índios e as uma banda morta, mais dia menos dia azulava de

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novo, com muleta e tudo, ia embora para o Acre entretanto, não sabemos de onde — de alguma casa
ou para Mato Grosso, para a Venezuela, como fi­ fechada e às escuras, ou por trás üe um muro —
zera tantas vezes. Nascera vagabundo, vagabundo começou a vir o assovio, a Marcha Triunfal da Aí­
vivera até então, morreria de velho como vagabun­ da. Delicadamente, sem dar a entender que o es­
do. Deitou-se no chão, gemendo e batendo com os cutava, sugeriu mudarmos de lugar. Movendo-me,
pés. Depois disso, Nassi Latif passou três dias sem senti 0 volume das minlias ancas e tive consciência
nos visitar. Julgando que ele deixara de vir por de que no meu andar pesado, em meus quadris
minha causa, por conselhos meus, carta mandada ondulosos, ho tronco sem cintura, é possível.des­
por mim ou coisa semelhante, envenenou minha cobrir, bastando para isto um pouco de maldade,
comida. Ao ver-me preparar o prato, arrependeu- semelhanças com Hahn. Até meus seios, de que
se, confessou a falta, aJoelhou-se e me pediu per­ tanto e sempre me orgulho, pareceram-me desco­
dão. Nosso irmão padre de nada sabia. munais. Nosso pobre amor, precário e frágil, será
Sei que as relações entre mim e este ado­ dissolvido no ridículo. Guardaremos, de tudo, uma
lescente hão de ser passageiras; esperava, contudo, recordação humilhante. Por isto, olho as casas des­
vê-las morrer em conseqüência de seu próprio ab­ ta cidade subitamente odiada, perante a qual eu
surda — divertimento em que alguém aceita ser o sou Hahn e Bartolomeu o domador, e ponho-me
Rei ou 0 Loba e assume esse papel, não para sempre. a chorar. É a prim.eira vez que ele toma, entre as
Reconheço que a perversidade daqueles a quem não suas, minha mão. Quisera oferecer-lhe, em sinal
fizemos nenhum mal se volta contra nós, que ape­ de reconhecimento, um ramalhete de dalias.
nas nos amamos — ou tentamos amar-nos — con­ 0 Contemplo as telhas vãs. Que sensação se
denando o que de si é transitório a um final ainda apodera de mim? Em que misterioso espaço pene­
mais prematuro que o determinado por sua natu­ trei, ao franquear o muro e invadir, por uma via
reza. Meu sobrinho alertou-me para os assovios. que não a habitual, esta casa em silêncio? Minha
Bartolomeu, talvez, os houvesse igualmente perce­ avó dormia, dorme, um lençol sobre as pernas. Não
bido; nada me falou. Tem finuras, embora seja tem mais idade para ocupar, com a sua presença,
um menino. A principio, na esperança de que toda a casa, onde há recantos e móveis quase aban­
estivesse ainda alheio àquela inexplicável manifes­ donados, como esta cama de lona que espanei, for­
tação das pessoas, evitei encontrá-lo à luz do rei, onde me deitei, e que estava coberta de pó.
dia. Procurava os lugares mais sombrios. Não se Abrir o gavetão da cômoda, retirar os lençóis,
prevaleceu, uma só vez, dessas circunstâncias: 0 travesseiro, a fronha, o velho pijama, estender-me
mãos nos bolsos, olha-me furtivamente (seus olha­ de costas sóbre o leito. Gestos banais, penetrados
res têm qualquer coisa da exame espreitador e as­ — por que razão? — de uma substância transcen­
sustado de um pequeno rato que se aventura a dente. Minha avó escreve-me, na noite do meu dé­
deixar, por instantes, seu esconderijo, porém cin- cimo nono aniversário: “Preparei um almoço espe­
tilam de adoração) e isto encanta-me. Há pouco, cial. Sua tia e o marido, que estão pensando em

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morar perto de mim, por causa de meus anos, que Hahn as atenções das pessoas. (Assisto uma fun­
infelizmente já são muitos, vieram do sítio. Sendo ção, com Adélia e o marido. Em minha mao es­
domingo, estávamos certos de que não faltarías. querda, a da mulher; na direita, a do negociante de
Comemos sos, às duas horas da tarde, todos pesa­ feijão e milho. Para suportar este último contato,
rosos, poís sonhávamos há muitas semanas com a transformei-me num saco em quem o homem verte
tua presença neste almoço.” Onde estaria eu, nesse cereais e minha amiga várias espécies de açúcar —
domingo? Com brandura, alguma porta, talvez a mascavo, refinado, cristal — com abelhas e formi­
da cozinha, continuadamente, move-se, vai de en­ gas. Num estrado alto, de madeira, iluminadas por
contro aos batentes, as dobradiças rangem, musi­ dois lampiões a carbureto e lanternas esféricas de
cais. Rumores antigos, suspensos no silêncio de papel colorido, as pastoras cantam, fortemente pin­
verões extintos. Precisão de chorar. Vivida impres- tadas, laços nos cabelos, pandeiros rodeados de flo­
são de que sou conduzido, como um andor, rumo a res artificiais, boleros vermelhos ou azuis, com
qualquer coisa de vago, e nem por isto menos solene. medalhinhas de ouro e bordados de vidrilhos, saias
Fogem, simultâneas, todas as correntes do tempo? bem curtas e meias compridas, de seda, apertadas
Existirão, acaso, diques, desvios, épocas estagnadas, nas coxas. Usam brincos de argola e sinais pretos
voltarão certas horas, encarnando-se, por uma es­ no queixo, na testa ou junto do nariz. Correntes
pécie de transmigração, na substância de cheiros e de papel crepom, também azuis e encarnadas,- cru­
rumores, de claridades, de temperaturas, e envol­ zam-se sobre o coreto, unindo uma lanterna à ou­
vendo-nos? O elefante branco, por muito raro, foi tra. A orquestra: um pífano, um banjo e um triân­
por longo tempo honrado com- homenagens, velas gulo. Sendo grande o berreiro da assistência, quase
sagradas, representações teatrais, vestes de luxo, não ouço os instrumentos e as vozes roucas das
jóias, procissões. Intimidava. Também eu me sinto pastoras). Ora, o empresário, nos dias em que as
amedrontado ante o pressentimento de que imi dançarinas-cantoras se apresentam, descobriu este
tempo morto, enorme e branco se aproxima de modo festivo de anunciar ao povo o espetáculo: às
mim, ou mais de um tempo, blocos gigantescos, quatro e meia, soita um papagaio azul, rubro e la­
frota de navios fantasmas, cheios de astrolábios, ranja, por ele construído e que não imita os outros,
ventos, bússolas, sons de pés descalços, bater de co­ nenhum outro. É enorme, régio, rosnador, em mais
rações, mesas desertas, três vultos concentrados de um plano, cheio de f estÕes, parecido com um pei­
numa espera vã, porões com tonéis cheios de água xe, um gavião, um guarda-chuva, um porta-bibelôs,
fresca, que outrora desdenhei, buscando-a em dor­ uma girándola. Encanta-me. Decidi fazer um pa­
nas secas. Estalar de velas, oscilar de mastros, pagaio assim, formas novas, diferente dos outros
ondas. e ainda mais alegre. Vou fazê-lo.
[ Dentre os papagaios que, nos ares infesta­ Fechei o escritório antes da hora. Fui á lo­
dos de varíola, planam serenos, surgiu a Novidade, ja de Oséas, convidei-o a ver a agitada coorte que,
o Acontecimento. Um pastoril famoso divide com todas as tardes, circundava a espécie de tenda onde

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a elefanta recebia do povo, com a mesma cortesia, marcha era idêntica à de sempre. Devia aparentar
ramos de árvore, balas de mel, torrões de sal, folhas a indiferença habitual, a serenidade habitual; nin­
de bananeira, molhos de capim. Recusou o convite guém tinha 0 direito de perceber minhas cóleras.
e ainda perguntou se o julgava capaz de afastar-se Pessoas mais velhas me cumprimentavam com res­
da loja para ver um bicho. “Ainda se fosse Anh peito e ao mesmo tempo num tom condescendente,
Sheridan!” Também Armando recusou ir comigo: como se houvesse em mim alguma coisa de ameaça­
— Muita gente. dor e desprezível: eu era um homem sério, mas
— Já foi lá? solteirão. Segui, rumo à elefanta, como quem vai
— Nâo. falar com a namorada. Ia como quem fugiu de casa,
— Você não gosta de pintar bichos? violou 0 castigo, insurgiu-se contra a opressão e
— Não se trata de gostar. Ê uma necessidade. ruma para o encontro combinado, cheio de um
— Mas por que não vai ver um elefante de amor que os nossos pais não entendem e querem
perto? destruir. Alegre, aproximei-me de Hahn. Dançava
— Não preciso vê-lo. Sei muito bem como é como sempre e os intermináveis grupos sucediam-
um elefante. se. Ela parecia rir e por certo exultava, centro de
— Isso é 0 que você pensa. Que direção têm atração naquele pequeno e venturoso universo. Ao
as rugas do lombo? São ao longo do corpo, ou de vê-la, desapareceu a alegria com que me aproxima­
cima pra baixo? ra. Ante os namorados, os grupos de moças, sen­
— De baixo para cima. ti-me de repente o personagem de não sei que filme,
— Errado. Têm a forma de um bote. Lem­ ou de que livro, ou de que pesadelo, atirado invisível
bram uma canoa, desenhada de perfil. num mundo que não era o meu e que jamais ouviria
Saí rangendo os dentes. Era absurdo como, minha voz. Como poderiam ouvir-me, se havia dois
sem que fosse capaz de substituí-las, eu conservava decênios entre nós, se eu lhes gritava de longe, do
certas coisas dos vinte e poucos anos: as costeletas ano de 1930 ? Não jantei. Atravessei a cidade, fui
finas, os ombros do paletó, o hábito de usar sus­ aos bairros distantes, tive fome, a foine passou, di­
pensórios e até certa maneira de andar nas ruas — rigi-me à rua das mulheres.
despreocupada, vagarosa, as mãos para trás, o olhar É a última vez que nos vemos em público,
distraído. Não ignorava ser o único a conservar palavra alguma trocamos a respeito, mesmo assim
ainda esses sinais, comuns a todos os jovens ele­ 0 sabemos, é a última vez. Fui eu que tive a idéia
gantes meus contemporâneos; modificar-me, po­ de nos encontrarmos no cinema, para a matinê do
rém, era pouco menos que impossível. Talvez, filme com Sabu. Chegamos quando havia ainda
no fundo, me envaidecesse daquela fidelidade que pouca gente e nos sentamos Juntas. Em que dife­
me transformava num exemplar de museu. Apesar rimos dos outros, para essas precauções? A sala
de irado contra meus irmãos, após a discussão ri­ estava cheia de casais, meninas com meninos, ado­
lescentes, noivos. Eu tinha medo, cada vez maior,
dícula sobre rugas no dorso de elefantes, minha

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de estar com ele, como quem comete um adulterio, os caibros. Também por entre as telhas passa um
ou está sob os olhos da polícia. Agora, vejo: era com vento sutil; ondulam as teias de aranli^, e a clari­
razão. Foi, primeira, um assovio distante; ao qual, dade do quarto. Era verdade então o que se anun­
com timidez, logo acintosamente, outros vieram ciava. Penetrei no passado, estou simultaneamente
juntar-se, enxame de vespas ii’iitadas, repetindo na tarde deste domingo e em outra época remota,
com insistência, entremeada de arrotos, de garga­ ubíquo, conhecendo no tempo o estado que alguns
lhadas, de imitações de barritos, aquela Marcha homens haverão fruido em outra dimensão, no es­
que para nós jamais foi triuníal, mas desespera- paço. Sucederia o mesmo, se houvesse entrado pela
dora, e que logo se fez acompanhar de batidos rit- porta? Sei, com segurança, que jamais conhecerei
mados de pés, cinqüenta pés, trezentos, triturando- experiência semelhante, Yirei a ser feliz em outras
-nos. No primeiro instante, eu quis sorrir; depois, horas. Agora, porém, dentre as mil possibilidades
foi preciso conter-me para não chorar. Sem uma da vida, abriu-se um espaço, uma esfera, um acaso
palavra, Bartolomeu segurou com firmeza minha benéfico, propícia configuração de fatores, de gran­
mão e assim continua, embora hajam cessado, não de duração e amplitude: harmonia entre o mo­
sem uma espécie de vaia, os assovios. Está muito mento em que estou imerso e as necessidades mais
pálido; seus lábios, machucados e secos, lembram profundas do ser. Tudo querendo registrar, aguar­
uma flor bolorenta, pétala sem viço. Quando se do, atento, a interrupção, o fim. Com o espírito
apagarem as luzes, irei embora. Ele também, tal­ vigilante para o elemento novo (abrir de porta,
vez. Não assistiremos ao filme de Sabu e é possível canto de galo, nuvem sobre o sol) que desmontará
que não nos tornemos a ver, para sempre afastados para sempre a rara conjunção, não percebo que essa
um do outro por essa espécie de conspiração, esses espreita desagrega-me do bem-estar, do centro pri­
assovios voltados contra nós. vilegiado^ do instante, pois, embora eu continue
Q O que me despertou, não sei. Permaneço imóvel, já existe em mim uma crispação mortal.
imóvel, primeiro à escuta, olhos abertos depois. Mi­ E na exata hora em que, voltado para o meu êxtase,
nha avó e a filha conversam, na sala. Se prestar descubro estar entre as suas causas minha espera,
atenção, saberei de que falam, as paredes são frá­ ele começa efetivamente a morrer, esvai-se, não lhe
geis, a casa pequena, está aberta a -porta de meu sendo possível subsistir ante a evidência de que, na
quarto. Embalo-me na alternância daquelas vozes, estrutura da alegria, estão meu desalento, meu va­
entrecortadas de risos breves. As frases têm o com­ zio, todos os venenos que vêm substituindo a seiva
passo da cidade, e a conversa é a mesma que há do viver, e me estiolam. Por isto, bebo com ardor
decênios se estende, prossegue nas ausências, re­ esse ressurgimento espectral do passado, que per­
pete-se, vólta ao começo. Conversam, em certas manece ainda no rumor de vozes, nas ondulações
circunstâncias, sóbre velhas conversas que tiveram. da luz, nas teias de aranha.
Descamba o sol. Réstias cor de laranja varam as [ Venho há dias fazendo 0 papagaio. Melhor:
telhas vãs, iluminam teias de aranha perdidas entre noites, depois de preparados os deveres de Gramá-

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tica, Geografia, Historia, Ciencias Naturais. Des­ do, interminável, que fugia e vinha, segundo a di­
perdicei varetas, latas de cola, folhas e folhas de reção de minha marcha ou do vento, enquanto a
papel de seda que Adélia me fornece, desenhei, ima­ fome crescia e desaparecia, como se o jejum a hou­
ginei esboços irrealizáveis, chorei. A imaginação vesse aplacado? 0 's elefantes vivem em bandos e
se transvia, desespera-se. Na cidade, muitos anos são afetuosos; há porém exemplares sozinhos, re­
antes, decênios, houve água encanada. Com o tem­ beldes, intratáveis. Os elefantes amam-se, e são
po, não sabendo o povo conservar o que lhe foi en­ gentis; os solitários recusam-se a participar de in­
tregue, as instalações arruinaram-se e o abasteci­ cursões e peregrinações, afugentam as fêmeas, be­
mento voltou a ser feito nas costas de Jumentos. bem sós, tomam banhos sós, envelhecem sós. Eu
As casas são cheias de jarras, com a água dormindo queria ingressar não importava em que bando, ser
atrás das portas. Dentro das jarras, nadam piabas; reconduzido a alguma convivência, afagar um flan­
alimentam-se de ninfas dos mosquitos. Restam al­ co de mulher. Na rua larga, longa e mal iluminada,
guns vestígios da velha encanação, que se perde cruzada pelos ecos do batuque, cachorros perse-
sob a terra, ligada a obscuras fontes: grandes tor­ guiam-me. Havia, além de mim, muitos outros
neiras, verdes de azinhavre, secas, eternamente homens e mulheres, crianças mendigavam, uma
abertas sobre limosos tanques de cimento. Sem velha de cócoras, junto a um monte de lixo, gemia
que se saiba por que, essas torneiras pÕem-se de
uma cantiga rogatória. Vinha a cantiga de outra
súbita a verter um fio dágua. Dizem os grandes;
garganta sepultada no lixo, os cães porém ignora­
“A fonte despertou.’’ Essa dádiva, essa água que
vam tudo, todos, gente e canção, só viam a mim,
não nos custa um cruzado, a nós que somos pobres,
latiam nos meus pés, matilha de gargantas lumi­
parece milagre. Pode durar pouco; ou muito, noites
nosas. Voltar? Não tinha para onde, voltar era o
inteiras, jamais dias inteiros, a fonte é propensa à
mesmo que ir, o mesmo que não ir, que não voltar,
vigília . Do mesmo modo ofertado, o papagaio esta
nenhuma voz me esperava. Uma rapariga de cin­
noite nasceu em meu espírito, com seu arcabouço
de linhas, de superfícies, e outras coisas que o sub­ zento fitava-me com timidez, recostada a um portal.
seqüente fazer irá desvendando, intuindo, alcan­ Dançava-se dentro da casa, alguns dos homens com
çando, articularei um papagaio que jamais existiu, chapéu na cabeça, todos de rosto parado, o tronco
em muitas cores, belo, complexo — e capaz de voar. reto, pernas muito abertas. Eu tinha as mãos ge­
Foi transferido aquele bairro sórdido, as ladas. Os cães, dispersos, farejavam a noite, eri-
casas derrubadas, erguidas novas paredes no lugar çados, as orelhas em pé, azuis, pretos, verdes, cor
das outras — velhas, e fincadas como dentes de leite de chumbo. Vi como eram magros. Foi uma mu­
— as mulheres de então morreram ou vivem de lher dos peitos grandes, alegre, cabelo à Robespier-
esmolas, ou apodrecem em asilos, alguma tem ma­ re, nuca raspada à navalha, quem me^ tomou pelo
rido, filhos, queixa-se da vida. Que me conduzira? braço e levou-me para dentro. A de cinzento —
Minha inquietação ou o batuque, aquele ritmo sur­ vi, de relance, que não tinha mais de quinze anos

56 57
— olhou-me ainda e pensei, desses pensamentos de dar; e meu irmão garante, ainda hoje, que nunca
um segundo, que nem ali eu tinha esçolha na vida. viu alguém cerzir meias tão bem, Tive meus de­
j O padre nosso irmão passara mal a noite, vaneios, em criança, pelo alferes. Sua farda era
ficáramos as duas dando-lhe remédios, chás, mas­ um sonho. Sempre ignorou-me. Todo mundo, até
sagens, fazendo escalda-pés. Tínhamos por norma hoje, ignorou minhas graças. Você sabe que não
não alarmar vizirthos, o enfermo era nossa peni­ estou mentindo: em minha vida inteira, Latif é 0
tência e nossa utilidade. Ficávamos contentes, primeiro rapaz que me deu atenção.” Por mais
posto que aflitas, quando nos urgia. Pela manhã, que me esforçasse, não consegui lembrar-me do
adormecera afinal; exaustas, nós também. Desper­ alferes por quem ela tivera devaneios. Devia fazer
tei com a discussão, os berros abafados, soluços de muito tempo.
Helônia. “Morreu!” Saí de pés descalços, ele res» 0 Minha avó, na cozinha, lava os pratos do
sonava. Ouvi então, na sala, 0 bater da muleta, almoeo. Envolve-me um ar morto, sons mortos,
Nassi Latif ia embora e minha irmã seguia-o, em inerte claridade. Range a cama de lona. A visão
pranto, braços erguidos. Ao ver-me sem sapatos, da cidade na segunda-feira nada me trouxe. Vago
gritou que eu a espionava. Dei-lhe uma bofetada: em torno do que me sucedeu na tarde anterior,
“Não sou da sua laia.” Nassi voltou-se: “yocês mesmo sabendo que a experiência não será reno­
enlouqueceram? Nunca mais venha aqui.” “É me­ vada. A sensação de inutilidade causada por essa
lhor mesmo. Na certa, a vizinhança anda falando procura, junta-se 0 conhecimento agora mais agu­
de nós. Não fica bem a duas moças virgens, mo­ do de minha pobreza em relação ao .presente. Digo
rando sós com 0 irmão que nunca sai da cama, a mim mesmo: “Compreensível que um homem
serem visitadas todos os dias por um homem. Pior se volte para 0 passado, se há nesse olhar um pro­
ainda: por um homem cujas intenções ninguém pósito fecundo. Quanto a mim, busco-o porque não
conhece.” Nassi Latif levantou a muleta e come­ tenho coragem de reassumir — ou assumir — a
çou a rir, aquele riso rangente. “Quem está doido, direção dos meus dias.” Escrever. Nisto encontra­
pra falar mal de vocês? As duas já caíram em exer­ ria a salvação? Assusta-me a indispensável e árdua
cício findo há séculos! Junto de vocês, senhorita aprendizagem. Desarmam 0 circo, 0 sol me queima
Hahn é uma criança. Vão para 0 inferno. Velhas a cabeça. Observando a elefanta, penso no seu ol­
caducas!” Helônia me disse, depois que ele saiu, fato sensível, nos seus ouvidos finos, recordo 0 ve­
0 motivo de sua desesperaçEa, Latif conseguira em­ lho que me interpelou na véspera. Caçadores, bus­
prego, ia embora com 0 circo, seria uma espécie de cando este animal capaz de destruir, em minutos,
guarda ou tratador de Hahn. Lamentações de He~ aldeias inteiras, valem-se de teias de aranha, para
lônia: “Nos chamou de velhas. Sei que não somos saber de que lado sopra 0 vento, não ser denun­
crianças. Mas 0 amor, às vezes, chega um pouca ciadas. Teias de aranha são instrumentos de astú­
tarde. Sempre fui séria, moça prendada e cheia de cia, ajudam a enredar os elefantes. Silêncio, per­
virtudes. Houve mesmo tempo em que sabia bor­ severança, audácia, paciência, teias, os sentidos

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alerta, armas que terei de obter, para cercar as e agitada como serpente ferida, o pedaço de vidro
palayras, amestrá-las depois còm aguilhão e ba­ maldosamente posto e que, em rápida e precisa ma­
nhos. Haverei que artes de ensinar-lhes? Mas nobra, cortou-me a linha, ainda não sei que fazer.
escrever é um modo — não o mais eficaz — de Embora houvesse desaparecido, na linha morta, a
romper o exílio. Atravesso coma um bêbado as ruas tensão do papagaio que tomba, mantenho o braço
sob 0 sol. Não se oferecem nunca por acaso, de.im­ estendido. Como souberam, estes de quem, com a
proviso, as decisões essenciais de um homem; tal visão turbada pelo desespero, não distingo o rosto,
como ná obra de arte, vamos chegando a elas deva­ ser eu o dono, senão autor do papagaio que, preci­
gar, com iluminações, e sobretudo com amadure­ pitando-se em desgoverno — e mesmo assim, a
cimento, esforço, meditação, exercício. Na hora meus olhos, mais esplêndido que antes — sobre os
ensolarada, muitos fazem a sesta; só algum pás­ mastros do Circo, sobre os campanários, a praça, a
saro insiste em cantar. No instante em que, de 6
multidão as árvores, e deslocando as pessoas em
súbito, concebo o espaço em torno como feito de sua direção, relega Hahn, por um momento, a plano
ofuscantes lâminas de vidro, formula-se em mim, secundário, não posso imaginar. Visão de pesadelo,
e eu 0 aceito, este juízo cheio de exigências, certa­ estilhaçada e afligente. Minhas próprias mãos, em
mente engendrado em meu espírito, desde muito, meio a outras cinqüenta, tentam inutilmente ar­
para uma longa e secreta gestação: tenho de buscar rebatá-lo. Acredito estar a meu alcance — e ina­
em minha vida, com energia, o contentamento e a tingível, por uma espécie de encantamento malé­
paz. Uma conquista; não uma recordação. Mas volo. São outras, vorazes, que se apoderam da presa,
sou ainda como alguém que, mentalmente, assume mas para destruí-la, suas varetas e cores se des­
empreender uma viagem, sem saber que precisa fazem em segundos, voam numa explosão, e um
criar, em sua alma, condições para vencer seus há­ soluço também explode em minha boca, sufoca-me.
bitos, seus medos, e partir. Minha avó guarda os Então, cercam-me. Gritam, correm em torno de
talheres e a louça que lavou. mim e — Jamais saberei por quê — me apedrejam.
\ Meu papagaio alto, intrigan.do as pessoas, Em minha ira crescente, tento agarrar algum des­
tão original quanto o do pastoril, enquanto outro, ses demônios, bater-lhe, rolar com ele. Mas fogem;
vermelho, dele se aproxima. Em redor de mim, e a vaia recrudesce. Olho em torno, ao longe, im­
olhando-o por condescendência, meus parentes, a potente, em busca de apoio. Em qualquer parte do
quem chamei. Nem uma vez proferem, em meu corpo uma pedra me atingiu, minha cólera de sú­
louvor, as palavras que tão grato me seria ouvir. bito fugiu de mim, preciso de um abrigo, seja qual
Isto não me rompe a exaltação; sinto que os venci, for. Vejo uma árvore, a copa de uma árvore, reúno
erguendo sobre a indiferença déles o objeto novo, as forças, corro, abraço-me ao seu tronco.
impossível de gerar-se em seus espíritos. O Júbilo, ^ No Jeito de ligar-me à mulher havia qual­
um segundo mais tarde, está desfeito. Olhando, na quer coisa de antiquado. Perguntou-me de que ci­
extremidade da cauda do papagaio vermelho, longa dade eu era, não pareceu aceitar minha resposta,

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disse-me já não encontrar ninguém igual a mim. casar-me, não interessa como, seja com quem for!”
Também isto se transforma? Muda o jeito de um Bebi dum trago o último copo, ganhpi a rua em
homem deitar-se com uma rapariga? Era enxun- passos decididos, morto de fome, sem desespero al­
diosa, corpo informe, os ombros e os cabelos crespos gum, ébrio atrevido e feliz. No silêncio da noite,
embebidos num perfume execrável, talvez para dis­ só, desfez-se meu ímpeto: dificilmente acreditava
sipar 0 hálito dos homens com quem havia estado havê-lo conhecido. Pus as mãos para trás e segui
antes de mim. Conservara acesa a lâmpada; a mú­ devagar.
sica, incessante, fazia o quarto tremer. Eu fixava I Conheci dezenas de velhices, para não dizer
seus pés, largos, de artelhos malformados por uma centenas. Ninguém pode ensinar-me o que é ser
vida bruta, com as unhas pintadas de vermelho velho. Vi gente envelhecer dez anos numa viagem
vivo, perguntava a mim mesmo se com a jovem de meses, vinte numa operação, trinta na morte
de cinza eu haveria ingressado, por um momento, de um filho. Sempre, todavia, por saltos, na noite
na comunidade dos homens, escapado um pouco à das ausências, Com Helônia, foi diverso; vi-a en­
minha solidão, e pensava, quase com alegria, que velhecer a eada hora, às cinco da tarde tendo um
logo estaria na rua, os cães latindo em redor de jeito que não tinha às quatro, dobrando mais a
minhas pernas. Oséas esperava-me. Seguiu comigo espinha a cada nova manhã, tornando-se esque­
através dos cachorros que nem sequer mé olharam cida, alheia, falando de fatos da véspera como se
(eu tinha agora o odor daquele mundo), levou-me houvessem sucedido há anos. Célebre e amarga
para um bar três quadras mais distante, oiereceu- semana. Foram os últimos dias de meu irmão. Tive
me vinho, pôs-se a falar de mulheres e a rir dq de enfrentar aquelas horas sozinha, pois Helônia,
acaso que lhe permitira flagrar-me com a boca na se lhe pedia para buscar um remédio, não voltava,
botija. Ouvia-o vagamente, entrevia~o a distância, olhava o enfermo com indiferença, deitava-se nas
numa nuvem branca. Era aquela, então, a nuvem horas menos oportunas, vagava pela casa à noite,
que me separava do próximo. Via-a como os im­ falando com os espíritos, com ela própria, ou com
postores dizem ver, junto a nós, o mau espírito que imagens do nosso passado. Pedi a Deus que a man­
nos aflige. Resistindo ao desejo de estender a mão tivesse de pé, ao menos durante um mês ou dois,
para a bruma que envolvia Oséas, pensei em Hahn, era demais para mim assistir dois inválidos a um
em seu isolamento. Veio-me o desejo de comprá-la, só tempo.
levá"la para longe, para a companhia dos seus ir­ ^ Tendo acertado, com Bartolomeu, um en­
mãos de gênero, de espécie, no Congo ou na Bir­ contro no reservatório, evitei trazer o meu sobrinho.
mânia, oferecer-lhe a companhia, o amor de que Vê“Se, daqui, quase toda a cidade, é um lugar pri­
eu não era capaz. Busquei a mão de Oséas: “Vou vilegiado, na região sem relevo. Dantes, neste mes­
casar-me. Um homem, às vezes, tem precisão de mo ponto, era um hospital: o Eetiro. Os bexiguentos
chorar. Hoje mesmo, esta noite, tenho necessidade vinham em padiolas, isolavam-nos dos sãos. Depois,
de chorar, Oséas. Mas nos braços de quem? Vou a bexiga tornou-se coisa rara; e sendo esta a maior

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elevação da cidade, demoliram o hospital, construí­ um mundo de baixas nuvens negras, escurecendo
ram 0 reservatório; ao lado, puseram bancos, balan­ a terra, como num eclipse, um anoitecer prematuro.
ços entre as árvores para as crianças. Ãs oito da Nenhum de nós tem relógio, é impossível saber que
manhã, nos domingos, abre-se o portão; às seis, tempo falta para o fechamento do portão. O trem
fecha-se. Horário excessivo: quase ninguém, à tar­ das cinco e vinte, lándo do Recife, se chegasse no
de, sobe a íngreme e escalavrada ladeira de barro horário, poderia ser a nossa referência. Mas quem
vermelho. É sempre nas manhãs de sol, após a mis­ sabe se o ignoramos? Se descermos correndo, leva­
sa, que as famílias povoam o locai, e as. vozes dos remos no mínimo cinco minutos para cruzar o por­
meninos, como um bater de espadas, retinem no tão, atravessar a rua e encontrar abrigo. Que fazer,
ar límpido. À tarde, prefere-se ir ao cinem,a, andar porém, se esta chuva que promete ser copiosa, sur­
pelas ruas, ver a passagem do trem, espécie de deus preender-nos no meio do caminho? Em dois mi­
ou de hieróglifo de nossos sonhos comuns, símbolo nutos, haverei tomado um banho; meu vestido de
da viagem que todos ansiamos fazer. Assim, esta­ verão colado ao corpo, não poderei atravessar a ci­
mos os dois sozinhos, de mãos dadas, Junto às invi­ dade. Também se fecharem o portão, ficaremos
síveis águas que abastecem a cidade a nossos pés. O presos. Sobressaltados, vemos apontar o trem, bem
silêncio, em torno, parece uma absolvição. Poucas longe, aceso o grande faroi. Vem talvez com atraso,
palavras trocamos. Andamos sob as árvores, brin­ como tanto sucede: não estão acesas, sob o cres­
camos nos balanços, conversamos de um lado para cente e opressivo negror, as luzes na cidade? As
outro do reservatório, através dos respiradouros, árvores também escureceram, o chão tem cor no­
turna, olhamos para a tarde, entreolhamo-nos,
fazendo nossas vozes refletirem-se na água que não
reencontramos de cada vez o rosto ansioso do outro,
víamos, ocultas naquele imenso poço coberto, onde
tal visão multiplica nossa inquietude. Pertence-lhe
cada som era devolvida e, por assim dizer, fragmen­
essa voz, tão semelhante à de meu sobrinho? '‘Aqui,
tado em réstias. Foi então que me disse, a trinta
morreram muitos bexiguentos. Enterravam aqui e
metros de mim e sem que nos víssemos, numa voz
não no cemitério. Entre essas árvores,” A mim
medrosa, pela primeira vez, pela única vez, que me
mesma exclamo, procurando apagar de meus olhos
queria bem. Não teve, em seguida a essas poucas
seu rosto lívido: “É absurdo, é absurdo.” Não
palavras, ânimo de me olhar face a face. De mãos
quero deixar-me enfeitiçar pelas suas palavras e
dadas, calados, olhando os telhados entre paredes pelo seu pavor. Cresce, contra meus esforços, o me­
e muros de quintais, as torres, os verdes e pardos, do de ficarmos presos, aqui passarmos a noite, junto
imersos numa paz que nos subtrai da terra e de aos fantasmas dos mortos de bexiga. Ao mesmo
suas diferenças, de seus rigores, não percebemos a tempo, não me arrisco a descer, correr ladeira abai-
passagem do tempo nem a formação, no céu sem xo; as nuvens parecem, cada vez mais, na iminên­
nuvens, de tempestade próxima. Nossas mãos, an­ cia de abrir-se, desabar sobre nós. Sua boca em
tes unidas com júbilo, apertam-se com medo. É meu seio, sugando-o devagar, amparados pela co-

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berta do reservatório, indiferentes à chuva que se — Quisera! Aqui, no rosto.
precipita a nosso lado. Sinto que o tranqüilizei, — Puseram remédio, na sua casa?
abrigando-o niim manto, numa proteção cuja exis­ — Não. Acharam graça. Doía como 0 inferno.
tência eu mesma ignorava. Não refleti. Abrindo a Adélia beija-me onde a lagarta de fogo me quei­
blusa, despi o porta-seios, atraí para mim sua ca­ mou. O tropear dos acompanhantes, suas vofzes
beça, com as duas mãos. Sinto transmitir-lhe pela ininteligíveis. Crianças, gente grande. Já devemos
boca, como um alimento, alguma coisa de meus estar bem longe da cidade; ainda assim, continua­
vinte anos e tenho, vendo através do futuro, a in­ mos empós a elefanta. Eu próprio, que raro a visi­
tuição de que mergulho para sempre numa zona tava, vejo-me triste com a sua ida. Por quê?
sagrada. Sou, nesta hora precisa, uma lembrança — Você verá, quando crescer. Nem sempre a
formando-se, nascendo sob a chuva. gente acha as coisas onde deixa. Se, pela menos,
\ Multidão indistinta, pesaroso tropel. Sabía­ eu-tivesse um filho! Assim como você,
mos todos, desde uma semana, que a elefanta iria — Não queria ser filho da senhora.
embora hoje. Choveu a tarde inteira, e assim Hahn — Não?
vai deixando, fundas, na terra, suas pegadas. Não — A senhora é tão bonita. Queria ser irmão.
a vejo, pois vai muito na frente; escuto seus nume­ Sobrinho. Ou primo. Primo era melhor.
rosos gritos de contentamento, espantando 0 Corvo Digo isto e do céu estrelado tomba a chuva
pousado sobre a Hidra e alertando 0 Lobo para a grossa. Hahn, encontrando grande paça dágua, as­
lança em riste do Centauro. O negociante de milho pira-a e vai lançando no ar leques de lama. Adélia
e de feijão, felizmente, não quis acompanhá-la em e eu, em lugar de correr como fizeram os oxitros,
seu lamentado começo de viagem; meus pais não estacamos, sérios, frente a frente. Enlameados,
me deixariam andar na rua, sem vigilância, depois únicos entes imóveis em meio a debandada. Meu
das oito horas. Assim, vamos nós dois, eu e Adélia, tronco aparece por baixo da camisa, a roupa da
mútuos guardiões, vamos de mãos dadas, felizes, mulher adere a suas formas, e também nossos ín­
ante os cento e dez olhos da Virgem, sob cuja in­ timos, escondidos nos corpos. Entro em minha ami­
fluência agimos e sonhamos nessa noite. Baten­ ga, entro numa feira, ela me espera, prendo-lhe a
do-me com tudo quanto posso pelo -seu carinho, mão e avanço, avanço com ela, nua, dentro da feira,
revelo minhas desventuras: a malvadez dos outros, através do seu corpo. Barracas de lona, mulheres
que me destruíram 0 papagaio, a perseguição, a pe­ da vida, cavalos com cangalhas, mercadores, carros
drada. A raiva, escondo~a. de boi cobertas com chitão, mel de engenho em po­
— Por que você con eu para uma árvore? tes, toalhas de crochê, redes coloridas, esteiras de
— Não tinha gente por mim. Eram todos con­ pipiri, bichos de barro, frutas, verduras, papagaios.
tra, Quando me abracei na aglaia, senti a queima­ Adélia se curva, apanha um índio vermelho e ca­
dura. Uma lagarta de fogo. minha para mim, descalça, nua, o papagaio esvoa-
— Na sua mão?! çando a breve altura de sua cabeleira, como um

66 67
pálio, a inquieta sombra manchando o corpo bran­ lhes 0 braço, extraviar-m'e em sua companhia, can­
co. Adélia, o vestido molhado, penetra~me e des­ tando como os outros. Iriam quantas mulheres,
cobre, em minhas pupilas, de cócoras, chorando, além delas? Não haveria, entre todas, nenhuma ao
espreitador, um homem temporão. Sorri compre­ mesmo tempo real e fictícia, para dissipar a invisí­
ensiva e afaga-me a cabeça úmida, vel nuvem que me separava da vida? Nenhuma?
^ Caiu um poste ou quebrou-se o gerador. Fal­ Exclamei com voz rouca: “Adeus, Hahn!” Não sa­
tou luz na cidade. Das ruas que vêm ter à praça bia, ao certo, de que profundo bem, de que essencial
continuavam a chegar pequenos grupos. Desar­ esperança me desapossava. As moças dos ramos de
mada 0 circo, tudo já seguira, de trem ou nos dois árvore, sorrindo, olharam para trás. Envergonhado,
velhos caminhões. Só restava Hahn, alegre, à luz adentrei-me num beco. Mais uma vez, sem rumo,
da lua. Gente debruçada às janelas, de pé nos ban­ uivando dentro de mim, ganhei as ruas adorme­
cos do pátio, nos degraus da igreja, nas cornijas, cidas.
nos fios, nos telhados. Mãos para trás, eu entre ] De pé, no alpendre, ante o leve cadáver, não
os da turba, oUios na tromba erguida para a lua sabia — a mão esquerda segurando a vela, a direita
cheia. Queríamos saudar a elefanta pela última apoiada na parede — que rumo tomar, que fazer.
vez. Faróis de bicicletas se enovelavam no ar em- O corpo, dos quadris para baixo, estava enluarado;
poeirado, laçando a multidão. Entre-as sombras, com as pontas dos pés, acariciava o chão. Como
vi 0 rosto de Armando, seu ar perdido, os olhos eté­ fora possível? Junto ao padre, que agonizava, tudo
reos, a mão direita no boíso do paletó. Não fora eu ouvia; crianças soprando trombetas, barritas do
olhar para Hahn; queria ver o pátio enluarado. animal, a orquestrinha do circo executando a mú­
Aprecia o luar. Com a lua, não vê o monturo, as sica tantas vezes ouvida, o vozerio, depois a leva
paredes sujas, as caras dos bêbados. Um pouco de cantando. Pedi a Helônia que fosse à vizinhança,
.esforço, e descobre um fiorde. Ou algum dos bichos chamar alguém. Não me deu atenção; numa ca­
que continua a inventar nos seus óleos. Havia qual­ deira, de frente para a janela cerrada, ficou. Fui
quer coisa de antigo ritual na multidão que mar­ eu que andei batendo às portas dos vizinhos, ten­
chava lentamente. Alguém cantava a marcha da tando chamar gente para me ajudar nas rezas.
Aída, para nós já famüiar. Outras vozes, aos pou­ Parecia que ninguém ficara em casa, todos que­
cos, juntaram-se àquela voz iniciadora. Onde li riam ver a elefanta. Depois disso, acho que fiquei
0 caso do elefante que, durante doze anos — sim, atordoada. Pus a vela nas mãos de nosso mano,
doze — viajou sozinho através da Baía de Bengala, sozinha, chamando em vão Helônia. Consumado o
de ilha em ilha, percorrendo centenas de quilôme­ trespasse, gritei por ela, caçando-a pelas trevas da
tros? Que procurava? E há quanto ando eu nesta casa, com a vela fiínebre. A cantiga das gentes,
cidade, golfo de consternação, perseguindo o que já bem longe, ia no rastro de Hahn; Nassi Latif
talvez não exista? Duas jovens, à minha frente, também, mais uma vez- sem destino, levado pela
levavam ramos de árvores erguidos. Fome de dar- sua loucura, seu mal de não ficar. Um doida.

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E Helônia, onde se escondia, com sua ingente pai­ leve neste momento? Será porque não têm, em suas
xão? Voltei para o quarto, para junto da morto. vidas, nenhuma ternura? Sim, talvez fosse nosso
Houve entâo um gemido, um rangido, algum pres­ amor que as irritava e que procuravam turvar (in­
sentimento? Nunca vou saber. Sei que saí, para felizmente, éramos vulneráveis) com a sua zomba­
encontrar minha irmã sobre os chinelos vazios, ria. E se vão todos atrás da elefanta, é porque a
suspensa num cordão de anafaia, roçando o chão amam, à falta de melhor. Eu própria, não é passível
com os artelhos. Como essas aves da terra que se que, enquanto não te vi, também a amasse? Mas
alçam, mas não conseguem voar. Pobre, pobre, esse amor, meu querido, esse amor deles, é tão in­
Helônia, tão cheia de esperanças, com tanta vida sensato quanto o meu por ti e o teu por mim. Se-
ainda por viver. paremo-nos, pois, e para sempre. Adeus. Ás coisas
“Escrevo-te à luz da vela, com lágrimas nos sem futura logo apodrecem. Devem acabar cedo.
olhos. Meu pai foi transferido: vamos deixar a ci­ Lembro-me de quando, ao céu da tarde, Hahn
dade. Ora, ontem, voltando do reservatório, pen­ me pareceu azul, iluminada pelos teus olhos. Ago­
sava como fazer, para nunca mais nos vermos. Não ra, ela se vai, nunca mais a verei. Despeço-me tam­
que me envergonhe do que sucedeu. Foi tão bonito! bém de nosso amor incompreendido, que tão pouco
Mas é preciso aceitar: sou mulher feita, és uma viveu e tão feliz me tornou. Foi, apesar de tudo, o
criança, e nosso amor impossível. Aliás, nestes úl­ que de mais belo conheci na vida. Amar-te-ei sem­
timos dias, sem nada te dizer, pensei em oferecer- pre. T u a ... Hahn.”
me para ir com o circo, trabalhar nos dramas, como 0 Do ônibus — último para o Recife — mal
atriz. Já li a vida de Eleonora Duse. Deve ser uma reconheço a cidade enluarada. Pesam-me indaga­
felicidade tão maravilhosa sentir no corpo, no rosto ções que preciso solver. O presente é um tecido não
e na voz a capacidade de fazer acreditar que somos inteiramente são, onde áreas mortas continuam a
outra pessoa! Perdoa-me se não te falei nisto. Mas existir, afetando as partes vivas. Como removê-las?
é que eu sabia: cedo nos separaríamos. Ante o que Quantas coisas, em mim, posso salvar da desagre­
houve ontem, acho que essa hora chegou. Peço-te, gação? Ouço 0 rumor de passos, imagino que al­
assim, por tudo que existe de sagrado; Não tentes guns bois estão obstruindo a estrada, vejo a mul­
falar-me. Guardemos intacto, em nossa memória, tidão. Todos vão calados seguindo a elefanta, o
o quadro de ontem, a cena final, nós dois sob a acompanhamento é como o de um enterro. Pequena
chuva, suspensos sobre a cidade. Como dois anjos. orquestra segue a seu lada, os instrumentos baixa­
Começo a ouvir, sem nenhuma aflição, o trecho dos. '“Ela é um morto — digo com raiva. Vai para
musical de Hahn, cantado em coro. Soube que o cemitério com suas próprias patas. Morre em to­
muita gente vai levá-la até fora de portas. Como das as cidades aonde chega.” Vejo-me, eu mesmo,
entender semelhante gesto, se várias dentre essas igual a qualquer um daquela multidão, rastejando
mesmas pessoas nos perseguiram sem pena, tantas atrás de coisas defuntas. Como em resposta, um
vezes, com a mesma canção que cantam de alma dos músicos, de fraque e chapéu coco, levando à

70 71
boca um olifante, emite prolongado som, em dire­
ção às estrelas. Confuso brado — são centenas,
talvez mais de um milhar de acompanhantes —
parte da multidão. A orquestra inicia, ligeiramente
adulteradas, as primeiras frases da Marcha Triun­
fal, da Aída. Num contágio, é repetida a música,
o motorista do ônibus tenta acompanhá-la com a
buzina e o homem do olifante continua indiferente
à melodia e ao ritmo, soprando como um possesso. O n n fn n r liH n í;
Hahn, tapetes na testa, no dorso, parece animar-se, 4
V- U lliU llU .lU U b
revestindo-se a meus olhos de inesgotáveis signi­
ficações. Não posso desviar a atenção daquela
imensa e fantástica besta enluarada, até que o ho­
mem do olifante se aproxima. Fixo-o como se éle
— e não eu — bradasse-me estas ordens: “Enter­
ra os mortos. Escreve, não importa como nem o
quê. Do passado, senhor que hoje te absorve e trava
as forças do viver, posse conquistada com o sangue
de teus dias, faz um servo, não mais uma entidade
soberana, um parasita. Sejam as recordações, não
renegadas, campo sobre o qual exercerás tua esco­
lha, que virá talvez a recair sobre tuas próprias
mortes, sobre elefantes que nunca mais verás, para
entregar tudo aos vivos e assim vivificar o que foi
pelo Tempo devorado. Atravessa o mundo e suas
alegrias, procura o amor, aguça com astúcia a gana
de criar.” A música de Verdi, estropiada e áspera,
avoluma-se. Serei eu capaz de obedecer aos brados
do olifante? Hahn vai mais rápida, agitando as
orelhas. Parece-me alada, animal translúcido, qua­
se imaterial, mais alto do que todas as casas, não
mais um morto, emblema agora dó grande e do
impossível, de tudo que é maior do que nós e que,
embora acompanhemos algum tempo, raras vezes
seguimos para sempre.

72
STou cansada. Quase meia-noite.
J — Continuo de férias, posso acordar tarde.
<
— Mas eu, não. Afinal, que importa? Suporto
bem uma noite sem sono, Tenho passado outras.
— É uma alusão a mim?
í— Talvez.
— Não fiz censuras, perguntas, não disse na­
da. Desde o Jantar que estamos calados.
Existe alguma coisa que fui condenada a
ouvir hoje. Sinto isso no ar, nas mãos. Espero, ao
menos, que o horror tenha início antes que clareie
0 dia. Amanhã é terça, dia de trabalho.
Um de nós levantou-se, ou irá ainda levantar-
se, entreabrir a cortina, olhar a noite. O rumor
dos veículos, continuado, ascenderá — ascendeu?
— das avenidas, regirando na sala, sobre as aqua­
relas em seus finos caixilhos, sobre as poltronas de
couro com almofadas vermelhas, em torno do aba­
jur aceso. As estrelas vibrando, parecendo abaladas
pelo rumor da cidadé que não dorme. Estamos de
mãos dadas, qual destas mãos arde? Olhamos a
parede vazia.
— Hoje, sofri novamente um ataque. Pro­
meti nunca mais tornar a fazer isso. Mas não pos­
so cumprir, simplesmente não posso. Veio com a
mesma força de sempre. É abalador.
í— Então não há remédio.

75
Deve haver. entre nós, maldade alguma. De repente, vejo-me
Tenho de viver até quando nesta danaçao? so2inho. E recomeço.
Vou esperar até o fim da vida? í— Por que não suspeitar quando estou pre­
— É preciso compaixão, sente? Posso estar aqui, comigo, nua e pensando
i— Novamente as palavras. Inúteis como noutro homem. Comparando em segredo o modo
sempre. de abraçar-me. O Jeito d e ...
— Não são inúteis. — Melhor não prosseguir. Se destruo isto, esta
í— Estou farta. Tínhamos passado três sema­ segurança, a derradeira, a única, me resta o quê?
nas sem essa coisa odiosa. Dias perfeitos. i— Pouco se me dá. Para mim, nem essa, ao
— Manhãs, tardes e noites nós estávamos Jun­ menos, existe. Princípio também a duvidar de mim
tos. Eu não podia duvidar. . . de mim. mesma, Já não me conheça, não sei mais quem sou.
— Bastou eu me afastar algumas horas, para Quem, com gestos nervosos, abre a cigarreira
recomeçar outra vez. Então tudo que faço é o mes­ dourada, bate com um golpe decidido e seco a tam­
mo que olhar nos olhos de um cego? pa do isqueiro, depois de olhar a chama demorada-
— Quero explicar. mente? XJm se levanta, anda, outro permanece sen­
tada, depois este se ergue, atravessamos a sala,
Prefiro não ouvir.
alguém volta a sentar-se, continuamos de pé, dorso
Tenho de ouvir.
contra dorso, Juntos.
E por cima de tudo, ainda isto: uma ausên­
— Quando me vi sozinho, fui deitar-me. Co­
cia total de piedade. Admito que suspeite de mim,
mecei a pensar como estas semanas tinham-nos
embora sem motivo. Mas por que confessar? Ê
aproximado e que todos os mal-entendidos cessa­
crueldade.
riam. Não havíamos tido apenas alguns momentos
— Quero ser sincero. alegres e tranqüilos. Todos esses dias foram de
Desprezo até à náusea esse tipo de sinceri­ alegria e paz. Revi-me na praia, minha despreo­
dade. EnJoa-me. Sinceridade, como? Entrego-me. cupação no mar, o corpo, as coxas, recordei o calor
Confio. Sinto os abraços, beijos. E que existe por de nossas peles depois do meio-dia. Lamentei as
dentro dos afagos? Tenho os olhos fechados. Mi­ desconfianças antigas e pensei que depois de oito
nha boca está na minha bõca. E dois olhos son­ anos conquistáramos alguma coisa buscada duran­
dam-me. Isto é ser sincero? te todo esse tempo. Então fui ao banheiro e vi:
— Não suspeito de nada, quando nos amamos. estava seco.
— Como posso saber? Como possa crer? Tomei banho. Poi talvez o tempo que está
— Estou dizendo: não suspeito de nada. Al­ quente.
guma coisa, quando estamos juntos, me restitui a Sim.
confiança. Acho que assini vai ser eternamente, E passei a flanela na banheira.
que toda sombra acabou e qlte não voltará a existir, Nunca fiz isso.

76 77
<— É o que sempre faço.. que penso. Não há outro, nem houve nunca, ambos
— Digo que o tempo estava quente. E, logo nos amamos. Mas se me vejo só!
em seguida, que a banlieira está seca por causa da í— Tenho prazer em despertar compaixão.
flanela que passei. Por que as duas versões? São — Mereço compaixão.
estas mentiras que destraeniL. Dirigi-me ao quarto de dormir, permaneço na
í— Não estou mentindo. sala, com vagarosos gestos ponho o négligé, afago
— Estou! o rosto, a barba começa a apontar, volto para junto
*— Uma coisa não tem de excluir a outra. Tu­ de mim, são leves meus passos, continuo sentado,
não me levantei.
do isso é absurdo.
É melhor acabar com tudo. Estou cansada.
— A toalha também estava seca. Disse a mim
— Pensei que a insistência para que eu pas­
mesmo que não tinha importância. Mas neste mo­
sasse a tarde em casa era um ardil.
mento, já começara a lembrar-me das recomenda­
i— Não insisti.
ções que me fizera. Para não sair, aproveitar as
— Um ardil para que eu não saísse e não tele­
últimas tardes de férias, ficar em casa preparando
fonasse. Por que não me banhara se havia tempo?
o trabalho sobre a correspondência de Lawrence.
Desejava ganhar alguns minutos, meia hora que
í— Foi um erro. Com determinadas pessoas, 'é fosse, chegar um pouco mais cedo a algum encontro
impossível não errar. Erra-se sempre. ajustado há quinze dias, ou talvez combinado no
— Há partes de nós mesmos que não devem hotel, num momento de ausência, talvez no cabe­
ser reveladas nunca. Mas é preciso que eu seja leireiro, ou na manicure, como se pode saber? Devo
absolutamente sincero. Como Lawrence. Ele era dizer que não telefonei.
sincera. . Não acredito. Houve um momento em que
í— Não sou Lawrence. foram me chamar. Quando atendi,. haviam des­
— O que senti, o que sinto, é igual ao que me ligado.
sucedia quando era menino e ficava sozinho. Exci­ — Quem imagino que foi?
tava-me com quê? Retratos de mulheres? Histó­ ^ Não faço idéia.
rias licenciosas? Com a solidão. Insensivelmente, — Quem foi?
irresistivelmente, eu buscava em mim o prazer, um í— Não sei. Sinceramente, não sei.
prazer aflito e imaturo. Para em seguida cair em — Não telefonei. Mas vasculhei, uma por uma,
depressão; e recomeçar tudo, assim que me visse todas suas bolsas. Dizia a mim mesmo que estava
outra vez só no quarto ou no banheiro. A solidão, fazendo uma insensatez, que poderia encontrar al­
para mim, era o mesmo que uma m,ulher nua. gum papel do qual não JEosse culpada, mas que pa­
Agora, ela é como a presença de um rival. recesse acusadoT e que isto me destruiria, e que
>
— Não existe rival. afinal seria inútil, pois não tenho coragem de dei­
— Quando estamos juntos, é também assim xá-la.

78 79
— Encontrei alguma coisa? — Então por que não saio?
— Isto: um nome de homem. Este endereço. Levanto-me, os olhos pesam de sono, vou ao
Quero saber quem é, mitório, levo um tempo enorme comprimindo o bo­
— Não me lembro. tão niquelado, ouvindo o jato violento da água, sen­
— Empalideci. tindo prazer nisso, deito-me. Giro em torno do leito
— Quem nâo ficaria pálido? De cólera l posto no meio do quarto. Giro, interminável giro,
— Cólera por que, se eu é que sou o ofendido? e este caminhar é o mesmo 'que beber, devagar, um
— Sou eu a ofendida. vinho insinuante.
— Quem é este? Estou pensando em quando fiz a operação
— Ignoro. Talvez algum fabricante de calça­ nos rins. Por que, sempre que há cenas assim, eles
dos. Talvez seja algum cabeleireiro, recomendado me doem? Fizeram-me um enxerto nos rins, com
por companheiras da repartição. A letra é minha. tecido cortado nos meus intestinos. E esperaram.
Mas não me lembro de haver escrito esse endereço. Haviam feito o que tinham de fazer. O resto, não
Talvez afinal um homem a quem eu ame e que me lhes competia, não podiam forçar o tecido a viver
ofereça um pouco de paz. Que não me torture e em sua nova função.
que não se torture os dias todos da vida, Com esta — Aonde quero chegar?
fome de posse, de propriedade. Com estes laços, Não sei. Estou buscando um sentido para
estas armadilhas, estas navalhas de suspeita. Eu esta lembrança. Meu corpo reagiu, fez com que o
queria morrer! enxerto não morresse. Sobrevivi. Sobrevivi para
— Quem é o homem? quê? Posso saber?
— Pelo amor de Deus! Não existe homem al­ — Tiveráos, eu e eu, muitas horas felizes.
gum, homem nenhum, outro homem. Nenhum. í— Para o diabo com elas! Não quero horas
— E este nome? Preciso saber. felizes. Quero confiança e um pouco de respeito.
— Todo mundo encontra em seus papéis, de Essas horas felizes vêm cheias de veneno.
vez em quando, notas que não sabe para que tomou. — Tudo na vida tem seu lado mau,
— Fazendo um esforço, termina-se por re­ í— Aqui todos os lados são maus, mesmo os
cordar. que parecem bons. Aqui é o inferno.
Uma vez que o louco é irredutível, não pode ‘ Alguém abre as cortinas, corre as vidraças, e
escapar à loucura e agir como os sãos, estes con- tudo permanece como antes, aqui é o inferno, o ar
descendem em agir como se fossem doidos. Não por petrificado betuma esta janela aberta, aqui é o
deliberação. Insensivelmente e porque não pode inferno.
ser de outro modo. É o mal de conviver com loucos. í— É 0 inferno. Acho que as pessoas, às vezes,
Pois esta é a miséria; estou fazendo o esforça que sem o saber, são lançadas em vida no inferno. Fi­
me peço, tentando recordar. Preciso sair disto. cam girando em roda, passando eternamente sobre
Preciso, de uma vez por todas, sair disto. os mesmos pontos. Quero sair disto, nâo foi de

80 81
modo algum para este sofrimento que meu corpo como se eu precisasse encontrar alguma coisa. Foi
reagiu à morte. Mas como, se perdi a identidade e um acesso, um ataque.
não sei mais quem sou? Sornos como dois corpos »— Achei alguma coisa?
enterrados juntos, roídos pela terra, os ossos mis­ — Pétalas secas de rosa. Seriam de alguma
turados. Não sei mais quem sou. rosa oferecida por mim?
— É porque nos amamos. Estamos confundi­ i— Decerto.
dos, cada um é si próprio e também é o outro. — Eu não sabia. Olhava-as, como se pudesse
Isso não é amor. Não se perde a identidade existir, nas rosas ofertadas por outro, uma textura
no amor. Mas no escritório, na vida coletiva; ou na diferente. Havia um bilhete, sem o nome do desti­
demasiado solitária, por falta de pontos de refe­ natário. Igual a muitos outros que recebi ao longo
rência. No amor, pelo contrário, devemos reencon­
destes anos, principalmente nos primeiros anos.
trar nossa identidade perdida.
Mas talvez aquele não íosse dirigido a mim. Por
— Repito que, no amor, cada um é si próprio
que estava ali?
e é 0 outro.
i— Quem pode saber? Toda essa busca é tão
Está bem. Que encontrei ainda, hoje, em
inútil! Para ter-se a verdade sobre alguém, seria
minha busca, ãe si próprio e do outro?
preciso ver o seu espírito. E isto é impossível. Essas
— Prefiro não falar. Isso passou.
buscas, essa perseguição, essas inquietações. . .
Agora já me embriaguei, aderi à loucura.
— Quero amar de um modo simples, defini­
Quero saber.
Giro em redor do leito no qual estou prostrada, tivo, seguro.
respiramos com dificuldade, não com exaltação, Este silêncio e o espaço entre nós. A voz que
mas fatigadamente. Gostaria de ignorar estes pas­ rompe o espaço e o silêncio, com dificuldade, lenta,
sos que me cercam, passam em torno de mim ata­ articulando uma hipótese perturbadora. (O amor,
duras de aflição, terror e desamparo, desejaria sen­ talvez, é uma espécie de enxerto. Não nos rins. Em
tar-me, ou deitar-me, desejaria ser o que desejo outra parte qualquer, talvez na alma, e cujo êxito
ser, estou prostrada, falta-me ânimo até de erguer não depende de nós. Por mais que desejemos sal­
a voz, pedir que cessem os passos. vá-la, pode apodrecer e envenenar-nos.) E nova­
— Levantei o colchão, para ver se encontrava mente 0 silêncio, espesso, amortecedor, palha e
algum outro papel, revolvi a cesta. Tentei escrever. serragem entre objetos de louça.
Era impossível, a tentação de continuar a procura — Estarei então envenenado? Estaremos en­
não me abandonava. Deixei de lado Lawrence e as tão envenenados?
suas cartas, pus-me a folhear nossos livros. A esmo, í— Não eu. Eu, Sim, pode ser que também eu
e em seguida de modo sistemático. As mãos frias. esteja. Como posso saber, se não sei mais quem
Dizia a mim mesmo que estava cumprindo um ato sou?
injusto, mas não me continha, ia buscando, era — E mais de meia-noite.

82 83
»— Muito mais. Não tarda a amanhecer. Ou­
tro círculo. O sol é redondo. Redonda é a terra.
Em torno da terra fazemos uma volta; e a terra
outra volta em redor do sol. E nós giramos, gi­
ramos e voltamos sempre ao mesmo ponto.

Retábulo de
Santa Joana Carolina
PRIMEIRO MISTÉRIO

s estrelas cadentes e as que permanecem,


bólidos, cometas que atravessam o espaço
como répteis, grandes nebulosas, rios de fogo e de
magnitude, as ordenadas aglomerações, o espaço
desdobrado, as amplidões refletidas nos espelhos
do Tempo, o So! e os planetas, nossa Lua e suas
quatro fases, tudo medido pela invisível balança,
com 0 pólen num prato, no outro as constelações,
e que regula, com a mesma certeza, a distância, a
vertigem, o peso e os números.

0 Acompanhei, durante muitos anos, Joana


Carolina e os seus. Lá estou, negra e moça, sope­
sando-a (tão leve!), sob o olhar grande de Totônia,
que me pergunta: “É gente ou é homem?” Por­
que 0 marido, de quem não se sabe o nome exato,
e que não tem um rosto definido, às vezes de barba,
outras de cara lisa, ou de cabelo grande, ou curto
— também os oUios mudavam de cor — só vem
em casa para fazer filhos ou surpresas, até encon­
trar sumíço nas asas de uma viagem. Aquelas qua­
tro crianças que nos olham, perfiladas do outro lado
da cama, guardando nos punhos fechados sobre
0 peito seus destinos sem brilho, são as marcas da­
quelas passagens sem aviso, sem duração: Suzana,

87
João, Filomena e Lucina, todos colhidos por mim Carolina, ela pagará a© vendilhão. Palavras mi­
das pródigas entranhas de Totônia, de quem os fi­ nhas : “Se você não me trouxer de volta o empres­
lhos tombam fácil, igualmente a um fruto sazoado. tado, Joana, nem assim há-de penar por isto. É
Dizem dos filhos serem coisas plantadas, promessas mulher fiel. Em seu coração, jamais deverá a nin­
de amparo. Com todos esses, Totônia acabará seus guém.”
dias na pobreza: Suzana, mulher de homem bruto
e mais jovem do que ela, chegará à velhice mordida
de ciúmes, vendo em cada mulher, mesmo na mãe,
olho de cobiça no marido, um bicho, capaz de se
agarrar no mato, aos urros, até com padres e ima­ SEGUNDO MISTÉRIO
gens de santo, com tudo que lembre mulher ou
roupas de mulher, com o demônio se lhe aparecer A casa. Com a árvore e o sol, o primeiro e o
de saias, mesmo com chifres, e rabo, e pés de cabra; mais freqüente desenho das crianças, É onde ficam
João, homem de não engolir um desaforo, viverá a mesa, a cama e o fogão. As paredes externas e
sem ganho certo, mudando sempre de emprego e o teto nos resguardam, para que não nos dissolva­
de cidade, entortando pernas, braços, dedos, em mos na vastidão da Terra; e as paredes internas,
punhaladas e tiros; Filomena, mulher de jogador, ao passo que facultam o isolamento, estabelecem
cultivará todas as formas de avareza, incapaz de ritos, definidas relações entre lugar e ato, demar­
oferecer a alguém um copo dágua; Lucina ficará cando a sala para as refeições e evitando que en­
inimiga de Totônia, lhe negará a mão e a palavra. gendremos os filhos sobre a toalha do almoço.
Joana, apenas, Joana Carolina, apesar da pobreza, Através das portas, temos acesso ao resto do Uni­
será seu arrimo: a velha haverá de morrer aos seus verso e déle regressamos; através das janelas, o
cuidados, em sua casa, daqui a trinta e seis anos, contemplamos. Um bando de homens faz uma hor­
nb Engenho Serra Grande. Lucina andará três lé­ da, um exército, um acampamento ou uma expe­
guas, para ajoelhar-se ao pé da cama e lhe pedir dição, sempre alguma coisa de nostálgico e errante;
perdão, em pranto. Nem Filomena, nem ela, nem um agrupamento de casas faz uma cidade, um
Suzana oferecerão à irmã nenhuma ajuda. Para marco, um ponto fixo, um aqui, de onde partem
enlutar os filhos, Joana Carolina, já viúva, com­ caminhos, para onde convergem estradas e ambi­
prará fazenda negra a crédito. Será difícil pagar ções, que estaciona ou cresce segundo as próprias
essa.conta. O lojista, como se de posse da balança forças, e será talvez destruída, soterrada, e mesmo
que pesa as nossas virtudes e pecados, lhe escreverá assim poderá esplender de sob a terra, em silêncio,
uma carta, lembrando que a hora da morte é igno­ das trevas, por vias do seu nome.
rada e que portanto devemos saldar depressa nossas
dívidas, para não sofrer as danações do inferno. □ È em novembro, quando mudava — e ainda
Venderei um porco, emprestarei o diñheiro a Joana mude talvez — a diretoria da Irmandade das Al­

88 es
mas. Joana, que completou onze anos no mês an­ muitas semanas, descobriu duas coisas que não
terior, olha para mim com as mãos espalmadas, custam dinheiro e lhe causam prazer: acompanhar
nada sabendo explicar sobre o porque do seu ato enterros de crianças; um ninho de escorpiões, no
e espantada com as nossas opas verdes. Ao fundo, fundo do quintal. Pondo-os numa lata, brinca com
algumas cruzes e um pé de eucalipto. À esquerda eles; vai ao cemitério e deixa-se ficar junto à Caixa
do grupo, o filho pela mão, Dona Totônía, entre das Almas, até que o cheiro de pão e de café mes­
humilde e colérica, tem o pé erguido sobre os escor­ cla-se à luz do ocaso. Aqui estamos, cercando-a,
piões que achei entre as moedas. Um pouco á di­ interrogando-a, porque decidiu juntar seus dois
reita, com a portinhola aberta, a Caixa das Almas, prazeres: trouxe para o enterro a lata de lacraus,
pequena construção igual a tantas outras dispersas deu os bichos de esmola para as almas, metendo-os
na cidade, para receber esmolas dos passantes e pela fenda, como se fossem dinheiro. Grita o Pre­
transformada quase em santuário, pois algumas sidente da Irmandade que ninguém pode pegar
pessoas aí acendem velas, rezam para seus mortos; num escorpião. Joana Carolina: “Eu pego.” Fe­
e que eu, como Segundo Tesoureiro, com um pe­ cha-os na palma da mão, suavemente. Solta-os.
queno cofre, muitas chaves na mão e guarda-sol “Se a menina faz isso, com os poderes de Deus eu
aberto por causa do calor, percorri pela primeira também faço.” O Presidente com a manga arrega­
vez, nessa sexta-feira. No chão, grandes como la­ çada, 0 braço branco e tenro. O lacrau subindo
gostas e ainda menores que os vinténs de cobre, os no seu pulso, ferrão no ar, dobrado, cor de fogo;
mesmos escorpiões a serem esmagados por Dona depois, com os três que estavam no chão, indo para
Totônia-, um dos quais passeia nd braço nu de nosso Dona Tütônia; ela esmagando-os com os pés. Agar­
Presidente. Explicação de Joana: “Eu queria dar ra a filha pelo braço, deixa-nos. Picamos discutin­
alguma coisa.” “Mas por que lacraus? E não, por do, acreditando em partes com o demônio, pois o
exemplo, pedaços de vidro?” “Não tinha pedaços aceitamos bem mais facilmente que aos anjos.
de vidro.” “Que foi que você fez, pra que eles não
lhe metessem o ferrão?” “Eles não mordem.” Por
esse mesmo lugar, daqui a muitos anos, Joana ha­
verá de passar, à noite, segurando a pequena mão
de Laura, sua filha, que estremecerá de medo, fas­ TERCEIRO MISTÉRIO
cinada, vendo no cemitério os fogos-fátuos, mes­
clado esse terror a uma alegria que impregnará sua A praça, o templo. Lugar de encontro. Os ho­
memória, por causa do odor de café, de pão no mens reunidos para a discussão, para o divertimen­
fogo, que se desprende das casas do arruado, ao to, para as rezas. Perguntas e perguntas, respostas,
entardecer, como um barulho de festa. Não é mui­ diálogos com Deus, passeatas, sermões, discursos,
to freqüente, em casa de Totônia, o cheiro de café, procissões, bandas de música, circos, mafuás, an~
de pão. Joana carece de divertimentos. Não faz dores carregados, mastros e bandeiras, carrosséis.

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barracas, badalar de sinos, girándolas e fogos de dem as venturas da vida e que, ligando-me a ela,
artificio lançados para o alto, ampliando, na dire­ aposso-me de grandezas que não entenderei e que
ção das torres, o espaço horizontal da praça. nem sequer adivinho. Arpoado em minhas profun­
dezas pelo seu olhar, oíereço-me com a máxima
Joana, descalça, vestida de branco, os ca­ candura, imaginando que este brio de súbito ge­
belos de ouro esvoaçando, traz sobre o peito a ima­ rado em meu espirito pode comprar a paz e o júbi­
gem emoldurada de São Sebastião. Por cima dos lo. Desconheço que esta flecha lançada ao som do
ombros, encobrindo-Uie braços, mãos, e tão com­ hino solto pelas mulheres é semente cujos frutos
prida que quase chega ao solo, estenderam uma ninguém pode antever e que as alegrias serão quase
toalha de crochê, com figuras de centauros. Ás nenhumas ante os sofrimentos, as depredações em
setas grossas, no tronco do santo, parecem atraves­ nossas vidas, sobretudo na existência de Joana, mi­
sá-lo, cravar-se firmes em Joana. Por trás, nuima nha vítima.
fila torta, cantando em altas vozes, com velas ace­
sas, muitas mulheres. A noite de dezembro não
caiu de todo, alguma luz diurna resta no ar. Posso
ver que os olhos de Joana são azuis e grandes; e
que seu rosto, embora desfigurado, pois ela ainda QUABTO MISTÉRIO
está convalescente, difere de todos que encontrei,
firme e delicado a um tempo. Adaga de cristal. Verdor das folhagens, sol das artérias, manto
Mesmo eu, que não estou há muito na cidade, sou­ invisível da terra. Atiçador de incêndios, voz dos
be de sua doença. Meio cega, ausente das coisas, moinhos, remo de veleiros algumas vezes quebrado
febril, as pernas mortas. A mãe fez promessa, caso pelas calmarlas, caminho sem princípio nem mar­
ela se curasse: procissão com velas, andando pelas gem de todos os bichos voantes — morcegos, mari­
ruas. Assim, na breve duração desse olhar, o pri­ posas, aves de pequena ou grande envergadura.
meiro que trocamos, e já unindo-nos com tudo que Revolvedor de oceanos, cólera dos redemunhos, dos
isto implica, vejo apenas em Joana Carolina a ado­ furacões, dos vendavais, dos tornados. Zagal de
lescente arrancada à imobüidade e à cegueira por mastodontes, de dinossauros, de renas gigantescas,
obra de um milagre, para vir ao meu encontro com guiados em bandos sobre pastagens azuis e cujos
seus claros pés e descobrir-me. Tenho, ignorante ossos, cujo couro e chifres se convertem em chuva,
que sou, uma sensação de agraciado, certo de que em arco-íris.
nessa Jovem triplamente iluminada — pelo sol da
tarde, pelas chamas das velas, pelo meu êxtase — V" Nosso pai gostava de animais. Ensinou um
e em quem a enfermidade, mais do que uma pena, galo-de~campina a montar no dorso de uma cabra
foi um desígnio para resguardá-la até que emer­ chamada Gedáblia, esporeando-a com silvos breves.
gisse, das entranhas do tempo, este minuto, resi­ Eu e Nô apanharemos essa inclinação' e, de certo

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modo, por causa disto é que, daqui a anos, quando pedaços. Nem por isto virei a odiar aves e cabras.
nossa mãe, ele já morto, estiver penando no Enge­ O senhor do Engenho Serra Grande terá ciúmes de
nho Serra Grande, partiremos no mundo, à pro­ seu laranjal. Na tristeza daqueles dias futuros,
cura de emprego, deixando-a co ^ Teófanes e Laura, onde a comida será ainda menos abundante do que
nossos irmãos mais novôs, aindà não nascidos. De­ hoje, quando já não muita, minha alegria e a de
pois a tiraremos do Engenhoy de volta para a ci­ Nô vai ser como a de nosso pai: caçar passarinhos
dade. Por agora somos dois meninos, deitados em novos, criá-los junto do fogo, amestrá-los. Nossa
folhas de bananeira, nossa mãe curvada sobre nós, vingança da vida, bicho indomesticável. O senhor
atiçando o fogareiro com alfazema. Um odor nau­ do Engenho nos surpreenderá dentro do seu pomar.
seante empesta a casa intMra, odor de nossos cor­ Nos pássaros implumes em nossas mãos verá laran­
pos ulcerados. Maria do Catmo, nossa única irmã, jas, irá queixar-se irado à nossa mãe. Então ela
morreu há dois dias, o décimo do ano. Fazia calor, nos mandará embora, procuraremos emprego e um
esse calor de janeiro que nos sufoca a todos, ela dia viremos buscá-la, orgulhosos de nós. A bexiga,
pedia água. Morreu com sede. Nosso pai, com o em Nô, é mais terrível que em mim. Entortará seu
pássaro e Gedáblia tenta distrair-nos, fazendo com braço, o esquerdo, durante muito tempo. Nossa
que 0 galo-de-campina cavalgue a cabra em torno mãe, todos os dias, dar-lhe-á massagens com sebo
de nossos leitos de fôlhas, sem que porém lhe demos de carneiro, todos os dias, pacientemente, sem fal­
atenção. Condutor de trem, vive sempre fora. Em tar -um dia, até que ele poderá mover de novo o
suas horas de folga nos leva para o mato, pega braço, roubar comigo pássaros novos,- e depois tra­
passarinhos, tenta domesticá-los. Ganha pouco. balhar, até que levaremos nossa mãe, trar-lhe-emos
Para ajudá-lo, nossa mãe instalou, perto da esta­ um pouco da paz e da segurança que nosso pai, sem
ção, um hotelzinho onde comem outros funcionários jamais conseguir, quis dar-lhe.
da estrada. Mas quem quer saber de sentar-se à
mesa de um hotel com essa epidemia, as bexigas
matando, escalavrando a pele dos que conseguem
curar-se? Mesmo que houvesse fregueses, nossa
mãe não abriria o hotel. Faz uma semana que não QUINTO MISTÉRIO
dorme, velando noite e dia à nossa cabeceira e sem
ter onde pedir socorro. Quase todas as portas estão A lenta rotação da água, em torno de sua vária
aferrolhadas, mal ouvimos passos, ou pregões, riso natureza. Sua oscilação entre a paz dos copos e
algum. Mergulhamos num silêncio pontilhado de as inundações. Talvez seja um mineral; ou um ser
gritos e meus sonhos são povoados de ameaçadoras mitológico; ou uma planta, um liame, enredando
cabras que me pisam e de grandes pássaros de ca­ continentes, ilhas. Pode ser um bicho, peixe imen­
beça vermelha, que voam sobre mim e arrancam-me so, que tragou escuridÕes e abismos, com todas as

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conchas, anémonas, delfins, .baleias e tesouros nau­ a Igreja, a terrena, a que se polui, a que pare os
fragados. Desejaria ter, talvez, a definição das filhos, a que transforma em leite o próprio.sangue,
pedras; e nunca se define. Invisível. Visível. Tres- a frágil, Não é assim que diz a liturgia? Pois se
passável. Dura. Inimiga. Amiga. Existem os ci­ sou fraca, tenho de ser de pedra. Sou de pedra;
clones, as trombas marinhas. Golpes de barbata­ mas também chorei. “Joana casará com você, meu
nas? E também as nuvens, frutos que, maduros, filho. (Foi assim que o chamei.) Não tenha aca-
tombam em chuvas. O peixe as-absorve e cresce. nhamento de suas qualidades de menino. Sua fra­
Então este peixe, verde e ramal, de prata e sal, dele queza, a ignorância das coisas. As iluminações que
próprio se nutre? Bebe a sua própria sede? Come os outros, quase todos, acham de louco. Isso tam­
sua fome? Nada em si mesmo? Não saberemõs Ja­ bém são valores.” Nos outros pedidos, não me
mais sobre esse ente fugidio, lustrai, obscuro, claro comovi: eram homens grosseiros. Mas o espírito,
e avassalador. Tenho-a nos meus olhos, dentro das a presença de um espírito sempre haverá de per­
pupilas. Não sei portanto se o vejo; se é ele que turbar-me, As idas e vindas desse pobre rapaz,
se vê. para montar sua casa! Quatro cadeiras trazidas
de Natã; um candeeiro comprado no Recife; um
O Vi nesse moço, quando me pediu a mão de urinol ganho de presente; dois enfeites ganhos nu­
Joana, o traço da morte. O aviso. O sinal. Tentei ma barraca de prendas; o broche de gravata vendi­
demovê-lo. Éramos gente sem posse, de poucas le­ do para as últimas despesas. Tudo para viver esses
tras. “Não tem importância. Desde que vi sua dez anos, até morrer de repente, com oito mil-réis
filha, na procissão,.. Desculpe, mas desde aquela no bolso e mais alguns vinténs pelas gavetas. Devia
hora imagino-a como esposa. Quero tanto prote­ ser enterrado num caixão azul, feito os meninos
gê-la!” “O senhor se engana, ela é que vai pro­ pequenos. Tão bo:m que muitas vezes maldei se
tegê-lo.’' “Eu trabalho. Sou ferroviário. Terei Joana sentia mesmo prazer, prazer de mulher, em
promoções.” “Como é sua graça?” “Jerónimo deitar-se com ele, tão diferente do varão que espo­
José.” “Senhor Jerónimo, desculpe que lhe diga: sei e que parecia andar no mundo só para aprender
tenho visto poucos homens tão franzinos. Não digo artes noturnas, ou amadurecendo a carne em ba­
no corpo. Ê por dentro. Feito para trabalhar de nhos de rio, em dormidas ao ar livre, de modo que
ourives. Ou de imaginário, ficar sentado em si, fa­ eu cedia sempre à sua ordem, me abria igual ao
zendo nossas-senhoras, meninos Jesuses. Gosta òe Mar Vermelho diante de Moisés — sabendo que em
leituras?” “Leio muito.” Não tinha pai, nem nove meses teria mais um filho com boca e intes­
mãe. Desatou em pranto, me apertando os dedos, tinos, e nenhum níquel a mais — e ele me atraves­
como se eu houvesse descoberto as fraquezas que sava com as suas hostes de fogo e de alegria,
ele mais tentasse esconder. Sempre fui mulher desfraldadas nos mastros as bandeiras mais vivas.
dura. Tenho duas torres na cabeça, sou a esposa, Essa pode ser a razão de minhas outras filhas vive­

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rem tão nos sombrios, Suzana envenenada de lu- dia dizer-me que se tivesse ido, quando o marido
xúría, Filomena aduncando o nariz e as unhas na chamou-a, para Belém do Pará, elef estaria vivo.
avareza, Lucina irada com todos, até contra mim. Estranho! Esse moço, tão delicado, tinha rompan-
João Sebastião, errante mas sem calço nas ações tes largos, gestos inesperados, como se escondesse
deve ser obra do pai, um seu reflexo. Mas por que uma asa decidida, pronta a voar por ele, quando
pões, Totônia, em origens tão vagas, as deficiências preciso. Os ingleses da estrada queriam e exigiam
de teus filbos? Por que hão de nascer numa ten­ que fechasse o hotel, subsídio indigno de um con­
dência da carne, sobre a qual no fim de contas dutor de segunda. Digno, para os gringos, era ter
ninguém tem governo, e não no teu modo habitual um ordenado de manco e passar fome. “Ou fecha o
de agir, na tua falta de pulso, aqueles erros tão hotel, ou é demitido.” Perdeu o emprego, comprou
graves? Ainda que te enganes, que sejas severa duas latas de querosene, derramou-as em dois va­
contigo, deves crer que os erros de teus filhos são gões da linha, incendiou-os, partiu para Belém,
filhos de teus erros, mas semi que isto confranja tua meteu-se a rábula, conseguiu um lugar de Juiz no
alma, pois é humilde, Totônia, crer-se capaz de interior, escreveu a Joana, dizendo que fosse. Per­
erros — e soberbo ter que os enganos e falhas sem­ guntou-me se eu ia. “Ir como? Velha como estou,
pre são para os outros. Mesmo que hajas perdido, quase setenta anos? Nesta idade, a única viagem
no amestramento de teus filhas, o rumo e o norte, que ainda hei-de fazer é para o cemitério, se Deus
não será esta Joana recompensa? Vê sua firmeza. me der a graça de não morrer queimada ou afogada
Bem podia estar de braços levantados, acusando-se, numa dessas enchentes que levam até os bois e as
acusando os tempos, querendo refazer o que só uma cumeeiras. Mas você deve ir.” Recusou-se. Dos fi­
vez pode ser feito, ou temerosa, ou desacordada. Ela lhos, era só quem restava, os outros não me serviam.
não faz da dor um estandarte, guarda-a como um Me visitava, ia à missa comigo, fazia-me passar os
segredo. Nos socavões da alm,a. Não quer apagar domingos com ela, até me dava presentes: um al­
o sol, que entra pela Janela; nem silenciar os tam­ guidar, uma ou duas dúzias de alfinetes, um caná­
bores, os bombos, os violões, as flautas e os ganzás rio ensinado por Jerónimo. Era o arrimo. A mão de
que andam pelas ruas, neste domingo de Carnaval; força. A fonte das alegrias. O contrário da solidão.
nem pensa que seria melhor outro dia para a morte. Ele entendeu, não se queixou e.veio. Joana lhe
Sabe que dia algum é melhor que os outros para a pediu desculpas. Resposta: “Foi erro meü te cha­
desgraça; que o homem vê o sol, mas não o sol aos mar. A oportunidade era boa, me tentou. Muitos
homens; e que as pessoas, quando felizes, têm di­ podem achar que você devia ir. Mas nem sempre
reito às suas alegrias, pois cada qual há seus dias a casa:é onde está o marido; a câia é onde está a
de lágrimas e o pranto de um nem sempre é o de paz de consciência.” Mostrou-me seus novos livros
todos. E quem, mais do que Joana, poderia esque­ de lei e uma caixinha com estampilhas. Foi proces­
cer, varrer da mente, pox hoje, essas verdades? Po- sado pela Great-W estern como incendiáíio, defep.-

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deU"Se, ganhou a questão. Tinha coragem, mas não SEXTO MISTÉRIO
para jogá-la por aí, aos montes; tinha para o gasto.
Assim, quando lhe explicaram, no Engenho da Bar­ Que faz o homem, em sua necessidade?
ra, em que pé estavam os ânimos entre os Barnabós Vara e dilacera. Mata as onças na água, os
e a família Câmara, que o havia chamado parà
gaviões na mata, as baleias no ar.
advogar numa pendência de terras, decidiu voltar
— Que inventa e usa, em tais impossíveis?
na mesma hora. “Qualquer advogado que assumir
■— Artimanha e olho, braço e baraço, trompas
a questão leva um balaço. E depois, você sabe: tam­
e cavalos, gavião, silêncio, aço, cautela, matilha e
bém os Câmaras não são flor que se cheire. Numa
explosão.
briga entre demônios existe algum com razão? To­
— Não tem compaixão?
dos, ali, estão fora da justiça. Digo mais, sendo
— Não. Tem majestade.
você não me demorava. Punha a cabeça do cavalo
— Com necessidade?
no lugar da cauda e voltava para casa. É uma gente
— É sua condição.
muito dada a tocaias.” Quando passou a perna no
cavalo, sentiu a dor no peito e achou que ia morrer. — Acha sempre a caça? A pesca? Com sua
A morte é igualmente propensa a acabar com os rede escura, sua flecha clara, seu anzol de fogo,
outros na tocaia. O cavalo é a prova do que foi a seu duro arcabuz, descobre sempre o animal no vôo,
viagem deste meu genro. '‘Joana, vim para morrer na sombra, no abismo?
em casa.” Os cascos do cavala caíram como cacos. — Não todas as vezes. E no fim lhe sucede
Jerónimo deitou-se na rede, pediu um chá, juntou ser executado.
os cinco filhos. A água estava fervendo, Joana trou­ — Por qual maior algoz?
xe a bebida, quente a ponto de queimar os beiços do — A Morte, que devora, com seu frio dente,
doente. Ele nem bebeu toda a xícara. Não é, da parte pesca e pescadores, caça e caçadores.
de Joana, para desesperar? Em vez disso, corta
o pão da merenda para os cinco filhos, dois à sua ^ Pareço-me bem mais com o diabo, do que
esquerda, os outros à direita. Pela janela, masca­ com gente. Vade retro. Não era assim que me acha­
rados contemplam o morto no caixão, uma das más­ vam as mulheres. Vara de pescar no ombro, feixe
caras com 0 banjo sobre o peito; o cavalo repousa, de pe^es na mão, olho para Joana com o olho de
é todo veias, tem olhos roxos, patas sangrentas; ver fundo de rio. Barba pontuda, abas do chapéu
dois visitantes de cada lado, dois anjos, dois casti­ levantadas de um lado e outro da cabeça, a modo
çais, estou com um braço pendido, outro estendido, de chifres. Aterrador, um mau. Eu não era assim.
a mão pousada na fronte de Jerónimo; sobrevoa- Tomava banho no poço, com sabão, meu chapéu
nos um dos pássaros que ele domesticou e que, era alvo, quebrado nos olhos, usava suíças, gostava
havendo fugido, voltará pela janela ao entardecer e de caçar, não de pescar. Âs, mulheres me achegava
pousará em silêncio sobre as chinelas de Joana. de manso, meu fraco eram as viúvas e as casadas,

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nunca me aproveitei de inocentes; as donzelas co­ turbado. Vinha, de dentro dela, uma serenidade
migo estavam seguras e não houve um só filho que como a que descobrimos nas imagens de santo, as
eu não protegesse. Por Isso arruinei-me, joguei fora mais grosseiras. Um som de eternidade. Tenho a
tudo que meu pai juntou; e dos vinte e dois filhos consciência tranqüila; para deitar-me com ela, fiz
que registrei coni o meu nome, de dezoito mulheres 0 que se pode. Não foi fácil, levei mais de ano para
diferentes, nenhum, depois de grande, me reconhe­ a primeira investida. Ela possuía um anteparo que
ceu como pai. Viam-me, decerto, como nunca fui: tive de vencer aos poucos, um resguardo invisível,
barbas de. bode, cascos, cheiro de enxofre. Joana,
de compostura e silêncio, um zimbório de força,
a professora, me afasta com a régua e a palmatória
realeza. Olhava-me de frente, com seus olhos azuis,
na mão, fazendo com os dois instrumentos uma es­
severos como os de um senhor. Instalei-a bem, na
pécie de compasso aberto; o outro braço protege os
melhor casa, perto da senzala. Porta larga, uma
cinco filhos. Nô, o vivaz; Álvaro, o inteligente; Teó-
janela de frente, outra de lado, sala grande para
fanes, o conformado; Laura, a concentrada; Maria
as aulas inúteis; o corredor servia de cozinha. Não
do Carmo, a segunda com esse nome, e que também
eram bons os quartos; cavernosos, escuros, tinha-se
há de morrer criança. Bobagem de meu pai, coisas
de velho, aceitar professora em nossas terras. Para de descer alguns degraus para chegar até eles; mas
ensinar a esses desgraçados? Enfim, como era o serviam; Joana dormia no primeiro com as filhas,
município que pagava, só nos cabendo ceder uma os meninos pousavam no segundo. A janela do lado
casa à professora.., Ela viajava seis léguas.por olhava para a horta de cacau, onde eu podia vê-la
mês, três de ida e outras três de volta, para receber durante as lições, e ser visto por ela. Nunca houve
0 ordenado. Quanta gente miserável neste mundo! horta mais tratada. Poli o chão com as botas; com
Largar-se da sua casa, com uma fieira de filhos, a sombra indo e vindo, acho que dei lustro nos tron­
para ensinar de sete às duas da tarde, sem comer cos. Ela podia olhar ao menos para a horta; mas
um biscoito, metendo letras e algarismos em trinta não, era como se a janela não existisse. À tarde,
e tantas cabeças de quartaus. Para, no fim, um desaparecia; com certeza estava pelo corredor, pre­
dêles escrever no quadro-negro a paga, a recom­ parando as comidas para o dia seguinte. Com a
pensa: “A professora é um.a cachorra.” Chegou boca da noite, fechava tudo, ia fazer crochê. Nunca
pela Semana Santa. A idade, não sei bem. Estava me pediu um grão de milho, uma fõlha de capim.
no seu março, no fim de seu verão. Mais de sete Como podia viver? Multiplicava os pães, os peixes?
anos passou aqui em Serra Grande. Quando se foi, Absurda mulher. Nunca entendi suas contas, ela
tinha envelhecido vinte: o rosto duro, queimado, possuía 0 dom da multiplicação. Eu também, a
sem a claridade anterior, os cabelos de ouro desco­ meu modo: nesse ano, me nasceram dois filhos.
rados, a espinha curva e perdera alguns dentes. Mas eu queria ter um era de Joana. Passei a buscar
Mesmo assim, olhando-a, eu me sentia às vezes per­ mulheres parecidas com ela, não achava, espalhei

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minHa intenção (falsa) de casar com pessoa ins­ anos e meio rondando aquela casa, para um dia
truída. Continuei sem ser olhado na horta de ca­
perder a paciência e entrar de porta adentro e
cau, Resolvi ir às falas com a viúva. Recebeu-me
perguntar-lhe, prometendo mundos e fundos, se
bem: viu-me afogueado, ofereceu-me água^ ou um
queria amigar-se comigo. Não me respondeu. Fi­
café. Como iria eu pegar num copo, ou numa xí­
tou-me dentro dos olhos com seu olhar severa.
cara, se minhas mãos tremiam? Não pronunciei
“Responde ou não? Fala. Você é de quê? De ma­
uma palavra das que preparara. Tinha um anzol
na língua, fiquei mudo, um peixe. Meu pai nunca deira? De pedra?” O olhar continuava. Decidi
foi desfeiteado em cima de um cavalo meio-sangue, agarrá-la duma vez, queria ver em que ficava sua
que adquiriu na Bahia; em cima de outros cavalos altanería. Dei por mim andando no canavial, como
ou no chão, sua autoridade era menor. Há coisas se um ente invisível me houvesse arrebatado. Esse
assim, que apoiam as pessoas. Decidi transferi-la ente, sem dúvida, era o meu opróbrio. Vieram as
para uma casa maior, onde suas escoras talvez fi­ Santas Missões. Confessei-me, batizei os oito filhos
cassem mais frouxas. “A senhora se muda esta que me haviam nascido naqueles cinco anos, resolvi
semana mesmo. Vou botar isto abaixo, o ponto é tomar o caminho da Justiça, tirei a professora da­
bom pra fazer um barracão. Preciso aumentar mi­ quele casarão, coloquei-a numa velha estrebaria.
nhas rendas. Tenho errado muito, vou acertar mi­ Divisões com empanadas faziam as vezes de quar­
nha vida, constituir família.” “O senhor Já tem tos. Assediei-a só para humilhá-la, para destruir
tantas! Mais uma não faz diferença.” Fingi-me seu orgulho, nada consegui. É verdade que não lhe
de surdo, saí de orelhas queimando, mandei der­ falei, nunca mais, em deitar-se comigo. Reclamava,
rubar tudo, varrer de minha frente a janela da fazia-lhe censuras, insultava-a, insistia nos males
qual jamais fui visto. Nada ergui na lugar, A casa da soberba. Sua resposta, uma vez: “O senhor
para onde mudei Joana, com a escola e os filhos, era não deixa de ter certa sabedoria: fala do que co­
uma babilônia. Fora dividida: parte era uma desti­ nhece.” Decidi propor-lhe casamento. Não tive
laria. Mesmo assim, um grito solto na sala, che­ boca para dizer-lhe as palavras, nem mesmo quando
gava apagado à cozinha. Paredes úmidas, telhado soube que estava de partida. Tive-lhe ódio, duran­
alto, quartos descomunais, onde caberiam seis ca­ te alguns anos. Emprenhava as mulheres e detes­
mas de casai e algumas cômodas, e onde em certas tava os filhos que nasciam, porque nenhum era
noites era preciso acender um fogareiro, para não seu. Com o tempo, o ódio foi passando, veio uma
morrer de frio. Aí, duma só vez, adoeceram seus espécie de enlevo, talvez de gratidão. Acabei achan­
filhos, todos, a pequena morreu. Sua mãe, que de do que Joana Carolina foi minha transcendência,
tempos em tempos vinha lhe,fazer uma visita, mor­ meu quinhão de espanto numa' vida tão pobre de
reu também aí. Nada abalou a mulher. Levei três mistério.
104 105
SÉTIMO MISTERIO laranja, meio pão, meia banana, meio copo de leite,
meio ovo, um sapato no pé e outro guardado. Só
Os que fiam e tecem unem e ordenam materiais dispersos que, calçávamos os dois quando ela nos levava à cidade,
de outro modo, serianv vãos cu quase. Pertencem à mesma Hnhagem para receber seu ordenado, três léguas para ir e três
FIANDEIRA CAUNEIKO FUSO LÃ dos geómetras, estabelecem leis
para voltar, Esse caminho durante quase oito anos,
e pontos de união para o desuno. Antes do fuso, da roca, do tear. das
jamais a cavalo ou em carro de boi, ou num jumen­
mvenções destinadas a estender LÃ LINHO CASULO ALGODÃO LÃ
os fios e cruzá-los, o algodão, a seda, era como se ainda estives-
3
to. Todas as vezes a pé. SFo princípio, falava com
as pessoas de influência. Dessem-lhe uma cadeira
TECEDEIKA URDIDURA TEAR LÃ sem imersos no limbo, nas trevas
menos afastada. Era longe demais e sem condução.
do infoniie. É o apelo à ordem que os traz á claridade, transforma-os
Não podia vir com os cinco filhos, trazia um, ou
em obras, portanto em objetos humanos, iluminados pelo espirito do
dois, ou três, os outros ficavam lá, isto lhe dava cui­
homem. Não é por ser-nos úteis LÃ TRAMA CROCHÉ DESENHO LÃ
dados. Franziam a testa, mexiam com os ombros.
que 0 ourei ou o linho representam uma vitória do nosso engenho;
Tivesse paciência. Quando fosse possível... Nun­
sim por serem tecidos, por cantar neles uma ordem, o sereno, o fimie
ca foi possível. Mamãe levou uns três anos sem
TAPECEIRA BASTIDOR ROCA L ã e rigoroso enlace da urdidura, das
insistir no pedido, indo todos os meses à cidade.
linhas enredadas. Assim é que suas expressões mais nobres s5o aquelas
em que, com ainda maior discipli- LÃ COSER AGULHA CAPUCHO LÃ
Muitas ladeiras, trechos desertos; pedaços onde não
se escutava nem mesmo um latido de cão; estiradas
na, floresce o ornamento; no crochê, no tapete, no brocado. Então, é
FIANDEIRA CARNEIRO FUSO LÃ como se por uma espécie de alqui­
de areia, que fatigavam mais do que as ladeiras;
mia, de ■álgebra, de mágica, algodoais e carneiros, casulos, campos de
uma extensão cheia de pedrinhas rolantes, brilhan­
linho, novamente surgissem, com LÃ TRAMA CASULO CAPUCHO LÃ
do á flor do solo e que feriam os pés. Cobríamos,
uma vida menos rebelde, porém mais perdurável. no verão, as cabeças com chapéus de palha. Que
braço agüentaria sustentar aquele tempo todo uma
Não tínhamos sequer regador. Minha mãe, sombrinha, por leve que fosse? Os chapéus só evi­
curvada, nos dá um clister de pimenta dágua, com tavam que nos queimássemos demais na cara e no
bexiga de boi e canudo de carrapateira, untado com pescoço. E que nossos miolos não fervessem. Subia
banha de porco. A doença era febre, o corpa cheio do chão — da areia, das pedrinhas — um bafo ar­
de manchas. Comíamos pouco, sempre estávamos dente, difícil de engolir e que fazia indecisas as
propensos a cair de cama. Antes, foi a tosse con­ distâncias. Vagava por toda parte uma poeira tor­
vulsa. Tossíamos todos, o couro de Álvaro estourou rada, parecendo de sal, tanta era a sede. E em
abaixo do ouvido. Foi quem mais sofreu. Tomou certos quilômetros as árvores fugiam, debandavam,
duas almotolias de óleo de fígado, duas colheres por as únicas sombras sendo as de nossos chapéus.
dia, meia laranja após a colherada. Gostava de la­ Ainda pior quando o inverno chegava. Os rios
ranjas, queria chupar uma inteira, mamãe não dei­ cheios nem sempre davam passagem. E às vezes
xava; saía muito caro. Tudo era pela metade. Meia não davam e nós passávamos, que grande era a

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sempre de olho no vulto, fingindo que a viagem
necessidade. Ou os cruzávamos por sobre pontes
acabara: o seguidor imobilizava-se; descemos quase
desconjuntadas, com a água rugindo, lambendo
correndo uma ladeira: quando olhamos, vimos que
nossos pés. Nô, um dia. quase foi chifrado por um
a distância entre ele e nós duas pouco se alterara.
touro morto, vindo na correnteza. Por assim dizer,
Ela dizia; “Enganei-me de hora.” Como quem
tudo virava lama. A madeira das pontes ficava
diz: "Bebi do poço envenenado.” Estávamoscom
enlameada, as árvores, os rios eram massas barren­
0 veneno da noite em nossos corpos, sem poder vo-
tas que avançavam, e até as pedrínhas como se
mitá-lo, um veneno de erro, de abandono, de des-
dissolviam, transformavam-se em lama. Então —
proteção. Não encontrávamos ninguém na estrada
havia outro jeito? — levávamos guarda-chuvas, se­
— e 0 sujeita em nossos calcanhares. Assim todo
gurávamos 0 cabo com as duas mãos trançadas,
0 caminho, até chegarmos no engenho. Então, me
ficávamos de braços mortos. A ventania chegava
tomou nos braços e abalou. Gritava pelos filhos,
na segunda metade dos invernos, plantação de cres­
com ânimo, como quem brande uma arma: eram
cimento^ rápido, brotando com as primeiras pan­
nomes de homem. As primeiras claridades do dia
cadas dágua. Rolava sem termo naquelas paragens.
assomavam nos serrotes. Nô veio abrir de candeeiro
Doía nos ouvidos, entortava as varetas das sombri­
na mão, ela entrou com. tal ímpeto que o atropelou,
nhas, levar o pé adiante passava a ser difícil, coisa
a manga de vidro saltou entre nós três, fez-se em
trabalhosa, todo caminho se inclinava em ladeira.
pfedaços no chão. Fechada a porta, sentou-se, pediu
E nunca sucedia encontrarmos homens de bem nas
um copo dágua. Tremia da cabeça aos pés. Alegria
estradai; só nos deparávamos com bêbados. Ma­
e fartura só conhecíamos quando minha avó To-
mãe tinha medo, estou certa de quê. Tinha de ter
tônia vinha da cidade, para uns dias. Não que fosse
medo, sei. Nunca demonstrou, salvo uma vez. T í­
alegre. Severa, poucas palavras, contados sorrisos,
nhamos ido apenas eu e ela. Chegáramos, como
a fronte mei,o baixa,, com um Jeito de bode que pre­
em geral, ao cair da noite. Mamãe dormiu, recebeu
para a marrada. Que outro acontecimento, porém,
seu dinheiro, vendeu uns trabalhos de agulha;
haveríamos nós de festejar? Mamãe fazia bolos,
quando cuidou em si, já era tarde para voltar. De­
doces, não precisava mandar que fôssemos para os
cidiu ficar mais uma noite, partir pela madrugada.
coqueiros, dar as boas-vindas. íamos os cinco, os
Enganou-se nas horas e sinais, pensou que a lua
meninos a pé, eu no carneiro, Maria do Carmo na
era a manhã chegando, despertou-me, tocamos
ovelha. Quase nossos irmãos, esses dois bichos: fa­
para casa. Fora da cidade, vimos que um homem
lávamos com eles, vivíamos juntas e, quando o frio
nos seguia. "Vai amanhecer.” Não amanhecia.
mais cru, dormiam em nossas camas. Éramos sete
Por cima do ombro, mamãe observava o caminhan­
correndo para nossa avó Totônia, aos berros, quan­
te e apertava o passo: ele também; diminuía a
do ela apontava, de chale, bata, saia comprida, pé
passada: o desconhecido amolecia a sua; mamãe
firme, o falar descansado, coma se viesse de perto
parava nas imediações de um sítio, de um estábulo.
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e não de longe. Chegaria, uma vez, para adoecer e correndo de cães doidos, de bois brabos fugidos do
morrer com poucos dias, quando aipda vagava pela cercado, três léguas na ida, três léguas na volta,
casa 0 cheiro das comidas que mamãe fizera para para receber a paga do trabalho feito durante um
alegrar sua vinda. Nesse tempo, éramos apenas mês inteiro, de sete às duas, todos os dias, fora so­
eu, Téo e mamãe. Nô e Álvaro tiniiam ida embora, mente apenas os domingos. Alguns dizem; O tem ­
haviam conseguido emprego numa loja, começavam po da infância é um abril. O meu foi um agosto
a vida; Maria do Carmo, Carminha, irmã querida, ventoso e atormentado, que terminou quando veio,
minha companhia verdadeira, porque mulher, mor­ certo anoitecer, um negro com o rosto cheio de
rera naquela doença cujo nome não soubemos. verrugas, trazendo uma carta. “A filha da senho­
Nela é que mamãe está aplicando o clister, com a ra do Engenho Queimadas, depois de tanto tempo
bexiga de boi na extremidade do canudo de car- se lembrou de mim. Vão abrir uma escola, a mãe
rapateira. Assemelha-se, minha irmazinha, a nrn, quer que eti vá ser a professora. Têm procurador
grotesco soprador de vidro. Sou eu a de tranças. na cidade, não preciso ir buscar meus vencimen­
Nô, Álvaro e Téo não aparecem. Mas estavam aí, tos.” As lágrimas saltavam dos -cansados olhos
amontoados conosco nessa peça, todos queimando de mamãe, moídos de fazer, todos aqueles anos,
de febre. Tínhamos sido obrigados a deixar a casa toalhas de crochê à luz do candeeiro, para vender
onde morávamos, ir para essa na mata; aí se iso­ na cidade. Só então confessou; “Eu tinha tanto
lavam os bexiguentos. Não tínhamos bexigas. Mas mêdo de ir por essas sendas! E depois, cada vez
estávamos de cama, todos, com doença forte e que me sinto mais cansada. Por mais que procure ser
podia alastrar-se. Fôssemos. Fomos. Lá mesmo, forte, as pernas já não querem. Parece mentira,
entre as árvores, Carminha foi enterrada. Ouvi, em não ter mais que fazer essas viagens.” Pela única
minha febre, mamãe fazer a cova. Os carneiros vez em toda sua vida, ergueu o punho, um punho
baliram muito tempo, um balir diferente, pesaroso incrivelmente frágil, numa revolta breve contra
— tive pesadelos nos quais eles baliam há sete anos. aquelas estradas cento e oitenta vezes percorridas.
Nossa comida, durante todo o tempo da doença, Como pudera esconder, tantos anos durante, seu
foram bananas compridas com café. Havia na ci­ pavor? O mesmo negro da cara verrugosa nos con­
dade um surto de bubônica, interdito ir lá, de modo duziu para o Engenho Queimadas. Fomos a^cavalo,
que as lavagens de pimenta dágua foram toda nossa Téo num ruço, vibrando de alegria, eu e mãe num
medicina. Vencida essa quadra, mamãe voitou a alazão. Nos limites do Engenho Serra Grande, num
pedir um lugar mais perto da cidade, a ouvir as cabeço, ela se voltou. Abrangíamos, dali, canaviais
mesmas negativas. E assim outros anos se pas­ e casas, o bueiro do engenho, a roda dágua, gente,
saram, mês depois de mês, verões, invernos, um mês, burros, bodes, galinhas e cavalos, um pedaço da
depois outros, um ano, outros ainda, debaixo do estrada tantas vezes refeita. Ouço-a dizer: “Sete
sol, sob a ventania, mamãe cruzando com bêbados, anos, sete meses e sete dias morei neste inferno.

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Sete anos, sete meses e sete .dias. Parece sentença corte, 0 machado, o facão, a moagem, a moenda,
escrita num livro.» Ergueu a mão espalmada e a conta, o barracão, a cerca, o açude, a enxada, o
passou-a diante da paisagem, com o mesmo gesto rifle, a ajuda, o cambao, o cabra, o padrinho, o man­
que fazia ao quadro-negro, apagando o que já fora dado, 0 mandão.
psm ado e aprendido. Para mim, tinham sido anos
xmpios. Mas naquele instante, percebendo o fim de 0 Totônia deitada, pálpebras descidas, as mãos
um ciclo e de um mundo, veio-me, do fundo das sobre o lençol. A cabeça do Touro, com suas aspas
lembranças, uma pena. Era ladeando o cemitério recurvas, ocupa quase todo b quadrado da Janela.
que entrávamos na cidade. Chegávamos ar, quase Conduzindo uma bacia de estanho, inclino-me para
sempre, as seis, às sete horas. Eu tinha medo das a doente. Ao pé da cama (as três formando uma
cruzes e vinha com fome. Fechava os olhos para espécie de cruz florenciada) Lucina de joelhos, ves­
nao ver os túmulos, os fogos-fátuos, ia como um tida de branco, Suzana às suas costas, de azul, com
cego; e sentia, com o inteiro ser, o cheiro de café os punhos levantados e, no reverso do grupo, tam­
e pao que envolvia os casebres, e que também era bém ajoelhada, Filomena, de quem só os braços
para mim um cheiro de repouso, de trégua, de ruas, abertos, com as fòfas mangas vermelhas, são visí­
de segurança, luzes dentro das casas, o cheiro da veis. À esquerda, Joana Carolina, prostrada, toca
viagem terminada. Tive saudade desses precários 0 soalho com a fronte e as palmas das mãos. Pela
momentos. Avareza ou zelo da memória que, mes­ porta aberta, Laura espreita-nos. Através das pa­
mo na adversidade, guarda em seus alforjes todo redes, brilhando sobre o campo, o dia claro de maio
grao de bonança. e ondulações de terra, sobrelevadas por grandes
pássaros brancos, as amáveis cabeças guarnecidas
com xmi chifre, a claridade pesando em suas asas.
Há o cavaleiro numa trilha, o menino sozinho e o
carro com toldo, puxado por quatro bois, vermelha
OITAVO MISTÉRIO a junta do coice, roxa a da guia. O carreiro, no
extremo da vara, leva uma bandeira negra. O ca­
O massapê, a cana, a caíana, a roxa, a demo­ valeiro é Nô e Álvaro, a chamado de Joana; o me­
rara, a fita, o engenho, a bica, o mel, a taxa, o nino, Teófanes, sozinho, levando carta'para o far­
alambique, a aguardente, o açúcar, o eito, o cassaco macêutico; no carro vamos nós, com a morta. Sua
0- feitor, 0 cabo, o senhor, a soca, a ressoca, a planta, proposta, que contrariei, era aguardar aparecesse
a replanta, o ancinho, o arado, o boi, o cavalo o um vaqueiro, ou pelo menos um jovem, para escol­
carro, o carreiro, a charrúa, o sulco, o enxerta tar nós duas. No meio do cercado, eu e ela sem
0 buraco, o inverno, o verão, a enchente, a seca, o árvores por perto, o Touro, inesperado, pulou do
estrume, o bagaço, o fogo, a capinação, a foice, o chão com seus chifres. Deitamo-nos, «aras no solo
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estercado, protegendo as nucas, o Touro jogou lon­
ge sua bolsa, ficou tentando aspeá-la nas costelas,
*^‘1880 não é título.
Diga à professora que venha ela
mesma.” Berrou, vendo-me ao lado de Joana, que
queria levantar-me, gritar, espavori-lo, não tinha eu ficasse de fora, não admitia negros na capela.
voz, nem ânimo, nem pernas, apareceu o homem
Foi na capela, pegada à Casa-Grande, que se fe­
no cavalo, com chapéu e suíças,,afugentou o boi,
chou, batendo a porta com ostentação. Nem pare­
desceu, falou, sorriu e nos levou as duas pelo braça.
cia o mesmo que nos salvara do Touro, devia estar
Até 0 outro lado da cerca. Pensar que quase lhe
num mau dia, foi o que pensei. Havia um silêncio!
beijei as unhas, sem saber que ele trazia dentro do
A rede no alpendre, o ranger dos ganchos, compas­
gibão as bestas da maldade, com seus cascos fer­
sado, 0 arear vagaroso do pai, nos tachos de cobre.
rados, seus chifres pontudos! Nos quatro dias em
Eu afiava as ouças para o que se passava na capela.
que Totônia esteve à morte, a casa de Joana encheu-
Não alcançava o senso de todo aquele aparato. Era
se. Só ele, a bem dizer, não apareceu. Ele e o pai,
que não tinha juízo, passava os dias no alpendre, preciso tanto para o que se pedia? Então, a calma
de camisão, balançando-se na rede e areando ta­ se rompeu, eu escutei. As palavras do homem, o
chos. O filho, se fosse outro, teria vindo, era o dono preço sem medida. Como podia ter coragem de
do Touro. Totônia, é certo, chegou como se nada fazer tão brutal exigência na frente dos santos?
houvesse, comeu os bolos de Joana, puxou a ladai­ De Joana, aguardei os protestos, os gritos de cólera.
nha e 0 terço. Depois é que pegou a amolecer, ficar Escutava apenas sua voz, que nem era chorosa, voz
com um lado esquecido, embora não tivesse feri­ sem altos, palavra atrás de palavra, todas iguais.
mentos, Mas estava na vista, ela se finava pelo que Depois o tom do homem foi baixando e o de Joana
sofrerá no cercado. Depois que lavei a defunta e seguiu, inalterado. Veio uma pancada, pontapé no
pus-lhe o vestidinho melhor (estava cerzido na soalho ou murro numa porta, e toda voz cessou.
barra), Joana me chamou, deu-me as instruções. Até que a do homem novamente se ergueu, retum­
Totônia abominava a idéia de entregar a chão es­ bante e ao mesmo lamuriosa, gritando a condição,
tranho os despojos, era preciso levar seu cadáver “É dizer não ou sim. E agora!” Joana ia respon­
para casa e enterrá-la era meio a inscrições com der. Eu talvez devesse ter ficado, entrada na ciência
nomes conhecidos, que éia em vida poderia ter es­ de tudo, arcado com o momento. No meio do cer­
cutado com desgosto, ou ódio, mas faziam parte de cado, 0 Touro à nossa frente, fiquei suspensa, sem
seu mundo. Joana pedia um carro de bois empres­ chão nos pés, e desvendando em mim uma fraqueza
tado, ou alugado, O hornem perguntou se eu era cada vez maior, um desespero comendo-me. Senti
da família. ‘Tela cor da pele, o senhor vê que 0 mesmo: dentro do silêncio, um qualquer monstro
não.” '‘Então vem a título de quê?” “De pessoa voltava para mim suas aspas de sombra. Não tive
amiga. Na mesma bacia com que lavei a finada, coragem de aguardar a resposta, corri para o alpen­
dei 0 primeiro banho em todas os seus filhos.” dre, para junto do velho e de sua doidice, onde por
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um instante me senti segura. Joana apareceu,- não NONO MISTÉRIO
lhe perguntei se o carro ia. O trajeto de volta sem
trocar palavra, juntas só em corpo, as almas remo­ P A L A V Duas vezes foi criado o mundo: quando passou do

tas; a casa cheia de povo e as irmãs em pranto, B A C A P nada para o existente; e quando, alçado a um plano mais
I T UL A sutil, fez-se palavra. O caos, portanto, não cessou com o
porém de bolsas fechadas; Joana sentada, olhos
B P A L I aparecimento do universo; mas quando a consciência do
enxutos, fixos no chão, mãos entre os joelhos, eu
M P S E S homem, nomeando o criado, recriando-o portanto, separou,
à sua firente, duas horas, três, até um rumor pene­
T o C A L ordenou, uniu. A palavra, porém, não é o símbolo ou re-
trante, gemedor, vir, aproximar-se. Vi o toldo, a
I G R A F fle-xo do que significa, função servil, e sim o seu espípto,
vara do carreiro, com o pano preto em cima. Joana
I A H I E o sopro na argila. Uma coisa não existe realmente en-
disse: Vamos levar nossa mãe. Ela vai descansar B ó G L I quanto não nomeada; então, investe-se da palavra que a
onde queria.’’ “Por sua mãe, você fez o que pôde F o P L U ilumina e, logrando identidade, adquire igualmente estabi-
e o que não pôde. Deus lhe abençoe.’’ Desaconse­ M A C ó D lidade. Porque nenhum gêmeo é igual a outro; sò o nome
lhei, quando mandou buscar remédios na cidade: I C E L 1 gêmeo é realmente idêntico ao nome gêmeo. Assim, gêmea
‘‘Não perca o dinheiro, esse mal é sem cura.” "‘Co­ V R o P E inumerável de si mesma, a palavra é o que pennanece,
mo você sabe?” “É feito conhecer mulher da vida, R G A M I é o centro, é a invariante, não se contagiando da flutua-
ou homem que foi padre: um por-baixo, que a gente N H 0 A L ção que a circunda e salvando o expresso das transforma-
F A B E T ções que acabariam por negá-lo. Evocadora a ponto de
mais ouve do que vê.” “Também acho que ela não
O P A P E um lugar, um reino, jamais desaparecer de todo, enquanto
escapa. Mas é uma lei minha, agir sempre como
L P E D R subsistir o nome que os designou (Byblos, Cartiiago, Su-
se o impossível não fosse.” No quarto, a bacia nos
A E S T I méria), a palavra, sendo o espirito do que - ainda que
braços, curvando-me sobre Totônia para um escal- L E T E I só imaginariamente — e.’císte, pennanece ainda, por incor-
da-pés, praguejo contra o bruto animal que a des­ L U M I N ruptivel, como o esplendor do que foi, podendo, mesmo
truiu e acho que, no mundo, como todos nós, ela U R A E S transmigrada, mesmo esquecida, ser reintegrada em sua
viveu feito alguém no centro de boiadas em tropel, G R I T A original clareza. Distingue, fixa, ordena e recria: eí-la.
cercada por chifres, rasgada por chifres. No carro,
levando-a morta e escutando o ranger das rodas de @ NÓS dois de braços dados, as caras entran­
madeira nos eixos, penso diferente,-tenho a impres­ çadas, parecemos olhar, ao mesmo tempo, um para
são de ir, com ela, a caminho de Deus, numa carrua­ o outro e os dois para a frente. Ãs nossas costas,
de flanco, os pescoços cruzados, uma cauda para a
gem puxada por bois com grandes asas, metade
esquerda e outra para a direita, brancas, largas,
anjos, metade bois, bois-anjos, e que no mundo,
arrastando no chão feito vestidos de noiva, nossos
vida e gente, e talvez até Deus são boisanjos, e que, dois cavalos. Brilhando sobre nós, duas estrelas,
de tudo, temos de comer, com os mesmos dentes grandes e rubras. A Uma sobre a cabeça de Mi­
fracos, a parte de chifre, a parte de asa. guel: parece uma rosa. Q Outra sobre a cabeça
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de Cristina: parece urna romã. @ Somos os aman­ a bandeira do seu padroeiro, acendia a última gi­
tes, os fugitivos, os perseguidos, os encontrados, os rándola e dormia vinte e quatro horas. ^A Nesse
salvos. Não sabíamos para que rumo seguir, que entretempo, foi que nós fugimos. Disse a uma das
fim seria o nosso. Queríamos partir ao deus-dará, negras que ia dar um passeio e, com a roupa da
ser felizes nem que fòsse um dia, dormir em algum festa, montei no meu cavalo, fui ter com Miguel.
lugar, não pensar na hora que estava para vir, em­ Q Esperei sem acreditar que ela fosse; e até pode
bora sabendo haver alguém nos perseguindo, Q ser que desejasse isto, que alguma dificuldade a
homens do pai de Cristina, quantos não sabíamos, impedisse de vir. Tinha meu sítio, minhas peque­
seguindo nosso rastro, decerto com fuzis. A Não nas coisas; e embora tudo que eu desejasse no
era provável que meu pai desse ordem a seus cabras mundo fosse me unir, desse no que desse, a Ana
para me matar; mas Miguel não seria perdoado. Cristina, eu tinha medo, como todo homem, da
Fugir comigo, filha de Antônio Dias! Q í ’ois é, grandeza, assustava-me com aquele espaço que de
fugir com ela, filha única do grande Antônio D:as, repente se abria para mim e que podia tragar-me
dono de três engenhos e que, tendo enviuvado, não em sua luz. A Senti esse pavor no rosto de Miguel,
casara outra vez para que toda a herança perten­ perguntei se queria desistir. Respondeu: “Mesmo
cesse a ela, sem divisão nem partilha! A Não foi se quisesse, agora já não podia. Sua beleza me ar­
por isso, mas por sabedoria, mamãe era mulher de rasta.” Não sei se minha beleza era capaz de arras­
calibre; difícil encontrar, numa segunda esposa, tar alguém assim, porém aceitei suas palavras e
. suas qualidades, Q ^^sso é você que diz, não o povo; senti em mim, em meu rosto, um resplendor, eu
Antônio Dias, com a terra daqueles três engenhos, trazia em mim alguma coisa que movia um homem
quis enterrar sua vida, casar você com quem ele en­ a desligar-se de sua segurança e lançar-se à aven­
tendesse. A Pois seja. @ Porque se chamava An­ tura, erguer-se por cima de todas as horas mortas
tônio, no dia12 de Junho reunia amigos e parentes, de sua vida e queimar, num minuto, a vã riqueza
matava porcos, novilhos e perus, acendia fogueiras até então amealhada. Esporeei meu cavalo, segui
da altura de um cavalo, punha dezenas de homens à sua frente, ele gritou meu nome: “Você sabe o
de bacamarte na mão, disparando tiros para o ar, que faz?” “Não faça mais perguntas. De agora
A mandava fazer tachos de canjica, pamonhas, por diante, quero que tudo seja resposta.” © To­
milho cozinhado, pé-de-rnoleque, sequilhos, suspi­ camos para adiante, um no encalço do outro. Voa­
ros, bolos de goma, soltava girándolas de cento e mos pelos campos, ganhando distância, confiados
vinte foguetes, © fazia vir tonéis de vinho verde, naquele sono do velho, mas sabendo que de um mo­
trazia cantadores, soltava balões com os nomes do mento a outro poderiam acordá-lo, e que ele viria
Santo e dos três engenhos bangüês, contratava os sem dificuldade atrás de nós com seus cabras, guia­
melhores sanfoneiros, o baile começava antes das do pelos informes de todos que nas viam disparados,
sete, entrava pela noite, furava a madrugada, aca­ com 0 ar de fugidos da justiça. Não tardou muito
bava dia claro. No fim de tudo, arreava do mastro que fossem à Casa-Grande, zelosos, situá-lo a par

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do sucedido. Não conseguiram fazer com que abris­ selas, tão abrasados de amor, que nossos corpos,
se 0 olh.0 antes das seis, quando, sendo o meio do como os dos cavalos, fumaçavam à chuva. Desa-
ano e estando nublado, já era grande a sombra. peamos, seguimos abraçados, puxando as monta­
Pensou que estava sonhando, era um pesadelo?, rías pelas rédeas, sem saber o que fazer de nós mes­
meteu a cara dentro dágua fria, pediu que lhe con­ mos e de nossa ventura. Demos numa praça, onde
tassem a história de novo. “Toquem fogo no sítio havia a igreja. O portal cedeu, entramos com os
e me selem seis cavalos,” Deu o nome dos cabras cavalos, suas ferraduras tiniram no mosaico. Gri­
que iriam com ele em nosso rastro, homens de ver tamos ainda, ninguém respondeu. Tiramos as rou­
uma pegada no vento, de seguir um bicho pela pas e logo' nos conhecemos, sobre uma arca de pi­
inhaca, virgens de perder a trilha de uma rês, por nho, enquanto os cavalos, famintos, parados ante
mais leve que fosse, e aos quais nem os ladrões de a porta aberta, olhavam a noite cair. Se os havía­
cavalos iludiam. Como poderíamos fugir-lhes? Já mos trazido para dentro, não foi por desrespeito,
estava montado, quando resolveu: "Não vou. Não por sacrilégio. Temíamos que os nossos seguidores,
fica bam a um pai ir assim pelo mundo atrás de por eles, nos descobrissem. Mas não fizemos um
filha. Ela é que tem de vir.*’ “E o homem?” gesto, nenhuma palavra dissemos para retê-los,
“Com esse, vocês sabem o que fazem.” Nessa hora, quando — passada a chuva — saíram atrás de ca­
de Igaraçu a Afogados da Ingazeira, e de Coruripe pim. Bem os vimos sair. íamos, então, interromper
a Flores, numa curva de réde que ia até Santana os afagos, sair atrás deles e assim desdizer aquela
do Ipanema, caiu um temporal de fim de mundo, pesada certeza, em nós nascida, de que nada no
apagou os vestígios de nossa cavalgada. íamos che­ mundo poderia romper nosso aprazível abraço? E
gando a uma cidade morta, com árvores crescendo embora com fome, pois havíamos, na longa traves­
já no meio das ruas, ramos entrando nas portas e sia, consumido nossos poucos víveres, ficamos no
janelas. Era lugar ventoso e quase todos os tetos baú, entre dormindo e amando, os corpos machu­
haviam desabado, dera caruncho nas vigas, as cados da viagem, doendo se nos virávamos, se nos
cumeeiras restantes cediam ao peso dos telhados. separávamos. Quando, noite fechada, ouvimos as
Havia sapos, lacraus e talvez cobras escondidas den­ ferraduras na calçada da igreja, julgamos ser os
tro das casas que apodreciam e que já começavam rastej adores e acreditamos vinda nossa hora. A lua
a tomar uma cor de terra e de folhagem. Gritamos entrava pela porta aberta, alguns buracos e várias
e quando concluímos que éramos nós dois os únicos clarabóias. Abrimos a arca para aí nos esconder­
viventes em meio a tudo aquüo', seguindo (entre mos; estava cheia de ossos humanos. Nisto, apa­
janelas tortas, paredes em ruínas e portas arrom­ receram os cavalos, eram os nossos, decidimos pros­
badas) sobre os cavalos exaustos, subiu dos íntimos seguir viagem. Ainda beijando-nos, vestimos as
uma alegria maior que o sítio e os três engenhos roupas molhadas. Antes de partir, ajoelhamo-nos,
juntos, maior que Pernambuco e Alagoas, maior mãos dadas, frente ao altar dos Santos Cosme e
do que a Bah.ia, e nós nos beijamos em cima das Damião, A ergui o rosto, exclamei: “Toma este

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homem por meu marido, perante vós e Deus, não conversas. A finalidade é debulhar seu milho e seu
para um pedaço do sempre, mas para todo o sem­ feijão. Tirante isto, é boa pessoa. Mas não contem
pre. Ele se chama Miguel.” Q Também levantei com ela, nunca se mete em assuntos alheios.” “E
minha voz no silêncio, tomando as montarías por a senhora?” Perguntamos porque víamos, em sua
nossas testemunhas e tremendp da cabeça aos pés, pessoa, a marca da ajuda, ela era para nós alguém
pois tinha a impressão de que centenas de almas que nos aguardava, com as nossas efígies à mão,
velhas assistiam ao casamento: “Tomo esta mu­ gravadas por quem nos conhecesse, para não haver
lher que se chama Ana Cristina, sem nenhuma de engano. A resposta foi a que sonhávamos: “Vou
suas posses terrenas, para minha esposa, por todos fazer o que posso: também amei.” Dormimos se­
os sempres da vida.” @ Cada um fez o gesto de pôr, parados, em quartos contíguos, sorvendo inclusive
no dedo do outro, um anel. Saímos pelas estradas, com a boca um reconfortante odor de panos tersos.
à doida, na mão esquerda nossas alianças, visíveis e As fronhas tinham cheiro de laranjas. Desperta­
reais como o amor que nos guiava, ou nos desnor­ mos rodeados de meninos, ansiosos por ver os fu­
teava. Atravessamos rios, caímos em covos, troca­ gitivos, os noivos, os arribados. O dia foi de nuvens,
mos de cavalos com um bando de ciganos, compra­ com chuvas finas. Pouco falávamos. Entregándo­
mos roupas novas numa feira, por três vezes reco­ nos, sem resistência, ao sábio e vivido olhar de Joa­
nhecemos lugares onde antes houvéramos passado, na, sem que essa entrada em nosso íntimo, em
dormimos na sela, no mato, embaixo de uma ponte, nossos muros, nos parecesse uma invasão, antes
choramos abraçados. Nenhum- de nós sabia para sendo como a disciplinada vinda de homens bem
onde se tocava. Nosso destino, àquela hora, não era armados, amigos e sérios, para guarnecê-los. Pi­
um rumo, um lugar, uma cidade, uma casa, nosso cávamos, com o passar das horas, mais cientes de
destino era ir. Pelo menos, assim pensávamos, até nós, mais fortes. Às dez da noite, fechou-se em
torno da casa o esperado tropel. Ficamos no pró­
chegar, mais mortos do que vivos, ao Engenho Quei­
prio quarto de Joana, trancados com a menina e
madas e bater à casa de Dona Joana Carolina,
0 rapaz, por sobre cujas cabeças nos fitávamos,
àquele tempo entrando em seu Inverno. Mal nos
acusando-nos intimamente de envolver aquela po­
viu, devassou-nos, de modo que não precisaraos
bre família em nossa insensatez e ao mesmo tempo
contar-lhe nossa história. Austera, nos sorriu de
acreditando que, cegamente, fôramos, guiados para
dentro de seus olhos, nos acolheu, tomou as provi­
a única pessoa no mundo com o merecimento de
dências da hospitalidade. Quando nos fez pergun­ nos salvar. Joana fez o chefe desmontar, entrar,
tas, foi como se soubesse quase tudo: para quando ponderou enérgica: “Essas duas crianças faz qua­
esperávamos os seguidores, se viriam em bons ter­ se uma semana que andam pela terra, sustentados
mos ou de armas na mão. “Ignoramos.” “A se­ tão só pelo amor deles. Isso vale muito. Venho tra­
nhora do Engenho, aqui, tem o vezo de querer que balhando há anos, sem ninguém por mim, para
todo mundo lhe visite, à noite, a pretexto de trocar que meus filhos vinguem. Posso ver então essa mo-

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ça obrigada a fugir, não levando, de tudo que pos­ DÉCIMO MISTÉRIO
sui, bens que caibam nem na concha da mão, atrás
de um fervor, só porque o pai não quer ouvi-la? As calotas polares, as áreas temperadas e o aro
equatorial, exalando ainda o bafo das bigornas.
Isso é pai? Bem sei que o dinheiro tem valor. Po­
Continentes e ilhas, acerados picos, planícies, cor­
rém maior é a misericórdia. De que serve a um ho­
dilheiras, vales, dunas, falésias, promontórios. O
mem ter gado e plantações, se não é capaz de tirar, que repousa, invisível, sob nossos passos; colunas,
do próprio coração, alguma grandeza?” Mais de deuses esquecidos, pórticos, tíbias ancestrais, miné­
duas horas esteve argumentando, até lograr, do rios, fósseis, impérios em silêncio. Terremotos, vul­
chefe, a promessa de nos proteger e de só entregar­ cões. O lodo, a relva, as flores, os arbustos, as ár­
nos se fosse permitido nosso casamento. Na mes­ vores segrais, madeiras e frutos, a sombra das
ma hora, partimos. Os que haviam sido nossos per­ ramagens. Os bichos do chão. O rolar das estações,
seguidores, eram agora amigos, nossos guardiões, e dentro de uma estação mais ampla, civilizações
repetiam entre si, com um espanto que a madru­ inteiras florescendo e morrendo em um só Outono
gada engrandecia, as palavras de Joana. A O bri­ gigantesco, em um só Inverno de milênios.
lho existente em certas obras humanas é duradouro,
permanecendo como um halo, ainda quando já nin­ (Joana, serrote na mão, corta as pernas do
guém no mundo é capaz de reconstituí-las. O que banco onde o menino dorme, tendo sobre o peito
Joana dissera, embora mal repetido, calou em meu um barco de papel azul. Sentado, agradece, com
0 rosto na sombra, oferecendo o barco a Joana.)
pai. Ele encontrara, enfim, alguém que lhe falava
do alto e com justiça, como sempre fizera minha 1. “Como se chamava esse menino?” 2
. “Parece
que Maximino. Ou Raimundo. Mas há quem fale
mãe. ® Na mesma hora marcou o casamentóle,
em Glaura, ou Glória, quem há de saber?” ; “Para3
três dias mais tarde, fez uma carta pedindo a mão
de Joana. Enviou-a por quatro portadores, queria
ter tantos nomes, devia roubar cavalas.” 0
“Era
uma criança e não andava, tinha um defeito
dar realce à intenção. A breve resposta: “Nem
dispondo de uma vida inteira, poderia fazer o se­
nas pernas.” 3. “Quando o sujeito nasce aleijado,
é Deus que põe um embaraço na maldade. Nunca
nhor ou alguém alcançar até que ponto me clareia vi um cego que prestasse.” 4
. “Você diz essas
os dias, por mais escuros que sejam, o tempo Já coisas, porém não é mau, O que transborda na
distante do meu casamento. Na verdade, havendo- boca, sobrou no coração.” (Andava, se ajudado.
-me consagrado a meu esposo peüa vida inteira, a Passava os dias numa cadeira, à janela, olhando
ele permaneço fiel. Assim, muito me honra a sua quem passava. Fazia embarcações de papel e seu
proposta, amável e generosa, Ela significa, se eu a nome era Jonas. Tinha quatorze anos, com aspecto
aceitasse, amparo e estabilidade pelo resto dos meus de onze.) i, “Joana ia sempre lá?” ' 0 “Vez por
dias. Mas, então, o que seria de minha alma?” outra. Não ia sempre a lugar nenhum. Nesse dia,

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foi só para serrar o banco.” S. “Esse aleijado não andar na gandaia, quando era mòça. Vão ver que
podia ter nada de mais, para merecer que alguém o menino era filho do irmão de Joana, o que levou
tivesse uma visão e fosse lá salvá-lo. Não era um. sumiço. Certamente foi preso.” 2 . “Ouvi dizer
santo, nem pai de família. Um inútil.” 4. “Talvez que João tinha casado não sei onde, com uma viúva
não fosse ele que Deus fez Joana salvar, e sim o não sei de quem, chamada não me lembro como.
criminoso, impedindo-o de assassinar um inocen­ Um nome estrangeiro. E que essa viúva tinha não
te.” 2 ”0. mal-feitor vinha matar alguém, man­ sei quantos contos de herança. Não estou bem cer­
dado por quem não se sabe. Tinha não sei quantas to se 0 João era outro ou esse mQsmo.” 3 . “Algu­
mortes.” 0 “É capaz de ter sido mesmo a ele que ma polaca.” 0 “Nem. se casou, nem era dele o
Nosso Senhor quis salvar.” (Foi no mês de Sant’- menino, A mulher chamava-se Floripes e era filha
Ana e chovia bastante naquela tarde. Assim, parece da antiga senhora do Engenho Queimadas. Nesse
realmente estranho que Joana Carolina, embora tempo, já estava com a voz e as costas de velha. Mas
não morasse longe, tenha ido à casa de Floripes. 0 rosto era bem moço ainda, e bonito.” 4 . “A ve­
Ia visitá-la com freqüência, desde que soubera de lhice é feito um caranguejo, não envelhecemos por
suas desventuras: o engenho da mãe vendido em igual. Ela vai estendendo, dentro de nós, suas pa­
hasta pública, o casamento infeliz, após quatorze tas. Às vezes, começa pela espinha, outras pelas
anos de noivado, o filho defeituoso. Não, entretan­ pernas, outras pela cabeça. Em mim, começou pe­
to, com mau tempo: neste caso, desde que nova­ los sonhos: dei para sonhar, quase todas as noites,
mente morava na cidade, graças a Nô e Álvaro, com as pessoas de antanho'.” (Em Joana, esse
comprazia-se em ficar sentada no sofá, ouvindo a caranguejo estendeu de uma vez- as suas patas.
chuva. Ciente do que sucedera a Jonas, ficou alegre Atacou-lhe bs rins e o rosto, as articulações, os den­
e não deu sinal de crer em iluminação, em aviso; tes e a memória, a digestão, a audição, o sono,
“Cortei as pernas do banco porque tive medo. Jo­ arrancou-lhe quase todas as poucas amizades, le­
nas, caindo, podia ferir-se. O banco é estreito de­ vou Nô e Álvaro, mortos antes da mãe, arrebatou
mais para servir de cama a um doente.”) 2 . “A Suzana, Filomena, Lucina, atingiu-a de quase to­
madrasta, ou tia, a mulher que vivia com a crian­ dos os modos possíveis. Mas Laura e Teófanes,
ça, foi morar com um primo, ou num asilo. ^Ou um casados, moravam perto e amparavam-na. Não lhe
sobrinho é que veio morar com ela.” 0 “É inven­ faltavam o pão, a carne, o leite, um par de sapatos
tada essa história de tia e de madrasta. O menino no fim do ano, tinha seus pertences, não precisava
vivia com a mãe dele.” 3 . “Imaginem só que mãe! mais de trabalhar. Ao contrário dos que se fixam
Botar 0 filha pra dormir num banco.” 4 . “Talvez no mal que lhes sucede, permanecendo insensíveis
ela dormisse no chão.” 0 “Dormia numa estei­ a toda espécie de bem, Joana, com o que lhe restara,
ra.” 1 . "Quem era?’-‘ 2 . “Vinha de não sei que contentava-se. Admitia haver bastante sofrido,
família e, não se sabe como, viu-se na miséria.” acrescentando, com resignação, que a muita vida
3 . “Boa coisa não fez, pra terminar assim. Devia corresponde sempre muita pena e ser um desres­

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peito chorar, sobre o que temos de bom, o que per­ de todos. Ninguém está'sozinho. Veja o caso do
demos.) 3 . “Há pessoas que morrem com ilusão banco. Foi mais importante, para o menino, do que
de grandeza. Essa tal Ploripes, só porque a mãe ter saúde.” i. “Mas terá sido verdade? Como foi
tinha sido o que foi, me disseram vivia de testa le­ que Joana pôde saber? Como adivinhou?” (Quan­
vantada para os que moravam com ela no cortiço.” do chovia, Jonas sofria, com as juntas doendo. Por
0 “Era um casarão, não um cortiço. No quarto isto é que Joana Carolina foi lá naquela tarde de
onde dormia com o menino, tinha uma porta fe­ inverno, levando o serrote consigo. Queria, de uma
chada com pregos, dando para uma espécie de sa­ vez por todas, esclarecer o assunto do caixote que
lão, onde se hospedava toda sorte de gente. Encos­ Floripes não abria, serrá-lo se preciso. Na hora,
tado a essa porta, é que dormia o menino. Sabem: porém, faltou-lhe ânimo de enfrentar a conversa,
criança mexe-se muito.” 3 . “Só quando tem ver­ e foi por isto que reduziu as pernas do banco.)
mes.” 0 “O menino batia a noite inteira na porta, 3
- . “Só porque o menino batia na porta, um cristão
com os cotovelos.” l. “E é certo que, quando a meter bala. Que coisa! Atirar sem saber quem está
mãe morreu, essa Floripes, descobriu-se que ela do outro lado.” 4 . “O crime não era menor, se
conservava, guardados num caixote, diademas de soubesse.” (Foram quatro tiros, distando mais ou
ouro, broches de platina, voltas, brincos, pulseiras, menos um palmo entre si, exatamente na altura em
caçoletas, coisas de valor?” 2. “Há quem diga que que estaria o menino, se não fosse a interferência
sim.” (Guardara, a principio, essas coisas consigo, de Joana.) i. “E esse desalmado, que fim levou?”
por insegurança. Queria estar certa de, num caso 2
, . “Naquela altura, tinha não sei quantas mortes.
de necessidade extrema, ter para onde apelar. Mas, Depois que soube do caso, do milagre, guardou as
ao mesmo tempo que falava sem cessar nos seus armas. Foi ser nao sei o que, não me recordo onde.”
anos de fartura, achava que poderia suportar
mais um pouco as muitas privações, até o dia em
que, resolvendo vender uma das peças, não se ani­
mou a fazê-lo, temendo que imaginassem a exis­
tência das outras. Joana suspeitava de que havia DÉCIMO PRIMEIRO MISTÉRIO
essas jóias. E todas as suas conversas com Floripes
giravam em torno da idéia de que, se não utilizamos O que é, o que é? Leão de invisíveis dentes, de
nossas riquezas presentes, elas se tornam ainda dente é feito e morde peia juba, pela cauda, pelo
mais distantes que todos os bens e vantagens do corpo inteiro. Não faz sombra no chão; e as som­
passado.) 3. “Pobre menino. Vivia feito um réu, bras fogem se ele está presente, embora sejam, de
dormindo num banco, vão ver que sem travesseiro, tudo que existe, a só coisa que poupam sua ira e
por obra e graça da mãe. Essa criatura devia ter sua fome. A pele, mais quente que a dos ursos e
vendido esses ouros e tratado do filho. Avareza é camelos, e mesmo que a dos outros leões, aquece-
uma peste.” 4
. “Cada qual sabe de si e Deus sabe nos de longe. Ao contrário dos outros animais, po-

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de nascer sem pai, sem mãe: é filho, às vezes, de não aquém; atrás de mim, ausência. Jamais ha­
dois pedernais. Ainda que devore tudo, nada re­ veria uma tarde semelhante, o Anjo da Morte esten­
cusando a seus molares, caninos e incisivos, sim­ dia a mão a Joana. “Padre; tentei, minha vida
boliza a vida. Domesticável se aprisionado, é irresis­ inteira, viver na justiça. Terei conseguido?” “Sem
tível quando solto e em bandos. Nada o enfurece dúvida.” “Quem muito fala, muito erra. A gente
mais que o vento. pode se impedir de falar; mas não de viver. Vivi
oitenta e seis anos. Devo ter cometido tantas fal­
t Na velha cama de ferro, a chama de seus anos tas!” “Isso faz parte da nossa condição.” “Sei.”
prestes a extinguir-se, à mão direita um punhado No prolongado silêncio, durante o qual sua mão
de penas e à esquerda um galho seco de árvore, con­ continuava tensa no meu braço, repassava seus
fessa-me seus pecados. Dois anjos velam, um sério, atos, todos de que se lembrava. Queria descobrir,
outro sorrindo. Sobre o telhado, galopam cavalos. dentre os que esboçara ou houvera consumado em
Os ventos de agosto. Cavalos galopavam sobre as sua longa vida, uma nódoa, um engano essencial,
telhas. Ao meu lado, o óleo, o crucifixo, um limão para confessar-me e assim não parecer soberba.
aberto, um prato com seis flocos de algodão em “Padre, muitas vezes desejei matar.” Dava a im­
rama. Vendo-me, segurou-me o braço. “Estou l i ­ pressão de engrandecer-se, como se dependesse dis­
brando quando o senhor veio aqui pela última vez. to, dessa mentira expressa com esforço e timidez,
Foi quase na hora da ceia. Estava pondo água no sua absolvição. “Também devo ter feito injusti­
fogo, ia fazer café.” Cultivo o hábito de esquecer. ças. Devo ter feito. Já não me lembro quase de
A um p^dre compete proteger-se da impregnação nada.. Nem do mal que fiz, nem do que sofri. Tudo
das coisas. E que outro bem. humano existe mais agora é quase de uma cor. Não é assim que fica o
insidioso que as lembranças, com seu dúplice ca­ mundo, n o . . Soltou-me o braço, fez um gesto
ráter, trazendo-nos, ao mesmo tempo, a alegria da com a mão, um gesto de apagar, que significava sem
posse e defraudação da perda, sendo esta um re­ dúvida: . .no entardecer?” “Tenho medo, pa­
flexo daquela? Vêde a advertência de São João da dre.” Sua voz, perdidas as últimas inflexões, era
Cruz, para quem a memória será posta em Deus um velho instrumento corroído, clarineta com li-
na medida em que a alma desembaraçá-la de coisas quens e teias de aranha. Custava-lhe unir as pou­
que, importantes embora, não são Deus. Como, po­ cas palavras, tal como se as escrevesse. Afastou de
rém, nesse sentido, chegar à perfeição? As palavras mim os olhos, imobilizou-se, fitando as telhas, dis­
de Joana, aquela tarde me subiu à garganta, espé­ tante. Os cabelos brancos, muitos, espalhavam-se
cie de golfada salitrosa, vômito salgado. A tarde de um lado e outro de seu rosto sobre o travesseiro.
de que me falava era uma paz vivida, inalcançável Pensei que Joana Carolina ia afinal adormecer em
em qualquer de seus aspectos essenciais. Vi o pas­ Deus e rezei alto, com mais fervor. Então, através
sado como num espelho, Joana movendo-se além da das rugas, dentre a cabeleira desfeita, eu a vi em
lâmina de vidra, com seu fogo e sua melodia, mas sua juventude. Terá nossa alma o ensejo de esco-

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Iher, dentre os inumeráveis aspectos que perdemos, quanto que os talheres de aparência incomum, ou
0 menos contrário à sua natureza, ou o que teste­ 0 cobertor com ramagens e leÕes, como não ima­
munhou nossos dias mais ricos, aqueles em que ginara existir nos invernos em que seus filhos tra­
mais próximos estivemos da harmonia sempre de­ ziam os carneiros para a cama, deviam figurar-lhe
sejada entre nosso poder e nossas obras? Terá sido- suntuosos, desejados por todos na medida em que,
esse rosto privilegiado, ressurgido de alguma dis­ dentro da sua pobreza, ela própria houvera, de es­
tante plenitude, que contemplei com religiosidade plendores tão sóbrios, carecido. Vendo-a (ou deve­
e um grave terror? Continuavam intactas suas fei­ ria dizer vendo-as, de tal modo eu tinha ante meus
ções de velha, com os olhos amortecidos, as incon­ olhos dois seres diferentes, ambos reais e unificados
táveis carquilhas. Mas dentro desse rosto, que só em meu espanto?), vendo-a embebida no clarão
adquiriu de súbito uma transparência inexplicável, interior da imagem sobrevinda, mistério do espírito
como se na verdade não existisse, fosse uma crosta ou da carne, de um. passado que ninguém ousaria
de engano sobre a realidade não franqueada à con­ imaginar tangível, pensei que ela guardara para
templação ordinária, brilhava a face de Joana aos mim, sem o saber, outra espécie de herança, o pri­
vinte e poucos anos, com uma flama, um arreba- vilégio de ser a testemunha, em seu leito mortuário,
tamento e uma nobreza que pareciam desafiar a daquela ressurreição fugaz, mais perturbadora que
vida e suas garras — e eu pude ver aquela beleza a dos mortos, volta de uma face à face em que se
secreta, Já esquecida por todos os que outrora a ha­ transformou, de uma juventude tragada pelo tem­
viam contemplado, e que sobrenadou então nas po e mesmo assim trespassando-o, livre, por um se­
vésperas da morte, por uma graça, ante meus olhos gundo, de suas entranhas soturnas. Quando a ungi
dos quais por um segundo tombaram as escamas com 0 santo óleo, já essa face pretérita esvaíra-se,
com que cruzamos a terra. No dia anterior, ela subsistindo apenas seus resíduos, seu pó. Foi sobre
dividira entre os descendentes mais próximos o que os olhos, a boca, os ouvidos, o nariz arqueado de
julgava ser, em sua escala modesta, os bens, a he­ anciã, que invoquei a misericórdia de Deus. Mesmo
rança; um cobertor com desenhos brancos e cas­ assim, ao deixar aquela casa, não senti na alma o
tanhos, cinco talheres de cabo trabalhado, duas peso da velhice e da morte, que tantas vezes, até
toalhas de banho ainda não usadas, uma estatueta então — e mesmo depois — afetara meus silêncios
de gesso. Tendo vivido sempre na penúria, estes de padre. Resplandecia, no âmago desses fenôme­
eram seus luxos. Não lhe ocorrera doar a cômoda nos, uma frase, uma palavra, um semblante, algu­
a ninguém, o guarda-louça, as mesas, as cadeiras, ma coisa de completo e ao mesmo tempo de velado,
móveis com que sempre vivera e que, incorporados comò deve ser para um artista a forma anunciada,
à sua existência diária, não lhe pareciam constituir pressentida, ainda irrevelada, ainda inconquistada.
um valor, pelo menos um valor destacável de si Dentro de mim, enquanto me afastava de cabeça
mesma, e sim pertences de seu próprio ser, a éle alta, Joana era uma chama. Populus, qui ambula-
nivelados e do mesmo modo insignificantes; en­ bat in tenébris, viãit lucem magnam.
132 133
MISTERIO FINAL. nimbos do outro, um rio azul e manso entre essas
margens. Para terminar seus dias onde quase tudo,
cc; O casario, as cruzes, aves e árvores, vacas e como para nós, foi parco, tornou-se muito difícil
cavalos, a estrada, os cata-ventos, nós levando Joa­ a Joana Carolina beber fosse o que fosse. Sonhava
na para o cemitério. Nós, Montes-Arcos, Agostinhos, com fontes e bicas, e toda sua ambição nestes últi­
Ambrosios, Lucas, Atanásios, Ciprianos, Mesateus, mos dias reduziu-se a poder tomar um jarro dágua,
Jerónimos, Jooes Crisóstomos, Joões Orestes, nós. sorvendo cada gole. Conformava-se em molhar os
Chapéus na mão, rostos duros, mãos ásperas, rou­ beiços e as gengivas com pedaços de algodão em­
pas de brim, alpercatas de couro, nós, hortelões, bebidos em leite. Agora, posto o vestido branco,
feireiros, marchantes, carpinteiros, intermediários verde e cinza que usava nas tardes de domingo, e
do negocio de gado, seleiros, vendedores de frutas
8 de pássaros, homens de meio de vida incerto e
envolvida no silêncio com que ficava sozinha, va­
mos le v a n d o -a para o cemitério. Não é o primeiro
sem futuro, vamos conduzindo Joana para o cemi­ caixão que vai conosco, nem será o último, na alça
tério, nós, os ninguéns da cidade, que sempre a de muitos já seguramos, mortos importantes ou
ignoraram os outros, gente do dinheiro e do poder, pobres como nós, de Lagos a Ribeiros, de Rochas a
Joana, com seu melhor vestido (madressilvas bran­ Pedreiras, de Montes a Serras, de Barros a Berilos,
cas e folhagem sobre fundo cinza), os sapatos anti­ porém nunca tivemos a impressão tão viva e tão
gos mas ainda novos (andaram tão pouco), as perturbadora de que esta é a arca do Próximo Di­
meias frouxas nas pernas, o rosário com que rezou lúvio, que as novas águas vingativas tombarão so­
a vida inteira pelos que amou e pelos que a perse­ bre nós quarenta dias e quarenta -noites, afogando
guiam. Ruas e telhados, muros, cruzes, árvores, até as cobras e as traíras, e que somente Joana so­
cercas de avelós, barro vermelho. O mundo que breviverá, para depois gerar com um gesto os seres
foi seu e para o qual voltamos, de onde dentre nós que lhe aprouver: plantas, bichos. Javas, Magogs,
alguns Jamais saíram, terra onde comemos, forni­ Togarmas, Asquenazes. Quantas vezes o mundo,
camos, praguejamos, suamos, somos destruídos, para ela, foi estéril e cegante, uma cidade de sal,
pensando em ir embora e sempre não indo, quem com casas de sal, fontes salgadas e avenidas de sal?
sabe lá por quê. Mulheres à Janela, velhos nas cal­ Quantas vezes dar um passo à frente, viver .mais
çadas, moças de braços dados, rapazes nas esquinas, um ano, um dia, um instante, foi como avançar
crianças na praça (Áureos e Marias, Beneditos e sobre afiadas lâminas de faca? Quantas sua vida
Neusas, Chicos e Ofélias, Dalvas e Pedros, Elzas e pareceu um rio nas primeiras chuvas, cheio de ár­
Quintinos) vêem o enterro passar eiitre as casas vores arrancadas, de baronesas vindas de açudes e
de frontões azuis, verdes, vermelhos e amarelos. A remansos, laçando pés e mãos, entrando pela boca?
manhã é a dos começos de setembro, fim de inverno, E sempre conseguiu entrever afinal por entre as
as árvores no auge do enfolhamento, e o céu divi­ malhas da cegueira, fincar os pés sobre o aço cor­
dido em duas estações, nuvens brancas de um lado, tante, desenredar-se das águas, dos enleios. Vamos

134 135
conduzindo-a para ô cemitério, através dos grasna- crosta, pele que se rompia, que se rompeu, desfez-
dos e latidos, dos cantos de galo, roncos de porcos, se, revelou o esplendor e o sujo do arvoredo, do
mugidos, relinchos, vento nas mangueiras, aboio chão, a cor do mundo. Jambos, mangas-rosas, ca­
de meninos, gritos, cantar de lavadeiras. Pergun­ jus, goiabas, romãs, tudo pendia dos ramos, era uma
tou à filha: “Em que mês estamos?” Desapare­ fartura, um pomar generoso e pesado de cheiros.
cera seu medo de morrer. Isto. significava que a Joana e as duas moças puseram-se a correr, agora
morte preparava o salto. “Em setembro? Então na campina, de mãos dadas. Um pasto verde, cheio
não está longe.” Contou que duas moças muito de marrãs e árvores com sombras. De repente, seus
semelhantes, vestidas de branco, descalças,-suspen­ mortos, invisíveis, começaram a chamar. Álvaro
sas no ar, ambas com o pé direito estendido, ha- gritava por Nô, Nô por Maria do Carmo, esta pela
viam-na chamado. Do pé, nascia longo caule ver­ irmã, a irmã por Totônia, Totônia por Jerónimo,
tical, com um lírio na ponta, enorme, boiando à Jerónimo por Nô, Nô por Filomena, Filomena por
altura de seus rostos. Entregaram-lhe um ramo de Lucina, Lucina por Ploripes, Floripes por Jerónimo,
oliveira e um grande anzol de chumbo. “Vem, se­ Jerónimo por Suzana, Suzana por Totônia, Totônia
remos três.” Puseram um manto de arminho nos chamava Ogano. “Não sei quem era Ogano. Mas
seus ombros. Rasgou o manto, plantou o ramo, senti orgulho de ser mãe dos mortos e viúva, de não
ignorava o que fizera do anzol. Saíram as três cor­ morrer virgem, de ter parido vocês. Estamos em
rendo, através de túneis pedregosos. As moças setembro?” “Sim.” “A hora está próxima. Sinto
eram leves, Joana mais pesada. Viram-se, de súbito, um cheiro de cal, de cimento, de musgo. Setembro,
junto de um fogão. De pé, olhando-o em silêncio, você disse?” “Sim.” Vamos carregando Joana
os braços pendidos, Totônia parecia meditar. A dois para o cemitério, atravessando a cidade e seu odor
palmos de sua velha cabeça, um pouco à esquerda e de estábulos, de cera virgem, de leite derramado,
como que suspenso por fios, pendia um disco de fer­ de suor, de frutas, de árvores cortadas, de muros
ro. De ferro, dizemos. Joana rezava, tomou-o entre úmidos, entre Pioras e Ruis, Glórias e Sálvios, Hé-
os dedos. Mas tudo na terra perdera o peso. Tudo. lios e Teresas, Isabéis e Ulisses, Josés e Veras, Luí-
Menos seu corpo. Assombrada, gritou pela mãe, não zas e Xerxes, Zebinas e Áureos. Viveu seus anos
ouviu o grito, a mãe não se voltou, ela correu para com mansidão e justiça, humildade e firmeza, amor
fora e deu de cara com a lua, em pleno dia, cortada e comiseração. Morreu com mínimos bens e redu­
por uma faixa escura, atravessando o espaço rápida. zidos amigos. Nunca de nunca a rapinagem alheia
Lua doida. As partes iluminadas, quando cruzavam liberou ambições em seu espírito. Nunca o mal so­
com nuvens, ficavam mais brilhantes, um clarão frido gerou em sua alma outras maldades. Morreu
aceso e ofuscador. A terra estava branca, chão e no fim do inverno. Nascerá outra igual na próxima
plantas, as sombras no chão, tudo era branco, terra estação? O branco, o verde, o gris. Alvos muros,
imaculada. Desapareceu a lua no horizonte. E to­ ciprestes, lousas sombrias. Sob a terra, sob o gesso,
dos viram ser a brancura do mundo apenas uma sob as lagartixas, sob o mato, perfilam-se os con-

186 137
vivas sem palavras. Cedros e Carvalhos, Nogueiras
e Oliveiras, Jacarandás e Loureiros. Puseram-lhes
— por que inútil generosidade? — o terno festivo,
0 mais fino vestido, a melhor gravata, os sapatos
mais novos. Reunião estranha: todos de lábios cer­
rados, mãos cruzadas, cabeças descobertas, todos
rígidos, pálpebras descidas e voltadas na mesma
direção, como expectantes, todos sozinhos, frente a
um grande pórtico através do qual alguém estivesse
para vii\ Um julgador, um almirante, um harpista,
um garçom com bandejas. Trazendo o quê? Sal,
Conto Barroco ou
cinza, absinto? Dentes, mofo, limo? Tarda o Es­
perado, e os pedaços desses mudos, desses imóveis
Unidade Tripartita
convivas sem palavras vão sendo devorados. Hu­
mildemente, em silêncio, Joana Carolina toma seu
lugar, as mãos unidas, entre Prados, Pumas e Fi­
gueiras, entre Açucenas, Pereiras e Jacintos, entre
Cordeiros, Gamboas e Amarilis, entre Rosas, Leões
e Margaridas, entre Junqueiras, Gallos e Verônicas,
entre Martas, Hortências, Artemisias, Valerianas,
Veigas, Violetas, Cajazeiras, Gamas, Gencianas, en­
tre Bezerras, e Peixes, e Narcisos, entre Salgueiros,
e Falcões, e Campos, no vestido que era o das tardes
de domingo e penetrada do silêncio com que ficava
sozinha.
^EU vestido é velho e suntuoso, de veludo, com
desenhos a ouro sobre carmesim, pequenas
cenas campestres e domésticas, universo alegre,
movimentado, brilhante, envolvendo as negras on­
dulações do corpo. O sagüim, com a cintura numa
fina corrente enferrujada, que ela mantém entre os
dedos, olha-me atento por baixo da axila esquerda,
as ressequidas mãos sobre as dançarinas que, em
torno de uma árvore, pés no ar, tocam pandeiros e
flautas, e sobre o caçador que dispara a balesta
contra um pelicano em vôo.
— Conhece o homem?
— Que me acontece, se disser que não?
— Soube que você andou juntada com ele.
Tiveram até um füho.
— Não quis ver o menino, o desgraçado. Nem
uma vez.
Cabelos enroscados, olhos de amêndoa, pómu­
los redondos, narinas cavadas, beiços em arco, pei­
tos de caracol. Por trás, na parede, gaiolas de pás­
saros, todos de perfil e em silêncio, canários, curió,
graúna, casaca-de-couro, xexéu, papa-capim, sabiá,
concriz, azulão, bigode, vários periquitos.
— Como é que posso reconhecê-lo? Ele e o
primo são muito parecidos. Os dois se chamam
José.

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— o primo se chama José Pascásio. Ele, José — Só Ihe dou a pista se disser por que vai as-
Gervásio, Mas tem agora outro neme. sassiná-lo.
— Por que não quis ver o menino? P ot que — Vou executá-lo. Ignoro o motivo. Cumpro
não se casou com você? ordens.
—7 Porque sou negra. Boa para me deitar com — Guarde seu dinheiro. Amanhã é dia de ele
ele, mas não para ñcar em pé. vir. Se me resolver, Ihe mostro a caça.
— Importa-se que ele morra?
— Pra mim, era um descanso. Bem queria
vê-lo numa cova. Venci a escarpada ladeira de Congonhas, cheia
— Então vai-me dizer onde ele mora. de Cristas e apóstolos imóveis, de bodes inquietos,
Astuta e fina a expressão de seu rosto. Breve de cabras indiferentes, estou no adro, à roxa luz do
cicatriz, dividindo o queixo ao meio. Ponho sobre poente, no meio dos profetas e dos poucos bichos
a mesa o pequeno maço de cédulas. O sagüim pre- — o leão dominado, a miúda baleia — fitando essas
cipita-se, agarra-o, tenta morder as bordas do di­ pesadas folhas de arenito com frases em latim, essas
nheiro. mãos desarmadas e cheias de poder, esses olhos
— Conte. vazios. A mulher, agora de vestido branco, meio
— Vi quanto é. Tenho o olho bom, conto as ocjilta no manto de Naúm, espera por José Gervá­
notas de longe. sio, que dentro em pouco chegará à igreja. Junto
— Não adianta pedir mais. às alpercatas de Baruch, braços cruzados, observo
— Sabe com quantos homens preciso me dei­ a ladeira pela qual virá a minha vítima. Nada es­
tar pra receber metade disso ai? Cidade para ca­ cuto. No silêncio, a traição se prepara, rede tecida
chorros! p e la mão da negra. Haverá de mostrar-me: “Este
O sagüim olhando-me de sobre o ombro es­ é o homem.” Dar-lhe-ei a paga, poderá mudar-se.
querdo; de sobre o direito; de sobre a mesa. Os Ou:
pêlos brancos em torno da cabeça, as patas de O enterro nas ruas de Ouro Preto. Coberto de
múmia, os olhinhos brilhantes e maldosos. A voz fitas roxaSj que ondulam ao vento frio da tarde, o
semelhante a pequenas mordidas. Salta para uma ataúde sombrio e prateado, com seus fusos, nigelas,
das gaiolas e todos os pássaros voejam espavoridos. gregas e colchetes, sobre a ladeira de pedras, entre
— Por que não se muda? as portas fechadas, balcões, telhados velhos. Abrem
— Quero viver perto de quem o senhor sabe. 0 cortejo duas filas compridas, homens à direita
— Então ele mora na cidade. (eu entre eles), mulheres do outro lado, algumas
— Não, mas vem aqui toda semana. É pior do com açucenas, outras com rosas, dálias, sempre-
que este o lugar onde vive. vivas. Mais para trás, as filas continuam com
— Onde? mulheres. Precedendo o caixão, não sei que irman­

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dade: opas vermelhas e altos brandões; escoltan­ feroz e peludo, de cauda retorcida. Fechada a maio­
do-o, dois casais de crianças, com buquês e coroas: ria das casas, quase todos os cães sucumbiram de
cravos, lírios, flámulas. Um padre calvo, a face fome ou emigraram. Não se ouvem latidos nem
enrugada, ladeado por três acólitos jovens, com cantos de galo. Eretas nas janelas, às quais não se
tunicelas escarlates e alvas casulas rendadas, um debruçam, moças de cabelos ondulados aguardam
deles agitando o turíbulo, reza. No grupo que en­ a passagem da morte, com as suas pupilas de so­
cerra 0 cortejo, vamos lado a lado eu e a negra num nâmbulas. Há um homem encostado na parede;
vestido de algodão, com ondas verdes e azuis que sem prestar-lhe atenção, um pássaro cinzento exe­
se trespassam. Ela, com força, toma o braço de um cuta sinuoso vôo e penetra num orifício a três pal­
homem, os dois se olham de face. Terminará afinal mos de sua testa, no qual certamente fez o ninho;
minha caçada, minha busca de meses, poderei vol­ também o homem ignora o pássaro. Sentados num
tar a Pernambuco. Guardo essas feições há tanto banco junto ao chafariz, diz-me a negra que toda
procuradas e que, de procuradas, haviam adquirido quinta-feira, a pretexto de negócios, José Gervásio
uma existência falsa, nascida dos retratos. Não vem às quatro horas ver uma mulher, volta no trem
chegaria a descobri-las sozinho. Dobram sinos. das oito. Acontece, porém, sendo impossível fazer
Grandes pavões negros voam sobre o enterro. essa visita, mandar José Pascásio trazer algum di­
Ou: nheiro. Pergunto-lhe se nas noites de lua os na­
Estou em Tiradentes, na igreja Matriz, na Pre­ morados vêm sentar-se nestes bancos, em torno da
feitura, na rua, no chafariz, de chapéu na cabeça. carranca. Responde que Tiradentes é uma cidade
A igreja está cheia de escadas e andaimes, homens onde nem mesmo existem namorados. Trava~me
trabalham desvendando os acantos, as folhas, as 0 braço e olha por cima do meu ombro: “Vem aí
folhagens, palmetas e grinaldas escondidas sob a 0 homem. Guarde a cara dêle.” Passo-lhe o di­
caiação. Trabalhadores conversam, a metros um nheiro, afago meu revólver.
do outro, a respeito de um padre que odiava a ci­
dade e que chegou a aspergir as imagens com sal,
para estragar as pinturas. Na ladeira em frente,
sob os verdes ciprestes, crianças atiram pedras nos Nua, no leito, os joelhos redondos para cima,
pássaras. Os funcionários deslizam nas silenciosas pernas abertas, o braço esquerdo em repouso ao
salas da Prefeitura, cheias de leões pensativos de­ lado dos quadris, a mão direita presa ao gradil re­
corando as paredes já sem brilho. Mesmo os solda­ curvo da cama, a colcha de chitão com desenhos
dos abrem e fecham ás portas com cautela, somem de papoulas, palmas entrançadas e grandes mag­
nas sombras côncavas, sem arrogância. O delegado nolias ocultando o sexo e subindo à altura do seu
olha-me e concorda. Velhos sorrateiros perlongam ombro direito, lembra, com o redondo umbigo e os
com sapatos de feltro os corredores. O prefeito de­ ombros achatados, a atitude de um anjo que vi não
posita a arrecadação no mealheiro de barro, -peixe me recordo onde, erguendo um cálice. Sobre a cô-

144 145
moda, num abajur cõr de lodo, firme entre as gar­ ao mesmo tempo é ele e eu, e outros, fala do filho
ras de um pequeno dragão, a lâmpada acesa azi- e dos homens, numa voz de sótão. Seu sexo, co­
nhavra seu corpo. Junto do abajur, uma fruteira berto de pêlo verde, espesso e brilhante como aço,
de plástico azulada, imitando vidro, com bananas, agora está descoberto. Com o índice, risco lenta­
laranjas e dois limões quase brancos, brilhantes mente uma espiral no seu ventre: “Também te­
como ovos. Acima da cômoda, várias borboletas de nho um filho que não verei nunca.” “E se sou­
asas abertas e besouros de cor, espetados num qua­ besse que ele estava morrendo?” “Nerq. assim.”
dro. A casa é grande, paredes com decalques de “Então vocês são iguais. Ele não veio aqui, quando
tranças, dentículos, violetas pálidas e jambos des­ o menino morreu.” Nua, sentada no leito, mos­
corados, chão de tijolos, alguns poucos móveis. tra-me o retrato do morto e suas roupas, fraldas,
Cheiro de bolor. A negra continua falando de José camisas de lã, sapatos de tricô, brinquedos, fitas,
Gervásio, suga lentamente as palavras. Ratos cor­ algumas rosas murchas. “Morreu quando?” “A
rem no escuro, baratas esvoaçam, A luz projeta no semana passada, nesta cama. Amanhã vou com­
forro cheio de carcoma um astro esburacado e li­ prar umas hortênsias, uns risôs-de-maria, levar no
moso. Tão vazia é a casa, tão silente a cidade, que cemitério. É por isso também que não quero sair
parece haver outra mulher falando noutro quarto, desta cidade.” “Você já estava aqui há tempo,
com a mesma voz escura e atravessada.por baratas quando o menino era vivo.” “Queria fazer alguma
em vôo, ratos esqueléticos. Diz o que pretende fazer coisa ruim com o pai. E isto já fiz, apontei pra
do dinixeiro obtido com a sua indicação: comprar ele com esta mão. Por que me olha assim? Acha
perfumes, aliança de ouro, uma coleção de borbo­ que errei?” “Não Julgo ninguém. Meu ofício é
letas, óculos pretos, pulseira de usar no tornozelo, outro. Só comprei o que me interessava e você podia
faca de prata, costumes de veluda estampado. "Na­ me vender.” “O senhor não pode ser o que diz.
da para a criança?” “Não.” “Por quê?” “Porque Responda se eu errei.” Guardou no gavetão da
não.” “Onde está?” “Você, que não me conhece, cômoda as lembranças do menino-morto. jEstá de
pergunta pelo menino. Ele, que era o pai, nunca. pé junto à cama, esverdeada, ante a claridade que
Nem quis vê-lo. Apareceu quando eu estava com 0 pequeno dragão sustenta com cuidado.
a barriga chegando no pescoço, quatro pedras na Então:
mão, querendo que eu sumisse. Ia casar, não me Estendendo a mão para a camisa, principio a
desejava por perto. Bati com um banco na cabeça vestir-me. Este arcabouço morno, oxidado, liso e
dele, fiz um talho maior do que o meu. Deixei mi­ exaltável, rompido entre nós algum vidro cujos esti­
nha marca,” “Ele agiu bem em não ver o filho.” lhaços não vemos, torna-se ameaçador, vomita so­
Sem ouvir-me (haverei mesmo externado tal juí­ bre mim sua flagelada intimidade, pede que eu
zo?) ela prossegue. Ou melhor: volta aos começos, julgue. E nem sequer poderei deitar-me com ela
aos meios, ao tortuoso giro de sua história, maldi­ novamente, nesta cama qúe tresanda a alfazema e
zendo os homens, um homem, esse Gervásio que rosas podres.

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— Vai embora por quê? ao mesmo tempo, as palavras escandidas e sua cor-
— Você agora existe. Infelizmente. rutora significação.
— Que foi que eu fiz de errado? Ou:
— Passou a ser. Não posso lhe explicar. Mas Ponho entre os dentes a ponta da língua, fixo
uma puta, uma vítima não podem existir. Se exis­ seus olhos com intensidade tal que os atravesso e
tem, abrem uma chaga no carrasco. Entende isto? deixo de vê-los. Sei que ela insiste em atrair-me
— Se quer, pode ir embora. Mas não venha para aquela armadilha com que os seres humanos,
com histórias. como aranhas, abocanham os que estão fora da
— Vou embora porque já não posso estar em teia. Borboletas, jambos descorados, papoulas,
paz aqui. magnolias, violetas e tranças fecham-se em torno
Ou: de mim. A mulher procura envolver-me no seu
Em face do meu silêncio, concebe apenas um remorso e na sua nostalgia, talvez no seu amor
gesto: abrir novamente o gavetão onde pensa guar­ em decomposição. Percebo que me chama de as­
dar um passado reduzido a pó e lançá-lo sõbre mim, sassino, Engana~se, porém. Serei, quando muito,
tentar contagiar-me com a sua doença, fazer-me um carrasco, em todo caso nada mais que um fun­
participar daquele compromisso entre sua vida e cionário exemplar. Para bem cumprir meu ofício,
um morto, deteriorar-me. Ameaçado pela invasão não discuto ordens, não as julgo, evito sopesá-las,
desses vestígios, que a mulher, em sua intuição, bem como sopesar ou julgar meus semelhantes,
sabe passíveis de insinuar-se num estranho com a apenas executo-as. Ao executante cabe imunizar-se
mesma voracidade e o mesmo poder de multipli­ contra a solerte e até perniciosa intromissão do hu­
cação das baratas e das ratazanas, apaguei o abajur mano, com sua ética reticente. Tenho de afer-
e encontrando nas trevas a elástica resistência de rar-me a alguma imagem neutra, um cubo por
seu corpo, deixei-me tombar com ela sõbre o leito, exemplo, até que esta mulher se exaura em suas
onde morrera a criança e onde se mesclavam suas tentativas de envolvimento e eu possa — com a
roupas, rosas fañadas e briaquedos inúteis. Na es­ mesma isenção — deixá-la para sempre ou deitar-
curidão, impunha-se a presença destas coisas — me novamente com ela e possuí-la, talvez bater-lhe,
todas sem dono, sem serventia — procurando ca- porém sem cólera.
runchar-me como se eu as visse. A negra, cravando
as unhas, no meu dorso e gemendo como se tal
pressão a magoasse, indagava ainda, sem resposta, Fora, entre essas velhas casas enluaradas, atra­
se estava errada, se fizera mal em trair aquele ho­ vés dessas ruas sinuosas, recordo-me da infância.
mem cuja negligência fora talvez responsável pela Minha irmã, com suas tranças negras, tendo nos
morte do bastardo sobre cujos despojos lutávamos. braços uma compoteira de vidro transbordando de
Eu descrevia entredentes, olhos fechados nas tre­ cajus vermelhos e amarelos, está no quintal, escon­
vas, meu próprio ato, esforçando-me por destruir, dida por trás de um rato negro. Um pavão branco,

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de cauda sangue e ouro, aproxima-se e engole as “Para matar?” “Isso não lhe interessa.” “Como
frutas ávido, ante minha irmã paralisada, deixan­ não interessa? Soube que o senhor quer assassinar
do apenas -a compoteira vazia. Volta-se o rato e meu filho.” “Já lhe disse que não.”
num instante serve minha irmã. Vota, porém, um Visto de costas, o velho parece normal, com
grande amor ao pavão; deixa-o em paz. O pavão seu ar suplicante, as costas recurvas, um ombro
abre a cauda, apanha uma faca e caprichosamente mais alto que o‘ outro; de frente, se apenas damos
sangra o rato, cortando-lhe o pescoço. Minha irmã conta de sua presença, também nada oferece de
sentada na sua cadeirinha, as tranças sobre o peito. notável. Observando-o com atenção, vemos que
Surge um cachorro, leva-a consigo e casa-se com seus óculos escuros, talvez demasiado grandes para
ela. Faz um bolo de térra, enfeitando-o com rubis 0 rosto, têm uma finalidade suspeita: a de ocultar
e ossos, para que minha irmã o coma. Ela se recusa, a inexistência do olho esquerdo, que não existe, ja­
meu cunhado traga o bolo e o prato. Volta, para mais existiu, ele não tem órbita nem sobrancelha,
nossa casa, minha irmã. Tomamos café juntos. por trás do vidro negro há um tecido que faz lem­
Arranco um pedaço de pão e levo-o à boca. Minha brar essas fotografias de mulheres nuas, das quais
irmã aponta o pão no meio da mesa. Ê um meni- o negativo foi retocado no púbis, sendo esse um
ninho! Você vai comê-lo? Respondo que não é um disfarce mais gritante que a franca reprodução do
menino, sim um escorpião. Nossos pratos e xícaras modelo. Em compensação, sob o olho direito posto
vivem transbordando de crianças, jacarés,-lacraias, no seu devido lugar,, outro olho direito me contem­
búfalos, cavalos, mães e flores, que devoramos sor­ pla,'frio, através da lente. Os dois olhos revezam-se,
rindo, Numa igreja qualquer, um sino bate. Não não piscam ao mesmo tempo. Sobre o tapete puído,
conto as pancadas e estou sem relógio. Ruas de­ onde se adivinham ainda três gazelas entre borda-
sertas. Ignoro onde fica a hospedaria, não tenho duras, juncos e fdlhas digitadas, os pés do perso­
a quem pedir informações. A cidade, esfera armilar nagem, calçados em grosseiras botinas amarelas,
de silêncios, dissolvendo-se no ácido da lua. vão e.vêm, como se estudassem um modo de as­
saltar-me.
— Meu filho chama-se José Gervasio, Estou
certo de que o senhor veio aqui atrás dèle, mas Uie
“É 0 senhor que anda á procura do meu fi­ peço por tudo que volte para a sua terra. Diga
lho?” '‘Não.” “Sou 0 pai déle.” “Evidentemen­ que não o encontrou, ou que ele já morreu.
te.” “Pensei que o senhor fosse mais velho.” — Uma obrigação é uma obrigação. Suma-se,
“Mais velha do que quem?” “Do que o senhor.” Pela* primeira vez fecharam-se os dois olhos.
“Não, sou da minha idade. Nem mais um dia.” O velho tem as mãos estendidas para mim, à altura
“Posso saber quantos anos?” “Vinte e dois. Não do meu ventre, as palmas para cima, trêmulas:
procuro um filho nem um pai. Procuro uma pessoa, — Venho oferecer-me para morrer no lugar
ela mesma, sozinha, sem relação com ninguém.” de meu filho. É uma súplica.

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— Não posso escolher. sos amarrados de corda, numa cruz. Sua mãe de
As mãos ‘sustentam o gesto eficaz e tão fácil Joelhos, mãos postas, olhando para o céu. Mais para
de implorar. A voz, ao contrário, assemelha-se tan­ trás, um ancião de óculos escuros. Era verdade
to à que me suplicou quanto a mesma estrutura
então 0 que soubemos, que este homem andava pelo
de alumínio antes e depois de uma forte explosão
interior da Bahia, na zona do São Francisco, com
em suas bases. Penetram-me os dois olhos direitos,
0 pai e a mãe, levando a cruz nas costas de um
isto me desequilibra.
jumenta e fazendo crucificar-se. Punha um saco
— Então, já que o senhor não quer atender ao
de vaqueta ao pé do madeiro, as pessoas vinham,
meu pedido, vou à polícia.
traziam esmolas, rezavam. Os pais exploravam~no,
— Inútil. Eu sou da polícia.
Ou: iam de trem ou de ônibus para as cidades, enquanto
ele seguia a pé, com o jumento e a cruz.
Não me estende a mão. Fica de pé à soleira,
— Vou contar ao senhor uma coisa horrível
sorumbático. Fecho a porta do quarto. Inclinan­
do-se de leve, entrega-me o chapéu, o guarda-chu­ que ainda hoje me dói. Já ouviu falar em Sento
va, senta-se e fica em silêncio, chupando a língua. Sé? Não fica longe de Juazeiro. Estava nessa cruz
Tem um jeito assustado e submisso. Os sapatos há mais de vinte e quatro horas, quase sem comer.
negros, de velhos, tendem para o cinza. Lustra os Houve cidades onde o que me deram não chegou
óculos na ponta da gravata, com sombrias rama­ nem para alimentar o jumento. Mas em Sento Sé
gens e madressilvas sangüíneas. foi uma glória. Assim. , . (Indica as paredes do
— Meu verdadeira nome não é José Gervásio. quarto, onde a pintura a óleo, já em ruínas, repre­
— Sei. Ê Artur. Foi difícil encontrá-lo. sentava outrora abacaxis, laços de fita e mangas-
— E agora, que me encontrou. . . Sou dife­ rosas.) Uma fartura. Havia até cédulas de mil no
rente dos outros. Não fujo dos que me perseguem. bisaco. Pois quando anoiteceu e o povo foi dormir,
Soube que o senhor andava no meu rastro? Pois meu pai e minha mãe fugiram com o dinheiro. Eu
bem: vim vê-lo. gritava da cruz, pedia pelo amor de Deus que não
— É a primeira vez que faz isso. Até hoje me abandonassem. Meus pais, meus pais, por que
tem sido um mestre em fugir. vocês me desampararam? Fugiram no jumento e
— Que deseja de mim? nem olharam para trás. Nenhum sacrifício me sur­
— O senhor verá. preende.
— Matar-me? É isto? Certamente, Em toda — O senhor parece grato a esses velhos.
minha vida, tenho sido isto: o que é sacrificado. — Não sou grato. Perdoei-os, como perdôo
O imolado. tudo. Como todos deviam perdoar. E, ao mesmo
Mostra-me a fotografia, numa delgada mol­ tempo, me vingo, Vou para toda parte no meu car­
dura de estrelas e imbricados. Ele em calção de ro, enquanto os dois andam a pé. Que quer de
banho, cabelo à nazarena, barba crescida, pés e pul­ mim?

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— o senhor mesmo disse, há pouco. Vou ma­ Não esperava esta visita da negra, não me lem­
tá-lo. bro de haver-lhe fornecido qualquer indicação so­
Estava mais uma vez limpando os óculos. De­ bre onde iria hospedar-me, também não creio ter
tém-se e ollia-me perplexo, como se na verdade eu revelado meu nome, e mesmo assim acho natural
já 0 houvesse varada com uma bala ou retirado a que esteja aqui, com sapatos, roupa e bolsa novos,
faca da bainha. “Não lhe fiz nenhum mal.” exalando um perfume com que se aspergiu sem par­
“Não.” “Então?! Qual foi meu crime?” “Igno­ cimônia, talvez F leur de Rocaüle, e que não deve
ro.” “Hei de morrer por quê?” “Pouco me inte­
ser freqüente nesta pequena sala bolorenta. O ves­
ressa.”
tido (girassóis sobre campo azul-marinho) casa
— O senhor não é cap az... de perdoar.
bem com a sarja do sofá, cor de milho maduro, com
— Perdoar?.. , Sou um mandatário fiel e ten-
relevos gastos de coroas, cetros e flores-de-lis. Des­
ciono matá-lo numa dessas noites, quando o senhor
de 0 primeiro instante, sei que lastima a decisão
voltar da visita que faz diariamente á sua mãe.
de ter vindo e reflete sobre a conveniência de reve­
— Posso ir à polícia.
lar-me ou não os motivos que a fizeram vir. En­
— Não irá. Há anos que está fugindo da Lei.
quanto delibera, imita com visível esforço as con­
Isto esclarecido, ficamos em silêncio o tempo
versações e a postura de um visitante qualquer,
indispensável entre o que foi dito e a frase que ele
decide arriscar, a modo de ameaça, hesitando a censurando por exemplo a separação de sexos ainda
cada sílaba: vigente em alguns templos mineiros, ou questio­
— E se eu matá-lo primeiro? nando a respeito de países onde, segundo lhe dis­
— Será um dos dois únicos modos de escapar. seram, negro não é gente, forçando meu parecer,
— Qual 0 outro? que assim resumo; “Cada terra tem seu uso. Cri-
Escrevo num papel, em números que possa ler ticá"los não é lícito.” Alude sorrindo às flores
mesmo sem óculos, a importância, exatamente a postas no túmulo do filho e a dois cortes de seda
mesma, paga na antevéspera à -negra, para que o adquiridos na véspera, um com estampado de pás­
apontasse. Pôs sobre a mesa todo o dinheiro que saros, outro com desenhos de folhas. Ao passo que
encontrou nos bolsos e um anel. Devolvi-lhe o discorre, a deliberação chega a seu termo e ela me
anel, guardei o resto. confessa o que já pressenti. Falou a meu respeito
— Diga, na portaria, que me mandem a conta. com José Gervasio, entrando assim mais e mais
Que vou embora. num jogo insustentável, feito de traições, e de con­
Da janela, veJo-o quando sobe no carro, uma fissões 'de deslealdades, que por sua vez são novas
aranha frágil, rodas de ferro, conduzida por um perfidias logo declaradas. Escuto-a sem mover-me,
triste alazão de orelhas rombas. Bate no cavalo, recordando as glaucas ondulações de seu corpo,
vai“Se, não olha para cima. certo de que irá perguntar-me se agiu mal, se é
Ou: perdoável o que fèz, como se estas indagações e as

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respostas que causam pudessem alterar a natureza uma ira que me invade aos arrancos. A voz, deses­
e as conseqüências dos atos. perada, chama-me outra vez. Abafando-a no ar,
— Nada a impedia de ter ido falar com José grito para os cavalos e bêbado de cólera imprimo
Gervásio. Fiz mal em não mencionar o silêncio em ra p id e z ao carro, sõbre o caminho que não tem se­
nosso acdrdo. ISle retribuiu de algum modo sua gredos para mim. Percebo, sem voltar-me, que o
informação? amo vem no meu encalço. Finjo ignorar sua per­
— Disse que já sabia e que não tinha impor­ seguição, ponho-me a gritar, a cantar e a bater de
tância. Como é que ele podia saber? rijo nos cavalos: avançam mais depressa, esticando
— Pago-lhe 0 mesmo que já paguei. Você vol­ 0s pescoços. Gatos, cachorros, coelhos e carneiros
ta a ele e diz que hoje mesmo fui embora. Que espremem-se entre as rodas da carroça, o vento
você conseguiu isto, Mas agora sua fidelidade faz arrebatou meu chapéu. Abre-se a boca do túnel
parte do ajuste. Exijo apenas dois dias de fran­ onde haveremos ambos de passar. Prendo o cabo
queza. Amanhã, quando ele voltar da visita à mu­ do chicote nos dentes e sustento as rédeas com
lher a quem chama de mãe, eu o executo. Dois malícia, para atenuar o galope e fazer com que o
dias apenas. Não é muito. Pago metade agora e patrão me alcance... Em plena treva, os dois car­
metade depois. ros seguiram em desfilada, um junto do outro, fir­
mes, As patas dos cavalos estrondavam, nenhum
de nós tugia nem mugia, sufocava-me o cheiro de
Houve, antes do sonho, ou antes do trecho cla­ couro e de suor. Apesar do escurOj via as paredes
ramente lembrado, uma parte monótona e bastante do túnel pintadas de vermelho: bois e onças, ga­
longa, na qual se evidenciavam minha natureza viões, serpentes e jumentos, pelicanos, pavões, cor­
servil e o despotismo do amo a quem servia. A ças, dragões, cágados, leÕes e elefantes, todos pare­
partir do instante em que me ordena ir ao povoado, cendo voar feito morcegos em direção oposta à que
visitar alguém ou levar quem sabe que mensagem eu seguia. De súbito, pensei; “Agoral” Fiz a
a um senhor ainda mais poderoso, os acontecimen­ manobra, jogando minha carroça contra a carroça
tos se ligam e cobram força. Numa carroça negra, do amo, prensando-a contra os rubros animais do
puxada por dois cavalos, eu fazia a volta dentro do túnel, ao mesmo tempo que brandia o chicote em
pátio revestido de lajes, atropelando galinhas, por­ todos os sentidos, gritando como um doido: “To­
cos, marrecos e perus. Tinha o chapéu na mão e ma, toma, tomai” O patrão praguejava, sufocado.
recebia ordens, olhos baixos. Dada a partida, com Agarrei-o, senti entre meus dedos o áspero de seu
um.a chicotada alta, ouço a voz do patrão, autori­ pescoço, 0 latejo do sangue, o brado estrangulado.
tária, chamando-me. O barulho do carro e dos ca­ “Toma! ” Empurrei-o. Exalou, na queda, um chei­
valos me permite, sem medo. de castigo, fazer ro de cabelos queimados. Recebi com júbño feroz
ouvidos de mercador. Por isso, estalo o chicote com 0 grito de agonia entre as rodas e os cascos velozes,
desenvoltura, esbravejando entre dentes, presa de fiz zunir o chicote. Fustigavam,os cavalos, mais do

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que o chicote, minhas risadas e urna nuvem de assinatura. Um pouco mais cedo do que supunha
mutucas. Entro na casa à qual fui enviado. Quase (não ouvi badalar as dez e meia) ouço^ainda longe
ao mesmo tempo, muito pálido, chega meu patrão as ferraduras e o atrito de rodas sobre as pedras,
e se dirige a mim; “Que empregado nós temos!” espantando as rãs e os sapos que saltam de um lado
Pergunto-lhe, humilde como de costume: ‘‘Que para outro da rua. Mentalmente, vou medindo o
fiz eu?’’ O visitado, ouvindo-me, interfere: ”Teu espaço entre mim e o rumor, achando alguma be­
dono quer implicar contigo. Pela tua voz se vê que leza aesta convergência, neste homem que se
não.fizeste nada. Vai, senta-te aí.” Sentei-me, dirige para o seu algoz com tanta precisão e segu­
abri um livro e pus-me a dissertar, solícito, sobre rança. Bala na agulha, calculo as distâncias: é
os arabescos, festÕes, bordaduras, conchas e volutas preciso que os tiros sejam desfechados sem possibi­
que 0 ilustravam. Declarava-me inferior a todos lidade de erro e, ao mesmo tempo, que o executado
os enigmas e me desculpava por ter o dom de pe­ não me veja antes. Poderia açoitar o cavalo e
netrá-los. esquivar-se às balas. A aranha está na rua. Sob
a pequena capota, na mira do meu revólver, o vulto
segura as rédeas. Pára, risca um fósforo. Viso a
Espessas nuvens, a lua escondida. Presto aten­ cabeça, creio haver realizado bem minha tarefa: o
ção ao silêncio, que dentro em pouco romperei a fósforo apagou-se, o vi;fto se debruça, vai caindo
tiros. Imagino-o: grande peça de vidro, molde no­ aos poucos, suas pernas ficam embaraçadas no es­
turno das ruas sinuosas, das ladeiras, das igrejas tribo do carro. O cavalo permanece imóvel, todos
vazias, das casas com beirais. Os corpos abrigados os insetos impassíveis e :nenhuma porta se entrea­
sob cobertores. Cautelosamente, percevejos sur­ bre, Janela alguma. Vejo que matei a negra, sem­
gem, deslizam pelas camas, disputam com os mos­ pre hesitante em suas opçÕes, vítima da indefinição
quitos o sangue das pessoas; nos telhados e nas que em si mesma era um erro e que também me
esquadrias, sob os móveis, aranhas cospem seus induziu a este engano.
fios; cupins furam a madeira, gorgulhos furam Ou:
grãos nos armazéns, besouros voam tontos batendo Estrelas e luar clareiam a lâmina da faca. Ou­
nos muros, voam mariposas em redor das lâmpadas, ço, no silêncio, estalarem as Juntas da cidade e o
escorpiões, formigas, centopeias, grilos e baratas avanço da ruína sobre as paredes de duzentos anos,
fervilham pela terra, ágeis gafanhotos comem as sobre as vigas e traves, sobre as cores dos santos e
folhas das árvores, carrapatos e moscas aferroam seus corpos, sobre os coros, talhas, dourações, alta­
0 couro dos cavalos, dos bodes e dos bois. Concen­ res e molduras, sobre as Janelas, os forros, as ca­
tro-me no peso do revólver sobre o ilíaco, Tudo tem deiras, as camas, as gavetas, cruzes, oratórios, a
de ser rápido e neutro, para que o ato a ser cum­ ruína com seus cogumelos, seus bichos, as unhas
prido não perca seu caráter impessoal. A execução amoladas, a língua corrosiva. Faca, de repente, me
deve ser como aplicar o carimbo sob um texto para parece tudo: a letra e o borrão, o pássaro e o tiro,

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a convivencia e a distancia, construir, demolir, também a Lebre e outra^vez comeu o Macaco. En­
nascer, viver, morrer. Escondo a lâmina em sua tão eu e minha irmã saímos de braços com ele,
bainha. Ante mim, a menos de dois metros, eu entramos numa jaqueira, fomos rodeados por ca­
próprio me pergunto: “Estou certo?” Respondo;- chorros brancos. Agora vejo cães nas estrelas. Es­
“Estou?” Antes que nos ocorra a qual de nós com­ queletos de cão, orelhas caninas, couros de cão
pete propor indagações e a qual resolvê-las, escuta­ abertos, cadelas e cachorros, mandíbulas de cão,
mos 0 trote do cavalo, as rodas leves da aranlia cães alados, com crinas onduladas, caudas ondu­
girando sobre o calçamento, ao mesmo tempo que lantes, chifres e coroas. Galopam com patas gros­
os sinos das igrejas batem uma pancada e ambos sas, iguais à deste cachorro, ganem, e mesmo os
nos afastamos, eu à direita da rua, eu à esquerda, couros sem cão, as ossadas sem couro correm no
eu hesitante, eu decidido, à espera do condenado. alto, a cidade inteira vibra sob o galope. No silêncio
Vem 0 cavalo, que é negro — e claro de luar — total, escuto os vagarosos passos do cavalo, as rodas
arrastando a aranha com seu dono. Abrigando-me de ferro, os passos do cavalo. O cão afasta-se, vai
na sombra, fico imóvel, olhando o animal, o carro ao encontro da aranha. Esta foi detida no começo
e a homem; eu, porém, avanço e antes que o cavalo, da rua, alguém desceu e vem para mim. Tiro o
chicoteado, ponha-se a galope, salto dentro da ara­ revólver, aponto ao coração. Não perm itir o mínimo
nha e cumpro meu dever. Da rua, a arma inútil diálogo. Eliminar depressa a vítima. Não consen-
na mão, vejo o triste veículo afastar-se, escuto um tir~lhe, em nenhum a hipótese, romper a distância
grito abafado por entre o barulho das rodas e das que me resguarda de suas artimanhas. Baixo a
ferraduras, vejo quando salto, salto e volto para arma; não é quem procuro.
mim, enquanto a aranha desfila pelas ruas, com ■
— Vun no lugar déle. Me deixe morrer no lu­
seu passageiro esfaqueado. gar de meu filho,
Ou; O cão, sentado, contempla-me. O cavalo desis­
Não sei por que me acompanha este cachorro te de esperar, vem arrastando a aranha, detém-se
hirsuto, de patas descomunais, tão semelhante ao a nosso lado. Pensa o velho atrair-me a um jogo
leão que se enrosca nos pés de Daniel. Esperava-me atribulado e difícil, cheio de perguntas, de pesos,
à saída e marchou à minha frente, eu à sua frente, de ponderações, introduzir em meu límpido rigor
pelas ruas desertas e claras de luar. Por que, nas a incerteza, o vácuo e o desequilíbrio. Sem respon­
noites de lua, recordo minha irmã e suas tranças der-lhe, detono a arma, arranco-lhe os miolos. O
negras? O Macaco subia numa bananeira, com o cavalo parte em disparada, arrastando a velha car­
cesto pesado de Jabuticabas, sapotis e pitombas, que ruagem, o cão põe-se a latir. Examino, ao luar, o
engolia. Minha irmã lhe deu uma paulada. O Ma­ velho sobre o passeio: parece agora olhar-me com
caco fugiu e comeu ainda um maracujá, groselhas, três olhos. O cachorro fareja-o.
uma graviola, pitangas, mangas, ingás, pinhas,
goiabas. Veio a Formiga e comeu o Macaco. Veio

160 161
Pastoral
,EM aqueles óculos de vidro grosso, meu pa­
drinho, morto, parece outro homem. Ê ou­
tro homem. Olhava-me por trás das lentes, dizendo
coisas sobre minha mãe, quando me deu Canária de
presente. O sermão exalava afronta e crueldade,
saía devagar pelo nariz, seu andar também não era
rápido, mas cauteloso e miúdo, andar de cágado.
Sendo caso de morte, e eu afilhado, meu pai não
viu outro jeito, senão trazer-me à cidade. Ali está,
sentado, a boca aberta, ouvindo os numerosos sinos
de Goiana, dobrando pelo compadre. Quando se
distrai, fica de boca aberta; os olhos não repousam,
sondam tudo com desconfiança. Estou ouvindo sua
voz soante, embora esteja calado. Todas as horas
da vida, sem cessar, escuto sua voz. Não é para
ele,-nem para meu padrinho, é para as seis mulhe­
res de Goiana, estranhos bichos não existentes no
sítio (duas sentadas no banco, o rosto sobre as
mãos, a terceira de pé, ao sol, prendendo os cabelos,
outra de olhos no espaço, reclinada no sofá, sozi­
nha, braços estendidos no espaldar, e duas desfo-
Ihando cravos sobre o morto), é para estas que eu
desejaria ter seis olhos. Aliçona é mulher? Usa
vestido, é certo, semelhante às saias e blusas dessas
moças. Mas é mulher? Banhando-se no rio, nua,
lembra um tronco nodoso, cinza e verde, grosso,
coberto de limo. Tem os cabelos pretos. Mesmo

165
assim, vejo na sua cara de azinhavre, larga e reta­ mais novo da primeira esposa de meu pai, morta
lhada de rugas, idades que me assustam. As dessas com vinte anos de casada. “Nunca ouvi, Baltasar,
moças não fazem medo. Peles finas, mãos bem tra­ aquela criatura levantar a voz. Ia falar para quê?
tadas, os vestidos brancos ou estampados, as ore­ Meu pai só exigia que ela fosse fiel e desse conta
lhas com brincos, os sapatos delgados. Como são das obrigações. Mas na hora de morrer, ela deu
bonitas! Poderiam talvez brincar comigo, rolar nas um berro, um amém que assustou. Sua vida se foi
folhas, dormir na minha cama. Isto que parece naquele grito.” Meu pai não compreende por que
um coro de cigarras, seis cigarras cantando, é o Balduíno Gaudério não cresceu; e só encontra, para
perfume de minhas seis goianenses. isto, uma justificação: enguiçaram-no, passaram
Aqui, ninguém me vê. Canária entrega-se, por cima dele, com más intenções, no tempo de me­
mansa, a todos os agrados. Tento morder, de olhos nino. Parece haver, dentro de Gaudério, homem
fechados, o fuso que ela tem na testa. Pensando para corpo maior; pesa quase o mesmo que Do­
no perfume das mòças, afogo-me em seu cheiro de mingos ou Jerónimo. É menos bruto que esses dois
égua nova, ainda quente de sol. A claridade enre­ irmãos e o que parece ter-me um pouco de amizade,
da-se nos troncos, o prazer vem subindo pelas per­ embora escondida, para evitar censuras. Pega a
nas. Meu corpo aumenta, prolonga-se nos flancos faca amolada por Joaquim e me raspa a cabeça,
brilhantes e dourados, na curva do espinhaço, na sem dizer palavra. Também não falo. De pé, as
cabeça erguida. Nesta baixada, o soi desaparece mãps pendidas, submisso, deito-me no chão, obser­
antes, A luz esponjosa reflete-se nas nuvens, ínfil- vo a tosquia e até acho prazer no tratamento. É
tra-se nos ramos das velhas laranjeiras sob as quais tão raro sentir contato de gente, mesmo grosseiro.
eu e a poldra estamos escondidos. Começou a noite Nem Aliçona, que é mulher, me afaga. Aliçona é
e as primeiras estrelas logo poderão ser vistas entre mulher, Baltasar? Sim. Não, não é. Move-se no
as folhas. Por isto, e também por causa dos cabelos casarão, malcontento, com ar de condenada, como
compridos, tapando-me as orelhas (passam-se me­ se levasse o próprio peso às costas. Vasculha mal
ses, sem que ninguém se lembre de cortá-los), não as telhas, varre como cega, espana sem cuidado,
posso ver meu perfil. Joaquim, bem longe, abate lava em meia água os pratos da comida e nossa
uma árvore; chegam a meus joelhos, amortecidos, r.oupa. Pés descalços, calcanhares rachados, unhas
os golpes de machado. Mais um dia, mais um dia carcomidas, ciciando sempre e rindo só, com ódio.
para amadurecer Canária e conduzi-la ao cavalo Não é mulher. Por trás de Balduíno, mJxo meu
que está de pé em algum pasto, cavalo de cactos, pescoço, a nuca sem brilho. Nunca entendi por que
crinas de agave, rabo de carrapichos. sou feito de cipós trançados. Quantos anos terei?
Nosso pai, 0 braço esquerdo morto, grita por Balduíno, nossos irmãos Jerónimo e Domingos,
Balduíno, manda cortar meus cabelos. “Parece meu pai e Joaquim, o parente afastado, que desa-
uma Verônica!” Tudo que lembre mulher o en­ peou há perto de oito anos e se fez de casa, também
raivece. “Easpa!” Balduíno Gaudério é o filho perderam a noção de minha idade. Não sabem se

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me devem tratar como rapaz cu criança. Concor­ das mãos de Jerónimo, nas telhas enegrecidas, onde
dam, isto sim, em asseverar que me pareço muito às vezes correm, afoitos, timbus de barriga alva,
(jamais dizem com quem), que haverei sempre de é quase invisível. Ponho as mãos no meu ombro
ser peso morto e que um dia, mesmo que não queira, e beijo com pesar minha cabeça raspada.
cometerei infidelidades. Ê possível. Sou indolente Espreito-me dormindo, os membros espalha­
e careço de músculos. dos, estrela de cinco pontas. Ouço, ao mesmo tem­
O candeeiro aceso, de cobre, no estrado de ma- po, 0 cincerro da potranca na estrebaria e o som de
çaranduba modelado a enxó, onde comemos. Quan- seus cascos trotando no meu sonho. Ocupo, sozinho,
da nos curvamos sobre os pratos de estanho, esmal­ este cômodo enorme, dantes camarinha de meus
tados de azul, parecemos sempre estar chorando: pais. O oratório preto já não tem imagens; do
a mesa é baixa, quase altura de cama. Nosso pai cravo com dois dedos de grossura, pregado na pa­
se senta numa cabeceira, de frente para Joaquim. rede, no qual minha mãe, à noite, punha seu bisaco
É 0 mais alto e branco de todos. Cabelos quase de jóias, pendem alguns arreios; existe a arca fe­
pretos, caindo na testa. O braço esquerdo esquecido chada, que jamais se abre, cujas quatro chaves
não lhe quebrou a energia. À sua direita sentam-se decerto se perderam e onde talvez mofem sapatos
Jerónimo e Domingos, os dois bem perto dos qua­ e vestidos; no baú de madeira, pintado de vermelho
renta anos e ainda sem mulher; à esquerda, com a e azul, guardo alguns chifres, pedras, ossos de ani­
incumbência de cortar, quando é preciso, carne mais, chocalhos e as poucas moedas que Gaudério,
para o velho, Balduíno. Meu pai está voltado com meses de intervalo, me oferece. Morta a pri­
para mim. Olha-me, olhaf divertido, enviesado. meira mulher, o veUio nada alterou para o segundo
Todos os seus olhares, niesnio nas horas de cólera, casamento. A cama de ferro, com lastro de arame,
parecem divertidos. Joaquim, mão estendida para é a mesma onde todos fomos paridos. Aí vão cres­
a quartinha de barro, também me olha. Cara de cendo, noite e noite, sobre o colchão de rabugem
terra, nenhum cabelo, sobrancelhas enormes e pe­ e palha úmida, os cipós com que sou. feito e que,
los nas orelhas. Sua cabeça brilha à luz do can­ embora cresçam depressa, crescem'mais devagar
deeiro. Domingos fala de fora para dentro, ri sem do que Canária.
necessidade. Leva à boca, na ponta da faca, grande Nu, pernas mergulhadas na água turva, meio
pedaço de carne de sol. Jerónimo, esquecendo o ta­ cabaço na mão, saio do barreiro, puxando pela cor­
lher, ergueu as duas mãos e zune as acusações do da a eguinha. Minha pele descamba para o baio; se
costume contra mim. Seus olhos são azedos: sinto comparada à potra cor de cobre, é clara como a lua.
na língua, quando me observa, gosto de limão. Eu Eles gostam, Canária, de judiar comigo. Na ceia,
e Balduíno estamos de cabeça baixa, inclinados so­ ontem, fizeram outra coisa? Sou preguiçoso, de
bre os pratos azuis. As sombras dos que estão aos menos serventia que um cachorro, pois não ladro.
lados da mesa são maiores que as do pai e de Joa­ Sendo cruel. Jerónimo diz .saber coisas. Quando
quim, sentados mais longe do candeeiro. A sombra um cavalo não é bom de sela; quando um cão é

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capaz de morder de furto; que vê a crueldade em. doçuras. A gente faz coisas i E o pior é que você
mim: sou o buraco, num río atravessável a vau. saiu a ela. Não pode lembrar-se; mas é te ver e ver
Sorvedouro escondido. Domingos, rindo, mastiga- a fugitiva. Ah, se eu soubesse. E bem que podia
va-me em seus dentes sujos. O pal lançava-me imaginar. Mas faltou coragem, vivi sempre no
olhares, mais duros que as palavras de Jerónimo, medo. Tinha nada que ela fosse ou não minha co­
embora divertidos. Joaquim me julga peixe enve­ madre? Quem sabe onde anda! Aquele vira-mundo
nenado. Se eu pudesse, Canária, afogava um por não era homem pra ela. Gostava de ouro, demais.
um, até Balduíno, que não me defendeu. Falaram Foi isso que viu: os ouros. Pra mim, ela ia sem
na mulher. M o no seu nome; não no que fez. Fa­ aqueles adereços, sem anéis, sem voltas, Feito um
laram sem falar. Não se conhece um bicho pelo copo dágua.
rastro? Eu sou o rastro de um bicho roubado. Ou Não falo, mas entendo. As palavras dèie ficam
fugido. A boca na testa da poldra, no seu fuso mo­ em mim: ponta de faca amolada por Joaquim não
lhado, vejo sobre os vales, os montes, o sol do meio as gravaria mais fundo numa tábua. Conheci essa
dia como um galope de cem bodes brancos, todos figura de negro, de pé no copiar, enorme cruz no
com guizos nos cornos. Meu corpo é feito da mesma peito, de ouro e diamantes, pendendo de uma volta
fibra maleável e rija com que se modelam os ca­ grossa? Não. Conheci estes sapatos, de cooiro ne­
valos. gro, essas meias negras de algodão, essas compridas
Só meu padrinho, até hoje, me falou como se mangas de vestido? Não. Ainda assim, vejo. Pas­
fala a gente. Trouxe esta potrinha, Baltasar, para sou, em torno da cabeça, um véu de seda negro. Ã
lhe servir de companhia. Sei o-que é viver sozinho luz das estrelas, que brilham, quase sem pulsar,
como você. Também mastiguei minhas areias, na sossegada noite de novembro, seu rosto flutua.
ora. É porque ninguém sabe. Está sentado debaixo É, em plena decisão, o último instante indeciso.
desta sombra, em cima das raízes, chupando caram­ Quebradas todas as cordas, restava ainda esta,
bolas, os olhos parecendo lesmas coladas nos vidros. lassa — e que resiste. A casa está quieta, a aurora
Voz arrastada e fanhosa, cheia de riscos maus. distante forma-se na noite. Estão dormindo os
Admiro a bestinha e escolho para ela, na mesma galos. Não muito longe, um cavalo branco, ajae­
hora, 0 nome de Canária, enquanto me. parecem zado, espera-a. O metal dos estribos, as fivelas das
distantes a ovelha de Aliçona e as càbras de Gau- correias e as tachas que enfeitam _os arreios bri­
dério. Nenhum desses bichos, cuja docilidade aceito lham menos que seu pêlo branco. Cavalo de vaga-
como dever de coisa possuída e cuja rebeldia me lumes. O homem debruçado na sela, aguardando
enfurece, terá jamais para mim a beleza e o valor aquela mulher pálida, cuja idade é mais 'ou menos
de Canária. Não sei como você existe, Baltasar. a mesma dos enteados Jerónimo e Domingos, e que
Como sua mãe fez uma coisa dessa, aceitar casar-se acentua a própria palidez com suas blusas negras,
com um jumento, eu não estando morto. E ter filho de mangas frouxas, os brincos negros, as duas tran-
dele. Imagine que coisa, seu pai lavrando aquelas ças negras amarradas com grandes laços negros.

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Sempre cheia de anéis, às vezes quatro num dedo, éguas mais velhas, ancas de Canária, o tilintar do
sempre de pulseiras, de trancelins no pescoço. Sua cincerro, cheiro de capim, de mijo apodrecendo, o
vida absorve, dessas muitas jóias, o único alimento; garanhão na estrebaria menor. Vejo tudo. Quem
ou então ouro e pedras sugam suas forças, chupam me dera metade do corpo de um cavalo! Ou me­
seus ossos, lhe bebem o sangue clara. O homem, tade do corpo de Joaquim. Dorme com a faca atra­
já em cima da sela, dá-lhe uma única ordem. Só vessada nos peitos, seu tronco tem quase a largura
levar consigo seus tesouros, vindos com ela dos tem­ da mesa, enche a cabeceira oposta à regida por meu
pos de solteira. Vestidos, não. Sapatos, não. Nada pai. Não fosse tão forte, estaria reduzido a empre­
que meu pai lhe tenha dado. Só teu corpo e a roupa gada, recebendo ordens e ordenado; em vez disso/,
do teu corpo. O menino também fica. determina coisas, toma resoluções. Foi éle que
O sol se põe, boca vermelha e olhos dardej an­ trouxe, para Canária, a cavalo caxito. Altaneira
tes. Tomba, amarelo, duro em seu orgulho, cercado cabeça, olhar desconfiado, crinas aparadas: na co­
de penachos cor de sangue. A poldra baia, eu so­ cheira, sem companhia, réstias de sol nos ossos e
bre ela, cruza o entardecer, quatro cascas no vento, no sangue, aguarda a manhã. Soltarão no pátio
estendida a cauda na linha do espinhaço e as crinas minha bestinha, ficarão à espera. Só em existir, ele
voando mais alto que as orelhas, lançada como para a governará, será prisão mais segura que um cer­
sempre no galope que longe repercute. Como cres­ cado de estacas muito altas. Ei-la girando em torno
ceu, em pouco mais de um ano! Quera ser assim, do seu peito, de suas crinas, de seus cascos, sem
crescer depressa, ter esta força, para galopar sobre poder fugir. Ele relincha, joga para o alto as patas
meus irmãos, sobre Joaquim e sua cara de terra, dianteiras, rasga as entranhas da égua, com vio­
sobre meu pai e sua autoridade, sair por este mundo lência e glória.
atrás de minha mãe, ajoelhar-me a seus pés. Os Pesa-me, na mão, a serra de cortar capim. Para
roxos, os dourados e os verdes das nuvens se tres­ bem medir a potência e o fogo do cavalo, acendi o
passam, planam três urubus sobre o sítio. No chão, candeeiro de íolha. Nas pernas, no vazio e perto
sob as árvores, vejo as raízes, suas garras pretas. das narinas, a luz fumacenta mostra os desenhos
A grandeza do corpo sob o meu, distendido no ar, das veias. Seu pêlo escuro, nas curvas, reflete a
veloz, ao sol, entra em mim e gira no meu sangue. chama. É um cavalo de ferro, coberto de ferru­
Me transformo em vinte, em muitos corrupios, ver­ gem. Primeiro, virando a cabeça, explorou-me com
des, roxos, dourados como as nuvens, girando sobre seu oüio esquerdo, pulado, de brilho insuportável.
a égua em disparada. Tranqüilizado, baixou novamente a cabeça para o
De todos os quartos, só um tem janela: gran­ capim fresco. Nesse corpo, escondido no ventre,
de, folhas espessas, dobradiças duplas, pegadores fica 0 instrumento de minha humilhação. Experi­
de ferro. Cede o lastro da cama, quase em curva de mento no polegar o gume da serra. Ninguém como
rede, ao peso de meu corpo. Na janela aberta, vejo Joaquim para amolar um aço, ele transforma em
lua, estréias, campo, cocheiras, os movimentos das navalha as costas de uma faca. Curvei-me e agra-

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do o cavalo na entreperna. Vai exibindo, aos pou­ essas moças que velam meu padrinho me voassem
cos, seus possuídos, é com.o se abrisse o peita e agora pelas costas, com a verde cantiga de cigarras!
expusesse, indefeso, a fonte do existir, então eu Em cima de Canária, no topo do monte, vejo
fecho os olhos, cerro o queixo, e com a mão toda, um pedaço do ribeiro, embaixo, marrecos nadando
os braços de cipó mais tensos do aue nunca, seguro e um novilho deitado, ruminando, crescendo na ma­
o membro rajado e decepo-o com a serra, num ges­ nhã. Foi ali. Secavam alguns vestidos de mulher,
to eurto. O senhor das éguas e pai de cem outros entre camisas de homem e a colcha de retalhos.
cavalos, que era um sol nos pastos, desfaz-se no seu Aliçona é o tempo feito gente, um tempo rosnador;
sangue borbotante, os quartos arreados, como e suas roupas negras ninguém pode dizer que sejam
sucumbido ao peso da carroça, ele que jamais em de mulher. Por isto é que entra em nossa casa,
vida conheceu o jugo. Os negros olhos brilhantes bota os pratos na mesa, lava os panos, assa a carne
perdem a luz, reveste-os uma camada de cinza, sua de sol, faz o pirão de ovos. Porque não é mulher.
cabeça teima em ficar levantada, como outrora, nos Aqueles, porém, eram lindos vestidos, bem dife­
campos sobre os quais durante anos ele desfraldou, rentes dos panos de Aliçona. Um de florões verme­
como estandarte vermelho, sua força, mas não tar­ lhos, outro cor de mel, um vestido branco de
da repousar, inerte e desonrada, no chão. Agita-se menina, todos na corda, ondulando. Parecia con­
a luz do candeeiro. Apagam-se, no couro do cavalo, versa de vestidos. Não conheço o pessoal do sitio.
os reflexos brilhantes, desaparecem as veias, os A lavadeira, as donas dos vestidos e os donos das
cascos trêmulos fazem-se mais brancos. O sangue donas dos vestidos, serão almas? Ou nesse lugar
espxmiante é odoroso e negro. só habitam vestidos? O de florões' dançava, con­
Estendido à sombra de um pé de fruta-pão, as tava alguma história divertida, o cor de mel sorria.
costas vergastadas, as marcas do chicote latejando,. As roupas de homens nada escutavam nem viam,
enxergo o mundo rubro e desequilibrado. Há uma mas o vestido branco mé chamava. Ali estão, em
árvore de fdlhas delicadas, que se destaca das ou­ número maior, todos imóveis, pendurados na corda,
tras: vigorosas, troncos retorcidos, frondes copio­ estendidos nas pedras à beira do riacho e nos galhos
sas. Todas verdes, verde transparente, verde espes­ de duas groselheiras. Reconheço, entre ramagens,
so, verde carregado, puro, impuro, verde. O céu é 0 vestido branco.
vermelho, vermelha é a terra. -Cantam nambus. Dentro do milharal, entre folhas altas e as espi­
As chicotadas de Gaudério foram as menos fortes gas inchadas. Em duas, três semanas, serão que­
— e as que doeram mais. O último a bater. Mesmo bradas pelas mãos de Jerónimo, Joaquim, Domin­
Joaquim entrou com a sua parte, quatro lambadas gos, Balduíno Gaudério. Meu pai, com gestos de
firmes, sem compasso, Na última, fingindo errar dono, arrancará algumas. O milharal, esconderijo
a pontaria, golpeou-me o pescoço. Não senti, de­ claro. De um lado, o crescente se levanta, quase
pois, coragem de gritar. As chicotadas brilham, lua-cheia. O sol ainda não se pôs: descamba do
contemplo-as no meu lombo: brasas de angico. Se outro lado, cabeça de orelhas cortadas, olhos cúm­

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plices e grande boca em chamas. O perfume do Canária, mastigar-lhe aS crinas. Não irei. Canária,
vestido branco. Nu, estendido no espinhaço da para mim, é posse que já não assumo. Seu dono
égua, em meu pescoço as crinas enroladas, entre é 0 cavalo, a meia hora de marcha, de que falam
as mãos o vestido ainda meio úmido, recebendo ao meu pai e meus irmãos.
mesmo tempo o cheiro de Canária e o cheira de Deitado no soalho, em cima do vestido, ador­
sabão, do milharal e da terra, soluço. Quente o mecido, nu, enluarado. Em torno de mim, os chi­
lombo da potra, áspero e escorregadio o pano do fres, as pedras redondas, as moedas, os chocalhos
vestido desfia-se em meus dedos, canta uma cigar­ sem badaíos, os ossos de animais, as sombras do
ra, a moça do sofá me acaricia os pés, as nádegas, quarto, o arreios no cravo, o oratório vazio, o sos­
0 dorso inteiriçado, vejo soi e lua, as duas claridades sego da noite. Meus irmãos, meu pai, Joaquim,
cruzando-se em meu peito, abro-me em dois, des­ também bebem no sono a força com que cumpri­
cubro por que choro, é o silêncio, regiram em mim rão, amanhã, seus trabalhos. Qual deles levará
os corrupios do gozo, tudo esqueço, tombo de borco. Canária? Jerónimo? Domingos? Irão todos? Faço
Ainda soluçando. A cara no vestido. Nas veredas 0 cavalo: parado, alto, um morro, fogueiras nos
do sangue ouço a voz, uma cantiga feliz, é um ho­ olhos, peito imenso, a cauda como um negro e es­
mem cantando, e este homem caminha para mim, pesso redemunho. Invadem o quarto cavalos galo­
coisa impossível, pois o homem sou eu na plena pantes, baios, brancos, negros, todos sangrentos,
força dos anos. Canária fareja a terra, na altura todos relinchando, perseguidos por gaviões em
de meus rins. fúria. O cavalo graúdo não se move.
O luar, entre as folhas da janela, ilumina o ves­ Vou entre o frescor da noite e o calor da ma­
tido, forrado no chão e ainda mais claro do que nhã. Não comi: tinha pressa, o estômago cerrado.
antes. Eu sentado à cama e de pé junto do ora­ A que horas haverão partido Jerónimo e Domingos?
tório. Vem da estrebaria, com claridade igual à do Cruzarei com eles no caminho? Por baixo desses
vestido, a campainha de Canária. Da mesa, atroan- vales, desses montes, dessas plantações, existem
tes, chegam a voa de Joaquim e as risadas grossas rios de fogo, nos quais o sol mergulha e onde as
de Domingos. Balduíno, miúdo, sempre à esquerda nuvens do nascente se banham toda a noite. Por
de nosso pai, finge sorrir; para ele, que tem os bei­ isto vêm assim, vermelhas. O vermelho tinge o
ços curtos, isto é fácil. Domingos ri de verdade, verde das folhagens, entre azuis e roxas nesta hora,
levantou-se e olha para baixo, as mãos torpes aber­ os bois soltos no campo parecem esbraseados e as
tas, afastadas. Jerónimo pesa-o, com seus olhos cabras são de vidro, atravessadas pela claridade.
azedos. Meu pai, branco e alto, o braço morto na Também o canto dos galos é vermelho. Não sei
mesa, como um pano, assoa o nariz e fixa a parede, por que vou e preferia não ir, ou não chegar. Um
atravessando gestos e risadas. Falam de Canária, vento impele-me, soprando à minha espalda, vento
do cavalo morto, do que farão amanhã. Tentação firme e quente. Amarro os tornozelos — ■e porém,
de ir para o curral, beijar os flancos sombrios de mesmo sem querer, vou mais rápido, sempre mais

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ligeiro, passada, meia-passada, trote, vento no pei­ pente, do outro lado da cerca e me aconselha:
to, gosto de manhã. Crescem minhas crinas verdes, "Vai, Baltasar. Vale a pena.” Cato uma pedra no
rainha cauda azul, e galopo com ódio descendo esta chão. Chegam a meus joelhos, amortecidos, golpes
ladeira, sou cavalo branco, árdego, cascos de pedra, de machado. Uma nuvem passou, o sol reaparece
dentes amolados. Na disparada, alteio a cabeça por e clareia os animais, um vento inesperado faz ondu­
sobre os rubros pastos, sobre as árvores, os montes larem as crinas do cavalo. Estouram em todas as
e os pássaros voando, sobre as nuvens de fogo» o árvores os gritos das cigarras.
sol nascendo, e relincho com toda minha força. Meu corpo fino, tecido com cipós, mas de apa­
Descubro, nos oito homens cujas sombras se rência rija, torna-se frágil, peça de barro, que vai
alongam, emaranhadas na sombra da cerca e dos fazer-se em pedaços nos cascos do cavalo. Os oito
cavalos, expressões de inveja. Todos firmam a homens, por surpresa e por medo, se guardam de
vista no centro do curral, como quem avalia bens intervir. Seus rostos, menos que pesar, exprimem
alheios. Um, bem moço, os cabelos pretos sobre a ira e incredulidade. Canária se afastou, cabeça
testa, não consegue esconder, por trás do beiço mole alta e orelhas espetadas. Para mim, este breve ins­
e das pálpebras mortas, seu orgulho. Deve ser o tante é um relâmpago no corpo. Cheguei ainda a
dono do cavalo, Este é o centro de tudo. Belo ani­ lançar minha pedra, sem alvo certo, a esmo. Os
mal, e de cor bem rara. Preto, cauda e crina bran­ dentes do cavalo, as patas galopantes se abatem
cas e brilhantes, feito cabelos de milho ainda verde sobre mim como um feixe de raios, e as crinas bran­
— e compridas, como desejaria fossem as minhas. cas ~ nuvem — chamejam sob o sol.
Morde, de leve a orelha esquerda de Canária. O Estirado na mesa, sem velas, dedos cruzados,
barro está pisado, revolvido, cheio das marcas dos a pele de raposa cobrindo-me as virilhas. Sentadas
cascos. Há muito giram inquietos neste mesmo e mudos, nos lugares de sempre, meu pai, Joaquim
lugar, o macho em redor da fêmea, a fêmea em e meus irmãos rodeiam-me. Imaginando que vão
redor do macho, como que presa a um mourão, mas cear mais cedo (o cemitério é longe), Aliçona pôs
esquivando-se. Talvez hajam lutado. Agora, os dois a mesa; os pratos azuis, o candeeiro de cobre. Os
imóveis, o cavalo morde a orelha de Canária. En­ poucos homens que vieram ao meu enterro, con­
tre os paus da cerca e as figuras dos homens de­ versam fora, sem ânimo de entrar. Alguns, apre­
bruçados, nenhum dos quais notou minha presen­ ensivos, olham para o céu. A tarde está nublada,
ça, ela me vê, se é que não está cega. Vai escapar fria. Antes que anoiteça, vai chover. Talvez com
ao domínio do cavalo, saltar a cerca, vir ao meu remorso, talvez com alívio, pois nunca mais verá
encontro? Rígida, e as patas traseiras afastadas. este seu filho, que em nada se parece com ele e que,
O couro de seus flancos estremece. Os homens, todos os dias, fazia-o recordar a mulher que foi
sempre ruidosos nessas horas, não dizem palavra. capaz de deixá-lo, meu pai contempla-me; os outros
Longe, no sossego da manha, uma ovelha perdida conservam a cabeça baixa. Da estrebaria vem o
bale sem cessar, A mulher de negro surge de re­ som do chocalho de Canária, ainda virgem de ca-

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vaio. Agora que estou nu e ejíposto, sem a perma­
nente e soturna crispação com que me protegia, é
que vejo quanto era criança. Bicos do peito rom­
budos, espáduas de menina. Jerónimo e Domingos
me trouxeram cruzado em cima de Canária. Foi
Balduíno Gauderio quem lavou meu corpo, quem
tirou com brandura o sangue seco. Foi ele quem
cingiu, às minhas virilhas, a pele de raposa, quem
me cruzou as mãos e pôs, entre meus dedos, um
pendão de milho. Nunca mais cortará, a mandado Noivado
do pai, os meus cabelos. De todos, é o único que
chora, pranto mudo, quase sem soluços. Tem in­
veja de mdm, que nesta casa fria, íui capaz de amar
e de morrer por isto. As mãos sob a mesa, promete
a si mesmo que haverá de ter uma mulher, que
haverá de amá-la, que não será Jamais como esses
outros homens.
•• u ' ^ ó s nesta sala de paredes verdes, uma janela
k j fechada, outra aberta à noite e ao com­
passado som das ondas, na centro do triângulo
torto em cujos vértices ficam o Seminário, a Praça
da Abolição e o Convento dos Franciscanos. Pode­
mos ver a cidade como se estivéssemos de pé sobre
0 telhado. O luar embebe o mar e as ruas, facha­
das de azulejos brilham no silêncio. Esta será a
última das muitas e inúteis conversas que tivemos.
Latej a o farol.
I Uno, sereno, e dono, após trinta anos de re­
partição, do meu destino, iria agora perder este
governo, ligando-me seja a quem for? Desprendi-
me do que me tolhia, em mim não há divisões,
não reverei os colegas de trabalho. Conduzirei
agora minha vida com a invenção de um maqui­
nista que fizesse avançar sua locomotiva para fora
dos trilhos. Nada de caminhos feitos: improvisar
é a regra.
— Só uma coisa me preocupa. Ê não conse­
guir esquecer os problemas com o envidraçamento
da Secretaria.
y Dividida entre a esperança e o medo, enfim
me decidi. Duas palavras gastaram minha vida:
amanhã e depois. Sim, é a última vez que nos fala­
mos, não suporto mais suas prorrogações. Quanto
ao enxoval, continuará nas malas, nas gavetas, até

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que eu morra. Como o lamentarei, se mais inútil em meio a essa profusão de olhos, penteados, sor­
me foi a Juventude? risos e bijuterias, eu que sou propenso à unidade,
— Não sei se já lhe disse tudo sobre os vidros. fazendo tudo para manter-me íntegro, dentro do
Muitos estavam partidos e a maioria apresentava presente, sem extraviar-me no passado e sem admi­
manchas de umidade. Umas redondas, outras tir que invasores de outro tempo me perturbem a
oblongas, ou em forma de estrelas. Algumas bem rigorosa inteireza do que desejaria ser ou sou?
grandes, com quase dois palmos. Poucas janelas — Trinta longos anos de trabalho. Mereci o
continuavam em ordem. Então o Chefe me incum­ prêmio,
biu de estudar o assunto e tomar as providências — Realmente.
que fossem necessárias. Um ardil para segurar-me; — Trinta anos não são trinta dias!
eu estava a poucos meses da aposentadoria. — Bem sei.
— Que interesse podia ele ter nisso? (A atividade, entre os insetos, é limitada por
— Está no emprego há mais de 39 anos e de­ mudanças alheias a eles próprios; o sono, em tão
testa ver alguém aposentar-se no devido tempo. diverso e numeroso grupo, não exprime repouso.
Aguarda a compulsória. Cada servidor que se deixa Como acrobatas que passassem a noite num trapé­
ficar é uma aprovação ao seu amor pelos autos e zio ou num arame estendido a vinte metros do solo,
0 livro-de-ponto. Não lhe dei esse prazer. ISTo assim dormem, atentos, na atitude que têm quando
exato minuto em que recebi o Diário Oficial, escre­ em vigília.)
via esta palavra: sessenta. Por coincidência é a — Que vai fazer agora do descanso? De sua
minha idade. liberdade?
y Ouvem-no, um à sua esquerda, outro à di­ ’— Muita coisa. O problema está em escolher.
reita, todos no sofá, seus mais comuns seguidores, y Ê 0 velho quem responde. Os -que o ladeiam
39
os que melhor conheço: ele aos 28
e ele aos anos, olham-no de suas idades remotas. Ouço, no Jovem,
aquele tolerante, este colérico. Vestem-se os três um ranger de dobradiças, de rolimãs sobre eixo não
como era de uso antes da última guerra. lubrificado. No outro, de39 anas, em algum im­
— Faltava ainda a sílaba final. Deixei a pala­ preciso recanto de seu corpo, uma roldana é acio­
vra incompleta, vesti o paletó, dei as costas, saí. nada com insistência, pesos em forma de cubo vão
Não falei com ninguém, nunca mais voltarei àquele e vêm no escuro. Diz o moço: “O mar está ru-
purgatório. Custou, mas por fim chegou o dia; sou gindo.” A roldana interrompe os movimentos:
um homem livre até o fim da vida. “Continua avançando na Praia dos Milagres.” In­
I lávre quer dizer: sem compromisso. Ela terfiro : “Onde, há um ano, havia residências, hoje
aceitará nosso rompimento? Se casássemos, levaria só restam alicerces e alguns tijolos soltos! ” Todos
para a nova casa todos os retratos que ornamentam concordam: “É mesmo.” Volta o silêncio e os
a sala, registrando as modificações de seu rosto, a três me contemplam, decerto sem ver-me, aflitos
duração e o fim de suas ânsias. Como poderia viver com 0 estorvo de suas almas de serragem, de colhe-

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res dobradas, de facas cegas, comportas e alçapões. preferiu-se um par de lâminas chamadas Calorex-
Uma noite foram dez os que vieram; ocuparam o Atherm ane, separadas por um tecido de algodão,
sofá, as seis cadeiras,'o banco do piano, todos ira­ impregnado de melamina-formol. E que se fez para
dos, numa agitada conversa a respeito de grades e colocar as placas nos caixilhos? A massa de vidra­
portões. Infelizmente, são em geral esses três que ceiro é um produto convencional, pouco eficaz.
me visitam. O de sessenta anos faz-me lembrar Embora o vidro fosse antitérmico, procedeu-se co­
um zoológico onde todos os bichos estivessem mor­ mo se as variações de temperatura o afetassem:
tos e mesmo assim visitados. Mas uma noite eu empregaram uma gaxeta elástica de neoprene.
0 vi aos dezessete anos. Encheu a sala de sons, Este produto vem dando resultado ótimo em edi­
contOTi a história da primeira mulher que se deitou, fícios grandes, no' estrangeiro. Pois bem. Não tar­
com ele, ouviu-me. Há mais de quatro anos aguardo dou muito, começaram a surgir, nos dez andares,
seu retorno. Desejaria revê-lo, ardoroso e sensível, as manchas de umidade. Levantando um pouco o
talvez um pouco perverso, com seu rumor de cím­ neoprene, via-se, nas canaletas, água acumulada.
balos e guizos. A distribuição espacial das manchas era irregular.
— Nem sequer acabei de escrever sessenta. Não se notava preferência por uma face qualquer
Vesti o paletó e saí. Como quem vai tomar um da^ construção. Mas quanto aos vidros quebrados,
copo de leite. Cheguei a deixar as gavetas abertas: qúànto a estes, sim: havia preferência. Um ritmo.
não havia, na repartição, um só objeto meu. Gos­ Que pista seguir para esclarecer o problema? In­
taria de investigar até ao fim o caso das vidraças. vestigar aquilo fascinou-me. Em quase trinta anos,
Mas, pelo menos dessa vez, agi com decisão. Levan­ era a primeira tarefa mais ou menos viva que me
tei-me, afastei a cadeira, fui embora. Quando atra­ chegava às mãos. Olhava os Calorex-Athermane
vessei 0 portão, eram exatamente nove horas e cin­ como se fossem bichos, vítimas de alguma epide­
qüenta e dois minutos. mia. Gatos ou cavalos de vidro. Sabe o quanto
— É triste sair assim de um lugar. detestava o chefe. Passei a odiá-lo na medida em
— Não vejo por quê. que me sentia tentado a não aposentar-me, até
y o jovem, à sua direita, levanta-se, fecha que descobrisse a verdadeira razão daquelas man­
dentro de si todos os ferrolhos, bate as portas, cerra chas e das vidraças partidas.
as fechaduras que estalam, oxidadas. y Olho meus retratos nas paredes. O tempo
— Não consiga esquecer o problema das jane­ rói e destrói a face das pessoas. Para gastar minha
las. É interessante refletir sobre ele. Veja. O envi- face, houve o tempo e esse homem. O tempo enru­
draçamento, todo em caixilhos de alumínio ano- gou-me a fronte, eie escavou-me as olheiras; o tem­
dizado, deveria ser feito com lâminas de três po arrancou-me os dentes, eie entortou-me a boca;
milímetros. Entre elas poriam lã de vidro, mistu­ 0 tempo aguçou meu perfil, eie gravou-me este ar
rada com uma resina própria. Mas as fibras de lã de quem recua; os ,dois juntos instilaram em mi­
não apresentavam distribuição uniforme. Então, nhas ocas profundezas a ferrugem e o bolor.

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— Vo.cê fala, Mendonça, como se tivesse grande — Se, pelo menos, houvéssemos casado! Ou
amor por gatos ou cavalos. Como se fosse capaz de juntado, como fazem tantos.-
dar um passo por qualquer coisa viva. — Não fale assim, Giselda.
— Como não? Certas noites de calor, abro a — Podíamos ter filhos com mais de vinte anos.
janela do quarto e estendo-me na cama. Entram — Você não ignora que o meu ordenado era
mariposas, às vezes sucede entrar algum-besouro. pequeno. Depois, veio a morte do velho. Ia aban­
Não os mato. Gosto de vê-los. donar minha mãe?
— Porque são feitos de arame, de mica, de apa­ — Não. Desde que todos os seus irmãos ha­
ras de cobre. E têm ollios de vidro. Após trinta viam casado, você devia fazer o sacrifício. Ela pre­
anos de trabalho, você não teve em quem dar um cisava tanto de alguém para atormentar! Só Deus
abraço de despedida. sabe 0 quanto padeceu aquele pobre homem. Con­
— E abraços por quê? Não eram meus amigos. versou mais de uma vez comigo. Dizia que como a
— Algum devia de ser. mulher se chamava Maria José, queria ser ao mes­
— Nenhum era. Nenhum. mo tempo a Maria e o José. Não deixava de ter
^ Ã sua esquerda, arfa outra vez a obscura razão.
roldana e a voz desse Mendonça grisalho aprova — Ê injusto que dissesse isso. Principalmente
com firmeza:
a uma estranha.
— Fez muito bem. Era assim que eu imagi­ — Eu não era uma estranha. Quando me to­
nava encerrar minha carreira, há vinte e um anos. cou pela primeira vez no assunto, vocè era meu
Féz muito bem. Para que despedir-se daaueles noivo há mais de onze anos. E ganhava bem.
inúteis?
^ Novamente no sofá os três, sentados juntos.
(As moscas, em grande número, aparecem às Rangem dentro deles as dobradiças, pesos, rolda­
vezes imobilizadas, como se estivessem mortas, en­ nas, ferrolhos, rolimãs. O de trinta e nove anos
volvidas em fina e alvacenta poeira. Pequenos co­
leva a mão direita à boca:
gumelos, ao passo que devoram os tecidos dos in­ — Pui eu talvez que tive a culpa de tudo. De
setos, semeiam os seus esporos mortais. O mínimo
toda esta aridez. Não era tão tarde para mudar.
golpe de^ar ergue-os e transporta~os para as moscas
Tinha economias, não? Podia haver abandonado o
ainda não contaminadas. Os cogimielos crescem,
emprego, casado com você, organizado a fábrica.de
invadem-nasj roem seus tecidos, bebem com sede o
líquido sangümeo, multiplicam-se, destroem os ór­ grades e portões. Entretanto, fiz o quê?
gãos todos. As moscas atacadas renunciam a voar. y Escande o jovem, de cabeça baixa:
Deixam-se ficar numa parede, num lençol, numa — Começou a riscar os famosos quadros. As
poltrona, em cima de um arquivo. Em breve, do obras de arte, os retângulos quadriculados com oi­
que foram, resta a casca, a vazia aparência, inva­ tenta centímetros por quarenta. Três mil e duzen­
dida por tênues filamentos.) tos quadrados: três mil e duzentos dias. Esta foi

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a sua contribuição. Ao fim de cada expediente, (Certos parasitas invadem os formigueiras, co­
uma cruz seria desenhada em cima de um quadra­ mem todas as larvas e nem os oyos escapam à sua
do, três nas sextas-feiras, duas nas vésperas dos fome. Degradam as colônias invadidas, segregando
feriados. Para medir os dias que faltavam até à um mel que não nutre as formigas e embriaga-as.
aposentadoria. A essa época, já restava em você Estas, alheias a tudo, dedicam-se aos invasores.
muito pouco de mim. Outras se tornam escravas de formigas guerreiras.
— Tinha onze anos de serviço. Esta era a di­ Servem às conquistadoras, alimentam-nas, desdo­
ferença. Num emprego para o qual você — não eu bram-se em cuidados ante a postura de suas inimi­
— entrou, às custas de pedidos e influências. Lem­ gas. Elas próprias, contudo, não se reproduzem.)
bre-se bem disto. — Sua mãe procurava dar a impressão de
— Não para passar a vida inteira. Não para mártir. De uma santa. Nunca vi alguém mais
passar mais de trinta anos. Cruzes num papel! preocupado, neste mundo, em ter uma aparência
Eu quis produzir artefatos de ferro, este era meu angéUca. Devia, para isto, cheirar melhor. Seus
sonho. E você... Tudo isso me dá vontade de cho­ vestidos recendiam sempre a cachorro molhado.
rar. Fazer pequenas cruzes nos quadrados. Depois — Não é verdade.
de algum tempo, aqueles anos pareciam um ce­ — Foi seu pai quem me disse. A comparação
mitério. é dele. Nunca sabia nada, a ingênua. Tinha sem­
— Você fala como se alguém pudesse alegrar­ pre a cabeça meio pendida, como a das imagens
se em ver morrerem assim os dias. Mas tudo era baratas, e as mãos cruzadas no regaço. Ignorava
feito com cólera. Eu odiava aquilo tanto quanto os escândalos mais notórios. Para fingir que não
você. se ocupava dos assuntos alheios e ouvir mais uma
— • De que servia essa cólera morta? Um preso vez, com novos pormenores, o que já sabia. Sempre
é mais livre. Ele pensa num modo de escapar, mede admirando-se.
a altura dos muros, a resistência das grades, pro­ — Apesar dos pesares, era boa mulher e cari­
cura ver se os guardas são venais. Não se limita nhosa comigo. Quando eu me deitava, ela trazia
a contar os dias da sentença. Vocês faziam cruzes algodão e me punha nas orelhas, para as formigas
nos quadrados. Só. Imaginavam ser diferentes dos não entrarem. Insistia para que eu casasse. Con­
outros. E talvez fossem, porém não em coisas im­ tanto que ficasse na sua companhia.
portantes. Como todos eles, nunca tiveram cora­ — Sabia que mulher nenhuma agüentaria isto.
gem de ousar fosse o que fosse. Tudo girava em Sua maneira oblíqua de atormentar era invencível.
torno de proventos, gratificação, adicional, hono­ Um dia eu vi-quando seu pai indagou onde podia
rários, extraordinários, pro labore, rendimentos, encontrar o pó de enxofre; estava com um acesso
comissão, ^abono, vencimento, ordenado, remune­ de urticária. Em vez de dizer onde escondera o
ração, salário, recompensa em espécie, promoção, remédio, ela sentou-se e passou meia hora falando
interstício e aposentadoria. sobre lepra. Mansamente. Depois levantou-se, mu­

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dou de vestido, calçou os sapatos e foi para a igreja. — Não posso evitar: desde criança tenho pavor
Sem pentear os cabelos. desses bichos.
— Não é piedõSD falar assim dos mortos. — Imagine se você visse algum inseto caver­
J y Daqui podemos ver as cumeeiras das casas nícola, sem olhos, com as antenas maiores que os
e as torres das igrejas; o claustro de São Fran­ corpos.
cisco, deserto, com o Orbe Seráfico a descer do teto .— Nem quero imaginar.
de^madeira; as pedras lavradas da igreja do Carmo; — Ou as formigas processionárias africanas.
a águia bifronte com as asas abertas ante o púlpito, Erram através das savanas e florestas, devorando
na Santa Casa da Misericórdia. A sudoeste, sob o as plantas e os bichos. Até as árvores fogem espa­
luar, espraia-se o Recife, o casario ocupando as voridas.
ilhas e a planície, escalando os morros periféricos. — Peço que não volte a falar nessas coisas.
As luzes do farol giram com o rigor de planetas, — É um assunto que ninguém pode ignorar.
0 mar vai destruindo as casas dos Milagres. Estamos na época dos insetos; 750.000 para um mi­
— ■Quantas vezes, Mendonça, você terá feito lhão de espécies animais. Aviões rebocaram algu­
essa viagem diária entre Recife e Olinda? Não tem mas redes, feitas de malhas finas, fizeram uma lim­
também uma folha de papel, para marcar as via­ peza entre quatro mil e vinte mil metros. Onde o
gens com uma cruz? Há três anos e meio sua mãe ar é mais puro e mais deserto. Apanharam trinta
faleceu. Qual tem sido agora o impedimento? Você e seis milhões de insetos. Trinta e seis milhões,
me visita, sem objetivo, há 28 ano's. Giselda. Por isto eu havia começado a formular
— Para falar a verdade, não me habituei ainda uma interpretação para o caso dos vidras fratura­
à idéia de casar-me. Esses anos todos de convivên­ dos. Acho que são éles os provocadores.
cia com e la ... — Quem?
—- Por que noivou comigo então? Gastei mi­ — Alguma espécie de insetos que eu chegaria
nha vida nessa espera? talvez a identificar. As fraturas eram exclusiva­
^ Aparece na sala um escaravelho, voa sobre mente nas lâminas externas, isto é, no vidro Calo-
meus retratos, J bate no retrato de Giselda aos rex. 'As lâminas internas, as Athermanes, quando
trinta e poucos anos, cai no chão de pernas para apresentavam defeitos, era por causa do que se cha­
o ar, soergue-se. I Os dois emudecemos, olha­ ma “impacto mecânico acidental”. Ora, não existe
mos suas asas membranosas, de um azul quase nada, à exceção talvez de um burocrata, cujas rea­
fosforescente. Outro, e mais outro, vêm do cor­ ções sejam mais constantes e fatais que um inseto.
redor, ambos cor de laranja, com breves manchas — Certamente, Mendonça. E você é um exem­
negras. O primeiro ergue vôo novamente, todos se plo, por mais que pense o contrário. Nos seus
entrecruzam, batem nas cadeiras, na lâmpada, na primeiros anos de emprego, olhava para os com­
parede, no forro do piano, vão-se pela janela. J Com panheiros como se estivessem expostos a uma en­
um estremecimento, Giselda cruza as mãos. fermidade contra a qual você era imunizado. Como

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se fosse possível atravessar sem perigo um campo não chegaria também a restaurar o que houve de
de empestados. Falava nos portões que iria fabri­ melhor em mim?
car, nas grades para balcões, nos sustentos para (As vespas envenenam os porcos do mato e le­
jarros de flores. Ficávamos sentados à mesa, Juntos, vam-nos para seus ninhos, paralisados. Suas lar­
eu bordando o nosso enxoval, voeê desenhando os vas alimentam-se apenas de caça grossa e viva. Se,
objetos que pensava fazer. De súbito, eu escutava depois de haver aberto um túnel, sepultar o porco,
um rumor como o que fazem os relógios de parede, depositar os ovos entre os seus espinhos e fechar
antes de dar horas. Era você mesmo gerando-se o túnel, encontrar à entrada um bicho igual ao que
em seu ventre, outro, não mais um homem, outro, acaba de deixar, abrirá novamente a galeria, vol­
um fibroma de palha e de barbante, com seu voca­ tando a fechá-la quando vir o porco sepultado e no­
bulário reduzido e sagrado: requisições, modelos, vamente a abri-la ante o porco insepulto, repetindo
requerimentos, autos, instruções, alíneas e pará­ este jogo até cair de fadiga, incapaz de perceber
grafos. que existe um animal enterrado e outro sobre a
— É possível que tenha razão, Uma coisa, po­ terra.)
rém, eu consegui: pensar. Fazia tudo que era pre­ — As fraturas nos vidros do prédio não apre­
ciso fazer, mas apenas com as mãos. Por dentro, sentavam orientação preferencial ou distribuição
alheio à minha atividade, eu zombava das obriga­ regular. Mas havia uma ordem, uma mecânica, um
ções. Há percevejos-do-mato que vivem até um compasso como o dos insetos: em todos os andares,
ano sem cabeça. Todos os meus companheiros são
assim. Eu, não. Não me compare com eles. Odeio
do i.° ao10 .°, observava-se maior freqüência de Ja­
nelas fraturadas no segmento Leste da face Norte;
e desprezo aqueles pobres de espírito, que atribuem no segmento Norte da face Oeste; e no segmento
mais importância às instruções que a si próprios. Oeste da face Sul. A freqüência de vidros fratu­
Desistiram todos de pensar; os regulamentos pert- rados diminuía gradativamente em direção oposta
sam por eles. Ao sentar-se nas carteiras, sentem a cada um desses segmentos.
que representam a Instituição, quase no mesmo ^ O de cabelos grisalhos parece interessado,
sentido em que o Papa representa a Igreja. São tem 0 ar de um pai que assiste o filho prestar bom
intocáveis e não erram. Através deles os códigos exame:
se transformam em ação, qualquer coisa de cego — E a face Este?
e de concreto. Uma sentença. Toda despacho, todo — A face Este não é provida de Janelas. Mas
carimbo, todo selo, é uma sentença necessária e tudo indica que, se as possuísse, as mais atingidas
inflexível, um ato que se cum.pre obrigatoriamente seriam as do segmento Sul. Pode muito bem haver
e que ninguém pode violar sem perigo. Por isto eu algum motivo para que a espécie de insetos respon­
me prendi à tarefa das janelas. As manchas tinham sável pelos estragos nos vidros tivesse inclinação
formas que não se assemelhavam a selos nem ca­ pela aresta esquerda das superfícies verticais envi-
rimbos. E quem sabe se, através desse trabalho, eu draçadas. Em Lima houve um edifício onde se
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observou o mesmo fenômeno. E as abelhas não exe­ frígido silêncio desta sala. Eu e Mendonça tínha­
cutam, para indicar a fonte de alimento, uma dança mos os dedos enlaçados; estávamos assim há muito
complexa e exata, relacionada com a posição do tempo, sem falar, e nenhum sentia a mão do outro.
sol? Assim, os insetos e a água se conjugariam Então ele surgiu, Mendonça aos dezessete anos,
para arruinar o prédio. A título de experiência, como surgiram há pouco esses besouros. Entrou
tentei evitar a entrada de água pelas gaxetas, ve­ sorrindo, abriu o piano, correu os dedos pelo te­
dando as bordas com mástique. Em algumas jane­ clado, perguntou se íamos casar. Mendonça pare­
las, mandei substituir o par de lâminas por uma cia não vê-lo, respondi que sim, ofereci-lhe um
só lâmina de Calorex de seis milímetros de espes­ cálice de licor.
sura, fixada com neoprene ou com massa não endu- — Vocês já estão velhos demais para começar
recível Igás, com bagueta. Veja bem: as janelas alguma coisa.
substituídas e não tratadas com mástique, apre­ ^ Poi nesse momento, numa iluminação, que
sentaram um espectro de umidade na superfície percebi minha ruína. Estava noiva há vinte e qua­
interna, das gaxetas; as outras resistiram à pene­ tro anos e de modo algum tencionava ainda casar­
tração da água. Mas tanto umas como outras con­ me com este homem. Eu já 0 decidira. E não sabia.
tinuaram a apresentar fraturas, naquele mesmo — Que terá sido feito de Eaquel?
ritmo. Em algumas zonas fraturadas havia restos Ouvi dentro do homem, cujos olhos feriam
de matéria orgânica. Isto foi provado em exames com desprezo e náusea o adolescente, um rumor de
de laboratório. Então pus-me a ler sobre insetos mola que se parte e vibra distendida, abafado ran­
daninhos. Os que transmitem a peste, o cólera, o ger de parafusos, de pregos arrancados. Respondeu
tifo, a tracoma, as disenterias, os sugadores de sei­ em voz quase inaudível:
va, destruidores de frutos, roedores de sementes, — Não sei quem era Raquel.
comedores de folhas, de raízes, os inimigos dos ani­ — Como não sabe? Lembre-se. Poi naquele
mais domésticos, os que invadem continentes e fla­ ano, logo depois da Guerra, quando reviveram a
gelam regiões inteiras. Não encontrei referência a Festa do Frontispicio, na igreja da Carmo. A de­
nenhum que destruísse os vidros. Mas aprendi uma voção da imagem no nicho da fachada. Todos de
coisa que me atordoa. Eles resistem a todo e qual­ joelhos sobre as lajes do adro, á noite, rezando a
quer tóxico e serão, um dia, os senhores da terra. ladainha. Como não se lembra? Ela estava junto
Não é sem motivo que você estremece quando vê de você. Você rezava dos dentes para fora. Pensou,
um besouro. quando ela sorriu: “É uma rapariga.” E ficou
^ Que importa, se não existirei e se de mim trêmulo. Não conhecia mulher.
não haverá descendência? Eu seguia de ônibus, y Ao meu lado, o barulho de metais era bem
quando vi o pássaro: voou sobre a relva e alteou-se nítido e mais assustador: íolhas de zinco dobradas
em direção à igreja. Poi nesse dia que o adolescente pelo vento.
apareceu, suas campainhas soando com alegria no — Não conhecia, Giselda. Foi ela quem tomou

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a mão dele e chamou: “Vamos.” Saíram pela por serem tão pequenos, têm probabilidades enor­
Gamboa do Carmo como namorados, dobraram a mes de sobreviver. Matam a sede numa gota dágua;
Travessa de São Pedro, cruzaram o Pátio, entra­ nxim fragmento de palha escapam às Inundações.
ram por um matagal, ficaram nus. Ela forrou Só há uma esperança: a extinção de numerosas
0 vestido no capim. Ele pensava nas cobras, mas formas foi precedida de uma tendência para o gi­
deitou-se. Quando explodiu a girándola, Mendon­ gantismo. Crescer, para eles, é um inimigo mais
ça estava sentado e só então viu o corpo da mulher, fatal que os pássaros, os batráquios e os répteis.
estendido no chão. Debruçou-se, Giselda, e beijou Nenhuma espécie de mimetismo os defende contra
aqueles pés empoeirados. Então, começou a cho­ crescer muito. E inúmeros insetos estão crescendo.
ver. Ele deitou-se novamente e disse: “Vamos Descobrimos, esmagados contra uma janela, dois
ficar aqui, Raquel. Vamos nascer sob a chuva, odonatos. Suas asas, cheias de nervuras grossas co­
como- duas sementes.” mo veias, eram maiores que as de uma andorinha.
— Amaram-se outra vez? ^ Os dois antigos Mendonça, hoje tão silentes,
— Isto. Amaram-se outra vez. erguem-se, dão-me adeus. É sempre assim: nunca
y A narrativa exaltara-me. Mas eu não sabia se vão ao mesmo tempo este Mendonça e os outros,
se era o acontecimento ou o próprio Mendonça que nunca chegam juntos e èles jamais aparecem sozi­
me comunicava o ardor dos dezessete anos. Seu nhos. Na soleira, o mais jovem se volta para o
júbilo aderia a tudo, os móveis pareciam mais’ no­ velho:
vos, a sala mais clara, o piano ressoava às palavras — Não são os insetos que invadirão a terra. E
lançadas com mais fõrça. Até sua perfídia brilhava sim os burocratas, Mendonça. Imagine que mun­
como um sol. Naquele instante me lembrei do pás­ do. Depois de trinta anos, você nem sequer teve
saro — houvera-o esquecido — e achei que devia de quem se despedir.
evocar tão raro e simples acontecimento. Vou de J Ela fecha a porta, senta-se à minha frente.
ônibus. Ao passar ante o Colégio da Sagrada Famí­ Em bandos espessos, verdadeiras nuvens com a ex­
lia, um pássaro deslisa sobre a relva e, erguendo tensão de uma cidade grande, alguns, sem motivo
vôo, orienta-se em direção à rosácea da capela. Com plausível, cruzam os mares, percorrendo milhares
0 movimento da ônibus, há um instante, uma fra­ de quilômetros, até se dissolverem. Certas espécies
ção de segundo em que o vitral chameja, refletindo não comem durante a migração, conduzidas por
0 sol, numa palpitação breve e cegante. No centro um impulso maior do que tudo e composto de to­
dessa chama está o pássaro suspenso. Ofuscada, dos os impulsos que constituem a sua natureza;
não mais o vejo e tenho a impressão de que ele foi comer, cruzar, repousar, tudo se transforma em ir.
consumido por aquela pulsação, engolido ou redu­ O bater de suas asas pardas ouve-se à distância.
zido a cinzas pelo vidro em fogo. Não sei mais como é o rosto de Giselda, nem o des­
— Podemos descobrir defesas contra a água, cobrirei nesses retratos onde ele se desfez, de mecha
Giselda. Mas não contra os insetos. Justamente sobre a testa (à Clara Bow?), com franja negra,

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ruiva, de sobrancelhas altas, de olhos espantados, — Não. Não houve nada disso.
parte do rosto coberta pela cabeleira lOTira, e os — Fiquei sozinha, escutando ainda aquele som
cantos dos lábios voltados para baixo, imitando não de prata, que repercutia pelo corredor, e asseverei
sei que celebridade, seu último ídolo, liame final a mim mesma que não me casaria com você, e que
de seu espírito com um mundo mais alto, onde aspi­ só a esperança de revê-lo aos dezessete anos impe­
rou viver mesmo depois de extinta a juventude. diria romper este noivado. Como você envelheceu,
— Você acha, Giselda, que o tempo traz obri­ Mendonça! Por que só ouço agora, em sua alma,
gações? rangidos de ferragens?
— Acho que quando não se tem substância, (Os insetos parecem criação de algum gênio
tudo é pretexto para negações. Você foi um fra­ ocioso e imaginàtivo. Corpos esféricos, em forma
casso. de gravetos, de sementes, de moedas, a cabeça alon­
— Devia ter visto o problema dos vidros? Até gada como faca, ápteros, de asas estendidas ou
deslmdá-lo? incrustadas no dorso, armados de pinças, de bro­
— Devia ter-se ligado realmente a alguém. Ou cas, de aguilhões, de mandíbulas, olhos facetados,
a alguma coisa. Você tem vivido como um doido que antenas, as pernas curtas, ou longas, ou incontá­
passasse vinte, trinta anos numa estação, sem de­ veis, negros, coloridos, mudos, vozes da Noite,
cidir-se a tomar o trem ou a voltar para casa.
cantores do Verão, úteis, predadores, habitantes
— Se é isto 0 que pensa de mim, acho que
das águas, da superfície, das profundezas, do ar,
devo ir embora.
eles, mais do que nenhuma outra espécie viva, son­
— Há quatro anos queria romper este noivado.
dam as possibilidades do mundo.)
Desde 0 dia em que o vi aos dezessete anos. Lem­
— Devem ter sido estes anos todos de ressenti­
bra-se?
mento que mataram o que havia de melhor em
— Não.
mim.
— Contei a história do pássaro que voou até
à altura da rosácea e que desapareceu dentro do — Não existem mais cidades inexpugnáveis.
Mas um homem, para ser saqueado, tem de .abrir
brilho de um vidro. Você me olhava, com seus olhos
os portões.
quase de criança, como se eu nâo houvesse concluí­
do. Então você levantou-se e esmurrou-o. Foi como — Talvez houvesse gasto as minhas energias
se agitasse uma porção de campainhas, como se ba­ no esforço que fiz para me defender. Não queria
tesse em tubos de prata. Não se lembra? Nenhum ligar-me àquela gente. Não era como eles e detes­
dos dois gritava nem gemia. Você abriu a porta, tava 0 que eram. l u pensava. Pensei até o último
foi embora com as suas campainhas, você disse instante, e o Chefe sabia. Sabia que eu desprezava
três ou quatro palavrões, apanhou o chapéu e saiu todos os gestos mecânicos, Foi por isto que me con­
sem despedir-se, com dez polias zumbindo no seu fiou 0 problema dos vidros. Mas compreendi o ardil
coração de pó. Não se lembra? e fui embora. Pus o paletó, afastei a cadeira.,.

200 201
— Agora, não precisa pôr o paleto. Nem afas-
tar o sofá. Também não é preciso despedir-se.
y Duas aranhas saem, da boca de Mendonça,
descem pelo ombro, saltam, para o chao, um grüo
põe-se a cantar. Mariposas giram em torno da lám­
pada. Pela janela aberta entra zumbindo uma nu­
vem de mosquitos. Na veneziana fechada aparece
uma lagarta, gafanhotos pousam no sofá e na mol­
dura do espelho. Na face exterior da vidraça vejo
um louva-a-deus olhando-nos. Três besouros enor­ Perdidos e Achados
mes irrompem zumbidores. Formigas vermelhas
passam por baixo da porta, seguem em fila cerrada
na direção do meu quarto. Enorme borboleta azul
adeja sobre nós. Sinto na perna esquerda o rastro
de uma centopeia.
— Você não voltará a ver-me, Giselda. Em ida­
de nenhuma.
^ Passa poT mim, com seu barulho de corren­
tes arrastadas, de arame farpado rasgando couro
de bois, de argola de rede gemendo ao peso de mor­
tos soprados pelo vento. I^echo os olhos e recordo
os alegres rumores cuja volta esperei em vão ao
longo destes anos, sinetas de colégio, guizos, mara-
cás, sons de brinquedos de corda, balanço de crian­
ça rangendo compassadamente em sombreados
galhos de mangueira.

JUvaro de Soaza Melo P,°s


Antônio A. Macedo Lima,
Ernâní Bezerra,
Lauro de Oliveira e
Eoderieo Queiroz.
PRAIA é uma terra de ninguém que as águas
perdem e reconquistam. Regidos pelo ciclo
das marés, os bichos que povoam esta fronteira e
que na origem foram habitantes do mar, desde
muito aceitaram a ingrata condição de seres dispu­
tados pelos mundos talássico e terreno, Se alguns
perfuram galerias para esquivar a invasão da mon­
tante, outros aderem aos seixos, imobilizam-se
entre as pedras úmidas, asilam-se nas poças, Há
os que absorvem uma reserva dágua e que morrerão
ressecos se ficarem ao sol por demasiado tempo.
Bichos que vivem em conchas, fecham-nas; muitos
penetram na areia úmida. Solje a maré, invade ga­
lerias, tritura seus habitantes, traz os peixes gran­
des, ágeis, ceifadoreSj de olho vigilante e dente
sôfrego. Tudo revolvido, sobrevêm a vazante, afas­
ta-se 0 fragor da ressaca, vão-se os peixes. Descem
então sobre as anémonas ocultas entre as rochas,
sobre os moluscos e crustáceos miúdos abrigados
nas águas mortas da praia, sobre os fugitivos das
inumeráveis galerias que reaparecem medrosos en­
tre conchas ocas e fragmentos cuspidos pelo mar,
descem, mais vorazes que os peixes, as sombras das
aves costeiras — agudos bicos, os olhos terrestres.

— Onde está meu filho?

205
— Não sei. 0 Mantê-lo sob vigilância. Dentro do possível,
— Quantos anos? seguir com todo rigox seus passos e palavras, regis­
— Sete e poucò, louro, calção verde. trar a evolução daquele desespero. Observar, como
•— Não vi. um resumo, em poucos minutos, o que cedo ou tar­
— Há dez minutos éle estava aqui, jogando de sobrevêm a todos, mas se processando em anos:
bola. reconhecer que um bem essencial nos foi arreba­
0 Ali, sentado na areia, em roupa de banho, tado. Ele ainda está bem longe disto. Hesitante,
junto à grande barraca de lona azul que nós pró­ um rosto perscrutando o mar, outro batendo a ave­
prios, do clube, armamos bá duas horas e meia, nida, dois ainda procurando ver o mais longe pos­
vejo quando Renato, a três metros de mim, diz- a sível na praia ensolarada, cheia de toldos, de ba­
última írase. Está de pés descalços, calção negro, nhistas e de vendedores ambulantes, seu espírito,
camisa vermelha e tem a mão direita estendida, in­ tomado pela idéia de que o filho está morto, e
dicando 0 tamanho do menino. Será por ter perdido confortado pela não perdurável esperança de que
muitos bens, e não ter forças para viver o que em dentro em pouco irá reencontrá-lo, assemelha-se à
troca me foi dado, que então me enche a boca uma praia, que as ondas cobrem e abandonam, tornam
alegria raivosa, uma esponj^ de mel e amoníaco? a invadir. Envergonhado de sua própria pergunta,
Tendo presente a noite em que fui sendo despoja­ pois fazê-la é propagar seu temor e dar-lhe consis­
do, um por um, dos objetos que trazia comigo, para tência, dirige-se a algumas pessoas, sorrindo e
em seguida perder bens ainda maiores, observo pondo a mão na altura que seria a dos cabelos do
quando seu rosto se fende com um ruído seco, tal filho, e as respostas são sempre discordantes, um
nos dias de calor intenso os vidros emoldurados. apontou para o norte, outro para o sul, houve ges­
V Estendida na areia, também eu cor de areia, tos vagos, negativas, alguém alonga a braço para
sob o guarda-sol de gomos amarelos, observo o ho­ 0 mar.
mem à sombra da barraca. Enquanto o outro fa­ Q j Assim como um zumbido, gerado no âmago
lava, pedindo informações sobre a criança, um de muitos outros rumores, atravessa-os, sem his­
dispositivo qualquer foi posto a trabalhar nos seus tória nem destino, surgirei em minha bicicleta,
olhos, transformados de súbito em órgãos penetran­ lentamente cruzarei a praia, tendo à minha es­
tes, sem piedade alguma, como os dos animais ca­ querda as ondas altas, à direita os carros na aveni­
çadores. Quase não me lembro de meu pai, vi-o da, os edifícios, os consulados com grandes bandei­
poucas vezes, seu verdadeiro lar talvez fõssem os ras hasteadas. Violarei, entre pragas, a área onde
navios de pequena e média cabotagem, suas visitas rapazes jogam futebol, verei Jangadas no mar e em
não eram muito freqüentes, nem demoradas, mas repouso na areia, navios ancorados, barcos a motor,
assim olhava para todas as coisas: como se estivesse a mulher deslizando sobre as águas, crianças flu­
a ponto de saltar sobre elas. XJm rosto raro. Valia tuando em animais de plástico, velhos boiando em
a pena vê-lo ao menos uma vez na vida. câmaras-de-ar, a esquadrilha de jatos fazendo

206 207
acrobacias; passarei por vendedores de mangabas — Não. Puxaram a mim, os meus. Gostam
era cestos, de cajus em tranças, de cocos em bar­ de mecânica e de praia. Vamos mergulhar?
racas, de tanjerinas em cachos, carroças de sorve­ — Depois.
tes, de refrigerantes, guarda-sóis, esteiras, toalhas, — Por que depois? São onze e quarenta. Da­
bolsas de vime, duplas com tênis de praia, grupos qui a meia hora chega nosso ônibus. Não temos
com petecas de plumas, times jogando volley, ba­ muito tempo. Vamos. Dizem que a vida começou
nhistas deitados, furando as ondas, outras bicicle­ no mar. Voltemos à origem.
tas, chapéus em forma de dalias, de cones, de A Começou no mar? Exatamente onde, se
pássaros, de caixas, noivos escrevendo no chão, antigas montanhas Jazem sob os oceanos e se es­
mães batendo nos filhos, crianças procurando con­ queletos marinhos aparecem por vezes em grandes
chas, fazendo casas de areia. Tudo cruzarei, regis­ altitudes? Ignoro como pude haver cedido à Insis­
trarei, sem que ninguém me lance o mínimo olhar, tência, que sequer foi muita, e estar banhando-me,
desaparecerei como termina um zumbido, para se não vejo meu filho, se ninguém me dá informa­
nunca mais ser recordado. ções sobre êle, se é provável que esteja há poucos
— Tudo bem, Renato? metros de mim, o rosto na areia. P ot todo o longo
— Mais ou menos. período cambriano a terra era deserta: a vida con­
— Que tal os aviões? finada às águas sem peixes. Nenhum vertebrado.
— Não prestei atenção. Estou apreensivo Moluscos, esponjas, medusas, longos trilobitas va­
com. . . rejavam as espessuras marinhas, à deriva. Não
hatiam surgido os bichos nadadores. Calva, estéril
— Você chegou a ver o Zeppelin?
e morta, como nos tempos de que nem os fósseis
— A fotografia. Saiu nos jornais.
têm memória, assim revejo agora a terra sem meu
— Eu era bem pequeno, mas me lembro.
filho. Urge sair, gritar, mover-me na praia, assumir
Aquilo, sim. Não sei por que não continuam fazen­
de uma vez a condição de homem sdbre quem des­
do zepelins.
cem 0 bico e as garras do infortúnio, para que todos
— Também não. Meu garoto.. . saibam e ajudem-me. Ainda que a procura não
— É isso... Tudo muda. Imagine o que hão me sirva de nada.
de ver os nossos filhos. 0 Os infortúnios desabam soore a cabeça dos
— Onde estão os seus? homens? Antes, em nossa cegueira, neles nos pre­
— Ali, tomando banho. cipitamos, como quem se joga num porão. Jamais
— Nenhum quis ver a parada de 7 de se­ somos alheios ao que nos sobrevêm. Poderia eu,
tembro? quando levava minhas filhas a passeio nas tardes
Não. de domingo, oferecendo-lhes papoulas arrancadas
O meu, queria. Gosta de passeatas. Você de sobre os muros de tijolos ou sentando-me à relva
0 viu há pouco? com um volume de Horácio, enquanto elas brinca­

208 209
vam ao sol, poderia então imaginar que já estava se isto não me ajudará? .Dirige-se para as Jangadas
em marcha para o momento ainda longínquo em em repouso.
que de repente viria a perdê-las? E como adivinhar, V Nosso pai, também desaparecido no mar,
ao sair de casa naquele entardecer, para festejar não chegou a ver o último filho, nascido três se­
em segredo o aniversaria de Z. I , que perderia uma manas após a sua morte. O capitão do cargueiro
porção de coisas, salvando pouco mais que a vida nos visita: “Ele nadava bem, apesar da idade.
e recebendo algo que a minha tibieza não me per­ Deve ter sofrido uma tontura, tropeçado. Aciden­
mite acolher? Ignorante de tudo, favoreci e engen­ tes sucedem a todos. Demos busca, o dia era esplên­
drei meus próprios movimentos, preparando com dido. Dez minutos antes éle fora visto cortando as
cuidado, ponto por ponto, aquele desastre, nem se­ unhas com a faca, entre a ponte e os barcos de
quer reconhecendo estar no âmago da desventura, salvamento, Na 'verdade, procuramos bastante.
quando esta já fora consumada. Zelosamente, o Decidi vir em pessoa, dar-lhe os pêsames. Se puder
destino oculta suas obras, sendo quase sempre ne­ fazer alguma coisa. . . ” Por isto, sei o que é a
procura désse homem. Não decidiu ainda transmi­
cessário, para descobri-las, varar muitas camadas
tir sua inquietação'. Em torno do local onde notou
de insciência. Diante de Renato rasguei-as mais
a ausência do menino e que assumiu, em seu espí­
veloz que os demais: precedo-o no conhecimento
rito, a função de centro imaginário da aflição, vai
de sua penúria. Acompanharei — experiente, sábio
traçando elipses concêntricas, ampliando calado —
e ainda sem misericórdia — sua luta contra a acei­
ou falando sozinho — sua busca. Assim vejo o car­
tação do que está cumprido. Tal um invasor no
gueiro, abrindo uma espiral com a proa, por causa
pátio do futuro, esperá-lo-ei vigilante, não perde­
de meu pai morto no Atlântico. Todos os seus do­
rei nenhum de seus passos. Esquecerá quase tudo
cumentos haviam ido com ele; as repartições não
que Já fez ou irá fazer nos próximos momentos: o conservaram seus retratos; também não possuía­
diálogo sobre dirigíveis, seu banho extemporâneo, mos nenhum em casa. Vinte anos depois, meu
a indiferença de todos, esta corrida que iniciou para irmão, compelido a fixar num rosto seu repentino
a esquerda, retrocedendo em seguida, abalando amor pelo pai nunca visto, iniciaria outra procura,
para a direita, detendo-se, levando as mãos ao rosto atrás de uma fotografia que soubera existir em Se-
(primeiro gesto aflito), galgando o monte de areia rinhaém, Goiana e Flores do Indaiá, terras natais
e devassando do alto a praia em festa, para avan­ de meu pai, onde meio sécula antes ele fizera a
çar em direção a um menino que brincava à dis­ Primeira Comunhão, ao mesmo tempo que vários
tância, logo reconhecendo não tratar-se do seu, o outros meninos. Desse acontecimento, havia uma
que provocou uma exacerbação de movimentos, pose em sépia, vinte e cinco rapazinhos de branco,
seguindo-se uma fase de estupor e um repentino hoje quase todos desaparecidos,
avanço rumo à evidência. Registrarei com minú­ A Em paz, estas jangadas voltaram, todas, do
cias suas idas nas trevas, suas vindas. Quem sabe mar alto. E meu filho sugado' pela orla? Depois

210 211
do cambriano, grandes como homens, e até maio­ fiança ou o braço, ou o ardor, ou os bens de raiz,
res, surgiram os escorpiões marinhos. Multiplica­ ou a identidade, ou o emprego, ou o juízo, ou o
ram-se, instauraram nas espessuras salgadas seu rumo, ou a força, ou a vida, ali estamos farejando
reinado. Nadavam lentos, com as patas abertas, um morto. Alguém olha o relógio, onze e quarenta
semelhantes a grandes serafins agressivos. Milhões e oito, nesta mesma praia marcamos um encontro
de anos mais tarde, consumado o ciclo de sua pas­ eu e Z. I., para assistir ao despontar da lua. Levo-
sagem flageladora, transportaram-se para as águas lhe rosas, faz quatro anos que nos vemos em lu­
doces ou salobras, abrigaram-se já sem grande po­ gares desertos e sombrios, numa espécie de lirismo
der nos estuários, rios, lagoas e lagunas, No per- estéril. Nem sequer nos tornamos amantes, apenas
miano haviam desaparecido. Mas ainda no ciclo discutimos sobre tal problema. Nossas entrevistas
anterior, quando a fauna marinha diversificara e são ternas e aflitivas, os beijos exaltados, terríveis
peixes anfíbios se arrastavam nos pântanos, eies do­ os adeuses. E que fazemos para alterar o que exis­
minavam. Este mar que talvez haja levado meu te? Não nos decidimos a romper, nem a nos ligar­
filho é para mim como as águas de apôs o cambria­ mos de uma vez. Culpamos nossa delicadeza, repe­
no, cheia de escorpiões com palmos de tamanho e timos que jamais seriamos felizes ao preço de
aguilhão irado, parecendo anjos de asas secas. sofrimentos alheios: nossa paixão se nutre da
— Começando a enervar-me. Não acho meu indulgência com que nos contemplamos. Jogo do­
menino. loroso, no qual vou-me enredando, ignorando —
— Deve estar por a i cada vez mais — o que há de imaginária nele. Z. I.
— Vou procurar com você. Vamos também? não veio à praia. Faltar algumas vezes, por remorso
— Pra onde? ou pudor, a encontros longamente esperados, faz
— O filho de Renato desapareceu. parte do ameno ritual que criamos. Chegar com
— Quando? grande atraso, testificando assim a hesitação, é
— Mais de meia hora. Que é que eu faço? outra cerimônia. Tenho esperado duas horas se­
— Siga nesse rumo; eu caço do outro lado. guidas por Z. I., para afinal ir embora ou vê-la
Mas não vá sozinho. aproximar-se, num caso como no outro imerso em
0 Será importante o que vai ocorrer: a decla­ êxtase. Respiramos prazeres cultivados e sofrimen­
rada ampliação da busca, a precipitação do terror. tos que não golpeiam fundo. Preciso de Z. I, para
Devo testemunhar estas coisas. Atravesso com Re­ sentir-me vivo, sendo indispensável, à economia do
nato a praia, o negro mar de um lado, de outro os meu ser, que os encontros secretos e os telefonemas
prédios com seus vidros lilases, a avenida com ru­ em voz baixa, entre os quais, não raro, passam-se
tilantes veículos. Ali estamos, lado a lado, na areia muitas semanas e até meses, ocorram sobre a plá­
cor de sal, entre pessoas que também perderam cida e segura courente dos meus dias, e que eu os
filhos ou relógios, a juventude ou oportunidades, a recorde entre a família — minhas três filhas, mi­
coragem ou os dentes, os pais ou o dinheiro, a con­ nha esposa prosaica e afetuosa — os cinco sob a

212 213
lâmpada, ante as porcelanas, talheres e cristais da João de Barros, Ponte do Maduro, da Tacaruna.
mesa de jantar. Sozinlioj vejo a lúa nascer, jogo Muitas vezes eu e Z. I. lá nos encontramos, nos
as rosas ao' mar. Não em vão: revelarei a Z. I. éste espaços de sombra entre essas pontes, como tantos
meu ato. Tocada, marcará um encontro à margem amorosos cujos vultos perpassam, esquivos, rostos
do canal, para comemorarmos seu aniversário, e baixos, entre batráquios, répteis, cavalos soltos e
então será o fim de minha vida cômoda e bifronte. nuvens de mosquitos. Renato está de volta. Com
Começaram a falhar os nervos de Renato. Perce- extremo cuidado, repõe a bicicleta, nada me fala a
bo-o pelo modo seguro como age, á maneira dos respeito da busca. Sua cara partiu-se em dez pe­
que são mais compostos bêbados que sóbrios. Seu daços. Tem os olhos vidrados, a camisa na mão, o
desesptíro ^avultou, multiplicou-se, andar lhe pa­ calção úmido. Meninos brincam. A bola, atirada
receu de súbito* um recurso precário. Apossou-se de alto, bate no seu ombro. Volta-se, chuta-a em di­
uma bicicleta cujo dono está sem dúvida no mar, reção ao mar com violência, insulta as crianças.
caiu por duas vezes, equilibrou-se por fim, pedala Põe-se a gritar pelo nome do filho. Os meninos
sinuosamente. Fico no local, porei o dono, caso correm amedrontados, ele continua a lançar o no­
surja antes dele, a par do que sucede. Pedirei me ao vento, pede-me que o imite, grito sem con­
desculpas. vicção. Assim estou chamando por Z. I., aquela
A Escorpiões verdadeiros, ancestrais dos que noite, vendo-a afastar-se e certo de que não me
existem hoje e precursores da vida nos continentes olhará de frente. Nunca mais. Uma sii’ena vibra
desertos, apareceram no siluriano. Então, de ma- não sei onde, é meio-dia, a esquadrilha de jatos
lacacheta, lama, luz refratada, escuridão e sal, surge novamente, cruzam atroadores a praia em
formam-se os peixes, vorazes desde o começo. En- vôo raso, no mesmo instante os navios de guerra
tredevoram-se e a cada milênio são mais numero­ disparam seus canhões, o horizonte -se enche de
sos. Grandes convulsões modificam a terra, pro­ fumaça, os estampidos das salvas abalam chão e
montórios submergem, lagos ficam secos. Mares casas, Renato continua a gritar, ninguém ouve o
esvaziam-se. chamado, eu silencio.
0 O canal atravessa o Recife, do Derby a San­ V Duas antigas beatas da cidade, Anita e Al­
to Amaro, como um bicho cego e poderoso. Lento e bertina, uma das quais toca rabeca e órgão, têm a
pertinaz, avança, contorna a Boa Vista, quase não fotografia: nosso pai e seus companheiros, todos
faz voltas, vai cortando ruas, praças, avenidas, com de branco, os círios apagados. Isto meu irmão ou-
suas águas podres, fosso interminável e mais devas­ viii dizer. Na sala de visitas, Junto à igreja ma­
tador que 0 tempo. De um lado e outro cresce o triz, entre velhos móveis e um candeeiro aceso, de
mato, medram arbustos selvagens, proliferam ca­ vidro azul, ele interroga-as. V Mães indo buscar as
sebres. Nenhuma lâmpada, salvo nas dez pontes; crianças dentro da água ou na areia, trazendo-as de
Paiçandu, Ponte das Fronteiras, Pequena do Derhy, arrasto pelo braço, algumas pela orelha. Vê-se o
três do Parque Amorim, Ponte do Espinheiro, de orgulho estampado em seus rostos: arrancaram os

214 215
filhas à morte. Diálogos de susto, ressentidos, esta­ pam entre as ondas. Com suas quilhas de prata,
lara entre elas. V As duas virgens de branco quase remas de fogo e enormes velas esplendentes, cen­
nada sabem, confundem nosso pai com outros me­ tenas de galeras atravessam devagar o espaço,
ninos. Os cabelos de uma fizeram-se grisalhos; os refletem-se no mar. O anfíbio cresceu, avança, in­
da musicista, apesar dos cinqüenta, continuam
vade-nos, ilumina-me por dentro, fecho os olhos e
amarelos, cor de papel velho. Esta, sem nenhum
me vejo como se vê um ovo contra o sol. Até as casas
motivo, emite a curtos intervalos uma risadinha
fechadas acenderam-se, mesmo os porões estão
crocitada e rouca, de papagaio ou de rasga-morta-
claros. Breves diálogos, dentro desta luz tão densa
Iha. V Uma das zelosas mães não encontrou a
e absurda que, por um momento, nada consigo ver:
filha, correu em lágrimas para a barraca,, todos se
“Quantos minutos faltam para o ônibus?” “Dez
precipitam, falam rápido. Um componente do clu­
ou quinze.” “Quantos são os dentes do Leviatã?”
be embriagou-se, faz um passo de dança em frente
ao grupo conturbado, oferecendo cajus que só as “Quatro na arcada superior, doze na inferior, vinte
crianças aceitarão. V As paredes das beatas, cheias e quatro na intermediária.” “E Renato? Espera­
de estampas sagradas, o estojo da rabeca em cima mos por éie?” “Certamente não.” V A dos cabe­
de um consolo. Ambas trazem no pulso um rosário los de enxofre lança mais uma vez seu riso. A outra
de contas brancas. Négam ter visto a fotografia. pôs uma gaveta Junto ao candeeiro, mostra as foto­
Limitam-se a fazer, para meu irmão, o retrato de grafias que possui. Congregadas maríanas em
nosso pai aos treze ou quinze anos, semelhante ao torno do vigário, avisos de falecimento, Guy de
de qualquer adolescente. O sino da igreja bate nove Pontgalland, vestidos brancos, negras, botas de
horas, elas persignam-se, a do cabelo amarelo volta can'0 alto, cachos, bancos de vime, portões de ferro,
a rir. V Propagou-se a noticia de que um menino cães, cadeiras, ramalhetes. Não sabe os nomes des­
se perdeu e de que talvez seu cadáver apareça de ses fantasmas, não reconhece ninguém. A rabe­
súbito na praia, jogado pelas ondas. Esta parte do quista se curvou também sobre os retratos, nada
mar, feita câmara ardente, começa a esvaziar-se. acrescenta às incertezas da irmã. Soluçam as duas
As pessoas conversam, olham em direção à barraca virgens sobre aquele mundo que testemunharam
azul do clube, algumas vieram sondar o que se pas­ e do qual sabem pouco. “Não nos lembramos de
sa, outras se afastaram. V A dos cabelos grisalhos nada. Pode levar os retratos com você.” V De ex­
diz a meu irmão que Jovina Veras é quem deve pos­ plosões, de gemidos, estremece a manhã. Conste­
suir o retrato onde se vê nosso pai. Mas Jovina lação perfurante, sete aviões rasgam os ventos.
mudou-se, está morando com o irmão, num sítio. Garrafas, pratos, xícaras e copos dançam nas prate­
Onde? Não sabem exatamente; fora da cidade. leiras, facas e conchas vibram nas gavetas, param
Vão rezar para que meu. irmão ache o que pro­ relógios, quadros vacilam nos ganchos, rompem-se
cura. V A claridade ergueu-se do oceano como um cristais. Entre as fuselagens e o ruído abalador que
grande anfíbio, egresso dos abismos. Punhais chis- se expande sobre terra e mar, constato a mesma

216 21?
relação que existe entre o bico e o corpa de um — Isto é o pior. Não me lembro.
pavão com seu leque de plumas alteado. A Os que foram procurar meu filho do outro
lado da praia já voltaram. No carbonífero, cres­
Um cinturão existe, bordejarído a terra de nin­ cem as árvores e os insetos gigantes, multiplicam-se
guém, nunca descoberto pelas águas, maior que besouros, formigas, as florestas, borboletas de asas
seja a vazante da maré. Habita-o, há milhões de grandes como ventarolas pastam nas campinas.
anos, uma fauna de seres indolentes, temerosos de — Não me lembro. As vezes me parece que foi
aventuras e alheios à mudança, indecisos entre bi­ brincando na areia; às vezes tenho a impressão de
cho e planta, entre os continentes e os mares. Um que ele me chamou e eu não me voltei.
peixe invade esse país arcaico e mortal, Juncado de — Como é que você fica na praia, com um mar
longos cilios vibráteis, de tentáculos iguais a sa- brabo desse, e perde o filho de vista?
mambaias e de cabeças semelhantes a cálices. De A O mar voltava a cobrir a terra que perdera,
súbito, atingido por flechas, já não pode mover-se. peixes vinham nadar entre os ramos das árvores,
Também o matador não sai do lugar: espera que as outras florestas eram conquistadas, morriam afo­
águas tragam a vítima ao alcance de sua apatia gadas, petrificavam-se. Os peixes eram os pássaros
e leva-a sem pressa à abertura que faz as vezes de daqueles bosques negros.
boca. Sucede acorrerem a essa zona triste, aí multi­ ~ São coisas que sucedem.
plicando-se, animais outrora diligentes. Perdem a — Vá vestir-se.
agilidade, a cor, a decisão, o esqueleto. Compra- A Muitas pessoas já de roupa mudada, sen­
zem-se em imitar a inércia das anémonas e das tadas ao sol ou à sombra da tenda. È assim tarde?
medusas urticantes, fazem-se com o tempo seme­ Em breve, irão todos embora. Ficarei sozinho.
lhantes a elas, com elas se confundem. De quase — Quando?
tudo se despojaram, nada mais procuram. — Agora, Vamos aos comissariados.
— Tempo perdido. (Os gelos e os desertos.)
A As plantas da terra, preparando o terreno O coração me diz que ele morreu. (Evoluem os
para o advento dos bichos, aparecem no devoniano. répteis no permiano.) O que foi que eu fiz, Albano,
Meu amigo Albano acaba de chegar, vejo os pára- pra merecer isto?
lamas de sua bicicleta. Não me cumprimenta. 0 A ingênua pergunta. A mesma tantas ve­
— Então, Renato? zes feita poT Z. I., quando a situação em que vivía­
— Não sei mais o que faça. Está perdido. mos, indecisos entre a aceitação da aventura e o
A Formaram-se, naquela época, lagos profun­ temor de ousar, parecia entrevar o seu espírito.
dos e grandes lagunas. Os primeiros insetos, se­ “Até conhecê-lo, eu vivia em paz com os meus fi­
melhantes a pulgas, saltavam no silêncio, reis dos lhos, meu marido, dedicava-me a eles. Nada fiz de
espaços sem aves. errado para merecer esta miséria, este sonho exaus­
— Onde você g viu pela última vez? tivo. Não sei por que pecados fui condenada a

218 219
alimentar em mim um carbúnculo.” “Nada custa recolhidos as cordas e os ganchos de ferro, abriu-se
romper.” “Sabe que não posso. Estou purgando um vazio. Poucas pessoas rodeiam ainda o homem
algum mal.” Renato, dentro da barraca, veste-se, que perdeu o filho, agora de óculos escuros, a gran­
a fim de prosseguir mais longe sua busca. Por que de maioria acomodou-se no ônibus, o motorista
haveria de ser, o destino humano, castigo ou recom­ buzina com insistência. Alguns casais do clube,
pensa? Incêndios varrem as paredes e o teto do talvez um pouco mais ricos, para dar a impressão
homem Justo, morrem todos seus filhos, as enchen­ de não terem vindo à praia em bando, trouxeram
tes levam plantações regadas com suor honesto, pára-sóis, plantaram-nos longe de seus companhei­
cansaço e orações. Multiplicam-se as posses do ras. Aproximam-se com ares que acreditam distin­
perverso e, na velhice, ao cabo de breve e plácida tos, os homens sobraçando apetrechos de pesca, as
agonia, filhos, mulher e amigos choram sobre seu mulheres sob chapéus de palha coloridos. Pisam
cadáver. A vida não concede notas de aplicação: com enfado e majestade, passam indiferentes ante
o que parece justiça é desconcerto e acaso. Deus 0 homem de óculos, ignoram a buzina e o cubo de
deve existir, já que existe o demônio. Significa isto vazio deixado pela tenda. Nosso pai, quando em
que seja obrigado a ver, no que me sucedeu, uma casa, nos intervalos de suas viagens, tem o oficio
sentença, um castigo, a cólera manifestada por dfe tanoeiro. Molda com zeio as folhas de carvalho,
qualquer entidade soberana? O ônibus acaba de rejunta-as, prende-as com tiras de aço. Quando
chegar. Antes que fizesse a manobra, muitos cor­ parte, ficam no quintal os instrumentos e o ma­
reram, sentaram-se nos bancos. Para um homem terial com que trabalha. Sua presença como sua
nas condições do que, fora e dentro da tenda, olha ausência têm o mesmo cheiro de floresta. Este é
perplexo o ônibus e talvez se oculte na cabine para igualmente o odor de sua voz, das vindas imprevis­
algum ato difícil, cumprido com pudor, esta hora tas, dos repentinos adeuses, do rumor, do silêncio,
é idêntica à dos adeuses aguardados com medo. da morte e dos navios. Quando vem a notícia de
Enquanto o cercam, mesmo indiferentes, os conhe­ que não voltará, nossa mãe se desfaz dos utensílios,
cidos, pode iludir-se ou iludir o terror. Quando vende um resto de aço e de madeira. Então o quin­
partirem, terá^ de olhar de frente seu próprio deses­ tal morre; nesse vazio é que desaparece realmente,
pero. Ver-se-á sozinho e o infortúnio lhe parecerá para mim, aquele homem de olhar tenso. De tanto
uma incapacidade, algo como essas gangrenas que repetir a meu irmão, sempre mais exigente em por­
obrigam os foragidos a abandonar um homem aos menores, esse olhar, o rosto, o corpo e a voz de
lobos ou às formigas. É assim que me sinto aquela nosso pai, esqueço-o. Sua lembrança, deslizando
noite, ao lado do canal, gangrenado, sem ninguém sobre ela minhas próprias palavras e o que meu
por mim, à espera de que me Joguem nas águas irmão desejava ou supunha que ele fosse, apaga-se.
estagnadas. Deste modo, em razão de sua inquietude, meu ir­
V Media, a barraca azul, quatro metros por mão desfaz a única imagem nítida de nosso pai.
três, dois de altura. Enrolada nos varais a lona, Restam-me a expressão do olhar (não a cor, nem

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mesmo ã luminosidade ou a forma) e o odor de de reviver o modo como aquele marinheiro fabrica
roble no quintal. Quanto à nossa mãe, nunca foi dornas e tonéis, molda as aduelas, arredonda os
capaz de falar sóbre o esposo. Costumo interrogar­ arcos e ajusta as peças: as aduelas das pipas, uni­
me: “Ela realmente o viu alguma vez?” das pelo primeiro círculo de aço, são pétalas for­
— Quer dizer que vocês vão mesmq embora? mando grande flor de roble, que nasce aberta e
— Se quiser, ponho a notícia no rádio. fecha-se depois, cingida pelo arco final. Tenho de
— Não precisa. Você vai comigo, Albano? evocar os instrumentos do ofício, exercido sem
— Claro! compasso nem régua, com olho sábio e mãos que
— Um táxi é melhor. sabem as justas medidas; tenho de molhar a ma­
— Vou devagar. Você vai olhando para os la­ deira para fazê-la mais dócil à arqueadura, tenho
dos, pode ser que o veja. de aquecê-la num fogo de cavacos e de recompor
— Até logo, Renato. Vamos pedir ao motoris­ a música, o ritmo que nosso pai inventa ao martelar
ta para não correr. Iremos observando. Se você as tábuas na fase última de cada unidade, ritmo
descobrir o menino, pode apanhar um carro e al­ sujeito a variações inumeráveis, sempre novas e
cançar 0 ônibus. Se nós o encontrarmos, esperamos todas semelhantes. Depois, meu irmão passa a exi­
por você. gir que eu faça nosso pai visível para ele e, com
V Todos foram embora. Os dois amigos,.cada o tempo, suas perguntas vão adquirindo um cará­
um de costas para o outro, olham em direções opos­ ter pouco indagador, mais afirmativo; em seu inte­
tas. Voltaram-se, trocaram algumas palavras que rior gerou uma figura nascida quem sabe de que
não posso ouvir, afastam-se. É quando o nome de moldes; e ao passo que finge interrogar, instila em
Deus passa a não ser natural em sua boca, é quando minha memória sua versão do morto. Em mim
os projetos vêm, em seu espírito, a tomar o aspecto haver-se-ão destruído, como dois peixes ferozes ou
de um ajuste absurdo entre as próprias forças e pássaros de combate, aquelas duas imagens?
0 acaso, é quando as velhas certezas se fazem nega­ 0 Venho à praia uma noite com Z. I., de táxi.
ções, e transformam-se em dogmas questões sobre O carro avança com a mesma lentidão deste ônibus,
as quais antes ele nem ousava cogitar, quando cer­ é ainda o começo de nossas relações, observo-a com
tas perguntas antes respondidas transformam-se medo; acabo de sentir, em suas mãos, um frêmito,
em respostas delas mesmas, é em suma quando bater de asas logo interrompido. Seu rosto, na
perde a fé que meu irmão passa a ocupar-se com sombra, tem qualquer coisa de um animal eriçada.
o rosto de nosso pai, como se precisasse de outra A No permiano desenvolvem-se os répteis, grossas
face, para substituir a de Deus, agora oculta. Di­ camadas de gelo cobrem o sul da África. O comis­
fere, sua busca, da busca desse homem: não é para sário, em Boa Viagem, tudo ignora sobre crianças
um reencontro que ele se apresta; ensaia apossar-se e salamandras perdidas, nenhuma lhe foi entregue
do invisível, do ignorado, alcançar por tortos labi­ neste domingo. No apogeu dos répteis, moluscos
rintos um ser remoto e seu halo. Tenho, primeiro, protegidos por conchas espalharam-se. Amolda-se

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o desenho das conchas, com rigor crescente, a um y Nossa tia escreve a meu irmão. Conseguiu o
ritmo preciso. V Meu irmão continua a busca do retrato, está em seu poder. Ele telegrafa: NAO
retrato. Vai a todo lugar onde sabe ou imagina ENVIE CORREIO PRECIOSO ACHADO IREI BUS­
haver parentes do tanoeiro e marujo: Pórto Real CALO PUDER. 0 Beijo Z. I , é a primeira vez.
do Colegio, Igaraçu; Cabedelo, Barreiros, Coruripe; Tem sua boca a temperatura de um pássaro, expos­
Penedo, Areia, Pesqueira, Porto Calvo. Anos de to ao sol do estio. Houve em seus flancos, em sua
prçc^ra, todas vãs. A Os dinossauros, ao longo de espádua, quando a beijei, um trino sufocado, um
5
cej^t ^ilhões de anos, imperam sobre a terra, uns princípio de canto de cigarra? A Com os morce­
gos, também os lémures se aventuram. Fazem-se
sobre dois pés, outros sobre quatro, variada espécie,
donos da planura. Crocodilos, tritões, tartarugas, mais leves os ossos de alguns entes, penas cobrem
serpentes e dragões voltam para o mar. São tantos seus corpos, eles cruzam o ar. Peixes temerários se
que as águas sobem de nívei. No cretáceo desabro- erguem sobre as águas. Alguma ave, aterrada com
cham as flores, os Pirineus, as Montanhas Rocho­ a própria voz, pÕe-se a cantar. V Resposta a meu
sas, o Cáucaso, 0 Himalaia, o esqueleto harmonioso irmão: “Infelizmente o retrato não está mais co­
dos peixes. 0 Contemplando nas trevas as distan­ migo. Isabe Veras, irmã de Jovina, veio buscá-lo
tes luzes dos navios, vamos em silêncio eu e Z. I. outra vez. Diz ter valor a fotografia, um dos me­
Ela me trouxe uma edição bilingüe dos Sonnets ninos é da família. Não sabe qual. Mas reconheci
from th e Portuguese, diz haver sublinhado os ver­ teu pai. Quando vieres, iremos Juntos à casa de
sos de E. B. Browning: “Que participes de minha Isabe.” Decorrem anos, antes que ele venha a Per­
vida não consentirei, para que não sofras também nambuco. Não sei se está mais parecido com o pai,
as minhas penas.” V Transferiu-se para o sul da ou se lhe pertence a rosto que eu então relembro
Bahia, continua escrevendo a todos os parentes. e Julgo ser do morto. 0 Escolhi, para comemorar
Em Serinhaém, em Goiana, em Flores de Indaiá, os aniversários de Z, I., data diferente do dia em
Interroga-os sobre o possível retrato de nosso que nasceu, tal como fazem alguns soberanos da
pai. Cartas exigentes e em geral sem respostas. 6
Inglaterra. P e vestido novo, encontra-se comiigo
A Pocas? Elefantes do mar? Morsas? Crianças an­ (os ermos lugares), dou-lhe presentes que não cus­
fíbias? O Comissário do Pina cruza as mãos com tem muito, mas significativos. A Os continentes
pesar. Albano afaga-me o ombro, baixo a cabeça. unem-se e desunem-se, vêm o gelo e o fogo, pedras
Deveremos voltar? Deveremos seguir? Rasga-se no transformaram-se em rinocerontes, ventos em ca­
eoceno um alforje negro e frio, dele saltam com as valos, cuias em tatus, sombras de ramagem em ti­
longas pernas traseiras, os olhos de bêbado, o couro gres, auroras em leões, esponjas em preguiças,
viscoso, todos os sapos e rãs que habitam pesa­ tranças de ramos em renas e veados, enche-se a
delos, pântanos e troncos ocos. Alguns, como bi- terra de bramidos, urros, silvos, relinchos e mugi­
chos-da-seda, hibernaram, depois rompem o casulo, dos, e de repente há um silêncio, eis a hora do
fazem-se morcegos, alçam-se às alturas da noite. homem. 0 Nesse aniversário, levo para Z. I. um

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álbum com deseiihos de rosas, no centro das enor­ cas, os corpos dilatáveis, devoram presas quatro
mes folhas de papel, sobrepostas às denominações vezes maiores do que eles.
latinas, fusca superha, corona rubrorum, gemma
rubra, om nium calendarum, glauca, virginalis, V Desarmarei em breve o guarda-sol, apanha­
scandensj halearica, reclinata, rubra, hispida, sul- rei a esteira, os óleos, a toalha, a sombra, irei. Ba­
pnnrea, corimbosa, mutahilis. Mutabilis. A E ele? nhistas, homens e mulheres, quase em frente a
Os tempos desaparecidos, os fósseis de ciclones, de mim, trocam agitadamente palavras e sinais que
explosões, os gelos e os incêndios, os áridos milênios, não alcanço, todos fogem do mar e correm em dire­
as Inundações, cataclismos, éxodos, montanhas ção à praia. Passam por mim, ouço as palavras
submersas, o bater do sangue, a flecha disparada, a perna e tubarão. Sobe a maré, ampliam novamente
as águas suas móbeis fronteiras. Vem do oceano,
semente no chao, o fruto amadurecendo, tudo hou­
do fundo, continuado, um grito de gaivota. Em
ve para que meu filho — nem pássaro nem peixe —
Pernambuco essa ave não existe. Minha tia, meu
fosse e deixasse de ser? Tal como a terra no espaço,
irmão e eu em torno da mesinha, o pendente da
no fundo dos espaços, nascem no oceano as ilhas
lâmpada sobre nossas testas verdes. Duas velas
de coral, com seu apelo de paz e seus naufrágios.
0 Pára o ônibus, saltam algumas pessoas, acredi­
acesas no oratório. Estampas de santo em todas as
paredes, atrás das portas, imagens sobre os móveis.
tam ter visto o menino vagando pela praia. Vol­
“Faz uma semana que Isabe Veras morreu. Ou nem
tam. Todos nos fazemos de pedra e de silêncio.
isso.’’ “E a casa? Os objetos, os retratos? A se­
nhora foi lá?” “Não tive essa lembrança.” “Re­
A quatrocentos metros de profundidade come­ za tanto que não tem tempo de pensar nas coisas.
ça a escuridão e as únicas luzes são as dos animais Devia ter ficado com o retrato.” “Pertencia a ela.
fosforescentes. Atingem ainda essas trevas o fluxo Podia fazer nada?” “Dizia que perdeu.” “Quem
e refluxo das águas superiores. Seiscentos metros sabe fazemos uma visita amanhã. Jovina Veras, se
abaixo cessam os movimentos; no âmago desse uni­ ainda não mudou, talvez te ajude.” “Não morava
verso imóvel, pesado e tenebrosa, seres de corpos num sítio, com outro irmão?” “Estavam juntas de
cilíndricos, não muito grandes, espreitam-se entre novo. Há muitos anos. Vou procurar saber onde
si. Seus olhos torvos, postos de lado, vêem ao mes­ é a casa.” Meu irmão não resiste esperar todã uma
mo tempo em todos os sentidos. Alguns desfiaram noite, arrasta-nos pelas três cidades em silêncio.
os olhos cegos; com grandes filamentos táteis son­ Descobrimos a casa, que Jovina Veras continua a
dam as negras espessuras. Todos são carnívoros, ocupar, esmurramos a porta. Mesmo nossa tia bate
munidos de acerados dentes. Se é destino dos pei­ de leve com seus punhos magros, sorrindo, sem crer
xes, em outras profundezas, serem tragados pelos na própria ousadia. Ninguém vem atender. Meu
inimigos mais possantes, nestes abismos inverte-se irmão, com olhos fatigados, e como quem estivesse
a lei: os seres pelágicos, com as desmesuradas bo- multo longe, da outra marjgem de um rio cauda-

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loso, contempla as imagens no oratorio, sopra as cei alguns passos, cautelosamente, sobre o largo
duas velas. Mais próximo, nítido, o grasnar de gai­ muro do canal. No campo fuliginoso que, nessa
votas. noite de poucas claridades, é o podredouro trans­
0 Tivemos, pela quarta vez, de interromper a formado por Z. I. e eu num rio, vejo à minha es­
viagem, agpra para que ele suba e nao porque su­ querda uma pequena área arredondada. Estendo
ponhamos ter entrevisto seu filho. Tudo que nos a perna, com o fito de explorar a resistência do que
disse: “Não.” Vai sentado e mudo, sem olhar me parece terra firme, perco o equilíbrio, precipi­
para os lados, sua gangrena invade-nos. À beira to-me num aquoso mundo de vermes e detritos, vou
do canal, na mão o álbum com reproduções de ro­ até 0 fundo, bracejo naquela pasta insalubre, caio
sas, aguardo o aparecimento de Z. I. Alguns dos de braços abertos e a lama abafa meu grito, mer­
amantes íurtivos realizaram seus apressados en­ gulho no pântano, tombo indagando por que tal
contros, despediram-se, cada qual numa direção, coisa haveria de me suceder, desço como um seixo
pelas trilhas que cortam o mato bravo. Sobe das nas trevas que me penetram as narinas com seus
águas paradas um odor de lixo, frutas podres, re­ bichos e palhas. O álbum com desenhos de rosas
síduos humanos e enxofre em combustão. Duas — as Présiãent Carnot, as Niphetos, as Souvenir
coisas afligem-me: o álbum, que eu tive o cuidado de Wooton — nunca mais será recuperado. No
de pôr entre minhas camisas, não estava na mes­ ônibus quase vazio, pois muitos, Renato inclusive,
ma posição; Já é quase a hora do jantar, minha dirigiram-se a uma aglomeração consternada, no
família espera-me, não desejo atrasar-me. Não centro da qual chorava uma criança, que todos
houvesse Z. I., ao longo dèsses muitos meses, con­ crêem ser quem na verdade não é, aguardo vol­
seguido fundir seus atrasos em minha espera, de tarem.
modo que esta habitualmente se prolonga bem mais — Não é ele, Renato. Mas este velho viu um
do que o normal, eu haveria ido embora. Mas esse menino perdido, há meia hora.
gosto, transformado em pouco menos que um vício, — Idade?
de parecer lutar consigo mesma, contaminou-me, — Uns oito anos. Duas mulheres estavam de
dissolvendo em mim aquele momento mais ou me­ saída. Tinham automóvel.
nos breve em que, esgotada a paciência, dizemos — Então?
que a pessoa aguardada não virá — e partimos. — Levaram. Ele sabia o nome da rua onde
À luz do isqueiro, olho o relógio. Mais tarde do que morava.
imaginava. Tudo está preparado para a minha Os cabelos. . . eram de que cor?
perda: o espessor das trevas, a hora propícia, a au­ Pretos. Compridos. Estava de vermelho.
sência de estrelas, o embaciado reflexo na água, o De vermelho?
poço onde mergulharei. No centro do acontecimen­ V Meu irmão e eu, na manhã do outro dia,
to que há três anos se prepara, iminente o gesto batendo novamente à porta de Jovina. Dizem-nos
para o qual não haverá emenda, levantei-me, avan­ que foi à Prefeitura, em companhia do irmão. Não

228 229
a encontramos. Devem ter ido à igreja, tratar de pessoas que correm para ele fogem apavoradas, ro­
assuntos relativos à morte de Isabe. Meu irmão deiam-no as sombras dos que preferem não vê-lo,
recusa-se a entrar, faço indagações na sacristía. ergo-me e contemplo o encontrado, avança o mar
Descobrimos o casal de velhos no cartório, ele as­ sobre a praia, a poucos passos do morto escuto as
sinando papéis, ela fitando as paredes. Homens na aves que gritam dentro déle, centenas de gaivotas
sala de espera, sentados nos bancos, todos parecen­ (presas, famintas, iradas, cruéis) ferindo-se com
do tristes, mesmo os que i/leram registrar os filhos. as asas, comendo-se com os bicos, grasnando no seu
Meu irmão dirige-se a Jovina, fala em voz baixa corpo.
do retrato onde figura nosso pai. Ela observa-o 0 Voltam Renato e os outros, sentam-se e dis­
assustada, sem entender. As mesmas pessoas que cutem, reinicia-se a viagem. Estão esperançosos,
fugiram do mar estão voltando em companhia de alguém disse ter visto uma criança perdida, a des­
outras, algumas entram e mergulham, algumas crição contraria este alvoroço ilegítimo, mas todos
saem rápidas do banho, afluem indagadores mais acham ser imprecisa e mesmo oposta à verdade.
rápidos que as sombras, multiplicam-se os gritos Vim à tona, debato-me na lama e consigo apoiar-me
de gaivotas. Meu irmão olha-me. Difícil referir, ao paredão. Meu corpo está pesado, mal tenho for­
ante aqueles estranhos, tão íntimo assunto. Fala ças para soerguê-lo, com toda a carga de água e
um pouco mais alto, alude a nosso pai. Jovina si­ imundícies que me vem nos bolsos e dentro da ca­
lencia, não responde, sorri, meu irmão grita, de misa. Chegamos à ponte que atravessa um braço
súbito emudece, a velha é surda. “Mana! Ela não do Capibaribe, engrossado aqui pelas águas do Pina
vai entender.” O velho pôs termo às assinaturas, e do Tejipió. Os companheiros, outra vez silentes,
levantou-se da mesa, é ele quem agora faz pergun­ olham para o rio. Várias crianças dormem no om­
tas. Eu e meu irmão tentamos explicar, o velho bro de seus pais.
traduz nossas confusas palavras, Jovina Veras con­ A Aos poucos se organizam as formações de
funde nosso pai com outro de igual nome. “Onde coral. Abrirei o portão. Acompanhando a linha do
estão os objetos de Isabe? Os retratos?” Quem Equador, nunca ultrapassando a faixa demarcada
responde?: “Somos conscienciosos. A finada tem pelos trópicos, e sempre construídas onde as águas
um filho no Rio, outro no Acre. A morte desarruma. são menos profundas, espalham-se nos mares as
Os retratos estavam pelo chão, por cima das cadei­ madréporas. Abrirei o portão, talvez veja meu filho.
ras, os filhos-dos vizinhos até rasgaram alguns. Atraída por aquela espécie de cidade que sa torna
Uns nós demos, quatro ou cinca foram para o sítio, cada vez mais clara, revolta e feroz, muitos animais
fizemos dois pacotes dos outros, mandamos para para ela se dirigem. Abrirei o portão, talvez veja
os nossos sobrinhos.” “Não havia um de primeira meu filho, zombarei de todo este temor.
comunhão, muitos meninos?” “Quem sabe? Ê 0 Foi possível escalar o paredão, quase arran­
possível.” “Não resta nenhum?” “Não.” Tra­ quei uma unha, vomito de Joelhos do canal. Meus
zem do mar o corpo do menino, as sombras das sapatos flutuam, um deles emborcado. Tento ar-

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ranear a gravata, que me estrangula; consegui, chando-a, aos soluços, mordendo o vestido à altura
jogo-a também na lama. Tiro do bolso um lenço do seu ombro, enquanto permanece muda e rígida,
meio seco entre as dobras, limpo o rosto. Quero alheia à minha aflição e aos apelos que faço em
passá-lo ñas mãos, desapareceu, ignoro onde o pus. altas vozes. Diz por fim: “Nunca mais volte.
Os cabelos cheios de terra, pequenos gravetos e Nunca mais verá minhas filhas. Para nós, estará
fragmentos de mato. Procuro o pente, Já não o sempre imundo como agoia,” Afasto-me nausea­
possuo. A carteira de cédulas está mais volumosa, do com a minha própria miséria, a cabeça baixa.
puxo-a com dificuldade, expremo-a contra o pare­ Quando a ergo, dois vultos de mulher’se distanciam,
dão. Assemelha-se a uma esponja, Z. I. não chega, e uma é Z. I. Clamo por seu nome, sigo-a ferindo
ninguém se aproxima, socorro nenhum. Que horas os pés, ambas começam a correr, avanço decidido,
serão? Passo a mão no pulso: perdi o relógio. Ir agarro-a pelo braço. '‘Eu te amo!” Volta-se, cos­
para casa, contar não importa que história, ou não pe-me no rosto. Então vejo, vi, vejo então que ela
contar nenhuma, lavar-me até às entranhas. Olho é feita de bichos ajustados. Ouço mn rumor frou­
para o lugar onde creio haver pôsto a carteira e não xo, um ruflar de asas, Z. I. desfaz-se em pássaros
a vejo. Nem sequer um cachorro trñhou este cami­ noturnos, vespas, mariposas, besouros e morcegos.
nho. XJma ratazana? IJm vento forte*? Não ventou; Nós, que tanto perdemos, cercamos este me­
tem de continuar onde a deixei. Apalpo-me em nino. Nós, que tanto buscamos, achamos este mor­
busca do isqueiro (com um pouco de luz hei de to, vítima do mar numa cidade conquistada ao mar.
encontrá-la) e certifico-me de que meus treze bol­ Aqui estávamos, vindos de todos os pontos do Re­
sos estão cheios de lodo, contêm apenas lodo. O cife, planície flúvio-marinha, demarcada por mor­
dinheiro e os papéis de identidade, isqueiro, pente, ros de areia e argila, deixados pelo mar no plioceno,
lenços, óculos, relógio, uma corrente de ouro, a quando recuou do continente. Quantas vezes foi
aliança, tudo sumiu, nem sequer vejo o álbum e os o chão da rua que habitamos e onde, em momentos
sapatos boiando na água negra. Certa noite, des­ de engano, imaginamos viver em segurança, co­
pertando e mantendo-me na mesma posição, ouvi berto pelo mar — limitado em tempos afastadas
nitidamente um estalar de asa à minha espádua, pelo's morros que hoje cercam a cidade? Não foram
asa curta e seca. “O demônio, enganado, supondo aqueles recifes, cujos perfis se erguem em pleno
que durmo, mexe-se na sombra?” Adormeci em oceano, escarpas litorâneas, arrebatadas ao conti­
seguida, continuei a viver. Volto, à beira do canal, nente por investidas marinhas? Aqui estamos em
despojado de tudo como por malignas artes, a crer torno do menino, quase nus, embebidos de sol, de
naquela asa e esboço o gesto de persignar-me. Nem compaixão, respirando o ar salino e a luz da tarde
sequer chego a iniciá-lo: minha mulher, a dois pas­ que começa. Sabemos ser vulneráveis e frágeis co­
sos de mim, fita-me. Certificando-se de que sou mo ele, ter ouvidos surdos quanto os dele, olhos
eu 0 espectro à sua frente, voltou-se e vai embora desatentos quanto oS dele. V Meu irmão percorre,
sem dizer palavra. VeJo-me abraçado com ela, man- uma por uma, casas da rua onde morava Isabe.

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Bestam poucos dos retratos antigos e nenhum é o desconhecida madrinha de além-rnar. O resto são
que ele busca. Interroga as mulheres, os meninos, estampas coloridas, recortes de revistas, postais de
distribui dinheiro. Surgem descrições que se mis­ aniversário; casais de rostos macios e lábios bem
turam, todas imprecisas. Por fim, aquelas mentes contornados, frontes unidas, num mundo benévolo,
respondem ao seu desejo e à sua exaltada invoca­ onde nascem petúnias entre as mãos dos noivos e
ção, alguém descreve, com grandes minúcias, o pássaros roliços pairam sobre eles com ar de con­
grupo dè pequenos comungantes. Tal representa­ fidentes. oo Choremos pela criança, como se por
ção, por ele próprio armada, instiga-o em sua caça. nós chorássemos, nós, meio homens e meio peixes,
0 À beira do canal, aguardo a volta da entida­ dóceis anfíbios, viventes do incerto. Muitas vezes
de perversa que de quase tudo me privou. Não lhe mudaram, no curso do tempo, o perfil da baía do
custará aproximar-se, atirar-me ao fundo, desta Recife, as regressões e transgressões marinhas, e as
vez para sempre. Submissa a algum inflexível aluviões dos numerosos rios (Capibaribe ou das Ca­
código, exige que o gesto final, o que me entre­ pivaras, Tejipió, Jaboatão, Pirapama, Beberibe,
gará sem apelo ao seu poder, venha de mim? Pina, Jiquiá, Camaragibe, Jordão), de longe chega­
Fico de costas para as águas silentes, olhando as dos ou aqui mesmo nascidos, tributários de outras
luzes da Ponte da Espinheiro, trêmulo de frio, de correntezas, inscrevendo e apagando deltas enlaça­
asco e de pobreza. Nada me sucede. A Abrirei o dos, muitas ilhas, numerosas praias, mundos de
portão. Segregam os pólipos, nas águas quentes, restingas, reinos de coroas e quem sabe quantos ou­
seus duros esqueletos. Abrirei o portão, talvez veja tros deltas. Para fugir de ser peixe, sobre os deltas
meu filho. Os esqueletos unem-se em recifes e estes vamos construindo, de cimento, de aço, de madeira,
vão crescendo rumo à superfície, com seus dons um sistema de pontes: Maurício de Nassau, Santa
opostos; refúgio e ameaça. Abrirei o portão, talvôz Isabel, Velha, Giratória, Buarque de Macedo, Boa
veja meu filho, zombarei de todo este temor. Mui­ Vista, do Pina, do Limoeiro, Derby, Madalena, Las-
tos dos recifes de coral fecham uma lagoa, baías, serre, Tõrre, Caxangá, as dez sobre o canal, e tantas
enseadas, eriçados mundéus à espreita dos navios; outras sem nome nem duração, rompidas pelo tem­
muitos dos recifes de coral estendem-se em cordões po, levadas pelas cheias juntamente com árvores e
e franjas, imitando ou alterando a orla continental; bichos, portas e mobílias, telhados e defuntos, peda­
muitos dos recifes de coral tomam a forma de ilhas ços de nós todos. Então choremos, por nós e pelo
circulares, exuberantes atolls, refúgios de verdor, morto. 0 Próximo o termo desta viagem. 0 Cais
de sombra e paz, com seu lago central respondendo da Alfândega, o Cais de Santa Rita, os barcos ve­
em silêncio às pulsações do mar. A Vai ao sítio do lhos, torres de igrejas e ruínas de trens na estação
velho, irmão de Isabe. Inexata a versão de que al­ de carga. Bandeiras agitadas pelos ventos. Na mes­
guns retratos estariam lá. Só um existe: o do sol­ ma pensão onde habitei em solteiro, banho-me,
dado francês, da Primeira Grande Guerra (Hiquily, desfaço-me dac^elas impurezas que me irritam os
Lucien, brigadier), com dedicatória a Isabe, sua olhos e se infiltraram até nos pêlos do meu púbis.

234 235
Emprestam-me roupas de um coronel degradado, venha a formar-se dentro de meu ser, soprada pe­
meias e sapatos esquecidos por um velho padre de los ventos da verdade.” Tantos meses passados, a
passagem, algum dinheiro. Fazem perguntas. Sem espera continua. E a verdade intuída não toma
responder, e repetindo que se há o demônio existe consistência. É árduo destruirmos nosso próprio
Deus, embrulho num jornal minhas vestimentas tumor com um ferro em brasa, oo Choremos de
encharcadas. Voltarei ao canal. A Abrirei o portão. mãos dadas, em redor do morto — em quem nos
Vive sob as águas, entre os pilares, arcos, traves e vemos — nosso pranto salgado. As águas, sempre
portais das madréporas, um mundo colorido de es­ a nossa ilharga, sempre a ponto de voltar e cobrir
ponjas e actínías; crustáceos, em bandos compac­ tudo que é nosso, molham os nomes dos bairros
tos, inserem-se entre as brechas das cavernas; chis- onde habitamos, poucos dos quais ignoram esta pre­
pam, nesse agitado jardim submarino, reílexos ver- sença. Assim é o bairro dos Aflitos, assim é Bebe-
melhos, verdes, violeta e ouro; peixes miúdos — ribe ou rio das arraias, assim é o Recife, a ilha do
borboletas aquáticas — evoluem em nuvens. Abri­ Retiro, do Leite, o Jiquiá ou cesto de pescar, Uha
rei o portão, verei meu filho. Rondam estrelas-do- Boa Vista, Aguas Compridas, Ibura ou a nascente,
mar aquela zona de caça e comem os peixes, os pei­ Iputinga ou lugar da fonte clara, Ponte d’üchoa,
xes comem cabeleiras soltas, as cabeleiras comem Várzea, Areias, Água Fria, Ilha Santo Antônio, rio
caranguejos, os caranguejos comem leques de .plu­ pequeno: Parnamirim, e os Peixinhos, o Poço, os
mas, os leques de plumas comem lagostas, as lagos­ Afogados. Quantas vezes fomos invadidos, cober­
tas comem estilhaços de sol, os estilhaços de sol co­ tos, devastados, por mares cujos nomes não sabe­
mem hipocampos, os hipocampos comem as rama­ mos? Quantas vezes desaparecemos e com que tei-
gens, as ramagens comem as pontas das estrelas. moáia nos fazemos outra vez cidade, cabo, duna,
Abrirei o portão, zombarei de todo este temor. V recife, pantanal? Muito perdemos, perdendo vive­
Continua em busca do retrato, que talvez foi rasga­ mos, largamos o que temos, ganhamos e havemos,
do ou comido pelas traças, ou jaz de borco num fun­ quebramos, desperdiçamos, guardamos, não encon-
do de gaveta, entre inúteis papéis (em que parte da mos, usamos, rompemos o frágil e fazemos limalha
terra?), envolvido em sombras como nosso pai e os dos bens resistentes. Para nós do Recife, não há
peixes que o despiram das roupas de marujo. 0 “Se segurança, por mais que estendamos os braços, ten­
0 demônio existe. Deus existe.” O embrulho, em tando proteger a paz de nossa rua. a Desço do
meus braços, pesa como um cão, um porco. Den­ ônibus e muitos me seguem. Quantas horas decor­
tro da roupa que não me pertence, os pés em sapa­ rem, entre o início e o pleno florescer de um re­
tos amoldados a outros pés, vou como se no espaço cife? Abrirei o portão, os que vão comigo ficarão
ocupado por meu corpo de sempre houvesse um à espera. Nada revela a barreira em desenvolvi­
outro, invasor. Jogo no canal, com violência, a rou­ mento, a construção que se ergue. Abrirei o por­
pa suja, crendo desfazer-me, com o gesto, de minha tão. Verei meu filho? Zombarei de todo este temor?
alma débil e mentirosa. “Esperarei agora que outra Enquanto isto, afia-se a espada, prepara-se a arma-

236 237
dilha, gera-se o refúgio, vão nascendo no mar as
flores de coral. Um dia, dentro da rota há muito
obedecida e onde, por muitos anos, navegou em
paz, um barco se arrebenta; um dia, precedido pelo
musgo, pela relva, pelas formigas, pelas aranhas, Livros M elhoram entos,
pelos gafanhotos, pássaros, abelhas, ratos, chuvas leitura de interesse perm anente
e palmeiras, um casal evadido traz o fogo, os ani^
mais domésticos, alguns instrumentos; com ele
desembarcam as legiões e os coros invisíveis que
Série ESCAPE Série ESCALADA
perseguem ou seguem todo ser humano. Tenho a Uma leitura Livros onde o novo
mão estendida, os olhos baixos, na atitude de sob medida para quem e o original da melhor
quem fosse abrir este portão. Não escuto o míni­ ainda é capaz ficção brasileira
mo rumor. de sonhar e se libertar se manifestam,
do dia-a-dia transformando-a em
literatura de alcance
A Mufher do Domingo universal
Cario Fruttero e
Franco Lucentini Avalovara
No Verão, a Primavera Osman Uns
Lucília J. A. Prado O Fiel e a Pedra
Osman Uns
Ámar é H unca. . . Nove, Novena
Italo Terzoli e Osman Uns
Enrico Vaime
Os Gesi-os
0 Homem que viu Osman Uns
o Disco Voador A Mais que Branca
Rubens Teixeira José Geraldo Vieira
Scavone O Banco de Três Lugares
Hunca é Tarde Maria de Lourdes
P. S. Buck Teixeira
Doramundo
O Ano Novo
Geraldo Ferraz
P. S. Buck
A Noite dos Três Degrous
Poro Minhas Filhos, Rubens Teixeira Scavone
com Amor Memóricis do Medo
P. S. Buck Edia von Steen
EDIÇÕES MELHORAMENTOS

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