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CISNE, M. Gênero e patriarcado: uma relação necessária ao feminismo.

QUEIROZ, F;
RUSSO, G;GURGEL, T. (Orgs.). Políticas sociais, serviço social e gênero: múltiplos
saberes. Mossoró: UERN, 2012. p. 147- 165.

1 INTRODUÇÃO

“O feminismo, na condição de um movimento social comprometido com a transformação da


vida das mulheres, necessita de um suporte teórico critico que possibilite analisar a condição
da vida feminina.” (p.147).

“objetivamos desenvolver uma breve abordagem em torno das categorias gênero e


patriarcado, no que tange as suas importâncias, diferenças e complementaridades. Mais
precisamente examinaremos a problematização existente na relação entre gênero, patriarcado
e feminismo”. (p.148).

“acreditamos que para desvelarmos criticamente a sociedade em que vivemos é indispensável


apreendermos de forma critica e dialética as relações sociais de gênero produzidas e
reproduzidas em um solo concreto: o sistema patriarcal-racista-capitalista”. (p.148).

2 DOS ESTUDOS DA MULHER AOS “ESTUDOS DE GENERO”: retrocesso e resistências

“Os primeiros estudos estavam, portanto, associados a uma analise dicotômica entre o sexo e
o gênero. É, contudo, somente nas décadas de 1970 e mais fortemente nas décadas de 1980 e
1990 que os estudos de gênero ganham corpo no feminismo, principalmente, sob influencia
de feministas acadêmicas” (p.149).

“Assim, sexo não se pode ser compreendido como apenas um dado corporal sobre o qual é
construto de gênero é artificialmente imposto, mas como uma norma cultural que governa a
materialização dos corpos”. (p.149).

“a desnaturalização do que é socialmente concebido como feminino e masculino, ou mesmo,


do que se considera homem e mulher. Em outras palavras essa ”síntese” é expressa
entendimento de gênero como a construção social do homem e da mulher.” (p.150).

“A compreensão do sexo é o porto e o fundamento do gênero”. (p.151).

“trata-se, portanto, de compreender as relações de gênero como construções sociais, ainda que
não dicotomizadas do sexo, mas que, em ultima instância, são determinadas pelas e nas
relações sociais”. (p.151).
“É importante entendermos que o contexto histórico dessas alterações é marcado pelo
neoliberalismo, articulado ao enfraquecimento e à desmobilização dos movimentos sociais
classistas”. ( p.152).

“O financiamento das ONGs conduziu parte do feminismo para um ativismo não apenas bem
comportado e dócil”. (p.154).

3 GENERO E PATRIARCADO: diferenças e complementaridades

“o patriarcado é um sistema segundo o qual as mulheres são exploradas e dominadas. Esse


sistema estabelece uma hierarquia entre homens e mulheres em todas as relações e espaços
sociais, portanto, não se limita a esfera privada.” (p.155).

“O patriarcado qualifica as relações desiguais de gênero, explicita o vetor de dominação e


exploração do homem sobre a mulher presente nesta sociedade. Dessa forma, o patriarcado é
uma expressão especifica das relações de gênero.” (p.155).

“gênero pode comtemplar relações igualitárias, o patriarcado diz respeito, diretamente, as


relações de dominação, opressão e exploração masculinas no controle e na vida das
mulheres.” (p.156).

“as próprias mulheres incorporam e reproduzem as relações patriarcais, seja entre si ou na


educação de seus filhos e filhas.” (p.157).

“Isso corre porque além do patriarcado se regido pelo medo, é também pela dominação
ideológica, o que faz com que muitas mulheres não apenas o naturalize, como também, o
reproduza.” (p.158).

“É devido à ideologia e seu par dialético, a alienação, que o patriarcado consegue se


reproduzir como sistema, mesmo em situações sem presença dos homens.” (p.159).

“É, portanto, essa alienação que faz com que mulheres naturalizem e reproduzam as sua
condição de subalternidade e subserviência, assim como trabalhadores incorporem a ideologia
da classe que o explora”. (p.159)

“cabe, dessa forma, ás mulheres no sistema patriarcal que foi incorporado pelo capitalismo, a
responsabilidade com o trabalho domestico.” (p.160).

4 CONCLUSÕES
“uma vez que, negar a existência do patriarcado é negar a desigualdade entre homens e
mulheres em sua base material, atomizando-a na dimensão “cultural” da construção social dos
gêneros”. (p.162)

“A apreensão critica do patriarcado como vivemos num sistema integrado ao capitalismo é


condição primaria para desvelarmos os mecanismos de dominação e exploração das mulheres.
Limitar a analise da condição da mulher a construção do gênero é perder a materialidade, ou
seja, o fundamento concreto da desigualdade que pousa suas raízes na propriedade privada.”
(p.162).

5 RESUMO

A abordagem do autor no texto no apresenta como o patriarcado atua na sociedade e


mais especificamente na vida da mulher. Disseminado relações de hierarquia dos homens
sobre as mulheres, ao ponto delas se tornarem alienadas e reproduzir o mesmo com ouras
mulheres. É um sistema em que as mulheres são exploradas e dominadas pelos homens e pelo
capitalismo.
GONZALEZ, L. A mulher negra na sociedade brasileira: uma abordagem político-econômico.
LUZ, Madel T. (org.) O lugar da mulher: estudos sobre a condição feminina na sociedade
atual. Rio de Janeiro: Graal, 1982. p. 89-105.

1 INTRODUÇÃO

“melhor entendimento as situação da mulher negra em particular e do povo negro em geral,


em termos da sociedade brasileira.” (p.89).

“E os quilombos existiram em todo o país como contrapartida, o modo de resistência


organizada do povo negro contra a superexploração de que era objeto.”(p.90)

“Palmares foi a primeira tentativa brasileira no sentido da criação de uma sociedade


democrática e igualitária que, em termos politico e socioeconômicos, realizou um grande
avanço.”(p.91).

“a resistência negra também se deu em termos de movimentos urbanos armados como aqueles
que, iniciando-se em 1807 na cidade de Salvador, culminaram com a famosa Revolução dos
Malês (mulçumanos) em 1835. Sua importância maior reside no fato de que diretamente dos
demais, seu objeto primordial era a efetiva tomada do poder.”(p.91).

“enquanto escrava do eito, ninguém melhor do que a mulher para estimular seus
companheiros para a fuga ou a revolta, uma vez que trabalhando de sol a sol, sub- alimentada
e, muitas vezes, cometendo o suicídio para que o filho que trazia no ventre não tivesse o
mesmo destino que ela.”. (p.92-93)

“Foi na função de sua atuação como mucama, que a mulher negra deu origem à figura da
“Mãe Preta”, ou seja, aquela que efetivamente, ao menos em termo de primeira infância.”
(p.93).

“Mas precisamente, coube à “Mãe Preta”, enquanto sujeito-suposto-saber, a africalização do


português falado no Brasil.”(p.94).

2 O lugar da mulher negra na força de trabalho e nas relações raciais

“Antes de mais nada, importa caracterizar o racismo como uma construção ideológica cujas
praticas se concretizam nos diferentes processo de discriminação racial.”(p.94).
“O censo de 1950 foi o ultimo a nos fornecer dados objetivos, indicadores básicos relativos à
educação e aos setores de atividade econômica da mulher negra. O que então se constava era
o seguinte: nível de educação muito baixo, sendo o analfabetismo o fator dominante.” (p.96).

“Com isso a mulher negra perdeu muito enquanto operaria, apesar de tentar penetrar em
outros setores como a indústria de alimentos ou roupas, onde viria a ser a grande minoria.”
(p.97).

“Quanto à mulher negra, que se pense em sua falta de perspectivas quanto à possibilidade de
novas alternativas. Ser negra e mulher no Brasil, repetimos, é ser objeto de tripla
discriminação uma vez que os estereótipos gerados pelo racismo e pelo sexismo a colocam no
mais baixo nível de opressão. Enquanto seu homem é objeto da perseguição, repressão e
violência policiais.” (p.97).

“Enquanto empregada domestica, ela sofre um processo de reforço quanto à internalização da


diferença, da subordinação e da “inferioridade” que lhe seriam peculiares”. (p.98)

“De um modo geral, a mulher negra é vista pelo restante da sociedade a partir de dois tipos de
qualificação “profissional”: domestica e mulata. A profissão de “mulata” é uma das mais
recentes criações do sistema hegemônico no sentido de um tipo especial de “mercado de
trabalho”. Atualmente, o significante de mulata não nos remete apenas ao significado
tradicionalmente aceito (filha ou mestiça de preto/ a com branca/o), mas a um outro, mais
moderno: “produto de exportação”.(p.98)

“A exploração da mulher negra enquanto objeto sexual é algo que está muito além do que
pensam ou dizem os movimentos feministas brasileiros, geralmente liderados por mulheres da
classe media branca.” (p.99).

“Com isso temos um exemplo a mais da superexploração econômico-sexual. O da


sensualidade especial da mulher negra.” (p.100).

“Gostaríamos de chamar atenção para a maneira como a mulher negra é praticamente excluída
dos textos do discurso do movimento feminino em nosso país. A maioria dos textos, apesar de
tratarem das relações de dominação sexual, social e econômica a que a mulher está
submetida.” (p.100).
“Pelo exposto talvez se conclua que a mulher negra desempenha um papel altamente negativo
na sociedade brasileira dos dias de hoje, dado o tipo de imagem que lhe é atribuído ou dadas
as formas de superexploração e alienação a que está submetida.” (p.101).

3 Algumas reflexões, a titulo de conclusão

“Na introdução deste trabalho, referimo-nos aos diferentes modos de resistência/confrontação


utilizados pelo negro no período escravista, assim como as formas de resistência passiva (mas
ativa quanto à sua eficácia simbólica) representadas pela atuação da “Mãe Preta.” (p.102).

“São mulheres negras e pobres que não desempenham um papel apenas religioso/ cultural.”
(p.102).

“Em termos de Movimento Negro Unificado, a presença da mulher negra tem sido de
fundamental importância uma vez que, compreendendo que o combate ao racismo é
prioritário, ela não se dispersa num tipo de feminismo que a afastaria de seus irmãos e
companheiros.” (p.103).

“A mulher negra anônima sustentáculo econômico, afetivo e moral de sua família é quem, a
nosso ver, desempenha o papel mais importante. Exatamente porque com sua força e corajosa
capacidade de luta pela sobrevivência, transmite-nos a nós suas irmãs mais afortunadas, o
ímpeto de não nos recursamos a luta pelo nosso povo.” (p.104).

4 RESUMO

No texto a mulher negra na sociedade brasileira, o autor nos traz o papel da mulher
Negra na historia do Brasil e em que lugares as mulheres negras ocupavam na sociedade e o
seu papel. Negra como mulata, mãe preta, como sempre foram resistentes na sua luta por
liberdade. E de como essa mulheres ajudam não somente elas assim como os homens na luta
pela liberdade e racismo.
ALMEIDA, M. S. Exercício do serviço social sem ser discriminado, nem discriminar, por
questões de inserção de classe social, gênero, etnia, religião, nacionalidade, opção sexual,
idade, condição física. Conselho Regional de Serviço Social (Org.) In Projeto ético político e
exercício profissional em serviço social: os princípios do código de ética articulados à
atuação crítica de assistentes sociais. Rio de Janeiro: CRESS, 2013. p. 136-148.

1 INTRODUÇÃO

“Discriminar significa distinguir, diferenciar, estabelecer diferença.” (p.137)

“A discriminação é fundada no preconceito e representa uma atitude irracional.” (p.137-138).

“Chamo a atenção para a força viva das pratica discriminatória, pois estas atitudes são aliadas
do conservadorismo e também responsáveis por naturalizar e as diferenças e transforma-las
em desigualdades.” (p.138).

“Neste sentido, discriminar é violar direitos. Por isso, o principio da não descriminação
defendido no Código de Ética do Assistente Social, como os demais princípios.” (p.138).

“Assim, a emancipação social da humanidade passa necessariamente pela negação dos


direitos humanos se a sua realização é requerida na esfera (única e exclusivamente) da
emancipação politica do individuo social.” (p.139).

“O processo de emancipação de toda humanidade, deste modo, requer a supressão da


propriedade privada e, igualmente, a ultrapassagem das estruturas racistas, sexistas,
homolesbotranfóbicas, dentre outra formas de discriminação a que os sujeitos sociais estão
submetidos.” (p.140).

“As expressões discriminatórias, como afirma Barroco (2012) resultam de uma cultura
conservadora decorrente da precarização da formação profissional, da falta de solidez teórico-
metodológica, da ausência da critica etc.” (p.141).

“Parindo dessa realidade, torna-se uma exigência teórica e ética-politica a escolha de


referencias emancipatórios, sem os quais nos manteremos presos/as ao conservadorismo,
Assim o que sabemos sobre processos históricos de resistencias das classes subalternas no
combate ao preconceito.” (p.142).

“As reflexões em torno da questão indígena e da diversidade sexual vão emergir nos CBAS de
1998 e 2001, respectivamente. Portanto, a importância destes temas no âmbito do exercício
profissional vem sendo referendada na permanência desses eixos temáticos nos CBAS.”
(p.143).

2 À Guisa de conclusão

“Processos discriminatórios das mais variadas motivações, atuam para naturalizar as


diferenças e manter as desigualdades. O racismo, a homofobia, lesbofobia e transfobia, a
misoginia ou sexismo, recrudescem. A desproteção das crianças, adolescentes e idosos é uma
realidade que deve ser igualmente denunciada” (p.146).

“Precisamos, ainda, enfrentar como mais efetividade a discriminação religiosa, da qual têm
sido objeto de ataque as religiões de matriz africana – de forma incisiva- e a tradição indígena
de forma mais silenciosa” (p.146).

“A persistência de atitudes e praticas discriminatórias em nossa realidade reproduzem as


hierarquias sociais estruturadas relações de dominação e exploração capitalistas,
naturalizando as diferenças, cujas expressões são socialmente construídas, reproduzindo as
desigualdades.” (p.147).

3 RESUMO

A reflexão que o texto nos traz é que a serviço social tem que lutar contra qualquer
tipo de discriminação, pois essa esse comportamentos estão ligados ao conservadorismo e a
burguesia. Porque discriminar é violar direitos e o principio da não discriminação defendido
no código de ética do assistente social. Foi apresentando iniciativas em que o CFESS/CRESS
em combate à discriminação.
DAVIS, A. Mulheres, raça e classe. Tradução Heci Regina Candiani. 1. ed. São Paulo:
Boitempo,2016. Capitulo 5.p. 97-108 e Capítulo 11 p. 172-196.

Capitulo 5 O SIGNIFICADO DE EMANCIPAÇÃO PARA AS MULHERES NEGRAS

“De acordo com o censo de 1890, havia 2,7 milhões de meninas e mulheres negras com idade
acimados dez anos. Mais de 1 milhão delas eram trabalhadoras assalariadas: 38,7% na
agricultura, 30,8% nos serviços domésticos, 15,6% em lavanderias e ínfimos 2,8% em
manufaturas.” (p.97).

“Em 1890, para as mulheres negras, devia parecer que a liberdade estava em um futuro ainda
mais remoto do que no fim da Guerra Civil.” (p.97).

“Em geral, elas eram obrigadas a assinar “contratos” com proprietários de terras que
desejavam reproduzir as condições de trabalho do período anterior à Guerra Civil.” (p.97).

“Por meio do sistema de contratação de pessoas encarceradas, a população negra era


forçada a representar os mesmos papéis que a escravidão havia lhe atribuído. Homens e
mulheres eram igualmente vítimas de detenções e prisões sob os menores pretextos –
para que fossem cedidos pelas autoridades como mão de obra carcerária.” (p.98).

“Tendo a escravidão como modelo, o sistema de contratação de mão de obra


carcerária não diferenciava o trabalho masculino do feminino. Homens e mulheres eram
frequentemente alojados na mesma paliçada e agrilhoados juntos durante o dia de
trabalho. Em uma resolução aprovada pela Convenção de Pessoas Negras do Estado do
Texas, em 1883, “a prática de agrilhoar ou acorrentar detentas e detentos juntos” foi
“fortemente condenada”. Da mesma forma, na Convenção de Fundação da Liga
AfroAmericana, em 1890.” (p.98)

. “Desde 1876”, mostra Du Bois, “pessoas negras têm sido detidas


em resposta à menor provocação e sentenciadas a longas penas ou multas, sendo
obrigadas a trabalhar para pagá-las.” (p.99).

“Mas as mulheres eram especialmente suscetíveis aos ataques brutais


do sistema judiciário. Os abusos sexuais sofridos rotineiramente durante o período da
escravidão não foram interrompidos pelo advento da emancipação.” (p.99).
“Aos olhos dos ex-proprietários de escravos, “serviço doméstico”
devia ser uma expressão polida para uma ocupação vil que não estava nem a meio passo
de distância da escravidão. Enquanto as mulheres negras trabalhavam como cozinheiras,
babás, camareiras e domésticas de todo tipo, as mulheres brancas do Sul rejeitavam
unanimemente trabalhos dessa natureza.”(p.99).

“Um dos aspectos mais humilhantes do serviço doméstico no Sul – e outra


confirmação de sua semelhança com a escravidão – era a anulação temporária das leis Jim
Crow sempre que uma serviçal negra estivesse em presença de pessoas brancas.” (p.100).

“Desde a Reconstrução até o presente, as mulheres negras empregadas em funções


domésticas consideraram o abuso sexual cometido pelo “homem da casa” como um dos
maiores riscos de sua profissão. Por inúmeras vezes, foram vítimas de extorsão no
trabalho, sendo obrigadas a escolher entre a submissão sexual e a pobreza absoluta para
si mesmas e para sua família.” (p.100).

“Desde o período da escravidão, a condição de vulnerabilidade das trabalhadoras


domésticas tem sustentado muitos dos mitos duradouros sobre a “imoralidade” das
mulheres negras” (p.101).

“Du Bois, revela que 60% da mão de obra negra no estado da Pensilvânia estava empregada
em algum tipo de função doméstica. A situação das mulheres era ainda pior, pois 91% das
trabalhadoras negras – 14.297 de um total de 15.704 – eram contratadas como
serviçais. Quando foram para o Norte, tentando fugir da antiga condição de
escravidão, descobriram que simplesmente não havia outras ocupações disponíveis para
elas.” (p.101)

“A definição tautológica de pessoas negras como serviçais é, de fato, um dos artifícios


essenciais da ideologia racista.” (p.102).

“Todas as manhãs, sob sol ou chuva, mulheres com sacolas de papel pardo ou
maletas baratas se reuniam em grupos nas esquinas do Bronx e do Brooklyn, onde
esperavam pela oportunidade de conseguir algum trabalho. [...] Uma vez
contratadas no “mercado de escravas”, depois de um dia de trabalho extenuante, elas
não raro descobriam que haviam trabalhado por mais tempo do que o combinado,
recebido menos do que o prometido, sido obrigadas a aceitar o pagamento em
roupas em vez de dinheiro e exploradas além da resistência humana. Mas a
necessidade urgente de dinheiro faz com que elas se submetam a essa rotina diária.” (p.102-
103).

“As mulheres brancas – incluindo as feministas – demonstraram uma relutância


histórica em reconhecer as lutas das trabalhadoras domésticas. Elas raramente se
envolveram no trabalho de Sísifo que consistia em melhorar as condições do serviço
doméstico. Nos programas das feministas “de classe média” do passado e do presente, a
conveniente omissão dos problemas dessas trabalhadoras em geral se mostrava uma
justificativa velada – ao menos por parte das mulheres mais abastadas – para a exploração
de suas próprias empregadas.” (p.103).

“seu comportamento contraditório e sua insensibilidade desproporcional


não são inexplicáveis, já que as pessoas que trabalham como serviçais geralmente são
vistas como menos do que seres humanos. Inerente à dinâmica do relacionamento entre
senhor e escravo (ou senhora e empregada), disse o filósofo Hegel, é o esforço constante
para aniquilar a consciência do escravo.” (p.104).

“Quando os Estados Unidos entraram na Segunda Guerra Mundial e o trabalho feminino


manteve a economia de guerra em funcionamento, mais de 400 mil mulheres negras deram
adeus para seus trabalhos domésticos. No auge da guerra, o número de mulheres negras na
indústria havia mais que dobrado. Mesmo assim – e essa ressalva é inevitável –, ainda nos
anos 1960, pelo menos um terço das trabalhadoras negras permanecia preso aos mesmos
trabalhos domésticos do passado e um quinto delas realizava serviços fora do ambiente
doméstico.” (p.105).

Resumo

O capitulo fala sobre a emancipação para as mulheres negras, que mesmo com o fim
da escravidão elas ainda eram escravizadas. Pois a formas de trabalho em que elas eram
colocadas era de serviços domésticos, o qual já ocorria na escravidão. O texto também fala de
que forma essas mulheres eram abusadas pelos seus patrões e as diversas humilhações que
passavam para conseguirem um meio para se sustentarem.
Capitulo 11 ESTUPRO, RACISMO E O MITO DO ESTUPRADOR NEGRO

“Alguns dos sintomas mais evidentes da desintegração social só são reconhecidos como
um problema sério após assumirem tamanha proporção epidêmica que parecem não ter
solução. O estupro é um dos casos em questão. Hoje, nos Estados Unidos, é um dos
crimes violentos que mais crescem.” (p.172)

“Como resultado, um fato assombroso veio à luz: terrivelmente, poucas mulheres podem
alegar não ter sido vítimas, pelo menos uma vez na vida, ou de uma tentativa de ataque
sexual, ou de uma agressão sexual consumada.” (p.172)

“O que acontece com as mulheres da classe trabalhadora, em geral, tem sido uma
preocupação menor por parte dos tribunais; como resultado, são consideravelmente poucos os
homens brancos processados pela violência sexual que cometeram contra essas mulheres.
Embora estupradores raramente sejam levados à justiça, a acusação de estupro tem sido
indiscriminadamente dirigida aos homens negros, tanto os culpados quanto os inocentes. Por
isso, dos 455 homens condenados por estupro que foram executados entre 1930 e 1967, 405
eram negros.” (p.172)

“O mito do estuprador negro tem sido invocado sistematicamente sempre que as recorrentes
ondas de violência e terror contra a comunidade negra exigem justificativas convincentes.”
(p.172).

“O mito do estuprador negro de mulheres brancas é irmão gêmeo do mito da


mulher negra má – ambos elaborados para servir de desculpa e para facilitar a
exploração continuada de homens negros e de mulheres negras.” (p.173).

“O fato de as mulheres negras não terem se juntado em massa ao movimento


antiestupro não significa, portanto, que se opusessem a medidas gerais de combate ao
estupro. Antes do fim do século XIX, mulheres negras pioneiras do movimento
associativo orquestraram um dos primeiros protestos públicos organizados contra o
abuso sexual. Sua tradição de oitenta anos na luta organizada contra o estupro reflete
como as mulheres negras têm sofrido, de modo amplo e exagerado, a ameaça de violência
sexual. Uma das características históricas marcantes do racismo sempre foi a concepção
de que os homens brancos – especialmente aqueles com poder econômico – possuiriam
um direito incontestável de acesso ao corpo das mulheres negras.” (p.174)
“A licença para estuprar emanava da cruel dominação econômica e era por ela facilitada,
como marca grotesca da escravidão” (p.174).

“É uma dolorosa ironia que algumas teóricas antiestupro que ignoram o papel
instigador desempenhado pelo racismo não hesitem em argumentar que os homens de
minorias étnicas são especialmente propensos a cometer violência sexual contra mulheres.”
(p.176).

“Os estudos mais recentes sobre estupro nos Estados Unidos reconheceram a
disparidade entre a incidência real de ataques sexuais e as notificações que chegam à
polícia.” (p.177).

“A imagem fictícia do homem negro como estuprador sempre fortaleceu sua companheira
inseparável: a imagem da mulher negra como cronicamente promíscua. Uma vez aceita a
noção de que os homens negros trazem em si compulsões sexuais irresistíveis e animalescas,
toda a raça é investida de bestialidade. Se os homens negros voltam os olhos para as mulheres
brancas como objetos sexuais, então as mulheres negras devem por certo aceitar as atenções
sexuais dos homens brancos. Se elas são vistas como “mulheres fáceis” e prostitutas, suas
queixas de estupro necessariamente carecem de legitimidade.” (p.179).

“Durante o período de escravidão, o linchamento de pessoas negras não ocorria de forma


ampla pela simples razão de que os proprietários de escravos relutavam em destruir sua
valiosa propriedade. Açoitamento sim, mas linchamento não. Em conjunto com o
açoitamento, o estupro era um método extremamente eficiente para manter tanto as mulheres
negras quanto os homens negros sob controle. Tratava-se de uma arma rotineira de
repressão.” (p.180).

“Com a emancipação dos escravos, a população negra não tinha mais valor de
mercado para os antigos proprietários, e “a indústria de linchamentos passou por uma
revolução”. (p.180).

“Por mais ilógico que seja o mito, não se trata de uma aberração espontânea. Ao contrário, o
mito do estuprador negro era uma invenção obviamente política.” (p.180).

“Se o povo negro tivesse simplesmente aceitado uma condição de inferioridade


econômica e política, os assassinatos praticados por gangues teriam provavelmente
diminuído. Mas, como um grande número de ex-escravas e ex-escravos se recusou a
abrir mão de seus sonhos de progresso, mais de 10 mil linchamentos ocorreram durante
as três décadas posteriores à guerra.” (p.185).

“Dado o papel central do estuprador negro fictício na formação do racismo pós escravidão, é,
na melhor das hipóteses, uma teoria irresponsável a que representa os
homens negros como os autores mais frequentes de violência sexual. Na pior das
hipóteses, é uma agressão contra o povo negro como um todo, pois o estuprador mítico
implica a prostituta mítica.” (p.186).

“Durante a Cruzada Contra os Linchamentos, as críticas à manipulação racista da


acusação de estupro não tinham o objetivo de isentar os homens negros que de fato
cometessem crimes de agressão sexual.” (p.189).

“Ninguém pode negar que as mulheres foram manipuladas pelos racistas do


Alabama. Entretanto, é errado retratá-las como peças inocentes de um jogo, isentas da
responsabilidade de colaborar com as forças do racismo.” (p.191).

“O mito do estuprador negro continua a levar a cabo o pérfido trabalho da ideologia


racista. E deve ser responsável por grande parte do fracasso da maioria das teóricas
antiestupro na busca da identidade do enorme número de estupradores anônimos, que
seguem sem denúncia, julgamento e condenação.” (p.191).

“A existência generalizada do assédio sexual no trabalho nunca foi um grande


segredo. De fato, é precisamente no trabalho que as mulheres – em especial quando não
estão organizadas em sindicatos – são mais vulneráveis.” (p.191).

“Homens da classe trabalhadora, seja qual for sua etnia, podem ser motivados a
estuprar pela crença de que sua masculinidade lhes concede o privilégio de dominar as
mulheres. Ainda assim, como eles não possuem a autoridade social ou econômica.” (p.192)

“A estrutura de classe do capitalismo encoraja homens que detêm poder econômico e


político a se tornarem agentes cotidianos da exploração sexual. A presente epidemia de
estupros ocorre em um momento em que a classe capitalista está furiosamente
reafirmando sua autoridade em face de desafios globais e nacionais.” (p.192).

“A proliferação da violência sexual é a face brutal de uma intensificação


generalizada do sexismo, que necessariamente acompanha essa agressão econômica.
Seguindo o padrão estabelecido pelo racismo, o ataque contra as mulheres espelha a
situação de deterioração da mão de obra de minorias étnicas e a crescente influência do
racismo no sistema judicial, nas instituições de ensino e na postura de negligência
calculada do governo em relação à população negra e a outras minorias étnicas. Os sinais
mais dramáticos do perigoso ressurgimento do racismo são a nova visibilidade da Ku
Klux Klan e a correspondente epidemia de agressões violentas contra negros,
descendentes de mexicanos e indígenas. A presente epidemia de estupros guarda uma
extraordinária semelhança com essa violência estimulada pelo racismo.” (p.192).

“A luta contra o racismo deve ser um tema contínuo do


movimento antiestupro, que deve defender não apenas as mulheres de minorias étnicas,
mas também as muitas vítimas da manipulação racista das acusações de estupro.” (p.192).

RESUMO

Nós explica como que ocorreu a construção do homem negro como um estuprador.
Mostrando diversos casos. Como ocorriam os linchamentos aos acusados desse crime e de
como muitas mulheres lutaram para que isso mais não acontecesse. Como foi inserido na
sociedade a partir do racismo esse mito do Negro estuprador.
EURICO, M. C. A percepção do assistente social acerca do racismo institucional. Serviço
social e sociedade. São Paulo, n. 114, abr./jun. 2013. p. 290-310. Disponível em
<http://www.scielo.br/pdf/sssoc/n114/n114a05.pdf> Acessado em 11 de março de 2016.

1 O Serviço Social e o debate sobre a questão racial

“O sistema capitalista modifca profundamente a dinâmica das relações sociais,


mesmo quando se considera que a desigualdade entre as várias camadas sociais é
um fenômeno antigo. A forma que a pobreza assume nessa sociedade é radicalmen-
te nova. Pela primeira vez na história da humanidade, a pobreza cresce na mesma
proporção que se criam as condições para sua redução e, no limite, para sua supres-
são (Netto, 2005).” (p.292).

“O Código de Ética Profssional do Assistente Social, aprovado em 1993, é o


primeiro código profssional do Serviço Social que introduz a questão da não dis-
criminação como um de seus princípios fundamentais” (p.293).

“Na história contada sobre o país há uma lacuna importante quanto ao destino
da população negra após a abolição, fruto do silêncio que insiste em ratifcar que a
injustiça cometida contra essa parcela da população cessou com o fm da escrava-
tura. Por outro lado, a busca pela transformação da nação em um país desenvolvi-
do e industrializado logrou justifcar essa exclusão, e os estereótipos5 se dissemi-
naram pelo país, atribuindo ao negro a culpa por sua condição social.” (p.294).

“As desigualdades são entendidas como discriminação racial quando se en-


contram e se comprovam mecanismos causais que operam na esfera individual e
social e que possam ser retraçados ou reduzidos à ideia de raça. Assim, grupos
considerados superiores obtêm privilégios em relação aos outros grupos, conside-
rados inferiores.” (p.294).

“A discriminação racial materializa o preconceito racial que é a manifestação


comportamental baseada no juízo de valor, socialmente construído e destituído de
base objetiva.” (p.294).

“O racismo no Brasil, enquanto uma construção sócio-histórica, traz consigo


o preconceito e a discriminação racial, acarretando prejuízos à população negra
nas diferentes fases do ciclo de vida, independente da camada social e da região de
moradia” (p.295).

“É na esfera das relações sociais que a questão racial ganha amplitude, na


forma como a população negra acessa a riqueza socialmente produzida, ao esta-
belecer relações afetivas, no acesso e permanência no mercado de trabalho, na invisibilidade
escolar. Enfim é na vida cotidiana que a diversidade racial ganha contornos de desigualdade
social.” (p.295-296).

“Do exposto, pode-se inferir que os conceitos raça e etnia não são sinônimos,
mas complementares, razão pela qual nas diversas produções é comum encontrar-
mos a associação raça/etnia.” (p.296).

“O termo negro, por sua vez, para além da cor da pele, remete a uma origem
racial, aos descendentes de negros africanos no Brasil, valorizando os atributos
físicos e culturais daqueles que representam quase metade da população brasileira.” (p.296).

“As pessoas não são discriminadas apenas pela sua descendência, mas pelo
fenótipo — cor da pele, traços faciais, tipo de cabelo —, pelo externo, no momen-
to em que acessam o mercado de trabalho, os serviços públicos, os espaços cole-
tivos etc.” (p.297).

“Assim, entendemos que afrodescendente é uma categoria extremamente peri-


gosa, que pode fortalecer o discurso daqueles que insistem em afrmar que somos
todos brasileiros, desconsiderando a diversidade e a perversidade das relações sociais,
terreno em que a discussão sobre a questão racial não tem base de sustentação.” (p.298).

“O discurso dominante que ainda insiste em desvalorizar a população negra,


sua cultura e suas tradições, perde legitimidade à medida que o debate racial avan-
ça, desconstruindo estereótipos.” (p.298).

2 Racismo institucional: a exacerbação da desigualdade social

“O racismo, por si só, é perverso e desencadeia relações sociais profundamen-


te desumanas e continua a se reproduzir cotidianamente no início do século XXI.” (p.298).
“O racismo institucional refere-se às operações anônimas de discriminação
racial em instituições, profssões ou mesmo em sociedades inteiras (Cashmore et al.,
2000). O anonimato existe à medida que o racismo é institucionalizado, perpassa
as diversas relações sociais, mas não pode ser atribuído ao indivíduo isoladamente.
Ele se expressa no acesso à escola, ao mercado de trabalho, na criação e implanta-
ção de políticas públicas que desconsideram as especifcidades raciais e na repro-
dução de práticas discriminatórias arraigadas nas instituições.” (p.299).

“Portanto, o racismo institucional possui duas dimensões interdependentes e


correlacionadas: a político-programática, e a das relações interpessoais. Quanto à
dimensão político-programática podemos dizer que ela compreende as ações que
impedem a formulação, implementação e avaliação de políticas públicas efcientes,
efcazes e efetivas no combate ao racismo, bem como a visibilidade do racis-
mo nas práticas cotidianas e nas rotinas administrativas. A dimensão das relações
interpessoais abrange as relações estabelecidas entre gestores e trabalhadores, entre
trabalhadores e trabalhadores, entre trabalhador e usuário, e entre usuário e traba-
lhador, sempre pautadas em atitudes discriminatórias (Amma-Psique e Negritude
Quilombhoje, 2008).” (p.299-300).

3 Desdobramentos da pesquisa

“A análise da pesquisa revelou que a percepção dos assistentes sociais acerca


da questão racial e dos mecanismos de reprodução do racismo no interior da so-
ciedade brasileira ainda está bastante distorcida. A desigualdade étnico-racial é
percebida por metade das entrevistadas, que conseguem descrever como a forma
de ser da instituição, neste caso uma instituição de internação para adolescentes
que cometeram ato infracional, interfere no olhar sobre a população negra, carre-
gado de estereótipos.” (p.301).

“Todas as profissionais entrevistadas referem participar de reunião semanal


para discussão dos casos mais complexos, porém afirmam não haver espaço siste-
mático de atualização profissional.” (p.302).
“Quanto à dimensão das relações interpessoais, uma assistente social denuncia
as situações de discriminação racial a que é submetida constantemente por parte
dos usuários que acessam o Serviço Social daquela instituição.” (p.304).

“A dimensão das relações interpessoais compreende ainda a reprodução de


piadas e comentários racistas, a relação naturalizada entre raça/etnia e violência
exacerbada, ainda que em mensagens subliminares.” (p.305).

“Os avanços obtidos com a Lei n. 7.437, conhecida como Lei Caó que inclui,
entre as contravenções penais, a prática de atos resultantes de preconceito de raça/
cor; com a Lei n. 10.639, que torna obrigatório, nas escolas de nível fundamental
e médio, o ensino de história da África e a contribuição dos povos africanos para a
formação do Brasil; e com o Estatuto da Igualdade Racial, não são sequer citados.” (p.306).

4 À guisa de conclusão

“A pesquisa revelou que o debate sobre a questão racial precisa ser ampliado
e sistematicamente discutido pelo conjunto da categoria profissional, mas revelou
também a dificuldade dos profissionais em dar concretude ao Código de Ética
profissional, pois os seus princípios são citados abstratamente, sem a necessária
conexão com a realidade vivenciada pela população negra.” (p.306).

“O combate ao racismo institucional e à discriminação por questões de raça/etnia se


inscreve nessa lógica, e a questão racial pode ser debatida se as concepções teóri-
cas que culminaram naquela construção forem devidamente apropriadas.” (p.307).

“Quanto ao projeto ético-político do Serviço Social, é pertinente ressaltar que


as suas orientações de valor possuem uma objetividade real e dependem também
da subjetividade dos sujeitos que o realizam cotidianamente.” (p.307).

“Portanto, o trabalho do assistente social compõe-se de múltiplas facetas, e a


análise empreendida nessa pesquisa sobre o racismo institucional pode favorecer
o desvelamento das práticas discriminatórias enraizadas em diversas instituições,
com vistas à garantia dos direitos sociais, sem qualquer forma de discriminação
racial.” (p.307).
“relação à questão racial, seja porque há um
amplo debate na sociedade sobre a promoção da igualdade racial — ainda que
historicamente os grupos dominantes continuem tentando desqualificar a luta co-
letiva —, seja porque o projeto ético-político profissional do Serviço Social, expli-
citado no Código de Ética de 1993, reconhece a liberdade como valor ético central” (p.308).

5 RESUMO

No texto de Eurico ela aborda como a assistente social tem a percepção sobre o
racismo institucional. Ela debate sobre a questão social no serviço social, em como o racismo
institucional desencadeia relações sociais profundamente desumanas e continua a se
reproduzir cotidianamente e por fim os resultados da pesquisas feitas com as assistentes
sociais por meio de entrevistas. Revelando que o debate da questão social precisa ser
ampliado e discutido na categoria profissional.
CARNEIRO, S. Enegrecer o feminismo: a situação da mulher negra na américa latina a partir
de uma perspectiva de gênero. p.1-5; Disponível em
<https://edisciplinas.usp.be/plugnfile.php/375003/mod_resource/content/0/Carneiro_Feminis
mo%20negro.pdf> Acesso em 8 de mai. 2018

“No Brasil e na América Latina, a violação colonial perpetrada pelos senhores


brancos contra as mulheres negras e indígenas e a miscigenação daí resultante está
na origem de todas as construções de nossa identidade nacional, estruturando o
decantado mito da democracia racial latino-americana, que no Brasil chegou até as
últimas conseqüências.” (p.01).

“Fazemos parte de um contingente de mulheres que trabalharam durante séculos como


escravas nas lavouras ou nas ruas, como vendedoras, quituteiras, prostitutas... Mulheres que
não entenderam nada quando as feministas disseram que as mulheres deveriam ganhar as ruas
e trabalhar! Fazemos parte de um contingente de mulheres com identidade de
objeto. Ontem, a serviço de frágeis sinhazinhas e de senhores de engenho tarados.” (p.01).

“Quando falamos em romper com o mito da rainha do lar, da musa idolatrada dos
poetas, de que mulheres estamos falando? As mulheres negras fazem parte de um
contingente de mulheres que não são rainhas de nada, que são retratadas como
antimusas da sociedade brasileira, porque o modelo estético de mulher é a mulher
branca.” (p.02).

“Fazemos parte de um contingente de mulheres originárias de uma cultura que não


tem Adão. Originárias de uma cultura violada, folclorizada e marginalizada, tratada
como coisa primitiva, coisa do diabo, esse também um alienígena para a nossa
cultura. Fazemos parte de um contingente de mulheres ignoradas pelo sistema de
saúde na sua especialidade, porque o mito da democracia racial presente em toda
nós torna desnecessário o registro da cor dos pacientes nos formulários da rede
pública, informação que seria indispensável para avaliarmos as condições de saúde
das mulheres negras no Brasil, pois sabemos, por dados de outros países, que as
mulheres brancas e negras apresentam diferenças significativas em termos de
saúde.” (p.02).

“A partir desse ponto de vista, é possível afirmar que


um feminismo negro, construído no contexto de sociedades multirraciais,
pluriculturais e racistas – como são as sociedades latino-americanas – tem como
principal eixo articulador o racismo e seu impacto sobre as relações de gênero, uma
vez que ele determina a própria hierarquia de gênero em nossas sociedades.” (p.02).

“O atual movimento de mulheres negras, ao trazer para a cena política as


contradições resultantes da articulação das variáveis de raça, classe e gênero,
promove a síntese das bandeiras de luta historicamente levantadas pelos
movimento negro e de mulheres do país, enegrecendo de um lado, as
reivindicações das mulheres, tornando-as assim mais representativas do conjunto
das mulheres brasileiras, e, por outro lado, promovendo a feminização das
propostas e reivindicações do movimento negro.” (p.02).

“Enegrecer o movimento feminista brasileiro tem significado, concretamente,


demarcar e instituir na agenda do movimento de mulheres o peso que a questão
racial tem na configuração, por exemplo, das políticas demográficas, na
caracterização da questão da violência contra a mulher pela introdução do conceito
de violência racial como aspecto determinante das formas de violência sofridas por
metade da população feminina do país que não é branca; introduzir a discussão
sobre as doenças étnicas/raciais ou as doenças com maior incidência sobre a
população negra como questões fundamentais na formulação de políticas públicas
na área de saúde; instituir a crítica aos mecanismos de seleção no mercado de
trabalho como a “boa aparência”, que mantém as desigualdades e os privilégios
entre as mulheres brancas e negras.” (p.03).

“Se, historicamente, as práticas genocidas tais como a violência policial, o extermínio de


crianças, a ausência de políticas sociais que assegurem o exercício dos direitos básicos de
cidadania têm sido objetos prioritários da ação política dos movimentos negros, os problemas
colocados hoje pelos temas de saúde e de população nos situam num quadro talvez ainda mais
alarmante em relação aos processos de genocídio do povo negro no Brasil.” (p.03).

“A firmeza da posição brasileira assegurou que a redação final


do Artigo 32 afirmasse a necessidade de “intensificar esforços para garantir o
desfrute, em condições de igualdade, de todos os direitos humanos e liberdades
fundamentais a todas as mulheres e meninas que enfrentam múltiplas barreiras
para seu desenvolvimento e seu avanço devido a fatores como raça, idade, origem
étnica, cultura, religião...” O próximo passo será a monitoração desses acordos por
parte de nossos governos.” (p.04).

Conclusões

“A origem branca e ocidental do feminismo estabeleceu sua hegemonia na equação


das diferenças de gênero e tem determinado que as mulheres não brancas e
pobres, de todas as partes do mundo, lutem para integrar em seu ideário as
especificidades raciais, étnicas, culturais, religiosas e de classe social. Até onde as
mulheres brancas avançaram nessas questões?” (p.04).

“A utopia que hoje perseguimos consiste em buscar um atalho entre uma negritude
redutora da dimensão humana e a universalidade ocidental hegemônica que anula
a diversidade. Ser negro sem ser somente negro, ser mulher sem ser somente
mulher, ser mulher negra sem ser somente mulher negra. Alcançar a igualdade de
direitos é converter-se em um ser humano pleno e cheio de possibilidades e
oportunidades para além de sua condição de raça e de gênero.” (p.05).

“as mulheres negras brasileiras encontraram seu caminho de autodeterminação política,


soltaram as suas vozes, brigaram por espaço e representação e se fizeram presentes em todos
os espaços de importância para o avanço da questão da mulher brasileira hoje.” (p.05).

“O que impulsiona essa luta é a crença “na possibilidade de construção de um modelo


civilizatório humano, fraterno e solidário, tendo como base os valores expressos pela luta
antiracista, feminista e ecológica, assumidos pelas mulheres negras de todos os
continentes, pertencentes que somos à mesma comunidade de destinos”. (p.05).

RESUMO

o texto de Sueli aborda como o feminismo tem que enegrecer suas questões e de que
forma as mulheres negras levaram o tema para congressos para terem suas vozes ouvidas.