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PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DO RIO GRANDE DO NORTE


4º Juizado da Fazenda Pública da Comarca de Natal
Rua da Fosforita, 2327, antiga Fábrica Borborema, próximo ao Campus da UFRN, Lagoa Nova, NATAL - RN - CEP: 59076-120

0814127-51.2016.8.20.5001

AUTOR: ELON EMERSON BEZERRA

RÉU: ESTADO DO RIO GRANDE DO NORTE

SENTENÇA

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A parte autora em epígrafe ajuizou a presente demanda, neste Juizado Fazendário, em desfavor do requerido supra, pugnando, o reconhecimento judicial do direito a retroação de sua promoção à
graduação de Cabo PM ao ano de 2012, bem como a realização da inspeção de saúde e estágio de habilitação necessários à promoção a graduação de 3º Sargento PM. Requer, ainda, a
promoção à graduação de 3º Sargento PM por ressarcimento de preterição. Alega que sua pretensão encontra amparo nas previsões do Decreto nº 7.070/1977, bem como na LCE nº 515/2014.

Pediu Justiça gratuita. Juntou documentos.

A antecipação dos efeitos da tutela foi indeferida.

A parte demandada apresentou contestação.

É o que importa relatar. Decido.

Do Julgamento Antecipado da Lide

Analisando os autos, observo que o julgamento independe da produção de quaisquer outras provas, de modo que, entendo desnecessárias eventual constituição de outras nos moldes do art. 370 do
Novo Código de Processo Civil. Em consequência, impõe-se o julgamento antecipado da lide, consoante disposição contida ao art. 355, I, do NCPC.

Do Mérito

O cerne da presente lide consiste em desvendar se, à luz da interpretação conjunta dos dispositivos da LCE nº 515/2014 com o Decreto nº 7070/1977, pode se concluir pela existência de direito da
parte autora a retroação da promoção de Cabo PM, já concedida administrativamente, e ainda à promoção a graduação de 3º Sargento PM na modalidade de promoção por ressarcimento de
preterição.

Trata-se de questão complexa que abarca a aplicação de mais de um instituto legal, ou seja, ora as disposições contidas ao Decreto nº 7070/1977 (enquanto vigente seus efeitos legais), ora a Lei
Complementar n.º 515 /2014. Não há como mesclar esses regimes legais, sob pena de se criar uma terceira legislação, invadindo completamente a seara legislativa, em uma atividade de usurpação
de poder.

Pois bem, a jurisprudência do TJRN pacificou entendimento sobre a aplicação do regime legal nessas questões, disciplinando que ou o interessado implementou até 31/12/2014 todos os requisitos
para promoção previstos no Decreto Nº 7.070/1977, alterada pelo Decreto nº 22.244/2011, fazendo jus, portanto, à promoção por respeito ao direito adquirido no regime normativo anterior à
LCE nº 515/2014 ou terá suas pretensões disciplinadas pelas disposições da LCE nº 515/2014 – observado o prazo de 3 anos concedido à Administração Militar pelo parágrafo 2º do artigo
29 do mesmo diploma legal para o reconhecimento à promoção ex officio.

Assim, se o militar não preencher os requisitos do Decreto nº 7070/1977, teria que esperar a efetivação da LCE nº 515/2014, haja vista que o legislador estadual concedeu um prazo de 03 (três) anos,
contados da sua publicação (grifo, 10/06/2014), para a PMRN e o CBMRN providenciar, aperfeiçoar e efetivar as promoções de todos aqueles que já tenham completado os requisitos previstos já
no curso do novo regimento legal. Desta forma, a administração teria até o dia 10/06/2017 (§ 2º do art. 29 da LCE nº 515/2014), para cumprir com a legislação vigente.

Feitas essas observações passo a discorrer, em específico, sobre a retroação da promoção a Cabo PM (preenchimento dos requisitos previstos no Decreto 7070/1977) e 3º Sargento da PM.

Quanto a retroação da promoção a graduação de Cabo PM ao ano de 2012, observo que a pretensão deduzida na inicial encontra fundamento no Decreto Estadual nº 7.070/1977, o qual,
alterado pelos Decretos nºs 10.447/89, 13.294/97 e 14.059/98, aprovou o Regulamento de Promoções de Graduados da Polícia Militar do Estado do Rio Grande do Norte.

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Para que seja efetuada a promoção às graduações de Cabo, há a necessidade do enquadramento nos requisitos do art. 5º, do Decreto n.º 7.070/77, cuja redação não sofreu qualquer alteração, a
despeito dos inúmeros decretos posteriores que trataram de assunto idêntico, verbis:

Art. 5º - As promoções às graduações de 3º Sargento PM e Cabo PM, inclusive de categoria BM, quando houver, obedecem à ordem rigorosa de merecimento intelectual, obtido no respectivo curso
de formação, observados ainda, as seguintes condições:

I – conte o policial militar com mais de 15 (quinze) anos de serviço;

II – esteja classificado com comportamento 'ótimo';

III – nos casos de Cabo PM, conte com mais de cinco anos na graduação;

IV – submeta-se o PM a estágio de 30 (trinta) dias no Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças (CFAP), independentemente de seleção;

V – seja o PM aprovado em inspeção de saúde.

No caso em tela, compulsando os autos, verifico que a parte autora fazia jus, ainda na vigência do Decreto n° 7.070/77, à convocação para inspeção de saúde, participação no curso de
equivalência à promoção almejada (CABO) e consequente promoção. É que tendo ingressado em 23/12/1996 nas fileiras da PM como soldado (QPMP - 0), deveria ter sido, após 15 (quinze) anos de
serviço, promovido à graduação de Cabo PM em 24/12/2011, o que de fato não ocorreu.

Friso que quanto à promoção, em que pese a ausência de informações acerca dos demais requisitos do art. 5° do Decreto mencionado (incisos II, IV e V), por ter sido o Administrado promovido
posteriormente (em meados de 2015), é de se presumir o preenchimento de todos os requisitos por reconhecimento da Administração. O fato de terem se dado em momento posterior à obtenção do
critério temporal, não poderá prejudicar o militar, posto tratar-se de omissão da própria Administração.

Desse modo, entendo que por omissão, mora ou ineficiência da própria administração pública, o administrado não pode se ver prejudicado em seu direito, assim, deve a mesma assegurar a imediata
retroação da promoção à graduação de Cabo PM, a contar de 24/12/2011.

Quanto a graduação à 3º Sargento necessário algumas considerações acerca do novo regime legal de promoções da categoria, instituído pela LCE nº 515/2014, vigente a partir de 01/01/2015, que
substituiu o Decreto 7.070/1977, vigente somente até 31/12/2014.

Inicialmente, esclareça-se que o presente caso, diferentemente do alegado pela parte autora, não se trata de promoção por ressarcimento de preterição. Essa modalidade de promoção, nos termos do
art. 9º da LCE 515/14, ocorre quando o militar se vê impedido de ascender na carreira por responder a processo administrativo disciplinar ou judicial; mas posteriormente, vem a ser absolvido em
ultima instância ou declarado sem culpa pelo Conselho de Disciplina ou Conselho de Processo Administrativo Disciplinar, o que não é o caso dos autos.

No caso dos autos, a pretensão de promoção para 3° Sargente de PM se daria após a vigência da LCE 515/2014, e sobre essa questão, a nova lei disciplinou que a promoção dos praças que já se
encontravam em exercício na data do início da sua vigência (01/01/2015) passaria a obedecer aos requisitos descritos no seu art. 30, cujo teor ora se transcreve para melhor visualização da matéria:

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Art. 30. Às Praças Militares Estaduais que se encontrarem em efetivo exercício na data de vigência da presente Lei Complementar, não se aplicarão os prazos do art. 12 desta Lei Complementar, e,
para fins de promoção, deverão ter completado, até a data da promoção, em cada graduação, o interstício mínimo de:

I - 5 (cinco) anos na graduação de Soldado, para a promoção à graduação de Cabo da PMRN e do CBMRN;

II - 3 (três) anos na graduação de Cabo, para a promoção à graduação de 3º Sargento da PMRN e do CBMRN;

III - 2 (dois) anos na graduação de 3º Sargento, para a promoção à graduação de 2º Sargento da PMRN e do CBMRN;

IV - 2 (dois) anos na graduação de 2º Sargento, para a promoção à graduação de 1º Sargento da PMRN e do CBMRN; e

V - 2 (dois) anos na graduação de 1º Sargento, para a promoção à graduação de Subtenente da PMRN e do CBMRN.

Parágrafo único. Na hipótese de inexistência de vagas na respectiva graduação para fins de promoção, as Praças Militares Estaduais referidas no caput deste artigo e que já tiverem cumprido o
dobro do interstício mínimo exigido para a promoção, previsto nos incisos I a V deste artigo, terão direito à promoção ex officio e ficarão na condição de excedente.

No caso em apreço, convém avaliar a situação dos autos a partir da norma prevista no parágrafo único do dispositivo, que prevê a possibilidade de promoção na carreira, independentemente da
existência de vagas na respectiva graduação, para os militares que contem com o dobro do tempo exigido nos incisos do dispositivo. Na situação, o militar ascende na carreira, através da
promoção ex officio,ficando na condição de excedente.

Essa hipótese de ascensão funcional deve ser examinada em conjunto com o que dispõe o art. 18, da Lei Complementar 515/2014, especialmente, pelo fato de os incisos I e II do citado dispositivo
excetuarem a hipótese do parágrafo único do art. 30 e, assim, dispensarem o militar da comprovação de alguns requisitos para a promoção.

No contorno do art. 18, bem como das diversas remissões feitas pelo dispositivo, podem ser extraídas três conclusões essenciais no que tange aos requisitos para a promoção dos praças militares à
graduação de 3° Sargento PM:

a) o inciso I do dispositivo reitera a desnecessidade de existência de vagas na respectiva graduação para promoção do militar, assim como foi previsto no art. 30, parágrafo único, da LCE
515/2014;

b) o inciso II do dispositivo, ao prever que o art. 12 da LCE 515/2014 não se aplica à hipótese do art. 30, parágrafo único, da mesma lei, dispensa a praça militar da realização do Curso de
Formação de Sargentos (CFS), ou o Estágio de Habilitação de Sargentos (EHS) (art. 12, II), para que seja efetivada à graduação pretendida;

c) o mesmo inciso II do dispositivo, ao prever que o art. 12, da LCE 515/2014, não se aplica à hipótese do art. 30, parágrafo único, da lei, dispensa o praça militar da avaliação de
comportamento (art. 12, IV) para fins de ascensão na carreira.

De todo esse detalhamento, portanto, conclui-se que a promoção ex officio (art. 30, parágrafo Único, LCE 515/2014) para a graduação de 3° Sargento PM/CBM depende tão somente da completude
do dobro do interstício mínimo exigido para a promoção na respectiva graduação e da submissão à inspeção de saúde (art. 18, III, LCE 515/14), parâmetros estes que se alinham com o critério de
antiguidade eleito pela nova lei para a ascensão na carreira até 3º Sargento, conforme previsto no art. 3º, § 1º, da LCE 515/14.

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Compulsando os autos , verifica-se que a parte autora ingressou nos quadros da Polícia Militar no dia 23/12/1996, consoante identidade militar acostada à inicial. Desta feita, conclui-se
que a parte autora de fato fazia jus à ascensão funcional em 24/12/2011 à graduação de Cabo, ainda sob a disposição do Decreto 7.070/77, e já sob os efeitos da regra de transição do art. 30,
parágrafo único, c/c os arts. 12 e 18, todos da Lei Complementar Estadual 515/2014, à condição de 3° Sgt da PM. Explico!

No presente caso, em razão da aplicação do princípio tempus regit actum, deve-se aplicar para cada ato o diploma legislativo vigente à época dos fatos, não sendo lícito às leis posteriores atingir
fatos anteriores à sua vigência nem o contrário.

A promoção para CABO deveria ter se dado em 24/12/2011 e, da referida data até a presente, passaram-se mais de 6 anos

O art. 30, inciso II, da Lei Complementar Estadual 515/2014 estabelece a exigência de no mínimo três anos na graduação de Cabo para promoção a 3º Sargento. No caso, considerando que
somente a partir do dia 24/12/2011 é que a parte autora se tornou Cabo PM para todos os efeitos legais, conclui-se que, o requisito temporal para ascensão à 3º Sargento foi preenchido, se
considerado o interstício de 6 (seis) anos, conforme a previsão do art. 30, p. único da Lei 515/14, para promoção ex officio, pelo que acolho o pedido de promoção veiculado na inicial.

Pelo acima exposto, com base no art. 487, I, do CPC, julgo procedente em parte os pedidos inicias para: a) retroagir a promoção à graduação de Cabo PM, a contar de 24/12/2012; b) determinar
que a parte demandada realize, em favor da parte autora, a competente Inspeção de Saúde necessária à Graduação de 3º Sargento da Polícia Militar no prazo de 30 (noventa) dias após o trânsito em
julgado desta Sentença.; c) se apto, promova, o mesmo, à graduação de 3° Sargento da PM. Não consta à inicial qualquer pedido quanto a efeitos financeiros pretéritos decorrentes de retroação e
promoção.

Defiro o pedido de assistência judiciária gratuita, posto que há elisão de plano da presunção de pobreza alegada (eficácia restrita a eventual fase recursal).

Sem condenação em custas ou honorários no primeiro grau de jurisdição dos Juizados Especiais da Fazenda Pública.

Publique-se. Registre-se. Intimem-se.

Com o trânsito em julgado, cumpra-se e, em seguida, arquivem-se os autos.

Natal/RN, 6 de março de 2018

MARIA CRISTINA MENEZES DE PAIVA VIANA

Juíza de Direito

(documento assinado digitalmente na forma da Lei n°11.419/06)

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