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Procedimento Administrativo nº 007/2010

Interessado: Dr. Ralph Luiz Vidal Sabino dos Santos


Assunto: Solicitação de Recomendação – Concurso entre Receptação e Porte ou
Posse de Arma de Fogo

O Centro de Apoio Operacional das Promotorias Criminais,


do Júri e de Execuções Penais recebeu solicitação do eminente Procurador de Justiça,
Dr. Ralph Luiz Vidal Sabino dos Santos, no sentido de encaminhamento de
recomendação aos Promotores de Justiça que atuam na área criminal “para que
exijam da autoridade policial a juntada ao Inquérito Policial de Certidão onde
conste se a arma está registrada ou não e estando, em nome de quem, possibilitando
assim apurar-se também a autoria de outras infrações.

A solicitação se dá com fundamento em pertinente


preocupação com relação à ausência de certidão referente ao registro ou não de arma
de fogo apreendida e de seu proprietário, nos processos criminais cuja persecução
penal se dá pelos crimes de porte ou posse de arma de fogo. Segundo o douto
Procurador de Justiça, “a ausência da certidão resulta em: 1 - não saber-se a origem
da arma apreendida pela autoridade policial, sendo o infrator denunciado apenas
por posse ou porte de arma de fogo de uso permitido; 2 - a consequente inexistência
de denúncia por receptação.”
Pois bem.

Nos termos do artigo 180, caput, do Código Penal,


“adquirir, receber, transportar, conduzir ou ocultar, em proveito próprio ou alheio,
coisa que sabe ser produto de crime, ou influir para que terceiro, de boa-fé, a
adquira, receba ou oculte” é prática prevista como crime denominado receptação.

Referido tipo penal está previsto no Título II do Código


Penal que é voltado à defesa do bem jurídico patrimônio.

Já a Lei nº 10.823/2003 prevê, dentre outros, os crimes de


posse irregular de arma de fogo de uso permitido – art. 12 –, porte ilegal de arma de
fogo de uso permitido – art. 14 –, e posse ou porte ilegal de arma de fogo de uso
restrito – art. 16 –, cujo bem jurídico tutelado é a segurança coletiva.

Há discussão acerca do concurso entre esses tipos.

Os que defendem a impossibilidade de concurso material


entre o crime de receptação e o de porte de arma de fogo alegam que a conduta de
adquirir já está contida no art. 14 da Lei nº 10.823/2003 e que, o delito de receptação
da arma é crime meio para a perpetração do crime de porte ilegal de arma de fogo,
devendo, assim, ser absorvido por este, em atenção ao princípio da consunção.

No entanto, esses argumentos destoam da finalidade para a


qual a regra prevista no art. 180 do Código Penal foi criada.
Segundo Maria Thereza Rocha de Assis Moura e Marta
Saad, ao analisar o crime de receptação, ensinam que “o valor protegido pela
incriminação é o patrimônio. Trata-se, é possível dizer, de uma ‘tutela penal de
segundo grau’, haja vista cuidar-se de uma nova incidência do Direito Penal sobre o
mesmo bem, produto de prévio crime.” 1

Outrossim, nos termos da doutrina de Julio Fabbrini


Mirabete, “não exige a lei que o crime antecedente esteja relacionado entre os
crimes patrimoniais. Pode-se praticar receptação de coisa produto de peculato,
lenocínio, falsidade, contrabando, de descaminho, e mesmo de receptação.”2

Ou seja, admitir que o crime de porte de arma de fogo, por


já apresentar a elementar adquirir, afastaria a receptação é ignorar a violação ao
patrimônio, bem jurídico diverso da segurança coletiva (visado pelo Estatuto do
Desarmamento) e tutelado pela norma do art.180, do Código Penal.

Demais disso, a receptação da arma de fogo e posterior


verificação do seu porte ilegal são praticados, em regra, em momentos distintos, não
havendo que se falar em crime único. Aliás, é nesta senda que a jurisprudência tem
seguido:
RECURSO ESPECIAL. PENAL. PORTE ILEGAL DE
ARMA E RECEPTAÇÃO DOLOSA. PRINCÍPIO DA
CONSUNÇÃO. NÃO APLICAÇÃO. CONCURSO
MATERIAL. 1. Quem adquire arma de fogo, cuja origem
sabe ser criminosa, responde por delito contra o patrimônio,
no momento em que se apodera da Res. 2. Posteriormente,

1
Código Penal e sua Interpretação: doutrina e jurisprudência. Coordenação Alberto Silva Franco, Rui Stoco. 8ª Ed. rev.,
atual. e ampl. São Paulo. Editora Revista dos Tribunais. 2007. p. 915.
2
Mirabete, Julio Fabbrini e Fabbrini, Renato N.. Manual de Direito Penal. Editora Atlas S.A. 2009. p. 316.
se vier a ser flagrado portando a arma, estará incorrendo na
infração penal tipificada no art. 14 do Estatuto do
Desarmamento (no qual se protege a incolumidade pública).
3. Portanto, tendo em vista que os crimes em questão
possuem objetividade jurídica diversa e momentos
consumativos diferentes, não há que se falar em consunção.
4. Recurso conhecido e provido para condenar o réu quanto
ao delito previsto no art. 180, caput, do Código Penal, em
concurso material com o tipificado no art. 14 da Lei n.º
10.826/2003, determinando-se o retorno dos autos à origem
para a prolação de nova sentença. (STJ; REsp 1.133.986;
Proc. 2009/0133788-0; RS; Quinta Turma; Rel. Min. Jorge
Mussi; Julg. 04/05/2010; DJE 31/05/2010). (Grifamos).

AGRAVO REGIMENTAL EM RECURSO ESPECIAL.


PENAL. PORTE ILEGAL DE ARMA E RECEPTAÇÃO
DOLOSA. PRINCÍPIO DA CONSUNÇÃO.
IMPOSSIBILIDADE. AUTONOMIA DE CONDUTAS.
CONCURSO MATERIAL. AGRAVO A QUE SE NEGA
PROVIMENTO. 1. A jurisprudência desta Corte admite a
revaloração da prova ou de dados explicitamente admitidos
e delineados no decisório recorrido, não se caracterizando o
vedado reexame do material de conhecimento. 2. Caso o
agente adquira a arma sabendo ser ela fruto de um delito,
estará cometendo um crime contra o patrimônio no
momento em que se apoderar da Res. Se depois mantiver
consigo a arma, circulando com a mesma ou mantendo-a
guardada, estará cometendo o delito de porte ou posse ilegal
(os quais possuem uma objetividade jurídica diversa e
momentos consumativos ulteriores). 3. Na receptação, sabe-
se que o dolo, consistente na prévia ciência da origem ilícita
do bem, é de difícil comprovação, porque estágio
meramente subjetivo do comportamento, devendo ser
apurado das demais circunstâncias que cercam o fato e da
própria conduta do agente. No caso, ambos estão a
evidenciar a prévia ciência da origem criminosa por parte do
recorrido. Se a numeração estava raspada quando da
apreensão da arma, ou o acusado já recebeu o revólver nesse
estado, o que permitiria afirmar que tinha ciência da sua
origem ilícita, pois é certo que quem recebe arma com
numeração raspada tem ciência da sua origem ilícita, ou o
próprio acusado raspou a numeração, o que faz com que
também se possa afirmar que conhecia a origem ilícita do
revólver quando recebeu, tanto que queria apagar a
numeração original, para evitar futura identificação da arma.
4. Agravo a que se nega provimento. (STJ; AgRg-REsp
908.826; Proc. 2006/0265522-6; RS; Sexta Turma; Relª
Desª Conv. Jane Silva; Julg. 30/10/2008; DJE 17/11/2008).
(Grifamos).

APELAÇÃO CRIMINAL. CRIME DE PORTE ILEGAL


DE ARMA DE FOGO (ART. 14 DA LEI Nº 10.826/03) E
RECEPTAÇÃO (ART. 180 DO CÓDIGO PENAL).
NECESSÁRIA REFORMA DA DOSIMETRIA DA PENA.
PRESENTES CIRCUNSTÂNCIAS JUDICIAIS
CONSIDERADAS FAVORÁVEIS AO RÉU. FIXAÇÃO
DA PENA BASE NO MÍNIMO LEGAL. PLEITO DE
RECONHECIMENTO DO CONCURSO FORMAL
PERFEITO. IMPOSSIBILIDADE. DELITOS
AUTÔNOMOS. ARTIGO 70 DO CÓDIGO PENAL
SENTENÇA REFORMADA. RECURSO
PARCIALMENTE PROVIDO. I. Não obstante possa o
MM. Juiz a quo ter considerado 02 (duas) das circunstâncias
judiciais como sendo desfavoráveis circunstâncias e motivos
do crime - Fato é que a justificação utilizada pelo julgador
foi insuficiente para majoração da pena, porquanto, o fato
de ter ocorrido o delito no período da madrugada não é
suficiente para torná-la desfavorável ao apelante e a
insegurança social é característica inerente a todo o dano
dessa espécie. II. O delito de porte ilegal de arma de fogo e
o delito de receptação são infrações autônomas, vez que,
portar arma de fogo sem autorização e em desacordo com
determinação legal ou regulamentar não implica que o
apelante não responda ao delito de receptação caso seja
efetivamente provado que a arma, portada ilegalmente,
tenha sido adquirida como produto de crime. III. Praticando
o agente uma só conduta (ação ou omissão) que cause dois
ou mais resultados típicos, ocorre o denominado concurso
formal ou concurso ideal de crimes. Para se reconhecer a
existência de unidade da ação, deve-se considerar o fator
final, que é a vontade regendo uma pluralidade de atos
físicos isolados, que compõem a conduta, dolosa ou
culposa, e o fator normativo, que é a estrutura do tipo penal
em cada caso particular. (in: Código Penal interpretado, 4.
ED., atlas: São Paulo, 2003, p. 493/494). (TJPR; ApCr
0639151-9; Curitiba; Segunda Câmara Criminal; Rel. Juiz
Conv. José Laurindo de Souza Netto; DJPR 29/04/2010;
Pág. 322). (Grifamos).

PENAL. RAZÕES RECURSAIS. APRESENTAÇÃO


TARDIA. ART. 16 DA LEI Nº 10.826/03. ARMA DE
FOGO E MUNIÇÕES DE USO RESTRITO. POSSE
IRREGULAR E ILEGAL. ART. 180 DO CP.
RECEPTAÇÃO. DELITOS AUTÔNOMOS. CONCURSO
FORMAL DE CRIMES. AUTORIA. MATERIALIDADE.
COMPROVADAS. CONFISSÃO JUDICIAL. DOLO.
PENA-BASE. MULTA. REDUÇÃO. 1. A apresentação
tardia das razões recursais constitui mera irregularidade que
não impede o conhecimento da apelação interposta no
prazo. 2. Quem transporta arma de fogo e projéteis de uso
restrito, em desacordo com determinação legal ou
regulamentar, sujeita-se às sanções do art. 16 da Lei nº
10.826/03. 3. Para configurar o delito de porte ilegal de
arma de fogo basta o dolo genérico, consistente na vontade
de praticar qualquer uma das condutas incriminadas no tipo
penal. Não se exige do agente um especial fim de agir. 4.
Incorre nas sanções do caput do art. 180 do CP o agente que,
em proveito próprio ou alheio, transporta coisa que sabe ser
produto de crime. Comprovado nos autos que o acusado
tinha ciência da origem ilícita da arma de fogo e das
munições apreendidas em seu poder (dolo direto) e que
estas foram objeto de ilícito antecedente (furto), estão
presentes dos requisitos subjetivo e objetivo do tipo, de
forma que deve ser mantida a condenação. 5. A confissão
judicial, quando em sintonia com os demais elementos de
convicção trazidos ao processo, é válida e deve ser levada
em conta pelo julgador tanto como fundamento para uma
decisão condenatória como para fins de aplicação da
atenuante do art. 65, inciso III, alínea d, do Código Penal. 6.
Os crimes de porte ilegal de arma de fogo e de receptação
são autônomos, sujeitando-se o agente que transporta arma
de fogo, sem autorização e em desacordo com determinação
legal ou regulamentar, também às penas previstas para o
ilícito de receptação, caso seja comprovado nos autos que a
arma, portada ilegalmente, é produto de crime. 7. A
obtenção de lucro fácil é o motivo comum que impele o
agente nos delitos contra o patrimônio, não servindo de
causa para o aumento da pena-base. Antecedentes e conduta
social não se confundem. É desfavorável a personalidade do
réu se registra em seu nome diversos processos criminais.
(TRF 4ª R.; ACr 2006.70.05.004405-2; PR; Oitava Turma;
Rel. Des. Fed. Paulo Afonso Brum Vaz; Julg. 19/11/2008;
DEJF 26/11/2008; Pág. 715)

HABEAS CORPUS. PRISÃO EM FLAGRANTE.


LEGALIDADE. RECEPTAÇÃO E PORTE ILEGAL DE
ARMA DE FOGO. AQUISIÇÃO DA ARMA EM PONTO
DE TRÁFICO DE DROGAS. PERICULOSIDADE.
GARANTIA DA ORDEM PÚBLICA. DENEGAÇÃO DA
ORDEM. Auto de prisão em flagrante que se mostra
formalmente hígido, não havendo, com a inicial, elementos
aptos a desconstituí-lo. O crime de receptação em concurso
com o porte de arma de fogo evidencia a periculosidade do
agente, sobretudo quanto este adquire a arma de fogo de
traficante de drogas em via pública, circunstância indicativa
de envolvimento daquele com o submundo do crime.
Razoáveis os indícios de autoria e da materialidade dos
crimes, eis que recebida a denúncia, sendo recomendável,
pelo menos por ora, a manutenção da prisão cautelar, em
defesa da ordem pública, diante da evidenciada
periculosidade do paciente. Condições pessoais favoráveis
do paciente, como primariedade, família constituída e
residência fixa, não são garantidoras de eventual direito de
liberdade quando outros elementos constantes nos autos
recomendam a sua custódia cautelar. Ordem denegada.
(TJDF; Rec. 2009.00.2.001863-1; Ac. 347.143; Primeira
Turma Criminal; Rel. Des. Mario Machado; DJDFTE
20/04/2009; Pág. 121). (Grifamos).

Ademais, como a receptação dolosa exige a prévia ciência


do agente acerca da origem ilícita do bem, as circunstâncias que acompanham os
fatos é que irão demonstrar a caracterização ou não do crime.

Nesse ponto é que reside a necessidade de exigência de


certidão corretamente apontada pelo douto Procurador de Justiça solicitante. Segundo
ele, na análise dos processos em que atua, “verificou-se também que até 31.12.2009
as armas apreendidas ou eram simplesmente devolvidas ao possuidor (por estarem
em sua residência ou local de trabalho) ou ficavam apreendidas com a autoridade
policial, não havendo diligências sobre sua origem.”

Assim, ao ser a pessoa surpreendida portando uma arma de


fogo, há que se perquirir se, ao adquiri-la, sabia, ou ao menos devia saber ser ela
decorrente de crime anteriormente praticado. E, a exigência de certidão vem ao
encontro da providência necessária à persecução penal contra crime que atinge o
patrimônio alheio.

Diante do exposto, em concordância com os termos


apresentados pelo Dr. Ralph Luiz Vidal Sabino dos Santos sobre o tema proposto,
determinamos as seguintes providências:
I- Elabore-se Informativo Criminal para divulgação do
presente pronunciamento aos membros do Ministério Público, com a sugestão de
observação dos apontamentos do Dr. Ralph Luiz Vidal Sabino dos Santos, no sentido
de requisitar à autoridade policial a juntada de certidão da arma de fogo nos
processos crimes de porte ou posse ilegal.
II – Considerando que o Dr. Ralph Luiz Vidal Sabino dos
Santos, solicita a edição de recomendação aos colegas, oficie-se ao órgão competente,
qual seja, à douta Corregedoria-Geral do Ministério Público, com cópia do presente
pronunciamento e do e-mail enviado pelo eminente Procurador de Justiça, para
ciência das medidas adotadas por este CAOP e análise da viabilidade de edição do ato
sugerido.
III – Oficie-se ao d. Procurador de Justiça solicitante, com
encaminhamento do presente pronunciamento e de cópia do respectivo Informativo
Criminal elaborado e divulgado aos colegas quanto ao tema, para ciência das
providências adotadas por este Centro de Apoio.
IV – Após, junte-se cópia dos ofícios expedidos,
procedendo-se o arquivamento do feito.

Curitiba, 24 de agosto de 2010.

Ernani Souza Cubas Junior


Procurador de Justiça - Coordenador

Rosângela Gaspari
Promotora de Justiça