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Faculdade de Letras

Universidade de Coimbra

LINGUÍSTICA PORTUGUESA
NÍVEL SUPERIOR

Regras de Concordância

1. Concordância nominal: do adjectivo com o substantivo

1. O adjectivo, quando se refere a um único substantivo, concorda com ele em género e


número:
As armas são cada vez mais mortíferas.
Os perigos espreitam os rapazes irrequietos.
2. Quando o adjectivo se refere a mais de um substantivo, as regras de concordância
dependem do género e do número do substantivo e também da posição e da função do
adjectivo:
2.1. Se o adjectivo precede os substantivos, concorda em género e número com o
substantivo mais próximo:
Vou provar estes deliciosos gelados e tortas.
Ou então:
Vou provar estas deliciosas tortas e gelados.
2.2. Se o adjectivo vem depois dos substantivos, a concordância depende do género e do
número destes:
2.2.1. substantivos do mesmo género no singular → o adjectivo toma o mesmo género e
fica no singular ou no plural:
Vou inscrever-me no curso de língua e civilização francesa / francesas.
Se o adjectivo tem a função de predicativo de sujeito, vai de preferência para o plural:
A sala e a cozinha são espaçosas.

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2.2.2. substantivos de géneros diferentes no singular → o adjectivo toma o género do
substantivo mais próximo ou vai para o masculino plural:
Ao jantar, bebeu um vinho e uma aguardente francesa / franceses. *

* Neste caso, Rodrigues Lapa aconselha o uso do plural masculino para «não se perder de vista» o primeiro
substantivo. No entanto, considera que, quando os substantivos são abstractos, «a concordância com o mais
próximo é ainda a mais corrente»: Ganhar o prémio exige conhecimento e experiência vasta/ /vastos.

Se o adjectivo tem a função de predicativo de sujeito, vai de preferência para o masculino


plural:
A sala e o quarto são espaçosos.
2.2.3. substantivos do mesmo género, mas de números diferentes → o adjectivo vai,
geralmente, para o plural ou fica no número do substantivo mais próximo:
Comprei umas cadeiras e uma mesa modernas / moderna.**
2.2.4. substantivos de géneros diferentes e no plural → o adjectivo vai, geralmente, para o
plural e para o género do substantivo mais próximo ou fica no masculino plural:
Ofereceram-me cravos e rosas lindas / lindos.**
2.2.5. substantivos de géneros e números diferentes → o adjectivo vai, geralmente, para o
masculino plural ou fica no género e número do substantivo mais próximo:
Deram-me uns quadros e uma gravura antigos / antiga.**

** Segundo Rodrigues Lapa, quando o adjectivo se refere a mais de um substantivo, deve utilizar-se o plural.
Se ficar no singular, «sentimos que o adjectivo só qualifica, por assim dizer, o substantivo que lhe está
imediatamente próximo».

Outros casos de concordância do adjectivo:


• Nas expressões de tratamento como Vossa Excelência (V. Ex.ª), Vossa Senhoria (V. S.ª),
Sua Senhoria (S. S.ª) , Sua Majestade (S. M.), etc., o adjectivo concorda com a pessoa a
quem tal tratamento se refere:
V. Ex.ª é muito culto / culta.
• A forma de agradecimento obrigado / obrigada varia em função do sujeito que fala: se for
do género masculino deve dizer obrigado; se for do género feminino deve dizer obrigada.

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2. Concordância verbal: do predicado com o sujeito

Regra geral:
O predicado concorda em número e pessoa com o sujeito:
As crianças brincam no jardim.
Nós respeitamos a vossa opinião.
Habitualmente, o sujeito encontra-se no início da oração e precede o verbo. No entanto,
quando o sujeito não ocorre nesta posição, a sua função sintáctica pode não ser reconhecida, o
que origina, erradamente, a ausência de concordância:
Couberam-nos [e não Coube-nos] em sorte as melhores prendas.
Até à hora de jantar, ainda não tinham saído [e não tinha saído] os resultados do
concurso.

Regras particulares de concordância:


1. Quando o predicado é precedido de um sujeito composto, o verbo coloca-se no plural:
A praia e a montanha são os destinos de férias favoritos dos portugueses.
2. Se o sujeito composto é constituído por nomes no singular ligados pela locução tanto...
como e considerados globalmente, o verbo emprega-se de preferência no plural:
Tanto o calor da praia como o frio da montanha fazem mal às crianças.
3. Quando o predicado é seguido de um sujeito composto, o verbo coloca-se tanto no singular
como no plural:
Saiu / Saíram para jantar fora a mãe e o pai.
Impressiona-me / Impressionam-me a tristeza e o sofrimento destas crianças.
4. Quando o sujeito é singular, mas associado a uma expressão plural, o verbo concorda com o
sujeito:
A afixação dos resultados despertou grande curiosidade.
De igual modo, quando o sujeito é plural, mas associado a uma expressão singular, o verbo
concorda com o sujeito:
As declarações do Ministro serenaram o público.
5. Com sujeitos seguidos, mas retomados anaforicamente por pronomes indefinidos como
tudo, nada, ninguém, o verbo emprega-se no singular:
Alunos, professores e funcionários, ninguém se magoou no incêndio da escola.

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6. Com sujeitos no singular ligados por com, junto com, em companhia de, o verbo pode ir
para o plural, se este estiver colocado depois deles:
A minha mulher, junto com a minha filha, experimentaram / experimentou uma nova
receita de bacalhau.
No entanto, se em vez de com, junto com, em companhia de estiver a conjunção copulativa
e, é obrigatório o plural:
A minha mulher e a minha filha experimentaram uma nova receita de bacalhau.
7. Com a locução um e outro o verbo pode ficar no plural ou, menos frequentemente, no
singular:
Um e outro usaram / usou uma expressão errada.
8. Quando o sujeito é formado por palavras ligadas por ou e nem, o verbo emprega-se no
singular, se se referir a um só sujeito:
Nem o trabalho nem a preocupação me faria perder o sono.
Ou o som dos passos ou o latir dos cães denunciou a aproximação do ladrão.
No entanto, o verbo emprega-se no plural se a acção pertencer a todos os sujeitos:
Ou a Ana ou a Teresa vão querer esse cargo.
Nem o dinheiro nem o poder o fazem aceitar esse cargo.
9. Quando o sujeito é constituído por infinitivos, o predicado vai para o singular:
Deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer.
10. A primeira pessoa tem prioridade sobre a segunda e esta sobre a terceira:
Eu, o João e os seus primos vamos ao Brasil durante as férias.
Tu e a minha irmã ides a Roma.
11. Quando a oração é introduzida por quem, o verbo vai para a terceira pessoa do singular:
Foram os bancos quem ganhou com a subida dos juros.
12. Quando o sujeito é o pronome relativo que, o verbo concorda com o antecedente desse
relativo em número e pessoa:
A actriz, que está a ser entrevistada, fala do seu último filme; nós, que assistimos à
estreia, ficámos encantados com a sua brilhante interpretação.
13. Se o sujeito for isto, isso, aquilo, tudo, o (= aquilo) e o verbo for ser ou parecer, este
concorda com o predicativo:
O que dizes são disparates.
Aquilo parecem estrelas.
Isto são ossos do oficio.

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14. Em orações relativas com um antecedente plural, ligado à expressão um dos / uma das, um
daqueles / uma daquelas, cada um / cada uma, o verbo emprega-se no plural:
Este actor foi um daqueles que mais se distinguiram neste filme.
Uma das crianças, que brincavam no recreio, magoou-se.
15. Em orações relativas com o antecedente plural, ligado às expressões estar entre, fazer parte
e ser típico, o verbo emprega-se no plural:
Eça de Queirós está entre os escritores que mais contribuíram para a renovação da
língua portuguesa.
16. O verbo ser concorda com o predicativo em orações do tipo:
Eram duas horas quando entrei.
Quando acabar a aula, serão cinco da tarde.
17. No português actual, apesar de o nome colectivo ter um valor plural do ponto de vista
semântico, o número gramatical é singular. Assim, a concordância faz-se com o verbo no
singular:
O bando afastou-se da costa.
18. Se o sujeito é constituído por expressões de quantidade do tipo de milhar, milhão, centena,
dezena ou metade, terço, maioria, parte e por um substantivo ou pronome plural precedidos
da preposição de, o predicado pode ir para o singular ou plural; no entanto, é preferível o
uso do singular:
Metade dos animais veio (vieram) do campo.
A maioria dos alunos desistiu (desistiram).
19. Nas orações em que o sujeito é indeterminado, o verbo fica na 3.ª pessoa do plural:
Bateram à porta.
No entanto, se a indeterminação for marcada pelo pronome se, o verbo vai para o singular:
Dançou-se até de madrugada.

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