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CURSO – Delegado da Polícia Federal Nº 48

DATA – 31/10/16

DISCIPLINA – Direito Administrativo

PROFESSOR – Christiano Gonzaga

MONITOR(A) – Bruna Ribeiro Guimarães

AULA – 06

Sumário

CRIMES CONTRA A DIGNIDADE SEXUAL (continuação)


4. Estupro de vulnerável (art. 217-A)
5. Favorecimento da prostituição ou outra forma de exploração sexual (art. 228, CP)
6. Casa de prostituição (art. 229, CP)
7. Rufianismo (art. 230, CP)
8. Tráfico internacional de pessoa para fim de exploração sexual (art. 231, CP)

CRIMES CONTRA A PAZ PÚBLICA


1. Incitação ao crime (art. 286, CP)
2. Apologia de crime ou criminoso (art. 287, CP)
3. Associação Criminosa (art. 288, CP)
4. Constituição de milícia privada (art. 288-A, CP)

CRIMES CONTRA A FÉ PÚBLICA


1. Moeda Falsa (art. 289, CP)
2. Petrechos para falsificação de moeda (art. 291, CP)
3. Falsidade documental (art. 297, 298 e 299, CP)

Atenção: a coordenação do Supremo concedeu mais uma aula ao professor Christiano Gonzaga,
que será ministrada no dia 21/11/16 (aula 07/07).

CRIMES CONTRA A DIGNIDADE SEXUAL (continuação)

4. Estupro de vulnerável (art. 217-A)

Art. 217-A. Ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com menor de 14
(catorze) anos: (Incluído pela Lei nº 12.015, de 2009)
Pena - reclusão, de 8 (oito) a 15 (quinze) anos.
§ 1o Incorre na mesma pena quem pratica as ações descritas no caput com alguém que,
por enfermidade ou deficiência mental, não tem o necessário discernimento para a prática
do ato, ou que, por qualquer outra causa, não pode oferecer resistência.
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Nos termos do artigo 217-A são vulneráveis os menores de 14 anos, os doentes mentais e
os indivíduos que, por qualquer causa, apresentem incapacidade de resistir.

É pacífico na jurisprudência que a presunção da vulnerabilidade do menor de 14 anos é


absoluta. O STF manifestou esse entendimento no informativo 677. Vejamos:

EMENTA: HABEAS CORPUS. ESTUPRO. ATENTADO VIOLENTO AO PUDOR.


PRETENSÃO À ABSOLVIÇÃO. IMPOSSIBILIDADE. REEXAME DO CONJUNTO FÁTICO
PROBATÓRIO. VÍTIMA MENOR DE CATORZE ANOS. PRESUNÇÃO ABSOLUTA DE
VIOLÊNCIA. CRIME COMETIDO ANTES DA VIGÊNCIA DA LEI 12.015/09.
CONTINUIDADE DELITIVA. MAJORAÇÃO MÁXIMA DA PENA. COMPATIBILIDADE COM
O NÚMERO DE CRIMES COMETIDOS. PRECEDENTES.
1. O habeas corpus não se presta ao exame e à valoração aprofundada das provas, não
sendo viável reavaliar o conjunto probatório que levou à condenação criminal do paciente
por crimes de estupro e atentado violento ao pudor.
2. O entendimento desta Corte pacificou-se quanto a ser absoluta a presunção de
violência nos casos de estupro contra menor de catorze anos nos crimes cometidos
antes da vigência da Lei 12.015/09, a obstar a pretensa relativização da violência
presumida.
3. Não é possível qualificar a manutenção de relação sexual com criança de dez anos de
idade como algo diferente de estupro ou entender que não seria inerente a ato da espécie
a violência ou a ameaça por parte do algoz.
4. O aumento da pena devido à continuidade delitiva varia conforme o número de delitos.
Na espécie, consignado nas instâncias ordinárias terem os crimes sido cometidos
diariamente ao longo de quase dois anos, autorizada a majoração máxima.

Em relação ao doente mental, a presunção de violência não é absoluta. Deve ser realizada
perícia para verificar a capacidade de consentimento da vítima. Se o doente mental for capaz de
consentir não estará configurado o estupro de vulnerável. Isso ocorre, pois, o Código Internacional
de Doenças (CID) prevê inúmeras doenças mentais que não retiram a capacidade do seu
portador. Ex: autismo. Ademais, a liberdade sexual não pode ser retirada do doente mental.

O estupro de vulnerável cometido contra aquele que por qualquer outra causa está
impossibilitado de oferecer resistência, diz respeito a qualquer situação em que haja
impossibilidade de manifestação do consentimento por motivos alheios à doença mental e à
menoridade. Nesta hipótese a vítima é capaz, entretanto, por qualquer outra causa, está
temporariamente incapacitada de consentir com o ato sexual. Ex: embriaguez total, coma
alcoólico, coma induzido.

Obs: a ausência de consentimento não se confunde com o consentimento viciado. O


consentimento viciado induz ao crime do artigo 215 do CP. A ausência de consentimento induz ao
crime de estupro.

O STJ entende que a prática de qualquer ato libidinoso consuma o delito de estupro de
vulnerável (art. 217-A). Este entendimento está consubstanciado no informativo 533 do STJ.
Vejamos:

DIREITO PENAL. ATOS LIBIDINOSOS DIVERSOS DA CONJUNÇÃO CARNAL CONTRA


VULNERÁVEL. Na hipótese em que tenha havido a prática de ato libidinoso diverso da
conjunção carnal contra vulnerável, não é possível ao magistrado - sob o fundamento de
aplicação do princípio da proporcionalidade - desclassificar o delito para a forma tentada
em razão de eventual menor gravidade da conduta. De fato, conforme o art. 217-A do CP,
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a prática de atos libidinosos diversos da conjunção carnal contra vulnerável constitui a
consumação do delito de estupro de vulnerável. Entende o STJ ser inadmissível que o
julgador, de forma manifestamente contrária à lei e utilizando-se dos princípios da
razoabilidade e da proporcionalidade, reconheça a forma tentada do delito, em razão da
alegada menor gravidade da conduta (REsp 1.313.369-RS, Sexta Turma, DJe 5/8/2013).
Nesse contexto, o magistrado, ao aplicar a pena, deve sopesar os fatos ante os limites
mínimo e máximo da reprimenda penal abstratamente prevista, o que já é suficiente para
garantir que a pena aplicada seja proporcional à gravidade concreta do comportamento do
criminoso. REsp 1.353.575-PR, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, julgado em 5/12/2013.

É cabível a aplicação do erro de tipo (art. 20, CP) ao crime de estupro de vulnerável. O
erro se trata da falsa percepção ou representação da realidade, o falso conhecimento de um
elemento do tipo. Ele será possível no crime de estupro de vulnerável quando o agente
desconhecer a elementar constitutiva do tipo “menor de 14 anos”. Desta forma, o agente maior
de idade que mantém relações sexuais consensuais com pessoa de 13 anos que diz ter 17 e
apresenta características físicas compatíveis tal idade, incorre em erro de tipo.

A ação penal no crime de estupro de vulnerável contra o menor de 14 anos e contra o


doente mental será sempre pública incondicionada. Já no que diz respeito à ação penal no crime
de estupro de vulnerável contra a vítima transitoriamente vulnerável, o STJ entende que a ação
penal será pública condicionada à representação. Dessa forma, a vítima deve oferecer
representação dentro do prazo decadencial de 6 meses. Esse entendimento foi manifestado no
informativo 553 do STJ. Vejamos:

DIREITO PROCESSUAL PENAL. NATUREZA DA AÇÃO PENAL EM CRIME CONTRA A


LIBERDADE SEXUAL. Procede-se mediante ação penal condicionada à representação no
crime de estupro praticado contra vítima que, por estar desacordada em razão de ter sido
anteriormente agredida, era incapaz de oferecer resistência apenas na ocasião da
ocorrência dos atos libidinosos. De fato, segundo o art. 225 do CP, o crime de estupro, em
qualquer de suas formas, é, em regra, de ação penal pública condicionada à
representação, sendo, apenas em duas hipóteses, de ação penal pública incondicionada,
quais sejam, vítima menor de 18 anos ou pessoa vulnerável. A própria doutrina reconhece
a existência de certa confusão na previsão contida no art. 225, caput e parágrafo único, do
CP, o qual, ao mesmo tempo em que prevê ser a ação penal pública condicionada à
representação a regra tanto para os crimes contra a liberdade sexual quanto para os
crimes sexuais contra vulnerável, parece dispor que a ação penal do crime de estupro de
vulnerável é sempre incondicionada. A interpretação que deve ser dada ao referido
dispositivo legal é a de que, em relação à vítima possuidora de incapacidade permanente
de oferecer resistência à prática dos atos libidinosos, a ação penal seria sempre
incondicionada. Mas, em se tratando de pessoa incapaz de oferecer resistência apenas na
ocasião da ocorrência dos atos libidinosos - não sendo considerada pessoa vulnerável -, a
ação penal permanece condicionada à representação da vítima, da qual não pode ser
retirada a escolha de evitar o strepitus judicii. Com este entendimento, afasta-se a
interpretação no sentido de que qualquer crime de estupro de vulnerável seria de ação
penal pública incondicionada, preservando-se o sentido da redação do caput do art. 225 do
CP. HC 276.510-RJ, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 11/11/2014, DJe
1º/12/2014.

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5. Favorecimento da prostituição ou outra forma de exploração sexual (art. 228, CP)

Art. 228. Induzir ou atrair alguém à prostituição ou outra forma de exploração sexual,
facilitá-la, impedir ou dificultar que alguém a abandone: (Redação dada pela Lei nº 12.015,
de 2009)
Pena - reclusão, de 2 (dois) a 5 (cinco) anos, e multa.

Quem incorre no crime do artigo 228 é o cafetão. Se prostituir não é crime, entretanto,
induzir ou atrair alguém à prostituição é crime de favorecimento da prostituição ou outra forma de
exploração sexual.

ATENÇÃO: se a pessoa induzida a se prostituir for menor de 18 anos o crime praticado será o de
favorecimento da prostituição ou de outra forma de exploração sexual de criança ou adolescente
ou de vulnerável (art. 218-B, CP). Aquele que mantém relação sexual com a prostituta maior de 14
e menor de 18 anos também incorre no crime do artigo 218-B. Quem mantém relação sexual com
o menor de 14 anos responderá pelo crime de estupro de vulnerável (art. 217-A). O dono da casa
de prostituição ou cafetão continuará respondendo pelo crime do artigo 218-B.

6. Casa de prostituição (art. 229, CP)

Art. 229. Manter, por conta própria ou de terceiro, estabelecimento em que ocorra
exploração sexual, haja, ou não, intuito de lucro ou mediação direta do proprietário ou
gerente: (Redação dada pela Lei nº 12.015, de 2009)
Pena - reclusão, de dois a cinco anos, e multa.

O dinheiro que provém do crime de casa de prostituição é um dinheiro ilícito e, portanto,


em regra, induz também ao crime de lavagem de dinheiro.

7. Rufianismo (art. 230, CP)

Art. 230 - Tirar proveito da prostituição alheia, participando diretamente de seus lucros ou
fazendo-se sustentar, no todo ou em parte, por quem a exerça:
Pena - reclusão, de um a quatro anos, e multa.

Rufião é aquele que participa diretamente dos lucros da prostituição ou é sustentado pela
mulher que se prostitui.

Ele não induz a prática da prostituição, apenas participa dos lucros ou é sustentado pelo
dinheiro proveniente da prostituição.

Em relação aos crimes previstos nos arts. 227 a 230 do CP há um conflito entre os
princípios da adequação social e da legalidade.

Conforme a doutrina majoritária, os crimes destes artigos não devem mais ser
denunciados pois, são crimes aceitos pelos costumes sociais. Para a doutrina, há ausência de
tipicidade material.

Em que pese o posicionamento doutrinário, a jurisprudência entende que no conflito entre


adequação social e a legalidade, deve prevalecer o princípio da legalidade. Desta forma, para a
jurisprudência os crimes dos artigos 227 ao 230 devem ser denunciados. Esse entendimento está
consubstanciado no informativo 615 do STF.

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Art. 229 do CP e princípio da adequação social – não compete ao órgão julgador
descriminalizar conduta tipificada formal e materialmente pela legislação penal. Com esse
entendimento, a 1ª Turma indeferiu habeas corpus impetrado em favor de condenados
pela prática do crime descrito na antiga redação do art. 229 do CP [“Manter, por conta
própria ou de terceiro, casa de prostituição ou lugar destinado a encontros para fim
libidinoso, haja ou não intuito de lucro ou mediação direta do proprietário ou gerente: Pena
- reclusão, de 2 (dois) a 5 (cinco) anos, e multa.”]. A defesa sustentava que, de acordo com
os princípios da fragmentariedade e da adequação social, a conduta perpetrada seria
materialmente atípica, visto que, conforme alegado, o caráter criminoso do fato estaria
superado, por força dos costumes. Aduziu-se, inicialmente, que os bens jurídicos
protegidos pela norma em questão seriam relevantes, razão pela qual imprescindível a
tutela penal. Ademais, destacou-se que a alteração legislativa promovida pela Lei
12.015/2009 teria mantido a tipicidade da conduta imputada aos pacientes. Por fim,
afirmou-se que caberia somente ao legislador o papel de revogar ou modificar a lei penal
em vigor, de modo que inaplicável o princípio da adequação social ao caso. HC
104467/RS, rel. Min. Cármen Lúcia, 8.2.2011. (HC-104467)

8. Tráfico internacional de pessoa para fim de exploração sexual (art. 231, CP)

Art. 231. Promover ou facilitar a entrada, no território nacional, de alguém que nele venha
a exercer a prostituição ou outra forma de exploração sexual, ou a saída de alguém que vá
exercê-la no estrangeiro. (Redação dada pela Lei nº 12.015, de 2009)
Pena - reclusão, de 3 (três) a 8 (oito) anos.

O artigo 231 será integralmente revogado pelo artigo 149-A da Lei 13.344/16. Por
enquanto a lei ainda está em prazo de vacatio legis, entretanto, a partir do dia 19 de novembro de
2016 entrará em vigor.

Art. 13. O Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código Penal), passa a


vigorar acrescido do seguinte art. 149-A:
“Tráfico de Pessoas
Art. 149-A. Agenciar, aliciar, recrutar, transportar, transferir, comprar, alojar ou acolher
pessoa, mediante grave ameaça, violência, coação, fraude ou abuso, com a finalidade de:
I - remover-lhe órgãos, tecidos ou partes do corpo;
II - submetê-la a trabalho em condições análogas à de escravo;
III - submetê-la a qualquer tipo de servidão;
IV - adoção ilegal; ou
V - exploração sexual.
Pena - reclusão, de 4 (quatro) a 8 (oito) anos, e multa.
§ 1o A pena é aumentada de um terço até a metade se:
I - o crime for cometido por funcionário público no exercício de suas funções ou a pretexto
de exercê-las;
II - o crime for cometido contra criança, adolescente ou pessoa idosa ou com deficiência;
III - o agente se prevalecer de relações de parentesco, domésticas, de coabitação, de
hospitalidade, de dependência econômica, de autoridade ou de superioridade hierárquica
inerente ao exercício de emprego, cargo ou função; ou
IV - a vítima do tráfico de pessoas for retirada do território nacional.
§ 2o A pena é reduzida de um a dois terços se o agente for primário e não integrar
organização criminosa.”

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A nova lei tipifica o tráfico de pessoas de forma mais abrangente que o artigo 231. Ela
dispõe sobre o tráfico não só para fins sexuais, mas também para fins de trabalho escravo, tráfico
de órgãos, adoção ilegal, etc.

Este é um crime comum e formal.

Atenção: a Lei 13.344 revogará parcialmente o artigo 149-A do CP. O crime de redução a
condição análoga à de escravo subsistirá apenas em relação ao trabalho escravo cometido dentro
do território nacional. Ao trabalho escravo internacional será aplicada a Lei 13.344.

CRIMES CONTRA A PAZ PÚBLICA

1. Incitação ao crime (art. 286, CP)

Art. 286 - Incitar, publicamente, a prática de crime:


Pena - detenção, de três a seis meses, ou multa.

O único crime que não admite aplicação do artigo 286 é o crime de instigação ao suicídio,
no qual o agente responderá por crime específico, qual seja, artigo 122 do CP.

Induzimento, instigação ou auxílio a suicídio


Art. 122 - Induzir ou instigar alguém a suicidar-se ou prestar-lhe auxílio para que o faça:
Pena - reclusão, de dois a seis anos, se o suicídio se consuma; ou reclusão, de um a três
anos, se da tentativa de suicídio resulta lesão corporal de natureza grave.

2. Apologia de crime ou criminoso (art. 287, CP)

Art. 287 - Fazer, publicamente, apologia de fato criminoso ou de autor de crime:


Pena - detenção, de três a seis meses, ou multa.

Nos termos deste artigo, constitui crime fazer apologia pública à fato criminoso.

Conforme entendimento do STF, a marcha da maconha não constitui crime desde que não
haja o uso efetivo da droga. Esse é o entendimento consubstanciado no informativo 631 do STF.
Vejamos:

Liberdades fundamentais e “Marcha da Maconha” – 1: Por entender que o exercício dos


direitos fundamentais de reunião e de livre manifestação do pensamento devem ser
garantidos a todas as pessoas, o Plenário julgou procedente pedido formulado em ação de
descumprimento de preceito fundamental para dar, ao art. 287 do CP, com efeito
vinculante, interpretação conforme a Constituição, de forma a excluir qualquer exegese
que possa ensejar a criminalização da defesa da legalização das drogas, ou de qualquer
substância entorpecente específica, inclusive através de manifestações e eventos públicos.
Preliminarmente, rejeitou-se pleito suscitado pela Presidência da República e pela
Advocacia-Geral da União no sentido do não-conhecimento da ação, visto que, conforme
sustentado, a via eleita não seria adequada para se deliberar sobre a interpretação
conforme. Alegava-se, no ponto, que a linha tênue entre o tipo penal e a liberdade de
expressão só seria verificável no caso concreto. Aduziu-se que se trataria de argüição
autônoma, cujos pressupostos de admissibilidade estariam presentes. Salientou-se a
observância, na espécie, do princípio da subsidiariedade. Ocorre que a regra penal em
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comento teria caráter pré-constitucional e, portanto, não poderia constituir objeto de
controle abstrato mediante ações diretas, de acordo com a jurisprudência da Corte. Assim,
não haveria outro modo eficaz de se sanar a lesividade argüida, senão pelo meio adotado.
Enfatizou-se a multiplicidade de interpretações às quais a norma penal em questão estaria
submetida, consubstanciadas em decisões a permitir e a não pemitir a denominada
“Marcha da Maconha” por todo o país. Ressaltou-se existirem graves conseqüências
resultantes da censura à liberdade de expressão e de reunião, realizada por agentes
estatais em cumprimento de ordens emanadas do Judiciário. Frisou-se que, diante do
quadro de incertezas hermenêuticas em torno da aludida norma, a revelar efetiva e
relevante controvérsia constitucional, os cidadãos estariam preocupados em externar, de
modo livre e responsável, as convicções que desejariam transmitir à coletividade por meio
da pacífica utilização dos espaços públicos. ADPF 187/DF, rel. Min. Celso de Mello,
15.6.2011. (ADPF-187)

Liberdades fundamentais e “Marcha da Maconha” – 2: Decidiu-se, ainda, manter o objeto


da demanda conforme a delimitação estabelecida pela Procuradoria-Geral da República, a
despeito de um dos amici curiae — a ABESUP - Associação Brasileira de Estudos Sociais
do Uso de Psicoativos — haver postulado o reconhecimento da legitimidade jurídica de
determinadas condutas. A aludida associação pretendia a declaração da atipicidade penal
de atos como o cultivo doméstico, o porte de pequena quantidade e o uso em âmbito
privado da maconha; a utilização de referida substância para fins medicinais, inclusive para
efeito de realização de pesquisas médicas; o uso ritual da maconha em celebrações
litúrgicas; a utilização da substância canábica para fins econômicos; ou, então, a
submissão dos mencionados pleitos a processo prévio de regulamentação, com a
participação democrática dos órgãos e entidades que manifestassem interesse no assunto.
O amicus curiae citado também requerera a concessão, de ofício, em caráter abstrato, de
ordem de habeas corpus em favor de quaisquer pessoas que incidissem naqueles
comportamentos anteriormente referidos. Aduziu-se que, não obstante o relevo da
participação do amicus curiae, como terceiro interveniente, no processo de fiscalização
normativa abstrata, ele não disporia de poderes processuais que, inerentes às partes,
viabilizassem o exercício de determinadas prerrogativas que se mostrassem unicamente
acessíveis a elas, como o poder que assiste, ao argüente, de delimitar o objeto da
demanda por ele instaurada. Afirmou-se que a intervenção do amicus curiae seria voltada
a proporcionar meios que viabilizassem uma adequada resolução do litígio constitucional,
sob a perspectiva de pluralização do debate, de modo a permitir que o STF venha a dispor
de todos os elementos informativos necessários à resolução da controvérsia, além de
conferir legitimidade às decisões proferidas pela Suprema Corte. Para tanto, o amicus
curiae teria a possibilidade de exercer o direito de fazer sustentações orais, além de dispor
da faculdade de submeter, ao relator da causa, propostas de requisição de informações
adicionais, de designação de peritos, de convocação de audiências públicas e de recorrer
da decisão que haja denegado seu pedido de admissão no processo. Reputou-se,
portanto, que as questões ora suscitadas não estariam em causa neste processo, muito
embora reconhecida sua importância. Apontou-se, ademais, a inadequação do writ para o
fim pretendido, visto que impetrado em caráter abstrato, sem vinculação concreta a um
caso específico. Evidenciou-se a absoluta indeterminação subjetiva dos pacientes, de
maneira a não se revelar pertinente esse remédio constitucional. Salientou-se que não se
demonstrara configuração de ofensa imediata, atual ou iminente a direito de ir e vir de
pessoas efetivamente submetidas a atos de injusto constrangimento. ADPF 187/DF, rel.
Min. Celso de Mello, 15.6.2011. (ADPF-187)

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Liberdades fundamentais e “Marcha da Maconha” – 3: No mérito, ressaltou-se, de início,
que o presente feito não teria por objetivo discutir eventuais propriedades terapêuticas ou
supostas virtudes medicinais ou possíveis efeitos benéficos resultantes da utilização de
drogas ou de qualquer outra substância entorpecente. Destacou-se estar em jogo a
proteção às liberdades individuais de reunião e de manifestação do pensamento. Em
passo seguinte, assinalou-se que a liberdade de reunião, enquanto direito-meio, seria
instrumento viabilizador da liberdade de expressão e qualificar-se-ia como elemento apto a
propiciar a ativa participação da sociedade civil na vida política do Estado. A praça pública,
desse modo, desde que respeitado o direto de reunião, passaria a ser o espaço, por
excelência, para o debate. E, nesse sentido, salientou-se que esta Corte, há muito, firmara
compromisso com a preservação da integridade das liberdades fundamentais contra o
arbítrio do Estado. Realçou-se que a reunião, para merecer a proteção constitucional,
deveria ser pacífica, ou seja, sem armas, violência ou incitação ao ódio ou à discriminação.
Ademais, essa liberdade seria constituída por 5 elementos: pessoal, temporal, intencional,
espacial e formal. Ponderou-se que, embora esse direito possa ser restringido em períodos
de crise institucional, ao Estado não seria permitido, em período de normalidade, inibir
essa garantia, frustrar-lhe os objetivos ou inviabilizá-la com medidas restritivas.
ADPF 187/DF, rel. Min. Celso de Mello, 15.6.2011. (ADPF-187)

Liberdades fundamentais e “Marcha da Maconha” – 4: Apontou-se, ademais, que as


minorias também titularizariam o direito de reunião. Observou-se que isso evidenciaria a
função contra-majoritária do STF no Estado Democrático de Direito. Frisou-se, nessa
contextura, que os grupos majoritários não poderiam submeter, à hegemonia de sua
vontade, a eficácia de direitos fundamentais, especialmente tendo em conta uma
concepção material de democracia constitucional. Mencionou-se que a controvérsia em
questão seria motivada pelo conteúdo polissêmico do art. 287 do CP, cuja interpretação
deveria ser realizada em harmonia com as liberdades fundamentais de reunião, de
expressão e de petição. Relativamente a esta última, asseverou-se que o seu exercício
estaria sendo inviabilizado, pelo Poder Público, sob o equivocado entendimento de que
manifestações públicas, como a “Marcha da Maconha”, configurariam a prática do ilícito
penal aludido — o qual prevê a apologia de fato criminoso —, não obstante essas
estivessem destinadas a veicular idéias, transmitir opiniões, formular protestos e expor
reivindicações — direito de petição —, com a finalidade de sensibilizar a comunidade e as
autoridades governamentais, notadamente o Legislativo, para o tema referente à
descriminalização do uso de drogas ou de qualquer substância entorpecente específica.
Evidenciou-se que o sistema constitucional brasileiro conferiria legitimidade ativa aos
cidadãos para apresentar, por iniciativa popular, projeto de lei com o escopo de
descriminalizar qualquer conduta hoje penalmente punida. Daí a relação de
instrumentalidade entre a liberdade de reunião e o direito de petição. ADPF 187/DF, rel.
Min. Celso de Mello, 15.6.2011. (ADPF-187)

Liberdades fundamentais e “Marcha da Maconha” – 5: Além disso, verificou-se que a


marcha impugnada mostraria a interconexão entre as liberdades constitucionais de reunião
— direito-meio — e de manifestação do pensamento — direito-fim — e o direito de petição,
todos eles dignos de amparo do Estado, cujas autoridades deveriam protegê-los e revelar
tolerância por aqueles que, no exercício do direito à livre expressão de suas idéias e
opiniões, transmitirem mensagem de abolicionismo penal quanto à vigente incriminação do
uso de drogas ilícitas. Dessa forma, esclareceu-se que seria nociva e perigosa a pretensão
estatal de reprimir a liberdade de expressão, fundamento da ordem democrática, haja vista
que não poderia dispor de poder algum sobre a palavra, as idéias e os modos de sua
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manifestação. Afirmou-se que, conquanto a livre expressão do pensamento não se revista
de caráter absoluto, destinar-se-ia a proteger qualquer pessoa cujas opiniões pudessem
conflitar com as concepções prevalecentes, em determinado momento histórico, no meio
social. Reputou-se que a mera proposta de descriminalização de determinado ilícito penal
não se confundiria com ato de incitação à prática do crime, nem com o de apologia de fato
criminoso. Concluiu-se que a defesa, em espaços públicos, da legalização das drogas
ou de proposta abolicionista a outro tipo penal, não significaria ilícito penal, mas, ao
contrário, representaria o exercício legítimo do direito à livre manifestação do
pensamento, propiciada pelo exercício do direito de reunião. O Min. Luiz Fux
ressalvou que deveriam ser considerados os seguintes parâmetros: 1) que se trate de
reunião pacífica, sem armas, previamente noticiada às autoridades públicas quanto
à data, ao horário, ao local e ao objetivo, e sem incitação à violência; 2) que não
exista incitação, incentivo ou estímulo ao consumo de entorpecentes na sua
realização; 3) que não ocorra o consumo de entorpecentes na ocasião da
manifestação ou evento público e 4) que não haja a participação ativa de crianças e
adolescentes na sua realização. ADPF 187/DF, rel. Min. Celso de Mello, 15.6.2011.
(ADPF-187)

3. Associação Criminosa (art. 288, CP)

Art. 288. Associarem-se 3 (três) ou mais pessoas, para o fim específico de cometer
crimes: (Redação dada pela Lei nº 12.850, de 2013)
Pena - reclusão, de 1 (um) a 3 (três) anos.
Parágrafo único. A pena aumenta-se até a metade se a associação é armada ou se
houver a participação de criança ou adolescente.

A redação do crime de associação criminosa foi dada pela Lei nº 12.850, de 2013.

Para a configuração do crime de quadrilha (crime tipificado antes da entrada em vigor do


crime de associação criminosa – art. 288), era necessário que houvesse a reunião de (04) quatro
ou mais pessoas. Atualmente, para a configuração do crime de associação criminosa exige-se a
reunião de apenas 03 pessoas.

Conforme exposto, a Lei 12.850 exigiu a reunião de um número menor de pessoas para a
consumação deste crime e, portanto, é uma lei prejudicial ao réu que não pode retroagir para
alcançar fatos anteriores à sua vigência.

A consumação do crime de associação criminosa ocorre com a mera reunião de pessoas


para o cometimento de crimes – crime formal.

O crime do artigo 288 é um crime permanente, ou seja, sua consumação perdura no tempo
e, portanto, pode haver flagrante a qualquer tempo.

É possível cumular o crime do artigo 121, §2º, I com o 288 do CP, já que os bens jurídicos
tutelados são diversos (vida e paz pública).

Art. 121, § 2° Se o homicídio é cometido:


I - mediante paga ou promessa de recompensa, ou por outro motivo torpe;

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Art. 288. Associarem-se 3 (três) ou mais pessoas, para o fim específico de cometer
crimes: (Redação dada pela Lei nº 12.850, de 2013)
Pena - reclusão, de 1 (um) a 3 (três) anos.

Nesta hipótese, as penas serão somadas na forma do artigo 69 do CP.

Também é possível cumular o artigo 288, §único com o crime do artigo 157, §2º, I e II, já
que o crime de associação criminosa tutela a paz pública e o crime de roubo tutela o patrimônio.
Dessa forma, é possível somar as penas.

Art. 157, § 2º - A pena aumenta-se de um terço até metade:


I - se a violência ou ameaça é exercida com emprego de arma;
II - se há o concurso de duas ou mais pessoas;

Art. 288, parágrafo único. A pena aumenta-se até a metade se a associação é armada ou
se houver a participação de criança ou adolescente.

Esse é o entendimento manifestado no informativo 688, STF. Vejamos:

EMENTA: HABEAS CORPUS. PENAL. PACIENTE CONDENADO POR ROUBOS


QUALIFICADOS E FORMAÇÃO DE QUADRILHA ARMADA. EXASPERAÇÃO DAS
PENAS-BASE JUSTIFICADA NOS ANTECEDENTES CRIMINAIS E NA
PERSONALIDADE DO AGENTE. FUNDAMENTAÇÃO IDÔNEA. ALEGAÇÃO DE
CONTINUIDADE DELITIVA. NÃO OCORRÊNCIA DAS CONDIÇÕES OBJETIVAS E
SUBJETIVAS. IMPOSSIBILIDADE DE REVOLVIMENTO DO CONJUNTO PROBATÓRIO
PARA ESSE FIM. REITERAÇÃO CRIMINOSA. IMPOSSIBILIDADE DE APLICAÇÃO DAS
REGRAS DE CRIME ÚNICO. AÇÕES AUTÔNOMAS. CONDENAÇÃO SIMULTÂNEA
PELOS CRIMES DE ROUBO QUALIFICADO COM EMPREGO DE ARMA DE FOGO E
FORMAÇÃO DE QUADRILHA ARMADA. BIS IN IDEM. NÃO CONFIGURAÇÃO.
CRIMES AUTÔNOMOS E OBJETOS JURÍDICOS DIVERSOS. ORDEM DENEGADA.
I - A exasperação das penas-base está satisfatoriamente justificada na sentença
condenatória, que considerou desfavoráveis os antecedentes criminais e a personalidade
do agente.
II - O acórdão ora atacado está em perfeita consonância com o entendimento firmado
pelas duas Turmas desta Corte, no sentido de que “não basta que haja similitude entre as
condições objetivas (tempo, lugar, modo de execução e outras similares). É necessário
que entre essas condições haja uma ligação, um liame, de tal modo a evidenciar-se, de
plano, terem sido os crimes subsequentes continuação do primeiro”, sendo certo, ainda,
que “o entendimento desta Corte é no sentido de que a reiteração criminosa indicadora de
delinquência habitual ou profissional é suficiente para descaracterizar o crime continuado”
(RHC 93.144/SP, Rel. Min. Menezes Direito).
III - Consta dos autos que o paciente foi reconhecido como criminoso habitual, uma vez
que faz do crime seu modus vivendi.
IV - A jurisprudência deste Tribunal é pacífica no sentido da impossibilidade de
revolvimento do conjunto probatório com o fim de verificar a ocorrência das condições
configuradoras da continuidade delitiva.
V - A tentativa de roubo ocorrida na área externa do shopping center consubstancia crime
autônomo, praticado com o objetivo de assegurar a fuga do paciente e do seu comparsa,
não havendo falar, portanto, em continuidade delitiva entre esse e os roubos consumados
no interior daquele estabelecimento comercial.
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VI - Esta Corte já firmou o entendimento de que a condenação simultânea pelos
crimes de roubo qualificado com emprego de arma de fogo (art. 157, § 2º, I, do CP) e
de formação de quadrilha armada (art. 288, parágrafo único, do CP) não configura
bis in idem, uma vez que não há nenhuma relação de dependência ou subordinação
entre as referidas condutas delituosas e porque elas visam bens jurídicos diversos.
Precedentes.
VII - Ordem denegada.

Aos crimes societários cuja sociedade possua objeto lícito, entretanto os sócios também
pratiquem atividades criminosas não é possível aplicar o artigo 288.

O artigo 288 prevê que constitui crime de associação criminosa “associarem-se 3 (três) ou
mais pessoas, para o fim específico de cometer crimes”. Desta forma, o STF entende que as
sociedades que pratiquem atividades lícitas e atividades criminosas não podem ser enquadradas
no crime do artigo 288, pois elas não possuem “fim específico de cometer crimes”. Para que
esteja configurado o crime de associação criminosa a finalidade da associação deve ser
exclusivamente criminosa. Esse é o entendimento manifestado no informativo 645 do STF.
Vejamos:

Crimes contra a ordem tributária e quadrilha - 5


Em conclusão, por maioria, a 1ª Turma concedeu habeas corpus para determinar o
trancamento de ação penal quanto à imputação aos pacientes da suposta prática do delito
de formação de quadrilha (CP, art. 288) para consecução de crimes contra a ordem
tributária — v. Informativo 568. Prevaleceu o voto do Min. Marco Aurélio. Considerou que
os indícios apontados para se chegar à pretensão punitiva quanto ao crime de quadrilha
não seriam idôneos. Afirmou ver com reserva denúncias que contivessem convergência de
imputação de crime fiscal e de crime de quadrilha, na medida em que não poderia imaginar
que alguém constituiria uma sociedade simplesmente para sonegar, mormente pessoas
que possuíssem ficha ilibada. Mencionou que não se poderia partir do pressuposto de
que se formalizaria uma pessoa jurídica para a prática de crimes. Assim, não se
presumiria — por essa criação — o dolo específico do delito de formação de
quadrilha. Destacou sua preocupação com a prática do parquet de denunciar pelo crime
de sonegação e, a partir da reunião de pessoas num corpo societário, lançar, também, a
imputação por formação de quadrilha. Ressaltou, no ponto, que a inicial acusatória teria de
reunir dados e indícios para se chegar a essa conclusão. A Min. Cármen Lúcia, ao
acrescentar que, de fato, a descrição dos comportamentos dos pacientes não tornaria
factíveis ou óbvios os indícios mínimos de autoria e materialidade delitivas para a prática
do crime em questão. Vencido o Min. Ayres Britto, relator, que denegava a ordem.
Assinalava que, conquanto entendesse correta a tese de que o crime de formação de
quadrilha não se configuraria como decorrência pura e simples do fato de sócios
gerenciarem uma pessoa jurídica envolvida em crimes tributários, não seria o caso de
aplicá-la ao caso. Destacava que poderia haver a associação de pessoas para praticar
atos empresariais lícitos e, paralelamente, cometer crimes contra a ordem tributária.
Observava ser este o núcleo da denúncia, cumprindo examinar, ao longo da instrução
criminal, se os indícios se confirmariam com mais nitidez.
HC 92499/SP, rel. orig. Min. Ayres Britto, red. p/ o acórdão Min. Marco Aurélio, 18.10.2011.
(HC-92499)

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Atenção: Art. 288, CP X Art. 1º ao 3º, Lei 12.850 X Art. 8º, Lei 8.072/90 X Art. 35, Lei 11.343

Art. 288, CP Art. 1º ao 3º, Lei 12.850 Art. 8º, Lei 8.072/90 Art. 35, Lei 11.343 (Lei
(associação criminosa) (Lei de Organização (Lei de Crimes de Drogas)
Criminosa) Hediondos)

Prevê a associação para Prevê a associação para Prevê a associação para Prevê a associação para
a prática de crimes prática de crimes cuja a prática de crimes a prática do crime de
comuns. pena máxima seja hediondos e tortura tráfico de drogas.
superior a 4 anos.

Exige a associação de 3 Exige a associação de 4 Exige a associação de 3 Exige a reunião de 02


ou mais pessoas. ou mais pessoas. ou mais pessoas. (duas) ou mais pessoas.

É aplicada à associação A associação deve A associação objetiva A associação objetiva


que visa praticar objetivar a prática de praticar crimes praticar os crimes
infrações penais cujas crimes cuja pena hediondos e tortura. previstos nos arts. 33,
penas máximas máxima cominada seja caput e § 1o, e 34 desta
cominadas sejam iguais superior a 4 anos ou Lei.
ou inferiores a 4 sejam de caráter
(quatro) anos. transnacional.

Não prevê a Prevê a delação Prevê a delação Prevê a delação


possibilidade de delação premiada (art. 4º). premiada (art. 8º). premiada (art. 41).
premiada, entretanto,
conforme o
entendimento
jurisprudencial, é
possível aplicação da
delação premiada sob o
fundamento da analogia
in bonam partem
(informativo 690, STF*).

Obs: embora o tráfico seja crime equiparado a hediondo, aplica-se a lei 11.343, pois é lei
específica.

*Informativo 690, STF: no que concerne ao crime de lavagem de dinheiro (Lei 9.613/98,
art. 1º, V e VI), aludido no item VI.3 (c.2) da denúncia, no total de 7 operações,
estabeleceu-se a reprimenda em 4 anos, 3 meses e 24 dias de reclusão, acrescida de 160
dias-multa, na quantia já mencionada. Vencida a Min. Rosa Weber, que condenava o
acusado a 2 anos, 9 meses e 10 dias de reclusão. Sinalizava a ocorrência de 4 delitos de
lavagem e, em consequência, aplicava o aumento de 1/4 pela continuidade delitiva. Os
Ministros Revisor e Marco Aurélio não participaram da votação. Afastou-se o
reconhecimento da agravante prevista no art. 62, III, do CP, aplicada pelos Ministros
Relator e Celso de Mello. Por outro lado, admitiu-se a delação premiada (Lei 9.807/99: “Art.
14. O indiciado ou acusado que colaborar voluntariamente com a investigação policial e o
processo criminal na identificação dos demais co-autores ou partícipes do crime, na
localização da vítima com vida e na recuperação total ou parcial do produto do crime, no
caso de condenação, terá pena reduzida de um a dois terços”) para fins de redução da
pena, à exceção do Revisor. O Min. Luiz Fux distinguiu a delação do instituto da confissão.
12
Assinalou que a confissão seria pro domo sua, ou seja, quem o faria teria ciência da
obtenção de atenuação da pena. Já a delação seria pro populo, em favor da sociedade,
porquanto a colaboração serviria para todo e qualquer delito, de modo a beneficiar a
coletividade. AP 470/MG, rel. Min. Joaquim Barbosa, 26 e 28.11.2012. (AP-470)

4. Constituição de milícia privada (art. 288-A)

Art. 288-A. Constituir, organizar, integrar, manter ou custear organização paramilitar,


milícia particular, grupo ou esquadrão com a finalidade de praticar qualquer dos crimes
previstos neste Código: (Incluído dada pela Lei nº 12.720, de 2012)
Pena - reclusão, de 4 (quatro) a 8 (oito) anos.

Tudo que foi estudado para o artigo 288 será aplicado ao 288-A.

A crítica do professor em relação a este artigo é a previsão de que somente haverá crime
de constituição de milícia privada quando os agentes constituírem, organizarem, integrarem,
mantiverem ou custearem milícia que tenha a finalidade de “praticar qualquer dos crimes
previstos neste Código”.

Nos termos deste artigo, a constituição de milícia para a prática de crimes previstos em leis
especiais não configura o crime do artigo 288-A.

Organização paramilitar, milícia particular, grupo ou esquadrão é a reunião de 3 ou mais


pessoas. Isso porque o 288-A está contido no artigo 288.

CRIMES CONTRA A FÉ PÚBLICA

1. Moeda Falsa (art. 289, CP)

Art. 289 - Falsificar, fabricando-a ou alterando-a, moeda metálica ou papel-moeda de curso


legal no país ou no estrangeiro:
Pena - reclusão, de três a doze anos, e multa.
§ 1º - Nas mesmas penas incorre quem, por conta própria ou alheia, importa ou exporta,
adquire, vende, troca, cede, empresta, guarda ou introduz na circulação moeda falsa.
§ 2º - Quem, tendo recebido de boa-fé, como verdadeira, moeda falsa ou alterada, a
restitui à circulação, depois de conhecer a falsidade, é punido com detenção, de seis
meses a dois anos, e multa.
§ 3º - É punido com reclusão, de três a quinze anos, e multa, o funcionário público ou
diretor, gerente, ou fiscal de banco de emissão que fabrica, emite ou autoriza a fabricação
ou emissão:
I - de moeda com título ou peso inferior ao determinado em lei;
II - de papel-moeda em quantidade superior à autorizada.
§ 4º - Nas mesmas penas incorre quem desvia e faz circular moeda, cuja circulação não
estava ainda autorizada.

É crime cuja atribuição para investigação é da Polícia Federal.

É crime formal, ou seja, para sua consumação basta a falsificação. Colocar a moeda em
circulação é o fato mais grave que não precisa se consumar para configuração do crime do 289.
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O crime de moeda falsa é um crime mutilado de dois atos.

Crime mutilado é aquele cujo resultado não é necessário para sua configuração. É
sinônimo de crime formal. O crime mutilado de 01 (um) ato é aquele cujo primeiro ato é crime,
mas o segundo é um indiferente penal. Ex: extorção mediante sequestro (artigo 159, CP). O ato
de sequestrar constitui crime (artigo 148, CP), entretanto o resgate em si é um indiferente penal.

O crime mutilado de dois atos é aquele cujo primeiro ato é crime e o segundo também.
Este é o caso do crime em estudo, no qual tanto o ato de falsificar quanto o ato circular a moeda
falsa é crime.

O agente que pratica o ato de falsificar e circular a moeda comete crime único. O ato de
colocar a moeda em circulação é o pós-fato impunível (exaurimento do crime).

2. Petrechos para falsificação de moeda (art. 291, CP)

Art. 291 - Fabricar, adquirir, fornecer, a título oneroso ou gratuito, possuir ou guardar
maquinismo, aparelho, instrumento ou qualquer objeto especialmente destinado à
falsificação de moeda:
Pena - reclusão, de dois a seis anos, e multa.

É crime formal, ou seja, a mera posse do maquinário ou de instrumentos para a falsificação


de moeda já configura o crime.

É crime mutilado de dois atos.

3. Falsidade documental (art. 297, 298 e 299, CP)

Falsificação de documento público


Art. 297 - Falsificar, no todo ou em parte, documento público, ou alterar documento público
verdadeiro:
Pena - reclusão, de dois a seis anos, e multa.
§ 1º - Se o agente é funcionário público, e comete o crime prevalecendo-se do cargo,
aumenta-se a pena de sexta parte.
§ 2º - Para os efeitos penais, equiparam-se a documento público o emanado de entidade
paraestatal, o título ao portador ou transmissível por endosso, as ações de sociedade
comercial, os livros mercantis e o testamento particular.
§ 3o Nas mesmas penas incorre quem insere ou faz inserir:
I – na folha de pagamento ou em documento de informações que seja destinado a fazer
prova perante a previdência social, pessoa que não possua a qualidade de segurado
obrigatório;
II – na Carteira de Trabalho e Previdência Social do empregado ou em documento que
deva produzir efeito perante a previdência social, declaração falsa ou diversa da que
deveria ter sido escrita;
III – em documento contábil ou em qualquer outro documento relacionado com as
obrigações da empresa perante a previdência social, declaração falsa ou diversa da que
deveria ter constado.
§ 4o Nas mesmas penas incorre quem omite, nos documentos mencionados no § 3 o, nome
do segurado e seus dados pessoais, a remuneração, a vigência do contrato de trabalho ou
de prestação de serviços.

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Falsificação de documento particular
Art. 298 - Falsificar, no todo ou em parte, documento particular ou alterar documento
particular verdadeiro:
Pena - reclusão, de um a cinco anos, e multa.
Falsificação de cartão
Parágrafo único. Para fins do disposto no caput, equipara-se a documento particular o
cartão de crédito ou débito.

Falsidade ideológica
Art. 299 - Omitir, em documento público ou particular, declaração que dele devia constar,
ou nele inserir ou fazer inserir declaração falsa ou diversa da que devia ser escrita, com o
fim de prejudicar direito, criar obrigação ou alterar a verdade sobre fato juridicamente
relevante:
Pena - reclusão, de um a cinco anos, e multa, se o documento é público, e reclusão de um
a três anos, e multa, se o documento é particular.
Parágrafo único - Se o agente é funcionário público, e comete o crime prevalecendo-se do
cargo, ou se a falsificação ou alteração é de assentamento de registro civil, aumenta-se a
pena de sexta parte.

Conforme visto nos artigos 297, 298 e 299, a falsidade documental pode ser material ou
ideológica. Vejamos:

Falsidade material (arts. 297 e 298, CP) Falsidade ideológica (art. 299, CP)

A falsificação material envolve a forma do A falsificação ideológica envolve o conteúdo do


documento (elemento extrínseco). Ex: adulterar a documento (elemento intrínseco). A ideia do
foto de uma carteira de motorista. documento é falsa. Ex: registro no cartório de um
imóvel que tem 10 metros² como se tivesse 100
metros².

A forma de constatação da falsidade material é a A forma de constatação de falsidade ideológica é


perícia; por meio de depoimento da vítima, depoimento de
testemunha, etc.

Se o documento for público aplica-se o artigo 297; Sendo o documento público ou privado o agente
se o documento for particular aplica-se o 298 do CP. incorrerá no crime do artigo 299 do CP.
Obs: tanto o cheque emitido, por exemplo, pelo
Bradesco quanto pela Caixa Econômica são
documentos públicos. Cartões bancários são
sempre documentos particulares.

Se o agente falsifica documento público ou privado Se o agente falsifica documento público ou privado
com o intuito de obter vantagem, o agente com o intuito de obter vantagem, o agente
responderá apenas pelo crime de estelionato (art. responderá apenas pelo crime de estelionato (art.
171, CP) – súmula 17, STJ – princípio da 171, CP) – súmula 17, STJ – princípio da
consunção. consunção.

A falsidade material, em regra, admite somente a A falsidade ideológica pode ser cometida na
modalidade comissiva, salvo na hipótese do §4º do modalidade omissiva.
art. 297, CP.

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