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OFICINA “ELEMENTOS DA ESTÉTICA DE J. R. R. TOLKIEN” André Luiz Rodriguez Modesto Pereira Aula 8: 07/10/10

O Mal e a Morte em O Senhor dos Anéis

For nothing is evil in the beginning. Even Sauron was not so. – Elrond

is evil in the beginning. Even Sauron was not so. – Elrond • Primeiro plano: batalha

Primeiro plano: batalha épica entre o Bem e o Mal; um lado agressor e um lado que resiste.

Mundo em mutação; tentativa de dominar a natureza e os outros povos.

Questões fundamentais: Qual é a natureza do Mal? Qual é sua origem?

1. A natureza do Mal e suas principais representações

Tom Shippey, em The Road to Middle-Earth (2003) e J. R. R. Tolkien: author of the century (2000), aborda algumas das principais representações do mal:

Sombra;

Espectros do Anel (Ringwraiths);

o Anel.

Visão ambígua, entre a perspectiva de Boécio e dos maniqueistas.

Boécio:

“não há tal coisa como o mal: 'o mal é nada', é a ausência do bem, é possivelmente até mesmo um bem não apreciado.”

O Mal como Sombra: ausência de luz, ausência/afastamento do bem.

Não há uma diferença essencial entre as criaturas boas ou más:

– Não, eles comem e bebem, Sam. A sombra que os criou só pode arremedar, não pode criar: nada realmente novo que se origine dela mesma. Não acho que lhes tenha dado vida, apenas os arruinou e deformou; e, se eles tiverem de viver, precisam viver como as outras criaturas. Ingerem carnes pútridas e águas sujas se não conseguirem coisa melhor, mas veneno não. Alimentaram-me, e por isso estou

em melhores condições que você. Deve haver comida e bebida por aqui em algum lugar. (TOLKIEN, 2002, p. 967)

“For nothing is evil in the beginning. Even Sauron was not so” (TOLKIEN, 1966b, p. 300).

Luz, estrelas: evocação do Bem. Luz permanente além da sombra passageira:

[…] Lá, espiando por entre os restos de nuvens sobre uma rocha pontiaguda nas montanhas, Sam viu uma estrela branca reluzir por uns momentos. Sua beleza arrebatou-lhe o coração, quando desviou os olhos da terra desolada, e ele sentiu a esperança retornar. Pois como um raio, cristalino e frio, invadiu-o o pensamento de que afinal de contas a Sombra era apenas uma coisa pequena e passageira: havia luz e uma beleza nobre que eram eternas e estavam além do alcance dela. A canção que cantara na torre fora mais um desafio que uma esperança, pois naquela hora pensara em si mesmo. Agora, por um momento, sua própria sorte, e até a de seu mestre, deixaram de preocupá-lo. Sam voltou às sarças e se deitou ao lado de Frodo, e, deixando de lado todo o medo, mergulhou num sono profundo e despreocupado. (TOLKIEN, 2002, p. 977)

Wraith (espectro): ambiguidade entre a visão maniqueista e de Boécio.

Mal com existência própria e efetiva;

Mal como ausência do Bem.

Ideias opostas com grande influência na doutrina cristã; apesar da doutrina católica oficial, essas duas correntes ainda atuam de forma efetiva no senso comum.

Wraith: palavra de origem incerta e com significados contraditórios: “an apparition or spectre of a dead person: a phantom or ghost” ou “an immaterial or spectral appearance of a living being(SHIPPEY, 2003, p.148).

O Anel é a materialização dessas duas visões contraditórias. Para entender a demanda de Frodo é necessário aceitar algumas condições sobre o Anel:

O Anel é imensamente poderoso nas mãos certas ou erradas;

O Anel é mortalmente perigoso para todos os seus possuidores: ele irá tomá-los, devorá-los e possuí-los;

O Anel converte todas as coisas para o mal, inclusive aqueles que o usam. Não há ninguém que pode ser confiado para usá-lo, até mesmo nas mãos certas, para bons propósitos: não existe mãos certas e todos os bons propósitos se converterão em mal se alcançados por meio do Anel;

O Anel não pode simplesmente ser deixado inutilizado, colocado de lado ou jogado fora: ele tem que ser destruído.

Anel como representação do poder puro → Anel de Giges (Platão); Lord Acton (1887):

“Power tends to corrupt, and absolute power corrupts absolutely. Great men are almost ”

Para Shippey, esse elemento não combina com o universo heroico proposto por Tolkien, sendo uma ideia tipicamente moderna (?): Aragorn, por exemplo, torna-se um rei poderoso. Se o poder por si só não corrompe, então o Anel tem uma participação ativa no processo (maniqueista).

A própria natureza do Anel é ambígua. Por um lado, ele pode ser considerado apenas como um objeto de poder, uma espécie de arma, manipulável por qualquer um que tiver poder e capacidade suficiente. Por outro, o Anel é capaz de devorar a mente de quem o possui, usando e

always bad men

(apud SHIPPEY, 2000, p. 115).

manipulando esse portador como veículo para retornar junto àquele que o forjou. De suas estratégias faz parte até a traição de seu possuidor. Assim, por exemplo, ele levou Isildur à destruição e utilizou-se de Gollum para esconder-se por longo tempo e, quando surgiu o momento de poder retornar a Sauron, descartou Gollum, escapando de suas mãos.

A ambiguidade torna a demanda mais difícil:

Se o mal fosse apenas a ausência do bem, então o Anel não poderia nunca ser mais que um ampliador psíquico, e tudo o que os personagens precisariam fazer seria colocá-lo de lado, talvez dá-lo a Tom Bombadil: na Terra-média, somos assegurados de que seria fatal. Inversamente, se o mal fosse somente uma força externa, sem eco nos corações dos bons, então alguém poderia ter que levá-lo até Orodruin, mas não necessariamente precisaria ser Frodo: Gandalf poderia tomá-lo ou Galadriel, e qualquer um que fizesse isso teria que lutar apenas com seus inimigos, não com seus amigos ou consigo mesmo. (SHIPPEY, 2000, p. 142 – tradução minha)

Shippey não leva em conta o fato de que o Anel prolonga a vida de quem o possui.

Outras perspectivas:

Rose A. Zimbardo, “Moral Vision in The Lord of the Rings”:

O Mal, na visão do romance, não é um aspecto da natureza humana, mas antes uma perversão da vontade humana. Ele surge quando um ser dirige sua vontade para dentro, para o serviço do self, em vez de para fora, para o serviço do Todo. O efeito de tal inversão é a perversão da natureza, da natureza do homem e da natureza maior da qual ele faz parte. (ZIMBARDO, 2004, p. 69 – tradução minha)

Perspectiva mais próxima de Boécio, já que depende unicamente da vontade do indivíduo.

E. M. Meletínski, Os arquétipos literários:

A idéia corrente de que nos mitos e particularmente nos contos maravilhosos se desencadeie o embate entre o bem e o mal é uma simplificação muito grande e, em princípio, indevida. Trata-se antes, desde o começo, da contraposição ‘próprio’/‘alheio’, ‘caos’/‘cosmos’. (MELETÍNSKI, 1998, p.107)

próprio/alheio: Sauron, Saruman.

Caos/Cosmos: Laracna, Balrog, Denethor (talvez).

2. A origem do mal

Verdadeiro tema de O Senhor dos Anéis, conforme J. R. R. Tolkien:

Mas devo dizer, caso perguntado, que a história não é realmente sobre Poder e Domínio: isso apenas mantém as rodas girando; ela é sobre a Morte e o desejo pela

imortalidade. Que não mais é do que dizer que esta é uma história escrita por um Homem! (TOLKIEN, 2006, p. 250)

A morte e a busca pela imortalidade, tomadas como tema central de The Lord of the Rings, revelam o princípio gerador de todos os eventos narrados, além de ser o ponto de partida para o esclarecimento de várias personagens, como, por exemplo, os Nazgûl, antigos reis que se submeteram a Sauron em troca de poder e imortalidade, transformando-se, porém em meros fantasmas, fantoches do grande inimigo. Dessa forma, pode-se compreender o outro motivo pelo qual o Anel é cobiçado: pela sua capacidade de prolongar a existência ou, nas palavras de Rose A. Zimbardo, “It arrests time” (2004, p.74).

Capacidade de deter o tempo é compartilhada pelos anéis élficos.

Mudança:

Uma mera mudança como tal não é obviamente representada como “maligna”: é o desdobramento da história, e recusar isso é obviamente contra o desígnio de Deus. Mas a fraqueza Élfica é nesses termos naturalmente lamentar o passado e tornar-se relutante em enfrentar as mudanças: como se um homem odiasse um livro muito longo ainda em andamento e desejasse estabelecer-se em um capítulo favorito. Por essa razão caíram até certo ponto nos artifícios de Sauron: desejavam um certo “poder” sobre as coisas tal como são (o que é bastante distinto da arte), para tornar efetiva sua vontade particular de preservação – capturar a mudança e manter as coisas sempre novas e belas. (TOLKIEN, 2006, p. 227 – grifo do autor)

O mero desejo de preservar o mundo da mudança não implica em maldade; mas o efeito disso é visto sempre de forma negativa:

[…] E se isso não fosse o suficiente para se ter fama, havia também seu vigor prolongado que maravilhava as pessoas. O tempo passava, mas parecia ter pouco efeito sobre o Sr. Bolseiro. Aos noventa anos, parecia ter cinquenta. Aos noventa e nove, começaram a chamá-lo de bem-conservado; mas inalterado ficaria mais próximo da realidade. Havia pessoas que balançavam a cabeça e pensavam que isso era bom demais; parecia injusto que qualquer pessoa possuísse (aparentemente) a juventude perpétua, além de (supostamente) uma riqueza inexaurível. – Isso terá seu preço – diziam eles. – Não é natural e trará problemas. (TOLKIEN, 2002, p.21)

Terry Eagleton, “O mal, a morte e o não-ser”, em Depois da Teoria (2005).

“A consciência humana não é uma coisa em si, mas só é definível em termos daquilo para o que olha ou daquilo que pensa. Em si mesma, é inteiramente vazia” (EAGLETON, 2005,

p.281).

Ser humano, ser histórico em contínuo processo de formação; sem uma existência plena:

Aceitar a falta de bases para nossa existência significa, entre outras coisas, viver à sombra da morte. Nada ilustra mais graficamente quão desnecessários somos do que nossa mortalidade. Aceitar a morte seria viver mais plenamente (EAGLETON,

2005, p.284).

A busca de uma segurança absoluta pode levar a duas posições diante da constante sombra da morte e do não-ser. A primeira é a negação do ser, que

é uma paródia satânica do divino, encontrando no ato da destruição a espécie de liberação orgástica que se pode imaginar Deus tenha encontrado no ato da criação.

É o mal como niilismo – uma explosão de riso sarcástico ante a suposição solene e

farsesca de que qualquer coisa meramente humana pudesse alguma vez ter

qualquer importância. [

si mesma. (EAGLETON, 2005, p.291)

É uma fúria violenta e vindicativa contra a existência em

]

A segunda seria uma negação do não-ser, que é identificado com a alteridade, uma ameaça à individualidade:

Isso é o Mal como visto do ângulo daqueles que têm uma superabundância de ser, mais do que uma insuficiência dele. Não podem aceitar a inominável verdade de que a matéria viscosa e contagiosa contra a qual guerreiam, longe de ser estranha, está tão perto deles quanto respirar. (2005, p. 292)

Negação do ser = caos/cosmos

Negação do não-ser = próprio/alheio, self/Todo

Sauron, divindade enfraquecida. Procura afastar o não-ser (próprio/alheio, self/Todo) identificado com os Povos Livres.

Sua busca pelo Anel, não é só com o sentido de arma ou ferramenta de dominação. É a busca por sua completude, condição para voltar a assumir a forma física.

O Anel é tudo o que vemos de Sauron porque Sauron não tem outra identidade

além daquela representada pelo Anel. Ele tem somente uma identidade negativa. Ele é a sombra escura, a própria negação do ser positivo.” (ZIMBARDO, 2004, p. 73 – tradução minha)

Sauron como wraith: ambiguidade entre ser vivo ou morto. Só pode agir indiretamente. Essa existência incompleta contribui para manter a ambiguidade da visão do mal na obra, se Sauron recuperasse o Anel, a questão apresentada se resolveria a favor do maniqueísmo.