Você está na página 1de 6

EXMA. SRA.

DÉBORA DUPRAT PROCURADORA FEDERAL DOS


DIREITOS DO CIDADÃO - PFDC

JOSÉ GERALDO DE SOUSA JUNIOR, brasileiro,


casado, professor e ex-Reitor da Universidade de Brasília, CPF
191173968-91, portador da Cédula de Identidade n° 250536, SSP/DF,
minha OAB: 1614/DF; MARCIO SOTELO FELIPPE, advogado, ex-
Procurador Geral do Estado de São Paulo, portador da cédula de
identidade de nº 7989175, residente e domiciliado na rua Guarará, 261,
ap 21, Jardim Paulista, Cep 01425 001, e PATRICK MARIANO
GOMES, brasileiro, solteiro, advogado regularmente inscrito na OAB/SP
195.44, vêm a Vossa Excelência, com amparo no inciso III, do art. 1
inciso IV do art. 3º da Constituição da República e no art. 286 do
Código Penal, expor e requerer o quanto segue:

representação

em desfavor da BS Studios e a plataforma de


jogos Steam1. A primeira por desenvolver e, a segunda, por difundir
jogo eletrônico que avilta, agride, fere a dignidade da pessoa humana e
estimula agressões, morte, o ódio e preconceitos contra mulheres, gays,
negros, população LGBT e integrantes de movimentos sociais.

Ademais, essa conduta pode ser tipificada como


crime de Incitação, previsto no art. 286 do Código Penal.

1
https://store.steampowered.com/app/930460/BOLSOMITO_2K18/
Nem se diga, por evidente, tratar-se de liberdade de
expressão uma vez que o game em questão ultrapassa qualquer limite
quanto aos seus contornos constitucionais e legais. A proposta do jogo é
tão somente ridicularizar, ofender e estimular agressões e violência
contra grupos os quais demonstra profundo desrespeito e ódio político.

O jogo é assim descrito pela BS Studios2:

“O jogo é inspirado no atual momento político brasileiro e tem


como protagonista um cidadão de bem que está cansado da
crescente corrupção e inversão de valores que abala a
sociedade. Seu objetivo principal é acabar com os líderes do
temido exército vermelho, responsável por alienar e doutrinar
grande parte da nação, para que defendam e lutem por suas
causas terríveis. No entanto, para chegar nos cabeças da
organização, o Bolsomito deverá enfrentar diferentes grupos
que tinham como missão defender o povo, mas hoje, nada mais
são que marionetes do exército vermelho.”
Outra descrição do jogo é dada pelo Jornal Folha de
Pernambuco3:

Para ganhar pontos, o jogador deve matar a socos e


pontapés militantes gays, feministas, negros,
integrantes de movimentos sem-terra e black blocs,
colocados como vilões no jogo. Os "inimigos" viram
emojis de fezes após serem eliminados.
Na descrição, recomenda a BS Studios, o jogador deve
estar "preparado para enfrentar os mais diferentes tipos
de inimigos que pretendem instaurar uma ditadura
ideológica criminosa no país". Tudo isso à base de "muita
porrada e boas risadas", descreve.
O objetivo principal do jogo, disponibilizado por R$ 9,90, é
"acabar com os líderes do temido exército vermelho,
responsável por alienar e doutrinar grande parte da
nação, para que defendam e lutem por suas causas
terríveis", diz a página onde ele é hospedado.
Desta forma, há clara e manifesta ofensa à Constituição
da República de 1988 que tem, como centro normativo, o princípio da

2
https://trecobox.com.br/2018/10/08/desenvolvedora-cria-game-de-bolsonaro-e-causa-polemica-na-
internet/
3
https://www.folhape.com.br/politica/politica/eleicoes-
2018/2018/10/09/NWS,83900,7,947,POLITICA,2193-INTERNAUTAS-DENUNCIAM-JOGO-QUE-
BOLSOMITO-2K18-DEVE-MATAR-MINORIAS.aspx
dignidade da pessoa humana e como objetivo fundamental “promover o
bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e
quaisquer outras formas de discriminação”.

O Brasil é o país que mais mata LGBTs no mundo, um a


cada 19 horas. Um relatório do Grupo Gay da Bahia (GGB)4, entidade
que levanta dados sobre assassinatos da população LGBT no Brasil há
38 anos, registrou 445 homicídios desse tipo em 2017. O número
aumentou 30% em relação ao ano anterior, que teve 343 casos.

Segundo o levantamento, 2017 foi o ano com o maior


número de assassinatos desde quando a pesquisa
passou a ser feita pelo movimento. De 130 homicídios em
2000, saltou para 260 em 2010 e para 445 no ano
passado. Houve ainda um aumento significativo de 6%
nos óbitos de pessoas trans no último estudo, de acordo
com o grupo.

“Tais números alarmantes são apenas a ponta de um


iceberg de violência e sangue, pois, não havendo
estatísticas governamentais sobre crimes de ódio, esses
dados são sempre subnotificados já que nosso banco se
baseia em notícias publicadas na mídia, internet e
informações pessoais”, diz o antropólogo e fundador do
GGB, Luiz Mott, responsável pelo site “Quem a homofobia
matou hoje”.

O No dia 17 de maio, a Comissão Pastoral da Terra (CPT)


lançou seu relatório anual sobre os conflitos no campo. Ano após ano, a
publicação desse estudo fornece para os estudiosos, sociedade em geral
e autoridades públicas, um retrato acabado da tragédia humana no
meio rural brasileiro, composta pela mistura de sangue, terra, vida e
morte de centenas de homens e mulheres.

O número de trabalhadores mortos no campo saltou de


50 para 61 em comparação com o ano passado, um aumento de 22%.
Essas mortes se relacionam e, por vezes, se entrecruzam com outros
dados significativos: os conflitos registrados no Brasil aumentaram de

4
https://catracalivre.com.br/cidadania/brasil-mais-mata-lgbts-1-cada-19-horas/
1.217, em 2015, para 1.536, em 2016, o que representa um aumento
de 26%. Desse total, 1.079 resultaram em violência. De acordo com a
CPT, é a estatística mais elevada desde quando a pesquisa começou a
ser feita, em 1985.

O documento revela, ainda, que do total de conflitos,


1.295 estão relacionados à luta pela terra, incluindo desde situações de
despejo e ameaça até os casos de morte. Outros 172 são disputas por
água – maior número desde quando a CPT começou a catalogar esses
casos específicos, em 2002. Além disso, houve 69 conflitos referentes a
questões trabalhistas, sendo 68 deles somente ocorrências de trabalho
escravo.

No meio urbano, no ano de 2017, 5.012 pessoas foram


mortas por policiais no Brasil – 790 a mais que em 2016. A Anistia
Internacional analisou o perfil dos homicídios decorrentes de
intervenção policial no Rio de Janeiro, entre 2010 e 2013, e conclui que
99,5% das vítimas são homens, 79,1% são negros e pardos e 75% são
jovens (entre 15 e 29 anos). A letalidade da polícia brasileira tem um
destinatário preciso e identificável, portanto: jovem, pobre e negro.

No que tange a violência contra a mulher, os números


são igualmente estarrecedores. Matéria do jornal Folha de São Paulo5
“Brasil registra 606 casos de violência doméstica e 164 estupros por dia”,
baseada nos dados do Fórum Brasileiro da Segurança Pública, revela
que:

SÃO PAULO

O Brasil registrou uma média 164 casos de estupros por


dia no ano passado. Foram mais de 60 mil em 2017,
segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública
divulgados nesta quinta-feira (9). Como a taxa de
subnotificação desse tipo de crime é alta (estima-se que

5
https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2018/08/brasil-registra-606-casos-de-violencia-domestica-
e-164-estupros-por-dia.shtml
entre 7,5% e 10% sejam comunicados à polícia), o total de
casos do tipo pode passar dos 500 mil por ano.

O total de crimes registrados representa uma taxa de


28,9 estupros a cada 100 mil habitantes, um aumento
em relação ao ano anterior, com 26,7 casos por 100 mil
pessoas.

Os estados com maiores registros de estupros são Mato


Grosso do Sul, Santa Catarina (que tem a menor taxa de
mortes violentas intencionais do país no geral,
considerando homens e mulheres) e Rondônia. Do outro
lado, os que têm menor registro de casos são Espírito
Santo, Paraíba e Rio Grande do Norte (estado mais letal
do país, seja no número geral, seja no número de
homicídios de mulheres).

Embora as mulheres representem uma pequena parcela


do total de homicídios que ocorreram no Brasil no ano
passado (4.539 de 55.900 no país todo), isso não quer
dizer que elas estejam menos expostas à violência: 193
mil mulheres registraram queixa por violência doméstica
no ano passado, a maior parte do total de 221 mil casos.
É uma média de 530 mulheres que acionam a lei Maria
da Penha por dia, ou seja, 22 por hora. Neste caso, houve
queda de 1% em relação a 2016.

"O Brasil precisa se envergonhar perante outras nações


de ostentar taxas de homicídios tão altas, mas a gente
não pode deixar de lado a violência de gênero. A violência
contra mulher tem que ser questão central para se
debater inclusive o desenvolvimento. Com esse número
aqui não dá para a gente almejar ser um país
desenvolvido de fato, é muito alto", avalia a socióloga
Samira Bueno, diretora-executiva do Fórum Brasileiro de
Segurança Pública.

Desta forma, o jogo criado pela BS Studios e difundido


plataforma de jogos Steam estimula o ódio já demasiadamente presente
na sociedade brasileira e naturaliza violência contra mulheres, negros,
LGBTs e trabalhadores rurais. Ademais, incita a prática de crime o que
é vedado pelo Código Penal Brasileiro.

Assim, é o presente para requerer a tomada de todos os


procedimentos legais que porventura entender necessário essa PFDC
para impedir a divulgação do jogo e responsabilizar os seus criadores e
a plataforma que faz sua difusão.

Desde já, se requer:

a) Abertura de investigação pela prática do crime


previsto no art. 286 do CP;
b) Oitiva da BS Stúdios e da plataforma Steam;
c) Sejam tomadas providências para retirar,
imediatamente, esse conteúdo da internet.

Nestes termos,
Pedem deferimento.
Brasília, 10 de outubro de 2018.

JOSÉ GERALDO DE SOUSA JUNIOR


Ex-Reitor da Universidade de Brasília

MARCIO SOTELO FELIPPE


Advogado e ex-Procurador Geral do Estado de São Paulo

PATRICK MARIANO GOMES


OAB/SP 195.844