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DOS AMBIENTES INFORMACIONAIS

memórica científica original


ÀS ECOLOGIAS INFORMACIONAIS
COMPLEXAS

Henry Poncio Cruz de Oliveira*


Silvana Aparecida Borsetti Gregório Vidotti**

RESUMO A Arquitetura da Informação tem evoluído por meio das


contribuições da área da Ciência da Informação. Refletir
sobre a evolução do objeto de investigação da Arquitetura
da Informação se faz necessário para compreender como
este estrato do conhecimento se estabelece na história. Esta
investigação pautou-se no seguinte questionamento: como
o objeto de investigação da Arquitetura da Informação se
modifica no transcurso histórico da AI? O presente trabalho é
um ensaio teórico, uma trama histórico-conceitual que objetiva * Doutor (2014) em Ciência da Informa-
ção pelo Programa de Pós-Graduação
evidenciar as aproximações e as diferenças entre os ambientes em Ciência da Informação da Universi-
informacionais e as ecologias informacionais complexas, dade Estadual Paulista Júlio de Mesquita
Filho, Brasil Professor adjunto do De-
enquanto objetos da Arquitetura da Informação. Os objetos ou partamento de Ciência da Informação da
fenômenos de investigação científica e de prática profissional Universidade Federal da Paraíba, Brasil.
Coordenador do Portal de Periódicos
na Arquitetura da Informação Pervasiva são as Ecologias Científicos Eletrônicos da Universidade
Informacionais Complexas, compreendidas como sendo um Federal da Paraíba, Brasil.
E-mail: henry.poncio@gmail.com.
conjunto de espaços, ambientes, canais, mídias, tecnologias
e sujeitos com seus comportamentos, todos interligados e ** Doutora em Educação pela Faculdade
de Filosofia e Ciências da Unesp. Profes-
conectados de maneira holística pela informação. sora assistente da Universidade Estadual
Paulista Júlio de Mesquita Filho. Docente
permanente do Programa de Pós-Gra-
Palavras-Chave: Informação e Tecnologia. Ciência da Informação. Arquitetura duação em Ciência da Informação. Bol-
da Informação. Arquitetura da Informação Pervasiva. Ecologias sista de Produtividade em Pesquisa do
CNPq.
Informacionais Complexas. E-mail: svidotti@gmail.com.

1 INTRODUÇÃO1 Informação se estruturou, ao longo dos últimos


40 anos, por meio de pesquisas científicas e

I
mpulsionada pelas contribuições teóricas aplicações práticas para melhorar a recuperação,
e técnicas de Richard Saul Wurman, a o acesso, o uso e a apropriação da informação
Arquitetura da Informação (AI) desenvolveu- armazenada em ambientes analógicos, digitais e
se como um estrato do conhecimento que, híbridos.
desde sua gênese, tem cuidado de problemas de Neste sentido, refletir sobre a evolução
natureza informacional e tecnológica. do objeto de investigação da Arquitetura da
Coligando ciência e arte como ênfases Informação se faz necessário para compreender
complementares e necessárias para tratar como este estrato do conhecimento é construído
seus objetos de investigação, a Arquitetura da do ponto de vista técnico e científico, para
tanto recorremos às ideias de Oliveira (2014)
1 O presente texto é um desdobramento da Tese de Doutorado intitulada
que associa o desenvolvimento e evolução da
‘Arquitetura da Informação Pervasiva: aspectos conceituais’, que recebeu Arquitetura da Informação às contribuições
o Prêmio Ancib de Melhor Tese no ano de 2015.

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da área da Ciência da Informação por meio da ensaio teórico, uma trama histórico-conceitual
dialética, da troca e da partilha de interesses que objetiva evidenciar as aproximações e as
informacionais. diferenças entre os ambientes informacionais e
Problematizar o objeto de investigação da as ecologias informacionais complexas, enquanto
Arquitetura da Informação, enquanto construção objetos da Arquitetura da Informação.
histórica, social, tecnológica e informacional,
implica em perceber que ele sofre modificações,
adaptações e ajustamentos ao longo do 2 ARQUITETURA DA INFORMAÇÃO
tempo (OLIVEIRA, 2014). As modificações,
as adaptações e os ajustamentos do objeto de Abordamos a Arquitetura da
investigação da Arquitetura da Informação Informação, do ponto de vista teórico,
decorrem das demandas de uma sociedade articulando quadros conceituais às abordagens
tecnológica pautada na construção contínua de regulares discutidas por Oliveira (2014). O autor
aparatos tecnológicos mais ágeis e velozes. Trata- supracitado estabelece um diálogo com León
se de um movimento de (retro)alimentação e (2008) e Resmini e Rosati (2011) para afirmar
(retro)modificação que exige reflexões contínuas que, no transcurso histórico da Arquitetura
sobre as arquiteturas mais adequadas para da Informação, é possível identificar quatro
respaldar a criação destes aparatos. abordagens teórico-práticas que respondem à
Partimos do seguinte questionamento: problemas arquiteturais da informação. Trata-
como o objeto de investigação da Arquitetura da se das abordagens: arquitetural, sistêmica,
Informação se modifica no transcurso histórico informacional e pervasiva, conforme apresentado
da AI? Assim, o presente trabalho é um na Figura 1.

Figura 1 - Abordagens da Arquitetura da Informação

Fonte: Extraído de Oliveira (2014)

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Dos ambientes informacionais às ecologias informacionais complexas

Neste trabalho, associamos um conceito e consolidação da web. Trata-se de uma


de AI a cada uma destas abordagens da Figura forma de enxergar e analisar os sites da web
1. Os conceitos foram escolhidos por sua e as intranets como sendo ‘um todo’, como
vinculação à cada uma das abordagens e por sendo um ambiente de informação digital
apresentarem elementos teóricos relevantes que justapõe, articula e integra as partes
para uma compreensão teórica geral sobre a de organização, de rotulagem, de busca, de
AI. navegação e de representação, produzindo
As concepções conceituais que extraímos um ambiente em que o usuário pode acessar,
de Wurman (1996, 2005) se vinculam ao usar e se apropriar de informações de natureza
que Oliveira (2014) considera Abordagem digital.
Arquitetural. Por meio de sua formação em Imersos em uma abordagem informacional
Arquitetura, Wurman utiliza os elementos da AI, com bases na Biblioteconomia e na Ciência
da Arquitetura e do Design para tratar as da Informação, Vidotti, Cusin e Corradi (2008)
informações materializadas em suportes realizam uma ampliação dos pressupostos
analógicos e assim concebe a Arquitetura da sistêmicos de Rosenfeld e Morville (2006) e
Informação como uma atividade profissional defendem que:
que surge no século 21 e utiliza atividades
de organização da informação para facilitar Arquitetura da Informação enfoca
a organização de conteúdos
a compreensão humana sobre o crescente informacionais e as formas de
volume informacional. Para Wurman (1996), armazenamento e preservação
o sujeito que organiza e padroniza os dados, (sistemas de organização),
representação, descrição e
que estrutura e mapeia as informações a fim de classificação (sistema de rotulagem,
reduzir a complexidade informacional, pode metadados, tesauro e vocabulário
ser chamado de Arquiteto da Informação. Ou controlado), recuperação (sistema
seja, o Arquiteto da Informação seria alguém de busca), objetivando a criação de
um sistema de interação (sistema
que trabalha para o reduzir o esforço cognitivo de navegação) no qual o usuário deve
das pessoas no itinerário informacional, facilitar interagir facilmente (usabilidade), com
a atribuição de significados às informações e autonomia no acesso e no uso do
conteúdo (acessibilidade) do ambiente
a consequente construção de conhecimentos hipermídia informacional digital.
(WURMAN, 1996). (VIDOTTI; CUSIN; CORRADI, 2008,
Navegando numa perspectiva sistêmica, p.182, grifo nosso).
influenciada pela Teoria Geral dos Sistemas de
Bertalanffy (1975), destacamos a compreensão O conceito que escolhemos para
de Morville e Rosenfeld (2006) sobre a AI. Para evidenciar a abordagem informacional está
estes autores a AI trata da “[...]combinação carregado de elementos conceituais basilares
para a Biblioteconomia e para a Ciência
de sistemas de organização, rotulagem, busca
da Informação. Quando Vidotti, Cusin e
e navegação dentro de websites e intranets.”
Corradi (2008) visualizam a Arquitetura
(MORVILLE; ROSENFELD, 2006, p. 4, tradução
da Informação por meio dos processos de
nossa). Esse conceito é fundamental nas organização, de classificação, de representação,
pesquisas e aplicações práticas posteriores à de armazenamento, de preservação e de
publicação da obra Information Architecture recuperação da informação numa estrutura
for the World Wide Web, escrita pelos autores interativa e acessível, reforçam uma dialética
supracitados. entre a Arquitetura da Informação e a Ciência
Morville e Rosenfeld (2006) são autores da Informação.
de extrema relevância na compreensão geral Nos últimos anos seis anos tem
do que seja Arquitetura da Informação, pois despontado uma nova concepção de Arquitetura
ao direcionarem seus olhares para os sites da Informação a partir da constatação de que os
da web, sistematizaram uma visão sistêmica problemas informacionais e tecnológicos que
de AI, urgente para os tempos de surgimento impactam no cotidiano social não podem mais

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ser resolvidos pelas abordagens arquitetural, o objeto de investigação da AI é ampliado,


sistêmica ou informacional, sendo necessário sobretudo em função da abordagem pervasiva
ampliar o escopo e as estratégias de AI para que surge na última década.
tratar de questões informacionais numa
perspectiva ecológica e não mais, ou não apenas,
fundadas na ideia de estruturação de um 3 AMBIENTES DE INFORMAÇÃO
ambiente informacional. (RESMINI; ROSATI,
2011; OLIVEIRA, 2014)
DIGITAL E ECOLOGIAS
Nesta linha da pensamento, Oliveira INFORMACIONAIS COMPLEXAS
(2014) preconiza a existência de uma abordagem
pervasiva que se sedimenta na AI. A Arquitetura Para alcançar o objetivo de analisar como
da Informação Pervasiva pode ser compreendida o objeto de investigação da Arquitetura da
como: Informação se modifica, sobretudo em razão
das demandas sociais e tecnológicas, no interior
[...] uma abordagem teórico-prática das abordagens discutidas por Oliveira (2014)
da disciplina científica pós-moderna e apresentadas na Figura 1, tomaremos como
Arquitetura da Informação, trata da ponto de partida duas noções conceituais que
pesquisa científica e do projeto de
versam, respectivamente, sobre os espaços e os
ecologias informacionais complexas.
Busca manter o senso de localização ambientes, contextualizados para o campo da
do usuário na ecologia e o uso de informação.
espaços, ambientes e tecnologias de O vocábulo espaço tem seu equivalente
forma convergente e consistente. latino spatium, que significa área, extensão
Promove a adaptação da ecologia
(JAPIASSU; MARCONDES, 2006). Recorremos às
à usuários e aos novos contextos,
sugerindo conexões no interior da análises de Abbagnano (2007) e percebemos que
ecologia e com outras ecologias. Facilita a noção de espaço gerou problemas filosóficos
a interação com conjuntos de dados e de três ordens: a) a natureza do espaço; b) a
informações ao considerar os padrões realidade do espaço e c) a estrutura métrica
interoperáveis, a acessibilidade, a
do espaço. Nos interessa o problema gerado
usabilidade, as qualidades semânticas
e a encontrabilidade da informação, em torno da natureza do espaço, que recebeu
portanto deve buscar bases na Ciência soluções distintas na filosofia, permitindo-nos
da Informação (OLIVEIRA, 2014, p. adotar, para este estudo, a concepção que o
166) considera como lugar que contém os objetos,
ou seja, o spatium que, em sua extensão recebe
Analisando as ideias de Oliveira (2014) objetos com materialidade analógica ou digital,
sobre a Arquitetura da Informação Pervasiva, inclusive as informações.
percebemos um deslocamento epistêmico no A noção de espaço supradita, aplicada
objeto de investigação da AI. Na abordagem no contexto dos objetos informacionais sustenta a
pervasiva, a ação teórica e prática do compreensão de que os lugares que armazenam
Arquiteto da Informação deve migrar da as informações podem ser denominados espaços
noção-base de ambiente enquanto unidade de informação. Dentro de uma vasta tipologia
informacional sistêmica, para a noção-base de espaços de informação citamos como
de ecologia informacional carregada de exemplos: as bibliotecas, os museus, os arquivos
complexidade. e os sistemas organizacionais de informação.
O que ora destacamos confirma que Vale destacar que, na perspectiva que aqui
o objeto de investigação da Arquitetura da desenvolvemos, a característica principal de um
Informação é redefinido, reinterpretado e espaço de informação é o seu potencial de realizar
redimensionado ao longo da história da AI em a armazenagem dos objetos informacionais.
função de novos problemas informacionais e Estabelecendo uma crítica sobre esta noção de
tecnológicos aparecem na sociedade. espaço de informação, argumentamos que ela
Aqui chegamos ao cerne deste texto, ou não considera adequadamente o sujeito que
seja, ao nosso interesse em prover a delimitação armazena, acessa, recupera e usa informação
e a justificativa teórica para compreender como diversos contextos sociais e tecnológicos. Este

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Dos ambientes informacionais às ecologias informacionais complexas

é o ponto nevrálgico que nos leva a investigar a conceitos de Arquitetura da Informação


noção de ambiente. que foram apresentados no tópico 2 para,
O termo ambiente, por sua vez, pode estabelecer a primeira fronteira sobre o objeto de
ser compreendido como um lugar de relações investigação da AI.
entre o mundo natural, os objetos e os sujeitos Retornando as ideias de Wurman (1996),
(ABBAGNANO, 2007). Trata-se de uma percebemos que as necessidades de organizar
compreensão que pode ser enriquecida com a e de representar a informação em mapas, guias,
noção moriniana de complexus, neste sentido, os materiais impressos em função do melhor uso
ambientes seriam uma teia complexa constitutiva dos espaços arquitetônicos, tinha os sujeitos
de um todo tecnológico, econômico, político, como foco principal. Para Wurman (1996) os
sociológico, psicológico e afetivo que exerce espaços arquitetônicos, deveriam ser usados
influência na vida e no comportamento das pelas pessoas de forma mais eficiente e para
pessoas por meio de um tecido interdependente, isso seria necessário implementar um conjunto
interativo e retroativo entre o objeto de de estratégias e materiais informacionais que
conhecimento e seu contexto, as partes e o todo, apoiassem esse uso efetivo. Trata-se de uma
o todo e as partes, as partes entre si: “Complexus visão humanizada e humanizadora dos espaços
significa o que foi tecido junto; de fato, há arquitetônicos, uma visão que põe os sujeitos
complexidade quando elementos diferentes no centro, como eixo que norteia as práticas
são inseparáveis constitutivos do todo [...]. wurmanianas de AI. No nosso enxergar,
Wurman estava preocupado em transformar os
Por isso a complexidade é a união entre a
espaços arquitetônicos em ambientes carregados
unidade e a multiplicidade” (MORIN, 2001, de informações que pudessem maximizar
p. 38). a experiência dos sujeitos que usam tais
O ambiente é total, é geográfico e é social, ambientes. Resumidamente, podemos afirmar
porquanto comporta elementos humanos e não- que a Arquitetura da Informação desenvolvida
humanos. No bojo dos interesses da Ciência da e divulgada por meio dos estudos e das práticas
Informação e da Arquitetura da Informação, o wurmanianas, no interior de uma abordagem
termo ambiente se torna mais adequado para arquitetural, tem como objeto os ambientes de
ser utilizado nos contextos informacionais, pois informação.
além de considerar o potencial de armazenagem Uma segunda linha analítica nos remete
de informações, também considera os elementos aos estudos de Rosenfeld e Morville que estão
humanos, comportamentais e sociais que associados ao desenvolvimento inicial da Web
condicionam este processo de armazenagem. A e à gama de sites e aplicações que surgem nesse
noção de ambiente incorpora adequadamente os contexto sócio-histórico. Eles inserem de forma
sujeitos que representam, tratam, armazenam, bem efetiva, diversos aparatos conceituais da
recuperam, acessam, usam, modificam e Biblioteconomia e da Ciência da Informação
voltam a armazenar informações que dizem para se pensar uma Arquitetura da Informação
respeito a alguma experiência informacional, sistêmica e pautada na noção de que um
marcadamente humana e que se dá no tempo, no ambiente de informação é um todo articulado
espaço, na história e na cultura. por suas partes, um todo que é maior que a soma
Neste sentido, existe um movimento ou justaposição de suas partes. Assim como na
dialético entre os espaços e os ambientes de abordagem wurmaninana, Rosenfeld e Morville
informação, um movimento que faz os espaços também colocam os sujeitos como protagonistas
tornarem-se ambientes à medida que o sujeitos nos ambientes de informação e para eles, o
entram neles e fazem um uso destes espaços. ambientes devem ser projetados e ajustados via
Porém os ambientes voltam a tornar-se espaços, Arquitetura da Informação.
ao passo que os sujeitos, não tendo mais a Assim, o sistema de organização é
necessidade de neles permanecer, de neles buscar pensado para que os sujeitos, na interação
informações para uso efetivo em um contexto humano-informação, possam encontrar as
social e deles se desconectam. respostas corretas para suas perguntas e sanem
Após construir a trama conceitual suas necessidades de informação ou de interação
espaço/ambiente, podemos revisitar os quatro no ambiente (ROSENFELD; MORVILLE,

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Henry Poncio Cruz de Oliveira e Silvana Aparecida Borsetti Gregório Vidotti

2006). O sistema de navegação é projetado o desenvolvimento social, político e econômico


para facilitar o movimento de saída de ponto das nações, é fator relevante para o crescimento
de origem e chegada em um ponto de destino, humano, porquanto, racionalizar a arquitetura
fora do alcance ocular do sujeito. Especifica dos ambientes que comportam as informações
as maneiras de navegar, de se mover na teia digitais possibilitando seu uso, reuso e
hipertextual do ambiente de informação digital modificação contribui com essa perspectiva
(ROSENFELD; MORVILLE, 2006). A rotulagem, de crescimento. Os ambientes de informação
é projetada via sistemismo para que os rótulos digital são uma realidade que adentrou em
comuniquem conceitos eficientemente, sem todos os setores da sociedade, todos os campos
ocupar muito espaço e sem demandar muito do conhecimento e no dia-a-dia das pessoas
esforço cognitivo do sujeito para compreendê- (OLIVEIRA, 2014).
los (ROSENFELD; MORVILLE, 2006). O Porém, os defensores da perspectiva
sistema de busca possibilita a recuperação pervasiva da Arquitetura da Informação
da informação no ambiente de informações compreendem que as noções de ambientes
para que o sujeito possa usá-la conforme analógicos ou digitais de informação são
suas demandas cognitivas (ROSENFELD; insuficientes para dimensionar e delimitar o
MORVILLE, 2006). A ideia de um sistema objeto da Arquitetura da Informação Pervasiva.
de representação, que utiliza os aparatos dos Neste sentido, Oliveira (2014) reposiciona o
metadados, dos vocabulários controlados e objeto da Arquitetura da Informação para as
dos tesauros, facilitam a descrição dos dados e ecologias informacionais complexas.
informações para que tornem-se encontráveis no O termo ecologia não é novo nos estudos
ambiente (ROSENFELD; MORVILLE, 2006). da área de Ciência da Informação. Larry Prusak
Resumidamente, apontamos que a e Thomas Davenport são autores que utilizam o
construção ou ajustamento da arquitetura de termo ecologias informacionais como referência
um ambiente informacional digital por meio ao momento informacional e tecnológica dos
dos sistemas de navegação, organização, busca, anos 1990 (DAVENPORT, 1998).
rotulagem e representação, parte de uma O termo ecologia é ressignificado na
preocupação com o sujeito que interage e que Arquitetura da Informação Pervasiva para
navega explorando o ambiente ou buscando delimitar as muitas relações entrecruzadas
informações específicas. de pessoas, de processos e de elementos dos
O que explicitamos até aqui demonstra ambientes informacionais, para administrar a
que as abordagens arquitetural, informacional complexidade e a variedade do uso atual da
e sistêmica se debruçam sobre um objeto bem informação.
definido: os ambientes de informação. Essa Portanto, ocorre no contexto da
afirmação abre caminho para se falar de uma Arquitetura da Informação Pervasiva, um
categoria especial de ambientes de informação, esforço para tratar objetos e fenômenos
aqueles que armazenam as informações de com uma estrutura informacional ecológica,
natureza digital. sistêmica e complexa. O que redimensiona,
Os ambientes de informação digital adapta e modifica o objeto tradicional da
são uma categoria com tipologia vasta que Arquitetura da Informação, fazendo a atenção
engloba sites, bibliotecas digitais, repositórios teórica e prática da AI se deslocar dos
institucionais, periódicos eletrônicos, museus ambientes de informação para as ecologias
digitais, sistemas de gestão eletrônica de informacionais complexas.
documentos, entre outros (CAMARGO; A estrutura informacional ecológica que
VIDOTTI, 2011; OLIVEIRA, 2014). Camargo e tratamos aqui, se refere ao conjunto de espaços,
Vidotti (2011) destacam as semelhanças que tais ambientes, canais, mídias, tecnologias e sujeitos
ambientes teriam com ambientes informacionais com seus comportamentos, todos interligados
tradicionais ou analógicos, mas deles se e conectados de maneira holística pela
diferenciam fundamentalmente por armazenar a informação. Na ecologia persiste o sistemismo
informação de natureza digital. de ambientes e relações complexas que ocorrem
Acessar e usar a informação de natureza de forma intra e extraecológicas (OLIVEIRA,
digital, que se tornou insumo fundamental para 2014).

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Dos ambientes informacionais às ecologias informacionais complexas

Figura 2 - Estrutura básica das Ecologias Informacionais Complexas

Fonte: Extraído de Oliveira (2014)

Assim, os ambientes de informação deixam necessidade de investigar e de propor soluções


de ser o foco nos estudos em Arquitetura da em contextos tecnológicos caracterizados pela
Informação, para se tornarem partes da ecologia pervasividade e pela ubiquidade. Tal fato gerou
informacional complexa que se torna o novo uma instabilidade não só nos estudos e nas
objeto de investigação da vertente pervasiva de práticas em AI, mas também na certeza sobre o
AI. Reiteramos que as Ecologias Informacionais objeto da AI.
Complexas são como um conjunto de espaços A percepção de novos e desafiadores
e ambientes, (analógicos, digitais ou híbridos), problemas cuja resolução pode ser viabilizada
tecnologias (analógicas, digitais ou híbridas) e pela Arquitetura da Informação Pervasiva
sujeitos, todos interligados e entrelaçados de suscitou uma revisão analítica no papel da
maneira holística pela informação. AI sobre os ambientes de informação. Nesta
revisão, quebra-se as fronteiras delineadas
classicamente para o objeto da AI e amplia-se o
4 UM MODELO TEÓRICO PARA escopo e atuação da AI para tratar as ecologias
ARQUITETURA DA INFORMAÇÃO informacionais complexas numa perspectiva
pervasiva.
Defendemos que estamos atualmente O supradito se sustenta nas afirmações
em um novo momento na Arquitetura da de Resmini e Rosati (2011) sobre os limites das
Informação, em um ciclo marcado pela abordagens anteriores à perspectiva pervasiva.

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A paisagem desenhada nos anos 2000 trouxe prática visto que, a informação, muitas vezes a
mudanças consideráveis no protagonismo dos mesma informação, está disponível em distintos
sujeitos em ambientes de informação e no tipo de dispositivos digitais, múltiplos ambientes e deve
experiência que esses ambientes podem fornecer ser representada e organizada para que se adeque
(RESMINI; ROSATI, 2011). responsivamente aos contextos ecológicos.
Nesta busca por novos arrazoados As modificações e ajustamentos que
percebemos um continuum da revolução ampliaram o objeto de investigação da
tecnológica discutida por Castells (1999). Uma Arquitetura da Informação, em sua vertente
revolução que também ocorre no interior da pervasiva, foram decisivos para Oliveira (2014)
Arquitetura da Informação e expande seu produzir um modelo conceitual para Arquitetura
objeto de análise, de investigação e de atuação da Informação Pervasiva.

Figura 3 - Modelo para Arquitetura da Informação Pervasiva

Fonte: Extraído de Oliveira (2014)

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Dos ambientes informacionais às ecologias informacionais complexas

A Arquitetura da Informação Pervasiva profissionais relacionadas a Arquitetura da


tem, na atualidade, o status de abordagem teórica Informação.
e prática, vinculada a Arquitetura da Informação Por meio deste texto, contextualizamos
enquanto disciplina científica pós-moderna. Seus o processo evolutivo que, nos últimos seis anos,
objetos de análise são as ecologias informacionais impactou na ampliação do objeto de investigação
complexas, que possuem, em seu interior os da Arquitetura da Informação. Nas abordagens
ambientes analógicos ou digitais de informação arquitetural, sistêmica e informacional o objeto da
(OLIVEIRA, 2014). práxis profissional e científica eram os ambientes
informacionais, na vertente pervasiva o objeto ou
fenômeno a ser investigado ou construído nos
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS processos de Arquitetura da Informação são as
ecologias informacionais complexas.
A Arquitetura da Informação Pervasiva Fazer ciência é andar em terrenos
é um campo de fronteira e e por isso ainda são inacabados, sensíveis às mudanças científicas
poucos os recursos bibliográficos relacionados e culturais que se instalam na história. Outras
a temática. Trabalhar com pesquisa científica pesquisas poderão derivar do processo
de fronteira sobre informação e tecnologia tem investigativo aqui apesentado, de modo a
nos permitido construir aparatos teóricos para estabelecer novos olhares sobre a Arquitetura da
subsidiar as pesquisas científicas e as atividades Informação Pervasiva.

Artigo recebido em 15/01/2016 e aceito para publicação em 11/03/2016

FROM INFOMATIONAL ENVIRONMENTS TO


COMPLEX INFORMATION ECOLOGIES

ABSTRACT The Information Architecture has evolved due the contributions of the Information
Science area. Reflect on the evolution of the object of the Information Architecture
is needed to understand how this stratum of knowledge is established in history. This
investigation was guided on the following question: how the Information Architecture’s
object changes on the historical course of the IA? This paper is a theoretical essay, a
historical-conceptual plot that aims to highlight the similarities and differences between
the information environments and complex informational ecologies, as objects from the
Architecture of the Information. The objects or phenomena of scientific investigation
and professional practice in Pervasive Information Architecture are the Complex
Informational ecologies, understood as a set of spaces, environments, channels, medias,
technologies and subjects with their behavior, all interconnected and connected
holistically for information.

Key Words: Information and Technology. Information Science. Information Architecture. Pervasive
Information Architecture. Complex Informational Ecologies.

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Henry Poncio Cruz de Oliveira e Silvana Aparecida Borsetti Gregório Vidotti

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