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*s EDITORIAL

CRONOLOGIA
da educação estão associadas a.uma
; .: lÌ 1.;':.';.1ln:;:.jii concepção de história que recusa o
:-': i- : t ;i' i
j,-i 6!dôÃ&
i:,t* fatalismo pragmático neoliberal
Freire postulou a
educação como
'ry{ l;ii:1 ì ii'i .i i:..t,':,,'rtí íVÍ:::: !:,.:,
ato dialógico S$ A pedagogia crítica
libertador, tendo !r' {N

do eduãador brasileiro
como fontes e a teoria do agir
o humanismo comunicativo do
e uma dialética marxista em que filósofo alemão
a subjetividade é condição da convergem para a
transformação social criação de uma ética
da responsabilidade
'.$
$,.-:-li-ii::iÊ ::::i,:;:il,.ir..:+ universal
Da infância pobre ao método
inovador de alfabetização, do exílio ti'iïijii à ]:.iÍ:i;-11:ï{:it:i::r. Í i.i -ïii_,:í.ri
g*Ë&s
ao reconhecimento internacional, a A transformação das elabora
trajetória de Paulo Freire é atravessada Freire em máximas pedagógicas
por uma ética humanista radical transposição mecânica e ilegítima de
valores políticos para o âmbito escolar

3# P$*, i t :''i'ì íi':: ii : tii"r ii;:, :i i': i: !ï! j'ij d.ri


O Método Paulo Freire e o sócio-
' ;r' Da ecologia à reforma agrária, da
: i1 ;-:

construtivismo divergem em relação à


metodologia de alfabetização, mas ética à teologia, a obra de paulo Freire
convergem na concepção dialética do compreende uma série de temas
conhecimento recorrentes disseminados em seus livros e
depoimentos
êçp
i -..i .: '
SS ri. i.: i.i i Ë ;rr. ;! ;.- i,i i- iì-l ic;:. ** I ;:."*rç'- lri
O método A partir de sua experiência na Africa,
Paulo Freire de Paulo Freire estabeleceu a importância
das relações entre linguagem e política
alfabetização
está no processo de descolonização
alicerçado no do Terceiro Mundo
levantamento
vocabular e çè{}
\-è""' ,
na criação de
Considerado "pai da pedagogia
propostas de
moderna", autor de Emílio ou
interação que
da educação realizou a passagem do
respeitam
racionalismo iluminista
a situação
para os ideais precursores do
dialógica
Romantismo
de cada
comunidade s\€s
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VIVER MENTE&CÉREBRO
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EDITOR: Manuel da Costa Pinto
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REVISÃO: Elvira c. Castanon, Maria Eugênia de 5á, Saulo Krieger e
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(redacaoviveÌ@duettoeditorial.com.br)
EDITORA: Ana Claudia Ferrari
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EDITOR DE ARTE: Gerson Gomes Martins
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PRODUTOR CRAFICO: Dalton do Nascimento
Uto1ia urgente
Ere
REVSÃO: Edna Adorno (coordenação) e Luiz Roberto Malta

Paulo Freire se tornou reJerência mLnáial para a pedagogia a partir de um métoáo de


Spektrum der Wissenschaft
Verlagsgesellschaft, slevogtstr. 3-5 alfabetização de aduhos criado nos anls 60. Ou seja, 0 contr"xtl lriginal Que uiu surgir
69123 Heidelberg, Alemanha
EDITOR: Carsten Kônneker sua "peáaglgia do oprimido" parrc,.-nlshoje dìstante, estando associado alutas políticas
DIREToRES-CERENTES: Markus Bossle e Thomas Bleck
âa América Latina áaquele período, como as ligas camponesas e os moDimmtos pelas re-
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sob licença de Scientific American, lnc. Jonnas debase que seriam suJocaáospelo
Rua Cunha Gago, 412 - ci. 33 - Pinheiros - São Paulo, SP dícadas o analJabetismo decrescw em t:nnos estatísticos, o Que poderia srlr umít prooa de
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que o Métoáo Paulo Freire não teria mais a necessidaáe de outrora.
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coM[Ê EÈëUÏVO
No entauto, Freire continua sendo uma bússola tanto para prot'essores 4uantl
jorge carneiro, Edimilson Cardial, para no educador brasileiro um intírprete de nossa realidade No
aQueles Que oêem
Luiz Fernando Pedroso e Alfredo Nastari
plano ei:stritamente peàagó1ico, o analJabetisma ceáeu lugar a um problema igual-
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(publi<idadeviver@duettoeditorial.com.br) mente dranático, a incapacidaáe âe compreensão de mensagens complexas Que atinle
DIRETOR COMERCIAL
Renato Resston a imensa maioria dos brasileiros "alJabetizados'. E, no plano social e politico, as
Ana Maria Rambo (assistente comercial), Katia Zaratin Santacroce, Nilda
Smolari Sperandeo e Rogério de Oliveira Silva (executivo5 de contas) encruZilhadas bistóricas Que estão na !ênese áa trajetória de Freire ressurgem com
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BRASíLn: singulare Publicidade - Magda Dias outrls nomes: a ação do MST mostra a persistência da Questão agrária, e as lutas
(61) 3,14s181 cel. (61)9982-7409
(brasilia@editorasegmento.com.br) dos países do Terceiro Mundo c.ontra a áependência do capital estranleiro (um dos
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MULTIMEDIÁ" lNc. Tel.; +1 -4o7-903.50oo (info@mulümediausa.com) Jocots do trabalbo
áe Freire no ÁJriro, conJorme o leitor ueró neste número áa coleção
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DIRETOR: Marcio lvo Motter
Memória da Pedagogi a) se áissunìnaram em mouimsntos internacionais contra
Siumara Celeste (assistente) a economia e a exploração globalizadas. Longe de torná-lo "datado", poftanto, a
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ASSINATURAS: Fátima de Oliveira (coordenação) e Obuiamente muitos pontos ào legado de Paulo Freire estão sujeitos a reuisões e

Daniela de oliveira
PTANEIAMENTO E INTERNET: Mariana Monné (coordenação) atualizações. Nesta ediçã0, por exemplo, são apontadas afnidaáes e áet'asagens em
relação ào construtiuismo (4ue Freire não conbecia Quaudo elaborou seu Mítoá0")
PROPAGANDA: Carolina Conde "
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permite (para alun de aproximações a pensadores cono MikhailBakhtin e liirgen
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Habumas) Jormular uma ética Que tun na educação um âe seus imperatiuos cate!ó-
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(owidoria@duettoeditorial.com.br) ricos. Pois se toáo aprendizado é um ato socialmente construído (e não a reprodução
Coleção Memória da Pedagogi4 nq 4 - Paulo Freire, ISBN 85-99535-04-8.
Distribuição com exclusividade para todo o BRASILT DINAP S.A. Rua Dr solitária de estruturas lingüísticas e ,:squemt$ de pensamento), a leitura áas palaoras
Kenkiti Shimomoto, 1678. Números avulsos podem ser solicitados ao
seu iornaleiro ou na central de atendimento ao leitor (1 l) 3039-5óOl ao eQuiuale a uma produção áe sentiáo Que necessariamente afrma a autonomia dos
preço da última ediçào acrescido dos custot de postagem.
sujeitos contra o, dirrrrro, que descreoun a marcba áa história como Jatalidade,
IMPRESSÃO: EDIOURO GúFICA
DIRETOR RÉSPONSÁVÉL| AIfTEdO NAStATi
contra a "cuhura do silêncio", Que associa opressão política, exploração econômica
e priuação áas palauras (Jorma essencial da alienação). Reside aí a uniuersalidade
ptlpp ANHN - e a urgêflcia - de sua utopia.
CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO.NA-FONTE
Ao fnal áute nunero sobre Paulo Freire, o "suplunento Especial" (que a cada ediçAo
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, HJ.
decisiuos da bistória da educaçao) recapitula a obra áe outro " rwolucio-
focalizn momentos
Colecáo memoria da pedagoqia, n.4: Paulo Freire: a uto-
Dia do sabeÍ/ editor Manuel da Costa Pinto : lcolaboradores Moacir nário"' Jean-JacQuesRousseau,fldsoJo dolluniuismo Que antecipa o conceito romântíco
Gadotti... et al.l. - Rio de Janeiro : Ediouro : Sào Paulo : Segmento-
Duetto,2005 áe "formaçã0" , constituindo uma áas cbaues para a moderna peáago1ia'
Suplemento especial: A educação no iluminismo
lnclui bibliograÍia
lsBN 85-99535-04-8
'1
. Freire, Paulo. 1921-1997.2. Educação de adultos. 3. Educaçáo
Manuel da Costa Pinto
oooulal 4. Globalizacào - AsDectos morais e Eticos. 5. Socioloqia
bdlcacional. 6. Mudânça soóial. L Pinto, Manuel da costa. ll. Tí-
tuloì Paulo Freire.

cDD 370.1 Crédito da foto de capa: @ ARQUIVOS PAULO FREIRE/ INSTITUTO PAULO FREIRE
cDU 37.015.4

Toclos os direitos reseruados. A reprodução não autorizada desta pubLicaçáo,


por qualquer meio, seja ela total ou parcial, constitui violaÇão da Lei no 5 9BB
I 92 I : Quarto filho dejoa- 1961 ; Torna-se livre-do-
quim Têmístocles Freire e cente da cadeira de histó-
Edeltrudes Neves Freire, ria e filosofia da Escola de
nasce, a 19 de setembro, Belas Artes, 2 anos após
no Recife (PE), Paulo obter o título de douto-
Reglus Neves Freire rado pela Universidade
1937: Ingressa no Co- do Recife
légio Oswaldo Cruz, na Í 9ó3: Alfabetiza grup<-r
capital pernambucana, de trabalhadores rurais
concluindo, 5 anos mais em Angicos (RN). Pu-
tarde, o segr-rndo grau 6lica AlJabetização e cons-
1943: Ingressa na Fa- cientização
culdade de Direito do 1964: O Programa Na-
Recife cional de Allabetizaçào
1944: Casa-se com Elza (PNA) é oficializado em
Maia da Costa Oliveira, 21 de janeiro e vetado
suaprimeira mulher, tam- três meses depois pelo
bém alfabetizadora governo militar, que toma
1947: Passa a lecionar o poder em 31 de março.
no setor de Educação e Exila-se na Bolívia, e em
Cultura do Serviço Social seguida segue para o Chi-
da Indústria le, onde viveu e trabalhou 1970: Em Cenebra, Suí- tizaçã0, teoria e prática da
I 959: Escreve Educação até 1969
ça, torna-se consultor do Iibenação
e atualidade brasileira, para i 968; Escreve A pedagoqia
Conselho Mr"rndial das I 982: Publica Ainpoftân-
concurso pela cadeira de áo oprimido
Igrejas (CMI), pelo qual cia do dto de ler
história e filosofia da edr-r- 1969: Muda-se para os pafticiparia de ações edr-r- tr986; Morre Elza Freire
cação da Escola de Belas Estados Unidos e leciona
cativas em outros conti- 1988: Casa-se, no Reci-
Artes de Pernambuco. na Universidade Harvard
nentes, como na Áf.i.u. fe, com a pedagoga Ana
Leciona na Faculdade de Maria Araújo Freire
Educação da Universidade 1989: Em Sao Paulo,
de Genebra. É publicadaA assume a Secretaria da
pedagogildo opnmido Educação do Município
I 97 ! : E lançada Extensào Í 99 I' Publica A eduraçno
ou comuntcação? na cidade
1977: Publiça Cartas à 1994: Sai a primeira
Cuiní-Bissau edição de Caftas a Cristìud,
I 979: Volta para o Brasil reflexões sobre minhq uida e
e passa a dar aulas na minha próxis
PUC de São Paulo 1995: Lança À ro^bro
I980: Torna-se professor desta mangueira
=
da Unicamp, instituição 1997: Morre na capital
em que trabalhou até o paulista,a2demaio,
E final do ano letivo de logo após a publicação de
k
1990. Lança Consrien- Peda!ogía da qutonomia

VIVER MENTE&CÉREBRO
mffi wtuKw&sffiffi
POR MOACIR CINOTTI

este ano, o "Projeto Memória", uma iniciativa da Cremos que o reconhecimento da importância da obra
Fundação Banco do Brasil, homenageia Paulo de Paulo Freire no campo da educação dar-se-á quando
Freire. O "Projeto Memória" se propõe valorizar a a escola deixar de ser confinada no seu espaço para reco-
cultura e a história do nosso país, homenageando grandes nhecer a educação ao longo de toda a vida. O legado de
personalidades brasileiras. No ano passado o homenagea- Freire não pode ser considerado como uma contribuição
do foi Josué de Castro. A ediçao de 2005 foi realizada à educação do passado, mas à educação do futuro.
em parceria com o Instituto Paulo Freire e a Petrobras. É Não se pode entender o pensamento pedagógico de
um trabalho que objetiva resgatar, difundlr e presetvar a Paulo Freire descolado de um projeto social e político.
memória do educador Paulo Freire, contribuindo para a Por isso, não se pode "ser freiriano" apenas cultivando
popularização de sua biografia e de sua obra, tendo em suas idéias. Isso exige, sobretudo, comprometer-se com
vista a difusão de seu legado humanístico entre educado- a construção de um "outro mundo possível". Como dizia
res, pesquisadores, profissionais da educação, alunos e a ele, em Pedaqoqra da autonomia, "o mundo não é; o mundo
população em geral. está sendo". Sua "pedagogia sem fronteiras" é um convite
Um conjunto de produtos, com o título geral Paulo para transformá-lo.
sendo distribuído gratui-
Freire' eáucar para transJormar, está
tamente a 5 mi1 bibliotecas públicas e a mais de 18 mil ï-ïÇüES *fi Vïtì il F-{{S'ïüKr,q
escolas, um livro fotobiográfico, um vídeo documentário, Paulo Freire confessou no último grande Congresso
uma exposição itinerante, um almanaque histórico, um Internacional sobre o seu pensamento, realizado em setem-
guia do professor, cartazes etc. O Instituto Paulo Freire bro de 1996 em Vtória (ES), que se considerava, desde
acompanhou e participou da elaboração de todos os pro- sempre, como um "menino conectivo" (ver Paulo Freire'
dutos, zelando pela qualidade e pela fidelidade ao espírito a práxis político-peáagógica do educaáor). Essa característica
da obra de Paulo Freire. não era apenas pessoal. Era também epistemológica. Ele
Por isso, creio que é um momento muito feliz quando conseguia, melhor do que qualquer outro intelectual que
arevista Vver Mente a Cérebro se propõe organizar uma conheço, criar laços, interligar as categorias da história, da
publicação como esta, discutindo a atualidade do legado política, da antropologia, da economia, de classe, gênero,
de Paulo Freire, ao lado de outros grandes educadores e etnia, pobres e não-pobres. Sua pedagogia não é apenas
educadoras. uma pedagogia para os pobres. EIe, como ser conectivo,
Para nós, do Instituto Paulo Freire, ele continua sendo queria ver também os não-pobres e as classes médias se
a grande referência da educação emancipadora. E1e pode engajando na transformação do mundo em favor dos
ser comparado a muitos educadores do século XX, mas "esfarrapados do mundo".
ninguém melhor do que e1e formulou uma pedagogia dos Em todos os escritos de Freire, dos mais antigos aos
silenciados e da responsabilidade social, dos oprimidos e mais atuais, ele nos falava das virtudes como exigências
dos que não são oprimidos, mas estão comprometidos com ouvirtudes necessárias à prática educativa transformadora.
eles e com eles lutam, como afirma na dedicatória do seu Mas ele também nos deu exemplo de algumas virtudes,
livro mais conhecido Peáagogìa do oprimiá0. Colocar Paulo entre elas, a coerência e a simplicidade. E1e não foi coeren-
Freire no passado é não querer mexer na cultura opressiva te por teimosia. Para ele, a coerência era uma virtude que
de ontem e de hoje que ele denunciava. tomava a forma da esperança. Paulo praticava sobretudo

VIVER MENTE&CÉREBRO ESPECIAL PAULO FREIRE


I

Ío

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ô

a virtude do exemplo, dava testemunho do que pensava. não diminuindo em nada seu saber, os faria gente melhor.
Nessa coerência entre teoria e prática, eu destacaria o valor Cente mais gente". O simples não se opõe ao concreto e
da solidariedade ao complexo. Opõe-se ao prolixo. A simplicidade de Paulo
Outra virtude que conquistou foi a simplicidade. O Freire era densa, concreta e complexa.
simples não e o fácil E difícil ser simples. Ele conseguia Paulo Freire era também um ser humano esperan-
estranhar o saber cotidiano sem ser pernóstico, arrogante.
çoso. Não por teimosia, mas por "imperativo histórico
Paulo detestava o intelectr,ral arrogante, sobretudo o in- e existencial", afirma no seu livro Pedagogia da esperauça.
telectual arrogante de esquerda. Para ele o intelectual de Além da esperança cultivou a autonomia. Autonomia é
direita já era por convicção arrogante, mas o de esquerda a capacidade de decidir-se, de tomar o próprio destino
era por deformação. É assim que termina o seu último nas suas mãos. Diante de uma economia de mercado que
livro Pedagogia da autonomia, "Nem a arrogância é sinal de
competência nem a competência é causa de arrogância.
A {:Ol'lP!iEËNSÁO $ü pËhlSAN4Ët\ïü cio educador {na fç16. n3
Não nego a competência, por outro lado, de certos arro-
i:iblioteca dn lnstitulo Faulo Fre ire) vinrrila-se ao comprornìsso com
gantes, mas lamento neles a ausência de simplicidade que, a reccnstrução da reaiìdarJe social e poiítica

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invade todas as esferas de nossa vida, precisamos lutar presarial orienta-se pela "lógica do mercado" que é uma
lógica competitiva. O neoliberalismo procura naturalizar
- também através da educação - para criar na sociedade
civil capacidade de governar-se e de governar através de
a a desigualdade. "É assim mesmo", "não há outra coisa a
uma "esfera pública cidadã", como diziaJürgen Habermas, fazer", ouve-se dizer. Por isso, Paulo Freire chamava a
um autor muito apreciado por Paulo Freire (ver Horizontes atenção para a necessidade de observarmos o processo de
da (re)Jundamentação em educação popular, um âíálo4o entre Freire e construção da subjetividade democrática, mostrando, ao
Habermas e (,ritical theory and educatron' Freire, Habermas aná tbe contrário, que a desigualdade não é natural. Ìnsistia que
díalogical subject), para criar mecanismos de gestão pública era preciso aguçar nossa capacidade de estranhamento e
não-estatal, alternativa ao socialismo autoritário e ao capi- ter cuidado com a anestesia da ideologia neoliberal. Ela
talismo neoliberal. Paulo Freire tinha um verdadeiro gosto é fatalista. O neoliberalismo age como se a globalização
pela democracia. Ele sempre a tratava com carinho. capitalista fosse uma realidade definitiva, e não uma ca-
O que mais o preocupava nos últimos anos era o tegoria histórica.
avanço da globalização capitalista neoliberal. Por que A sua concepção de mundo e a sua teoria sócio-político-
Paulo Freire atacava tanto o pensamento e a prática neoli- educativa nos ajudam não apenas a entender melhor como
berais? Porque o neoliberalismo é visceralmente contrário funciona o modelo neoliberal, mas nos ajudam a construir

t- A ACHruAç:Ãru m,e ffiËSfü{-X,qï-L}Âmtr {:ffi&4ü Al-G{> NAïLfR,r\t 1


Lróu uh,4 nr:s rlelrdr'c:s cüe4m,qffimffis HM sELtE
mturtxcts ar+ms I
ao núcleo central do pensamento de Paulo Freire, que é a resposta necessária ao neoliberalismo. Ele defende uma
a utopía. Enquanto o pensamento freiriano é utópico, o nova modernidade cuja racionalidade deve estar "molhada
pensamento neoliberal abomina o sonho. Para Paulo Freire de afetividade". Contra o iluminismo pedagógico e cultural
o futuro é possibilidade. Para o neoliberalismo, o futuro que acentua apenas a aquisição de conteúdos cuniculares,
é fatalidade. O neoliberalismo apresenta-se como única ele realça a importância da dimensão cultural nos proces-
resposta à realidade atual, desqualificando qualquer outro sos de transformação social. A educação é muito mais do
projeto social e político. que a instrução. Para ser transformadora - transformar as

Paulo Freire atacava a ética do mercado sustentada pelo condições de opressão -, ela deve enraizar-se na cultura dos
neoliberalismo, porque ela se baseia na lógica do controle povos. A pós-modernidade se caracteriza pelo simulacro e
e afirmava uma ética universal do ser humano. No seu livro pelo consumo imediato. Ora, a educação é um processo a
Peáagogia da autonomia, ele destaca, "Daí a crítica perma- longo prazo e precisa combater o imediatismo e o consu-
nentemente presente em mim à malvadez neoliberal, ao
cinismo de sua ideologia fatalista e a sua recusa inflexível
ao sonho e à utopia. Daí a minha raiva, legítima raiva, que

@tu
í
envolve o meu discurso quando me re{ìro às injustiças a
que são submetidos os esfarrapados do mundo. Daí o meu
nenhum interesse de, não importa que ordem, assumir um
ar de observador imparcial, objetivo, seguro, dos fatos e
W
dos acontecimentos. Em tempo algum pude serum obser-
vador'acinzentadamente' imparcial, o que, porém, jamais
me afastou de uma posição rigorosamente ética".
Para ele, a educação não deveria orientar-se pelo
paradigma da empresa, que dá ênfase apenas à eficiência.
O paradigma da empresa ignora o ser humano. Para este
paradigma, o ser humano funciona apenas como agente
econômico, como um "fator humano". O ato pedagógico
é democrático por natureza. Ao contrário, o ato em-

C{}llì  FRliüilíì MLILH[*, â tamtrém professoi'a l'lra f reire r{rn1


lté, ò dírdta),.ont quom iëve .iílco íilhol, tri:ve treÌ.os e uirt i::isn*-'itr

ESPECIAL PAULO FREIRE


VIVER MENTE&CÉREBRO
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F,rjut.a:Õo e çíu*íittr:rJ*,i:rr.tiir:iru,l*se r:jí-ril.a ç.:n-r Ìg5g e g:i;iriir..;rr.la
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trr.ln* Pauir: ìli. ni: 1,ral.iiarro, tm Ç6j
-i

Para Paulo Freire, o conhecimento é construído de forma


integradora e interativa. Não é algo pronto a ser apenas
"apropriado" ou "socializado", como sustenta a "pedagogia
dos conteúdos", instrucionista, que insiste na memorização
(de conteúdos). Conhecer é descobrir e construir, e não
copiar. No processo de busca do conhecimento, Paulo
Freire aproxima o estético, o epistemológico e o social.
Para ele, é preciso reinventar um conhecimento que tenha
"feições de beleza".
A escola não distribui poder, mas constrói saber que é
o
poder. Não mudamos a história sem conhecimentos, mas
temos que educar o conhecimento para que possamos
interferir no mercado como sujeitos. O papel da escola
mismo, se quiser contribuir para a construção de uma pós-
consiste em colocar o conhecimento nas mãos dos exclu-
modernidade progressista. A educação, para ser libertadora,
ídos de forma crítica, porque, a pobreza política produz
precisa construir entre educador e educando uma verdadeira
pobreza econômica. "Ninguém ignora tudo, ninguém
consciência histórica. E isso demanda tempo.
sabe tudo", dizia Freire. Ninguém é ignorante de tudo. O
"analfabeto político" não consegue entender as causas da
L ã$ {t{}sì{:il$'r{"} $}{}ï.iï'r{:{.}
sua pobreza econômica. Por isso Paulo Freire associava
Paulo Freire era uma pessoa feliz. Inha verdadeiro
alfabetização e politização. A pedagogia neoliberal é
prazer em aprender e ensinar e transmitia esse prazer para
uma pedagogia da exclusão justamente porque reduz o
os que conviviam com ele, seja na sala de aula, seja em
pedagógico ao estritamente pedagógico, buscando reti-
outros lugares. Aprende-se quando se quer aprender e só
rar da pedagogia a sua essência política. A pedagogia da
se aprende o que é significativo, dizem os construtivistas.
esperança é o oposto da pedagogia da exclusão. Ensinar
Paulo Freire também foi um dos criadores do construtivis-
é inserir-se na história, não é só estar na sala de aula, mas
mo, mas do construtivismo crítico. Desde suas primeiras
num imaginário político mais amplo.
experiências no nordeste brasileiro, no início dos anos
Paulo Freire valorizava, além do saber científico
60, ele buscava fundamentar o ensino-aprendizagem em
elaborado, também o saber primeiro, o saber cotidiano.
ambientes interativos, através, por exemplo, do r-rso de
Sustentava que o aluno nào registra em separado as
recursos audiovisuais. Mais tarde, reforçou a necessidade
significações instrutivas das significações educativas e
do uso de novas tecnologias, principalmente o vídeo, a cotidianas. Ao incorporar conhecimento, ele incorpora
televisão e a informática. Mas não aceitava a sua utilização
outras significações, tais como: como se conhece, como
de forma acrítica.
se produz e como a sociedade utiliza o conhecimento
O construtivismo freiriano vai além da pesquisa e da te-
matização. Implica uma outra etapa: a da problematização
- enfim, o saber cotidiano do grupo social.
Outra noção que ele desenvolveu em sLÍa concepçào
supõe a ação transforrnadora. O conhecimento não é liber-
construtivista e que a distinguia de toda a conotação neo-
tador por si mesmo. Ele precisa estar associado a uma causa.
liberal, era a noção de qualidade. Qr-rando estava à frente
O conhecimento é um bem imprescindível à produção de
da Secretaria Municipalde Educação de São Paulo, ele nos
nossa existência. Por isso, não pode ser obleto de compra
falava de uma "nova qualidade" (ver Educação e cidaâanía, a
e venda, cuja posse fique restrita a poucos. Paulo Freire
tinha um verdadeiro amor pelo conhecimento e amor pelo
estudo, mas dizia, Conhecemos para entender o mundo
MOACIR CADOTTI é doutor em ciências da educação pela Uni-
(palavra e mundo), para averiguar (certo ou errado, busca versidade de Genebra (Suíça), professor titular da USÈ, diretor
da verdade e não apenas trocar idéias) e para interpretar e do lnstituto Paulo Freire (São paulo) e autor de diversos livros,
transformar o mundo". O conhecimento deve constituir-se entre eles Convite à leituro de Pqulo Freire, pedagogia da próxis,
Históría dos idéios pedogógicos, Os mestres de Roisseou e paulo
numa ferramenta essencial para interwir no mundo. F rei re: u mo biobibliog raf i a.

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EN/ SEU PRIMEIRO LIVRO, Paulo Freire cita, além o
de Maritain, o filósofo francês CaLrriel Marcel, outro
representante do humanisnro cristão que antecederia a o
influência marxista em sua obra o

p r óxís de P aulo F reire em S a o P aulo) . A qualidade é todos ( quan -

tidade) terem acesso ao conhecimento ea relações sociais


e humanas renovadas. Qualidade é empenho ético, alegria
de aprender. Para o pensamento neoliberal, a qualidade se
confunde com a competitividade, negando a necessidade
da solidariedade. As pessoas não são competentes porque
são competitivas, mas porque sabem enfrentar seus pro-
blemas cotidianos junto com os outros. A qualidade é um
conceito fundamentalmente po1ítico.
Uma outra contribuição de Freire à história das idéias
pedagógicas é a sua concepção de currículo. Não se
pode entender a pedagogia de Freire sem entender os
conceitos de transdisciplinaridade, transcurricularidade
e interculturalidade (ver Ser prot'essor, um oJício em risco de
extinção). A inter e a transdisciplinaridade freirianas não
são apenas um método pedagógico ou uma atitude pro-
fissional. Elas se constituem numa verdadeira exigência
da própria natureza do ato pedagógico. Paulo Freire
sabia trabalhar, na prática, com várias disciplinas ao uma técnica ou metodologia. Ela deve ser lida dentro do
mesmo tempo: a etnografia, a teoria literária, a filosofia, contexto da "natureza profundamente radical de sua teoria
a política, a economia, a sociologia etc. Tiabalhava mais e prática anticolonial e de seu discurso pós-colonial", como

com teorias do que com disciplinas ou currículos. Insistia nos diz Henry Gìroux em Paulo Freire' a critícal encounter'
que os alunos buscassem, fora de seu currículo escolar, Isso nos vai mostrar que Freire assumiu o risco de cruzar
outros conhecimentos e saberes, em outras disciplinas, na fronteiras para poder ler melhor o mundo e facilitar novas
literatura, em outras linguagens e formas de comunicação. posições sem sacrificar seus compromissos e princípios.
Ele trabalhava ao mesmo tempo com várias perspectivas As barreiras e fronteiras estão sempre à nossa volta. Os

teóricas, a do militante político, do filósofo da liberta- intelectuais educadores que ocupam fronteiras muito es-
e
treitas não percebem que elas também têm a capacidade de
ção, do cientista, do intelectual, do revolucionário etc.,
entendendo que para a realização do ato pedagógico aprisioná-1os. Nesse sentido, é preciso realçar a importân-
concorrem muitas ciências. cia da obra de Paulo Freire em termos mais globais. Seria
ingênuo considerar a sua pedagogia como uma pedagogia
FRüI$TË r kÂ5 crì.ï-iaÂï]-qs só aplicável no chamado "Terceiro Mundo".
As teorias de Paulo Freire cruzaram as fronteiras das A obra de Paulo Freire tem sido reconhecida mun-
disciplinas, das ciências, para além da América Latina. Ao dialmente não apenas como uma resposta a problemas
mesmo tempo que as suas reflexões foram aprofundando o brasileiros do passado ou do presente, mas como uma
tema que ele perseguiu por toda a vida - a educação como contribuição original e destacada da América Latina ao
prática da liberdade -, suas abordagens transbordaram-se pensamento pedagógico universal. Não se pode dizer que
para outros campos do conhecimento, criando raízes nos seu pensamento responda apenas à questão da educação de

mais variados solos - desde os mocambos do Recife até as adultos ou à problemática social dos países pobres.
comunidades burakunins doJapão -, fortalecendo teorias e Quais são as contribuições mais destacadas de Paulo
práticas educacionais, bem como auxiliando reflexões não Freire e que the deram tamanha notoriedade?
só de educadores, mas também de médicos, terapeutas, Creio que a validade da teoria e da práxis de Paulo
cientistas sociais, filósofos, antropólogos e outros profis- Freire está ligada sobretudo a quatro intuições originais,
sionais. Seu pensamento é considerado um parâmetro de já destacadas sobretudo nos trabalhos de Carlos Alberto
transdisciplinari dade. Torres, especialmente em seu liwo Pedagogía áa luta, da

Não podemos ver Freire apenas como um educador pedagogia áo oprimiáo à escola pública popular,

de adultos ou como um acadêmico, ou reduzir sua obra a 1) Ênfase nas conáições gnosíotógicas da prática eáucatioa.

ESPECIAL PAULO FREIRE


10 VIVER MENTE&CÉREBRO
Toda obra de Paulo Freire está permeada pela idéia de à doença etc. Seu método, por isso, não parte de categorias
que educar é conhecer, é ler o mundo, para poder trans- abstratas, mas das necessidades das pessoas, capturadas nas
formá-lo. Ele destacou, desde o início, a importância das suas próprias expressões (valor da oralidade) e analisadas
metodologias, o que é muito atua1. Foi acusado de não dar por ambos, educador e educando. Nos últimos anos Paulo
valor aos conteúdos e, por isso, de ser espontaneísta e não, Freire destacou também as necessidades plduetáriastrazidas ao
diretivo. Na verdade, não foi nada disso, seu pensamento debate pela ecologia, como necessidades humanas funda-
estava fortemente orientado por um projeto político-pe- mentais, ligadas, por exemplo, ao saneamento básico, ao
dagógico cujo conteúdo era a libertação. As críticas de lixo, à água, à poluição do ar.
espontaneísmo e de não-diretividade não procedem. 4) O planejanrento comunrtáno, partìcipatiuo,a gestão demo-
2) Defesa daeducação como nto dialógico e, ao mesmo tem- crática, a pesquisa participante. Sob influência do pensa-
po, rigoroso, intuitivo, imaginativo, afetivo. Paulo destaca mento de Paulo Freire, hoje no Brasil estão se realizando
a necessidade de uma razáo dialógica comunicativa. A muitas experiências educacionais de enorme impaclo,
teoria do conhecimento de Paulo Freire reconhece que o relacionadas com a chamada "Constituinte Escolar", que
ato de conhecer e de pensar estão diretamente ligados à utiliza os princípios metodológicos freirianos e com o
relação com o outro. O conhecimento precisa de expressào emblemático "Orçamento Participativo" no quadro do
e de comunicação. Não é um ato solitário. Além de ser um movimento pela "Escola Cidadã", outra expressão também
ato histórico, gnosiológico e lógico, contém um quarto utilizada por ele nos últimos anos.
elemento que é a sua dimensão dialógica. O reconhecimento de Paulo Freire fora do campo da
3 ) A noção de ciência aberta às necessidades populares - liga- pedagogia demonstra que o seu pensamento é também
da, portanto, ao trabalho, ao emprego, à pobreza, à fome, transdisciplinar e transversal. A pedagogia é essencialmen-

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WWW.VIVERM ENTECEREBRO.COM.BR VIVER MENTE&CEREBRO 11


HECË1, em retrato Co sécuio XlX. Ao confrontar
opressor e oprimido, Freire chanrol: atenÇão
para relação observada de maneira semelhante
pelo filósofo aiemão em ü senhor e a escrcva

te uma ciência transversal. Desde seus primeiros escritos,


ele considerou a escola muito mais do que as quatro pa-
redes da sala de aula. Criou o "Círculo de Cultura", como
expressão dessa nova pedagogia que não se reduzia à noção
simplista de "aula". Na sociedade do conhecimento de
hoje, isso é ainda muito mais verdadeiro, já que o "espaço
escolar" é muito maior do que a escola. Os novos espaços
da formação (mídia, rádio, TV, vídeo, igrejas, sindicatos,
empresas, ONGs, espaço familiar, internet...) alargaram
a noção de escola e de sala de aula. A educação tornou-se
comunitária, virtual, multicultural e ecológica e a escola
estendeu-se para a cidade e o planeta. Hoje se pensa em ,?
rede, se pesquisa em rede, trabalha-se em rede, sem hie- ã
rarquias. A noção de hierarquia (saber-ignorância) é muito Ë
cara à escola capitalista. Ao contrário, Paulo Freire insistia
na conectividade, na gestão coletiva do conhecimento inseri-lo dentro de alguma corrente pedagógica. Ele não se
social a ser socializado de forma ascendente. Não se trata interessava por exegese, nem pela exegese dos seus textos.
mais de ver apenas a "cidade educativa" (Edgar Faure), mas Lia-os e relia-los muito para ver se continham equívocos
de enxergar o planeta como uma escola permanente. e até para entender-se melhor, aprofundar suas posições.
Abrir a escola para o mundo, como queria Paulo Freire, é Por isso, cabe a nós, aos estudiosos do seu pensamento,
uma das condições para a sua sobrevivência com dignidade, buscar responder a essas perguntas.
milênio. O novo espaço escolaré o planeta
nessa travessia de Creio que duas foram as fontes mais importantes do seu
porque a Tèrra tornou-se nosso endereço comum. O novo pensamento: o humanismo e o marxismo. Nesta ordem.
paradigma educativo funda-se na condição planetária da Em outras palavras' humanismo e dialética.
existência humana. A planetaridade é uma nova categoria Paulo Freire foi um dos últimos humanistas. Em seus

*
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que fundamenta oParadigmaTerra, isto é, a visão utópica da primeiros escritos, principalmente no seu primeiro livro
Tèna como um organismo vivo e em evolução, onde os seres (escrito em 1959 como tese doutoral e publicado apenas
humanos se organizam como uma única comunidade, com- em 2001 pelo Instituto Paulo Freire) Educdção e atualìdade
partilhando a mesma morada com outros seres e coisas. brasileira, ele cita com freqüência os filósofos humanistas
cristãos Cabriel Marcel e Jacques Maritain, autores que
}-{ Lï&,$ANISM{:} H T} TAï-fl ïTCA eram muito discutidos nos anos 50. Como humanista,
Quais são as fontes primárias do seu pensamento2 Que afirmou e dlfundiu a crença de que era possível mudar a
autores o influenciaram ou tiveram ressonância nele? Em ordem das coisas e mostrou como fazê-lo. Para ele a utopia
que corrente ou tendência pedagógica contemporânea era o verdadeiro realismo do educador.
poderia ele ser inserido? Embora não se possa falar com muita propriedade
Eis algumas perguntas que muitos me fizeram depois de de fases do pensamento freiriano, pode-se pelo menos
escrever alguns textos sobre Paulo Freire, principalmente dizer que a influência do marxismo deu-se depois da
depois do livro Paulo Freire, uma biobibliografã (1996). influência humanista cristã. São momentos distintos,
Conversei várias vezes com ele sobre isso. Ele sempre mas não contraditórios. Como aÊrma o filósofo alemão
se esquivava. Dizia que isso não era importante. De fato, Voldiettch Schmied-Kowarzik, em seu hvro Peáagogia
ele não se interessava muito em saber quais eram os autores átalítica, Paulo Freire combina temas cristãos e marxistas
ou as correntes filosóficas que o influenciaram. Nao é facil na sua pedagogia dialético-dialógica. Paulo Freire é um
,12 VIVER MENTE&CÉREBRO ESPECIAL PAULO FREIRE
dlalético. A educação é uma prática antropológica por ma H$$)nRANÇÂ
r-Ã_ã'iÂ
nalureza, portanto ético-política. Por essa razão, pode Em primeiro lugar, ele nos deixou sua vida, uma rica
tornar-se uma prática libertadora. O tema da libertação é biografia. Paulo nos encantou com a sua ternura, sua doçura,
ao mesmo tempo cristão e marxista. O método utilizado é seu carisma, sua coerência, seu compromisso, sua seriedade.
que é diferente; a estratégia é diferente. O fim é o mesmo. Suas palavras e suas ações foram palavras e ações de luta por
Encontramos Hegel como referência desde o início. A um mundo "menos feio, menos malvado, menos desumano".
relação opressor-oprimido lembra a relação senhor-escravo Ao lado do amor e da esperança, ele também nos deixou um
de Hegel. Depois vieram Marx, Cramsci, Habermas. Seu legado de indignação diante da injustiça. Diante dela, dizia
pensamento é humanista e dialético. que não podemos "adocicar" nossas palavras.
A afirmação da utopia como práxis docente e discente Além do testemunho de uma vida de compromisso com
lembra o paradigma humanista, cristão e socialista. O que há a causa dos oprimidos, e1e nos deixou uma imensa obra,
de original em Freire, com relação ao marxismo ortodoxo é estampada em muitas edições de seus livros, em artigos e
que ele afirma a subjetividade como condição da revolução, vídeos espalhados pelo mundo. Nela se encontra uma pe-
da transformação social. Daí o papel da educação como dagogia revolucionária. A pedagogia conservadora humilha
conscientização. Ele afirma o papel do sujeito na história o aluno. A pedagogia freiriana, a "pedagogia do diálogo",
e a história como possibilidade. A história é possibilidade. deu dignidade a ele, respeitando o educando e colocando
Não através de um movimento como mecanismo de luta de o professor ao lado dele como companheiro, companheira,
classes, pura e simplesmente, mas pela ação consciente de com tarefa de orientar e dirigir o processo educativo, como
a
sujeitos históricos organizados. Paulo Freire sustentava que o um ser que também busca e aprende ao ensinar.
socialismo é uma utopia que precisa ser renovada pela edu- Como o aluno, o professoré também um aprendiz... Esse
cação. Isso havia escapado aMarx e a Lênin e aos marxistas é o legado de Freire.No desenvolvimento da sua teoria da
em geral, que pouca importância deram à educação. Por isso educação, Paulo Freire conseguiu, de um 1ado, desmistificar
Paulo Freire foi criticado pela ortodoxia maxista. os sonhos do pedagogismo dos anos 60, que, pelo menos
na América Latina, sustentava a tese de que a escola tudo
ô podiar de outro lado, conseguiu superar o pessimismo dos
anos 70, para o qual a escola era meramente reprodutora do
o status Quo. Fazendo isso - superando o pedagogismo ingê-
é nuo e o pessimismo negativista -, conseguiu manter-se fiel
à utopia, sonhando sonhos possíveis. Fazer hoje o possível
z
de hoje, para, amanhã , fazer o impossível de hoje.
E
Em março de 1997, um grupo de jovens de Brasília ateou
fogo e matou um índio pataxó. Paulo Freire ficou muito
impressionado com este horor. E se perguntava por que
chegamos a tamanha barbárie. As causas são múltiplas' há a
mídia, a escola, a sociedade - todos somos responsáveis. Mas
há a impunidade que permite, sobretudo às classes poderosas,
fazer quase tudo o que quiserem sem ser punidas. Raramente
são punidas. Poucos são os ricos que estão nas cadeias. Por
isso precisamos dizer "não pode" sem ter medo de seÍTnos
antidemocráticos. Há o que pode e o que não pode ser feito.
Diante da injustiça, da impunidade e da barbárie, precisa-
mos de uma pedagogia da indignação. Dizer "não" provoca
conhecimento. O "não" desacomoda, incomoda, desinstala.
Obriga-nos a pesquisar. Dizer"não" é afirmar-se como "eu". É
buscar a ética, é valoç é postura. Paulo Freire nos falava com
freqüência de uma pedagogia da rebeldia.

FÊOM fHg TR{[ to the sky (1 998), obra de Peter Davidson.


# Propastas do educador tiverarn de superar o pedagogismo dcs
anos 60 e o pessimÌsrno dos anos 70 e mantiveram-se fiéis à utopia
da libertação pela educação

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Ò

REFUCIADOS AFRICANOS. Paulo Freire rÌedìcou Pedaqaqitt co aprimirirs ar:s esfarraparlo: rlo mundc
e aos que com eles sofrem e com eles lutam

Paulo Freire confessou certa vez que "não tinha ver- Dar continuidade a Freire, não significa tratá-lo
gonha de ser professor". Como um plantador do futuro, como um totem, ao qual não se pode tocar mas se deve
ele sempre será lembrado porque nos deixou 'Íaízes, apenas adorar, não significa também tratá-lo como um
asas e sonhos como herança. Paulo Freire nos deixa guru, que deve ser seguido por discípulos, sem ques-
um legado de esperança. Como criador de espíritos, a tioná-lo. Nada menos freiriano do que essa idéia. Paulo
melhor maneira de homenageá-lo é reinventá-lo. Não Freire foi, sobretudo, um criador de espíritos. Por isso,
copiá-lo. É l.uu. adiante o esforço de uma educação com deve ser tratado como um grande educador popular.
uma nova qualidade para todos. Essa nova qualidade não Adorar Freire como um totem significa destruir Freire
será medida pela quantidade absorvida de conteúdos como educador. Por isso não devemos repetir Freire,
técnico-científicos apenas, mas, pela produção de um mas "reinventá-1o", como ele mesmo dizia. Para esta
tipo novo de conhecimento, "molhado de existência" tarefa, não designou esta ou aquela pessoa ou institui-
e de história, um conhecimento que deve ser, acima de ção. Esta tarefa ele deixou a todos nós, tão claramente
tudo, uma ferramenta de mudança das condições de vida expressa já no Pedagogia do oprimido, quando o dedicou
daqueles que não têm acesso à existência plena. Ele nos "aos esfarrapados do mundo, e aos que neles se desco-
deixou teorias e exemplos que nos podem levar muito brem e, assim descobrÌndo-se, com eles sofrem, mas,
além de onde estamos hoje. Como disse um professor sobretudo, com eles lutam".
logo que ouviu falar de seu falecimento "ele nos deixou
"JìNLã,\{è
mais pobres porque partiu, mas estamos mais ricos {l{3N Ì "!: N iX-} Ë' itlì { Rf

porque ele existiu". Llnda Blmbi, no belo prefácio da edição italiana da


Tiata-se agora de dar continuidade a seu legado. Mas, Peáagogia do oprimiá0, afirma, com razão, que Paulo Freire
o que significa dar continuidade à obra de Freire? é "inclassiÉcável". Estamos diante de um autor que não se

'14 VIVER MENTË&CÉREBRO ESPECIAL PAULO FREIRE


submeteu a correntes e tendências pedagógicas e criou um A pedagogia do diálogo que praticava fundamenta-se
pensamento vivo, orientado apenas pelo ponto de vista numa filosofia pluralista. O pluralismo não significa ecle-
do oprimido. Essa é a ótica básica de sua obra, a qual foi tismo ou posições "adocicadas", como ele costumava dizer.
fie1 a vida toda: a perspectiva do oprimido. Significa ter um ponto de vista e, a partir dele, dialogar com
Peáagogla do oprinido foi escrito no Chile em 1968. A os demais. É o qu. mantinha a coerência da sua prática
pergunta que podemos fazerhoje éa seguinte: esse ponto e da sua teoria. Paulo era acima de tudo um humanista.
de vista é ainda válido? Caso não seja
válido, já não haveria Seria a única forma de "classiffcá-lo" hoje. Não há dúvida
mais porque continuar lendo Paulo Freire. Ou melhor, de que Paulo Freire foi um grande humanista.

A FILOSOFIA PLURALISTA DË FREIRE BASËIA-SE


t NO DIÁLOCO E NÃO NO ECLETISMO l
Paulo Freire seria um autor já superado, porque sua luta A força da obra de Paulo Freire não está só na sua teoria
pelo oprimido estaria superada. E1e passaria para a história do conhecimento mas em ter insistido na idéia de que é
como um grande educador, mas que não teria mais nada a possível, urgente e necessário mudar a ordem das coisas.
dizer para o nosso tempo. Ele não só convenceu tantas pessoas em tantas partes do
Pelo contrário, a sua pedagogia continua válida não mundo pelas suas teorias e práticas, mas também porque
só porque ainda há opressão no mundo, mas porque despertava nelas a capacidade de sonhar com uma reali-
ela responde a necessidades fundamentais da educação dade mais humana, menos feia e mais justa. Como legado
de hoje. A escola e os sistemas educacionais encon- nos deixou a utopia
tram-se hoje frente a novos e grandes desafios diante
da generalização da informação na sociedade que é
chamada por muitos de "sociedade do conhecimento",
de "sociedade da aprendizagem" . As cidades estão se Apprendre à être. E. Faure et ol. Fayard/Unesco (paris), 1972.

tornando educadoras e aprendentes, multiplicando seus Conversations with Paulo Freire on pedagogies for the non-
poor. W. B. Kennedy, em Pedagogies for the non-poor, A. F. Évans,
espaços de formação. A escola, nesse novo contexto R. A. Evans e W. B. Kennedy (orgs.). Orbis Books (Nova york),
de impregnação do conhecimento, não pode ser mais 1986.
um espaço, entre outros, de formação. Precisa ser um Critical theory and education: Freire, Habermas and the
dialogical subject. R. A. Morrow e C. A. Torres. lnstituto paulo
espaço organizador dos múltiplos espaços de formação, Freire/Cortez, no prelo.
exercendo uma função mais formativa e menos infor- Educação e cidadania: a práxis de Paulo Freire em São paulo.
mativa. Precisa tornar-se um "círculo de cultura", como M. P. O'Cádia P. L. Wong e C. A. Torres. lnstituto paulo Freire/
dizia Paulo Freire, muito mais gestora do conhecimento Cor|ez,2002.
Estudios freirianos. C. A. Torres. Libros del euirquincho (Buenos
social do que lecionadora.
Aires), 1995.
Nesse contexto, o pensamento de Paulo Freire é mais
Horizontes da (re)fundamentação em educação popular: um
atual do que nunca, pois em toda a sua obra ele insistiu diálogo entre Freire e Habermas. J. I. Zitkoski. Editora URl, 2000.
nas metodologias, nas formas de aprender e ensinar, nos Literacy for citizenship: gender and grassroots dynamics in
métodos de ensino e pesquisa, nas relações pessoais, enfim, Brazil. N. P. Stronquist. SUNY Press (Albany, EUA),1997.

no diálogo. Paulo Freire: a práxis político-pedagógica do educador. E. C.


Oliveira, M. F. C. Pires e 5. Ventorini (orgs.). Edufes, 2000.
Por que continuar lendo Freire2
Paulo Freire: uma biobibliografia. M. Cadotti (org.). lnstituto
Alguns certamente gostariam de deixá-lo para trás Paulo Freire/Corïez, 1 996.
na história das idéias pedagógicas e outros gostariam de Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educa-
esquecê-lo, por causa de suas opções políticas. Ele não tiva. P. Freire. PazeÍerra,"l997.
queria agradar a todos. Mas havia unanimidade em todos Pedagogia da esperança: um reencontro com a pedagogia do
oprimido. P. Freire. P az e ïerra,'l 992.
os seus leitores e todos os que o conheceram de perto, o
Paulo Freire: a critical encounter. P. Mclaren e p. Leonard (orgs.).
respeito à pessoa. Paulo sempre foi uma pessoa cordial, Routledge (Londres), 1 993.
generosa, muito respeitosa. Podia discordar das idéias, Pedagogia da luta: da pedagogia do oprimido à escola pública
mas respeitava a pessoa, mostrando um elevado grau popular. C. A. Torres. Papirus, 1 997.
de civilização. E mais, sua prática do diálogo o levava a Pedagogia dialética: de Aristóteles a Paulo Freire. W Schmied-
Kowarzik. Brasiliense, 1 983.
respeitar também o pensamento daqueles e daquelas que
Ser professor: um ofício em risco de extinção. L. Cortesão.
não concordavam com ele. lnstituto Paulo Freire/Co rtez, 2002.

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