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CONCEITOS BÁSICOS DE AGRUPAMENTOS E FORMA

•  O estudo da Forma em música pode estar relacionado a elementos que se justapõem, se sobrepõem e se inter-
relacionam objetivando a compreensibilidade para que as ideias musicais possam ser apreensíveis em algum grau
pela inteligência humana. Na atividade teórica e na prática analítica e interpretativa o estudo da forma musical
segue tanto uma estratégia secional (agrupamentos) - mais estática e limitada -, quanto uma estrutural que
considera as relações entre vários fatores musicais (melodias, ritmo texturas e harmonias) como elementos que
tem a função de criar unidade para toda a composição

•  As maneiras de estruturar uma composição variam de acordo com as diferentes épocas, estilos e etnias, embora
vários elementos fundamentais possam permanecer comuns a várias culturas e períodos históricos.

•  Uma composição musical pode se aproximar de modelos formais pré-existentes que se estabeleceram a partir de
um determinado estilo, época, cultura e região.
A seguir quatro
fragmentos com
diferentes
modos
estabelecer e
relacionar os
agrupamentos.

Haydn, inicio tema da Sinf. 103, I mov.


AGRUPAMENTOS RÍTMICOS

•  O conceito de modos rítmicos serve de base para a formação de agrupamentos rítmicos como definidos por
Grosvenor Cooper e Leonard Meyer na publicação “The Rhythmic Struture of Music”. Neste caso o conceito de
“agrupamentos rítmicos” não é exclusivamente duracional, mas também acentual. Assim duas notas de mesmo
valor podem configurar um agrupamento rítmico se houver um acento e um não acento e vice versa. Na definição
dos autores, o ritmo “sempre implica a inter-relação entre um pulso simples, acentuado (forte) e um ou dois
pulsos não acentuados (fracos)”.
•  Para efeito de agrupamento rítmico são considerados apenas os padrões troqueu, iambo (ou jambo), dátilo,
anapesto, e anfíbraco. Outros modelos da poesia grega com durações de mesmo valor como o espondeu (duas
notas longas), o tríbaco (três notas curtas) ou o pírrico (duas notas curtas) são descartados por não apresentarem
contraste duracional ou acentual. A repetição destes pés da poesia grega clássica acaba por se enquadrar num dos
cinco agrupamentos básicos.
•  Os padrões com mais de três elementos também são desconsiderados por serem redutíveis aos cinco padrões
básicos.
Os agrupamentos rítmicos básicos derivam em grande parte dos modos rítmicos introduzidos por volta do século XIII
(Escola de Notre Dame) e muito semelhantes aos da prosódia clássica (pés gregos).

Sílaba longa ou acentuada (Pulso acentuado):


Sílaba curta ou não acentuada (Pulso não acentuado):

Troqueu

Iambo
(ou Jambo):

Dátilo:

Anapesto:

Anfíbraco:
Níveis arquitetônicos do ritmo

O ritmo também se articula em níveis de estrutura organizacional (inciso, frase período etc.). A estrutura
rítmica de uma peça musical por se desenvolver no tempo é percebida não como uma série de eventos
independentes e desarticulados, mas como algo coeso em que as unidades se articulam entre si formando
estruturas mais amplas.

(Cooper & Meyer, 1960, p.6)


•  Um agrupamento rítmico completo mínimo, ou seja, composto por um pulso forte e um ou dois fracos
forma o que Cooper e Meyer denominam “nível rítmico primário”. Tais agrupamentos podem se juntar e
formar níveis mais altos definidos pelas mesmas referências de fraco e forte:

No exemplo acima o agrupamento primário é um dáctilo seguido de um troqueu e no nível maior iambo.
Notar que o regente marca o compasso binário, mas sugere o nível maior: uma estrutura de agrupamento em que o primeiro compasso é
leve e não acentuado e o segundo com acento mais forte.


AGRUPAMENTOS RÍTMICOS

(Cooper, G. ; Meyer, L. 1971, 9)

•  Agrupamento rítmico “é um fato mental, não físico”: não há uma fórmula pronta para a sua delimitação.
Músicos experientes podem divergir na análise dos agrupamentos, pois a performance é uma arte que
permite diferentes fraseados e diferentes interpretações.
•  Muitas vezes agrupamentos sonoros podem apresentar certa ambiguidade e é melhor entendê-los assim
do que tentar enquadrá-los à força num padrão fechado e definitivo.
•  “Qualquer que seja o nível arquitetônico, um agrupamento rítmico é produto de semelhança e diferença,
de proximidade e separação dos sons percebidos pelos sentidos e organizados pela inteligência”.
Fatores como duração de notas, configuração intervalar da melodia, mudanças harmônicas, variação de
textura ou timbre podem definir o arranjo interno dos agrupamentos em qualquer nível estrutural (ou
arquitetônico).
•  Os acentos métricos são a referência para os agrupamentos dos pulsos (em geral delimitados pelas
barras de compasso), outros tipos de acento configuram o ritmo e nada tem haver com compassos:
“agrupamentos rítmicos não são respeitadores de barras de compasso”
(Esther Scliar, 1982, 9)
•  “Em sua projeção temporal os sons tendem a se articular em pequenos agrupamentos delimitados por
cesuras. Estes agrupamentos concatenam-se entre si, formando conjuntos maiores, os quais se encadeiam
com os seguintes, formando novos grupos. O caráter desta projeção é sintático, semelhante ao discurso
verbal.”

(Temperley, 2003, 125)


•  Um princípio importante da teoria rítmica recente é a distinção entre metro e agrupamento [grouping].
Metro é uma moldura hierárquica de pulsos – pontos no tempo que carregam vários níveis de acentuação
implícita – que por si só não implica em segmentação. Agrupamento é uma estrutura hierárquica de
segmentos que por si só não implica em acentuação métrica.

(Cooper, G. ; Meyer, L. 1971, 9)


•  “Geralmente sons ou grupo de sons que são semelhantes (em timbre, intensidade, etc.) e próximos uns dos
outros (em tempo, altura, etc.) formam padrões rítmicos fortemente unificados. Diferença e distância entre
sons e grupos de sons tendem a separar padrões rítmicos. Entretanto, embora similaridade tenha tendência
de criar coesão, repetição em geral trabalha pela separação de grupos.”
Os exemplos de padrões rítmicos listados em seguida se referem a agrupamentos fraseológicos relacionados aos
modos rítmicos e sua aplicação no repertório musical clássico. O nível em que a maioria dos exemplos são
apresentados se enquadra, na definição de Cooper e Meyer, entre o nível arquitetônico primário.
Troqueu
Brahms, Sinf. 2, I

O mesmo padrão trocaico aplicado a um compasso 3/4, no 1º exemplo, pode ser aplicado e a um compasso 4/4, no 2º:

Brahms, Sinf. 1, IV

ou
Indicar a justificativa para a determinação do padrão troqueu ou dáctilo no primeiro compasso.
Iambo Brahms, Sinf. 4, I

Beethoven, Sinf. 7, III


Dáctilo

Schubert, Quarteto de cordas nº 14, II

Beethoven, Sinf. 7, I
Anapesto

anapesto anfíbraco dáctilos

anapestos
Anfíbraco
Schubert: Abertura Zauberharfe

Beethoven: Variações s/ tema de Diabelli (1ª)


Ainda considerando somente o nível primário pode-se observar nos exemplos seguintes (Nascimento, Ravel e Bartok) a
combinação de diferentes padrões rítmicos e algumas ambiguidades ou variantes na definição de padrões.
Milton Nascimento: Cravo e Canela

No exemplo seguinte (Ravel) o ritmo anapesto se encontra em oposição ao acento métrico:


M. Ravel: Ma Mère l'Oye, I
Beethoven, Sonata opus 110, nº 31, I

Assinalar os agrupamentos primários nos exemplos seguintes (sugira mais alternativas se for o caso):
Cesar Frank, Variações Sinfônicas