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05/11/2018 O capitalismo e o desenvolvimento do Terceiro Mundo

O capitalismo e o desenvolvimento do Terceiro Mundo


por Prabhat Patnaik [*]

Aquilo a que hoje chamamos terceiro mundo nem sempre existiu na


sua forma actual. Ele experimentou uma transformação estrutural
específica devido à intrusão do capitalismo metropolitano, devido ao
que alguns economistas, a começar por Andre Gunder Frank,
classificam como "o desenvolvimento do subdesenvolvimento". Na
Índia por exemplo os processos de "des-industrialização"
(importações da metrópole deslocando produtores artesanais
internos) e a "drenagem de excedente" (o desvio sem qualquer
contrapartida de uma parte do excedente do país através do sistema de tributação
colonial), provocou um enorme aumento na pressão sobre a terra por parte da população
e engendrou a moderna pobreza em massa.

Uma vez que o "subdesenvolvimento" do terceiro mundo foi o resultado da maneira pelo
qual ele foi integrado na economia capitalista mundial, na época da descolonização
acreditava-se geralmente que os povos desta região só poderiam progredir sob um regime
económico alternativo que os livrasse de tal integração. E uma vez que o capital
metropolitano não iria tolerar isto, e a burguesia – temerosa quanto à ameaça à sua
própria posição devido à sua chegada tardia ao cenário histórico (razão pela qual ela
também fazia causa comum com os interesse fundiários internos) – era incapaz de
enfrentar o capital metropolitano, tal libertação só poderia ser efectuada através de um
estado baseado numa aliança dos trabalhadores com o campesinato. Este argumento da
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esquerda exerceu na época uma considerável influência intelectual; e estes países eram
vistos a procederem tal libertação por etapas ao longo do tempo rumo ao socialismo. O
desenvolvimento do terceiro mundo não era, portanto, encarado como ocorrendo através
da busca de um caminho capitalista de desenvolvimento; isso só poderia ocorrer através
da busca de uma trajectória alternativa que o levasse ao socialismo.

Tal entendimento, entretanto, começou a ser desafiado na era neoliberal com o argumento
de que os factores que no passado haviam produzido a segmentação do mundo não
estavam mais operacionais. Subjacente a esta segmentação, a qual exprimia-se na
dicotomia entre países desenvolvidos e subdesenvolvidos, estava o facto de que o
trabalho destes últimos não era livre para mover-se para os primeiros e o capital destes,
através de movimentos juridicamente livres para os segundos, por variadas razões
relutava em fazê-lo, excepto para capturar o mercado destes últimos ou apossar-se das
matérias-primas dos mesmos. Por outras palavras, apesar de os salários destes últimos
serem muito mais baixos, o capital dos primeiros não localizava ali fábricas para atender
ao mercado global, incluindo o metropolitano.

Esta situação, de acordo com este novo argumento, mudou sob a globalização neoliberal.
O capital metropolitano estava agora desejoso de localizar fábricas no terceiro mundo a
fim de explorar seus salários mais baixos para atender à procura global. De facto, a
relocalização de várias actividades manufactureiras e do sector de serviços da metrópole
em países do terceiro mundo, especialmente no Leste, Sudeste e Sul da Ásia, sugeriam
agora que mesmo dentro da estrutura do capitalismo mundial estes países poderiam
ainda assim experimentar desenvolvimento económico rápido.

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Tal argumento naturalmente era falho, mesmo no momento em que estava a ser
avançado. A mesma ordem neoliberal sob a qual tal difusão de actividades estava a
ocorrer, da metrópole para o terceiro mundo, também estava a lançar um feroz ataque à
pequena produção e infligia um processo de acumulação primitiva de capital dentro do
terceiro mundo. E, ao mesmo tempo, estava a gerar empregos tão escassos no terceiro
mundo, mesmo quando as taxas de crescimento do PIB dessas economias eram
impressionantes e sem precedentes, que a pobreza em massa realmente se agravou, ao
invés de ser aliviada, apesar desse crescimento elevado.

Mas agora o capitalismo mundial entrou numa nova fase em que até mesmo essa difusão,
como estava a ocorrer na era neoliberal, está a ser restringida. Portanto a própria
premissa do argumento que via o terceiro mundo como a desenvolver-se dentro do
quadro do capitalismo mundial, ou seja, mesmo sem desligar-se do quadro do capitalismo
mundial através de controles adequados de comércio e capital, perdeu sua relevância. O
proteccionismo de Trump pretende precisamente restringir tal difusão da actividade da
metrópole para o terceiro mundo, e isto é apenas um sinalizador do facto de que o regime
neoliberal está agora num beco sem saída.

Trump, deve-se notar, não pretende de modo algum desfazer-se do neoliberalismo. Ao


contrário, ele está a manter o núcleo da organização neoliberal, a qual é mobilidade global
do capital financeiro. Mas ele está a estabelecer restrições ao capital americano (e a
outros capitais metropolitanos, bem como capitais do terceiro mundo) a que localizem
instalações de produção dentro do terceiro mundo a fim de atender à procura americana.
E ele está a compensar o capital americano que seria prejudicado por tais restrições
através de concessões fiscais em grande escala sobre lucros corporativos. As medidas de
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Trump, por outras palavras, são calculadas de modo a não provocar danos ao capital
americano; mas elas certamente impediriam a difusão de actividades da metrópole para o
terceiro mundo que supostamente são o instrumento para inaugurar o desenvolvimento do
terceiro mundo mesmo dentro da estrutura do capitalismo mundial.

As medidas de Trump têm de ser entendidas no contexto da crise que engolfou o


capitalismo mundial no período da globalização neoliberal. Na raiz desta crise está o facto
de que a própria relocalização de actividades das metrópoles para o terceiro mundo tem
mantido baixos os salários reais nas metrópoles. Ao mesmo tempo, isto não elevou os
salários reais no terceiro mundo pois a grandes reservas de trabalho nestes, criadas no
período colonial, longe de ficarem esgotadas, estão a crescer ainda mais. Se bem que o
vector dos salários reais na economia mundial permaneça assim mais ou menos
constante, o vector da produtividade do trabalho aumentou muitíssimo, resultando em um
enorme aumento na fatia de excedente da produção mundial. Isso cria uma tendência à
superprodução na economia mundial, uma vez que a fatia do consumo do excedente é
menor do que a dos salários. Esta tendência, no entanto, foi mantida sob controle nos
EUA devido a dois booms baseados em "bolhas", primeiro a “bolha das dot.com” nos anos
noventa e depois a “bolha habitacional” no início deste século.

Com o colapso da bolha habitacional e sem nenhuma nova bolha a substituí-la, a


economia dos EUA, e com ela a economia capitalista mundial, entrou num período de
crise, provocando descontentamento generalizado em massa e uma ameaça à
estabilidade social do sistema. A classe trabalhadora, já afligida há muito por salários
estagnados, agora tem de enfrentar o fardo agravado do aumento do desemprego.

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A solução de Trump para a crise é a busca daquilo a que economistas chamam a política
do "roubo o meu vizinho" ("beggar-my-neighbour"), a qual equivale a roubar empregos de
outros países, especialmente países do terceiro mundo, a fim de aumentar o emprego nos
EUA. A estagnação na economia mundial, por outras palavras, não está a ser superada.
Mas dentro desta estagnada economia mundial, os EUA estão a tentar melhorar sua
posição a expensas dos outros. Embora isso possa melhorar a posição dos EUA por
algum tempo, até que outros comecem a retaliar, ela não supera a crise do capitalismo
mundial. Ao contrário, quando outros retaliarem, esta crise será agravada ainda mais, o
que só confirma o facto de que o capitalismo neoliberal chegou a um beco sem saída.

Nesta situação desaparecem claramente quaisquer esperanças de que o terceiro mundo


continuasse a ser o beneficiário da difusão de actividades da metrópole e dessa forma
continuasse a crescer rapidamente dentro do quadro do capitalismo mundial. Este
crescimento, como vimos, foi acompanhado por um agravamento da pobreza em massa e
não do seu alívio. Mas agora até esta trajectória de desenvolvimento chegou ao fim.

Os países do terceiro mundo terão doravante de adoptar medidas para desenvolver o seu
mercado interno. Daqui em diante, para qualquer crescimento terão de confiar no mercado
interno ao invés do mercado de exportação, o qual é atingido pela estagnação económica
mundial e pelo proteccionismo dos EUA. Isto exigirá o crescimento da agricultura
camponesa, de maior igualdade de rendimento interno, de um aumento generalizado nos
salários reais, de uma elevação do salário mínimo e de uma activação da despesa estatal.
Uma vez que tais medidas enfrentarão a oposição da finança globalizada, a qual
precipitaria uma fuga de capitais e portanto uma crise financeira, terão de ser postos em
vigor controles de capitais. E como isto é provável que torne muito mais difícil financiar
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défices de transacções correntes das balanças de pagamentos, também terão de ser


instituídos controles de importações.

Contudo, todas estas medidas exigiriam uma mudança na natureza do Estado, na aliança
de classe que o sustenta. Só uma aliança trabalhadores-campesinato que possa sustentar
um estado [poderá] assistir a uma ultrapassagem da crise e estagnação para a qual o
terceiro mundo está a ser inexoravelmente empurrado nesta nova situação, a qual
assinala o beco sem saída do capitalismo neoliberal. E uma vez que a trajectória de
desenvolvimento anunciada por um estado apoiado por uma tal aliança será caracterizada
por um movimento rumo ao socialismo através de etapas, o velho argumento de que o
desenvolvimento do terceiro mundo pode ocorrer só através da busca de um caminho que
conduza ao socialismo readquire uma relevância enfática na nova situação.

21/Outubro/2018

[*] Economista, indiano, ver Wikipedia

O original encontra-se em peoplesdemocracy.in/2018/1021_pd/capitalism-and-third-


world-development . Tradução de JF.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .


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