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Satanismo, a religião da tolerância

Esqueça aquela idéia do satanista usando uma túnica preta, sacrificando animais para rituais
de orgia em uma clínica de aborto clandestina nos fundos de um cemitério, os satanistas atuais
são médicos, advogados, executivos, professores, dentre outros, normalmente profissionais
bem sucedidos em suas áreas de atuação, competentes e influentes. O satanismo moderno
nada tem a ver com “magia negra” ou adoração ao Diabo, é uma religião de individualismo,
autoindulgência e livre de dogmas.
Fundada em 1966 por Anton LaVey, a Igreja de Satã foi a primeira e maior organização de
suporte religioso ao satanismo, junto da Bíblia Satânica, escrita em 1969, que descreve as
crenças e práticas satanistas. Para o Satanismo Laveyano o indivíduo é o centro do próprio
universo, seu próprio deus. Segundo Peter Gilmore (1992), atual líder da Igreja de Satã, “o
Satanismo começa com o ateísmo. Nós começamos com o universo e dizemos: ‘É indiferente.
Não existe Deus, não existe Diabo. Ninguém liga!’ Então você deve tomar a decisão de se
colocar no centro do seu próprio universo subjetivo. Por que, é claro, não é possível ter
contato ativo com tudo que existe. Isso é arrogante e ilusório”.
Mas se os Satanistas não acreditam na personificação de Satã, no que acreditam? O termo
Satã derivou-se da palavra hebraica Ha-Satan, que significa “adversário” ou “inimigo” e da
palavra árabe Shaitan, que quer dizer “exilado” ou “distante”, assim, LaVey utilizou da
terminologia Judaico-Cristã para fundar uma religião que fosse contra os preceitos
dogmáticos cristãos, sem a necessidade de idolatria cega, respeitando os valores humanos mas
sem “oferecer a outra face”.
Toda a história da humanidade foi palco de frequentes crises e conflitos motivados pela
animosidade e agressividade por motivos religiosos (LUPI, 2013). Os terreiros de Candomblé
nas favelas do Rio de Janeiro vem sofrendo constantemente ataques por parte de traficantes
evangélicos, imigrantes muçulmanos estão diariamente sendo hostilizados nos países
europeus em que buscam refúgio, religiões indígenas foram e continuam sendo devastadas por
evangelizadores que dizem trazer a verdadeira salvação, o satanista no entanto não se
preocupa com o outro se o outro não se intrometer em sua vida. Ancorado na moral da lei de
talião, o satanismo prega fazer ao outro o que fizeram com você. Se alguém lhe é gentil, seja
gentil com essa pessoa, mas se lhe faltam o respeito, puna-o severamente.
Por ter influência de filósofos como Aleister Crowley, o Satanismo crê na elevação humana e
no auto-aperfeiçoamento constante. Diferente das religiões como o Cristianismo que prega a
abstinência, a negação do bem estar em vida e a culpa (todos já nascem com o pecado
original) o satanista busca a excelência em sua área, e por mais que não julgue ou proíba
abusos, como admiradores do ser humano e de sua excepcional condição, é da natureza de boa
parte dos membros ter cuidado com seu corpo. Não fumar, não beber em excesso, evitar as
drogas, é uma atitude virtuosa para muitos dos satanistas. Outra grande diferença entre o
Satanismo e as demais religiões é a igualdade entre gêneros, enquanto a bíblia cristã, a torá
judaica e o corão do islã mencionam abertamente que o homem é superior à mulher e que
esta deve subjugar-se a ele, inclusive sexualmente, uma das onze regras satânicas na Terra diz
que não se deve avançar sexualmente a menos que lhe seja dado um sinal positivo (LAVEY,
1969), e isso vale tanto para homens quanto para mulheres. Ao passo que muitas religiões
vêem o estupro como uma prática corretiva/punitiva, o Satanismo o vê como abominação.
Apesar de acreditar que os Pecados Capitais levem à gratificação física, mental e emocional, o
Satanismo possui seus próprios pecados que servem como guia para os praticantes buscarem
uma vida melhor. São eles:
Estupidez - Para o satanista nada é pior do que agir com estupidez e não pensar por si
próprio. Os satanistas precisam aprender a enxergar através do que lhes é dito e não
concordarem em agirem como estúpidos.
Pretensão - Uma postura vazia pode ser muito irritante. Está de pé de igualdade com a
Estupidez por manter o dinheiro circulando nos dias de hoje. Cada um é levado a se sentir
como um fardo pesado, tendo dinheiro ou não.
Solipsismo - Projetar suas reações, respostas e sensibilidades em alguém é provavelmente
bem menos responsável e pode ser muito perigoso para os satanistas. É o erro de esperar que
as pessoas lhe deem a mesma consideração, cortesia e respeito que você naturalmente as dá.
Elas não darão. Ao invés disso, os satanistas precisam concentrar suas energias para aplicar o
ditado "faça com os outros o que eles fazem com você".
Auto-Ilusão - O satanista deve buscar sabedoria e não se iludir com dogmas que lhe são
apresentados, incluindo os papéis que esperam desempenhar.
Conformismo - Não há problema com os desejos de alguém, desde que eles os beneficie.
Mas apenas os tolos seguem o bando, deixando uma entidade impessoal lhe dizer o que fazer.
Falta de Perspectiva - Você jamais deve perder a visão de quem e o que você é, e que
ameaça pode ser, por sua própria existência. Estamos fazendo história agora e a todo
momento, todos os dias. Sempre tente manter uma ampla visão histórica e social na mente.
Negligência da ortodoxia do passado - Esteja alertado que esta é uma das chaves para a
lavagem cerebral das pessoas de modo a aceitar algo diferente e novo, quando na realidade é
algo que já foi aceito mas agora é apresentado numa nova embalagem. Deliramos com a
genialidade do suposto criador e esquecemos do original. Isto forma a sociedade alienada.
Orgulho contraprodutivo - Esta segunda palavra é importante. Orgulho é bom até a hora em
que você começa a jogar o bebê fora junto com a água da banheira. A regra do Satanismo é:
se funciona para você, ótimo. Quando para de funcionar para você, quando você está no canto
da parede e a única saída é dizer "sinto muito, cometi um erro, desejo que possamos nos
ajustar de algum modo", então o faça.
Falta de Estética - Não é o que é supostamente prazeroso: é o que realmente é. Estética é
algo pessoal, reflete a natureza individual, mas existem configurações universalmente
agradáveis e harmoniosas que não devem ser negadas
Assim como as demais religiões, o satanismo possui diferentes correntes com diferentes
crenças e práticas. De fato ainda existem aqueles “Satanistas” que acreditam na Divindade de
Lúcifer e no poder da Magia Negra, o chamado Satanismo Teísta, mas estes são uma minoria
que mais tem a ver com cristãos revoltosos do que com satanismo real.
O mais importante é que, independente da religião (ou da falta dela), haja respeito entre as
pessoas e aceitação para o que é diferente. Devemos olhar um pouco mais para nós mesmos e
tentar melhorar como seres humanos ao invés de ficar julgando os demais e nos tornando
pessoas cada vez piores. Você pode até não concordar com o Satanismo, mas que suas
práticas e filosofias induzem seus praticantes a serem mais condescendentes e educados isso
não resta dúvida, fazendo do Satanismo a religião da tolerância.
Referências Bibliográficas

GILMORE, P. Satanism: The feared religion. Disponível em:


<<http://www.churchofsatan.com/satanism-the-feared-religion.php>> Acesso em 01 de
novembro de 2017.

LAVEY, A. The Satanic Bible. Estados Unidos: Avon Books. 1969. 272 pág.

LUPI, J. Novos movimentos religiosos e religiosidades. In: FLEURI, R. M. et al (orgs)


Diversidade religiosa e direitos humanos: conhecer, respeitar e conviver. Blumenau: Edifurb,
2013. pp 167 - 183.