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PECADOS DE AMOR

Há uma frase que me põe doente, a que fala de “pecados de amor”, e que me parece tão
contraditória como falar de neve escaldante ou de círculo quadrado. Suponho que, com ela, se
queira falar de “pecados de fraqueza” ou de “pecados de desvario sexual”. Mas, porque é que se diz
“pecados de amor” e se faz logo referência à moral católica, quando nenhum Papa, teólogo ou
moralista sério assim falaram? Eu, pelo menos, estou cansado de dizer que não se pode pecar por
amor. Pode pecar-se porque não se ama, ou porque não se ama o suficiente, ou porque se ama mal.
Nunca, porém, por amor! Nunca se ama demasiado. Como se teriam salvo os santos, se eram
precisamente especialistas neste tema?...
Creio que nenhuma palavra foi tão “prostituída” como a palavra AMOR, aplicada tantas
vezes a coisas que nada têm a ver com ele, a sujas aventuras de semi-amor, ou de triste desamor.
Pergunto-me porque é que, agora que se fala tanto de educação sexual, ninguém se atreve a falar de
algo infinitamente mais necessário e mais difícil: a educação no amor. Parece-me óptimo que as
pessoas conheçam bem o mundo do sexo, mas creio que, para isso, bastam uns folhetos e uma gota
de senso comum. Amar, pelo contrário, parece-me a mais difícil das cadeiras, que nem se aprende
nos textos, nem se pode transmitir de mestre a discípulo. Recebe-se a troco de experiência e, além
disso, exige uma aprendizagem de vida inteira, porque não há planta com tamanha capacidade de
reflorescimento como o egoísmo. Se a arte de amar é a maior e a mais difícil de todas, como é
possível que reflictamos tão pouco sobre ela, e não juntemos todos o pouco que sabemos sobre o
tema, a ver se juntos conseguimos aprender a construir um mundo mais caloroso e mais agradável?
Aprender, por exemplo, a distinguir o amor do afecto sensível por outra pessoa, da
admiração, dos desejos de posse do outro, que podem ser fenómenos que prolongam ou coincidem
com o amor, mas que na realidade pouco ou nada têm a ver com ele.
Converso frequentemente com amigos que me dizem que “perderam o amor por
determinada pessoa”. Pergunto-lhes sempre se o que perderam foi o amor ou apenas o afecto
sensível; se o que abandonaram foi a decisão de se entregarem a essa pessoa, ou apenas um certo
agrado a alguns frutos saborosos dessa pessoa. Nunca aceitei que o amor fosse uma coisa que se
pode perder, como se perde um porta-chaves. Os que dizem que se apagou depois dos primeiros
entusiasmos, ou quando perdeu a novidade, é melhor que se interroguem se alguma vez o sentiram.
Aos que me dizem que o homem está a mudar, que mudam o amado e a amada, que as duas pessoas
que hoje se decepcionam não são as mesmas de há dez anos, eu respondo sempre que um
verdadeiro amor não aceita somente a pessoa querida tal como ela é, mas também como ela será.
Um amor verdadeiro não pode ser outra coisa senão uma entrega apaixonada no procurar a
felicidade da pessoa que se ama. O amor tem de ser dom, e só dom, sem pedir nada em troca. É
lógico que o amor origine amor. Temo, porém, que não ame de modo nenhum quem ame “para” ser
amado, quem condiciona o caminho da ida com o preço da volta. Em rigor, como diz Michel
Quoist, “o amor é um caminho em direcção única: parte sempre de ti para os outros. Todas as
vezes que retiveres alguém ou alguma coisa para ti, deixas de amar, pois deixas de dar: caminhas
na contramão.”
Desse tipo de “amores na contramão”, diz a moral que são pecaminosos; mas não o diz do
amor verdadeiro. O Evangelho nunca se oporá a um verdadeiro amor; opõe-se sim a essa armadilha
dos que dizem que amam, quando em rigor apenas se amam a si mesmos.
Amar é, exactamente, sair de si mesmo, “perder o pé” em si mesmo, “descentrar-se” no
melhor sentido da palavra. Têm razão os que unem amor e loucura porque, efectivamente, o amor
verdadeiro põe as pessoas “fora de si”, para as “re-centrar” noutra pessoa, noutra tarefa, ou num
ideal mais elevado.
Sublinho estas três variantes, porque seria ingénuo acreditar que o único amor que existe é o
que nasce num homem concreto com uma mulher concreta, e vice versa. Há tantas outras formas de
amor não menos elevadas! Porquê, senão por amor, trabalha o investigador que faz o seu trabalho
como autêntica vocação? O que é, senão o amor, que arrasta os missionários para terras longínquas?
Quem, mais do que o amor, aquece as lareiras, sustenta as artes, e “move” (como dizia Dante) o sol
e as estrelas?

Confesso que sempre me meteu um pouco de medo essa velha fórmula que diz que Deus
criou o homem para Sua glória. Não porque a fórmula não seja verdadeira, mas porque nem sempre
se explica que a glória de Deus é a felicidade do homem; e alguém poderia pensar que Deus fez o
mundo e a Humanidade num acesso de egoísmo infinito. Felizmente, Deus é anti-egoísta. A Criação
é o Seu próprio transbordar. Nunca fez outra coisa. Mesmo quando perdoa a todos aqueles que,
entre hipócritas e ingénuos, disfarçam com o nome de “pecado de amor” os seus acessos de
egoísmo. Foi graças a isso que alguém escreveu que “ser crente é estar seguro de que nos esperam
magníficas surpresas”, como a de descobrir, por exemplo, que somos muito mais amados do que
quanto nos atreveríamos a imaginar.

José Luís Martín Descalzo, “ Razões para a alegria”, Cucujães, Ed. Missões, 1992, pp. 75-7