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INCUBADORA TECNOLÓGICA DE COOPERATIVAS POPULARES - ITCP

PRÓ REITORIA DE CULTURA E EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA - PRCEU

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO - USP

Economia Solidária e Agroecologia: fortalecimento do espaço e da

produção no Assentamento Irmã Alberta e sensibilização das comunidades no

entorno.

Projeto de

Extensão apresentado ao

Programa Unificado de

Bolsas da Pró-Reitoria de

Graduação da

Universidade de São

Paulo.

São Paulo
2017

1. Resumo

O presente projeto de extensão propõe o acompanhamento, documentação,

sistematização e desenvolvimento de atividades educacionais relacionadas à

produção agroecológica e ao desenvolvimento de infraestrutura no Assentamento

Irmã Alberta, em São Paulo. Com o intuito de fortalecer e aumentar a produção de

orgânicos e ajudar no desenvolvimento de infraestrutura básica, serão realizadas

formações e atividades práticas dentro do assentamento, tais como a construção de

hortas e composteiras e o desenvolvimento de técnicas de saneamento básico.

Além disso, serão realizadas atividades de sensibilização com as comunidades do

entorno do assentamento, a fim de sensibilizar a população e promover espaços

para a realização de feiras de Economia Solidária, atividades culturais e venda de

produtos orgânicos.

Para isso, através da prática extensionista, o projeto se propõe a formar

as/os bolsistas sobre os princípios da Economia Solidária e no tema da

agroecologia através da participação na Incubadora Tecnológica de Cooperativas

Populares da Universidade de São Paulo (ITCP-USP), dar seguimento ao trabalho

que a ITCP-USP já vem realizando nessa área, juntamente com o coletivo GAIA

(grupo de apoio ao Irmã Alberta) fomentando a economia solidária e geração de

renda no assentamento.

2. Finalidade e relevância, com síntese da bibliografia fundamental


A urbanização no Brasil ocorreu desordenadamente chegando a ganhar

entre 1940 e 2000 125 milhões de novos habitantes nas cidades(MARICATO,

2002). Além disso, a lógica rodoviáriarista dominou a primeira metade do século

XX, ligada aos interesses do processo de industrialização, que acabou por atrair

massas de imigrantes, muitas vezes destituídos de bens ou educação formal.

No entanto, essa industrialização se deu sem a alteração das relações de poder e

realização de reforma agrária, diferentemente da que ocorreu em muitos países

europeus e norte-americanos. A dureza da vida no campo, decorrente de uma

péssima distribuição de terra e poder, impulsionou o êxodo rural e, por

consequência, o grande inchaço metropolitano. Tudo isso foi agravado pelo

processo de modernização agrícola conhecido como “Revolução Verde”, que

eliminou muitos postos de trabalho e reproduz intrinsecamente em suas proposta

tecnológica o paradigma da monocultura, trazendo sérios daos socioambientais

(ALTIERI, 2012).

Essa metropolização ocorreu através da ocupação das periferias, carentes de

serviços e equipamentos urbanos. Assim como em outros países latino-americanos,

a péssima condição em que os imigrantes se estabeleceram nas cidades teve

por consequência vários dos problemas que vivenciamos atualmente: favelas, a

chamada “violência urbana”, o aumento da predação ambiental, a precária

mobilidade urbana e a ocupação desordenada do espaço, entre outros.

(MARICATO, 2002). Atualmente, com a ocupação das periferias já consolidada, o

avanço da urbanização se dá sobre as áreas que antes serviam de cinturão verde,

recreação, controle do microclima local e reposição de bacias hidrográficas, entre


outras coisas. Essa expansão do urbano sobre o rural produz áreas que são

conhecidas como periurbanas, com mistura e sobreposição tanto de usos do solo

quanto de relações sociais. O periurbano é um espaço certamente complexo que

não pode ser subdividido em partes classificáveis como estritamente urbanas ou

rurais, sendo sua característica o dinamismo das atividades econômicas e das

relações sociais no local causados pelos conflitos entre diferentes pressões e

interesses que permeiam esses territórios (VALE e GERARDI,2006).

As regiões periurbanas das grandes metrópoles têm uma forte vocação de

produção rural, o que é de extrema importância socioambiental para as cidades.

Além disso, podem cumprir importantes funções de preservação ecológica ao adotar

a produção de alimentos nos moldes da agroecologia, que promove a

biodiversidade e o manejo orgânico com base nos conhecimentos dos

ecossistemas em detrimento do uso de agrotóxicos e das monoculturas. Segundo

Rodrigues (2006) et al, “o Cinturão Verde tem essa vocação e hoje é uma

das principais regiões de produção orgânica do país. Além disso, a opção

agrícola em regiões periurbanas é vista como alternativa ao inchaço das

grandes cidades”. Isso demonstra a importância de se atentar para a

preservação ambiental periurbana, considerando o homem como fator integrado

ao meio ambiente e pensando nos usos adequados da terra e do solo.

A agricultura familiar, caracterizada por propriedades menores e mais

descentralizadas, é responsável no Brasil por produzir itens da alimentação básica

da população, ao contrário das grandes propriedades do agronegócio, que

produzem em geral commodities voltadas para exportação. Segundo o Censo

Agropecuário do IBGE de 2006, a agricultura familiar foi responsável naquele ano


por 87,0% da produção nacional de mandioca, 70,0% da produção de feijão,

46,0% do milho, 38,0% do café, 34,0% do arroz, 58,0% do leite; possuíam

59,0% do plantel de suínos e 50,0% do plantel de aves. Além disso,

constituíam 84,4% dos estabelecimentos rurais brasileiros; no entanto apenas 80

250 453 hectares (24,3% das áreas agropecuárias nacionais) estavam ocupados

pela agricultura familiar, enquanto que os estabelecimentos não-familiares (15,6%

restantes) ocupavam 249 690 940 hectares, ou seja, 75,7% das áreas utilizadas por

atividades agropecuárias (Censo Agropecuário de 2006 – IBGE).

Segundo Pérez et al. (2014), esse tipo de agricultura que se instala nas

regiões periurbanas, nos cinturões verdes metropolitanos, em decorrência da

escassez de terras (geralmente muito caras), inviabiliza a produção em larga

escala. Em geral são famílias em situação de vulnerabilidade, movidas pela

necessidade. Isso só ressalta a importância dessa produção, que ainda apresenta o

importante fator de estar próximo dos grandes centros consumidores e reflete a

importância de se pensar em estratégias para esse setor, tanto na aproximação da

produção com o consumo, quanto em desenvolvimentos de tecnologias na

matriz agroecológica, que promovem a reprodução dos agroecossistemas,

diminuindo a emissão de GEE's, aumentando o sequestro desses gases através de

suas práticas (que evitam, por exemplo, o uso da calagem, importante fonte de

emissão). A agroecologia é uma forma de produzir tecnologia que não parte de uma

visão meramente positivista, mas sim de uma visão integrada dos recursos naturais.

O ser humano não precisa competir com a natureza para extrair o melhor dela, mas

sim conhece-la e trabalhar junto com ela, usando os ciclos e processos naturais, a
sinergia entre espécies e os recursos locais à favor da produtividade (ALTIERI,

2012). Por isso é muito mais adequada à escala da agricultura familiar, que não se

propõe a plantar extensas monoculturas com fins de comercialização no mercado

externo, mas sim a alimentar a população antes de mais nada.

Os assentamentos da reforma agrária são territórios onde os agricultores

familiares produzem alimentos orgânicos que abastecem a capital, sendo esta sua

principal fonte de renda. Outras atividades produtivas, entretanto, são realizadas

informalmente por alguns assentados e filhos de assentados - a maioria nas cidades

-, como fonte alternativa e/ou suplementar de renda. Essa prática de buscar

trabalhos informais nas cidades é considerada perversa em relação à permanência

dos jovens no campo e, consequentemente, à reprodução do campesinato

(OLIVEIRA, 2007), e em relação à segurança alimentar e à função social da terra de

produzir alimentos para a cidade. O estímulo à cooperação autogestionária, na

égide da Economia Solidária, voltada para a produção de alimentos nas áreas

coletivas desses assentamentos, através da tecnologia agroecológica, é uma

estratégia importante para a permanência e o fortalecimento dos assentamentos. As

atividades educacionais dentro do assentamento são importantes para o

reconhecimento do valor do trabalho, e essenciais fora do assentamento, para que

as comunidades no entorno participem e criem redes de articulação entre ambos.

A Economia Solidária é uma proposta de modelo de produção caracterizado

pela igualdade de direitos entre os trabalhadores, pela posse coletiva dos meios de

produção e pela organização autogestionária, isto é, os Empreendimentos de

Economia Solidária (EES) são geridos pelos próprios trabalhadores, de forma

democrática: cada membro do empreendimento tem direito a um voto. Juntas, essas


características se apresentam como uma forma de evitar a alienação do trabalho

presente nos empreendimentos capitalistas, onde ocorre a heterogestão das

atividades produtivas (SINGER, 2002). Grande parte dos EES são formados por

pessoas em situação de vulnerabilidade, representando uma alternativa de geração

de renda e de combate ao desemprego. Entre os tipos de EES encontram-se

Cooperativas de Produção, Cooperativas de Comercialização, Grupos de Consumo

Responsável, Bancos Comunitários, Feiras de Troca e Incubadoras Tecnológicas de

Cooperativas Populares. Nesse contexto, a Economia Solidária se dá pelo o resgate

das experiências históricas dos trabalhadores materializado em relações mais

humanizadas de trabalho e alternativas sustentáveis de produção.

As atividades de extensão universitária são um processo de produção de

conhecimento verdadeiramente dialético, no sentido de que é uma relação

permanente entre sujeitos, na qual ambos os sujeitos se transformam mutuamente

criando o novo (FREIRE, 1983). Os estudantes extensionistas e a comunidade se

desenvolvem um ao outro, com forte caráter pedagógico e formativo para ambos,

relacionando e valorizando os diferentes saberes que se unem, rompendo os limites

das disciplinas e das linguagens, enquanto a universidade pode e deve levar os

conhecimentos que produziu, mas de forma democrática. Reconhecer o outro

enquanto sujeito é reconhecer que o outro também produz saber e conhecimento,

que o outro sempre terá algo para ensinar (FREIRE, 2005). Além de aprender e

ensinar com o outro, construindo um saber novo e democrático, a extensão

universitária se propõe a trazer para a academia temas de pesquisa muitas vezes

ignorados pela falta de contato entre a universidade e o povo, processo que se deu

historicamente através da elitização da universidade pública (MELO NETO, 2002). É


a partir dessa definição de Extensão Universitária que a Incubadora Tecnológica de

Cooperativas Populares se propõe a trabalhar, nunca se colocando nem acima nem

abaixo do povo, mas sempre ao lado, se esforçando por trazer o que comunidade e

universidade tem de melhor.

3. Objetivos

O projeto tem como objetivos:

● A formação dos bolsistas sobre o tema da Economia Solidária e agroecologia

através de um grupo de estudos na ITCP

● Sistematização do processo de produção cooperada e comercialização dos

assentados, como uma estratégia de permanência no campo e de

reprodução do campesinato;

● Realização de atividades educacionais e oficinas dentro e fora do

assentamento, através de formações sobre economia solidária, agroecologia,

viabilidade econômica e comercialização e contribuam para o

desenvolvimento de técnicas de melhoria da infraestrutura.

● Sensibilização das comunidades no entorno do assentamento para

articulação de espaços em que se possa realizar uma feira de Economia

Solidária, cultura e venda de alimentos orgânicos.

4. Materiais e métodos, quando pertinente


Os 6 (seis) bolsistas irão realizar o projeto de extensão através da

metodologia dialógica e participativa de Incubação da ITCP-USP, esse trabalho

ocorre sempre em duplas, pois isso permite que enquanto um bolsista estiver se

comunicando mais com o grupo, outro possa prestar atenção nas reações e,

adicionalmente, sistematizar em anotações o que estiver absorvendo daquele

momento. Além disso, o trabalho em dupla permite a elaboração das impressões no

espaço da preparação de campo, a busca por qualificação do trabalho, de

construção de conhecimentos correlatos aos campos e de apoio mútuo.

5. Ações e detalhamento das atividades a serem desenvolvidas pelos

bolsistas

Durante o primeiro semestre do projeto:

- Durante as duas primeiras semanas do projeto, participar de formações sobre

Economia Solidária juntamente com os outros grupos de estudos presentes

na ITCP

- Participar semanalmente de um grupo de estudos em Agroecologia com base

na bibliografia fundamental e orientação de formadores da ITCP

- Participar semanalmente de formações em Economia Solidária e Autogestão

e estudo de metodologias da ITCP

- Sistematizar debates e discussões


- Participar de um encontro mensal de todos os grupos de estudos da ITCP

para troca de experiências e sistematização.

Durante o segundo semestre do projeto:

- Através de processos de diagnóstico participativo, juntamente com o coletivo

GAIA, construir um cronograma de formações, atividades e mutirões com os

assentados, para trabalhar questões de gestão cooperativista, tal como

organização da produção, técnicas e manejo agroecológico, desenvolvimento

de técnicas de infraestrutura e planejamento de construção de horas,

composteiras através de atividades educacionais

- Preparar formações e estratégias para sensibilização da comunidade do

entorno do assentamento, a fim de estreitar as relações da população local

com o assentamento e articular espaços de organização em que pode ser

realizada uma feira de Economia Solidária, Cultura e venda de alimentos

orgânicos

- Preparar uma formação nos temas de Agroecologia e Economia Solidária

para os demais grupos de estudos, pesquisa e extensão da ITCP.

- Sistematização de experiências

- Escrita do relatório final

6. Resultados esperados e indicadores de acompanhamento


Espera-se como resultado:

- Formação dos bolsistas nos temas de Economia Solidária e Agroecologia

- Realização de mutirões no assentamento que contribuam para a construção

de hortas, composteiras e sistemas de saneamento básico

- Realização de oficinas educacionais juntamente com o coletivo GAIA

- Sensibilização da comunidade no entorno do assentamento e realização de

feiras

- Escrita do relatório final do projeto

- Troca de conhecimentos entre estudantes universitários e assentados,

possibilitando a construção de novos temas de pesquisa que sejam

relevantes para essa população.

7. Cronograma de execução

Ações/Meses Set Out Nov Dez Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago

Acompanhamento dos x

bolsistas e formação em

economia solidária com

os demais grupos de

estudos, pesquisa e

extensão da ITCP

Estudo, debates e x x x x x x x x x x x
sistematizações no tema

de agroecologia com

base na bibliografia

fundamental

Estudo, debates e x x x x x x x x x x x

sistematizações no tema

de Economia Solidária

com base na bibliografia

fundamental

Visitas ao x x x x x

campo/formações

Produção do relatório x

final

8. Outras informações que sejam relevantes para o processo de avaliação.

A Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares da USP (ITCP-USP) é um

programa de extensão vinculado à Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária

e realiza atividades formativas em Economia Solidária e incuba empreendimentos

econômicos solidários (EES) que atuam nas áreas da Agricultura Familiar, Saúde

Mental, Alimentação E Segurança Alimentar e Nutricional, Resíduos e Artesanato.


Existe desde 1999 a partir da ideia de extensão universitária fortalecimento

empreendimentos com interesse econômico (voltados para geração de renda,

consumo e crédito) que se proponham a trabalhar de forma democrática, na

perspectiva da Economia Solidária. Vários professores importantes da instituição já

trabalharam ou trabalham com projetos vinculados à ITCP, fazendo funcionar o tripé

ensino, pesquisa e extensão da universidade, onde cada eixo fortalece os outros.

9. Referências Bibliográficas

ALTIERI, M; Agroecologia: Bases científicas para uma agricultura ecológica.

São Paulo, 2012.

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