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ESCRITOR QUE ESCREVE LIVRO

[O encavalamento de poemas no livro Muertes y maravillas do Jorge Teillier é um exemplo do que


eu não quero em um livro de poemas]

Laura Cohen

Durante a minha graduação, fui dar uma passeada no curso de restauração e fiz uma matéria que
devia ser uma opção no curso de letras – História do livro. Resumidamente, trata-se uma disciplina
que estuda como o objeto-livro (com suas variações anteriores e posteriores) é composto, usado,
editado, manuscrito, impresso e até mesmo destruído ao longo do tempo. A professora, Ana Utsch,
dizia uma coisa que ficou na minha cabeça: escritor não escreve livro, escritor escreve texto. É
verdade: a maioria dos autores faz só o texto do livro, e depois disso somos amparados por uma
pequena multidão de atividades no âmbito do texto (preparação, copidesque, revisão) e no âmbito
do livro (ilustração, diagramação, encadernação).

Ultimamente tenho gostado de uma coisa que tem acontecido, uma autonomia dos desejos dos
escritores para compor o objeto-livro – meu caso com o História da água, que só dei dor de cabeça
para todo mundo, ou do meu amigo Marcos Assis, que com ajuda do amigo designer Matheus
Ferreira, fez o seu Ano do chumbo, um livro todo feito à mão e encapado de lixa d’água, ficou coisa
linda. Isso só para citar dois. Por outro lado, eu ando gostando muito de ser escritora que escreve
texto, terceirizando as questões gráficas. Mas faço assim apenas porque tenho plena confiança nas
pessoas que estão me publicando: eles sabem que eu amo coisas bem simples e fontes serifadas,
por exemplo. Acho que se eu fosse publicada por outra editora no momento, eu ficaria igual a um
urubu rondando o projeto gráfico, o tamanho da fonte, a ilustração da capa.

Acho que nós escritores podemos escrever só o texto sim, mas acho que é necessário ter um pouco
de consciência a respeito do objeto livro. Por exemplo: vivo recebendo textos digitados no word sem
nenhuma consciência de que aquele texto torna-se objeto, ou pior: me mandam o texto no bloco de
notas (alô, pessoal, 2016, ok?). Recebo livros de poesia cujos poemas estão colocados um após o
outro – insisto, nesse caso, que deveríamos colocar um poema por página, para dar um “respiro”
entre eles. É horrível pegar um livro de poesias cujos poemas vão se encavalando – começa um
poema e logo depois outro poema, e depois mais outro poema até o fim. Muitas editoras acabam
assumindo isso para economizar papel, daí o livro de poesias acaba ficando com certo aspecto de
dicionário, não dá para ler com o coração tranquilo. Também é triste quando recebo o texto e não há
o nome do autor na página – a gente precisa pensar até como vai ser o nosso nome de escritor
porque ele também é importante.

O que eu mais gosto de fazer (e sugiro) é que a gente componha o texto como se estivesse
compondo um esboço de livro – fazer uma capinha com o nome do livro e o seu nome embaixo,
depois uma página inteira para epígrafe e uma página inteira para a dedicatória (se elas existirem),
em seguida, o texto. Se eu quero que entre os capítulos exista um título, tenho que pensar se ele vai
lá no topo da página ou se o título vai aparecer sozinho página individual. Se for numerado, deixar
os números segundo o meu desejo. Acho que se eu escrevo “capítulo um” dá certo ar antigo, muito
formal, se eu escrevo “um”, a coisa fica meio modernosa, se escrevo “1”, estou sendo minimalista e
discreto, e se eu escrevo “I”, estou numa onda meio clássica, daí tenho que pensar se aquele
capítulo numerado tem um aspecto formal, moderno, se precisa ser discreto ou mais clássico. Isso
tudo faz diferença na composição do texto, mesmo que seja uma diferença pequena, é uma questão
de ritmo e continuidade. Outra coisa a se pensar são os livros que não são numerados e cujos os
capítulos recebem apenas nomes: fiz assim no História da água, capítulos cujos títulos se repetem,
mas que não apresentam números porque não é um livro linear, mas um livro que se embaralha no
tempo.

Estou dizendo isso porque acho que a gente precisa ter alguma autonomia na forma – não dá pra
pensar que a forma só influi no conteúdo, mas a forma é parte do conteúdo – e a gente consegue
chamar a atenção fazendo livro bonito (eu sei que vocês entram nas livrarias e ficam lá cheirando os
livros da Cosac Naify, julgando o livro pela capa). Escrevendo o texto como se fosse um livro, a
gente pode ajudar o designer e o designer do livro pode acabar ajudando a gente. Da mesma forma
que escrever é uma questão de desejo, publicar pode ser uma questão de desejo.

P.S.: Se você se interessa em publicar não só no formato livro, confere o nosso novo curso
Intervenção urbana e outras publicações independentes!

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