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RESENHA – DOI: http://dx.doi.org/10.15689/ap.2017.1603.

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Teoria e Prática em
Avaliação Psicológica
João Lucas Dias-Viana1
Universidade São Francisco, Itatiba-SP, Brasil

Esta resenha propõe-se a apresentar o livro de Resposta ao Item (TRI) no desenvolvimento de ins-
“Avaliação Psicológica: Aspectos teóricos e práticos”, trumentos. Discutem, ainda, sobre a formação em AP e
organizado pelas pesquisadoras e professoras Manuela o uso de métodos estatísticos na construção e validação
Ramos Caldas Lins e Juliane Callegaro Borsa. A obra de instrumentos. No quarto capítulo, “Tipos de testes:
é composta por textos de autoria de diversos pesquisa- características e aplicabilidade”, Adriana Jung Serafini,
dores brasileiros que buscam discutir a teoria e a prá- Carine Budzyn e Tainá Ludmila Fonseca apresentam ao
tica em Avaliação Psicológica (AP). O livro possui 477 leitor a definição de teste psicológico, as características
páginas, 31 capítulos e foi organizado em três partes. técnicas necessárias que o teste deve possuir, apresen-
Na primeira parte (cap. 1 a 14), os autores abordam tam a definição de instrumentos psicométricos e proje-
aspectos teóricos da AP, qualidades psicométricas dos tivos, e a aplicabilidade dos testes em diversos contextos
instrumentos, questões éticas e de formação em AP, ela- de atuação profissional.
boração de documentos e competências profissionais. No quinto capítulo, intitulado “Instrumentos psico-
Questões relacionadas à avaliação de crianças e adoles- lógicos informatizados”, Caroline Reppold e Léia Gurgel
centes, adultos, idosos e de pessoas com deficiência vi- realizam um apanhado histórico da testagem informati-
sual são abordadas na segunda parte do livro (cap. 15 a zada, sua construção, desenvolvimento e as vantagens e
22). A utilização da avaliação psicológica nos contextos desvantagens na utilização desse tipo de avaliação. A au-
clínico, do trânsito, do esporte, forense, hospitalar, da tora destaca a necessidade de estudos de evidências de
orientação profissional e do psicodiagnóstico é discuti- validade para testes informatizados, por ser Avaliação
da na terceira parte (cap. 23 a 30). Psicológica Informatizada uma tendência para o futuro.
No primeiro capítulo, “A diferenciação entre ava- No sexto e sétimo capítulo, “Critérios para a esco-
liação psicológica e testagem psicológica: questões emer- lha de testes psicológicos” (Lucas de Francisco Carvalho
gentes”, Josemberg Moura de Andrade e Hemerson & Rodolfo Ambiel) e “Competências e cuidados para
Fillipy Silva Sales apresentam as diferenças entre testa- a administração da Avaliação Psicológica e dos testes
gem e avaliação psicológica, destacando que esta é um Psicológicos” (Monaliza Muniz), os autores elucidam
processo que envolve diversas técnicas e métodos, não questões fundamentais para a utilização do teste psico-
restritas ao uso exclusivo de testes. Nessa mesma pers- lógico numa AP, a saber, construto, público-alvo, nature-
pectiva, “Avaliação Psicológica: o papel da observação e da za e formato do teste, propriedades psicométricas. Além
entrevista”, segundo capítulo, Maria Lucia Tillet Nunes, disso, destacam a importância de o psicólogo ter domínio
Luciana Lorenço e Rita de Cássia Teixeira apresentam e do instrumento que utiliza para uma prática eficaz e as
discutem as técnicas de observação e entrevista, destacan- competências teóricas, técnicas e éticas que o profissional
do a sua importância na coleta de dados em um processo deve possuir para realizar AP.
avaliativo. Em “Validade e precisão de instrumentos de avalia-
“Aspectos Históricos da testagem psicológica: con- ção psicológica” (Rodolfo Ambiel & Lucas de Francisco
texto internacional e nacional” é o terceiro capítulo Carvalho) e “Padronização e interpretação dos resulta-
da obra. José Maurício Haas Bueno e Mirela Dantas dos” (Fabiano Koich Miguel), o leitor é apresentado às
Ricarte apresentam a Psicometria e sua importância qualidades psicométricas que os instrumentos devem
para o desenvolvimento dos primeiros testes psicoló- possuir. Os objetivos principais desses capítulos são:
gicos e seus respectivos usos, o surgimento da testagem apresentar as definições desses conceitos, quais os méto-
psicológica no Brasil e as atuais contribuições da Teoria dos utilizados para obtenção das qualidades psicométricas

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Endereço para correspondência: Rua Waldemar César da Silveira, 105, Jardim Cura D'ars, 13045-510, Campinas, SP.

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Teoria e Prática em Avaliação Psicológica

e a importância destas no trabalho do psicólogo quanto à “Avaliação infantojuvenil: emoções, afetos e comporta-
compreensão e interpretação dos resultados obtidos nos mentos”, Paula Cassel, Alice Brunnet e Adriane Arteche
testes psicológicos. abordam a relação entre emoções e comportamento, e a
No décimo capítulo, “A importância da Psicometria importância da avaliação destas na predição da trajetória
na Avaliação Psicológica”, Hudson Golino apresenta a do desenvolvimento de crianças e adolescentes. As au-
história da AP, a psicometria e a teoria da medida, as fases toras destacam a insuficiência de instrumentos validados
epistemológicas dos processos avaliativos, o conceito de para a avaliação da população infantojuvenil no Brasil.
validade estrutural e os cinco modelos de estrutura (mo- Adiante, “Avaliação Psicológica de crianças e adoles-
delo reflexivo unidimensional, de traços correlacionados, centes com suspeita de abuso sexual”, décimo sétimo ca-
hierárquico e bifatorial). O autor encerra o capítulo com pítulo, escrito por Ana Celina Albernoz, o leitor encontra
a demonstração de um caso, no qual foi realizada análise informações sobre contribuições da AP em situações de
da estrutura de um instrumento e concluiu-se que o teste suspeita de abuso sexual de menores, as dificuldades na
era utilizado de forma errada. realização desse processo, a ética profissional requerida e
Em “Critérios de cientificidade dos métodos pro- quais instrumentos utilizados. A autora encerra o capítu-
jetivos”, Lucila Cardoso e Anna Elisa Villemor-Amaral lo destacando a escassez de instrumentos que atendam a
apresentam o conceito de métodos projetivos e a relevân- essa demanda.
cia deles na investigação do funcionamento da personali- No décimo oitavo capítulo, “Avaliação do autismo:
dade humana. As autoras debatem acerca da cientificida- do rastreamento ao diagnóstico”, Mariana Seize e Juliane
de dos métodos, que receberam severas críticas quanto à Borsa abordam historicamente o conceito de autismo,
falta de cientificidade e apresentam pesquisas brasileiras a etiologia e epidemiologia do transtorno, os critérios e
que evidenciam as qualidades psicométricas dos testes instrumentos utilizados para rastreamento e diagnósti-
Zulliger, Pfister, HTP e CAT-A. co do autismo. As autoras destacam que o diagnóstico é
No décimo segundo capítulo, “Documentos de- complexo e os instrumentos são essenciais no processo
correntes de Avaliação Psicológica”, Vivian de Medeiros de avaliação. No Brasil, segundo as autoras, são escassos
Lago apresenta ao leitor os modelos de atestado, declara- os instrumentos que atendam a esse objetivo.
ção, laudo e parecer, apresentando a estrutura de cada um, Em “Avaliação da inteligência emocional em adul-
suas finalidades e os princípios norteadores da elaboração tos” (José Haas Bueno, Angélica Castro & Fernanda
documental. A autora ressalta que o aprimoramento da Correia) e “Avaliação psicológica de adultos: especificida-
qualidade desses documentos se dá ao longo experiên- des, técnicas e contextos” (Sérgio de Oliveira & Mônia da
cia prática do psicólogo No capítulo seguinte, “Aspectos Silva), os autores discutem a AP de adultos e os principais
éticos na avaliação psicológica”, Fernanda Queiroz, Joyce objetivos do processo. Abordam a avaliação das funções
Segabinazi e Juliane Borsa destacam importância da for- cognitivas, da memória, atenção, interesse, funciona-
mação em AP para a prática profissional qualificada e mento emocional, personalidade e sintomas psicopato-
refletem acerca da responsabilidade do profissional que lógicos em adultos e os principais testes utilizados nos
realiza AP quanto à tomada de decisão e seus impactos contextos de aplicação.
sobre o sujeito avaliado. No vigésimo primeiro capítulo, “Avaliação Psicológica
No décimo quarto capítulo, “A formação em ava- do idoso: aspectos cognitivos e emocionais”, Candice
liação psicológica no Brasil”, Juliane Borsa e Joice Holderbaum e Gabriela Wagner abordam aspectos psi-
Segabinazi discutem a formação em AP, as competên- cológicos do envelhecimento, as particularidades da AP
cias que os alunos deveriam adquirir na graduação em com idosos, na qual as principais demandas por avaliação
Psicologia e a relevância de experiências práticas, não são relacionam-se à atenção, memória, ansiedade, depres-
apenas disciplinas teóricas sobre o assunto. Nesse sen- são. Apresentam instrumentos brasileiros aprovados pelo
tido, as autoras apresentam a importância da simulação Sistema de Avaliação de Testes Psicológicos (SATEPSI)
para que os alunos vivenciem em situação de aprendi- e tarefas neuropsicológicas com normas para idosos, que
zagem o processo de Avaliação Psicológica e adquiram avaliam cognição e aspectos emocionais. As autoras des-
maior domínio e segurança para realizarem AP na prática tacam que a demanda por avaliação de idosos é crescente,
profissional. tendo em vista o aumento desta parcela da população.
Em “Avaliação de crianças e adolescentes: aspectos “Avaliação cognitiva de pessoas com deficiên-
cognitivos”, décimo quinto capítulo, Emmy Pires apre- cia visual”, vigésimo segundo capítulo, Manuela Lins,
senta o conceito de cognição, os aspectos relevantes a Bartholomeu Tróccoli e Luiz Pasquali apresentam o
serem observados na realização de AP com crianças e conceito de deficiência visual, que compreende pessoas
adolescentes, orientações para a entrevista clínica e ana- cegas e com baixa visão. Os autores afirmam que alguns
mnese, o papel da atividade lúdica, e uma lista de instru- testes padronizados para videntes podem ser utilizados
mentos que avaliam atenção, aprendizagem e memória, com deficientes visuais, apontando pesquisas brasileiras
linguagem, funções executivas, habilidades visuocons- que tiveram esse objetivo. Por fim, apresentam pesquisas
trutivas e processos intelectuais. No capítulo seguinte, de instrumentos em desenvolvimento para avaliação da

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Dias-Viana, J. L.

inteligência dessa população específica e apontam que, éticos necessários à atuação, caracterizam a prática em AP
até o momento, a entrevista e observação são as alterna- nesses contextos, os principais instrumentos utilizados,
tivas mais viáveis. as limitações de cada área, bem como as possibilidades
Os capítulos 23 a 30 abordam a prática da AP inse- para futuras melhorias e desenvolvimento.
rida em diversos contextos de atuação profissional, res- Por fim, a obra apresenta discussões pertinentes
pectivamente, Clínica (Makilin Nunes Baptista, Nelson quanto à Avaliação Psicológica no Brasil, abordando te-
Hauck Filho, & Lisandra Borges), Organizacional mas como ética, formação, competências profissionais,
(Daniela Pereira), Trânsito (Fabian Rueda & Jocemara AP em contextos específicos e orientações à prática pro-
Mognon), Esporte (Daniel Bartholomeu, José Montiel, fissional. Apresenta-se como um recurso didático, de fá-
& Afonso Machado), contexto Legal (Sonia Rovinski), cil compreensão e importante fonte de informações para
Hospitalar (Beatriz Schimidt, Simone Bolze, & Maria alunos de Graduação em Psicologia, psicólogos, bem
Crepaldi), Carreira e Psicodiagnóstico Interventivo como pesquisadores do assunto, por abordar desde os
(Marúcia Bardagi & Mariana Nunes). Os autores contex- conceitos centrais até orientações a prática profissional
tualizam as áreas de atuação, os conhecimentos técnicos e em AP.

Referência

Lins, M. R. C., & Borsa, J. C. (Eds.). (2017). Avaliação Psicológica: Aspectos teóricos e práticos. Petrópolis, RJ: Vozes.

recebido em maio de 2017


aprovado em setembro de 2017

Sobre o autor

João Lucas Dias Viana é Psicólogo, Graduado em Psicologia pela Universidade Estadual do Ceará. Mestrando em Psicologia, com
ênfase em Avaliação Psicológica, pela Universidade São Francisco.

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