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A humanidade em xeque?

Henrique Schutzer De1 Nero

O campeão mundial de xadrez perde para um computador e a humanidade pensa estar em xeque. Será o xeque-mate? Não, ainda vai deinorar alguin teinpo para que esse risco deva ser levado a sério. O momento é de dirimir dúvidas antropoinórficas sobre a emergência de raciocínio e inteligência em máquinas. Para isso, é preciso que entendamos a correta relação entre cérebros e coinputadores.

A analogia entre o coinputador Deep Blue e Kasparov é indevida: o primeiro faz milhões de cálculos por segwndo, usando uma lógica digital (sim ou não, O ou 1); o segwndo utiliza uma forma analógica de processainento (todas as gradações possíveis entre wn número e outro, incluindo aí o O e o 1). O processainento analógico somado a simultaneidade de inúltiplos canais dota o cérebro de capacidades insuspeitáveis a Deep Blue. O digital, somado a velocidade do chip de sílica, é capaz de nos derrotar no xadrez. Nas metáforas, alegorias, cenários coinplexos e, sobretudo, na capacidade de engendrar sociedade e moral, ainda não.

Algumas dicotoinias são fundamentais para que se entenda a diferença entre o cérebro humano, dotado de inente e personalidade, e o coinputador Deep Blue. Deep Blue tem uin conjunto harmônico de processadores centrais comandando suas operações; Kasparov não tein qualquer sucedâneo de controlador central. Deep Blue tem ineinórias com endereços claros, sensíveis à destruição por qualquer curto-circuito; Kasparov tem ineinórias distribuídas por grande parte de seu cérebro, o que faz com que resista ao envelhecimento sein que coin isso se apaguem arquivos inteiros e se percam referências vitais. Deep Blue não aprende, não tein infância, não interage com os outros e não descobre a mentira coino artífice da separação entre o inundo interior do desejo e o exterior da repressão; Kasparov aprende e se organiza de acordo com a experiência pretérita, sua e de sua cultura. Deep Blue opera através de uin programa, ein que pese prograina sofisticado que permite a harmonização sincrônica dos múltiplos processadores (pseudonoção de processamento paralelo, tecnicainente chamada de processamento cooperativo), mas ainda assim software; Kasparov tein processainento paralelo legítimo, sem controlador central, operando sein software bem delimitado - no cérebro tanto software quanto hardware se inesclain numa só operação de oscilação e sincronização de neurônios.

existe inente quando, ao perigo de falhar no cálculo, se acrescenta o perigo de falhar na expectativa depositada sobre si. Essa carga hwinana, demasiado humana, é ainda hoje dificilmente reproduzível em máquinas. As einoções e a vontade, propriedades inimagináveis a Deep Blue, coroain e colorem nossa espécie. Enquanto a máquina não as tiver será apenas uma traquitana sem inteligência genuína. Deep Blue não tem estilo; Kasparov tem estilo; Deep Blue não tem humor; Kasparov não voltará a ter tão cedo.

Problema técnico suplementar advéin da natureza digital-formal de Deep Blue. Como quase todos os sistemas desse tipo, está sujeito à parada (isso é tecnicainente conhecido como problema de indecidibilidade godeliana e parada de uma máquina de Turing, espécie de computador teórico ideal, infinitas vezes superior a Deep Blue) fato que o impedirá de decidir sobre o passo seguinte ou sobre a verdade ou falsidade de uma sentença. A consciência hwinana, ponto nodal da inente que emerge do cérebro, não exibe "parada" diante de determinados problemas em que Deep Blue entraria em looping (vulgo "parafuso"). Isso advéin da natureza analógica do processamento cerebral coino querem alguns ou talvez - segundo os mais afoitos cientificamente - de sua natureza quântica e não-algorítinica (isto é, não calcada no seguir regras estritas, bem delimitadas e seqüenciais de operação).

Um coinputador ou qualquer ináquina que uin dia seja prograinada com o código analógico que utilizamos talvez seja capaz de crescer, aprender, inserir-se na comunidade e agir coino nós. Para isso a ináquina não será prograinada nem terá a velocidade do computador da IBM; sua inteligência não será programa que avalie exaustivamente a hipótese já pronta, mas algo capaz de criar teorias a partir de muito pouco, testando-as e transforinando-as em conheciinento legítimo. Uin coinputador que precisa percorrer o planeta inteiro inspecionando cada gato, cortando-o ein fatias e decompondo-o ao limite, nem por isso será capaz de entender a graça e o huinor do desenho simples do gato Garfield comedor de lasanhas. Deep Blue dificilmente entende metáforas e nós rapidamente as entendemos. Afinal, a inente que surge da coinunhão dos neurônios não é substância iinaterial, espírito ou alina. É antes de tudo uma propriedade da matéria fisica cérebro ein contato coin a linguagem e a cultura.

Dote-se uma ináquina do correto código cerebral, fazendo-a interagir dinamicamente com outras, quer na ação pura, quer na ação valorada e prudente, e tereinos uina réplica do huinano. Porém, não se assustem aqueles que vêein nessa possibilidade o final dos tempos. Não sabeinos ainda qual o código analógico que o cérebro utiliza na forja do mental e nem teinos ináquinas que o repliquem na totalidade. A tarefa de estudar esse código, de compreender o surgiinento do pensamento, da inteligência, da einoção, da vontade, da ineinória, criando-lhes análogos artificiais que nos auxiliem em diferentes tarefas é função da ciência cognitiva, superdisciplina coin quase 50 anos de idade no Primeiro Mundo, mas no Brasil ainda vista coin um certo desdéin.

Quando não é entendida coino fenômeno biológico localizado no cérebro huinano, a inente fica acuada coino Kasparov na sexta e últiina partida da disputa coin Deep Blue. Essa incoinpreensão gera uin sein-núinero de flancos para a proliferação do esoterisino desenfreado, para os manuais de auto-ajuda, para a irracionalidade que cainpeia e de que se servem os ignorantes e tainbéin os arrivistas que vendein bem-estar e salvação para a inente que sofre. Gera ainda subproduto danoso que é a não-aceitação de que a inente, coino qualquer função do corpo, pode adoecer. Nesse sentido, a figura einbleinática de. Deep Blue, antes de sitiar a condição humana, pode resgatá-la do desvario pseudoinístico, recolocando a inente no cérebro e

o conheciinento sobre eles no devido lugar, inenos devassado aos "achisinos" dos esotéricos afoitos, encantados coin barroquisinos lingüísticos pseudosignificativos.

O xeque imposto a condição humana com conseqüências inais danosas que o desconhecimento

da natureza cerebral da inente norinal e desviada é a perda de valores claros nas relações sociais.

Sabe-se hoje que a ética e a solidariedade, antes de imposições externas, sociais ou religiosas, são atributos biológicos. Os macacos as têm; tainbéin animais inferiores. Coinputadores, por ora, nein sequer a esboçain, demonstração clara do quanto seus projetistas pretendem resolver problemas coinplexos, poréin nein de longe semelhantes aos dilemas humanos. Será que nós, que soinos o ponto apical da biologia do ser vivo, vainos deixar que o sistema econôinico e político dos dias de hoje nos faça pensar que a inente é apenas algo forjado para dissiinular, esconder, auto-emancipar, esquecendo-nos da solidariedade e respeito com o seinelhante?

A inente e a humanidade estão em xeque se não entendermos que o cérebro cria a consciência individual e a coletiva (o computador joga xadrez mas não há ninguém que lhe ouse imputar nesga de consciência). Da interação entre as consciências pode surgir uma comunidade de deveres e direitos plenos, com alguina justiça que preserve a todos. Do contrário, serão a barbárie e a aniquilação. Não estainos ein xeque pela ináquina digital. Seremos uin dia replicados ein ináquinas e espero que elas não pratiquem o jogo no qual teinos demonstrado habilidade infinita: a hipocrisia e o descaso coin o seinelhante que anda h míngua desempregado e excluído. Mas é preciso cuidado, pois os coinputadores que surgirem dessa época de individualisino desenfreado poderão também saber jogar pôquer - blefando inclusive - e o jogo