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DELONDE, Adriano. A Magia no século XIX (Sciencias Naturaes).

Revista
Popular, Rio de Janeiro, ano 1, tomo 2. Rio de Janeiro: B. L. Garnier. 1859.

Parte 1 – Mezas que gyrão

“Tem o maravilhoso um attractivo irresistível para o espírito humano.” (p. 49)

“Emquanto crianças, embalarão-nos essas mentiras encantadoras, que surrião


à nossa nascente imaginação, dando pasto à curiosidade, sempre a vida de
mysterios, sempre apaixonada pelo desconhecido.” (p. 49)

“Aprazem-nos ainda as lendas milagrosas, as narrações phantasticas, que nos


transportão a uma esphera superior a nossa, fazendo-nos esquecer por
instantes a nossa imporfeição e fraqueza naturaes.” (p. 49)

“Seguindo estes guias aventurosos, gostamos de viajar pelo paiz dos


phantasmas; atravessamos regiões encantadas, conversamos com as almas,
dos que já não existem.” (p. 49)

“Este amor do maravilhoso nada teria de reprehensivel, se não nos dispozesse


a acreditar n’este. Facilmente temos fé no que nos agrada, e uma inclinação
irresistível nos arrastra a realizar os sonhos da nossa imaginação, ou as
fábulas, inventadas pelo medo, capricho, e até pela mentira dos nossos
similhantes.” (p. 49)

“[...] Tão poderoso e vivaz é o instincto da credulidade no fundo da nossa alma,


que, se não appellamos para a reflexão e para o raciocínio, admittimos os
contos mais ridículos e extravagantes.” (p. 49)

“[...] Basta que no ceo appareça um cometa, e apezar dos cálculos de Babinet,
todos acreditarão, que a vingança celeste nos ameaça com um choque
formidável. Ou então n’um artigo de gazeta assigna um gracejador de mao
gosto uma data preciza ao fatal acontecimento; as mil bocas da imprensa
espalhão a noticia por todos os paizes habitáveis, e eis as populações a
tremer, esperando o dia do juízo, como no tempo bemavnturado do anno
1000.” (p. 50)

“Será com effeito isto, o que se devia esperar do progresso das ideias, e dos
benefícios da educação, cada vez mais derramados pelas massas?” (p. 50)

“Tacito, o historiador philosopho, tinha bem razão de dizer: “Tanto mais


facilmente acreditamos nas couzas, que não podemos explicar, apezar de
serem certas, deixamo-nos levar a considerar como possível, o que mais
abertamente repugna à nossa razão, imputando a nossa ignorância a falta de
proporção, que se nos figura dar-se entre causas e os effeitos.” (p. 50)
“[...] Quantas vezes se não tem abusado do axioma: o verdadeiro poder deixar
de ser verosimil, para converter em verdades indubitáveis, os factos mais
contrários a toda verosimilhança! Não devemos, por certo, inverter a
proposição, e dizer que é falso tudo, o que não é verosimil.” (p.50)

“Mas tem limites a credulidade humana; e doutrinas ha, que a razão não póde
admitir, sem renunciar a si mesma. Quando nos não allumia a luz da evidencia,
porque havemos de corar, suspendendo o nosso juízo?” (p. 50)

“Não vale mais a dúvida do que o erro? A incredulidade não teria na edade
media immolado as victimas, que sacrificou a superstição.” (p. 50)

“Todas as histórias estão cheias da triste narração de crimes, attribuidos aos


feiticeiros, e das condenações judiciárias contra elles proferidos.” (p. 50)

“[...] Podíamos d’isto citar exemplos quase contemporaneos. Carlos Lasandre


refere no seu curiosíssimo livro da Sorcellerie (Feiriçaria), que uma sentença
do tribunal prebostal da Martinica, condemnou, a 2 de Dezembro de 1823. A
galés perpetuas, um negro, altamente suspeito de sacrilégio e malefícios.” (p.
50)

“[...] Abusos tão dos nossos dias, demonstrarão a necessidade de appellar para
a razão, em questões de similhantes, não deixando propalarem-se e
forticificarem-se prejuízos, reprovados pelo bom senso, e condemanaveis,
sobretudo, pelos funestos desvarios, que d’elles resultão.” (p. 50)

“[...] Quando o erro chega a fazer-se acreditar entre um povo, não há


consequências fataes, que elle não possa gerar; é um veneno, que corrompe
tudo, quanto o toca. So a verdade é sem perigos para o homem; incapaz do
mal, não é Ella fecunda, senão para o bem.” (p. 50)

Factos recentes, que teem tido grande echo nos dous mundos, prendendo a
ttenção dos homens mais sérios e esclarecidos, nos inspirarão estas
reflexões.” (p. 50)

“[...] Passava a feitiçaria por morta e bem morta; longe d’isso; está viva, como
nunca. Opéra prodígios como os do bom tempo antigo; professão-na
abertamente, tem fervorosos adeptos, cursos públicos, clubs, livros, revistas;
invade as officinas, reina nos salões, reproduz-se nas aldeias, como nas
cidades; n’uma palavra, preocupa todos os espíritos.” (p. 50-51)

“[...] Crentes ou incrédulos, todos nos vemos obrigados a contar com essa
potencia mysteriosa, e a prestar-lhe alguma attenção.” (p. 51)

“[...] Tem tido até as suas victimas e os seus martyres, grandes intelligencias,
cuja razão transformou. É pois hoje um facto consumado; a magia renasce
vigorosa no século XIX; saudemos a sua feliz restauração, e o perguntemo-lhe
por alguns dos segredos, que Ella revela aos seus iniciados.” (p. 51)

“Os nossos feiticeiros modernos não vão aos emprazamentos nocturnos, como
seus antepassados de diabólica memória; não são possessos como esses
apaniguados de satanaz, que dançavão sobre o tumulo do diácono Paris.
Contentão-se como fazer gyrar as mezas, obrigal-as a falar, escrever e
prophetizar; com evocar as almas dos defunctos, conversar com os bons e
maos espíritos, anjos ou demônios, e colher as suas revelações.” (p. 51)

“Não vades porem julgar tudo isto um brinco pueril e sem consequências. As
mas transcendentes questões de theologia, philosophia, sciencia e historia,
teem vindo ligar-se a questão das mezas e dos espíritos.” (p. 51)

“[...] O reverendo Padre Ventura não receou dizer, que isto foi um dos maiores
acontecimentos de nosso século.” (p. 51)

“Homens de consideração, membros do Instituto, médicos, sacerdotes, e


sábios se teem preoccupado d’estes factos novos e extranhos, propondo
explicações diversas, segundo o ponto de vista especial, em que cada um se
collocava. Na França Chevreul e Balbrenet; na Inglaterra o illustre Faraday; na
Escossia Carpenter; na Alemanha Reichenbach; em Genebra Thury; na Saboia
Bonjea; todos teem feito da questão um estudo sério.” (p. 51)

“[...] Extraordinário numero de livros, folhetos e artigos de periódicos se teem


publicado sobre este assumpto; entre as mais importantes d’estas publicações
devemos collocar na primeira plana as duas obras do Marquez de Mirville, e do
conde Agenor de Gasparin.” (p. 51)

“[...] Bom ou mao grado, não haverá remédio, senão dar logar a todos estes
factos na história dos nossos tempos, e procurar-lhes o verdadeiros caracter,
significação e alcance.” (p. 51)

“[...] Foi no anno de 1849, nos Estados Unidos, que pela primeira vez se
produziu este phenomeno. Desde a sua apparição principiou elle a excitar a
attenção universal;” (p. 52)

“[...] Não tardou a ser conhecido na Allemanha; um medico de Bremen, o Dr.


André, fez suas experiências, e consignou-lhes os curiosos resultados na
Gazeta de Augsburgo.” (p. 52)

“Em maio de 1853 já os prodígios revelados pelo novo ao velho mundo, se


reproduzirão por todas as cidades da França, preoccupando a dança das
mezas todos os espíritos.” (p. 52)

“Uns não virão n’isto, senão objecto de distracção e gracejo; outros um


assunpto grave de reflexão e estudo. Alguns scepticos ousarão negar a
realidade do phenomeno; mas virão-se esmagados debaixo do numero dos
crentes.” (p. 52)

“Os experimentadores repondião a todas as objecções com o protesto de


Galileo: E pur si muove. Fazião ainda melhor. Mostravão o facto, tornavão-se
visível para todos, dos próprios adversários fazião seus cúmplices, e estes
transformavão-se nos mais zelosos propaladores do prestigio, tanto mais
enthusiastas agora, quanto mais desconfiados tinhão sido.” (p. 52)

“Em tão bello caminho não havia que parar: apenas se reconheceu que as
mezas gyravão, tractou-se de fazer andar também a roda toda a casta de
objectos; chapeos, poltronas, cadeiras, pratos, saladeiras, todas as alfaias da
sala, todos os utensílios da cozinha se pozerão em movimento.”

“[...] Era uma verdadeira revolução em todas as mobílias, ricas ou pobres,


desde do elegante velador do faceiro retrete, até a grosseira meza do artista
operário, desde o pau rosa e o ébano, até o carvalho e a nogueira, todas as
madeiras parecião animadas.” (p. 52)

“[...] Entretanto ia crescendo o movimento, adquiria uma força prodigiosa,


levantava os mais pezados trastes, arrastrava com terrível rapidez as pessoas,
que faziam cadeia; tiverão até logar alguns accidentes funestos. Virão-se
mezas quebradas, alfaias derribadas, pés esmagados: algumas pessoas forão
atacadas de crises nervosas e convulsões; a um enthusiasmo irreflectido
succedeu um sentimento de inquietação e esse receio, que o desconhecido
sempre inspira. Principiou-se então a reflectir.” (p. 52)

“Não havia meio de negar; o facto estava demonstrado, e por mais


extraordinário, que fosse, forçoso era acceital-o como verdadeiro. Cada
experimentador podia dizer a si mesmo como Soria a Amphityão: “É facto
incompr’hensivel, Ridículo e grosseiro, mas nem por ser incrivell, É menos
verdadeiro.” (p. 53)

“Comtudo, admittido e reconhecido o facto, restava ainda achar-lhe a


explicação; pois não basta saber que as mezas gyrão, é percizo ver o que as
faz gyrar.” (p. 53)

“[...] Algumas vozes se elevarão tímidas nos salões, propondo explicações


mais simples, e assignand ao phenomeno causas naturaes.” (p. 53)

“Conheci professores de physica, consultados como oráculos na sua província,


que não ousarão fazer frente a estes perigosos adversários, e abdicarão
prudentemente o seu papel de sábios, para não se verem accusados de
heresia; pois o milagre da rotação das mezas era por muitos já considerado
como artigo de fe.” (p. 53)
“Era pois tempo que os sábios interviessem e dessem a conhecer a sua
opinião; a Academia das Sciencias teve de pronunciar-se por occasião d’uma
communicação do professor Koeppelin (de Colmar), e nomeou uma commissão
composta por Chevreul, Boussingault e Babinet.” (p. 53)

“Está em voga entre os propaladores de novas maravilhas, prodigalizar insultos


as corporações scientificas, que não se entregão facilmente a um enthusiasmo
irreflectido, querendo primeiro tomar conhecimento dos phenomenos e das
suas causas.”

“Ainda antes que a comissão acadêmica emittise a sua opinião, declarou o


conde de Resie, que ella se limitaria a formular qualquer negativa bem
dogmática e absoluta, que não lançaria a menor luz sobre o objecto em
questão. Sobre que se fundaria porem tão extranho juízo? Sobre o famoso
processo relativo ao magnetismo animal.” (p. 53)

“O conde de Resie não póde perdoar a Franklin, Baillez e Lavoisier o haverem


condemnado o mesmerismo, e accusa-os portanto de não terem assaz
esclarecido a questão. As corporações scientificas tem um grande defeito aos
olhos d’elle: pretendem tudo explicar por causas naturaes, repellindo tudo, o
que se lhes figura contrario as leis da natureza, com medo de se verem
obrigadas a confessar a insufficiencia dos seus conhecimentos, ou, o que ainda
mais temem, de terem de reconhecer uma intervenção sobrenatural nas
couzas, que não podem explicar.” (p. 53)

“Na verdade, não percebemos como as mezas gyrantes nos podem aproximar
de Deus, e como não sentimos o mesmo desprezo que o conde de Resie pelo
juízo dos acadêmicos, nem geral por todas as opiniões fundadas em
raciocínios, vamos pedir aos homens da sciencia a explicação do milagre.” (p.
54)

“Porque Gyrão as mezas? – Porque as fazem gyrar. [...] Não se rião do que na
resposta parece haver ingenuidade ou de gracejo; nada mais serio no seu
fundo. Se se considera a imposição das mãos sobre as mezas, como condição
indispensável para que se produza phenomeno, apresentão-se naturalmente
duas hypotheses: ou a meza se mexe por um movimento involuntário, ou por
um voluntario.” (p. 54)

“[...] Ponhamos de parte a segunda, em consideração dos nossos leitores, que


fazem gyrar mezas, e que nem pretendem enganar, nem deixar-se enganar. Se
por toda a parte se introduzem gracejadores de mao gosto, que se divertem a
custa da credulidade publica, também se encontra gente de boa fé.”

“[...] Poderão objectar-me, que em similhantes experiências não há que fiar no


melhor amigo, e que, tractando-se da rotação das mezas, ou do
somnambulismo magnético, são as pessoas mais honradas do mundo, praza
d’um irresistível desejo de enganar. Poderiamos citar mil exemplos d’este
gênero, de que temos sido testimunha. E talvez até alguma vez nos tenha
succedido ceder a tentação, e tomar na experiência uma parte por demais
activa.” (p. 54)

“Mas para que pôr em duvida a boa fe de gente, que a si mesma se pode
illudir? Pois, a darmos o credito a uma engenhosa theoria, cada um póde, sem
dar por isso, imprimir um impulso à meza, e todos estes impulsos, auxiliando-
se mutuamente, produzem uma força assaz grande, para pôr a meza em
movimento. Assim teremos ainda enganados, mas ninguém, que engane, e
cada experimentador so de si mesmo se pode queixar do movimento, que
involuntariamente imprime a meza demasiadamente dócil. É esta seguramente
a explicação mais ingenhosa, e mais verdadeiramente philosophica, que se
tem dado da rotação das mezas: a honra d’ella cabe a Chevreul.” (p. 54)

“Já em 1833 n’uma carta dirigida a Ampère explicava Chevreul por causas
perfeitamente naturaes, a oscillação d’uma pendula, que observador tem na
mão, conservando-se alias no estado da mais perfeita quietação possível. Há
em nós, dizia elle, uma disposição ou tendência para o movimento, em virtude
da qual imprimimos a pendula um impulso no sentido do nosso desejo, e até
por vezes no do nosso pensamento. Assim, graças a uma harmoniosa, que,
sem que demos por isso, se estabelece entre o estado do nosso espírito e dos
nossos órgãos, produzem-se movimentos, de que não temos consciência, e
que podem produzir effeitos consideráveis.” (p 54)

“[...] Taes são os movimentos involuntários, com que parecemos seguir água,
que corre, a ave, que voa, a pedra, que fende os ares, o acrobata, que anda
sobre a corda teza, o objecto, a que demos um primeiro impulso, e que
quereríamos ver chegar a um ponto determinado, como succede ao jogador de
bolas, de pela, ou de bilhar.” (p. 55)

“Todos estes factos, e outros não menos notáveis, levarão Chevreul a


generalizar o seu principio, e n’uma obra publicada em 1834, o faz elle servir,
para explicar as maravilhas da varnha de adivinhação, da pendula oscillante, e
das mezas, que gyrão.” (p. 55)

“[...] Comprehende-se, que a fe na realidade do phenomeno, represente aqui


um papel importante, pois que é o estado psychico, que exerce uma influencia,
insensível, mas real, sobre os órgãos do movimento. É por isto que, para o feliz
êxito, tanto d’estas experiências, como das magnéticas, é indispensável
arredar os incrédulos, que, longe de prestarem-se à pruducção do phenomeno,
contrarião-no com uma tendência opposta.” (p. 55)

“[...] o fez ver Chevreul, com as investigações de Flurens sobre os movimentos,


que sobreveem nos animaes, depois da separação de certas partes do seu
systema nervoso; mas, segundo nós, teem um nexo ainda mais intimo com a
existência d’uma faculdade da alma, que, por muito tempo desattendida pelos
psychologos, tem obtido ultimamente o logar honroso, que lhe compete:
referimo-nos a força matrix, que, obrando espontaneamente no sentido do
pensamento, ou do desejo, pode produzir os movimentos inconscios e
involuntários, de que aqui se tracta.” (p. 55)

“Babinet abunda nas ideias de seu collega do Instituto, e explica da mesma


forma, o movimento das mezas pelas leis da physiologia e da mecânica. [...]
“em virtude das frequentes relações entre o corpo e a alma, é impossível
conceber um pensamento relativo a movimento, sem que o corpo d’isso se
resinta involuntariamente” (p. 55)

“[...] Ora, eis a explicação, que d’isto nos dá o lord de Babinet: “O cavalleiro,
que pensa n’uma evolução qualquer, faz involuntariamente um movimento em
harmonia com o seu pensamento, e por menos pronunciado, que seja este
movimento, o meu Cavallo o percebe, e obedece-lhe.” Até aqui tudo vae bem,
mas chegado a questão physiologica, expõe Babinet uma theoria
privativamente sua, e que, segundo nos quer parecerm não teria obtido
sancção da Academia das Sciencias, se a douta corporação tivesse submettido
a uma discussão publica, o resultadas das investigaçõess da sua commissão.”
(p. 55)

“A theoria physiologica de Babinet, foi por elle mesmo baptissada com o nome
de theoria dos movimentos nascentes. Como todos os sábios, que teem
tractado d’esta questão, comprehendeu elle, que a difficuldade consistia em
explicar, como a reunião de movimentos fraquíssimos, pode produzir a
deslocação de massas as vezes consideráveis.” (p. 56)

“[...] Babibet, [...] pretende também explical-o pelas leis da mecânica e da


physiologia, e é para esta explicação, que deve servir a theoria dos
movimentos nascentes. Confessamos humildemente, que depois de termos
lido Babinet com escrupulosa attenção, nada ficamos comprehendendo das
suas explicações.” (p. 56)

“Não deu pois a questão um único passo, e, se Babinet explicou algumas


couza, não forão, senão os movimentos voluntários, e a possibilidade d’uma
grosseira fraude.” (p. 56)

“O illustre physico inglez, Faraday, com uma engenhosa experiência tornou


sensível aos olhos a acção, que havia sido suspeitada, mas não provada.
Colloca elle, entre os dedos do experimentador e a superfície da meza, uma
folha de papelão polido: a esta folha se adapta um índex, que termina no centro
da meza, n’uma ponta, que, pelo seu movimento, indica a pressão exercida
lateralmente pelos dedos, sobre o papelão móvel. Quando o índex estava
escondido, gyrava a meza; visível aquelle, ficava esta immovel. D’aqui concluía
Faraday, não so que a única causa da rotação era a pressão dos dedos, mas
também, que esta acção, insensível para o operador, e absolutamente
involuntária, póde ser contrabalançada pelo movimento do índex, que a
descobre. É o principio da pendula oscillatoria de Chevreul, applicado as
mezas gyrantes.” (p. 56-57)

“Com a explicação proposta por Chevreul, Babinet e Faraday, tem ligação outra
análoga, dada por Carpenter, Braid e Holland, e na qual o principio da pendula
oscillatoria cedo o logar ao da suggestão. Gasparin quis fazer-se engraçado a
custa do principio de sugesttão; tentou pôr Carpenter em contradição comsigo
mesmo, mas não o conseguiu. O ponto de partida do novo systema vem a ser
este: Há certos estados, em que o homem fica reduzido a uma passividade
automática. O seu raciocínio falha, a vontade abdica; n’uma palavra, acha-se
sob a influencia das suggestões. É isto, o que succede em certas experiências
do magnetismo, e o que se produz egualmente nos phenomenos biológicos.”
(p. 57)

“O mesmo principio nos dá a explicação do movimento, impresso as mezas.


Sob o domínio d’uma ideia fixa e dominante, obramos sem conhecimento nem
vontade; cremos que a meza deve gyrar e pomol-a em rotação, sem darmos
por isso, e como movidos por um poder extranho.” (p. 57)

“[...] haverá contradicção, como pretende Gasparin, entre a passividade


automática, que presuppõe a suggestão, e a força de concentração intellectual,
que presuppõe a ideia dominante? De modo nenhum. A theoria de Carpenter
não destroe a de Chevreul, completa-a, ou antes, expõe-na sob um aspecto
particular. Penso n’um movimento, desejo-o vivamente, quero que elle se
produza: da-se em mum uma tendência para acção.” (p. 57)

“[...] Toda a differença está no ponto de vista psychologico: no primeiro caso a


ideia é minha, pertence-me, é a producção directa da minha actividade: no
segundo, é ella de alguma sorte extranha para mim, impõem-ma, sugeito-me a
ella: mas tanto n’um, como n’outro caso, segue a tensão muscular essa ideia.
[...] Todos os gracejos de Gasparin, sobre o mysterioso principio de suggestão,
não ferem pois o alvo, a contradicção não existe, e uma simples analyse
psychologica explica o prodígio.” (p. 57)

(continua parte 2)

Mas, emquanto a sciencia se consome, por explicar a rotação das mezas, eis
que novos phenomenos se apresentão. Já se não fazem gyrar mezas, é isso
demasiadamente vulgar e simples: fazem-se falar e escrever.” (p. 84)

“[...] Dirige-se uma pergunta á meza, ordenando-lhe de dar uma pancada, se a


resposta for affirmativa, e duas, se for negativa, e a meza responde.” (p. 84)
“[...] Fazem-na proferir longos discursos, pronunciando successivamente as
letras do alphabeto, até que ella, com uma pancada, designe a de que carece.”
(p. 84)

“Não tem ella menor facilidade em escrever, do que em falar: basta amarrar-lhe
um lápis a um pe, como se amarrava um pincel aos pés do pintos Ducornet, e
eil-a a traçar letras, primeiramente de vagar, depois mais de pressa, e
finalmente com a rapidez de um Alexandre Dumas.” (p. 84)

“[...] a biblioteca do Instituto possue um exemplar d’uma novella escripta, não


por uma meza, é verdade, mas por uma cadeira, e impressa na Guadalupa.
Tem ella por titulo: Juanita, novella, por uma cadeira, seguida d’um provérbio, e
varias obras escolhidas do mesmo auctor. Vende-se na typographia do
governo. Basse-Terre (1853)” (p. 84-85)

“[...] Mas, como por fim de contas, mezas e cadeiras não são couzas, que se
movão facilmente, imaginou-se armar lapiz ora um cesto, ora uma taboinha,
que, levemente sustida por duas pessoas, escreve com maravilhosa presteza.”
(p. 85)

“[...] Não possuímos somente novellas, mas também collecções poéticas,


devidas ao lapiz destes incomparáveis auctores; digo ao lapiz, pois não me
consta, que lhes tenhão mettido penna nas mãos.” (p. 85)

“Aqui abandona Gasparin a partida: o ardente defensor das mezas gyrantes,


não acredita nas falantes, e chega até a tractal-as bem mal, declarando-as um
absurdo.” (p. 85)

“Tal é também a argumentação victoriosa, dos que admirão as mezas, que


falão. “Forçoso é, dizem elles, que isto seja possível, pois que realmente se
dá..” Que poderá objectar Gasparin? Uma razão excelente, mas que destroe
todo o seu systema. Sustenta, que o exemplo da taboinha, nada prova, que as
planchetas, nenhum resultado dão, que não se possa attribuir egualmente, ou
ao impulso insciente, ou á fraude, e finalmente que “os oráculos assim
promugados, nada mais são, do que a contra-prova, do que está na cabeça,
dos que dirigem a taboa.” (p. 85)

“[...] nem Chevreul argumentaria melhor. Mas, pergunto eu, não poderá esta
mesma explicação applicar-se á rotação das mezas, e não estará Gasparin
arrazando o edifício, que elle próprio, tão penosamente ergueu? Os nossos
sábios não cabem em taes contradicções, nem o seu systema deixa de ser
perfeitamente homogêneo.” (p. 85)

“Dado á fraude, o que é da fraude, e impossível é deixar de assignar-lhe


importante quinhão na serie de phenomenos, com que nos estamos
occupadando, explicão elles a linguagem das mezas, pelo mesmo principio que
a simples rotação, pela influencia do pensamento, sobre os movimentos
musculares.” (p. 85)

“Dirigi-se uma pergunta á meza: immediatamente se forma, dentro em nós


mesmos, a resposta, e, involuntariamente, obramos sobre a meza, de modo
que a fazemos executar os movimentos, que devem traduzir esta resposta.” (p.
85)

“[...] as respostas das mezas, cestos, ou taboas, estão geralmente de accordo


com o espírito, sentimentos e conhecimentos das pessoas, que as dirigem, e
quer se tracte do passado, do presente, ou do futuro, sempre na sua linguagem
se encontrarão vestígios evidentes das ideias e paixões humanas.” É, como
muito bem diz Gasparin, “a reprodução do pensamento, pela matéria inerte.”.”
(p. 85)

“[...] explicação de Gros-Jean [...] Mostra elle [...], como a vontade e a attenção,
no estado normal, manteem a harmonia das differentes faculdades, reduzindo-
as á unidade do ser; como, pelo contrario, em certos estados particulares, a
vida orgânica, a sensibilidade e a intelligencia se sobre-excitão, exaltão e isolão
da vontade, agora impotente para dirigil-as, de modo que se dá um rompimento
parcial e momentâneo do laço, que as une. Factos há incontestáveis e
comezinhos, que nos offerecem exemplos de similhante scissão.” (p. 86)

“[...] são os differentes graus desta scissão, que o auctor analyza com notável
fineza. [...] No primeiro grau, tem o individuo consciência da resposta, que no
seu espírito se forma, e refere-a ás suas próprias faculdades; não a tem porem
acção muscular, pela qual imprime á meza um movimento conforme a esta
mesma resposta. Neste primeiro grau, não se separou o eu, senão do aparelho
physico, ficando o organismo independente da cosnciencia e da vontade. É o
estado psychologico mais commum. No segundo, principia a intelligencia a
fazer scissão com a vontade: o individuo não tem senão um conhecimento
vago e imperfeito da resposta, que o seu espírito formula interiormente; acha-
se n’uma espécie de estado passivo, e prestes a ceder a qualquer influencia
extranha, está como diz Carpenter, sob o domínio da suggestão. Pelo que toca
o organismo, fica dependente da consciência e da vontade, e continua a
obedecer ao pensamento.” (p. 86)

“No terceiro grau, conhece o individuo a resposta, que se forma no seu espírito,
mas não a refere as suas próprias faculdades: eis ahi o pensamento
indepentente do eu. No quarto, finalmente, nenhum conhecimento interno tem
o individuo da resposta, que, sem sua sciencia, se lhe formula na intelligencia,
nem o adquire, senão á medida que os movimentos da meza, ou da plancheta,
lh’a vão revelando.” (p. 86-87)

“[...] será possivel tal phenomeno? Reponderei, que os annaes da medicina nos
offerecem numerosos exemplos de similhante desdobro da personalidade, que
este facto se reproduz na loucura, durante o simples somno, em certas
meditações, e no êxtase; tenho-o observado em mim mesmo, submettendo-me
sinceramente, e com inteiro abandono, a experiências magnéticas; observei-o,
finalmente, no prodígio das mezas falantes. Seria precizo accrescentar, que por
uma tendência inexplicável da nossa natureza, por uma fraude, com que
somos propensos a enganar-nos a nós mesmos, por uma inclinação á mentira,
que já se tem reconhecido em somnambulos de boa fe, e que se não deve
confundir com embuste grosseiro, continuamos nós mesmos a fazer obrar e
falar a personagem, que ao principio parecia distincta da nossa
individualidade? Aqui vem, d’alguma sorte, a dualidade occidental e enferma
confundir-se na unidade normal do ser humano, e então, não sabe mais o
individuo, a que attribuir a obra commum.” (p. 87)

III

“As maravilhas, de que até agora temos falado, nada teem, que possa
perturbar a razão, e vê-se que a sciencia não tem recuado ante a explicação
dos phenomenos, que lhe teem sido propostos, chamando em seu auxilio, não
so a mecânica e a physiologia, mas também a psychologia, que tão importante
papel representa nesta questão.” (p. 87)

“[...] Agenor de Gasparin pulveriza todas as objeções, dizendo-os: “Sei um


modo bem concludente de tornar inúteis os famosos discos de Faraday, que
vem a ser, supprimir inteiramente o contacto, e determinar, quer a rotação da
meza, quer o levantar dos pés da mesma, sem que a toque nenhuma das
mãos, que sobre ella formão a cadeia”.” (p. 87)

“[...] Parece-me que á visto disto, ninguém ca virá falar mais em impulso
mecânico, nem em acção muscular inconscia.” (p. 87-88)

“Emquanto os nossos sábios se esforção por demonstrar pela pressão dos


dedos, o movimento das mezas, supprime Gasparin o contacto, e affirma, que
a meza nem porisso deixa de gyrar, de bater com este ou aquelle pe no chão,
e, n’uma palavra, de obedecer a todas as ordens da vontade. Na verdade, isto
agora cheira a milagre, e estupefacta pergunta a razão, se é séria similhante
asserção.” (p. 88)

“[...] É aqui, que Gasparin, com o ardor d’uma inabalável convicção, toma á sua
conta os homens da sciencia, que averbão de suspeitas as suas asserções,
recusando fe a certos factos, por contrário a razão.” (p. 88)

“[...] Enche-o de indignação o despotismo da sciencia official: quer elle luctar


valentemente contra a conspiração do silencio, e vingar do injusto desprezo, de
que tem sido alvo, a verdade opprimida. [...] “Cautela! Exclama elle n’um
accesso de indignação. Os actuaes representantes das sciencias exactas,
ameação tornar-se, quanto é possível hoje em dia, os inquisidores do nosso
tempo.” (p. 88)

“Gasparin está, sem duvida, prompto a soffrer o martyrio, por confessar a sua
fe nas mezas, que gyrão.” (p. 88)

“[...] Não tem elle também injurias e desprezos, para os partidários do espírito?
Não fala elle também nos asco, que lhe causa esta recrudescencia de
superstições, de revelações satânicas, e de falsa feitiçaria, cuja ridicularia não
tardará a manifestar-se? Poupa elle, por ventura, a doutrina catholica, na sua
ardente polemica contra os factos sobrenaturaes, e os milagres reconhecidos
pela Egreja?” (p. 88)

“Quero até suppor, que estes factos tenhão, desde já, a notoriedade, leito de
Procusto, em que elle collocou Merville; são boas represálias, e tanto mais
livremente usamos d’este direito, quanto menos afferrados estamos á doutrina
dos Espíritos.” (p. 89)

“Nada mais attestado e verificado, como já vamos ver, do que os factos, que
tiverão logar no presbyterio de Cideville, e que Merville refere no seu livro;
depoimento de testemunhas, inquirição, acareação, nada faltou.” (p. 89)

“[...] apezar de tudo isto, teremos de rejeitar estes factos, como mentirosos, se
não quizermos admittir a existência dos espíritos, ou de qualquer outro poder
sobrenatural.” (p. 89)

“[...] Gasparin [...] Não receia abalar a certeza da prova por testimunhas, para
ter o direito de negar estes factos. N’este empenho, desdobra-nos deante dos
olhos longa lista de mentiras, consagradas pelos mais respeitáveis
testimunhos; abre-nos os annaes do erro, da impostura, da superstição. Elle
nada venera: tradições sagradas, e prophanas; tudo deve passar pelo cadinho
da sua desapiedade critica.” (p. 89)

“Faz guerra de morte ao sobrenatural, debaixo de todas as fórmas, aos contos


phantasticos das demonologias, e ás lendas pias, aos falsos sortilégios e aos
falsos milagres. Inspirão-lhe santo horror esse sobrenatural “hediondo ou
ridículo” e “essas vergonhosas e pueris invenções, que a superstição ousa
ainda forjar.” (p. 89)

“[...] Não conhece elle reservas, senão a favor do sobrenatural da Biblia: quanto
a este, não póde haver engano, este é verdadeiro e certo, este não se póde
contestar. Mas afora os milagres, attestados pela Sagrada Escriptura, não há
um so, que nos mereça fe.” (p. 89)

“Gasparin “não auctoriza ninguem a affirmar nada, seja o que for, de


sobrenatural, desde a desapparição dos apóstolos”. Não quer isto dizer que os
milagres já não sejão possíveis, mas não há como proval-os; a prova por
testimunhos é inadmissível em materia sobrenatural; os feitos milagrosos não
são do domínio da razão. ” (p. 89)

“[...] Um racionalista puro, pondo-se fora de toda a revelação positiva, deveria,


segundo o principio do próprio Gasparin, rejeitar todo e qualquer milagre, tanto
anterior, como posterior á vinda de Christo.” (p. 89)

“[...] Se as mezas tivessem prophetizado no tempo de Moyses, teria elle


admittido o prodígio: mas como ellas não se lembrarão de falar, senão no
século XIX, nenhuma valor tem seu testimunho.” (p. 89)

“Aqui se vê bem a eterna inconsequência da philosophia protestante, que


admitte a razão, mas dentro de certos limites, arbitrariamente traçados.” (p. 89)

“Verdade é, que elle (Gasparin) julga tirar-se da difficuldade, que assignalamos,


sustentando, que os factos por elle admittidos e relatados, nada teem de
sobrenatural. “Relativamente ao homem diz elle, principia o milagre no ponto,
em que pára a applicação das leis ordinárias e dos meios postos á sua
disposição.” Se, pois, o movimento sem contacto poder explicar-se por uma
causa physica, por uma faculdade especial, que esteja em nosso poder, n’uma
palavra, por uma lei natural, desapparecerá todo o maravilhoso. Aqui entramos
no domínio das explicações physicas, e, como é fácil prever, não faltarão
hypotheses.” (p. 90)

“A vontade do homem obra sobre os corpos materiaes pela acção d’um fluido;
tal é a explicação proposta por Gasparin. [...] Mas qual é esse fluido? Elle não
se dá ao trabalho de definil-o, [...] Risquem-se dos diccionarios os fluidos, e
ponhão-se em seu logar as palavras força, poder, agente, vibração, estado
particular da matéria: elle não se opporá. Sempre é certo, que há em nós
alguma couza, que o systema nervoso põe a disposição da vontade, para obrar
sobre a matéria inerte.” (p. 90)

“Como se não teria Gasparin rido de Chevreul ou de Badinet, se algum d’elles


tivesse proposto similhante explicação? Todo o desprezo e commeseração lhe
parecerião pouco, para o louco orgulho dos sábios, que pretendem explicar
tudo, julgando haverem descoberto a causa do phenomeno, sem terem feito
mais do que inventar um nome novo” (p. 91)

“[...] Tão bem sente elle a fraqueza da explicação proposta, que se dá pressa
em prevenir uma critica, de que o Moliére paga as custas, advertindo-nos que o
seu fluido rotativo de modo nenhum se parece com a virtude dormitiva.” (p.91)

“Apesar de tudo parece-nos, que sempre há algum ar de família entre um e


outro.” (p. 91)

“[...] Apresenta-nos elle alguma prova? Nenhuma. É pois uma hypothese, e elle
próprio sem difficuldade o reconhece.” (p. 91)
“[...] “A meza idêntica-se d’alguma forma comnosco, torna-se um dos nossos
membros, e executa os movimentos pensados por nós exactamente, como o
nosso braço.” Assim nada mais simples, nem mais natural, do que esta
explicação, aos olhos de Gasparin.” (p. 91)

“É realmente para admirar a facilidade, com que um espírito prevenido acolhe


os mais fracos raciocínios; é para admirar sobre tudo a heroica convicção do
inventor, que jamais se deixa pear por consideração alguma humana, e que,
sem recuar perante a mais dura e desagradável expressão do pensamento,
nos “incorpora um traste” nem mais nem menos como nos communicaria uma
ideia.” (p. 91)

“N’um jornal especial dos factos maravilhosos fez Gougenot dês Mousseaux
uma fina refutação de todo o systema de Gasparin, que elle reduz a quatro
princípios: o primeiro é a existência d’um agente fluidiforme, conductor do
pensamento; o segundo a hallucinação individual ou collectiva; o terceiro, o
erro quase necessário dos testimunhos em matéria sobre-natural; o quarto, por
fim, a fraude.” (p. 91)

“Henri de Delaage acredita também no movimento das mezas sem contacto;


repelle egualmente toda explicação sobre-natural, e n’uma palavra, adopta
como Gasparin a hypothese d’uma intima communicação entre as mezas,
fazendo-nos d’ellas membros de nova espécie, aquelle identifica-as comnosco,
fazendo d’ellas um como “prolongamento da nossa individualidade.” [...] As
expressões são mais vagas e nebulosas, mas no fundo é a ideia a mesma.” (p.
92)

“O auctor do Quoere et invenies, seguindo as theorias physicas de Machintal,


attribue uma verdadeira omnipotencia á electricidade. Todos os objetos
creados, meneraes, vegetaes, animaes, lhe devem o ser e a natureza. É a
electricidade o principio não so do movimento, mas até da vida animal.” (p. 93)

“[...] o auctor do Quoere et invenies acredite, que a eletricidade é o principio


creador dos seres, e póde servir para explicar as extranhas relações entre o
homem e a meteria: verdade é que elle acredita também nos espíritos.” (p. 93)

“Um physico allemão, Reichenbach, vae fazer-nos conhecer uma verdadeira


novidade do fluido electrico, a que dá o nome sânscrito de od. O od significa
para elle “a força universal, que penetra e rebenta rapidamente e sem cessar
em toda e para toda a natureza.” Para algumas pessoas d’uma delicadeza
d’orgãos e d’uma sensibilidade inteiramente particular, que chamão sensitivas,
manifesta-se o od sob a fórma d’um vapor azulado e subtil, que se eleva dos
corpos circumstantes n’uma escuridão, como phantasmas azues luzentes, com
uma aureola brilhante sobre a cabeça. As mãos lanção pelas extremidades dos
dedos fulgores diversos: a direita um brilho azulado, a esquerda um amarello
avermelhado: é o od positivo e negativo.” (p. 93-94)
“Assim tem o od os seus fluidos como a electricidade; tem também uma luz,
que lhe é própria, e o seu espectro com as differentes cores, que o compõem,
suas propriedades physicas, chimicas e physiologicas. Temos o od terrestre e
od humano, como há magnetismo terrestre e magnetismo animal. N’um
palavra, o od é a própria vida e a essência das couzas.” (p. 94)

“[...] Reichenbach, que nos revelou este mysterioso principio, esta pedra
phylosophal, este arcano da vida espiritual, este sublime mensageiro, que põe
em communicação todos os seres da natureza.” (p. 94)

“O od tem fundado uma escola, e conta já numerosos proselytos. Na Inglaterra


podemos citar Rogers, auctor d’um livros intitulado Philosophy of mysterious
agents, o grão juiz Edmonds, ex-presidente do senado americano, auctor d’um
livro, que tem tido um numero incrível de edições, the Spiritualism; na França
temos o auctor do Quoere et invenies, Chagnet, etc.” (p. 94)

“[...] O conde de Resie diz com toda a seriedade, que a dança das mezas é
uma operação magnética. O auctor do Quoere et invenies admitte a identidade
dos fluidos odico, magnético e electrico. “As pessoas magnetizadas pela
primeira vez, diz elle, declarão sentir o que quer que seja de similhante ao
effeito, produzido pelas faíscas electricas. Outras, no estado já de
somnambulismo lúcido, dizem ver sahir dos dedos, da boca, dos olhos dos
seus magnetizadores, uns como raios luminosos.” (p. 94)

“O auctor anonymo de um livro curioso, intitulado: Como as mezas adquirem


espirito d’um homem, que o não perdeu, apresenta uma theoria especial sobre
as relações do pensamento e da vontade com os corpos, que nos cercão. Não
quer que lhe falem em fluidos. As relações psycho-physicas teem por principio
“um movimento vibratório, imposto pela acção espiritual ou motrix aos nervos,
dos quaes se communica pelo contacto, e até pela harmonia, aos objectos
materiaes.” (p. 94-95)

“A vibração é a chave de todo o systema, e o principio único, que tudo explica


n’este mundo. O fluido nervoso, o som, a luz, o gosto, a electricidade, o calor,
o magnetismo terrestre, todas estas forças nada mais são, do que
modificações differentes do principio unitário da vibração. Creio na vibração
universal, é o credo de Morin.” (p. 95)

“[...] Morin vae muito mais longe: quer que as vibrações da alma determinem
movimentos correspondentes nos corpos, que vibrão então em consonancia
com os seus pensamentos, e que por este meio possa a alma por-se em
communicação com os corpos, e produzir n’elles mudanças, que nos
maravilhão, mas que mui facilmente se explicão pela lei das vibrações
harmônicas. Muito duvido que Grove e o seu sábio traductor o abbado moigno,
deem a mão a estas extranhas hypotheses, a estas divagações d’uma poesia,
que tem o seu tanto de materialista.” (p. 95)
“[...] O auctor de (Meza que Fala) suppõe os espaços occupados por uma
espécie de ether, por um fluido universal, em que se propagão as ondulações:
é a theoria de Morin aperfeiçoada. A vontade humana, imprimindo uma
vibração a este fluido, derramado por toda a parte, entra assim por meio da
serie continua das ondas vibrantes, em communicação com o espírito, que se
interroga. Torna-se n’este caso a meza uma pilha electro-bio-dynamica [...], ou,
para empregar outra imagem, que o auctor parece tomar a peito, fórma o fluido
ethereo derramado por todo o mundo um immenso telegrapho electrico, pelo
qual os espíritos se transmittem reciprocamente os pensamentos, apezar da
distancia; pois que para os espiritos não existe espaço nem tempo.” (p. 95)

“[...] Todas essas, a que temos passado revista, teem de commum com a
hypothese de Gasparin o considerarem o phenomeno como natural, e darem-
lhe uma explicação physica.” (p. 95)

“[...] A ultima é a única, que reúne as duas explicações contrarias, admittindo


conjunctamente o fluido physico e os espiritos, o natural e o sobrenatural. Tal é
também a theoria de Mirville: já o titulo do seu livro o deixa presentir
(Pneumatologia. Os espíritos e as manifestações fluídicas.) Mas como elle não
liga, senão uma importância secundaria ás manifestações fluídicas, e como os
espíritos representão o papel principal na sua doutrina, entraremos n’um
exame especial a este respeito.” (p. 95-96)

Parte II – Os espiritos e os mediums

“Eis-chegado ao que poderia chamar, não o maior acontecimento do século,


mas a maior heresia do nosso tempo: á crença nos espíritos.” (p. 157)

“As manifestações espirituaes, como é de convenção chamal-as, são de


origem americana. Foi n’uma casa de Hydesville, aldeola do Estado da Nova
York, que ellas pela primeira vez se produzirão em princípios de 1848.” (p. 157)

“[...] Não repetiremos todos os pormenores desta bem conhecida história;


observaremos unicamente, que desde principio achamos reunidos todos os
factos extraordinários, que tão grande echo devião ter mais tarde: ruidos
extranhos e importunos, movimentos das mezas e de outros trastes,
conversações seguidas com os auctores destes ruídos, que declarão ser
espíritos, signaes convencionaes, telegraphia espiritual, evocação das almas
dos mortos, papel de mediums, todos esses elementos essenciaes da doutrina
espiritualista (Os Americanos teem dado a esta doutrina nome de
espiritualismo, que ella conserva; mas o emprego de tal palavra, que tem
outras significações, offerece seus incovenientes. No livro dos Espíritos,
recentemente publicado por Allan Kardec, substituem-na as palavras
espiritismo e doutrina espírita.), se encontrão nas primeiras experiências das
filhas de Fox.” (p. 157)
“Dissemos, que os espíritos se manifestavão espontaneamente, mas elles
veem também, sendo chamados, principalmente quando os evocão certas
pessoas, que parecem mais próprias do que outras para pol-os em
communicação com o mundo visível. Estas pessoas, medeaneiras obrigadas
entre os homens e os espíritos, chamão-se médiums.” (p. 158)

“[...] devem os Estados Unidos possuir actualmente um numero extraordinário,


pois que já em princípios de 1833 se contavão alli trinta a quarenta mil.” (p.
158)

“[...] Os mediums conversão com os espíritos por signaes convencionaes, que


varião muito: entre a família Fox, inficavão três golpes a affirmativa, dous a
duvida, um a negativa. Mais tarde imaginou-se recitar o alphabeto;”

“[...] Mas os espiritos inventarão um meio mais expedito; fizrão dos seus
mediums verdadeiras machinas de dar as taes pancadinhas, de escrever, ou
de falar: então virão-se apparecer os rapping mediums, os speaking mediums,
os writing mediums. Estes mediums, tornados instrumentos passivos dos
espíritos, transmittem as suas respostas por movimentos convulsivos, no meio
dos quaes dão pancadas sobre as mezas, falão ou escrevem.” (p. 158)

“Já em 1831, e antes que estes factos transpirassem na Europa, publicava em


França o Marquez de Mirville um capitulo inédito do Livro dos Espiritos, que
devia apparecer três annos mais tarde. Era a historia dos extranhos factos, de
que o presbyterio de Cideville tinha sido testimunha, e que offerecem a maior
analogia com os acontecimentos de Hydesville e Rochester. Ali tornamos a
encontrar com effeito os ruídos mysteriosos; golpes similhantes aos d’um
martelo retumbão por todos os cantos do presbyterio, podendo-se ouvir a dous
kilometros de distancia; quebrão-se vidros, saltão ao ar differentes objectos,
breviários voão por uma janella, tornando a entrar por outra, n’uma palavra,
“tudo anda doudo em casa”.” (p. 158-159)

“Recordei o drama de Cideville e a farça de Tolosa, para provar, que há


espíritos maleficos, e espíritos folgazões, bons e mãos diabos. Por quanto que
são os diabos, que fazem todo este espalhafato, impossível seria pol-o em
duvida. “O demônio está em toda a parte” exclamava tristemente Salviano,
vendo a recrudescencia das antigas superstições.” (p. 159)

“[...] Podemos fazer a mesma exclamação: o demônio em tudo se mette! Sim,


está nas nossas mezas, nas nossas cadeiras, nos nossos veladores, em todas
as nossas alfaias. Tal é a opinião geral, e a como senha dos publicistas da
escola catholica, que teem falado n’estas maravilhas.” (p. 160)

“[...] Outr’ora encafuava-se-nos o diabo nas almas, para nos inspirar maos
pensamentos, accender-nos as paixões, e abafar em nós os sentimentos
religiosos; mas hoje em dia é na madeira (*) e na matéria inerte, que elle
escolhe o domicilio; é alli, que elle impera como soberano; em logar de fazer-se
ouvir no recôndito dos nossos corações, faz resoar as mezas, os vidros, as
paredes; annuncia estrepitosamente a sua vinda, renuncía á sombra e ao
mysterio, e clama, voz em grita pelo órgão d’um cesto ou d’uma taboinha: “Eu
sou Satanaz!”.” (p. 160)

“Na verdade, seria precizo ser muito incrédulo, para recusar um depoimento
tão desinteressado; pois que o demo teria interesse em dissimular a sua
presença, e enganar os homens pelas falsas apparencias d’uma hypocrita
devoção.” (p. 160)

“[...] De facto, tem elle por differentes vezes tentado fazel-o, mas não sabe
sustentar por muito tempo o seu papel, e vencido pela força da verdade (já se
vê, que ainda lhe restão, pelo menos, alguns bons sentimentos), acaba sempre
por confessar a sua mentira, e declarar, tirando a mascara, o seu ódio aos
bons catholicos.” (p. 160)

“Demais, Satanaz revela por signaes não equívocos a sua verdadeira natureza.
Assim, todas as vezes que sobre a meza se colloca um crucifixo, um rosário,
ou um livro de missa, ou que d’ella se approxima qualquer objecto bento, agita-
se o traste com uma espécie de furor, fugindo deante destes emblemas do
poder divino.”

“[...] abbade Bautain: “Vi um dia, diz elle, um cesto assim animado, torcer-se
como uma cobra, e fugir de rastos deante d’um livro dos evangelhos, que lhe
apresentavão sem proferir palavra”.” (p. 160)

“A convicção do abbade Bautain, grão vigário do arcebispado de Pariz, doutor


em theologia, medicina e direito; a auctoridade do padre Ventura, as consultas
de vários prelados eminentes, as decisões de respeitaveis ecclesiasticos, tudo
isto nos não póde deixar duvidas sobre a opinião do clero em geral.” (p. 160)

“O conde de Richmond conclue o seu opúsculo, fazendo votos para que os


bispos, e, sedo precizo, o próprio papa, empunhando os seus báculos
pastoraes, pronunciem a tremenda formula: Vade retro, Satanas!” (p. 160)

“Mirville, Gougenor dês Mousseaux, sombra daquelle, e outros muitos


escriptores, que seria ocioso nomear, reclamão também os exorcismos da
egreja contra os espíritos das mezas, que elles declarão serem todos maos
indistinctamente.” (p. 160)

“A presença do demônio ainda se atraiçoa a seus olhos numerosos erros,


contradições, malicias, maldades e até grosserias de linguagem, que escapão
frequentemente aos espíritos. [...] Quem se recusará a crês, que so o demônio
póde tornar culpado destas extravagâncias?” (p. 161)
“Arrastado pela torrente, que levava apoz si todos os espíritos, e assustados do
mal, que d’ahi podia resultar, sentiu na America também pela sua parte o clero
protestante a necessidade de oppor uma barreira á invasão das ideias novas, e
proscreveu nos seus púlpitos e nos seus jornaes as manifestações espirituaes,
como obra do demônio. Em França mostrou-se o protestantismo em geral
avesso á doutrina dos espíritos.” (p. 161)

“[...] O pastor Coguerel declarou, que attribuir ao diabo as pretendidas


maravilhas das mezas, era um absurdo odioso, e os leitores já sabem, que
Agenor de Gasparin não poupa muito os sectários de similhante crença.” (p.
161)

“Com tudo, no próprio seio dos catholicos apparecérão dissidentes. O abbade


Almignana, que resumo os títulos respeitáveis de doutor em direito canônico,
theologo magnetista, e até de médium (é Mirville, que lhe dá estas
qualificações), acredita, fundado nas suas experiências pessoaes, que os bons
espíritos também tomão parte na brincadeira, refutando a este respeito a
doutrina exclusivista de Mirville.” (p. 161)

“Pelo que toca aos partidistas do magnetismo e da magia transcendental, que


evocão á vontade as almas dos mortos, e os habitantes desse mundo invisível,
que chamão espiritual, esses pretendem conversar com os bons ou maos
espíritos, segundo lhes apraz.” (p. 161)

“[...] Assim, reconhece Deleuze, que segundo alguns magnetizadores, “póde-se


no estado de crise, entrar em comunicação com os anjos, ou com os demônios,
conforme se quer o bem ou o mal”. Tal é a opinião de Du Potet, Charpignon,
Billot, Chardel, e dos mais celebres magnetizadores.” (p. 161)

“[...] É á maligna influencia dos maos espíritos, que devemos attribuir as


illusões, os erros, as falsas descripções, as predicções mentirosas; mas as
verdades immortaes, reveladas pelos extativos, são devidas a feliz intervenção
dos espíritos de luz.”

“[...] N’um artigo da Meza, que fala, lemos um protesto contra esses
exagerados receios, que a todos os espíritos dão patente de demônio; ás
impertinências de espíritos por demais baldos de respeito, oppõem-se as
grandes e bellas verdades, evidentemente ensinadas pelos mais puros
espíritos e os mais dignos da veneração dos homens.” (p. 161)

“[...] com effeito fazem-nos os mediums communicar á vontade com os sábios


de todos os tempos, com Socrates, Platão, Bacon, Franklin. Obteem respostas
d’um Bossuet ou d’um Fénelon. Chegão até às vezes a ter a ventura de
conversar com sactos: foi assim que S. Luiz dictou sua vida a uma jovem de
quatorze annos, Ermance Dufaux. Outrotanto fez Joanna d’Arc, e nos seus
entretenimentos d’alem tumulo jamais o espírito do mal se trahiu por um
pensamento, ou por uma palavra equivoca.” (p. 162)

“Nas solemnes retractações, que de seus passados erros teem feito alguns
espíritos, há alguma couza ainda de mais edificante. Assim renegarão Voltaire
e Rousseau as suas obras perante Henri Carion, que julgou do seu dever
publicar, para edificação do mundo, “estes dous prodígios da clemência divina,
que se dignou forrar a uma eternidade de tormentos estes dous philosophos
modernos, cujos nomes teem sido as bandeiras da irreligião, nas suas Cartas
sobre a evocação dos Espiritos.” Carion teve até o cuidado de communicar-nos
a abjuração, assignada por Voltaire, com a fac-simile da escriptura do espirtio:
“J’ai renié. Mes oeuvres impies, J’ai pleuré, Et mon Dieu m’a fail misericorde.
(Voltaire)” (p. 162)

“[...] É a superstição, que os tem representado como potencias malfazejas; mas


o que é verdade, é que elles não trabalhão, senão para o bem. [...] Louisy:
“Almas desprendidas do corpo, servem os espíritos, na harmonia universal, de
laço natural entre Creador e a creatura. Todos nos acompanhão, nos vigião,
nos advertem; todos os espíritos, da luz ou das trevas, recompensados ou
punidos, teem por única missão guiar o homem para o bem, pelas vias da
justiça e do amor. São elles os nossos verdadeiros anjos da guarda, a nossa
consciência. Pois que não há espíritos maos!”.”(p. 162)

“Eis pois rehabilitada a magia! Nos séculos de ignorância não tinha ella outro
fim, que não fosse o mal: hoje só aspira ao bem; outr’ora tinha ella o ódio por
principio, hoje é o amor, que a guia. Abandonou o culto de Satanaz, e so cura
de glorificar o Senhor! Os nossos feiticeiros modernos mais parecem prophetas
e sanctos, do que servos damnados do espírito das trevas. É bem o caso de
dizer-se “quando o diabo envelhece, faz-se ermitão”.” (p. 163)

“Pronunciei a palavra terrível magia: mas existirá realmente magia? Haverá


homens, que d’ella se occupem? Celebrar-se-ão ainda tractados mágicos?
Remetto o leitor, que d’isto se quizer assegurar, para três obras mui
recentemente publicadas: a Magia Magnetica, por Cahagnet, publicada em
1854, e o curiosíssimo livro, publicado no anno passado por Eliphas Levi, sob
titulo de Dogmas e Ritual da Alta Magia.” (p. 163)

“Em todas estas obras se acha o magnetismo estreitamente ligado á magia, e


quasi com ella identificado. E com effeito, é o magnetismo, que foi o berço de
todas estas poéticas superstições, que vemos renascer na gemma do século
XIX; o tempo dos Mesmer, dos Puysegur, dos Deleuze, foi o tempo da
incubação da magia moderna, emquanto esta revela a sua existência pelo
phenomeno das mezas, que gyrão, e dos espíritos, que batem, triumphão os
magnetizadores sobre toda a linha, pretendendo fazer reentrar os factos novos
no seu domínio.” (p. 163)
“A descoberta de Mesmer, exclama o barão du Potet, rompeu o circulo traçado
em torno d’ella pelos Pompilius das nossas academias. Ella entrou já no
domínio da imprensa com os phenomenos novos, que corroborando-a lhe dão
uma sancção universal.” (p. 163)

“[...] Os mestres bem comprehendérão, e não deixarão perder a occasião. Du


Potet disse em tom solemne. “O magnetismo é a magia.” Os adeptos repetirão
a senha, e eis a sciencia mais uma vez salva por algum tempo.” (p. 163)

“Aqui temos pois Du Potet transformado em mago! Tem, como antigos


feiticeiros, seu espelho mágico, e nós o vimos n’uma das suas conferencias
dominicaes. É um circulo plano, traçado com carvão sobre o soalho, e cujas
partes todas as são desegualmente carregadas de preto.” (p. 163)

“O conde de Szapari admitte também, que magnetizador e mágico, é tudo a


mesma couza. N’um appendice ao livro Magnetismo e Magneto-therapia, em
que tracta especialmente da magia, explica elle o que entende por esta arte.
Não é um acção physica, que o homem exerce sobre o seu similhante, por
intermédio d’um espírito extranho, que a arte exige para operar esta acção; ella
não recorre, senão a si mesma e á sua influencia espiritual, manifestada por
um signal.” (p. 164)

“[...] O acto mágico é pois uma acção espiritual, occulta sob o symbolo d’uma
acção physica. Eis ahi a verdadeira magia desvendada! Esta acção espiritual
nos vem de Deus; é uma sciencia e uma fe ao mesmo tempo, é uma religião.
Com este systema inteiramente metaphysico, estamos bem longe de evocação
dos mortos; vamos tornar a achal-a em Cahagnet.” (p. 164)

“Na sciencia da magia, como em todas as outras, cada um se esforça por fazer
reconhecer os seus direitos de invenção: Mirville gabava-se de haver d’alguma
sorte annunciado o predicto as manifestações dos espiritios. Ahi está porem
Cahagnet a reclamar para si a prioridade. Sustenta que foi elle o primeiro, que
abriu o trilho, e que os prodígios americanos e outros, são resultado das suas
revelações.” (p. 165)

“É nas revelações das almas evocadas por esta incomparável extática, que
Cahagnet tem bebido toda a suas sciencia acerca do homem physico e moral,
da vida futura e de Deus. Os espíritos Galileo, Hyppocrates, Franklin,
Swedenborg, são os seus fiadores: Galileo lhe revelou, bem entendido, por
intermédio da lucida, as verdadeiras leis da physica e da astronomia; Franklin
communicou-lhe a invenção d’uma machina electrica; Hyppocrates ensnou-lhe
astronomia, a physiologia, a arte de curar; mas é Swedenborg, o príncipe dos
illuminados, que mais frequentemente apparece para desvendar-lhe os
mysterios da vida ultra-mundana, a natureza das almas, a sua existência
anterior, e destinos futuros. “Não tive instrucção, exclama triumphantemente
Chagnet, e comtudo falo, como se tivesse estudado todas as sciencias, de que
tracto!”.” (p.165)

“Como duvidar ainda da comunicação dos espíritos? Verdade é que du Potet


accusa o seu collega em magia, de “não ter ainda achado o que ods símplices
mortaes distingue os gênios, nem tão pouco recolhido algumas das importantes
verdades, de que o ceo está cheio.” Mas paciência! Isso ainda virá, pois
Cahagnet amontoa tomos sobre tomos com mais facilidade, do que os mais
exercitados escriptores, e se o estylo e a grammatica lhe falhão, acodem-lhe as
ideias, e jorrão como d’uma fonte.” (p. 165)

“Apezar de todo o nosso respeito pelo filho da officina, que durante o dia ganha
o pão com o suor do seu rosto, e de noute medita e escreve (teve elle próprio o
cuidado de nol-o dizer), não podemos absternos de dizer, que as suas
publicações são das mais bizarras e caricatas, que o nosso tempo tem visto.”
(p.165-166)

“Deve elle estar affeito a estas criticas, que os seus co.religionarios lhe teem
prodigalizados, mas consolal-o-á provavelmente a lembrança, de que é sorte
de todos os reveladores passarem por visionários.” (p. 166)

“Alphonse Louis Constant não respira senão magia. Todas as variedades da


arte mágica se achão reunidas no seu curioso livro, a cabala, a necromancia, a
geomancia, a astrologia, a chiromancia, a metoposcopia, alchimia, a sciencia
hermética, o magnetismo, e até as mezas gyrantes.” (p. 166)

“Estas ideias de renovação social tornão a apparecer n’uma escola


inteiramente opposta á dos phalansterianos, na dos escriptores mysticos, que
partindo da doutrina christã, desenvolvem, no estylo ás vezes bem enigmático,
ideias mais ou menos orthodoxas sobre o aperfeiçoamento da sociedade,
relações do mundo visível com o invisível, destino das almas e mysterios da
vida futura. [...] como uma espécie de iniciação para uma vida nova, e um
porvir de felicidade para a humanidade.” (p. 167)

“Quanto a mim, entre a philosophia humanitária, que se resolve


temerariamente no pantheismo, e a que toma por base um christianismo
desfigurado, não vejo escolha a fazer; d’ambos os lados encontro egual
orgulho e a mesma impotência, para guiar o homem ao seu fim verdadeiro.” (p.
168)

“Se tivéssemos de passar revista a todas as elucubrações d’estes prophetas do


futuro, não nos bastaria o tempo presente. Ai de nós! Mal póde o homem viver
durante o curso tão rápido d’esta vida mortal, e quer antecipar sobre a vida
futura! Ainda elle não sondou os mysterios do tempo, e quer rasgar os
segredos da eternidade! Não conhece a natureza d’um átomo de matéria, e
quer penetrar a essência dos seres invisíveis, que povoão o espaço! Não
lançou inda um volver d’olhos sobre a terra, e quer perscrutar as profundezas
do ceo! Indomavel orgulho o impelle constantemente avante: pretende rivalizar
com o Creador e imitar-lhe as obras; refaz, segundo a sua phantasia, a
Genesis do mundo; quer reconstituir a sociedade humana sobre novas bases;
antevê o progresso indefinido, um futuro de perfeição, a felicidade para a
regenerada humanidade. Que mais? Sonha com a absorpção da humanidade
no seio de Deus!” (p. 168)

Nem a religião tem inimigos mais perigozos do que os pretendidos


esperitualistas, apezas das suas pretenções a servirem a causa dos interesses
religiosos. [...] Depois fazem em seus livros uma extranha mistura do sagrado
com o profano; põem os prodígios da magia ao lado dos milagres da religião.”

“Nem é para admirar, que ás loucuras espirituaes venhão ligar-se a aspirações


a um progresso indefinido, a tentativa d’uma reorganização da humanidade. [...]
o homem tem em si tão grande necessidade de crer, que quando deserta dos
sanctuarios sagrados, é para visitar os antros da feitiçaria.” (p. 281)