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Conservadorismo liberal e classes médias: uma análise do “Vem Pra Rua” e do

“Movimento Brasil Livre”

Gustavo Casasanta Firmino∗


Resumo: O presente artigo é resultado de uma pesquisa em estágio inicial e tem por objeto dois
movimentos sociais que ganharam bastante destaque na conjuntura política brasileira recente: o
“Vem Pra Rua” e o “Movimento Brasil Livre”. Tais movimentos adquiriram notabilidade ao
contribuírem para a organização de passeatas e marchas que reuniram centenas de milhares de
pessoas em várias das principais cidades do país, tendo como alvo preferencial de seus protestos
o governo federal, o Partido dos Trabalhadores e a corrupção. A renúncia da Presidenta da
República e a defesa (genérica) de preceitos vinculados ao liberalismo econômico e ao “livre
mercado”, têm constituído os dois principais motes do Vem Pra Rua e do Movimento Brasil
Livre. Nos interessa compreender em que medida a ideologia, plataforma reivindicativa e
composição social dos protestos convocados pelos movimentos estabelece pontos de contato
com as classes médias e, mais especificamente, com dois segmentos específicos daquelas: a
“classe média intermediária” e a “alta classe média”.

Palavras-chave: Vem Pra Rua. Movimento Brasil Livre. Classes médias. Crise política.

A partir do segundo semestre de 2013, as mobilizações de rua ocorridas no mês de


junho e que ficariam conhecidas como “Jornadas de Junho” marcaram o início de um
novo ciclo político no Brasil. Apesar da miríade de pautas e reivindicações apresentadas
nas ruas das grandes cidades e capitais naquela ocasião11, pode-se afirmar que a tônica
prevalecente foi a de uma crítica generalizada à corrupção e ao sistema político do país.
A espontaneidade do movimento, descentralização organizativa e pulverização das
reivindicações, possibilitou que diversos setores sociais disputassem o sentido político
das manifestações, ora destacando de forma seletiva algumas das pautas que foram
apresentadas, ora procurando deslegitimar a ação e plataforma dos manifestantes em
geral ou de determinados grupos organizados, em específico.

No presente artigo, procuramos desenvolver uma análise dos dois principais


movimentos, surgidos a partir das assim chamadas Jornadas de Junho de 2013, que
apelam às ruas convocando manifestações e marchas de caráter “cívico”. Referimo-nos
aos movimentos “Vem Pra Rua” e “Movimento Brasil Livre” (adiante identificados
pelas iniciais VPR e MBL, respectivamente). O VPR surge em setembro de 2013, após
as manifestações ocorridas em junho (e que se arrastaram, com menor fôlego, até o mês
de julho) e o MBL é oficializado em novembro de 2014, logo após o fim do segundo



Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade Estadual de Campinas
- Unicamp. E-mail para contato: gucasasanta@gmail.com.
11
Referimo-nos ao período iniciado em 17 de junho, após os protestos do Movimento Passe Livre (MPL)
realizados nos dias 6, 10, 11 e 13 daquele mês, quando a pauta apresentada pelos manifestantes era a
redução da tarifa do transporte público. Em São Paulo, após a forte e indiscriminada repressão policial da
manifestação do dia 13, os manifestantes ganham a simpatia do grande público, e inicia-se uma nova
etapa do movimento, nos dias 17, 18, 19 e 20 de junho, quando atinge seu auge (houveram manifestações
em cerca de 100 cidades, dentre as quais várias capitais, e estima-se que, ao todo, cerca de 1,5 milhão de
pessoas participaram das manifestações). O início da Copa das Confederações no dia 16 de junho
potencializa as manifestações, em especial nas capitais que receberiam partidas. Se é verdade que a força
do movimento se amplifica, também ocorre uma grande profusão e dispersão de dizeres e pautas. A partir
do dia 21, as mobilizações se fragmentam em torno da defesa de pautas específicas (Singer, 2013, 25-6).
turno das eleições presidenciais de 2014. Alguns dos seus idealizadores assumiram a
defesa da candidatura de Aécio Neves, candidato derrotado do Partido da Social
Democracia Brasileira (PSDB) à Presidência da República. Ambos os movimentos vêm
defendendo publicamente a renúncia ou abertura de processo de impeachment contra a
presidenta Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores (PT)12.

O trabalho está dividido em duas partes principais. Na primeira, procuramos traçar um


perfil dos movimentos VPR e MBL, bem como dos manifestantes que têm comparecido
aos protestos pró-impeachment. Nos interessa compreender de que modo a ideologia,
plataforma reivindicativa e composição social do público que compareceu às
manifestações convocadas por esses dois movimentos estabelecem pontos de contato
com as classes médias e, mais especificamente, com dois setores específicos daquelas,
que designaremos como “alta classe média” e “classe média intermediária”. Na segunda
parte, propomos uma caracterização da atual crise política brasileira, tendo em vista o
impacto de certas políticas econômicas e sociais dos governos do PT sobre esses setores
médios, ao mesmo tempo em que procuramos estabelecer algumas características
específicas concernentes aos movimentos de classe média. Os elementos apresentados
nesses dois momentos nos permitirão testar algumas de nossas hipóteses iniciais de
pesquisa.

Movimentos e manifestantes: em busca de um perfil

As expressivas manifestações pró-impeachment ocorridas ao longo de 2014 e 2015, e


que levaram às ruas milhares de manifestantes em centenas de cidades, contaram com a
presença de uma profusão de organizações com perfis variados: grupos religiosos,
associações profissionais, associações patronais, centrais sindicais, partidos políticos e
movimentos sociais. Nossa leitura, todavia, se concentrará apenas sobre o Vem Pra Rua
e o Movimento Brasil Livre. Dos movimentos antipetistas surgidos a partir de 2013, o
VPR e MBL foram os que apresentaram maior capacidade de mobilização social e
maior visibilidade nos meios de informação tradicionais.

No geral, é possível notar que seus princípios são bastante semelhantes. O VPR defende
a eficiência e transparência no gasto público; redução da carga tributária e da
burocracia; liberdade econômica; empreendedorismo e livre iniciativa. Exige ainda o
fim do Foro de São Paulo, que implicaria numa “agenda paralela” do governo (Vem Pra
Rua, 2015). O MBL, por sua vez, pede o fim da corrupção e da impunidade; defende
uma imprensa livre e independente do governo; liberdade econômica; separação dos

12
O “Vem Pra Rua” passa a defender o impeachment da presidenta Dilma Rousseff após as
manifestações de 15/03/2015.
poderes; eleições livres e idôneas (sem coerções partidárias); o fim dos subsídios diretos
ou indiretos do governo a ditaduras13 (Movimento Brasil Livre, 2015a). Ambos os
movimentos compartilham um discurso antipetista, de defesa do “livre mercado” e da
concorrência capitalista (Tatagiba et al, 2015, 16).

Nos dias 28 e 29 de novembro, o MBL realizou seu primeiro Congresso Nacional, em


um Centro de Convenções na cidade de São Paulo/SP. Para o segundo dia do evento,
estavam previstos os seguintes painéis de debate: “Empreendedorismo”; “Liberalismo
nas redes”; “As convergências entre liberalismo e conservadorismo”; “Liberalismo na
prática” e “Popularizando o discurso liberal” (Movimento Brasil Livre, 2015b). Vale
ainda destacar a intenção declarada de lideranças dos movimentos VPR e MBL em
concorrer às eleições municipais de 2016 por meio de legendas de oposição ao governo
federal14, apoiados numa cartilha liberal (O Globo, 2016).

A proximidade ideológica entre os movimentos, a grande visibilidade por eles


alcançada, bem como sua capacidade de mobilização social justificam nossa escolha em
tomá-los conjuntamente como objeto de análise. Um terceiro movimento, denominado
“Revoltados Online” também ganhou considerável destaque durante os protestos
antigoverno ao longo de 2014 e 2015. Contudo, a defesa de uma intervenção militar
para retirar o governo do poder marca uma distância ideológica importante em relação
ao VPR e MBL, ao passo que a defesa dos preceitos do “livre mercado” não se encontra
explicitada nos documentos publicados pelo movimento, nem tampouco na fala de suas
lideranças. É válido notar que na pesquisa realizada pelo Datafolha na manifestação de
15 de março na cidade de São Paulo, apenas 10% dos manifestantes consideraram que,
dependendo das circunstâncias, a ditadura seria preferível a um regime democrático,
enquanto 85% entendiam ser a democracia sempre melhor que qualquer outra forma de
governo (Datafolha, 2015).

Os movimentos em questão convocaram atos unificados em várias cidades e capitais,


abrangendo todas as regiões do país contra o governo Dilma Rousseff (PT) e a
corrupção nos dias 15 de março, 12 de abril e 16 de agosto de 2015, e em 13 de março
de 2016. A adesão aos protestos sofreu oscilações15. Tomando por base dados como

13
Notícias divulgadas nos sites de ambos os movimentos e também declarações públicas de algumas de
suas lideranças permitem afirmar que A crítica é dirigida a supostos investimentos do governo brasileiro
em países latinoamericanos que dispõem de governos considerados de esquerda, como Argentina (sob o
governo de Cristina Kirschner), Bolívia, Venezuela, Equador e Cuba, de acordo com notícias divulgadas
nos sites de ambos os movimentos e também
14
Algumas das lideranças do VPR e MBL concorrerão pelo “Partido Novo”, agremiação criada em 2011
e que obteve seu registro partidário em setembro de 2015. Presente nas manifestações pró-impeachment
ao longo de 2014 e 2015, o partido apresenta forte viés liberal, e defende a redução das áreas de atuação
do Estado (Partido Novo, 2016).
15
Se considerarmos as medições realizadas na cidade de São Paulo (que reuniu o maior número de
pessoas nas quatro ocasiões) pelo Instituto Datafolha, o número de manifestantes teria regredido de 210
escolaridade, renda, ocupação e cor de pele dos manifestantes, podemos traçar um perfil
socioeconômico daqueles que foram às ruas. Utilizaremos como referência as medições
realizadas pelo Instituto Datafolha nas quatro ocasiões. Faremos uso ainda de duas
pesquisas coordenadas pelos professores Pablo Ortellado (USP) e Eshter Solano
(Unifesp), referentes aos atos de 12/04/2015 e 16/08/2015. Todas as medições se
referem às manifestações ocorridas na Avenida Paulista, em São Paulo/SP. O alto grau
de correspondência entre as respostas fornecidas pelos entrevistados parece autorizar a
tentativa de estabelecermos um “perfil” dos manifestantes.

Para facilitar a exposição, apresentaremos os percentuais das pesquisas do Datafolha


pela ordem cronológica das manifestações: 15/03/2015, 12/04/2015, 16/08/2015 e
13/03/2016. No que se refere à escolaridade, declararam possuir ensino superior,
respectivamente, 76%, 77%, 76% e 77%. O índice dos entrevistados pelo Datafolha em
que declararam possuir renda entre 5 e 10 salários mínimos mensais foi de 27%, 24%,
25% e 26%; na faixa entre 10 e 20 salários, 22%, 25%, 25% e 24%; entre 20 e 50
salários, 16%, 13% e 14%; e 3% alegaram receber mais de 50 salários mínimos mensais
nas três primeiras medições, índice que chegou a 2% na quarta aferição.

Os dados sobre ocupação, fornecidos pelo instituto, dão conta de que o número de
assalariados registrados era, respectivamente, de 37%, 35%, 33% e 31%; empresários,
14%, 10%, 13% e 12%; profissionais autônomos regularizados, 11%, 15%, 13% e 12%;
profissionais liberais de nível universitário, 7% nas três primeiras pesquisas e 8% em
13/03/2016; funcionários públicos, 4%, 6%, 7% e 5%. Quanto à cor da pele, os que se
autodeclaravam brancos eram 69%, 73%, 75% e 77%; pardos: 20%, 18%, 17% e 15%;
negros, 5%, 4%, 3% e 4%. O público masculino foi predominante nas quatro ocasiões:
63%, 56%, 61% e 57% (Datafolha, 2016).

As pesquisas coordenadas por Solano e Ortellado, nos atos de 12/04/2015 e 16/08/2015,


obtiveram resultados semelhantes. Em relação à escolaridade, declararam possuir ensino
superior (completo ou incompleto), 80,1% dos entrevistados na primeira pesquisa e
77,5% na segunda. Respectivamente, aqueles que declararam renda entre 5 e 10 salários
mínimos totalizaram 24,8% e 22,5% dos manifestantes; entre 10 e 20 salários, 28,5% e
28,9%; e 19,5% declararam possuir renda superior a 20 salários nas duas ocasiões.

mil em 15/03/2015 para cerca de 100 mil em 12/04/2015, ao passo que o ato realizado na Avenida
Paulista em 16/08/2015, teria contado com a presença de 135 mil manifestantes. A maior manifestação
ocorreu em 2016, no dia 13 de março; ao todo, teriam comparecido cerca de 500 mil participantes. Em
13/12/2015, diversos atos antigoverno foram convocados nacionalmente, mas não contaram com a
coordenação do VPR e MBL. Bem mais esvaziados que os protestos anteriores (em São Paulo, por
exemplo, segundo estimativa da Polícia Militar, havia cerca de 6 mil pessoas), os atos foram convocados
por movimentos defensores da intervenção militar, como o Revoltados Online e o Avança Brasil. A data
dos protestos coincidiu com o 47º aniversário do Ato Institucional n. 5, promulgado durante a ditadura
militar.
Quanto à cor da pele, os autodeclarados brancos totalizavam 77,4% dos entrevistados na
primeira manifestação e 73,6% na segunda, enquanto aqueles que se declararam pardos
eram 15,1% e 13,3%, e os pretos 4,9% e 5,7%. Mais uma vez o público masculino foi
predominante: 52,7% e 57, 3% (Ortellado & Solano, 2015a; 2015b).

Quando comparamos os dados acima apresentados com aqueles referentes ao conjunto


da população da cidade de São Paulo, pode-se constatar um grande descompasso
(Datafolha, 2015). É possível afirmar, com base nessa comparação, que os protestos
convocados pelo VPR e MBL atrai, preferencialmente, um perfil específico de
manifestante, em geral branco, com alta escolaridade e renda correspondente. Destaca-
se ainda o alto número de profissionais autônomos, profissionais liberais de nível
superior e empresários16. Tal perfil parece indicar uma forte participação de classe
média nessas manifestações e, em especial, da “alta” classe média. Por sua vez, as
lideranças dos movimentos são predominantemente homens brancos que se apresentam
como empresários (Tatagiba, et al, 2015, 205).

Ao analisarmos aquilo que seria o perfil político-ideológico dos participantes dos atos
convocados pelos movimentos supracitados, tendo por base sua percepção sobre os
movimentos sociais, partidos políticos e órgãos de imprensa, temos que a rejeição aos
partidos políticos e aos movimentos sociais possuidores de uma base social popular é
alta: 73,2% dos manifestantes disseram não ter confiança nenhuma nos partidos (índice
que chega a 96% em relação ao PT); 79,2% declaram não ter confiança alguma no
Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST); e 84,4% não têm nenhuma confiança
no Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) (Ortellado & Solano, 2015).
Indo além, 70,8% declararam confiar muito no Vem Pra Rua, enquanto 52,7% o
disseram em relação ao Movimento Brasil Livre (esse último possuía um maior índice
de desconhecimento: 15,9% contra apenas 2,3% do primeiro) (idem). Quanto à
confiança nos canais de imprensa, sobressaem-se as menções positivas a Revista Veja
(51,8% dos manifestantes disseram confiar muito), ao passo que Reinaldo Azevedo e
Raquel Sherazade foram os “comentaristas políticos” que, com larga vantagem,
obtiveram o maior índice de menções positivas (ibidem). Logo, nos parece correta a tese
de que o programa liberal das lideranças dos movimentos corresponde àquilo que a
maioria do público manifestante acredita (Cavalcante, 2015, 194).


16
Notemos também que o número de funcionários públicos, na média (5,5%), é quase duas vezes superior
em relação ao conjunto dos habitantes da cidade de São Paulo, segundo levantamento do próprio
Datafolha para o ano de 2015 (3%) (Datafolha, 2016). Já o alto número de assalariados registrados, numa
média das quatro manifestações (34%), se aproxima do índice correspondente à capital paulista (32%)
(idem). A identificação dos níveis de escolaridade e renda desses manifestantes é fundamental para
testarmos a hipótese que desenvolvemos em nossa pesquisa, quanto à presença prioritária de classe média
nas manifestações convocadas pelo VPR e MBL. Infelizmente, não dispomos desses dados no presente
momento.
Caberia problematizar, contudo, se no plano do discurso, a ideologia teórica dos
movimentos, facilmente discernível a partir da defesa de um estado mínimo, da não
intervenção na economia e da crítica difusa ao Estado e ao sistema político, corresponde
à sua ideologia prática17. Isso porque é comum que os objetivos mais amplos dos
movimentos (nesse caso, o fim da corrupção, a não intervenção estatal no livre jogo do
mercado e a crítica ao conjunto dos partidos políticos), não correspondam pari passu às
suas práticas concretas. Tal situação pode se dever a duas razões principais: em
primeiro lugar, a tensões pontuais realmente existentes entre as bandeiras mais gerais do
movimento (a formulação geral de suas lideranças) e sua base social concreta18 e, em
segundo lugar, ao posicionamento dos movimentos na cena política, e mais
precisamente, ao grau de eficácia política por eles adquirido em dada conjuntura.

Se seguida à risca, a implementação de um programa econômico liberal ortodoxo


significaria, por exemplo, uma redução dos concursos públicos, o que certamente
impactaria setores da classe média. É digno de nota que a pesquisa coordenada pelos
profs. Pablo Ortellado e Esther Solano sobre a manifestação de 16 de agosto na Avenida
Paulista em São Paulo, indicou que mais de 95% dos entrevistados eram favoráveis a
sistemas de saúde e educação públicos e gratuitos. Indo além, a gratuidade do transporte
coletivo, certamente uma bandeira nada liberal, é apoiada total ou parcialmente por 49%
dos manifestantes (2015b). Assim, seria possível problematizarmos possíveis
contradições entre a ideologia teórica dos movimentos e os interesses “práticos” de sua
base social19. Tais contradições – tendentes a influir nas táticas dos movimentos e no
seu poder de mobilização – teriam de ser apreendidas por meio de uma análise
específica, da qual não dispomos no presente momento.
Todavia, podemos caracterizar o VPR e MBL como movimentos de matiz neoliberal
que promovem sua plataforma política elegendo o Governo Federal e o PT como
antagonistas privilegiados. No intento de dar maior robustez à hipótese de que os
movimentos em questão exercem atração preferencial sobre as classes médias,
desenvolvemos a seguir uma caracterização da crise política recente e do
posicionamento dos setores médios em relação ao ciclo petista.

Crise do ciclo petista e revolta das classes médias

17
A distinção entre ideologia teórica (sistematização teórica de certas visões de mundo) e ideologia
prática (concepção de mundo espontânea) é tomada de empréstimo de Louis Althusser (1980, 159-160).
18
Na manifestação do dia 15/03/2015, 91% dos manifestantes declararam não possuir qualquer tipo de
vínculo com os grupos que convocaram os protestos (Datafolha, 2015).
19
Décio Saes argumentou sobre a existência de um “neoliberalismo de oposição” em segmentos da classe
média, atraídos por um discurso de “modernização” da sociedade e do Estado. Nessa perspectiva, a
política neoliberal é entendida como o caminho para o combate a um Estado ineficiente e corrupto, que
absorve recursos financeiros do povo e os coloca à disposição de uma casta de burocratas e políticos
profissionais. Todavia, a adesão a esse neoliberalismo de oposição não significa um apoio irrestrito a todo
o programa neoliberal, uma vez que esses mesmos segmentos comumente exigem do Estado intervenção
e proteção quando suas condições de vida e de trabalho estão em jogo (Saes, 2001, 89).

A recente emergência de movimentos pró-impeachment, com destaque para o VPR e
MBL, precisa ser entendida no interior de um contexto político específico, marcado pela
crise do governo encabeçado pelo Partido dos Trabalhadores à qual se articula, em
tempos recentes, uma situação de estagnação e crise econômica. Todavia, a crise
política (de governo) não está aqui subsumida na crise econômica, ou vice-versa. Na
verdade, entendemos que as diferentes formas de crise (econômica, política, ideológica,
etc.) possuem temporalidades e dinâmicas internas próprias e relativamente autônomas20
de sorte que, por exemplo, uma crise econômica numa determinada formação social não
necessariamente evolua para uma crise política.

No que diz respeito à crise política (de governo) propriamente dita, destacaremos um
fator que nos parece essencial: o desgaste da relação de representação política dos
governos petistas (alvo político preferencial dos movimentos acima citados) com as
classes médias. Vale destacar que do ponto de vista do comportamento eleitoral, largos
contingentes das classes médias urbanas que apoiavam as candidaturas presidenciais do
PT deixam de fazê-lo a partir de 2006, ano da reeleição do ex-presidente Luiz Inácio
Lula da Silva. A perda do apoio eleitoral entre a classe média urbana (sobretudo das
regiões Sul e Sudeste) foi compensada pela adesão de milhões de eleitores de
baixíssima renda à candidatura de Lula, ensejando uma mudança significativa na
composição da base eleitoral do petismo (Singer, 2012, 113-4).

Para André Singer, o afastamento de significativas camadas das classes médias urbanas
em relação ao petismo se deu com a chamada “crise do mensalão” em 2005, que expôs
o partido, então à frente do Executivo político, a escândalos de corrupção fortemente
explorados pela grande mídia. Tal tese, entretanto, nos parece insatisfatória uma vez
que, como o próprio autor argumenta, enquanto o “subproletariado” (a fração mais
pauperizada e politicamente desorganizada no interior da classe operária) teria sido
favorecido por programas governamentais de redistribuição de renda (em especial, o
Bolsa Família), pela expansão do financiamento popular e pela política de valorização
real do salário mínimo (a partir de 2005), simultaneamente houve também um
achatamento nos ganhos da classe média diretamente dependente de serviços como
escolas privadas e planos de saúde (Singer, 2012, 142). Logo, a partir das próprias
indicações fornecidas por Singer, seria possível pensar que o achatamento dos ganhos
econômicos da classe média (a qual o autor trata, em geral, como homogênea),


20
Entendemos que os diferentes níveis da realidade social (econômico, político, ideológico, etc.) possuem
dinâmicas e temporalidades próprias e relativamente autônomas. Tais “níveis” não se encontram
apartados, mas antes, se articulam entre si numa estrutura social global, tal como pressupõe o conceito de
“complexidade estrutural” oriundo do marxismo althusseriano (Cf. Balibar, 2010, 235).
acompanhados da melhora relativa da situação econômico-social da fração
subproletária, poderia ter como efeito um ressentimento político daquela21.

Se é verdade que parte considerável da força de trabalho brasileira aumentou sua


participação na renda nacional e vivenciou uma queda significativa da sua condição de
pobreza, isso não significa que tais contingentes tenham ingressado na “classe média”
ou que passaram a constituir uma “nova classe média”, tese bastante propalada nos
últimos anos. Na verdade, parece mais exato apontarmos para o surgimento de uma
nova classe trabalhadora, no geral com baixa qualificação profissional e rendimentos
comumente alocados numa faixa não superior a 1,5 salários mínimos (Pochmann, 2012,
28-30; 2014, 116)22. De toda forma, vale destacar o problema da relação das classes
médias com esses setores da força de trabalho que não apenas aumentaram sua
participação no mercado consumidor, como também foram beneficiados por programas
governamentais de redistribuição de renda e políticas afirmativas (como as cotas sociais
e raciais nas universidades e no serviço público) que, no geral, atentam contra o critério
da “meritocracia” ao qual largos setores das classes médias são sensíveis.

Contudo, seria um equívoco considerar o conjunto das classes médias enquanto


portadoras de uma única ideologia. Na obra Classe média e sistema político no Brasil,
Décio Saes já havia alertado para a inexistência de homogeneidade político-ideológica
dos “grupos médios”, a partir da análise de diversos períodos históricos da realidade
política brasileira; da Primeira República (1889-1930) à crise política de 1968,
deflagrada em oposição ao regime militar (Saes, 1984). Indo além, o autor argumenta
que a existência de uma “consciência média” (situada entre posições de classe pró-
populares ou pró-burguesas) não lhes assegura unidade ideológica e política alguma, de
modo que as posições políticas dos grupos médios devem ser pensadas sempre em
termos conjunturais, combinadas e filtradas pelas “situações de trabalho” presentes no
mundo dos trabalhadores “não manuais” (Saes, 1984, 20).

Sabemos que classe social alguma é homogênea e, se isso é válido para as classes
fundamentais do modo de produção capitalista – burguesia e proletariado –, nos parece


21
Ao analisar o comportamento político e as percepções sociais da classe média paulistana no contexto da
crise econômica que se inicia no começo dos anos 1980, encerrando o período do chamado “milagre
econômico” da década anterior, Bonelli (1989, 54) destacou a forte necessidade dessa classe em
distinguir-se dos de baixo, proveniente do seu temor de descenso na estrutura social. Não por acaso, no
campo da ação sindical, pode-se notar que uma característica importante das organizações representativas
dos trabalhadores de classe média é a defesa do “salário relacional”, onde muitas vezes não se sabe ao
certo se o que pleiteiam tais organizações é um aumento salarial para a categoria que representam ou uma
redução nos salários dos trabalhadores manuais (Boito, 2004, 25).
22
Em trabalhos recentes, diversos autores apontaram para o equívoco da tese do surgimento de uma
“nova classe média” no Brasil contemporâneo. A esse respeito, pode-se consultar: Braga (2012); Singer
(2012); Souza (2012); Pochmann (2012; 2014); Kerstenetzky & Uchôa (2013), em que pese as diferentes
abordagens teórico-metodológicas adotadas por cada autor.
que também o seja para as classes médias. No caso dessas, no entanto, a
heterogeneidade tende a assumir graus mais elevados, devido a sua determinação de
classe específica no interior do modo de produção capitalista. Isso porque o que unifica
todas as frações das classes médias é o fato de desempenharem, simultaneamente, as
funções de capital e trabalho.

Como argumenta Cavalcante (2012, 5), é fundamental realizar a mediação entre os


conceitos de “funções” e “classes sociais”. Assim, no interior das classes médias em
geral (definidas, num primeiro plano, por desempenharem as funções de capital e
trabalho simultaneamente), podemos apontar frações de classe distintas, a partir de sua
determinação estrutural de classe23. Logo, podemos pensar na existência de uma
pequena burguesia, cuja base econômica repousa na pequena propriedade; numa média
burguesia, empregadora de trabalho assalariado; na realidade dos chamados
profissionais “liberais” não sujeitos à relação de assalariamento (podendo ou não se
constituir enquanto pequenos proprietários) e numa outra fração “média”, composta por
trabalhadores assalariados investidos de funções de capital (gerentes, supervisores,
funcionários públicos, etc.). A grande variedade de situações estruturais de classe no
interior das classes médias em geral permite antever que as relações político-ideológicas
expressas por suas diferentes frações possam assumir formas ainda mais complexas
(Milios & Economakis, 2011, 76-80).

Além do critério de “função social”, também o de estratificação (medido a partir de


marcadores como renda) pode ser útil para o entendimento acerca das classes médias.
Assim, por exemplo, quando falamos em “alta classe média”, estamos lançando mão do
conceito de estratificação social, embora reconheçamos que a diferenciação a partir da
“renda” ou “hierarquia salarial” seja fundamentalmente resultante da distribuição dos
agentes em diferentes classes sociais e da distribuição das classes no interior do circuito
capitalista de produção-circulação-consumo (Poulantzas, 1975, 18-21). De todo modo,
tal diferenciação (embora não explicativa por si só), é capaz de fornecer-nos um
marcador útil para o entendimento das diferenças existentes no interior das classes
médias.

A realidade social da assim chamada “alta classe média”, aproxima-se daquela dos
profissionais liberais com alto grau de qualificação, bem como da dos profissionais de
nível superior que ocupam postos de comando no interior das empresas privadas e no
setor público. Por sua vez, a situação da classe média “intermediária” tende a


23
Tomamos o conceito de “determinação estrutural de classe” emprestado de Nicos Poulantzas. Para o
autor, a determinação estrutural de classe diz respeito ao lugar ocupado pelas classes sociais,
simultaneamente, nas relações de produção, ideológicas e políticas (Poulantzas, 1975, 225).
aproximar-se da realidade dos pequenos proprietários (comerciantes) e das ocupações
burocrático-administrativas de médio escalão, nos setores público e privado.
Historicamente, enquanto força política, a alta classe média brasileira tendeu a ser mais
conservadora e antipopular, ao passo que a classe média intermediária, além de mais
relevante em termos numéricos, tende a apresentar posições político-ideológicas mais
heterogêneas, o que certamente pode ser atribuído à sua maior diferenciação interna.

Não se trata, contudo, de estabelecer num plano puramente teórico quem é a classe
média, e realizar uma descrição exaustiva das categorias profissionais que a compõem,
para depois se passar ao estudo das práticas políticas desses segmentos em diferentes
sociedades capitalistas (Saes, 1977, p. 99). Na verdade, nos parece válido o
entendimento de que a análise da relação entre as classes sociais (em geral) e a ação
coletiva, requer que se considere não apenas a determinação estrutural de classe, mas
também as diferentes conjunturas políticas e as mudanças produzidas na conjuntura, isto
é, que se leve devidamente em conta a articulação entre estrutura e conjuntura. Nessa
perspectiva, os conflitos sociais devem ser entendidos como a manifestação de
contradições estruturais agravadas por problemas conjunturais (Galvão, 2011, 112).

Os movimentos sociais, em particular, são expressão de um conflito político mais amplo


e, desse modo, podem ser entendidos como uma forma específica de política
contenciosa, a partir da qual determinados grupos sociais expressam demandas que
contrariam o interesse de outros setores da sociedade. Nesse sentido, os movimentos
sociais são uma forma possível de organização da ação política (Tilly, 2004, 3; 10). De
nossa parte, entendemos que os movimentos sociais ocupam um espaço relativo à “cena
política”, onde prevalece a ação aberta e direta das classes. Como destaca Machado
(2014, 98-99), os movimentos sociais podem ser pensados como representações
defasadas das classes em luta, expressas na cena política.
Entretanto, por si só, o recurso àquilo que se passa na cena política (na ação aberta dos
partidos, movimentos, etc.) é insuficiente para dar conta de explicar a realidade política
mais profunda numa conjuntura específica. Para isso, o conceito de cena política deve
estar relacionado a um outro, o de “bloco no poder”. O conceito de bloco no poder tem
por função descrever, basicamente, a unidade das classes e frações de classe dominantes
para o exercício de sua dominação. Tal bloco não é imutável ou homogêneo, mas antes,
cindido por lutas internas e formado/alterado de acordo com dada conjuntura concreta.
A unidade conflitiva das classes dominantes se organiza por meio do Estado, que
cumpre papel fundamental para a dominação de classe (Poulantzas, 1977, 225).
Acreditamos que a emergência do VPR e MBL, com forte apelo junto às classes médias
e, em especial, a alta classe média, se relaciona a certas tensões e reorganização das
relações de força no interior do bloco no poder do Estado brasileiro.
A partir do primeiro governo Lula, iniciou-se um novo ciclo político no Brasil, que no
geral, manteve o modelo neoliberal do período anterior, parcialmente modificado por
políticas de feição “desenvolvimentista”. Na visão de Boito Jr., esse novo ciclo –
caracterizado como “neodesenvolvimentista” – expressaria o “desenvolvimentismo
possível dentro do modelo capitalista neoliberal periférico”, marcado pela melhora da
posição da burguesia interna brasileira24 no interior do bloco no poder. Embora a
política econômica encampada pelos governos Lula (em especial pelo segundo governo)
tenha mantido uma orientação neoliberal reformada (com importantes concessões à
grande burguesia interna), observaram-se ganhos marginais para os trabalhadores
organizados, assim como para os trabalhadores pauperizados e desorganizados, com os
quais estabeleceu, graças aos programas de transferência de renda, uma relação política
de tipo populista (Boito, 2012, 69; 73).
Em meados do primeiro mandato de Dilma Rousseff, o cenário torna-se bem menos
favorável para a manutenção ou aprofundamento de uma política econômica com traços
desenvolvimentistas.

Segundo André Singer poder-se-ia verificar, a partir do segundo semestre de 2013, a


formação de uma frente única burguesa no país – composta pelas finanças, indústria e
rentismo –, em oposição à orientação macroeconômica do período anterior (o final dos
anos 2012 teria marcado o auge do ensaio desenvolvimentista do primeiro governo
Dilma Rousseff25) (Singer, 2015, 49; 56-7). O novo bloco político burguês (unificado),
contaria ainda com o apoio da “classe média tradicional” (Idem, 54). O contexto em
que se dá esse reordenamento político da burguesia brasileira coincide com as
manifestações de rua de junho de 2013, que para Singer, acabou por converter-se
(embora no seu início tenha sido bem mais que isso) no começo da onda de classe
média contra o governo Dilma, que estoura em março de 2015.


24
Partindo de indicações fornecidas por Nicos Poulantzas, na segunda metade da década de 1970, o autor
define a “burguesia interna” como uma fração da classe burguesa que, em formações sociais dependentes
(como é o caso do Brasil), ocuparia uma posição intermediária entre a antiga burguesia nacional (passível
de adotar práticas anti-imperialistas) e a velha burguesia compradora, mera extensão do imperialismo no
interior desses países. Tal fração burguesa, ao mesmo tempo que possui base própria de acumulação de
capital (endógena), poderia associar-se ou assumir compromissos com o capital imperialista (Boito, 2012,
67-9).
25
O ensaio desenvolvimentista do primeiro mandato de Rousseff é entendido pelo autor como uma
continuidade (e aceleração) do “reformismo fraco” proveniente dos governos Lula, em especial do
segundo governo, que pressupunha a consolidação de um pacto político conservador, de um
desenvolvimentismo feito por “cima”, para o qual apoio da grande burguesia industrial era indispensável
(Singer, 2015, 46-7; 57). Parece-nos ilustrativo do novo contexto político que a Federação das Indústrias
do Estado de São Paulo (Fiesp), um dia após as manifestações de 13/12/2015 pelo impeachment da
Presidenta da República, tenha anunciado apoio formal a instauração do processo de impedimento da
mandatária. Posição diversa da que foi adotada por ocasião da chamada “crise do mensalão”, em 2005,
durante o primeiro governo Lula.
Setores organizados da alta classe média, por sua vez, encontrariam terreno fértil para
mobilizarem-se contra o governo. É verdade que aqueles já haviam se movimentado
antes nesse sentido26, contudo dessa vez as mobilizações atraíram outros setores médios,
adquirindo feições de um movimento de massas a partir de março de 2015, com as
manifestações convocadas nacionalmente pelo Vem Pra Rua e Movimento Brasil Livre,
além de organizações menores. Com efeito, a hegemonia político-ideológica dos
movimentos VPR e MBL parece repousar sobre a alta classe média, fração média que
constitui (não é de hoje) a base social de apoio da coalizão burguesa orientada por um
programa neoliberal de matiz “ortodoxo” (Boito, 2013, 179). A alta classe média
parece, portanto, desempenhar a função de classe-apoio no interior da referida coalizão.

O desgaste do desenvolvimentismo (mitigado) encampado pelos governos petistas


certamente contribuiu para a atração de contingentes médios, para além da alta classe
média, às manifestações. Por outro lado, a presença da “baixa classe média”, do
conjunto dos trabalhadores organizados de base e do subproletariado, camada mais
pauperizada e politicamente desorganizada no interior da classe operária, não tem se
mostrado significativa.

Em relação aos movimentos dotados de uma base social de classe média, pode-
se verificar diferentes formas de ação, plataformas de reivindicação e objetivos,
dependendo da fração específica de classe presente nos movimentos e da conjuntura
política. De acordo com Neil Davidson, movimentos sociais de direita contam,
frequentemente, com uma adesão decisiva das classes médias. Não por acaso, as
mobilizações de direita mais comuns ocorrem contra governos reformistas que aplicam
políticas redistributivas que beneficiam a população mais pobre ou a classe
trabalhadora, opostas aos interesses das classes médias (Davidson, 2013, 284-5). Ao
analisar os recentes movimentos de direita nos Estados Unidos, o autor aponta para algo
interessante: a alta classe média e os pequenos empresários formam a base social de
apoio dos movimentos de inspiração neoliberal (“libertarianismo econômico”),
enquanto outras frações de classe média tendem a apoiar movimentos de direita com
outra feição, ou ainda, movimentos “reformistas” de caráter progressivo (Idem, 2013,
285). Observações pertinentes e que permitem visualizar certa tendência que se estende
para além do caso estadunidense.


26
Ilustrativa a esse respeito foi a emergência do “Movimento Cívico pelo Direito dos Brasileiros”, que
ficou conhecido como “Cansei”, no ano de 2007. Tendo como mote principal a corrupção e o “caos
aéreo”, o movimento foi à época caracterizado como pertencente às classes média e alta, não deixando de
se registrar pelos meios de imprensa certos traços anedóticos e caricaturais das manifestações. A
pretensão “não elitista” do movimento também seria posta em questão por setores governistas e pela
própria imprensa (Tatagiba et al, 2015, 6-7).
No que respeita aos movimentos recentes de direita nos Estados Unidos, além daqueles
baseados no “libertarianismo econômico”, Davidson também destaca os de caráter
xenofóbico e nacionalista (que exercem atração, fundamentalmente, sobre a baixa classe
média e os trabalhadores assalariados). Ambos constituiriam duas versões distintas do
atual populismo secularista (de direita) estadunidense. Por outro lado, a “nova classe
média” (trabalhadores que exercem a função de supervisão e gerência e funcionários
com algum grau de autonomia no processo de trabalho) tenderia, naquele país, a
defender políticas liberal-democráticas mais do que conservadoras e, em outros lugares,
apresentaria uma inclinação socialdemocrata (Davidson, 2013, 285-6). Não por acaso,
podemos notar que a principal base social dos movimentos altermundialistas (que
reivindicam uma “nova globalização”) é formada pelas frações assalariadas das classes
médias, em especial por aquelas camadas que se viram mais prejudicadas pela adoção
de políticas neoliberais, sobretudo nos países centrais da Europa (Arias & Corrêa,
2012). No Brasil, setores médios assalariados reagiram “à esquerda”27 após as primeiras
reformas de caráter neoliberal do governo Lula (PT), como a reforma da previdência em
2003, episódio que está na origem da fundação do PSOL – Partido Socialismo e
Liberdade, no ano seguinte.

Por sua vez, Décio Saes apontou com grande precisão como, no Brasil, as
“camadas médias tradicionais” com destaque para os antigos “profissionais liberais”
intervieram de forma conservadora e regressiva em diversos momentos da vida política
nacional. Nessa linha, argumentou que o desejo de restaurar a política como privilégio
social (elitismo) e o temor da proletarização levou esses setores a apoiarem o golpe
militar de 1964 (Saes, 1985, 135-9). As formas ideológicas assumidas por seu discurso
e orientação política (antipopulismo, anticomunismo, etc.), seriam filtradas e adaptadas
de acordo com a própria conjuntura (idem, 107). De forma semelhante, significativos
contingentes das “novas camadas médias”28 (técnicos, supervisores, administradores)
em parte devido a sua própria situação de trabalho – balizada pelo exercício da
autoridade técnica e administrativa, seja na empresa privada ou no setor público –
apoiariam o Golpe de 1964, em função da crença no caráter racional da autoridade, bem

27
Nicos Poulantzas havia destacado, em meados da década de 1970, que os trabalhadores assalariados
não produtivos tenderiam a apresentar características político-ideológicas próprias: ideologia
anticapitalista de cunho reformista (via Estado); medo permanente da proletarização (apego à distinção
social entre trabalho intelectual x trabalho manual); aspiração à promoção, carreira e ascensão social por
meio de aparelhos “neutros” como a escola, garantidores de uma suposta igualdade de oportunidades aos
indivíduos (“meritocracia”); concepção do Estado como força “neutra” acima das classes (“fetichismo do
poder”) (Poulantzas, 1975, 317-9). Se, por um lado, as observações feitas são pertinentes por nos
permitirem pensar clivagens estruturais, de ordem social e ideológica, no interior das classes médias, por
outro, vale insistir que tais considerações são sempre genéricas e indicativas, de modo que uma definição
mais precisa sobre o posicionamento dessa ou daquela fração média na luta política deve ser
complementada por uma análise conjuntural específica.
28
A “nova classe média” ao qual o autor se refere teria emergido no Brasil durante as décadas de 1950 e
1960 e seria composta por trabalhadores assalariados improdutivos (“não manuais”) (Saes, 1977), algo
próximo ao que Nicos Poulantzas caracterizou como a “nova pequena burguesia” emergente em
formações sociais capitalistas avançadas no pós-Segunda Guerra (1975).
como da necessidade de uma organização hierárquica da sociedade (ibidem, 140).
Também nesse caso, os efeitos da conjuntura político-ideológica sobre esses
trabalhadores (assalariados improdutivos) não devem ser menosprezados.

Analisando as manifestações contra o governo Dilma Rousseff em 2015, convocadas
por movimentos como VPR, MBL e “Revoltados Online”, Cavalcante destaca o peso
do histórico conservadorismo liberal da classe média brasileira e, em especial da alta
classe média, balizado por valores como a “meritocracia” e sua aversão a políticas de
inclusão social. Adverte contra o risco de superestimação do impacto econômico das
políticas promovidas pelos governos do PT sobre a classe média em geral, o que
resvalaria numa leitura de viés “economicista”, ao desconsiderar como o componente
ideológico potencializa, de forma mais aguda que o econômico, a revolta da classe
média (Cavalcante, 2015, 178; 183-4). Assinala ainda o parentesco entre esse
conservadorismo liberal, que ganha espaço no debate público e a tradição liberal
conservative inglesa, que tem inspirado o surgimento de grupos liberais e libertários (ou
libertarianos) no Brasil (idem, 192).

À defesa dos princípios do livre mercado, portanto, parece combinar-se um


conservadorismo próprio, “à la brasileira”, tendente a naturalizar a histórica e abissal
desigualdade econômico-social do país. Nessa linha, mesmo as mais tímidas medidas
adotadas para promover certo grau de distribuição de renda e inclusão social29,
enfrentam grande rejeição por parte dos setores médios da sociedade brasileira. A
visibilidade e projeção alcançada, num curto espaço de tempo, por movimentos como o
VPR e MBL parecem se dever, portanto, a uma justaposição entre certas disposições
político-ideológicas presentes em setores das classes médias, à qual se articula, na
conjuntura recente, uma aguda crise (econômica e política) do ciclo petista. Isso não
significa, todavia, cair numa visão “espontaneísta” dos movimentos, nem tampouco
desconsiderar sua instrumentalização por frações ou setores burgueses. Esse último
ponto, embora certamente decisivo, terá de ser desenvolvido ulteriormente.

Considerações finais

Os elementos desenvolvidos ao longo do texto, sugerem que os movimentos Vem Pra


Rua e Movimento Brasil Livre têm exercido atração preferencial sobre dois setores das
classes médias, por nós caracterizados como “alta classe média” e “classe média

29
“Em geral, pode-se afirmar que os três grupos são críticos em relação a políticas públicas como o Bolsa
Família e cotas raciais, defendem a meritocracia, a privatização e os ideais do livre mercado” (Tatagiba et
al, 2015, 16). Por sua vez, Cavalcante (2015, 192-3) estabelece dois pontos principais de convergência
entre as manifestações convocadas por esses movimentos e um conservadorismo liberal (ou liberalismo
conservador), que vem ganhando terreno no debate público, são eles: um anticomunismo (geralmente
nacionalista) que vincula o governo do PT a uma excrescência “bolivariana” e a histórica aversão à
inclusão das “massas” na política nacional.
intermediária”. A crítica difusa ao petismo, à corrupção e aos governos do Partido dos
Trabalhadores, tem servido de mola propulsora para a plataforma (neo)liberal desses
movimentos. É possível, contudo, vislumbrar certas incongruências entre os princípios
(genéricos) professados pelos movimentos e a própria base social que têm comparecido
às manifestações pró-impeachment, o que em parte pode ser explicado pela própria
diversidade existente no interior dos setores médios. É certo, todavia, que se os
movimentos foram capazes de solidificar um apoio substancial de certos setores médios
em torno do seu programa (em especial, da “alta classe média”) e de sua ideologia
teórica, por outro lado, o apoio de setores da classe trabalhadora organizada, da “baixa
classe média” e do “subproletariado”, não pôde ser verificado, e muito provavelmente,
não virá a sê-lo.

Tendo em vista a rapidez com que a conjuntura política nacional tem se alterado, e cuja
máxima expressão, a nível da cena política, é hoje o provável afastamento de Dilma
Rousseff (PT) da presidência da república, o papel assumido pelo VPR e MBL (que se
fortaleceram e ganharam projeção a partir dos atos pró-impeachment), bem como a
relação prática com sua base social de apoio permanecem indefinidos. Outro elemento
que deve ser considerado são as eleições municipais de outubro de 2016, as quais
deverão contar com a presença de algumas das lideranças desses movimentos. De toda
forma, e sem arriscarmos uma leitura prospectiva carente de elementos que a sustentem,
pensamos que uma análise dos movimentos é fundamental para se compreender as
inclinações político-ideológicas dos setores médios que, no último ano, têm ido em peso
às ruas, e sua relação com os conflitos político-sociais mais amplos.


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