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Á L V A R O B I A N C H I *

E STADO E EMPRESÁRIOS NA AMÉRICA LATINA


(1980-2000)

Este trabalho pretende discutir o impulso associativo


vivenciado pelo empresariado latino-americano nas
décadas de 1980 a 1990 e suas complexas relações
com a ação estatal. Apoiando-se em um enfoque
relacional do associativismo empresarial que se contra-
põe às teorias que remetem a pressupostos essencialistas,
serão destacadas as relações de forças existentes entre
as diferentes frações do empresariado, a ação das clas-
ses subalternas e as formas estatais destas. O as-
sociativismo empresarial surge, assim, como uma das
respostas capitalistas possíveis à crise do capitalismo
latino-americano, forma institucional de projetos em-
presariais que se desenham no contexto da crise econô-
mica e política do continente. É nesse contexto que a
alternativa neoliberal ganhará corpo no empresariado
latino-americano. Este desempenhou um papel decisi-
vo para a transformação do ambiente ideológico e
a difusão de uma concepção de mundo liberal e para a
mudança da agenda política e econômica, colocando
no seu centro o recuo do Estado das posições por ele
ocupadas até então, ao mesmo tempo em que procura-
va ajustar ritmos e diminuir as possíveis perdas decor-
rentes dessa alternativa.
Palavras-chave: empresários; ação coletiva; neoli-
beralismo; América Latina.

*
Doutor em Ciências Sociais
pela Universidade Estadual
de Campinas (Unicamp) e
professor doutor do Depar-
tamento de Ciência Políti-
ca do Instituto de Filosofia
e Ciências Humanas da
Universidade Estadual de
Campinas (IFCH/Unicamp).
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Quando Jorge Schvarzer planejou realizar seu estudo sobre a Unión


Industrial Argentina (UIA), não esperava encontrar tanta dificuldade
para acessar as fontes documentais da entidade. Encontrou. Em 1981,
a UIA havia suprimido sua biblioteca, transferindo-a para um órgão
estatal, o Instituto Nacional de Tecnologia Industrial, que evidente-
mente não teve condições de organizá-la e mantê-la aberta ao público.
Schvarzer protestou, na ocasião da transferência, apontando a incon-
gruência existente entre a defesa do livre mercado feita pela entidade
empresarial e o repasse de parte de suas atividades para um órgão
estatal.1
Impossível deixar de comparar o destino da biblioteca da UIA com
aquele similar da Biblioteca Roberto Simonsen, da Federação das In-
dústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Em meio a um “ajuste estru-
tural” da entidade, que resultou em profundos cortes orçamentários,
a biblioteca foi transferida, no final dos anos 90, para a Universidade
Estadual de Campinas (Unicamp). O mesmo destino: encaixotada, à
espera de recursos que permitam sua classificação, organização e
disponibilização ao público. A mesma incongruência, apimentada por
uma dessas ironias históricas próprias dos trópicos: a Biblioteca Roberto
Simonsen localiza-se ao lado do Arquivo Edgard Leuenroth. Os espó-
lios do industrial e do anarquista reconciliados sob os auspícios do
Estado.
Para vários pesquisadores, a trajetória dessas bibliotecas não deixará
de ser emblemática do associativismo empresarial em nosso continen-
te. Um empresariado economicamente frágil, dependente dos favores
estatais, incapaz de constituir-se como direção política e intelectual da
sociedade, reduzido a uma subalternidade passiva intransponível. Den-
tre as razões dessa subalternidade encontrar-se-ia sua debilidade econô-
mica. Imerso em sociedades nas quais ainda predominavam interesses
agroexportadores ou transnacionais, o empresariado latino-america-
no não teria condições de impor sua vontade a quem quer que fosse.
Restariam, assim, aos homens de negócios de nosso continente, estra-
tégias meramente adaptativas: adaptar-se ao poder das oligarquias
fundiárias; adaptar-se à força econômica das multinacionais; adaptar-
se ao Estado... e remeter-lhe as bibliotecas.2
Tais apreciações não foram desprovidas de méritos. Dentre seus maio-
res, está o fato de terem jogado por terra uma visão, alimentada por
intelectuais vinculados aos partidos comunistas e nacionalistas, que
apostava na atividade hegemônica do empresariado, antagônica aos inte-
resses oligárquicos e multinacionais, em suma, o motor do desenvolvi-
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mento econômico e político autônomo na América Latina, ou pelo me-


nos naqueles países com um grau maior de desenvolvimento industrial,
entre os quais o Brasil certamente estava incluído.3
Como já foi salientado por vários autores, tanto aqueles que apostavam
na capacidade hegemônica do empresariado como os que ressaltavam
sua passividade partilhavam os mesmos pressupostos. Inspirados em
um burguês típico-ideal, que teria sua certidão de nascimento na Euro-
pa do século XIX, apresentavam o empresariado latino-americano não
como aquilo que ele era, e sim como o que deveria ser. Oscilando entre o
lamento e a esperança, as análises inspiradas por tais visões deixavam
escapar a particularidade do desenvolvimento capitalista latino-ameri-
cano e de seus atores sociais.
Para a perspectiva que norteia o presente trabalho é importante acres-
centar que essas visões são fortemente essencialistas. Elas remetem a
atributos inatos, específicos dos próprios sujeitos, tal qual uma teoria
da predestinação que indicaria os indivíduos fadados a queimar no
inferno do subdesenvolvimento ou usufruir o paraíso do progresso
econômico e político. O resultado do acontecer histórico é, dessa ma-
neira, logicamente deduzido a partir desses pressupostos essencialistas.
As determinações estruturais cedem lugar a determinismos de vários
tipos – econômicos, culturais, psicológicos etc. – que não fazem senão
ocultar o próprio fazer-se das classes sociais.
As pesquisas levadas a cabo no continente latino-americano nas últimas
décadas colocaram em xeque essas apreciações.4 Elas revelam que um
novo ativismo político teria sido protagonizado pelo empresariado no
último terço do século XX. Mobilizando seus pares, homens de negócios
teriam saído de seus gabinetes e dos corredores palacianos para em-
preender inéditas ações de agregação de interesses. Associações
setoriais, centros de pesquisas e difusão de idéias, e até mesmo
abrangentes organizações multisetoriais de cúpula surgiram durante
os últimos 30 anos, dando um registro vivo de uma nova atitude em-
presarial.
Esse ativismo, entretanto, não o teria colocado em oposição aos inte-
resses tradicionais ou transnacionais existentes nas sociedades latino-
americanas, como fazia crer a tese da atividade hegemônica. Pelo contrá-
rio, uma grande capacidade de participar de novos arranjos políticos e
econômicos foi demonstrada pelo empresariado trazendo à tona uma
capacidade de negociação e articulação política até então não manifes-
tada plenamente.

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T ENDÊNCIAS RECENTES DO ASSOCIATIVISMO EMPRESARIAL

Não se pretende, aqui, analisar todos os aspectos dessa nova atitude.


Mas para registrar sua dimensão serão destacados seus aspectos
organizacionais. De fato, um de seus traços mais fortes é justamente a
criação de um grande número de associações empresariais cujos obje-
tivos são a distribuição de benefícios para seus associados, sob a forma
de serviços técnicos e de consultoria, repasse de subsídios, e/ou a re-
presentação dos interesses empresariais perante o Estado e os sindica-
tos de trabalhadores.
Há, em primeiro lugar, uma expansão de organizações formadas para
representar interesses setoriais novos ou até então marginalizados. É o
caso do grande crescimento das associações de pequenas e médias em-
presas que ocorreu na América Latina durante a década de 1980. As-
sumindo as mais variadas formas, tais associações procuravam aglutinar
interesses que até então eram colocados à margem pela estrutura tradi-
cional de representação em nosso continente. A título de exemplo, é
possível citar o Consejo de la Producción, el Transporte y el Comércio,
fundado em 1983 no Chile, para aglutinar organizações nacionais de
médios e pequenos empresários; a Asemblea de Pequeños y Medianos
Empresários (Apyme), criada em 1987, na Argentina; o Sindicato da
Micro e Pequena Indústria (Simpi), em 1988, no Brasil; e a Asociación
Nacional de Micro y Pequeños Empresários (Anmype), fundada em
1988, no Uruguai.
Às organizações de pequenos e médios empresários somam-se associa-
ções empresariais formadas para representar os interesses do setor
exportador, como a Coordinadora de Organizaciones Empresariales
de Comercio Exterior (Coece), criada no México, em 1990; a Corpora-
ción de Exportadores de la Empresa Privada (Coexport), de El Salva-
dor; e o Centro de Exportaciones e Inversiones (CEI), que deu início
às suas atividades em 1992, na Nicarágua. Não se trata, aqui, de de-
mandas que tenham ficado à margem da estrutura tradicional. Tais
associações costumam aglutinar grandes grupos empresariais ou fortes
organizações patronais. O que a criação de entidades para representar
o setor exportador traz de novidade é uma reconfiguração associativa
que incorpora indústria, comércio e sistema financeiro com o obje-
tivo de participar dos novos arranjos institucionais decorrentes da
criação de acordos de livre-comércio.5
Em segundo lugar, tem ocorrido a difusão de centros de estudos e di-
vulgação da ideologia empresarial. Os exemplos são inúmeros, mas

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vale ressaltar, no Brasil, a criação do Instituto Liberal (1983), do Insti-


tuto de Estudos Empresariais (1984) e do Instituto de Estudos para o
Desenvolvimento Industrial (1989). O mesmo fenômeno pode, ainda,
ser encontrado na América Central e no Caribe, onde foram criados
centros de pesquisa com o objetivo de promover o ideário liberal e
realizar estudos detalhados de políticas públicas, como o Instituto Ni-
caragüense de Desarrollo (Inde), que, fundado em 1963, ganhou pro-
jeção a partir de 1974, com a crise do governo de Anastásio Somoza;6 a
Fundación Salvadoreña para el Desarrollo Económico y Social (Fusades),
criada em 1983;7 e o Centro de Investigaciones Económicas Nacionales
(Cien), da Guatemala, nascido em 1983. Tais centros têm contado com
o apoio financeiro de agências estatais e não-governamentais norte-
americanas e européias, do Banco Mundial e, em alguns casos, de gru-
pos econômicos locais (DURAND, 1997, p. 81-82).
Em terceiro lugar, vale ressaltar a criação de novas associações empre-
sariais de cúpula e a renovação de entidades já existentes. Desde a
década de 1970, um impulso de aglutinação dos interesses empresariais
e de renovação associativa teve lugar, alterando profundamente a ação
coletiva deste grupo social. Tal impulso concretizou-se na formação/
renovação de associações multisetoriais de cúpula (encompassing business
associations). Pelo menos sete países criaram organizações abrangentes
de cúpula a partir da década de 1970: Nicarágua, Costa Rica, México,
Uruguai, Equador, Peru e Colômbia (ver Tabela 1). À criação de as-
sociações nacionais é interessante acrescentar o surgimento de organis-
mos de cúpula internacionais, como a Federación de Entidades Priva-
das de Centroamérica e Panamá (Fedepricap), o Consejo de Empresarios
Andinos e o Consejo Empresario de América Latina (Ceal), todos fun-
dados a partir do final dos anos 80.8

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T ABEL A 1 – O RGANISMOS E MPRESARIAIS DE C ÚPUL A DA A MÉRICA L ATINA


País/Região Nome e sigla Criação
México Confederación Patronal de la República Mexicana 1929
– Coparmex
Chile Confederación de la Producción y el Comercio – 1935
CPC
Federación Venezolana de Cámaras y
Venezuela Asociaciones de Comercio y Producción – 1944
Fedecámaras
República Confederación Patronal de la Rep. Dominicana –
1946
Dominicana CPRD
Paraguai Federación de la Producción, la Indústria y el 1951
Comercio – Feprinco
Confederación Económica Argentina – CGE
Argentina (dissolvida em 1955, reativada em 1958; dissolvida 1952
em 1976, reativada em 1983)
Guatemala Comité de Asociaciones Agrícolas, Comerciales, 1957
Industriales y Financieras – Cacif
Jamaica Jamaica’s Employers Confederation 1958
Bolívia Confederación de Empresarios Privados de Bolívia 1962
Panamá Consejo Nacional de la Empresa Privada – Conep 1964
El Salvador Asociación Nacional de la Empresa Privada – Anep 1966
Honduras Consejo Hondureño de la Empresa Privada 1967
Nicarágua Consejo Superior de la Empresa Privada – Cosep 1972
Costa Rica Unión Costarricense de Cámaras y Asociaciones 1973
de la Empresa Privada – Uccaep
México Consejo Coordinador Empresarial – CCE 1975
Uruguai Consejo Superior Empresarial – Consupem 1978
Equador Consejo de Cámaras y Asociaciones de la 1980
Producción
Confederación de Empresarios Privados del Perú –
Peru 1984
Confiep
América Federación de Entidades Privadas de 1987
Central Centroamérica e Panamá – Fedepricap
Andes Consejo de Empresarios Andinos 1991
América Consejo Empresario de América Latina – Ceal 1990
Latina
Colômbia Consejo Gremial Nacional 1993
Fonte: adaptado de Durant (1997).

Estas três tendências do associativismo empresarial encontram-se com-


binadas horizontal e verticalmente por meio de vínculos institucionais
ou informais. No México, por exemplo, a Coece nasce por meio da
iniciativa do Consejo Nacional Empresarial, logo que o governo mexi-
cano anunciou o objetivo de acelerar as negociações referentes ao Tra-
tado de Livre-Comércio. Criada com o objetivo de participar das nego-

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ciações do TLC, a Coece aglutinou os grandes grupos econômicos na-


cionais por meio das associações de comércio exterior. Gradativamente
a Coordenadora ampliou suas funções e passou a ocupar muito do
espaço que até então era exclusividade do CNE, mas com um grau de
conflito muito menor, devido à homogeneidade dos interesses represen-
tados (SCHNEIDER, 1997, p. 205-207; TIRADO; LUNA, 1995, p. 57).
O caso mexicano é bastante elucidativo de tendências presentes na
América Latina, uma vez que revela uma estrutura interassociativa que
super-representa os grandes grupos econômicos que ocupariam os prin-
cipais postos, tanto no CCE como na Coece. Tal sobre-representação é
reforçada, ainda, pela existência na mesa diretiva do CCE de represen-
tante do Consejo Mexicano de Hombres de Negócios, entidade que
organiza cerca de 30 proprietários de grandes grupos econômicos que
controlam, de acordo com algumas estimativas, cerca de 30% do Pro-
duto Interno Bruto (SCHNEIDER, 1997, p. 201). A impermeabilidade
das associações de cúpula às novas associações de pequenos e médios
empresários também reforça o poder dos grupos econômicos.
Arranjos de tipo horizontal também são possíveis. Na maioria dos casos,
os centros de estudo e divulgação da ideologia empresarial têm ficado à
margem das tradicionais federações e confederações patronais, coexis-
tindo com elas de maneira nem sempre pacífica. Desenvolvem, assim,
uma atividade paralela e própria que não pode ser confundida com a
representação de interesses que tradicionalmente cabe às associações.
O quadro das tendências acima apresentado é necessariamente
esquemático e coloca lado a lado processos organizativos de dimensões
muito variadas. Nesse esquema, merece destaque a emergência de asso-
ciações multisetoriais de cúpula por sua importância e magnitude. Re-
presentando o conjunto dos interesses empresariais, unificando inte-
resses regionais e setoriais, tais organismos tendem a se constituir como
parte essencial de um complexo associativo empresarial. Uma vez
consolidadas, as associações de cúpula articulam a participação do
empresariado na esfera estatal, ao lado dos partidos políticos e de outros
grupos sociais. Representam, assim, uma força social que se caracteriza
pelo controle privado sobre importantes recursos econômicos. Para
alguns autores, a agregação dos interesses e a unificação da representação
poderiam, até mesmo, compensar a relativa debilidade econômica das
empresas privadas em nosso continente (DURAND, 1995, p. 142-143).

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O QUE FEZ COM QUE OS EMPRESÁRIOS SE ASSOCIASSEM ?

Constatado o grande desenvolvimento da ação coletiva do empresariado


latino-americano nas últimas décadas do século XX, naturalmente co-
loca-se a pergunta: quais as razões deste impulso associativo? Apresen-
tada de maneira abrupta tal interrogação não deixa de ser problemáti-
ca. Afinal, o associativismo empresarial é um fenômeno que se processa
em escala nacional, excetuando-se as incipientes e até então insignifi-
cantes organizações regionais e continentais. Os contextos econômico-
sociais e políticos nos quais esse processo se desenvolve são, portanto,
muito variados. São múltiplos, também, os tempos, os ritmos, nos quais
ele ocorre, bem como as formas que assume e seus resultados finais,
como foi possível perceber na enumeração das várias tendências a ele
associadas.
Faz sentido, então, unificar essas diferentes realidades sob uma etique-
ta continental? Faz se ela não apagar as particularidades nacionais exis-
tentes. Daí a necessidade de trabalhar com uma escala temporal que
permita dar conta dos diferentes ritmos nacionais existentes e perce-
ber os traços distintivos comuns daquilo que nos permite falar de uma
situação latino-americana.
A compreensão das profundas transformações que vêm se processan-
do na organização dos interesses empresariais exige que sejam
contextualizadas nas mudanças estruturais e conjunturais pelas quais
passou o continente. Segundo Durand, essas transformações no
associativismo empresarial

coincidem com outras profundas mudanças que tiveram lugar na re-


gião: a transição para a democracia e a adoção de políticas econômicas
liberais. Os dois fenômenos estão intimamente vinculados. Associações
de cúpula emergem como reações empresariais coletivas às profundas
alterações na economia e nas regras políticas do jogo. Essa reação, por
sua vez, foi possível porque uma nova geração de líderes empresariais
agarrou a oportunidade de ação coletiva e procurou desenvolver e
fortalecer organizações guarda-chuva (DURAND, 1995, p. 141).
Bartell e Payne têm destacado que, ao contrário do afirmado no velho
estereótipo, empresas e empresários têm desempenhado um papel ati-
vo, pressionando os governos em vez de simplesmente adaptarem-se
passivamente a seus desígnios (BARTELL; PAYNE, 1995, p. 260). Se-
gundo os autores, não há dúvidas de que as lideranças empresariais
incrementaram seu poder político e organizacional nas últimas déca-

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das. A nova força política do empresariado seria o resultado, em parte,


de profundas mudanças econômicas que fortaleceram o poder econô-
mico do setor privado. Ao longo dos anos 90, o setor privado latino-
americano teria se transformado no motor principal do crescimento
econômico, como resultado da convergência histórica da falência das
estratégias de substituição de importações dirigidas pelo Estado, do
sucesso relativo das estratégias de livre-mercado, da ausência de mo-
delos alternativos e da pressão internacional pela abertura dos merca-
dos (BARTELL; PAYNE, 1995).9
Considerando, dessa maneira, a liberalização da economia como inevi-
tável, os empresários teriam desenvolvido como reação estratégias ati-
vas de adaptação.10 As condições para essas novas estratégias eram da-
das pelo fim dos regimes autoritários e a conseqüente abertura política
que criaram um ambiente politicamente favorável à organização de
interesses, retirando muitos dos entraves legais à criação de novas enti-
dades. Os empresários “agarraram as novas oportunidades políticas e
as exploraram para defender seus interesses” (BARTELL; PAYNE,
1995, p. 268). O resultado foi a criação de novas associações empresa-
riais, a mobilização de lobbies para pressionar legislativos, o apoio explí-
cito a candidatos ou, até mesmo, o lançamento de candidaturas próprias.
As oportunidades abertas para a organização empresarial pelo renova-
do poder econômico e pelo fim dos regimes autoritários foram
catalisadas, segundo Bartell e Payne, pela percepção de ameaças coleti-
vas. A exclusão das esferas estatais de decisão, a ação arbitrária do Esta-
do e as freqüentes e drásticas alterações nas políticas econômicas pro-
moveram reativamente uma maior unidade dos interesses empresariais.
Restaria saber, entretanto, quais as razões que levariam elites empresa-
riais a investirem em dispendiosas organizações do tipo citado. Para
Bartell e Payne, elites investem na ação coletiva quando se sentem
ameaçadas.11 Tais ameaças podem ser econômicas, como a vulnera-
bilidade à competição internacional, fortemente sentida pelos empre-
sários latino-americanos nas décadas de 1980 e 1990, ou políticas, como
o poder discricionário do Estado.
Analisando o surgimento das associações empresariais no México, Luna
e Tirado chegam a afirmar que o surgimento das organizações empre-
sariais encontra-se vinculado de maneira estreita à percepção da ação
estatal como uma ameaça:

Tais são os casos de Concanaco e Concamin (Confederación de Cámaras


Nacionales de Comércio e Confederación de Cámaras Industriales),

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respectivamente, criadas em 1917 e 1918 contra o radicalismo revolu-


cionário; da Asociación de Banqueros de México, fundada em 1928,
perante a criação do Banco de México; de Coparmex (Confederación
Patronal de la República Mexicana), criada em 1929, frente à iniciativa
da Lei Federal do Trabalho; da Concanacomin (Confederación de
Cámaras Nacionales de Comércio e Industria), nascida em 1936, pe-
rante o reformismo cardenista; do Consejo Mexicano de Hombres de
Negócios, surgido em 1962 para opor-se ao reformismo do presidente
López Mateos; e do Consejo Coordinador Empresarial, criado em 1975
como reação às políticas do presidente Echeverría (LUNA; TIRADO,
1984, p. 7).
Mas se a vulnerabilidade e a ameaça da ação estatal fornecem um im-
portante impulso à ação empresarial, não garantem sua manutenção a
longo prazo. Luna e Tirado verificam isso para a extensa trajetória de
organização do empresariado mexicano: “Estas organizações, uma vez
que cessa a tensão, tendem a desativar-se” (LUNA; TIRADO, 1984, p.
7). Assim, muito embora a percepção de ameaças seja um importante
incentivo para a ação coletiva empresarial, raramente esta se auto-re-
produz espontaneamente. Caberia à ação estatal, geralmente, o forne-
cimento de incentivos externos para a associabilidade (SCHNEIDER;
MAXFIELD, 1997, p. 28). O Estado pode reduzir os obstáculos para a
ação coletiva providenciando uma variedade de benefícios, positivos e
negativos, seletivamente distribuídos. Dentre esses benefícios, cabe des-
tacar o acesso institucionalizado ou informal às esferas de decisão
(SCHNEIDER, 1998).
Os estudos que destacam a relação existente entre certas formas de
corporativismo e modalidades de associativismo empresarial levados a
cabo em nosso continente têm contribuído de modo significativo para
destacar a complexidade das relações Estado-empresários-sociedade.12
Segundo Schneider, seria preciso distinguir uma lógica política de uma
lógica de políticas. A primeira é mais comum em situações de crise e de
mudança de estratégias de desenvolvimento. Em uma lógica política,
atores estatais incentivariam a organização empresarial com a finalida-
de de administrar a crise e gerar apoio político para a nova estratégia.
Em tempos mais normais, os atores estatais seguiriam uma lógica de
políticas e organizariam empresas e empresários para promover formas
particulares de administração da economia (SCHNEIDER, 1998, p. 8).
Associações empresariais abrangentes ou associações setoriais
“desenvolvimentistas” 13 poderiam ser capazes de inibir interesses

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particularistas e promover um comportamento econômico orientado


para um crescimento sustentável, daí o interesse estatal no seu
surgimento e consolidação (SCHNEIDER; MAXFIELD, 1997). Dessa
forma, muito embora o surgimento de associações possa ser o resulta-
do não intencional da ação estatal ou da percepção de ameaças por
parte do empresariado, a estabilização de sistemas associativos requer
o apoio estatal.
As interpretações de Payne, Bartell, Schneider, Maxfield, Luna e Tira-
do colocam seu foco nas relações que os empresários estabeleceriam
com o Estado. Este, por sua vez, é concebido de maneira estrita como o
conjunto de instituições encarregadas das funções governativas. Ao
procederem dessa maneira, tais autores acabam, em grande medida,
expulsando para fora do Estado as classes sociais. Daí a relação de
exterioridade que é estabelecida entre Estado e sociedade e, para pre-
cisar ainda mais, entre Estado e burguesia (classes dominantes).
Cindida a unidade existente entre Estado e sociedade, o primeiro dei-
xa de ter seu campo de ação marcado por uma relação de forças sociais
historicamente constituída e adquire uma plena independência peran-
te o conjunto das classes, monopolizando a política e reduzindo as clas-
ses a sua dimensão meramente econômica. Em face destas, o Estado
aparece como o demiurgo diante do qual restaria apenas a adaptação,
reduzindo ao Estado a capacidade de iniciativa política. O resultado da
análise não deixa de ser paradoxal. O protagonismo do Estado permi-
te falar apenas de uma autonomia relativa das classes perante um po-
der que manifesta sua completa independência diante das forças sociais
presentes. Mas, aquém dos paradoxos teóricos aos quais tais enfoques
conduzem, é importante apontar alguns problemas empíricos que eles
deixam sem explicação.
Em primeiro lugar, é de se destacar que a ação do empresariado latino-
americano e o desenvolvimento de suas associações anteciparam-se,
muitas vezes, seja à mudança de regime político, seja à aplicação de
políticas neoliberais por parte dos governos dos países latino-america-
nos. Estudos realizados na década de 1990 têm destacado o papel deci-
sivo do empresariado, tanto na formatação de uma agenda de mudan-
ças políticas e econômicas, como no processo de aplicação das políticas.
Para Eduardo Silva (1996), por exemplo, existiu no Chile uma interação
estreita entre capitalistas e Estado nos processos de mudança econômi-
ca e política, tanto durante o governo do general Pinochet, quanto
durante a presidência de Patricio Aylwin. Silva destaca que o

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empresariado chileno teria contribuído de maneira importante nos pro-


cessos de formatação da agenda, definição e implementação de políti-
cas, ao contrário do comumente indicado pela literatura. Processos se-
melhantes puderam ser constatados no Equador, Peru e Bolívia, por
Conaghan, Malloy e Abugattas (1990). Nesses países dos Andes cen-
trais, as associações empresariais teriam desempenhado um papel deci-
sivo para a transformação do ambiente ideológico e a difusão de uma
concepção de mundo liberal e, ao mesmo tempo, para a mudança da
agenda política e econômica, colocando no seu centro o recuo do Esta-
do das posições por ele ocupadas até então.
Em segundo lugar, nos enfoques acima apresentados, são enfatizadas
as relações de forças dos empresários com o Estado, deixando de lado
aquelas que os empresários estabeleceriam entre si no ato da concor-
rência, bem como aquelas que existiriam entre estas e as classes subal-
ternas. Durand e Silva alertaram que a definição de ameaças utilizadas
por autores como Bartell e Payne, dentre outros, é muito estreita e não
consegue explicar o surgimento e a expansão das associações de cúpu-
la desde a década de 1930. Para Durand e Silva:

o desenvolvimento organizativo de grupos sociais antagonistas e seus


vínculos com um Estado mais autônomo dos grupos privados são tão
importantes para explicar a emergência de associações empresariais
abrangentes na América Latina quanto o foco mais recente na exclusão
do processo de formulação de políticas e a adoção de políticas arbitrárias
por um Estado altamente autônomo de todos os grupos sociais
(DURAND; SILVA, 1998a, p. 7.)
São identificadas, assim, ameaças políticas que emanam tanto do Esta-
do como também de grupos sociais subalternos. Dentre as ameaças
provenientes desses grupos, caberia destacar movimentos de massa,
rebeliões nacionais e movimentos guerrilheiros que reivindicam refor-
mas sociais e trabalhistas.14 Às ameaças dos grupos subalternos somam-
se aquelas provenientes do Estado: ataques à propriedade privada,
programas radicais de redistribuição de riquezas, difusão de controles
governamentais e exclusão dos processos de formulação de políticas.
Caberia ainda acrescentar a existência de ameaças econômicas, tais como
hiperinflação, recessão ou depressão, para ter um quadro mais preciso
das situações que podem dar o impulso inicial à organização empresa-
rial (DURAND; SILVA, 1998a, p. 8).
Em terceiro lugar, assim como é possível apontar ameaças não-estatais
atuando como agentes de catalisação da ação coletiva empresarial, tam-

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bém é possível encontrar impulsos para o fortalecimento das associa-


ções empresariais que se localizaram fora da ação estatal. Separando os
processos de gênese e consolidação do associativismo empresarial,
Durand e Silva sugerem, além do tipo de relações governo-empresas,
outras três explicações para o fortalecimento das associações empresa-
riais: organização interna, nível de conflito intersetorial e característi-
cas das lideranças (DURAND; SILVA, 1998b).
Heterogeneidade interna, ausência de canais institucionalizados de
negociação com o governo e elevado nível de conflitos intersetoriais,
principalmente entre pequenos e grandes proprietários, enfraquece-
ram as associações multisetoriais de cúpula do México, principalmente
o CCE.15 Sem enfrentar os mesmos problemas organizativos, com uma
composição mais homogênea que no caso mexicano e com canais de
comunicação com as esferas estatais de decisão, as associações de cúpu-
la de El Salvador e Nicarágua também enfrentaram obstáculos a seu
fortalecimento.16 Divisões referentes à abertura comercial e a políticas
tarifárias minaram a capacidade de a Anep salvadorenha e de a Cosep
nicaragüense atuarem como uma voz unitária do setor privado. Por
outro lado, os casos de Chile e Peru mostram de que forma um elevado
grau de homogeneidade interna e um reduzido nível de conflitos, alia-
dos à existência de canais permanentes de negociação com o governo e
lideranças capazes de construir consenso, têm levado a um fortaleci-
mento das entidades de cúpula.17

C OMENTÁRIOS FINAIS : UM ENFOQUE RELACIONAL


DO ASSOCIATIVISMO EMPRESARIAL

Os problemas teóricos e empíricos acima sumariados indicam a neces-


sidade de um novo enfoque para o estudo do associativismo empresa-
rial e de suas relações com o Estado. Esse enfoque é apenas esboçado
aqui, indicando um programa de pesquisa a ser desenvolvido. Apontar
para uma pluralidade de causas para a gênese e consolidação da ação
coletiva empresarial, abre a porta para pensar essas causas de um pon-
to de vista relacional, enfatizando a relação de forças que se estabelece
em uma situação determinada a partir de linhas verticais, abarcando as
relações existentes entre as classes sociais e suas formas institucionais –
incluído aí o Estado –, e horizontais entre as diferentes frações de uma
mesma classe.
Neste enfoque relacional, o processo de constituição do projeto em-
presarial deixaria de ser o resultado de uma reação à ação estatal ex-

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terna e passaria a ser analisado a partir das relações de forças acima


mencionadas. Tais relações têm lugar em uma situação marcada pela
convergência, nos anos 80 e 90, de uma profunda crise econômica e
uma crise política de grande intensidade na América Latina, que abala-
ram tanto os modelos de desenvolvimento baseados na substituição de
importações, como os regimes autoritários que lhes serviam de suporte
político. A própria situação de crise colocou para os diferentes grupos
sociais a necessidade de procurarem alternativas. Para Gourevitch:

A crise econômica conduz ao debate político e à controvérsia política;


e do conflito surgem medidas políticas. Estas medidas, sejam inovado-
ras ou tradicionais, necessitam da política: quer dizer, as respostas à
crise econômica exigem um apoio político. Por conseguinte, para com-
preender as escolhas políticas temos que compreender a política que
as produz (GOUREVITCH, 1986, p. 19).
Situações de crise criam as condições para a emergência de impulsos
hegemônicos, para a criação e recriação de projetos. A convergência
histórica das últimas décadas teria beneficiado as forças internas e ex-
ternas favoráveis a resolver a crise por meio “da privatização de em-
presas públicas e por meio do desmantelamento progressivo dos con-
troles estatais e da política populista de subsídios massivos e legislação
trabalhista pró-sindicalista” (DURAND, 1996, p. 44). É, portanto, em
um contexto de crise que o empresariado latino-americano participa
da definição da agenda de um programa de reformas neoliberal e se
organiza para tal.
Os casos apresentados na obra coordenada por Bartell e Payne permi-
tem perceber que, muito embora tal convergência histórica tenha afe-
tado o conjunto dos países latino-americanos, a percepção do momen-
to vivido e o apoio às políticas neoliberais variavam de país para país.18
Mas, mesmo no interior de cada país, coexistiam apreciações diferen-
tes sobre as políticas neoliberais e os discursos contraditórios exigiam,
ao mesmo tempo, a abertura comercial e a proteção de setores nacio-
nais da economia.
Tais discursos podem ser explicados pela existência de uma divisão
entre os empresários que são favorecidos positivamente pelo fim do
modelo de substituição de importações e aqueles que são negativamen-
te afetados. Situações de crise fazem emergir uma pluralidade de res-
postas. Mas nem todos os projetos nascidos no interior da crise têm
uma vocação hegemônica. É possível perceber uma gama de respostas
à crise que não transcendem o nível econômico-corporativo, ou seja,

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115

que em vez de procurar uma solução global para a crise global apre-
sentem projetos pontuais que têm como objetivo diminuir as perdas de
um determinado setor ou grupo social. Assim, os setores exportado-
res, apoiados pelos organismos financeiros internacionais e pelos
tecnocratas liberais, tendem a apoiar as mudanças. Os industriais, cons-
trutores e comerciantes vinculados ao mercado interno geralmente
opõem resistências, embora pouco eficazes (DURAND, 1996, p. 44).
Em um estudo comparativo sobre a reação de entidades empresariais
da Venezuela (Fedecámaras) e da Colômbia (Andi) às propostas de
integração regional, Rita Giacalone chegou a conclusões semelhantes.
Segundo a autora, seu estudo concluiu que “essas posições se caracteri-
zaram por uma aceitação geral da integração, em nível ideológico, e
uma rejeição setorial em nível prático” (GIACALONE, 1997, p. 159).
A interpretação de Durand a essas contradições do discurso empresarial
é bem mais moderada, identificando um apoio condicional às políticas
neoliberais:

Os organismos de cúpula (que servem para expressar a correlação de


forças internas) giraram gradualmente em favor do neoliberalismo.
Esse apoio é de tipo condicional, matizado com referências a um ne-
cessário gradualismo e um certo mal-estar porque tem sido uma mo-
dernização um tanto forçada (“uma abertura dirigida”, como afirma
bem um documento da Concamin mexicana) (DURAND, 1997, p. 83).
Mas é sabido que compromissos abstratos com concepções de mundo
não são traduzidos, necessariamente, em políticas específicas coerentes
com tais visões. Assim, muito embora houvesse um elevado grau de
consenso a respeito da preponderância do mercado sobre o Estado e as
associações empresariais dos Andes centrais estivessem engajadas na
defesa dessa concepção, os desacordos dos empresários com os
formuladores de políticas e das diferentes frações do empresariado entre
si vieram à tona logo que tais princípios abstratos começaram a assumir
a forma de programas e políticas econômicas.
Concentrando sua análise nos grandes grupos de poder econômico
(GPE), Durand identificou uma estratégia cautelosa:

Tentam frear ou desacelerar as mudanças se os afetam diretamente,


com a finalidade de moderar sua aplicação e ganhar tempo para adap-
tar-se às novas regras do jogo [...] Os GPE não são, pois, a vanguarda
dessa modernização nem tampouco se pode dizer que tenham tentado

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bloquear as mudanças. Adaptaram-se a elas com certa resistência, silen-


ciosa, porém, efetiva (DURAND, 1996, p. 45).
De qualquer forma, a existência de diferenças no interior do
empresariado não impediu que estes sentissem “a necessidade de orga-
nizar e mobilizar a si mesmos para rejeitar as mudanças ou, eventual-
mente, ajustar o ritmo e as condições sob as quais as políticas liberais
eram adotadas” (DURAND, 1995, p. 145). Mas a existência de tal ne-
cessidade não implica necessariamente sua organização. O estudo da
ação coletiva empresarial deveria integrar, portanto, as condições de
emergência do associativismo empresarial, sua gênese, com a consoli-
dação da ação coletiva, sua institucionalização. O foco desse estudo,
entretanto, não pode ser o Estado compreendido no sentido estrito
como aparelho governativo, e na sua alegada capacidade de fornecer
os impulsos para a ação coletiva empresarial e sua consolidação. Ele
deve ser colocado no fazer-se dessa ação e na complexa articulação das
forças sociais que se encontram presentes no ato e com as formas
institucionais destas.
O enfoque alternativo cujos contornos – e apenas estes – foram apre-
sentados aqui é um enfoque relacional. Nele o Estado é concebido como
condensação institucional das relações de forças sociais, ao mesmo tem-
po, um campo de conflito e o resultado desse conflito. Nessa perspecti-
va, a ação coletiva das classes sociais em presença é incorporada a uma
esfera estatal ampliada impregnando-a. A ação estatal deixa, então, de
ser considerada plenamente independente das classes sociais e passa a
ser considerada como o resultado de uma autonomia relativa exercida
em uma situação definida por uma relação de forças determinada.
Parte constitutiva de uma esfera estatal ampliada, a ação coletiva em-
presarial é, ao mesmo tempo, resultado e condição de uma relação de
forças. Resultado, na medida em que é em determinados contextos
que o empresariado identifica seus interesses comuns e a necessidade
de dar-lhes uma expressão institucional. Condição, na medida em que
a capacidade organizativa demonstrada no processo de institucio-
nalização e a unidade por ela gerada produzem uma força social supe-
rior à soma das forças particulares, alternando o contexto no qual ela
se faz presente.
Pensar o associativismo empresarial latino-americano sob esse enfoque
permitiria afastar-se das concepções da subalternidade passiva e do
ativismo hegemônico predominantes até há alguns anos. A rejeição dos
pressupostos essencialistas e a-históricos dessas concepções é possível,

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do ponto de vista metodológico, se houver uma revalorização das aná-


lises de situações concretas. Felizmente, os estudos sobre o empresariado
latino-americano, levados a cabo na última década, têm apontado nes-
sa direção.

ABSTRACT
This paper intends to discuss the Latin American entrepreneurial associa-
tive impulse experienced in the 1980’s and the 1990’s and its complex
relationships with the action of the State. Based on a relational approach of
the entrepreneurial associativism which is opposed to theories supported by
essencialist pressuppositions, there will be detached the relationship of forces
between the different fractions of the entrepreneurs, the action of the subal-
tern classes and the State form of both. The entrepreneurs’ associativism
arises therefore as one of the possible capitalist answers to the crisis of Latin
American capitalism, the institutional form of entrepreneurial projects within
the context of the Continent’s economic and political crisis. It is in this
context that the neoliberal alternative will consistently grow among Latin
American entrepreneurs. These played a decisive role for the transforma-
tion of the ideological environment, the diffusion of a conception of world
based on liberalism and the change in the economic and political agenda,
placing in its center the withdrawal of the State from its previous positions,
at the same time in which they attempted to adjust rhythms and to minimize
the possible losses stemming from this alternative.
Keywords: entrepreneurs; collective action; neoliberalism; Latin America.

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N OTA S
1
Ver a descrição do episódio na “Nota metodológica y bibliográfica” de SCHVARZER (1991).
2
Uma versão dessa visão do empresariado pode ser encontrada na obra clássica de Fernando Henrique Car-
doso, Empresário industrial e desenvolvimento econômico no Brasil (CARDOSO, 1972).
3
Ver, por exemplo, JAGUARIBE (1972).
4
No Brasil, poderíamos apontar como precursores os estudos históricos realizados por Eli Diniz e Maria
Antonieta Leopoldi identificando uma atividade política empresarial, na primeira metade do século XX,
muito maior do que se supunha (DINIZ, 1978; LEOPOLDI, 2000).

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122
5
Em alguns casos o governo encontra-se representado. No CIE nicaragüense, a Junta Diretiva é formada por
representantes do Consejo Superior de la Empresa Privada (Cosep), Ministerio de Economía y Desarrollo,
Fondo Nicaragüense de Inversiones (FNI), Cámara de Comercio Americana de Nicaragua (Amcham),
Asociación Nicaragüense de Productores y Exportadores de Productos No-Tradicionales (Apenn) e da
Asociación de Bancos Privados (Asobanp).
6
Entre 1974 e 1976 o número de membros do Inde pulou de 89 para 523 associados (SPALDING, 1998, p.
152).
7
A Fusades contribui decisivamente para a renovação da liderança empresarial salvadorenha (JOHNSON,
1998).
8
Muito embora tenha crescido significativamente a bibliografia existente sobre as organizações empresariais,
ainda inexistem estudos sobre estes organismos de cúpula internacionais.
9
Um estudo abrangente do novo papel desempenhado pelos grupos econômicos na América Latina pode ser
encontrado em Durand (1996).
10
Payne (1994) desenvolve teoricamente o enfoque adaptativo em sua obra sobre os industriais brasileiros.
11
Schneider; Maxfield (1997) referem-se às ameaças percebidas não apenas pelas elites empresariais como
também pelas estatais.
12
Ver, por exemplo, a análise comparativa levada a cabo por Boschi (1994).
13
As associações setoriais desenvolvimentistas como aquelas que não se encontram envolvidas em atividades
“directly unproductive profit seeking” (DUP) (SCHNEIDER; MAXFIELD, 1997, p. 21).
14
Ver, por exemplo, as diferentes reações do empresariado argentino perante essas ameaças e na ausência
delas. Cf. Acuña (1995; 1998).
15
Para o caso do CCE, ver Tirado (1998); Tirado e Luna (1995); Luna e Tirado (1993, LISTA 1984); e Thacker
(2000).
16
Para o caso de El Salvador, ver Johnson (1998); para Nicarágua, Spalding (1998).
17
A recente criação da Confinep no Peru e sua consolidação é analisada por Durand (1995; 1998) e Thorp e
Durand (1997). A trajetória do empresariado chileno pode ser acompanhada em Bartell (1995); Montero
(1997); Silva (1995); Silva (1997; 1998 a ou b).
18
Ver, por exemplo, a comparação entre Chile e Brasil em Bartell (1995).

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