Você está na página 1de 5

5ª TURMA RECURSAL DOS JUIZADOS ESPECIAIS CÍVEIS E CRIMINAIS DA

BAHIA

PROCESSO Nº 0035344-39.2014.8.05.0001
CLASSE: RECURSO INOMINADO
RECORRENTE: MARIDALVA ALVES COSTA
RECORRIDA: LOJAS INSINUANTE LTDA.
JUIZ PROLATOR: MICHELLINE SOARES BITTENCOURT TRINDADE LUZ
JUIZ RELATOR: TÂMARA LIBÓRIO DIAS TEIXEIRA DE FREITAS SILVA

EMENTA

RECURSO INOMINADO. RESPONSABILIDADE CIVIL.


ARMÁRIO ADQUIRIDO COM DEFEITO. SENTENÇA QUE, EM
FUNÇÃO DA DECADÊNCIA, NEGOU O PEDIDO DE
RESTITUIÇÃO DO VALOR PAGO PELA COMPRA DO BEM,
JULGANDO IMPROCEDENTE O PEDIDO DE INDENIZAÇÃO
POR DANOS MORAIS. PROVIMENTO PARCIAL DO RECURSO
PARA CONDENAR A EMPRESA RECORRIDA A RESTITUIR A
QUANTIA PAGA PELA COMPRA DO BEM, COM
ARBITRAMENTO DE INDENIZAÇÃO PELOS DANOS MORAIS
CONFIGURADOS. PROVIMENTO DO RECURSO.

Dispensado o relatório nos termos do artigo 46 da Lei nº 9.099/95.

Circunscrevendo a lide e a discussão recursal para efeito de registro,


saliento que a Recorrente, MARIDALVA ALVES COSTA, pretende a reforma da sentença
lançada nos autos que, reconhecendo a incidência do prazo decadencial previsto no art. 26,
II, do CDC, deixou de acolher o pedido de restituição do valor pago pelo armário vendido
pela Recorrida, LOJAS INSINUANTE LTDA., que apresentou defeito e não teria sido
consertado, indeferindo, ainda, o pedido de indenização pelos danos morais alegados.

Presentes as condições de admissibilidade do recurso, conheço-o,


apresentando voto com a fundamentação aqui expressa, o qual submeto aos demais
membros desta Egrégia Turma.

VOTO

O recurso merece acolhimento parcial.

Em matéria de vício existente no produto, todos aqueles enquadrados no


conceito de fornecedor, na forma prevista no art. 3º, do Código de Defesa do Consumidor,
onde se acomoda a figura do comerciante, são solidariamente responsáveis pela reparação
do defeito, segundo regra inserta no art. 18, caput , do CDC.

Trata-se de obrigação derivada da inexecução contratual causada por


defeito inerente ao produto, que, assim, não guarda relação com a responsabilidade por
danos regrada pelo art. 12 caput, do CDC, que, nos termos do art. 13, do mesmo diploma
legal, coloca o comerciante em posição secundária ante a responsabilidade principal do
fabricante.

Assim, apresentando-se o produto defeituoso, admite-se que o fornecedor


acionado pelo consumidor busque consertá-lo usando o sistema de garantia contratado. No
1
entanto, nos precisos termos do parágrafo primeiro do art. 18 do CDC, “não sendo o vício
sanado no prazo máximo de 30 (trinta) dias pode o consumidor exigir, alternativamente e à
sua escolha:

I - a substituição do produto por outro da mesma espécie, em perfeitas


condições de uso;

II - a restituição imediata da quantia paga, monetariamente atualizada,


sem prejuízo de eventuais perdas e danos;

III - o abatimento proporcional do preço.”

Esse direito, entretanto, deve ser exercitado pelo consumidor nos prazos
decadenciais previstos no art. 26, do CDC, os quais são contados após a expiração da
garantia extra outorgada, eventualmente, no contrato de compra e venda do produto,
chamada de garantia contratual1.

Na situação em exame, o produto discutido, vendido pela Recorrida no dia


17 de setembro de 2012, conforme evento nº 01, apresentou o vício tão logo foi realizada a
montagem, tendo a consumidora procurado a Recorrida por diversas vezes a fim de que
procedesse à substituição do bem, sem êxito.

Alega a Recorrente que: “Ao perceber o equívoco da loja, entrou em


contato com aquela e foi informada que poderia concluir a montagem do armário sendo este
trocado no prazo de 3 (três) dias, entretanto se passou dias, meses e o erro não fora sanado
pelo estabelecimento. A autora fez inúmeras ligações além de ir à loja por diversas vezes
sendo sempre informada que não há o produto naquela e não ser possível fazer a
transferência do produto de uma loja para outra”.

Restringindo sua defesa às alegações acerca do dano moral, não firmando


impugnação específica, sobretudo na contestação, quanto a qualquer aspecto da versão fática
apresentada pela Recorrente, a Recorrida atraiu a confissão ficta consagrada no art. 302, do
CPC, especialmente quanto ao argumento de ter sido procurada diversas vezes pela
Recorrente para substituição do armário que apresentou defeito, não existindo nos autos
prova de que se recusou a fazê-lo.

Desse modo, não há que se falar em transcurso do prazo decadencial


cogitado na sentença, o qual é suspenso2 pela reclamação formulada pelo consumidor
perante o fornecedor do produto defeituoso (art. 26, § 2º, I, do CDC3).

Assim, consubstanciada a inexecução contratual, impõe-se o desfazimento


do contrato de compra e venda noticiado, com ordem de restituição da quantia paga pela
Recorrente.

Por outro lado, nas circunstâncias apuradas, o evento se mostrou apto a


1

Art. 50. A garantia contratual é complementar à legal e será conferida mediante termo escrito.

2
{...} “exaurido o intervalo obstativo, vale dizer, suspensivo, a decadência retoma o seu curso até completar o prazo de 30 ou 90
dias, legalmente previsto” (Zelmo Denari, em Código de Defesa do Consumidor, Comentado pelos Autores do Anteprojeto, pág.
pág. 151)
3

§ 2º. Obstam a decadência:


I - a reclamação comprovadamente formulada pelo consumidor perante o fornecedor de produtos e serviços até a
resposta negativa correspondente, que deve ser transmitida de forma inequívoca;
2
ensejar danos de natureza moral, passíveis de compensação pecuniária.

Encontrando previsão no sistema geral de proteção ao consumidor inserto


no art. 6º, inciso VI, do CDC, com recepção no art. 5º, inciso X, da Constituição Federal, e
repercussão no art. 186, do Código Civil, o dano eminentemente moral, sem consequência
patrimonial, não há como ser provado, nem se investiga a respeito do animus do ofensor.
Consistindo em lesão de bem personalíssimo, de caráter subjetivo, satisfaz-se a ordem
jurídica com a demonstração do fato que o ensejou. Ele existe simplesmente pela conduta
ofensiva, sendo dela presumido, tornando prescindível a demonstração do prejuízo concreto.

Com isso, uma vez constatada a conduta lesiva e definida objetivamente


pelo julgador, pela experiência comum, a repercussão negativa na esfera do lesado, surge a
obrigação de reparar o dano moral.

Na situação em análise, a Recorrente não precisava fazer prova da


ocorrência efetiva dos danos morais informados. Os danos dessa natureza se presumem pelo
descumprimento do contrato, passando pelo descaso da Recorrida em solucionar o problema
sem a intervenção judicial, não havendo como negar que ela se desgastou emocionalmente,
sofrendo frustração pela compra, angústia e aborrecimento na busca de uma solução, tendo a
esfera íntima agredida ante a atividade negligente da Recorrida, com grande desgaste
emocional ao tentar receber o bem que pagou, sem êxito.

Buscando o arbitramento dos danos morais vislumbrados, observo que são


parcos os elementos coligidos para efeito de sua quantificação, sendo certo que a Recorrente
em nada contribuiu para o evento.

Com isso, atendendo às peculiaridades do caso, entendo que emerge a


quantia de R$ 4.000,00 (quatro mil reais), como o valor próximo do justo, a qual se mostra
capaz de compensar, indiretamente, os sofrimentos e desgastes emocionais advindos à
Recorrente, e trazer a punição suficiente ao agente causador, sem centrar os olhos apenas na
inegável capacidade econômica da Recorrida.

Assim sendo, ante ao exposto, voto no sentido de CONHECER e DAR


PROVIMENTO PARCIAL ao recurso interposto pela Recorrente, MARIDALVA ALVES
COSTA, para, reformando a sentença hostilizada, condenar a Recorrida, LOJAS
INSINUANTE LTDA., a lhe devolver a importância de R$ 759,00 (setecentos e cinquenta
e nove reais), mediante a devolução do armário à Requerida, com juros, na taxa de 1% ao
mês, contados a partir da citação (art. 405 do CC 4), e correção monetária a partir da venda, e
a pagar a importância de R$ 4.000,00 (quatro mil reais) a título de danos morais, acrescida
de juros e correção monetária, contados a partir do julgamento do recurso.

Não se destinando a regra inserta na segunda parte do art. 55, caput, da Lei
9.099/95, ao recorrido, mas ao recorrente vencido, deixo de condenar a parte recorrida ao
pagamento de custas e honorários advocatícios.

Salvador-Ba, Sala das Sessões, 06 de outubro de 2014.

TÂMARA LIBÓRIO DIAS TEIXEIRA DE FREITAS SILVA


Juiz Relator

4
Art. 405. Contam-se os juros de mora desde a citação inicial.

3
COJE – COORDENAÇÃO DOS JUIZADOS ESPECIAIS
TURMAS RECURSAIS CÍVEIS E CRIMINAIS

PROCESSO Nº 0035344-39.2014.8.05.0001
CLASSE: RECURSO INOMINADO
RECORRENTE: MARIDALVA ALVES COSTA
RECORRIDA: LOJAS INSINUANTE LTDA.
JUIZ PROLATOR: MICHELLINE SOARES BITTENCOURT TRINDADE LUZ
JUIZ RELATOR: TÂMARA LIBÓRIO DIAS TEIXEIRA DE FREITAS SILVA

EMENTA

RECURSO INOMINADO. RESPONSABILIDADE CIVIL.


ARMÁRIO ADQUIRIDO COM DEFEITO. SENTENÇA QUE, EM
FUNÇÃO DA DECADÊNCIA, NEGOU O PEDIDO DE
RESTITUIÇÃO DO VALOR PAGO PELA COMPRA DO BEM,
JULGANDO IMPROCEDENTE O PEDIDO DE INDENIZAÇÃO
POR DANOS MORAIS. PROVIMENTO PARCIAL DO RECURSO
PARA CONDENAR A EMPRESA RECORRIDA A RESTITUIR A
QUANTIA PAGA PELA COMPRA DO BEM, COM
ARBITRAMENTO DE INDENIZAÇÃO PELOS DANOS MORAIS
CONFIGURADOS. PROVIMENTO DO RECURSO.

ACÓRDÃO

Realizado julgamento do Recurso do processo acima epigrafado, a QUINTA TURMA,


composta dos Juízes de Direito, WALTER AMÉRICO CALDAS, EDSON PEREIRA
FILHO, TÂMARA LIBÓRIO DIAS TEIXEIRA DE FREITAS SILVA, decidiu, à
unanimidade de votos, Assim sendo, ante ao exposto, voto no sentido de CONHECER e
DAR PROVIMENTO PARCIAL ao recurso interposto pela Recorrente, MARIDALVA
ALVES COSTA, para, reformando a sentença hostilizada, condenar a Recorrida, LOJAS
INSINUANTE LTDA., a lhe devolver a importância de R$ 759,00 (setecentos e cinquenta
e nove reais), mediante a devolução do armário à Requerida, com juros, na taxa de 1% ao
mês, contados a partir da citação (art. 405 do CC 5), e correção monetária a partir da venda, e
a pagar a importância de R$ 4.000,00 (quatro mil reais) a título de danos morais, acrescida
de juros e correção monetária, contados a partir do julgamento do recurso. Não se destinando
a regra inserta na segunda parte do art. 55, caput, da Lei 9.099/95, ao recorrido, mas ao
recorrente vencido, deixo de condenar a parte recorrida ao pagamento de custas e
honorários advocatícios.

Salvador-Ba, Sala das Sessões, 06 de outubro de 2014.

JUIZ WALTER AMÉRICO CALDAS


Presidente

5
Art. 405. Contam-se os juros de mora desde a citação inicial.

4
JUIZ TÂMARA LIBÓRIO DIAS TEIXEIRA DE FREITAS SILVA
Relator