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Tribunal de Justiça de Minas Gerais

Número do 1.0342.17.004849-6/001 Númeração 0748806-


Relator: Des.(a) José de Carvalho Barbosa
Relator do Acordão: Des.(a) José de Carvalho Barbosa
Data do Julgamento: 08/02/2018
Data da Publicação: 23/02/2018

EMENTA: AGRAVO DE INSTRUMENTO - AÇÃO ORDINÁRIA - TUTELA DE


URGÊNCIA - PLANO DE SAÚDE - AUTISMO -TRATAMENTO PELO
MÉTODO ABA (ANÁLISE DO COMPORTAMENTO APLICADA) - NEGATIVA
DE COBERTURA - NECESSIDADE DEMONSTRADA - DIREITO
CONSTITUCIONAL À VIDA - PRESENÇA DOS REQUISITOS DO ART. 300
DO NCPC. Para que seja concedida a antecipação de tutela é necessário
que estejam presentes os requisitos do art. 300 do CPC/15, quais sejam: a
existência de elementos que evidenciem a probabilidade do direito e o perigo
de dano ou o risco ao resultado útil do processo. Atendidos tais requisitos,
impõe-se a manutenção da decisão que deferiu a medida de urgência
pretendida pela autora. Deve ser autorizado o tratamento pelo método
indicado pelos profissionais da saúde que assistem o paciente, em sede de
tutela de urgência, se consta dos autos relatório médico atestando a sua
necessidade, ainda que exista cláusula restritiva no contrato de plano de
saúde, que é de adesão, considerada a garantia constitucional do direito à
vida.

AGRAVO DE INSTRUMENTO-CV Nº 1.0342.17.004849-6/001 - COMARCA


DE ITUIUTABA - AGRAVANTE(S): UNIMED ITUIUTABA COOPERATIVA DE
TRABALHO MEDICO LTDA - AGRAVADO(A)(S): L.F.I.
REPRESENTADO(A)(S) P/ MÃE D.A.F.

ACÓRDÃO

Vistos etc., acorda, em Turma, a 13ª CÂMARA CÍVEL do Tribunal de


Justiça do Estado de Minas Gerais, na conformidade da ata dos julgamentos,
em NEGAR PROVIMENTO AO RECURSO.

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DES. JOSÉ DE CARVALHO BARBOSA

RELATOR.

DES. JOSÉ DE CARVALHO BARBOSA (RELATOR)

VOTO

Trata-se de Agravo de Instrumento interposto por UNIMED ITUIUTABA


COOPERATIVA DE TRABALHO MEDICO LTDA. contra decisão do MM. Juiz
de Direito da Vara da Infância e Juventude da Comarca de Utuiutaba, nos
autos da "Ação Ordinária c/c Indenização por Perdas e Danos", movida por
L.F.I., representada por sua mãe Dayane Araújo Furtado, que deferiu pedido
de antecipação de tutela formulado na inicial, determinado à ré que "em dez
dias, a contar de sua intimação, forneça o tratamento necessário, consoante
prescrição médica, sob pena de multa diária, no valor de R$500,00 em caso
de descumprimento".

Em suas razões recursais de folhas 02/06-TJ, defende a agravante a


reforma da decisão de primeiro grau, argumentando que, o caso sub judice
não se trata de urgência, "não há risco de vida, nem prejuízos irreparáveis ou
de difícil reparação".

Afirma que os relatórios médicos apresentados pela autora "sugerem o


tratamento pelo método ABA", salientando que existem outras
técnicas/métodos capazes de proporcionar êxito no tratamento, tais como:
TEACCH, psicologia ou terapia ocupacional, psicoterapia e outros.

Ressalta que a agravada está recebendo tratamento e "tem à sua

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disposição todos os médicos e especialistas que pertencem à rede de


atendimento do estado de Minas Gerais", inexistindo "negativa de
atendimento".

Aduz que o contrato de plano de saúde celebrado entre as partes possui


"abrangência estadual, ou seja, para atendimento na rede do estado de
Minas Gerais" e que o tratamento pretendido pela autora é realizado na
cidade de Goiânia/GO.

Pede a atribuição de efeito suspensivo ao recurso e, ao final, o seu


provimento, para que seja revogada a decisão.

Decisão agravada a folhas 20/21-TJ.

Preparo regular a folhas 126-TJ.

Pela decisão de folhas 132/133-TJ, foi indeferido o pedido de atribuição


de efeito suspensivo ao recurso.

Contraminuta apresentada a folhas 139/162-TJ.

Sem informações do magistrado de primeiro grau, conforme certificado a


folhas 175-TJ.

É o relatório.

Conheço do recurso.

Pretende a parte ré/agravante a reforma da decisão de primeiro grau que


deferiu a tutela antecipada pleiteada pela parte autora/agravada,
determinando à ré que "em dez dias, a contar de sua intimação, forneça o
tratamento necessário, consoante prescrição médica, sob pena de multa
diária, no valor de R$500,00 em caso de descumprimento".

Tenho que razão não lhe assiste.

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O pedido de tutela antecipada deve ser examinado à luz do que dispõe o


art. 300 do NCPC:

Art. 300. A tutela de urgência será concedida quando houver elementos que
evidenciem a probabilidade do direito e o perigo de dano ou o risco ao
resultado útil do processo.

Assim, para que seja deferida a tutela antecipada, é necessária a


existência de elementos que evidenciem a probabilidade do direito e o perigo
de dano ou risco ao resultado útil do processo.

Tem-se como probabilidade do direito, o convencimento do juiz, pelos


argumentos e indícios de prova colacionados aos autos, de que foi
demonstrada a plausibilidade do direito invocado pelo requerente.

Já o requisito do perigo de dano ou risco ao resultado útil do processo, se


refere à necessidade de se proteger o direito invocado de forma imediata.

Sobre o tema: ensinam Luiz Marinoni, Sérgio Arenhat e Daniel Mitidiero:

Probabilidade do Direito. (...) A probabilidade que autoriza o emprego da


técnica antecipatória para a tutela dos direitos é a probabilidade lógica - que
é aquela que surge da confrontação das alegações e das provas com os
elementos disponíveis nos autos, sendo provável a hipótese que encontra
maior grau de confirmação e menor grau de refutação nesses elementos. O
juiz tem que se convencer de que o direito é provável para conceder tutela
provisória.

Perigo na demora. A fim de caracterizar a urgência capaz de justificar a


concessão de tutela provisória, o legislador falou em "perigo de dano"
(provavelmente querendo se referir à tutela antecipada) e "risco ao resultado
útil do processo" (provavelmente querendo se referi à tutela cautelar). (...) A
tutela provisória é necessária simplesmente

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porque não é possível esperar, sob pena de o ilícito ocorrer, continuar


ocorrendo, ocorrer novamente, não ser removido ou de dano não ser
reparado ou reparável no futuro. Assim, é preciso ler as expressões perigo
de dano e risco ao resultado útil do processo como alusões ao perigo da
demora. Vale dizer: há urgência quando a demora pode comprometer a
realização imediata ou futura do direito. (Novo CPC Comentado, Luiz
Marinoni, Sérgio Arenhat e Daniel Mitidiero, São Paulo. Editora: RT, 2015 p.
312/313).

E tenho que, no caso dos autos, os mencionados requisitos restaram


comprovados.

Analisando as peças que instruem o presente recurso, verifico que o


relatório médico apresentado, elaborado pela Dr.ª Kellin Borges, neurologista
pediátrica (folhas 68-TJ), atesta que a autora L.F.I. apresenta "quadro de
atraso na comunicação, interação e presença de comportamentos restritos,
típicos de transtorno do espectro autista", sendo indicado para tratamento
"estimulação constante com terapeuta ocupacional, psicóloga e
fonoaudióloga (com especialidade no método ABA)" (g.n).

No mesmo sentido, é a declaração de folhas 69-TJ, elaborada pela


psicóloga/psicopedagoga, Dr.ª Lorena Pereira Prudente.

A propósito, transcrevo trechos da mencionada declaração:

"Declaro, para os devidos fins que o repertório de Lavínia. se encontra abaixo


do esperado para uma criança de 6 anos e relevantes para elaboração do
Programa de Ensino Individualizado baseado na Análise do Comportamento
Aplicada - ABA.(...)

Em avaliação psicológica confirmou-se que Lavínia está dentro do Espectro


Autista e apresenta déficits em relação à linguagem expressiva e receptiva,
habilidade de brincar, habilidade social, imitação e motora. Sendo assim, é
necessária intervenção

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multidisciplinar (...)"

Vê-se, pois, que a indicação médica para o problema de saúde que


acomete a agravante - transtorno do espectro autista - exige a abordagem,
de modo contínuo e por meio de tratamentos específicos, nos exatos moldes
indicados pelos profissionais de saúde que assistem a paciente.

Assim, no presente momento processual, considerando a garantia


constitucional do direito à vida, revela-se inviável indeferir a pretendida
medida de urgência, motivo pelo qual deve ser mantida a decisão recorrida.

Em casos semelhantes já decidiu este Tribunal de Justiça:

AGRAVO DE INSTRUMENTO - CONVERSÃO EM RETIDO -


IMPOSSIBILIDADE - DOENÇA CARDÍACA GRAVE - PROCEDIMENTOS
NECESSÁRIOS AO RESTABELECIMENTO DA PACIENTE - PLANO DE
SÁUDE - RESTRIÇÃO CONTRATUAL - IMPOSSIBILIDADE - PRIMAZIA
PELA SAÚDE DO PACIENTE - Havendo urgência e ameaça de lesão grave
e de difícil reparação, o recurso cabível é o agravo de instrumento. Se a
decisão se atém aos pedidos da parte autora, não há que se falar em
decisão genérica ou que esta extrapola a lide. O objetivo precípuo da
assistência médica contratada é o de restabelecer a saúde do paciente
através dos meios técnicos existentes que forem necessários, não devendo
prevalecer, portanto, limitação contratual alguma que impeça a prestação do
serviço médico-hospitalar, mormente em se tratando o contrato firmado de
contrato de adesão, em que as cláusulas são pré-determinadas. Recurso não
provido. (Agravo de Instrumento Cv 1.0024.10.226584-0/001, Rel. Des.
Estevão Lucchesi, 14ª CÂMARA CÍVEL, julgamento em 01/12/2011,
publicação da súmula em 07/12/2011).

EMENTA: AGRAVO DE INSTRUMENTO - AÇÃO DE OBRIGAÇÃO DE


FAZER - TUTELA PROVISÓRIA DE URGÊNCIA - PLANO DE SAÚDE -
AUTISMO - NEGATIVA DE COBERTURA DE TRATAMENTOS MÉDICOS -
ROL DA AGÊNCIA NACIONAL DE SAÚDE - COBERTURAS MÍNIMAS -

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COBERTURA DO TRATAMENTO - OBRIGATORIEDADE. O rol de


procedimentos estabelecido pela Agência Nacional de Saúde (ANS) não é
taxativo, haja vista que prevê apenas os procedimentos mínimos a serem
cobertos pelas operadoras de plano de saúde. É devida a cobertura do
procedimento indicado pelo médico como sendo o mais adequado ao
desenvolvimento do paciente. (Agravo de Instrumento Cv 1.0105.16.043090-
3/001, Rel. Des. Luciano Pinto, 17ª CÂMARA CÍVEL, julgamento em
10/11/2016, Dje. 22/11/2016).

Saliente-se, por fim, que a discussão a respeito da validade da cláusula


contratual restritiva, diz respeito ao mérito, sendo certo que, ao final do
processo, em sendo julgado improcedente o pedido inicial, poderá a
agravante promover a cobrança do valor despendido com o referido
tratamento, cuja cobertura não for autorizada.

Ante o exposto, nego provimento ao recurso, mantendo a decisão


agravada.

Custas recursais pela agravante.

DES. NEWTON TEIXEIRA CARVALHO

Acompanho o voto do douto Relator.

DES. ALBERTO HENRIQUE - De acordo com o(a) Relator(a).

SÚMULA: "NEGARAM PROVIMENTO AO RECURSO"