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XV ENCONTRO DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA

Universidade de Fortaleza
19 a 23 de outubro de 2015

Capital político e competitividade eleitoral: uma análise do mercado eleitoral em


cenários locais (o caso do município de Barreira - CE).

Monalisa Lima Torres1* (PG), Rejane Vasconcelos Accioly de Carvalho2 (PQ), Monalisa Soares
Lopes3 (PG), Mônica Dias Martins4 (PQ).

1Doutorado em Sociologia, Universidade Federal do Ceará, Fortaleza-CE;


2Programa de Pós-Graduação em Sociologia, Universidade Federal do Ceará, Fortaleza-CE.
3Doutorado em Sociologia, Universidade Federal do Ceará, Fortaleza-CE;
4Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas e Sociedade, Universidade Estadual do Ceará, Fortaleza-CE.

monalisatorresuece@gmail.com

Palavras-chave: Capital político. Mercado eleitoral. Competitividade. Poder local. Eleições municipais.

Resumo
O escopo deste trabalho é refletir acerca da dinâmica do mercado eleitoral local brasileiro a partir de seus
agentes. Fugindo de uma análise que priorize instituições políticas e/ou o sistema eleitoral, partiu-se da
compreensão dos modelos de interação político-eleitor entendido como meio pelo qual se acumula capital
político imprescindível para as disputas por cargos no mercado eleitoral. Para a análise do funcionamento
da política local, das relações entre candidatos e eleitores foram indispensáveis os estudos de Rejane
Carvalho, Valmir Lopes e Pierre Bourdieu. Como modelo interpretativo que privilegia a complexidade da
interação candidato-eleitor adotou-se o sistema de dádivas. Alicerçado na tríade obrigação dar-receber-
retribuir, o sistema de dádivas funciona como organizador da vida social na medida em que orienta, modela
e configura um tipo de relação social caracterizado pela pessoalidade da interação através do
estabelecimento de laços de dependência mútuos e vínculos moral-afetivos entre os participantes. Tais
aspectos se estendem ao campo político permitindo não só a emergência de lideranças (já que funda
hierarquias) como a identificação do eleitor com o candidato (baseado em relações de caráter pessoal que
“iguala” os agentes) e a constituição de bases eleitorais (construídas sobre a lógica das obrigações morais
em se retribuir os favores concedidos), fonte de capital político dos postulantes aos cargos eletivos. O
estudo de caso dos pleitos proporcionais em Barreira oportunizou a elaboração de um modelo de análise
que, levando em consideração a relação político-eleitor, permitiu refletir sobre a lógica da renovação e/ou
continuidade do poder político de lideranças em cenários locais.

Introdução
Com a abertura política, o declínio das oligarquias tradicionais, o retorno das eleições para
diversos cargos, a ampliação do número de funções eletivas na administração pública local (em função,
principalmente, da onda emancipacionista 1 do final da década de 1980) bem como o aumento da demanda
por serviços e políticas públicas para os municípios (sobretudo, os recém-emancipados) levaram os
postulantes a assumirem novas estratégias para constituir e assegurar uma base eleitoral que lhes dessem
competitividade em um mercado eleitoral cada vez mais disputado. Tais estratégias, dependendo do
tamanho do mercado de eleitores, vão desde a elaboração de imagens-símbolo dos
candidatos/candidaturas e sua ampla divulgação via mídias de massa (CARVALHO, R., 2013; BARREIRA,
1998; GRANDI, 1992 e LOPES, 2005), que buscam aproxima-lo e identifica-lo com o eleitor, até a compra
de votos, ou seja, da forma mais subjetiva até a mais pragmática.

1
Com a abertura política, a descentralização dos recursos fiscais, a plena autonomia aos municípios (que agora são, de fato, entes
federativos), o controle das Assembleias Legislativas sobre as regras e o processo de emancipação de seus municípios contribuíram para
a criação de 1.385 novos municípios no Brasil, entre fins da década de 1980 e 1990. Levando em consideração o número mínimo de
vereadores por município (a Constituição de 1988 estabelece o mínimo de nove e o máximo de cinquenta e cinco vereadores,
proporcional a população dos municípios), o Brasil ganhou mais de 12.500 cadeiras legislativas âmbito local.
1
Na medida em que o mercado eleitoral cresce (eleições gerais), mais impessoal é a relação
político-eleitor, por conseguinte, mais imprescindível se tornam as mídias de massa (rádio, televisão e
mídias eletrônicas como a internet) como meio de intermediar esse contato (GRANDI, 1992 e CARVALHO,
R. 2013). Por outro lado, em mercados eleitorais locais, principalmente em pequenos municípios como
Barreira2, a forma de interação entre candidatos e eleitores assume um caráter mais intimista que, por sua
vez, legitima um tipo específico de constituição de bases eleitorais, fundamentadas sobre relações de troca
de bens e serviços.
Nesse sentido, estudos apontam que a “vida política no governo local não se faz na base da
organização partidária, mas no uso clientelístico dos recursos disponíveis pelo governante” (LOPES, 2003,
p. 168). Para o vereador, compor a base de sustentação parlamentar do prefeito significa ter acesso e usar
politicamente a estrutura da administração municipal a seu favor e manter sua própria base eleitoral (Idem).
Tal prática política acaba dificultando a renovação de cadeiras na Câmara de Vereadores visto que a
constituição e, principalmente, a manutenção das bases eleitorais depende da capacidade do
representante político alimentar constantemente sua rede de atendimento e prestação de serviços. Daí que
aqueles postulantes que não conseguem distribuir favores (construir sua própria base de sustentação
eleitoral) já entram no mercado eleitoral em desvantagem.
Entendendo a política como uma relação de troca, esta discussão não pretende desenvolver
uma análise valorativa do câmbio entre políticos e eleitores no mercado eleitoral, mas pensá-lo dentro da
lógica de funcionamento do campo político a partir de seus agentes e dos significados que a ele são
atribuídos.

Metodologia
O objetivo deste trabalho é propor um modelo de análise sobre a gramática do mercado
eleitoral local a partir do processo de constituição das bases eleitorais das lideranças políticas, (via
acumulação de capital político) e suas disputas por espaço e poder na esfera política municipal. Para tanto,
realizou-se um estudo de caso no município de Barreira (Ceará), cujo recorte temporal engloba o período
de 1988 a 2012, e tem como objeto de investigação, sobretudo, vereadores eleitos por mais de um
mandato. O período considerado refere-se a primeira eleição local de Barreira pós-emancipação política
(que ocorre em 1987) até ultima eleição, em 2012.
Para a compreensão da composição e expansão das bases eleitorais bem como da lógica de
funcionamento do campo político brasileiro, foram imprescindíveis os estudos de Rejane Carvalho (2013 e
2009), Valmir Lopes (2005), Marcel Mauss (2007) e Bourdieu (1996) bem como as contribuições de outros
autores e obras, devidamente referenciados.
Os dados relativos às eleições locais no município de Barreira (1988 a 2012) tais como a
quantidade de candidatos que disputaram e/ou foram eleitos em cada pleito e suas respectivas votações,
foram fornecidos pelo Tribunal Regional Eleitoral do Estado do Ceará (TRE-CE). Além disso, foram
realizadas entrevistas semiabertas com cabos eleitorais, eleitores e vereadores com o objetivo de captar os
sentidos que estes atribuem à política e às disputas eleitorais. A técnica de Observação Participante
também foi útil para o acompanhamento dos desdobramentos das eleições em 2012.

2
Barreira, município com apenas 28 anos de emancipação política, localizado no Maciço de Baturité, possui uma população de 19.573
habitantes e 17. 537 eleitores (TORRES, 2013).
2
A fim de aproximar-se da realidade estudada, elaborou-se três tipos ideais de candidatos que
entram de forma diferenciada no mercado eleitoral. No primeiro tipo, as lideranças (candidatos em
potencial) adquirem legitimidade e ascendem politicamente a partir de um modelo de interação pessoal
que, alicerçados na prestação e contraprestação de bens e serviços privados, funda laços moral-afetivos e
criam vínculos de dependência mútuos. Nesse modelo, as bases eleitorais do postulante são, sobretudo,
constituído a partir das suas redes de amizade, compadrio, vizinhança, parentesco. O sentimento de
pertencimento a uma “comunidade de origem” cria uma “identidade comum” entre político e eleitor que
necessita ser constantemente fortalecida. Nesse caso, o político não pode se afastar (física e/ou
simbolicamente) da comunidade e é obrigado a manter esta relação de troca de dádivas. Cabe destacar
que, no caso deste “candidato de comunidade”, as dádivas trocadas não são originárias de uma posição no
Estado (uso dos recursos públicos, através do desempenho de cargos, para a distribuição de favores), e
que sua relação com a rede de apoiadores/eleitores carrega uma ideia de “sacrifício3”, o que confere um
caráter de “garantia de fidelidade de suas bases eleitorais”.
O segundo tipo, o “candidato clientelista”, está relacionado ao postulante que entra na vida
política via Estado, ou seja, que constitui sua rede de apoio político através do uso clientelístico de
recursos públicos decorrente de cargo público/político que ocupa. Sua base eleitoral é mais dispersa e,
devido à falta de “identidade comum” entre político e eleitor, frágil, já que seu território político está
suscetível à invasão de outros postulantes que disputam seus votos. É importante colocar que, em ambos
os casos acima citados, a lógica da dádiva se faz presente, muito embora ela se torne mais forte e
orientadora das ações dos agentes no primeiro tipo.
O ultimo caso, o “candidato ideológico”, legitima sua liderança pelo convencimento. Sua base
eleitoral é constituída e mantida pela “identidade ideológica comum”, decorrente do posicionamento político
e das práticas/ações políticas correspondentes.
Como tipos ideais, estes não se apresentam de maneira pura na realidade, podendo se
mesclar e adotar características as mais diversas no decorrer do processo eleitoral e de seus mandatos.
Cabe destacar que, para a análise da dinâmica do mercado eleitoral de Barreira, optamos por adotar os
dois primeiros tipos de candidatos, tendo em vista que foram estes os mais recorrentes e expressivos na
história política do município. Em torno desses tipos, o trabalho apresenta três exemplos de vereadores
barreirenses que são eleitos e se mantem (ou não) na vida política a partir do uso (alternado ou mesclado)
dessas formas de relacionamento com o eleitor.
A propósito dos personagens aqui citados (vereadores, cabos eleitorais e eleitores) e em
função de perseguições políticas – sofridas por alguns entrevistados – e pessoais – para com os
pesquisadores no decorrer de investigações anteriores (TORRES, 2013) que desembocaram neste
trabalho –, optou-se por utilizar nomes fictícios de modo a preservar a integridade de interlocutores e
políticos.
Sem desconsiderar suas especificidades, a análise da dinâmica do mercado eleitoral de
Barreira forneceu importantes elementos para se pensar outros cenários políticos locais no Brasil.

Resultados e Discussão
Em Ensaio sobre a dádiva, Mauss destaca que, independentemente do momento histórico, em
todas as sociedades existem laços sociais fundados em prestações e contraprestações de serviços e bens.

3
Ambos os polos da relação têm o dever moral de se sacrificar pelo outro. Em outras palavras, o eleitor deve fazer o que estiver ao seu
alcance para eleger seu candidato assim como seu representante, depois de eleito, deve fazer o possível para atender aos pedidos e
necessidades de seus eleitores.
3
Estes se manifestam das mais diversas formas, mas em sua essência comportam três obrigações: o dar, o
receber e o retribuir. Os bens trocados (o que inclui pessoas), materiais ou imateriais, circulam na
sociedade e é sua circulação que garante a produção e a reprodução/manutenção dos laços sociais. De tal
maneira que uma dádiva/dom ofertado a alguém sempre retornará ao seu ponto inicial. Para que uma troca
seja considerada uma dádiva ela deve ser (ou parecer) voluntária e estabelecer uma relação pessoal.

Entende-se por dádiva ou dom um sistema de trocas recíprocas que referencia a organização
societária. É a partir dela que a sociedade se mantém coesa por meio da instauração de relações
simbólicas e recíprocas entre indivíduos e grupos. O sistema de dádiva funciona sobre um duplo
movimento: solidariedade-dívida e igualdade-dominação. A doação é partilha e por meio dela se cria
dívidas por parte de quem recebe, por isso é relação assimétrica tendo em vista que o receptor fica em
dívida com o doador. Dívida essa só “quitada” quando o donatário retribui o presente. No que tange às
relações assimétricas estabelecidas na dádiva, estas geram hierarquia e se a hierarquia existia antes da
troca recíproca é através dela que a diferença de status não só se mostra como se legitima (GODELIER,
2001).
No campo político, as dádivas distribuídas pelos postulantes aos cargos eletivos, sobretudo no
contexto das disputas eleitorais, assumem o aspecto de potlatch, de prestações totais de tipo agonística, ou
seja, fundadas na rivalidade entre aqueles que trocam, implicando na instituição de hierarquias (o mais
poderoso é aquele que pode dar mais). É no “tempo da política” que a quantidade e qualidade dessas
dádivas se intensificam tendo em vista que o “candidato mais forte” ou “mais poderoso” é aquele que pode
dar maiores e mais valiosos dons.
Para tanto, é fundamental o controle (ou o acesso) local dos recursos públicos. Daí que o
“alinhamento político com as posições do poder executivo é uma questão de sobrevivência política para o
vereador (ou o postulante), pois sem o uso político da estrutura da administração municipal, não há como
contemplar seu eleitorado” (LOPES, 2005, p. 168) e manter sua lealdade política. Ou seja, a
competitividade no mercado eleitoral local é diretamente proporcional à capacidade do candidato em
alimentar sua base de sustentação político-eleitoral via prestação/troca constante de bens e serviços. O
que pode acarretar um baixo índice de renovação na Câmara dos Vereadores.
A tabela a seguir mostra o percentual de renovação de cadeiras na Câmara dos Vereadores
no município de Barreira desde sua segunda eleição local, em 1992, até o pleito de 2012.

Tabela 1 – Percentual de renovação parlamentar em Barreira entre os anos de 1992 e 2012.


Nº total Nº de Proporção Nº de Nº de candidato
Ano de candidatos de candidatos % de eleitos para o primeiro % de
cadeiras que concorreram candidatos Reeleitos reeleição mandato Renovação
por vaga
1992 11 76 6,9 7 63,6% 4 36,3%
1996 11 43 3,9 5 45,5% 6 54,5%
2000 11 46 4,1 7 63,6% 4 36,3%
2004 9 53 5,8 8 88,8% 1 11,2%
2008 9 54 6 5 55,5% 4 44,5%
2012 11 53 4,8 6 54,5% 5 45,5%
Fonte: Elaboração própria a partir dos dados do Tribunal Regional Eleitoral (TRE-CE)
Em fins de 1994, Barreira passou por uma crise política que culminou com a primeira cassação
de um prefeito. Na eleição que se seguiu (1996), um dos pleitos mais disputados, as lideranças que mais
se destacaram foram aquelas que fizeram oposição à facção política do prefeito cassado. Daí decorre que,
com exceção de 1996, em todos os outros pleitos o percentual de reeleição superou o de renovação, com

4
destaque para 2004, ano em que a quantidade de candidatos reeleitos foi o mais expressivo (oito
postulantes). Fator crucial para esse resultado foi a crise política vivenciada nos anos anteriores (cassação
do prefeito em 1992) e a ótima avaliação, por parte dos barreirenses, do grupo político que administrou a
cidade entre 2001 e 2004, resultando numa massiva votação (e eleição) dos candidatos que compunham a
facção situacionista de modo que conquistaram seis das nove cadeiras da Câmara.

Conclusão
Em toda a sua história, desde a emancipação política até o último pleito local, em 2012,
Barreira teve um total de trinta e quatro vereadores. Destes, treze vereadores foram eleitos por duas
legislaturas; quatro obtiveram três mandatos; outros quatro conseguiram se reeleger por quatro legislaturas
e um obteve seis legislaturas.

A partir de entrevistas com funcionários públicos e eleitores bem como da observação e


análise da própria história de Barreira (TORRES, 2013), notamos que uma das principais portas de entrada
à política no município (ou da autopromoção no campo político) é atuar na administração pública
(principalmente como chefe de secretaria no executivo municipal). E, uma vez eleito vereador, com acesso
aos recursos públicos fica mais fácil tanto manter como ampliar sua base eleitoral e, por conseguinte, ser
reeleito. Ao contrário, vereadores que, depois de (re)eleitos, “descuidam de suas bases”, ou seja, não
fortalecem os laços com seus eleitores (negligenciando, por exemplo, a prestação de serviços e/ou as
relações de amizade), perdem capital político e abrem espaço para outros candidatos disputarem os votos
de sua base de apoio. Com base nos dados da tabela e nas situações listadas acima, Barreira nos fornece
três modelos emblemáticos: os vereadores Davi, Alexandre e Vagner.
Davi, o exemplo mais emblemático de “candidato da comunidade”, se destacou em sua
localidade graças aos favores que distribuía aos seus vizinhos, amigos e parentes. Foram esses vínculos
moral-afetivos que lhes serviram de base para sua inserção na vida política municipal como cabo eleitoral e
mediador entre o poder executivo e a comunidade a qual pertence, o que lhe proporcionou contato direto
com os recursos públicos e a possibilidade de distribuí-los em sua comunidade, (seja na forma de
benefícios individuais ou coletivos). Devido a sua “constante atuação junto à comunidade” (ES, entrevista
realizada em 17 de agosto de 2012), ampliou sua rede de apoiadores as localidades adjacentes e foi eleito
em todos os pleitos nos quais concorreu (1988, 1992, 1996, 2000, 2004 e 2012), fazendo parte de seis das
sete legislaturas da Câmara Municipal de Barreira.
Alexandre, filho de um dos mais importantes pastores evangélicos de Barreira, é conhecido
entre a população protestante do município, mas, politicamente era um nome desconhecido até eleições de
2008. Naquele ano, em função de sua influência junto ao eleitorado protestante da cidade, atuou
ativamente como cabo eleitoral de Paulo, candidato a prefeito eleito naquele pleito. No ano seguinte, foi
nomeado secretário dos transportes e, devido a sua proximidade com o prefeito bem como a possibilidade
de controlar e distribuir recursos públicos, começou a constituir sua própria base eleitoral. Em 2012,
concorreu a uma cadeira na Câmara, sendo o vereador melhor votado, com um total de 908 votos 4. Cabe
destacar que, ao contrário da grande maioria dos candidatos, que tiveram uma votação concentrada em
determinadas áreas/comunidades, Alexandre, modelo de “candidato clientelista”, conseguiu capilarizar sua
base eleitoral de modo a obter votos em quase todos os colégios eleitorais de Barreira.

4
O que equivale a aproximadamente 6,11% dos votos válidos daquele pleito. Para se ter uma ideia, o vereador com a segunda melhor
votação, experiente em disputas eleitorais e já indo para o quarto mandato, obteve um total de 879 votos, 5,9% dos votos válidos; e o
terceiro, com 581 votos ou 3,9% dos votos válidos. Nas eleições de 2012, o total de votos válidos foi de 14.851 votos num universo de
17.537 eleitores.
5
Por fim, Vagner iniciou sua trajetória como “candidato de comunidade” nas eleições de 2000.
No entanto, sua mudança de endereço (transfere-se com sua família para o centro da cidade), portanto,
seu afastamento (físico) da comunidade e “progressivo desinteresse em responder os apelos e pedidos da
comunidade, principalmente depois de eleito para o segundo mandato, em 2004” (Vereador Fabiano,
entrevista realizada em 10 de novembro de 2012), ou seja, seu distanciamento simbólico (enfraquecimento
dos laços de afinidade e identidade entre político e eleitor), contribuíram para fragilizar suas bases
eleitorais. Em função destes afastamentos, perde capital político e não se reelege em 2008 e 2012, quando
José, outro “candidato de comunidade”, do mesmo lugarejo de Vagner, conquista parte significativa de sua
base eleitoral e é eleito.
No quadro das disputas pelo poder local, o caso de Vagner é ilustrativo da importância da
manutenção desses laços de reciprocidade entre político e eleitor – seja por meio de relações de
interdependência tipicamente comunitária (meio pelo qual Vagner foi eleito), seja pelo uso dos recursos
públicos de modo assistencial-clientelista, seja por outros meios –, sem os quais se perde o apoio da (e a
própria) bases eleitoral.

Referências
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NuAP/Relume Dumará, 1998.
BOURDIEU, P. Razões práticas: sobre a teoria da ação. Campinas: Papirus, 1996.
CARVALHO, R. V. A. Campanhas eleitorais e comunicação midiática: ciclos de mudança e continuidade.
Fortaleza: Edições UFC, 2013.
_______. (Org). O Ceará na década de 1980: atores políticos e processos sociais. Campinas/Fortaleza:
Pontes/Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal do Ceará, 2009. p. 17-30.
GODELIER, M. O enigma do dom. Civilização Brasileira: Rio de Janeiro, 2001
GRANDI, R.; MARINS, A.; FALCÃO, E. (Orgs). Voto é marketing... o resto é política. São Paulo: Loyola,
1992.
LEAL, V. Coronelismo, enxada e voto: o município e o regime representativo no Brasil. 4 ed. Rio de Janeiro:
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LOPES, V. As lógicas de representação política. O processo de mudança de lideranças políticas em
Fortaleza. 2005. 269 f. Tese (Doutorado em Sociologia) – Programa de Pós-Graduação em Sociologia,
Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2005.
MAUSS, M. Ensaio sobre a dádiva – forma e razão da troca nas sociedades arcaicas. In: _______.
Sociologia e Antropologia. São Paulo: Cosacnaify, 2007. p. 183-313.
NUNES, E. A gramática política do Brasil. Clientelismo e insulamento burocrático. 2ª edição. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar Editor,1997.
QUEIROZ, M. I. P. O mandonismo local na vida política brasileira e outros ensaios. São Paulo: Alfa-Omega,
1976.
TORRES, Monalisa Lima. Dádiva e mandonismo: os médicos na política em Barreira. 2013. 131 f.
Dissertação (Mestrado em Políticas Públicas) – Mestrado Acadêmico em Políticas Públicas e Sociedade,
Universidade Estadual do Ceará. Fortaleza, 2013.
TRIBUNAL REGIONAL ELEITORAL DO CEARÁ. Estatísticas sobre eleições no estado do Ceará.
Disponível em< http://www.tre-ce.jus.br/>. Acesso em: 20 de jun. 2015.
Agradecimentos
Aos professores e colegas do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal
do Ceará, em particular, à professora Drª. Rejane Carvalho, que orientou a elaboração deste trabalho. Aos
professores Mônica Martins e Hermano Lima que forneceram importantes contribuições teóricas e
metodológicas. Aos interlocutores, sem os quais, esta pesquisa não seria possível, em especial, a José
Targino dos Santos (in memoriam) que sacrificou a vida pela política em Barreira.
À CAPES por viabilizar esta investigação.
À UNIFOR que, com seu evento, permite a muitos explanar trabalhos acadêmicos construtores de
ideias e transformadores na sociedade.