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PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DA BAHIA

2ª TURMA RECURSAL DOS JUIZADOS ESPECIAIS

Processo nº. : 0008357-83.2015.8.05.0080

Classe : RECURSO INOMINADO


Recorrente(s) : ROSALINA DOS SANTOS PEREIRA

Recorrido(s) : BANCO VOTORANTIM S A

Origem : 3ª VARA DO SISTEMA DOS JUIZADOS - FEIRA DE


SANTANA
Relatora Juíza : MARIA AUXILIADORA SOBRAL LEITE

VOTO-E M E N T A
RECURSO INOMINADO. CONSUMIDOR. EMPRÉSTIMO CONSIGNADO
FIRMADO COM CONSUMIDOR ANALFABETO. PARTE AUTORA QUE
ALEGA VÍCIO DE CONSENTIMENTO. EXIGÊNCIA DE FORMALIDADES
ADICIONAIS PARA A COMPROVAÇÃO DO CONSENTIMENTO.
ASSINATURA A ROGO ACOMPANHADA DA ASSINATURA DE DUAS
TESTEMUNHAS. BANCO RÉU QUE COMPROVA A REGULARIDADE DA
CONTRATAÇÃO NOS TERMOS EM QUE ALEGA TER SIDO REALIZADA,
ATENDENDO ÀS FORMALIDADES ELENCADAS. ART. 595 DO CC/02.
INEXISTÊNCIA DE ATO ILÍCITO. LITIGÂNCIA DE MÁ FÉ CONFIGURADA
SENTENÇA MANTIDA.

1. Trata-se de recurso inominado interposto contra sentença que


julgou improcedente o pedido formulado na exordial, bem como condenou a
parte autora na multa por litigância de má fé, por entender o magistrado
sentenciante que “Resta, pois, evidente que, conhecedora da sua situação - de
devedora, a parte autora, em sua inicial, omitiu informações quanto a relação jurídica
travada com a acionada, configurando afronta ao dever de lealdade processual, uma vez
infringe o art. 77, I, NCPC.”.

2. Alega a parte autora que, na condição de analfabeta e


aposentada, sofrera descontos em seu benefício previdenciário em virtude de
empréstimo consignado, cuja anuência dera sem que lhe fossem prestados os
devidos esclarecimentos acerca das repercussões patrimoniais da avença,
valendo-se os prepostos do banco demandado de sua condição de pessoa
analfabeta. Requereu devolução em dobro dos valores ´pagos, bem como
indenização pelos danos morais sofridos.

A recorrente busca a reforma da sentença, reiterando os argumentos


já expostos na exordial, bem como insurge-se contra a condenação ao
pagamento da multa por litigância de má fé, por entender que não se
encontram presentes os seus requisitos ensejadores.

. 3. Como sabido, em se tratando de consumidor analfabeto, a jurisprudência


pátria tem entendido que as instituições financeiras, quando da contratação,
deverão adotar procedimentos e formalidades adicionais para coibir a
ocorrência de práticas abusivas no mercado de consumo.

4. Nesse sentido que devem as referidas instituições financeiras


proceder com cautela adicional, observando algumas formalidades que a
hipótese requer, dentre as elencadas pela jurisprudência pretoriana, tais
quais a aposição da digital do contratante no instrumento, nos termos do
art. 595 do CC/02, acompanhada da assinatura de duas testemunas, ou a
lavratura de escritura pública.

5. A despeito das alegações da parte autora , o banco demandado


logrou êxito na comprovação da regularidade da contratação, bem como
no atendimento a tais requisitos, tendo juntado aos autos o instrumento
contratual com a assinatura a rogo da parte autora, que se fez
acompanhada da assinatura de duas testemunhas, e respectivos
documentos de identificação, conforme evento 24 do projudi.

6. Em assim sendo, foram observada as formalidades necessárias à


demonstração do consentimento da parte autora, tomadora do
empréstimo, ainda que analfabeta funcional, não podendo ser olvidado
que a mesma usufruiu do valor objeto da avença, bem como tivera ciência
do teor do contrato, sendo as provas presentes nos autos suficientes
para o pleno conhecimento da repercussão do contrato na sua esfera
patrimonial. Não fora comprovado, assim, o vício do consentimento
aventado, em nenhuma de suas modalidades previstas no CC/02.

6. Nesta senda, fora devidamente comprovada a regularidade da


contratação ora impugnada pela parte autora, nos termos em que alega o
réu ter sido realizada , não restando caracterizada qualquer ilicitude por
parte do banco demandado, sendo portando devidos os descontos e as
cobranças, sendo mister a reforma do decisum, para que sejam os
pedidos julgados improcedentes.

7. Por outro lado, merece a confirmação do julgado no tocante ao


reconhecimento da litigância de má-fé e a condenação na multa imposta,
isto porque há que se observar, tem se tornado uma praxe no âmbito dos
juizados tais comportamentos, consistentes no ajuizamento de ação
manifestamente improcedente, em que a parte autora alega a inexistência
de relação jurídica, apostando com isso na incúria e deficiência das
empresas demandadas no tocante à comprovação da contratação.

8. Ressalte-se que dita situação tem se observado nos Juizados


Especiais de um modo crescente e, trata-se de utilização da Justiça
como moeda de sorte e não havendo vantagem ou não sendo alcançada
a finalidade pretendida, aproveita-se da estrutura judiciária que permite o
maior acesso a Justiça e sem qualquer custo em detrimento daqueles
que de fato e de direito reclamam um pronunciamento judicial mais
rápido e eficaz.

9. Diante de todos esses elementos, entendo que a condenação


imposta deve ser mantida para no mínimo servir como punição e
influência pedagógica visando decepar a continuidade de tais condutas
tão prejudiciais às próprias partes, ao Judiciário e finalmente a
efetividade da justiça.

10. ISTO POSTO, voto no sentido de CONHECER e NEGAR


PROVIMENTO ao recurso interposto pela Recorrente para manter a
sentença objurgada em seus termos. Sem custas processuais e
honorários advocatícios.
Salvador, Sala das Sessões, 13 de Abril de 2017.
BELA. MARIA AUXILIADORA SOBRAL LEITE
Juíza Relatora
BELA CÉLIA MARIA CARDOZO DOS REIS QUEIROZ
Juíza Presidente
PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DA BAHIA
2ª TURMA RECURSAL DOS JUIZADOS ESPECIAIS

Processo nº. : 0008357-83.2015.8.05.0080

Classe : RECURSO INOMINADO


Recorrente(s) : ROSALINA DOS SANTOS PEREIRA

Recorrido(s) : BANCO VOTORANTIM S A

Origem : 3ª VARA DO SISTEMA DOS JUIZADOS - FEIRA DE


SANTANA
Relatora Juíza : MARIA AUXILIADORA SOBRAL LEITE

ACÓRDÃO

Acordam as Senhoras Juízas da 2ª Turma Recursal dos Juizados


Especiais Cíveis e Criminais do Tribunal de Justiça do Estado da Bahia,
CÉLIA MARIA CARDOZO DOS REIS QUEIROZ –Presidente, MARIA
AUXILIADORA SOBRAL LEITE – Relatora e ALBÊNIO LIMA DA SILVA
HONÓRIO, em proferir a seguinte decisão: RECURSO CONHECIDO E
IMPROVIDO . UNÂNIME, de acordo com a ata do julgamento. Sem custas
processuais e honorários advocatícios .

Salvador, Sala das Sessões, 13 de Abril de 2017.


BELA. MARIA AUXILIADORA SOBRAL LEITE
Juíza Relatora
BELA CÉLIA MARIA CARDOZO DOS REIS QUEIROZ
Juíza Presidente