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EMAGIS RODADA 2018

1. No que consiste a chamada ‘desapropriação por zona’?


A desapropriação por zona, também chamada de extensiva, é modalidade de
desapropriação por utilidade pública e tem previsão no artigo 4º do Decreto-Lei
3.365/41. Consiste na desapropriação que pode incluir zona contígua à área maior do
que a necessária à realização de uma obra e zonas que se valorizarem
extraordinariamente em consequência da realização de um serviço.
As áreas desapropriadas podem ser reservadas à ulterior consecução da obra ou podem
ser revendidas. Em qualquer caso, devem ser abarcadas na declaração de utilidade
pública que deverá, ainda, mencionar quais são as indispensáveis à obra e quais são as
destinadas à revenda.
As obras destinadas à revenda são desapropriadas não para integrarem o patrimônio
público, mas para serem revendidas com lucro, após a conclusão da obra ou serviço,
beneficiando-se o expropriante com a diferença entre o preço de aquisição e o da
revenda.
A desapropriação por zona suscita controvérsias na doutrina, havendo quem sustente a
sua inconstitucionalidade, em razão de seu caráter especulativo, o que fugiria dos
pressupostos constitucionais do instituto. Outros, porém, defendem a sua validade como
sucedâneo da contribuição de melhoria.
O STF, por sua vez, tem admitido tal modalidade de desapropriação, sob o argumento
de que é válida a expropriação para atender a interesse público, que pode ser auferir
proveito da revenda de terrenos, que comporte e financie execução da obra pretendida.

2. Sobre a luz da jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, explique a teoria


da transcendência dos motivos determinantes (teoria extensiva) e responda se ela é
aplicada ao controle concentrado de constitucionalidade brasileiro
O art. 102, §2º, da CRFB/88 e o art. 28, parágrafo único, da lei 9.868/99 estabelecem
que as decisões do STF proferidas no controle concentrado de constitucionalidade
(ainda que cuidem de interpretação conforme a Constituição ou de declaração parcial de
inconstitucionalidade sem redução de texto) produzem eficácia contra todos ("erga
omnes") e efeito vinculante em relação aos órgãos do Poder Judiciário e à administração
pública de todos os entes da Federação. Isso significa dizer que o texto da Carta
Política, no dispositivo anteriormente referido, deixou claro o alcance subjetivo da
decisão do Pretório Excelso (aqueles que são atingidos pela decisão), mas não delineou
com a mesma precisão seu alcance objetivo (quais partes da decisão produzem eficácia
"erga omnes" e efeito vinculante), cabendo ao Judiciário a realização de tal tarefa.
Diante disso, a doutrina e a jurisprudência do STF desenvolveram 2 (duas) teorias que
buscam explicar quais elementos das decisões proferidas em controle concentrado de
constitucionalidade estão aptos a produzir eficácia "erga omnes" e efeito vinculante, a
saber: teoria restritiva e teoria extensiva (teoria da transcendência dos motivos
determinantes). Segundo a primeira corrente de pensamento somente o dispositivo tem
aptidão para produzir tais efeitos, não sendo as razões "obiter dicta" (apontadas na
fundamentação) vinculantes, embora lhes seja reconhecido, cada vez mais, potencial
persuasivo, sendo esta a teoria adotada pela Corte Constitucional. Já para a segunda
teoria (teoria extensiva ou teoria da transcendência dos motivos determinantes), além do
dispositivo, a "ratio decidendi" (os motivos determinantes) da decisão também são
vinculantes, atribuindo-se estes efeitos aos seus fundamentos determinantes, que
transcendem os próprios limites do que fora determinado judicialmente. É por causa
deste posicionamento que a Suprema Corte entende ser incabível o ajuizamento de
reclamação, com o propósito de preservar a competência do Tribunal e garantir a
autoridade de suas decisões (art. 102, I, "l", da CRFB/88), sob o pretexto de que a
decisão impugnada malferiu a fundamentação apresentada no acórdão prolatado pelo
STF, mesmo que em sede de controle concentrado de constitucionalidade. Entretanto,
em sede doutrinária, e mesmo entre os ministros do Pretório Excelso, há quem assevere
que os órgãos estatais, ou parte deles, abrangidos pelo efeito vinculante devem observar
não somente a parte dispositiva da decisão, mas sua própria fundamentação, já que sua
eficácia "erga omnes" e seu efeito vinculante (art. 102, §2º, da CRFB/88) não se
restringe ao seu dispositivo. É por isso que o enunciado 168 do Fórum Permanente de
Processualistas Civis, ao interpretar o art. 927, I, do CPC/15, aduz que os fundamentos
determinantes do julgamento de ação em sede de controle concentrado de
constitucionalidade caracterizam a "ratio decidendi" do precedente e possuem efeito
vinculante para todos os órgãos jurisdicionais. Ademais, o art. 988, §4º, do CPC/15
preconiza que cabe reclamação para impugnar a aplicação indevida da tese jurídica
(apresentada na fundamentação) ou sua não aplicação nas hipóteses em que se visa
garantir a observância de enunciado de súmula vinculante e de decisão do STF em
controle concentrado de constitucionalidade. Por fim, diante disso, não se está a afirmar,
prematuramente, que a Egrégia Corte Constitucional superou seu entendimento da tese
restritiva da eficácia vinculante, adotando a teoria da transcendência dos motivos
determinantes, (mesmo porque a Constituição não deve ser interpretada à luz do
CPC/15, mas ao contrário, o Códex Processual Civil é que deve ser interpretado
segundo os ditames da Carta Magna) mas que diante da tendência do CPC/15 de
conferir maior força "normativa" aos fundamentos das decisões judiciais em questão o
tema deverá ser rediscutido quando oportuno (reinterpretando-se a própria Constituição
através de técnicas como a mutação constitucional), sob novas luzes.

3. É possível a estabilização de tutela antecipada em relação à Fazenda Pública?


É possível a estabilização da tutela antecipada em relação à Fazenda Pública,
respeitadas as vedações legais da concessão de tal tutela, nos termos do art. 1º e art. 2º-
B da Lei 9494/97 e art. 1059, CPC/15. A estabilização da tutela antecipada foi uma das
inovações trazidas pelo CPC/15, e sua previsão consta do art. 304. Uma vez concedida a
tutela antecipada de urgência, nos moldes do art. 303, CPC/15, caso o réu não
interponha o respectivo recurso, o processo é extinto e a tutela se torna estável. Uma vez
estável, qualquer das partes terá o prazo peremptório de 02 anos, da ciência da decisão
que extinguiu o processo (art. 304, p. 5º, CPC/15), para demandar pela revisão, reforma
ou invalidação da tutela antecipada. O art. 304, p. 6º, do CPC/15 expressamente observa
que não se trata de coisa julgada, são institutos distintos, em que pese a semelhança,
como após o prazo de 02 anos a decisão que concedeu a tutela não poder ser mais
revista, conservando a decisão seus efeitos. Frisa-se que a doutrina defende que a
estabilização da tutela antecipada não requer a remessa necessária (art. 496, CPC/15),
uma vez que o instituto não faz coisa julgada. Ademais, em se tratando de condenação
da Fazenda Pública à obrigação de pagar, exigindo a expedição de precatório ou
requisição de pequeno valor, não é possível a tutela antecipada.

O art. 304 do CPC prevê a estabilização da tutela provisória satisfativa concedida em


caráter antecedente, em um microssistema que adota a técnica da monitória prevista no
arts. 700 a 702 do CPC. A tutela de urgência satisfativa antecedente pode ser proposta
contra a Fazenda Pública, estando a decisão apta a estabilizar-se, sendo possível a
estabilização da tutela provisória contra a Fazenda Pública. Todavia, ficam ressalvados,
é lógico, aqueles casos em que a tutela de urgência é vedada contra a Fazenda Pública.
Assim, nos casos em que se permite a tutela de urgência contra o Poder Público, viável
será a tutela satisfativa antecedente com sua consequente estabilização. Porém, não se
permitirá estabilização para antecipar condenação judicial a fim de viabilizar a imediata
expedição de precatório ou de requisição de pequeno valor, uma vez que a expedição de
precatório ou de requisição de pequeno valor exige prévia coisa julgada. Importante
ainda mencionar que há doutrina que defende a necessidade de remessa necessária a fim
de que o tribunal confirme a decisão e se possa, efetivamente, ter a estabilização
prevista no art. 304 do CPC. No entanto, considerando que a estabilização da tutela
antecipada não se confunde com a coisa julgada, revela-se prescindível a remessa
necessária.

4. Servidor público vinculado a regime próprio de previdência social (RPPS) que


apenas durante certo período tenha exercido suas atividades laborais sujeito a
condições especiais que prejudicam sua saúde e integridade física, com permanente
e efetiva exposição a agente nocivo, tem direito subjetivo à contagem especial do
tempo de serviço nos assentamentos funcionais do órgão público, possibilitando a
conversão de tempo especial em comum através do multiplicador cabível nos
termos da legislação previdenciária?
Inicialmente é importante consignar o teor da súmula número 33 do STF, segundo a
qual as regras do Regime Geral de Previdência Social (RGPS) sobre aposentadoria
especial aplicam-se ao servidor público, apenas no que couberem. Em outras palavras,
nem todas as normas do RGPS serão cabíveis para a aposentadoria especial do servidor
público.
Dessa maneira, embora no RGPS o segurado que exerça atividade enquadrável como
especial tenha, sob a égide da legislação que o ampara, direito ao reconhecimento como
tal e ao acréscimo decorrente da sua conversão em tempo de serviço comum, tal regra
não é extensível aos integrantes do Regime Próprio de Previdência Social (RPPS).
Isso porque o artigo 40, § 4º, III, da CF garante aos servidores públicos que exerçam
atividades sob condições especiais que prejudiquem a sua saúde ou integridade física o
direito de se aposentar com menos tempo de contribuição que os demais agentes
públicos, mas não faz qualquer menção à contagem diferenciada do tempo de serviço
em condição especial.
Segundo a jurisprudência do STF, não se extrai da norma supramencionada o dever
constitucional de que o Presidente da República e o Congresso Nacional editem uma lei,
em favor dos servidores públicos, prevendo contagem diferenciada para quem trabalhou
parte de sua vida em atividades insalubres e, ao final, averbe (registre e some) este
período de forma maior para fins de aposentadoria.
Em suma, o dispositivo supra não garante necessariamente aos servidores públicos este
direito à conversão com contagem diferenciada de tempo especial em tempo comum. O
que o dispositivo garante é apenas o direito à aposentadoria especial, ou seja, com
requisitos e critérios diferenciados.
Destarte, não se pode aplicar as regras de conversão do tempo especial em tempo
comum, previstas para os trabalhadores em geral (RGPS), para os servidores públicos,
considerando que a lei que vier a ser editada regulamentando o artigo 40, § 4º, III da CF
não estará obrigada a conceder este fator de conversão aos servidores.

5. Discorra sobre a configuração de nepotismo em se tratando da nomeação de


cônjuge, companheiro ou parente para ocupar cargo público de natureza política,
abordando, ainda, a necessidade da edição de lei (observada a competência
privativa para iniciar o respectivo processo legislativo, nos moldes da Constituição
Federal) para o estabelecimento da vedação a tal prática.
Nepotismo é o termo que designa o favorecimento de parentes na nomeação para cargos
públicos em detrimento de pessoas mais qualificadas.
O Supremo Tribunal Federal entende que a vedação ao nepotismo é inerente aos
princípios constitucionais da Administração Pública, como a impessoalidade e a
moralidade. Portanto, não há necessidade da existência de lei específica prevendo a
referida proibição. Nesse sentido é o que estabelece a Súmula Vinculante 13 do
Supremo Tribunal Federal, segundo a qual a nomeação de cônjuge, companheiro ou
parente em linha reta, colateral ou por afinidade, até o terceiro grau, da autoridade
nomeante ou de servidor da mesma pessoa jurídica investido de cargo de direção, chefia
ou assessoramento, para o exercício de cargo em comissão, de confiança ou de função
gratificada na administração pública direta e indireta em qualquer dos Poderes da
União, Estados, Distrito Federal e Municípios, compreendido o ajuste mediante
designações recíprocas, viola a Constituição Federal.
Cumpre consignar que a Súmula Vinculante 13 não esgota todas as possibilidades de
configuração do nepotismo, motivo pelo qual a situação deve ser analisada no caso
concreto. Além disso, é perfeitamente cabível a disciplina mais detalhada do tema por
meio de lei específica do ente público correspondente. Vale frisar que a referida lei,
consoante a jurisprudência do Supremo, não é de iniciativa privativa do Chefe do Poder
Executivo.
No que tange aos cargos políticos, a Corte Suprema estabeleceu que, em princípio, não
se aplica a Súmula Vinculante 13. Os cargos políticos são de livre nomeação e
exoneração, baseados na fidúcia, e seus titulares são detentores de múnus
governamental derivado diretamente da Constituição. Assim, não se enquadram como
agentes administrativos, estes sim contemplados pela Súmula Vinculante em questão.
Frise-se, todavia, que não se afasta a possibilidade de controle da nomeação para tais
cargos políticos. Em verdade, a jurisprudência da Suprema Corte ressalva casos de
inequívoca falta de razoabilidade diante da manifesta ausência de qualificação técnica
ou inidoneidade moral. Da mesma forma, também configura nepotismo se, no caso
concreto, for verificada troca de favores ou fraude à lei.
Por derradeiro, vale destacar que não cabe reclamação para a aferição de nepotismo em
cargos políticos pelo STF. A análise deve ser feita pela autoridade competente para
verificar a aptidão técnica do agente político, em processo onde sejam garantidos o
contraditório e a ampla defesa, o que não é possível na via da reclamação.

6. O fato de a vítima de ato ilícito perceber algum benefício previdenciário por


incapacidade laboral (auxílio-doença e aposentadoria por invalidez no RGPS ou
licença para tratamento de saúde, licença por acidente em serviço e aposentadoria
por invalidez permanente no RPPS) exclui ou reduz a indenização por danos
materiais através de pensão civil devida pelo causador do dano nos termos do art.
950 do Código Civil em razão do princípio da vedação do enriquecimento sem
causa?
A percepção de benefício previdenciário por incapacidade laboral (auxílio-doença e
aposentadoria por invalidez no RGPS ou licença para tratamento de saúde, licença por
acidente em serviço e aposentadoria por invalidez permanente no RPPS) não exclui e
nem reduz a indenização por danos materiais consubstanciada em pensão civil devida
pelo causador do dano, de acordo com o art. 950 do CC, já que, neste caso, não há
enriquecimento sem causa, pois a reparação civil busca o ressarcimento da lesão
causada pelo evento danoso e não uma mera compensação de ordem econômica. Assim,
o benefício previdenciário é diverso e independente da indenização por danos materiais
do art. 950 do CC, já que ambas têm origem e natureza distintas, sendo a reparação civil
autônoma em relação a qualquer benefício que a vítima receba, seja pelo RGPS, seja
pelo RPPS. Observe-se que o recebimento do benefício previdenciário decorre não
somente do evento causador da incapacidade para o trabalho, mas da própria condição
de segurada e contribuinte da vítima do ocorrido, enquanto que a indenização civil
decorre somente do fato que acarretou a perda da capacidade laboral, sendo irrelevante
constatar-se eventual manutenção da renda da vítima decorrente da percepção de
benefício previdenciário, pois não podia prever o evento que lhe causou o prejuízo. É
por isso que a jurisprudência do STJ asseverou que o pagamento de pensão à vítima de
ilícito civil em razão de diminuição temporária da capacidade laboral é devido, desde a
data do acidente até a convalescença, independentemente da perda do emprego ou da
redução dos seus rendimentos, não se podendo, além disso, extrair da dicção do art. 950
do CC a exigência de que ocorra qualquer um destes fatos (perda de emprego ou
redução de rendimentos) para que fique configurado o direito ao recebimento da pensão.

7. Em sentença de pronúncia, o juiz decreta prisão preventiva do acusado, com


base na garantia da ordem pública, valendo-se, para tanto, de argumentos
referentes à vida pregressa do acusado (reincidência, habitualidade delitiva,
periculosidade). Pergunta-se: há nulidade da sentença de pronúncia, por excesso
de linguagem?
O Tribunal do Júri, garantia constitucional (art. 5º, XXXVIII, CF/88), possui
competência para o processamento e julgamento dos crimes dolosos contra a vida,
sendo assegurada a plenitude da defesa, o sigilo das votações e a soberania dos
veredictos. O CPP, ao dispor sobre a organização do Tribunal do Júri, estabeleceu um
procedimento bifásico. Na 1ª fase cabe ao juiz competente verificar se há prova da
materialidade e indícios suficientes da autoria ou participação (art. 413, CPP). Caso o
juízo sobre esses elementos seja positivo, o magistrado irá proferir uma decisão de
pronúncia, submetendo o réu à 2ª fase do procedimento, que é o julgamento perante o
Conselho de Sentença. Eventual manutenção, revogação, substituição ou decretação de
medidas cautelares ou prisão preventiva também será analisado no bojo dessa decisão,
devendo o magistrado proceder de forma fundamentada (art. 413, § 3º, CPP). Feitas
essas considerações, deve-se ter em mente que a atuação do magistrado na decisão de
pronúncia deve ser comedida, evitando pecar pelo excesso de linguagem. Eventual
excesso poderia influenciar os jurados, que são leigos nas ciências penais, e configuraria
nulidade processual. Recentemente, o STJ entendeu que não houve excesso de
linguagem em decisão de pronuncia em que o juiz se referiu aos maus antecedentes do
acusado para fundamentar a decretação de prisão preventiva com base na ordem
pública.
“Não comete excesso de linguagem o juiz que cita os maus antecedentes do réu ao
fundamentar a sentença de pronúncia — decisão que leva o acusado a júri popular. Esse
foi o entendimento aplicado pela presidente do Superior Tribunal de Justiça, ministra
Laurita Vaz, ao negar liminar em Habeas Corpus em favor de um homem pronunciado
pelo crime de homicídio.

8. Doutrina da situação irregular e Doutrina da proteção integral. Disserte sobre o


tema apontando a evolução histórica e dogmática para o tratamento do direito da
criança e do adolescente.
A primeira legislação a tratar de dispositivos acerca de menores no Brasil foi o chamado
Código de Mello Matos (Decreto 17.943-A), datado de 1927, o qual buscou condensar
discussões e propostas (inclusive no âmbito acadêmico, jurisprudencial, administrativo,
etc) desde o século XIX, apresentadas até então. Este código, embora tenha se
preocupado em diferenciar o tratamento conferido pelo Estado entre os "menores" e os
"maiores", abrangeu apenas o "menor" tido como uma figura perigosa aos moldes
sociais então vigentes, não havendo a preocupação em legislar sobre direitos e garantias,
inclusive daqueles que não se encontrassem abandonados ou "desviados" socialmente.
Privilegiou-se o recolhimento de menores infratores como forma de proteger a
sociedade em detrimento da própria família como parte integrante e necessária ao
desenvolvimento da criança e do adolescente. Surgiam, daí, no Brasil, as bases para a
doutrina da situação irregular.
Após o Código Mello Matos (Consolidação das Leis de Assistência e Proteção a
Menores), com o passar dos anos, embora no plano internacional já começassem a
surgir as bases para a doutrina da proteção integral (Declaração Universal dos Direitos
do Homem - 1948 - Declaração dos Direitos da Criança - 1959 - Pacto de São José da
Costa Rica - 1969 - Regras Mínimas de Beijing - 1985), no Brasil a tendência
legislativa era a consolidação da doutrina da situação irregular, atingindo sua definição
legal mais precisa no art. 2º do Código de Menores (Lei 6.697/79).
Esta doutrina legitimava o uso da definição legal conferida pelo código então vigente
para justificar a segregação social de menores, como a expressão jurídica de um modelo
de apartação social, gerando duas infâncias: (i) a infância escola-família-comunidade e
(ii) a infância trabalho-rua-delito.
A doutrina da proteção integral foi lançar suas bases legislativas no Brasil já
tardiamente, de modo mais específico com a promulgação da Constituição Cidadã de
1988, que, em seus arts. 227 e 228, já estipulava: a absoluta prioridade em assegurar
direitos às crianças e adolescentes (art. 227, "caput" da CRFB/88); promoção de
programas de assistência à saúde (art. 227, §1º, da CRFB/88); proteção especial (art.
227, §3º, da CRFB/88); a punição ao abuso, à violência e à exploração sexual (art. 227,
§4º, da CRFB/88) e; a inimputabilidade aos menores de 18 anos (art. 228 da CRFB/88).
Por fim, o advento do Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA - (Lei 8.069/90)
coroou, inclusive de modo expresso, a doutrina da proteção integral (art. 1º do ECA),
conferindo uma abordagem universal à criança e ao adolescente, não se limitando a
atingir apenas aqueles considerados "desviados socialmente" ou em "situação irregular",
embora, sob o prisma social, haja ainda um enorme déficit de efetividade desta doutrina.

9. O patrocínio de determinado evento cultural ou esportivo por entidade


integrante da Administração Pública indireta (como uma sociedade de economia
mista) exige a prévia realização de procedimento licitatório?
Aduz a Constituição Federal de 1988 que as obras, serviços, compras e alienações serão
contratados pela Administração Pública através de procedimento licitatório,
ressalvando, no entanto, os casos especificados na legislação (CF, art. 37, XXI).
No que diz respeito às empresas públicas e sociedades de economia mista, o Texto
Maior é categórico ao dispor que lei estabelecerá seu estatuto, dispondo sobre a licitação
e contratação, observados os princípios da Administração Pública (CF, art. 173, §1º,
III).
Regulamentando esse dispositivo constitucional, a Lei nº 13.303/16 dispôs
especificamente acerca do tema questionado, expondo que a sociedade de economia
mista poderá celebrar contrato de patrocínio com pessoa física ou jurídica para
promoção de atividade cultural ou esportiva. Para tanto, deverá comprovar a vinculação
ao fortalecimento de sua marca e observar, no que couber, as normas de licitação e
contratação dispostas no aludido estatuto (Lei nº 13.303/16, art. 27, §3º).
Provocado a posicionar-se acerca do assunto, o Supremo Tribunal Federal, em posição
ora majoritária e com a qual concordo, entendeu que esse tipo de contratação não exige
prévio procedimento licitatório.
O fundamento desse posicionamento é o fato de que o contrato de patrocínio não se
caracteriza pela contratação de obra, serviço, compra ou alienação, casos em que a
Constituição exige prévio procedimento licitatório para seleção do melhor contratado.
Dessa forma

10. O despacho que ordena a citação do réu, ainda que proferido por juiz
incompetente, interrompe a prescrição (extintiva) nos termos do art. 202, I, do CC
e art. 240, § 1º, do CPC. Pergunta-se: numa ação possessória o referido despacho
também interromperia a prescrição aquisitiva da propriedade, impedindo a
usucapião do bem do autor pelo réu?
A eficácia interruptiva da prescrição aquisitiva da usucapião com o despacho que
determina a citação em demanda reintegratória proposta pelo antigo proprietário
dependerá do resultado da demanda (secundum eventum litis): sendo julgada procedente
a reintegração, ocorrerá a interrupção obstando a usucapião; sendo julgada
improcedente ou mesmo extinta sem julgamento de mérito, não haverá efeito
interruptivo e a posse exercida pelo réu da reintegratória, durante o processo judicial,
poderá ser computada para fins de usucapião.
Em regra, sim. O disposto no artigo 1.244 determina a aplicação do regime jurídico da
prescrição do devedor (prescrição extintiva, violado o direito nasce a pretensão que se
extingue com a prescrição), à usucapião (prescrição aquisitiva). Assim, o manejo da
ação possessória revela o interesse do autor que se encontra privado de sua posse,
exercida por outrem. Nesta ordem, os despachos acima são hábeis a interromper o curso
do prazo previsto para consumar a usucapião. A leitura do inciso I do artigo 202 do CC
permitiria o entendimento de que a interrupção sempre ocorreria, independentemente do
resultado do processo. Pois, os dispositivos nada dizem acerca do resultado do processo.
Com razão, o autor até então inerte e desidioso manifestou o interesse em buscar o bem.
Nesta ordem de ideias, a interrupção da prescrição seria sempre a regra.
Entretanto, a jurisprudência deu contorno diverso à questão. Os despachos acima
deverão ter por consequência uma decisão que tenha julgado procedente o pedido e
determinado a reintegração do bem ao autor. E a razão é simples. O autor agiu a tempo
e modo adequados para impedir que a posse do réu conduzisse à usucapião. Lembremos
que um dos efeitos da posse é conduzir à usucapião.
A situação em que o despacho citatório não será hábil a interromper a prescrição
aquisitiva ocorre nos casos em que o pedido de reintegração foi julgado improcedente
ou o processo foi extinto sem resolução do mérito. E a razão para este entendimento
revela-se correto. Significa que, a uma, a posse não sofreu abalo em sua situação de
fato. A duas, que não se poderia retirar efeito material em face de uma sentença
terminativa. Afinal, é muito comum demandas possessórias mal aviadas, quando a parte
deveria se valer da ação reivindicatória ou mesmo que a parte não demonstra a posse
injusta.

11. As teorias sobre o poder constituinte surgiram a partir do final do século


XVIII, como reflexo da filosofia iluminista da época (pensamento racionalista
francês), especialmente com o panfleto intitulado “Que é o Terceiro Estado?”,
publicado pelo abade Sieyès nas vésperas da Revolução de 1789. A doutrina
constitucional brasileira traz ampla explicação acerca dos poderes constituintes
existentes no contexto da Constituição Federal de 1988. Diante disso, conceitue
poder constituinte originário, derivado e difuso, apontando suas principais
características.
O Poder Constituinte é aquele capaz de elaborar ou atualizar uma Constituição.
Haverá Poder Constituinte Originário (Inicial, Inaugural, Instituidor, Constituidor,
Primário ou de 1º Grau) se o objetivo for elaborar uma nova Constituição. Ele pode ser
Histórico, se estruturar pela primeira vez o Estado, ou Revolucionário, caso seja
posterior ao Histórico e rompa por completo com a ordem constitucional anterior,
instaurando um novo Estado de Direito. O Poder Constituinte Originário é: a) Inicial,
pois instaura uma nova ordem jurídica, rompendo com a anterior; b) autônomo, pois a
estruturação da nova Constituição será determinada, de modo autônomo, por quem
exercer o Poder Constituinte Originário (em regra, o povo, por meio de seus
representantes), não estando submissa nem ao Direito Natural (ao menos, no Brasil, que
adotou a corrente positivista, em oposição à jusnaturalista); c) juridicamente ilimitado,
pois não é obrigado a respeitar nenhum limite imposto pela ordem constitucional
anterior, sendo o “poder que tudo pode”, com natureza “pré-jurídica”; d)
incondicionado, porque seu exercício não está submetido a nenhuma condição.
Se o objetivo for atualizar um texto constitucional preexistente, mediante a supressão, a
modificação ou o acréscimo de normas constitucionais, haverá Poder Constituinte
Derivado (Instituído, Constituído, Secundário ou de 2º Grau). Trata-se de um poder
constituinte que decorre do Poder Constituinte Originário, sendo juridicamente limitado
e condicionado aos parâmetros a ele impostos pelo Poder Constituinte Originário. Não é
autônomo, pois depende de previsão constitucional.
O Poder Constituinte Derivado pode ser classificado em: a) Reformador, um poder de
fato, político, que é capaz de alterar o texto constitucional por meio de emendas
constitucionais (arts. 59, I, e 60, ambos da CRFB/1988); b) Decorrente, cuja missão é
estruturar os Estados membros, dando-lhes capacidade de auto-organização,
autogoverno e auto-administração, mas encontrando limites nos princípios
constitucionais (organizatórios, sensíveis e extensíveis); c) Revisor, que é um poder
condicionado e limitado às regras instituídas pelo Originário, cuja missão é rever o texto
da Constituição. Sua principal manifestação no Brasil foi a Revisão Constitucional de
1993, prevista no art. 3º do ADCT.
O Poder Constituinte Difuso é aquele que os agentes políticos possuem para promover a
“Mutação Constitucional”, que vem a ser a mudança informal de interpretação dada a
uma norma constitucional, alterando-lhe o significado, com o objetivo de se adequar à
uma nova realidade social, mas sem alterar o texto formal da norma. É exercido de
maneira difusa pelos próprios aplicadores e intérpretes do Texto Magno e deve respeitar
certos limites, tais como os princípios estruturantes do Estado e a impossibilidade de se
subverter a literalidade da norma que não admita interpretações diversas.

12. O protesto extrajudicial de certidão de dívida ativa interrompe a prescrição


tributária?
Consoante entendimento firmado pelo Supremo Tribunal Federal, o protesto das
certidões de dívida ativa constitui mecanismo constitucional e legítimo por não
restringir de forma desproporcional quaisquer direitos fundamentais garantidos aos
contribuintes e, assim, não constituir sanção política. Todavia, conquanto seja válido o
meio de cobrança, seus efeitos não podem ser igualados àqueles ordinariamente
previstos na legislação civilista. Enquanto o protesto cambial de títulos privados
provoca a interrupção do prazo prescricional, nos termos do artigo 202, inciso III do
Código Civil, o mesmo não se pode dizer do protesto de CDA. Nesse tocante, o artigo
146, inciso II da CRFB/88 entregou à lei complementar tributária a tarefa de disciplinar
matéria de prescrição, causa extintiva do crédito tributário (artigo 156, inciso VI do
CTN).Destarte, em atendimento à ordem constitucional, o artigo 174 trouxe as quatro
únicas hipóteses interruptivas do prazo prescricional, dentre as quais figura somente o
“protesto judicial” (art. 174, parágrafo único, inciso II, CTN), processo cautelar
específico, com participação do Poder Judiciário, distinto, portanto, do mero protesto
cambial, procedimento unilateralmente promovido pela Fazenda Pública. Não há
dúvidas sobre a legitimidade emprestada ao protesto cambial de CDA. Entretanto, se
busca a Fazenda obstar a fluência do prazo prescricional, deve ser feita através de ação
judicial de protesto. Sendo assim, a prescrição e a decadência tributárias são matérias
reservadas à lei complementar. Desse modo, o protesto extrajudicial não tem o condão
de interromper a prescrição do crédito tributário por ausência de previsão legal,
bastando a simples leitura do artigo 174 do CTN para se chegar a essa conclusão.

13. O art. 331, do Código Penal tipifica o crime de desacato ao prever a pena de
detenção de seis meses a dois anos, ou multa para aquele que desacatar funcionário
público no exercício da função ou em razão dela. Diante deste tipo penal, explique
a constitucionalidade do dispositivo frente à Constituição Federal de 1988 e à
Convenção Americana sobre Direitos Humanos (convencionalidade), citando a
atual jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça sobre a temática.
O crime de desacato, tal como descrito no tipo penal previsto no art. 331 do Código
Penal, não apresenta qualquer incompatibilidade com o texto constitucional, nem
tampouco com a Convenção Americana sobre Direitos Humanos, tratado internacional
ratificado pelo Brasil e alçado à norma de caráter supralegal em virtude da matéria nele
tratada.
É que, inobstante tenha sido inicialmente reconhecida a incompatibilidade desse crime
com o referido Pacto - ao argumento, à época, de lesão ao direito fundamental de
expressão -, em um julgado recente, a 3ª Sessão do STJ reconheceu que o direito de
expressão, como qualquer outro direito fundamental, não é absoluto. Sublinhou-se,
ainda, na decisão, que não existe pronunciamento de caráter vinculante da Corte
Interamericana de Direitos Humanos em sentido contrário, havendo tão somente
recomendação da Comissão Interamericana que, como antes ressaltado, não vincula os
estados signatários do pacto com respeito ao crime de desacato.
Por fim, merece destaque o fato de que a norma usada como parâmetro para o controle
de convencionalidade no caso, isto é, o art. 13 do Pacto de São José, prevê apenas
mecanismos genéricos de defesa do direito de expressão. Deve-se levar em conta que
em casos como esse, no qual é examinada a compatibilidade entre normas que veiculam
princípios e não apenas regras (art. 13 do Pacto de um lado, e art. 331 do código penal,
de outro), exige-se uma ponderação de interesses, de modo que a liberdade de
pensamento seja plenamente compatibilizada com o interesse público que emana da
necessidade de que os funcionários públicos possam desempenhar livremente o seu
múnus, o qual, justamente por veicular um interesse coletivo superior ao interesse
particular, merece tutela específica por parte do direito penal.
Vale dizer, em última análise, o objetivo da norma penal ao tutelar o bem jurídico
"prestígio da Administração" é permitir que os agentes públicos exerçam suas funções
de maneira livre, ou seja, sem constrangimentos capazes de intimidá-los. Essa é a razão
pela qual se pune a conduta tipificada no art. 331 do código penal, sem que haja, vale
repisar, qualquer incompatibilidade com o texto constitucional e o Pacto de São José da
Costa Rica.

14. O réu tem direito subjetivo a interrogatório no segundo grau de jurisdição, se


assim desejar?
O art. 616 do CPP prevê a possibilidade de órgãos do segundo grau de jurisdição
(tribunal, câmara ou turma) realizarem novos atos de instrução, dentre os quais,
proceder a novo interrogatório do acusado. Trata-se de prerrogativa dada aos julgadores
de segunda instância para privilegiar o princípio do livro convencimento do juiz:
havendo dúvidas sobre o caso sob o julgamento, nada impede que o julgador de
segundo grau tome contato direto com os meios de prova, não se limitando à análise
indireta daquelas que foram produzidas durante a instrução realizada no juízo de piso.
Não obstante o interrogatório seja reconhecido pela doutrina e pela jurisprudência como
meio de defesa do acusado (o direito de audiência é um desdobramento do direito à
ampla defesa), a realização de novo interrogatório no segundo grau de jurisdição não
constitui um direito subjetivo do réu, conforme entendem o STF e o STJ.
Como denota a redação do art. 616 do CPP ("poderá"), a realização de novo
interrogatório em segundo grau é uma faculdade do órgão julgador, sendo que o
indeferimento de pedido nesse sentido não acarreta nulidade do processo, desde que esta
decisão seja devidamente fundamentada. Isso porque o pedido de realização de nova
instrução processual no segundo grau de jurisdição é impróprio, tratando-se medida
excepcional que subverte o andamento da marcha processual.
Vale ressaltar que é possível que o réu tenha direito subjetivo a interrogatório em órgãos
colegiados. Esta hipótese ocorre no caso de ações penais originárias, motivo pelo qual
não se trata propriamente de segundo grau de jurisdição, mas sim de primeiro ou único
grau de jurisdição.

15. As Leis 8.112/90, 8.213/91 e 10.820/03 estabelecem uma margem consignável


como garantia para empréstimos bancários que permite o desconto em folha de até
35% da remuneração, salário, aposentadoria ou pensão de empregados celetistas,
servidores federais civis, aposentados e pensionistas do RGPS, sendo 5% (cinco
por cento) destinados exclusivamente para amortização de despesas ou saque por
meio do cartão de crédito. Já a MP 2.215-10/01 (em vigor por força do art. 2º da
EC 32/01) estipula a margem de até 70% para a remuneração e proventos de
militares. Diferencie (se é que existe alguma diferença) o instituto do empréstimo
consignado da garantia de impenhorabilidade de vencimentos, subsídios, soldos,
salários, remunerações, proventos de aposentadoria e pensões estabelecida pelo
CPC. Aborde o posicionamento prevalente nos tribunais superiores.
A garantia da impenhorabilidade de vencimentos, subsídios, soldos, salários,
remunerações, proventos de aposentadorias e pensões é instituto previsto no art. 833,
IV, do CPC e, em regra, sob hipótese nenhuma, ressalvadas as exceções legais (art. 833,
§2º, do CPC; art. 14, §3º, da Lei 4.717/65), responderão pela satisfação de dívida, dado
se tratar de verbas de natureza alimentar, de tal modo que a penhora e eventual
expropriação significariam uma invasão indevida em direitos mínimos da dignidade do
executado.
Claro está que a jurisprudência do STJ flexibiliza tal impenhorabilidade, já há algum
tempo, especialmente quando a medida não puser em risco a subsistência do devedor
e/ou de sua família, embora o próprio art. 833, §2º, do CPC preveja que o art. 833, IV,
do CPC não se aplica às importâncias excedentes a 50 salários mínimos mensais.
Já o empréstimo consignado é uma modalidade de concessão de crédito com pagamento
indireto, o qual será liquidado com o desconto de uma determinada quantia na folha de
pagamento mensal de empregados celetistas, servidores federais civis e militares,
aposentados e pensionistas do RGPS.
Assim, tendo em vista as definições ora apresentadas, questiona-se se eventuais
descontos em folha de pagamento, a título de pagamento de empréstimo consignado,
violam a impenhorabilidade de salários e demais rendimentos do art. 833, IV, do CPC,
já que são institutos distintos, porém, de certa forma, correlacionados.
A jurisprudência do Tribunal da Cidadania entende que nos contratos bancários, desde
que expressamente avençado, é possível o desconto no valor máximo estabelecido na
legislação (neste caso de até 35% para servidores civis ativos ou inativos, pensionistas e
celetistas, e 70% para militares ativos ou inativos) das verbas salariais recebidas pelo
contratante pelo pagamento de empréstimo por consignação.
Diversamente, a penhora sobre proventos e salários do devedor, que estão sujeitos à
impenhorabilidade absoluta do art. 833, IV, do CPC, só pode ceder vez, a princípio,
para a satisfação do crédito alimentar (art. 833, §2º, do CPC). Poder-se-ia alegar que se
uma instituição financeira pode se valer de parcela do salário do devedor para a
satisfação de seu crédito (empréstimo consignado), com mais razão o Estado poderia
determinar medida executiva a fim de satisfazer crédito decorrente de título executivo
judicial. Entretanto, no caso do crédito consignado, o desconto decorre de um ato de
vontade do devedor, o qual anui expressamente com os descontos ao contrair o
empréstimo.
Já a penhora de salário e demais rendimentos do art. 833, IV, do CPC decorre de ato
estatal impositivo, o qual independe da vontade do devedor, de modo que a medida
executiva apenas não encontrará óbice, no caso concreto, se o devedor estiver de acordo
com os descontos.
Por fim, é interessante aduzir que a jurisprudência do STJ diferencia a consignação em
folha de pagamento e a impenhorabilidade de salários e demais rendimentos do art. 833,
IV, do CPC de descontos originados de débitos autorizados em conta corrente, não
sendo razoável e inexistindo sustentáculo legal na adoção dos limites estipulados para o
empréstimo consignado e para a garantia da impenhorabilidade do art. 833, IV, do CPC
em relação aos valores depositados em conta corrente destinados ao pagamento de
prestações de mútuo firmado com determinada instituição financeira.

16. Imagine a seguinte situação:


Beltrano ocupou o cargo de Desembargador junto ao Tribunal de Justiça de um
Estado da Federação, tendo alcançado a idade limite e, assim, obtido a
aposentadoria compulsória prevista no art. 40, § 1º, inciso II, da Constituição
Federal. Algum tempo após o jubilamento, Beltrano foi nomeado para exercer o
cargo de Consultor-Geral da União, assumindo o elevado mister na estrutura da
Administração Pública federal.
Nesse cenário, indaga-se: (a) Atualmente, qual a idade limite de permanência de
Beltrano no cargo efetivo de Desembargador? (b) É lícito que Beltrano, na
qualidade de magistrado aposentado compulsoriamente, venha a assumir o
referido cargo em comissão?
Atualmente, a idade limite para permanência em cargo de Desembargador é 75 anos,
conforme art. 40, §1o, inc. II, alínea "a" da CRFB, com redação dada pela EC 88/15, c/c
art. 2º, inc. II da LC 152/15. Ademais, é lícito que Beltrano, na qualidade de magistrado
aposentado compulsoriamente, venha a assumir o referido cargo em comissão.
Em primeiro lugar, deve-se afirmar que, antes da EC 88/15, a aposentadoria
compulsória de todos os servidores públicos, aí incluídos os membros do Poder
Judiciário, se dava aos 70 anos. Não obstante, por questões políticas, foi editada a EC
88/15, a qual alterou o art. 40, §1o, alínea "a" da CRFB, aumentando a idade limite para
75 anos em tais casos, de acordo com lei complementar, bem como inseriu o art. 100 ao
ADCT, que determinou a aplicação da nova idade desde logo à aposentadoria
compulsória dos Ministros do STF, dos Tribunais Superiores e do TCU. Posteriormente,
foi editada a LC 152/15, que regulamentou o referido art. 40 e tornou aplicável a nova
idade aos demais membros do Poder Judiciário, dentre outros. Assim é que, atualmente,
a idade limite de permanência de Beltrano no cargo é de 75 anos.
Além disso, o STF decidiu recentemente, em repercussão geral, pela possibilidade de
aposentados em cargos efetivos ocuparem cargos em comissão, uma vez que a
aposentadoria compulsória não se aplica aos ocupantes de cargos comissionados. Tais
cargos são aqueles declarados em lei como de livre nomeação e exoneração (art. 37, inc.
II da CRFB) e, portanto, não trazem um vínculo definitivo entre o agente e a
Administração Pública, de maneira que podem ser ocupados por aqueles que já
passaram da idade limite para a aposentadoria compulsória. Dessa forma, no caso
concreto, não há qualquer óbice a que Beltrano venha a assumir o cargo de Consultor-
Geral da União.

17. Contrabando legislativo. Cite exemplos e os argumentos que fazem de tal


fenômeno incompatível com a Constituição de 1988.
O contrabando legislativo é caracterizado pela prática de inserir, por meio de emenda
parlamentar, matéria estranha ao conteúdo da medida provisória em apreciação ou na
sua lei de conversão, ou seja, é um mecanismo de burla ao processo legislativo
constitucional, por esconder um comando normativo em legislação com conteúdo
diverso, evitando-se debates e análises sobre dele.
É incompatível com a Constituição a apresentação de emendas sem relação de
pertinência temática com medida provisória ou projeto de lei submetido à sua
apreciação. Assim, como essa emenda versa sobre assunto diverso do que é tratado na
medida provisória ou no projeto, deve-se considerá-lo inconstitucional.
O uso de medidas provisórias, por exemplo, se dá por motivos de urgência e relevância
da matéria, cuja análise compete ao chefe do Poder Executivo. Toda e qualquer emenda
parlamentar em projeto de conversão de medida provisória em lei deve ficar restrita ao
tema definido como urgente e relevante.
Dessa forma, é até possível emenda parlamentar ao projeto de conversão da MP, no
entanto, deverá ser observada a devida pertinência lógico-temática. Essa foi a conclusão
do STF ao julgar a ADI 5127/DF proposta contra o art. 76 da Lei nº 12.249/2010,
inserido mediante emenda parlamentar em projeto de conversão de medida provisória
em lei, e que tratava sobre assunto diferente daquele veiculado no texto da MP.
Como já mencionado o contrabando legislativo é o mecanismo de inclusão de emendas
durante o processo legislativo, tanto de projetos de lei, quanto de medidas provisórias,
sem que o conteúdo da emenda tenha pertinência temática com a proposta originária.
Tal fenômeno é incompatível com a CF/88, pelos seguintes fundamentos:
1. A aplicação do princípio da separação dos poderes no processo legislativo revela-se
importante à medida que cada poder constituído possui funções específicas no
procedimento de construção de normas jurídicas. As fases do processo legislativo –
propositura, votação, aprovação, etc., acompanhada das modalidades específicas de
legislação (MP, LO, LC) – representam freios e contrapesos do sistema que são
balizados de acordo com a relevância da norma para a sociedade. Questões que são
relevantes e urgentes e justificam uma medida provisória de propositura do Executivo
não podem sofrer a inclusão de matérias, via emenda parlamentar, que demandam
amadurecimento no Congresso, o que deve ser feito por meio do procedimento
ordinário.
2. A inclusão de matérias estranhas aos requisitos de propositura das medidas
provisórias externa o privilégio que o processo de deliberação das medidas provisórias
gera em relação ao trâmite de matérias que seriam objeto de processo legislativo
comum. Em outras palavras, matérias que mereceriam um amplo debate na casa
legislativa, com fomento do princípio democrático, são votadas no rito mais breve e,
muitas vezes, aprovadas sem que haja o amadurecimento da temática. Além disso, o
contrabando legislativo pode influenciar no processo de deliberação das medidas
provisórias no Congresso Nacional, pois pode vir a ferir a competência material para
proposição, com a inclusão de matérias estranhas ao projeto de lei inicial.
3. Essa prática viola a garantia do Devido Processo Legislativo, direito difuso que
confere legitimidade à ordem jurídica. Para além da tramitação formal, a dimensão
substantiva da due process of law impõe que o processo legal seja justo e adequado, o
que deve ser preservado já na fase de produção das leis.”
Diante de todos estes argumentos, a aprovação de contrabandos legislativos gera
insegurança jurídica, pois a patente inconstitucionalidade já declarada pelo Supremo
Tribunal Federal impõe a declaração de inconstitucionalidade, com efeito ex tunc da
norma, tornando-a inválida no ordenamento.

18. A fixação de multa por descumprimento de ordem judicial, como forma


indireta de coerção, nos moldes do art. 537 do CPC, está sujeita à limitação de
valor?
O art. 537 do CPC estatui que a “multa independe de requerimento da parte e poderá ser
aplicada na fase de conhecimento, em tutela provisória ou na sentença, ou na fase de
execução, desde que seja suficiente e compatível com a obrigação e que se determine
prazo razoável para cumprimento do preceito. Já o seu § 1º afirma que juiz poderá, de
ofício ou a requerimento, modificar o valor ou a periodicidade da multa vincenda ou
excluí-la, caso verifique que: I – se tornou insuficiente ou excessiva; II – o obrigado
demonstrou cumprimento parcial superveniente da obrigação ou justa causa para o
descumprimento.
Essa multa coercitiva pode ser aplicada pelo magistrado como uma forma de pressionar
o devedor a cumprir uma decisão interlocutória que concedeu tutela provisória ou uma
sentença que julgou procedente o pedido do autor.
O Superior Tribunal de Justiça tem entendido ser possível a sua redução, sem importar
em ofensa à coisa julgada, quando se verificar que foi estabelecida fora dos parâmetros
da razoabilidade, podendo gerar enriquecimento indevido. Afirma a Corte que o valor
da astreinte deve encontrar limitação na razoabilidade e proporcionalidade, porque o seu
objetivo é o cumprimento do decisum e não o enriquecimento da parte. Em síntese, a
multa imposta pelo Juízo, com vencimento diário, para prevenir o descumprimento de
determinação judicial (astreintes), deve ser reduzida, se verificada discrepância
injustificável entre o patamar estabelecido e o montante da obrigação principal.
Ademais, não há, no ordenamento jurídico brasileiro, limite pré-estabelecido à fixação
das "astreintes". Isso, porém, não significa que a referida multa não esteja sujeita à
limitação. É dizer: o fato de inexistir valor pré-fixado não conduz à conclusão (que seria
equivocada) de que estaria o juiz livre para fixar a multa em qualquer valor e/ou
periodicidade.
Ao fixá-la, não está o magistrado alheio aos postulados da proporcionalidade e da
razoabilidade. Muito pelo contrário: a efetividade e a exequibilidade da multa estão
condicionadas à observância dos postulados citados.
Por este motivo é que o STJ tem admitido a sua (re)adequação, de ofício ou a
requerimento, mesmo após o transito em julgado da decisão que a fixa. Entende a Corte
Cidadã que esta decisão não faz coisa julgada material, estando aberta, pois, a
modificações notadamente quando proporcionar ao seu credor indevido enriquecimento.
Além dos postulados da proporcionalidade e da razoabilidade, o princípio da boa-fé
objetiva também funciona como termômetro de fixação e/ou alteração da multa
aplicada. Não só a parte contra a qual a multa é fixada tem o dever de demonstrar o
esforço no seu cumprimento, como também o seu credor deve fazer o possível para
evitar a maximização de suas perdas ("duty to mitigate the loss").
Assim, verificando-se no curso do processo que o comportamento das partes está
consonante ou destoante àquele exigido pela boa-fé, deve o juiz, em cada caso,
redimensionar a multa antes aplicada (para menos ou para mais). Atualmente, o STJ, à
luz dos fundamentos supracitados, tem esposado o entendimento segundo o qual estaria
a referida multa adstrita ao proveito econômico principal pretendido pelo demandante,
não podendo superá-lo.

19. Em demanda judicial, determinou-se à União e ao Estado do Rio de Janeiro,


em antecipação de tutela, o fornecimento de determinado fármaco ao autor, João
de Deus, que padecia de certo tipo de câncer, em estágio avançado.
Não se cumpriu a ordem judicial no prazo fixado pelo magistrado, a despeito de
insistentes determinações judiciais, inclusive com a majoração do valor das
astreintes. João, antes que sobreviesse a sentença, veio a óbito.
Inconformada com a perda do marido, Maria das Dores ingressa, então, com ação
de rito ordinário em desfavor da União e do Estado do Rio de Janeiro, com pedido
de indenização a título de danos morais.
Realizada prova pericial, o expert concluiu que: (a) a causa da morte foi o câncer
de que João padecia, o qual já estava em estágio avançado antes mesmo do início
daquela demanda judicial por ele movida; (b) o fármaco que se postulava não
significaria nenhuma garantia de que o problema de saúde fosse contornado e que
João se recuperaria; (c) caso tivesse sido ministrado, haveria uma possibilidade de
que prolongasse a vida do paciente por mais alguns meses ou até mesmo resultasse
na sua recuperação, embora esta última hipótese fosse bastante improvável, já que,
em casos avançados como o de João, menos de 1% das vezes o medicamento seria
capaz de promover a efetiva reabilitação do paciente.
Considerada a situação fática narrada, indaga-se: há dano moral a ser indenizado
pelas rés?
Conforme doutrina e jurisprudência, há dano moral em caso de violação aos direitos de
personalidade e/ou aos direitos fundamentais, garantidos tanto pela Constituição (v.g.
arts. 5º, 6º, 225, entre outros) como pela lei civil (arts. 11 a 21 CC).
Como direitos fundamentais de primeira grandeza, destacam-se o direito à vida (art. 5º,
caput) e o direito à saúde (art. 196) esse último, aliás, dever do Estado, além de um
direito de todos os cidadãos. Nítida, portanto, a ocorrência de dano moral, uma vez que
João de Deus teve seu direito à vida e à saúde abreviados em virtude da omissão do
Estado em fornecer o fármaco. O fato de não haver garantia da plena recuperação do
paciente, ou de que sua sobrevida seria de apenas alguns meses - conforme conclusões
do laudo pericial - em nada modificam a presença do dano, pois o direito à vida, à saúde
e à integridade psicofísica de João, ainda que em condições precárias em virtude do
estágio avançado de seu câncer, foram violados pela inércia dos entes estatais.
Trata-se, aqui, da aplicação da denominada 'teoria da perda de uma chance', já
reconhecida no âmbito do C. STJ inclusive no que tange ao dano moral. De fato,
considerados os critérios tradicionais ensejadores da responsabilidade civil
extracontratual (CC, art. 927 c.c. 186), a saber, dano, ação/omissão culposa e nexo de
causalidade, tem-se que a morte de João decorreu, diretamente, do câncer que o
acometia, o que a princípio isentaria os entes estatais, justamente pela falta desse último
requisito. No entanto, pela teoria em comento, em sua vertente que visa indenizar a
perda da chance de se evitar um prejuízo (que difere de seu outro viés, aquele em que se
busca indenização pela perda da chance de obtenção de uma vantagem futura), resta
clara a responsabilidade da União e do Estado do Rio de Janeiro, ante a omissão no
fornecimento do fármaco, que poderia dar meses de sobrevida ao paciente, ou até
mesmo curá-lo - em que pese a chance estatística de menos de 1%. Isso porque,
especialmente na seara de tratamentos médicos, não existem certezas científicas 100%
seguras, aferíveis de modo absoluto, pois cada organismo reage de modo diferente às
interações medicamentosas.
Assim, sem o fornecimento do fármaco, João perdeu a chance de evitar um prejuízo,
perdeu a oportunidade, ainda que remota, de cura, e, definitivamente, perdeu a
possibilidade de sobreviver por mais algum tempo, o que por si só já gera o dano moral.
Oportuno consignar que, em se tratando de responsabilidade do Estado por omissão, a
jurisprudência do STJ entende ser ela subjetiva, devendo haver demonstração de culpa
(diferentemente dos casos de responsabilidade por ato comissivo, quando a
responsabilidade é objetiva, nos termos do art. 37, § 6º da CF). A culpa está presente no
caso, pois demonstrada a inércia dos entes estatais no fornecimento do fármaco,
deixando, inclusive, de cumprir diversas ordens judiciais.

20. Desde quando se conta o prazo prescricional da pretensão da ação de repetição


de indébito tributário do imposto de renda pessoa física retido na fonte?
O imposto de renda de pessoa física (IRPF) é tributo de competência da União (art. 153,
III, CF/88). Trata-se de imposto com fato gerador complexivo, ou seja, que apenas é
considerado consumado após o transcurso de um lapso temporal. Desse modo,
considera-se ocorrido o fato gerador do IRPF no último dia do ano-base. O lançamento
desse tributo é realizado por homologação, cabendo ao sujeito passivo antecipar o
pagamento da quantia devida (art. 150, parágrafo 4º, CTN).
Uma das técnicas de cobrança desse tributo é a atribuição da condição de responsável
tributário à fonte pagadora, devendo esta proceder à retenção na fonte da quantia devida
(art. 45, parágrafo único, CTN). Nesses casos, a definição do termo inicial do prazo
prescricional para a ação de repetição de indébito deve levar em consideração a
sistemática dessa espécie tributária e o regramento do CTN. Nos termos do art. 168, I,
CTN, o sujeito passivo tem o prazo de 5 anos para pleitear a repetição do indébito a
partir da extinção do crédito tributário. Como o IRPF é sujeito a lançamento por
homologação, deve-se recordar da LC 118/05, que estabelece que, para fins do art. 168,
I, CTN, o prazo de 5 anos deve ser contado a partir do pagamento antecipado a que se
refere o art. 150, parágrafo 4º, CTN.
Ocorre que a jurisprudência do STJ entende que as retenções realizadas ao longo do
ano-base são meras antecipações do tributo, não correspondendo ao pagamento do art.
150, parágrafo 4º, CTN. Desse modo, o termo inicial do prazo prescricional da
pretensão de repetição de indébito dessas quantias seria o pagamento realizado após a
declaração anual de ajuste do IPRF, quando será averiguado se há saldo a ser pago ou
restituído. Apenas nesse momento é que o sujeito passivo saberá se há ou não indébito.
Trata-se de aplicação do Princípio da Actio Nata, pois a prescrição só pode correr
quando o indivíduo tiver ação para ajuizar.
Contudo, é preciso deixar claro que há situações em que o recolhimento do tributo
ocorre exclusivamente através da retenção na fonte, não havendo possibilidade de
recálculo, compensação ou abatimento na declaração de ajuste anual. Nesses casos, o
termo inicial será a data da própria retenção na fonte, visto se tratar de tributação
definitiva.
Assim, o termo inicial da repetição do indébito tributário dependerá da natureza da
retenção ocorrida: se sujeita a ajuste anual, a prescrição se iniciará no fim do prazo da
declaração de ajuste anual no último dia útil de abril no ano-calendário subsequente; se
objeto de tributação exclusiva/definitiva na fonte, a prescrição se iniciará na data da
própria retenção na fonte.

21. As empresas públicas prestadoras de serviços públicos submetem-se ao regime


de precatórios para o pagamento de dívidas decorrentes de decisão judicial?
A organização da administração pública compreende a administração direta, composta
pelos entes federados, e a administração indireta. Quanto a essa, inserem-se em seu rol
as empresas estatais, subdivididas em empresas públicas e sociedades de economia
mista. As empresas públicas são criadas mediante autorização legislativa, possuem
capital público e natureza jurídica de direito privado. Podem ser criadas para execução
de serviço público ou desempenho de atividade econômica.
Quando exploram atividade econômica, as empresas públicas sujeitam-se, quase que
integralmente, ao regime do setor privado.
Já quando desempenham serviço público, podem fazer jus a algumas prerrogativas que
não são extensíveis às empresas privadas.
O art. 100 da CF dispõe que os pagamentos devidos pela Fazenda Pública serão
efetivados através do regime de precatórios. A jurisprudência e a doutrina tradicional
conceituam Fazenda Pública como: União, Estados, DF, Municípios, autarquias e
fundações. O gênero autarquia, por sua vez, compreende também as espécies: agências
executivas, agências reguladoras e autarquias multifederativas.
A jurisprudência do STF é no sentido da aplicabilidade do regime de precatório às
sociedades de economia mista prestadoras de serviço público de atuação própria do
Estado e de natureza não concorrencial.
Para o Supremo Tribunal Federal, portanto, apenas a sociedade de economia mista
prestadora de serviço público primário e em regime de exclusividade, o qual
corresponde à própria atuação do estado, haja vista não possuir finalidade à obtenção de
lucro e deter capital social majoritariamente estatal, faz jus ao processamento da
execução por meio de precatório.
O Superior Tribunal de Justiça, no mesmo sentido, já decidiu que "não é o simples fato
de a empresa pública contemplar, dentre suas atividades, a prestação de serviço público
que lhe garante, por si só, o tratamento dado à Fazenda. Tal equiparação pode ocorrer
quando a estatal presta serviço exclusivamente público, que não possa ser exercido em
regime de concorrência com os empreendedores privados".
Portanto, em caso de serviço público não exclusivo do Estado, ou seja, passível de
delegação (e em regime concorrencial), entendeu a Suprema Corte pela impossibilidade
de estender o regime da Fazenda Pública às empresas públicas que também prestam o
mesmo serviço. Do contrário, haveria quebra da livre concorrência e tratamento
favorecido.
Por outro lado, e de forma excepcional, com relação às empresas públicas que prestam
serviço público em caráter não concorrencial, ou seja, serviços exclusivos do Estado, o
STF reconheceu ser possível a submissão do pagamento de seus débitos ao regime dos
precatórios.

22. É possível execução antecipada de pena restritiva de direitos?


Não é possível a execução da pena restritiva de direitos antes do trânsito em julgado da
condenação. Esse entendimento fica ainda mais consolidado diante da mudança de
cenário ocasionada pelo julgamento, em novembro de 2019, das ADCs 43, 44 e 54 pelo
STF quanto à execução provisória de PPL, que retornou ao seu antigo entendimento,
afirmando que o cumprimento da pena somente pode ter início com o esgotamento de
todos os recursos. Assim, é proibida a execução provisória da pena. Vale ressaltar que é
possível que o réu seja preso antes do trânsito em julgado (antes do esgotamento de
todos os recursos), no entanto, para isso, é necessário que seja proferida uma decisão
judicial individualmente fundamentada, na qual o magistrado demonstre que estão
presentes os requisitos para a prisão preventiva previstos no art. 312 do CPP. Dessa
forma, o réu até pode ficar preso antes do trânsito em julgado, mas cautelarmente
(preventivamente), e não como execução provisória da pena.
Quanto às penas restritivas de direito, desde 2009, o STF já se manifestava
expressamente a respeito da impossibilidade da execução das reprimendas restritivas de
direitos antes do trânsito em julgado, por força da norma prevista no art. 147 da LEP,
pelo que se mantém vedada a execução antecipada das referidas penas.

23. A teoria da causa madura prevista para a apelação também se aplica ao


julgamento de recurso ordinário em mandado de segurança no CPC/15? Qual a
posição dos tribunais superiores no CPC/73?
Por expressa disposição legal do art. 1.027, § 2º, do CPC/15, a teoria da causa madura
prevista para a apelação no art. 1.013, § 3º, do CPC/15 também se aplica ao julgamento
de recurso ordinário constitucional. Diferentemente, no revogado CPC/73, a
jurisprudência dos tribunais superiores entendia como incabível a aplicação da teoria da
causa madura ao recurso ordinário, sob pena de supressão de instância e usurpação da
competência constitucional originária de um tribunal pela competência recursal de outro
tribunal. Ainda não há precedente dos tribunais superiores pela inconstitucionalidade da
norma, devendo-se entender como válido o art. 1.027, § 2º, do CPC pelo princípio da
presunção de legitimidade ou constitucionalidade das leis.
A chamada teoria da causa madura tem previsão expressa no art. 1.013, § 3º do CPC/15.
Com efeito, tal teoria estabelece que os Tribunais - sempre que o processo a eles
submetido estiver em condições de imediato julgamento - deverão decidir desde logo o
mérito. Isto é, sempre que o desfecho do recurso acarretar a reforma de sentença julgada
sem resolução do mérito (art. 485), a declaração de nulidade de sentença que não se
ateve aos limites do pedido ou da causa de pedir, a constatação da omissão no exame de
um dos pedidos ou a declaração de nulidade por insuficiência de fundamentação, os
Tribunais não poderão devolver o processo para o juízo de primeiro grau, devendo
julgar a questão de mérito. Como é possível perceber, a teoria está alinhada às normas
fundamentais do NCPC, sobretudo ao denominado "princípio da primazia da decisão de
mérito", pois privilegia aquela decisão que efetivamente dá um resultado à pretensão
veiculada no processo. Trata-se de uma busca pela solução do problema em detrimento
de formalidades cujo cumprimento - além de pouco úteis, pois após nova apreciação
pelo juízo de primeiro grau, o Tribunal teria que reapreciar o processo em sede de
recurso -, causam excessiva demora à parte que tem o direito (em violação ao princípio
constitucional da duração razoável do processo).
É pacífica nos Tribunais a possibilidade de estender a aplicação do 1.013, § 3º para o
agravo de instrumento. Essa mesma solução deverá ser aplicada em relação ao Recurso
ordinário em mandado de segurança (quando cabível, vide incisos do art. 1027, CPC).
Nesse caso, a solução é ainda mais evidente, pois o próprio art. 1.027, § 2º, é expresso
quanto à necessidade de aplicar ao recurso ordinário o disposto no art. 1013, § 3º.
Sob a égide do CPC/73, o tratamento legal à "teoria da causa madura" era mais
restritivo. De acordo com o art. 515, §3 º do CPC/73, nos casos de extinção do processo
sem julgamento do mérito (portanto, apenas no caso previsto no art. 1013, § 3º, I,
CPC/15), o Tribunal "poderia" (ao contrário do CPC/15, que estabelece um dever, aqui
se trata de uma faculdade outorgada aos Tribunais) julgar desde logo a lide, desde que a
causa versasse sobre questão exclusivamente de direito (novamente, trata-se de
limitação inexistente no CPC/15) e estivesse em condições de imediato julgamento.
Diante do referido dispositivo legal, o tema era absolutamente controverso, sobretudo
em relação ao recurso ordinário em mandado de segurança. Isso porque, em que pese
decisões isoladas em sentido contrário (as quais contavam com maciço apoio da
doutrina), a maioria dos julgados do STF e STJ entendia que a teoria da causa madura
somente seria aplicável quando o Tribunal estivesse diante de apelação.
Portanto, como é possível perceber, há evidente mudança legal que deverá ser
acompanhada de mudança jurisprudencial, pois o Novo Código de Processo Civil, ao
contrário do anterior, admite expressamente a aplicação da teoria da causa madura ao
julgamento de Recurso Ordinária proferido em Mandado de Segurança.

24. Conceituando o instituto nacionalidade, explique suas modalidades de


aquisição e o que seria a proteção diplomática. O candidato deve exemplificar sua
resposta com um caso concreto julgado no âmbito internacional.
A nacionalidade é um vínculo jurídico-político que liga um indivíduo a um Estado. O
direito à nacionalidade tem previsão constitucional e status de direito fundamental. No
plano do Direito internacional, a vedação à apatridia é assegurada por convenção
internacional da qual o Brasil é signatário. Em sentido contrário, a CF/88 não veda a
figura da polipatridia, conforme se depreende do seu art. 12, § 4º, II.
Há basicamente dois tipos de nacionalidade. De um lado, a chamada nacionalidade
originária (ou primária) tem previsão no inciso I do art. 12 da CF/88. Trata-se de
modalidade que se diferencia por ser imposta de maneira unilateral pelo Estado,
independentemente da vontade do indivíduo, no momento do seu nascimento. Cada
Estado é livre para adotar o critério que melhor lhe convier, subsistindo basicamente
dois: o "jus solis" (nacionalidade atribuída por um critério territorial: ter nascido no
território do Estado) e "jus sanguinis" (nacionalidade decorre de um critério hereditário:
ser filho de nacionais do Estado). Na CF/88 houve a adoção de ambos os critérios. Daí
que são brasileiros natos tanto aqueles nascidos no Brasil, ainda que de pais estrangeiros
(desde que estes não estejam a serviço de seu país), quanto aqueles nascidos no
estrangeiro, de pai ou mãe brasileira (nesse caso, abrem-se três possibilidades: o
familiar brasileiro deve estar a serviço do Brasil; o filho deverá ser registrado em
repartição brasileira competente; o filho venha residir no Brasil e opte, em qualquer
tempo, depois de atingida a maioridade, pela nacionalidade brasileira).
De outro, a nacionalidade derivada (ou secundária) é aquela adquirida por vontade
própria, após o nascimento. A forma mais comum é a naturalização, que poderá ser
requerida tanto por estrangeiros quanto por apátridas. Essa nacionalidade derivada tem
previsão no art. 12, II, da CF/88, subdividindo-se basicamente em duas: ordinária (a
concessão da naturalização é ato discricionário do Estado, não havendo direito subjetivo
ao indivíduo mesmo que cumpra os requisitos) e extraordinária (há direito público
subjetivo à naturalização, sendo prevista no art. 12, II, b, CF/88).
O tema da nacionalidade guarda íntima relação com a chamada "PROTEÇÃO
DIPLOMÁTICA", a qual consiste na prerrogativa de um Estado de chamar para si a
defesa dos interesses de um dos seus nacionais, quando violados por ato de outro
Estado. Há alguns requisitos para tanto: a um, é preciso que haja um vínculo nacional; a
dois, é preciso que tenha havido o esgotamento das vias internas e ordinárias de
resolução do problema. A proteção diplomática pode ser renunciada, no entanto,
considerando que se trata de prerrogativa do Estado, e não do particular, a autoridade
competente para a renúncia é aquele, e não este. Um caso internacional que ilustra bem
o instituto da proteção diplomática foi aquele examinado pela Corte Permanente de
Arbitragem envolvendo um indivíduo com dupla nacionalidade. Naquela oportunidade,
ele buscava a proteção diplomática de um desses Estados contra o outro. Daí se
estabeleceu a controvérsia: seria possível pedir proteção diplomática contra um Estado
do qual o indivíduo também é nacional? A resposta foi negativa, tendo sido consignado
que qualquer um dos dois Estados poderia exercer proteção diplomática em favor do seu
nacional contra um terceiro Estado. No entanto, nenhum deles poderia exercer essa
prerrogativa contra o outro.
Tendo como certo que proteção diplomática ocorre quando o Estado adota medidas de
proteção a pessoas naturais e também pessoas jurídicas na ocorrência de litígios com
Estados estrangeiros, conclui-se que o Estado assume por endosso a reclamação do
particular lesado perante outro Estado.
Outro exemplo que pode ser citado é o caso Nottebohm (Liechtesntein x Guatemala)
julgado pela Corte Internacional de Justiça nos idos 1955. Visando a evitar tal proteção
foi desenvolvida a denominada cláusula CALVO, para que os estrangeiros em contratos
firmados no exterior renunciassem à proteção diplomática. Carlos Calvo foi Ministro
das Relações Exteriores da Argentina.

25. Tendo em vista o direito fundamental à privacidade, pode o Ministério Público


promover a quebra de sigilo bancário, independentemente de ordem judicial?
O sigilo bancário é direito constitucionalmente protegido. Embora não esteja previsto
expressamente, decorre do inciso X do art. 5º da Carta Magna, que prevê a
inviolabilidade da intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas. A quebra
de sigilo bancário está sujeita a reserva de jurisdição, sendo possível sua relativização
por determinação judicial ou por Comissão Parlamentar de Inquérito.
De acordo com o art. 1º, § 4º, da Lei Complementar nº 105/2001, a quebra de sigilo
poderá ser decretada, quando necessária para apuração de ocorrência de qualquer ilícito,
em qualquer fase do inquérito ou do processo judicial.
Assim, via de regra, o Ministério Público não pode promover, por si só, a quebra de
sigilo fiscal, devendo pedir nos autos de inquérito ou processo judicial a sua realização,
que poderá ser autorizada pelo juízo. A prova desta espécie colhida sem a autorização
judicial será considerada nula, assim como serão as que dela derivem.
Entretanto, conforme entendimento do Supremo Tribunal Federal, o Ministério Público
pode solicitar a instituições financeiras a quebra de sigilo no caso de movimentações
financeiras realizadas a partir de contas bancárias públicas, identificando os seus
destinatários, com base no poder de investigação conferido ao Ministério Público pela
Constituição Federal (art. 129, inciso VIII).
O sigilo de informações deve ser relativizado no caso de recursos públicos, havendo
interesse da sociedade em conhecer o seu destino, corolário do princípio da publicidade,
que deve reger o agir do administrador público (art. 37 da CF). As provas obtidas dessa
forma não são nulas, prevalecendo o dever de transparência pública sobre a proteção da
intimidade dos particulares.

26. Disserte sobre a aplicação da chamada “teoria da cegueira deliberada” em


relação aos atos de improbidade administrativa.
De matriz norte-americana, a teoria da cegueira deliberada, também conhecida como
"willful blindness doctrine", trata-se de construção jurisprudencial tendente a aferir a
participação do agente em atos ilícitos quando este, intencionalmente, coloca-se em
posição de ignorância a tal respeito, a fim de, sem tomar parte da situação de suspeita,
beneficiar-se quanto sua ocorrência. Em linhas gerais, aludida construção objetiva punir
aquele que opta por fechar os olhos quanto à realidade que o cerca, ciente de seus laivos
de ilicitude, tal como, valendo-se de comparativo corriqueiro, age o avestruz, daí porque
também denominada teoria das instruções do avestruz.
Concebida no campo penal, tal construção encontra eco na doutrina e jurisprudência
pátrias, ganhando ares de notoriedade ao tempo do julgamento da AP 470 (Caso
Mensalão), em que fora aplicada pelo STF com o fito de, amoldando aludido
comportamento ao dolo eventual, permitir-se a condenação dos envolvidos em crimes
de lavagem de capitais.
Não obstante sua essência penal, vozes doutrinárias e jurisprudenciais têm transportado
a teoria da cegueira intencional à seara administrativa, no interesse da punição daquele
administrador que, a despeito da alta probabilidade da existência de ato ímprobo – seja
aquele que fere princípios reitores, causa lesão ao erário ou promove enriquecimento
ilícito (arts. 9 a 11, Lei n. 8.429.1992) –, atua de forma indiferente quanto a esta
suspeita, beneficiando-se de sua própria torpeza em detrimento da Administração
Pública. O campo de aplicação afigura-se inexoravelmente fértil, vez que não raro os
agentes públicos evitam a responsabilização expressa na Lei n. 8.429/1992 sob a
alegação de mero desconhecimento, a despeito dos altos postos de comando por eles
titularizados, fazendo ressoar as penalidades legais exclusivamente sobre aqueles sob
seu comando. Aqui, o distanciamento costuma ter o propósito de permitir a obtenção de
vantagens indevidas, dificultando, porém, a formação da cadeia de causalidade, a
exemplo de contratações em geral sem processo licitatório, como já decidiram as cortes
brasileiras, aplicando aludida teoria a tais ilícitos civis.
Seja como for, há de se ter cautela em sua aplicação, sob pena de “improbidade
sistêmica”: à sua incidência será imprescindível a prova da voluntariedade e da intenção
do agente em se manter na ignorância, conquanto seja possível a ele obter o
conhecimento, sem o que não caberá sua responsabilização. Anote-se, por fim, que há
espaço para sua aplicação, ainda, no âmbito do Direito Administrativo sancionador, a
exemplo dos casos da Lei Antitruste (Lei n. 12.527.2011) e da Lei Anticorrupção (Lei
n. 12.846.2013).

27. O crediscore (escore de crédito, scoring ou, ainda, credit scoring) antes de ser
utilizado no mercado pelo fornecedor necessita de prévio consentimento do
consumidor? O que seria necessário para o consumidor ter acesso a seu extrato de
pontuação em juízo?
O escore de crédito é um método estatístico de avaliação de risco utilizado para aferir se
o crédito deve ser concedido ou não ao consumidor que o solicita. Com efeito, utilizam-
se fórmulas matemáticas baseadas em informações pessoais do consumidor. Vale
salientar que o referido método não se confunde com os bancos de dados e cadastros de
consumidores, motivo pelo qual o chamado “credit scoring” não segue a disciplina
prevista nos artigos 43 e 44 do Código Consumerista, ressalvados alguns pontos, como,
por exemplo, a limitação temporal de registros negativos.
Segundo entendimento do Superior Tribunal de Justiça, consubstanciado na Súmula
550, a utilização do escore de crédito não necessita de consentimento do consumidor,
que terá o direito de solicitar esclarecimentos sobre as informações avaliadas, bem
como as fontes dos dados considerados para o respectivo cálculo.
O Superior Tribunal de Justiça entende que, para a obtenção das informações valoradas
e da respectiva pontuação em juízo, é necessário que o consumidor tenha requerido
previamente a obtenção dos dados junto ao detentor. Ademais, deve ter havido a recusa
no seu fornecimento. Além disso, o crédito almejado também deve ter sido recusado,
sendo essencial a demonstração de que o insucesso ocorreu por conta da pontuação
atribuída.
Vale destacar que o referido método estatístico precisa, ainda, respeitar certos limites
temporais. De fato, não poderão ser usados registros negativos referentes a período
superior a cinco anos (art. 43, §1º do CDC). Da mesma forma, o artigo 14 da Lei
12.414/2011 veda a utilização de informações de adimplemento de período superior a
quinze anos.
Destarte, como se vê, o Superior Tribunal de Justiça entendeu que, no citado método de
avaliação do risco, deve ser tutelada a privacidade do consumidor, bem como o
princípio da máxima transparência nas relações negociais.
Cumpre consignar que o desrespeito aos referidos limites e o abuso na utilização de
informações, tais como a valoração de aspectos sensíveis (religião, raça, etnia, cor, etc.)
geram a responsabilização das entidades e a obrigação de indenizar os danos causados
ao consumidor.

28. Disserte sobre Direito Tributário e retroatividade da lei interpretativa: limites


de aplicação.
O art. 150, III, “a”, da CF/88 prevê que é vedado à União, aos Estados e aos Municípios
cobrar tributos “em relação a fatos geradores ocorridos antes do início da vigência da lei
que os houver instituído ou aumentado”. Trata-se do princípio da irretroatividade
tributária, garantia constitucional em favor do contribuinte em forma de limitação ao
poder de tributar. Há, contudo, situações excepcionais em que a lei tributária poderá
surtir efeitos sobre fatos pretéritos.
Uma dessas situações é a lei interpretativa (art. 106, I, CTN). Trata-se de instituto
polêmico. Respeitosa doutrina vê inconstitucionalidade em tais espécies legislativas,
pois implicariam violação ao princípio da separação de poderes. Argumenta-se que a
tarefa de interpretar leis é atribuição de seus aplicadores, notadamente o Poder
Judiciário. Contudo, o STF já se manifestou no sentido de que as leis interpretativas são
possíveis, desde que limitadas a esclarecer preceitos anteriores da legislação. De acordo
com a Corte, essas leis são instrumento juridicamente idôneo de veiculação da
interpretação autêntica e se sujeitam ao controle do Poder Judiciário. Assim, desde que
a lei interpretativa se preste a revelar o exato alcance de lei anterior, sem gerar qualquer
gravame ou penalidade ao contribuinte, será uma norma válida.
Deve-se ter cuidado, entretanto, para casos que envolvem leis que se apresentam como
interpretativas, mas que, na verdade, inovam no ordenamento, alterando entendimento
jurídico anteriormente consolidado. Trata-se do fenômeno da sobreposição
interpretativa ou superação legislativa da jurisprudência.
Foi o que ocorreu com o art. 3º da Lei Complementar nº 118/2005. Esse dispositivo, a
pretexto de esclarecer a interpretação do art. 168, I, CTN em relação a tributos sujeitos a
lançamento por homologação, alterou drasticamente o posicionamento até então
dominante no âmbito do STJ. Em casos como esse, a irretroatividade deverá ser
respeitada, sob pena de ofensa ao art. 150, III, “a”, CF/88.

29. Defina a teoria da co-culpabilidade às avessas.


Co-culpabilidade é a corresponsabilidade do Estado no cometimento de determinados
delitos, praticados por cidadãos que possuem menor âmbito de autodeterminação diante
das circunstâncias do caso concreto, principalmente no que se refere a condições sociais
e econômicas do agente, o que enseja menor reprovação social.
Nesse sentido, ainda que cometessem o mesmo crime, a pena de uma pessoa de alto
nível social e econômico, portadora de ensino superior, seria maior do que a sanção
imposta a uma pessoa de baixo nível cultural e econômico. Segundo Eugênio Raul
Zaffaroni, a teoria defende que o Estado deve ser corresponsável pelo delito, pois não
ofereceu condições de aprimoramento cultural e econômico ao agente, que restou
marginalizado, uma vez que a sociedade, muitas vezes, é desorganizada, discriminatória
e excludente. Há, na verdade, a defesa de uma compensação, ocasião em que o Estado
deve arcar com parcela da reprovação.
A co-culpabilidade às avessas, por seu turno, possuiria dois enfoques, seria o
cometimento de crimes por pessoas abastadas, agente com elevada instrução e alto
poder econômico e social, como no caso dos crimes de colarinho branco (crimes contra
a ordem econômica e tributária), ou o cometimento de determinados crimes tão somente
por pessoas específicas, em situações ditadas pelas regras punitivas.
Destarte, segundo Grégore Moura, a co-culpabilidade às avessas se manifesta sob dois
enfoques, quais sejam, o primeiro deles se traduz no abrandamento à sanção de delitos
praticados por pessoa com alto poder econômico e social, como no caso dos crimes de
cifra dourada (crimes do colarinho branco, crimes contra a ordem econômica e tributária
etc.). A título de exemplo, é possível apontar a extinção da punibilidade pelo pagamento
da dívida nos crimes contra a ordem tributária.
Por sua vez, o segundo enfoque se revela na tipificação de condutas que só podem ser
praticadas por pessoas marginalizadas, como ocorre nas contravenções penais de
vadiagem (art. 59) e a revogada mendicância (art. 60). Nessa esteira, o Estado, além de
não prestar a devida assistência social, criminaliza certas atitudes, aludindo que essas
pessoas poderiam ter uma conduta conforme o direito, apesar de serem excluídas. Isso
demonstra claramente o etiquetamento e a seleção do direito penal, e, como o próprio
nome sugere, trata-se de uma inversão da teoria da corresponsabilidade do Estado.

30. Disserte sobre o tema "Denúncia anônima no processo penal e validade


probatória".
A denúncia ou delação anônima, chamada pela doutrina de delação apócrifa ou notitia
criminis inqualificada, de acordo com jurisprudência, por si só, não é suficiente para a
instauração do inquérito policial, mas pode o Delegado de Polícia, a partir dela, iniciar
diligências para colheita de novos elementos para dar início ao inquérito policial. Ou
seja, conforme já decidiu o STF, ao Poder Público, provocado por denúncia anônima,
cabe adotar medidas informais destinadas a apurar, previamente, em averiguação
sumária, “com prudência e discrição”, a possível ocorrência de eventual situação de
ilicitude penal, com o objetivo de viabilizar a ulterior instauração de procedimento
penal em torno da autoria e da materialidade dos fatos reputados criminosos,
desvinculando-se a investigação estatal (“informatio delicti”), desse modo, da delação
formulada por autor desconhecido, considerada a relevante circunstância de que os
escritos anônimos – aos quais não se pode atribuir caráter oficial – não se qualificam,
por isso mesmo, como atos de natureza processual.
Logo, a instauração de procedimento criminal originada, unicamente, de documento
apócrifo seria contrária à ordem jurídica constitucional, que veda expressamente o
anonimato. Ressalte-se, ainda, que o procedimento a ser adotado pela autoridade
policial em caso de “denúncia anônima” é: 1) Realizar investigações preliminares para
confirmar a credibilidade da “denúncia”; 2) Sendo confirmado que a “denúncia
anônima” possui aparência mínima de procedência, instaura-se inquérito policial; 3)
Instaurado o inquérito, a autoridade policial deverá buscar outros meios de prova que
não a interceptação telefônica (esta é a ultima ratio). Se houver indícios concretos contra
os investigados, mas a interceptação se revelar imprescindível para provar o crime,
poderá ser requerida a quebra do sigilo telefônico ao magistrado. Esclareça-se, ainda,
que não é possível decretar medida de busca e apreensão com base unicamente em
“denúncia anônima”

31. Imóvel urbano foi declarado de utilidade pública para fins de desapropriação
por decreto do executivo. O registro da propriedade na matrícula junto ao cartório
de registro de imóveis foi realizado em 2010 e aponta apenas o nome do esposo
como proprietário e com estado civil de casado no regime da comunhão parcial de
bens desde 2005. Frustrada a desapropriação amigável, o ente público ajuizou em
2016 o processo judicial desapropriatório no qual apenas o esposo figurou como
réu. A sentença que transitou em julgado deu ganho de causa à administração,
confirmando o preço ofertado, decretando a expropriação e servindo de título para
registro imobiliário realizado ainda em 2016. Em 2018, já esgotado o prazo de 2
anos da ação rescisória, seria viável que a esposa manejasse uma querela nullitatis
insanabilis sob a alegação de que também deveria haver sido citada no processo,
dada a natureza real da ação de desapropriação? Para responder, considere que o
processo de desapropriação fora ajuizado após a vigência do CPC/15.
Não seria viável o manejo de ação de querela nullitatis por não existir nulidade nem
ineficácia no processo de desapropriação diante da previsão do art. 16 do Decreto-Lei
3.365/41 que dispensa a citação do consorte independentemente do regime de bens,
sendo norma especial frente aos art. 73, § 1º, I, do CPC e arts. 1.647, I, II, do CC, que
exigem nas ações reais imobiliárias em geral a citação de ambos os consortes sempre
que o bem comum integre a meação do casal, mesmo que o registro imobiliário esteja
em nome de apenas um dos consortes nos termos do art. 1.660, I, do CC.
O direito meatório do consorte (cônjuge ou companheiro) depende do regime de bens,
escolhido pelas partes através de pacto antenupcial no casamento (ou pacto de
convivência, na união estável), que pode ou não existir a depender do regime escolhido.
Trata-se de normas dispositivas que podem ser afastadas através da vontade das partes.
Não existindo pacto antenupcial ou contrato de convivência, será aplicável o regime
legal de bens, que é o da comunhão parcial conforme arts. 1.640 e 1.725 do CC.
Em regra, é admissível que o cônjuge não citado na ação que versou sobre direitos reais
imobiliários maneje a querela nullitatis declarando a ausência de citação e nulidade do
processo anterior. A exceção que não acarretaria nulidade nem ineficácia pela ausência
de citação do cônjuge seria se o regime de bens fosse da separação absoluta de bens ou
de participação final nos aquestos com livre disposição de imóveis no pacto antenupcial,
conforme reconhece o STJ.
Contudo, no procedimento de desapropriação por utilidade pública regido pelo Decreto-
Lei 3.365/41 existe o art. 16, que dispensa a citação da mulher em existindo a citação do
marido proprietário do imóvel.
Com efeito, a previsão legal referida, segundo precedentes dos Tribunais Superiores,
apesar de anterior ao Código de Processo Civil, está prevista em lei especial, qual seja, o
DL n. 3.365/1941, de modo que, à luz do princípio da especialidade (art. 2º, § 2º, da
LINDB), prevalece sobre lei geral, isto é, o CPC, pois, em se tratando de conflito
aparente de normas, mais especificamente de antinomia de segundo grau, o princípio da
especialidade prevalece sobre o princípio cronológico (art. 2º, § 2º, da LINDB).

32. O atual titular da propriedade de um imóvel pode ser responsabilizado pela


infração ambiental perpetrada pelo anterior proprietário da área, mesmo que não
tenha contribuído para a degradação constatada?
De proêmio, cumpre anotar que a CF, em seu art. 225, consagra o direito ao meio
ambiente ecologicamente equilibrado a todos os cidadãos, conferindo-lhe ampla
proteção, ao prever, em seu § 3º, a tríplice responsabilização em matéria ambiental, a
fim de sujeitar aquele que promove sua degradação à responsabilidade civil, penal e
administrativa.
No que concerne à responsabilidade civil, prevê a Lei n. 6.938/81, que o poluidor,
concebido como o responsável direto ou indireto pela degradação, é obrigado a
indenizar e reparar os danos causados, ao meio ambiente e a terceiros,
independentemente da existência de culpa (arts. 3º, IV e 14, § 1º). Consagra-se, neste
particular, um regime de responsabilidade objetivo, extremado – uma vez calcado na
teoria do risco integral – e solidário, que abrange toda e qualquer espécie de dano, seja
de índole patrimonial, seja moral, causado por ato comissivo ou omissivo.
Nesta esteira, flexibilizando a exigência de demonstração do “nexo causal”, sedimentou
o STJ o entendimento de que a responsabilidade civil pela reparação dos danos
ambientais causados em imóvel, porque solidária, adere ao título da propriedade, a título
de obrigação “propter rem”, permitindo a responsabilização do atual proprietário por
condutas provocadas pelos anteriores, em consonância ao que dispõe o Código Florestal
(art. 2º, §2º).
Vale dizer, aquele que, adquirindo a propriedade, não reverte a degradação existente,
dela se beneficiando, por ela responde indiretamente, na condição de poluidor. Sob
outra perspectiva, tem-se que a responsabilidade por infrações ambientais, uma vez
afeta ao Direito Administrativo Sancionador, não se simetriza ao regime reparatório
civilista. Aplica-se, aqui, a lógica da teoria da culpabilidade e ao princípio
constitucional da intranscendência das sanções, em ordem a tornar imprescindível a
comprovação do elemento subjetivo do agente, para além do dano e o nexo causal.
Anote-se que a divergência dos regimes punitivos é revelada no próprio art. 14, § 1º, da
Lei n. 6.938/81, que excepciona a aplicação das penalidades nele previstas, opondo-as
exclusivamente aos “transgressores”, conforme o “caput” do dispositivo, e não aos
poluidores. Destarte, para o STJ, a responsabilidade administrativa ambiental é mais
restrita que a de índole civil, obstando que terceiros respondam a título objetivo por
infrações. Logo, conquanto o adquirente de imóvel já degradado possa ser compelido ao
dever de reparar e indenizar, não arcará com as sanções provenientes de infrações
administrativas praticadas pelo antigo proprietário do imóvel.

33. Efeito Cliquet. Explique o instituto argumentando exemplos de sua aplicação.


A expressão “efeito cliquet” é utilizada pelos alpinistas e define um movimento que só
permite o alpinista ir para cima, ou seja, subir. A origem da nomenclatura, em âmbito
jurídico, é francesa, onde a jurisprudência do Conselho Constitucional reconhece que o
princípio da vedação de retrocesso (chamado de "effet cliquet") se aplica inclusive em
relação aos direitos de liberdade, no sentido de que não é possível a revogação total de
uma lei que protege as liberdades fundamentais sem a substituir por outra que ofereça
garantais com eficácia equivalente.
No Brasil, esse efeito é conhecido como princípio da vedação do retrocesso, ou seja, os
direitos humanos só podem avançar. Esse princípio, de acordo com Canotilho, significa
que é inconstitucional qualquer medida tendente a revogar os direitos sociais já
regulamentados, sem a criação de outros meios alternativos capazes de compensar a
anulação desses benefícios.
Como corretamente observa José Carlos Vieira de Andrade, a liberdade de conformação
legislativa seria praticamente eliminada se o legislador “fosse obrigado a manter
integralmente o nível de realização e a respeitar os direitos por ele criados”, razão pela
qual se deve admitir a “proibição de revogação” apenas na medida em que impeça o
arbítrio ou a irrazoabilidade manifesta do “retrocesso”, isto é, somente no caso de não
ocorrer a “substituição das normas conformadoras dos direitos sociais”, que é uma
“garantia do conteúdo mínimo imperativo do preceito constitucional”, bem como do
“limite da proteção da confiança”.
Nesse sentido, o entendimento manifestado pelo Ministro Celso de Mello em uma das
passagens de seu voto em decisão envolvendo o direito à saúde: “na realidade, a
cláusula que proíbe o retrocesso em matéria social traduz, no processo de sua
concretização, verdadeira dimensão negativa pertinente aos direitos sociais de natureza
prestacional (como o direito à saúde), impedindo, em consequência, que os níveis de
concretização dessas prerrogativas, uma vez atingidos, venham a ser reduzidos ou
suprimidos, exceto nas hipóteses – de todo inocorrente na espécie – em que políticas
compensatórias venham a ser implementadas pelas instâncias governamentais”.

34. A exibição de documentos é possível no rito processual previsto no CPC de


2015? Como?
O CPC/73 previa a ação de exibição de documentos dentro do rol de ações cautelares
específicas. Doutrina majoritária, contudo, apontava a ausência de cautelaridade do
procedimento, sendo, na verdade, uma ação de conhecimento de cunho probatório.
Uma das mudanças promovidas pelo CPC/15 foi a extinção dos procedimentos
cautelares em espécie, inclusive a ação de exibição de documentos. Sob a égide do novo
código, o exercício de qualquer pretensão cautelar será feito com base no Poder Geral
de Cautela do magistrado.
Especificamente em relação à exibição de documentos, deve-se observar que possui
previsão legal na modalidade incidental (art. 396 e seguintes do CPC). Contudo, não há
dispositivo que autorize o manejo da pretensão exibitória em procedimento autônomo.
Juristas apontam 3 possibilidades, cada uma com suas vantagens e desvantagens. A
primeira seria o manejo da pretensão através da via cautelar antecedente (art. 305 a 310,
CPC), o que seria a adoção de modo de proceder semelhante àquele previsto no
CPC/73. A segunda seria buscar a exibição pela via cognitiva através de uma ação de
obrigação de fazer, o que respeita a verdadeira natureza jurídica da medida, mas implica
morosidade. A terceira opção seria a utilização do procedimento de produção antecipada
de provas (art. 381, CPC), que possui limitação quanto ao exercício do direito de defesa
(art. 382, § 4º, do CPC). Ainda não há consenso na doutrina e muito menos na
jurisprudência sobre como se deve proceder.

35. Na hipótese de desfazimento do contrato administrativo motivada pela


ausência de prévia licitação ou por vício insanável verificado no procedimento
licitatório, deve a administração pública efetuar o pagamento pelos serviços
prestados em decorrência da execução, parcial ou total, do contrato nulo e mesmo
indenizar as perdas e danos eventualmente acarretadas ao particular?
Depende. Os parágrafos 1º e 2º do artigo 49 da Lei 8.666/93 asseveram que, "ressalvado
o disposto no parágrafo único do artigo 59 desta Lei", a anulação do procedimento
licitatório por motivo de ilegalidade não gera obrigação de indenizar, sendo que a
nulidade do procedimento licitatório induz à nulidade do contrato.
Por sua vez, diz o referido parágrafo único do artigo 59 da mesma Lei que a nulidade,
embora produza efeitos retroativos, não exonera a administração do dever de indenizar
o contratado por aquilo que ele executou até a data em que declarada, bem como por
outros prejuízos, mas desde que a nulidade não lhe seja imputável.
Embora a redação legal guarde alguma dubiedade, a interpretação normativa dada pelos
Tribunais Superiores ao referido dispositivo, notadamente pelo STJ, é no sentido de que
não pode a administração, sob pena de violação ao princípio da moralidade, colher
vantagens decorrentes da declaração de nulidade (proibição de enriquecimento ilícito),
ainda que seja o particular o responsável pela nulidade. Nessa linha, prevalece o
entendimento de que, pelos serviços prestados em decorrência da execução, parcial ou
total, do contrato nulo, tem o particular direito de ser indenizado, excluindo-se, apenas,
a indenização suplementar (perdas e danos). Por outro lado, se a nulidade fora decretada
não obstante a boa-fé do particular, terá ele direito à indenização bem como à
indenização suplementar.
Vale ademais frisar que a doutrina majoritária aponta solução diversa da que via de
regra é esposada pelos Tribunais Superiores. Há quem entenda que ao particular que deu
causa à nulidade deve ser conferido apenas o direito de ressarcimento dos custos
inerentes aos serviços prestados, excluindo-se a verba remuneratória, hipótese em que,
dizem os defensores deste entendimento, afastado estaria o enriquecimento ilícito da
administração.

36. O tempo de serviço ou de contribuição laborado sob condições especiais no


RGPS pode ser convertido em comum e averbado com o respectivo acréscimo dos
multiplicadores previsto no art. 70 do Decreto 3.048/99 no RPPS federal para fins
de contagem recíproca? Para responder considere a atividade sob condições
especiais exercida antes e depois da instituição do Regime Jurídico Único pela Lei
8.112/90.
Inicialmente, o trabalho exercido sob condições especiais é aquele que pode acarretar
riscos à saúde ou integridade física do segurado (v.g. ruído, calor, etc.), devendo
cumprir o tempo de 25, 20 ou 15 anos de exercício dessa atividade para fazer jus à
aposentadoria especial (art. 64 e seguintes do Decreto nº 3.048/99 e art. 57 e seguintes
da Lei nº 8.213/91).
Nos termos do art. 70, do RPS, é possível ao segurado do RGPS converter o tempo de
atividade especial em comum, observados os requisitos legais. Ressalte-se que o
contrário não é admitido pelo ordenamento jurídico pátrio.
Além disso, é garantida ao segurado a contagem recíproca dos tempos de contribuição
na atividade privada (RGPS) e na atividade pública (RPPS), conforme estabelecem os
arts. 201, § 9º, da CF e 94, da Lei nº 8.213/91.
Entretanto, não é admitida a conversão do tempo especial de contribuição ao RGPS em
comum ao RPPS, por força do art. 96, I, da Lei nº 8.213/91, de modo que o segurado
apenas poderá aproveitar o tempo da atividade anterior sem o acréscimo decorrente do
exercício da atividade em condições especiais, segundo posicionamento da
jurisprudência.
Por outro lado, é possível entendimento diverso no tocante aos servidores públicos que
exerciam atividade especial antes da instituição do denominado regime jurídico único.
Assim, aos servidores que eram regidos pela CLT, antes da vigência da Lei nº 8112/90,
é facultada a conversão do tempo especial em comum, pois eram considerados
segurados do RGPS, podendo-se dizer que possuem direito adquirido à contagem do
tempo especial, o qual não é afetado com a posterior instituição do regime estatuário,
conforme entendimento dos Tribunais Superiores.
37. Em se tratando da nomeação tardia de candidato aprovado em concurso
público, determinada por ordem judicial, disserte sobre os seguintes aspectos: (a)
direito subjetivo às promoções ou progressões funcionais a que faria jus o servidor
caso tivesse sido nomeado anteriormente, sem a necessidade de intervenção do
Poder Judiciário; (b) direito à indenização, tendo em vista que o servidor deveria
ter sido investido no cargo em momento anterior.
O controle judicial da atividade administrativa é uma garantia constitucional vinculada
ao princípio da inafastabilidade da jurisdição (CF, art. 5º, XXXV) e ao princípio da
legalidade administrativa (CF, art. 37, caput). Em regra, o controle de legalidade de um
ato administrativo envolve o retorno ao status quo ante, como se não tivesse ocorrido a
ilegalidade. Por isso, particulares passaram a demandar em face do poder público
pleiteando direitos funcionais e remuneratórios decorrentes de nomeação tardia em
concurso.
O STF, entretanto, em sede de repercussão geral, fixou a tese de acordo com a qual não
há direito à indenização sobre remunerações que o particular deveria ter recebido, salvo
ilegalidade flagrante. O STJ, desenvolvendo a tese, já estabeleceu, inclusive, que não há
direito a essa indenização por mero erro administrativo reconhecido de ofício. O
fundamento dos mencionados entendimentos jurisprudenciais decorre da vedação do
enriquecimento sem causa e do princípio da autotutela. Em caso de erro razoável (não
flagrante arbitrariedade), deve ser incentivado que a administração componha
voluntariamente o conflito, evitando a judicialização.
A jurisprudência das cortes superiores tampouco reconhece direito subjetivo a
promoções e progressões. Em verdade, o desenvolvimento funcional supõe o exercício
efetivo do cargo, além de eventuais requisitos específicos. Por isso, não há se falar que a
mera nomeação tardia permita a obtenção de outros direitos decorrentes do exercício
efetivo do cargo.
Desse modo, apesar da possibilidade de controle judicial de erros administrativos
envolvendo concursos públicos e, além disso, da máxima de acordo com o qual não
decorrem efeitos de atos nulos, é necessário ponderar o retorno ao status quo anterior
com outros valores, como o enriquecimento sem causa e as particularidades do caso
concreto. Por isso, em regra, a nomeação tardia não implica direitos indenizatórios e
funcionais decorrentes do efetivo exercício do cargo público.

38. É possível que acordo de colaboração premiada preveja benefícios para o


colaborador que extrapolem a esfera penal e processual penal?
Embora os diplomas legislativos nacionais que versam sobre a colaboração premiada
(em especial a Lei 12.850/13, Lei das Organizações Criminosas) apenas disponham
sobre benefícios de natureza penal e processual penal, o STF, no contexto do
julgamento das questões da Lava Jato, entendeu, ao menos em análise inicial, pela
possibilidade de previsão de benefícios extrapenais patrimoniais em acordos de
colaboração premiada.
Dentre os fundamentos utilizados, destacou o Supremo Tribunal Federal que a
Convenção de Palermo, já introduzida no ordenamento brasileiro, dispõe que o Estado
pode se valer de todas as medidas que julgar adequadas para encorajar o ato de delação,
não havendo restrição quanto ao alcance destas ao campo penal e processual penal.
Além disso, sendo possível, através da delação, até mesmo o perdão judicial ou o não
oferecimento da denúncia em face do colaborador (medidas que afastam o exercício do
"jus puniendi" pelo Estado e a persecução penal), não seria razoável impedir que o
acordo verse sobre questão extrapenal patrimonial, como, no caso analisado pelo STF, a
destinação de bens do colaborador a terceiros.
39. O absolutamente incapaz é suscetível de sofrer dano moral, mesmo que o autor
do dano comprove que a pretensa vítima, exatamente em razão de sua
incapacidade, não tomou nenhum conhecimento da realidade dos fatos
perpetrados e tampouco apresentou alteração em seu estado anímico?
Sim, o absolutamente incapaz pode sofrer dano moral ainda que não tome conhecimento
sobre a realidade dos fatos e ainda que não apresente alteração em seu estado anímico.
Vale lembrar que o absolutamente incapaz, após a promulgação da Lei 13.146/2015,
restringe-se ao menor de 16 anos. O art. 5º, X, da CF assegura o direito à indenização
por dano moral, material decorrente de violação da intimidade, vida privada, honra e
imagem das pessoas. O dispositivo em apreço não excepciona o absolutamente incapaz,
pelo contrário. Em uma análise sistemática do texto constitucional, o art. 227 da CF
garante proteção integral à criança e ao adolescente, garantindo-lhes o direito à
dignidade e ao respeito, privando-os de qualquer forma de discriminação.
Por sua vez, o CC em seu art. 1º, aduz que toda pessoa é capaz de direitos e deveres na
ordem civil e o art. 2º complementa preceituando que a personalidade civil da pessoa
começa do nascimento com vida, mas a lei põe a salvo desde a concepção os direitos do
nascituro. Ainda, o Estatuto da Criança e do Adolescente, no art. 3º, prevê que a criança
e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana,
sem prejuízo da proteção integral de que trata esta Lei, assegurando-se-lhes, por lei ou
por outros meios, todas as oportunidades e facilidades, a fim de lhes facultar o
desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e
de dignidade. Ressalta, ainda, no parágrafo único, que os direitos enunciados no ECA
aplicam-se a todas as crianças e adolescentes, sem discriminação de nascimento,
situação familiar, idade, sexo, raça, etnia ou cor, religião ou crença, deficiência,
condição pessoal de desenvolvimento e aprendizagem, condição econômica, ambiente
social, região e local de moradia ou outra condição que diferencie as pessoas, as
famílias ou a comunidade em que vivem.
Feita a análise legal, extrai-se que os direitos da personalidade, como a honra,
intimidade, imagem, independem de capacidade civil e do entendimento da vítima
acerca dos fatos. São direitos existenciais que, caso violados, comportam indenização.
Nesse sentido, vale lembrar que o STJ já garantiu direito à indenização por danos
morais em decorrência de violação da honra do feto por apresentador de TV, com o
fundamento de que, a lei põe a salvo, desde a concepção, os direitos do nascituro. E, em
tantas outras oportunidades, o STJ também conferiu indenização a crianças que
perderam seus pais por ato ilícito de terceiros. Tal dano se mostra in re ipsa, independe
de qualquer comprovação, sendo o abalo moral inerente ao ser humano, ainda que seja
criança de tenra idade e sem entendimento sobre a realidade posta.

40. No ano de 2017, no interior da Amazônia brasileira, um grupo de exploradores


de minérios com grande poder econômico, todos de nacionalidade brasileira nata,
promoveram o extermínio de uma comunidade indígena com o fim de expandir a
atividade econômica. Configurado o crime internacional de genocídio de
atribuição do Tribunal Penal Internacional e obedecidos todos os requisitos
processuais para a instauração do processo internacional, o grupo de exploradores
foi denunciado e o TPI determinou que eles fossem julgados pela instância
internacional, requisitando ao Estado Brasileiro a entrega dos denunciados para
julgamento. Tendo em vista a vedação constitucional de extradição de brasileiros
natos, responda se o Estado Brasileiro deve acatar a requisição do TPI.
Embora de trate de temática ainda não pacificada, a requisição do TPI deve ser acatada
pelo Estado Brasileiro. Com efeito, em que pesem as posições doutrinárias segundo as
quais haveria absoluta identidade entre a extradição e a entrega, e, pois, vedada estaria a
entrega do brasileiro nato – por todos, Paulo Queiroz –, apontam doutrinadores de escol
para a não equivalência entre os institutos, estremando o regime jurídico a ser aplicado a
cada qual.
Nesse sentido, segundo o escólio de André de Carvalho Ramos, também perfilhado por
Valério Mazzuoli, enquanto a extradição, a teor do art. 81 da recente Lei de Migração,
consubstancia ato de cooperação internacional entre Estados soberanos, o “surrender”,
previsto no art. 89 do Estatuto do Roma, trata-se do mero cumprimento de tratado
internacional ratificado e promulgado por nosso país, em que o indivíduo é entregue não
a outro Estado, mas a um Tribunal Penal Internacional cuja jurisdição é consagrada pela
própria Constituição Federal (art. 5º, §4º), inexistindo, portanto, ofensa à soberania
brasileira e à vedação constitucional à extradição de nacionais (art. 5º, LI, CF).
Vale dizer, o TPI trata-se de um tribunal que, representando a comunidade das nações,
visa a tutelar os direitos humanos em nível internacional, restritamente no que concerne
aos crimes de jus cogens, isto é, contra a humanidade, em absoluto compasso à
prevalência dos direitos humanos e a cooperação entre os povos para o progresso da
humanidade, expressos como princípios reitores das relações internacionais do Brasil
(art. 4º, CF).
Ademais, importa consignar que a jurisdição internacional exercida pelo TPI é
subsidiária, regida pelo princípio da complementaridade, de modo que somente poderá
ser exercida caso o Estado não detenha capacidade ou vontade para realizar justiça e
impedir a impunidade (art. 17, Estatuto do TPI), em prestígio, portanto, à soberania
nacional. A partir de tais distinções, inclusive perfilhadas pelo Min. Celso de Melo, do
STF, no Caso Al-Bashir, é possível vislumbrar que não só a entrega dos brasileiros
natos, na hipótese, seria permitida, observada a cláusula da irrelevância da qualidade
oficial dos autores do delito, como também não seria aplicável o requisito extradicional
da dupla punibilidade, dada a previsão da imprescritibilidade dos crimes de lesa-
humanidade por diploma supralegal, qual seja, o Estatuto de Roma.

41. “O Senado aprovou nos últimos minutos desta terça-feira o decreto assinado
pelo presidente Michel Temer que determina a intervenção federal no Estado do
Rio de Janeiro, deixando a segurança pública fluminense sob responsabilidade de
um interventor militar, que responde ao presidente da República. O placar foi de
55 votos favoráveis, 13 contrários e uma abstenção (Fonte: BBC)”. É possível o
controle jurisdicional da decretação de intervenção federal?
A intervenção federal é disciplinada nos artigos 34 a 36 da CF/88. Trata-se de medida
excepcional, que representa um mecanismo de controle e estabilização constitucional
em tempos de crise. Através dela, ocorre a supressão momentânea da autonomia de um
ente político. As hipóteses autorizadoras da intervenção são descritas taxativamente nos
artigos 34 e 35.
A decretação da intervenção é atribuição do Presidente da República (art. 84, IX,
CF/88), que poderá ser feita por solicitação, requisição ou de ofício. Discute-se a
possibilidade de controle jurisdicional do decreto interventivo eventualmente editado
pelo Presidente da República. Apesar de o Chefe do Executivo possuir
discricionariedade para decretar a intervenção nos casos de solicitação e naqueles em
que age de ofício, realizando um juízo político, não se deve esquecer que a CF/88 traça
expressamente as hipóteses de cabimento de tal medida.
Assim, é possível o controle jurisdicional do decreto interventivo em situações
teratológicas, em que nitidamente não se verifica a hipótese constitucional legitimadora.
O controle nessas situações não viola a separação de poderes, tendo em vista o sistema
de freios e contrapesos consagrado ao longo do texto da CF/88. Ademais, dá efetividade
ao direito fundamental da inafastabilidade da jurisdição (art. 5º, XXXV).
42. Disserte sobre a possibilidade ou impossibilidade de conhecimento de recurso
na instância ad quem interposto contra decisão do juízo a quo que indeferira o
pedido de justiça gratuita anteriormente formulado pela parte, considerando que
no ato de interposição não houve comprovação de pagamento do preparo recursal.
Para responder, considere que os demais requisitos de admissibilidade recursal
estariam presentes.
Sob os influxos da primeira onda renovatória do acesso da justiça, na esteira do escólio
de Cappelletti e Garth, fora positivada em nosso ordenamento jurídico a assistência
judiciária aos hipossuficientes, no interesse do afastamento de todo e qualquer óbice de
índole econômica à tutela jurisdicional. Atualmente, a assistência jurídica gratuita e
integral aos que comprovarem insuficiência de recursos é direito fundamental,
consagrado no art. 5º, LXXIV, da CF/88.
Em nível infraconstitucional, a Lei n. 1.060/1950 e, posteriormente, o CPC 2015,
instituíram a gratuidade da justiça a pessoas físicas e jurídicas, a ser concedida pela
autoridade judiciária, seja em primeiro grau de jurisdição, seja em grau recursal, à luz
de cada caso concreto (arts. 98 e 99 do CPC), hipótese em que estarão dispensadas das
custas judiciais, despesas processuais e honorários.
Vale anotar que, diversamente do que ocorre com as pessoas jurídicas, a quem se
exigirá comprovação dos pressupostos (súmula 481, STJ), a alegação de
hipossuficiência de pessoa natural presume-se verdadeira, somente podendo ser
indeferido o pedido se houver elementos que evidenciem a ausência dos pressupostos
legais (art. 99, §§ 2º e 3º).
Por sua vez, o rol taxativo das hipóteses de cabimento do recurso de agravo de
instrumento consagra as decisões que versarem sobre rejeição do pedido de gratuidade
da justiça ou o acolhimento do pedido de sua revogação (art. 1.015, V, CPC), salvo se a
rejeição se der em sentença, quando desafiará apelação (art. 101, CPC).
Nessa hipótese, no ato de interposição do recurso será prescindível a comprovação do
pagamento do preparo, por expressa previsão legal (art. 101, § 1º), até a decisão do
relator sobre a questão, a ser decidida preliminarmente ao julgamento do recurso. Em
sendo confirmada a denegação ou revogação da gratuidade, o relator ou o órgão
colegiado determinará ao recorrente o recolhimento das custas, no prazo de 05 (cinco)
dias, sob pena de não conhecimento do recurso. Com o trânsito em julgado, ser-lhe-á
exigido o pagamento de todas as despesas de cujo adiamento eventualmente tenha sido
dispensada (art. 102, CPC).
Lado outro, se reformada a decisão de primeiro grau, o beneficiário será isento do
preparo e demais despesas e custas processuais, por fazer jus ao direito à assistência
jurídica integral e gratuita. Anote-se, por fim, que durante a vigência da Lei Processual
anterior, o entendimento do STJ não se encontrava pacificado: conquanto houvesse
posição mais recente sustentando ser inadmissível a pena de deserção nesta hipótese, a
compreensão predominante apontava que, com a interposição do recurso, seria
necessário que a parte comprovasse o pagamento do preparo, sob pena de deserção,
admitindo-se, alternativamente, que fosse renovado o pedido de justiça gratuita perante
aquela Corte, em petição avulsa. Exemplo inequívoco de jurisprudência defensiva, hoje
suplantada pelas inovações do CPC 2015.

43. Discorra sobre o prazo prescricional da ação de improbidade administrativa na


hipótese de o ato perpetrado configurar, igualmente, ilícito penal, tendo sido
desencadeada a respectiva persecução perante a instância competente.
A improbidade administrativa é expressamente tratada na Constituição Federal, no
capítulo que disciplina a Administração Pública, tendo o art. 37, §4º, previsto que os
atos de improbidade administrativa importarão a suspensão dos direitos políticos, a
perda da função pública, a indisponibilidade dos bens e o ressarcimento ao erário, na
forma da lei. A Lei nº 8.429/1992 veio a disciplinar referido comando constitucional.
A lei de improbidade administrativa trata do prazo prescricional da pretensão nos três
incisos do artigo 23. Assim, o prazo será de até cinco anos após o término do exercício
de mandato, de cargo em comissão ou de função de confiança (inciso I); dentro do prazo
prescricional previsto para faltas disciplinares puníveis com demissão a bem do serviço
público, no caso de exercício de cargo efetivo ou emprego (inciso II); até cinco anos da
data de prestação de contas à Administração Pública pelas entidades referidas na lei
(inciso III).
Conquanto a lei de improbidade administrativa não tenha tratado, de modo expresso, do
prazo prescricional na hipótese em que o ato perpetrado configurar, igualmente, ilícito
penal, a jurisprudência já se debruçou sobre o tema. Pacificou-se no Superior Tribunal
de Justiça o entendimento no sentido de que, em tal hipótese, o prazo prescricional será
aquele abstratamente previsto para o tipo penal.
O fundamento de tal entendimento é que a Lei 8.429/1993, no caso de atos de
improbidade que configuram também faltas disciplinares (art. 23, II), vinculou o prazo
prescricional àquele previsto no Estatuto dos Servidores Públicos Federais (Lei nº
8.112/1993). E o referido estatuto, ao tratar das faltas disciplinares que igualmente
configuram ilícito penal, adota o prazo prescricional previsto no Código Penal (art. 142,
§2º).
Nos termos do artigo 109 do Código Penal, a prescrição, antes de transitar em julgado a
sentença final, regula-se pelo máximo da pena privativa de liberdade cominada ao
crime. Portanto, na hipótese em que o ato de improbidade administrativa configurar,
igualmente ilícito penal, tendo sido desencadeada a respectiva persecução perante a
instância competente, o prazo prescricional, na ação de improbidade administrativa, será
aquele abstratamente fixado para o tipo penal em questão.

44. As obrigações acessórias tributárias podem ser previstas em atos infralegais?


A CF/88, em seu art. 5º, II, prevê o princípio da legalidade. O constituinte, todavia, no
intuito de legar à sociedade um verdadeiro estatuto do contribuinte, inseriu de forma
específica no rol do art. 150, da seção que trata das limitações ao poder de tributar.
Assim, é expressamente vedado aos entes tributantes “exigir ou aumentar tributo sem lei
que o estabeleça".
De outro lado, a obrigação tributária pode ser principal ou acessória. A primeira tem
como objeto, isto é, como prestação, a de adimplir o tributo ou a penalidade pecuniária.
Já a obrigação acessória corresponde a uma obrigação de fazer/não fazer em sentido
amplo.
No que tange à possibilidade de previsão de obrigação acessória tributária ser prevista
em atos infralegais, já decidiu o STJ que é perfeitamente possível vez que, quando o
legislador complementar pretendeu limitar o assunto à lei em sentido material e formal,
fê-lo expressamente, como ao prescrever que o fato gerador da obrigação principal
decorre de lei e ao qualificar a “obrigação” como sendo “principal” para fins da reserva
legal. Ademais, a obrigação acessória impõe apenas um dever de fazer, não fazer ou
tolerar, não podendo o Estado compelir o contribuinte à prestação in natura, mas apenas
sancionar o descumprimento com pena pecuniária.

45. Qual o momento consumativo dos crimes de furto e roubo?


Quatro teorias procuram definir o momento consumativo do crime de furto e do roubo,
a saber: a) Contrectatio, segundo a qual a consumação ocorre com o simples contato
entre o agente e a coisa alheia; b) Aprehensio (ou Amotio), que prevê que a consumação
acontece no momento em que a coisa é retirada da esfera de disponibilidade da vítima
(inversão da posse), mesmo que o agente só tenha a res furtiva por breve espaço de
tempo e que ele seja logo perseguido pela polícia ou pela vítima, não sendo necessária a
posse mansa e pacífica do ladrão sobre o bem; c) Ablatio, pela qual a consumação
ocorre quando a coisa, além de apreendida, é transferida de um lugar para outro; e d)
Ilatio, para a qual a consumação só ocorre quando a coisa é levada ao local desejado
pelo agente para tê-la a salvo.
O STF e o STJ adotam a Teoria da Apreehensio (ou Amotio) em relação ao momento
consumativo tanto do crime de furto quanto do crime de roubo.
Em sede de julgamento de recursos repetitivos, o STJ entendeu que o crime de furto se
consuma com a posse de fato da res furtiva, ainda que por breve espaço de tempo e
seguida de perseguição do agente, sendo desnecessária a posse mansa e pacífica ou
desvigiada.
Quanto ao roubo, o STJ publicou o verbete n. 582 de sua súmula de jurisprudência, com
o seguinte enunciado: “Consuma-se o crime de roubo com a inversão da posse do bem
mediante emprego de violência ou grave ameaça, ainda que por breve tempo e em
seguida à perseguição imediata ao agente e recuperação da coisa roubada, sendo
prescindível a posse mansa e pacífica ou desvigiada.”

46. A coleta de material genético de pessoa, sem o seu consentimento, para fins de
prova em processo penal, é possível?
A questão deve ser analisada à luz da ponderação dos princípios da não
autoincriminação e da proibição de proteção deficiente dos bens jurídicos e do interesse
público.
A doutrina divide as intervenções corporais em (a) invasivas, em que há a invasão do
corpo do acusado para a obtenção de provas (ex. coleta de sangue), que, conforme
jurisprudência e doutrina pacíficas, não podem ser realizadas sem o consentimento do
réu; (b) não-invasivas em que a coleta é feita na superfície do corpo do réu ou em
vestígios por ele deixados em objetos (copos, bituca de cigarro, etc.), prevalecendo,
quanto a estas, a posição de que o réu deve tolerá-las, com destaque para julgado
recente do STJ no sentido de ser lícita a análise de material genético encontrado em
saliva presente em copo, por ser tal objeto público, uma vez descartado pelo réu; (c) que
exigem cooperação ativa do réu, ou seja, uma atividade (ex. colheita de assinatura),
sendo inadmitida pela doutrina e jurisprudência com base no mencionado princípio do
nemo tenetur s detegere; e (d) que exigem cooperação passiva do réu, ou seja, ele nada
faz, apenas tolera a atividade probatória (ex. submete-se ao raio X), sendo estas
majoritariamente aceitas.
Por fim, insta rememorar a Lei 12.654/12, que prevê a identificação criminal do réu por
meio de coleta de material biológico ou genético, em ações criminais (segundo a
doutrina e jurisprudência majoritária, apenas com seu consentimento, como forma de
possibilitar sua defesa) e dos condenados por crimes hediondos e cometidos mediante
grave violência (esta obrigatória, pela lei), para a formação de um banco nacional de
dados, os quais não podem ser utilizados para fins diversos daqueles ali previstos.

47. A prática de refinanciamento (hipoteca reversa, empréstimo com garantia,


equity loan ou home loan) pela qual um mutuário levanta dinheiro pela via de
empréstimo bancário dando em caução um bem (móvel ou imóvel) que já era
proprietário para ser alienado fiduciariamente em favor do mutuante é lícita no
Brasil ou fraudaria a garantia fiduciária ante a não existência de um terceiro
vendedor do bem no negócio?
A alienação fiduciária em garantia é o contrato pelo qual alguém, que é devedor, para
garantir o adimplemento da obrigação e manter-se na posse direta do bem, compromete-
se a transferir a propriedade de uma coisa ou a titularidade de um direito a uma outra
pessoa, o credor, o qual, por sua vez, fica adstrito a retransmitir a propriedade assim que
paga a dívida garantida (propriedade resolúvel).
Destarte, o credor fiduciário será proprietário resolúvel e possuidor indireto,
independentemente da tradição efetiva do bem, tornando-se o alienante ou devedor
possuidor direto e depositário com todas as responsabilidades e encargos que lhe
incumbem.
Registra-se que são institutos distintos: alienação fiduciária (contrato que institui a
garantia) e propriedade fiduciária (a garantia real instituída). Com efeito, há um tríplice
regime normativo da propriedade fiduciária sobre bens corpóreos: i) o Código Civil:
disciplina a propriedade fiduciária sobre coisas móveis infungíveis qualquer que seja o
credor; ii) o artigo 66-B da Lei 4.728/65 cumulado com o Decreto-lei 911/69:
disciplinam a propriedade fiduciária sobre coisas móveis fungíveis e infungíveis quando
o credor for instituição financeira; e iii) a Lei 9.514/97: trata da propriedade fiduciária
sobre imóveis, qualquer que seja o credor.
Outrossim, o credor fiduciário pode ser pessoa física ou pessoa jurídica, bem como há
um desdobramento da posse, ou seja, há constituto possessório. Com efeito, o constituto
possessório é meio de aquisição fictícia da posse, vez que prescinde de apreensão física
da coisa. Assim ocorre quando o comprador já deixa a coisa comprada em poder do
vendedor, seja em comodato (empréstimo de coisa infungível), seja em locação, por
exemplo. Destarte, a transmissão da posse se deu por força de contrato; não em virtude
de apreensão física. Ressalta-se que, conforme entendimento sumulado pelo Superior
Tribunal de Justiça, o bem móvel objeto da alienação fiduciária, pode ser um bem não
integrante do patrimônio do devedor ou já integrante do patrimônio do devedor.
No caso do refinanciamento, a coisa dada em garantia já era de propriedade do
fiduciante, ou seja, não existe um terceiro vendedor do bem no negócio. É correto
afirmar que essa prática, também conhecida como hipoteca reversa, é lícita e
plenamente aceita no Brasil, visto que o STJ editou o enunciado de súmula nº 28, que
estipula que o contrato de alienação fiduciária em garantia pode ter por objeto bem que
já integrava o patrimônio do devedor.

48. Imagine a seguinte situação: Neymar, residente em São Miguel do Oeste/SC,


adquiriu conjuntamente passagens aéreas da Companhia do Ar, trechos de ida e
volta, para a cidade do Rio de Janeiro/RJ, pretendendo desfrutar merecidas férias
na Cidade Maravilhosa. Contudo, por motivos pessoais, Neymar não pôde
comparecer na data marcada para a sua partida, adquirindo, assim, passagem
aérea de outra empresa para o trecho de ida até o Rio de Janeiro. Ao término do
período de descanso, já no Aeroporto Santos Dumont (SDU-RJ), Neymar dirigiu-
se ao balcão da Companhia do Ar para o “check-in”, tendo sido informado que o
não comparecimento do passageiro para o trecho de ida (“no-show”) resultou no
cancelamento automático da viagem de volta, conforme disposição contratual, e,
ainda, foi alertado que os voos adquiridos estavam sob operação da empresa Low
Air, parceira daquela Companhia. Inconformado, Neymar ajuizou ação de rito
ordinário contra a Companhia do Ar, objetivando o pagamento de indenização por
danos materiais e morais, diante dos transtornos profissionais e familiares que lhe
foram acarretados. A empresa ofereceu contestação oportunamente. Em suma,
defendeu a validade da cláusula contratual que prevê o cancelamento automático
da passagem aérea de retorno, tendo em vista que o passageiro não embarcou no
voo antecedente, além de denunciar à lide a empresa Low Air, que seria
responsável por efetivar o transporte aéreo então contratado. Nesse cenário,
analise a plausibilidade jurídica das alegações da empresa demandada.
Necessário ressaltar, de início, que, em se tratando de contrato de prestação de serviço
de transporte firmado entre pessoa física e a companhia aérea, plenamente aplicáveis as
normas previstas no Código de Defesa do Consumidor, em conformidade com o que
estatuem os artigos 2º e 3º do Código Consumerista.
No tocante à validade da cláusula contratual prevendo o cancelamento automático da
passagem aérea de retorno quando o consumidor não tenha embarcado na passagem de
ida, o Superior Tribunal de Justiça tem entendimento firmado no sentido da
ilegalidade/invalidade de tal disposição contratual, sendo considerada abusiva a prática
de condicionar a manutenção da reserva do voo de volta ao embarque do passageiro no
voo de ida.
Para o Tribunal da Cidadania, o cancelamento da passagem, no caso em exame, está em
desacordo com dispositivos do Código de Defesa do Consumidor que vedam o
enriquecimento ilícito, a venda casada e a deficiência na informação sobre o serviço e
produtos prestados (artigos 6º, inciso III; e 39, incisos I e V; do Código Consumerista).
Desse modo, o cancelamento da passagem de volta pela empresa aérea significa a
frustração da utilização de um serviço pelo qual o consumidor pagou, a caracterizar,
claramente, o cumprimento adequado do contrato por uma das partes e o
inadimplemento desmotivado pela outra. Esse também é o entendimento da Agência
Nacional de Aviação Civil (Anac), que também já se posicionou sobre o cancelamento
automático do trecho de retorno. De acordo com a normativa que trata das Condições
Gerais de Transporte Aéreo (CGTA), que entrou em vigor em março de 2017, a prática
é proibida.
Por fim, no tocante à denunciação da lide, o Superior Tribunal de Justiça assentou
entendimento no sentido de que a vedação de utilização de tal instituto prevista no
artigo 88 do Código de Defesa do Consumidor não se restringe à responsabilidade de
comerciante por fato do produto (artigo 13), sendo aplicável também nas demais
hipóteses de responsabilidade civil por acidentes de consumo.
Foi propósito do legislador não permitir a denunciação da lide de modo a não retardar a
tutela jurídica do consumidor, dando celeridade ao seu pleito indenizatório, evitando a
multiplicação de teses e argumentos de defesa que dificultem a identificação da
responsabilidade do fornecedor do serviço. Na hipótese, porém, de deferimento da
denunciação sem insurgência do consumidor legitimado a tal, opera-se a preclusão,
sendo descabido ao corréu fornecedor invocar em seu benefício a regra de afastamento
da denunciação. Trata-se de direito subjetivo público assegurado ao consumidor para a
facilitação de sua defesa.

49. Em relação à demarcação de terras indígenas, disserte sobre a tese jurídica do


marco temporal.
A demarcação das terras indígenas encontra sua previsão no art. 231 da CF, que
menciona "direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupem". Ressalta-
se que a previsão de proteção às terras indígenas data da Constituição Federal de 1934.
Embora a Constituição Federal não tenha estabelecido qualquer marco temporal de
ocupação para fins de demarcação, o STF, no julgamento do 'leading case', Reserva da
Raposa do Sol, em voto do Relator Ministro Ayres Britto, colocou como requisitos para
o reconhecimento dos direitos dos índios sobre as terras para fins de demarcação, dentre
outros, a tradicionalidade da ocupação e o marco temporal de ocupação como sendo
aquelas ocupadas por estas comunidades à data da promulgação da Constituição
Federal. Trata-se de uma tese restritiva aos direitos dos índios e que desconsidera todo o
panorama histórico e antropológico da violenta ocupação destas terras por brancos e o
chamado 'esbulho renitente', ou seja, o fato de que muitas das terras que já não eram
ocupadas pelos índios, quando da promulgação da Constituição, foram objeto de
esbulho por parte de outros grupos ou até mesmo pelo Estado (frise-se que, dentre as
conclusões da Comissão da Verdade, encontra-se o genocídio de mais de 10.000 índios,
com a participação de agentes do Estado).
Por essas razões, a tese do marco temporal não é aceita pela Corte Interamericana (casos
julgados contra Paraguai e Nicarágua), segundo a qual a noção de propriedade coletiva
dessas comunidades deve ser respeitada, como parte do princípio democrático, devendo
ser considerados para fins de demarcação e proteção para além dos liames materiais
(ocupação física), aqueles de ordem espiritual, psicológica, moral e identitária de tais
grupos com as terras.
Ressalta-se que, embora já replicado o entendimento exarado no referido leading case
em um caso envolvendo a nação Kaiowáa, em 2014, recentemente, ao decidir sobre a
constitucionalidade do decreto que demarcou terras de quilombolas, nos termos do art.
68, do ADCT, o STF não aplicou a tese do marco temporal, o que pode representar uma
inflexão da Corte, e provável alinhamento com o entendimento da Corte Interamericana
de Direitos Humanos.

50. Em ação coletiva, há prevenção do juízo da ação coletiva em relação às


liquidações e execuções individuais ajuizadas pelos beneficiários?
Mais do que resolver a crise de certeza do processo de conhecimento, o moderno
processo civil volta sua atenção para resolver a crise de inadimplemento. Nesse ponto, o
art. 516, p. único, do CPC possibilita foros concorrentes para o cumprimento de
sentença, tudo em prol de facilitar a satisfação direito. A tutela coletiva segue pelo
mesmo caminho.
Nesse contexto, o STJ já afirmou a inexistência de prevenção do juízo da ação coletiva
em relação às liquidações e execuções individuais ajuizadas pelos beneficiários. De
fato, não haveria interesse apto a justificar tal prevenção. Se no processo de execução
individual o próprio CPC admite juízos alternativos para liquidação e execução, com
muito mais razão deve ser admitida essa pluralidade nas ações coletivas.
Deveras, ao interpretar de forma sistemática o CPC com os arts. 98 e 101, I, do CDC, o
STJ concluiu que o beneficiário da sentença coletiva pode optar pela liquidação e
execução no juízo da ação de conhecimento, no juízo do domicílio do executado, ou no
juízo no qual o executado tenha bens passíveis de execução.

51. É correto afirmar que a limitação administrativa imposta à propriedade


privada, considerando as restrições que acarreta ao exercício pleno dos poderes
inerentes ao domínio, gera, em qualquer caso, direito ao pagamento de indenização
pelo Poder Público?
A intervenção estatal na propriedade privada, fundamentada pelo princípio da
supremacia do interesse público sobre o particular, busca conciliar o direito de
propriedade com os interesses da coletividade, atendendo à sua função social, conforme
preceitua o art. 5º, inc. XXIII, da Constituição Federal.
Nesse sentido, a limitação administrativa, espécie de intervenção restritiva da
propriedade, consiste em uma restrição geral e abstrata sobre o bem particular,
atingindo, portanto, proprietários indeterminados.
Em virtude do seu caráter abstrato, afetando a coletividade como um todo, sem
configurar dano específico e anormal a um particular, ou a um grupo determinado de
particulares, é unânime o entendimento de que a limitação administrativa, em regra, não
gera qualquer direito à indenização ao proprietário do bem, motivo pelo qual a
afirmação contida no enunciado está incorreta.
Não obstante, é certo que, excepcionalmente, havendo onerosidade excessiva ao
particular, com esvaziamento econômico de propriedade, a jurisprudência admite o
reconhecimento do direito à indenização, condicionada à propositura de ação de direito
pessoal em face do Estado, no prazo prescricional de 5 anos, e desde que a limitação
administrativa tenha se instituído após a aquisição do bem pelo respectivo proprietário.
52. Município ajuíza ação de execução fiscal perante juiz de direito contra devedor
solvente no curso da qual ocorre penhora, leilão, arrematação de bem imóvel e
depósito do preço nos autos. Antes do levantamento do valor pela edilidade,
fundação de direito público federal peticiona nos autos protestando que o produto
da alienação seja-lhe transferido porque em outra ação de execução fiscal, que
corre perante juiz federal, também penhorara o referido imóvel, ainda que a
lavratura do auto de penhora e respectivo registro tenham ocorrido
posteriormente à constrição promovida pelo juiz de direito. Qual crédito será
satisfeito em primeiro lugar, na hipótese de o valor do produto da arrematação ser
insuficiente para quitar tanto a dívida ativa municipal quanto a federal? Quem
decidirá a questão, o juiz de direito ou o federal?
O crédito a ser satisfeito em primeiro lugar, caso o valor do produto da arrecadação seja
insuficiente para quitar tanto a dívida ativa municipal quanto a federal, é, via de regra, o
da Fazenda Pública federal, tendo em vista que o art. 187 do CTN e o art. 29 da Lei
6.830/80 (LEF) estipulam que a União e suas autarquias terão preferência na cobrança
judicial da dívida ativa da Fazenda Pública sobre os demais entes federativos, de modo
que a doutrina e os Tribunais Superiores conferem interpretação extensiva de tais
créditos às fundações de direito público (fundações autárquicas).
Assim, o STF compreendeu, de acordo com a súmula 563, que o concurso de
preferência do art. 187, parágrafo único, do CTN, é compatível com o princípio
federativo, especificamente naquilo que dispõe o art. 19, III, da CRFB/88; e, com fulcro
no art. 187 do CTN e no art. 29 da LEF, o STJ editou a súmula 497, a qual aduz que os
créditos das autarquias federais preferem aos da Fazenda Estadual, na condição de que
coexistam penhoras sobre o mesmo bem.
Diante disso, impende-se afirmar que não é possível que a União, por simples petição
nos autos, reclame seu direito de preferência sobre o produto da penhora de um
determinado bem, sendo indispensável que haja a pluralidade de penhoras sobre o ele no
processo em que suscitar o concurso, ainda que a lavratura do auto de penhora e o
respectivo registro no CRI tenham ocorrido posteriormente à constrição promovida por
juiz de direito.
Note-se que, não ocorrendo o levantamento do valor pela municipalidade, mesmo após
a arrematação, ainda é possível que a Fazenda Pública federal invoque seu direito de
preferência perante o juízo executivo estadual, pois a obrigação em face da edilidade
ainda não está satisfeita (art. 924, II, do CPC), não se tendo ainda configurado o "fato
consumado".
Quanto ao juízo competente para decidir a questão, a súmula 270 do STJ assevera que o
protesto pela preferência de crédito (realizado por meio de petição nos autos ajuizada
pela fundação de direito público federal) apresentado pelo ente federal, em execução
cujo trâmite se dá perante a Justiça Estadual, não desloca a competência para a Justiça
Federal. Por isso, a execução fiscal que corre junto ao juiz de direito continuará a
tramitar no âmbito do juízo executivo estadual e a outra ação executiva fiscal, que corre
perante o juízo federal, é de competência da Justiça Federal.
Observe-se, além disso, que o caso perante o órgão judiciário do Estado se trata de
simples intervenção de fundação pública federal em concurso de preferência, a qual não
ostenta a condição de autora, ré, assistente ou opoente no que tange o processo
executivo.
Por fim, é interessante apontar que a ideia de conferir preferência à União e suas
autarquias em face de outros entes federativos nos feitos executivos ficais se dá porque
deve prevalecer, em caso de conflito de interesses, o daquele que atender o maior
número de pessoas, já que é a União, na repartição constitucional de receitas, quem
repassa obrigatoriamente parte de sua arrecadação aos demais entes da Federação.
53. O afastamento cautelar liminar de servidor público, em sede processual penal,
tem prazo definido? E quanto aos vencimentos? Há suspensão do pagamento?
Dentre as medidas cautelares alternativas à prisão preventiva, previstas no artigo 319 do
Código de Processo Penal, inclui-se a suspensão do exercício de função pública quando
houver justo receio de sua utilização para a prática de infrações penais (inciso IV). A lei
processual penal, diferentemente do que ocorre no afastamento em sede administrativa
para apuração disciplinar (art. 147, Lei 8.112), não prevê prazos máximos para duração
da medida.
Aplicam-se, então, segundo orientação dos Tribunais Superiores, os critérios de
razoabilidade e proporcionalidade, isto é, os mesmos incidentes para as medidas
cautelares pessoais penais em geral.
Assim, a análise de eventual excesso de prazo na manutenção da cautelar deve se dar no
caso concreto, considerando-se a complexidade dos fatos apurados, o número de
acusados e de testemunhas, e sua localização - dado que, se fora da seção judiciária,
deverão ser ouvidos mediante carta precatória -, a eventual necessidade de exame
pericial e, até mesmo, a atuação da defesa, possivelmente protelatória.
Em havendo o afastamento cautelar do servidor público, entende de forma assente o
Superior Tribunal de Justiça que não podem ser suspensos a remuneração e o exercício
de direitos e vantagens, por força do princípio da não culpabilidade e da garantia de
irredutibilidade de vencimentos.
Cabe destacar, nessa linha, que quanto ao delito de lavagem de dinheiro, há previsão
especial na lei de regência no sentido de que o afastamento de servidor público, após o
indiciamento promovido por autoridade policial, não compromete a remuneração e
eventuais direitos assegurados por lei (art. 17-D, Lei 9.613).
Por outro lado, em relação ao prazo de duração da medida, este não pode ser
indeterminado. Primeiro, porque o ente público, ao ser comunicado da medida, tem o
dever de apurar a responsabilidade do investigado, aplicando a sanção cabível; segundo,
porque o juiz tem obrigação de acelerar a instrução nesse caso; terceiro, porque não
pode o Estado desembolsar remuneração ad eternum a quem não trabalha.
Nesse sentido, a melhor solução é a aplicação do prazo do art. 147 da Lei n. 8112/90,
que prevê prazo máximo de 120 dias para o afastamento cautelar do servidor sujeito a
processo disciplinar, que se consubstancia como prazo suficiente para que a
Administração finalize o processo punitivo, aplicando, se for o caso, a pena máxima de
demissão, e para que o juiz finalize, em regra, os atos instrutórios.
Sobre a necessidade de prazo em relação à medida de afastamento e a impossibilidade
de descontos dos vencimentos dos servidores, há jurisprudência dominante do Superior
Tribunal de Justiça, embora, em alguns casos, como de afastamento de mandato, a Corte
tenha estipulado prazo de 180 dias.

54. É admissível que uma norma inscrita na Constituição de determinado Estado-


membro estabeleça a competência da Câmara Municipal para julgar as contas que
o presidente do Poder Legislativo Municipal deve prestar anualmente, após
parecer prévio emitido pelo respectivo Tribunal de Contas?
Conforme decisão proferida pelo STF em controle concentrado de constitucionalidade,
é inadmissível norma de constituição estadual que preveja a competência da Câmara
Municipal para julgar as contas do presidente do Poder Legislativo Municipal, após
parecer emitido pelo respectivo Tribunal de Contas.
No exercício do poder constituinte derivado decorrente, os estados-membros devem
respeitar os limites impostos pelas normas fundamentais da Constituição Federal, em
face do princípio da simetria. Assim, a capacidade de auto-organização das unidades
federativas não é ilimitada, encontrando-se submetida a parâmetros fixados pela
Constituição da República.
Aplicando o princípio da simetria, o Supremo Tribunal Federal entende que o modelo
federal de organização do Tribunal de Contas é norma de observância obrigatória nas
constituições estaduais, tendo em vista o art. 75 da CF. E, também segundo o STF, a
Constituição estabelece duas competências autônomas e distintas do Tribunal de
Contas: (1) elaborar parecer prévio acerca das contas prestadas pelo chefe do Poder
Executivo, para posterior julgamento pelo Poder Legislativo (art. 71, I) e (2) julgar as
contas dos demais administradores. Dessa forma, a norma estadual que retira a
competência do Tribunal de Contas para julgar as contas prestadas por administradores
diversos do chefe do Poder Executivo contraria os parâmetros da Constituição Federal.
Ademais, o art. 31, §2º, da CF estabelece a competência da Câmara Municipal para
julgar as contas do Prefeito, após parecer do tribunal de contas, sem abrir margem para
a ampliação desse papel em relação a outros administradores.
Portanto, a norma de constituição estadual que atribui à Câmara Municipal competência
para julgar as contas de seu próprio presidente modifica o modelo estabelecido pela
Constituição Federal, que confere esse papel aos tribunais de contas. É, por isso,
inconstitucional.

55. Analise a posição do STJ sobre a persistência ou não da possibilidade de


purgação da mora pelo devedor fiduciante nos contratos de alienação fiduciária
em garantia envolvendo bens móveis pelo Decreto-Lei 911/69 e imóveis pela Lei
9.514/97.
Mora é o inadimplemento relativo, que ocorre quando a obrigação não é cumprida no
modo, tempo e lugar acertados, mas ainda subsiste interesse do credor em sua realização
(art. 394, CC/02). A purgação da mora corresponde à eliminação da imperfeição no
cumprimento da obrigação (art. 401, CC/02).
Em relação à possibilidade de purgação da mora nos contratos de alienação fiduciária
em garantia envolvendo bens móveis regidos pelo Decreto-Lei 911/69, deve-se ter como
baliza a publicação da lei 10.931/04, que alterou o art. 3º, §§ 1º e 2º daquele diploma. A
antiga redação do dispositivo permitia que o devedor, uma vez citado, pudesse requerer
a purgação da mora, desde que já efetuado o pagamento de 40% do preço financiado. O
STJ chegou inclusive a editar a Súmula 284 sobre esse tema. Entretanto, a nova redação
do art. 3º, §§ 1º e 2º acabou com a possibilidade de purgação da mora.
Atualmente, executada a liminar de busca e apreensão, haverá a consolidação da
propriedade e posse plena e exclusiva do bem nas mãos do credor fiduciário. A partir da
execução da medida, o devedor terá o prazo de 5 dias para pagar a integralidade da
dívida e, se assim o fizer, o bem lhe será restituído livre de ônus. Não há, portanto,
purgação da mora, visto que o devedor não tem a opção de regularizar o cumprimento
imperfeito existente até aquele momento de forma isolada. Ou seja, ele apenas tem a
possibilidade de quitar a obrigação por completo, pagando parcelas vencidas e
vincendas. A exposição acima foi consagrada em Recurso Repetitivo do STJ.
Em relação aos contratos de alienação fiduciária de bens imóveis, o regramento da lei
9.514/97 aponta conclusão em sentido diverso. O STJ entende que mesmo que já
consolidada a propriedade do imóvel dado em garantia em nome do credor fiduciário, é
possível, até a assinatura do auto de arrematação, a purgação da mora. Essa
possibilidade decorre de três pontos. O primeiro é que, nos termos do art. 27 da lei
9.514/97, o credor não incorpora o bem ao seu patrimônio, já que deverá promover
leilão público do imóvel. O segundo é que, apesar da consolidação da propriedade, o
contrato de mútuo subjacente não se extingue, uma vez que o credor fiduciário deve
providenciar a venda do bem. O contrato que serve de base para a existência da garantia
só se extingue com a alienação em leilão público do bem objeto de alienação fiduciária,
a partir da lavratura do auto de arrematação. O terceiro é que o art. 39, II da lei 9.514/97
prevê que a aplicação subsidiária do DL 70/1966. O art. 34 do DL 70/1966, por sua vez,
prevê que "é lícito ao devedor, a qualquer momento, até a assinatura do auto de
arrematação, purgar o débito". Além disso, a purgação da mora até a data da
arrematação atende a todas as expectativas do credor quanto ao contrato firmado, visto
que o crédito é adimplido.

56. No âmbito do direito internacional, qual a diferença entre normas jus cogens e
obrigações erga omnes?
No âmbito internacional, em que pese a proximidade entre as normas jus cogens e
obrigações erga omnes, como relação ao escopo comum de proteção dos valores
fundamentais para a comunidade internacional, tais institutos não se confundem.
As normas jus cogens são aquelas aplicáveis a todos, de caráter inderrogável e
hierarquicamente superiores, eis que, além de implicar o reconhecimento de direito
material, só podem ser substituídas por outras normas de jus cogens. Ademais, na
doutrina, André Ramos aduz que seria erro grosseiro afirmar que essas normas se
diferenciam das obrigações erga omnes em função de seu caráter de obrigatoriedade,
pois ambas são obrigatórias, mas se diferenciam em função de sua superioridade em
relação a estas.
Doravante, a Convenção de Viena dos Direitos dos Tratados, de 1969, reconheceu as
normas em comento, afirmando que os tratados internacionais contrários a tais normas
são nulos e devem ser extirpados da ordem internacional.
No tocante ao seu conteúdo, relacionam-se em sua maioria com normas de direitos
humanos, ao argumento de estas serem de ampla concordância da comunidade
internacional.
A seu turno, as obrigações erga omnes são normas relacionadas à amplitude da
aplicação das normas de direito internacional, aplicáveis, sem exceção, a todos os
sujeitos de direito internacional. Ademais, tais obrigações advêm do direito costumeiro
internacional, que trata de bens jurídicos cuja proteção é de interesse e responsabilidade
de todos os Estados, estabelecendo-se obrigações de respeito, como no caso do respeito
ao direito à autodeterminação dos povos (art. 1.2 Carta da ONU). Entretanto, tais
normas são derrogáveis, ou seja, podem ser substituídas por outras normas de direito
internacional.

57. Empresas estatais estão sujeitas a regime falimentar? Justifique.


Até a entrada em vigor da Lei 11.101/2005, estabeleceu-se certa polêmica acerca da
submissão ou não das empresas públicas e das sociedades de economia mista, quando
exploradoras de atividade econômica, ao regime jurídico falimentar até então regulado
pelo Decreto-lei 7.661/1945 (antiga lei de falências).
Como se sabe, as empresas públicas e sociedades de economia mista são entes
integrantes da chamada Administração Pública Indireta, podendo ser prestadoras de
serviços públicos ou exploradoras de atividade econômica, hipótese em que funcionam
como instrumentos estatais para exploração direta de atividades econômicas (art. 173,
caput, da CF/1988).
A polêmica em foco era alimentada, basicamente, pelo art. 173, § 1º, II, da Carta
Magna, o qual sujeita as estatais ao regime jurídico próprio das empresas privadas,
inclusive quanto aos direitos e obrigações civis, comerciais, trabalhistas e tributários.
Interpretando esse dispositivo constitucional, defendiam alguns autores que as empresas
públicas e sociedades de economia mista, quando constituídas para a exploração de
atividade econômica, deveriam submeter-se ao regime jurídico falimentar aplicável às
empresas privadas. Contribuiu para esse entendimento se formar a revogação do art. 242
da Lei 6.404/1976 (Lei das Sociedades por Ações), que expressamente excluía as
sociedades de economia mista do procedimento falimentar. Essa revogação reforçou o
posicionamento dos que defendiam a sujeição dessas entidades – e paralelamente das
empresas públicas – ao regime jurídico falimentar.
No entanto, com a vigência da Lei 11.101/2005, a discussão ganhou novos contornos,
porque a referida lei, em seu art. 2º, I, expressamente determinou que ela não se aplica a
“empresa pública e sociedade de economia mista”, sem proceder a qualquer distinção
entre as prestadoras de serviços públicos e as exploradoras de atividade econômica.
Diante de tal fato, pode-se afirmar, com certa segurança, que o regime disciplinado na
atual Lei de Falência e Recuperação de Empresas não se aplica às empresas públicas
nem às sociedades de economia mista, ainda que sejam exploradoras de atividade
econômica. Não obstante, há ainda vozes que advogam a inconstitucionalidade do art.
2º, I, da Lei 11.101/2005, por ser ela incompatível com a já mencionada regra
constitucional do art. 173, § 1º, II, da CF/1988. Outros autores propõem uma
“interpretação conforme” da regra, de modo a permitir que apenas as empresas públicas
e sociedades de economia exploradoras de atividade econômica se submetam aos
ditames da legislação falimentar.

58. Explique a teoria da eficácia horizontal dos direitos fundamentais e responda


se ela é aplicável no direito brasileiro.
Inicialmente, a teoria dos direitos fundamentais girava em torno de sua imposição face
ao Estado, ou seja, tais garantias surgiram para proteção dos indivíduos que sofrem as
consequências do poder estatal. Assim, essa relação vertical (Estado x Particular)
deveria se dar observando os direitos fundamentais. É a denominada eficácia vertical
dos direitos fundamentais. É visão clássica de aplicação dos direitos fundamentais.
Mais recentemente, no período pós-segunda guerra mundial, foi desenvolvida a teoria
da eficácia horizontal dos direitos fundamentais. Tal vertente entende que os direitos
fundamentais também devem ser observados nas relações travadas entre particulares,
uma relação horizontal, portanto (Particular x Particular).
A primeira aplicação prática da teoria da eficácia horizontal dos direitos fundamentais
se deu no conhecido "Caso Luth". No referido caso, a Corte Constitucional Alemã
entendeu que os direitos fundamentais devem nortear as relações entre cidadãos, não
protegendo o indivíduo apenas quando em confronto com o Estado, mas também nos
atos praticados entre particulares.
Quanto à referida teoria, importante ressaltar que ela se subdivide em duas vertentes:
aplicação direta e aplicação indireta. Para os adeptos da aplicação direta, também
denominada imediata, os direitos fundamentais previstos constitucionalmente incidem
diretamente nas relações entre particulares, sendo desnecessária a intermediação de lei
prevendo tal aplicação. Já para a outra corrente, qual seja, a aplicação indireta ou
mediata, para que os direitos fundamentais tenham a eficácia horizontal, faz-se
necessária a existência de lei, determinando que a garantia constitucional incida nos atos
particulares.
No Brasil, o STF tem entendimento pacífico de que os direitos fundamentais devem ser
observados também nas relações entre particulares, tendo claramente adotado a teoria da
eficácia horizontal. A Corte, ademais, entende que tal proteção incide diretamente,
sendo prescindível a edição de lei para que os cidadãos observem os direitos
fundamentais nos atos que pratiquem entre si.
Uma das primeiras aplicações da referida teoria no país ocorreu no caso de um músico
expulso da Ordem dos Músicos sem o devido respeito ao contraditório e à ampla defesa.
O Supremo anulou a decisão do órgão profissional, determinando que o processo
administrativo de expulsão de filiado deveria observar os direitos fundamentais
constitucionais, dentre eles o contraditório e a ampla defesa, possibilitando que o
particular se defenda de acordo com o devido processo legal.
59. Para o STJ o declarado pelas partes como avaliação ou preço do imóvel é
relevante para fins de aplicação do art. 108 do CC, que exige a forma pública para
a validade dos negócios jurídicos em geral que envolvam bens imóveis superiores a
30 (trinta) salários mínimos?
O STJ acolheu a tese de que, para a aferição do valor do imóvel para fins de exigência
de escritura pública, deve-se considerar o valor atribuído pelo Fisco no lançamento
tributário e não o declarado pelos particulares no contrato de compra e venda. Havendo
disparidade entre ambos, aquele é que deve ser considerado para aferir a exigência da
forma pública. O valor venal do imóvel, por ser critério objetivo, permitiria aos
interessados, prévia e cabalmente, saber de todos os requisitos de validade na formação
do negócio jurídico, inclusive a forma pública ou privada, diretamente atrelada ao
quantum atribuído ao bem.
Outro argumento que balizou o entendimento do STJ pela opção da avaliação pelo
Fisco, sempre que o valor atribuído pelas partes tenha sido inferior a 30 salários
mínimos para aferir a exigência ou não de escritura pública, foi que a literalidade do art.
108 do CC se refere ao “valor do imóvel” e não “preço do negócio”, o qual, aliás,
sequer existiria nos negócios jurídicos gratuitos, a exemplo da doação.
O art. 108 do Código Civil dispõe que, em regra, a validade dos negócios jurídicos que
visem à constituição, transferência, modificação ou renúncia de direitos reais sobre
imóveis de valor superior a 30 (trinta) salários mínimos depende de escritura pública.
Poucos anos após a entrada em vigor do Código Civil de 2002, foi publicado enunciado
do CJF, resultado da IV Jornada de Direito Civil, no sentido de que, para os fins do art.
108 do CC, deveria ser considerado o valor atribuído ao imóvel pelos contratantes, e
não qualquer outro valor fixado pela Administração Pública.
Contudo, como já mencionado, esse entendimento foi superado. Atualmente, para o
STJ, o valor do imóvel a ser considerado, para os fins do art. 108 do CC, é aquele
atribuído pelo Fisco, e não o valor declarado pelas partes do negócio jurídico.
Há, em suma, quatro argumentos para isso. Primeiro: essa interpretação se mostra
compatível com a finalidade da norma, que é privilegiar a segurança jurídica no tocante
aos negócios jurídicos que envolvam imóveis de elevado valor. Segundo: o Código
Civil se refere ao valor do imóvel, e não ao preço do negócio, de modo que, caso haja
divergência entre um e outro, aquele deve prevalecer. Terceiro: a avaliação do imóvel
pela Fazenda Pública é realizada com base em critérios objetivos, transparentes e
previstos em lei. Quarto: evita-se, assim, a ocorrência de fraudes.
Portanto, de acordo com o STJ, o declarado pelas partes como avaliação ou preço do
imóvel não é relevante para fins de aplicação do art. 108 do Código Civil, pois, nesse
caso, deve prevalecer o valor arbitrado pelo Fisco.

60. Juros e correção monetária em ações envolvendo créditos tributários: disserte


sobre o tema.
O regime jurídico que rege a matéria é o art. 1º-F da Lei 9.494/97, aplicando-se a todas
as condenações impostas à Fazenda Pública, “independentemente de sua natureza”. Mas
há distinções.
O STF julgou inconstitucional este art. 1º-F no ponto da atualização monetária com
índice de caderneta de poupança, quando a relação jurídica for dívida não tributária.
Mas quando a relação jurídica for dívida tributária, julgou que a correção monetária
deve pautar-se nos índices de inflação acumulada no período.
Para os juros moratórios, o STF determinou que (i) nas relações de dívida não tributária,
devem-se seguir os índices de caderneta de poupança, e (ii) nas relações de dívida
tributária, deve-se seguir o art. 161, § 1º, do CTN, à taxa de 1% ao mês, se a lei não
dispuser de forma diversa.
Recentemente, o STJ, no regime dos recursos repetitivos, seguiu o STF e especificou a
forma de exigência dos créditos oriundos de condenações judiciais, os temas
abrangeram: juros de mora; administração em geral; servidores e empregados públicos;
desapropriações diretas e indiretas; natureza previdenciária; e, natureza tributária.
Neste último ponto, o STJ especificou do mesmo modo que o STF, sem regulamentação
específica, no sentido de que se deve seguir o art.161, § 1º, do CTN, e, havendo
previsão legislativa da entidade tributante, será legítimo o uso da taxa Selic, não sendo
acumulável com quaisquer outros índices. E fixou que o art. 1º-F da Lei 9.494/97 não é
aplicável no ponto da atualização monetária, independentemente da natureza de sua
condenação.

61. A afetação de julgamento de habeas corpus ao pleno do STF, cuja competência


seria ordinariamente de uma de suas turmas, viola o princípio do juiz natural?
O princípio do juiz natural, no sistema jurídico brasileiro, decorre da norma inserida no
artigo 5º, inciso LIII, da Constituição da República, segundo a qual ninguém será
processado nem sentenciado senão pela autoridade competente. Desse comando,
inferem-se as garantias de que não haverá juízo ou tribunal de exceção, bem como que
haja a prévia investidura do órgão julgador.
Ao tratar da competência do Supremo Tribunal Federal, o texto constitucional não
desce, naturalmente, à minúcia das atribuições de seus dois órgãos fracionários. Em
tese, portanto, a composição plena da Suprema Corte é competente para prolatar
decisões sobre quaisquer hipóteses abarcadas no artigo 102 da Constituição.
Cumpre ressaltar que o Regimento Interno do STF confere ao ministro relator da ação
de habeas corpus a prerrogativa de remeter ao Plenário o julgamento de HC ou recurso
em HC, consoante artigo 21, inciso XI, do referido texto regimental. Em recente e
específico pronunciamento sobre tal situação, o Plenário do Supremo chancelou a
afetação ao colegiado maior, pelo relator, de habeas corpus cuja competência para
julgamento seria da Turma.
Dessa forma, conclui-se que não há violação ao princípio do juiz natural na hipótese de
julgamento de habeas corpus pelo Plenário, ainda que uma das turmas seja o órgão
ordinariamente competente.

62. A pretensão de adjudicação compulsória de que dispõe o promitente


comprador contra promissário vendedor que se recuse a outorgar a escritura
pública definitiva diante da quitação do preço de instrumento particular de
compromisso de compra e venda de imóvel urbano, sem cláusula de
arrependimento e em caráter irrevogável, está sujeita à prescrição extintiva? Para
responder, enfrente tanto a hipótese de ter havido o registro da promessa de
compra e venda na respectiva matrícula imobiliária como também a hipótese
oposta, de não haver ocorrido qualquer registro do contrato preliminar.
A jurisprudência do STJ é no sentido de que o promitente comprador, desde que tenha
amparo em promessa de compra e venda de imóvel que já tenha sido integralmente
paga, pode requerer judicialmente, a qualquer tempo, a adjudicação compulsória do
imóvel, não se cogitando, assim, de prescrição extintiva, independentemente de ter
ocorrido o registro do contrato compromissório na respectiva matrícula do imóvel.
Isso porque, a adjudicação compulsória é uma ação constitutiva e não declaratória,
sujeita a prazo decadencial e não prescricional, para cujo exercício não há um prazo
especial previsto em lei (como ocorre na ação rescisória, cujo prazo decadencial é de
dois anos), prevalecendo a regra geral da inesgotabilidade temporal ou da perpetuidade,
segundo a qual os direitos não se extinguem em razão do seu não uso.
Além disso, a súmula 239 do STJ aduz que o ajuizamento de adjudicação compulsória
não está condicionado ao registro do compromisso de compra e venda no cartório de
registro de imóveis. Assim, a promessa de compra e venda é uma avença por meio da
qual o promitente vendedor se obriga a assinar e outorgar ao promissário comprador a
escritura pública, após o pagamento integral do preço, consistindo tal dever em uma
obrigação de fazer, sendo o contrato definitivo de compra e venda celebrado somente
após a realização do cumprimento dos deveres a que se obrigaram ambas as partes.
Diante disso, garante-se ao compromissário comprador a propositura da ação de
adjudicação compulsória (art. 501 do CPC) quando a lide estiver fundada na inércia do
promitente vendedor que recebeu o valor pactuado relativo à alienação do imóvel e
deixou de emitir sua respectiva escritura pública de compra e venda.
Note-se que o compromisso de compra e venda se sujeita à boa-fé, tanto sob o aspecto
subjetivo quanto sob o objetivo, em todas as fases da negociação, inclusive na fase de
tratativas, que antecedem a celebração do pacto, e após a entrega das chaves do imóvel
objeto da promessa, desde que relacionado à obrigação decorrente da avença, como é o
caso da outorga da escritura pública.
Além disso, a promessa de compra e venda será válida, mesmo que não haja registro no
cartório, e passará a ter natureza jurídica de direito real à aquisição (art. 1.225, VII, do
CC e art. 1.417 do CC), quando houver o referido registro, passando a ter eficácia em
face de terceiros (art. 1.418 do CC). Nesse sentido, aduz o enunciado 253 das Jornadas
de Direito Civil do CJF que ao compromissário comprador, que tenha o direito real do
art. 1.225, VII, do CC e do art. 1.417 do CC, é facultado reivindicar de terceiro o imóvel
que tenha sido prometido à venda.
Ademais, o ajuizamento de adjudicação compulsória não é uma pretensão inerente a um
direito subjetivo, mas um pedido de efetivação de um direito potestativo, que dispensa
atividade executiva posterior, e que possui a mesma eficácia de uma escritura pública de
compra e venda do imóvel, não estando sujeito a prazo extintivo, devendo-se classificar
como imprescritíveis (já que, caso houvesse, obedeceria a prazo decadencial).
Insta salientar também que o enunciado 95 das Jornadas de Direito Civil do CJF é no
mesmo sentido da súmula 239 do STJ, asseverando que o direito à adjudicação
compulsória (art. 1.418 do CC), se exercido contra o promitente vendedor, não se
condiciona ao registro do compromisso no cartório de registro de imóveis (CRI).
Por fim, é interessante apontar que, estando o contrato antecipatório da compra e venda
registrado no CRI, o promissário comprador poderá ajuizar adjudicação compulsória
com base em rito sumário, previsto no art. 25 da Lei 6.766/79 e no art. 15 do DL 58/37
e, caso contrário, a referida ação será proposta como uma ação de conhecimento de rito
ordinário (arts. 318 e ss. do CPC).

63. O Ministério Público, em 01.02.2008, ingressou com ação penal em face de Jair,
acusando-o do cometimento do crime de furto qualificado por rompimento de
obstáculo (art. 155, §4º, I, do CP), crime cuja pena é de 2 a 8 anos. A denúncia foi
recebida em 01.02.2012 e até o presente momento (13.04.2018) o feito não foi
sentenciado. Sob a ótica das regras penais que regulam a prescrição, é possível
reconhecer a extinção da punibilidade por esta causa? Levando-se em conta que as
circunstâncias objetivas e subjetivas do delito não imponham qualquer majoração
da pena para além da sanção mínima, tendo em vista a jurisprudência do Superior
Tribunal de Justiça, é possível o reconhecimento da prescrição em perspectiva?
O Código Penal, ao tratar do tema, divide a prescrição em duas espécies: a) prescrição
antes de transitar em julgado a sentença (artigo 109); b) prescrição depois de transitar
em julgado sentença final condenatória (artigo 110). Doutrinariamente, a prescrição é
dividida em prescrição da pretensão punitiva e prescrição da pretensão executória. A
prescrição da pretensão punitiva desdobra-se em: prescrição da pretensão punitiva
propriamente dita; prescrição superveniente ou intercorrente; prescrição retroativa; e
prescrição antecipada, projetada, virtual ou retroativa em perspectiva.
A prescrição da pena antes do trânsito em julgado da sentença é regida pelo artigo 109,
do CP, calculada segundo o máximo da pena privativa de liberdade, segundo as
proporções constantes dos respectivos incisos. Segundo o disposto no artigo 111, I, do
CP, o termo inicial da prescrição corresponde à data em que consumado o delito,
figurando como causa de interrupção o recebimento da denúncia, conforme previsto no
artigo 117, I, do CP.
No caso concreto, a partir da data de recebimento da denúncia (01/02/2012), a
prescrição antes da sentença ocorreria somente doze anos depois (01/02/2024), por força
do comando contido no artigo 109, III, do CP, dado que a pena privativa de liberdade
máxima em abstrato cominada ao delito corresponde a 8 (oito) anos. Por essa razão, até
o presente momento (13/04/2018), não houve o decurso do prazo prescricional da
pretensão punitiva estatal. Assim, não há que se falar em prescrição em abstrato.
A prescrição antecipada, projetada, virtual ou retroativa em perspectiva, objeto do
segundo questionamento, muito embora seja objeto de discussão doutrinária sobre a sua
aplicação, não encontra previsão legal, sendo uma construção doutrinária e
jurisprudencial, tendo como fundamentos a economia e falta de interesse processual.
Ademais, ainda que diante da possível fixação da pena em concreto em seu mínimo
legal, não se mostra possível a aplicação da prescrição retroativa, prevista no artigo 110,
§ 1º, do CP, em perspectiva, conforme entendimento do Superior Tribunal de Justiça
consubstanciado na Súmula nº 438, posicionamento igualmente encampado pelo
Supremo Tribunal Federal.
Este o teor da súmula 438: “é inadmissível a extinção da punibilidade pela prescrição da
pretensão punitiva com fundamento em pena hipotética, independentemente da
existência ou sorte do processo penal”.
Isso se dá porque o cálculo da prescrição retroativa deve ser feito com base na pena
concretamente imposta e depende, necessariamente, do trânsito em julgado da decisão
para a acusação, o que representa evento incerto. Somente diante disso é que será
possível efetuar o cálculo retroativo da pena imposta até o marco anterior interruptivo
da prescrição, no caso, o recebimento da denúncia.Contudo, previamente a qualquer
decisão ou sorte do processo, figura inviável o reconhecimento da prescrição virtual.

64. Disserte sobre a possibilidade de reversão legislativa da jurisprudência do


Supremo Tribunal Federal.
As decisões definitivas de mérito proferidas pelo STF em controle concentrado de
constitucionalidade (ADI, ADC, ADO e ADPF) (arts. 102, § 2º, da CRFB, 28, parágrafo
único, da Lei n. 9.868/1999 e 10, § 3º, da Lei n. 9.882/1999) e os enunciados da Súmula
Vinculante do STF (arts. 103-A, "caput", da CRFB e 2º da Lei n. 11.417/2006) possuem
eficácia contra todos ("erga omnes") e efeito vinculante.
O efeito vinculante se estende: a) aos particulares; b) aos juízes e aos Tribunais,
inclusive os Ministros e as Turmas do STF, ressalvado apenas o Plenário do STF; e c) à
Administração Pública direta e indireta, nas esferas federal, estadual e municipal, dos
Poderes Executivo, Judiciário e Legislativo.
Contudo, os Poderes Legislativo, Executivo e Judiciário são independentes e
harmônicos entre si, à luz do princípio da separação de poderes (art. 2º da CRFB), de
modo que, ausente previsão constitucional expressa, o Poder Legislativo não é
vinculado, ao menos não em sua função típica de legislar, pelas decisões definitivas de
mérito proferidas pelo STF em controle concentrado de constitucionalidade e pelos
enunciados da Súmula Vinculante do STF.
Assim sendo, é cabível o fenômeno da superação, da reação ou da reversão legislativa
da jurisprudência do STF, que pode se dar por Emenda Constitucional ou por lei
ordinária.
Na hipótese de reversão por Emenda Constitucional, a sua invalidação apenas poderá
ocorrer se desrespeitar o processo legislativo (art. 60, "caput" e §§ 1º a 3º e 5º, da
CRFB) ou as cláusulas pétreas (art. 60, § 4º, da CRFB).
Por outro lado, no caso de a reação se dar por lei ordinária, apesar de haver, em regra,
uma presunção de constitucionalidade da lei, na hipótese de reedição de uma lei já
anteriormente declarada inconstitucional pelo STF, ela nascerá, excepcionalmente, com
uma presunção (relativa) de inconstitucionalidade, sem prejuízo de revisão do
entendimento pelo próprio STF evitando a fossilização da Constituição -, cabendo ao
Poder Legislativo, então, o ônus de demonstrar a alteração das circunstâncias fáticas ou
jurídicas aptas a justificar, agora, a constitucionalidade da lei, em clara mutação
constitucional pela via legislativa.

65. “Uma Constituição não é jamais idêntica consigo mesma e está submetida
constantemente ao panta rhei heracliteano de todo o vivente (LOEWENSTEIN,
Karl. Teoría de la Constitucíon, p. 164)”.
Conceitue mutação constitucional, indicando: (i) modos em que ela ocorre; (ii) os
limites do sistema constitucional à mutação; (iii) exemplos na realidade
constitucional brasileira.
O conceito de mutação foi introduzido no direito constitucional por Laband e
posteriormente tratado de forma mais ampla e técnica por Jellinek em clara
contraposição à reforma constitucional. Desde então, passou a ser utilizado de forma
genérica, não havendo uma unanimidade em relação ao seu conteúdo e limites.
A mutação constitucional é método informal de alteração da Constituição, pelo qual se
dá novo sentido a uma norma constitucional sem a modificação de seu texto, isto é, sem
o processo formal de alteração por meio de emendas (artigo 60, CF). Por ela, privilegia-
se o caráter dinâmico e prospectivo da Constituição.
Sistematizando, a partir da doutrina clássica, o professor Luís Roberto Barroso procurou
identificar as formas pelas quais a mutação pode ocorrer:
1. Interpretação (judicial e administrativa): em relação à interpretação judicial, trata-se
de alteração informal da constituição realizada pelo Poder Judiciário ou mesmo pela
própria Administração Pública. Podemos apontar os vários exemplos acima citados,
sendo, assim, a evolução da jurisprudência da Corte inegável exteriorização da mutação
constitucional. Ainda, essa evolução interpretativa poderá ser verificada, também, no
âmbito administrativo. Como destaque, Barroso lembra a Res. n. 7/CNJ que,
reconhecendo novas perspectivas aos princípios da impessoalidade e da moralidade, deu
novo e restritivo sentido ao nepotismo;
2. Atuação do legislador: verifica-se a mutação constitucional por atuação do legislador,
quando, por ato normativo primário, procurar alterar o sentido já dado a alguma norma
constitucional. Como exemplo, depois de modificado o entendimento sobre a
prerrogativa de foro pelo STF que, inclusive, conforme visto, cancelou a S. 394, o
Congresso Nacional procurou resgatar o sentido da cancelada S. 394, nos termos da Lei
n. 10.628/2002. Cabe lembrar que o STF declarou inconstitucional referido ato
normativo;
3. Por via de costumes constitucionais: Ocorre por atuação dos intérpretes da
constituição com práticas reiteradas com cunho de obrigatoriedade. Como exemplo,
lembra a possibilidade de o Chefe do Poder Executivo negar a aplicação de lei que, de
modo fundamentado, considere inconstitucional. Lembra, ainda, o voto de liderança no
Parlamento, sem a submissão da matéria ao Plenário. Outro exemplo, antes do advento
da EC n. 32/2001, destaca a reedição de medida provisória, desde que não houvesse
expressa rejeição ou alteração do texto.
É limite à mutação constitucional que a nova interpretação dada à norma tenha caráter
democrático, ou seja, deve corresponder a uma demanda social efetiva por parte da
coletividade para que seja legítima. A jurisprudência do STF, por sua vez, estabelece
que a mutação constitucional pode ocorrer quando: a) houver alteração da realidade
fática; b) ocorrer uma nova percepção do Direito, a partir de uma releitura do que deve
ser considerado ético e justo; c) constatada consequência prática negativa de
determinada linha de entendimento.
Além disso, a mutação constitucional deve encontrar ancoragem no texto (literal) da
norma interpretada, evitando-se, assim, que o intérprete tenha margem infinita para a
atribuição de sentido à norma constitucional.
Recentemente, houve duas decisões do STF que são exemplos de mutação
constitucional. A primeira foi a que decidiu pela desnecessidade de prévia autorização
da Assembleia Legislativa para a que o STJ receba denúncia contra Governador do
Estado por crime comum, diferentemente do que se dá para o Presidente da República,
Vice-Presidente ou Ministro de Estado, em que há exigência de prévia autorização da
Câmara dos Deputados, por expressa disposição constitucional (artigo 51, I, CF). A
segunda foi a que deu nova interpretação ao artigo 52, X, CF, para afastar a necessidade
de Resolução do Senado Federal para dar efeitos "erga omnes" e vinculantes às decisões
de inconstitucionalidade declaradas por meio de controle difuso. Assim, o STF apenas
comunica o Senado para que ele dê publicidade à decisão, ficando superado o
entendimento de que, no controle concreto de constitucionalidade, a decisão tem efeitos
apenas "inter partes" e não vinculante, ficando a cargo do Senado, de forma
discricionária, suspender a execução da lei viciada.

66. Interpretação dos pedidos e inércia da jurisdição: analise o tema, à luz do Novo
CPC de 2015.
O Novo CPC caminhou para a ampliação dos pedidos implícitos e do poder de correção
da demanda pelo juiz. Trata-se de caminho perigoso, em que o Estado, mais uma vez,
acha por bem tutelar a autonomia da vontade, inclusive para corrigir as omissões de
petições iniciais inadequadas, em virtude da proliferação de profissionais formados com
baixa qualidade técnica, quando não há o exercício do jus postulandi.
A inércia da jurisdição, embora não deva ter mais os contornos iniciais dadas pelo
liberalismo clássico, não pode levar ao ponto de fazer do juiz um complementador da
função executiva ou legislativa, a partir de conceitos porosos e indeterminados.
Nesse sentido, a interpretação conjunta da postulação não pode se afastar do bem da
vida efetivamente pleiteado, mas apenas delimitar a forma de sua obtenção, desde que a
situação considerada pelo juiz esteja efetivamente narrada pela parte interessada.
O Art. 322, §2º, do Código de Processo Civil prevê que a interpretação do pedido
considerará o conjunto da postulação e observará o princípio da boa-fé. Segundo a
doutrina, a ideia deste novo dispositivo é a de que a compreensão e o alcance do pedido
não fiquem necessariamente adstritos à parte final da petição, mas que leve em conta o
que justifica sua formulação observando-se padrões objetivos de conduta.
No que diz respeito à inércia da jurisdição, o art. 2º do CPC prevê que o processo
começará pela iniciativa da parte e se desenvolverá por impulso oficial, salvo as
exceções previstas em lei. Conforme entendimento doutrinário, este princípio deve ser
compreendido no sentido de que tudo aquilo que, na perspectiva do direito material,
depender de iniciativa do interessado deve também, na perspectiva do direito processual
civil, depender dela.
Diante desses dois dispositivos, temos que o juiz, analisando de forma sistemática o
conjunto da postulação, pode analisar o pleito, dando uma interpretação mais ampla a
fim de atingir o objetivo da demanda, mas dentro de um limite que não venha a
deliberar acerca do que de fato não foi requerido no processo, sob pena de lesão ao
Princípio da Adstrição (art. 492, CPC).
No mais, tem-se também que tal conduta violaria o Princípio da Inércia da Jurisdição,
uma vez que este princípio não está presente apenas no início da demanda, mas até a
sentença, percurso este em que o magistrado fica adstrito aos elementos da inicial.

67. É admissível a condenação por ato de improbidade administrativa no caso de


dispensa indevida de licitação, sem que reste comprovada a existência de efetivo
prejuízo ao Erário?
Nos termos do artigo 10, VIII, da Lei de Improbidade Administrativa, constitui ato
ímprobo que acarreta prejuízo ao Erário frustrar a licitude de processo licitatório ou de
processo seletivo para celebração de parcerias com entidades sem fins lucrativos, ou
dispensá-los indevidamente.
A jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça consolidou-se no sentido de que, em
tal hipótese, o dano ao patrimônio público tem natureza in re ipsa, ou seja, é presumido.
Desse modo, o autor da ação não precisa demonstrar a ocorrência do efetivo prejuízo,
pois a mera frustração do caráter competitivo do certame, por si só, tem o potencial de
efetivamente afastar da Administração Pública a obtenção da proposta mais vantajosa
ao interesse público.
Sem prejuízo disso, recomenda-se a aferição do valor do dano para fins de obtenção da
condenação do requerido ao ressarcimento ao Erário (art. 37, § 4°, CF e arts. 5° e 12, II,
Lei 8.429/92).
Por fim, vale destacar que, diferentemente do que ocorre na seara cível, no âmbito
criminal a condenação pela prática do crime previsto no artigo 89 da Lei n° 8.666/93
("Dispensar ou inexigir licitação fora das hipóteses previstas em lei, ou deixar de
observar as formalidades pertinentes à dispensa ou à inexigibilidade") exige
comprovação do prejuízo, na medida em que os Tribunais Superiores entendem tratar-se
de crime material.

68. A aposentadoria por idade mista ou híbrida se aplica também aos segurados
urbanos que tenham carência preponderantemente contributiva ou é restrita
apenas aos segurados rurícolas com carência preponderantemente não
contributiva cujo tempo de efetivo exercício de atividade rural seja insuficiente ao
número de meses correspondentes à carência da aposentadoria por idade
conforme art. 39, I, da Lei 8.213/91?
A aposentadoria por idade é garantida aos trabalhadores urbanos e rurais. Para os
trabalhadores urbanos (art. 48, caput, lei 8213/91), exige-se a idade mínima de 65 anos
para homens e 60 anos para mulheres, além de 180 contribuições mensais a título de
carência (art. 25, II, lei 8.213/91). No caso de trabalhadores rurais (art. 48, § 1º e 2º, lei
8213/91), há redução de 5 anos no requisito etário para ambos os sexos e a carência é
substituída pelo exercício efetivo trabalho rural pelo tempo equivalente, ainda que de
forma descontínua (art. 39, I).
A lei 11.718/2008 inseriu o § 3º ao art. 48 e criou a aposentadoria por idade híbrida,
destinada a trabalhadores rurais que passaram a exercer temporária ou permanentemente
trabalhos em atividade urbana, já que antes dessa inovação legislativa esses indivíduos
se encontravam numa espécie de limbo jurídico: atingiam idade avançada, mas não
podiam se aposentar nem pelo regime dos trabalhadores urbanos (não cumpriam a
carência em função do exercício não contributivo da atividade rural) e nem pelo dos
trabalhadores rurais (em função do exercício de atividade urbana).
Analisando o dispositivo, o STJ tem se manifestado no sentido que independentemente
de qual for a preponderância existente no labor misto ou de qual labor exercido no
momento do implemento da idade, o trabalhador tem direito a se aposentar pelo sistema
da aposentadoria por idade híbrida (art. 48, § 3º).
Esse benefício materializa a previsão constitucional de uniformidade e equivalência
entre os benefícios destinados às populações rurais e urbanas (art. 194, II, CF/88).
Justamente por isso é que é irrelevante a análise da preponderância para fins da
aplicabilidade do art. 48, § 3º. Essa espécie de aposentadoria se insere num contexto de
equilíbrio entre as necessidades sociais e o Direito, já que é uma resposta jurídica à
crescente absorção da força de trabalho campesina pela cidade e, com isso, acaba
concretizando também o princípio da dignidade da pessoa humana.

69. Considerando o bloco de constitucionalidade, os tratados internacionais de


direitos humanos sobre a matéria e a jurisprudência do Supremo Tribunal
Federal, responda se é possível a ingerência do Poder Judiciário na Administração
Pública para o fim de cominar obrigação de fazer para o fim de promover
acessibilidade em prédios públicos.
As políticas públicas são os instrumentos de concretização dos direitos fundamentais
estipulados na Constituição Federal e nos tratados internacionais que versam sobre
direitos humanos internalizados no ordenamento jurídico brasileiro. É através das
políticas públicas que se operacionalizam o direito à saúde, à educação, à segurança
públicas, etc. Sendo o Poder Judiciário o curador da aplicação dos direitos
fundamentais, haja vista sua original vinculação ao texto da Lei Maior, o enfretamento
da omissão estatal na formulação e execução de políticas públicas tomou o terreno do
Poder Jurisdicional. Tal fenômeno chama-se judicialização.
O Supremo Tribunal Federal possui jurisprudência no sentido de que é possível o
controle jurisdicional de políticas públicas, desde que presentes três requisitos: a) a
natureza constitucional da política pública reclamada; b) a existência de correlação entre
ela e os direitos fundamentais; e c) a prova de que há omissão ou prestação deficiente
pela Administração Pública, inexistindo justificativa razoável para tal comportamento.
Preenchidos os requisitos acima, não há que se falar em negativa do Poder Público de
atender a determinação constitucional sob o argumento da “reserva do possível”.
Sob esse prisma, no que toca ao direito à acessibilidade das pessoas com deficiência,
prevê-se que a lei disporá sobre normas de construção dos novos e adaptação dos
atualmente existentes logradouros e edifícios de uso público, a fim de garantir acesso
adequado às pessoas portadoras de deficiência (arts. 227, § 2º, e 244 da CRFB), o que é
reforçado, expressamente, pelo art. 9º, item 1, alínea "a", da Convenção Internacional
sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo Facultativo, que foi
aprovada, na forma do art. 5º, § 3º, da CRFB, pelo Decreto Legislativo n. 186/2008 e
promulgada pelo Decreto n. 6.949/2009, tendo, portanto, força de Emenda à
Constituição.
Trata-se de norma de eficácia limitada, com aplicabilidade indireta, mediata e diferida,
por depender de lei. Todavia, a omissão do poder público em implementar políticas
públicas, em especial aquelas relativas a imperativos constitucionais, tal como a
garantia de acessibilidade adequada das pessoas com deficiência aos logradouros e aos
edifícios de uso público, nos termos acima, autoriza a intervenção do Poder Judiciário, à
luz da inafastabilidade da jurisdição (art. 5º, XXXV, da CRFB), conforme precedentes
dos Tribunais Superiores, em especial do STF.
Ressalte-se também que a omissão do Estado em promover a acessibilidade em prédios
públicos tem total relação com direitos fundamentais estampados no ordenamento.
Diante disso, a intervenção busca observar e resguardar preceitos como o princípio da
dignidade da pessoa humana, a busca de uma sociedade justa e solidária, a vedação ao
retrocesso social, à luz dos objetivos evolutivos da República e da proteção às cláusulas
pétreas, evitando mitigações às proteções constitucionais, o princípio da igualdade, em
sua dimensão material, os critérios da razoabilidade e da proporcionalidade, à luz do
Estado Democrático de Direito e do princípio do devido processo legal, que não apenas
proíbem o excesso, mas, também, evitam a proteção deficiente, e a aplicabilidade
imediata das normas definidoras de direitos e garantias fundamentais (art. 5º, § 1º, da
CRFB), sendo que aqueles expressos na Constituição não excluem outros decorrentes
do regime e dos princípios por ela adotados e dos tratados internacionais (art. 5º, § 2º,
da CRFB).
Outrossim, descabida seria a alegação da teoria da reserva do possível pelo poder
público, buscando justificar a sua omissão na garantia de acessibilidade adequada das
pessoas com deficiência aos logradouros e aos edifícios de uso público por suposta
ausência ou insuficiência de previsão orçamentária. Isso porque tal teoria, além de
exigir concreta comprovação por parte do poder público, encontra óbice na necessária
proteção ao mínimo existencial, relacionado ao princípio da dignidade da pessoa
humana (art. 1º, III, da CRFB), sendo um núcleo basilar dos direitos fundamentais que
não pode ser comprometido, não podendo seu inadimplemento ser justificado pelo
poder público à luz da teoria da reserva do possível. Com essas razões, é cabível o
controle do Poder Jurisdicional para colmatar a omissão em promover acessibilidade em
prédios públicos.

70. Validade de negócio jurídico celebrado pela parte A, representada no ato por
C, com a outra parte B. Para tanto considere que B era procurador de A, mas que
antes da conclusão do referido negócio B tenha substabelecido, sem reservas, seus
poderes para C. Analise o CC e o CDC.
A validade do negócio jurídico tem quatro pressupostos, essencialmente: a) agente
capaz; b) objeto lícito, possível e determinado ou determinável; c) forma prescrita ou
não defesa em lei (art. 104 do CC); e d) consentimento com manifestação de vontade
não viciada (arts. 138 a 165 e 167 do CC).
Sob esse prisma, no que toca ao agente capaz e ao consentimento com manifestação de
vontade não viciada, tendo-se o instituto do autocontrato ou do contrato consigo
mesmo, entende-se que, em regra, é anulável o negócio jurídico que o representante, no
seu interesse ou por conta de outrem, celebrar consigo mesmo, salvo se assim
permitirem a lei ou o representado (art. 117, "caput", do CC). Nesse contexto, ainda,
consigna-se que, para tal efeito, tem-se como celebrado pelo representante o negócio
realizado por aquele a quem foram substabelecidos os poderes (art. 117, parágrafo
único, do CC).
Com efeito, a anulabilidade do negócio jurídico, ausente prazo decadencial específico,
deve ser postulada no prazo de 2 anos, a contar da conclusão do negócio (art. 179 do
CC). Além disso, pode ser convalidado pelas partes, salvo direito de terceiro (art. 172
do CC), devendo a confirmação conter a substância do negócio e a vontade expressa de
mantê-lo (art. 173 do CC), dispensando-se confirmação expressa se o negócio foi
cumprido, ainda que em parte, pelo devedor, mesmo ciente do vício que o inquinava
(art. 174 do CC).
Por outro lado, extrai-se que, nas relações de consumo - que são aquelas que têm, de um
lado, um consumidor (arts. 2º, 17 e 29 do CDC) e, de outro, um fornecedor (art. 3º do
CDC) -, são nulas de pleno direito, entre outras, as cláusulas contratuais que imponham
representante para concluir ou realizar outro negócio jurídico pelo consumidor (art. 51,
VIII, do CDC), previsão essa que veda, por exemplo, conforme precedentes dos
Tribunais Superiores, a emissão de título de crédito em nome do consumidor
inadimplente. Por sua vez, o negócio nulo, diferentemente do anulável, não pode ser
convalidado pelas partes, nem convalesce pelo decurso do tempo (art. 169 do CC).
No caso concreto, "C" celebrou contrato consigo mesmo, num polo, enquanto
representante de "A" e, noutro polo, enquanto procurador de "A", porquanto
substabelecido, sem reservas, por "B", que era mandatário do mandante "A". Sob a ótica
do Código Civil, ausente permissão legal ou do representado, tal negócio será anulável,
no prazo decadencial de 2 anos, apesar de admitir convalidação. Contudo, na
perspectiva do CDC, será nulo de pleno direito, não admitindo convalidação.
Nesse sentido, aliás, a jurisprudência dos Tribunais Superiores já se firmou (enunciado
n. 60 da Súmula do STJ), tendo o STJ repisado, recentemente, a nulidade da cláusula
contratual incluída em contrato de adesão, no seio de relações de consumo, em que o
consumidor autorizaria o fornecedor a emitir título de crédito em favor do próprio
fornecedor, na hipótese de inadimplemento por parte do consumidor.

71. É possível reclamar o direito de extensão em sede de contestação ofertada no


bojo de ação de desapropriação por utilidade pública? E mediante reconvenção?
Direito de extensão é o direito do desapropriado, no caso das desapropriações parciais,
requerer que a área remanescente do imóvel que se tornou insuscetível de
aproveitamento econômico seja incluída na área desapropriada. A discussão acerca da
possibilidade do manejo do direito de extensão via contestação nas desapropriações por
utilidade pública parte do fato de que o Decreto-Lei 3.365/41, que regula a
desapropriação por utilidade pública, não prevê esse direito.
Atualmente, apenas o regramento da desapropriação por interesse social para fins de
reforma agrária possui previsão expressa desse direito (art. 4º, LC 76/93). Parcela da
doutrina entende que o Decreto-Lei 3.365/41 não revogou expressamente o Decreto
4956/1903, que é o diploma que tratava de desapropriação antes do advento daquele.
Desse modo, como o art. 12 do Decreto 4.956/1903 traz a possibilidade de exercício do
direito de extensão e o DL 3365/41 nada dispôs sobre o tema, ele continua vigente e
pode ser aplicado.
Além disso, argumenta-se que, se é possível o exercício desse direito na contestação nos
procedimentos de desapropriação para fins de reforma agrária, que tem natureza
sumária, igual direito deve ser garantido nos procedimentos de desapropriação por
utilidade pública, visto não ter natureza sumária e não existir incompatibilidade formal
ou material do dispositivo com o procedimento do DL 3365/41.
O STJ tem alguns julgados sobre o tema e segue essa linha de pensamento. Além disso,
considera que o direito de extensão nada mais é do que uma impugnação relativa ao
preço ofertado, razão pela qual não há qualquer violação ao art. 20 do DL 3365/41, que
restringe a matéria de defesa aos vícios processuais e impugnação do preço ofertado.
Quanto à reconvenção, o STJ tem entendido que não é possível o manejo desta para
exercício do direito de extensão. A reconvenção é uma espécie de resposta do réu que
tem a natureza de ação. Através dela, o réu exerce pretensão conexa com a ação
originária ou com os fundamentos da defesa, implicando uma ampliação objetiva do
processo.
Desse modo, o STJ entende que a reconvenção é incompatível com o processo
desapropriatório em função do art. 20 do DL 3365/41, que prevê que “qualquer outra
questão deverá ser decidida por ação direta”. E, nesse caso, “ação direta” significaria
ação e processo autônomo, o que não ocorre com a reconvenção. Não exercido na
contestação, estará configurada a renúncia ao direito de extensão.

72. É possível a dação em pagamento em Direito Tributário?


A dação em pagamento é modalidade de pagamento caracterizada pela aceitação de
prestação diversa da devida (art. 356, CC/02). O CTN prevê a dação em pagamento de
bens imóveis como modalidade de extinção do crédito tributário (art. 156, XI, CTN).
Contudo, trata-se de modalidade indireta, exigindo lei específica dos respectivos entes
federativos para regulamentá-la. Ela encontra respaldo no art. 3º do CTN, que prevê que
“tributo é toda prestação pecuniária compulsória, em moeda ou em cujo valor nela se
possa exprimir (...)”.
Como se vê, o CTN autoriza a materialização do tributo em prestação diversa da
estritamente pecuniária, que é o caso da dação. No âmbito federal, a regulamentação da
matéria está no art. 4º da lei 13.259/16. O crédito inscrito em dívida ativa da União
poderá ser extinto por dação em pagamento, a critério do credor, desde que: (1) a dação
seja precedida de avaliação do bem ou dos bens ofertados, que devem estar livres e
desembaraçados de quaisquer ônus e (2) abranja a totalidade do crédito ou créditos que
se pretende liquidar com atualização, juros, multa e encargos legais, sem desconto de
qualquer natureza, assegurando-se ao devedor a possibilidade de complementação em
dinheiro de eventual diferença entre os valores da totalidade da dívida e o valor do bem
ou dos bens ofertados em dação.
Essa modalidade, contudo, não abrange os créditos tributários decorrentes do SIMPLES
(art. 4º, § 1º). Além disso, caso o crédito que se pretenda extinguir seja objeto de
discussão judicial, a dação somente produzirá efeitos após a desistência da referida ação
pelo devedor ou corresponsável e a renúncia do direito sobre o qual se funda a ação,
devendo o devedor ou o corresponsável arcar com o pagamento das custas e honorários
(art. 4º, § 2º).
Importante mencionar que a União observará a destinação específica dos créditos
extintos por dação em pagamento (art. 4º, § 3º). Por fim, cabe mencionar que o STF já
declarou a inconstitucionalidade da instituição da dação de pagamento de bens móveis
por violar a exigência constitucional de licitação para aquisição de bens pela
Administração Pública (art. 37, XXI, CF/88).

73. Juan Pablo foi preso em flagrante delito na rodovia BR070, no Estado de Mato
Grosso, com 185 quilos de pasta base de cocaína, quando trafegava com veículo de
propriedade de terceiro. Lavrado o auto de flagrante delito, foi realizada audiência
de custódia no âmbito da Justiça Federal oportunidade em que o juízo federal
entendeu por competente para processar e julgar caso, tendo em vista a existência
de internacionalidade da conduta, e decretou a sua prisão preventiva. Ofertada a
denúncia e realizada a instrução processual, Juan Pablo foi condenado em
primeiro grau de jurisdição nas penas do art. 33, da Lei de Drogas com a
majorante da internacionalidade (art. 40, I, da Lei 11.343/2006), mesmo tendo sido
comprovado que Juan, por si, não transpôs a fronteira do Brasil com a Bolívia. A
defesa, em sede de apelação, argumentou que não se faz possível a incidência da
majorante de internacionalidade, uma vez que o acusado não realizou efetivamente
a transposição de fronteiras, fato comprovado nos autos.
Com base neste caso concreto, responda se, à luz da jurisprudência do STJ, a
apelação merece ser provida, em outras palavras, se para a incidência da
majorante em questão deve ser consumada a efetiva transposição de fronteiras.
O legislador pátrio, visando punir com mais rigor o tráfico internacional de drogas,
previu no artigo 40, I, da Lei 11.343/06, como majorante dos crimes previstos nos
artigos 33 a 37, a transnacionalidade do delito. Além de ser causa de aumento de pena, o
tráfico internacional é também crime de competência da Justiça Federal (art. 70, Lei
11.343/06).
A doutrina e jurisprudência discutiram durante certo tempo a necessidade da efetiva
transposição de fronteiras para a incidência desta majorante. Para os que defendiam a
necessidade da transposição, a transnacionalidade somente se configuraria no momento
em que o autor do delito ingressasse ou retornasse de território estrangeiro, caso
contrário, o tráfico seria nacional e a competência da Justiça Estadual.
Após uma jurisprudência oscilante, o STJ pacificou o entendimento de que não é
necessária a efetiva transposição de fronteiras para a incidência da majorante da
internacionalidade no crime de tráfico de drogas. Segundo o STJ, basta comprovar que
o agente tinha como objetivo receber ou enviar droga oriunda ou destinada ao exterior
para a incidência da majorante. É o teor da Súmula 607-STJ: A majorante do tráfico
transnacional de drogas (art. 40, I, da Lei nº 11.343/2006) configura-se com a prova da
destinação internacional das drogas, ainda que não consumada a transposição de
fronteiras.
Conforme prevê a disposição legal (art. 40, I, Lei 11.343/06), no caso concreto serão
analisadas se a natureza e a procedência da substância, bem como as circunstâncias do
fato evidenciam a transnacionalidade do delito, independentemente da efetiva
transposição da fronteira. Ou seja, é irrelevante que haja a efetiva transposição das
fronteiras nacionais, sendo suficiente, para a configuração da transnacionalidade do
delito, que haja a comprovação de que a substância tinha como destino/origem
localidade em outro País.
Assim, no caso apresentado não há fundamento para o provimento da apelação da
defesa. O réu foi preso em flagrante em rodovia, no Estado do Mato Grosso, no
caminho para a fronteira com a Bolívia, com uma quantidade elevada de cocaína. A
natureza da substância (cocaína), sua procedência (Bolívia) e as circunstâncias do fato
(droga encontrada em veículo na rodovia que leva a Bolívia) evidenciam a
transnacionalidade do delito e justificam a incidência da majorante, independentemente
de o réu ter pessoalmente cruzado ou não a fronteira com a Bolívia.

74. Defensor dativo no Processo Penal: requisitos para nomeação. Disserte sobre o
tema.
O art. 5º, LV, da CF/88 consagra o direito à ampla defesa, que se manifesta no processo
penal sob duas óticas: a defesa-técnica, irrenunciável; e a autodefesa, renunciável. Há
entre essas defesas uma relação complementaridade.
O Defensor dativo é uma das espécies de defensor que o réu poderá ter à disposição
para o exercício da defesa-técnica. Ele será nomeado pelo juiz quando: (1) o acusado
não tiver advogado; (2) o acusado não tiver condições de contratar um ou (3) o acusado,
embora com condições para constituir advogado, não o fizer. Esse encargo geralmente
recairá sobre a Defensoria Pública.
Na impossibilidade de atuação da entidade, o juiz nomeará advogado dativo. O Estatuto
da OAB (lei 8.906/94) prevê que a recusa injustificada do advogado em assumir essa
posição configura infração disciplinar (art. 34, XII).
Importante apontar que, caso o réu tenha constituído advogado e este tenha se mantido
inerte ao longo do processo, o magistrado deverá intimar o réu para que constitua outro
advogado de sua confiança. Nos termos da jurisprudência do STJ, a nomeação direta de
defensor dativo nessas situações configura cerceamento de defesa, implicando nulidade
absoluta.

75. Como o STJ interpreta as cláusulas “até a entrega das chaves” na locação
urbana e “até o adimplemento do mútuo” nos contratos de fiança se ocorrer a
prorrogação no vencimento do contrato principal sem a participação direta do
fiador no ato de alargamento?
Pelo contrato de fiança, uma pessoa garante satisfazer ao credor uma obrigação
assumida pelo devedor, caso este não a cumpra (art. 818 do CC). Consoante dispõe o
artigo 819 do Código Civil, a fiança deve ser acordada por escrito e não admite
interpretação extensiva. Assim, a prorrogação do contrato de locação sem a participação
direta do fiador extingue as obrigações relativas à fiança. Nesse sentido é a redação da
súmula 214 do STJ, segundo a qual o fiador na locação não responde por obrigações
resultantes de aditamento ao qual não anuiu.
Contudo, o Superior Tribunal de Justiça entende que se a fiança for pactuada com a
previsão da possibilidade de prorrogação automática, mesmo que o fiador não participe
expressamente das tratativas quanto à prorrogação, este ainda estará vinculado ao
contrato, pois deu seu consentimento previamente.
Outrossim, o Superior Tribunal de Justiça entende que a cláusula que estabelece a fiança
até a entrega das chaves deve ser interpretada em sua literalidade. Destarte, se em
contrato com a referida cláusula houver prorrogação por prazo indeterminado da
locação afiançada, haverá também a prorrogação do contrato de fiança, que só findará
com a efetiva entrega das chaves. Vale salientar que a cláusula em questão tem como
fundamento o artigo 39 da Lei 8.245/1991 e foi considerada válida pelo STJ.
Da mesma forma, as fianças vinculadas a contrato de mútuo que possuam cláusula “até
o adimplemento do mútuo” também continuam válidas mesmo se houver a prorrogação
sem o consentimento do fiador.

76. Discorra sobre a responsabilidade estatal omissiva nos domínios do Direito


Ambiental.
A natureza da responsabilidade civil do Estado, à luz da teoria do risco administrativo
(arts. 37, § 6º, da CRFB e 927 do CC), comporta três correntes: a) para a primeira
(literalidade), tanto para ações quanto para omissões, é objetiva; b) para a segunda
(doutrina), para ações, é objetiva, mas, para omissões, é subjetiva; e c) para a terceira
(jurisprudência), tanto para ações quanto para omissões, desde que específicas (em que
há dever de agir), é objetiva, mas, para omissões genéricas (em que não há dever de
agir), é subjetiva.
Tratando-se de responsabilidade civil por danos ambientais, o infrator, pessoa física ou
jurídica, de direito público ou privado, responde, objetivamente, pelo dano por si
causado, direta ou indiretamente, ao meio ambiente e a terceiro, à luz da teoria do risco
integral, que afasta excludentes de responsabilidade (arts. 225, § 3º, da CRFB e 3º, IV, e
14, § 1º, da Lei n. 6.938/1981), porquanto o direito ao meio ambiente ecologicamente
equilibrado é direito fundamental e, também, com espeque no princípio do poluidor-
pagador (art. 225, "caput" e §§ 2º e 3º, da CRFB), havendo solidariedade entre os
infratores (art. 942 do CC), sem prejuízo do exercício de direito de regresso (art. 934 do
CC).
Sob esse prisma, considerando que o Estado tem o dever de agir na proteção do meio
ambiente, tanto por disposição constitucional (art. 225, § 1º, da CRFB) quanto por
previsão legal (a exemplo do art. 2º, I, da Lei n. 6.938/1981, dentre outros dispositivos
legais), havendo omissão específica de sua parte, no exercício de seu poder de polícia,
quanto ao dever de fiscalizar o cumprimento das normas ambientais, exsurge sua
corresponsabilidade com o infrator (art. 70, § 3º, da Lei n. 9.605/1998), de ordem
objetiva e solidária, como visto, sendo que a solidariedade não é prejudicada se apenas
um dos responsáveis for demandado, por opção da vítima (art. 275 do CC).
Todavia, a responsabilidade do Estado, apesar de objetiva e solidária, é de execução
subsidiária, conforme precedentes dos Tribunais Superiores, de modo que somente pode
ser acionado para cumprimento da obrigação de reparar os danos ambientais se o
infrator direto não cumprir a obrigação, por sua insuficiência patrimonial ou
incapacidade de cumprimento, por qualquer razão, da obrigação imposta, aplicando-se,
por analogia (art. 4º da LINDB), a responsabilidade solidária do Estado, mas de
execução subsidiária, na regularização dos loteamentos pelo loteador (art. 40 da Lei n.
6.766/1979).

77. Explique conceitualmente os institutos da igualdade formal, material e como


reconhecimento.
A igualdade formal significa dizer que não pode haver privilégios ou tratamentos
discriminatórios. A igualdade formal está ligada ao chamado Estado Liberal e foi
realizada como forma de combate aos privilégios desarrazoados. Pode ser dividida em
dois aspectos, igualdade perante a lei, comando endereçado aos poderes administrativo
e judicial, os quais devem aplicar a lei de forma uniforme a todos aqueles que se
encontrem sob a sua incidência. De outro lado tem-se a igualdade formal na lei,
direcionado ao legislador, que deve evitar a instituição de discriminações ou tratamentos
diferenciados com fundamento que não seja razoável e que não vise a um fim legítimo.
A igualdade material está relacionada à distribuição de riquezas e poder, visando
alcançar uma justiça social. A ideia da igualdade material está vinculando a uma
constatação de que não basta proibir que haja privilégios, é preciso atuar ativamente
contra a desigualdade econômica em desfavor da superação da miséria social. Para
tanto, deve o poder público empregar ações positivas relacionadas a políticas de saúde,
educação, saneamento trabalho, moradia e social.
A igualdade como reconhecimento significa o respeito que se deve ter com as minorias,
suas identidades e suas diferenças, sejam raciais religiosas, sexuais ou quaisquer outras.
A injustiça combatida tem natureza cultural e decorre de modelos sociais de
representação, que ao imporem determinados códigos de interpretação, recusariam os
outros produzindo uma dominação cultural. Nesse contexto, determinados grupos são
discriminados em razão de sua identidade, religião, aparência física ou opção sexual.
A igualdade como reconhecimento encontra-se também prevista no art. 3º, IV, da
CF/88, em que um dos objetivos fundamentais da república é o de promover o bem de
todos, sem preconceito de origem, raça, sexo, cor idade e quaisquer outras formas de
discriminação.

78. O elenco de títulos executivos judiciais previsto no art. 515 do CPC é


exaustivo? Explique.
Títulos Executivos Judiciais são documentos emanados de um órgão jurisdicional, aptos
a embasar uma execução. Eles são formados através de um processo judicial, com a
observância das garantias constitucionais, como o contraditório, a ampla defesa e o
devido processo legal, dentre outras. A execução desses títulos judiciais se submete ao
regime do cumprimento da sentença. Em decorrência do Princípio da Taxatividade,
somente a lei pode criar títulos executivos judiciais.
O art. 515 do CPC/2015 realmente apresenta um rol de títulos executivos judiciais, mas
há pelo menos dois outros títulos executivos judiciais previstos no CPC: a) a decisão
que concede tutela provisória de natureza antecipada com cunho condenatório, que,
embora não seja definitiva, poderá ser executada (art. 297, parágrafo único); e b) a
decisão inicial da ação monitória, quando não forem opostos embargos, hipótese em que
o título executivo judicial constituir-se-á de pleno direito, convertendo-se o mandado
inicial em mandado executivo, prosseguindo-se como cumprimento da sentença (art.
701, §2º).

79. É admissível a subcontratação de obra ou serviço de engenharia quando


ausente previsão expressa no instrumento convocatório da licitação ou no contrato
firmado?
O contrato administrativo tem caráter intuito personae, ou seja, somente pode ser
firmado com aquele que comprovou, após o processo licitatório, ser o mais apto à
execução da obra ou prestação do serviço (art. 3º, da lei 8666/93), caracterizando a
confiança entre as partes. Apesar disso, permite a lei a subcontratação nos moldes
legalmente fixados, conforme a conveniência e a necessidade da Administração,
respeitados os limites legais e as peculiaridades do caso concreto.
O art. 78, VI, da lei 9.666/93 prevê como motivo para a rescisão do contrato
administrativo a subcontratação total ou parcial do seu objeto, associação do contratado
com outrem, cessão ou transferência, bem como cisão ou incorporação, não admitidas
no edital ou no contrato. Por outro lado, o art. 72 do mesmo diploma legal prevê que o
contratado poderá subcontratar partes da obra, serviço ou fornecimento, até o limite
admitido, em cada caso, pela Administração, sem deixar explícita a necessidade de
previsão contratual.
Com efeito, a validade da subcontratação, no âmbito do processo de licitação pública,
tem por requisitos, essencialmente: a) a previsão no edital e no contrato (art. 72 da Lei
n. 8.666/1993), salvo excepcionalíssima alteração superveniente no cenário fático-
jurídico que a justifique, mesmo sem previsão, para assegurar a execução do contrato;
b) a existência de limites fixados pela Administração Pública ao contratante (art. 72 da
Lei n. 8.666/1993), a serem estabelecidos à luz dos critérios da razoabilidade e da
proporcionalidade, mediante juízos discricionários de conveniência e oportunidade, de
modo que não contemple a totalidade do contrato, o que representaria subterfúgio a
"mens legis" licitatória (art. 37, XXI, da CRFB); c) a não contemplação da parte mais
relevante do objeto ou considerada na avaliação da qualificação técnica do contratado
em objetos técnicos, o que, igualmente, representaria subterfúgio a "mens legis"
licitatória (art. 37, XXI, da CRFB); e d) a persistência das responsabilidades legais e
contratuais do contratado (art. 72 da Lei n. 8.666/1993), não se confundindo com o
instituto da sub-rogação (arts. 346 e seguintes do CC).
Da leitura dos dois dispositivos, em um primeiro momento, conclui-se que a
possibilidade de subcontratação somente poderia ocorrer se houvesse previsão expressa
no edital de convocação. Ocorre que é possível a superveniência de situação
excepcional, na fase contratual, que possa justificar a subcontratação, ainda que ausente
previsão no ato de chamamento e no contrato.
Considerar que a ausência de previsão impossibilitaria a subcontratação de forma
absoluta não é a melhor solução jurídica, já tendo o TCU se manifestado pela
possibilidade, desde que não haja expressa proibição no instrumento. Além disso,
quando ausente a possibilidade de subcontratação de forma expressa, deve ser vista
como hipótese eventual, excepcional, resultante de fato superveniente, a justificar uma
conveniência para a Administração.

80. Imagine que ex-segurado do RGPS computou mais de 12 meses de carência no


exercício de atividade remunerada. Entretanto entre o fim de seu vínculo laboral e
a data de entrada do requerimento administrativo (DER) de benefício por
incapacidade (auxílio-doença ou aposentadoria por invalidez) houve o transcurso
dos prazos do art. 15 da Lei 8.213/91 sem quaisquer contribuições para a
previdência. O médico do INSS durante a perícia administrativa fixou a data de
início da doença (DID) e a data de início da incapacidade (DII) em período no qual
o requerente ainda mantinha a qualidade de segurado (período de graça). O ex-
segurado faz jus ao benefício por incapacidade?
Nos moldes do art. 60 da Lei nº 8.213/91, o auxílio-doença será devido ao segurado
empregado a contar do décimo sexto dia do afastamento da atividade, e, no caso dos
demais segurados, a contar do início da incapacidade e enquanto ele permanecer
incapaz. O art. 42 da Lei nº 8.213/91, de seu lado, ao tratar da aposentadoria por
invalidez, expressa que, uma vez cumprida, quando for o caso, a carência exigida, será
devida ao segurado que, estando ou não em gozo de auxílio-doença, for considerado
incapaz e insusceptível de reabilitação para o exercício de atividade que lhe garanta a
subsistência.
No caso em comento, verifica-se que entre o término do vínculo laboral do ex-segurado
e a DER, houve o transcurso dos prazos previsto no art. 15 da Lei nº 8.213/91, que
tratam da manutenção da condição de segurado no período de graça. Não obstante, para
verificar se o ex-segurado faz jus ao benefício por incapacidade, faz-se necessário
analisar se, ainda durante o período de graça, sobreveio a incapacidade para o labor.
Isso ocorre, pois, conforme o entendimento do STJ, sobrevindo a incapacidade para o
labor durante a manutenção da condição de segurado, presume-se que a ausência de
contribuições de tal momento em diante decorre da impossibilidade de trabalhar. Logo,
quando constatado que a doença incapacitante se deu durante o período de graça, haverá
que se falar na concessão do benefício, ainda que requerido após o término do período
de graça.
No caso da questão, tendo em vista comprovada a incapacidade durante o período de
graça, deverá ser concedido o benefício por incapacidade ao ex-segurado. No que toca,
por fim, à data de início de pagamento do benefício, a fixação desta dependerá de
quanto tempo após o início da incapacidade foi realizado o requerimento. Cuidando-se
de segurado empregado, do décimo sexto dia do afastamento ou a partir do
requerimento se aprestado este após trinta dias do afastamento. Para os demais
segurados, será devido o benefício desde o início da incapacidade, salvo se requerido
após trinta dias do início da incapacidade, forte nos arts. 43, §1º, “a” e “b”, e 60,
“caput” e §1º, ambos da Lei nº 8.213/91.
O ex-segurado que vindica o auxílio-doença sem estar no período de graça, mas
comprova que estava doente à época em que ainda era segurado, tem direito ao
benefício. Explica-se: o segurado já tinha direito a receber o auxílio-doença desde que
ficou incapacitado para o trabalho e, portanto, coberto pela Previdência Social. Na
ocasião, o indivíduo ainda era segurado da Previdência Social e bastaria comprovar,
como o fez posteriormente, que a doença o impedia de trabalhar, para ser titular do
benefício. O fato de ter requerido posteriormente não lhe tirou o direito de receber o
auxílio, posto que o requerimento formulado junto à Autarquia Federal, a saber, o INSS,
não constitui elemento do ato.
Em verdade, para se gozar do benefício previdenciário auxílio-doença, basta ser
segurado ou estar no período de graça, ter vertido as contribuições para formar a
carência exigida e apresentar a doença incapacitante. A formulação do requerimento
administrativo não é elemento para o gozo do benefício, de modo que a sua
apresentação a destempo, quando não mais é segurado o requerente, não lhe infirma o
direito já conquistado anteriormente. Por fim, cumpre ressaltar, noutro giro, que o
pagamento será feito a partir do requerimento administrativo e não de quando a doença
incapacitante se manifestou, seguindo a lógica do próprio diploma legal que disciplina a
matéria (Lei nº 8213/91).

81. A repercussão do crime justifica a não concessão de regime aberto a preso


condenado a menos de quatro anos de reclusão?
A repercussão do crime, em regra, não justifica a imposição, a preso condenado a
menos de 4 (quatro) anos de reclusão, de regime inicial diverso do aberto, sendo
possível, contudo, quando existirem circunstâncias judiciais que desfavoreçam o agente,
fixar regime de cumprimento mais severo.
Isso porque o art. 33, §2º, "c”, do CP aduz que o condenado não reincidente a pena igual
ou inferior a 4 (quatro) anos pode, desde o início, cumpri-la em regime aberto; o art. 33,
§3º, do CP aponta que o regime inicial no qual se cumpre a reprimenda deve ser
determinado em conformidade com as circunstâncias judiciais do art. 59 do CP; e a
súmula 719 do STF assevera que a imposição de regime prisional mais gravoso do que
aquele permitido pela pena aplicada exige motivação idônea.
Assim, podem-se considerar como "motivação idônea", nos termos da súmula 719 do
STF, as razões que justificam a exasperação da pena na primeira fase de sua dosimetria
(o art. 59 do CP).
Além disso, entendimento jurisprudencial recentemente exarado pelo STJ deu-se no
sentido de que, em crime dotado de grande repercussão na mídia, ocorrendo
circunstâncias judiciais negativas, a custódia em regime inicial aberto pode não se
mostrar socialmente recomendável e nem suficiente para a prevenção e repressão do
crime, ensejando a aplicação de regime semiaberto para o início do cumprimento da
sanção penal.
Ademais, com fulcro na súmula 718 do STF - a qual aduz que a opinião do magistrado,
no tocante à gravidade em abstrato do delito, não é motivação idônea a ensejar a
imposição de regime mais severo do que o que for permitido pela pena aplicada - é
assente na jurisprudência do Pretório Excelso que não se deve adotar o regime inicial
mais gravoso para o cumprimento da segregação imposta por decisão judicial sob o
pretexto de que o delito vem causando "grande comoção social", mesmo que o delito,
como tratado abstratamente pela lei, possa causar repugnância à sociedade.
Por fim, é interessante apontar que a compreensão jurisprudencial sumulada do Tribunal
da Cidadania (súmula 440 do STJ) é no sentido de que, sendo as circunstâncias judiciais
favoráveis ao réu (art. 59 do CP), fundando-se a fixação da pena-base no mínimo legal,
é vedado o estabelecimento de regime prisional mais severo do que o cabível dada a
sanção imposta, tomando-se por base tão somente a gravidade abstrata do crime.

82. Admissibilidade, no curso do processo legislativo, de emendas parlamentares a


projeto de lei de iniciativa reservada ao Chefe do Poder Executivo: disserte sobre o
tema.
É possível que haja emendas parlamentares a projetos de lei de iniciativa do Chefe do
Poder Executivo. Nesse sentido é a redação do artigo 64, §3º, da Constituição, que
prevê expressamente a possibilidade de emendas a projeto de iniciativa do Presidente da
República.
De fato, a jurisprudência dos tribunais superiores é no sentido de as referidas emendas
serem possíveis, até mesmo, a projetos de iniciativa exclusiva. No entanto, as emendas
em questão não poderão implicar aumento de despesas, nos termos do que determina o
artigo 63 da Constituição Federal. Vale salientar que tal regra não se aplica aos projetos
de lei orçamentária, os quais seguem disciplina específica prevista no artigo 166 da CF.
Da mesma forma, o Supremo Tribunal Federal entende que as emendas parlamentares a
projetos de iniciativa reservada tampouco poderão tratar de matérias diversas daquelas
previstas no projeto originalmente apresentado.
Com efeito, busca-se evitar o fenômeno compreendido como contrabando legislativo,
em que o legislador aproveita projeto de iniciativa privativa para aprovar pautas
estranhas ao seu objeto. Assim, proíbem-se emendas parlamentares que desfigurem o
projeto de iniciativa exclusiva do Presidente da República. Cumpre consignar que a
afinidade de temas deve ocorrer nas emendas a projetos de leis de iniciativa privativa de
todos os Poderes, e não apenas àqueles reservados ao Chefe do Poder Executivo.
Sobre o tema, vale ainda destacar que a Corte Suprema aplica o mesmo raciocínio para
os casos de emendas parlamentares a projetos de iniciativa popular. De fato, o
contrabando legislativo em tais casos busca dar a certas pautas um falso apoio popular,
o que fere o princípio democrático e a essência do instituto do artigo 61, §2º da
Constituição Federal.
Destarte, é plenamente admissível, no curso do processo legislativo, a aprovação de
emendas parlamentares a projeto de iniciativa reservada ao Chefe do Poder Executivo,
desde que não representem aumento de despesas e guardem pertinência temática com o
objeto apresentado no projeto original.

83. Cláusula em contrato de consumo prevê o pagamento parcelado de


determinado serviço que apenas será prestado pelo fornecedor após concluído o
pagamento integral pelo consumidor. O parágrafo único da referida cláusula prevê
ainda que, na hipótese de cancelamento ou desistência do serviço por iniciativa do
consumidor, haveria isenção de multa, enquanto o fornecedor não reembolsaria
qualquer parcela porventura paga. A cláusula é válida ou abusiva? Analise a
posição do STJ.
Segundo a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, a cláusula contratual que
prevê a perda integral dos valores pagos em caso de desistência do consumidor em
contrato de prestação de serviço é abusiva. Com efeito, em caso semelhante,
envolvendo a contratação de pacote de turismo, o STJ decidiu que a referida cláusula é
abusiva nos termos do que dispõe o artigo 51, II e IV do Código de Defesa do
Consumidor.
Além disso, o caso reclama a incidência do artigo 413 do Código Civil, segundo o qual
a penalidade deve ser equitativamente reduzida pelo juiz quando esta for excessiva. De
fato, o risco de cancelamento é inerente ao próprio contrato, que inclusive permitiu
expressamente o arrependimento do consumidor. No entanto, tal risco não pode ser
arcado exclusivamente por apenas uma das partes, motivo pelo qual a penalidade deve
ser equitativamente reduzida.
Outrossim, deve ser aplicada a mesma lógica presente na súmula 543 do STJ, que
determina a restituição parcial das parcelas pagas no caso de desistência do comprador
em contrato de promessa de compra e venda. Da mesma forma, também no caso da
prestação de serviços, a penalidade não pode corresponder à totalidade dos valores já
adimplidos.
Vale salientar que o caso em tela não se confunde com a hipótese do artigo 420 do
Código Civil, que prevê a disciplina das arras contratuais. Em verdade, o caso narrado
apresenta situação em que o consumidor pagou antecipadamente e de forma parcelada
pelo serviço. Não se trata, pois, de mero sinal.

84. Ana Paula, no seu aniversário de 10 anos, sofreu agressões físicas e verbais por
parte de Juan Pablo, amigo de seu pai e adulto de 52 anos. Diante disso questiona-
se: (i) Ana Paula, sendo criança absolutamente incapaz, tem legitimidade para a
propositura de ação de compensação de danos morais? (ii) É possível entender que
o dano moral causado é presumido? (iii) sob quais argumentos?
Sim, Ana Paula é titular de seus direitos (cf. art. 1º do Código Civil), e tem legitimidade
para propositura de ação de compensação de danos morais. No entanto, por ser criança
absolutamente incapaz, ela não tem capacidade para estar em juízo, razão pela qual
deverá ser representada por seus pais, por tutor ou curador, como previsto pelo artigo 71
do Código de Processo Civil.
Quanto ao dano moral sofrido, conforme reconhecido pela jurisprudência do STJ,
considera-se presumido (in re ipsa) o dano moral causado por agressões físicas e verbais
praticadas por adultos contra crianças, como no caso das agressões praticadas por Juan
Pablo em detrimento de Ana Paula. Isso porque a Constituição (art. 227) e o Estatuto da
Criança e do Adolescente (arts. 3º, 4º, 5º, 7º, 17 e 18) conferem à criança e ao
adolescente a proteção integral, e lhes asseguram, com absoluta prioridade, os direitos à
vida, à saúde física e psíquica, e ao respeito, além de colocá-los a salvo de toda forma
de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.
Tudo isso para lhes a garantir o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e
social, em condições de liberdade e de dignidade, pondo-os a salvo de qualquer
tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor.
Em regra, a caracterização de dano moral requer a comprovação de que a ação de
alguém viola direito e provoca dano a outrem (cf. art. 186 do Código Civil), ofendendo
a dignidade e os direitos da personalidade da vítima e causando-lhe sofrimento físico e
psíquico. No entanto, segundo a jurisprudência do STJ, por conta da proteção especial
do ordenamento à criança e ao adolescente acima descrita, em caso de agressões físicas
e verbais praticadas por adulto contra criança, o dano moral é presumido (in re ipsa), e
independe da comprovação, no caso concreto, de violação da dignidade da criança e da
ocorrência de sofrimento físico e psíquico.

85. Explique a teoria de impacto desproporcional, citando exemplo de sua


aplicabilidade do direito brasileiro.
A teoria do impacto desproporcional tem total correlação com princípio da igualdade
material. A igualdade, sob a ótica da doutrina constitucional mais moderna, é dividida
em igualdade formal, material e como reconhecimento. A igualdade formal é aquela
preconizada pelo liberalismo que garante condições igualitárias sem ingerência estatal
com edição de políticas públicas voltadas para a promoção de direitos sociais. A
igualdade material é aquela que se preocupa em promover igualdade com políticas de
equalização social a depender do discrimen em análise. Já a igualdade como
reconhecimento refere-se ao respeito às diferenças e o acautelamento das minorias no
seu modo de viver e de, também, de ver o mundo.
No dizer de Joaquim Barbosa, ex-Ministro do STF e estudioso do tema, toda e qualquer
prática empresarial, política governamental ou semigovernamental, de cunho legislativo
ou administrativo, ainda que não provida de intenção discriminatória no momento de
sua concepção, deve ser condenada por violação do princípio constitucional da
igualdade material se, em consequência de sua aplicação, resultarem efeitos nocivos de
incidência especialmente desproporcional sobre certas categorias de pessoas.
Assim, pode-se afirmar que a teoria do impacto desproporcional consiste na prática por
qualquer dos poderes ou por qualquer órgão ou entidade da administração pública, bem
como por particulares que, ainda que desprovida de intenção discriminatória na prática
de um determinado ato, acaba por gerar uma discriminação indireta a determinados
grupos sociais, violando, via de consequência, o princípio constitucional da igualdade
material, acabando por resultar em efeitos nocivos e desproporcionais a certas
categorias de pessoas.
A título de exemplo, tem-se a Lei da Maria da Penha, que, não obstante tivesse como
objetivo assegurar uma maior proteção às mulheres em decorrência de violência em
razão do gênero, exigia, que a ação penal ocorresse mediante representação. Nesse viés,
o STF dispôs que nesse caso seria melhor que a ação penal fosse incondicionada, como
uma forma de alternativa para resguardar a integridade física e psíquica da ofendida.
Também se pode citar o caso analisado na ADPF nº 291, em que o Ministro Roberto
Barroso afirmou ser o crime de pederastia uma discriminação indireta contra as pessoas
homossexuais, já que incidiria sobre os militares gays. Ou ainda o caso em que o STF
analisou a constitucionalidade da incidência do limite do salário maternidade fixado
pela EC nº 20/98 sobre o salário maternidade. A decisão entendeu pela
inconstitucionalidade da norma, porque na prática, embora a política de repassar o custo
do benefício previdenciário de salário maternidade que suplantava o teto da previdência
aos empregadores representava uma ação afirmativa legítima, haveria uma
discriminação contra as mulheres no mercado de trabalho por conta aumento do ônus
financeiro aos empregadores desencadeado pela alteração legislativa, o que
invariavelmente causaria um maior desequilíbrio das relações.
Essas medidas, aparentemente neutras, acabam por gerar uma discriminação indireta,
consubstanciando a teoria do impacto desproporcional, ferindo o princípio da igualdade
e da não-discriminação, constante do artigo 3º, IV, e do artigo 5º caput, da Constituição
de 1988.

86. Disserte sobre a teoria da aparência na citação e intimação de pessoas físicas ou


jurídicas com domicílio em condomínio de lotes ou edilício com portaria de
controle de acesso e recebimento de correspondência. Tome como parâmetro o
CPC e a Lei 13.465/17, que acresceu dispositivos nas Leis 9.514/97 e 11.977/09.
A regra geral mantida pela legislação processual pátria e pelas leis esparsas é de que a
citação do réu - executado ou, ainda, o interessado - deve ser feita pessoalmente ou na
pessoa de seu representante legal ou de seu procurador, que receba poderes específicos
para tanto, sob pena de nulo ser o ato, de acordo com o artigo 242, do CPC. No entanto,
surge a ideia da teoria da aparência quando ainda é considerado válido o ato processual
realizado na pessoa que aparentava ter poderes para receber a citação, pois se portou
como se legitimado fosse, embora não fosse o réu (executado ou interessado), tampouco
dele representante.
Essa teoria advém da proteção à confiança e à boa fé objetiva, que são institutos
aplicados na citação processual, além de garantir a aplicação dos princípios da
instrumentalidade e das formas, boa fé processual e lealdade (artigos 5º, 188 e 277, do
CPC). Podemos perceber, portanto, que, ao aplicar essa teoria, a ausência de citação
pessoal ao demandado é sanada, pois se presume que o destinatário do ato processual
tomou conhecimento da demanda.
Desde o CPC/73, no caso das pessoas jurídicas, o entendimento dos Tribunais
Superiores era sobre a admissão da aplicação dessa teoria, tanto para a citação por meio
do Oficial de Justiça quanto pela via postal, na pessoa daquele que esteja no local do
estabelecimento comercial e não apresente qualquer ressalva quanto à possível ausência
de poderes para exercer tal representação.
A inovação do CPC 2015 vem no campo das pessoas físicas, pois, em contrapartida ao
entendimento até então mantido pela jurisprudência, o §4º do artigo 248 do CPC trouxe
notável exceção, permitindo que nos condomínios edilícios ou de loteamentos o porteiro
possa receber a citação e/ou assinar o aviso de recebimento da correspondência. É
ressalvado ao funcionário se negar a praticar tal ato, condicionando à declaração escrita
de que o destinatário do ato está ausente, sob pena de falsidade. Isto é, no silêncio,
presume-se que o porteiro está legitimado a receber a citação em nome da pessoa física,
presunção esta relativa que pode ser contestada pelo interessado.
O mesmo raciocínio foi incluído pela Lei 13.465/2017 nas outras duas Leis 9.514/1997
e 11. 977/2009, que, respectivamente, dispõem sobre a alienação fiduciária e sobre o
Programa Minha Casa Minha Vida, dentre outros assuntos, ao indicar que a intimação
poderá ser feita na pessoa do funcionário da portaria responsável pelo recebimento de
correspondência.
A intenção do legislador é a de proporcionar celeridade e efetividade às citações e
intimações de pessoas físicas que se enquadrem nessas hipóteses, por isso, para os
demais casos continua prevalecendo a pessoalidade no ato, sem que a teoria da
aparência seja aplicada.

87. Disserte sobre o poder normativo conferido às agências reguladoras.


As agências reguladoras são espécies de autarquias que possuem como marca
diferenciadora maior autonomia de gestão e também exercício de poder normativo (são
autarquias de regime especial). Têm sua origem no processo de privatização de áreas
econômicas antes titularizadas em monopólio pelo Estado, estando expressamente
previstas na Constituição Federal a ANATEL e a ANP. Além da autonomia de gestão
de recursos e a estabilidade de seus dirigentes, essas autarquias dispõem de poder
normativo que as diferencia das demais.
Com fulcro neste poder, estão as agências autorizadas a editar atos normativos que
vinculam aqueles que atuam no setor do mercado por elas regulamentado. A
necessidade de concessão de tamanho poder se deve ao fato de ser necessária notória
expertise para adequada regulamentação de todas as nuances da atuação no mercado,
bem como decorre do constante processo de mudança das relações subordinadas.
No mais, como entidade responsável pela fiscalização dos atores do mercado, é quem
possui maior proximidade e pode, de maneira mais eficiente, delimitar os contornos
legais necessários para o bom desenvolvimento da atividade.
Em que pese este poder normativo não seja originário, uma vez que é delegado pela lei
e nela encontra o seu limite, a jurisprudência das Cortes Superiores oferece
interpretação bastante ampliativa, reconhecendo que a atuação regulamentar é poder
indispensável para o exercício da atividade pelas agências reguladoras, alcançando a
noção de poderes implícitos.
Portanto, não pode a agência reguladora inovar no ordenamento jurídico, destoando dos
limites oferecidos pela lei. Contudo, a extensão de seu poder de regulamentar deve ser
maior do que aquele compreendido na atuação comum da Administração Pública
Indireta, sob pena de tornar obsoleta e impossível a atuação adequada aos seus fins.

88. A aplicação de alíquota zero por prazo certo se sujeita ao contido no art. 178 do
CTN?
A isenção é hipótese de exclusão do crédito tributário (art. 175, CTN) necessariamente
prevista em lei que especifique suas condições, requisitos, tributos a que se aplica e, se
for o caso, o prazo de duração (art. 176, CTN).
No intuito de preservação da segurança jurídica, o art. 178 do CTN traz, a contrario
sensu, a previsão de irrevogabilidade da isenção concedida a prazo certo e em função de
determinadas condições, restando a possibilidade de revogação por lei a qualquer
momento das isenções por prazo indeterminado e incondicionadas.
A alíquota zero, por sua vez, é uma forma de desoneração tributária que implica o
mesmo efeito da isenção, porque não haverá crédito tributário algum resultante da
operação, mas, diferentemente da isenção, não se exige lei para a fixação da alíquota
zero, considerando que é exceção ao princípio da legalidade a redução de alíquota,
podendo ser realizada por ato do Poder Executivo.
Não obstante redundem no mesmo efeito prático, não se equivalem a isenção e a
alíquota zero, razão pela qual a doutrina e a jurisprudência vêm rechaçando a aplicação
analógica do art. 178, CTN à prática da alíquota zero. Destarte, caso em algum
momento seja a alíquota de um tributo reduzida a zero, ainda que por prazo
determinado, poderá haver o restabelecimento de alíquota superior a qualquer momento
(obedecendo a legalidade e, se o caso, a anterioridade).

89. Pode denúncia ser recebida com base em fatos descritos somente em relato de
colaboração premiada?
A colaboração premiada é uma técnica especial de investigação, um meio de obtenção
de prova, por meio da qual um coautor e/ou partícipe da infração penal para, além de
confessar a prática delitiva, fornecem aos órgãos responsáveis pela persecução penal
informações objetivamente eficazes para a consecução de um dos objetivos previstos
em lei, recebendo, em contrapartida, determinado prêmio legal.
Para receber a denúncia, é preciso ao menos um conjunto de indícios que indiquem ser
aquela pessoa suspeita da prática de um crime — e o CPP indica que indícios são as
circunstâncias conhecidas e provadas que, tendo relação com o fato, autorizam, por
indução, concluir-se a existência e outra ou outras circunstâncias (CPP, artigo 239).
Logo, segundo o STF, a mera palavra do colaborador não é suficiente para o
recebimento da denúncia.
É necessário algum elemento adicional, algum dado de corroboração para além da
palavra do réu e seus manuscritos. Assim, os depoimentos do colaborador premiado
sem outras provas idôneas de corroboração não se revestem de densidade suficiente para
lastrear um juízo positivo de admissibilidade de acusação.
O Supremo Tribunal Federal possui três decisões recentes sobre o tema: na primeira,
houve rejeição de denúncia, em virtude de esta se basear supostamente apenas no relato
do colaborador; nas outras duas, houve recebimento, sendo que uma das decisões
menciona em alguns pontos a hipotética possibilidade de mera narração do delator em
colaboração justificar o recebimento da denúncia.
Da leitura das três decisões, é possível extrair que o STF tem discutido muito mais que
provas indiciárias trazidas pela delação são suficientes para o recebimento da denúncia
do que o recebimento da denúncia com base somente em depoimento de colaborador. É
a velha discussão entre lastro probatório para o recebimento da denúncia e para a
condenação.
Assim, a denúncia, para ser recebida, não precisa do mesmo lastro probatório exigido
para a condenação. Contudo, isso não significa que a palavra única e exclusiva do
colaborador, sem mais nada, absolutamente nada, possa dar margem a uma persecução
penal. A questão que se coloca é a existência de duas correntes, uma mais exigente,
outra mais flexível, do que seriam as provas anexas ao depoimento de colaboração.

90. A ação de exigir contas é compatível com os contratos bancários de empréstimo


ou financiamento de bens?
A ação de ação de exigir contas, prevista nos artigos 550 a 553 do Código de Processo
Civil, tem como objetivo sanar incertezas ou dúvidas surgidas a partir da administração
de bens, negócios e interesses de terceiros, ou seja, aqueles que estiverem administrando
bens alheios é que devem prestar contas. Nos contratos de empréstimo e financiamento,
porém, não é exatamente a gestão de bens que ocorre, senão vejamos.
Em síntese, nos contratos de empréstimo e financiamento, as instituições financeiras
emprestam dinheiro ao mutuário através de um contrato, o qual gera uma obrigação
unilateral a este, que consiste na restituição daquilo que ele recebeu, conforme
preconiza o artigo 586 do Código Civil.
Nesse sentido, não surge obrigação por parte da instituição financeira em prestar contas,
tendo em vista que a relação de direito que é estabelecida com o mutuário não consiste
na administração e gestão de bens, mas apenas de disponibilizar uma quantia em
dinheiro para o mutuário.
Nos contratos bancários de empréstimo, não ocorre qualquer tipo de gerenciamento de
bens entre mutuante e mutuário, ocorrendo somente a transferência do valor solicitado
por este último, o qual se torna devedor. A atividade da instituição nesses casos é
apenas transferir o recurso solicitado ao tomador do empréstimo, cabendo a este a
devolução do valor de acordo com o que ficar estabelecido em contrato.
Dessa forma, por se tratar de um contrato fixo que não envolve gestão de bens, mas sim
o repasse de um valor requerido pelo mutuário, não é cabível a ação de exigir contas em
face da instituição financeira, haja vista a ausência do interesse de agir por parte do
tomador do empréstimo, conforme entendeu o STJ.
Convém salientar que a citada ação não tem cabimento nos contratos bancários de
empréstimo e financiamento, mas pode ser manejada diante dos contratos bancários de
abertura de conta corrente, conforme súmula 259 do STJ.
Sendo assim, não será cabível a ação de exigir de contas no caso em comento, mas é
possível que o interessado se utilize da ação de exibição de documentos, considerando a
relação de direito material firmada entre este e a instituição financeira.
Por fim, resta destacar que se trata de tese julgada pelo STJ em sede de recurso
repetitivo no sentido de que, nos contratos de mútuo e financiamento, o devedor não
possui interesse de agir para a ação de prestação de contas.

91. Explique com argumentos doutrinários e jurisprudenciais se é aplicável o


princípio da insignificância em furto qualificado por rompimento de obstáculo.
O princípio da insignificância, também chamado de "princípio da bagatela" ou "infração
bagatelar própria", respaldado nos postulados da fragmentariedade e subsidiariedade do
Direito Penal, afasta a tipicidade material nos casos em que a proteção ao bem jurídico
sucumbe diante do desvalor da violação da norma. Assim, a insignificância recai sobre
as condutas que, embora formalmente típicas, não atingem de maneira relevante o bem
jurídico tutelado pela norma penal, de forma a desmerecer a consequente repressão
estatal.
De acordo com a orientação do Supremo Tribunal Federal, a sua aplicação exige os
seguintes requisitos: (i) a mínima ofensividade da conduta do agente, (ii) a nenhuma
periculosidade social da ação, (iii) o reduzidíssimo grau de reprovabilidade do
comportamento e (iv) a inexpressividade da lesão jurídica provocada.
Quanto ao caso em tela, o STF não tem reconhecido a insignificância em furto que,
embora envolva valores irrisórios, tenha sido praticado sob circunstâncias qualificadoras
(art. 155, § 4º, do Código Penal), as quais, como se sabe, dobram a pena mínima e a
máxima.
O furto qualificado por rompimento de obstáculo, no qual o agente, para subtrair a coisa
alheia, se vale de um anormal meio de execução, que gera a produção de um dano à
coisa material que servia como obstáculo, denota uma maior reprovabilidade da conduta
do agente. Isso porque, inobstante os obstáculos que dificultam a subtração da coisa, o
agente opta por dar continuidade à empreitada criminosa com o objetivo de subtrair o
objeto, não sendo dissuadido pela maior dificuldade que terá para alcançar seu intento
nem pelo maior prejuízo que produzirá com o rompimento ou a destruição.
Assim, o entendimento jurisprudencial tem sido no sentido de que o furto com
rompimento de obstáculo impede a aplicação do princípio, na medida em que não se
poderia dizer que o grau de reprovabilidade, neste caso, seria reduzidíssimo, além de se
detectar alguma periculosidade na referida ação.
Na doutrina, porém, há posição pela possibilidade de aplicação do princípio da
insignificância mesmo nos casos de furto qualificado pelo rompimento de obstáculo,
quando os prejuízos causados pelo comportamento incriminado sejam irrelevantes.
Dessa forma, a simples caracterização de furto qualificado não impediria a adoção ao
princípio da insignificância, devendo ser analisadas as peculiaridades do caso concreto
e, desde que presentes os requisitos para a aplicação do princípio, não haveria óbice à
sua aplicação. Tal posição não é, porém, a que prevalece.

92. É admissível que a operadora de plano de assistência à saúde recuse a


cobertura de tratamento sob a alegação de que se cuida de doença preexistente?
Sim, o artigo 11 da Lei 9.656/98 permite que, nos primeiros 24 meses a partir da
vigência do instrumento contratual, as operadoras de plano de saúde recusem a
cobertura de tratamento a lesões e doenças preexistentes à data de contratação dos
respectivos planos, cabendo à operadora o ônus da prova e da demonstração do
conhecimento prévio do consumidor ou beneficiário.
Enquanto a operadora não se desincumbir desse ônus, o tratamento não poderá ser
recusado nem suspenso (cf. parágrafo único do artigo 11 da Lei 9.656/98). Após a
fluência dessa carência de 24 meses, as operadoras não poderão mais recusar cobertura
a tratamento de doenças e lesões preexistentes.
Questão controversa tratada pela jurisprudência refere-se à comprovação da doença
preexistente e do conhecimento prévio do paciente. Em entendimento jurisprudencial
sumulado, o STJ sustenta que as operadoras de plano de saúde não podem recusar o
tratamento quando não tenham exigido do paciente a elaboração de exames no momento
da contratação para constatar e comprovar as lesões ou doenças preexistentes e o
conhecimento prévio do paciente.
Nessa medida, quando esses exames não tenham sido solicitados, a jurisprudência
admite a recusa da cobertura apenas quando a operadora consegue comprovar, por
outros meios, que o consumidor tinha ciência de doença preexistente e dolosamente
ocultou essa informação no momento da contratação.
Outra hipótese já tratada pela jurisprudência refere-se a casos em que, não obstante o
paciente soubesse da existência de mal preexistente, esta doença ou lesão não o tenha
impedido de viver por um período considerável de forma saudável, sem lhe causar
impedimentos ou limitações relevantes. Nesses casos, aplicando o princípio da boa-fé
objetiva na interpretação do contrato, a jurisprudência igualmente proíbe a recusa de
cobertura de tratamento por parte das operadoras de saúde, por considerar não haver, na
ótica do paciente, doença ou lesão preexistente com potencial de demandar tratamento
por parte do plano de saúde.

93. É possível reconvenção em ação possessória, para reconhecimento de direito à


indenização por benfeitorias em imóvel?
O procedimento especial da ação possessória está previsto no art. 554 e seguintes do
CPC/15. O código de processo civil dispõe que caberá ao réu, em sede de contestação,
alegar que foi o ofendido em sua posse e solicitar a proteção possessória e indenização
por perdas e danos decorrentes do esbulho ou turbação. Trata-se da possibilidade de um
pedido contraposto por ter a ação possessória um caráter dúplice.
Em relação à reconvenção neste tipo de ação de rito especial, o CPC foi silente. A
doutrina sempre se manifestou a respeito, mesmo na vigência do código anterior, de que
a reconvenção nessa situação seria incabível por falta de interesse de agir do réu, pois,
por ser uma ação de caráter dúplice, já havia a previsão do pedido contraposto.
Além disso, se o réu fizesse qualquer pedido não previsto para o pedido contraposto
aduzido no código, a ação se tornaria procedimento ordinário. Todavia, esse
posicionamento vem se modificando. Inclusive já existe julgado do STJ conferindo a
possibilidade do ajuizamento da reconvenção, porém com os requisitos de que os
pedidos tenham pertinência com o objeto da ação principal e que não seja referente à
proteção possessória ou indenização por perdas e danos. Além disso, que ela siga todas
as regras procedimentais da reconvenção do processo ordinário.
Diante disso, a despeito da regra pelo não cabimento da reconvenção nas ações
possessórias, excepciona-se tal previsão quando o réu tiver pedido diverso do artigo
556, CPC/15, como, por exemplo, tiver que requerer a indenização por benfeitorias
realizadas no imóvel e que estas tenham relação com a lide possessória.

94. Se segurado do RGPS, que sempre contribuiu pelo teto do salário-de-


contribuição, por não exercício de atividade remunerada cessar suas contribuições
por até 12 meses e for preso, seus dependentes previdenciários farão jus ao auxílio-
reclusão?
O auxílio reclusão, com previsão constitucional e legal (art. 201, IV da CF; e art. 80 da
Lei 8.213/91), visa amparar a família do preso (segurado) de baixa renda, buscando
evitar que a prisão do indivíduo tenha reflexos econômicos graves sob seus familiares,
que não podem ser penalizados por conduta que não praticaram. Contudo, cumpre
observar que o auxílio reclusão não constitui um benefício assistencial, mas sim
previdenciário, sendo a condição de segurado, portanto, imprescindível ao seu
recebimento.
Nesse contexto, tendo em vista que, como regra geral, a condição de segurado se
mantém por até 12 meses após a cessação da atividade remunerada abrangida pela
Previdência Social, (art. 15, II da Lei 8.213/91), a prisão, ocorrida ao longo desse
período de 12 meses, poderá ensejar o cabimento de auxílio reclusão.
No presente caso, porém, a condição de segurado poderá ser estendida para além dos 12
meses, podendo o período de graça chegar até 24 meses, desde que devidamente
comprovada a situação de desemprego (art. 15, parágrafos segundo da Lei 8.213/91).
Assim, estaria preenchida essa condição de segurado.
Relativamente ao outro requisito - família de baixa renda - deve ele ser analisado no
momento do recebimento do benefício, ou seja, a renda existente no momento da prisão
do segurado. Significa dizer que, mesmo tendo recolhido as contribuições
previdenciárias pelo teto do salário de contribuição, estando o segurado desempregado
no momento da prisão é possível considerá-lo como de baixa renda, pois não haverá
renda alguma sendo auferida neste momento.
Foi exatamente nesse sentido que decidiu, recentemente, o Superior Tribunal de Justiça,
a despeito do entendimento oposto do INSS. Dessa forma, estando o segurado
desempregado no momento da prisão, o requisito "baixa renda" estará automaticamente
preenchido, sendo devido, portanto, o auxílio reclusão no caso tratado.

95. Ante os princípios da função social e preservação da empresa bem como da


menor onerosidade do executado, disserte sobre a reserva da penhora de
participação societária em sociedades de pessoas e de capital como "ultima ratio".
A penhora consiste em uma constrição compulsória do patrimônio daquele que não
efetua, voluntariamente, o pagamento de valores determinado por decisão judicial.
Trata-se de medida que reforça o princípio da efetividade da prestação jurisdicional, e
que só pode ser determinada por autoridade judiciária.
Nesse contexto, a penhora de participação societária, conforme previsto no art. 861 do
NCPC, consubstancia uma das modalidades de constrição patrimonial das pessoas
jurídicas. Contudo, tal possibilidade deve se compatibilizar com os princípios da função
social, da preservação da empresa e da menor onerosidade do executado.
O princípio da função social está atrelado à ideia de que a empresa cumpre um
importante papel social, gerando emprego, receitas para o Estado (tributos),
impulsionando, portanto, a própria economia. Assim, a sua preservação, principalmente
no âmbito do sistema capitalista, passa a ser imprescindível para o crescimento
econômico e, consequentemente, para as melhorias sociais.
A ideia da menor onerosidade do executado, aplicável tanto às pessoas físicas quanto
jurídicas, busca garantir um mínimo de equilíbrio entre as partes, evitando que a
satisfação do crédito se faça em total detrimento do devedor, que também é sujeito de
direitos. Nesse diapasão, observa-se que o próprio legislador, apesar de prever a
penhora de participação societária, o fez como medida alternativa, determinando,
preferencialmente, que outras formas de penhora sejam realizadas previamente (art.
835, IX do NCPC). Dessa forma, verifica-se que a sua utilização deve ser adotada como
"ultima ratio".
Por fim, tendo em vista a referida importância do papel das empresas na sociedade
moderna, em respeito ao princípio da affectio societatis, feita a penhora das quotas,
deverá ser dada preferência aos sócios ou até mesmo à própria sociedade para adquiri-
las, conforme previsto no art. 861, inciso II e parágrafo primeiro do NCPC.
O CPC/15 terminou por positivar o entendimento do STJ no art. 861 do CPC, que
complementa o art. 1.026 do CC, ao regulamentar a forma segundo a qual a participação
societária penhorada nos termos do art. 835, IX, do CPC será expropriada do executado
para satisfazer o crédito do exequente.
Pelo art. 861 penhorada as quotas ou as ações, a sociedade disporia de até 3 meses para:
1) apresentar balanço especial nos termos do inciso I do art. 861. Aqui o valor do
crédito seria retirado do saldo de lucros ou das reservas que tocariam ao sócio
executado; 2) oferecer a participação societária do sócio executado aos demais sócios
para exercício da adjudicação preferencial segundo o inciso II, ou pela sociedade nos
termos no § 1º, hipótese em que o valor pago pelo seria entregue ao exequente; ou 3) em
última hipótese, proceder à liquidação da quota ou da ação penhorada segundo o inciso
III. A liquidação poderá ser extrajudicial, ainda que com a intervenção de administrador
pelo §3º, ou judicial pelo § 5º do art. 861.
A conclusão do julgado do STJ e as disposições do novo art. 861 do CPC se aplicam
aos vários tipos societários, porque o referido art. 1.026 e parágrafo único do CC, que
rege a sociedade simples, é aplicável subsidiariamente aos demais tipos societários,
inclusive às sociedades empresárias e limitadas por força dos arts. 1.040, 1.046, 1.053
do CC.
Assim, a ação e a quota social bem como os direitos derivados da participação societária
só podem ser atingidos caso seja plenamente constatado que não existem outros meios
de satisfazer o crédito executado através de bens particulares do sócio. Em suma, o
credor não pode, desde logo, partir contra os direitos de sócio do devedor,
permanecendo eles como última alternativa à penhora que, caso se concretize, deverá
ainda priorizar a retenção de lucros e reservas ou adjudicação no lugar da liquidação da
ação ou quota social.

96. Foro por prerrogativa de função e governadores de Estado: analise a atual


abrangência da regra processual.
O foro por prerrogativa de função é um instituto constitucional que visa resguardar o
livre exercício de certos cargos ou funções públicas, submetendo seus detentores a
julgamentos perante órgãos colegiados. A jurisprudência clássica do STF não impunha
qualquer restrição ao foro por prerrogativa de função. Assim, ocorrida a diplomação do
agente, qualquer processo criminal em este figure como réu deveria ser encaminhado ao
Tribunal competente.
Contudo, em função dos efeitos indesejáveis criados por esse posicionamento, o STF
alterou sua jurisprudência. A Corte fixou importantes vetores para nortear a aplicação
das regras sobre foro por prerrogativa de função, realizando uma redução teleológica do
instituto.
Como a ideia do instituto é garantir o livre exercício de certos cargos e funções
públicas, não há sentido aplicá-lo a crimes cometidos antes da investidura, tampouco
aqueles cometidos após a investidura, mas sem relação com o exercício das funções. O
STF apontou também que o instituto é uma exceção ao princípio republicano e ao
princípio da igualdade, razão pela qual deve ser interpretado restritivamente, já que
estes princípios gozam de uma preferência axiológica em relação aos demais.
O STF fixou, portanto, a seguinte tese: As normas da Constituição de 1988 que
estabelecem as hipóteses de foro por prerrogativa de função devem ser interpretadas
restritivamente, aplicando-se apenas aos crimes que tenham sido praticados durante o
exercício do cargo e em razão dele.
A Corte determinou que o marco da perpetuação da jurisdição nesses casos seria o fim
da instrução criminal, que ocorre com a publicação do despacho de intimação para
apresentação de alegações finais. Essa nova orientação se aplica a todos os processos
em curso. Essa decisão do STF, contudo, foi restrita a Deputados Federais e Senadores
da República, o que não impede que os Tribunais sigam o mesmo raciocínio jurídico
utilizado. O STJ fez exatamente isso em caso envolvendo um Governador de Estado,
remetendo os autos para 1ª instância, visto que os crimes supostamente praticados
versavam sobre período anterior à investidura.
Inicialmente, importante mencionar que recentemente o Plenário do STF restringiu o
alcance do foro por prerrogativa de função dos parlamentares, decidindo pela aplicação
apenas aos crimes cometidos durante o exercício do cargo e relacionado as funções
desempenhadas.
Decidiu ainda que, após o final da instrução processual, com a publicação do despacho
de intimação para apresentar as alegações finais, a competência não será mais afetada
em virtude de o agente público ocupar outro cargo ou deixar o cargo que ocupava.
Ainda, estabeleceu-se que as Constituições Estaduais não podem, invocando o Princípio
da Simetria, definir foro por prerrogativa de função, uma vez que se trata de atribuição
exclusiva da União, conforme dispõe o art. 22 da Constituição Federal.
No que diz respeito aos governadores, e incluindo também conselheiros de contas, o
STJ decidiu recentemente, em consonância com o que já havia sido decidido pelo STF,
que eles terão o foro por prerrogativa de função restrito a fatos ocorridos durante o
exercício do cargo e em razão dele.
Quando da análise do tema, o STF já havia realizado adendo e retificação do voto
proferido a fim de constar de que não poderia se restringir o foro apenas aos
parlamentares, que era a questão do caso concreto analisado, mas que, pelo Princípio da
Isonomia, a interpretação devia ser aplicada a todos os que possuíam o foro por
prerrogativa.

97. O que é princípio de direito internacional do estoppel?


Forjado no âmbito da doutrina dos atos próprios, o princípio do “stoppel” consiste na
vedação à adoção de comportamentos contraditórios no bojo das relações
internacionais, cuja origem remonta ao vetusto brocardo “venire contra factum
proprium”.
Na lição do doutrinador André de C. Ramos, determina tal postulado que as partes
envolvidas em determinado litígio em tribunais internacionais de direitos humanos não
poderão alegar fatos ou negar vigência a determinadas normas internacionais e
compromissos quando aludido comportamento esteja em desacordo com conduta
anteriormente adotada.
Curial anotar que o princípio do “stoppel” encontra-se cristalizado na jurisprudência da
Corte Interamericana de Direitos Humanos, expresso na intelecção segundo a qual
deverá o Estado suscitar a exceção de admissibilidade por ausência do esgotamento dos
recursos internos já ao tempo do procedimento levado a efeito perante a Comissão
Interamericana, a fim de afastar a competência dos órgãos internacionais – subsidiária,
por excelência –, sendo-lhe vedado argui-la, pela primeira vez, perante a Corte, sob
pena de preclusão, uma vez caracterizada desistência tácita dessa objeção.
Releve-se, ainda, que também no direito de integração encontra assento o princípio do
“stoppel”, já havendo decidido o Tribunal “ad hoc” do Mercosul pela incompatibilidade
de lei brasileira face a compromisso internacional previamente assumido pelo país, que
deveria ser prestigiado no âmbito interno. Tem-se, pois, que aludido princípio, por
representar a expressão da boa-fé objetiva que deverá balizar, sempre e sempre, o
comportamento dos Estados nas relações internacionais, consubstancia perspícuo
princípio geral de direito internacional de índole costumeira, cuja observância pela
comunidade internacional é impositiva, independentemente de convenções.

98. Incide contribuição previdenciária sobre o terço constitucional de férias


gozadas?
O atual posicionamento jurisprudencial acerca da incidência da contribuição
previdenciária sobre o terço constitucional de férias não é conclusivo. Nesse viés,
inclusive, cabe destacar que o Supremo Tribunal Federal (STF) entendeu pela
repercussão geral do Recurso Extraordinário (RE) 1072485 em que se analisa a
incidência ou não dessa contribuição sobre o terço de férias.
Nessa linha, será definida a natureza jurídica da verba referente ao terço constitucional
de férias gozadas. No entanto, em que pese haver entendimento jurisprudencial no
sentido de que a contribuição previdenciária sobre o adicional de férias usufruídas
possui natureza indenizatória, observa-se, em verdade, pela sistemática do ordenamento
jurídico pátrio e, em especial, pelo teor do artigo 195, I, a, da Constituição Federal de
1988 (CF/88), que todos os pagamentos efetuados ao empregado em decorrência do
contrato de trabalho compõem a base de cálculo da incidência previdenciária,
excepcionando, tão somente, as verbas taxativamente descritas no parágrafo 9º, do
artigo 28 da Lei nº 8.212/19991.
Não há razão, nesse sentido, de não incidir a contribuição em comento sobre o terço
constitucional de férias, já que o terço de férias usufruídas não está expressamente
previsto no referido dispositivo legal, constando-se, pelo contrário, que só é ressalvado
do salário-de-contribuição o adicional de férias indenizadas.

99. Cabimento da ação de exibição de documento sem a formulação de prévio


requerimento extrajudicial do autor junto ao réu. Posição atual do STJ.
A ação de exibição de documentos era disciplinada no CPC/73 como medida cautelar de
exibição, prevista nos artigos 844 e 845. Tal previsão não se repetiu no CPC/2015, que,
todavia, disciplinou a produção antecipada de provas nos arts. 381 e 382. Embora haja
discussão doutrinária, com o advento do novo código, acerca da existência (ou não) de
ação autônoma para exibição de documentos, não se questiona a possibilidade de
demandar tal pretensão em juízo, mormente considerando o princípio da
inafastabilidade de jurisdição, consagrado no art. 5º da CF.
No entanto, o princípio da inafastabilidade de jurisdição não é absoluto (como não o é
qualquer direito fundamental), de modo que os tribunais superiores têm mitigado sua
aplicação em algumas situações. O STF decidiu, em repercussão geral, que é necessária
a existência de prévio requerimento administrativo em caso de ações judiciais versando
sobre benefícios previdenciários. O STJ, por sua vez, entende que a ação constitucional
de habeas data deve ser instruída com prova da negativa administrativa ou da demora da
Administração Pública em responder ao pedido efetuado.
No caso específico da exibição de documentos, inicialmente o STJ entendia cabível o
ajuizamento de demanda sem prévio requerimento extrajudicial do autor junto ao réu,
sob o fundamento de que a única repercussão seria a condenação do autor ao pagamento
das verbas sucumbenciais, ante o princípio da causalidade, especialmente quando o réu
exibia os documentos na contestação. Atualmente, o STJ alterou seu entendimento para
exigir o prévio requerimento extrajudicial, além do pagamento das custas. Sem isso, não
haveria que se falar em lide, justamente por não estar configurada pretensão resistida,
não havendo direito de agir do autor.

100. (In)viabilidade de condução coercitiva e constitucionalidade da prisão


temporária: disserte sobre o tema.
A condução coercitiva do investigado tem previsão legal no art. 260 do CPP, que dispõe
que "Se o acusado não atender à intimação para o interrogatório, reconhecimento ou
qualquer outro ato que, sem ele, não possa ser realizado, a autoridade poderá mandar
conduzi-lo à sua presença".
Ocorre que o plenário do STF, no julgamento de duas ADPF, declarou que a condução
coercitiva do réu para o interrogatório, na forma como disposto no citado artigo, não foi
recepcionada pela Constituição Federal.
Segundo o entendimento majoritário da Suprema Corte, a condução coercitiva do réu
constitui restrição da sua liberdade de locomoção e viola o princípio da não
culpabilidade, motivos pelos quais é incompatível com a Constituição Federal. No
julgamento ainda ficou definido que o agente ou autoridade que desobedecer a decisão
poderá ser responsabilizado nos âmbitos disciplinar, cível e penal, bem como que a
decisão não afeta os interrogatórios realizados mediante condução coercitiva
anteriormente ao julgamento.
Dessa forma, atualmente, não é mais possível a condução coercitiva para o
interrogatório de réus ou investigados. Frise-se, entretanto, que a condução coercitiva
das outras pessoas, ou do réu/investigado para atos diversos do interrogatório, não foi
questionada nas referidas ADPF, de modo que, em razão da presunção de
constitucionalidade, permanece possível a condução coercitiva.
Quanto à prisão temporária, é uma espécie de prisão cautelar prevista na Lei nº
7.690/89. Há no STF a ADI 4109 questionando a sua constitucionalidade, no entanto,
ainda não houve o julgamento. A defesa da constitucionalidade da prisão temporária
funda-se, principalmente, no argumento de que não viola o princípio da presunção de
inocência, porque possui natureza cautelar, assim como a prisão preventiva, não
implicando considerar o preso culpado. Ademais, o próprio art. 5º, LXI, da CF prevê a
possibilidade de prisões cautelares.
De outro lado, há quem alegue que a prisão temporária frustra o direito à liberdade
provisória, bem como o princípio da presunção de inocência, já que poderá ser utilizada
como instrumento alternativo à condução coercitiva, nas hipóteses em que for
imprescindível para a investigação criminal.

101. Podem ser penhorados frutos e rendimentos de bens inalienáveis?


Bens inalienáveis são aqueles em que não é possível a sua venda, doação ou penhora.
Alguns bens são declarados por lei como inalienáveis, como, por exemplo, os bens
públicos de uso comum e de uso especial (art. 100, do Código Civil), enquanto outros se
tornam inalienáveis por vontade da própria parte, que, por um ato de liberalidade, os
torna inalienáveis, como, por exemplo, a cláusula de inalienabilidade prevista em
testamento (art. 1.911, do Código Civil).
Os frutos são bens acessórios, ou seja, dependem do principal para existir. São
utilidades que o bem principal produz periodicamente, sem que a substância do bem
principal seja diminuída com a sua retirada. Dentre as espécies de frutos, existem os
civis, que são os rendimentos produzidos pela coisa em razão de utilização do bem por
outra pessoa, como, por exemplo, os alugueis.
O Código de Processo Civil, em seu art. 833, prevê quais bens são considerados
impenhoráveis e, entre eles, estão os bens inalienáveis. Ocorre que o mesmo diploma
legal, em seu art. 834, esclarece ser possível a penhora dos frutos e rendimentos dos
bens inalienáveis, entretanto, para que tal hipótese seja possível, não devem existir
outros bens passíveis de penhora, caso contrário, será realizada a penhora dos demais
bens na ordem preferencial prevista no art. 835, do Código de Processo Civil.
A principal diferença entre a previsão do CPC/15 para o CPC/73 é que no diploma mais
antigo, havia expressamente a impossibilidade de penhora dos frutos e rendimentos dos
bens inalienáveis se esses fossem destinados à prestação alimentícia. Pois bem, em que
pese o CPC/15 não tratar expressamente do tema, acredita-se que ainda é aplicável tal
exceção, isso porque, ao realizar uma interpretação sistemática, principalmente em
relação ao princípio da dignidade da pessoa humana, é possível entender que a penhora
de pensão alimentícia violaria o sistema jurídico.

102. Responsabilidade civil do Estado por atos notariais e de registro (CRFB, art.
236). Discorra sobre o tema.
Conforme dispõe o art. 236, CF/88, os serviços notariais e de registros são exercidos em
caráter privado, por delegação do Poder Público. Os notários e registradores são
plenamente responsáveis por eventuais danos que, nesta qualidade, causarem a
terceiros. Por sua vez, em se tratando de delegação de serviço público, o Estado também
responderá por tais danos, mas apenas de maneira subsidiária. Ou seja, tão somente nos
casos em que o patrimônio do titular da serventia não for suficiente para fazer frente aos
prejuízos provocados pelo ato.
A grande mudança diz respeito ao tipo de responsabilidade civil dos notários e
registradores, a qual foi radicalmente alterada com o advento da L. 13.286/16. Num
momento inicial, portanto, anterior à referida alteração legislativa, entendia-se que a
responsabilidade seria objetiva, caso em que não seria necessário à pessoa lesada
demonstrar o dolo ou culpa do notário ou registrador.
Três fundamentos amparavam tal conclusão. (i) os serviços notariais e de registro são de
natureza pública, embora exercidos em caráter privado por delegação a pessoa física
(particular). Assim, concluía-se pela possibilidade de aplicar aos “cartórios” o § 6º do
art. 37 da CF/88, sob o entendimento de que tal dispositivo não deveria se restringir às
pessoas jurídicas, devendo alcançar os notários e registradores a fim de atingir a
finalidade da norma (qual seja a de proteger o administrado e assegurar o seu pleno
ressarcimento). (ii) sob o argumento (controvertido) da aplicação do art. 14 do CDC a
tais serviços, atraía-se a responsabilidade objetiva do fornecedor em caso de fato do
serviço; (iii) por força da redação anterior do art. 22 da L. 8935/94, o qual estabelecia
que os notários e oficiais de registro deveriam responder pelos danos causados a
terceiros, exigindo o dolo ou a culpa tão somente para o exercício do direito de regresso
dos notários e registradores contra os seus prepostos (daí a conclusão de que, diante do
silêncio legislativo no que tange à exigência de culpa ou dolo como condição para a
indenização dos terceiros, tal requisito não seria exigível).
Tal entendimento, até então pacífico, foi diametralmente modificado com o advento da
Lei 13.286/16, que alterou o art. 22 da Lei 8.935/94 para instituir expressamente a
responsabilidade subjetiva para os notários e registradores. Assim, somente em caso de
prejuízo causado a terceiro por culpa ou dolo do notário ou oficial de registro, será
devida a indenização. Ademais, a novel legislação também consagrou uma segunda
regra favorável aos notários e registradores, qual seja a redução do prazo prescricional
de 5 para 3 anos (art. 22, parágrafo único).

103. Considerando a temática dos concursos públicos, disserte sobre a


constitucionalidade da cláusula de barreira.
O artigo 37, inciso II, da Constituição da República, preceitua que a investidura em
cargo ou emprego público depende da aprovação prévia em concurso de provas ou
provas e títulos, conforme a natureza e a complexidade das atribuições respectivas. A
finalidade desses certames é selecionar, de maneira isonômica e impessoal, os
candidatos que se mostrarem mais qualificados a integrar o quadro de agentes da
Administração Pública.
O edital do concurso deve observância aos princípios constitucionais que orientam a
Administração e também às leis específicas de cada carreira. Não obstante essas
restrições de ordem constitucional e legal, o Poder Público é dotado de
discricionariedade para elaborar os editais dos certames que promover, incluindo neles
ferramentas que facilitem o processo de seleção dos seus futuros servidores e
empregados.
Um desses instrumentos é a chamada cláusula de barreira. Trata-se de uma previsão
editalícia restritiva que estabelece um número fixo de candidatos que poderão
prosseguir para as fases posteriores do certame. Essa cláusula geralmente vem
acompanhada de uma regra eliminatória que determina uma quantidade mínima de
acertos a ser atingida pelo candidato, sob pena de exclusão do concurso. Assim, a
aprovação na primeira fase de um certame pode depender de dois fatores: uma
pontuação mínima somada a uma classificação específica dentro do universo dos
candidatos com notas suficientes para não serem eliminados.
O viés rigoroso da cláusula de barreira suscitou dúvidas na práxis forense a respeito de
sua constitucionalidade. Todavia, em sede de recurso extraordinário com repercussão
geral reconhecida, o Supremo Tribunal Federal entendeu que a cláusula de barreira não
viola o princípio da isonomia entre os candidatos (art. 37, I, CF).
De fato, a cláusula de barreira é um discrímen legítimo, pois adota como pressuposto
um critério objetivo: a comparação dos desempenhos dos candidatos que almejam
ocupar determinado cargo ou emprego público. Além de ser objetivo, esse fator de
diferenciação é compatível com o escopo da norma que rege os concursos públicos - a
de que a Administração deve selecionar seus agentes de maneira impessoal e a partir de
critério meritocrático.
Dessa forma, a cláusula de barreira, quando fundada em critérios objetivos relacionados
ao desempenho dos candidatos, concretiza o princípio da igualdade no aspecto material
(isonomia), razão pela qual o STF a julgou compatível com a Constituição.

104. No passado, determinada segurada laborou no serviço público em atividade


vinculada ao RPPS concomitantemente com outra atividade privada vinculada ao
RGPS. Atualmente, por haver pedido exoneração do cargo público e não mais
estar vinculada ao RPPS, a mesma segurada decidiu por se aposentar no RGPS na
modalidade de aposentaria por tempo de contribuição. Nesta situação, seria
possível que a segurada se beneficiasse de alguma forma da atividade concomitante
do RPPS? Na fundamentação, analise a possibilidade de utilização do referido
período concomitante do RPPS para o cômputo do tempo de contribuição de 30
anos exigidos pelo RGPS e para o cálculo do salário-de-benefício da aposentadoria
por tempo de contribuição no RGPS.
É indubitável que a CF autoriza que o tempo de contribuição para o RPPS seja utilizado
para fins de aposentadoria no RGPS (art. 201, §9°, CRFB). Da mesma forma, autoriza-
se que o tempo de contribuição em um regime próprio de aposentadoria seja utilizado
em outro (art. 40, §9°, CRFB).
Essa contagem recíproca de contribuições tem como objetivo garantir àquele que
contribuiu por tempo suficiente o seu direito à aposentadoria e, ao mesmo tempo, visa
manter o equilíbrio atuarial dos regimes de previdência através da compensação
financeira entre os regimes (compensação esta disciplinada pela Lei nº 9.796/1999).
Contudo, essa contagem recíproca deve respeitar algumas regras. Uma das mais
importantes é a que veda que o tempo de filiação ao RPPS e ao RGPS seja
concomitante (art. 96, II, da Lei nº 8.213/1991). E isso se dá porque a contagem
recíproca visa garantir o direito à aposentadoria daquele que alcançou o critério de
tempo de contribuição, contado em anos. Autorizar que fosse contado tempo
concomitante representaria burla a esse requisito, pois autorizaria, em tese, que alguém
que trabalhou apenas metade do tempo exigido no RGPS para aposentadoria (35 anos,
para homem, e 30 para mulher, na regra geral do art. 201, §7º, CRFB) fosse aposentado.
Por exemplo, se uma mulher trabalhar durante 15 anos vinculada tanto ao RGPS quanto
ao RPPS, se admitida a contagem da atividade concomitante, já autorizaria que ela se
aposentasse, porque ela já teria trabalhado 30 anos (somando-se os dois períodos).
Contudo, isso atingiria de morte o equilíbrio atuarial do regime de previdência. E o art.
201 da CRFB/88 é claro ao dispor que a previdência social observará critérios que
preservem o equilíbrio financeiro. No caso do enunciado, o tempo concomitante não
poderá ser utilizado para fins de contagem do tempo de contribuição.
Não obstante, ainda no caso do enunciado, se ainda assim a segurada conseguir
preencher o tempo de contribuição para aposentadoria, os valores vertidos tanto para o
RGPS quanto para o RPPS poderão ser utilizados nos períodos correspondentes para o
cálculo do benefício previdenciário a que ela terá direito, haja vista o disposto no art.
32, I, da L. 8.213/1991 e observada a devida compensação entre os regimes (Lei nº
9.796/1999).
105. É possível a exigência de exame criminológico para a concessão de livramento
condicional?
Com o advento da Lei 10.792/03, não se exige mais o exame criminológico para
progressão de regime ou livramento condicional. É o que se infere do art. 112, caput e §
2º e § 3º da Lei 7.210/84. O STF tem dito que, embora a lei não traga mais a
obrigatoriedade do exame criminológico, nada impede que, diante das peculiaridades do
caso concreto, o juiz determine que o exame seja feito.
Veja-se que o art. 83, parágrafo único, do Código Penal e os artigos 131 a 140 da Lei de
Execuções penais não trazem nada a respeito do tema, entretanto o STJ tem se
pronunciado inclusive através de súmula (súmula 439) no mesmo sentido da Corte
Suprema. Destaque-se que a súmula vinculante 26 do STF c/c o artigo 112 § 2º e art. 8º
da LEP também militam na possibilidade de realização do exame em aplicação
analógica.

106. Explique o instituto da Garantia da Lei e da Ordem de acordo com a ordem


constitucional vigente.
Segundo o art. 142 da CRFB/1988, as Forças Armadas são instituições de caráter
permanente, compostas pela Marinha, Exército e Aeronáutica, que têm como autoridade
suprema o Presidente da República e como finalidade a defesa da Pátria, a garantia dos
poderes constitucionais (Executivo, Legislativo e Judiciário) e, por iniciativa de
qualquer um desses Poderes, a garantia da lei e da ordem (GLO).
A principal função das Forças Armadas brasileiras – assim como em qualquer país – é a
defesa da pátria (território e população) contra ameaças externas, mas também há
espaço para a atuação de soldados militares em situações de segurança interna – o que,
idealmente, deveria ser função apenas das polícias (civil, federal e militar).
Qualquer dos Poderes constitucionais poderá solicitar a decretação da GLO, mas a
decisão de emprego das Forças Armadas na garantia da lei e da ordem é da competência
exclusiva do Presidente da República (art. 2º do Decreto nº 3.897/2001), quase sempre a
pedido dos governadores ou de outras autoridades políticas, tais como os presidentes do
STF, do Senado e da Câmara dos Deputados.
Assim, desde que aprovado e autorizado pelo Presidente da República, as Forças
Armadas podem ser empregadas em eventos ou situações internas, como em questões
de segurança pública ou situações em que somente o emprego da polícia não é o
suficiente.
Deve-se lançar mão da GLO apenas quando esgotados os instrumentos previstos no
artigo 144 da CRFB, isto é, quando, em determinado momento, as instituições
mencionadas no dispositivo estiverem indisponíveis, inexistentes, ou forem
insuficientes ao desempenho regular de sua missão constitucional. Dessa forma,
situações inconstitucionais de greve de policiais, podem ensejar a GLO, como ocorreu
na última da greve dos policiais militares do Espírito Santo, por solicitação do governo
desse estado. Contudo, o emprego da GLO deve ser episódico, em área previamente
definida e ter a menor duração possível. Ele abrange, além das hipóteses de
insuficiência e inexistência dos órgãos de segurança pública, outras em que se presuma
ser possível a perturbação da ordem, tais como as relativas a eventos oficiais ou
públicos, particularmente os que contem com a participação de Chefe de Estado, ou de
Governo, estrangeiro, e à realização de pleitos eleitorais.
Apesar dessa situação subsidiária das Forças Armadas, quando os órgãos de segurança
pública falharem ou se revelarem insuficientes, não se pode esquecer que, para a
Constituição, as polícias militares e corpos de bombeiros militares são forças auxiliares
e reserva do Exército (art. 144, §6º), de modo que é errado dizer que, por força da GLO,
as Forças Armadas seriam tecnicamente uma reserva dos órgãos de segurança pública.
Outro aspecto interessante do Decreto nº 3.897/2001 é que, de acordo com o §3º do seu
artigo 7º, o militar e o servidor civil, caso venham a responder a inquérito policial ou a
processo judicial por sua atuação nas situações descritas no presente Decreto, serão
assistidos ou representados judicialmente pela Advocacia-Geral da União, nos termos
do art. 22 da Lei n. 9.028, de 12 de abril de 1995.

107. O que são as “contrarrazões a contrarrazões” também conhecidas como


“réplica recursal” no CPC?
No regime do Código de Processo Civil de 2015 (CPC/2015), há decisões
interlocutórias que podem ser impugnadas imediatamente por meio do recurso de
agravo de instrumento – hipóteses taxativas do art. 1.015 – e outras em relação às quais
não cabe qualquer recurso de forma imediata.
Quanto às primeiras, se não impugnadas no prazo legal, opera-se a preclusão, de sorte
que as questões decididas não poderão mais ser discutidas no processo. No que tange às
segundas, como não são recorríveis de imediato, não ocorre preclusão, de modo que as
questões decididas poderão ser suscitadas em preliminar de apelação ou nas
contrarrazões de apelação interposta pela parte contrária (CPC, art. 1.009, § 1º).
Se suscitadas nas contrarrazões, o recorrente será intimado para, no prazo de 15 dias,
manifestar-se a respeito delas (art. 1.009, § 2º). Essa manifestação do recorrente em
relação às questões arguidas pelo recorrido, prevista no art. 1.009, § 2º, do CPC/2015,
tem sido denominada por parte da doutrina de “contrarrazões às contrarrazões” ou
“réplica recursal”.
Trata-se de novidade do CPC/2015, uma vez que, no regime anterior (CPC/1973), as
decisões interlocutórias em geral podiam ser atacadas por agravo de instrumento e,
consequentemente, eram cobertas pela preclusão se não houvesse recurso. Dessa forma,
não havia a possibilidade de revisão de decisões interlocutórias pelo tribunal em sede de
apelação.
Com o estabelecimento de um rol taxativo de hipóteses de cabimento de agravo de
instrumento pelo CPC/2015 e a possibilidade de as questões não recorríveis de imediato
serem suscitadas na apelação ou nas contrarrazões, surgiu a necessidade, neste último
caso (questões arguidas nas contrarrazões), de se preservar o contraditório e a ampla
defesa, oferecendo ao recorrente a oportunidade de se manifestar. Essa a ratio da nova
norma.

108. É possível compensação tributária quando os tributos a serem compensados


foram reconhecidos como inconstitucionais em processo ainda sem trânsito em
julgado?
A compensação é forma de extinção do crédito tributário, como decorre do artigo 156,
inciso II, do CTN. Nos termos do artigo 368 do Código Civil, que dá a definição do
instituto, conforme estabelece o artigo 109 do CTN, ocorre compensação quando duas
pessoas são ao mesmo tempo credor e devedor, de forma que as duas obrigações
extinguem-se até onde se compensarem.
Para que seja possível a compensação mediante o aproveitamento de tributo objeto de
contestação judicial pelo sujeito passivo, é necessário o trânsito em julgado da decisão
judicial, de acordo com o artigo 170-A do CTN.
No mesmo sentido de inviabilizar a compensação tributária, ao menos antes de uma
decisão definitiva, a Súmula 212 do STJ estabelece que a compensação de créditos
tributários não pode ser deferida em ação cautelar ou por medida liminar cautelar ou
antecipatória.
Em razão da expressa disposição legal do artigo 170-A do CTN, o STJ sedimentou
entendimento, em sede de recurso repetitivo, da impossibilidade de compensação antes
do trânsito em julgado, mesmo em caso de reconhecimento da inconstitucionalidade do
tributo indevidamente recolhido. Portanto, não é possível compensação tributária
quando os tributos a serem compensados foram reconhecidos como inconstitucionais
em processo ainda sem trânsito em julgado.

109. Disserte sobre o feminicídio e se é possível a aplicação dessa qualificadora do


crime de homicídio em conjunto com a qualificadora do motivo torpe.
O feminicídio é o homicídio doloso praticado contra a mulher por “razões da condição
de sexo feminino”, ou seja, pune-se mais gravemente aquele que mata a mulher por
razões de gênero. Trata-se de qualificadora inserida no CP pela Lei 13.104/15.
Antes do advento do referido diploma legal, não havia qualquer punição especial pelo
fato de o homicídio ser praticado contra a mulher por razões da condição de sexo
feminino. Em outras palavras, o “feminicídio” era punido, de forma genérica, como
sendo homicídio (ou femicídio, como preferem alguns doutrinadores).
Neste ínterim, a depender das circunstâncias do caso concreto, matar uma mulher
poderia ser enquadrado como sendo homicídio qualificado por motivo torpe (art.121,
§2º, I) ou fútil (inciso II), ou, ainda, em virtude da impossibilidade da vítima se
defender (inciso IV). No entanto, não havia previsão de pena maior para o fato de o
crime ser cometido contra a mulher por razões de gênero.
A Lei 13.104/15 veio alterar esse panorama prevendo que tal espécie de conduta como
homicídio qualificado. Assim, a doutrina passou a distinguir femicídio (homicídio
contra mulher) de feminicídio (homicídio praticado contra mulher por “razões da
condição do sexo feminino, por razões de gênero).
Nesta senda, o legislador inseriu no §2º-A uma norma penal interpretativa para
esclarecer o alcance da expressão “razões de condição de sexo feminino. Dessa forma,
haverá feminicídio quando o crime envolver: a) violência doméstica e familiar; b)
menosprezo ou discriminação à condição de mulher.
O delito em questão pode ser praticado por qualquer pessoa (crime comum). Tem como
sujeito passivo uma pessoa do sexo feminino (criança, adulta, idosa). Malgrado a
divergência doutrinária, há entendimento de que essa qualificadora seria aplicada para a
transexual reconhecida juridicamente (portadora de documento de identidade), mas não
seria aplicável para travesti, tendo em vista que, embora este seja amparada pela Lei
Maria da Penha, o âmbito de incidência deste diploma diverge da do Código Penal que
não admite analogia in malam partem.
De acordo com entendimento do STJ, não caracteriza bis in idem o reconhecimento das
qualificadoras de motivo torpe e de feminicídio no crime de homicídio praticado contra
mulher em situação de violência doméstica e familiar. Isso se dá porque o feminicídio é
qualificadora de ordem objetiva - incidirá sempre que o delito estiver atrelado à
violência doméstica e familiar ou discriminação à condição de mulher, logo, o “animus”
do agente não é objeto de análise, enquanto que a torpeza é qualificadora de cunho
subjetivo, ou seja, continuará adstrita aos motivos que levaram um indivíduo a praticar
o delito.

110. É possível exclusão de qualificadora apontada pela acusação na denúncia em


sede de sentença de pronúncia?
O julgamento de crimes pelo Tribunal do Júri sujeita-se às garantias previstas no inciso
XXXVIII, da CF, dentre as quais a soberania dos veredictos. Por essa razão, a
fundamentação da sentença de pronúncia é limitada à indicação da materialidade do fato
e da existência de indícios suficientes de autoria ou de participação e deve ser prolatada
sem excesso de linguagem para evitar que os jurados sejam de qualquer modo
influenciados e, assim, violado o princípio do juiz natural.
De outro lado, o artigo 413, §1º, do CPP, determina que, ao pronunciar o acusado, uma
vez convencido da materialidade do fato e da existência de indícios suficientes de
autoria ou de participação, o juiz deverá declarar o dispositivo legal em que o julgar
incurso e especificar as circunstâncias qualificadoras e as causas de aumento de pena.
Assim, na sentença da pronúncia, o magistrado dará a capitulação legal do fato, sendo
que o artigo 418 do CPP autoriza que o juiz dê ao fato definição jurídica diversa
constante da acusação, ainda que o acusado fique sujeito a pena mais grave. Da
literalidade da lei, decorre que não há óbice à exclusão de qualificadora se o magistrado,
amparado nos autos, estiver convencido de que o crime praticado o foi sem a
qualificadora apontada pela acusação.
A tal respeito, o STJ assentou, contudo, que a exclusão de qualificadora pelo juiz na
pronúncia é excepcional e só está autorizada quando manifestamente improcedente, isto
é, totalmente desconstituída de amparo nos elementos dos autos. Nesse sentido, já
decidiu, por exemplo, que o juiz na pronúncia não pode decotar a qualificadora relativa
ao meio cruel (artigo 121, §2º, III, CP), quando o homicídio houver sido praticado
mediante efetiva reiteração de golpes em região vital da vítima, pois é circunstância que
deve ser apreciada pelos jurados.

111. Os arts. 511 e 513, § 2º, I, do CPC, que preveem a mera intimação inicial do
executado através da pessoa do advogado constituído nos autos, aplicam-se à
liquidação e à execução individual de sentença coletiva, ainda que ajuizada no foro
em que tramitara a ação de conhecimento coletiva? Aborde a posição do STJ.
Cumpre inicialmente destacar que, a teor do entendimento sedimentado no âmbito do
STJ, sob o rito de recurso repetitivo, é possível o ajuizamento de execução individual de
sentença coletiva em foro diverso daquele em que tramitara a ação de conhecimento,
inexistindo prevenção deste último juízo quanto às demandas executivas individuais.
Trata-se, pois, de prestigiar a facilitação e efetividade da tutela coletiva, matrizes
principiológicas da tutela jurisdicional coletiva, em compreensão holística do
microssistema processual coletivo brasileiro, especificamente os artigos 516 do CPC e
art. 97 do CDC.
Não obstante, importa considerar que a execução individual de sentença coletiva ostenta
particularidades que não podem ser olvidadas. Ora, por não se exigir à tutela coletiva de
direitos a descrição pormenorizada das situações individuais dos cidadãos substituídos,
a sentença prolatada será genérica, isto é, declarará a ocorrência de lesão a direitos
individuais sem individualizar os sujeitos lesados e sem estabelecer o valor a ser pago
pelo demandado (art. 95, CDC).
Por consectário, a liquidação abarcará não apenas a definição do “quantum debeatur”,
senão também da titularidade do exequente, que deverá comprovar a sua condição de
beneficiário da ordem judicial. Diz-se, assim, que o CDC inaugura um novo conceito de
liquidação de sentença, denominada “liquidação imprópria”, inevitavelmente mais
ampla que aquela tradicional. Comprovada a condição de credor do exequente, a
liquidação do dano sofrido dar-se-á pelo procedimento comum, na medida em que se
exigirá a prova de fatos novos, isto é, o evento danoso, o nexo causal e o prejuízo
suportado (art. 509, II, CPC).
Tem-se, pois, que a execução dependerá de uma cognição exauriente e contraditório
amplo sobre a existência do direito reconhecido, a titularidade, a individualização e o
montante do débito. Nesse cenário, segundo o STJ, será devido o arbitramento de
honorários advocatícios, a teor da súmula 345 daquela Corte, dada a complexidade do
processo executório.
Lado outro, não será aplicável o regime estabelecido nos artigos 511 e 513, § 2º, I, do
CPC. Vale dizer, a regra geral, a pregar a desnecessidade de intimação pessoal do
devedor e a suficiência da intimação na pessoa de seu advogado, há de ser flexibilizada
em casos tais, por não se estar em perspectiva mera fase endoprocessual, mas a
instauração de uma nova relação jurídica, passível de se suceder em quaisquer foros
concorrentes do país, conforme tem se posicionado a doutrina e a jurisprudência pátrias.
Aplicar-se-á, por analogia, o art. 515, § 1º, CPC, a fim de que se proceda à citação
pessoal do devedor para a defesa, na etapa de liquidação no bojo das execuções
individuais de sentenças coletivas, por meio de contestação (art. 511, CPC). Haverá,
portanto, uma verdadeira fase de conhecimento de cognição limitada.

112. No que consistem e quais são as principais características dos Planos


Municipais de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos?
O plano municipal de gestão de resíduos sólidos é, juntamente com os planos nacional e
estaduais, instrumento da Política Nacional de Resíduos Sólidos (art. 8, I, e art. 14, V,
da Lei nº 12.305/2010), a fim de regular as funções a serem desempenhadas pelos entes
municipais para gestão, descarte e reaproveitamento de resíduos sólidos de forma
concatenada entre todos os entes federados.
Na gestão e gerenciamento de resíduos sólidos, deve ser observada a seguinte ordem de
prioridade: não geração, redução, reutilização, reciclagem, tratamento dos resíduos
sólidos e disposição final ambientalmente adequada dos rejeitos (art. 10 da Lei nº
12.305, de 2010).
A elaboração de plano municipal é condição para que o município tenha acesso a
recursos da União destinados a empreendimentos e serviços relacionados à limpeza
urbana e ao manejo de resíduos sólidos, ou para serem beneficiados por incentivos ou
financiamentos de entidades federais de crédito ou fomento para tal finalidade (art. 18
da Lei nº 12.305, de 2010).
O plano deve conter, pelo menos, diagnóstico da situação dos resíduos sólidos no
território, identificação de áreas de descarte ou de soluções consorciadas ou
compartilhadas com outros Municípios, identificação dos resíduos sólidos e dos
geradores sujeitos a plano de gerenciamento específico, coleta seletiva, regras para o
transporte e outras etapas do gerenciamento de resíduos sólidos, definição das
responsabilidades quanto à sua implementação e operacionalização, programas e ações
de capacitação técnica, de educação ambiental, entre outros (art. 19 da Lei nº 12.305, de
2010).
Para Municípios com menos de 20.000 habitantes, o plano terá conteúdo simplificado,
ressalvado se integrantes de áreas de especial interesse turístico; estiver em área de
influência de empreendimentos ou atividades com significativo impacto ambiental de
âmbito regional ou nacional, ou cujo território abranja Unidades de Conservação (art.
19, §§1º e 2º da Lei nº 12.305, de 2010).

113. O remédio constitucional do Mandado de Injunção tem como objeto tornar


viável o exercício de um direito fundamental, cujo desfrute está interditado pela
omissão do poder público em prestar a providência necessária de que ele depende.
Sobre os efeitos da decisão judicial em sede de mandado de injunção, explique qual
a corrente adotada pelo Supremo Tribunal Federal, mencionando exemplos
práticos de sua aplicação.
O mandado de injunção é um remédio constitucional que tem como escopo viabilizar o
exercício de um direito fundamental que não está sendo utilizado por falta de norma
regulamentadora, o que torna a norma constitucional ineficaz, fenômeno nocivo
denominado pela doutrina de síndrome da inefetividade das normas constitucionais.
A decisão judicial do mandado de injunção pode ser classificada como não concretista
ou concretista. A primeira ocorre quando o poder judiciário reconhece a mora e
comunica o órgão competente. Já a segunda se dá quando, além de reconhecer a mora e
comunicar o órgão, o poder judiciário edita a norma faltante ou aplica norma análoga ao
caso concreto.
A teoria concretista pode ser subdividida em direta ou intermediária. Na direta, o poder
judiciário viabiliza a solução imediatamente. Na intermediária, primeiramente é
concedido um prazo ao órgão, somente se esse permanecer inerte é que será editada a
norma faltante. A decisão judicial pode ter ainda efeitos erga omnes ou inter partes,
também chamado de concretista geral ou individual.
O STF, até 2007, aplicava a teoria não concretista. Em 2007, em overruling, passou a
adotar a teoria concretista direta geral. Em 2016, foi editada a lei 13.300/2016, que
regulamenta o mandado de injunção, a qual, em regra, adota a teoria concretista
intermediária individual nos termos do artigo 8º.
Um exemplo dessa última e atual fase do Mandado de Injunção é o direito de greve do
servidor. Não há norma, ainda, regulamentando tal direito. Contudo, em decisão aditiva,
o STF entende que enquanto não haja norma, deve ser aplicada ao servidor a norma que
regulamente o direito de greve previsto na Lei 7.783/89.

114. Revogação de tutela antecipada e devolução de valores de verbas (benefícios


previdenciários) alimentares recebidas: disserte sobre o tema
Vários são os julgados no sentido da irrepetibilidade das prestações previdenciárias
percebidas em virtude de decisão judicial antecipatória posteriormente revogada, sob os
relevantes argumentos da boa-fé do destinatário e da natureza inquestionavelmente
alimentar assumida pelos benefícios em questão. Entretanto, houve uma modificação na
jurisprudência a partir de 2013, quando o entendimento passou a ser a favor da tese da
repetibilidade.
A Primeira Seção, na oportunidade do julgamento do RESP 1384418/SC, de lavra do
Ministro Herman Benjamin, divergiu da posição então dominante, superando o
precedente de outrora e concluindo pela total viabilidade da repetição de tais valores.
No caso em apreço, operou, parte do STJ, a técnica de superação tácita de precedentes
(implied overruling), entendimento que vem sendo progressivamente perfilhado pelas
demais Turmas da Corte Superior.
A partir do julgado aqui mencionado a jurisprudência do STJ passou a se consolidar de
maneira contrária à irrepetibilidade da verba alimentar concedida em tutela antecipada.
Importante salientar que a Turma Nacional de Uniformização dos Juizados Especiais
Federais (TNU), em 2017 cancelou o enunciado da Súmula nº 51, que dispõe que “Os
valores recebidos por força de antecipação dos efeitos de tutela, posteriormente
revogada em demanda previdenciária, são irrepetíveis em razão da natureza alimentar e
da boa-fé no seu recebimento”.
Ainda que exista m julgados no Supremo Tribunal Federal favoráveis à tese de
irrepetibilidade, o Superior Tribunal de Justiça possui entendimento consolidado
contrário. Nesse caminho, excepcionam-se apenas os casos em que a revogação da
decisão se dá em instâncias superiores que não analisam provas, já tendo havido decisão
e confirmação de tutela em primeiro e segundo graus. Já o STF não tem posição pacífica
acerca do tema.

115. Contrato de gestão endógeno: discorra sobre o tema.


A contratualização da gestão e do controle da Administração é uma tendência da
chamada “Administração Pública de Resultados”, que tem sido buscada por meio de
instrumentos análogos em países como Alemanha, Estados Unidos, França, Inglaterra e
Itália.
No Brasil, o Contrato de Gestão Endógeno (ou Interno) está previsto no art. 37, §8º, da
CRFB/1988 e consiste no acordo formalizado no âmbito interno da Administração
Pública que tem por objetivo garantir uma maior eficiência administrativa, mediante a
estipulação de metas de desempenho e aumento da autonomia gerencial, orçamentária e
financeira do órgão ou entidade administrativa.
O contrato de gestão interno possui duas características marcantes: a) garante a
eficiência na gestão administrativa, por meio da fixação de metas e da ampliação da
autonomia da entidade ou do órgão supervisionado; b) representa um importante
instrumento de controle dos resultados que devem ser buscados pela Administração.
Porém, a doutrina tece algumas críticas, afirmando que tais contratos seriam, em
verdade, “contratos consigo mesmo” (ou autocontratos), haja vista que os órgãos
públicos não possuem personalidade jurídica e sua atuação é imputada à respectiva
pessoa jurídica da qual eles são partes integrantes. Há quem entenda, também, que não
existem interesses contrapostos, mas, sim, interesses comuns e convergentes dos
partícipes, o que revelaria a natureza de ato complexo ou de acordo administrativo do
contrato de gestão interno.
O contrato de gestão endógeno também é conhecido como “contrato de autonomia”,
expressão usada pelo “Anteprojeto de Lei de Normas Gerais sobre Administração
Pública Direta e Indireta, entidades paraestatais e entidades de colaboração”, que o
define como “acordo celebrado entre a entidade ou órgão supervisor e a entidade ou
órgão supervisionado, por seus administradores, para o estabelecimento de metas de
desempenho do supervisionado, com os respectivos prazos de execução e indicadores de
qualidade, tendo como contrapartida a concessão de flexibilidades ou autonomias
especiais” (art. 27, §1º).
Por fim, cabe lembrar que também existe o Contrato de Gestão Exógeno (ou Externo),
previsto no art. 5º da Lei n. 9.637/1998, e que é formalizado entre a Administração
Pública e determinada entidade privada, sem fins lucrativos, qualificada como O.S.
(Organização Social), com a previsão, de um lado, de metas de desempenho, e, de outro
lado, incentivos públicos (fomento) à entidade privada.
116. Pode julgador de órgão colegiado, ausente em sustentação oral, compor o
quorum de julgamento em Processo Penal?
O tema em questão foi objeto de recente controvérsia no âmbito do Superior Tribunal de
Justiça, que decidiu, em julgamento realizado pela Corte Especial, pela impossibilidade
de julgador que se encontrava ausente quando da sustentação oral participar do
julgamento, salvo nas hipóteses em que seja necessário para a obtenção de quorum para
viabilizar o julgamento, bem como em caso de desempate.
Uma corrente formada por parte dos Ministros do Tribunal Superior defendeu que o que
importaria seria o esclarecimento do julgador a respeito da matéria, é dizer, ainda que
não presente à sustentação oral, caso entendesse ter pleno esclarecimento da discussão
jurídica envolvida, poderia julgar o caso.
Ainda, noutra via, defendeu-se a diferença entre "voto de fato" (sobretudo em casos de
competência originária) e "voto de tese jurídica", sendo certa a aptidão ao julgamento
nesta última situação. No entanto, prevaleceu na Corte o entendimento no sentido de
que, ausente o julgador ao tempo da sustentação oral, não pode ser declarado habilitado
a votar, via de regra.
No entendimento dos Ministros, as partes não podem ser surpreendidas em relação aos
julgadores que participarão do julgamento após seu início, o que implicaria indevida
violação ao princípio constitucional do juiz natural. Desse modo, salvo nas hipóteses
excepcionais de desempate ou necessidade para a composição de quorum, não pode o
juiz ausente à sustentação oral participar de julgamento.

117. Na omissão da convenção de condomínio edilício de apartamentos, salas ou


lojas seria possível a locação das vagas de garagem vinculadas às respectivas
unidades autônomas para não-condôminos? E se estivéssemos diante de um
condomínio edilício de edifício-garagem em que as vagas são as unidades
autônomas com matrículas próprias no Registro Geral de Imóveis, é dizer, não
vinculadas a nenhuma unidade habitacional nem comercial?
O regime jurídico aplicável às vagas de garagem pode ser fixado de duas formas: (a) a
garagem pode ser vinculada às respectivas unidades autônomas; e (b) a garagem pode
ser autônoma, com matrícula própria junto ao Registro Geral de Imóveis.
O Código Civil, em seu artigo 1.331, §1°, dispõe, em sua parte final, que os abrigos
para veículos não poderão ser alienados ou alugados a pessoas estranhas ao condomínio,
salvo autorização expressa na convenção de condomínio. Esse dispositivo, inserido pela
Lei 12.607/2012, visou proteger os condôminos do ingresso no edifício de pessoas
estranhas ao condomínio. Diante disso, verifica-se que o artigo mencionado prevê como
requisito indispensável para locação de vagas de garagem a pessoas estranhas ao
condomínio a previsão expressa na Convenção de Condomínio.
Dessa forma, caso haja omissão na Convenção, não será lícita a locação de vagas de
garagem a terceiros estranhos ao condomínio, mesmo em se tratando de salas
comerciais ou lojas, pois o parágrafo primeiro referido não se limita aos condomínios
residenciais.
Situação diversa ocorrerá no caso de edifício-garagem, com as vagas registradas por
matrículas próprias no Registro Geral de Imóveis. Nesse caso, poderá haver locação ou
venda a terceiros, sem qualquer exigência de previsão na Convenção de Condomínio,
sob pena de inviabilizar a própria atividade econômica desenvolvida por esses edifícios-
garagem, pois essas vagas de garagem são unidades autônomas, com fração ideal de
terreno própria e não vinculadas a nenhuma unidade habitacional ou comercial. Não
guardam relação de dependência e nem são acessórias, e por isso podem ser livremente
alienadas ou locadas a terceiros, sem a necessidade de autorização na Convenção de
Condomínio.

118. Dentro da sistemática internacional de reconhecimento de governo, explique


as doutrinas Tobar e Estrada.
Reconhecimento de governo é o ato unilateral, discricionário, não obrigatório,
irrevogável e incondicionado pelo qual um Estado admite o novo governo de outro
Estado como representante deste nas relações internacionais.
O reconhecimento de governo não ocorre quando a troca de governos se dá de maneira
ordinária, dentro dos trâmites estabelecidos pelas normas nacionais, mas sim quando há
alguma situação de ruptura política ou social no Estado, como nos casos de golpes e
revoluções. As duas principais doutrinas em relação ao reconhecimento de governo são
a Tobar e a Estrada.
Segundo a Doutrina Tobar, cujo nome é uma referência a Carlos Tobar, Ministro das
Relações Exteriores do Equador no início do século XX, o reconhecimento de governo
estrangeiro deveria ser negado no caso de governos que alcançaram o poder por meio de
golpes ou revoluções com violação à ordem constitucional, devendo o reconhecimento
ocorrer, apenas, caso comprovado o apoio popular.
Já segundo a Doutrina Estrada, cujo nome é uma referência a Genaro Estrada,
Secretário de Relações Exteriores do México em 1930, o reconhecimento de governos
constitui ingerência indevida em assuntos particulares dos Estados, implicando ofensa à
soberania da nação interessada. Assim, baseada no Princípio da não intervenção, essa
doutrina, também chamada de "doutrina da efetividade", critica ingerências indevidas e
juízos críticos dos Estados em relação a governos estrangeiros.

119. A ideia da federalização dos crimes contra os direitos humanos surgiu em


decorrência da cobrança feita por organismos internacionais ao Brasil para fazer
cessar a corrente impunidade de determinados crimes praticados, fator catalisador
de conflitos sociais que, diante dessa realidade, acabam por fugir ao próprio
controle do Estado. (CASTILHO, Ela Wiecko Volkmer de. Federalização de
violações contra direitos humanos. Anais da XIX Conferência Nacional da Ordem
dos Advogados do Brasil: república, poder e cidadania. Florianópolis: OAB,
Conselho Federal, 2006, p. 193).
Diante do trecho acima, conceitue o instituto do Incidente de Deslocamento de
Competência analisando os requisitos exigidos pelo Superior Tribunal de Justiça
para o seu deferimento.
O incidente de deslocamento da competência foi introduzido na Constituição Federal
pela Emenda Constitucional 45/2004. Segundo o art. 109, V-A, c/c §5o, CRFB, quando
houver grave violação de direitos humanos, o Procurador-Geral da República poderá
suscitar, perante o STJ, o incidente de deslocamento da competência para a Justiça
Federal.
O objetivo é cumprir os tratados de direitos humanos dos quais o Brasil é signatário.
Trata-se de uma hipótese excepcional em que a competência da Justiça Estadual será
deslocada para a Justiça Federal. Além da ideia de grave violação dos direitos humanos,
e não toda e qualquer violação aos direitos humanos, o STJ exige que haja a prova da
incapacidade dos agentes estaduais de solucionarem tais causas, seja pela inércia, seja
pela suspeita de envolvimento de tais agentes.
Exige-se que haja uma manifesta impunidade no tocante a tais causas, impunidade essa
que deve ser combatida. Se os agentes estaduais estão trabalhando e fazendo o possível
para o processo e julgamento das causas, ainda que haja uma demora na solução, não se
admitiria o incidente. Ainda, elas devem ter repercussão internacional, de forma a
permitir uma punição do Brasil por organismos internacionais em caso de não haver
solução.

120. “Se o ato de improbidade administrativa doloso também for capitulado como
crime, deverá ser considerado o prazo prescricional estabelecido na lei penal para
fins da pretensão de ressarcimento do dano ao erário”. Analise a afirmação.
A afirmativa é falsa. Inicialmente, é de se ressaltar que a Lei de Improbidade prevê uma
série de sanções no art. 12 (perda de bens ou valores, perda da função pública,
suspensão dos direitos políticos, multa civil, proibição de contratar ou receber
incentivos fiscais ou creditícios e ressarcimento do dano). A doutrina - e a
jurisprudência do STJ - já teciam críticas no sentido de não ser o ressarcimento
propriamente uma sanção, mas uma consequência natural do ilícito. É que a prática do
ato ilícito é fato gerador da responsabilidade civil, da obrigação de reparar os danos (art.
927, CC/02).
Bem assim, para que a ação coletiva fosse considerada como propriamente de
“improbidade”, atraindo as regras processuais próprias, inclusive no que tange às
cautelares (art. 7º, 16 e 20), seria necessária a cominação de, ao menos, alguma das
outras sanções do art. 12, LIA. Ou seja, devem se somar as pretensões repressivo-
punitiva e repressivo-reparatória.
Avançando, é certo que as sanções “em sentido estrito” prescrevem, na forma do art. 23
da LIA. Ainda, por aplicação sistemática do art. 142, §2º, lei 8.112/90, quando o ato de
improbidade também configurar infração penal, sujeitar-se-á aos prazos de prescrição
da lei penal. Segundo jurisprudência do STJ, para aplicação desse prazo diferenciado de
prescrição, deverá haver ação penal já em curso, apta a trazer alguma certeza sobre a
capitulação delitiva.
A prescrição é, de fato, a regra geral no sistema jurídico, tendo como fundamentos a
segurança jurídica e a pacificação dos conflitos. Ocorre que, à luz da inexistência de
direitos absolutos e da técnica da ponderação, a prescrição poderá ser,
constitucionalmente, restringida. A intervenção restritiva é legítima para preservação de
outros valores fundamentais. E é justamente o que ocorre com a reparação dos prejuízos
causados por ato de improbidade. Com efeito, a ressalva é expressamente trazida pela
parte final do art. 37, §5º, da CF.
Não por acaso, em julgamento com Repercussão Geral reconhecida, o STF fixou a tese
no sentido de que são imprescritíveis as ações de ressarcimento ao erário fundadas na
prática de ato doloso tipificado na Lei de Improbidade Administrativa. Destaca-se que a
imprescritibilidade da “sanção” (ou obrigação) de ressarcimento ocorre apenas na
hipótese de ato de improbidade doloso. Assim, a pretensão de reparação pecuniária
decorrente de outros ilícitos civis ou de ato de improbidade culposa prescrevem, seja na
forma da legislação civil ordinária, seja na forma do art. 23, LIA, respectivamente.

121. Cláusula testamentária pura e simples de inalienabilidade sobre os bens da


legítima, se incluída em testamento lavrado na vigência do CC/16, seria eficaz se o
fato gerador da herança ocorresse no dia de hoje, sob o CC/02, e o testador não
houvesse modificado nem aditado o testamento em vida? Na fundamentação,
enfrente o ato jurídico perfeito e a existência ou não de retroatividade na hipótese.
O "caput" do art. 1.848 do Código Civil/2002 estabelece que "Salvo se houver justa
causa, declarada no testamento, não pode o testador estabelecer cláusula de
inalienabilidade, impenhorabilidade, e de incomunicabilidade, sobre os bens da
legítima". Trata-se de uma inovação no ordenamento jurídico pátrio, pois o Código
Civil/1916 não exigia a demonstração de justa causa para que o testador fizesse uso da
referida cláusula de inalienabilidade, impenhorabilidade ou incomunicabilidade.
Em razão do novo requisito, o art. 2.042 da novel codificação civil estabeleceu uma
regra de retroatividade média, ao determinar que a referida norma prevista no seu art.
1.848 aplica-se às sucessões abertas após o prazo de um ano a partir de sua entrada em
vigor, devendo o testador aditar o testamento, para incluir cláusula de justa causa, sob
pena de não subsistir a inalienabilidade, a impenhorabilidade ou a incomunicabilidade
pretendida.
Não há falar, no caso, em retroatividade máxima da norma, por ausente contrariedade ao
ato jurídico perfeito ou ao direito adquirido, haja vista que não afeta a validade do ato,
mas sim sua produção de efeitos. Isso porque o ato de testar está submetido à condição
suspensiva para a produção de seus efeitos, a saber, a morte do testador, e antes do seu
falecimento nenhum efeito foi produzido, por não verificada a referida condição
suspensiva.
Como cediço, "Regula a sucessão e a legitimação para suceder a lei vigente ao tempo da
abertura daquela" (art. 1.786, CC), de modo que, ocorrendo o falecimento após um ano
da vigência do Código Civil/2002, como determina o já mencionado art. 2.042, seus
efeitos estariam vinculados ao cumprimento dos requisitos formais e materiais pelo
testamento. A norma do art. 2.042, pois, não atinge a própria validade do testamento,
mas sim a produção de seus efeitos, não mitigando o ato jurídico perfeito ou o direito
adquirido protegidos constitucionalmente, o que apenas ocorreria se a exigência
passasse a ocorrer após a produção de efeitos do ato, com o falecimento do testador.
Vale lembrar que a retroatividade média é aquela que atinge efeitos pendentes de atos
consumados, sendo legítima quando prevista em lei, como ocorreu com a norma em
análise, não havendo falar em qualquer inconstitucionalidade.

122. É possível a cobrança de contribuição de melhoria antecipada?


As contribuições de melhoria são espécie de tributo prevista no art. 145, III, da CF, e
nos arts. 81 e 82 do CTN. A hipótese de incidência prevista para este tributo é a
valorização imobiliária decorrente de obra pública. Justifica-se sua existência pelo
princípio republicano e o princípio da solidariedade, pois não seria “justo” o poder
público arcar sozinho com uma obra, que gere valorização imobiliária para alguns
contribuintes apenas.
Dessa forma, verifica-se que sempre deverá haver uma obra pública para que possa
justificar a cobrança de uma contribuição de melhoria. Mas não basta a realização da
obra; é obrigatório que tenha ocorrido efetiva valorização imobiliária decorrente de tal
obra. Conclui-se, portanto, que o fato gerador da contribuição analisada apenas será
passível de verificação após a realização da obra. Não há como se presumir uma
valorização futura. Reafirmando essa conclusão, verifica-se que o art. 81 do CTN
estabelece limites de valores para esta espécie tributária, pois o fato gerador é vinculado
à efetiva realização da obra com a consequente valorização imobiliária.
Dessa forma, a lei prevê como limite total da cobrança tributária, o valor despendido
para a realização da obra, e o limite individual é exatamente o acréscimo de valor para
cada imóvel beneficiado com a obra. Assim, não se poderia aceitar uma cobrança prévia
de contribuição de melhoria, pois os próprios limites definidos em lei são verificados
após a realização da obra. Caso fosse permitida uma cobrança prévia, haveria quebra do
sistema tributário, considerando que o custo de obras em geral deve ser custeado
inicialmente pelas receitas oriundas de impostos (tributos não vinculados).
Portanto, apenas após a realização da obra é que será possível verificar a ocorrência ou
não do fato gerador da contribuição de melhoria, pois repita-se, a valorização
imobiliária tem que ter sido decorrente diretamente da obra pública já realizada.

123. Tendo em vista a dogmática do direito penal, explique a distinção entre


organização criminosa e associação criminosa.
Primeiramente, deve-se destacar que a Associação Criminosa foi prevista em duas
modalidades pelo ordenamento jurídico brasileiro. São elas: Associação Criminosa
"Genérica", prevista no artigo 288 do Código Penal, e a Associação Criminosa para o
tráfico de drogas, prevista na Lei nº 11.343/06.
De acordo com o artigo 288 do Código Penal, para que se configure o crime de
Associação Criminosa, deve haver a presença de, no mínimo, três pessoas, não havendo
limitação quanto à quantidade da pena aplicada ao tipo penal. Se a associação for para a
prática de crimes de tráfico de drogas, exigem-se apenas duas ou mais pessoas. Além
disso, se houver a participação de criança ou adolescente, ou se a associação for armada,
haverá aumento de pena até a metade.
Outra diferença é que, no crime de Associação Criminosa, a literalidade do artigo 288
do Código Penal reclama o cometimento de mais de um crime, não abrangendo,
portanto, as contravenções penais. Se a união se der para que se almeje apenas um único
crime, não haverá a incidência deste tipo penal, havendo, neste caso, concurso de
pessoas.
Mais uma disparidade entre os dois institutos é que, na Associação Criminosa, não é
necessário que exista estrutura e divisão de tarefas. Também não requer especial fim de
agir. Por fim, o crime de Associação Criminosa tem pena de reclusão de 1 a 3 anos.
No que diz respeito à Organização Criminosa, esta requer a presença de, no mínimo, 4
pessoas, aplicando-se somente aos crimes em que a pena máxima seja superior a 4 anos,
ou que tenham caráter transnacional. Se houver emprego de arma de fogo, aumenta-se a
pena em até 1/2, e se houver a participação de criança ou adolescente, a pena é
aumentada de 1/6 a 2/3.
Na Organização Criminosa, não é necessário que haja o cometimento de mais de um
crime, bastando que ocorra o cometimento de um crime e uma contravenção penal, ou
de dois crimes, ou até mesmo de duas contravenções penais. Além disso, deve haver
uma estruturação ordenada, com a caracterização de divisão de tarefas, ainda que
informalmente. Reclama também um fim especial de agir, ou seja, requer um objetivo
de obter, direta ou indiretamente, vantagem de qualquer natureza. Por fim, o crime de
Organização Criminosa tem pena de reclusão de 3 a 8 anos.

124. Sob a ótica da recente jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça,


explique a possibilidade jurídica de procedência de pedido indenizatório por dano
moral tendo como causa de pedir o abandono afetivo de criança por parte do seu
genitor.
De acordo com a recente jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, no âmbito do
direito de família, a indenização por dano moral pressupõe a prática de ato ilícito. Isso
porque o dever de cuidado compreende os deveres de sustento, guarda e educação dos
filhos, de modo que não há dever jurídico de cuidar afetuosamente.
Assim, se cumpridos tais deveres, o abandono afetivo não se configura dano moral
indenizável. Por si só, a falta de afeto não constitui ato ilícito. A convivência e o afeto
não são deveres jurídicos, impostos pelo Estado sob pena de punição/indenização
punitiva, mas devem corresponder a sentimentos naturais, espontâneos, genuínos.
Dito isso, para o Tribunal da Cidadania, a omissão voluntária e injustificada do pai
quanto ao amparo material do filho seria passível de compensação pecuniária, gerando
dano moral indenizável. Nesse viés, o descumprimento voluntário do dever de prestar
assistência material, que é um direito fundamental da criança e do adolescente, afeta a
integridade física, moral, intelectual e psicológica do filho, acarretando prejuízo ao
desenvolvimento sadio de sua personalidade e de forma a atentar contra a sua dignidade.
Tal comportamento configura ilícito civil e, portanto, os danos morais e materiais
causados são passíveis de compensação pecuniária.

125. Interrogatório em Processo Penal como meio de defesa: analise, levando em


conta a obrigatoriedade e a ordem de realização.
A defesa no processo penal é garantida pela CF (art. 5º, LV), sendo dividida em defesa
técnica e autodefesa. Aquela exige a presença de advogado, com poderes postulatórios
(Art. 133 CF), sendo necessária inclusive para aplicação de sanções decorrentes de
processo administrativo no âmbito da execução penal (entendimento sumulado).
O interrogatório do acusado (arts. 185 e s. CPP) divide-se em duas partes: o
interrogatório sobre a pessoa do acusado, de extrema importância para fins de aplicação
da lei penal (art. 59 CP); e sobre os fatos (art. 187, caput CPP). Em razão dos Princípios
de Miranda, de criação estadunidense, o acusado não pode ser obrigado a depor sobre os
fatos e, portanto, a autoridade deve informá-lo sobre o direito de permanecer calado (art.
5º, LXIII CF e art. 186, caput CPP).
A jurisprudência entende, desse modo, que, caso o réu solto seja intimado para a
realização do julgamento em Plenário do Júri e não compareça, a sessão deve seguir
sem a sua presença. Além disso, considerando o direito de permanecer calado e de não
produzir provas contra si mesmo, o STF julgou recentemente uma ADPF declarando a
inconstitucionalidade de parte do caput do art. 260 CPP, que previa a possibilidade de
condução coercitiva para interrogatório do acusado.
Entendeu o Supremo que, em razão do direito de permanecer calado, a condução
coercitiva seria inócua, somente servindo para violar a presunção de não culpabilidade,
o direito de ir e vir e a dignidade da pessoa humana.
Por fim, com relação à ordem de realização, o STF entende que, apesar de a lei de
drogas e outras leis extravagantes possuírem previsão legal no sentido de que o início da
instrução ocorre com o interrogatório do acusado (art. 57 da 11343/06), as alterações
promovidas pela lei 11.719/08 no art. 400, caput do CPP são mais benéficas ao acusado,
permitindo o seu interrogatório após a oitiva da vítima e das testemunhas, possibilitando
melhor elaboração da defesa. Sendo assim, aos interrogatórios ocorridos após a
alteração do CPP, deve-se aplicar a ordem do art. 400 do Código.

126. Há responsabilidade da instituição privada de ensino superior por furto de


veículo de propriedade de um de seus alunos, ocorrido nas dependências do
estacionamento oferecido gratuitamente pela entidade em seu campus?
O art. 14 do CDC prevê que o fornecedor de serviços responde, independentemente da
existência de culpa, pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos
relativos à prestação dos serviços.
A Súmula 130 do STJ, por sua vez, dispõe que a empresa responde, perante o cliente,
pela reparação de dano ou furto de veículo ocorridos em seu estacionamento. Saliente-
se que o STJ vem mitigando a aplicação de tal súmula em alguns casos, entendendo que
a responsabilidade dos estabelecimentos por danos ou subtrações de veículos em
estacionamentos deve ser aferida casuisticamente, devendo-se perquirir se o conjunto
das circunstâncias concretas eram aptas a gerar, no consumidor-médio, razoável
expectativa de segurança.
A responsabilidade do estabelecimento/instituição restará configurada se as
circunstâncias indicarem que havia razoável expectativa de segurança por parte do
consumidor, a exemplo do que ocorre quando há controle de entrada e saída, cancelas,
vigilância, etc.
Assim, ao julgar caso concreto no qual houve o furto de veículo de um dos alunos de
instituição privada superior, ocorrido nas dependências do estacionamento oferecido
gratuitamente pela entidade em seu campus, o STJ entendeu que, em razão da legítima
expectativa do aluno quanto à segurança do veículo enquanto estacionado no campus,
uma vez que o estacionamento, apesar de gratuito, não era aberto ao público, tinha a
entrada e saída de veículos controlada por cancelas e contava com vigilância, haveria
responsabilidade da instituição.

127. O Código de Defesa do Usuário do Serviço Público projeta sua normatividade


à Administração Pública dos Estados, Distrito Federal e Municípios ou deve ser
visto como lei aplicável apenas no âmbito federal, à luz da distribuição de
competências operada pelo Texto Constitucional?
Veiculado pela Lei n. 13.460/2017, o Código de Defesa do Usuário do Serviço Público
trata das formas de participação, proteção e defesa dos direitos do usuário dos serviços
públicos da Administração Pública direta e indireta, inaugurando uma disciplina legal
destinada a atender, sobretudo, os anseios dos cidadãos que se valem de tais serviços,
compatível com os princípios da eficiência e da impessoalidade (art. 37, CRFB).
Conforme seu art. art. 1º, § 1º, o Código visa regulamentar o comando expresso no art.
37, § 3º, inciso I, da CRFB, com a redação que lhe foi conferida pela EC 19/1998.
Destarte, aludido diploma estabelece direitos e deveres do usuário; a necessidade de
criação de ouvidorias públicas para análise de reclamações, críticas e sugestões; o dever
de manutenção de serviços de atendimento; e, ainda, avaliações periódicas da qualidade
de tais serviços. Diz-se, outrossim, que a Lei n. 13.460/2017 também encontra assento
constitucional no art. 175, parágrafo único, II e IV, da CRFB, que impõe ao legislador a
tarefa de dispor sobre os direitos dos usuários e a obrigação de manter serviço
adequado, sem prejuízo da aplicação das Leis 8.987/1995 e 11.079/2004.
Quanto a seu alcance, é possível inferir que o Códex consubstancia lei nacional, vez
que, conforme seu art. 1º, § 1º, será aplicável à Administração Pública direta e indireta
da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios. Entretanto, vozes têm
sustentado a inconstitucionalidade de tal abrangência, seja porque o art. 37, § 3º, da
CRFB, remeteu o tema à “lei”, seja em razão do conteúdo administrativo da previsão,
que apontariam para a necessidade de prestígio à autonomia federativa, franqueando-se
a cada ente federado a regulação da temática, em atenção ao caráter concorrente da
competência para legislar (art. 24, CRFB).
Sob outra perspectiva, aponta-se que a EC 19/1998, em seu art. 27, havia fixado o prazo
de 120 dias para a elaboração desta norma de defesa do usuário de serviços públicos,
sob incumbência do Congresso Nacional, o que indicaria o caráter nacional e não
federal da lei em questão, raciocínio que autoriza a conclusão pela constitucionalidade
da Lei n. 13.460/2017, que, a sabendas, já se presume.
Compatibilizando as vertentes, tem se afirmado a constitucionalidade do arcabouço
normativo a título de lei nacional, sem prejuízo de que algumas disposições sejam
restritas à esfera federal, especialmente naquilo que transcende à regulação geral, nos
moldes previstos no art. 24, §§1º e 2º, da CRFB. É o que se sucede, por exemplo, com a
determinação de criação de órgãos públicos.

128. Recurso de terceiro prejudicado: requisitos e prazo de interposição.


Ao lado da assistência, o recurso de terceiro prejudicado é uma das duas únicas formas
de intervenção de terceiros admitida pelo Código de Processo Civil de 2015
(CPC/2015). Não se confunde com os Embargos de Terceiro, que têm natureza jurídica
de ação e dão origem a uma nova relação jurídica processual.
O art. 996, caput, do CPC/2015 consagra a legitimidade recursal do terceiro
prejudicado; já o parágrafo único condiciona o exercício dessa legitimidade à
demonstração da possibilidade de a decisão recorrida atingir direito de que se afirme
titular ou que possa discutir em juízo como substituto processual. Isto é, o terceiro
prejudicado tem o ônus de demonstrar em que termos a decisão recorrida é capaz de
repercutir sobre a sua esfera jurídica - seja patrimonial ou existencial (Dinamarco).
Quanto ao prazo, não há regra especial para o terceiro prejudicado. Portanto, está sujeito
ao mesmo prazo que as partes originárias da relação jurídica processual, na forma do
art. 1.003 e ss. do CPC/2015: o prazo é comum para as partes e para o(s) terceiro(s)
prejudicado(s). Sem prejuízo, na hipótese de preclusão contra o terceiro prejudicado,
considerada a Teoria da Actio Nata, será possível buscar a tutela jurisdicional por ação
autônoma.

129. Explique a teoria dos diálogos constitucionais.


A Teoria dos Diálogos Constitucionais, que tem se desenvolvido e ganhado expressiva
força nos últimos anos, analisa a legitimidade para interpretação da Constituição Federal
sob uma ótica de democratização, na qual os três Poderes e a sociedade civil possam, de
forma igualitária, dialogar para chegarem a um resultado construído em conjunto.
Esse diálogo, por sua vez, deve ser efetivo e material, permitindo que as partes se
escutem e possam, efetivamente, influenciar na formação da opinião uma das outras,
sem que haja, de antemão, a preferência da concepção de um grupo sobre os demais. Tal
teoria critica duramente a supremacia que o Poder Judiciário, e mais especificamente o
STF, tem na interpretação constitucional, assumindo o papel de quem tem sempre razão
e dá a última palavra sobre questões constitucionais que envolvem a todos.
Uma das soluções propostas pela Teoria dos Diálogos constitucionais é que a última
palavra, dada pelo STF em sede de interpretação constitucional, seja precária, e não
definitiva. Assim, dado seu caráter provisório, pode ser superada por meio de reação
legislativa.
Foi exatamente esse o caso que envolveu a realização das vaquejadas, eventos
permitidos por algumas legislações estaduais as quais, posteriormente, foram declaradas
inconstitucionais pelo STF em razão de argumentos contrários à crueldade e aos maus
tratos a animais e protetores do meio ambiente equilibrado. Em reação legislativa, após
a citada manifestação do STF, foi editada Emenda Constitucional, permitindo
expressamente as vaquejadas, entendidas como manifestações culturais a serem
garantidas.

130. A presunção de dependência econômica existente para cônjuge, companheiro,


filho não emancipado, menor de 21 anos, inválido, que tenha deficiência
intelectual, mental ou grave, em relação a segurado do regime geral de previdência
social (RGPS) é uma presunção juris et de jure ou juris tantum? Na
fundamentação aborde a posição da jurisprudência do STJ.
A lei de benefícios divide os dependentes do segurado em três classes. A primeira
classe, ocupada pelo cônjuge, filho menor de 21 anos ou que tenha deficiência, tem
dependência econômica presumida por força do art. 16 § 4º da referida lei.
Ocorre que a lei não indica se a presunção de dependência econômica é relativa ou
absoluta. Em outras palavras, não esclarece se pode o INSS comprovar que na realidade
os dependentes da primeira classe não dependem economicamente do segurado.
Debruçando-se sobre o tema, o STJ entendeu que, para cônjuge e inválido maior de 21
anos, a presunção de dependência econômica é relativa, podendo ser ilidida por prova
em contrário. Isso porque nem toda deficiência incapacita para o trabalho (tanto é que
existem cotas para postos de trabalho destinadas a deficientes). Também é possível que
o pretenso dependente já tenha suas necessidades providas por outra pessoa que não o
segurado, cessando a dependência econômica.
Como o sistema previdenciário é solidário, não faz sentido alocar recursos para o
sustento de pessoa que já está sendo provida pelo próprio trabalho ou por outra pessoa.
Permitir a tese da presunção absoluta pode acarretar a transferência de recursos públicos
para pessoas que deles não necessitam, importando em claro enriquecimento sem causa.

131. Pedro Sereno ajuizou ação de reintegração de posse em desfavor de Juca Bala,
reivindicando a posse de determinada área da qual teria sido esbulhado. No curso
da demanda, o Estado de São Paulo ofereceu oposição contra ambos, alegando que
seria o verdadeiro proprietário do imóvel. Nessa situação, indaga-se: é admissível a
medida processual intentada pelo ente público?
De início, avulta destacar que, consoante a jurisprudência firmada no âmbito das Cortes
Superiores, embora a detenção de bem público não seja apta a caracterizar a posse,
razão pela qual o particular jamais poderia se valer da via possessória contra o Estado,
tal óbice não é verificado na relação entre particulares.
Com efeito, dado o caráter relativo da posse, sobretudo no tocante à classificação da
posse como justa ou injusta, é possível considerar que, em determinadas hipóteses, o
particular gozará de proteção possessória em face de outro particular, como na hipótese
que se apresenta.
É cediço, ainda, que em meio às ações de caráter possessório, não se discute domínio,
ou seja, é inadmitida a exceptio domini, consoante art. 557, do Código de Processo
Civil. Discute-se, tão somente, a melhor posse, o ius possessionis, mas não o
possidendi.
Todavia, de acordo com a orientação fixada pelo Superior Tribunal de Justiça, poderá o
Estado, diante de demanda possessória travada entre particulares, intervir em
procedimento especial de oposição, alegando ser o proprietário do imóvel sobre o qual
controvertem as partes. Não incide, na espécie, a vedação a que alude o art. 557, CPC.
De acordo com o Tribunal da Cidadania, a vedação à exceção de propriedade é norma
que se dirige aos litigantes iniciais, não podendo prejudicar direito de terceiro, como, no
caso, o ente público. Ademais, referida vedação não alcança a hipótese em que o Poder
Público alega a titularidade do domínio como fundamento para pedir a proteção
possessória em face de terceiros, sob pena de se negar o acesso à tutela jurisdicional a
quem de direito.

132. Medidas cautelares diversas da prisão e dever de motivação: analise o tema.


O tratamento dispensado pelo CPP às prisões foi substancialmente alterado pela lei
12.403/11, que passou a prever a prisão temporária (art. 311 CPP) e medidas cautelares
diversas da prisão (art. 319) no caso de conversão de prisão temporária (art. 2º, § 7º da
lei 7960/89) ou de prisão em flagrante (art. 310, II CPP).
Dispõe o art. 312 CPP que a decretação da prisão temporária de ofício somente pode
ocorrer no curso da ação penal, sendo que durante a investigação depende de
requerimento do MP, querelante ou assistente ou por representação da autoridade
policial, em nome do princípio acusatório e visando preservar a imparcialidade judicial
(art. 28 CPP e 129, I, CF).
A prisão temporária é uma espécie de medida cautelar que exige, para a sua aplicação, a
presença do disposto nos arts. 312 ou 313 CPP, ou seja, como garantia da ordem
pública, econômica, conveniência da instrução criminal ou para assegurar a aplicação da
lei penal ou, ainda, nos casos expressos no rol do art. 313. Todavia, conforme redação
do inciso II do art. 310, sendo medida mais gravosa, somente pode ser a ultima ratio
processual, devendo o magistrado analisar primeiramente a possibilidade de aplicação
das medidas cautelares diversas da prisão constantes no rol do art. 319.
Aplicando-se as referidas cautelares, prevê o parágrafo único do art. 312 que poderão
elas ser convertidas em prisão em caso de descumprimento de outras medidas impostas.
Assim, entende a doutrina e a jurisprudência que as medidas em meio aberto restringem
a liberdade de locomoção, limitando a liberdade do agente, tanto que os Tribunais
Superiores admitem a impetração de HC para questionar a sua legalidade.
Desse modo, ante a restrição da liberdade de ir e vir, a possibilidade de sua conversão
em prisão e o dever de motivação dos pronunciamentos judiciais (Art. 93, IX e 5º LXI
CF e art. 315 CPP), deve o magistrado analisar e fundamentar a aplicação das medidas,
dispondo expressamente acerca de sua necessidade e adequação ante a restrição de
direitos fundamentais que acarretam. Outrossim, conforme disposto no caput do art. 312
do CPP, deve discorrer expressamente acerca da prova da existência do crime e de
indícios suficientes de autoria.

133. Disserte sobre a possibilidade jurídica da fundamentação per relationem no


âmbito do direito processual civil, sob a ótica da doutrina e da jurisprudência
atual do Superior Tribunal de Justiça, em contraponto com o princípio da duração
razoável do processo previsto constitucionalmente.
Motivação "per relationem" é aquela na qual se faz referência à manifestação de uma
das partes, à peça processual ou decisão anterior, adotando-a como razão de decidir.
Tradicionalmente, os Tribunais Superiores têm admitido tal prática, não considerando
haver afronta à garantia de constitucional de motivação das decisões judiciais (art. 93,
IX, da CF/88), devendo o órgão jurisdicional transcrevera as peças ou decisões que
embasam a decisão, sob pena de nulidade.
A fundamentação é garantia à parte, bem como meio de controle das decisões judiciais e
o dever acima aludido decorre logicamente das garantias da ampla defesa e
contraditório (entendido em seu aspecto dinâmico de participação da condução do
processo e com participação na construção das decisões judiciais).
O art. 489, §1º, do CPC detalha de forma bastante extensa o dever de fundamentação,
listando o que não se considera como tal. Tendo em vista o referido dispositivo, houve,
no início da vigência do novo Código Processual, precedentes no sentido de que a
fundamentação per relationem não teria sido por ele recepcionada, o que gerou muitas
críticas, sobretudo de entidades de magistrados, com fundamento na garantia da duração
razoável dos processos (arts. 5º, LXVIII, da CF e 4º do CPC), tendo em vista que ao
demandar maior elaboração das decisões judiciais, haveria um atraso na condução dos
processos.
O STJ, contudo, vem reafirmando o entendimento tradicional, no sentido de admitir tal
prática, cabendo, porém, observar que: (a) a peça ou decisão a que se fez referência
deve ser transcrita pelo julgador e (b) a sua transcrição deve satisfazer o disposto no art.
489, §1º, do CPC, ressaltando-se que eventuais novos argumentos trazidos pelas partes
deverão ser enfrentados de forma expressa.
134. O Poder Judiciário pode apreciar a oportunidade e conveniência do ato de
expulsão?
Não. A jurisprudência majoritária entende que o ato de expulsão é medida
administrativa discricionária, de maneira que ao Judiciário caberia realizar, tão somente,
controle de legalidade do ato, sem se imiscuir no mérito da decisão. Isso ocorre porque
a decisão de expulsão cabe ao Poder Executivo, sendo de sua competência privativa, e
consiste em manifestação da soberania do país.
Vale dizer, contudo, que o novo Estatuto Imigratório afunilou e especificou as situações
em que o indivíduo poderá ser expulso, incorporando as críticas doutrinárias que
sustentavam a excessiva vagueza das situações ensejadoras de expulsão no estatuto
anterior. Logo, atualmente, só se poderá expulsar migrante ou visitante caso exista
sentença condenatória transitada em julgado relativa à prática de crime e competência
do TPI (agressão, genocídio, crime de guerra ou contra a humanidade) ou crime comum
doloso passível de pena privativa de liberdade, consideradas a gravidade e as
possibilidades de ressocialização em território nacional. Reduziu-se, portanto, a
discricionariedade dos casos de expulsão.
Dessa forma, conclui-se que o Poder Judiciário poderia intervir, tão somente, caso o ato
de expulsão não se amolde às hipóteses trazidas pela nova Lei de Imigração ou consista
em hipótese em que o seu art. 55 veda a expulsão (exemplo: estrangeiro com filho
brasileiro sob sua guarda ou dependência econômica ou socioafetiva) - ou, ainda, diante
de desrespeito ao procedimento legal da expulsão, exemplo, caso não tenha sido
garantido o direito ao expulsando de interpor pedido de reconsideração da decisão sobre
a expulsão, no prazo de 10 dias, vez que a ele devem ser garantidos o contraditório e a
ampla defesa.

135. Na desapropriação, direta ou indireta, a taxa dos juros compensatórios é de


12% (doze por cento) ao ano. Comente a afirmação.
O Decreto-lei nº. 3.365/41 regula a desapropriação por utilidade pública, estabelecendo
o pagamento de juros compensatórios nas hipóteses de imissão provisória na posse pelo
órgão público. Trata-se de previsão constante do art. 15-A da norma mencionada, e que
recentemente foi objeto de tutela constitucional pelo STF no bojo da ADI 2332.
Conforme decidiu o Tribunal, a redação do art. 15-A do Decreto-lei nº. 3.365/41 é
constitucional ao fixar o percentual de juros compensatórios devidos pela Fazenda
Pública em 6%, mas é indevida a previsão de que essa taxa seria variável ("até" 6%),
sob pena de ofensa à isonomia e à segurança jurídica. Assim, o art. 15-A deve ser lido
de forma a excluir-se de sua redação a expressão "até". Como consequência deste novel
entendimento, perdem eficácia as súmulas 618 do STF e 408 do STJ, as quais, com base
na Lei de Usura, fixavam o percentual dos juros compensatórios em 12%.
Observe-se que a taxa de juros compensatórios de 6% aplica-se à desapropriação direta,
desde a imissão na posse, e também à desapropriação indireta, a partir da ocupação do
imóvel pelo Poder Público, porque foi declarado inconstitucional o §4º do art. 15-A do
DL nº. 3.365/41.
No que se refere à base de cálculo para incidência dos juros compensatórios, deve-se ler
o "caput" do mencionado art. 15-A conforme a Constituição para estabelecer que o
percentual de 6% recai sobre a diferença entre 80% do valor pago, que é o montante que
pode ser efetivamente levantado pelo expropriado, e o valor da indenização fixado na
sentença.
Por fim, saliente-se que é constitucional, conforme a decisão do STF, a previsão de que
os juros compensatórios apenas remuneram a perda da renda comprovada (§1º), e que o
seu pagamento está condicionado ao grau de utilização e de eficiência diferentes de zero
(§2º).
136. Considerando o direito constitucional a liberdade de expressão, explique
fundamentadamente o direito ao esquecimento sob a ótica da jurisprudência do
Superior Tribunal de Justiça.
Direito ao esquecimento consiste no direito de alguém de não ter fatos da sua vida que
lhe trazem transtornos sentimentais expostos pelos meios de comunicação, notadamente
pela internet, ainda que se trate de fatos verídicos.
Não obstante não se trate de direito recente (há decisão antiga do Tribunal
Constitucional alemão), o direito ao esquecimento ressurge na era da informação. Nas
oportunidades em que o STJ se manifestou sobre o direito ao esquecimento, foi
reconhecida sua aplicação no ordenamento pátrio e a vinculação estreita do instituto
com os direitos da personalidade, que contam com tutela constitucional, a exemplo do
art. 5º, X da CF, que dispõe ser inviolável a intimidade e vida privada das pessoas, e do
princípio da dignidade (art. 1º, III, CF), que exsurge como proteção primeira da vida
humana.
Nesse sentido, há enunciado do CJF, segundo o qual o direito ao esquecimento
compreende a tutela à dignidade da vida humana. No âmbito infralegal, a proteção da
vida privada é assegurada pelo art. 21 do CC/02. No entanto, a CF também protege as
liberdades, dentre as quais se encontra a liberdade de expressão, seja sua garantia na
forma do art. 5º, IV e XIV, seja na abstenção de censura por parte do Estado, na forma
do art. 220, caput e §§1º e 2º.
Nesse contexto, a liberdade de expressão (base do Estado Democrático) colide
frontalmente com o direito ao esquecimento, e como nenhum direito é absoluto, um
deles vai prevalecer, o que, de acordo com o STJ, depende do caso concreto; assim, se a
informação é de interesse público atual, o direito à liberdade de expressão deve
prevalecer.
Recentemente, o STJ, em respeito ao direito ao esquecimento, relativizou sua
jurisprudência ao decidir pela desvinculação de informação exibida por provedor de
internet e o nome de pessoa absolvida em ação penal.

137. Dois idosos, ambos com 70 anos completos, tão logo se conheceram, sofreram
de paixão à primeira vista e casaram-se incontinente. Após as núpcias, o casal
adquiriu imóvel que veio a ser registrado apenas em nome do cônjuge varão.
Passado algum tempo, o casal decidiu vender o imóvel recém adquirido e também
um outro de propriedade do varão há várias décadas. Partindo do pressuposto que
ambos os imóveis estão avaliados e serão negociados por mais de 30 vezes o valor
do salário mínimo, é necessário que o cônjuge virago figure como interveniente
anuente em alguma das escrituras públicas de venda dos imóveis?
A outorga uxória, no caso, será necessária para a plena validade do ato de alienação de
ambos os imóveis, inclusive daquele de propriedade exclusiva do marido. Senão
vejamos. A escritura pública se faz necessária, considerando o valor dos imóveis, acima
de 30 salários mínimos, conforme art. 108 do CC.
A outorga da esposa também, não obstante o regime de bens a reger o casamento ser o
da separação obrigatória, em virtude da idade dos nubentes por ocasião do matrimônio
(CC, art. 1641, II). Isso porque a Súmula 377 do STF determina a comunhão dos bens
adquiridos onerosamente na constância do matrimônio, no regime da separação
obrigatória ou legal, desde que haja prova do esforço comum.
Com a aplicação da Súmula, válida apesar de contundentes críticas por parte da
doutrina, o regime da separação obrigatória de bens passa a ser bastante similar com o
regime da comunhão parcial. Ademais, cumpre salientar que a exceção à necessidade de
outorga conjugal para alienação de bens imóveis estipulada pelo art. 1.647 do CC
refere-se à separação absoluta de bens, que é a separação convencional de que cuida o
artigo 1687 do CC e não se confunde com a separação obrigatória/legal prevista no art.
1641.
Por conseguinte, os cônjuges só estão dispensados de conceder a outorga, seja uxória,
seja marital, se casados pelo regime da separação convencional ou absoluta de bens. Por
conseguinte, sendo em razão de que a separação absoluta prevista pelo art. 1647 não é
sinônimo de separação obrigatória (art. 1641), ou em virtude de a Súmula 377 do STF
estipular a comunhão dos bens adquiridos na constância do casamento no regime da
separação legal, o consentimento conjugal será necessário para a alienação dos bens
imóveis.
Com relação ao imóvel de propriedade exclusiva do marido - aquele que já era de sua
propriedade muitas décadas antes do casamento, também deve haver a outorga uxória
para fins de alienação. Isso porque o art. 1.669 do CC, que pode ser aplicado
analogamente para o caso, estipula que, mesmo quando o bem é excluído da comunhão,
seus frutos se comunicam quando se percebam ou vençam durante o casamento. Assim,
sendo o dinheiro da venda fruto civil do imóvel alienado durante o matrimônio, há
necessidade de outorga também nessa hipótese.

138. A Declaração de Compensação Tributária efetuada pelo contribuinte constitui


o crédito tributário objeto da compensação, para que o Fisco o exija, sem
notificação, em caso de indeferimento da compensação?
Via de regra, a declaração do contribuinte reconhecendo débito fiscal constitui o crédito
tributário, sem que, para isso, exija-se qualquer providência do ente público. Contudo,
ainda que a compensação tributária seja modalidade de extinção do crédito tributário
(art. 156, II, CTN), o contribuinte que assim realizar a compensação deverá comunicar
ao Fisco - o qual, por sua vez, poderá concordar com a compensação ora realizada,
homologando-a ou, ainda, discordar, parcial ou totalmente, do valor declarado.
Nesse último caso, impõe-se que o Fisco pratique ato manifestando essa discordância,
através de processo administrativo tributário (que suspenderá o crédito tributário), antes
de propor ação fiscal em face do contribuinte.
Por esse motivo, o STJ possui jurisprudência pacificada no sentido de que, caso o
contribuinte tenha declarado o tributo e realizado a compensação nesse mesmo
documento, o Fisco não pode desconsiderar o procedimento adotado pelo contribuinte e,
sem qualquer notificação de indeferimento da compensação, proceder à inscrição do
débito em dívida ativa com posterior ajuizamento da execução fiscal. Até porque,
enquanto não finalizado o procedimento administrativo - o qual possibilita o exercício
da ampla defesa pelo contribuinte -, não há sequer falar em crédito tributário
devidamente constituído.

139. A defesa prevista no art. 514 do CPP se aplica aos servidores que não mais
exercem função pública?
O artigo 514 do CPP enuncia que, nos crimes afiançáveis, antes de receber a denúncia
ou a queixa crime, o juiz deverá notificar o acusado para que apresente defesa prévia
por escrito, no prazo de 15 dias.
O aludido dispositivo legal tem por escopo evitar o oferecimento de denúncias criminais
em face de servidores públicos de maneira temerária, colocando em questionamento a
moralidade da própria administração pública.
Por essa razão, a súmula 330 do Superior Tribunal de Justiça deixa certo que, em
havendo inquérito policial no qual a denúncia se fundamenta, dispensa-se a notificação
prévia do acusado, pois, nesses casos, considera-se existente indícios mínimos de
autoria e materialidade.
Não obstante, muito embora o Supremo Tribunal Federal possua entendimento diverso
daquele constante na Súmula 330 do STJ, no sentido de que a defesa prévia seria
indispensável mesmo quando a denúncia estiver lastreada em inquérito policial, a Corte,
por outro lado, também entende que a notificação de servidor público para se defender
previamente ao recebimento da denúncia, em crimes afiançáveis, é dispensável quando
ele deixa de exercer o cargo.
Portanto, é certo que, segundo o entendimento da jurisprudência do Supremo Tribunal
Federal, o artigo 514 do CPP não se aplica aos servidores que não mais exercem função
pública.

140. Sob a ótica da jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, é juridicamente


possível cidadão transgênero alterar seu nome no registro civil?
Sim, é possível. O cidadão transgênero é aquele que, em apertada síntese, não se
identifica, psiquicamente, com o aspecto externo do seu corpo, isto é, sente-se de gênero
diverso daquele revelado fisicamente por seus aspectos sexuais.
O STJ, nos últimos anos, tem revelado franca evolução neste sensível tema, como
revela a análise de seus julgados. Se, inicialmente, considerava bastante restrita a
possibilidade de alteração do nome no registro civil, nos termos da legislação pertinente
(Lei 6.015/73), que não dispõe expressamente sobre a situação ora sob exame, passou a
considerar, em franca evolução hermenêutica, tal possibilidade, de forma progressiva.
Com efeito, a Corte da Cidadania partiu de situações em que admitia a alteração do
nome, apenas nos casos de mudança física de gênero (transgenitalização), para a
readequação no registro civil, até alcançar os casos em que a exigência dessa
redesignação do sexo seria dispensada, por representar uma violação indevida da
dignidade do cidadão transgênero. Atualmente, o STJ tem decisões que garantem,
inclusive, o sigilo de eventual alteração cadastral.
O STF analisou, recentemente, os aspectos da delicada questão em espécie. Examinando
os seus contornos, sob a luz do que dispõe o artigo 1º, III (dignidade da pessoa humana
como fundamento de nosso país) e o artigo 5º, X (em especial , a inviolabilidade da
intimidade, da vida privada e da honra da pessoa), bem como vários pontos abordados
no Pacto de São José da Costa Rica (tais como nome, honra, dignidade, liberdade), a
Corte Suprema exarou importante decisão, em sede de controle concentrado, admitindo
a alteração do nome do cidadão transgênero, no registro civil, e afastando a exigência de
cirurgias, tratamentos hormonais ou mesmo laudos psicológicos.
Ademais, como remate, vale ressaltar que a decisão do STF estabelece que a alteração
em apreço pode ser realizada no próprio registro civil, sem a necessidade de autorização
judicial.

141. Disserte sobre a aplicação do princípio da insignificância nos crimes de


contrabando e descaminho, mencionando os argumentos utilizados na
jurisprudência mais recente para a admissibilidade e para a vedação.
O princípio da insignificância é causa de exclusão da tipicidade material cujo
reconhecimento precisa de quatro requisitos: (1) mínima ofensividade da conduta; (2)
ausência de periculosidade social; (3) reduzidíssimo grau de reprovabilidade da
conduta; e (4) inexpressividade da lesão jurídica provada.
O crime de descaminho tem como conduta típica iludir o pagamento de direito ou
imposto devido pela entrada, pela saída ou pelo consumo de mercadoria (art. 334, CP),
enquanto que o contrabando refere-se à conduta de importar ou exportar mercadoria
proibida (art. 334-A, CP).
Nesse contexto, é assente a jurisprudência do STF e STJ em admitir a aplicação do
princípio da insignificância ao crime de descaminho quando o tributo iludido não atingir
o limite mínimo adotado pelo Fisco para sua cobrança judicial, atualmente de R$
20.000,00. Por muito tempo, o STJ aplicou o limite de R$ 10.000,00, no entanto,
recentemente passou a acompanhar a jurisprudência do STF que entendia pela aplicação
desse último valor.
Ressalte-se que, recentemente, uma das Turmas do STF, em julgado da Relatoria do
Min. Marco Aurélio, contrariamente à jurisprudência do próprio Tribunal, entendeu que
o referido patamar não se aplica para fins de aferição do princípio da insignificância,
ante a autonomia das esferas civil, administrativa e criminal. Foi decisão, porém,
tomada por órgão fracionário sem sua composição original, tratando-se de precedente
isolado.
Com efeito, embora previsto no Código Penal como crime contra a Administração
Pública, o descaminho é verdadeiramente crime tributário, de modo que sua simples
localização topográfica não atrai aplicação da Súmula do STJ, que afirma que o
princípio da insignificância não se aplica aos crimes contra a Administração Pública.
Já com relação ao crime de contrabando, é pacífica a jurisprudência do STF e do STF
em afastar a aplicação do princípio da insignificância, por nunca ser inexpressiva a lesão
ao bem jurídico. Veja-se que o contrabando envolve mercadoria proibida, o que revela
que o bem jurídico tutelado não é apenas o interesse arrecadatório, mas sim outros bens
jurídicos de tamanha relevância que motivaram a própria proibição do produto.

142. Suponha que um Estado membro, no exercício da competência legislativa


concorrente, limites e a editar lei remetendo a disciplina de determinada matéria
elencada no art. 24 da CF à regência da legislação federal. Nesse quadro, discorra
sobre a constitucionalidade de semelhante lei editada pelo ente da Federação.
Como cediço, tratando-se de competência legislativa concorrente, compete à União
legislar sobre normas gerais, o que não exclui a competência legislativa suplementar dos
Estados. Inexistindo lei federal sobre normas gerais, os Estados exercerão a
competência legislativa plena para atender a suas peculiaridades (art. 24, §2º, 3º e 4º da
CF).
Nesses termos, reputa-se inconstitucional a edição por Estado de lei que remete à
disciplina elencada no art. 24 da CF à regência da legislação federal. Isso porque há
patente descumprimento de mandamento constitucional, notadamente no tocante ao
dever do Estado de legislar para atender a suas peculiaridades.
O Supremo Tribunal Federal já teve oportunidade de decidir que a norma em questão
revela a renúncia do ente federativo ao exercício da competência concorrente
constitucionalmente prevista, pois remete à observância automática da legislação federal
específica. Para a Corte, a frequente edição de normas estaduais remissivas fragiliza a
estrutura federativa, já que o atendimento às necessidades regionais é condição de
viabilidade da Federação.
Em suma, por caracterizar renúncia do Estado à competência concorrente
constitucionalmente atribuída a ela, em detrimento da estrutura federativa, é
inconstitucional norma estadual que remete à observância automática da legislação
federal específica sobre as matérias elencadas no art. 24 da Constituição Federal. Nesse
sentido caminha a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal.

143. Pedidos implícitos no Código de Processo Civil de 2015: analise, levando em


conta a teoria da interpretação dos pedidos.
O pedido, junto com as partes e a causa de pedir, é um dos elementos caracterizadores
da demanda. Ele constitui o objeto da ação (o bem jurídico que o autor espera ver
protegido) e, em face do Princípio da Congruência, limita a sentença, conforme previsão
dos artigos 141 e 492 do CPC/15.
Não por outro motivo, estabelece o mesmo diploma legal, com mais apuro que o
Código de Processo Civil de 1973, que o pedido deve ser certo e determinado, nos
termos dos artigos 322 e 324 do NCPC/15. Nesse contexto, releva evidenciar que o
pedido deve ser formulado de forma expressa, não deixando margem de dúvida quanto
ao que se pretende, seja em termos de quantidade, qualidade, ou extensão.
Isso porque, a priori, ressalvadas as exceções indicadas no §1º, do art. 322, do CPC/15
(juros legais, correção monetária, verbas de sucumbência e honorários advocatícios),
não são admitidos pedidos implícitos, pois, conforme anteriormente evidenciado, é
justamente o pedido que caracteriza o objeto litigioso do processo, mediante a
particularização do mérito da causa, fundamentado na causa de pedir, do qual deve ser
dessumido (deduzido). Todavia, estabelece o próprio diploma processual civil, em seu
art. 322, §2º, que a interpretação do pedido considerará o conjunto da postulação, e
observará o Princípio da boa-fé.
Desse modo, o novo CPC/15 abandona a interpretação restritiva do pedido, prevista no
CPC/73, rompendo, assim, com a concepção liberal de jurisdição, ao prever a cláusula
aberta do princípio da boa-fé, que possibilita ao magistrado adequar o bem da vida
pretendido à real necessidade da parte postulante; o que, em última análise, acaba por
mitigar o princípio da Congruência ou da Correlação.

144. Considerando a dogmática do controle de constitucionalidade, explique a


cláusula full bench e as exceções a sua aplicabilidade de acordo com a
jurisprudência do Supremo Tribunal Federal.
O artigo 97 da Constituição Federal consagra a “cláusula da reserva de plenário”,
também denominada de regra da “full bench”, segundo a qual, no âmbito dos tribunais,
a declaração de inconstitucionalidade não poderá ser feita por órgão fracionário. Dessa
forma, a inconstitucionalidade somente poderá ser declarada pelo voto da maioria
absoluta dos membros do Pleno ou pelo respectivo órgão especial. É preciso destacar
que tal instituto tem aplicação tanto no controle difuso quanto no controle concentrado
de constitucionalidade.
De acordo com a Súmula Vinculante nº 10, a decisão do órgão fracionário de tribunal
que afasta a incidência no todo ou em parte de uma lei ou ato normativo do Poder
Público, ainda que não declare expressamente a sua inconstitucionalidade, viola
frontalmente a cláusula de reserva de plenário. Na visão do STF, por se tratar de uma
regra que consagra uma hipótese de competência funcional, a sua inobservância gera
uma nulidade absoluta da decisão, contra a qual poderá ser interposto recurso
extraordinário para aquele tribunal, com esteio na violação do art. 97 da Magna Carta.
Importante ressaltar que os órgãos fracionários dos tribunais não submeterão ao plenário
ou ao órgão especial a arguição de inconstitucionalidade quando: a) já houver
pronunciamento anterior destes órgãos, ou então b) do plenário do Supremo Tribunal
Federal sobre a questão (art. 949, parágrafo único, do CPC).
Além disso, a jurisprudência do STF tem entendido que a regra do "full bench" não se
aplica: 1º) aos juizados especiais, porquanto, segundo a configuração que lhes foi
atribuída pelo legislador, tais juizados não funcionam, na esfera recursal, sob o regime
de plenário ou órgão especial; 2º) se o órgão especial ou o pleno do tribunal pronunciar-
se pela constitucionalidade da lei ou do ato normativo; 3º) para a decisão que reconhece
a revogação ou não recepção de uma norma infraconstitucional anterior pela nova CF
ou por uma emenda; 4º) às turmas do STF quando exercem o controle difuso de
constitucionalidade no julgamento do recurso extraordinário; 5º) nos casos de manejo
do princípio da interpretação conforme a Constituição e de declaração de nulidade sem
redução de texto.
Resumindo, é desnecessária a observância da cláusula da reserva de plenário quando (1)
o STF ou Órgão Plenário ou Especial do Tribunal já tiverem se manifestado sobre a
matéria, (2) julgamento de recurso extraordinário pelas Turmas, (3) ao juízo de recepção
ou revogação de direito pré-constitucional, (4) arguições de constitucionalidade, (6)
interpretações conforme a Constituição, (6) Turmas Recursais dos Juizados Especiais.
145. Considerando que a Lei Anticorrupção "dispõe sobre a responsabilização
objetiva administrativa e civil de pessoas jurídicas pela prática de atos contra a
administração pública, nacional ou estrangeira" (art. 1º, caput, da Lei 12.846/13), é
possível a responsabilização de empresas públicas, sociedades de economia mista e
suas subsidiárias com base nesse Diploma Legal?
A Lei Anticorrupção (Lei 12.846/12), conforme o disposto em seu art. 1º, dá um amplo
alcance àqueles sujeitos à responsabilização objetiva administrativa e civil por atos
lesivos à Administração Pública. Consoante dispõe o texto legal, aplica-se “às
sociedades empresárias e às sociedades simples, personificadas ou não,
independentemente da forma de organização ou modelo societário adotado, bem como a
quaisquer fundações, associações de entidades ou pessoas, ou sociedades estrangeiras,
que tenham sede, filial ou representação no território brasileiro, constituídas de fato ou
de direito, ainda que temporariamente”.
Diante disso, nota-se que não há qualquer vedação legal à responsabilização das
empresas estatais (empresas públicas e sociedades de economia mista) e suas
subsidiarias, motivo pelo qual se entende que é possível a responsabilização, desde que
a sanção pretendida seja compatível com as suas peculiaridades.
Ademais, de acordo com o comando constitucional, as estatais devem se sujeitar ao
regime jurídico próprio das empresas do setor privado, inclusive quanto aos direitos e
obrigações civis, comerciais, trabalhistas e tributários, prevendo, ainda, que a lei
estabelecerá a responsabilidade da estatal, sujeitando-a às punições compatíveis com
sua natureza.
Nessa linha, a Lei de Responsabilidade das Estatais (Lei nº 13.303/16), em seu art. 94,
dispôs que é possível a aplicação às empresas estatais e suas subsidiarias das sanções
previstas na Lei Anticorrupção, à exceção das penalidades de (1) suspensão ou
interdição parcial de suas atividades, (2) dissolução compulsória da pessoa jurídica e de
(3) proibição de receber, pelo prazo de 1 a 5 anos, incentivos, subsídios, subvenções,
doações ou empréstimos de órgãos ou entidades públicas e de instituições financeiras
públicas ou controladas pelo poder público. De fato, a exclusão de tais sanções é
razoável, uma vez que deve ser preservado o interesse público que justificou a criação
da estatal.

146. Despensão. Admissibilidade do instituto e de institutos correlatos no


ordenamento jurídico
brasileiro.
Antes de estabelecer o conceito da despensão, é preciso esclarecer o instituto da
desaposentação, uma vez que aquela deriva desta. A desaposentação consiste no ato do
segurado de renunciar à aposentadoria que recebe, a fim de que possa requerer uma
nova aposentadoria (reaposentação), desta vez, mais vantajosa, no mesmo regime
previdenciário ou em outro. Isso porque o aposentado pelo Regime Geral de
Previdência Social (RGPS) que volta a exercer atividade remunerada é segurado
obrigatório em relação a essa atividade, ficando sujeito ao pagamento de contribuição
previdenciária, para fins de custeio da Seguridade Social (§ 3º do artigo 11 da Lei n.
8.213/91).
O STF, contudo, superando o entendimento do STJ e da Turma Nacional de
Uniformização (TNU) pela possibilidade da desaposentação, pacificou o tema em
sentido oposto, vedando o instituto. Segundo a Suprema Corte, a desaposentação é
expressamente proibida pelo artigo 18, § 2º da Lei n. 8.213/91, segundo o qual, mesmo
que o aposentado volte a contribuir, não terá direito a nenhuma prestação da Previdência
Social, ressalvados o salário-família e a reabilitação profissional.
Ademais, conforme destacado no julgado, o sistema previdenciário brasileiro é
assentado no princípio da solidariedade (artigo 3º, I, da CF/88), norma principiológica
que fundamenta a criação de um fundo único de previdência social, socializando-se os
riscos, com contribuições compulsórias, mesmo daquele que já se aposentou, mas
persiste trabalhando.
Assim, restou fixada, em sede de repercussão geral, a tese de que no âmbito do Regime
Geral de Previdência Social (RGPS), somente lei pode criar benefícios e vantagens
previdenciárias, não havendo, por ora, previsão legal do direito à desaposentação, sendo
constitucional a regra do artigo 18, § 2º, da Lei 8.213/1991.
Por sua vez, a despensão é um derivado direto da desaposentação. Por decorrência
lógica, é basicamente, o pedido de desaposentação formulado pelo dependente sucessor
que recebe a pensão por morte do segurado. Ou seja, é a desaposentação pleiteada após
o falecimento do segurado aposentado, para que seus reflexos incidam sobre o benefício
subsequente de pensão por morte.
É imperioso destacar, por fim, que ainda quando o STJ entendia pelo direito à
desaposentação, já havia se posicionado no sentido de não permitir a despensão,
sustentando que os sucessores não teriam legitimidade para pleitear direito
personalíssimo, não exercido pelo instituidor da pensão (renúncia e concessão de outro
benefício), diferindo da possibilidade de os herdeiros pleitearem diferenças pecuniárias
de benefício já concedido em vida ao instituidor da pensão (art. 112 da Lei n. 8.213/91).
Assim, para o STJ, o aposentado que voltasse a trabalhar teria direito de aumentar o
valor do benefício, mas, em caso de morte, seus sucessores não teriam legitimidade para
cobrar essa diferença no valor da pensão. Por muito maior razão, atualmente, - após a
tese firmada pelo STF quanto ao instituto da desaposentação - não há que se falar em
direito à despensão.

147. Compartilhamento de dados obtidos pela Receita Federal, sem autorização


judicial, com o Ministério Público e Polícia: disserte sobre o tema.
Após o Pleno do STF ter julgado constitucional a possibilidade de a Receita Federal
acessar dados bancários de correntistas diretamente, sem necessidade de autorização
judicial, para fins de processo administrativo-fiscal (art. 6º, LC 105), afirmando que não
se trata de quebra de sigilo bancário (art. 5º, X e XII, CRFB/1988), mas de transferência
de informações sigilosas, surgiu a questão da possibilidade de o Fisco compartilhar
esses dados com os órgãos de investigação e persecução penal - Ministério Público e
Polícia.
No âmbito do STF, o tema teve repercussão geral reconhecida, mas ainda pendente de
julgamento; até o momento há decisão de turma desse Tribunal em que se admitiu a
transferência de informação bancárias do Fisco para o Ministério Público, sem
autorização judicial, pois ambos os órgãos submetem-se ao dever de sigilo, de forma
que a garantia constitucional de privacidade permanece.
Acompanhando a tendência do Supremo Tribunal, turma do STJ alterou compreensão
sobre a matéria para declarar que a Receita Federal não precisa pedir autorização
judicial para encaminhar informações à autoridade policial e ao Ministério Público
sobre dados bancários usados em processo administrativo fiscal em que se concluiu por
eventual prática de ilícito penal.
Os fundamentos da decisão residem na obrigação legal do Fisco de comunicar ao
Ministério Público as infrações penais observadas na conclusão do processo
administrativo (art. 83, caput, Lei 9430/96) e no dever de sigilo dos órgãos; e ainda: o
processo administrativo fiscal deve estar finalizado, em virtude da imposição legal (art.
83, Lei 9430/96) e da SV 24, segundo a qual só é possível tipificar crimes materiais
contra a ordem tributária após o lançamento definitivo do tributo.
148. Explique fundamentadamente as ondas renovatórias de acesso à justiça.
O Direito não é uma ciência estática, ao contrário, está em constante transformação. Os
esforços rumo à efetivação do acesso à Justiça integram a própria evolução do Direito,
surgindo com ímpeto na história de lutas do Estado moderno. É nesse sentido que os
autores Mauro Cappelletti e Bryant Garth, na célebre obra “Acesso à justiça”, dividiram
em três ondas os principais movimentos renovatórios do acesso à justiça.
A primeira onda diz respeito, basicamente, à assistência judiciária aos pobres e está
relacionada ao obstáculo econômico do acesso à justiça. Ganharam força, neste primeiro
período, os discursos por uma justiça mais efetiva dentro do projeto de desenvolvimento
das nações, e isso se deu por intermédio da inclusão daqueles que são economicamente
hipossuficientes. A grande pretensão desse movimento renovatório era, portanto,
garantir o acesso à justiça, encarado como o requisito fundamental, ou seja, o mais
básico dos direitos humanos, e não apenas proclamar os direitos de todos.
A segunda onda trata, por sua vez, da representação dos interesses difusos em juízo e
visa contornar o obstáculo organizacional do acesso à justiça. Para tanto, era necessário
romper o isolamento jurídico-legislativo dos indivíduos quando do enfrentamento das
violações de massa, as quais incidiam sobre categorias inteiras de pessoas. Nessa etapa,
chamada de tutela dos direitos metaindividuais, ocorreu uma abertura ainda maior das
portas de acesso ao judiciário, permitindo a postulação de interesses coletivos, difusos e
individuais homogêneos (bem como a ampliação dos legitimados para agir), categorias
recentes e de eficácia reduzida, dada a ausência de instrumentos disponibilizados pelo
Estado para a concretização de tais direitos.
Por fim, a terceira onda, denominada de "o enfoque do acesso à justiça", detém a
concepção mais ampla de acesso à justiça e tem como escopo instituir técnicas
processuais adequadas e melhor preparar estudantes e aplicadores do direito. Esta fase
preocupa-se em construir um sistema jurídico mais célere, dinâmico, eficiente, adaptado
à velocidade das mudanças, enfim, mais humano, através do engajamento da sociedade
e do poder público com políticas que deságuem no correto aproveitamento dos tribunais
de pequenas causas e dos métodos extrajudiciais de solução de controvérsias, a exemplo
da conciliação, da mediação e da arbitragem.

149. No âmbito da cooperação jurídica internacional, o que são as red notices? Tal
instituto é aplicável no direito brasileiro?
As “red notices”, ou “difusões vermelhas”, são a comunicação feita aos órgãos
representantes da Organização de Polícia Internacional – Interpol, na qual consta pedido
de prisão emitido por autoridade competente de determinado Estado-membro contra
alguém, dando conhecimento internacional sobre tal ordem, quando existam indícios de
que o foragido migrou para país diverso daquele responsável pela ordem.
Ou seja, é instrumento de cooperação internacional constituído pelo armazenamento em
registros utilizados pela Interpol de mandados de prisão e a permissão para que a
Organização divulgue entre Estados-membros a existência de mandados de prisão em
aberto, que podem ser emitidos por autoridades nacionais (no Brasil, só autoridade
judiciária) ou internacionais (existem países em que também autoridades
administrativas emitem ordens de prisão), com a finalidade de efetuar prisões
internacionais.
No Brasil, a difusão vermelha apenas pode ser adotada por autoridade judiciária em
casos de ordem de prisão decorrente de sentença condenatória transitada em julgado ou
de prisão preventiva em processo criminal, sempre se observando as regras
procedimentais estabelecidas na Instrução Normativa elaborada pelo CNJ. Ainda, basta
a iniciativa do juiz brasileiro para que a difusão produza efeitos, sem necessidade de
manifestação de outro órgão brasileiro.
A difusão vermelha decorrente de habilitação realizada por autoridade estrangeira não
produz efeitos automáticos no Brasil, devendo a Interpol apresentar pedido perante o
STF, conforme art. 84, § 2º, da Lei de Migração.

150. Em havendo parcelamento tributário não adimplido, quando volta a correr o


prazo prescricional de cobrança do tributo?
Nos termos do art. 151, inc. VI, do CTN, o parcelamento suspende a exigibilidade do
crédito tributário. E, de acordo com o STJ, o pedido de parcelamento constitui causa de
interrupção da prescrição, por força do previsto no art. 174, inc. IV, do CTN.
Ainda de acordo com a Corte Superior, no caso de parcelamento, o prazo prescricional
volta a correr a partir do momento em que o devedor deixa de pagar o parcelamento. No
entanto, tal entendimento não se aplica ao programa de parcelamento REFIS, pois nesse
caso existe a obrigatoriedade de instauração de processo administrativo, que, por sua
vez, também é causa de suspensão da exigibilidade do crédito tributário, na forma do
art. 151, III, do CTN, e, assim, o prazo somente voltará a correr após finalizado o
processo.

151. O que é o direito penal simbólico. Dê exemplos.


O Direito Penal simbólico baseia-se no medo e na insegurança da população para
justificar a criação de leis desnecessárias, com penas desproporcionais e rígidas,
buscando gerar na sociedade uma falsa sensação de que o Estado consegue alterar a
realidade social. É uma legislação quase sempre urgente, com reforma pontual,
invocando a função retributiva das penas e esquecendo o seu caráter ressocializador.
Assim, o legislador simbólico passa a falsa ideia de segurança, fazendo com que o
Direito Penal torne-se simbólico e ineficiente, deixando sua função preventiva de lado
para dar lugar à eficácia momentânea dos conflitos. A ideia é amparada no Movimento
da Lei e da Ordem, que remete ao Direito Penal do Inimigo, permitindo a exclusão
social daquele que comete crimes (como a previsão de regime integralmente fechado
para os autores de crimes hediondos e a eles equiparados - Lei 8072/90, art. 2º, § 1º em
sua redação original).
Essa urgência ocorre, muitas vezes, por pressão da sociedade, influenciada pela massiva
divulgação pela mídia de crimes bárbaros, sendo que a legislação torna-se inócua ante a
incapacidade de o sistema penal lidar de forma eficaz com a criminalidade.
No Brasil, isso ocorreu com a Lei de Crimes Hediondos, Lei de Torturas e a alteração
feita no Código Penal pela Lei 13.104/2015, incluindo a qualificadora do feminicídio ao
art. 121. Em todos esses casos, a ideia de punição, de caráter antropológico, advém da
ideologia de que a pena mais severa sobre o corpo do infrator faria com que este não
adotasse uma conduta desviante, o que neutralizaria a violência. Todavia, a quantidade
de castigo e a maximização da violência nem sempre é proporcional à diminuição da
criminalidade.

152. Art. 1556, do Código Civil. Os filhos, havidos ou não da relação de casamento,
ou por adoção, terão os mesmos direitos e qualificações, proibidas quaisquer
designações discriminatórias relativas à filiação.
Sob a ótica do direito de família e tendo em vista o princípio da igualdade entre os
filhos, disserte sobre a possibilidade jurídica de se fixar alimentos em valores
diferentes para filhos do mesmo genitor. Excepcionalmente, é possível a fixação de
alimentos em valores ou percentuais diferentes entre os filhos.
A CF, em seu artigo 227, § 6º, estabeleceu o princípio da igualdade entre os filhos, de
sorte que, com base neste dispositivo, compreende-se que não deverá haver, em regra,
diferenciação entre os filhos, o que inclui a fixação de valor ou percentual de alimentos.
A base desse entendimento fundamenta-se na conclusão de que os filhos,
indistintamente, apresentariam as mesmas demandas vitais, merecem as mesmas
condições e iguais acessos às necessidades usuais.
Contudo, tal entendimento, segundo o Superior Tribunal de Justiça, não pode ser
absoluto e inflexível, haja vista que, com base nas situações concretas, a diferenciação
pode se mostrar admissível, razoável e, inclusive, indispensável. Observa-se que tal fato
pode dar-se com base em dois pontos: capacidade contributiva dos genitores e
necessidade do alimentando.
No tocante ao primeiro ponto, é de se consignar que, segundo o art. 1.703 do CC, é
dever de ambos os cônjuges contribuir para a manutenção nos filhos. Assim sendo, caso
haja dois filhos que tenham em comum apenas um genitor, pode-se verificar que há
diferença de contribuição em relação ao genitor não comum, o que influenciará na
fixação dos alimentos.
Por outro lado, com relação ao segundo ponto, observa-se que diversos fatores podem
influenciar na necessidade, excepcional, de diferenciação nos alimentos dos filhos, tais
como aspectos de saúde e idade. Dessa forma, seja por um ponto ou outro, é possível,
excepcionalmente, fixar percentuais ou valores diferentes de prestação alimentícia aos
filhos.

153. As penas restritivas de direito podem ser executadas provisoriamente, após o


julgamento que as confirma em segunda instância?
Não, as penas restritivas de direito podem ser executadas provisoriamente, após o
julgamento que as confirma em segunda instância. Na verdade, a execução provisória da
pena é, em princípio, vedada. Todavia é admitida a fim de garantir mais direitos ao
cidadão submetido aos rigores da coerção estatal, efetivando-se o princípio da
humanidade da pena.
O Supremo Tribunal Federal (STF), inclusive, recentemente mudou seu
posicionamento, segundo o qual a execução provisória da pena não afrontaria o
princípio constitucional da presunção de inocência, de modo que, confirmada a
condenação por colegiado em segundo grau, e ainda que pendentes de julgamento
recursos de natureza extraordinária (recurso especial e/ou extraordinário), a pena
poderia, desde já, ser executada.
Atualmente, nem mesmo a pena privativa de liberdade pode ser executada
provisoriamente, nos termos do entendimento do Supremo, eis que o princípio da
presunção de não culpabilidade previsto no inciso LVII do artigo 5.º da CF deve ser
encampado como medida voltada a garantir a eficácia da jurisdição penal e resgatar a
credibilidade do Estado na sua função de reprimir as condutas que violam os bens
jurídicos mais caros da sociedade e escolhidos como objeto de tutela. Da mesma forma,
com mais razão, é inviável a execução provisória de pena restritiva de direito.
O Superior Tribunal de Justiça, em vista da ausência de apreciação pelo Plenário do
STF quanto à possibilidade de executar a reprimenda restritiva de direito antes do
trânsito em julgado da condenação, somado ao texto expresso do art. 147 da Lei de
Execução Penal, decidiu que a execução da pena restritiva de direito só pode iniciar
após o trânsito em julgado.

154. É admissível a aplicação da chamada “teoria do fato consumado” em matéria


de Direito Ambiental?
Não. Em matéria de Direito Ambiental, é inadmissível a aplicação da teoria do fato
consumado, segundo orientação do Superior Tribunal de Justiça (STJ), recentemente
consagrada em verbete da Súmula. Segundo a Teoria do Fato Consumado, determinadas
situações consolidadas, protraídas no tempo com amparo em decisão judicial, não
podem ser desfeitas em razão da superveniência de decisão que faça cessar os efeitos do
título legitimador. Essa teoria tem fundamento, sobretudo, no princípio da segurança
jurídica.
O Ministro Herman Benjamin ilustrou que se trata, melhor dito, de um postulado de
garantia para afastar situações em que o desfazimento de uma situação concreta causará
mais prejuízos do que a sua manutenção. Exatamente por isso, em reiterados casos, o
STJ mantém a validade de diploma universitário obtido por pessoa que completou o
curso amparado por tutela provisória. Em outras situações, tanto para o STJ quanto para
o STF, são mantidas aposentadorias de pessoas que cumpriram os requisitos e se
aposentaram, em cargo ou emprego público, amparados por decisão judicial provisória.
Nota-se, portanto, que, em tais casos, afrontaria a lógica do razoável (Recanséns-Siches)
desconstituir essas situações - ressalvados, é claro, os casos de fraude, de má-fé.
Por outro lado, em tema de Direito Ambiental, uma das máximas da jurisprudência é a
"inexistência de direito adquirido a poluir". Édis Milaré aponta que, em matéria
ambiental, é preciso atenuar a sinalagmaticidade ordinária das relações jurídicas, pois o
bem jurídico em questão é difuso - aliás, pode-se afirmar que é o bem difuso por
excelência. Além de ser difuso, é bem jurídico sujeito à perenização das influências
antrópicas. E, quanto a isso, o princípio da solidariedade intergeracional obriga uma
postura de autocontenção para assegurar a higidez do meio ambiente às gerações
futuras.
Assim, caso fosse tolerada a Teoria do Fato Consumado, estaria constituído um direito
adquirido de afronta às normas protetivas do meio ambiente, bem como uma admissão
judicial da possibilidade de perenização de efeitos, ao menos potencialmente,
prejudiciais ao meio ambiente, seja qual for a dimensão em questão (biológica,
urbanística, cultural). Portanto, com fundamento nessa lógica essencialmente protetiva,
consolidou-se a orientação de que é inadmissível a Teoria do Fato Consumado em
matéria de Direito Ambiental.

155. É admissível que uma sociedade empresária em recuperação judicial participe


de licitações públicas? Justifique.
Consoante recente julgado veiculado em informativo de jurisprudência do STJ, afigura-
se possível que sociedade empresária em recuperação judicial participe de licitações
públicas.
Promovendo a interpretação do preceito normativo contido no art. 31, II, da Lei n.
8.666/93, tanto a doutrina quanto o STJ filiaram-se ao entendimento segundo o qual o
legislador não promoveu a substituição da "concordata" pela "recuperação judicial",
institutos afins que, contudo, não podem ser confundidos.
Com espeque no princípio da legalidade, também sem perder de vista o escopo
primordial dos processos licitatórios de promover a competitividade e obter a melhor
oferta para os interesses do Estado, passou-se a entender que a certidão negativa de
recuperação judicial não poderia ser exigida da pessoa jurídica (sociedade empresária)
que porventura desejasse participar do certame.
Outro viés interpretativo que contribuiu para a adoção do entendimento é o de que a
configuração do instituto da recuperação judicial é baseada no princípio da preservação
da empresa, de sua atividade produtiva e dos postos de trabalho gerados, de modo que o
tão só fato de ser apresentada eventual certidão positiva de recuperação judicial, por si
só, não poderia ser compreendido como entrave insuperável à admissão da sociedade
empresária no processo licitatório.
Pondera-se, contudo, a necessidade de que, como se exige das demais pessoas jurídicas
postulantes à contratação pública, seja comprovada a capacidade econômico-financeira
da empresa para que, uma vez adjudicado o objeto licitado, seja capaz de levar a cabo as
propostas apresentadas.
156. O julgamento antecipado parcial de mérito é possível em relação à
condenação da Fazenda Pública em pagar quantia certa?
Sim, é perfeitamente possível que o julgamento parcial de mérito seja aplicado em uma
condenação de pagar quantia certa contra a fazenda pública. Inicialmente, devemos
entender que, pela sistemática da nossa Carta Magna de 1988, mais especificamente
pelo seu art. 100, é delimitado que as obrigações de pagar quantia certa que sejam
impostas à administração pública serão pagas por meio de precatório ou requisição de
pequeno valor.
Na mesma sistemática, o mesmo artigo 100, em seu § 8º, prescreve o seguinte: É vedada
a expedição de precatórios complementares ou suplementares de valor pago, bem como
o fracionamento, repartição ou quebra do valor da execução para fins de enquadramento
de parcela do total ao que dispõe o § 3º deste artigo.
Ocorre que, não obstante esse parágrafo tenha o intuito claro de proibir possíveis
fracionamentos de precatórios e RPV, é claro também que seu intuito não é o de
possibilitar que matérias já prontas para julgamento possam ser decididas de plano e
expedida a respectiva ordem de pagamento, muito pelo contrário, o intuito aqui, antes
de ser uma forma de proibir o pagamento de julgamento parcial de mérito, é uma forma
de prevenir fraudes que tenham a intenção de burlar toda a sistemática exposta.

157. Qual a consequência jurídica caso o ato normativo que estava sendo
impugnado na ADI seja revogado antes do julgamento da ação?
A revogação do ato normativo impugnado na ADI antes do julgamento da ação, em
regra, gera perda superveniente do seu objeto e sua consequente extinção sem resolução
de mérito (art. 485, VI, CPC), pois a norma não mais existe no mundo jurídico, não
sendo mais apta a produzir efeitos para o futuro. Nesse caso, os efeitos residuais já
produzidos pelo ato normativo devem ser reclamados na via processual própria, pois o
controle abstrato não é apto para tutelar situações concretas ou individuais.
Todavia, em algumas situações excepcionais, o STF não declara a perda do objeto e
prossegue no julgamento da ADI. Isso ocorre na hipótese de fraude processual, em que
a revogação do dispositivo impugnado ocorre de forma proposital, com o fim de evitar a
declaração de inconstitucional e a anulação dos efeitos da lei com eficácia retroativa,
desde a sua edição (considerando que a revogação produz apenas efeitos “ex tunc”,
permitindo que a norma continue regendo situações ocorridas na sua vigência).
A segunda exceção se observa no caso de continuidade do conteúdo normativo em outro
dispositivo, já que não há desatualização da essência do instituto. Tal fato ocorreu, por
exemplo, na ADI que impugnava o art. 741 do CPC/73, mas que só foi julgada após a
publicação do CPC/15, que tratou do mesmo instituto da impugnação da coisa julgada
inconstitucional nos art. 525 e 535.
Outro caso excepcional se verifica na hipótese de revogação de ato normativo não
comunicada ao STF antes do julgamento da ação. Aqui, não é possível reconhecer a
prejudicialidade da ADI já apreciada. Além disso, evitam-se possíveis manipulações das
decisões do STF, bem como se obsta que a lei produza efeitos válidos no período em
que vigorou.

158. O critério de baixa renda fixado pela legislação previdenciária no auxílio-


reclusão pode ser flexibilizado pelo julgador a fim de conceder benefício
previdenciário em favor de dependente do segurado que aufira valor superior?
O auxílio reclusão é um dos benefícios de proteção à família que representa a
materialização do princípio da seletividade e da distributividade, na medida em que o
artigo 201, IV, da Constituição Federal, com redação dada pela Emenda Constitucional
20/98, prevê que será devido apenas aos dependentes do segurado de baixa renda.
Dessa forma, verifica-se que o escopo do constituinte reformador foi selecionar os
segurados em situação de maior vulnerabilidade em decorrência da efetivação do risco
social, conferindo-lhes maior proteção ao destinar o benefício previdenciário a sua
família na hipótese em que restar obstado de exercer atividade laboral remunerada, por
ter sido recolhido à prisão.
Destarte, a legislação previdenciária estabelece um limite de remuneração para que o
segurado seja considerado de baixa renda, de sorte que, se ultrapassado o "quantum"
não fará jus a tal enquadramento, e, atualmente, equivale a, aproximadamente, 1.300
reais. Trata-se, assim, de um limite objetivo, estabelecido pelo legislador como
parâmetro de aferição da condição de baixa renda, que deve ser verificado quando do
momento do encarceramento do segurado, aplicando-se o princípio "tempus regit
actum", consoante a jurisprudência do STJ.
Ademais, o STJ possui entendimento no sentido de que o valor fixado como limite para
aferição da condição de baixa renda deve ser relativizado conforme as circunstâncias do
caso concreto, quando restar evidenciado que, a despeito de a renda do segurado superar
o limite legal, a existência de despesas essenciais para a subsistência do segurado
prejudicar o aproveitamento de sua renda, tal como deve ocorrer com a aferição da
condição de segurado de baixa renda para fins do recebimento do benefício de prestação
continuada, previsto no artigo 20 da Lei nº 8742/93.
Registre-se, por fim, que a jurisprudência do STJ também considera que, para fins de
aferição dos critérios de baixa renda, na hipótese do segurado desempregado, não há
que se considerar o último salário de contribuição anterior à situação de desemprego,
mas, sim, a renda zero.

159. A Organização dos Surfistas Brasilienses - OSBRASA encontra-se constituída


juridicamente desde o ano de 1975 e, já no ano de 1980, havia finalizado a
construção de sua portentosa sede, à beira do Lago Paranoá. Avaliadas,
atualmente, em mais de R$ 2.000.000,00 (dois milhões de reais), as edificações da
OSBRASA, construídas no terreno de sua sede, chamaram a atenção do Poder
Público. O Governo do Distrito Federal, então, identificou que a área em que
levantadas tais construções é, na verdade, de propriedade pública. Ingressou,
então, com ação de reintegração de posse em desfavor da OSBRASA, devidamente
instruída com a documentação comprobatória da alegada propriedade pública,
sem, contudo, qualquer demonstração de que o imóvel já tivesse sido ocupado
anteriormente pelo Poder Público. Ademais, sequer alegou existir qualquer laivo
de que os representantes de tal organização tenham agido de má-fé aos edificarem
as benfeitorias existentes no local. Diante dessa situação, indaga-se: à luz dos
elementos fornecidos, trata-se de ação de força nova? Há direito a indenização
mercê das acessões? Há direito de retenção pelas benfeitorias realizadas? Se
positiva a resposta, em relação a quais espécies de benfeitorias?
O caso aventado trata de ocupação indevida de bem público, que não configura posse,
mas mera detenção de natureza precária. Dessa forma, é possível o requerimento de
liminar de reintegração de posse ainda que ultrapassado ano e dia do esbulho, uma vez
que tal fundamento não se aplica em ação possessória movida pelo Poder Público, tendo
em vista que, tratando-se de bem público em poder de particular, a posse não se
caracteriza, mas sim mera detenção, não se podendo falar em posse velha, aquela apta a
gerar direitos pelo passar do tempo.
Assim, seria possível ao Poder Público o pedido de reintegração liminar, típico das
ações de força nova, nos termos dos artigos 1.210 do Código Civil e 558, do CPC.
Quanto ao direito de indenização em relação às acessões realizadas na área pública, é
importante esclarecer que o artigo 1.219 do Código Civil, embora mencione apenas o
direito de retenção do possuidor de boa-fé decorrente da realização de benfeitorias
necessárias e úteis, também se aplica às acessões (construções e plantações) nas mesmas
circunstâncias (enunciado 81 da I Jornada de Direito Civil do CJF/STF).
Entretanto, nos termos da consagrada jurisprudência do STJ, a ocupação de área
pública, quando irregular, não pode ser reconhecida como posse, mas como mera
detenção. Assim, se o direito de retenção ou de indenização pelas acessões realizadas
depende da configuração da posse, não se pode, ante a consideração da inexistência
desta, admitir o surgimento daqueles direitos, do que resulta na inexistência do dever de
se indenizar as benfeitorias úteis e necessárias. Ressalta-se que, ainda que presente a
boa-fé, havendo ocupação indevida do bem público, resta afastado o direito de retenção
por benfeitorias e o pleito indenizatório.
Por outro lado, é importante salientar que existe tímido posicionamento na
jurisprudência brasileira no sentido de que poderia haver boa-fé na ocupação exercida
pelo particular em área pública, quando é tolerada pela Administração Pública por
vários anos, de forma conivente, cabendo, portanto, a indenização pelas benfeitorias
úteis e necessárias efetivadas no imóvel. Repise-se, contudo, que esse não é o
posicionamento predominante.
Por fim, ressalte-se que com a edição da Súmula619 do STJ, segundo a qual "a
ocupação indevida de bem público configura mera detenção, de natureza precária,
insuscetível de retenção ou indenização por acessões e benfeitorias", a discussão
basicamente se esgotou. Desse modo, no caso em tela, irregularmente ocupado o bem
público, não há que se falar em direito de retenção pelas benfeitorias realizadas,
tampouco em direito a indenização pelas acessões, ainda que as benfeitorias tenham
sido realizadas de boa-fé.

161. Sob a ótica da jurisprudência do STF, explique se as empresas públicas e as


sociedades de economia mista podem se valer do regime de precatórios para
adimplir suas dívidas judiciais.
O regime de precatórios está previsto no artigo 100 da Constituição Federal para os
pagamentos devidos pelas Fazendas Públicas Federal, Estaduais, Distrital e Municipais,
em virtude de sentença judicial condenatória. Trata-se de um privilégio instituído em
favor da Fazenda Pública, uma vez que ela não está sujeita ao pagamento imediato do
valor ao qual foi condenada, possuindo um prazo maior para pagar a dívida.
Conforme posicionamento fixado pelo STF, em regra, as empresas estatais estão
submetidas ao regime das pessoas jurídicas de direito privado, ou seja, estão sujeitas à
execução comum. No entanto, é possível aplicar o regime de precatórios para empresas
públicas e sociedades de economia mista que prestem serviços públicos e que não
concorram com a iniciativa privada.
Dessa forma, quanto à possibilidade de execução por meio de precatórios, prevalece que
abrange, além da administração direta (União, Estados, Distrito Federal e Municípios),
as suas autarquias e fundações, e também as empresas públicas prestadoras de serviço
público e as sociedades de economia mista prestadoras de serviço público de atuação
própria do Estado e de natureza não concorrencial.
Assim, o STF tem estendido algumas prerrogativas da Fazenda Pública a determinadas
empresas estatais prestadoras de relevantes serviços públicos, tais como os Correios
(ECT), a Casa da Moeda, a Infraero e as companhias estaduais de saneamento básico
(nas hipóteses em que o capital social seja majoritariamente público e o serviço seja
prestado em regime de exclusividade e sem intuito de lucro).
Destaca-se, contudo, que não se submetem ao regime de precatório as empresas
públicas e as sociedades de economia mista que executem atividades em regime de
concorrência ou que tenham como objetivo primordial a obtenção de lucro.
161. Ação civil pública versando sobre direito difuso ou coletivo em sentido estrito
foi ajuizada em desfavor de determinado município do interior. O valor atribuído
à causa pelo autor foi o número em reais (R$) equivalente a 99 salários mínimos.
Citada, a edilidade contestou a demanda. A sentença, reputando suficientes as
provas, julgou o mérito do pedido improcedente. Todos foram regularmente
intimados, inclusive o ministério público. Exaurido o prazo recursal, não houve a
interposição de nenhum recurso pelas partes. Pergunta-se: ocorreu o trânsito em
julgado? E se a ação civil pública versasse sobre direitos individuais homogêneos?
Não ocorreu o trânsito em julgado da ACP em razão do caráter difuso ou coletivo em
sentido estrito. Todavia, segundo a jurisprudência, teria ocorrido se o objeto da ACP
fosse de direito individual homogêneo. Senão vejamos.
Segundo súmula do STF, não transita em julgado a sentença quando for omitido o
recurso de ofício, sendo que a remessa necessária é tratada de forma geral pelo art. 496
CPC. Trata-se de condição objetiva de eficácia para a sentença, que visa proteger o
interesse público, não se enquadrando no conceito de recurso por faltar-lhe
voluntariedade, interesse de recorrer, legitimidade, tempestividade e preparo,
características inerentes aos recursos (arts. 994 e s. CPC). Por outro lado, possui
semelhança com estes em razão dos efeitos devolutivo amplo, suspensivo, translativo e
substitutivo.
Com relação aos efeitos da coisa julgada, a doutrina classifica-as em três possibilidades:
pro et contra (regra geral que independe do resultado, conforme arts. 502/203 CPC),
secundum eventum litis (ocorre somente nos casos de procedência ou improcedência da
ação) e por fim, secundum eventus probationis (quando houver esgotamento de provas,
sendo esta a regra aplicada às ações coletivas, conforme art. 103 CDC, art. 18 da
4.717/65 e 19 da Lei 12.016/09).
No caso em tela, os lesados individuais não poderiam, caso tivesse ocorrido a coisa
julgada (o que não ocorreu) intentar ação autônoma, pois a sentença foi de
improcedência com suficiência de provas. O art. 19 da Lei 4.717/65 prevê que a
sentença que concluir pela carência ou improcedência da ação popular está sujeita ao
duplo grau de jurisdição, somente produzindo efeito após a sua confirmação pelo
Tribunal.
Segundo o STJ, tal dispositivo aplica-se às ACP que tutelem direitos difusos e coletivos
em sentido estrito, pelo enquadramento dos diplomas no microssistema de tutela
coletiva, além de ambos buscarem a tutela do patrimônio público de forma geral, ainda
que a Lei 7.347/85 tenha objeto mais amplo (art. 1º da LACP).
Com relação aos direitos individuais homogêneos, considerando que a coletivização tem
sentido meramente instrumental (art. 103, III e 91 CDC) para permitir a tutela mais
efetiva em juízo, não se lhes aplica a remessa necessária do art. 19 da LAP, de modo
que, no caso, teria ocorrido o trânsito em julgado. Poder-se-ia questionar a possível
dispensa da remessa necessária e, consequentemente, o trânsito em julgado da ACP em
razão de o valor da causa enquadrar-se no inciso III do § 3º do art. 496 CPC (valor
inferior a cem salários mínimos).
Todavia, segundo entendimento do Tribunal da Cidadania, a dispensa pelo valor da
causa não se aplica às ações coletivas ante o princípio da especialidade do art. 19 da
LAP, além de visarem à tutela do patrimônio público.

162. Disserte sobre as hipóteses em que o parcelamento tributário não é causa


interruptiva da prescrição da pretensão do Fisco.
Não haverá interrupção ou suspensão da prescrição no parcelamento tributário quando a
Fazenda Pública o conceder de ofício, sem anuência do contribuinte. Isso porque o
parcelamento, ao mesmo tempo em que suspende a exigibilidade do crédito (Art. 151,
IV CTN), interrompe o prazo prescricional ante o reconhecimento do débito pelo sujeito
passivo (art. 174, parágrafo único, IV CTN).
Ocorre que, conforme a literalidade deste último dispositivo, somente haverá
interrupção se o devedor, por ato inequívoco, reconhecer o débito. A concessão de
ofício, por mera liberalidade de política fiscal, não tem o condão de interromper. Além
disso, o inadimplemento do parcelamento faz surgir a pretensão de execução fiscal para
o Fisco (Lei 6.830/80). Decorridos cinco anos (art. 174, caput CTN) desde o
inadimplemento até o ajuizamento da execução fiscal, deve-se reconhecer a prescrição
e, com isso, a extinção do crédito (Art. 156, V CTN).
O STJ possui entendimento no sentido de que, após a exclusão do contribuinte do
programa de parcelamento, se este continuar a pagar os valores depois de notificado,
não haverá prorrogação da suspensão, tendo voltado a correr o prazo a partir do
inadimplemento ou da decisão administrativa que o tenha excluído por outro motivo
(ex.: dolo ou simulação).
O parcelamento ocorre por meio de comportamento ativo do contribuinte que se dispõe
a pagar o tributo. Somente haverá direito ao parcelamento quando concedido pela
autoridade administrativa fixada como competente pela lei que o instituiu (art. 155-A,
caput CTN). Não pode constar no termo de adesão a renúncia à discussão judicial do
débito, ante a garantia da inafastabilidade de jurisdição (art. 5º, XXXV CF).
Ante a aplicação subsidiária das regras da moratória (art. 155-A, § 2º CTN), caso o
contribuinte ou terceiro em benefício deste tenha agido com dolo ou simulação, o tempo
transcorrido entre a concessão do parcelamento e a sua revogação não poderá ser
computado para efeitos de prescrição. E, por fim, tem-se por simulação, segundo o STJ,
o parcelamento com valores ínfimos, que sequer são suficientes para quitar os encargos
do débito.

163. É possível a substituição da pena privativa de liberdade por restritiva de


direitos nos casos de crimes ou contravenções praticadas contra a mulher com
violência ou grave ameaça no âmbito doméstico? Explique o entendimento do
Superior Tribunal de Justiça e do Supremo Tribunal Federal.
No âmbito do STJ, prevalece o entendimento de que não é cabível a substituição da
pena privativa de liberdade por restritiva de direito diante da prática de crime ou
contravenção penal contra a mulher com violência ou grave ameaça no âmbito
doméstico, nos termos da súmula 588 do STJ.
Nesse sentido, o STJ entendeu que são proibidas quaisquer penas restritivas de direitos
para os condenados por violência doméstica e familiar contra a mulher, ainda que o art.
17 da lei 11.340/06 apenas vede expressamente a pena de "cesta básica", de prestação
pecuniária e pagamento isolado da pena de multa.
Por sua vez, o STF possui entendimento diverso. A Suprema Corte apenas veda a
substituição da pena privativa de liberdade por restritiva de direito no caso de crimes
cometidos contra a mulher, com violência ou grave ameaça, no âmbito doméstico. Isso
porque o artigo 44, I, do Código penal, exige os seguintes requisitos para a substituição:
em se tratando de crime doloso, a pena privativa de liberdade deve ser igual ou inferior
a quatro anos; não pode o crime ter sido cometido com violência ou grave ameaça e o
réu não pode ser reincidente, salvo se a reincidência não for específica e as condições
(art. 59) forem favoráveis.
Contudo, em se tratando de contravenção penal, ainda que cometida com violência ou
grave ameaça contra a mulher, no âmbito doméstico, como, por exemplo, as vias de
fato, há divergência no STF. A 1ª turma do STF, seguindo o entendimento do STJ,
também entende que não cabe a substituição. Porém, a 2ª turma, fazendo uma análise
literal do art. 44, I, do CP, diz que a vedação para a substituição apenas abrange crimes
praticados com violência ou grave ameaça, de modo que, em se tratando de
contravenção, é cabível a substituição.
Portanto, atualmente, em se tratando de crime praticado contra a mulher com violência
ou grave ameaça no âmbito doméstico, tanto o STJ quanto o STF não admitem a
substituição, tendo em vista a literalidade do art. 44, I, do CP. No que diz respeito às
contravenções penais praticadas nas mesmas circunstâncias acima descritas, o STJ e a 1ª
turma do STF não admitem a substituição, nos termos da súmula 588 do STJ. Porém, a
2ª turma do STF admite, considerando que inexiste vedação expressa no CP e na lei
11.340/06.

164. O art. 206, § 3º, V, do Código Civil estabelece o prazo prescricional de 3 (três)
anos para pretensões relacionadas com a reparação civil (“Art. 206. Prescreve: (...)
§ 3º Em três anos: (...) V - a pretensão de reparação civil”).
Pergunta-se: (a) esse prazo se aplica para a responsabilidade contratual e
extracontratual; (b) o termo “reparação civil”, constante do art. 206, § 3º, V, do
CC/2002, deve ser interpretado de maneira ampla?
O artigo 206, § 3º, V, do Código Civil estabelece prazo prescricional de três anos para a
pretensão de reparação civil sem especificar se se aplica aos casos de responsabilidade
contratual e/ou aos casos de responsabilidade extracontratual, restando, por conseguinte,
à jurisprudência definir tais parâmetros.
A jurisprudência do STJ era firme no posicionamento segundo o qual o mencionado
dispositivo deveria ser interpretado de maneira ampla, abrangendo tanto a
responsabilidade contratual quanto a extracontratual. Contudo, em 2018, esse colendo
Tribunal modificou o seu posicionamento, passando a entender que o prazo de três anos
se aplica apenas às hipóteses de responsabilidade extracontratual, devendo ser
observado o prazo prescricional de dez anos, previsto no artigo 205 do Código Civil,
para os casos de responsabilidade contratual.
A mudança de entendimento do STJ baseou-se em três elementos essenciais, quais
sejam: um elemento normativo-literal, um elemento lógico-sistemático e um elemento
de igualdade. O primeiro (normativo-literal ) está relacionado ao modo como a
expressão "reparação civil" é empregada no Código Civil, isto é, à maneira como o
referido termo é citado literalmente no diploma legal supramencionado.
Conforme análise realizada pelo colendo Tribunal, corroborada pela doutrina pátria, tal
expressão é utilizada apenas nos dispositivos que tratam de indenização decorrente de
ato ilícito, não se verificando o seu emprego nos artigos que tratam da responsabilidade
contratual.
Já o segundo elemento (lógico-sistemático) está relacionado à preservação da coerência
do ordenamento jurídico, uma vez que, nas hipóteses de inadimplemento contratual, o
credor possui três alternativas: a execução específica, execução pelo equivalente ou a
resolução contratual, sendo possível em todos os casos requerer também indenização em
perdas e danos. Diante de tais possibilidades, todas decorrentes do mesmo motivo, qual
seja, do inadimplemento contratual, não faz sentido se atribuir prazos prescricionais
diversos para as consequências negativas de um mesmo fato e que possuem
fundamentos jurídicos iguais.
O terceiro elemento (de igualdade), por sua vez, está relacionado à avaliação da
existência de diferenças substanciais entre a responsabilidade contratual e a
responsabilidade extracontratual que justifiquem ou não o tratamento diferenciado
dessas situações. A partir da análise desses critérios, passou o STJ a adotar uma
interpretação restritiva em relação ao termo "reparação civil", entendendo que ele
somente se aplica aos casos de responsabilidade extracontratual.
165. Estabeleça como o princípio da não autoincriminação deve ser interpretado à
luz do princípio da cooperação, segundo a mais recente jurisprudência do
Supremo Tribunal Federal.
Recentemente, o STF julgou uma RE em sede de Repercussão Geral e fixou a tese no
sentido da constitucionalidade do art. 305 do CTB, que incrimina a conduta do
motorista que se afasta do local do acidente, para fugir da responsabilidade civil ou
penal que lhe possa ser atribuída, tendo como parâmetro constitucional o art. 5º, LXIII
CF (direito de o acusado não produzir provas contra si mesmo - nemo tenetur se
detegere).
Alguns Tribunais locais entendiam que o dispositivo violava o direito ao silêncio
(reconhecido nos Princípios de Miranda, de construção estadunidense), que consiste no
dever do Estado não obrigar o acusado a produzir provas contra si e possui previsão em
documentos internacionais dos quais o Brasil é signatário.
Além disso, argumentavam os defensores da inconstitucionalidade que a garantia não se
limita à colaboração ativa, englobando a inexigibilidade de dizer a verdade (desde que
não haja denunciação caluniosa ou autoacusação falsa - arts. 339 e 341 CP) e de não
participar de prova incriminadora invasiva. Outrossim, a responsabilidade criminal não
seria afastada pela fuga do agente do local do acidente.
Segundo o STF, o dispositivo visa incentivar a solidariedade e a responsabilidade,
sendo que, se atribuir-se falsa identidade gera punição para afastar a responsabilidade
(S. 522 STJ), com mais razão gera a evasão do local com fins de evitar a
responsabilidade, além de a permanência no local não significar que o acusado tenha
assumido a responsabilidade civil ou criminal.
Por fim, a observância absoluta e de forma irrestrita do direito à não autoincriminação
afronta o princípio da proporcionalidade em sua vertente "proibição à proteção
deficiente dos bens jurídicos", pois deixa descoberto o bem jurídico de tutela da
Administração da Justiça, protegido pelo tipo do CTB. Assim, no cotejo entre o direito
do condutor de não produzir provas contra si e o dever de cooperar com a Justiça, deve
prevalecer o princípio da cooperação.

166. É lícita a diferenciação de preço de uma mesma mercadoria ou serviço de


acordo com a forma de pagamento à vista?
Sobre o tema, é preciso fazer um corte temporal, haja vista o advento da Lei nº
13.455/2017, oriunda da conversão da Medida Provisória nº 764/2016, que permite a
diferenciação de preço a depender da forma de pagamento atualmente.
Antes de 27/6/2017, entrada em vigor da Lei 13.455/2017, a jurisprudência do STJ
entendia que a diferenciação de preço de acordo com a forma de pagamento constituía
prática abusiva a colocar o consumidor em exagerada e desproporcional desvantagem
perante o fornecedor, nos termos do artigo 39, incisos V e X da Lei nº 8078/90, sendo,
inclusive, infração administrativa contra a ordem econômica, nos termos do artigo 36,
parágrafo 3º, incisos X e XI da Lei nº 12.529/2011.
No entanto, com o advento da Lei 13.455/2017, tais dispositivos legais que proíbam a
referida prática foram derrogados e, a partir de 27/6/2017, passou a ser lícita a
diferenciação de preços de bens e serviços oferecidos ao público em função do prazo ou
do instrumento de pagamento utilizado.
Registre-se, contudo, que a prática deve vir afixada de forma ostensiva ao público,
como forma de se preservar o direito à informação e transparência das relações
consumeristas, nos termos do artigo 6º, inciso III da Lei 8078/90 e 5º-A da Lei
10.962/2004 (que dispõe sobre a oferta e as formas de afixação de preços e serviços
para o consumidor), bem como a boa-fé objetiva que deve permear todas as relações
contratuais, notadamente seus consectários da lealdade, transparência e informação.
167. É cabível condenação em honorários advocatícios, em sede de procedimento
executório, no âmbito dos juizados especiais?
Como cediço, por força do disposto no art. 55 da Lei 9.099/95, descabe a condenação
do vencido ao pagamento de custas e honorários advocatícios em sentenças proferidas
no âmbito dos Juizados Especiais. Entretanto, é possível a fixação de honorários em se
tratando de (i) litigância de má-fé e (ii) em caso de sucumbência recursal, isto é, quando
o recorrente for vencido no Colégio Recursal (segundo grau).
Questão controversa, contudo, cinge-se à possibilidade de arbitramento de honorários na
fase de cumprimento de sentença. A respeito do tema, existem duas correntes
doutrinárias. Para a primeira, é plenamente possível a fixação de honorários após o
decurso do prazo de cumprimento voluntário da condenação, na forma do art. 523, §1º
do CPC, aplicado no âmbito dos Juizados Especiais por força do disposto no art. 52 da
Lei 9.099/95, assim como ocorre quanto à multa pelo descumprimento da obrigação.
Por outro lado, uma segunda corrente doutrinária defende que não se deve fixar os
honorários advocatícios na fase cumprimento de sentença ao argumento de que a Lei
dos Juizados Especiais especificou de forma taxativa os casos em que haverá o
arbitramento dos honorários de sucumbência. Nesse sentido, há enunciado do Fórum
Nacional dos Juízes Estaduais - FONAJE.
Em suma, embora o entendimento majoritário seja no sentido de que o magistrado
poderá arbitrar honorários apenas nas hipóteses taxativas do art. 55 da Lei 9.099/95,
certo é que a fixação de honorários se revela compatível com o cumprimento de
sentença nos juizados especiais, notadamente em caso de descumprimento voluntário e
inescusável do comando proferida na sentença proferida, assim como ocorre com
aplicação da multa prevista no art. 523, §1º do Código de Processo Civil.

168. Servidores públicos ocupantes de cargo em comissão de livre nomeação e


exoneração sujeitam-se à aposentadoria compulsória aos 75 anos? E notários e
registradores delegatários da concessão do serviço público?
A Constituição Federal previu que, atingida a idade de setenta e cinco anos, o servidor
público, independentemente de ainda possuir condições físicas e mentais de continuar
exercendo o cargo, deve ser obrigatoriamente aposentado (artigo 40, parágrafo 1º, inciso
II). O dispositivo em tela, entretanto, aplica-se tão somente aos servidores efetivos,
conforme determina o seu caput.
Assim, nos termos da jurisprudência sedimentada no Supremo Tribunal Federal, os
servidores ocupantes de cargo exclusivamente em comissão não se submetem à regra da
aposentadoria compulsória prevista no dispositivo supra, a qual atinge apenas os
ocupantes de cargo de provimento efetivo. Ademais, a Corte fixou que inexiste,
também, qualquer idade limite para fins de nomeação a cargo em comissão.
Dessa forma, ressalvados impedimentos de ordem infraconstitucional, não há óbice
constitucional a que o servidor efetivo aposentado compulsoriamente permaneça no
cargo comissionado que já desempenhava ou a que seja nomeado para cargo de livre
nomeação e exoneração, uma vez que não se trata de continuidade ou criação de vinculo
efetivo com a administração.
Da mesma maneira, a Suprema Corte assentou que não se aplica a aposentadoria
compulsória aos titulares de serventias judiciais não estatizadas, desde que não sejam
ocupantes de cargo público efetivo e não recebam remuneração proveniente dos cofres
públicos. Com relação às serventias extrajudiciais, portanto, não se aplica a
aposentadoria compulsória para notários e registradores, exatamente por não se tratar de
servidores públicos.
Deve-se ter em mente, contudo, que as serventias judiciais têm atualmente três classes,
quais sejam: os titulares de serventias oficializadas, que ocupam cargo ou função
pública e são remunerados exclusivamente pelos cofres públicos; os titulares de
serventias não estatizadas, remunerados exclusivamente por custas e emolumentos; e os
titulares também de serventias não estatizadas, mas que são remunerados em parte pelos
cofres públicos e em parte por custas e emolumentos.
Segundo o Supremo, deve ser estendido aos titulares de serventias judiciais não
estatizadas, remuneradas exclusivamente por custas e emolumentos, o mesmo
tratamento conferido aos titulares dos foros extrajudiciais, haja vista a similitude das
relações jurídicas, uma vez que ambas se referem a atividades privadas em colaboração
com o Poder Público.