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Maria da Glória Gohn

TEORIAS SOBRE A PARTICIPAÇÃO SOCIAL: desafios para a

DOSSIÊ
compreensão das desigualdades sociais

Maria da Glória Gohn*

O artigo focaliza o tema da participação social e política, teorizado na academia e presente na realidade brasileira
tanto na sociedade civil – via movimentos, coletivos e outras organizações – como no estado – via políticas públicas.
Faz-se um resgate do conceito e das principais abordagens teóricas sobre a participação. Identificam-se dez abor-
dagens, focalizando como elas têm sido aplicadas na análise de diferentes formas de participação sociopolítica e
cultural, advindas tanto de grupos sociais como de instituições estatais. As questões centrais que orientam a análise
são: Como essas abordagens têm tratado o tema das desigualdades sociais? Como essas correntes têm contribuído
para o entendimento, ou para dar subsídios, à participação da sociedade civil, nos processos de luta pela inclusão,
contra discriminações e pela igualdade social? Que agendas podem ser construídas a partir das abordagens?
Palavras-chave: Participação social. Teorias. Desigualdade social.

APRESENTAÇÃO te público e saneamento básico, segurança pú-


blica, lazer e cultura, entre outros). Segundo a
O tema da desigualdade social consta OXFAM (2017), nas duas últimas décadas, ape-
da pauta de estudos e pesquisas de inúmeros sar do avanço quanto à retirada de centenas de
autores brasileiros há décadas. Eles nos apre- pessoas da pobreza, “... o ritmo foi muito lento
sentam um cenário desolador e nos oferecem e o Brasil ainda está na lista dos países mais
análises sobre suas causas e consequências na desiguais do planeta. O atual contexto nacio-
sociedade (ver Ivo, 2001 e 2008). A imprensa nal, marcado por uma grave crise econômica
nacional e internacional também tem pautado e política, também revela que as conquistas
o tema.1 Entre as principais causas que têm alcançadas são frágeis e estão ameaçadas”
sido apontadas para a desigualdade social no (https://www.oxfam.org.br/o-que-fazemos/os-

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Brasil estão: a falta de acesso à educação de -numeros-das-desigualdades-no-brasil. Acesso
qualidade, o desemprego e os baixos salários, a 20/06/2018).
política fiscal injusta e a dificuldade de acesso Nesse cenário, várias indagações relevan-
aos serviços públicos básicos (saúde, transpor- tes despontam: Como os teóricos da academia
1
têm tratado as questões das desigualdades nas
abordagens sobre os processos de mobilização
* Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Depar-
tamento de Educação. social? Como os mais pobres têm se organizado
Cidade Universitária Zeferino Vaz. Cep: 13083-896. Cam-
pinas – São Paulo – Brasil. mgohn@uol.com.br para lutar contra as desigualdades e as discrimi-
1
Matéria recente publicada no jornal espanhol El País no- nações e como essas lutas têm sido teorizadas?
ticiou: “Uma família brasileira pode levar até nove gera-
ções para deixar a faixa dos 10% mais pobres e chegar à Na cena das políticas públicas a principal inda-
de renda média do país, segundo estudo sobre mobilidade
social elaborado pela Organização para a Cooperação e gação é: O que tem sido construído em termos
Desenvolvimento Econômico (OCDE). [...] De acordo com
o levantamento da OCDE, 35% dos filhos de pais posicio- da participação dos cidadãos? Tudo isso remete
nados no um quinto mais pobre do Brasil termina a vida ao campo da participação civil, social e política,
nesse mesmo estrato social.”. (https://brasil.elpais.com/
brasil/2018/06/15/economia. Acesso 20/06/2018).). Mais no âmbito da sociedade e do estado, o que, nes-
pobres podem levar até nove gerações para atingir renda
média no Brasil. te artigo, é tomado como foco principal, objeti-

http://dx.doi.org/10.9771/ccrh.v32i85.27655 63
TEORIAS SOBRE A PARTICIPAÇÃO SOCIAL...

vando contribuir com o presente dossiê sobre as discursos e práticas das políticas estatais, situ-
novas agendas para a teoria social contemporâ- ados no campo das ações das instituições par-
nea. Em trabalhos anteriores, já contemplamos ticipativas, com sentidos e significados com-
as análises teóricas de temáticas correlatas à da pletamente distintos.
participação, tratando os movimentos sociais Concordamos com o entendimento de
e suas ações coletivas (Gohn, 2014a, 2017a). Milani (2008) sobre a localização dos proces-
Neste momento, a temática da participação se sos participativos no processo social:
impõe por ser ela mais ampla, possibilitando-
... a participação é parte integrante da realidade so-
-nos o olhar sobre as ações da sociedade e do cial na qual as relações sociais ainda não estão cris-
Estado. Trata-se de um campo de análise vas- talizadas em estruturas. Sua ação é relacional; ela é
to, que pode ser observado tanto do ponto de construção da/na transformação social. As práticas
vista das práticas civis efetivas, como do ponto participativas e suas bases sociais evoluem, varian-
de vista de estudos e pesquisas dos analistas. do de acordo com os contextos sociais, históricos e
geográficos. (Milani, 2008, p. 560).
Esse último ponto é contemplado neste artigo,
visando a dar conta de uma das dimensões da Segundo o Dicionário do Pensamento
problemática apontada, considerando-se as di- Social do Século XX, organizado por Outhwaite
ferentes abordagens que nos levam a observar e Bottomore, participação
como a participação tem sido teorizada ao fo-
... é um conceito ambíguo nas ciências sociais, pode ter
calizar a sociedade civil, seja por meio de vias e
um significado forte ou fraco. [...] o princípio da parti-
canais institucionais de participação e controle
cipação é tão antigo quanto a própria democracia, mas
social dos cidadãos, seja a partir das teorizações se tornou imensamente mais difícil em consequência
sobre o estado e suas instituições, ou por meio da escala de abrangência do governo moderno, bem
de políticas de controle social dos governantes como pela necessidade de decisões precisas e rápidas
sobre os cidadãos. – como omissão e motivo de protesto por parte dos que
exigem maior participação Diani (2004, apud Outhwa-
Três questões-chave são norteadoras na
ite; Bottomore, 1993, p. 558-559).
análise do tema da participação neste texto.
Primeira – como tem sido pensado esse tema Participação é também uma das palavras
por diferentes autores representativos de vá- mais utilizadas no vocabulário político, científi-
rios paradigmas e correntes teóricas, ao ana- co e popular da modernidade. Dependendo da
lisarem a luta de segmentos da sociedade para época e da conjuntura histórica, ela aparece as-
resolver seus problemas materiais (lutas mais sociada a outros termos como democracia, repre-
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econômicas), ou simbólicos e culturais (lutas sentação, direitos, organização, conscientização,


contra discriminações). Segunda – como essas cidadania, solidariedade, exclusão etc. Vários
correntes têm contribuído para o entendimen- foram os teóricos que fundamentaram o sentido
to, ou para dar subsídios, no desenrolar dos atribuído à participação. Segundo Lavalle:
acontecimentos participativos, sociopolíticos
“Participação” é, a um tempo só, categoria nativa da
e culturais no Brasil, nas últimas décadas. Ter-
prática política de atores sociais, categoria teórica
ceira – Que agendas podem ser construídas a da teoria democrática com pesos variáveis segundo
partir dessas correntes e de suas abordagens? as vertentes teóricas e os autores, e procedimento
Sabe-se que o tema da participação se institucionalizado com funções delimitadas por leis
mantém em uma longa tradição de estudos e disposições regimentais. A multidimensionalida-
e análises nas ciências sociais. No plano da de ou polissemia dos sentidos práticos, teóricos e
institucionais torna a participação um conceito fu-
realidade, a participação pode ser observa-
gidio, e as tentativas de definir seus efeitos, escorre-
da nas práticas cotidianas da sociedade civil, gadias. Não apenas em decorrência de que a aferição
quer seja nos sindicatos, nos movimentos ou de efeitos é operação sabidamente complexa, mas
em outras organizações sociais, quer seja nos devido ao fato de sequer existirem consensos quan-

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to aos efeitos esperados da participação, ou, pior, Mas o estudo científico sobre o tema remon-
quanto à relevância de avaliá-la por seus efeitos. ta ao século XVIII, com as formulações de J.J.
(Lavalle, 2011, p. 33)
Rousseau, de teóricos do liberalismo, como
No passado, já publicamos texto afir- John Stuart Mill, G.D.H. Cole e A. de Tocque-
mando que se pode analisar a participação se- ville, seguidas, no século XIX, pelos socialistas
gundo três níveis básicos: utópicos (em especial Owen e Fourrier), os so-
cialistas libertários (principalmente Proudhon
... o conceptual, o político e o da prática social. O pri-
e Kroptkin). Marx e Engels deram origem a
meiro apresenta um alto grau de ambiguidade e varia
uma tradição analítica que gerou um dos para-
segundo o paradigma teórico em que se fundamenta.
O segundo, dado pelo nível político, usualmente é as- digmas sobre a participação política. No sécu-
sociado a processos de democratização (em curso, ou lo XX, o leque de autores que seguiram essa úl-
em lutas para sua obtenção), mas ele também pode tima corrente ampliou-se, destacando-se Rosa
ser utilizado como um discurso mistificador em bus- de Luxemburgo, ao teorizar sobre a participa-
ca da mera integração social de indivíduos, isolados
ção das massas, e Antonio Gramsci, ao analisar
em processos que objetivam reiterar os mecanismos
os conselhos de fábrica da Itália. Após 1950,
de regulação e normatização da sociedade, resultan-
do em políticas sociais de controle social. O terceiro, Gorz, Mandel, Poulantzas e outros deram con-
as práticas, relaciona-se ao processo social propria- tinuidade àquele paradigma.
mente dito; trata-se das ações concretas, engendradas Mas os primeiros intelectuais que se
nas lutas, movimentos e organizações, para realiza- interessaram pelo tema da participação, em
rem algum intento, ou participar de espaços institu-
termos da atuação dos indivíduos em associa-
cionalizados na esfera pública, em políticas públicas.
ções, foram os pluralistas ingleses do início do
Aqui a participação é um meio viabilizador funda-
mental (Gohn, 2016, p.16-17). século XX, tais como G. D. H. Cole, H. Laski,
J. N. Figgis e, mais tarde, Paul Hirst, na déca-
Considerando-se os objetivos deste dos- da de 1990. A teoria de Cole se assenta sobre
siê, este artigo focalizará o primeiro nível – o pressupostos de Rousseau, ou seja, a vontade,
teórico conceptual –, visando a resgatar os fun- e não a força, é a base da organização social e
damentos das teorias utilizadas pelos pesqui- política. Ele preconiza a necessidade de os ho-
sadores, tanto para explicar a temática da par- mens atuarem via associações para satisfazer
ticipação na sociedade civil, via movimentos e suas necessidades. Cole sustentava que apenas
coletivos sociais, como os sentidos utilizados por essa via, em âmbito local e em associações
para explicar a participação da sociedade nas locais, o indivíduo poderia aprender a demo-

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políticas públicas, na interação com o Estado e cracia. Ele propôs, já em sua época, a criação
seus órgãos de gestão. de uma série de instrumentos de participação
Antes de entrar no debate contemporâneo de âmbito local, como cooperativas de consu-
sobre as abordagens da participação, devemos midores, conselhos de utilidades (para o abas-
registrar alguns antecedentes históricos que nos tecimento de gás, por exemplo), guildas cívi-
possibilitam localizar e entender as fontes de vá- cas para cuidar de educação, saúde etc. Cole
rios referenciais da atualidade sobre o tema. formulou ainda a proposta de uma estrutura
política para desenvolver os processos partici-
pativos, que ia da comuna local à comuna na-
PARTICIPAÇÃO: dos clássicos às abor- cional, passando pelo nível regional (ver Cole,
dagens correntes nas ciências sociais apud Pateman, 1992, p. 55). É bom recordar
também que as associações foram incluídas
Em termos cronológicos, a rigor, temos entre os direitos fundamentais da pessoa hu-
de localizar na Grécia as origens do tema da mana. Nos tempos modernos, quem primeiro
participação do cidadão, de modo direto, ideal. se utilizou desse direito foi a incipiente bur-

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guesia do século XIII. As camadas populares sociedade civil. A partir do final da década de
tiveram de lutar para adquirir a extensão desse 1980, a participação ganhou, ao longo das dé-
direito. Em 1791, a Lei Chapelier, na França, cadas, o estatuto de uma medida de cidadania
proibiu as associações, por temer a força dos e está associada a outra categoria, que é a da
grupos subordinados que participavam de sua exclusão social. “Algumas vezes, ‘participação’
organização. Somente no século XIX esse di- é olhada como um componente da definição
reito foi obtido e incorporado em várias consti- de integração. Se alguém é apto a participar,
tuições no mundo. ele está integrado. Ao contrário, para não par-
Alexis de Tocqueville em sua obra A de- ticipantes, é sugerido o signo da exclusão. Em
mocracia na América, exaltou a comuna como outros casos, ‘participação’ é considerada
a grande força dos homens livres, onde “o povo como um fator de integração.” Aprendendo a
é a força dos poderes sociais” (Tocqueville, participar, um indivíduo pode ser integrado.
1998, p. 72). Entretanto, mesmo se referindo Nessa segunda abordagem, participação
a um sistema que existiu nos Estados Unidos adquire o significado de “luta contra a exclu-
no século XIX, o que se observa é um intrin- são” (Stassen, 1999). Segundo esse autor, re-
cado sistema de participação representativo, sulta que temos duas posições: participação
que ia da comuna ao poder central, passando como um componente de definição, em que os
pelos condados. Acreditando na democracia termos são participação e não participação; e
como uma maneira de ser da sociedade e um participação como fator de integração, em que
poder do “império da lei”, a soberania do povo se destacam os termos integração e exclusão. A
é vista como uma forma de governo, e o estado exclusão é definida como não participação e se
social democrático como inevitável. Para evi- torna fator de não exclusão. Stassen conclui que
tar a centralização, o despotismo e o individu- não concorda com essas abordagens e procura
alismo, Tocqueville recomenda um esforço na demonstrar a tese de que há participação quan-
“formação dos próprios cidadãos como porta- do há um sentimento de valorização dos indi-
dores de um caráter livre [...] uma nova ciên- víduos, que são considerados necessários para
cia política que inclua em suas tarefas educar, alguém, quando eles percebem sua própria con-
[tendo] a democracia, mediante a formação de tribuição, e que têm lugar na sociedade, que são
homens independentes e capazes, no pleno úteis e valorizados. Para tal, eles necessitam de
sentido do termo, o sentido de autogoverno” um meio ambiente consistente do ponto de vis-
(apud Gabriel Cohn, 2000, p. 256, 258, 259). ta de relacionamentos, contatos e laços sociais.
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Na sociologia, o tema da participação é A área da ciência política fez da partici-


encontrado como noção, categoria ou conceito pação, desde os anos de 1960, um tema clás-
desde os primórdios de seu desenvolvimento. sico. Cumpre registrar os estudos de Pizzorno
Isso porque se trata de uma formulação clássi- sobre o tema. Para ele, “a participação política
ca na teoria da ação social, tanto na versão we- é uma ação em solidariedade para com o ou-
beriana, como na parsoniana. Essas vertentes tro, no âmbito de um estado ou de uma classe,
tiveram grande importância entre os pesquisa- em vista a conservar ou modificar a estrutura
dores latino-americanos até os anos de 1960. do sistema de interesses dominante” (Pizzor-
Sua presença foi mais forte no período da Te- no, 1971, p. 21). Usualmente, considera-se a
oria da Modernização e o tipo de participação participação política como um processo que se
preconizado era a participação comunitária. relaciona ao número e à intensidade de indiví-
Nos anos de 1970, em função dos regimes po- duos envolvidos na tomada de decisões. Isso
lítico-militares vigentes em grande número de porque, desde o tempo dos antigos gregos, a
países latinos, a participação voltou a ser teo- participação consistiu, idealmente, no encon-
rizada no sentido de participação popular da tro de cidadãos livres, que debatem publica-

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mente e votam sobre decisões de governo. Ela Ele trata a participação em termos de “plura-
se articula com a questão da democracia em lismo social”, definido como a impossibilidade
suas formas direta e indireta (representativa). de que algum grupo social possa dominar os
O Dicionário de Política organizado por demais por meio do acesso exclusivo aos re-
Bobbio, Matteucci e Pasquino (1991) reconhece cursos existentes na sociedade, sejam eles eco-
uma gama variada de atividades – do voto às nômicos, sociais ou políticos.
reuniões de apoio a candidatos políticos – que Observa-se, no resgate das concepções
são designadas como “participação política”. acima, que a participação objetiva fortalecer
Entretanto, alerta-se que o substantivo e o ad- a sociedade civil para a construção de cami-
jetivo que compõem a expressão participação nhos que apontem para uma nova realidade
política se prestam a interpretações diversas. E, social, sem injustiças, exclusões, desigualda-
nesse alerta, encontramos certo entendimento des, discriminações, etc. O pluralismo é a mar-
sobre o que é participação quando se afirma ca dessa concepção de participação, segundo
que “o termo participação se acomoda também a qual, os partidos políticos não são os únicos
a diferentes interpretações, já que se pode parti- atores importantes, pois há de se considerar,
cipar, ou tomar parte em alguma coisa, de modo também, os movimentos sociais e os agentes
bem diferente, desde a condição de simples es- de organização da participação social, os quais
pectador mais ou menos marginal à de protago- são múltiplos. Uma gama variada de experi-
nista de destaque” (Bobbio et al., 1986, p. 888). ências associativas é considerada relevante
Em termos de manifestações concretas, no processo participativo, como grupos de jo-
o tipo de participação política mais citado e vens, de idosos, de moradores de bairros etc.
valorizado pela ciência política, até poucos Por isso, tem-se de aliar as análises da ciência
anos atrás, era o voto. Segue-se a participação política com as análises sociológicas para o
nas atividades político-partidárias. Entretanto, entendimento da participação. Os entes prin-
teóricos como Giacomo Sani reconheceram, cipais que compõem os processos participati-
décadas atrás, que “têm adquirido certo relevo vos são vistos como “sujeitos sociais”. Não se
formas novas e menos pacíficas de participa- trata, portanto, de indivíduos isolados nem de
ção, nomeadamente as manifestações de pro- indivíduos membros somente de uma dada
testo, marchas, ocupação de edifícios, etc. Se- classe social. A participação tem caráter plural
gundo alguns observadores, encontramo-nos, em termos de classes, camadas sociais e perfis
aqui, em face de uma revitalização da partici- político-ideológicos. Nos processos que envol-

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pação política que, abandonados os velhos es- vem a participação popular, os indivíduos são
quemas, se articularia agora em outros canais” considerados como “cidadãos”. A participação
(Sani, apud Bobbio, Matteucci e Pasquino, se articula, nessa concepção, com o tema da
1986, p. 888). Autores como Almond e Verba cidadania, envolvendo também lutas pela divi-
(1963 e 1989) se destacaram também na ciên- são das responsabilidades dentro de um gover-
cia política aliando a temática da participação no. Essas lutas possuem várias frentes, como
com a formação da cultura política de uma a constituição de uma linguagem democráti-
sociedade. Robert Dahl (1982), também repre- ca não excludente nos espaços participativos
sentante da ciência política, retoma o tema da criados ou existentes, o acesso dos cidadãos a
importância da vida associativa por meio das todo tipo de informação que lhes diga respeito
organizações independentes, pois “elas são ne- e o estímulo à criação e ao desenvolvimento de
cessárias para o funcionamento dos próprios meios democráticos de comunicação.
processos democráticos, para minimizar a co- Milani (2008) destaca uma de suas for-
erção governamental, para a liberdade política mas, a participação social cidadã, assinalando:
e para o bem-estar humano” (Dahl, 1982, p. 1).

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TEORIAS SOBRE A PARTICIPAÇÃO SOCIAL...

... a participação social cidadã é aquela que configu- de coletiva; 5, teoria crítica e reconhecimento
ra formas de intervenção individual e coletiva, que de direitos; 6, engajamento militante ou neo-
supõem redes de interação variadas e complexas
marxista; 7, decolonial; 8, abordagem relacio-
determinadas (provenientes da “qualidade” da ci-
dadania) por relações entre pessoas, grupos e insti-
nal ou do cyberativismo; 9, de gênero, a partir
tuições como o Estado. A participação social deriva de grupos de mulheres; e 10, autonomistas. A
de uma concepção de cidadania ativa. A cidadania ordem numérica não corresponde à ordem cro-
define os que pertencem (inclusão) e os que não se nológica de seu surgimento. Pontuaremos al-
integram à comunidade política (exclusão); logo, a gumas de suas características e alguns de seus
participação se desenvolve em esferas sempre mar-
autores. Iremos nos deter mais nas abordagens
cadas, também, por relações de conflito e pode com-
portar manipulação. (Milani, 2008, p. 560)
que estão mais próximas do objeto deste arti-
go: a participação da sociedade civil no proces-
so de luta pela inclusão, contra discriminações
e pela igualdade social.
ABORDAGENS SOBRE A PARTICIPA- A primeira abordagem, a da escolha e
ÇÃO DE GRUPOS ORGANIZADOS cálculo racional, tem suas origens entre pes-
DA SOCIEDADE CIVIL A PARTIR DA quisadores norte-americanos e entende a parti-
DO SÉCULO XX cipação como um cálculo entre custos e bene-
fícios, ou seja, o indivíduo participa na esfera
Nas ciências sociais o cenário e os tipos pública segundo os custos e os benefícios que
de abordagem sobre a participação social e po- poderá obter. Ela foi importante nas décadas
lítica são muitos e seguem paradigmas teóri- de 1960 e 1970, especialmente na América do
co-metodológicos distintos, gerando correntes Norte (MCcarthy; Zald, 1977; MCadam; MC-
explicativas diferenciadas. Uma indagação re- carthy; Zald, 1996; Olson, 1999). No Brasil, ela
corrente nas abordagens é a questão do engaja- foi utilizada por alguns analistas no estudo de
mento. Como e porque as pessoas participam sindicatos, na década de 1970. Já na década de
ou se engajam em ações coletivas? O tema das 2010, está sendo retomada e modernizada na
desigualdades é um dos fundamentos explica- prática social de algumas organizações movi-
tivos básicos nessas indagações. Há diferentes mentalistas, a exemplo do Movimento Brasil
respostas porque elas têm abordagens distin- Livre (MBL), e do Vem Pra Rua (VPR), como
tas, que levam a enfoques e a conclusões dis- forma de organização de bases estruturais que
tintas. Neste tópico, destacaremos abordagens organizam, via on line, os protestos e manifes-
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situadas a partir das últimas décadas do sécu- tações nas ruas. As organizações movimen-
lo XX porque elas têm sido as que influencia- talistas se inspiram em ideais neoliberais ou
ram a produção brasileira e latino-americana conservadores. Parte delas tem pautas que re-
sobre o tema da participação. Faremos breves trocedem em relação a direitos sociais adquiri-
pontuações sobre como essas abordagens fun- dos, aprofundando as desigualdades sociais, a
damentaram e influenciaram as demandas, exemplo das propostas para não se abordarem
movimentos e políticas públicas a respeito da questões de gênero nas escolas básicas do país.
desigualdade social ao longo das últimas déca- Alguns autores aprofundaram a corrente
das no Brasil. da escolha racional, levando à segunda aborda-
Podem-se sistematizar dez abordagens gem, que prioriza a posição social dos indiví-
explicativas mais usadas sobre o tema da parti- duos. Inicialmente, uma vertente dessa abor-
cipação política dos cidadãos: 1, escolha racio- dagem priorizou a posição dos indivíduos em
nal; 2, proximidade dos centros de poder e da relação às estruturas de poder, sendo que essa
posição social dos indivíduos na sociedade; 3, posição depende de renda, escolaridade, sexo,
mobilização política institucional; 4, identida- etnia, profissão etc. (Brady; Verba; Schlozman,

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1995; Milbraith, 1965). Tal abordagem deixa de portante, menos como organizações de movi-
ter caráter exclusivamente economicista para mentos, e mais como redes de articulações que
incorporar aspectos sociais, fundamentando suportam e criam as estruturas de oportunida-
vários estudos sobre a teoria da modernização des. Para ele, as ações estatais, ao impactarem
na América Latina na década de 1960. Uma o nível local, geram resistências, legitimando
vertente mais contemporânea focaliza a posi- ou deslegitimando o repertório das disputas.
ção social dos indivíduos na sociedade, seus Tilly, ao longo de sua carreira acadêmica, rede-
atributos, suas características, e trajetórias, o finiu o conceito de repertório no plano da luta
que os tornaria propensos ou não ao engaja- política afirmando:
mento, como a trajetória familiar ou escolar e a
A palavra repertório identifica um conjunto limita-
socialização política nesses espaços. Outros au- do de rotinas que são aprendidas, compartilhadas e
tores dessa mesma corrente entendem que, na postas em ação por meio de um processo relativa-
sociedade contemporânea, os espaços de socia- mente deliberado de escolha. Repertórios são cria-
lização dos indivíduos são diversos e, por isso, ções culturais aprendidas, mas eles não descendem
outros fatores poderiam explicar a participação de filosofia abstrata ou tomam forma como resul-
tado da propaganda política; eles emergem da luta
para além de recursos oriundos da socialização
(Tilly, 1995, p. 26).
política familiar e escolar (Silva; Ruskowski,
2016). Recentemente, dentro dessa abordagem, Vários autores denominam essa aborda-
há ainda autores que destacam as redes de com- gem como a do processo político ou dos insti-
partilhamento e solidariedade, porém afirmam tucionalistas, porque coloca grande ênfase no
que as retribuições pessoais são condicionantes papel das instituições, na participação institu-
do engajamento (Fillieule, 2001; Gaxie, 2015; cional. O fator gerador básico das mudanças
Sawicki; Siméant, 2011). Nesse sentido, reto- está no sistema político institucionalizado e,
mam Olson e os custos versus benefícios. por isso, essa abordagem irá polemizar com
Nas últimas três décadas do século XX, a de outros autores, adeptos de correntes que
críticas diretas à primeira abordagem, do cálcu- destacavam mais aspectos culturais e identitá-
lo racional levaram a uma terceira abordagem, rios de grupos mobilizados da sociedade civil,
a da mobilização política institucional, que fo- críticos das abordagens estruturais. É impor-
caliza os repertórios de grupos e de indivíduos tante destacar que essa abordagem tem sido
e suas articulações com aspectos macro, devi- muito utilizada na América Latina e no Brasil,
do a certa estrutura de oportunidades políticas influenciando e formando vários pesquisado-

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existentes em dados contextos. A combinação res. Após a Constituição Brasileira de 1988,
de repertórios com estruturas de oportunida- com os processos de gestão participativa na
de políticas viabiliza que demandas ganhem a fase de redemocratização, até 2010, essa abor-
cena pública (Diani, 2003; Tarrow, 1994; Tilly, dagem predominou no estudo das instituições
1978). As oportunidades políticas, os símbo- participativas criadas. Recentemente, tem-se
los e os códigos construídos no processo de destacado o ativismo institucionalizado cons-
mobilização são vistos como recursos, instru- truído, focalizando nas instituições públicas
mentos, meios para certos fins, num ambiente o papel do ativista institucional – aquele in-
onde há oportunidades e constrangimentos. divíduo que poderá atuar dentro ou fora das
Esse ambiente tem força de configuração nos instituições, como funcionário ou não, como
processos de litígios e contenções. fomentador da ação coletiva. Essas mudanças
Charles Tilly, expoente máximo dessa políticas deram vigor à abordagem dos “insti-
abordagem, afirmou que a ênfase na análise tucionalistas”. Toda sua base conceptual teó-
institucional e no papel das organizações e ins- rica está ancorada, na atualidade, à teoria do
tituições junto aos movimentos sociais é im- confronto político – “Contentiuos Politics” –,

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TEORIAS SOBRE A PARTICIPAÇÃO SOCIAL...

tendo como autores referenciais os já citados seja, as desigualdades serão questionadas mais
Tilly, Tarrow, Doug McAdam (2006) e Diani do ponto de vista das diferenciações e discrim-
(2004). Destacam-se, na produção recente, inações sociais e menos sob o aspecto socio-
vários pesquisadores brasileiros, dentre eles: econômico. E é essa abordagem que nos auxilia
Fungerik e Wright (1999); Luchmann e Borba na análise dos avanços das lutas de mulheres,
(2008); Oliveira (2010); Abers (2016); Avritzer negros e homoafetivos nas décadas de 2000 e
(2012, 2013); Carlos, Dowbor e Albuquerque 2010 no Brasil. Para avaliar o vigor da aborda-
(2017). A quarta abordagem foca a identidade gem da identidade, tem-se de incluir outra teo-
coletiva e dá centralidade aos fatores culturais, ria fundamental – a do reconhecimento (Fraser,
à identidade dos participantes, às suas redes 2001; Honneth, 2003) –, pois foram políticas de
de pertencimento e compartilhamento de va- reconhecimento que fortaleceram os movimen-
lores, ao engajamento militante, institucional tos supracitados (ver também Paiva, 2012).
ou extrainstitucional, de indivíduos e grupos. Na quinta abordagem, a da teoria crítica
Destaca a inserção do indivíduo em redes de e do reconhecimento de direitos, a temática da
solidariedade ou engajadas, como fator expli- participação surge vinculada ao eixo da justiça
cativo da participação. As trajetórias dos in- social, especialmente em Axel Honneth. Des-
divíduos – familiar, escolar, profissional etc. tacam-se as questões do reconhecimento de
– são consideradas como espaços de socializa- direitos sociais a grupos e povos discrimina-
ção política. A ênfase em aspectos da cultura dos em dois campos básicos: o de diferenças,
leva ao aprendizado nas lutas e confrontos, ao diversidades sociais, desigualdades, injustiças
desenvolvimento de identidades e a um acú- sociais etc.; e o campo relativo a questões da
mulo de suas forças sociopolíticas e culturais. redistribuição (de bens ou direitos), como for-
As teorias decorrentes dessas abordagens fo- ma de compensar as injustiças historicamente
ram nomeadas como “Novos Movimentos So- acumuladas. Registre-se também que a teoria
ciais”, destacando-se autores como Touraine crítica destaca, na temática da participação, a
(1997), Melucci (1980), Cohen, (1985), Cohen contribuição de Habermas, ao tratar da ação co-
e Arato (1992) e Klaus Eder (1992). municativa e da noção de esfera pública. Para
Melucci conceitua a identidade coletiva Habermas, a democracia não deve ser enten-
como “uma definição interativa e compartilha- dida apenas em termos descritivos, como go-
da produzida por um número de indivíduos verno da maioria, eleições livres, concorrência
(ou grupos em um nível mais complexo) pre- entre partidos ou prescrições normativas do es-
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ocupados com a orientação de suas ações em tado de direito. Ele destaca, na esfera pública,
um campo de oportunidades e restrições nas outros ambientes como bares, cafés, praças, te-
quais a ação toma lugar.” (Melucci, 1996, p. atros, escolas, e outros espaços de convivência,
70). Portanto, a identidade é relacional e cons- onde há abertura para interação comunicativa.
truída, no tempo e no espaço. Ela representa a Ao definir o que seria processo demo-
identificação do “nós” e do “outro”, e, dentro de crático e o conceito de democracia deliberati-
um conflito social, permite se autoidentificar e va, Habermas preconiza a ampliação da parti-
identificar o inimigo. Nesse sentido, ele retoma cipação da sociedade em processos decisórios
conceituação de Touraine sobre os movimentos para o desenvolvimento da cultura democráti-
sociais, constituindo uma abordagem que teve ca, propondo um modelo político de mediação
ampla repercussão na América Latina, espe- entre as esferas informais – que ele denomina
cialmente no Brasil, na década de 1980, quan- como mundo da vida –, e as esferas formais –
do emergem, na cena pública, inúmeros novos de decisão institucional. Para ele, no processo
movimentos sociais. Esses movimentos pau- de formação da opinião e da vontade política,
tarão questões de gênerro, raça, idade etc. Ou devem-se considerar as relações intersubjeti-

70
Maria da Glória Gohn

vas do mundo da vida e conteúdos normativos alteraram seus referenciais, especialmente


do Estado democrático. A participação – tanto Castells, a ser retomado na abordagem núme-
nas esferas públicas informais como nas ins- ro sete. A corrente dos historiadores, liderada
titucionalizadas – é, portanto, um elo impor- por Hobsbawm, E.P. Thompson e G. Rudé e ou-
tante na formação da própria opinião pública, tros, constituiu uma linha contemporânea de
campo fundamental de atuação das redes e estudos sobre a participação em movimentos
mídias sociais, a ser tratada adiante, na oitava sociais na Europa. Nessa abordagem, os fatores
abordagem. Este dossiê apresenta artigos espe- macroeconômicos e políticos têm centralida-
cíficos sobre a teoria crítica, e não nos detere- de, e a política passou a ser enfocada do ponto
mos muito nela (ver mais em Habermas, 2011). de vista de uma cultura política resultante das
A sexta abordagem é conhecida como inovações democráticas relacionadas com as
engajamento militante. Aqui temos duas ver- experiências nos movimentos sociais. No sé-
sões quase opostas. Fillieule (2001), baseada culo XXI, o marxismo ressurge renovado com
no interacionismo simbólico, cuja meta é a de destaques para as lutas contra a globalização
avaliar o engajamento dos indivíduos em suas e a participação de novos movimentos sociais
carreiras como militantes, e a abordagem do (Harvey; Zizek, 2012; Linera, 2009), a participa-
engajamento militante de fundamento marxis- ção em lutas contra o sistema-mundo (Wallers-
ta, a mais antiga das correntes até aqui apre- tein, 2014), ou aliado à luta ecológica (Lowy,
sentadas. Ela pode ser observada na aborda- 2011), ou ainda, a lutas contra-hegemônicas e à
gem de pensadores marxistas contemporâne- participação institucionalizada, como assinala
os, especialmente seguidores de E. Hobsbawm. Gaventa (2006): “Does this new terrain repre-
Sabe-se que, na abordagem marxista, o concei- sent a real shift in power? Do its open spaces
to de participação não é encontrado de forma where participation and citizen voice can have
isolada, mas articulado a duas outras catego- an influence? Will increased engagement with-
rias de análise: lutas de classes e movimentos in them risk simply re-legitimating the status
sociais. A análise dos movimentos sociais sob quo, or will it contribute to transforming pat-
o prisma do marxismo refere-se a processos de terns of exclusion and social injustice and to
lutas sociais voltadas para a transformação das challenging power relationships? (Gaventa,
condições existentes na realidade social, de 2006, p. 23 apud Alund; Schierup, 2018). A
carências econômicas e (ou) opressão socio- abordagem marxista é uma das poucas, den-
política e cultural. Não se trata do estudo das tre as apresentadas neste texto, que assinala

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revoluções em si, também tratado por Marx e a importância do nível econômico, das forças
alguns marxistas, mas do processo de luta his- econômicas do mercado, do poder do sistema
tórica das classes e camadas sociais em situa- financeiro, todos eles elementos fundamentais
ção de subordinação. As revoluções são pontos para se compreenderem os níveis de desigual-
desse processo, quando há ruptura da “ordem” dade socioeconômica na sociedade brasileira,
dominante, quebra da hegemonia do poder das assim como em outros países capitalistas.
elites e confrontação das forças sociopolíticas A sétima corrente a destacar o tema da
em luta, ofensivas ou defensivas. participação se inspira nas abordagens da des-
A produção inicial de Manuel Castells, colonização ou decolonização, destacando-se
Jordi Borja, Jean Lojkine e outros se inseria as obras de Quijano (2005), Escobar (2004), Ta-
nessa abordagem, porque eles partiam das cri- pia (2010), Svampa (2008) e outros. Segundo
ses suscitadas devido a carências no plano da Ballestrin (2013), a perspectiva de análise de-
oferta de meios coletivos de consumo na área colonial assume uma miríade ampla de influ-
social, gerando contradições urbanas e movi- ências teóricas, atualizando a tradição crítica
mentos sociais. Posteriormente, esses autores do pensamento latino-americano e oferecendo

71
TEORIAS SOBRE A PARTICIPAÇÃO SOCIAL...

releituras históricas que problematizam velhas ção da injustiça, a exploração e a pobreza nas
e novas questões para o continente. A “opção mentes da população, inibindo o desenvolvi-
decolonial apresenta contribuições epistêmica, mento do pensamento crítico. Com isso, o po-
teórica e política – para compreender e atuar der dominante foi se transformando em nosso
no mundo, marcado pela permanência da co- sentido comum. Sirvent preconiza a necessi-
lonialidade global nos diferentes níveis da vida dade de se construir poder por meio do conhe-
pessoal e coletiva” (Ballestrin, 2013, p. 92). Tra- cimento, e isso implica “construir categorias
ta-se de uma visão em que o relato da história para pensar a realidade que possam gerar ações
colonial e das formas de exploração ocorridas de mobilização coletiva em confrontação com
na América Latina se faz a partir da versão do os significados que desmobilizam e paralisam”
colonizado, ou dos “condenados da terra” – ex- (Sirvent, 2008, p. 22). E construir categorias é
pressão de Frantz Fanon criada no século pas- tarefa e desafio para os cientistas sociais. Na
sado ao analisar o processo de colonização na América Latina, a CLACSO será uma das gran-
África, na América Central e na Martinica, sua des incentivadoras das abordagens neocolo-
ilha de origem. Essa abordagem será retomada niais. No Brasil, essa abordagem influenciará
com vigor a partir da década de 2000 na Amé- decisivamente o debate denominado Sul–Sul,
rica Latina como a teoria pós-colonial, neoco- já no século XXI.
lonial ou decolonial. Ela teve sua elaboração A oitava abordagem é a relacional, pre-
inicial na Europa em relação ao tema da colo- sente nos estudos sobre redes e cyber ativismo.
nização, especialmente na África e das formas A questão relacional nas redes e mídias sociais
coloniais ainda lá existentes (ver Spivak, 2008). demarcou novos rumos e abordagens na temá-
Embora mais ampla, pois, não é uma tica da participação social e política dos indi-
teoria específica sobre participação, ou sobre víduos, tendo em vista seu potencial de ala-
movimentos sociais, as várias abordagens da vancar as relações entre grupos e indivíduos.
teoria neo ou decolonial transformaram-se em Ela tem bases no interacionismo simbólico, de-
eixo central de pesquisas e várias frentes de senvolvido desde as décadas de 1920 e 1930.
produção intelectual que conferem especifici- Mas ela transformou completamente o foco
dade à América Latina, especialmente na te- nas relações diretas, face a face, dado pelos in-
mática da luta dos povos indígenas (ver Quija- teracionistas, para o foco nas relações virtuais,
no, in Lander, 2005). Segundo essa abordagem, on line, das redes e mídias sociais. Embora, já
a colonialidade é a face oculta da modernidade em 1932, Moreno definisse que uma rede so-
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eurocêntrica, que impôs sentimentos de infe- cial pode apresentar um conjunto de vínculos
rioridade. Ser “moderno” foi inculcado como entre os atores, será no final do século XX que
o ser do indivíduo “civilizado”, e os nativos da a questão das redes se politiza, adentrando o
colônia seriam “bárbaros” e “atrasados”. Com espaço da política e potencializando uma força
isso, para os teóricos dessa corrente, o proble- social e política na esfera pública, para muito
ma central da América Latina seria a descolo- além das teias de relações comunitárias e de
nização do saber e do ser (como repositório de solidariedade de que falava Moreno. Embora o
práticas e valores que mantêm e reproduzem fator agregador dos indivíduos nas redes con-
subjetividades e conhecimentos). Tais saberes tinue sendo a base de valores morais compar-
“são mantidos por um tipo de economia que tilhados, Bruno Latour diz que o “social [das
alimenta as instituições, os argumentos e os redes] normalmente constituído é agrupado
consumidores” (Mignolo, 2009, p. 254). Na com participantes já aceitos, chamados de ato-
mesma linha de argumentos, Sirvent (2008) res sociais, membros de uma mesma socieda-
afirma que um dos grandes problemas sociais de” (Latour, 2012, p. 352). As microrrelações
contemporâneos é o fenômeno da naturaliza- ganharam plano de destaque na formação das

72
Maria da Glória Gohn

opiniões, na estruturação das ações coletivas novas tecnologias de informação e comunica-


na esfera privada e na esfera pública. Segundo ção no estudo do associativismo civil, especial-
Gindre (2016), mente, nos movimentos sociais que atuam e se
articulam no que ele denomina de “sociedade
O cyberativismo, ativismo online ou ativismo digi-
tal, é uma forma de ativismo pela internet caracte-
em rede” (Castells, 1996, 1997, 1998).
rizada pela defesa de causas, reivindicações e mo- Portanto, as redes sociais, ao passarem a
bilizações. Muitos autores o consideram uma nova ter centralidade nas pesquisas que Castells de-
fronteira para a participação política, pois, a partir senvolve a partir da década de 1990, demarcam
de um computador, os indivíduos rapidamente a agregação de novos aportes teórico-metodo-
conseguem agregar pessoas à causa que defendem.
lógicos. Paulatinamente, ele passou a atentar
Inicialmente, era uma estratégia muito utilizada por
ONGs e entidades civis, hoje, com a expansão do
para a importância dos processos de subjetivi-
acesso à internet, é cada vez mais utilizado pelo ci- dade na participação dos cidadãos, na constru-
dadão comum (Gindre 2016, p. 11). ção dos protestos coletivos, focando as redes
e mídias sociais. As emoções – estudadas por
A abordagem relacional das novas mí- clássicos das ações coletivas ou teóricos da psi-
dias teve precedente não só no interacionismo cologia social, ou contemporâneos como Matu-
simbólico das primeiras décadas do século XX. rana e Varela – ganharam destaque nas análises
Também teve a contribuição da teoria crítica, de Castells, que continuou a atentar para os fa-
citada acima, na teoria da ação comunicativa tores macros, sem descuidar dos micros.
de Habermas. De fato, o que se observa, nesse último
Cumpre registrar autores contemporâ- autor e em outros estudiosos do tema da par-
neos, como Manuel Castells, que foram fun- ticipação, via movimentos, protestos, revoltas
damentais nas pesquisas e na fundamentação etc., é o destaque de fatores relacionais. O po-
teórica sobre a participação da sociedade civil, der das mídias e das redes de comunicação
nas décadas de 1960 e 1980 na Europa e na aguçou o interesse pelo entendimento das
América Latina, transformando-se em pilares relações pessoais entre os indivíduos e gru-
para o entendimento do potencial das redes e pos, as relações cotidianas, para muito além
mídias sociais nas novas formas de relações de relações profissionais, de solidariedade
comunicacionais. Castells, na década de 1970, classista, ou outras no plano macroestrutural.
ancorava-se na abordagem estrutural marxista. Nas interações e na subjetividade, estudando
Suas pesquisas sobre as contradições urbanas a dinâmica interna das diversas redes, iden-

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foram relevantes para o entendimento da emer- tificam-se inter-relações que podem atribuir
gência de novos ciclos de movimentos sociais força, dinamismo e intensidade às ações de
na América Latina. Mas as mudanças no cená- um grupo. Os movimentos sociais constituem
rio global ao longo das décadas de 1980 e 1990, redes, e eles também modificam sua estrutu-
com o desenvolvimento das novas tecnologias, ra e funcionamento. Cumpre registrar ainda
levaram Castells a priorizar o estudo das redes a importante contribuição que Melucci deu à
comunicacionais. Os antigos estudos sobre as abordagem relacional, quanto às interações via
redes, do final dos anos 1970, focalizando as redes. Mische, por exemplo, afirmou que os
estruturas internas dos sistemas de comunica- estudos de Melucci “focavam no intenso com-
ção, especialmente dentro de organizações, fo- prometimento e solidariedade gerados pela lo-
ram revolucionados por Castells ao aliar essas calização dentro de determinados clusters ou
redes ao plano das novas tecnologias de infor- redes” (Mische, 2008, p. 86).
mação e comunicação. Entre 1997 e 1999, Cas- Concordando com o suposto de Castells
tells publicou a famosa tríade sobre o “poder da de que a rede mundial de computadores é uma
identidade” e a importância da Internet e das tecnologia “maleável, suscetível a ser profun-

73
TEORIAS SOBRE A PARTICIPAÇÃO SOCIAL...

damente alterada por sua prática social, com listas, inclusive nos projetos governamentais,
uma série de resultados potenciais” (Castells, usualmente estão baseadas em concepções téc-
2003, p. 10), concluímos que as comunicações nicas que dependem de crescimento ou com-
virtuais acabaram transformando profunda- portamento da economia, redução do custo da
mente a forma como as pessoas do século XXI força de trabalho, aumento da flexibilização
se comunicam, se organizam e interagem so- dos empregos e da organização do trabalho,
cial, cultural, política e economicamente. Isso treinamentos, pesquisas, financiamento de ser-
tudo influenciará as formas de participação viços etc. Trata-se de medidas de caráter insti-
social e política existentes, dando margem a tucional, todas centradas no campo da inserção
várias questões que estão para ser decifradas profissional, no mercado da produção. A qual-
nesse mundo novo, que o uso das novas tec- quer oscilação dos mercados, os empregos so-
nologias está desenvolvendo e diz respeito às mem, os incluídos se tornam excluídos, porque
novas formas de cidadania digital. Um mundo sempre estiveram na condição de desiguais.
onde, em princípio, todos podem participar A nona abordagem, a de gênero, a partir
e todas as formas políticas e culturais de ex- do grupo de mulheres também denominadas
pressão têm espaço, das mais progressistas às de “feministas”, teve antecedentes desde o sé-
mais conservadoras e repressoras. O uso e o culo XIX, mas foi a partir da década de 1960
controle das redes e mídias sociais, seus efei- que ela construiu um arcabouço teórico-con-
tos e impactos na sociedade, constituem uma ceptual, tanto no exterior como no Brasil. Ela
questão posta no debate atual sobre os rumos e passou por várias etapas e teve várias ênfases –
possibilidades da participação virtual. a luta pela libertação das convenções sociais e
Cumpre registrar o alerta de Stassen a moral tradicional dos anos 60 (Saffioti, 2003),
(1999) de que a participação virtual pode se a luta contra a discriminação das mulheres no
tornar um caminho para fortalecer os excluí- mercado de trabalho (Souza-Lobo, 1991), as
dos, emancipando-os da condição de desiguais discussões sobre o papel da mulher na socie-
na sociedade. Diz Stassen que, para participar, dade (Scott; Tilly, 1994), a mulher no campo
os indivíduos têm de desenvolver a autoestima, da educação (Louro, 1997), a questão de gêne-
mudar sua própria imagem e as representações ro (Castro, 1992; Costa; Bruschini,1992), a mu-
sobre sua vida. Ter apenas um emprego não lher na política (Alvarez, 2004; Avelar, 2002;
resolve o problema da participação, porque os Perrot, 1998; Young, 1996), a violência contra
indivíduos devem ter também motivações. Para as mulheres (Lima, 2013), as reivindicações do
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tal, eles precisam estar articulados às redes so- próprio corpo (Butler, 1993), o problema do re-
cietárias, desenvolver interações frequentes e conhecimento com ética (Fraser, 2001), a luta
contínuas com seus pares. Stassen diz ainda contra o assédio moral e sexual (Eluf,1999)
que os mecanismos informais de integração etc.. A participação das mulheres foi além das
social nas redes societárias, que criam identi- lutas pela identidade, porque criou novos su-
dades, são mais importantes que as políticas jeitos políticos e históricos (Pinto, 1992) que
sociais de empregos precários e assistencialis- demandaram identidade e novos direitos (em
tas. A dimensão sociorrelacional é fundamen- todos os campos). A participação das mulheres
tal para motivar a participação e combater a não se resumiu à entrada nas universidades,
exclusão dos excluídos – definidos nas estatís- no mercado de trabalho, ou ao exercício de ati-
ticas como aqueles com determinadas rendas vidades até então exclusivas dos homens. Ela
mínimas, ou sem rendas. Eles não se tornam clamou por igualdade de gênero, não só para
incluídos ou mais participativos via a mera in- as mulheres, mas para todas as formas de ser
tegração em uma nova frente de trabalho. humano, para todas as possibilidades de ser
As medidas preconizadas por vários ana- mulher. Abriu as portas para a participação e

74
Maria da Glória Gohn

para as demandas de todos os homoafetivos, e característica potencializou os grupos autono-


lutou para quebrar barreiras de raça e cor. mistas que têm a horizontalidade nas relações
De todos os movimentos sociais que como um pressuposto fundamental.
participaram da cena pública nos últimos cin- A abordagem centrada no tema da auto-
quenta anos, o das mulheres foi um dos que nomia e do socialismo libertário ressurge com
mais avançou, no sentido de combate às de- vigor em práticas coletivas, em junho de 2013
sigualdades, talvez o que mais questionou as no Brasil, mas ela é também uma bandeira his-
diferenças sociais e exigiu respeito às diferen- tórica do movimento dos povos indígenas – o
ças culturais. Ainda que dados da Unesco de mais amplo e intenso em termos de América
2018 registrem que a igualdade de gênero não Latina. As teorias do autonomismo ou do so-
foi conquistada em nenhum país do mundo cialismo libertário – já presentes na história
ainda – e, no Brasil, além de discriminações das lutas sociais no Brasil desde o início do
advindas de heranças de culturas do machis- século XX, em associações anarquistas – foram
mo, haja uma grande sub-representação das denominadas como anarcossindicalismo. Em
mulheres na política – teóricos de algumas um período com poucos sindicatos formais, os
das abordagens sobre a participação, tratadas protestos dos autonomistas foram denomina-
acima, como Hobsbawm (1995) e Touraine dos “contracultura” e minimizados na década
(2007), reconhecem que o século XX foi o sé- de 1960. Já na década de 1980, quando ocorreu
culo da mulher, e elas são a grande esperança o ciclo dos “novos movimentos sociais” – no
de avanços nas lutas pela igualdade. Em junho campo popular, com os movimentos de bairros
de 2018, a ONU comemorou os 25 anos da urbanos, com demandas locais, e, no campo
Declaração de Ação de Viena, um tratado dos dos movimentos por identidades, como sexo,
países-membros que estabelece os direitos das raça, etnia etc. –, o tema da autonomia tam-
mulheres como “uma parte indivisível dos di- bém esteve presente (vide Sader, 1988). Mas se
reitos humanos”. (https://universa.uol.com.br/ tratava de autonomia em relação aos partidos
noticias/redação/2018/06/25). (tanto os que dominavam o status quo como os
A décima abordagem sistematizada nes- partidos de esquerda, então tidos como clan-
te artigo sobre a participação não é nova, mas destinos) e em relação ao Estado de plantão
tem sido reelaborada e ganhou muitos adeptos – o governo militar vigente. Por isso, alguns
na última década em várias partes do mundo. analistas o denominaram “De costas para o Es-
Trata-se da abordagem sobre a participação tado” (Evers, 1983). Essa “estratégia” da auto-

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adotada pelos autonomistas (Day, 2005; Di nomia não tem nada a ver com a matriz do au-
Cintio, 2010). Ela tem como suporte, teorias tonomismo que atualmente tem forte presença
e ideais advindos de outros aportes, como o entre inúmeros movimentos e coletivos sociais
socialismo libertário (mencionado a seguir), e advindos do anarquismo, do socialismo utópi-
no novo humanismo holístico (Dussel, 2002; co ou do individualismo do século XIX e início
Hessel, 2011; Spivak, 2008; Walsh, 2010). O de XX (Proudhon, Kropotkin, Nietzsche e ou-
pensamento autonomista bebe também no hu- tros), acrescidos de elaborações da década de
manismo, que cresceu e se espalhou entre os 1960 de G. Debord e proposições de Foucault
ativistas da cibercultura. Machado (2007) afir- da década de 1970.
ma que os movimentos sociais que atuam em Na realidade, as matrizes discursivas
rede constituem uma categoria específica, por- dos autonomistas podem ser localizadas desde
que a horizontalidade, a não hierarquização e Erasmo e Thoreau, com a desobediência civil,
a interconexão entre várias redes e seus ato- em La Boetie e o discurso da servidão volun-
res sociais se distinguem de outros formatos tária, até em Rousseau, quando ele aborda a
já conhecidos de organizações coletivas. Essa questão do bem comum e os efeitos educati-

75
TEORIAS SOBRE A PARTICIPAÇÃO SOCIAL...

vos da participação, a partir do desejo de li- ser excluídos dos estudos sobre a participação
berdade, igualdade, justiça e independência. sociopolítica, quer seja sobre os movimentos
Para Proudhon a reorganização de sociedade sociais, quer seja sobre os impactos que geram
deveria ocorrer através de associações livres. sobre as formas de participação institucionali-
As mudanças econômicas deveriam ter prima- zada (vide Day, 2005; Augusto, Rosa E. Resen-
zia em relação às políticas. As “Sociedades de de, 2016; Williams, 2017; Fitzgerald; Rodgers,
Ajuda Mútua” seriam os principais meios de 2005; entre outros).
realizar a mudança social sem violência, dado
o seu caráter. Seu objetivo deveria ser a ação
e a cooperação econômica, e não a associação CONCLUSÕES
para a propaganda política. O sistema que ca-
racterizaria essa nova sociedade foi denomina- Retomamos a questão inicial deste tex-
do por Proudhon de mutualista. to: como se colocam as diferentes abordagens
Além do mutualismo, outras correntes face ao tema ou problema das desigualdades
do anarquismo também estão presentes nas sociais? Estamos de acordo com as organizado-
atuais manifestações, como a da desobediência ras deste dossiê quando afirmam:
civil, acima citada. Sabe-se que o anarquismo Ainda que os movimentos sociais nas sociedades
e o socialismo libertário têm várias correntes. ocidentais a partir da década de 60 tenham amplia-
E não são só existem os anarquistas clássicos; do significativamente as lutas para muito além dos
há os libertários e autonomistas de maio de 68, conflitos de classe, incorporando novos grupos so-
ciais ao debate político, esses movimentos também
como Castoriadis e Daniel Cohn-Bendit, ou
têm a limitação de representar apenas uma parte das
da Internacional Situacionista de G. Debord
experiências de injustiça e exclusão social.
(1995), ou ainda o pensamento de Marcuse.
Também Foucault, Giorgio Agambem, Anto- Pôde-se observar, nas diferentes abor-
nio Negri, N. Chomsky e outros tratam ou dão dagens aqui apresentadas, que o tema da par-
subsídios para o entendimento das multidões ticipação tem sido fundamental para explicar
nas ruas e seus anseios de liberdade. No Bra- processos de inclusão social, contra as injusti-
sil, não se pode esquecer de Eder Sader (1988), ças, pelo reconhecimento de direitos (antigos
que, seguindo a trilha de Castoriadis, afirma e novos) advindos tanto de lutas, movimentos,
que o sujeito autônomo é aquele capaz de ree- campanhas, protestos etc. de setores da socie-
laborar determinações externas em função da- dade civil, como de processos engendrados
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quilo que define como sua vontade. Entram, no interior do Estado, operacionalizados por
aqui, dimensões do imaginário dos sujeitos em instituições que promulgam determinadas
cena, que reelaboram, mediante representa- políticas públicas. Dentre esses processos, no
ções construídas sobre suas experiências, algo Brasil, nas últimas três décadas, destacam-se
além daquilo que está dado ou posto. Nesse as abordagens feministas, e as conquistas dos
sentido, esses sujeitos são agências de constru- movimentos das mulheres, dos coletivos de
ção do novo, pois os significados atribuídos às mulheres afrodescendentes e vários avanços
suas condições de vida são exercícios de in- nas questões do universo dos homoafetivos.
terpretação fundamentais para mudanças na Não obstante a obtenção dessas conquistas, a
realidade social e em si mesmos. sociedade brasileira, especialmente os jovens,
Portanto, neste novo século, os autono- dá sinais de descrença na política e nos polí-
mistas ganharam foco. Apesar de sua heteroge- ticos. A via autonomista, retratada na oitava
neidade em termos de tendências e correntes abordagem, tende a crescer entre os jovens.
internas, observa-se que são muito atuantes, Práticas e estratégias de sobrevivência para o
na prática e na produção teórica, e não podem bem comum estão longe das preocupações da

76
Maria da Glória Gohn

maioria, e os teóricos da decolonização têm narrativas advindas das abordagens. Essa con-
alertado para isso. clusão nos remete também à responsabilidade
De uma forma geral, a maioria das abor- dos acadêmicos, de produzir abordagens que
dagens sobre a participação e as teorias trata- focalizem o tema das desigualdades sociais no
das neste artigo não focalizam, direta ou prio- plano econômico, que estabeleçam diálogos
ritariamente, a questão da desigualdade social transversais e conexões explicativas, e não se-
gerada pela desigualdade econômica. A maio- jam tão autocentradas, contemplando apenas a
ria focaliza o plano sociocultural, de inclusão realidade segundo seus pontos de vista.
social a partir de diferenças, confundindo dife- No Brasil, falta também articular as teo-
rença com desigualdade. A luta contra as de- rias às especificidades locais. Pela bibliografia
sigualdades deve ter como foco, as políticas de apresentada, pode-se observar que a maioria
igualdade (de renda, acesso à educação, condi- das abordagens foi desenvolvida em outros pa-
ções de saúde, de vida, trabalho etc.), porque íses, em outros contextos. Mesmo a decolonial,
igualdade não se opõe a diferença, mas sim a que surgiu na análise de problemas da coloni-
desigualdade. Valença e Gomes (2002) também zação na África (Spivak, 2008), foi desenvol-
corroboram essas análises quando afirmam: “a vida na América Latina, tendo como sujeitos
desigualdade não é o mesmo que diferença. e protagonistas básicos os povos indígenas.
A diferença reflete a diversidade da espécie Na história do Brasil, embora os povos origi-
e de suas formas de organização política e de nários também fossem de nações indígenas, a
expressão cultural. A diferença, que pode ser escravidão dos povos africanos foi muito forte
bem-vinda, difere, assim, da desigualdade”. e deixou marcas profundas. As políticas de in-
Souza Santos (2003) aprofunda a análise ar- clusão dos negros – cotas raciais, resgate de di-
ticulando as categorias desigualdade e exclu- reitos culturais, combate ao racismo, reconhe-
são. Ele afirma que elas têm, na modernidade, cimento de identidades originárias etc., – têm
significados distintos, porque a desigualdade proporcionado avanços históricos. Entretanto,
implica um sistema de integração hierárquico, elas, por si sós, não resolvem completamente
de integração social. as desigualdades sociais. Para um país com po-
Portanto, observa-se que a maioria das pulação de maioria negra, essa especificidade
análises não apresenta caminhos para uma não pode ser ignorada ou subvalorizada.
agenda que indique formas de superação das Resta-nos a esperança de amplificação
desigualdades sociais no plano econômico, da atuação das mulheres para todos os cida-

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porque a questão vai além da vontade do ato dãos, independentemente de gênero, especial-
de participar, protestar, ou ser incluído em mente, quando essa atuação estimula a parti-
uma instituição participativa, como ativista cipação em coletivos culturais, movimentos
ou beneficiário de algum programa ou projeto etc. Elas têm conseguido estabelecer diálogos
social. O cerne desse tema incide em questões e inter-relações entre várias formas de mani-
estruturais, diretamente no plano econômico festação das desigualdades – de gênero, raça,
– a forma de apropriação ou distribuição da etnia, geracional, nacionalidade, religião etc.
renda gerada na sociedade – e, no plano polí- –, a exemplo da proliferação de coletivos de
tico, do poder – a vontade efetiva de governar mulheres negras em regiões periféricas de S.
priorizando as necessidades básicas, e não os Paulo. Castells (2018) também nos dá uma es-
interesses de poucos. A abordagem neomarxis- perança ao afirmar: “a experiência histórica
ta do ativismo de classes foca questões estrutu- mostra que do fundo da opressão e do deses-
rais, macroeconômicas, mas praticamente não pero surgem, sempre, movimentos sociais de
dialoga com outras abordagens. Há, na realida- diferentes formas que mudam as mentes e,
de, uma disputa de poder entre as diferentes através delas, as instituições”. Oxalá este tex-

77
TEORIAS SOBRE A PARTICIPAÇÃO SOCIAL...

to, que buscou, em vários teóricos clássicos, BRADY, H. E.; VERBA, S.; SCHLOZMAN, K. L. “Beyond
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cas. Não só meu texto, mas todo este dossiê. Se CARLOS, E.; DOWBOR, M.; ALBUQUERQUE, M. do C.
Movimentos sociais e seus efeitos nas políticas públicas.
isso vier a ser possível, devemos nos lembrar Balanço do debate e proposições analíticas Civitas, Porto
do que disse Newton: “Se vi tão longe foi por- Alegre, v. 17, n. 2, p. 360-378, maio/ago. 2017.

que me ergui nos ombros de gigantes” (If I have CASTELLS, M. A Galáxia da internet: reflexões sobre a
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Maria da Glória Gohn

THEORIES ON SOCIAL PARTICIPATION: THÉORIES SUR LA PARTICIPATION SOCIALE:


challenges to understanding social inequalities défis pour la compréhension des inégalités
sociales

Maria da Glória Gohn Maria da Glória Gohn

The article focuses on the subject of social and L’article se concentre sur le thème de la participation
political participation, theorized in academia and sociale et politique, théorisé dans le milieu
present in Brazilian reality in both civil society universitaire et présent dans la réalité brésilienne
– by social movements, collectives and other à la fois dans la société civile-par des mouvements,
organizations – as in the state – by public policies. des collectifs et d’autres organisations-comme dans
A rescue of the concept and the main theoretical l’État-par des politiques publiques. Un sauvetage
approaches to participation is made. Ten approaches du concept et des principales approches théoriques
are identified as they have been applied in the de la participation est fait. Identifier dix approches,
analysis of different forms of socio and cultural axées sur la manière dont elles ont été appliquées
participation, coming from both social groups and dans l’analyse des différentes formes de participation
state institutions. The central issues that guide the sociopolitique et culturelle, émanant des groupes
analysis are: How have these approaches dealt with sociaux et des institutions étatiques. Les questions
the subject of social inequalities? As these chains centrales qui guident l’analyse sont les suivantes:
have contributed to the understanding, or to give comment ces approches ont-elles abordé le thème
subsidies, to the participation of civil society in the des inégalités sociales? Comment ces courants ont
process of fighting for inclusion, discrimination and contribué à la compréhension, ou à donner des
social equality? What agendas can be built from the subventions, La participation de la société civile,
approaches? dans les processus de lutte pour l’inclusion, contre
la discrimination et l’égalité sociale? Quels agendas
peuvent être construits à partir des approches?

Keywords: Social participation. Theories. Social Mots-clés: Participation sociale. Théories. Inégalités
inequality. sociales.

Caderno CRH, Salvador, v. 32, n. 85, p. 63-81, Jan./Abr. 2019

Maria da Glória Gohn – Doutora em Ciência Política pela USP. Pós-doutora em Sociologia na New School
University, N. York. Professora do Titular do Departamento de Educação da Universidade Estadual de
Campinas. Profa. Visitante Sênior da UFABC. Bolsista PQ CNPq nível 1A. Tem 20 livros publicados sobre
os temas da participação social, movimentos sociais, ONGs, políticas públicas e participação, e educação
não formal. http://orcid.org/0000-0001-5791-6114

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