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EXCELENTISSIMO SENHOR DOUTOR JUIZ DE DIREITO DA VARA

ÚNICA DA COMARCA DE NOVO REPARTIMENTO-PA.

Processo n° 0009117-14.2016.8.14.0123

Segredo de Justiça

URGENTE RÉU PRESO!!!

JOSE GONZAGA MONTEIRO BARRA NOVA, brasileiro,


casado, madeireiro, portador da cédula de identidade RG n° 3358257
SSP/PA, inscrito no CPF n° 619.332.522-00, residente e domiciliado
na Vila Marabá, s/n, Luzilândia, Parque Vila Marabá, no município de
Novo Repartimento/PA, por seu advogado in fine signatário
(procuração anexa), com endereço profissional e eletrônico constantes
no rodapé, doravante encaminhadas as intimações do feito, vem,
respeitosamente, a presença de Vossa Excelência, com fulcro no art.
5º, LXVI da CF c/c art. 310, III e 321 do Código de Processo Penal,
apresentar:

PEDIDO DE REVOGAÇÃO DE PRISÃO PREVENTIVA


no processo acima epigrafado, que lhe move a Justiça Pública, pelas
razões de fato e fundamentos de direito a seguir elencados:

I- DA SÍNTESE FÁTICA

A Polícia Civil de Novo Repartimento instaurou o procedimento


investigatório acima tombado para apurar supostos crimes contra o
meio ambiente praticado por diversos madeireiros da região, bem como
o suposto pagamento de propina a agentes públicas em troca de
vantagens e facilitações.

A priori, insta ressaltar de pronto que o Inquérito Policial em


questão se encontra eivado de diversas irregularidades procedimentais,
a saber, ausência de portaria instauradora do Inquérito Policial,
ausência dos depoimentos dos supostos denunciantes que
justificariam a instauração da investigação e, por fim, ausência
das ordens judiciais para quebra de sigilo telefônico e,
consequentemente, prorrogação das interceptações telefônicas.

Não obstante, mesmo apesar de tamanhas falhas


procedimentais, falhas que, inclusive, tem o condão de gerar a
nulidade absoluta do procedimento investigatório, o Requerente, ainda
assim, foi preso no último dia 12/10/2017, sob a alegação de que o
mesmo teria pago propina a um fiscal da Secretaria do Meio Ambiente
e Sustentabilidade (SEMAS) para liberação de seu caminhão que havia
sido apreendido em 21/12/2017.
Contudo, importa dizer que o caminhão e a madeira do
Requerente, apreendidos pela Polícia Civil em 21/12/2016 e
repassados à SEMAS não foram liberados, ao contrário, o
Requerente foi autuado pela SEMAS (Auto de Infração nº 7001/09127
em anexo), oportunidade na qual fora nomeado fiel depositário de seu
caminhão (marca IVECO, placa NAR-5075, cor vermelha, ano/mod.
2008, registrado em nome de José Erinaldo de Oliveira), assim como a
Igreja Assembléia de Deus fora nomeada fiel depositária para a carga
de madeira (madeira em toras no total de 05 unidades).

Desta forma, ao ser ilicitamente quebrado o sigilo de seu


telefone, fora interceptado trecho de ligação na data de 27/12/2017,
das 11:42:21 às 11:44:21 (Auto Circunstanciado nº 01.189/2016, fls.
101), ocasião em que o Requerente teria falado que pagaria R$
2.500,00 (dois mil e quinhentos reais) ao Júnior, e que este Júnior
supostamente seria o fiscal da SEMAS, e que a quantia seria paga para
a liberação do caminhão. Não merece prosperar tal afirmação. Explico.

A alegação de que o Requerente pagou propina a um fiscal da


SEMAS, de nome Ivan Júnior, para liberação de seu caminhão
apreendido é infundada por duas principais razões:

1- O CAMINHÃO E A MADEIRA DO REQUERENTE NÃO


FORAM LIBERADOS, AO CONTRÁRIO, FORAM AUTUADOS (AUTO DE
INFRAÇÃO Nº 7001/09127 em anexo);
2- O FISCAL QUE FEZ A AUTUAÇÃO DO REQUERENTE FOI
O SR. CÉSAR PLATON MAIA (SEMA/PA-MF: 5717209/1);

Desta forma, a alegação associada ao Requerente de que o


mesmo teria pago propina ao fiscal da SEMAS Ivan Júnior para
liberação de seu caminhão e madeira apreendidas estão totalmente
desqualificadas, visto que, conforme atesta o Auto de Infração anexo a
este pleito exordial, TAL FATO NÃO OCORREU.

E mais, o Requerente atualmente se encontra detido no


Presídio da cidade de Tucuruí/PA, mesmo embora nunca tenha sido
ouvido no curso das investigações, jamais tenha sido chamado para
prestar esclarecimentos, e não existam motivos suficientes para
justificação do

II – PRELIMINARMENTE

II.a – Da nulidade absoluta por ausência de portaria instauradora


do Inquérito Policial

O art. 5º do Código de Processo Penal, ao tratar da abertura


do Inquérito Policial, dispõe, ipsis litteris, que:

Art. 5o Nos crimes de ação pública o inquérito


policial será iniciado:

I - de ofício;
II - mediante requisição da autoridade judiciária
ou do Ministério Público, ou a requerimento do
ofendido ou de quem tiver qualidade para
representá-lo.

Quando instaurado de ofício, o procedimento investigatório


deve ser aberto através de Portaria expedida pelo Delegado de Polícia,
ou seja, uma peça através da qual a autoridade policial registra o
conhecimento da prática de um crime de Ação Pública Incondicionada,
especificando, se possível, o lugar, o dia e a hora em que foi cometido o
delito, o prenome do autor.

Cumpre dizer que a Portaria de abertura do Inquérito Policial


deve ser bem fundamentada, contendo fatos que justifiquem a
abertura de investigação policial, de tal sorte que a ausência da
respectiva Portaria implica na absoluta nulidade de todo o
procedimento investigatório.

Embora o Inquérito Policial seja um procedimento dispensável


ao oferecimento da denúncia, in casu, o que se verifica é que o
procedimento investigatório foi utilizado para embasar a decretação de
prisão preventiva do Requerente, mesmo embora não hajam quaisquer
fundadas razões que justifiquem tal medida.

A ausência de Portaria instauradora demonstra a gravidade


das falhas procedimentais cometidas pela autoridade policial no curso
das investigações, razão pela qual o Inquérito Policial deve ser
totalmente anulado e o Requerente posto IMEDIATAMENTE em
liberdade, visto que sua prisão representa uma afronta às garantias
constitucionais da presunção de inocência e do devido processo legal.
A Constituição Federal, em seu art. 5º, LIV, esboça o
fundamento jurídico do due process of law ou devido processo legal
que, atualmente, é considerado princípio fundamental e norteador de
todos os demais princípios constitucionais, com a finalidade de
reprimir abusos do Estado.

E mais, o devido processo legal se ramifica duas esferas, a


esfera formal (procedural due process of law) e a esfera substantiva
(substantive process of law), de tal forma que o primeiro refere-se ao
dever do juiz, enquanto representante do Estado, de observar os ritos e
a todos os aspectos que circundam o processo, e o segundo trata de
uma prestação jurisdicional justa e adequada, em observância aos
princípios da justiça e requisitos intrínsecos da lei.

Alexandre de Morais, ministro do STF, ao abordar o tema,


leciona que:

“o devido processo legal configura dupla proteção


ao indivíduo, atuando tanto no âmbito material
de proteção ao direito de liberdade, quanto no
âmbito formal, ao assegurar-lhe paridade total de
condições com o Estado – persecutor e plenitude
de defesa (direito à defesa técnica, à publicidade
do processo, à citação, de produção ampla de
provas, de ser processado e julgado pelo juiz
competente, aos recursos, à decisão imutável, à
revisão criminal)”.

Desta forma, no caso em tela, o requerente não pode


permanecer encarcerado indiscriminadamente ao bel prazer do Estado,
isto porque existe um dever constitucional de observância ao princípio
do devido processo legal na persecução criminal que, quando não
cumprido, impõe a soltura IMEDIATA do acusado, sem prejuízos ao
prosseguimento do processo.

II.b – Da inexistência de ordem judicial autorizando as


interceptações telefônicas

O art. 1º da Lei 9.296/1996 (Lei de Interceptações


Telefônicas) dispõe, in verbis, que:

Art. 1º A interceptação de comunicações


telefônicas, de qualquer natureza, para prova em
investigação criminal e em instrução processual
penal, observará o disposto nesta Lei e
dependerá de ordem do juiz competente da ação
principal, sob segredo de justiça.

Desta forma, claramente expresso na legislação que as


interceptações e, consequentemente, prorrogações de interceptações
somente podem ser prorrogadas mediante ordem judicial.

Compulsando-se os autos do processo de quebra de sigilo


fornecidos pelo Juízo da Comarca de Novo Repartimento, verifica-se de
pronto a inexistência de mandados judiciais que autorizem as
respectivas interceptações telefônicas, de tal sorte que todas as
quebras de sigilo perpetradas são ilegais e, por isso, provas ilícitas,
que não tem o condão de justificar cárcere preventivo.

Ademais, em consonância com a doutrina norte-americada do


fruit of the poisonous tree ou “teoria da árvore dos frutos envenenados”,
todas as interceptações telefônicas subseqüentes, que derivam da
quebra de sigilo ilegal inicial também devem ser consideradas ilícitas,
caso que se adéqua à situação do Requerente, que teve seu nome
mencionado em conversas de terceiros e, somente por isso, fora pedida
a sua interceptação telefônica.

A autoridade policial não pode se furtar da observância dos


princípios constitucionais norteadores do processo penal, ainda que
em fase de inquérito, restando um dever constitucional de observância
ao devido processo legal.

Nesse ínterim, mais uma vez percebe-se o descuido e o


descaso com o qual foi conduzida a operação policial, de tal sorte que a
soltura do Requerente se perfaz em medida de absoluto direito e se
impõe no caso em questão.

III – DA AUSÊNCIA DE FUNDAMENTOS PARA A MANUTENÇÃO DA


PRISÃO PREVENTIVA

III.a- Da garantia de ordem pública e dos riscos de uma prisão


precoce

O Requerente não oferece quaisquer riscos à sociedade, ao


contrário, sempre foi pessoa bem quista no seio social, jamais tendo
se envolvido em qualquer prática ilícita ou delituosa, de sorte que sua
prisão tem natureza manifestamente ILEGAL e ARBITRÁRIA.
Ademais, antecipar o cárcere do Requerente, mesmo quando o
mesmo sequer fora chamado a prestar esclarecimentos e mesmo
quando este se encontra preso por um fato que não ocorreu, ou seja,
NÃO HOUVE LIBERAÇÃO DO CAMINHÃO MEDIANTE PAGAMENTO
DE PROPINA, até porque ele foi autuado e o processo continua
correndo na SEMAS, estando o Requerente como fiel depositário do
caminhão e a Igreja Assembleia de Deus como fiel depositária da
madeira apreendida.

Desta forma, o suposto pagamento a um fiscal da SEMAS de


nome Ivan Júnior para liberação do caminhão e madeira apreendidas
JAMAIS EXISTIU, inclusive porque o fiscal responsável pela sua
autuação foi o Sr. CÉSAR PLATON MAIA (SEMAS/PA-MF:
5717209/1), de tal sorte que a acusação contra o Requerente se
encontra eivada de ATIPICIDADE, razão pela qual deve ser
REVOGADA a medida de prisão preventiva e o Requerente posto em
liberdade.

III.b – Da conveniência da instrução criminal

O acusado não pretende e de nenhuma forma perturbará ou


dificultará a busca da verdade real, no desenvolvimento da marcha
processual, pois estará voltado, tão somente, a defender-se da
acusação que contra si foi imputada, estando certo de que com a
continuidade do labor diário chegará ao termo do processo com a
consciência de ter feito jus à confiança do Estado-juiz e da sociedade.
Ademais, o Requerente é consciente de que a instrução
criminal é o meio hábil de exercer o direito constitucional do
contraditório e da ampla defesa, ONDE PROVARÁ SUA INOCÊNCIA
NO CURSO PROCESSUAL, até porque já contou com diversas
oportunidades para se esquivar da persecução criminal e nunca
considerou tal hipótese, razão pela qual não se pode presumir que o
mesmo se voltará contra o único meio que possibilitará o exercício de
sua defesa.

III.c – Da aplicação da lei penal

A prisão não deve prosperar sob o argumento de se garantir a


aplicação da lei penal, posto que o requerente possui trabalho,
endereço conhecido e jamais se furtará a se defender da acusação que
lhe é imputada, sendo que poderá e se disponibilizará a ser localizado
a qualquer momento para a prática dos atos processuais,
comprometendo-se a comparecer a todos os atos do processo.

De mais a mais, é de singular interesse do acusado se


prontificar e disponibilizar-se para responder ao processo, uma vez
que a única forma de trazer à tona a verdade real dos fatos para a
aplicação justa da lei.

Destarte, no Estado Constitucional e democrático de direito é


que encontraremos o fundamento de validade do ius puniendi, bem
como suas limitações. É um Estado em que os direitos humanos
deverão ser preservados a qualquer custo, como diz precisamente
Norberto Bobbio, ‘o reconhecimento e a proteção dos direitos do
homem estão na base das Constituições democráticas’.

A Carta da República de 1988, em seu art. 5º, dispõe, ipsis


litteris, que:
Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção
de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros
e aos estrangeiros residentes no País a
inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à
igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos
seguintes:
LXV - a prisão ilegal será imediatamente
relaxada pela autoridade judiciária;
LXVI - ninguém será levado à prisão ou nela
mantido, quando a lei admitir a liberdade
provisória, com ou sem fiança;
1º - As normas definidoras dos direitos e
garantias fundamentais têm aplicação imediata.

Destarte, constitucionalmente, assegura-se o direito da


liberdade ao acusado, já que é possuidor de todos os requisitos legais
e a prisão cautelar se caracteriza por ser medida de exceção.

Neste sentido é o entendimento do TJ/RS:

HABEAS CORPUS. CRIMES CONTRA O


PATRIMÔNIO. ROUBO SIMPLES. ART. 157,
CAPUT, DO CÓDIGO PENAL. DESNECESSIDADE
DA PRISÃO PREVENTIVA. PACIENTE PRIMÁRIO.
CONDIÇÕES PESSOAIS FAVORÁVEIS.
APLICAÇÃO DE MEDIDA CAUTELAR MENOS
GRAVOSA. POSIBILIDADE NO CASO CONCRETO.
As circunstâncias do caso concreto não
evidenciam a necessidade da segregação cautelar
do paciente, já que não demonstrado o periculum
libertatis, ou seja, o risco que a liberdade do
agente possa ocasionar à ordem pública. No caso
em apreço, o paciente é jovem (18 anos) e
primário, não respondendo a nenhum outro
processo na seara criminal. Além disso,
comprovou endereço fixo e atividade laboral
lícita. Sendo assim, diante do contexto fático,
impõe-se a concessão da ordem de habeas
corpus, condicionada à medida cautelar de
comparecimento mensal em Cartório para
informar endereço e justificar atividades, sob
pena de revogação do benefício em caso de
descumprimento. HABEAS CORPUS CONCEDIDO.
DETERMINADA A EXPEDIÇÃO DE ALVARÁ DE
SOLTURA NA ORIGEM. (Habeas Corpus Nº
70068174853, Quinta Câmara Criminal, Tribunal
de Justiça do RS, Relator: LizeteAndreisSebben,
Julgado em 24/02/2016)
HABEAS CORPUS. CRIMES CONTRA O
PATRIMÔNIO. ROUBO MAJORADO. ART. 157, §
2º, INC. I E II, DO CP. DESNECESSIDADE DA
PRISÃO PREVENTIVA. PACIENTE PRIMÁRIO.
CONDIÇÕES PESSOAIS FAVORÁVEIS.
APLICAÇÃO DE MEDIDA CAUTELAR MENOS
GRAVOSA. POSIBILIDADE NO CASO CONCRETO.
As circunstâncias do caso concreto não
evidenciam a necessidade da segregação cautelar
do paciente, já que não demonstrado o periculum
libertatis, ou seja, o risco que a liberdade do
agente possa ocasionar à ordem pública. No caso
em apreço, dos agentes flagrados, o paciente é o
único primário e que não responde a nenhum
outro processo na seara criminal e que
comprovou endereço fixo e atividade laboral
lícita. Sendo assim, diante do contexto fático,
impõe-se a concessão da ordem de habeas
corpus, condicionada às medidas cautelares de
comparecimento mensal em Cartório para
informar endereço e justificar atividades, e
proibição de ausentar-se da Comarca, sob pena
de revogação do benefício. HABEAS CORPUS
CONCEDIDO. DETERMINADA A EXPEDIÇÃO DE
ALVARÁ DE SOLTURA NA ORIGEM. (Habeas
Corpus Nº 70067328682, Quinta Câmara
Criminal, Tribunal de Justiça do RS, Relator:
LizeteAndreisSebben, Julgado em 16/12/2015).

Vale dizer, não há mais como cogitar a liberdade divorciada


da justiça social, como também infrutífero pensar na justiça social
divorciada da liberdade.

Em suma, todos os direitos humanos constituem um


complexo integral, único e indivisível, em que os diferentes direitos
estão necessariamente inter-relacionados e interdependentes entre si.

De outra ideia, é certo que a ordem pública não será burlada


e nem afetada com a soltura do acusado, pois não se justifica
nenhum argumento como o de que com a soltura poderia voltar a
delinquir, já que o mesmo é trabalhador, tem residência fixa e meios
lícitos de sobrevivência.

No caso em tela, vale ressaltar que não pode haver, quanto


aos pressupostos para a decretação da prisão preventiva, qualquer
tipo de presunção.

Ademais, a prisão cautelar deve ocorrer somente nos casos


em que é necessária, em que é a única solução viável -ultima ratio -
onde se justifica a manutenção do infrator fora do convívio social
devido à sua periculosidade e à probabilidade, aferida de modo
objetivo e induvidoso, de voltar a delinquir, o que certamente não é o
caso presente.

Dessa forma, ínclito Julgador, a REVOGAÇÃO DA PRISÃO


PREVENTIVA do acusado é medida que se ajusta perfeitamente ao
caso em tela, não havendo, por conseguinte, razões para a
manutenção do mesmo aprisionado.

Ademais, MM. Juiz, não se pode ignorar o espírito da lei, que


na hipótese da prisão preventiva ou cautelar visa a garantia da ordem
pública, ordem econômica, a conveniência da instrução criminal ou,
ainda, para assegurar a aplicação da lei penal, que no presente caso,
pelas razões anteriormente transcritas, encontram-se plenamente
garantidas.

Assim, notório que a revogação da prisão preventiva atenderá


aos ditames do ordenamento jurídico e possibilitará ao Requerente o
retorno de sua vida pessoal e a exercer seu direito de defesa em
liberdade.

II.b – Da primariedade e dos bons antecedentes do acusado

É necessário ressaltar que, tecnicamente, o acusado é


primário, haja vista que não possui em seu desfavor nenhuma
condenação penal transitada em julgado. Este, inclusive, é raciocínio
abordado por GUILHERME DE SOUZA NUCCI ao ensinar sobre a
“primariedade”:
Primariedade é a situação de quem não é
reincidente. Este, por sua vez, é aquele que
torna a cometer um crime, depois de já ter sido
condenado definitivamente por delito anterior,
no País ou no exterior, desde que não o faça após
o período de cinco anos, contados da extinção de
sua primeira pena”.(Código de Processo
Penal Comentado; 4ª ed.; ed. RT; São Paulo;
2015; p. 915).

Insta dizer, também, que o réu possui bons antecedentes,


pois como preleciona ainda GUILHERME DE SOUZA NUCCI:

Somente é possuidor de maus antecedentes


aquele que, à época do cometimento do fato
delituoso, registra condenações anteriores, com
trânsito em julgado, não mais passíveis de gerar
a reincidência (pela razão de ter ultrapassado o
período de cindo anos)”. (Op. Cit; p. 915).

Desta maneira, a defesa requer sua liberdade para que possa


responder adequadamente ao processo penal, e pela aplicabilidade
dobrocardo jurídico que impõe a presunção de inocência até que se
esgotem todos os recursos da ampla defesa e contraditório.

Neste sentido alinham-se Américo Bedê Júnior e Gustavo


Senna (Princípios do Processo Penal: Entre o garantismo e a
efetividade da sanção), Aury Lopes Filho (Direito Processual Penal e
sua Conformidade Constitucional), Fernando da Costa Tourinho Filho
(Processo Penal), Paulo Rangel (Direito Processual Penal) e Vicente
Greco Filho (Manual de Processo Penal).

Destarte, diante do princípio constitucional da presunção de


inocência, cabe ao Estado acusador apresentar prova cabal a
sustentar sua denúncia, impondo-se ao magistrado fazer valer
brocado outro, a saber: allegaresineprobare et non allegare paria
sunt - alegar e não provar é o mesmo que não alegar.

A certeza do direito penal mínimo no sentido de que nenhum


inocente seja punidoé garantida pelo princípio humanístico e
constitucional in dubio pro reo.

Tal princípio expressa o sentido da presunção de não


culpabilidadedo acusado até prova em contrário: é necessária a
prova, isto é, a certeza, ainda que subjetiva,da culpabilidade, não
tolerando a condenação e exigindo-se a absolvição em caso de
incerteza.

No sentido do exposto é a jurisprudência dos tribunais


brasileiros:

HABEAS CORPUS. TRAFICO. PRISÃO PREVENTIVA.


AUSENCIA DE FUNDAMENTAÇAO IDONEA.
OBJETIVA O IMPETRANTE A CONCESSÃO DA
ORDEM PARA RELAXAR A PRISÃO CAUTELAR DO
PACIENTE, POSTO QUE PRESO EM FLAGRANTE
DESDE 23.02.2013, POR SUPOSTAMENTE TER
COMETIDO O CRIME DE TRAFICO DE DROGAS
SUSTENTANDO A ILEGALIDADE DA MANUTENÇÃO
DA CUSTÓDIA CAUTELAR EIS QUE DESPROVIDA
DE FUNDAMENTAÇÃO IDÔNEA A DECISÃO QUE
CONVERTEU A PRISÃO FLAGRANTE EM
PREVENTIVA, COM FUNDAMENTO NO
RESGUARDO DA ORDEM PÚBLICA E PARA
ASSEGURAR A APLICAÇÃO DA LEI PENA, SEM, NO
ENTANTO APONTAR ELEMENTOS CONCRETOS A
JUSTIFICAR A SEGREGAÇÃO CAUTELAR DO
PACIENTE, BEM COMO NÃO FEZ NENHUMA
CONSIDERAÇÃO ACERCA DAS MEDIDAS
CAUTELARES DIVERSAS DA PRISÃO, RAZÃO PELA
QUAL ARGUMENTA SER A MESMA NULA, O QUE
TORNA ILEGAL A PRISÃO DO PACIENTE. ORDEM
QUE MERECE SER PARCIALMENTE CONCEDIDA.
COM EFEITO, VERIFICA-SE QUE DECISÃO QUE
CONVERTEU A PRISÃO EM FLAGRANTE DO
PACIENTE EM PREVENTIVA TEM COMO
FUNDAMENTO A GARANTIA DA ORDEM PÚBLICA
E A APLICAÇÃO DA LEI PENAL, SEM BASEAR-SE
EM FATOS CONCRETOS QUE EVIDENCIASSEM A
NECESSIDADE DA PRISÃO CAUTELAR, ALÉM DA
VEDAÇÃO DE CONCESSÃO DA LIBERDADE
PROVISÓRIA CONTIDA NO ART. 44 DA LEI Nº
11.343/06. CEDIÇO QUE COM A ENTRADA EM
VIGOR DA LEI 12.403/11 A DECRETAÇÃO OU A
MANUTENÇÃO DE UMA PRISÃO CAUTELAR
DEVE ESTAR EMBASADA NÃO SOMENTE NA
PRESENÇA DOS REQUISITOS DOS ARTS. 312 E
313, DO CPP, COMO TAMBÉM NA
DEMONSTRAÇÃO DA INSUFICIÊNCIA E
DESNECESSIDADE DA APLICAÇÃO DAS
MEDIDAS CAUTELARES DIVERSAS DA PRISÃO
CONTIDAS NO NOVO ART. 319, DO CPP. CEDIÇO
QUE A MANUTENÇÃO DA PRISÃO EXIGE A
PRESENÇA DE ELEMENTOS QUE A
JUSTIFIQUEM, NOS TERMOS DO ARTIGO 312
CPP. SENDO ASSIM, CABE AO JULGADOR
INTERPRETAR RESTRITIVAMENTE OS
PRESSUPOSTOS DO ART. 312 DA LEI
PROCESSUAL PENAL, FAZENDO-SE MISTER A
CONFIGURAÇÃO FÁTICA DOS REFERIDOS
REQUISITOS. E O QUE SE CONSTATA É QUE O
JUIZ AUTOR DA DECISÃO NÃO INDICOU FATOS
CONCRETOS QUE PODERIAM ABALAR A ORDEM
PÚBLICA E TAMPOUCO ESCLARECEU A
CIRCUNSTÂNCIA QUE ESTARIA A PREJUDICAR
EVENTUAL APLICAÇÃO DA LEI PENAL. DESSA
FORMA, VERIFICO AUSENTE A
IMPRESCINDÍVEL DEMONSTRAÇÃO DA
NECESSIDADE CONCRETA DA MEDIDA
EXTREMA, UMA VEZ QUE NÃO HÁ, NA DECISÃO
QUE CONVERTEU A PRISÃO EM FLAGRANTE EM
PREVENTIVA, RAZÕES IDÔNEAS QUE
EXPLIQUEM, NO CASO CONCRETO, QUAISQUER
DOS REQUISITOS DA PRISÃO PREVENTIVA, EM
ESPECIAL A GARANTIA DA ORDEM PÚBLICA E A
APLICAÇÃO DA LEI PENAL. DESTAQUE-SE QUE A
DECISÃO GUERREADA NÃO APRESENTOU
FUNDAMENTOS CONCRETOS PARA A
DECRETAÇÃO DA CUSTÓDIA CAUTELAR,
CONSTANDO DELA APENAS AS GENÉRICAS
EXPRESSÕES DA LEI. NO TOCANTE À VEDAÇÃO
LEGAL À CONCESSÃO DE LIBERDADE
PROVISÓRIA CONTIDA NO ART. 44 DA LEI
11.343/06, A MAIS RECENTE JURISPRUDÊNCIA
DO STF VEM CONSIDERANDO-A
INCONSTITUCIONAL POR OFENSA AOS
POSTULADOS CONSTITUCIONAIS DA
PRESUNÇÃO DE INOCÊNCIA, DO DEVIDO
PROCESSO LEGAL, DA PROPORCIONALIDADE E
DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA. EMBORA
NÃO TENHA HAVIDO QUALQUER PROVA DE
PRIMARIEDADE, BONS ANTECEDENTES E
RESIDÊNCIA FIXA, INEXISTINDO OS
REQUISITOS PARA DECRETAÇÃO DA PRISÃO
PREVENTIVA, NOS TERMOS DO ART. 310 DO
CPP, NÃO HÁ RAZÃO PARA A MANUTENÇÃO DA
CUSTÓDIA. ASSIM, A MOTIVAÇÃO MOSTRA-SE
INSUFICIENTE, POR GENÉRICA E ABSTRATA,
FICANDO NO MERO CAMPO DA POSSIBILIDADE
E NÃO DA INDISPENSÁVEL PROBABILIDADE
NORMATIVA. ASSIM, NÃO RESTOU
CARACTERIZADO QUE A ORDEM PÚBLICA
ESTEJA AMEAÇADA PELA SOLTURA DO
PACIENTE, QUE A INSTRUÇÃO CRIMINAL SEJA
AFETADA E QUE A APLICAÇÃO DA LEI PENAL
SEJA PREJUDICADA. POR OUTRO LADO,
SALIENTE-SE, QUE NA HIPÓTESE EM APREÇO,
DIANTE DA APLICAÇÃO DO BINÔMIO
NECESSIDADE E ADEQUAÇÃO, VISLUMBRO
SEREM PLENAMENTE APLICÁVEIS AS MEDIDAS
CAUTELARES ALTERNATIVAS À PRISÃO,
PREVISTAS NOS ARTIGOS 319 DO CÓDIGO DE
PROCESSO PENAL. NO CASO DO PACIENTE
PARECEM SER SUFICIENTES, PARA O
RESGUARDO DO PROCESSO, AS MEDIDAS
CAUTELARES PREVISTAS NOS INCISOS I E V DO
ART. 319 DO CPP. DESTA FORMA, VISLUMBRA-
SE CONSTRANGIMENTO ILEGAL TENDO EM
VISTA A AUSÊNCIA DE FUNDAMENTAÇÃO
CONSTITUCIONALMENTE LEGÍTIMA DA
DECISÃO QUE DETERMINOU A SEGREGAÇÃO
CAUTELAR DO PACIENTE, FAZENDO A
RESSALVA DE QUE O ALVARÁ DE SOLTURA
APENAS DEVE SER EXPEDIDO CASO O MESMO
NÃO ESTEJA PRESO POR OUTRO MOTIVO.
CONCESSÃO PARCIAL DA ORDEM PARA
SUBSTITUIR A PRISÃO PREVENTIVA
DECRETADA EM DESFAVOR DO PACIENTE,
APLICANDO-LHE AS MEDIDAS CAUTELARES
PREVISTAS NOS INCISOS I E V DO ART. 319 DO
CPP, BEM COMO PARA ASSINAR TERMO DE
COMPARECIMENTO A TODOS OS ATOS DO
PROCESSO PARA OS QUAIS FOR INTIMADO E DE
MANTER ATUALIZADO SEU ENDEREÇO NOS
AUTOS, SOB PENA DE REVOGAÇÃO, SEM
PREJUÍZO DE SER NOVAMENTE DECRETADA
SUA PRISÃO CAUTELAR COM A
DEMONSTRAÇÃO CONCRETA DE SUA
NECESSIDADE, DEVENDO O MM JUÍZO A QUO
PROVIDENCIAR A INTIMAÇÃO DO PACIENTE
PARA ASSINAR TERMO DE COMPROMISSO
REFERENTE ÀS CONDIÇÕES DAS MEDIDAS ORA
IMPOSTAS, DETERMINANDO A EXPEDIÇÃO DE
ALVARÁ DE SOLTURA, SE POR OUTRO MOTIVO
NÃO ESTIVER PRESO. (grifos nossos)

(TJ-RJ - HC: 00179705720138190000 RIO DE


JANEIRO VOLTA REDONDA 1 VARA CRIMINAL,
Relator: SIRO DARLAN DE OLIVEIRA, Data de
Julgamento: 07/05/2013, SÉTIMA CÂMARA
CRIMINAL, Data de Publicação: 09/05/2013)
Desta feita, impõe-se iminente a revogação do cárcere
preventivo, isto porque a garantia de ordem pública e de aplicação da
lei penal são insuficientes para lastrear a manutenção da prisão, não
existindo indícios ou provas de outros elementos que justifiquem a
medida de segregação.

II.c- Da presunção de inocência constitucional

A Convenção Americana dos Direitos Humanos ou Pacto de San


José da Costa Rica, em seu art. 7º, ao tratar do Direito à Liberdade
Pessoal, estabelece que:

Artigo 7º - Direito à liberdade pessoal


1. Toda pessoa tem direito à liberdade e à
segurança pessoais.
2. Ninguém pode ser privado de sua liberdade física,
salvo pelas causas e nas condições previamente
fixadas pelas Constituições políticas dos Estados-
partes ou pelas leis de acordo com elas promulgadas.
3. Ninguém pode ser submetido a detenção ou
encarceramento arbitrários.
4. Toda pessoa detida ou retida deve ser
informada das razões da detenção e notificada,
sem demora, da acusação ou das acusações
formuladas contra ela.
5. Toda pessoa presa, detida ou retida deve ser
conduzida, sem demora, à presença de um juiz ou
outra autoridade autorizada por lei a exercer
funções judiciais e tem o direito de ser julgada
em prazo razoável ou de ser posta em liberdade,
sem prejuízo de que prossiga o processo. Sua
liberdade pode ser condicionada a garantias que
assegurem o seu comparecimento em juízo.
6. Toda pessoa privada da liberdade tem direito a
recorrer a um juiz ou tribunal competente, a fim
de que este decida, sem demora, sobre a
legalidade de sua prisão ou detenção e ordene sua
soltura, se a prisão ou a detenção forem ilegais.
Nos Estados-partes cujas leis prevêem que toda
pessoa que se vir ameaçada de ser privada de sua
liberdade tem direito a recorrer a um juiz ou
tribunal competente, a fim de que este decida
sobre a legalidade de tal ameaça, tal recurso não
pode ser restringido nem abolido. O recurso pode
ser interposto pela própria pessoa ou por outra
pessoa.
7. Ninguém deve ser detido por dívidas. Este
princípio não limita os mandados de autoridade
judiciária competente expedidos em virtude de
inadimplemento de obrigação alimentar. (grifos
nossos)

O Decreto nº 678/1992 foi o responsável pela promulgação da


Convenção Americana sobre Direitos Humanos no ordenamento
jurídico brasileiro, de tal sorte que este diploma legal ingressa em
nosso sistema jurídico dotado de caráter constitucional, e, assim,
imperativa a sua aplicação, por se tratar de pacto sobre direitos
humanos.

A Constituição Federal, em seu art. 5º, LIV, esboça o


fundamento jurídico do due process of law ou devido processo legal
que, atualmente, é considerado princípio fundamental e norteador de
todos os demais princípios constitucionais, com a finalidade de
reprimir abusos do Estado.
E mais, o devido processo legal se ramifica duas esferas, a
esfera formal (procedural process of law) e a esfera substantiva
(substantive process of law), de tal forma que o primeiro refere-se ao
dever do juiz, enquanto representante do Estado, de observar os ritos e
a todos os aspectos que circundam o processo, e o segundo trata de
uma prestação jurisdicional justa e adequada, em observância aos
princípios da justiça e requisitos intrínsecos da lei.

Alexandre de Morais, ministro do STF, ao abordar o tema,


leciona que:

o devido processo legal configura dupla proteção


ao indivíduo, atuando tanto no âmbito material
de proteção ao direito de liberdade, quanto no
âmbito formal, ao assegurar-lhe paridade total de
condições com o Estado – persecutor e plenitude
de defesa (direito à defesa técnica, à publicidade
do processo, à citação, de produção ampla de
provas, de ser processado e julgado pelo juiz
competente, aos recursos, à decisão imutável, à
revisão criminal).

Desta forma, no caso em tela, o requerente não pode


permanecer encarcerado indiscriminadamente ao bel prazer do Estado,
isto porque existe um dever constitucional e legal de que a prisão
preventiva somente seja decretada em virtude de certos requisitos, ou
seja, quando garantia da ordem pública, da ordem econômica, por
conveniência da instrução criminal, ou para assegurar a aplicação da
lei penal, quando houver prova da existência do crime e indício
suficiente de autoria.
II- DOS PEDIDOS

POR TODO O EXPOSTO, REQUER SEJA REVOGADA A


PRISÃO PREVENTIVA DO REQUERENTE, por estarem ausentes os
requisitos dos artigos 311 de 312 do Código de Processo Penal,
com a devida e imediata expedição de alvará de soltura em favor
do acusado, como medida de INTEIRA JUSTIÇA.

E , caso Vossa Excelência entenda de outra forma, que seja


aplicada outra medida cautelar, diversa da prisão.

Intime-se o Douto Membro do Ministério Público, para que


este possa se manifestar em relação ao pleito em questão.

Nestes termos,
Pede deferimento.

Novo Repartimento-PA, 17 de dezembro de 2017

Cândido Lima Júnior


OAB-PA N° 25.926-A

Ângelo Sousa Lima


OAB-PA 26.226