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Superior Tribunal de Justiça

AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL Nº 142.469 - PE (2012/0023146-0)

RELATOR : MINISTRO MAURO CAMPBELL MARQUES AGRAVANTE : UNIÃO

AGRAVADO

ADVOGADO :

:

MARIA DAS GRAÇAS MODESTO MOREIRA LÍGIA MARIA FERREIRA MACEDO E OUTRO(S)

EMENTA PROCESSUAL CIVIL E ADMINISTRATIVO. PENSÃO POR MORTE. VIOLAÇÃO DO ART. 535, II, DO CPC. ALEGAÇÕES GENÉRICAS. SÚMULA 284/STF. FALTA DE PREQUESTIONAMENTO. SÚMULA 282/STF. BENEFICIÁRIO. EX-COMPANHEIRA. UNIÃO ESTÁVEL. PRÉVIA DESIGNAÇÃO. VONTADE DO INSTITUIDOR DA PENSÃO COMPROVADA POR OUTROS MEIOS IDÔNEOS. POSSIBILIDADE. PRECEDENTES. AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL NÃO PROVIDO.

DECISÃO
DECISÃO

Em exame agravo interposto pela União no intuito de reformar decisão que inadmitiu recurso especial intentado contra acórdão proferido pelo Tribunal Regional Federal da 5ª Região, assim ementado:

ADMINISTRATIVO. PENSÃO POR MORTE DE EX-MILITAR. UNIÃO ESTÁVEL. COMPROVAÇÃO. PROTEÇÃO CONSTITUCIONAL. RATEIO DO BENEFÍCIO COM A ESPOSA E FILHA. POSSIBILIDADE. PRECEDENTE DESTE TRIBUNAL. EFEITO DA CONDENAÇÃO A CONTAR DO REQUERIMENTO ADMINISTRATIVO. JUROS DE MORA. APLICAÇÃO DO ART. 1º F DA LEI 9.494/97. VENCIDA A FAZENDA PÚBLICA. POSSIBILIDADE DE REDUÇÃO DA VERBA HONORÁRIA.1. A Constituição de 88 promoveu a extensão da proteção constitucional, em que não apenas a família legítima, fundada no casamento, teve guarida, mas também todas as entidades familiares constituídas.2. Nesta exegese, não se tem como atribuir ao referido dispositivo constitucional interpretação restritiva, sob pena de violação aos postulados da dignidade da pessoa humana, da liberdade, da autodeterminação, da igualdade e da não-discriminação, como ainda, à própria finalidade do Legislador Constituinte em conferir à unidade familiar proteção máxima. Assim, a outra conclusão não se chega, senão a de que a Constituição visa a proteger não apenas o núcleo familiar formal, mas qualquer estrutura familiar, indiscriminadamente.3. É inegável, portanto, que tanto a união estável como o concubinato gozam de proteção. Negar ao concubino a proteção alimentar implica em violar a própria teleologia da norma constitucional.4. Hipótese em que a autora e o de cujus conviveram por aproximadamente 9 anos, conforme se comprova dos depoimentos das testemunhas, o que já denota estabilidade significativa, considerado o longo período de convivência, somente finalizada após a morte do instituidor. Tal relacionamento resultou no reconhecimento, pelo falecido militar, da filha (biológica ou não) Júlia Paula.5. A dependência econômica e a publicidade do relacionamento restaram perfeitamente evidenciadas diante das provas materiais (fotos, cartões de seguro saúde da autora e da filha, e também cartão de crédito comum) constantes dos autos, corroboradas pela prova testemunhal.6. Presentes os requisitos legais para a concessão do benefício de pensão por morte do ex-militar, merece ser mantida a

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sentença no quanto, ressalvando os percentuais devidos em 50% do valor da pensão para a menor Júlia Paula e 25% para a ex-esposa, condenou a União ao pagamento à autora, de 25% da pensão, correspondente a 1/4 do benefício.7. Deve prevalecer o efeito da condenação, fixado na sentença, a contar do requerimento administrativo, por se encontrar em consonância com precedentes desta Corte. Precedentes: AC 200583000150780, Desembargador Federal Luiz Alberto Gurgel de Faria; AC 200684000037799, Desembargador Federal Manoel Erhardt e AC 200583000037367, Desembargador Federal Marcelo Navarro.8. Com razão a União, em relação aos juros de mora, no quanto pugnou pela aplicação do art. 1º F, da Lei 9.494/97, que fixa tais juros em 0,5%, considerando que na hipótese a ação foi ajuizada em 27.01.2004, portanto, após à edição da MP nº 2.180/01.9. Vencida a Fazenda Pública e aplicando-se o disposto no § 4º do art. 20 do CPC, no que pertine à fixação dos honorários sucumbenciais segundo a apreciação equitativa do julgador, apresenta-se razoável a manifestação da União no sentido de redução da verba honorária para 5% sobre o valor da condenação, considerando a simplicidade da causa.6. Apelação e Remessa oficial parcialmente providas.

causa.6. Apelação e Remessa oficial parcialmente providas. Embargos de declaração rejeitados. No apelo nobre, aponta

Embargos de declaração rejeitados. No apelo nobre, aponta violação dos arts. 219 e 535, II, do CPC, 77 e 78 da Lei n. 5.774/71, 50, § 3º, 'h' e 'i', da Lei n. 6.880/80, 1.723 e 1.727 do CC/02.

Nas razões de agravo, pugna pelo processamento do recurso especial, porquanto foram preenchidos os requisitos de admissibilidade. Contraminuta apresentada.

É o relatório. Passo a decidir.

A insurgência não prospera.

Inicialmente, registro que são insuficientes meras alegações de violação do art. 535 do CPC para configurar a negativa de prestação jurisdicional reclamada. Denotam as razões recursais que a parte insurgente não individualizou a omissão a que se refere o aludido dispositivo legal, ou seja, não indicou com precisão a questão essencial para o deslinde da controvérsia que deveria ter sido abordada no julgamento, mas não foi. Aplicável, nesse ponto, a Súmula 284/STF. Nesse sentido:

Incide a Súmula 284/STF se o recorrente, a pretexto de violação do art. 535 do CPC, limita-se a alegações genéricas, sem indicação precisa da omissão, contradição ou obscuridade do julgado. Inúmeros precedentes desta Corte. (REsp

955.411/SC, Rel. Min. Eliana Calmon, DJe 31.3.2008).

TRIBUTÁRIO - PROCESSO CIVIL - NÃO-CONHECIMENTO DO RECURSO ESPECIAL - SÚMULA 282/STF - EMBARGOS DECLARATÓRIOS.

1. O magistrado não está obrigado a fundamentar o voto da forma como pretende

a parte; bastando que chegue, de modo claro e preciso, à conclusão esposada. Aplicação do princípio juria novit curia.

2. Não bastam meras alegações genéricas no sentido de ocorrência de omissão,

devendo a parte apontar com exatidão em que medida foi o acórdão embargado omisso. Súmula 284/STF.

Embargos declaratórios rejeitados. (EDcl no AgRg no REsp 438.024/DF, Rel. Min. Humberto Martins, DJ 15.2.2008, p. 79).

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Por outro lado, dessume-se do exame dos autos que o art. 219 do CPC não foi, em nenhum momento, enfrentado no aresto recorrido, carecendo o apelo especial do obrigatório prequestionamento. Incide, no caso, a Súmula 282/STF. "Configura-se o prequestionamento quando a causa tenha sido decidida à luz da legislação federal indicada, com emissão de juízo de valor acerca dos respectivos dispositivos legais, interpretando-se sua aplicação ou não ao caso concreto". (AgRg no Ag 924.264/SP, Rel. Min. Eliana Calmon, DJ 14.3.2008, p. 1). Saliente-se que, tendo consignado o acórdão impugnado que houve requerimento administrativo, chegar à conclusão inversa é tarefa que requer a incursão na seara fático-probatória do caso, o que é expressamente vedado pela Súmula 7/STJ. Sobre o tema propriamente dito, o STJ perfilha entendimento no sentido de que, em se tratando do benefício previsto no art. 217, I, 'e', da Lei n. 8.112/90 (pensão por morte), é dispensável a prévia designação de beneficiário do instituidor quando a vontade deste houver sido comprovada por outros meios idôneos. Nesse sentido, destaco os seguintes escólios:

1.
1.

A jurisprudência desta Corte está firmada em que a ausência de prévia designação do companheiro como beneficiário de pensão não impede a concessão do benefício, se a união estável resta devidamente comprovada por outros meios idôneos de prova. Precedentes do STJ. (AgRg no REsp 1130058 / RS, Quinta

Turma, Rel. Min. Napoleão Nunes Maia Filho, DJe 06/09/2010).

Comprovada a vida em comum por outros meios, a designação da companheira como dependente para fins de pensão por morte é prescindível. (REsp 615318 /

RJ, Quinta Turma, Rel. Min. Laurita Vaz, DJ 14/05/2007 p. 367).

ADMINISTRATIVO. SERVIDOR PÚBLICO CIVIL. EX-COMPANHEIRA. PENSÃO. UNIÃO ESTÁVEL COMPROVADA. DESIGNAÇÃO EXPRESSA. DESNECESSIDADE. RECURSO ESPECIAL CONHECIDO E IMPROVIDO.

É firme a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça no sentido de que a

falta de designação expressa da companheira como beneficiária do servidor não impede a concessão de pensão vitalícia, se a união estável restou comprovada por outros meios. Precedentes.

2. Recurso especial conhecido e improvido. (REsp 625603 / PE, Quinta Turma,

Rel. Min. Arnaldo Esteves Lima, DJ 14/11/2005 p. 377).

RECURSO ESPECIAL. PENSÃO. COMPANHEIRA. PRESCINDIBILIDADE DE DESIGNAÇÃO. UNIÃO ESTÁVEL CARACTERIZADA. RECURSO NÃO PROVIDO.

1. É firme a jurisprudência desta Colenda Corte no sentido que é prescindível a

designação pelo servidor falecido de sua companheira como benefíciária de

pensão vitalícia, se a união estável restou comprovada por outros meios.

2. Recurso especial não provido. (REsp 550141 / AL, Sexta Turma, Rel. Min.

Helio Quaglia Barbosa, DJ 04/10/2004 p. 355, RNDJ vol. 61 p. 148, RSTJ vol.

186 p. 584).

PROCESSO CIVIL E ADMINISTRATIVO - RECURSO ESPECIAL - ART. 1º DA LEI Nº 9.278/96 E ART. 219 DA LEI Nº 8.112/90 - AUSÊNCIA DE PREQUESTIONAMENTO - SERVIDOR PÚBLICO - PENSÃO -

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COMPANHEIRA - UNIÃO ESTÁVEL COMPROVADA - AUSÊNCIA DE DESIGNAÇÃO - FATO IRRELEVANTE.

1 - Não enseja interposição de Recurso Especial matéria que não tenha sido

ventilada no julgado atacado (art. 1º da Lei nº 9.278/96 e art. 219 da Lei nº 8.112/90) e sobre a qual, embora tenham sido opostos os embargos declaratórios

competentes, o órgão julgador não se pronunciou e a parte interessada não alegou ofensa ao art. 535, II, do CPC, havendo, desta forma, falta de prequestionamento (Súmula 356/STF).

2 - A falta de designação expressa, pelo servidor, como prevista no art. 217, I,

"c", da Lei nº 8.112/90, da companheira como beneficiária, não obsta a concessão da pensão vitalícia, porquanto comprovada a união estável por outros meios idôneos.

3

- Recurso conhecido, nos termos acima expostos, porém, desprovido. (REsp

510).
510).

553115 / PE, Quinta Turma, Rel. Min. Jorge Scartezzini, DJ 02/08/2004 p.

ADMINISTRATIVO. SERVIDOR PÚBLICO. PENSÃO POR MORTE. COMPANHEIRA. A falta de prévia designação da companheira como beneficiária de pensão vitalícia não impede a concessão desse benefício, se a união estável resta devidamente comprovada por outros meios idôneos de prova. (Precedentes.)

Recurso não conhecido. (REsp 443055 / PE, Quinta Turma, Rel. Min. Felix Fischer, DJ 24/02/2003 p. 282).

RECURSO ESPECIAL. ADMINISTRATIVO E PREVIDENCIÁRIO. SERVIDOR PÚBLICO. PENSÃO. COMPANHEIRA. DESIGNAÇÃO. AUSÊNCIA. COMPROVAÇÃO POR OUTROS MEIOS. SATISFAÇÃO. Tendo a união estável entre o servidor e sua companheira restado comprovada por meios idôneos, a ausência de designação prévia (art. 217, I, "c" do RJU) não impede a concessão do benefício pleiteado. Precedentes.

Recurso desprovido. (REsp 397134 / RN, Quinta Turma, Rel. Min. José Arnaldo da Fonseca, DJ 19/08/2002 p. 191).

Na espécie, o Tribunal de origem consignou que (fl. 391):

No caso dos autos, a autora e o de cujus conviveram por

aproximadamente 9 anos, conforme se comprova dos depoimentos das testemunhas (fls. 64/69 dos autos da Justificação), o que já denota estabilidade significativa, considerado o longo período de convivência, somente finalizada após a morte do instituidor. Tal relacionamento resultou no reconhecimento, pelo falecido militar, da filha (biológica ou não) Júlia Paula. A dependência econômica e a publicidade do relacionamento restaram perfeitamente evidenciadas diante das provas materiais (fotos, cartões de seguro saúde da autora e da filha, e também cartão de crédito comum) constantes dos autos, corroboradas pela prova testemunhal (fls. 64/69 dos autos da Justificação). Frise-se, ainda que o falecido ex-militar tinha a intenção de incluir a parte autora como sua dependente perante a marinha do Brasil. Tal fato se depreende da leitura do documento de fl. 21, assinado pelo Primeiro Tenente encarregado da Divisão Pessoal, e datado de 15.12.1999, que atesta que o Sr. João Pedro da Silva Reis "deu entrada no processo de regularização de sua companheira, Maria das Graças Modesto Moreira."

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Diante desse contexto, não merece reprimendas o aresto recorrido, porquanto o entendimento ali sufragado está, de fato, alinhado com o posicionamento jurisprudencial dominante desta Corte sobre a matéria. Isso posto, com base no art. 544, § 4º, II, 'a', do CPC, NEGO PROVIMENTO ao presente agravo em recurso especial. Publique-se. Intimem-se. Brasília (DF), 19 de março de 2012.

MINISTRO MAURO CAMPBELL MARQUES Relator

de março de 2012. MINISTRO MAURO CAMPBELL MARQUES Relator Documento: 21066798 - Despacho / Decisão -