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Módulo 01.

Filosofia do Direito I – Pensadores Clássicos

18.03

Unidade 1 - A filosofia Antiga: Os pré-socráticos

O pensamento filosófico greco-ateniense clássico está relacionado à Sócrates e aos seus


discípulos, que vão reproduzir e desenvolver o pensamento socrático, especialmente
Aristóteles e Platão.

Contudo, para analisar este momento é necessário se debruçar no estudo da filosofia


greco-ateniense pré-socrática.

1. Os desafios para a filosofia do direito na contemporaneidade

1.1 História da filosofia

A história da filosofia é algo bastante simples, sendo um método de trabalho que busca
organizar em perspectiva histórica a construção dos sistemas filosóficos.

O desafio específico que traz para que vivemos no Brasil do sec. XXI pode ser filtrado da
seguinte forma:

Qual o sentido de se recorrer ao sistema de pensamento greco-ateniense clássico na


atualidade? Questiona-se aqui o motivo dele ser um divisor de águas entre a filosofia
pré-socrática e socrática, o motivo dele ser considerado clássico.

O que gerou tal sistema? Busca-se encontrar aqui os motivos da sua criação, o que levou
a sua construção, quais a rupturas ocorridas nesse momento.

É possível conhece-lo de forma isenta e objetiva? Tal questionamento é crucial, pois


Sócrates não deixou nada escrito. As lições que conhecemos de Sócrates apenas foram
passadas através das leituras de Platão e Aristóteles.

1.2. Filosofia da história

A filosofia da história nos remete a uma indagação que tem vários desdobramentos:
qual a diferença entre história e estória. São as condições de possibilidade de uma
narrativa histórica, de um conhecimento histórico.

A história é sempre contada por alguém, que enquanto alguém tem algum objetivo com
isso, por mais elevado que ele seja, a pessoa fez a sua análise a partir da sua perspectiva.
Mas a sua leitura pode ser identificada como a verdade dos fatos?

Ex: Os sofistas são filósofos considerados “mercenários”, são pensadores de menor


expressão, mas essa ideia do sofismo é retratada por Platão, que constrói um sistema
filosófico as avessas do estilo filosófico sofistico, que ele considera de pior de qualidade.
Mas se reproduzimos isso sem considerar essa ideias, não chegamos a perceber que
quem está contando essa história sobre os sofistas é Platão, que naquele contexto tinha
seus motivos e tinha o objetivo de vencer os sofistas enquanto adversários intelectuais.

A medida que um certa versão ganha mais repercussão percebe-se que alguns contam
a história enquanto outros sofrem a história. A respeito disso é a história do Brasil, que
não passa de uma certa versão contada possivelmente por uma daquelas matrizes que
foram determinante para a constituição da sociedade brasileira, a saber a matriz
europeia. Possivelmente se a história fosse contada por outra matriz (africana, indígena)
as coisas teriam se desdobrado de outra forma.

Para a além da história da filosofia e da filosofia da história, surge a filosofia do direito,


que é a aplicação da filosofia no exercício profissional.

A filosofia do direito importa? Pensando no mundo ocidental contemporâneo, tem um


diagnostico de falência da reflexão filosófica. Temos nos tornado fundamentalmente
técnicos e reféns do conhecimento técnico, no sentido de que a técnica é ferramenta
de produção. A identidade do sujeito se reduz ao poder de consumo e ao know how.

Obs: História x estória – será possível considera a história uma narrativa verdadeira dos
fatos? Será que a história tem condições de trazer a narrativa dos fatos?

2. Introdução: preparando o cenário

2.1. Período mitológico (séc. VIII a.C)

Neste momento se busca as origens do pensamento greco-ateniense. Há um amplo


consenso sedimentado de que esse primeiro período da civilização pode ser chamado
de período de mitológico, e o seu maior registro são os textos de Homero, ou a poesia
épica homérica (Ilíada e Odisseia).

A própria existência de Homero ainda é contestada. Algumas pessoas consideram uma


pessoa bastante sensível, mas que não criou tais estórias, levando-se a cogitar que estas
estórias foram criadas por mais de uma pessoa que se identificavam pelo pseudônimo
de “Homero”, que se deu ao trabalho de registrar estórias que eram contadas de
geração a geração no âmbito da civilização greco-ateniense.

Para que isso faça sentido é necessário fazer um viagem histórica: quando pensamos na
Grécia do séc. VIII a.C tem-se um complexo de civilizações, todas muito próximas
fisicamente, mas seriam povos muito diversos entre si, alguns com grande afinidades
outros com poucas ou talvez nenhum. A sua constituição deveu-se a entrecruzamento
de culturas a partir de processos migratórios, e esse intercâmbio cultural traz uma
ruptura o que faz com que o os textos de Homero sejam a estrutura desse pensamento.

Os textos de Homero tratam das aventuras e desventuras de determinados personagens


que se perfilam como heróis (Ulisses, por exemplo). Homero com a sua poesia traz um
gérmen que tem um impacto definitivo em toda cultura ocidental e inclusive no mundo
contemporâneo.

A forma como Homero deixou como registrado nas poesias tem-se uma verdadeira
mística e por isso que esse período é conhecido como o período do pensamento
mitológico. Nesse contexto os homens são sujeitados ao peso do destino, no caso a
mitologia grega, o ateniense parece ter um gosto especial por se reunir para contar e
reunir estórias e isso dinamizou odo o processo de socialização e todo o processo
político do povo grego, e isso, por consequência foi ganhando proporções, que mostram
um padrão de normatividade - é as estórias mostram uma relação com o elemento
estrutural normativo.

A característica básica do pensamento mitológico é aquilo que não está sob o controle
dos homens, trata-se de uma pensamento irracional, pois os homens nesse contexto é
um mero joguete do destino. A própria ideia do cosmos, de um mundo perfeitamente
organizado, da forma que construída no pensamento greco-ateniense mostra isso muito
bem – o sujeito seria um mero grão de areia, incapaz de para determinar a sua vida.

Na narrativa do pensamento mitológico temos claramente a figura de Themis como a


primeira representação mitológica de justiça.

Quando pensamos na imagem do olimpo temos que Themis teria sido a esposa Zeus,
que é um deus marcado pela passionalidade, e que a partir do momento que viveu com
Themis se tornou mais sereno.

O simbolismo, o elemento semiótico da mitologia mostra a figura de Themis como uma


deusa do olimpo que se caracteriza pela serenidade, pelo equilíbrio, dai a representação
da balança na história do direito. Mas na verdade o que há de mais precioso é que no
âmbito do pensamento miológico apresentação da justiça por Themis mostra a justiça
sempre como algo que vem dos deuses, algo que está para além do sentido humano, e
isso casa muito bem com esse rotulo de mitológico irracional, pois todo elemento de
organização e regulação não é construído pelos homens, mas sim vem dos deuses, e
está ligado à figura do destino – é uma característica ampla do pensamento mitológico,
da civilização greco-ateniense – é a nulidade do sujeito, é a inexistência da subjetividade.

2.2. Período arcaico (séc. VI a.C)

A épica homérica é reforça pela teogonia de Hesíodo, que teria vivido no sec. VI a.C,
denominado de período arcaico.

Este período ainda é muito marcado pela mística, pela irracionalidade, mas que
certamente já traz ruptura extremante significativas se comparada com Homero. E por
isso que chamamos de período arcaico, pois coincide com o surgimento da filosofia, e é
neste período, apesar do impacto da teogonia, já temos os primeiros elemento e
registros escritos de um pensamento filosófico.
É o no período arcaico que se noticia pensadores como Thales de Mileto, Parmênides –
seriam eles filósofos fisicalistas ou naturalistas.

Outra ruptura aqui, com os primeiros filósofos passamos a ter fortes elementos que vão
levar a uma transição da teogonia para a cosmologia.

Destaca-se, aqui, que na dinâmica politica e social em Atenas surge a figura de Drácon,
que teria sido um rei severo e conservador, preocupado com seus pares e tradicional a
elite agraria ateniense. Drácon teria produzido um legislação extremamente rigorosa,
dai a relação que se faz com a expressão draconiana – que significa uma medida
extrema, radical.

As hierarquias nessa época era externamente rígidas: ou o sujeito era de elite e tinha
destaque ou o sujeito era muito pobre, e isso era imutável.

Isso mostra o peso do destino e a completa insignificância do sujeito e sua impotência.


Contudo isso vai se alterando, especialmente com Sólon.

Solon teria sido um soberano singular da Atenas arcaica, pois ele ganhou uma aura de
mística em torno dele pelo fato de ter sido um grande reformador e suas reformas foram
inspiradas pelo motivos dos primeiros filósofos (Thales de Mileto, Parmênides,
Pitágoras, Demócrito). Ele promove a inclusão, a justiça e com a nova legislação há uma
ampla flexibilização e Atenas se abre para aos estrangeiros, e com o intercâmbio cultual
Atenas se desenvolve se tornando um local multicultural, plural por excelência.

Toda essa mudança culmina na prosperidade crescente que leva a um outro nível de
pensamento que já está sendo ponto em prática com o Sólon. É ai que quando falamos
de Parmênides, Pitágoras, Demócrito, todos filósofos greco-atenienses pré-socráticos,
tratam da justiça não mais como Themis, mas sim pela representação hegemônica da
justiça é outra deusa chamada Diké - enquanto Themis nos leva a uma ordem divina e
importa, quando falamos de Diké a justiça ganha um contorno que tem fortes elementos
humanos, mas embrionários. Com as reformas de Sólon os cidadãos subalternos e que
vivam a margem passam a ter esse alento, passam a ter esse horizonte e de se
perceberem como cidadãos e que podem viver uma outra vida e que podem alcançar a
felicidade – a situação está se alterando bastante na civilização ateniense.

O pensamento filosófico passa por outra ruptura: se num primeiro momento a filosofia
era um mística, no segundo momento ganha um outro foco que é o cosmos, sendo que
no cosmos o sujeito é pequeno, quase impotente. Mas na sequencia disso a filosofia
ateniense ganha como foco o sujeito, a subjetividade, e esse é o momento da grande
virada que acontece com os sofistas. É o que se chama de virada sofística, que ocorre
em meados do séc. V a.C.

2.3. A virada sofística (séc. V a.C.)


Destaca-se aqui que este é o momento histórico da vida de Sócrates, que é
contemporâneo dos sofistas e se torna seu adversário intelectual, que é levada às
últimas consequências com Platão.

A virada é um ponto de ruptura importante e ela se caracteriza pela subjetividade, isso


quer dizer que Sócrates não é a grande ruptura, mas sim o ser humano – o foco da
reflexão é a condição humana, seja ele individual ou num contexto de coletividade.

Os sofistas são os primeiros pensadores que realizam isso. A primeira observação


importante aqui é a consideração de que é muito mais por comodidade que se fala de
uma corrente de pensamento ou de uma escola chamada “os sofistas”.

É um grupo de pensadores, mas não devemos ter a pretensão de uniformidade, pois são
pensadores diversos que vivam geograficamente distantes. São pensadores de regiões
e períodos diversos. Apenas da heterogeneidade que caracteriza esse grupo de
pensadores uma característica comum é essa ênfase no sujeito, seja enquanto individuo
seja enquanto coletividade (relações sociais).

Cabe destacar uma frase de Protágoras que é muito marcante do pensamento sofista:
o homem como medida de todas as coisas. Isso significa que o homem, o sujeito, é, por
si só, um filtro que, ao doar significado às coisas, forja a sua própria realidade. O homem,
ou a sua coletividade, vai criar o seu padrão de normatividade.

OBS: há quem diga que os sofistas eram tão arrojados que isso somente foi visto
novamente com os pensadores iluministas já no séc. XVIII.

Os sofistas estariam muito mais como aqueles que não contam a história, mas como
aqueles que sofrem a história, como já foi mencionado anteriormente. Isso ocorre de
uma leitura engajada por Platão.

Os sofistas se dão conta, naquele momento, de serem filósofos dos mais consistentes,
no sentido de resistir e buscar e uma afirmação. Uma característica que seja comum
todos eles é exatamente esse empenho em desestabilizar o que está estabelecido e
buscar romper as tradições.

Curiosamente este é o período de plenitude de Atenas, pois, no séc. IV a.C, com a


firmação da filosofia clássica, o estado ateniense já se encontra em decadência.

Por serem extremamente pragmáticos e por levarem à sério o seu ofício, os sofistas
cobravam pelos seus ensinamento, o que levou a forte crítica por parte de Sócrates e
Platão.

Há um elemento muito curioso em relação aos sofistas: no momento de plenitude


greco-ateniense os sofistas foram os grandes impulsionadores do direito ateniense.
Cabe destacar que desde Drácon ficou estabelecido que as demandas jurídicas, por
serem questões inerentes à polis, são problemas políticos e devem ser tratados em
lugares muito próprios, ou seja, na esfera pública, nas assembleias.
O sujeito que quer ser notado como cidadão deve fazer isso nas assembleias, usando do
argumento para “vencer” aquele que é mais fraco.

Esse impulso trazido ao direito pelos sofistas fica materializado pela figura do logógrafo,
que era um expert, não em direito, mas sim um expert da oratória, da retórica e da
persuasão, que é a grande arte dominada pelos sofistas.

É nesse contexto que os sofistas, e nem sempre os sofistas, mas um sujeito letrado na
arte sofista, cobravam pelo serviço de falar para um auditório. Isso é muito interessante
pois o elemento da oratória é importante para a prática jurídica.

O mais interessante dos sofistas é o compromisso em romper com as tradições


estabelecidas, romper com a imagem apriorística do direito e do justo que se
identificavam, sejam como o mandamento do divino, seja como espelho da natureza
física.

O que os sofistas vão mostrar são os grandes defensores da nomos, do direito enquanto
artificio humano e por isso buscam romper com as ontologias metafísicas. Na
perspectiva dos sofistas não caberia falar em um direito eterno, imutável e absoluto,
porque o direito é uma consequência do fazer humano e o direito se materializa na lei
(nomos).

Para os sofistas a verdade seria um artifício humano – é a questão do direito


ambivalente (foi justo para um, mas não foi justo para outro), é dizer, não há uma
verdade, ela é construída pela capacidade humana.

Em verdade os sofistas mostram um momento da vida na sociedade muito parecido com


o momento contemporâneo, que mostra esse cenário de possível falência da filosofia.