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RAINAN SANTOS DA SILVA

A JUDICIALIZAÇÃO DA SAÚDE E OS LIMITES E


POSSIBILIDADES INSTITUCIONAIS ESTATAIS

Teixeira de Freitas/BA
2019
RAINAN SANTOS DA SILVA

A JUDICIALIZAÇÃO DA SAÚDE E OS LIMITES E


POSSIBILIDADES INSTITUCIONAIS ESTATAIS

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado


à Faculdade Pitágoras, como requisito parcial
para a obtenção do título de graduado em
Direito.

Orientador: Andresa Bertão

Teixeira de Freitas/BA
2019
RAINAN SANTOS DA SILVA

A JUDICIALIZAÇÃO DA SAÚDE E OS LIMITES E


POSSIBILIDADES INSTITUCIONAIS ESTATAIS

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado


à Faculdade Pitágoras, como requisito parcial
para a obtenção do título de graduado em
Direito.

BANCA EXAMINADORA

Prof(a). Titulação Nome do Professor(a)

Prof(a). Titulação Nome do Professor(a)

Prof(a). Titulação Nome do Professor(a)

Teixeira de Freitas/BA, 2019.


Dedico este trabalho primeiramente a
Deus, por ter guiado meu caminho até
aqui. Dedico, também, aos meus pais,
Domingos e Silvani, e aos meus irmãos,
Rai e Sara.
AGRADECIMENTOS

Agradeço primeiramente а Deus, que, com seu imenso amor, permitiu que
tudo isso acontecesse, ao longo de minha vida, е não somente nestes anos como
universitária, mas que em todos os momentos esteve presente me dando força e me
sustentando até aqui.
Esterno, também, meus agradecimentos à Faculdade Pitágoras, em especial
aos meus professores, pela oportunidade de fazer o curso e pela forma especial que
transmitem conhecimento.
Por fim, e, não menos importante, aos meus pais, irmãos e meu namorado,
pelo amor, incentivo е apoio incondicional.
SILVA, Rainan Santos. A Judicialização da Saúde e os Limites e Possibilidades
Institucionais Estatais. 2019. 32. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em
Direito) – Faculdade Pitágoras, Teixeira de Freitas, 2019.

RESUMO

Este trabalho tem por objetivo discorrer sobre o fenômeno da judicialização da


saúde, em razão de a saúde ser um direito fundamental, dentro do rol dos direitos
sociais, previsto na Constituição Federal. Primeiro será feito o cotejo do direito à
saúde como um direito subjetivo do cidadão e dever do Estado a sua prestação
positiva. Em seguida, abordaremos o principio da reserva do possível, no que se
refere à escassez de recursos na área da saúde e a necessidade de se garantir um
mínimo existencial, bem como o princípio da separação dos poderes. Por último
abordaremos a judicialização da saúde como forma de tornar efetivo o mandamento
Constitucional, uma vez que o Estado mostra-se omisso em relação a diversas
demandas relacionadas à saúde.

Palavras-chave: Saúde; Judicialização; Separação dos poderes; Direito à saúde;


Reserva do Possível.
SILVA, Rainan Santos. A Judicialização da Saúde e os Limites e Possibilidades
Institucionais Estatais. 2019.32. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em
Direito) – Faculdade Pitágoras, Teixeira de Freitas, 2019.

ABSTRACT

This paper aims to discuss the judicialization of health, due to the fundamental right
to health, within the Federal Constitution. The first will be made of the state of the
right to health as a subjective right of the citizen and duty of the state to provide
positive. Then, addressing the principle of reserving the possible, does not refer to
the scarcity of resources in the area of health and the need to ensure a minimum, as
well as the principle of vigilance of powers. Finally, it approached a judicialization of
health as a way to become effective the Constitutional mandate, since the State
shows the relation with a diverse demand related to health.

Key-words: Cheers; Judiciary; Separation of powers; Right to health; Reservation of


the possible.
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

SUS Sistema Único de Saúde


STJ Superior Tribunal de Justiça
Anvisa Agência Nacional de Vigilância Sanitária
CF/88 Constituição Federal de 1988
CNJ Conselho Nacional de Justiça
SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO10

2. DOS DIREITOS SOCIAIS ........................ ERROR! BOOKMARK NOT DEFINED.


2.1 A SAÚDE NA CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1988..........................................13

3. LIMITES PARA A CONCRETIZAÇÃO DO DIREITO Á SAÚDEERROR!


BOOKMARK NOT DEFINED.
3.1 RESERVA DO POSSÍVEL..................................................................................18
3.2 SEPARAÇÃO DOS PODERES...........................................................................20

4. JUDICIALIZAÇÃO COMO MEIO PARA A EFETIVAÇÃO DO DIREITO


FUNDAMENTAL À SAÚDE.......................................................................................22
4.1 JUDICIALIZAÇÃO DA SAÚDE...........................................................................24
4.1 JUDICIALIZAÇÃO E OS CRITÉRIOS PARA FORNECIMENTO DE
MEDICAMENTOS......................................................................................................25

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS................................................................................27

REFERÊNCIAS29
10

1. INTRODUÇÃO

A Constituição Federal de 1988 reconhece à saúde como direito fundamental,


e em seu art. 6º insere a mencionada garantia no rol de direitos sociais, e assim
sendo, é uma prerrogativa de todos – inclusive de estrangeiros não residentes no
Brasil – e dever do Estado à prestação positiva, a ser concretizado por meio de
políticas públicas.
Ocorre que, muito embora seja um direito constitucional e de aplicação
imediata, conforme estabelece o art. 5º, parágrafo 1º da CF/88, o Estado não supre,
de forma eficiente, com seu dever constitucional, o que vem ocasionando um
crescimento exponencial e desordenado das ações judiciais que envolvem a saúde.
Assim, passa para o Poder Judiciário a tarefa de decidir as demandas
relacionadas ao direito da saúde. Esse fenômeno vem recebendo a denominação de
judicialização da saúde, medida utilizada para assegurar a obtenção de
medicamentos, atendimento médico e de procedimentos diagnósticos ou cirúrgicos
através de decisões judiciais.
No entanto, mesmo diante da fundamentalidade do direito e sua eficácia
imediata, busca o poder público demonstrar que a efetivação do direito a saúde deve
observar limites, baseando-se em diversos argumentos, tais como: princípio da
separação dos poderes e da reserva do possível.
Diante deste cenário, através de um estudo bibliográfico e documental,
objetiva-se obter, ao final do presente trabalho a análise da saúde como um direito
fundamental e a (in) constitucionalidade dos argumentos apresentados pelo poder
público, diante da essencialidade do direito, haja vista que tem caráter de proteção
do direito a vida e da dignidade da pessoa humana.
O centro do estudo será o debate doutrinário e jurisprudencial acerca do
direito a saúde como fundamental e sua a concretização, mesmo diante dos
princípios da separação de poderes e da reserva do possível, pois há uma crescente
busca de sentenças judiciais capazes de efetivar, por exemplo, o fornecimento de
medicamentos e tratamentos de urgência.
A fim de atingir os objetivos propostos, no primeiro capítulo do presente
trabalho de conclusão de curso será explorada a saúde no rol de direitos sociais,
dentre os quais aqueles elencados no art. 6º da Constituição Federal da República,
demonstrando sua evolução legislativa, bem como sua importância.
11

No segundo capítulo, há uma abordagem legal e doutrinária e acerca dos


limites da concretização do direito à saúde, bem como uma análise dos dados
judiciais relacionados à saúde, uma vez que, conforme o Relatório Justiça em
Números 2017, ano base 2016, produzido pelo Conselho Nacional de Justiça
(CNJ)1, ao menos 1.346.931 processos com o tema saúde tramitaram no Judiciário
em 2016. Assim, busca-se analisar o momento em que o Judiciário protege o direito
à saúde através da sua função jurisdicional, invadindo a esfera administrativa, que,
pela regra constitucional, é competência do Poder Executivo e Legislativo.
Ao final, no terceiro capítulo, será tratado o fenômeno da judicialização da
saúde como garantia da efetivação de direito fundamental à vida, fenômeno este
que se fundamenta, haja vista, que, qualquer cidadão deve ter acesso direto ao
Poder Judiciário para a concretização do direito, diante da ausência e ineficiência da
prestação positiva do Estado, já que é um direito fundamental e o seu
descumprimento afeta diretamente a dignidade da pessoa humana, princípio basilar
do Estado Democrático de Direito, estabelecido no art. 1º, inc. III da Constituição
Federal de 1988.
Em decorrência disso, o estudo tem a pretensão de demonstrar a amplitude
do direito à saúde, por entendê-lo como pressuposto fundamental à vida. Desta
forma, na colisão dos direitos à vida e à saúde com os princípios da separação de
poderes, da previsão orçamentária e da reserva do possível, prevalece o direito
fundamental à vida, uma vez que do Estado tem o dever de garantir um mínimo
necessário para a existência digna da população.

1 CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA. Judicialização da saúde: iniciativas


do CNJ são destacadas em seminário no STJ. Disponível em: <
http://www.cnj.jus.br/noticias/cnj/86891-judicializacao-da-saude-iniciativas-do-cnj-
sao-destacadas-em-seminario-no-stj>. Acesso em: 03 mar. 2019.
12

2. DOS DIREITOS SOCIAIS

Os direitos fundamentais previstos na Constituição Federal de 1988 são frutos


de uma série de evoluções ocorridas no mundo inteiro e influenciadas por diversas
lutas e quebras de enigmas sociais que buscavam a dignidade humana e a
efetivação de direitos essenciais, visando resguardá-los dos abusos de poder
praticados pelo Estado, bem como ações positivas, a fim de conceder a todos os
direitos de igualdade, fraternidade e liberdade.
Neste sentido e de grande relevância, a Carta Maior trouxe a dignidade da
pessoa humana como um dos fundamentos basilares da República Federativa do
Brasil, elencado em seu art. 1º, remetendo a uma obrigação do Estado em fornecer
ao individuo, independente de cor, raça, religião e quaisquer outros atributos, as
condições mínimas para a sua sobrevivência.
Assim, previu, especificamente, de forma inovadora, os direitos fundamentais
garantidos à população. Direitos estes que não podem ser abdicados e que devem
ser garantidos pelo Estado. Tais direitos foram divididos na Carta Magda da seguinte
forma: dos direitos e deveres individuais e coletivos, dos direitos sociais, da
nacionalidade, dos direitos políticos e dos partidos políticos, capítulos I, II, III, IV, V,
respectivamente.
Em relação aos direitos sociais, o Capítulo II do referido diploma legal dispõe,
em seu art. 6º, que: “São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o
trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à
maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta
Constituição”.
Moraes (2017, p. 163) conceitua direitos sociais como aqueles “direitos
fundamentais do homem, caracterizando-se como verdadeiras liberdades positivas,
de observância obrigatória em um Estado Social de Direito, tendo por finalidade a
melhoria de condições de vida aos hipossuficientes, visando à concretização da
igualdade social, e são consagrados como fundamentos do Estado democrático,
pelo art. 1º, IV, da Constituição Federal”.
Nas lições de Walber de Moura Agra, “direitos sociais é a espécie de direitos
humanos que apresenta como requisito para sua concretização a exigência da
intermediação dos entes estatais, quer na realização de uma prestação fática, quer
na realização de uma prestação jurídica.”
13

Por sua vez, José Afonso da Silva (2014, p. 288) afirma que “os direitos
sociais, como dimensão dos direitos fundamentais do homem, são prestações
positivas proporcionadas pelo Estado direta ou indiretamente, enunciadas em
normas constitucionais, que possibilitam melhores condições de vida aos mais
fracos, direitos que tendem a realizar a igualização de situações sociais desiguais”.
Assim, verifica-se a importância dos direitos sociais no Estado Democrático
de Direito, uma vez que possui a dignidade da pessoa humana como principio
basilar, haja vista que o desenvolvimento de prestações positivas pelo Estado visa
alcançar as esferas sociais mais escassas da sociedade.
Desta forma, por intermédio de políticas públicas sociais e econômicas, o
Estado passou a ter o dever de elaborar prestações positivas destinadas ao cidadão.
Para Uadi Lammêgo Bulos “as prestações qualificam-se como positivas porque
revelam um fazer por parte dos órgãos do Estado, que têm a incumbência de
realizar serviços para concretizar os direitos sociais”.
Portanto, verifica-se de plano a essencialidade dos direitos sociais, que visam,
tão somente, resguardar e garantir a população um mínimo existencial, fazendo jus
ao principio da dignidade da pessoa humana.

2.1 A SAÚDE NA CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1988

Nas lições de Reynaldo Mapelli Junior, Mário Coimbra e Yolanda Alves pinto
Serrano de Matos (2012, pag. 15), “o direito à saúde pertence à categoria dos
direitos fundamentais de segunda geração, também denominados direitos sociais,
que vieram a lume com a nova conformação do Estado, que deixou de atuar como
mero garantidor de direitos individuais (Estado liberal) e abraçou a função de
fornecer aos cidadãos prestações positivas voltadas à satisfação de suas
necessidades básicas (Estado social)”.
Assim, faz-se necessário ressaltar que a Constituição Federal de 1988 em
seu artigo 6º estabelece a saúde como um direito fundamental social, por sua vez, o
mesmo diploma legal, art.196, caracteriza o direito à saúde como um direito público
subjetivo: “a saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante
políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros
14

agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção,


proteção e recuperação.”
Não se pode dizer que as Constituições brasileiras do passado foram omissas
quanto à questão ao direito a saúde, já que todas mencionavam, de forma direta ou
indireta, as normas tratando do tema, e em sua maioria, visavam a fixação das
competências legislativas e administrativas, a fim de efetivar o mencionado direito.
Desta forma, fazendo-se uma breve análise, a Constituição Imperial de 1824
não tratava de forma expressa o direito à saúde, no entanto, conferia a garantia dos
“socorros públicos” aos cidadãos brasileiros, como se verifica, in verbis:

Art. 179. A inviolabilidade dos direitos civis e políticos dos cidadãos


brasileiros, que tem por base a liberdade, a segurança individual e a
propriedade, é garantida pela Constituição do Império, pela maneira
seguinte:
31) A Constituição também garante os socorros públicos.

Por sua vez, a Constituição de 1891, retirou o dispositivo da constituição


anterior, que garantia os “socorros públicos”, e apresentou, de forma superficial, em
seu artigo 72, caput, uma razoável proteção ao mencionar a “segurança individual”:
“a Constituição assegura a brazileiros e a estrangeiros residentes no paiz a
inviolabilidade dos direitos concernentes á liberdade, á segurança individual e á
propriedade nos termos seguintes”.
Já a Constituição de 1934 ampliou o rol dos direitos individuais e políticos,
bem como atribuiu a competência concorrente da União e Estados para cuidarem da
saúde e da assistência públicas, bem como garantiu a assistência médica e sanitária
aos trabalhadores e gestantes, conforme dispõe o artigo 10 e 121 adiante:

Art 10. Compete concorrentemente á União e aos Estados: (...)


II - cuidar da saúde e assistência públicas;
Art 121. A lei promoverá o amparo da producção e estabelecerá as
condições do trabalho, na cidade e nos campos, tendo em vista a protecção
social do trabalhador e os interesses economicos do paiz.
§ 1.º A legislação do trabalho observará os seguintes preceitos, além de
outros que collimem melhorar as condições do trabalhador:
(...) h) assistencia medica e sanitaria ao trabalhador e á gestante,
assegurado a esta descanso antes e depois do parto, sem prejuizo do
salário e do emprego, e instituição de previdencia, mediante contribuição
igual da União, do empregador e do empregado, a favor da velhice, da
invalidez, da maternidade e nos casos de accidentes de trabalho ou de
morte.
15

Em relação à Constituição de 1937, esta restringiu a competência em matéria


de saúde a União, mas possibilitou a delegação aos Estados da federação. Além
disso, manteve a obrigação de a legislação trabalhista proteger a saúde dos
trabalhadores, conforme artigo 137 do diploma legal, como se passa a ver:

Art. 137. A legislação do trabalho observará, além de outros, os seguintes


preceitos:
(...) l) assistencia medica e hygienica ao trabalhador e á gestante,
assegurado a esta, sem prejuizo do salário, um periodo de repouso antes e
depois do parto;
Art. 16. Compete privativamente á União o poder de legislar sobre as
seguintes materias:
(...) XXVII - normas fundamentaes da defesa e protecção da saude,
especialmente da saude da creança.

A Constituição de 1946 manteve a competência privativa da União para


legislar sobre saúde e garantiu de forma expressa o direito à vida, in verbis:

Art 5º - Compete à União:


(...) XV - legislar sobre:
(...) b) normas gerais de direito financeiro; de seguro e previdência social;
de defesa e proteção da saúde; e de regime penitenciário;
Art 141. - A Constituição assegura aos brasileiros e aos estrangeiros
residentes no País a inviolabilidade dos direitos concernentes à vida, à
liberdade, a segurança individual e à propriedade, nos termos seguintes (...)

Por fim, antes da promulgação da Constituição de 1988, a Constituição de


1967 mais uma vez manteve a competência privativa da União para legislar sobre
saúde, assegurando aos trabalhadores e às suas famílias, assistência sanitária,
hospitalar e médica preventiva, conforme artigo 158, caput, e inciso VX: “a
Constituição assegura aos trabalhadores os seguintes direitos, além de outros que,
nos termos da lei, visem à melhoria, de sua condição social: (...) assistência
sanitária, hospitalar e médica preventiva”.
Ocorre que, mais a frente, a Constituição de 1988 foi a primeira a conferir a
devida importância à saúde, tratando-a como direito fundamental, em sintonia com
as principais declarações internacionais de direitos humanos, adequando a norma
constitucional.
Assim, o referido diploma legal dispôs, em seu art. 6º, que: são direitos sociais
a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a
previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos
desamparados, na forma desta Constituição”. E não ficou por aí. No mesmo sentido,
16

o art. 196 da Constituição Federal, dispõe que “[...] o direito á saúde é um direito de
todos e um dever do Estado”.
Portanto, é dever da União Federal, Distrito Federal, Estados e Municípios
garantirem, de forma efetiva, o direito à saúde, concretizando o acesso universal de
todos a partir de ações positivas voltadas à promoção, proteção e recuperação.
Desta forma, todos os entes da Federação, cada qual no seu âmbito administrativo,
têm o dever de zelar pela adequada assistência à saúde aos cidadãos brasileiros,
conforme o artigo 23, inciso II da CF.
Buscando dá a efetividade ao o direito, foi criada a Lei n° 8.080/90, também
conhecida como Lei do SUS ou Lei Orgânica da Saúde, complementada pela Lei nº
8.142, de 28 de dezembro de 1990, que nada mais é do que a regulamentação do
arts. 196 e seguintes da Constituição Federal.
A Lei do SUS trata das condições para a promoção, proteção e recuperação
da saúde, bem como a organização e o funcionamento dos serviços
correspondentes e dá outras providências. Além disso, prevê, no caput do art. 4º,
que o SUS é um “conjunto de ações e serviços de saúde, prestado por órgãos e
instituições públicas, federais, estaduais e municipais, da administração direta e
indireta e das fundações mantidas pelo poder público” (BRASIL, 1990).
17

3. LIMITES PARA A CONCRETIZAÇÃO DO DIREITO À SAÚDE

O Direito à Saúde pode ser entendido como o conjunto de normas, sejam elas
constitucionais ou infraconstitucionais, reguladoras da atividade do poder público
destinada “a ordenar a proteção, promoção e recuperação da saúde e a organização
e o funcionamento dos serviços correspondentes a asseguradores desse direito”,
conceito este extraído da Lei nº 8.142, de 28 de dezembro de 1990, a chamada Lei
do SUS.
Segundo Lenza (2017), a saúde é um direito de todos e dever do Estado,
garantindo mediante politicas sociais e econômicas que visem à redução de risco de
doenças e agravos. No mesmo sentindo, Paulo e Alexandrino (2015) dispõe: “o
direito à saúde – além de qualificar-se como direito fundamental que assiste a todas
as pessoas – representa consequência constitucional indissociável do direito à vida”.
Portanto, o Estado deve de imediato, quando acionado, fornecer medidas que
assegurem a preservação, promoção e reabilitação da saúde, pois conforme ele
mesmo elegeu (o Estado) a saúde se caracteriza como direito fundamental social e
as normas que versem sobre isto tem aplicação imediata.
Sendo assim, o Poder Público, qualquer que seja a esfera institucional de sua
atuação no plano da organização federativa brasileira, não pode mostrar-se
indiferente ao problema da saúde da população, sob pena de incidir, ainda que por
omissão, em comportamento inconstitucional.
Ocorre que, o direito a saúde, como um direito social, exige disponibilidade
financeira do Estado para sua concretização, estando sujeito a observância de
alguns princípios limitadores, a exemplo da reserva do possível (VICENTE E
PAULO, 2015). Assim, “[...] o principio da reserve do possível regula a possibilidade
e a extensão da atuação estatal no que se refere à efetivação de alguns direitos
sociais e fundamentais, tais como o direito à saúde, condicionando a prestação do
Estado à existência de recursos públicos disponíveis” (SILVA, s.d., p. 26).
Feita essa breve consideração, que, absolutamente não esgota o tema, faz-se
necessário discutir os limites de concretização do direito sanitário, que, no presente
trabalho, demarca basicamente dois: a reserva do possível e princípio da separação
dos poderes.
18

3.1 RESERVA DO POSSÍVEL

A efetivação do direito fundamental à saúde, por óbvio, acarreta em


destinação de recursos materiais e humanos para a sua concretização e, por isso,
estão submetidos a uma reserva do possível.
Assim, Ana Paula de Barcellos, afirma que, de forma geral a expressão
reserva do possível visa “identificar o fenômeno econômico da limitação dos
recursos disponíveis diante das necessidades quase sempre infinitas a serem por
eles supridas”. Este conceito está relacionado com o pressuposto econômico de
desejos infinitos e recursos limitados, sendo “[...] preciso enfrentar a circunstância da
existência ou não de recursos disponíveis para atender às prestações positivas que
se concluiu que podem ser exigidas judicialmente” (BARCELLOS, 2008, p. 261).
A Reserva do Possível significa, portanto, as limitações orçamentárias que
mitigam o integral atendimento dos direitos sociais constitucionalmente
estabelecidos. A partir do argumento de escassez de recursos econômicos, há a
exigência de que essas demandas relacionadas à saúde sejam atendidas por meio
de planejamento governamental e triagem das prioridades mais relevantes, a fim de
se conceder o mínimo.
Nesse contexto, Ana Paula de Barcellos, ainda denomina duas espécies de
“fenômenos” sob o titulo da reserva do possível: reserva do possível fática e reserva
do possível jurídica. A primeira refere-se à inexistência fática de recursos, o que ela
denomina de algo próximo de “exaustão orçamentária”. Assim, a inexistência
absoluta de recursos descreveria situações em relação às quais se poderia falar de
reserva do possível. Já a reserva do possível jurídica refere-se à ausência de
autorização orçamentária para determinado gasto particular. (BARCELLOS, 2008, p.
262-263).
Para Fernando Facury Scaff (2011, p. 97), a reserva do possível é um
conceito econômico que expressa à escassez de recursos, que impõe a
necessidade de que sejam eleitas prioridades a partir da disponibilidade financeira,
sejam nas escolhas feitas pelo Estado, sejam nas escolhas feitas pelo indivíduo em
sua vida privada.
É justamente nesse momento de escolha das prioridades é que a reserva do
possível se entrelaça com o mínimo existencial, importante principio ligado à
dignidade da pessoa humana, de maneira que as limitações econômicas alegadas
19

pelo Estado não deveriam ser consideradas suficientes para a inércia do poder
público frente à garantia dos direitos mínimos, tal qual como é o direito fundamental
à saúde.
Na limitação dos gastos com a saúde, a Administração Pública tem o art. 165
e seguintes a seu favor. O referido artigo impõe que os gastos da Administração
Pública devem ser previstos no plano plurianual e desta, estariam sim limitados
previsões orçamentárias e o judiciário não poderia obrigar o ente público a
desobedecer à determinação imposta na Constituição.
Ocorre que, até a teoria da reserva do possível é limitada frente a outros
princípios basilares, uma vez que tal argumento não poderá sobrepor o direito a
vida, e uma vida com dignidade, proporcionando ao menos o “mínimo existencial”
para a sobrevivência do cidadão.
Vale ressaltar, por oportuno, que o mínimo existencial não visa, somente, a
proteção da existência e de uma vida como pura e simplesmente concebida, vai
muito além, haja vista que busca a proteção da vida com dignidade, onde a pessoa
portadora de direitos tenha garantido as mínimas condições sociais para se sentir
humano.
Segundo Torres (2001), a reserva do possível não se aplica ao mínimo
existencial, ou seja, aos direitos fundamentais sociais, e ainda acrescenta que houve
um desvirtuamento do conceito pela doutrina brasileira, que passou a considerar a
reserva do possível para a efetivação dos direitos fundamentais e do mínimo
existencial.
A jurisprudência pátria é pacifica ao afirmar que a reserva do possível não
pode ser invocada pelo Poder Público para se omitir ou dificultar a efetivação de
políticas públicas definidas na própria Constituição.
Neste interim, extrai-se o entendimento do Ministro Herman Benjamin do
Superior Tribunal de Justiça:

A reserva do possível não configura carta de alforria para o administrador


incompetente, relapso ou insensível à degradação da dignidade da pessoa
humana, já que é impensável que possa legitimar ou justificar a omissão
estatal capaz de matar o cidadão de fome ou por negação de apoio médico-
hospitalar. A escusa da "limitação de recursos orçamentários"
frequentemente não passa de biombo para esconder a opção do
administrador pelas suas prioridades particulares em vez daquelas
estatuídas na Constituição e nas leis, sobrepondo o interesse pessoal às
necessidades mais urgentes da coletividade. O absurdo e a aberração
orçamentários, por ultrapassarem e vilipendiarem os limites do razoável, as
20

fronteiras do bom-senso e até políticas públicas legisladas, são plenamente


sindicáveis pelo Judiciário, não compondo, em absoluto, a esfera da
discricionariedade do Administrador, nem indicando rompimento do princípio
da separação dos Poderes. (Resp. nº 1068.731. RS 2008/0137930-3 STJ.
Relator: Ministro Herman Benjamin. Julgado em 8/03/2012)

Desta forma, como bem esclarece Vicente e Alexandrino (2015), mesmo


diante das dificuldades financeiras no Estado (reserva do possível), não é afastado o
dever do Estado de garantir um mínimo necessário para a existência digna da
população. Alexandre de Moraes (2006), em sua obra de Direito Constitucional,
revela uma preocupação quanto à continuidade do serviço básico e essencial,
desempenhado pelo serviço público:

A atividade da Administração Pública é ininterrupta, e não se admite


paralisação nos serviços básicos, cujas funções são essenciais ou
necessárias a toda coletividade, como, por exemplo, os serviços de saúde,
justiça, segurança pública, transporte, entre outros. (MORAES, 2006, p.
127).

Neste sentido, Júlio César de Sá Rocha (1999 apud GÓIS, 2013, p. 12) afirma
que “consequentemente a discussão e a compreensão da saúde passa pela
afirmação da cidadania plena e pela aplicabilidade dos dispositivos garantidores dos
direitos sociais da Constituição Federal”.
Não se pode negar que, de fato, os recursos orçamentários do Estado são
limitados, porém, como já demonstrado, a teoria da reserva do possível não pode
ser usada como limitação à efetivação dos direitos e garantias fundamentais, uma
vez que mencionados direitos visam garantir a dignidade da pessoa. Por
conseguinte, ela não pode ser utilizada em decisões administrativas ou judiciais, as
quais devem levar em consideração o mérito em questão, a fundamentabilidade do
direito à saúde.
Ante a omissão do Estado ou a inefetividade no cumprimento do previsto
constitucional e infraconstitucional na área da saúde, é dada a possibilidade ao
cidadão que necessita de atendimento ou de medicamentos, promover ação judicial
para garantir a sua concretização.
É neste momento que o Estado invoca o princípio da separação dos poderes,
a fim de deslegitimar a atuação do poder judiciário na efetivação do direito a saúde.

3.2 SEPARAÇÃO DOS PODERES


21

O princípio da separação dos poderes no presente estudo vem à tona em


razão da interferência do Judiciário, quando provocado pelo particular, nas causas
relativas à efetivação do direito à saúde.
Assim, no momento em que o Poder Judiciário protege o direito à saúde
através da sua função jurisdicional, ele acaba por invadir a esfera administrativa,
que, a rigor, é de competência típica dos Poder Executivo, dada a sua função de
administrador da coisa pública. Para Silva, o Poder Executivo “[...] de modo geral,
que se trata de órgão constitucional (supremo) que tem por função a prática de atos
de chefia de estado, de governo e de administração” (SILVA, 2005, p. 542).
E não para por aí. Quando o judiciário interfere nas Escolhas do Estado nas
causas relativas à saúde, tem se, portanto, uma invasão, também, no Poder
Legislativo, uma vez que sua função típica é legislar e fiscalizar.
Nesse sentido, interessante citar Montesquieu a respeito da separação dos
poderes:
Quando, na mesma pessoa ou no mesmo corpo de magistratura, o poder
legislativo está reunido ao poder executivo, não existe liberdade; Porque se
pode temer que o mesmo monarca ou mesmo o senado crie leis tirânicas
para executá-las tiranicamente. Tampouco existe liberdade se o poder de
julgar não for separado do legislativo e do executivo. Se estivesse unido ao
poder legislativo, o poder sobre a vida e a liberdade dos cidadãos seria
arbitrário, pois o juiz seria legislador. Se estivesse unido ao poder executivo,
o juiz poderia ter a força de um opressor. Tudo estaria perdido se o mesmo
homem, ou um mesmo corpo dos principais, ou dos nobres, ou do povo,
exercesse os três poderes: o de fazer as leis, o de executar as resoluções
públicas, e o de julgar os crimes ou as querelas dos particulares.
(MONTESQUIEU,1748, tradução de Fernando Henrique Cardoso e Leôncio
Martins Rodrigues, Brasília: UnB, 1995, p.168).

Conforme Dallari (2005), Montesquieu, em 1748, na obra “O espírito das Leis”


(De L’EspritdesLois), elucida que a teoria da separação dos poderes nada mais é do
que um sistema em que se conjugam um legislativo, um executivo e um judiciário,
independentes e harmônicos entre si. Além disso, entende o autor, a execução dos
três poderes pelo mesmo homem ou o mesmo corpo dos principais, ou dos nobres,
ou do povo, colocaria tudo a perder.
A separação dos poderes no Brasil se encontra na Constituição da República
como cláusula pétrea no art. 2°: “São Poderes da União, independentes e
harmônicos entre si, o Legislativo, o Executivo e o Judiciário”.
22

Ocorre que, mesmo diante de um Estado com três poderes e cada um deles
possua sua função primordial, o Poder Judiciário tem relevante comportamento, a
fim de concretizar direitos fundamentais, uma vez que, ante a omissão do Estado ou
a inefetividade no cumprimento do previsto constitucional e infraconstitucional na
área da saúde, é dada a possibilidade ao cidadão que necessita de atendimento ou
de medicamentos, promover ação judicial para garantir a sua concretização, uma
vez que os direitos sociais são direitos subjetivos do indivíduo.
O inciso XXXV do artigo 5º da Constituição Federal dispõe que “a lei não
excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito”. A falta ou
deficiência dos serviços de saúde prestados pelo Estado, sem dúvida nenhuma,
ameaça o direito à vida e, em muitos casos, é capaz de produzir lesões de difícil ou
impossível reparação.
É legítima, portanto, dentro desta realidade fática, a intervenção jurisdicional
que visa a afastar lesão ou ameaça a esse direito, conforme já demonstrado acima.
À luz do princípio da separação dos poderes, as funções estatais são, a priori,
independentes. Porém, há interferência do Poder Judiciário no Poder Executivo no
momento em que este não cumpre seu papel de garantir as expectativas e
necessidades da sociedade, bem como os direitos fundamentais, ou seja, a
efetivação do direito à saúde.
23

4. A JUDICIALIZAÇÃO COMO MEIO PARA A EFETIVAÇÃO DO DIREITO


FUNDAMENTAL À SAÚDE

Inicialmente, deve-se se ressaltar, por oportuno, que a saúde deve ser


garantida mediante políticas sociais e públicas que possibilitem ações e serviços
para sua promoção, proteção e recuperação de forma justa e igualitária, uma vez
que, conforme elegida constitucionalmente, é um direito social fundamental.
Os Direitos Fundamentais objetivam assegurar a todos a oportunidade de
viver de forma digna, criando condições à plena realização do ser humano na
sociedade. Silva aponta que direitos fundamentais do homem são situações
jurídicas, objetivas e subjetivas, definidas no direito positivo, em prol da dignidade,
igualdade e liberdade da pessoa humana (2010, p. 183).
A Constituição da República Federativa do Brasil, no caput do seu art. 5º,
garante a todos os brasileiros e estrangeiros, sem distinção de qualquer natureza, à
inviolabilidade do direito à vida, sendo este direito primário, garantindo-se a essência
dos demais direitos e princípios constitucionais. De outra banda, à Constituição
consagra, no seu art.1º, inc.III, à dignidade da pessoa humana como principio basilar
e, como fundamento do Estado Democrático de Direito.
O direito à vida estabelecida no art. 5º da Constituição Federal e da dignidade
da pessoa humana tem como consequência à saúde. Falar do Direito à Vida, remete
a garantia ao acesso do Direito à Saúde. Sendo assim, deve ser prestado pelo
Estado no sentido de que este atue em favor do cidadão, com o objetivo de garantir
a sociedade melhores condições de vida.
Ocorre que, muito embora seja um direito constitucional e de aplicação
imediata, conforme estabelece o art. 5º, parágrafo 1º da CF/88, o Estado não supre,
de forma eficiente, com seu dever constitucional, o que vem ocasionando um
crescimento exponencial e desordenado das ações judiciais que envolvem a saúde.
Assim, quando o indivíduo não consegue ter o seu direito assegurado, pelas
normas estabelecidas nas leis e diretrizes do Poder Público, a única alternativa que
lhes restam é, tão somente, acionar o Poder Judiciário para concretizar o bem da
vida pretendido. O Estado quando se nega em prestar serviços básicos, diante do
argumento de escassez de recursos para a manutenção desses direitos
fundamentais, torna-se inevitável a intervenção do Judiciário.
24

4.1 JUDICIALIZAÇÃO DA SAÚDE

Segundo Barroso (texto digital, p. 3): “a judicialização, no contexto brasileiro,


é um fato, uma circunstância que decorre do modelo constitucional que se adotou, e
não um exercício deliberado da vontade política”.
O autor ainda destaca que: “judicialização significa que algumas questões de
larga repercussão política ou social estão sendo decididas por órgãos do Poder
Judiciário, e não pelas instâncias políticas tradicionais: o Congresso Nacional e o
Poder Executivo – em cujo âmbito se encontram o Presidente da República, seus
ministérios e a administração pública em geral” (BARROSO, texto digital, p. 2).
Dados no Conselho Nacional de Justiça informam que a entre 2007 e 2017,
498.715 processos de primeira instância distribuídos em 17 tribunais de justiça
estaduais, e 277.411 processos de segunda instância, distribuídos entre 15 tribunais
de justiça estaduais, registrando um aumento de 130%, conforme revela a pesquisa
“Judicialização da Saúde no Brasil: Perfil das demandas, causas e propostas de
solução”, um estudo elaborado pelo Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper) para o
Conselho Nacional de Justiça (CNJ) 2.
Tais dados se justificam, uma vez que qualquer cidadão deve ter acesso
direto ao Poder Judiciário para a concretização do direito à saúde, pois é direito
essencial, fundamental, e humano de todo a população.
De acordo com Moraes (2017, p. 165), a omissão do legislador nas
prestações positivas não pode preponderar sobre a existência da norma
constitucional, pois a Constituição traz um título dedicado aos direitos e garantias
fundamentais, os quais originam duas consequências: a subordinação à regra da
auto aplicabilidade e a suscetibilidade do ajuizamento do mandado de injunção,
sempre que existir omissão por parte do poder público.
Diante disso, o conflito entre o princípio da separação de poderes e a reserva
do possível frente ao direito fundamental de proteção à vida, forçoso considerar que
há valores que se sobrepõem a outros. Resta claro que, o bem jurídico de maior

2 CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA. Demandas judiciais relativas à


saúde crescem 130% em dez anos. Disponível em: <
http://www.cnj.jus.br/noticias/cnj/88612-demandas-judiciais-relativas-a-saude-
crescem-130-em-dez-anos>. Acesso em: 10 abr. 2019.
25

relevância a ser tutelado é a vida, que está assegurado no artigo 5º, caput, da
Constituição Federal.
Pode-se concluir, portanto, que a atuação judicial, consubstanciada no
Princípio da Inafastabilidade do Controle Jurisdicional, é legítima, já que tem por
missão proteger lesão ou ameaça a direitos, não se podendo invocar o Princípio da
Separação dos Poderes. Conforme já explanado, a autonomia e a independência
dos Poderes do Estado não são absolutas, sendo necessária a atuação típica do
Judiciário a fim de se evitar abuso de poder e promover o bem comum da
sociedade, isso tudo sem sair de sua égide de competência.
Assim, quando o judiciário atua, ele não legisla e tampouco toma as frentes à
função típica do executivo, ele, tão somente, garante, por meio de decisão judicial,
um direito fundamental que foi constitucionalmente elegido pelo próprio Estado, não
se podendo falar em interferência direta e sim de concretização daquilo que já é
previsto.

4.2 JUDICIALIZAÇÃO E OS CRITÉRIOS PARA FORNECIMENTO DE


MEDICAMENTOS

No que concerne ao fenômeno da judicialização, verifica-se um embate entre


o poder judiciário e os demais poderes do Estado, uma vez que assume contornos
mais graves quando o sistema se depara com decisões do Poder Judiciário
consideradas como ‘invasoras de subsistemas ou epitetadas como típicas decisões
que “judicializam a política”, como é o caso de sentenças emanadas pelos juízes e
tribunais brasileiros determinando a inclusão/criação de vagas em escolas públicas,
fornecimento de remédios com fundamento no art. 196 da Constituição (STRECK,
2004).
Em contrapartida, posiciona-se Barroso (2009), haja vista que a judicialização
significa que algumas questões de larga repercussão política ou social estão sendo
decididas por órgãos do Poder Judiciário, e não pelas instâncias políticas
tradicionais: o executivo e o legislativo. Portanto, envolve uma transferência de
poder para juízes e tribunais, com alterações significativas na linguagem, na
argumentação e no modo de participação da sociedade.
É neste momento que surge uma questão que não pode ser ignorada, é o da
prescrição de tratamento de alto custo, sem que se tenha certeza do êxito do
26

tratamento, que acaba por trazer gastos infindáveis ao erário público, que devem ser
evitados pelas decisões judiciais.
Visando definir limites para o fornecimento de medicamentos, a Primeira
Seção do Superior Tribunal de Justiça (STJ) em 25 de abril de 2018 concluiu o
julgamento no Recurso Especial 1.657.156, relatado pelo ministro Benedito
Gonçalves, que fixa requisitos para que o Poder Judiciário possa fornecer remédios
fora da lista do Sistema Único de Saúde (SUS).
A tese fixada estabelece que constitui obrigação do Estado o fornecimento de
medicamentos não incorporados em atos normativos do SUS, desde que comprove,
por meio de laudo médico fundamentado e circunstanciado expedido por médico que
assiste o paciente, da imprescindibilidade ou necessidade do medicamento, assim
como da ineficácia, para o tratamento da doença, dos medicamentos já fornecidos
pelo SUS, a hipossuficiência do paciente de arcar com o custo do medicamento
prescrito e existência de registro do medicamento na Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (Anvisa).
Assim, pela leitura da jurisprudência elencada, verifica ser plenamente
possível o deferimento de liminar para obrigar que os entes da federação forneçam
medicamentos, mesmo que eles estejam fora da lista do SUS, desde que haja o
preenchimento dos requisitos estipulados pelo Superior Tribunal de Justiça.
No entanto, há uma questão divergente sobre o tema, no caso, a exigência do
registro do medicamento na Anvisa. O STJ colocou como requisito para a concessão
do pleito de medicamento o registro na agência.
Assim, entende-se que o direito à saúde não será plenamente concretizado
sem que o Estado cumpra a obrigação de assegurar a qualidade das drogas
distribuídas aos indivíduos mediante rigoroso crivo científico, e posterior registro no
órgão competente.
27

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O Estado tem o dever de assegurar o Direito à Saúde a todos que dele


necessitarem, uma vez que importância da existência de garantia para a efetividade
do direito à saúde é indiscutível, buscando a construção de uma sociedade que
garanta o mínimo para que seu povo viva com dignidade, bem estar e a justiça
social.
O caráter de direito fundamental que foi atribuído à saúde, acarreta a
responsabilização direta de todo o sistema político, jurídico e administrativo do
Estado, haja vista que a saúde é um direito subjetivo e, sendo assim, deve ser
concretizado por meio de políticas públicas.
Sendo assim, o Poder Público, qualquer que seja a esfera institucional de sua
atuação no plano da organização federativa brasileira, seja União, Estados, Distrito
Federal e Municípios, não pode se mostrar indiferente ao problema da saúde da
população, sob pena de incidir, ainda que por omissão, em comportamento
inconstitucional.
A insuficiência e a omissão do serviço ofertado resultam na judicialização
excessiva do direito à saúde, tanto ensejo a atuação do Poder Judiciário Brasileiro.
No entanto, essa intervenção é, de fato, necessária.
Neste interim, a judicialização da saúde tem sido utilizada como garantia ao
cidadão da efetivação de tal direito. Ao largo de seus mais de trinta anos, a
Constituição da República Federativa do Brasil previu um rol de direitos sociais no
seu art. 6º, dentre eles a saúde. No entanto, não vem sendo concretizada pelo
Estado de forma satisfatória, de acordo com os anseios da população. Em razão
disso, há inúmeras demandas judiciais em busca de sua concretização.
Objetivando compreender tal realidade e de promover uma conclusão
convincente para o presente Trabalho de Conclusão de Curso, o primeiro capítulo
abordou os direitos sociais e a evolução do direito social à saúde ao longo da
história. Através dessa análise, pôde-se perceber a significativa evolução do direito à
saúde e como foi abordado de diferentes maneiras, de forma implícita ou expresso
nas Constituições outorgadas de 1824, 1937, 1967 e 1969, e nas Constituições
democráticas dos anos de 1891, 1934, 1946 e, por fim, a Constituição de 1988, que
elevou o direito a saúde ao rol de direito fundamental.
28

Em seguida, foram analisados os aspectos teóricos aplicáveis ao tema


proposto. Assim, foi possível afirmar que os dispositivos constitucionais, legais e
jurisprudenciais representam a carga necessária para legitimar o Poder Judiciário a
promover o direito à saúde sem observar os limites impostos pelo Estado, como, por
exemplo, a reserva do possível e a separação dos poderes, vez que o direito a
saúde protege algo maior, o direito a vida e, consequentemente, a dignidade da
pessoa humana, devendo o Estado garantir o mínimo existencial.
Por meio dessas análises pôde-se alcançar o objetivo específico do terceiro
capítulo, destinado a tratar do fenômeno da judicialização da saúde, meio judicial
que acaba transferindo para o Poder Judiciário responsabilidades, que, a rigor,
incumbem aos demais Poderes da República, ou seja, Poder Executivo e Poder
Legislativo.
Por fim, destacou-se os critérios para a distribuição de medicamentos, medida
imposta pelo próprio Poder Judiciário para conter excessos nos tratamentos de alto
custo, sem que se tenha certeza do êxito do tratamento, que acaba por trazer gastos
infindáveis ao erário público, que devem ser evitados pelas decisões judiciais.
Assim, procedimentos adotados através da intervenção do Poder Judiciário visam ao
cumprimento da tutela da saúde, de maneira que o Estado forneça os medicamentos
demandados judicialmente, mas que respeitem os critérios exigidos.
Desta forma, é preciso que a Sociedade e a comunidade jurídica avaliem o
assustador cenário, pois não se pode admitir uma judicialização sem limites, mesmo
que necessário. Além disso, não é razoável que o Judiciário seja um dos principais
responsáveis pela concretização do Direito à Saúde, porquanto tal papel é destinado
precipuamente ao Executivo, que também deve zelar pela aplicação adequada do
texto da Constituição e da legislação relacionada ao Direito à Saúde.
No entanto, em que pese às omissões do Estado, conclui-se que a população
não pode ficar a mercê das deficiências das más gestões publicas, que se mostram
incapazes de promover direitos que ele, o próprio Estado, elegeu como
fundamentais e, por isso, na colisão dos direitos à vida e à saúde com os princípios
da separação de poderes e da reserva do possível, prevalece o direito fundamental
à vida, uma vez que do Estado tem o dever de garantir um mínimo necessário para
a existência digna da população.
29

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