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A produção de mercadorias

por não-mercadoria
Gabriel Kraychete*

Resumo Abstract
Neste texto, busca-se entender a economia solidária em sua This paper attempts to understand the notion of solidary eco-
relação com a economia dos setores populares, tomando-se por nomy with regard to the economy of working class sectors using
referência as formulações de Francisco de Oliveira sobre o signi- as reference the formulations of Francisco de Oliveira on the
ficado do termo trabalho e a análise de Amartya Sen sobre com- meaning of the term work and the analysis of Amartya Sen on
portamento econômico e auto-interesse. Num país como o Bra- economic behaviour and self interest. This shows that in countri-
sil, que nunca experimentou o Welfare State europeu e onde um es such as Brazil, where there has been no welfare state and
grande contingente de trabalhadores sempre esteve fora das re- where a great number of workers have never known fixed salaried
lações de emprego assalariado regular, a transformação qualita- jobs, the struggle to qualitatively transform the economy of working
tiva da economia dos setores populares representa uma iniciati- class sectors reveals, among other things, that there is a resis-
va, ao lado de outras, no embate pela transformação do estatuto tance to any reworking of labour laws, thus making social rights
do trabalho, impondo direitos sociais como princípios regulado- the regulatory principles of the economy.
res da economia.
Key-words: work, labour, commerce, Solidary Economy, working
Palavras-chave: Trabalho, mercadoria, Economia Solidária, class economies.
economia dos setores populares.

A pesar de relativamente novo, o tema da Eco-


nomia Solidária vem adquirindo uma impor-
tância crescente no âmbito dos movimentos sociais
trabalho e renda, tendo, entre os seus traços carac-
terísticos, a gestão autônoma, participativa e de-
mocrática, o compromisso com a auto-sustentabili-
e motivando pesquisas e estudos comprometidos dade e a busca do desenvolvimento humano integral.
com o processo de transformação social. Apesar Estariam incluídas no campo da economia solidária
de tão “na moda” – e talvez por isso mesmo – o tema iniciativas como as associações de produtores, coo-
suscita várias controvérsias e indagações. A come- perativas, empresas autogestionárias, associações
çar pelo próprio nome. Existe uma diversidade de de crédito, os clubes de trocas e o chamado comér-
denominações para, supostamente, o mesmo fenô- cio justo. Os termos utilizados tanto refletem o es-
meno. Fala-se em economia solidária, economia forço de sistematização e elaboração teórica, como
popular, economia popular e solidária e socioeco- expressam as nossas utopias.
nomia solidária. Em geral, essas denominações re- Neste texto, busco entender a economia solidá-
ferem-se aos diferentes setores e formas de orga- ria, num país como o Brasil, em sua relação com o
nização coletiva de trabalhadores, de geração de que denomino de economia dos setores populares,
tomando por referência as formulações de Francis-
*
Gabriel Kraychete é professor titular da Universidade Católica do Salva- co de Oliveira sobre o significado do termo trabalho
dor. Coordenador do Programa Economia Popular vinculado ao Núcleo
de Estudos do Trabalho – UCSal. Assessor da Cooperação e Apoio a Pro-
e a análise de Amartya Sen sobre comportamento
jetos de Inspiração Alternativa (CAPINA). gabrielkr@uol.com.br econômico e auto-interesse.

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A PRODUÇÃO DE MERCADORIAS POR NÃO-MERCADORIA

A MERCANTILIZAÇÃO DA VIDA a toda a sociedade. Assim, além de produzir mer-


cadorias, o trabalho passou também a garantir a
Num seminário realizado na Universidade Cató- geração de um espaço de construção de antimer-
lica do Salvador, referindo-se à crise e às utopias do cadoria, pois um direito universal, assim como o ar,
trabalho, o professor Francisco de Oliveira inicia a não pode ter vigência como uma mercadoria.
sua conferência com a seguinte indagação: Quem É sintomático que a crítica neoliberal incida pre-
tem medo do trabalho? (OLIVEIRA, 2000). Após cisamente contra aquele ponto que universaliza os
apresentar o papel central do trabalho nas grandes direitos sociais. O ataque aos gastos sociais e ao
utopias da modernidade e discorrer sobre a dialéti- Estado de Bem-Estar, atuando em sinergia com os
ca do trabalho em Marx, o nosso processos advindos da base pro-
professor sustenta que a conquis- As lutas dos dutiva, cria novos procedimentos
ta dos direitos sociais resultante trabalhadores, recusando organizacionais do processo de
do conflito de classes no Século o estatuto de mercadoria trabalho, catalogados sob a etique-
XX significou a rejeição do estatu- da força de trabalho, ta da flexibilização. A operação em
to de mercadoria da força de tra- operaram uma curso tenta desvestir o trabalho do
balho. O que hoje assistimos, com transformação no estatuto estatuto de antimercadoria que foi
o ataque ao Estado de Bem-Estar, do trabalho, inscrevendo construído pelo conflito social –
é o movimento de reversão de tal os direitos sociais no este é o desafio maior. “O que
rejeição: nova etapa da dialética modo de produção do está em jogo é o que quer dizer
entre direito e mercadoria. capital. A instituição dos trabalho do ponto de vista civiliza-
As lutas dos trabalhadores, re- gastos sociais como bens tório, do ponto de vista da trans-
cusando o estatuto de mercadoria que não podem ser formação” (OLIVEIRA, 2000, p.81).
da força de trabalho, operaram vendidos no mercado, O discurso tão em moda da em-
uma transformação no estatuto do obrigou o Estado a pregabilidade e do empreendedo-
trabalho, inscrevendo os direitos universalizar aquilo que rismo possui a mesma lógica: ca-
sociais no modo de produção do estava estritamente beria agora ao próprio trabalhador
capital. A instituição dos gastos so- ligado ao trabalho. implantar o seu trabalho, tendo a
ciais como bens que não podem si próprio como sua melhor mer-
ser vendidos no mercado, obrigou o Estado a uni- cadoria. Por esses caminhos, pretende-se retornar
versalizar aquilo que estava estritamente ligado ao ao estágio em que o trabalho ficaria restrito à condi-
trabalho. ção exclusiva de mercadoria e, como se sabe, a mer-
A formação das instituições do Welfare State cadoria não tem direitos.
significou que as práticas das relações sociais ope- Este é o embate que vivemos agora, em que se
raram no sentido de desmercantilizar parcialmente busca transformar tudo em mercadoria: o trabalho,
a força de trabalho, evidenciando a finitude da forma a saúde, a previdência, a educação, a terra, a
mercadoria especificamente concebida pelo capita- água, o meio-ambiente...
lismo.1 Ressignificando o que quer dizer trabalho, as
A “mercantilização acelerada” de todas as esferas da vida
organizações dos trabalhadores apontaram para um significa “condicionar o acesso de todos os bens da vida ao
princípio da derrota da mercadoria: a construção impulso cego da acumulação de riqueza sob a forma mone-
de direitos sociais efetivos e universalizados. Não tária e abstrata, estreitando o espaço ocupado pelos critérios
diretamente sociais, derivados do mundo das necessidades”
apenas no sentido de uma declaração de boas in- (BELLUZZO, 2000).
tenções, mas no de ensejar a implantação de um
sistema de direitos e serviços de saúde, educação, É bom lembrar que a utopia do capital sempre foi
previdência, etc., extensivos, indiscriminadamente, de que a expansão dos mercados desregulados, por
si só, promoveria o desenvolvimento e a riqueza en-
1
O central em Marx não é o trabalho, mas a sua transformação em merca-
tre as nações. E qual foi o resultado desse modelo?
doria. A utopia do trabalho em Marx opera como uma negação dessa mer-
cadoria especificamente constituída no capitalismo (OLIVEIRA, 2000). Aumentou a polarização entre riqueza e pobreza,

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não apenas entre continentes, países e regiões, contra ela, destruindo e/ou precarizando os postos
mas no âmbito interno de cada um desses continen- de trabalho, gerando insegurança, produzindo de-
tes, países e regiões. Trata-se de um padrão de in- sigualdade e empobrecimento (RIFKIN,1995). A
vestimento e consumo que impõe estragos irreversí- tendência ao desemprego estrutural e as transfor-
veis ao meio-ambiente e descarta, como supérflua, mações na forma de trabalho que dominou o sécu-
parcelas crescentes da população mundial. lo XX – o trabalho assalariado organizado –, redefi-
nindo as possibilidades de trabalho para milhões
DA POBREZA SEM CAPITAL AO CAPITAL de pessoas, emergem como uma questão social
COM POBREZA premente. Ao contrário do que acalenta a utopia li-
beral, agora denominada de glo-
Numa conferência realizada no A restauração liberal balização, a identidade contraditó-
Museu de Arte de São Paulo, em dos últimos 25 anos ria e excludente do capitalismo re-
agosto de 1995, o historiador Eric produziu uma violenta vela-se cada vez mais parecida
Hobsbawm (1995) indaga por que e veloz concentração de com o retrato que dela foi feito no
tão poucos eventos dramáticos da riqueza nas mãos século XIX pela “crítica da econo-
história do mundo nestes últimos de um reduzido número mia política” de Marx (FIORI, 1997).
40 anos foram previstos ou mesmo de capitais privados. No Brasil, a partir da década de
esperados. Depois da Segunda 1990, a preocupação com o de-
Guerra Mundial, por exemplo, os economistas es- senvolvimento foi substituída pela
peravam uma depressão e não os “trinta gloriosos velha convicção de que o crescimento das regiões
anos” de grande crescimento. O que aconteceu foi, atrasadas exigia a adesão ao livre-comércio e a es-
na maior parte das vezes, inesperado, provocando tabilização dos preços pela via dos mercados des-
surpresas e decepções. Onde havia desemprego regulados, globalizados e competitivos. Nesse pro-
em massa no mundo desenvolvido na década de jeto econômico fica implícito que não há lugar para
1960? Nos “anos dourados” desse “curto século todos. Uma década depois de iniciado o desmonte
XX” parecia não haver abalos nas economias dos do desenvolvimentismo, o balanço – considerando
países do norte industrializado, que desfrutavam os efeitos para a vida cotidiana da população – é
do pleno emprego com níveis de consumo e de claro e pouco promissor.2
renda real crescentes. A seguridade social garantia O Brasil nunca conheceu os índices de assalaria-
os rendimentos necessários aos então poucos de- mento das economias capitalistas centrais (superio-
sempregados. res a 90%) nem, tampouco, experimentou a rede
A restauração liberal dos últimos 25 anos produ- de proteção social típica ao Welfare State. Aqui, o
ziu uma violenta e veloz concentração de riqueza emprego regular assalariado nunca foi uma pers-
nas mãos de um reduzido número de capitais pri- pectiva realista para um grande contingente de tra-
vados. As idéias de eficiência, competitividade e balhadores e, nos tempos que correm, torna-se
equilíbrios macroeconômicos substituíram o con- uma possibilidade cada vez mais remota. Às pes-
senso keynesiano em torno do crescimento e do soas que sempre viveram de ocupações fora do
pleno emprego e passaram a ser os novos totens mercado regular assalariado soma-se um novo
do pensamento político-econômico internacional contingente, composto pelos trabalhadores expul-
(FIORI, 1997). sos do emprego e pelas pessoas que ingressam no
Nesta aurora do século XXI – diferentemente dos mercado de trabalho a cada ano. Diferentemente
“anos dourados”, embalados pelo Welfare State no do que ocorreu durante o período desenvolvimen-
centro e pelo desenvolvimentismo em algumas pe- tista, a força de trabalho no Brasil está se deslocan-
riferias – o circulo virtuoso entre crescimento eco- 2
A Argentina transformou-se num emblema e num alerta para todo o
nômico e integração social foi desfeito. A economia continente. Mas a atual crise argentina mostra que o risco não é ficarmos
já não cresce junto com a sociedade (emprego, se- em situação semelhante. Ao contrário: é a Argentina que experimenta
agora, perplexa, uma inusitada situação de pobreza, miséria e violência
gurança, renda e um mínimo de equidade) mas com a qual já estamos “acostumados” há muito tempo.

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do do pólo dinâmico e moderno para outras formas Antes, porque ainda não haviam sido integradas à
de inserção, precarizadas e que trazem menores expansão das relações de assalariamento e, ago-
rendimentos ou, então, simplesmente, para o de- ra, porque tendem a crescer com a própria expan-
semprego aberto. são dos setores modernos. Por sua magnitude e
O aumento do desemprego e do tempo médio caráter estrutural, o crescimento dessas formas de
em que o trabalhador permanece desempregado, trabalho já não pode ser explicado como um fenô-
somado ao desassalariamento e ao crescimento meno residual, transitório ou conjuntural. Em ou-
dos trabalhadores sem registro e das ocupações tras palavras, não se trata de um contingente que,
por conta própria, empurra parcelas cada vez maio- algum dia, será engatado ao processo de cresci-
res da população para formas al- mento proporcionado pelos inves-
ternativas de ocupações, colocan- O aumento do timentos no setor moderno, mas
do novos problemas para um mer- desemprego e do tempo da presença de um futuro a ser re-
cado de trabalho historicamente médio em que o criado em escala ampliada.
desigual e excludente. Parece que trabalhador permanece Face às possibilidades cada
os donos do poder desistiram de desempregado, somado vez mais distantes do emprego re-
integrar parcelas crescentes da ao desassalariamento gular assalariado, uma certa vi-
população seja à produção, seja à e ao crescimento dos são, compatível com a crença ul-
cidadania. Como indica Francisco trabalhadores sem registro traliberal, propõe aos desgarrados
de Oliveira, não se trata de uma e das ocupações por conta do mercado formal de trabalho
irrealizável exclusão do mercado, própria, empurra parcelas que adquiram uma tal de “empre-
porque dele, em alguma medida, cada vez maiores da gabilidade”; que montem os seus
ninguém escapa, mas de uma ne- população para formas próprios empreendimentos, trans-
gação e de uma exclusão do cam- alternativas de ocupações. formando-se em empresários de
po de direitos. si mesmos.
No Brasil, até os anos 1970, predominava a vi- Contrastando com o discurso do empreendedo-
são que explicava a pobreza, sobretudo a pobreza rismo, os dados preliminares da pesquisa que reali-
urbana, como algo residual ou transitório a ser su- zamos na Península de Itapagipe3 sobre o trabalho
perado pelo desenvolvimento industrial. Desse por conta própria revela uma realidade marcada
ponto de vista, não haveria razão para se perder pela precariedade. Ao invés de um espaço que
tempo discutindo-se a situação das pessoas não- viabilize e estimule o desenvolvimento de próspe-
integradas ao mercado formal de trabalho. Confor- ros empreendedores como alternativa ao emprego
me essa visão, o futuro era o capital e todos cres- regular, as atividades caraterísticas do trabalho por
ceríamos juntos. conta própria aí encontradas, tais como existem
Do ponto de vista da esquerda, também não ha- hoje, são o lugar onde, mal e precariamente, vai
via razões para se ocupar com as pessoas não in- ocorrendo a reprodução da vida de parcelas cres-
tegradas às relações de trabalho tipicamente capi- centes da população, num quadro marcado pela
talistas. O futuro era o socialismo e o que contava destruição e escassez dos postos formais de traba-
era a luta sindical. Hoje, cresce implacavelmente o lho. Configura-se um circuito de pobre trabalhando
número de trabalhadores que não são nem mesmo para pobre, em que 47% possuem uma renda men-
passíveis de sindicalização. Nesses termos, pare- sal de, no máximo, até R$100,00. Em termos objeti-
ce que, dentre as esperanças do desenvolvimento vos, a condição da sobrevivência dessas pessoas é a
capitalista e da revolução socialista, sobrou um deterioração da sua qualidade de vida.
contingente de trabalhadores num “circuito inferior 3 Pesquisa sobre os empreendimentos econômicos populares, realizada
da economia” (SANTOS, 1978), que ficou como um em março de 2001, nos bairros mais densamente povoados da Península
de Itapagipe, em Salvador. A pesquisa foi promovida pela Comissão de
elo perdido. Articulação dos Moradores da Península de Itapagipe (CAMPI), em par-
Trata-se, portanto, de modalidades de trabalho ceria com a Universidade Católica do Salvador e com a Cooperação e
Apoio a Projetos de Inspiração Alternativa (CAPINA), contando com apoio
que permaneceram no limbo das relações sociais. da Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE).

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O desemprego foi o principal motivo para os en- malizadas ou não, a exemplo das cooperativas,
trevistados trabalharem por conta própria (mais de empresas autogestionárias, oficinas de produção
56%). Entretanto, quando indagados sobre os seus associada, centrais de comercialização de agricul-
planos para o futuro, quase 37% responderam que tores familiares, associações de artesãos, escolas
pretendem ampliar o negócio e, 18%, que preten- e projetos de educação e formação de trabalhado-
dem permanecer como estão. Ou seja, entre o dra- res, organizações de microcrédito, fundos rotati-
ma do desemprego e os planos para o futuro as vos, clubes de troca, etc. Essa designação, portan-
pessoas acalentam o sonho de ampliação do pró- to, pretende expressar um conjunto de atividades
prio negócio. Planos de quem sabe, porque sente heterogêneas, sem idealizar, a priori, os diferentes
isso na luta cotidiana pela vida, valores e práticas que lhe são
que são cada vez mais fugidias as Não se pode dizer que concernentes. Não se pode dizer
esperanças de um emprego regu- esse mundo da economia que esse mundo da economia
lar assalariado. dos setores populares dos setores populares seja, em si
Num país como o Brasil, é pre- seja, em si mesmo, um mesmo, um mundo de valores
ciso indagar sobre a situação de mundo de valores positivos, o mundo da solidarie-
milhões de pessoas que vivem do positivos, o mundo da dade. Não, ele não é assim, mes-
trabalho realizado de forma indivi- solidariedade. Não, ele não mo porque, em parte, é resultado
dual ou familiar. Se o discurso fan- é assim, mesmo porque, de uma subordinação cultural,
tasioso da empregabilidade está em parte, é resultado de desenvolvendo-se no interior do
descartado, o futuro dessas pes- uma subordinação sistema capitalista.
soas, agora, seria a economia soli- cultural, desenvolvendo-se Como entender a racionalida-
dária? Qual a interação entre a rea- no interior do sistema de dessa economia dos setores
lidade do trabalho dessas pessoas capitalista. populares? Um artesão, uma mu-
e a luta histórica dos trabalhadores lher que vende alimentos ou os
pela transformação do estatuto do trabalho? Qual o integrantes de uma associação ou cooperativa es-
significado dos empreendimentos associativos e tão em pleno mundo do mercado, das trocas e do
dos princípios que compõem a economia solidária? cálculo econômico, por mais simples e modestos
Devem ser entendidos como um fim ou como um que sejam esses cálculos. Mas, conforme Braudel
meio da prática social transformadora? (1985; 1996), economia de mercado e capitalismo
Sobre essas questões, penso que pode ser útil não são a mesma coisa.4 Sem o mercado – esse lu-
situar o entendimento da economia solidária em gar das trocas dos resultados dos trabalhos huma-
sua relação com o que denomino de economia dos nos – não haveria economia no sentido corrente da
setores populares. palavra, mas uma vida fechada na auto-suficiência.
Nesses termos, pode-se dizer que a economia dos
ECONOMIA DOS SETORES POPULARES setores populares situa-se nos interstícios dessa
economia de mercado, envolvendo um conjunto de
Designo por economia dos setores populares as atividades que ocorre como uma iniciativa direta da
atividades que, diferentemente da empresa capita- população tendo em vista a sua reprodução, inde-
lista, possuem uma racionalidade econômica anco- pendentemente do seu caráter de força de trabalho
rada na geração de recursos (monetários ou não) para o capital (CORAGGIO, 1994). Ou seja, as con-
destinados a prover e repor os meios de vida e na dições de trabalho necessárias à reprodução da vida
utilização de recursos humanos próprios, agregan- de parcelas crescentes da população não vêm sen-
do, portanto, unidades de trabalho e não de inver-
4
são de capital. No âmbito dessa economia dos se- Para Braudel, o mercado não seria o signo do capitalismo. O verdadeiro
lar do capitalismo residiria numa camada superior da hierarquia do mundo
tores populares convivem tanto as atividades rea- dos negócios. Como indica Wallerstein (1987), Braudel reformula a relação
lizadas de forma individual ou familiar como as entre mercado e monopólio, atribuindo ao monopólio o papel de elemento-
chave do sistema capitalista. O que caracterizaria o jogo superior da econo-
diferentes modalidades de trabalho associativo, for- mia seria a possibilidade do capital transitar de um monopólio para outro.

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do proporcionadas nem pelo mercado capitalista Nas cidades, os empreendimentos associativos


de trabalho nem pelas cada vez mais restritas ações enfrentam condições bem mais adversas para se
compensatórias do Estado. desenvolver. Entretanto, seja no meio urbano ou
Diferentemente da empresa capitalista, que des- rural, é comum a situação em que os empreendi-
loca trabalhadores e fecha oportunidades de traba- mentos associativos apresentam viabilidade do
lho, a racionalidade econômica dos empreendimen- ponto vista estritamente econômico, mas se depa-
tos populares está subordinada à lógica da “repro- ram com dificuldades irreversíveis porque as ques-
dução da vida da unidade familiar” (CORAGGIO, tões associativas não foram devidamente equacio-
1998). Ao contrário das empresas que – na busca nadas. E o grande desafio enfrentado pelos grupos
do lucro, da competitividade e da populares que se dedicam a algu-
produtividade – dispensam mão- Apesar de toda a ma atividade econômica é exata-
de-obra, os “empreendimentos po- fragilidade, apesar de mente essa busca da eficiência
pulares” não podem dispensar os toda a precariedade, e através de processos democráti-
filhos, filhas, cônjuges ou idosos para além das utopias, cos e solidários.
que gravitam no seu entorno. imprecisões e debates Em outras palavras, os empre-
Para os empreendimentos po- conceituais, essa endimentos associativos, quando
pulares, por exemplo, a perda do economia dos setores observados de perto, quase sem-
emprego de um dos membros da populares vem garantindo pre apresentam grandes dificulda-
família tende a ser absorvida como a reprodução da vida des e fragilidades. Muitas vezes a
um “custo” adicional para o pró- de parcelas crescentes sua existência depende da pre-
prio negócio. Ou seja, como a fa- da população. sença ou do apoio de uma única
mília não pode “dispensar” os seus pessoa ou instituição, o que leva
membros, os recursos que seriam destinados ao em- ao risco de recriar, no interior do grupo, relações
preendimento são redirecionados para as despesas que reforcem antigos e novos laços de dependên-
básicas do consumo familiar, mesmo que compro- cia Mas em outras circunstâncias lamenta-se exata-
metendo o “capital de giro” ou a “lucratividade” do mente a ausência de alguma pessoa ou instituição
empreendimento. que auxilie no atendimento de alguma necessidade
O que seria um comportamento irracional ou básica, difícil de ser encaminhada pelo grupo sozi-
ineficiente, sob a lógica da acumulação do capital, nho. E não poderia ser de outra forma: uma mudan-
assume um outro significado para os empreendi- ça de qualidade da economia dos setores populares
mentos populares. No caso dos empreendimentos depende de aportes econômicos e sociais que não
populares, é impossível separar as atividades de são reproduzíveis atualmente no seu interior e que
produção e comercialização de bens e serviços das limitam o seu desenvolvimento. Essa transforma-
circunstâncias de reprodução da vida da unidade fa- ção transcende os aspectos estritamente econômi-
miliar dessas pessoas. Ou seja, há uma “solidarie- cos, requerendo uma ação convergente e comple-
dade”, que seria irracional do ponto de vista da em- mentar de múltiplos atores e iniciativas nos campos
presa, mas que tem efetivo sentido do ponto de vista político, econômico, social e tecnológico, envolven-
da reprodução da vida daquela unidade familiar. do ONGs, sindicatos, igrejas, universidades, ór-
Atualmente, esta economia dos setores popula- gãos governamentais, etc.
res – seja sob a forma do trabalho individual ou fa- Entretanto, apesar de toda a fragilidade, apesar
miliar, seja através das diferentes modalidades de de toda a precariedade, e para além das utopias,
trabalho associativo – existe apenas de forma dis- imprecisões e debates conceituais, essa economia
persa e fragmentada. Em seu conjunto, ela é mar- dos setores populares vem garantindo a reprodu-
cada pela precariedade: trabalho precário, moradia ção da vida de parcelas crescentes da população.
precária, consumo precário... Sobretudo quando ob- Num país como o Brasil, que nunca experimentou
servamos o trabalho por conta própria nos espaços o Welfare State europeu e onde um grande contin-
urbanos. gente de trabalhadores sempre esteve fora do em-

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prego regular, a luta por uma transformação quali- Sen lembra ainda que o comportamento humano é
tativa da economia dos setores populares5 inscre- regido por uma pluralidade de motivações e não
ve-se no embate mais amplo pela transformação apenas pelo egoísmo ou auto-interesse:6 “o egoís-
do trabalho: do estatuto de carência para o estatuto mo universal como uma realidade pode muito bem
político de produtor e produto da cidadania. Repre- ser falso, mas o egoísmo universal como um requi-
senta, portanto, uma forma de resistência, ao lado sito da racionalidade é patentemente um absurdo”
de outras, no itinerário pela desmercantilização da (SEN, 1999, p.32). Amartya Sen aponta essa visão
força de trabalho. Nesses termos, a mudança de estreita sobre os seres humanos como uma das
qualidade dessa economia dos setores populares principais deficiências da teoria econômica con-
aponta para a produção de mercadorias pelo traba- temporânea, um empobrecimento que demonstra o
lho que não se reduz à “penosidade da existência” quanto a economia moderna se distanciou da ética.
(BOAVENTURA, 1999), mas que se realiza como Talvez o restabelecimento dessa junção permita
uma “não-mercadoria” (OLIVEIRA, 2000) vislumbrar novas perspectivas teóricas e práticas
Penso que é no âmbito desse conjunto maior concernentes à economia dos setores populares e
que também é possível antever, num país como o instigue uma redescoberta cidadã do trabalho.
Brasil, as potencialidades transformadoras dos em- Neste passo, entretanto, convém observar que o
preendimentos associativos e as expectativas em pensamento ultraliberal já começa a incorporar e a
relação à economia solidária, não como um fim em retraduzir o discurso da economia solidária, trans-
si mesmo, mas convergindo com outras iniciativas, formando-o numa miragem: enquanto o capital
antigas e novas, suscitadas pela prática social desfruta da complacência, auxílio e liberalidades do
transformadora. Estado, as chamadas políticas de combate à po-
Mas ainda resta uma questão: é possível juntar breza já começam a embalar, com o novo “selo da
economia com solidariedade? A opinião corrente é solidariedade”, as conhecidas medidas acessórias
que essa seria uma tentativa de juntar coisas que destinadas a aliviar, pontual e residualmente, os
se repelem, que se opõem. A economia seria o efeitos dos mecanismos geradores da miséria. Em
mundo da competição, da concorrência e da guerra outras palavras, conferem-se ao capital a posse e
de todos contra todos. O comportamento econômi- o gozo dos recursos públicos, mantém-se inaltera-
co e racional seria aquele movido pelo egoísmo, da a regressividade do sistema tributário, subtra-
pelo auto-interesse. Um trecho de Adam Smith, ci- em-se do trabalho os direitos sociais – reduzindo
tado à exaustão, reflete esta crença da economia a força de trabalho à condição de uma mercadoria
tradicional: como outra qualquer – e reservam-se as sobras
do banquete para mitigar a pobreza... solidaria-
Não é da benevolência do padeiro ou do açougueiro que es-
peramos o nosso jantar, mas sim da consideração que eles mente. E dessa forma, como num passe de mági-
têm pelo seu próprio interesse. Apelamos não à sua humani- ca, somos todos solidários, sem conflitos e ten-
dade mas ao seu auto-interesse, e nunca lhes falamos das sões sociais e, se Deus quiser, até mesmo sem
nossas próprias necessidades, mas das vantagens que ad-
virão para eles (SMITH, 1983, p.50).
classes sociais.
Dito isto, deve estar claro que não se trata de
Sen (1999), ganhador do Prêmio Nobel de Eco- conceber ações e políticas públicas direcionadas à
nomia, critica o que seria uma interpretação errô- economia dos setores populares como coisa feita
nea de Smith, observando que comentários desse para pobre, pequenininha, precária ou compensa-
autor sobre a miséria e o papel das considerações tória, mas como transformações que pressupõem
éticas no comportamento humano, contidas em ou- uma luta cultural, em que a sociedade imponha di-
tras partes dos seus escritos, foram relegadas ao reitos sociais como princípios reguladores da eco-
esquecimento à medida que a própria considera-
ção da ética caiu em desuso na economia. Amartya 6
Amartya Sen (2000) afirma a importância dos empreendimentos econô-
micos associativos como fator de mudanças sociais, não apenas em ter-
5
Ou a transição para o que Coraggio denomina de “economia do traba- mos de benefícios econômicos, mas no modo de pensar das pessoas
lho” (CORAGGIO, 2000). envolvidas.

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A PRODUÇÃO DE MERCADORIAS POR NÃO-MERCADORIA

nomia.7 A cultura é aqui entendida não como o mun- GAIGER, L. Sentidos e possibilidades da economia solidária
hoje. In: KRAYCHETE, G. (Org.). Economia dos setores popula-
do da leitura, das idéias, das letras ou das artes,
res: entre a realidade e a utopia. Petrópolis: Vozes; Rio de Janei-
mas como aquilo que deve ser reposto, dia a dia: a ro: Capina; Salvador: CESE: UCSAL, 2000.
sustentação da vida, a decifração do mundo e as
GAIGER, L. A economia solidária diante do modo de produção
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devem ser vividos, recriados e repostos a cada dia
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luta cultural, não há como fazê-lo sem que se abar-
KRAYCHETE, G. (Org.). Economia dos setores populares: entre
que o econômico e o político – e é nesse embate
a realidade e a utopia. Petrópolis: Vozes; Rio de Janeiro: Capina;
que se situam as possibilidades e os desafios da Salvador: CESE: UCSAL, 2000.
economia dos setores populares.
LARA, F. Economia solidária: retomando uma discussão. Pales-
7
tra realizada no Centro de Estatística Religiosa e Investigações
Ou seja, se depender da suave benevolência que reconforta e adocica
as ações das nossas elites, essa economia dos setores populares estará Sociais - CERIS, Rio de Janeiro, 30 nov. 2000. (mimeo).
inapelavelmente condenada, desde hoje e para sempre, a viver nas fran-
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